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APG - SOI III
AFYAAFYA
Júlia Morbeck
@med.morbeck
PARTE 1
1
Júlia Morbeck – @med.morbeck
Objetivos
1- Rever a morfofisiologia do sistema
cardiovascular;
2- Discutir como ocorre a regulação do sistema
cardiovascular;
• Mecanismos hormonais e neurológicos.
Morfofisiologia do sistema cardiovascular
Localização
↠ Do tamanho de uma mão fechada, o coração, oco,
em forma de cone, tem uma massa entre 250 e 350
gramas (MARIEB, 3ª ed.).
↠ Alojado dentro do mediastino, a cavidade medial do
tórax, o coração se estende obliquamente por 12 a 14 cm,
da segunda costela ao quinto espaço intercostal (MARIEB,
3ª ed.).
↠ Como repousa sobre a superfície superior do
diafragma, o coração se situa anteriormente à coluna
vertebral e posteriormente ao esterno. Os pulmões
flanqueiam o coração lateralmente e o ocultam de modo
parcial. Cerca de dois terços de sua massa situam-se à
esquerda da linha esternal; o restante se projeta para a
direita (MARIEB, 3ª ed.).
↠ O ápice pontiagudo é formado pela ponta do
ventrículo esquerdo (a câmara inferior do coração) e está
situado sobre o diafragma. O ápice está direcionado para
frente, para baixo e para a esquerda; (TORTORA, 14ª ed.)
↠ A base do coração está do lado oposto ao ápice e
constitui sua face posterior. É formada pelos átrios
(câmaras superiores) do coração, principalmente o átrio
esquerdo. (TORTORA, 14ª ed.)
Se você pressionar seus dedos entre a quinta e a sexta costela logo
abaixo do mamilo esquerdo, você pode facilmente sentir seu coração
batendo, onde o ápice faz contato com a parede torácica. Portanto,
este local é chamado de ponto de máxima intensidade (PMI) (MARIEB,
3ª ed.).
Envoltórios do coração
↠ O coração está envolvido por um saco de parede
dupla chamado de pericárdio (peri = ao redor, cardi =
coração) (MARIEB, 3ª ed.).
↠ A parte superficial frouxamente ajustada desse saco é
o pericárdio fibroso. Esta forte camada de tecido
conjuntivo denso protege o coração, ancora às
estruturas que o rodeiam e impede o enchimento
excessivo do coração com sangue (MARIEB, 3ª ed.).
O pericárdio fibroso próximo ao ápice do coração está parcialmente
fundido ao tendão central do diafragma; por conseguinte, o
movimento do diafragma, como na respiração profunda, facilita a
circulação do sangue pelo coração. (TORTORA, 14ª ed.)
↠ Abaixo do pericárdio fibroso está o pericárdio seroso,
uma membrana de duas camadas, fina, escorregadia e
serosa (MARIEB, 3ª ed.).
↠ Sua lâmina parietal reveste a superfície interna do
pericárdio fibroso. Na margem superior do coração, a
lâmina parietal se liga às grandes artérias que saem dele
e se dobra inferiormente, continuando até a superfície
externa do coração como a lâmina visceral, também
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chamada de epicárdio ("sobre o coração"), o qual é parte
integrante da parede cardíaca (MARIEB, 3ª ed.).
↠ Entre as camadas parietal e visceral, está a cavidade
pericárdica, em forma de fenda, a qual contém uma
película de líquido seroso. As membranas serosas, lubrificadas
pelo líquido, deslizam suavemente umas sobre as outras durante a
atividade cardíaca, permitindo que o coração funcione em um meio
relativamente livre de atrito (MARIEB, 3ª ed.).
Camadas da parede cardíaca
↠ A parede do coração é constituída por três camadas:
(TORTORA, 14ª ed.).
➢ o epicárdio (camada externa);
➢ o miocárdio (camada intermediária);
➢ o endocárdio (camada interna).
↠ A camada superficial é o epicárdio, a lâmina visceral do
pericárdio seroso. Ele com frequência é infiltrado com
gordura, especialmente em pessoas idosas (MARIEB, 3ª
ed.).
O tecido adiposo predomina e torna-se mais espesso sobre as faces
ventriculares, onde abriga as principais artérias coronárias e vasos
cardíacos. O epicárdio confere uma textura lisa e escorregadia à face
mais externa do coração. O epicárdio contém vasos sanguíneos, vasos
linfáticos e vasos que irrigam o miocárdio (TORTORA, 14ª ed.).
↠ A camada intermediária, o miocárdio ("músculo
cardíaco"), é composta principalmente por músculo
cardíaco e forma a massa do coração. a camada que
contrai. Nela as células musculares cardíacas ramificadas
são interdigitadas umas às outras por entrecruzamento
de fibras de tecido conjuntivo e arranjadas em feixes
espirais ou circulares (MARIEB, 3ª ed.).
As fibras de tecido conjuntivo formam uma rede densa, o esqueleto fibroso do
coração, que reforça o miocárdio internamente e ancora as fibras musculares
cardíacas. Essa rede de fibras de colágeno e elastina é mais espessa em
algumas áreas do que em outras. Por exemplo, ela constrói anéis, semelhantes
a cordas, que fornecem suporte adicional onde os grandes vasos deixam o
coração e em torno das valvas. Sem esse suporte, os vasos e as valvas podem
acabar se estirando, devido ao contínuo estresse do sangue pulsando através
deles. Além disso, como o tecido conjuntivo não é eletricamente excitável, o
esqueleto fibroso limita a propagação direta dos potenciais de ação pelo
coração a vias específicas (MARIEB, 3ª ed.).
↠ O endocárdio mais interno é uma fina camada de
endotélio que recobre uma fina camada de tecido
conjuntivo. Fornece um revestimento liso para as
câmaras do coração e abrange as valvas cardíacas. O
revestimento endotelial liso minimiza o atrito de superfície
conforme o sangue passa através do coração. O
endocárdio é contínuo ao revestimento endotelial dos
grandes vasos sanguíneos ligados ao coração
(TORTORA, 14ª ed.).
Câmaras, valvas cardíacas e grandes vasos associados
↠ O coração tem quatro câmaras – dois átrios,
superiores (câmara de recepção), e dois ventrículos,
inferiores (câmara de bombeamento). A repartição
interna que divide o coração longitudinalmente é chamada
de septo interatrial onde separa os átrios e de septo
interventricular onde separa os ventrículos (MARIEB, 3ª
ed.).
↠ O ventrículo direito forma a maior parte da superfície
anterior do coração. O ventrículo esquerdo predomina na
superfície ínfero-posterior do coração e forma o seu
ápice do coração (MARIEB, 3ª ed.).
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Na superfície do coração existem vários sulcos, que contêm vasos
sanguíneos coronarianos e uma quantidade variável de gordura. Cada
sulco marca a fronteira externa entre duas câmaras do coração. Os
sulcos são: profundo sulco coronário, sulco interventricular anterior,
sulco interventricular posterior (TORTORA, 14ª ed.)
ÁTRIOS: AS CÂMARAS RECEPTORAS
Na face anterior de cada átrio existe uma estrutura saculiforme
enrugada chamada aurícula. Cada aurícula aumenta discretamente a
capacidade de um átrio, de modo que ele possa conter maior volume
de sangue. (TORTORA, 14ª ed.)
↠ Internamente, o átrio direito tem duas partes básicas:
uma parte posterior de parede lisa e uma porção anterior
na qual as paredes são cortadas por feixes de músculos.
Como esses músculos são parecidos com dentes de um
pente, eles são chamados de músculos pectíneos
(pectina = pente). As regiões anterior e posterior do átrio
direito são separadas por uma saliência em forma de C
chamada de crista terminal (MARIEB, 3ª ed.).
↠ Em contraste, o átrio esquerdo é predominantemente
liso e internamente indistinguível (MARIEB, 3ª ed.).
O septo interatrial delimita uma depressão rasa, a fossa oval, que marca
o ponto onde havia uma abertura no coração fetal, o forame oval do
coração (MARIEB, 3ª ed.).
↠ Os átrios são câmaras relativamente pequenas, de
paredes finas, uma vez que necessitam contrair apenas
minimamente para empurrar o sangue para os
ventrículos. Via de regra, eles contribuem pouco para a
atividade de bomba propulsora do coração (MARIEB, 3ª
ed.).
↠ O sangue entra no átrio direito por três veias:
(MARIEB, 3ª ed.).
➢ a veia cava superior traz o sangue das regiões
do corpo superiores ao diafragma;
➢ a veia cava inferiorcontidas nas pílulas
anticoncepcionais orais causam retenção de sódio
(PORTH, 10ª ed.).
↠ Felizmente, a hipertensão associada aos
anticoncepcionais orais normalmente desaparece após a
descontinuação do medicamento, ainda que isso possa
demorar 3 meses (PORTH, 10ª ed.).
Manifestações Clínicas da HAS
↠ A hipertensão primária é tipicamente um distúrbio
assintomático. Os sintomas, quando ocorrem,
frequentemente estão relacionados aos efeitos da
hipertensão a longo prazo sobre outros sistemas de
órgãos-alvo, como rins, coração, olhos e vasos
sanguíneos. A morbidade e a mortalidade relacionadas à
hipertensão progridem ao longo de toda a variação das
pressões sistólica e diastólica, com a lesão dos órgãos-alvo
variando acentuadamente entre pessoas com níveis de
hipertensão semelhantes (PORTH, 10ª ed.).
↠ Pessoas com hipertensão secundária também
apresentam risco para os efeitos sobre esses órgãos-alvo,
mas também podem apresentar manifestações clínicas
relacionadas ao processo da doença primária causadora
da hipertensão secundária (PORTH, 10ª ed.).
LESÃO DOS ÓRGÃOS-ALVOS
↠ O aumento da pressão de perfusão ocasionada pela
hipertensão pode causar lesão direta dos órgãos-alvo.
Além disso, o aumento da pressão intravascular pode
lesionar as células endoteliais vasculares, o que aumenta
o risco de desenvolvimento de doença vascular
aterosclerótica (que compromete ainda mais a perfusão
dos órgãos) (PORTH, 10ª ed.).
↠ A lesão dos órgãos-alvo afeta em particular os órgãos
com estrutura altamente vascularizada ou que dependem
fortemente de um suprimento de sangue adequado para
a sua função apropriada, incluindo coração, cérebro, rins
e retina nos olhos (PORTH, 10ª ed.).
OBS.: A hipertensão é uma causa líder de cardiopatia e doença cerebral
isquêmica, doença renal em estágio terminal e comprometimento
visual ou cegueira por retinopatia (PORTH, 10ª ed.).
↠ A elevação na pressão arterial aumenta a carga de
trabalho do ventrículo esquerdo, por aumentar a pressão
contra a qual o coração precisa bombear o sangue
ejetado na circulação sistêmica. Com o passar do tempo,
a pressão aumenta a carga de trabalho do coração, e a
parede ventricular esquerda sofre remodelamento e
hipertrofia para compensar o aumento do trabalho em
decorrência da pressão. Essa hipertrofia ventricular
esquerda é um fator de risco importante para o
desenvolvimento de cardiopatia coronariana, arritmias
cardíacas, morte súbita e insuficiência cardíaca congestiva,
uma vez que o ventrículo não consegue bombear com
eficiência (PORTH, 10ª ed.).
↠ A lesão dos rins é produzida por diversos mecanismos.
Uma das formas mais significativas de a hipertensão
causar lesão renal é por hipoperfusão glomerular, a qual
promove glomeruloesclerose e fibrose tubulointersticial.
Outro mecanismo estudado inclui a disfunção endotelial
decorrente da elevação da pressão glomerular (PORTH,
10ª ed.).
↠ Demência e comprometimento cognitivo são mais
frequentes em hipertensos. A hipertensão, em particular
a hipertensão sistólica, é um importante fator de risco
para acidente vascular encefálico e hemorragia
intracerebral. O estreitamento e a esclerose das artérias
penetrantes de pequeno calibre nas regiões subcorticais
do cérebro são achados comuns à necropsia de pessoas
com hipertensão crônica. Acredita-se que essas
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alterações contribuam para a hipoperfusão, perda da
autorregulação do fluxo sanguíneo e comprometimento
da barreira hematencefálica, finalmente levando à
desmielinização da substância branca (PORTH, 10ª ed.).
↠ A hipertensão também afeta o olho, em alguns casos
de modo devastador. A retinopatia hipertensiva afeta a
retina induzindo uma série de alterações microvasculares.
O olho de um hipertenso inicialmente apresenta aumento
do tônus vasomotor, que causa estreitamento arteriolar
generalizado. A longo prazo, essas alterações podem
causar lacerações arteriovenosas (AV) mais graves e
cegueira (PORTH, 10ª ed.).
EMERGÊNCIA HIPERTENSIVA: Algumas poucas pessoas hipertensas
desenvolvem um tipo de hipertensão acelerada e possivelmente fatal,
denominada emergência hipertensiva, que é caracterizada por
elevações acentuadas e súbitas na pressão arterial (> 180/120 mmHg),
complicadas por evidências de lesões agudas dos órgãos-alvo ou
agravamento destas (PORTH, 10ª ed.).
Epidemiologia
DADOS EPIDEMIOLÓGICOS GLOBAIS
↠ As DCV são a principal causa de morte, hospitalizações
e atendimentos ambulatoriais em todo o mundo, inclusive
em países em desenvolvimento como o Brasil. Em 2017,
dados completos e revisados do Datasus mostraram a
ocorrência de 1.312.663 óbitos no total, com um percentual
de 27,3% para as DCV. A HA estava associada em 45%
destas mortes cardíacas (DIRETRIZ, 2020).
↠ Ainda, segundo o Carga Global das Doenças (GBD),
observou-se que a elevação da PAS foi o principal fator
de risco, responsável por 10,4 milhões de mortes e 218
milhões de DALYs ((anos de vida ajustados para a
incapacidade ou, em outras palavras, anos perdidos de
vida saudável) (DIRETRIZ, 2020).
↠ Globalmente, em 2010, a prevalência de HA (=140/90
mmHg e/ou em uso de medicação anti-hipertensiva) foi
de 31,0%, sendo maior entre homens (31,9%) do que
entre as mulheres (30,1%) (DIRETRIZ, 2020).
PREVALÊNCIA DE HAS NO BRASIL
↠ Os dados de prevalência no país tendem a variar de
acordo com a metodologia e a casuística utilizadas.
Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde de 2013, 21,4% (IC
95% 20,8-22,0) dos adultos brasileiros autorrelataram HA,
enquanto, considerando as medidas de PA aferidas e uso
de medicação anti-hipertensiva, o percentual de adultos
com PA maior ou igual que 140 por 90 mmHg chegou a
32,3% (IC 95% 31,7- 33,0) (DIRETRIZ, 2020).
↠ Detectou-se que a prevalência de HA foi maior entre
homens, além de, como esperado, aumentar com a idade
por todos os critérios, chegando a 71,7% para os
indivíduos acima de 70 anos (DIRETRIZ, 2020).
↠ No período de uma década (2008 a 2017), foram
estimadas 667.184 mortes atribuíveis à HA no Brasil
(DIRETRIZ, 2020).
↠ Em termos de custos ao SUS, a HA tem custos
atribuíveis maiores do que os da obesidade e do DM. Ao
longo da última década, 77% dos custos com
hospitalizações no SUS com DAC são representados por
DCV associadas à HA e aumentaram 32%, em reais, de
2010 a 2019, passando de R$ 1,6 bilhão para R$ 2,2 bilhões
no período (DIRETRIZ, 2020).
Diagnóstico da HAS
↠ A avaliação inicial de um paciente com hipertensão
arterial (HA) inclui a confirmação do diagnóstico, a suspeita
e a identificação de causa secundária, além da avaliação
do risco cardiovascular (CV). As lesões de órgão-alvo
(LOA) e as doenças associadas também devem ser
investigadas (DIRETRIZ, 2020).
↠ Fazem parte dessa avaliação: (DIRETRIZ, 2020).
➢ a medida da pressão arterial (PA) no consultório
e/ou fora dele, utilizando-se técnica adequada e
equipamentos validados e calibrados;
➢ a obtenção de história médica (pessoal e
familiar);
➢ a realização de exame físico;
➢ a investigação clínica e laboratorial.
OBS.: Propõem-se avaliações gerais a todos os hipertensos e avaliações
complementares apenas para grupos específicos (DIRETRIZ, 2020).
↠ A avaliação clínica e laboratorial do paciente com
hipertensão arterial deve ser composta pelas seguintes
partes: (SOCESP, 4ª ed.).
➢ Histórico clínico e exame físico.
➢ Exames laboratoriais.
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HISTÓRICO CLÍNICO E EXAME FÍSICO
↠ O histórico clínico é fundamental para o conhecimento
das principais características do paciente, assim como
para todas as avaliações médicas. Deve obrigatoriamente
incluir: (SOCESP, 4ª ed.).
➢ Quando a doença começou;
➢ Tratamentos e exames anteriores;
➢ Fatores de risco eventualmente presentes;
➢ Indícios de outras doenças que podem cursar com
elevaçãoda PA (hipertensão secundária);
➢ Medicamentos em uso e que podem interferir na PA.
↠ No exame físico, a medida da pressão arterial é o
ponto cardinal, pois será a partir desses valores que se
considerará o diagnóstico de HAS (SOCESP, 4ª ed.).
Aferição da PA dentro do consultório
A PA deve ser medida em toda avaliação por médicos, de qualquer
especialidade, e por todos os profissionais da saúde devidamente
capacitados (DIRETRIZ, 2020).
O paciente deve sentar-se confortavelmente em um ambiente
silencioso por 5 minutos, antes de iniciar as medições da PA. Explique
o procedimento ao indivíduo e oriente a não conversar durante a
medição. Possíveis dúvidas devem ser esclarecidas antes ou depois do
procedimento. (DIRETRIZ, 2020).
Certifique-se de que o paciente NÃO: (DIRETRIZ, 2020).
➢ Está com a bexiga cheia;
➢ Praticou exercícios físicos há, pelo menos, 60 minutos;
➢ Ingeriu bebidas alcoólicas, café ou alimentos;
➢ Fumou nos 30 minutos anteriores.
Três medidas de PA devem ser realizadas, com intervalo de 1 a 2
minutos; e medidas adicionais somente se as duas primeiras leituras
diferirem em > 10 mmHg. Registre em prontuário a média das duas
últimas leituras da PA, sem “arredondamentos” e o braço em que a
PA foi medida.
Medidas adicionais podem ter que ser realizadas em pacientes com
valores instáveis da PA devido a arritmias.
Use o manguito adequado para a circunferência do braço.
O manguito deve ser posicionado ao nível do coração. A palma da
mão deve estar voltada para cima e as roupas não devem garrotear
o braço. As costas e o antebraço devem estar apoiados; as pernas,
descruzadas; e os pés, apoiados no chão.
Meça a PA nos dois braços na primeira visita, de preferência
simultaneamente, para detectar possíveis diferenças entre os braços.
Use o braço com o maior valor como referência.
↠ Outros aspectos do exame são fundamentais, como:
(SOCESP, 4ª ed.).
➢ Obtenção da frequência cardíaca;
➢ Peso, estatura e índice de massa corporal (IMC),
calculado a partir desses dados: peso
(kg/altura2(em metros) = IMC..
➢ Procurar sinais de lesões em órgãos-alvo
(DIRETRIZ, 2020);
➢ Avaliar o aparelho cardiovascular (palpação e
ausculta) (DIRETRIZ, 2020);
➢ Observar as extremidades: edemas, pulsos em
MMSS e MMII (DIRETRIZ, 2020);
OBS.: A obesidade é identificada quando o IMC for maior ou igual a 30
kg/m (SOCESP, 4ª ed.).
A obesidade visceral, um parâmetro que estima risco cardiovascular
com muita precisão, pode ser estimada pela medida da circunferência
abdominal. Segundo o NCEP III, são considerados valores normais
aqueles inferiores a 88 cm para as mulheres e a 102 cm para os
homens (SOCESP, 4ª ed.).
↠ Com a história clínica, valores de pressão arterial e
exame físico, é possível estratificar o risco de cada
paciente com HAS, o que será fundamental para o
estabelecimento do tratamento e para que se definam as
metas ideais de pressão arterial a serem atingidas com as
intervenções propostas (SOCESP, 4ª ed.).
Aferição da PA fora do consultório
A PA fora do consultório pode ser obtida através da MAPA ou da
MRPA, respeitando-se suas indicações e limitações (DIRETRIZ, 2020).
MAPA e a MRPA não devem ser confundidas com a automedida da
PA (AMPA), realizada com equipamento automático do próprio
paciente, que não obedece a nenhum protocolo preestabelecido. As
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medidas são realizadas aleatoriamente e feitas por decisão do próprio
paciente ou até a pedido médico (DIRETRIZ, 2020).
EXAMES LABORATORIAIS (COMPLEMENTAR)
↠ Os exames recomendados para a avaliação do
paciente com HAS são os apresentados na tabela abaixo,
sendo divididos em testes de rotina, testes adicionais
baseados no histórico clínico, exame físico e exames de
rotina e avaliação especializada, em geral de competência
do especialista em hipertensão arterial sistêmica
(SOCESP, 4ª ed.).
INVESTIGAÇÃO LABORATORIAL NO PACIENTE COM HAS
EXAMES DE ROTINA
Hemoglobina e/ou hematócrito
Glicemia de jejum
Colesterol plasmático total, LDL-C, HDL-C
Triglicérides plasmático
Sódio e Potássio
Ácido úrico
Creatinina
Análise da urina
Microalbuminúria
Eletrocardiograma de 12 derivações
EXAMES DE ROTINA
HIPERTENSÃO, 3ª ed.
SANGUE
Hemograma: deve-se observar a presença de anemia na doença renal
crônica e nas situações primárias de aumento do hematócrito
(síndrome de Gaisbock).
Glicemia de jejum e hemoglobina glicada: é fundamental afastar a
presença de diabetes melito, fator de risco agravante da hipertensão
arterial sistêmica.
Creatinina sérica e taxa de filtração glomerular (TFG calculada): a
creatinina sérica é o principal indicador da função renal. Contudo, deve-
se atentar que a creatinina somente começa a se elevar quando
houver perda de 30 a 40% da massa funcional glomerular, por isso a
necessidade de se calcular a TFG.
Ácido úrico: a artrite gotosa é subdiagnosticada e passível de ser
agravada pelo uso intempestivo de tiazídico. Da mesma forma que o
uso de substâncias que acidificam a urina (p. ex., a vitamina C) pode
facilitar a formação de cálculos renais.
Potássio: a hipocalemia pode ser o único indicador para
hiperaldosteronismo. Além disso, hipocalemia facilita desenvolvimento
de arritmias e prejudica o controle da glicemia.
Lipidograma (colesterol total, HDL-colesterol, LDL-colesterol e
triglicerídeos): atores de risco muito frequentes entre os hipertensos,
já bem estabelecido o seu tratamento quando alterados. Não há
necessidade de solicitar a dosagem do LDL-colesterol. Ele pode ser
obtido (quando os triglicerídeos forem /= 100 mg ou
diagnóstico prévio de diabetes
Proteinúria quantitativa
Monitorização ambulatorial de pressão arterial (MAPA) ou
residencial (MRPA)
Ecocardiograma: é mais sensível que o ECG quanto ao
diagnóstico de hipertrofia do ventrículo esquerdo e agrega
valores na avaliação de formas geométricas;
Holter em caso de arritmias que necessitam de avaliação
detalhada
Fundoscopia
Classificação da HAS
↠ No diagnóstico da HA, são possíveis vários fenótipos.
Define-se a normotensão verdadeira (NV) como as
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medidas da PA no consultório e fora do consultório
normais, a HA sustentada (HS) quando ambas são
anormais, a HA do avental branco (HAB) quando a PA é
elevada no consultório, mas é normal fora dele, e HA
mascarada (HM) quando a PA é normal no consultório,
mas é elevada fora dele (DIRETRIZ, 2020).
↠ Embora a prevalência varie entre os estudos, a HAB
pode ser detectada em cerca de 15 a 19% dos indivíduos
no consultório, alcançando 30 a 40% naqueles com PA
elevada no consultório. É mais comum nos pacientes com
HA estágio 1 (DIRETRIZ, 2020).
RECOMENDAÇÕES PARA DIAGNÓSTICO E SEGUIMENTO
↠ A HA é uma condição habitualmente assintomática. Por
isso, deve ser avaliada em todo atendimento médico e
em programas estruturados de triagem populacional.
Nestes últimos, mais de 50% dos portadores de HA não
sabiam que tinham a doença (DIRETRIZ, 2020).
↠ Pessoas saudáveis com uma PA ótima no consultório
(a PA medida novamente pelo menos
anualmente e nas consultas médicas (DIRETRIZ, 2020).
↠ Pacientes com pré-hipertensão (130-139/85-89 mmHg)
devem ter a PA medida anualmente ou,
preferencialmente antes, devido às altas taxas de
progressão para HA. Além disso, nos casos suspeitos de
HM, a MAPA ou a MRPA devem ser realizadas para
detectar tal fenótipo (DIRETRIZ, 2020).
↠ Como a PA pode ter alta variabilidade, o diagnóstico
de HA não deve se basear exclusivamente na medida da
PA em apenas uma consulta médica, a menos que esteja
substancialmente elevada (HA estágio 3) ou haja
diagnóstico estabelecido de LOA ou de doença CV. Para
os demais pacientes, as medidas repetidas da PA em
visitas subsequentes no consultório devem ser utilizadas
para confirmar uma elevação persistente, bem como
para classificar o estágio da HA (DIRETRIZ, 2020).
↠ Quanto maior o estágio da HA, maior deverá ser o
número de visitas e menor o intervalo de tempo entre
elas (DIRETRIZ, 2020).
Tratamento da HAS
↠ Um dos objetivos específicos do tratamento do
paciente hipertenso é obter o controle pressórico
alcançando a meta de pressão arterial (PA) previamente
estabelecida. Tal meta deve ser definida individualmente,
sempre considerando a idade e a presença de doença
cardiovascular (DCV) ou de seus fatores de risco (FR). De
forma geral, deve-se reduzir a PA visando a alcançar
valores menores que 140/90 mmHg e não inferiores a
120/70 mmHg (DIRETRIZ, 2020).
TRATAMENTO NÃO MEDICAMENTOSO
↠ O tratamento não farmacológico (TNF) está indicado
para todos os pacientes com HAS, pois viabilizam
menores doses dos anti-hipertensivos (SOCESP, 4ª ed.).
↠ Para pacientes com HAS estágio 1 e baixo a moderado
risco CV, sem evidência de lesão m órgãos-alvo, o TNF
está indicado isoladamente por um período de 3 a 6
meses, antes de se iniciar a terapia farmacológica. Paciente
com HAS estágio 1, mas com alto risco CV e lesão em
órgãos-alvo devem iniciar simultaneamente o tratamento
farmacológico e não farmacológico (SOCESP, 4ª ed.).
↠ As mudanças de estilo de vida recomendadas para
redução da pressão arterial (PA) são: restrição de sal,
moderação do consumo de álcool, alto consumo de
vegetais e frutas, redução de peso com manutenção do
peso corporal ideal e atividade física regular (SOCESP, 4ª
ed.).
OBS.: Um potencial desvantagem da modificação do estilo de vida é
sua baixa adesão ao longo do tempo (SOCESP, 4ª ed.).
HÁBITOS ALIMENTARES
↠ É importante salientar que orientação de estilo de vida
do ponto de vista nutricional não é recomendar dieta e
sim educação nutricional para o resto da vida (SOCESP,
4ª ed.).
↠ A reeducação alimentar, por sua vez, implementa o
conceito de mudança de hábitos alimentares que terão
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impacto na prevenção CV ao longo da vida (SOCESP, 4ª
ed.).
CAFÉ E PRODUTOS COM CAFEÍNA
↠ O café, além de ser rico em cafeína, possui compostos
bioativos como polifenóis, em especial os ácidos
clorogênicos, o magnésio e o potássio, que podem
favorecer a redução da PA. A cafeína é capaz de elevar
agudamente a PA, por mais de três horas, mas o
consumo regular leva à tolerância (DIRETRIZ, 2020).
PERDA DE PESO
↠ O peso corporal está diretamente relacionado com a
PA. Isso se torna mais evidente com o aumento da
prevalência de obesidade ao redor do mundo. A perda de
peso, além de promover a queda da PA, reduz o risco
CV e melhora a eficácia das medicações anti-hipertensivas
(DIRETRIZ, 2020).
ATIVIDADE FÍSICA E EXERCÍCIO FÍSICO
↠ A atividade física (AF) refere-se a qualquer movimento
corporal que aumente o gasto energético acima daquele
em repouso, como locomoção e atividades laborais,
domésticas e de lazer (DIRETRIZ, 2020).
↠ O exercício físico (EF), por sua vez, refere-se à AF
estruturada, organizada e com objetivo específico, como
melhorar a saúde e/ou a aptidão física (DIRETRIZ, 2020).
↠ A prática regular de AF diminui a incidência de HÁ
Além disso, os hipertensos que alcançam as
recomendações de prática de AF para a saúde
apresentam uma redução de 27 a 50% no risco de
mortalidade, mas níveis menores também apresentam
efeito benéfico (DIRETRIZ, 2020).
TRATAMENTO MEDICAMENTOSO
↠ A proteção cardiovascular (CV) consiste no objetivo
primordial do tratamento anti-hipertensivo. A redução da
pressão arterial (PA) é a primeira meta, com o objetivo
maior de reduzir desfechos CV e mortalidade associados
à hipertensão arterial (HA) (DIRETRIZ, 2020).
↠ As cinco principais classes de fármacos anti-
hipertensivos são: (DIRETRIZ, 2020).
➢ diuréticos (DIU);
➢ bloqueadores dos canais de cálcio (BCC);
➢ inibidores da enzima conversora de angiotensina
(IECA);
➢ bloqueadores dos receptores da angiotensina II
(BRA);
➢ betabloqueadores (BB).
↠ Esses medicamentos demonstraram reduções
significativas da PA comparadas com placebo,
acompanhadas de diminuições consideráveis dos
desfechos CV fatais e não fatais, benefício relacionado
fundamentalmente com a redução da PA (DIRETRIZ,
2020).
OBS.: Outras classes de fármacos, como os alfabloqueadores, os
simpatolíticos de ação central, os antagonistas da aldosterona e os
vasodilatadores diretos, não foram amplamente estudadas em ensaios
clínicos e associam-se a maior taxa de eventos adversos e devem ser
usadas quando não há controle da PA em uso de combinações
utilizando-se as principais classes de fármacos já mencionadas
(DIRETRIZ, 2020).
CARACTERÍSTICAS E ORIENTAÇÕES SOBRE OS FÁRMACOS ANTI-
HIPERTENSIVOS
São características desejáveis do fármaco anti-hipertensivo: (DIRETRIZ,
2020).
➢ Ter demonstrado a capacidade de reduzir a morbidade e
a mortalidade CV;
➢ Ser eficaz por via oral;
➢ Ser bem tolerado;
➢ Ser administrado preferencialmente em dose única diária;
➢ Poder ser usado em associação;
➢ Ter controle de qualidade em sua produção.
Além disso, recomenda-se: (DIRETRIZ, 2020).
➢ Utilizar por um período mínimo de quatro semanas, antes
de modificações, salvo em situações especiais;
➢ Não utilizar medicamentos manipulados, pois não são
submetidos a controle da farmacocinética e
farmacovigilância;
➢ O paciente deverá ser orientado sobre a importância do
uso contínuo da medicação anti-hipertensiva, da eventual
necessidade de ajuste de doses, da troca ou da associação
de medicamentos e ainda do eventual aparecimento de
efeitos adversos;
➢ Não há evidências suficientes para a recomendação
rotineira da administração noturna de fármacos anti-
hipertensivos, exceto em condições especiais.
IMPORTANTE: O tratamento com medicamentos pode ser iniciado com
monoterapia ou com combinação de fármacos. Ênfase deve ser dada
ao uso de combinação de fármacos como estratégia preferencial para
a maioria dos pacientes hipertensos (DIRETRIZ, 2020).
11
Júlia Morbeck – @med.morbeck
DIURÉTICOS (DIU)
↠ O mecanismo da ação anti-hipertensiva dos DIU
relaciona-se inicialmente a seus efeitos natriureticos, com
a diminuição do volume circulante e do volume
extracelular (DIRETRIZ, 2020).
MECANISMO DE AÇÃO: Os diuréticos modificam a excreção
ou a reabsorção dos eletrólitos (sódio e cloreto) no rim.
Por sua vez, isso determina o volume de água que se
torna urina e que será eliminada pelo sistema urinário
(FORD, 11ª ed.).
➢ Diuréticos de alça inibem a reabsorção de sódio e de
cloreto nos túbulos distais e proximais do rim, bem como
na alça de Henle. A ação nesses três locais aumenta sua
efetividade como diuréticos (FORD, 11ª ed.).
➢ Diuréticos tiazídicos e diuréticos relacionados inibem a
reabsorção de íons sódio e cloreto no ramo ascendente
da alça de Henle e na parte inicial do túbulo distal do néfron.
Essa ação resulta na excreção de sódio, cloreto e água
(FORD, 11ª ed.).
➢ Diuréticos poupadores de potássio reduzem a excreção
de potássio pelo rim. Eles bloqueiam a reabsorção de sódio
nos túbulos renais,com consequente aumento da
eliminação de sódio e água na urina; isso reduz a excreção
de potássio. A espironolactona antagoniza a ação da
aldosterona. A aldosterona, um hormônio produzido pelo
córtex das glândulas suprarrenais, aumenta a reabsorção
de sódio nos túbulos contorcidos distais do rim. Quando
essa reabsorção é bloqueada pelo fármaco, o sódio (mas
não o potássio) e a água são excretados (FORD, 11ª ed.).
➢ Diuréticos osmóticos (manitol, sorbitol) aumentam a
densidade do filtrado no glomérulo. Isso impede a
reabsorção seletiva de água, que é eliminada na forma de
urina. Ocorre também aumento da excreção de sódio e
cloreto (FORD, 11ª ed.).
➢ Inibidores da anidrase carbônica (acetazolamida) são
sulfonamidas, sem ação bacteriostática, que inibem a
enzima anidrase carbônica, resultando em excreção de
sódio, potássio, bicarbonato e água (FORD, 11ª ed
↠ Após quatro a seis semanas, o volume circulante
praticamente normaliza-se, e ocorre redução da
resistência vascular periférica (RVP) (DIRETRIZ, 2020).
↠ Deve-se dar preferência aos DIU tiazídicos
(hidroclorotiazida) ou similares (clortalidona e indapamida)
em doses baixas, pois são mais suaves e com maior
tempo de ação, reservando-se os DIU de alça (furosemida
e bumetanida) às condições clínicas com retenção de
sódio e água, como a insuficiência renal (DIRETRIZ, 2020).
EFEITOS ADVERSOS: Os principais efeitos adversos dos DIU são fraqueza,
cãibras, hipovolemia e disfunção erétil (DIRETRIZ, 2020).
BLOQUEADORES DOS CANAIS DE CÁLCIO (BCC)
As artérias sistêmicas e coronárias são influenciadas pelo movimento
de cálcio através das membranas celulares do músculo liso vascular.
As contrações do músculo cardíaco e músculo liso vascular dependem
do movimento de íons cálcio extracelulares para dentro dessas
paredes através de canais iônicos específicos (FORD, 11ª ed.).
↠ Bloqueadores dos canais de cálcio inibem o
movimento de íons cálcio através das membranas
celulares das células musculares cardíacas e arteriais. Isso
resulta em menor disponibilidade de cálcio para a
transmissão de impulsos nervosos. Em consequência,
esses fármacos relaxam os vasos sanguíneos, aumentam
o suprimento de oxigênio ao coração e reduzem o
trabalho cardíaco (FORD, 11ª ed.).
↠ Reduz a disponibilidade de cálcio no interior das células
dificultando a contração muscular e, consequentemente,
diminui a RVP por vasodilatação (DIRETRIZ, 2020).
↠ Os BCC são classificados em dois tipos básicos: os di-
hidropiridínicos e os não di-hidropiridínicos (DIRETRIZ,
2020).
↠ Os dihidropiridínicos (anlodipino, nifedipino, felodipino,
manidipino, levanlodipino, lercanidipino, lacidipino) exercem
efeito vasodilatador predominante, com mínima
interferência na FC e na função sistólica, sendo, por isso,
mais frequentemente usados como medicamentos anti-
hipertensivos (DIRETRIZ, 2020).
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Júlia Morbeck – @med.morbeck
↠ Os BCC não di-hidropiridínicos, como as
difenilalquilaminas (verapamila) e as benzotiazepinas
(diltiazem), têm menor efeito vasodilatador e agem na
musculatura e no sistema de condução cardíacos. Por
isso, reduzem a FC, exercem efeitos antiarrítmicos e
podem deprimir a função sistólica, principalmente nos
pacientes que já tenham disfunção miocárdica, devendo
ser evitados nessa condição (DIRETRIZ, 2020).
Convém dar preferência aos BCC de ação prolongada para evitar
oscilações indesejáveis na FC e na PA. São anti-hipertensivos eficazes
e reduzem a morbidade e mortalidade CV (DIRETRIZ, 2020).
EFEITOS ADVERSOS: O edema maleolar costuma ser o efeito colateral
mais registrado e resulta da própria ação vasodilatadora (mais arterial
que venosa), promovendo a transudação capilar. A cefaleia latejante e
as tonturas são comuns (DIRETRIZ, 2020).
INIBIDORES DA ENZIMA CONVERSORA DE ANGIOTENSINA
(IECA)
↠ São medicamentos anti-hipertensivos eficazes que
têm como ação principal a inibição da enzima conversora
de angiotensina I, responsável a um só tempo pela
transformação de angiotensina I em angiotensina II
(vasoconstritora) e pela redução da degradação da
bradicinina (vasodilatadora). São eficazes no tratamento da
HA, reduzindo a morbidade e mortalidade CV (DIRETRIZ,
2020).
EFEITOS ADVERSOS: Habitualmente, são bem tolerados pela maioria dos
pacientes hipertensos, sendo a tosse seca seu principal efeito colateral,
acometendo 5 a 20% dos usuários (DIRETRIZ, 2020).
BLOQUEADORES DOS RECEPTORES AT1 DA ANGIOTENSINA II
(BRA)
↠ Os BRA antagonizam a ação da angiotensina II pelo
bloqueio específico dos receptores AT1, responsáveis
pelas ações próprias da angiotensina II (vasoconstrição,
estímulo da proliferação celular e da liberação de
aldosterona) (DIRETRIZ, 2020).
BETABLOQUEADORES (BB)
↠ Os BB têm ações farmacológicas complexas.
Promovem a diminuição inicial do débito cardíaco e da
secreção de renina, com a readaptação dos
barorreceptores e diminuição das catecolaminas nas
sinapses nervosas (DIRETRIZ, 2020).
↠ Eles podem ser diferenciados em três categorias, de
acordo com a seletividade para ligação aos receptores
adrenérgicos: (DIRETRIZ, 2020).
➢ não seletivos: bloqueiam tanto os receptores
adrenérgicos beta-1, encontrados principalmente
no miocárdio, quanto os beta-2, encontrados no
músculo liso, nos pulmões, nos vasos sanguíneos
e em outros órgãos (propranolol, nadolol e
pindolol, este último apresentando atividade
simpatomimética intrínseca, agindo como um
agonista adrenérgico parcial e produzindo
menos bradicardia);
➢ cardiosseletivos: bloqueiam preferencialmente os
receptores beta-1 adrenérgicos (atenolol,
metoprolol, bisoprolol e nebivolol, que é o mais
cardiosseletivo);
➢ com ação vasodilatadora: manifesta-se por
antagonismo ao receptor alfa-1 periférico
(carvedilol) e por produção de óxido nítrico
(nebivolol).
OBS.: Uma metanálise que incluiu mais de 130 mil pacientes com
hipertensão primária identificou que o atenolol, comparado com os
demais anti-hipertensivos, aumenta o risco de AVE em 26% e a
mortalidade geral em 8%, ambos estatisticamente significantes. Essa é
a principal razão para tal diretriz recomendar os BB como medicação
anti-hipertensiva inicial apenas nos casos em que têm indicação
específica (DIRETRIZ, 2020).
EFEITOS ADVERSOS: Broncoespasmo, bradicardia, distúrbios da condução
atrioventricular, vasoconstrição periférica, insônia, pesadelos,
depressão, astenia e disfunção sexual. Os BB são contraindicados em
pacientes com asma, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e
bloqueio atrioventricular de segundo e terceiro graus. Podem acarretar
intolerância à glicose, induzir ao aparecimento de novos casos de
diabetes melito, hipertrigliceridemia, elevação do colesterol-LDL e
redução do colesterol-HDL (DIRETRIZ, 2020).
SIMPATOLÍTICOS DE AÇÃO CENTRAL
↠ Os alfa-agonistas de ação central agem por meio do
estímulo dos receptores alfa-2 que estão envolvidos nos
mecanismos simpatoinibitório (DIRETRIZ, 2020).
↠ Os efeitos dessa classe são: diminuição da atividade
simpática e do reflexo dos barorreceptores, o que
contribui para a bradicardia relativa e a hipotensão notada
na posição ortostática; discreta diminuição na RVP e no
débito cardíaco, redução nos níveis plasmáticos de renina;
e retenção de fluidos (DIRETRIZ, 2020).
↠ São representantes desse grupo: metildopa, clonidina
e o inibidor dos receptores imidazolínicos rilmenidina
(DIRETRIZ, 2020).
OBS.: A metildopa encontra sua principal indicação na HA durante a
gestação, pois é usada por um curto período da vida, com grande
experiência clínica em sua utilização nesse tempo, e apresenta o
13
Júlia Morbeck – @med.morbeck
melhor perfil de segurança para a gestante e para o feto (DIRETRIZ,
2020).
EFEITOS ADVERSOS: Os medicamentos dessa classe apresentam reações
adversas decorrentes da ação central, como sonolência, sedação, boca
seca, fadiga, hipotensãopostural e disfunção erétil (DIRETRIZ, 2020).
ALFABLOQUEADORES
↠ Os medicamentos dessa classe agem como
antagonistas competitivos dos receptores alfa-1 pós-
sinápticos, reduzindo a RVP sem mudanças no débito
cardíaco. Promovem maior redução pressórica quando na
posição ortostática e na taquicardia reflexa (DIRETRIZ,
2020).
↠ Os representantes dessa classe utilizados como
medicamentos anti-hipertensivos são a doxazosina e a
prazosina (DIRETRIZ, 2020).
OBS.: Uma ação coadjuvante benéfica dos bloqueadores
alfa-1 é o relaxamento da musculatura do assoalho
prostático, a qual favorece o esvaziamento da bexiga nos
pacientes com hiperplasia prostática benigna (HPB)
(DIRETRIZ, 2020).
EFEITOS ADVERSOS: Podem provocar hipotensão sintomática na primeira
dose (DIRETRIZ, 2020).
VASODILATADORES DIRETOS
↠ Os medicamentos dessa classe, ativos por via oral, são
a hidralazina e o minoxidil. Atuam diretamente, relaxando
a musculatura lisa arterial, levando à redução da RVP
(DIRETRIZ, 2020).
EFEITOS ADVERSOS: Os efeitos colaterais da hidralazina são cefaleia,
flushing, taquicardia reflexa e reação lupus-like (dose-dependente). Um
efeito colateral frequente do minoxidil é o hirsutismo, que ocorre em
aproximadamente 80% dos pacientes (DIRETRIZ, 2020).
INIBIDORES DIRETO DA RENINA
↠ O alisquireno, único representante da classe disponível
comercialmente, promove a inibição direta da ação da
renina com a consequente diminuição da formação de
angiotensina II (DIRETRIZ, 2020).
OBS.: Não existem, contudo, evidências de seus benefícios sobre a
morbidade e a mortalidade CV em hipertensos e pré-hipertensos
(DIRETRIZ, 2020).
↠ Seu uso é contraindicado na gravidez pelas mesmas
razões dos IECA e BRA (DIRETRIZ, 2020).
ASSOCIAÇÕES DE FÁRMACOS ANTI-HIPERTENSIVOS
A terapia anti-hipertensiva inicial com combinação de fármacos
parece estar associada à redução do risco de desfechos CV
quando comparada com o tradicional início do tratamento com
monoterapia. A combinação inicial de dois fármacos em
comparação com a associação sequencial promove um
controle mais rápido, podendo reduzir em até cinco vezes mais
a PA, com evidente impacto sobre LOA e desfechos CV a
longo prazo (DIRETRIZ, 2020).
14
Júlia Morbeck – @med.morbeck
Prevenção da HAS
A HA tem alta prevalência e é um dos principais fatores de risco para
as DCV e renais, apresentando determinantes genéticos, ambientais e
sociais combinados. Mostra-se de fácil diagnóstico e seu tratamento é
eficaz utilizando-se um arsenal terapêutico diversificado, bastante
eficiente e com poucos efeitos adversos. Mesmo assim, seu controle
em todo o mundo é pífio, porque se trata de doença frequentemente
assintomática, o que dificulta a adesão aos cuidados (DIRETRIZ, 2020).
A equação final torna o desafio do tratamento muito elevado, e a
prevenção continua a ser a melhor opção em termos de custo-
benefício. A abordagem adequada dos fatores de risco para o
desenvolvimento da HA deve ser o grande foco do SUS. Nesse
quesito, há vários pontos que merecem destaque (DIRETRIZ, 2020).
CONTROLE DO PESO
↠ A obesidade geral e a obesidade abdominal foram associadas ao
aumento do risco de HA. Por outro lado, a diminuição do peso
promove a diminuição da PA tanto em indivíduos
normotensos quanto em hipertensos. Ser “o mais magro
possível” dentro da faixa da normalidade do IMC pode ser
a melhor sugestão com relação à prevenção primária da
HA (DIRETRIZ, 2020).
DIETA SAUDÁVEL E SÓDIO
↠ Tem destaque, nesse sentido, a dieta DASH e suas
variantes (baixa quantidade de gordura, mediterrânea,
vegetariana/vegana, nórdica, baixo teor de carboidratos
etc.). Os benefícios são ainda maiores quando ocorre em
conjunto a redução de ingestão de sódio (DIRETRIZ,
2020).
OBS.: Todos os documentos sobre o assunto indicam a alimentação
com consumo parcimonioso de frutas, verduras, legumes, cereais, leite
e derivados, além de indicarem menor quantidade de gordura e sal
(DIRETRIZ, 2020).
↠ O consumo excessivo de sódio é um dos principais
fatores de risco modificáveis para a prevenção e o
controle da HA e das DCV. A restrição de sódio mostrou
ter um efeito redutor da PA em muitos estudos
(DIRETRIZ, 2020).
↠ Recomenda-se que a ingestão de sódio seja limitada a
aproximadamente 2 g/dia (equivalente a cerca de 5 g de
sal por dia) na população em geral (DIRETRIZ, 2020).
OBS.: A redução no consumo de sal na população brasileira continua
sendo prioridade de saúde pública, mas requer um esforço combinado
entre indústria de alimentos, governos nas diferentes esferas e público
em geral, já que 80% do consumo de sal envolve aquele contido nos
alimentos processados (DIRETRIZ, 2020).
ATIVIDADE FÍSICA
↠ Todos os adultos devem ser aconselhados a praticar
pelo menos 150 min/semana de atividades físicas
moderadas ou 75 min/semana de vigorosas. Os
exercícios aeróbicos (caminhada, corrida, ciclismo ou
natação) podem ser praticados por 30 minutos em 5 a 7
dias por semana. A realização de exercícios resistidos em
2 a 3 dias por semana também pode ser recomendada
(DIRETRIZ, 2020).
FATORES PSICOSSOCIAIS
↠ O controle do estresse emocional, por diversas
técnicas existentes, pode contribuir para a prevenção da
HÁ, carecendo ainda de mais estudos robustos nesse
sentido (DIRETRIZ, 2020).
TABAGISMO
↠ Independentemente de seu efeito sobre a PA, abordar
este tema mostra-se muito importante, porque o fumo é
o único fator de risco totalmente evitável de doença e
morte cardiovasculares, e seu enfrentamento precisa ser
feito (DIRETRIZ, 2020).
↠ O combate ao tabagismo é difícil, pelas dependências
química e psíquica que causa, mas os benefícios da
cessação na mortalidade CV já ocorrem a curto prazo
(DIRETRIZ, 2020).
↠ O rigor no combate e no controle, a orientação
contínua e o apoio psicoemocional incondicional ao
tabagista, com a eventual prescrição de medicamentos,
têm-se mostrado a abordagem mais eficaz. É também
importante a proteção contra a exposição ao fumo
passivo que também implica maior risco (DIRETRIZ, 2020).
15
Júlia Morbeck – @med.morbeck
Referências
BRANDÃO et. al. Hipertensão, 3ª edição – Santana de
Parnaíba – São Paulo: Manole, 2022.
CONSOLIM-COLOMBO et. al. Tratado de Cardiologia
SOCESP, 4ª edição – Barueri – São Paulo: Manole, 2019.
FORD, S. M. Farmacologia Clínica, 11ª edição – Rio de
Janeiro: Gunabara Koogan, 2019.
BARROSO et. al. Diretrizes Brasileiras de Hipertensão
Arterial - 2020. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 2021.
NORRIS. PORTH Fisiopatologia, 10ª edição – Rio de Janeiro:
guanabara Koogan, 2021.
1
Júlia Morbeck – @med.morbeck
Objetivos
1- Compreender as alterações cardíacas que
ocorrem em decorrência da pressão arterial
sustentada;
2- Entender as complicações decorrentes do
remodelamento cardíaco;
3- Analisar os fatores que influenciam na adesão do
tratamento.
Complicações da HAS não controlada
↠ Valores de pressão arterial (PA) elevados têm sido
tradicionalmente associados ao risco para cardiopatia
isquêmica, acidente vascular encefálico (AVE), doença
renal crônica (DRC) e mortalidade precoce (DIRETRIZ,
2020).
↠ Mais recentemente, foram publicados diversos estudos
de coorte, muitos com grandes amostras. Eles
demonstraram que a elevação da PA propicia riscos
similares aos demonstrados para DAC e AVE para a
incidência de outros desfechos CV (DIRETRIZ, 2020).
↠ Entre eles, incluem-se insuficiência cardíaca (IC), com
e sem fração de ejeção (FE) preservada, fibrilação atrial,
cardiopatias valvares, doença arterial periférica, doença
renal crônica (DRC), demência e doença de Alzheimer
(DIRETRIZ, 2020).
↠ Provavelmente, diabetes melito, disfunção erétil e
degeneração macular da senilidade decorrem de
elevações sustentadas da PA (DIRETRIZ, 2020).
↠ O aumento sustentado da PA é umgatilho para o
desenvolvimento da hipertrofia da camada média da
parede arterial, por promover alterações quantitativas e
qualitativas de seus componentes (elastina, colágeno e
células musculares lisas) que levam a adaptações
mecânicas (DIRETRIZ, 2020).
Tais achados foram descritos, tanto em modelos animais quanto em
estudos in vitro e culturas de órgãos ex vivo, em que células
mecanossensitivas responderam ao aumento de estresse com
produção de matriz. Portanto, a HA acelera o envelhecimento vascular,
uma resposta mecanobiológica local ao aumento de estresse induzido
pelo aumento da PA e, consequentemente, da rigidez arterial (rigidez
como consequência) (DIRETRIZ, 2020).
Remodelamento Cardíaco
Ao longo da vida, o coração sofre transformações ligadas ao processo
natural de crescimento, maturidade e envelhecimento ou como
resposta a situações locais ou sistêmicas que requerem alteração na
força contrátil (p. ex., se o indivíduo desenvolve hipertensão arterial
sistêmica é necessária maior força para impulsionar o sangue)
(BOGLIOGO, 10ª ed.).
↠ Quando há sobrecarga de pressão (p. ex., por
hipertensão arterial ou estreitamento de uma valva), a
força contrátil precisa aumentar. Adicionalmente, há
aumento da tensão na parede (BOGLIOGO, 10ª ed.).
↠ Remodelamento ventricular é o processo pelo qual
fatores mecânicos, neuro-hormonais e genéticos alteram
o tamanho, a forma e a função ventricular (SOCESP, 4ª
ed.).
↠ Hipertrofia corresponde a uma alteração no
metabolismo celular. Para que tal mudança ocorra, ainda
que fatores neuro-hormonais interfiram, o papel principal
é do estímulo mecânico, que é de algum modo
convertido em sinais bioquímicos. Nas células, ocorre
reprogramação, levando à expressão coordenada de
genes envolvidos na síntese de mais componentes do
sistema contrátil, de modo semelhante ao que ocorre na
vida fetal (contração mais lenta e prolongada e aumento
do metabolismo anaeróbico) (BOGLIOGO, 10ª ed.).
↠ Os principais pontos do remodelamento cardíaco são
a hipertrofia de miócitos e a dilatação cardíaca, com
aumento da formação de matriz intersticial (SOCESP, 4ª
ed.).
APG 03 – “MUDANÇA NECESSÁRIA”
2
Júlia Morbeck – @med.morbeck
↠ Esse processo adaptativo inicia-se como mecanismo
compensatório a fim de manter a força contrátil e
preservar o estresse da parede (SOCESP, 4ª ed.).
IMPORTANTE: Embora a hipertrofia ventricular melhore o desempenho
do trabalho cardíaco, também constitui um importante fator de risco
de morbidade e mortalidade cardíacas subsequentes. A hipertrofia e o
remodelamento inadequados podem resultar em alterações na
estrutura (i. e., massa muscular, dilatação das câmaras) e na função (i.
e., comprometimento da função sistólica ou diastólica), as quais
frequentemente levam à disfunção adicional da bomba e à sobrecarga
hemodinâmica (PORTH, 10ª ed.).
Entretanto, com a progressão da degeneração miocárdica, esse
processo torna-se mal adaptado e contribui para a piora da insuficiência
cardíaca com fração de ejeção de ventrículo esquerdo reduzida
(ICFEVEr) (SOCESP, 4ª ed.).
↠ O remodelamento cardíaco é estimulado
primariamente pelo estiramento mecânico, porém, vários
fatores, incluindo isquemia, hormônios e peptídios
vasoativos, podem modificar os efeitos do fator mecânico
(SOCESP, 4ª ed.).
↠ A hipertrofia e o remodelamento do miocárdio
envolvem uma série de eventos complexos nos níveis
molecular e celular. O miocárdio é composto por miócitos
(ou células musculares) e não miócitos (PORTH, 10ª ed.).
Os miócitos são as unidades funcionais do músculo cardíaco. Seu
crescimento é limitado por um incremento no tamanho da célula e
não por um aumento na quantidade de células (PORTH, 10ª ed.).
Os não miócitos incluem macrófagos cardíacos, fibroblastos, músculo
liso vascular e células endoteliais. Essas células, localizadas no espaço
intersticial, preservam a capacidade de aumentar o número de células
e fornecer suporte aos miócitos (PORTH, 10ª ed.).
Os não miócitos também determinam muitas das alterações
inadequadas que ocorrem durante a hipertrofia do miocárdio. Por
exemplo, o crescimento descontrolado dos fibroblastos cardíacos está
associado ao aumento da síntese das fibras de colágeno, à fibrose do
miocárdio e à rigidez da parede ventricular. Assim como a rigidez da
parede ventricular aumenta a carga de trabalho do coração, a fibrose
e o remodelamento podem levar a anormalidades na condução
elétrica, nas quais o coração se contrai de modo descoordenado – a
chamada dissincronia cardíaca – causando redução da função cardíaca
sistólica (PORTH, 10ª ed.).
↠ O interstício cardíaco também é muito sensível aos
mesmos estímulos mecânicos, inflamatórios e neuro-
hormonais que afetam o crescimento dos miócitos. Em
condições normais, a matriz extracelular tem um papel
biológico determinante nos mecanismos cardíacos. As
mudanças na matriz intersticial provocam alterações nas
propriedades sistólica e diastólica do coração (SOCESP, 4ª
ed.).
↠ A fibrose provoca rigidez miocárdica e
heterogeneidade mecânica e elétrica, que desempenham
papel importante na gênese de arritmias e deterioração
das funções sistólica e diastólica (SOCESP, 4ª ed.).
↠ A morte celular também é determinante no
remodelamento cardíaco, porque causa a perda de massa
contrátil, com consequente hipertrofia de células
miocárdicas e fibrose reparativa (SOCESP, 4ª ed.).
Tradicionalmente, a perda de miócitos era explicada pela necrose,
porém, nas últimas décadas, evidências mostram que a apoptose
também contribui para a IC (SOCESP, 4ª ed.).
As causas da apoptose na transição para a falência ventricular são
inúmeras. Destacam-se isquemia, estiramento mecânico, estresse da
parede, estimulação neuro-hormonal e das citocinas (SOCESP, 4ª ed.).
TIPOS DE HIPERTROFIA
↠ A hipertrofia miocárdica é causada pelo aumento de
miofibrilas e mitocôndrias (SOCESP, 4ª ed.).
↠ Pesquisas recentes enfocaram o tipo de hipertrofia
que se desenvolve em pessoas com insuficiência cardíaca.
No nível celular, as células musculares cardíacas
respondem aos estímulos do estresse imposto sobre a
parede ventricular pela pressão e pela sobrecarga de
volume, iniciando diversos processos que levam à
hipertrofia. Estes incluem estímulos que produzem:
(PORTH, 10ª ed.).
3
Júlia Morbeck – @med.morbeck
➢ Hipertrofia simétrica, com um aumento
proporcional no comprimento e na largura dos
músculos, como ocorre nos atletas
➢ Hipertrofia concêntrica (B), com um aumento na
espessura da parede, como ocorre na
hipertensão (PORTH, 10ª ed.). Na sobrecarga
pressórica, ocorre desenvolvimento de
sarcômeros em paralelo, com maior aumento da
massa em relação ao volume ventricular
(SOCESP, 4ª ed.).
OBS.: A hipertrofia concêntrica pode preservar a função sistólica
durante um período, mas ao final o trabalho realizado pelo
ventrículo excede a reserva vascular, predispondo à isquemia
(PORTH, 10ª ed.).
➢ Hipertrofia excêntrica (C), com um aumento
desproporcional no comprimento do músculo,
como ocorre na MCD (PORTH, 10ª ed.). No caso
da sobrecarga volumétrica, ocorre hipertrofia de
sarcômeros em série, com maior aumento do
volume ventricular em relação à massa
(SOCESP, 4ª ed.).
OBS.: Os melhores indicadores de hipertrofia são o tamanho dos
núcleos e o peso do órgão, pois se alteram tanto na sobrecarga de
pressão quanto na de volume, em comparação com o normal para a
idade e o sexo. Ainda assim, quanto ao peso, não há valores bem
estabelecidos de normalidade, pois há variação conforme a massa
corpórea. Em adultos, peso acima de 350 g em homens e 300 g em
mulheres é considerado elevado, mas alguns autores já chamam de
hipertróficos corações com pesos um pouco menores que esses
(BOGLIOGO, 10ª ed.).
↠ Qualquer que seja o tipo de hipertrofia, a
vascularização do órgão também aumenta, mantendo-seem geral a proporção numérica capilar/fibra miocárdica.
Mesmo assim, como o volume dos miocardiócitos está
aumentado, pode haver carência relativa do aporte de
sangue (isquemia relativa). Assim, podem ocorrer morte
de pequenos grupos de células e, posteriormente, surgir
focos de fibrose intersticial (BOGLIOGO, 10ª ed.).
MORTE CELULAR E REMODELAMENTO CARDÍACO: PAPEL DAS CÉLULAS-
TRONCO
Classicamente, os miócitos cardíacos, assim como as células nervosas,
eram tidos como células pós-mitóticas terminais, altamente
diferenciadas e incapazes de regenerar-se. As células endoteliais,
musculares lisas e fibroblastos, por sua vez, são capazes de proliferar.
Só há pouco tempo, entretanto, demonstrou-se que também os
miócitos cardíacos são capazes de sofrer mitose; autores têm
sugerido um índice mitótico de 0,015%, o que seria suficiente para
gerar 100 g de miocárdio em menos de três meses (SOCESP, 4ª ed.).
A relevância clínica desses achados experimentais foi sedimentada em
2001 com a demonstração da existência de divisão de miócitos na
periferia de áreas necróticas, em pacientes com infarto agudo do
miocárdio. Havia dúvida se essas células que proliferavam eram
preexistentes no miocárdio ou provinham de precursores a distância
que migravam para esse ponto de regeneração (SOCESP, 4ª ed.).
Em 2002, Quaini et al. demonstraram que células de receptores de
transplante cardíaco são capazes de migrar e repovoar o enxerto,
sugerindo que a capacidade do tecido cardíaco de regenerar-se
ocorria, ao menos em parte, pela migração de células pluripotentes
extracardíacas (SOCESP, 4ª ed.).
A visão do coração como um órgão pós-mitótico tem perdido espaço
para um novo conceito no qual as células do miocárdio são
continuamente substituídas por novas populações recém-formadas de
miócitos, células musculares lisas vasculares e endoteliais. A
homeostase cardíaca seria, portanto, regulada por um compartimento
de células-tronco cardíacas multipotentes que teriam a habilidade de
se transformar em diversas linhagens do miocárdio (SOCESP, 4ª ed.).
Representação esquemática dos padrões de hipertrofia miocárdica do ventrículo esquerdo. Na
hipertensão arterial a hipertrofia é uniforme na parede ventricular e no septo interventricular. Na
sobrecarga de volume, a hipertrofia é excêntrica. Na hipertrofia compensatória pós-infarto, há perda
regional de cardiomiócitos e os demais sofrem hipertrofia na tentativa de manutenção da eficiência
da bomba.
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Júlia Morbeck – @med.morbeck
Em condições de aumento da perda celular (como na ICFEVEr), as
células-tronco seriam recrutadas em maior número. A progressão da
disfunção ventricular ocorreria por desbalanço entre a morte celular
(por necrose ou apoptose) e a capacidade tecidual de regeneração
(SOCESP, 4ª ed.).
METABOLISMO ENERGÉTICO
O miocárdio, em situações de normalidade, usa os ácidos graxos como
principal fonte de energia, sendo responsável por 70% do ATP
produzido. No entanto, em situações de estresse (isquemia, sobrecarga
pressórica), o miocárdio dá preferência à glicose como produtora de
ATP, já que ela é mais eficiente e gera maior quantidade de ATP por
molécula de oxigênio utilizada (SOCESP, 4ª ed.).
Nessas situações, o balanço oferta/demanda de oxigênio é um fator
importante. Conforme o processo de remodelamento progride,
porém, essa adaptação metabólica torna-se insuficiente, ocorrendo
redução na capacidade de oxidar glicose e diminuição da eficiência
energética. Recentemente disfunção de mitocôndrias tem sido
proposta como tendo parte importante na IC com fração de ejeção
preservada de ventrículo esquerdo (ICFEVEp) (SOCESP, 4ª ed.).
CARDIOPATIA HIPERTENSIVA (HIPERTROFIA VENTRICULAR)
↠ A hipertrofia ventricular constitui, portanto, uma
resposta adaptativa que possibilita ao coração vencer a
sobrecarga de pressão e manter o débito cardíaco.
Ocorrida a hipertrofia do ventrículo esquerdo, o indivíduo
permanece compensado hemodinamicamente por anos
ou décadas, apesar da hipertensão arterial; nesse período,
fala-se em fase compensada da cardiopatia hipertensiva
(BOGLIOGO, 10ª ed.).
↠ A capacidade de hipertrofia, no entanto, é limitada. Se
a pressão arterial não é controlada, chega um momento
em que o miocárdio não consegue se hipertrofiar mais
nem se manter hipertrofiado. O débito cardíaco não é
mais mantido, resultando em sobrecarga de volume
diastólico e dilatação da cavidade (hipertrofia excêntrica),
caracterizando insuficiência cardíaca. Esta constitui a fase
descompensada da cardiopatia hipertensiva (BOGLIOGO,
10ª ed.).
↠ Mesmo na fase compensada e por causa do aumento
progressivo da espessura da parede ventricular, a
complacência do ventrículo esquerdo diminui (surge
sobrecarga do átrio esquerdo) e aumenta a necessidade
de oxigênio, o que contribui para a isquemia miocárdica e
faz com que surjam focos de fibrose intersticial
(BOGLIOGO, 10ª ed.).
OBS.: Na forma compensada, o paciente pode ser assintomático,
embora o risco de morte súbita seja aumentado (BOGLIOGO, 10ª ed.).
Insuficiência Cardíaca
↠ A insuficiência cardíaca é definida como uma síndrome
complexa, resultante de qualquer distúrbio funcional ou
estrutural do coração, a qual ocasiona ou aumenta o risco
de desenvolver manifestações de débito cardíaco baixo
e/ou congestão pulmonar ou sistêmica (PORTH, 10ª ed.).
EPIDEMIOLOGIA
↠ A IC tem alta prevalência e grande impacto na
morbidade e mortalidade em todo o mundo, sendo hoje
um grave problema de saúde pública (SOCESP, 4ª ed.).
↠ A insuficiência cardíaca pode ocorrer em qualquer
faixa etária, mas afeta primariamente os idosos. Ainda que
as taxas de morbidade e mortalidade por DCV tenham
diminuído nas últimas décadas, a incidência de insuficiência
cardíaca está aumentando a uma taxa alarmante.
Aproximadamente, 400 mil a 700 mil pessoas são
diagnosticadas com insuficiência cardíaca a cada ano, nos
EUA (SOCESP, 4ª ed.).
↠ No Brasil, dados do Ministério da Saúde mostram que,
em 2007, quase 40% das internações hospitalares foram
relacionadas à IC descompensada. Essa proporção foi de
70% no grupo etário com mais de 60 anos (SOCESP, 4ª
ed.).
ETIOLOGIA E CLASSIFICAÇÃO
↠ A síndrome da insuficiência cardíaca pode ser
produzida por qualquer condição cardíaca que reduza a
Cardiopatia hipertensiva. Corte transversal de coração mostrando acentuada hipertrofia
concêntrica do ventrículo esquerdo (VE), em paciente com hipertensão arterial sistêmica. A
cavidade ventricular esquerda é virtual. Notam-se, ainda, áreas esbranquiçadas de fibrose nas
paredes lateral e diafragmática, sinal de isquemia prévia.
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Júlia Morbeck – @med.morbeck
capacidade de bombeamento do coração (PORTH, 10ª
ed.).
↠ Entre as causas mais comuns de insuficiência cardíaca,
podemos citar DAC, hipertensão, CMD e cardiopatia
valvar. Como muitos processos que levam à insuficiência
cardíaca são de longa duração e progridem
gradualmente, é possível prevenir a insuficiência cardíaca
em muitos casos, ou adiar a progressão por meio da
detecção e intervenção precoces. A importância dessas
abordagens é enfatizada pelas diretrizes do ACC/AHA,
que incorporaram um sistema de classificação da
insuficiência cardíaca com a inclusão de quatro estágios:
(PORTH, 10ª ed.).
➢ Estágio A: Risco alto de desenvolver insuficiência
cardíaca, mas sem anormalidades estruturais
identificadas nem sinais de insuficiência cardíaca.
➢ .Estágio B: Presença de cardiopatia estrutural,
mas sem histórico de sinais e sintomas de
insuficiência cardíaca.
➢ Estágio C: Sintomas atuais ou anteriores de
insuficiência cardíaca com cardiopatia estrutural.
➢ Estágio D: Cardiopatia estrutural avançada e
sintomas de insuficiência cardíaca em repouso,
com terapia clínica máxima.
Esse sistema de estadiamento reconhece que existem fatores de risco
estabelecidos e anormalidades estruturaisque são característicos dos
quatro estágios da insuficiência cardíaca. As pessoas normalmente
progridem de um estágio para o outro, exceto se a progressão da
doença for adiada ou interrompida pelo tratamento (PORTH, 10ª ed.).
FISIOPATOLOGIA DA IC
Débito cardíaco é a quantidade de sangue que os ventrículos ejetam
a cada minuto (PORTH, 10ª ed.).
↠ O coração tem a surpreendente capacidade de ajustar
seu débito cardíaco para atender às necessidades
variáveis do corpo. Durante o sono, o débito cardíaco
declina, e durante os exercícios, aumenta de modo
acentuado. A capacidade de aumentar o débito cardíaco
durante o aumento das atividades é denominada reserva
cardíaca (PORTH, 10ª ed.).
Por exemplo, nadadores que participam de competições e
maratonistas têm grandes reservas cardíacas. Durante os exercícios,
o débito cardíaco desses atletas aumenta rapidamente, atingindo 5 a
6 vezes o nível de repouso (PORTH, 10ª ed.).
↠ Em significativo contraste com os atletas sadios, as
pessoas com insuficiência cardíaca comumente utilizam a
reserva cardíaca durante o repouso. Para elas, subir um
lance de escadas pode ser suficiente para causar falta de
ar, por exceder a reserva cardíaca (PORTH, 10ª ed.).
CONCEITOS
A pré-carga reflete o volume ou as condições de carregamento do
ventrículo no final da diástole, pouco antes do início da sístole. É o
volume de sangue que distende o músculo cardíaco no final da diástole
e, normalmente, é determinada pelo retorno venoso para o coração
(PORTH, 10ª ed.).
Durante qualquer ciclo cardíaco, o volume máximo de sangue que
enche o ventrículo está presente no final da diástole. Conhecido como
volume diastólico final, esse volume causa um aumento no
comprimento das fibras musculares miocárdicas. Dentro de algumas
limitações, conforme o volume diastólico final ou a pré-carga
aumentam, o volume sistólico aumenta em função do mecanismo de
Frank-Starling (PORTH, 10ª ed.).
A pós-carga representa a força que o músculo cardíaco contrátil deve
gerar para ejetar o sangue do coração cheio. Os principais
componentes da pós-carga são a resistência vascular sistêmica
(periférica) e a tensão da parede ventricular. Quando a resistência
vascular sistêmica é elevada, como na hipertensão arterial, deve ser
gerado um aumento na pressão intraventricular esquerda para
primeiramente abrir a valva aórtica e, em seguida, movimentar o
sangue para fora do ventrículo e para dentro da circulação sistêmica.
Esse aumento da pressão é igual a um aumento no estresse ou na
tensão da parede ventricular. Como resultado, uma pós-carga
excessiva pode comprometer a ejeção ventricular e aumentar a
tensão da parede (PORTH, 10ª ed.).
A contratilidade do miocárdio, também conhecida como inotropismo,
se refere ao desempenho contrátil do coração. Representa a
capacidade dos elementos contráteis (filamentos de actina e miosina)
do músculo cardíaco de interagir e encurtar contra uma carga. A
contratilidade aumenta o débito cardíaco, independentemente da pré-
carga e da pós-carga (PORTH, 10ª ed.).
A interação entre os filamentos de actina e miosina durante a
contração e o relaxamento do músculo cardíaco (i. e., ligação e
desligamento das pontes cruzadas) requerem o uso da energia
fornecida pela degradação do ATP e a presença de íons cálcio (Ca++)
(PORTH, 10ª ed.).
Disfunção sistólica X Disfunção diastólica
↠ A classificação separa a fisiopatologia da insuficiência
cardíaca em insuficiências ou disfunções sistólica e
diastólica, com base na fração de ejeção ventricular
(PORTH, 10ª ed.).
Fração de ejeção é a porcentagem de sangue bombeada para fora
dos ventrículos a cada contração. Uma fração de ejeção normal é de
aproximadamente 55 a 70% (PORTH, 10ª ed.).
↠ Na disfunção ventricular sistólica, a contratilidade do
miocárdio está comprometida, levando a uma diminuição
na fração de ejeção e no débito cardíaco (PORTH, 10ª
ed.).
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Júlia Morbeck – @med.morbeck
↠ A disfunção ventricular diastólica é caracterizada por
uma fração de ejeção normal, mas com relaxamento
ventricular diastólico comprometido, levando a uma
diminuição no enchimento ventricular que, por fim, causa
diminuição na pré-carga, no volume sistólico e no débito
cardíaco (PORTH, 10ª ed.).
Muitas pessoas com insuficiência cardíaca apresentam uma
combinação de elementos de disfunções ventriculares sistólica e
diastólica, e a divisão entre disfunção sistólica e disfunção diastólica
pode ser razoavelmente artificial, em particular conforme esteja
relacionada às manifestações e ao tratamento (PORTH, 10ª ed.).
É importante observar que a disfunção ventricular não é sinônimo de
insuficiência cardíaca, mas pode levar ao seu desenvolvimento. Com
ambas as disfunções ventriculares, sistólica e diastólica, os mecanismos
compensatórios em geral conseguem manter a função cardíaca em
repouso adequada, até os estágios finais da insuficiência cardíaca
(PORTH, 10ª ed.).
DISFUNÇÃO SISTÓLICA
↠ Primariamente definida como uma diminuição na
contratilidade do miocárdio, caracterizada por uma fração
de ejeção inferior a 40%. Um coração normal ejeta em
torno de 65% do sangue presente no ventrículo ao final
da diástole. Na insuficiência cardíaca sistólica, a fração de
ejeção declina progressivamente com o aumento dos
graus de disfunção miocárdica (PORTH, 10ª ed.).
OBS.: Nos tipos mais graves de insuficiência cardíaca, a fração de
ejeção pode diminuir para uma porcentagem com dígito único
↠ Com uma diminuição na fração de ejeção, há um
aumento resultante no volume diastólico final (pré-carga),
na dilatação ventricular e na tensão da parede ventricular
e uma elevação na pressão diastólica final ventricular. O
aumento do volume, somado ao retorno venoso normal,
leva a um aumento na pré-carga ventricular (PORTH, 10ª
ed.).
↠ Acredita-se que a elevação na pré-carga seja um
mecanismo compensatório para ajudar a manter o
volume sistólico por meio do mecanismo de Frank-
Starling, apesar da diminuição da fração de ejeção.
Embora atue como um mecanismo compensatório, o
aumento da pré-carga também pode levar a uma das
consequências mais deletérias da disfunção ventricular
sistólica – o acúmulo de sangue nos átrios e no sistema
venoso (que é esvaziado no interior dos átrios), causando
edema pulmonar ou periférico (PORTH, 10ª ed.).
IMPORTANTE: A disfunção sistólica comumente resulta de condições
que comprometem o desempenho contrátil do coração (p. ex.,
cardiopatia isquêmica e miocardiopatia), produzem uma sobrecarga de
volume (p. ex., insuficiência valvar e anemia) ou geram uma sobrecarga
de pressão (p. ex., hipertensão e estenose valvar) sobre o coração. A
extensão da disfunção ventricular sistólica pode ser estimada medindo-
se o débito cardíaco e a fração de ejeção, e por meio da avaliação
das manifestações de insuficiência cardíaca do lado direito, em
particular de congestão pulmonar (PORTH, 10ª ed.).
DISFUNÇÃO DIASTÓLICA
↠ Ainda que a insuficiência cardíaca em geral esteja
associada ao comprometimento da função sistólica, em
cerca de 55% dos casos a função sistólica é preservada
e a insuficiência cardíaca ocorre exclusivamente com
base na disfunção diastólica ventricular esquerda. Embora
esses corações apresentem contração normal, o
relaxamento é anormal (PORTH, 10ª ed.).
↠ O enchimento anormal do ventrículo compromete o
débito cardíaco, especialmente durante o exercício. Para
qualquer volume ventricular determinado, as pressões
ventriculares estão elevadas, acarretando sinais de
congestão venosa pulmonar e sistêmica, de modo
idêntico ao observado em pessoas cujo coração está
dilatado e contrai inadequadamente (PORTH, 10ª ed.).
↠ A prevalência da insuficiência diastólica aumenta com
a idade, sendo mais alta nas mulheres e em pessoas com
hipertensão e fibrilação atrial (PORTH, 10ª ed.).
OBS.: Entre as condições causadoras de disfunção diastólica,estão
aquelas que impedem a expansão do ventrículo (p. ex., efusão
pericárdica, pericardite constritiva), aumentam a espessura da parede
e reduzem a dimensão da câmara (p. ex., hipertrofia do miocárdio,
MCH), e adiam o relaxamento diastólico (p. ex., envelhecimento,
cardiopatia isquêmica) (PORTH, 10ª ed.).
↠ O envelhecimento com frequência é acompanhado
por um adiamento no relaxamento do coração durante a
diástole, de modo que o enchimento diastólico tem início
enquanto o ventrículo ainda está rígido e resistente à
distensão para aceitar um aumento no volume. Um
adiamento semelhante ocorre na isquemia do miocárdio,
que resulta da falta de energia para romper o rigor
estabelecido entre os filamentos de actina e miosina, bem
como para transportar o Ca++ para fora do citosol e de
volta ao interior do retículo sarcoplasmático (PORTH, 10ª
ed.).
IMPORTANTE: A função diastólica também é influenciada pela frequência
cardíaca, a qual determina o tempo disponível para que ocorra o
enchimento ventricular. Um aumento na frequência cardíaca abrevia o
tempo de enchimento diastólico. Portanto, a disfunção diastólica pode
ser agravada por taquicardia ou arritmia e melhorar com uma queda
na frequência cardíaca, a qual possibilita um tempo maior para o
enchimento do coração (PORTH, 10ª ed.).
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Júlia Morbeck – @med.morbeck
↠ Com a disfunção diastólica, o sangue não consegue se
movimentar livremente no interior do VE e isso faz com
que a pressão intraventricular aumente com qualquer
volume. As pressões elevadas são transferidas do VE para
dentro do átrio esquerdo e do sistema venoso pulmonar,
causando uma diminuição na complacência do pulmão
que aumenta o trabalho respiratório e evoca sintomas de
dispneia (PORTH, 10ª ed.).
↠ O débito cardíaco encontra-se diminuído, não em
consequência de uma redução da fração de ejeção
ventricular conforme a observada com a disfunção
sistólica, mas em decorrência de uma diminuição no
volume (pré-carga) disponível para o débito cardíaco
adequado. O débito cardíaco inadequado durante a prática
de exercícios pode levar à fadiga das pernas e dos
músculos acessórios da respiração (PORTH, 10ª ed.).
Disfunção ventricular direita X Disfunção ventricular
esquerda
↠ A insuficiência cardíaca é classificada de acordo com o
lado do coração (ventricular direita ou ventricular
esquerda) primariamente afetado. Embora o evento inicial
que leva à insuficiência cardíaca possa ser de origem
ventricular direita ou esquerda, a insuficiência cardíaca a
longo prazo normalmente envolve ambos os lados
(PORTH, 10ª ed.).
DISFUNÇÃO VENTRICULAR DIREITA
↠ A insuficiência cardíaca do lado direito compromete a
capacidade de transporte do sangue desoxigenado da
circulação sistêmica para a circulação pulmonar.
Consequentemente, quando o ventrículo direito é
insuficiente, ocorre uma redução na quantidade de
sangue deslocada adiante, para a circulação pulmonar, e
em seguida para o lado esquerdo do coração, finalmente
causando redução do débito cardíaco ventricular
esquerdo (PORTH, 10ª ed.).
↠ Além disso, se o ventrículo direito não ocasiona o
movimento anterógrado do sangue, ocorre acúmulo ou
congestão de sangue no sistema venoso sistêmico. Isso
eleva as pressões diastólica final ventricular direita, atrial
direita e venosa sistêmica (PORTH, 10ª ed.).
↠ Um importante efeito da insuficiência cardíaca do lado
direito é o desenvolvimento de edema periférico. Os
efeitos da ação da gravidade fazem com que o edema
seja mais pronunciado nas partes inferiores do corpo
(PORTH, 10ª ed.).
OBS.: Quando a pessoa está em posição ortostática, observa-se edema
nos membros inferiores; em decúbito dorsal, o edema é observado
na área acima do sacro. O acúmulo do líquido do edema é evidenciado
por um ganho de peso (i. e., 560 mℓ de líquido acumulado resultam
em um ganho de peso de 0,45 kg). A verificação diária do peso pode
ser utilizada como um meio de avaliar o acúmulo de líquido em uma
pessoa com insuficiência cardíaca crônica. Como regra, um ganho de
peso superior a 0,9 kg em 24 h ou 2,2 kg em 1 semana é considerado
um sinal de agravamento da insuficiência (PORTH, 10ª ed.).
↠ A insuficiência cardíaca do lado direito também produz
congestão das vísceras. À medida que a distensão venosa
progride, o sangue se acumula nas veias hepáticas que
drenam na veia cava inferior, e o fígado fica ingurgitado.
Isso pode causar hepatomegalia e dor no quadrante
superior direito. Na insuficiência cardíaca do lado direito
grave e prolongada, a função hepática está
comprometida e as células hepáticas podem morrer. A
congestão da circulação porta também pode levar ao
ingurgitamento do baço e ao desenvolvimento de ascite.
A congestão do trato gastrintestinal pode interferir na
digestão e na absorção de nutrientes, causando anorexia
e desconforto abdominal (PORTH, 10ª ed.).
OBS.: Na insuficiência cardíaca do lado direito grave, as veias jugulares
externas se tornam distendidas e podem ser visualizadas quando a
pessoa está sentada ou em pé (PORTH, 10ª ed.).
CAUSAS DA DISFUNÇÃO VENTRICULAR DIREITA
As causas da disfunção ventricular direta incluem condições que
impedem o fluxo sanguíneo nos pulmões ou que comprometem a
eficácia do bombeamento do ventrículo direito (PORTH, 10ª ed.).
A insuficiência ventricular esquerda é a causa mais comum de
insuficiência ventricular direita (PORTH, 10ª ed.).
A hipertensão pulmonar prolongada também causa disfunção e
insuficiência ventricular direita. A hipertensão pulmonar ocorre em
pessoas com doença pulmonar crônica, pneumonia grave, embolia
pulmonar ou estenose aórtica ou mitral. Quando a insuficiência cardíaca
do lado direito ocorre em resposta à doença pulmonar crônica, é
denominada cor pulmonale (PORTH, 10ª ed.).
Outras causas comuns incluem estenose ou regurgitação das valvas
tricúspide ou pulmonar, infarto ventricular direito e miocardiopatia. A
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Júlia Morbeck – @med.morbeck
disfunção ventricular direita com insuficiência cardíaca também é
causada por defeitos cardíacos congênitos, como tetralogia de Fallot
e defeito do septo interventricular (PORTH, 10ª ed.).
DISFUNÇÃO VENTRICULAR ESQUERDA
↠ A insuficiência cardíaca do lado esquerdo compromete
o movimento do sangue a partir da circulação pulmonar
(de baixa pressão) até o lado arterial (de alta pressão) da
circulação sistêmica (PORTH, 10ª ed.).
↠ Com o comprometimento da função cardíaca
esquerda, ocorre uma diminuição no débito cardíaco para
a circulação sistêmica. O sangue se acumula no VE, no
átrio esquerdo e na circulação pulmonar, o que causa
uma elevação na pressão venosa pulmonar. Quando a
pressão nos capilares pulmonares (normalmente de cerca
de 10 mmHg) excede a pressão osmótica capilar (em geral
ao redor de 25 mmHg), ocorre uma transferência do
líquido intravascular para o interstício dos pulmões,
resultando em edema pulmonar (PORTH, 10ª ed.).
O episódio de edema pulmonar costuma ocorrer à noite, após a
permanência da pessoa em posição reclinada durante algum tempo e
a remoção das forças gravitacionais do sistema circulatório. Nesse
momento, o líquido do edema sequestrado nos membros inferiores
ao longo do dia retorna para o compartimento vascular e é
redistribuído para a circulação pulmonar (PORTH, 10ª ed.).
CAUSAS DA DISFUNÇÃO VENTRICULAR ESQUERDA
As causas mais comuns de disfunção ventricular esquerda são a
hipertensão e o infarto agudo do miocárdio (PORTH, 10ª ed.).
Mesmo quando a área infartada é pequena, pode haver uma área
adjacente de tecido isquêmico. Isso pode resultar em grandes áreas
de hipocinesia ou acinesia da parede ventricular, e no rápido
aparecimento de congestão e edema pulmonar (PORTH, 10ª ed.).
A estenose ou regurgitação da valva aórtica ou mitral também gera o
nível de retorno do lado esquerdo que resulta em congestão
pulmonar. Conforme a pressãopulmonar aumenta como resultado da
congestão, pode haver progressão para insuficiência cardíaca do lado
direito (PORTH, 10ª ed.).
INSUFICIÊNCIA COM DÉBITO ALTO X DÉBIDO BAIXO
Ambas são descritas em termos do débito cardíaco (PORTH, 10ª ed.).
A insuficiência com débito alto é um tipo incomum de insuficiência
cardíaca causada por uma necessidade excessiva de débito cardíaco.
Na insuficiência com débito alto, a função do coração pode estar acima
do normal e inadequada, devido às necessidades metabólicas
excessivas. As causas de insuficiência com débito alto incluem anemia
grave, tireotoxicose, condições que causam desvios arteriovenosos e
doença de Paget (PORTH, 10ª ed.).
A insuficiência com débito baixo é causada por distúrbios que
comprometem a capacidade de bombeamento do coração, como
cardiopatia isquêmica e miocardiopatia. A insuficiência com débito baixo
é caracterizada por evidências clínicas de vasoconstrição sistêmica,
com extremidades frias, pálidas e por vezes cianóticas Nos casos
avançados de insuficiência com débito baixo, as reduções acentuadas
no volume sistólico são evidenciadas por uma menor amplitude da
pressão de pulso. Contrariamente, na insuficiência com débito alto, as
extremidades normalmente são quentes e ruborizadas, e a pressão
de pulso é normal ou apresenta amplitude aumentada (PORTH, 10ª ed.).
Mecanismos Compensatórios
↠ Na insuficiência cardíaca, a reserva cardíaca é mantida
em grande parte por respostas compensatórias ou
adaptativas, como o mecanismo de Frank-Starling, a
ativação de influências neuro-humorais como os reflexos
do sistema nervoso simpático, o mecanismo renina-
angiotensina-aldosterona, PN cardíacos, substâncias
vasoativas produzidas localmente, além de hipertrofia e
remodelamento do miocárdio (PORTH, 10ª ed.).
↠ A primeira dessas adaptações ocorre rapidamente, em
minutos ou horas após a disfunção miocárdica, e pode
ser adequada para manter o desempenho de
bombeamento geral do coração em níveis relativamente
normais (PORTH, 10ª ed.).
↠ A hipertrofia e o remodelamento do miocárdio
ocorrem lentamente, no decorrer de meses a anos, e
desempenham papel importante na adaptação à
sobrecarga hemodinâmica a longo prazo
9
Júlia Morbeck – @med.morbeck
↠ Na insuficiência cardíaca, as diminuições iniciais na
função cardíaca podem ser imperceptíveis, uma vez que
esses mecanismos compensatórios mantêm o débito
cardíaco. Contudo, além de contribuírem para a
adaptação do coração insuficiente, tais mecanismos
também favorecem a fisiopatologia da insuficiência
cardíaca (PORTH, 10ª ed.).
MECANISMO DE FRANK-STARLING
↠ O mecanismo de Frank-Starling opera por meio de
um aumento na pré-carga. Com o aumento do
enchimento diastólico, ocorre ampliação no estiramento
das fibras miocárdicas e uma aproximação mais ideal das
cabeças dos filamentos grossos de miosina aos sítios de
ligação da troponina nos filamentos finos de actina,
resultando em aumento na força da contração
subsequente (PORTH, 10ª ed.).
↠ Conforme ilustrado na figura abaixo, não há uma curva
única de Frank-Starling. Um aumento na contratilidade, ou
no inotropismo, aumentará o débito cardíaco em qualquer
volume diastólico final, causando deslocamento da curva
para cima e à esquerda, enquanto uma diminuição no
inotropismo causará o deslocamento da curva para baixo
e à direita (PORTH, 10ª ed.).
↠ Um maior estiramento muscular, como observado
com o mecanismo de Frank-Starling, também causa
aumento na tensão da parede ventricular, com
consequente aumento do consumo de oxigênio do
miocárdio. A tensão aumentada da parede amplia as
demandas de oxigênio do miocárdio, o que pode produzir
isquemia e contribuir para o comprometimento adicional
do inotropismo, deslocando a curva de Frank-Starling
ainda mais para baixo e à direita. Em tal situação, o
aumento na pré-carga deixa de contribuir para a
compensação e passa a agravar a insuficiência cardíaca.
(PORTH, 10ª ed.).
ATIVIDADE DO SISTEMA NERVOSO SIMPÁTICO
↠ A estimulação do sistema nervoso simpático
desempenha um papel importante na resposta
compensatória à diminuição do débito cardíaco e do
volume sistólico. Tanto o tônus simpático cardíaco quanto
os níveis de catecolaminas (adrenalina e noradrenalina)
estão elevados nos estágios tardios da maioria dos tipos
de insuficiência cardíaca. Por meio da estimulação direta
da frequência e da contratilidade cardíacas, da regulação
do tônus vascular e da intensificação da retenção renal
de sódio e água, o sistema nervoso simpático inicialmente
ajuda a manter a perfusão dos diversos órgãos do corpo.
Naqueles que progridem para insuficiência cardíaca mais
grave, o sangue é desviado para as circulações mais
críticas (cerebral e coronariana) (PORTH, 10ª ed.).
↠ Embora o objetivo da resposta do sistema nervoso
simpático seja aumentar a pressão arterial e o débito
cardíaco, constituindo o mecanismo compensatório mais
imediato, pode se tornar uma adaptação inadequada. O
aumento na atividade simpática por meio da estimulação
Curvas da função ventricular esquerda. Curva A: Curva da função normal, com um débito cardíaco normal
e pressão de enchimento DFVE ideal. Curva B: Insuficiência cardíaca compensada, com débito cardíaco
normal nas pressões DFVE mais altas. Curva C: Insuficiência cardíaca descompensada, com uma diminuição
no débito cardíaco e elevação DFVE, com elevação final da pressão capilar pulmonar e desenvolvimento
de congestão pulmonar. Curva D: Choque cardiogênico, com uma diminuição extrema no débito cardíaco
e um aumento acentuado nas pressões DFVE.
10
Júlia Morbeck – @med.morbeck
dos receptores beta-adrenérgicos do coração acarreta
taquicardia, vasoconstrição e arritmias cardíacas. De modo
agudo, a taquicardia aumenta significativamente a carga
de trabalho do coração, o que incrementa a demanda de
oxigênio do miocárdico, e tanto a isquemia quanto a
miocardiopatia contribuem para o agravamento da
insuficiência cardíaca (PORTH, 10ª ed.).
MECANISMO RENINA-ANGIOTENSINA-ALDOSTERONA
↠ Um dos efeitos mais importantes da redução do débito
cardíaco na insuficiência cardíaca é a redução do fluxo
sanguíneo renal e da taxa de filtração glomerular, levando
à retenção de sódio e água. Com a diminuição do fluxo
sanguíneo renal, ocorre aumento progressivo da
secreção de renina pelos rins, acompanhado de
aumentos paralelos nos níveis circulantes de angiotensina
II. O aumento da concentração de angiotensina II contribui
diretamente para uma vasoconstrição generalizada e
excessiva, além de facilitar a liberação de noradrenalina e
inibir a sua recaptação pelo sistema nervoso simpático
(PORTH, 10ª ed.).
↠ A angiotensina II também proporciona um poderoso
estímulo para a produção de aldosterona pelo córtex
adrenal. A aldosterona aumenta a reabsorção tubular de
sódio, que é acompanhada por um aumento na retenção
de água. Como a aldosterona é metabolizada no fígado,
seus níveis aumentam ainda mais quando a insuficiência
cardíaca causa congestão hepática. A angiotensina II
também aumenta o nível do hormônio antidiurético
(ADH), que atua como vasoconstritor e inibidor da
excreção de água (PORTH, 10ª ed.).
↠ Na insuficiência cardíaca, o aumento progressivo de
líquido leva à dilatação ventricular e ao aumento da tensão
da parede. Por fim, o aumento da demanda de oxigênio
que acompanha a elevação da tensão da parede supera
o mecanismo compensatório de Frank-Starling, reduzindo
o inotropismo e causando progressão da insuficiência
cardíaca (PORTH, 10ª ed.).
PEPTÍDEOS NATRIURÉTICOS
↠ O músculo cardíaco produz e secreta uma família de
hormônios peptídicos correlatos (NP), promotores de
potentes efeitos diuréticos, natriuréticos e sobre o
músculo liso vascular, os quais também interagem com
outros mecanismos neuro-humorais que afetam a função
cardiovascular.traz o sangue das áreas do
corpo abaixo do diafragma;
➢ o seio coronário coleta o sangue que drena do
miocárdio.
↠ Quatro veias pulmonares entram no átrio esquerdo,
constituindo a maior parte da base do coração. Essas
veias, as quais transportam sangue dos pulmões de volta
ao coração, são melhor observadas em uma vista
posterior (MARIEB, 3ª ed.).
VENTRÍCULOS: AS CÂMARAS EJETORAS
↠ Juntos, os ventrículos (ventre = interno) constituem a
maior parte do volume do coração. Como mencionado
anteriormente, o ventrículo direito forma a maior parte
da superfície anterior do coração, e o ventrículo
esquerdo predomina na sua superfície póstero-inferior
(MARIEB, 3ª ed.).
↠ Marcando internamente as paredes das câmaras
ventriculares, há feixes irregulares de músculo chamados
de trabéculas cárneas ("barras transversais de carne").
Ainda outros feixes de músculo se projetam na cavidade
ventricular, os músculos papilares, em forma de cone, os
quais desempenham um papel na função valvar (MARIEB,
3ª ed.).
↠ Quando os ventrículos contraem, o sangue é propelido
do coração para a circulação. O ventrículo direito bombeia
sangue para o tronco pulmonar, o qual leva o sangue para
os pulmões, onde ocorrem as trocas gasosas. O
ventrículo esquerdo ejeta sangue na parte ascendente da
aorta, a maior artéria do corpo (MARIEB, 3ª ed.).
Como a pressão arterial é muito maior na circulação sistêmica do que
na circulação pulmonar, o ventrículo esquerdo trabalha mais do que o
ventrículo direito. (MOORE, 7ª ed.)
A anatomia dos dois ventrículos confirma esta diferença funcional – a
parede muscular do ventrículo esquerdo é consideravelmente mais
espessa do que a parede do ventrículo direito. Observe também que
o lúmen do ventrículo esquerdo é mais ou menos circular, em
contraste com o do ventrículo direito, cujo formato é discretamente
semilunar. (TORTORA, 14ª ed.)
VALVAS CARDÍACAS
↠ O sangue flui através do coração em uma direção,
dos átrios para os ventrículos, e sai pelas grandes artérias
que deixam o coração por sua face superior. Esse tráfego
de uma via é garantido por quatro valvas que abrem e
fecham em resposta às diferenças de pressão sanguínea
presentes nos seus dois lados (MARIEB, 3ª ed.).
↠ Cada uma das quatro valvas ajuda a assegurar o fluxo
unidirecional de sangue através da abertura ao possibilitar
que o sangue passe e, em seguida, se fechando para
impedir o seu refluxo (TORTORA, 14ª ed.).
VALVAS ATRIOVENTRICULARES
↠ As duas valvas atrioventriculares (AV), localizadas em
cada junção atrioventricular, impedem o fluxo retrógrado
para os átrios quando os ventrículos contraem (MARIEB,
3ª ed.).
↠ A valva AV direita, valva tricúspide, tem três válvulas
flexíveis (cúspides ou folhetos do endocárdio reforçados
por tecido conjuntivo). A valva AV esquerda, com duas
válvulas, é denominada valva mitral por causa da sua
4
Júlia Morbeck – @med.morbeck
semelhança com a mitra ou chapéu do bispo (MARIEB, 3ª
ed.).
↠ Acopladas a cada válvula da valva AV estão pequenas
cordas brancas de colágeno chamadas de cordas
tendíneas ("tiras do coração"), as quais prendem as
válvulas aos músculos papilares que se projetam das
paredes ventriculares (MARIEB, 3ª ed.).
Quando o coração está completamente relaxado, as válvulas da valva
AV pendem frouxamente sobre a câmara ventricular e o sangue flui
para os átrios e depois para os ventrículos através das valvas AV.
Quando os ventrículos contraem, comprimindo o sangue nas suas
câmaras, a pressão intraventricular aumenta, pressionando o sangue
para cima contra as válvulas das valvas. Como resultado, as
extremidades das válvulas se encontram, fechando as valvas. As cordas
tendíneas e os músculos papilares servem como fios-guia para
prender as válvulas das valvas na posição fechada. Se as válvulas não
fossem ancoradas dessa maneira, elas seriam empurradas para cima,
para dentro do átrio, da mesma maneira que um guarda-chuva virado
ao avesso em um dia de vento. Os músculos papilares contraem antes
da outra musculatura ventricular, de tal forma que eles estiram as
cordas tendíneas antes que a força de contração ventricular
arremesse fortemente o sangue contra as válvulas das valvas AV
(MARIEB, 3ª ed.).
VALVAS SEMILUNARES
↠ As valvas aórtica e pulmonar (semilunares, SL)
guardam a base das grandes artérias que partem dos
ventrículos (parte ascendente da aorta e do tronco
pulmonar, respectivamente) e impedem o fluxo
retrógrado para os ventrículos (MARIEB, 3ª ed.).
↠ Cada valva SL é formada por três válvulas, é em forma
de bolsa, com formato aproximado de meia-lua (semilunar
= meia-lua). Da mesma forma que as valvas AV, as valvas
SL abrem e fecham em resposta às diferenças de
pressão. No caso das SL, quando os ventrículos estão
contraindo e a pressão intraventricular aumenta acima da
pressão na aorta e no tronco pulmonar, as valvas SL são
forçadas a abrir, e suas válvulas se achatam contra as
paredes arteriais quando o sangue passa por elas. Quando
os ventrículos relaxam e o sangue (não mais propelido
para a frente pela pressão da contração ventricular) flui
para trás, em direção ao coração, ele enche as válvulas
e fecha as valvas (MARIEB, 3ª ed.).
5
Júlia Morbeck – @med.morbeck
OBS.: Um dado muito importante a acrescentar é que não há valvas
guardando as entradas das veias cavas e pulmonares nos átrios direito
e esquerdo, respectivamente (MARIEB, 3ª ed.). Quando os átrios se
contraem, um pequeno volume de sangue reflui dos átrios para estes
vasos. No entanto, o refluxo é minimizado por um mecanismo
diferente; conforme o músculo atrial se contrai, ele comprime e quase
colapsa as fracas paredes dos pontos de entrada das veias (TORTORA,
14ª ed.).
TRAJETO DO SANGUE ATRAVÉS DO CORAÇÃO
↠ Os vasos sanguíneos que levam e trazem sangue dos
pulmões formam o circuito pulmonar, o qual efetua as
trocas gasosas. Os vasos sanguíneos que levam e trazem
o suprimento funcional de sangue de todos os tecidos do
corpo constituem o circuito sistêmico (MARIEB, 3ª ed.).
O lado direito do coração é a bomba do circuito pulmonar. O sangue
que retoma do corpo é relativamente pobre em oxigênio e rico em
dióxido de carbono. Ele entra no átrio direito e passa ao ventrículo
direito, o qual o bombeia aos pulmões via tronco pulmonar. Nos
pulmões, o sangue descarrega dióxido de carbono e capta oxigênio. O
sangue recém-oxigenado é levado de volta ao lado esquerdo do
coração, pelas veias pulmonares (MARIEB, 3ª ed.).
O lado esquerdo do coração é a bomba do circuito sistêmico. O sangue
recém-oxigenado que deixa os pulmões retoma ao átrio esquerdo e
passa ao ventrículo esquerdo, o qual o bombeia para a aorta. De lá, o
sangue é transportado vias artérias sistêmicas menores aos tecidos do
corpo, onde gases e nutrientes são transportados através das paredes
capilares (MARIEB, 3ª ed.).
Esse ciclo se repete continuamente. Embora sejam bombeados
volumes iguais de sangue para os circuitos pulmonar e sistémico, em
qualquer momento, os dois ventrículos possuem cargas de trabalho
muito diferentes. O circuito pulmonar, suprido pelo ventrículo direito, é
uma circulação curta de baixa pressão, enquanto o circuito sistêmico,
associado com o ventrículo esquerdo, segue uma longa via através de
todo o corpo e depara-se com cerca de cinco vezes mais atrito ou
resistência ao fluxo sanguíneo. Essa diferença funcional é revelada na
anatomia dos dois ventrículos (MARIEB, 3ª ed.).
Circulação coronariana
OBS.: O miocárdio é muito espesso para fazer da difusão um meio
prático de entrega de nutrientes (MARIEB, 3ª ed.).
↠ A circulação coronariana, o suprimento sanguíneo
funcional do coração, é a circulação mais curta do corpo.
O suprimento arterial da circulação coronariana é
fornecido pelas artérias coronárias direita e esquerda,
ambas sendo originadas da aorta e circundando oEntre os quatro NP conhecidos mais
comumente associados à insuficiência cardíaca, estão o
peptídio natriurético atrial (ANP) e o peptídio natriurético
cerebral (BNP) (PORTH, 10ª ed.).
Como seu nome indica, o ANP é liberado pelas células atriais em
resposta ao estiramento atrial, à pressão ou à sobrecarga de líquido.
O BNP é secretado primariamente pelos ventrículos em resposta ao
aumento da pressão ventricular ou à sobrecarga de líquido (PORTH,
10ª ed.).
↠ Em resposta ao aumento do estiramento das câmaras
e da pressão, promovem natriurese e diurese rápidas e
transitórias, por meio do aumento na taxa de filtração
glomerular e da inibição da reabsorção tubular de sódio e
água (PORTH, 10ª ed.).
↠ Os níveis circulantes de ANP e BNP estão
consistentemente elevados nas pessoas com insuficiência
cardíaca (PORTH, 10ª ed.).
ENDOTELINAS
↠ As endotelinas, liberadas pelas células endoteliais na
circulação, são peptídios vasoconstritores potentes. Assim
como a angiotensina II, a endotelina também pode ser
sintetizada e liberada por diversos tipos celulares, incluindo
os miócitos cardíacos. Foram identificados quatro
peptídios de endotelina (endotelina 1 [ET-1], ET-2, ET-3 e
ET-4) (PORTH, 10ª ed.).
↠ Observou-se que as endotelinas induzem a
proliferação de células musculares lisas vasculares e a
hipertrofia dos miócitos cardíacos; aumentam a liberação
de ANP, aldosterona e catecolaminas; e exercem efeitos
antinatriuréticos sobre os rins (PORTH, 10ª ed.).
↠ A produção de ET-1 é regulada por muitos fatores
significativos para a função cardiovascular e com
implicações para a insuficiência cardíaca (PORTH, 10ª ed.).
Manifestações Clínicas da IC
↠ Dependem da extensão e do tipo de disfunção
cardíaca presente, bem como da rapidez com que se
desenvolve. Uma pessoa com insuficiência cardíaca
anteriormente compensada estável pode desenvolver
sinais de insuficiência cardíaca pela primeira vez quando a
condição avançar a um ponto crítico, como no aumento
progressivo da hipertensão pulmonar em pessoas com
regurgitação da valva mitral (PORTH, 10ª ed.).
↠ A gravidade e a progressão dos sintomas dependem
da extensão e do tipo de disfunção presente (sistólica
versus diastólica, do lado direito versus esquerdo) (PORTH,
10ª ed.).
11
Júlia Morbeck – @med.morbeck
↠ Os sinais e sintomas incluem falta de ar e outras
manifestações respiratórias, fadiga e tolerância limitada aos
exercícios, retenção de líquido e edema, caquexia e
desnutrição, e cianose. As pessoas com insuficiência
cardíaca grave podem apresentar diaforese e taquicardia
(PORTH, 10ª ed.).
MANIFESTAÇÕES RESPIRATÓRIAS
↠ A falta de ar decorrente da congestão da circulação
pulmonar é uma das principais manifestações da
insuficiência cardíaca do lado esquerdo. A falta de ar (i. e.,
dificuldade respiratória) que pode ser percebida é
denominada dispneia (PORTH, 10ª ed.).
FADIGA, FRAQUEZA E CONFUSÃO MENTAL
↠ A fadiga e a fraqueza com frequência acompanham a
diminuição do débito do VE. A fadiga cardíaca é diferente
da fadiga geral, no sentido de normalmente estar ausente
pela manhã, porém surgir e progredir com o aumento da
atividade no decorrer do dia (PORTH, 10ª ed.).
↠ Na insuficiência cardíaca do lado esquerdo aguda ou
grave, o débito cardíaco pode diminuir a níveis
insuficientes para o suprimento adequado de oxigênio
para o cérebro, causando assim confusão mental e
alterações comportamentais (PORTH, 10ª ed.).
Fatores que influenciam na adesão do tratamento
↠ Um documento da Organização Mundial da Saúde
(OMS) publicado em 2003 definiu a adesão como o “grau
em que o comportamento de uma pessoa – tomar o
medicamento, seguir uma dieta e/ou executar mudanças
no estilo de vida (MEV) – corresponde às
recomendações acordadas com um prestador de
assistência à saúde” (DIRETRIZ, 2020).
↠ Em 2012, em um novo documento da OMS, os autores
diferenciam os processos, como a adesão aos
medicamentos e o manejo da adesão. De acordo com tal
diretriz, a adesão ao medicamento é um processo
caracterizado por três grandes componentes: (DIRETRIZ,
2020).
➢ o início;
➢ a implementação;
➢ a descontinuação.
O início é o tempo desde a prescrição até a tomada da primeira dose
do medicamento; a implementação corresponde à coincidência entre
a dose que o paciente toma e a dosagem prescrita; e a
descontinuação marca a interrupção, quando se omite a próxima dose
a ser tomada e se interrompe o tratamento posteriormente
(DIRETRIZ, 2020).
↠ Os problemas de adesão nem sempre são fáceis de
se detectar e quantifica-los é ainda mais difícil. Para
melhorar o controle da HA, é importante reunir esforços
no sentido de identificar os pacientes não aderentes ao
tratamento proposto (DIRETRIZ, 2020).
↠ O abandono mostra-se frequente nos primeiros
meses do tratamento, além de os pacientes poderem
tomar os medicamentos em desacordo com a prescrição
médica (DIRETRIZ, 2020).
A falta de adesão ao tratamento é frequentemente definida quando
os hipertensos fazem uso de menos de 80% dos medicamentos
prescritos. No entanto, pode variar ao longo de um contínuo de zero
e até ultrapassar 100% naqueles que usam mais do que foi prescrito,
o que também se considera não adesão ao tratamento (DIRETRIZ,
2020).
MÉTODOS DE AVALIAÇÃO DA ADESÃO DO PACIENTE
↠ Existem várias formas para medir a adesão ao
tratamento medicamentoso anti-hipertensivo na prática
clínica e em pesquisa, sendo classificados como:
(DIRETRIZ, 2020).
➢ métodos diretos os que há comprovação
objetiva da tomada do medicamento pelo
paciente;
➢ métodos indiretos aqueles em que estratégias
diversas estimam ou não a tomada do
medicamento prescrito.
↠ A escolha do melhor método dependerá da finalidade
do uso da informação obtida, dos recursos disponíveis
para a avaliação, da aceitação, da conveniência para o
paciente do método a ser utilizado e dos custos
envolvidos (DIRETRIZ, 2020).
ATENÇÃO: Medir a adesão ao tratamento é uma tarefa complexa. Não
há um método considerado padrão-ouro que represente as várias
dimensões que envolvem o processo DIRETRIZ, 2020).
12
Júlia Morbeck – @med.morbeck
A OMS sugere o uso de um método indireto associado a um método
direto para a medida da adesão para doenças crônicas. No contexto
da HA, os métodos indiretos acabam sendo os mais utilizados, pois os
métodos diretos ainda carecem de validação, são caros e estão
somente disponíveis em ambientes de pesquisa (DIRETRIZ, 2020).
FATORES QUE INTERFEREM NA ADESÃO AO TRATAMENTO
↠ A adesão ao tratamento é um processo complexo e
multidimensional no qual se identificam barreiras reunidas
em cinco dimensões que podem fornecer uma visão mais
abrangente para os profissionais de saúde, visando a
intervenções eficazes para o melhor controle da PA.
(DIRETRIZ, 2020).
ESTRATÉGIAS PARA PROMOVER A ADESÃO AO TRATAMENTO
ANTI-HIPERTENSIVO
↠ A falta de adesão ao tratamento tem como principal
consequência a falta de controle da HA e, portanto, o
aumento de lesões em órgãos-alvo (LOA) e da
morbimortalidade cardiovascular (CV). Essas
consequências, por sua vez, têm grande impacto
econômico, devido a maiores gastos de atendimentos de
saúde e aposentadorias precoces. Por isso, a adoção de
estratégias com o objetivo de promover uma melhor
adesão ao tratamento anti-hipertensivo, seja de forma
isolada ou em conjunto, tem como finalidade a mudança
desse cenário (DIRETRIZ, 2020).
↠ Entre todas as estratégias disponíveis, as mais factíveis
de serem implementadas no Brasil e com maiores
evidências, destacam-se: (DIRETRIZ, 2020).
➢ Automedida da PA (Grau de Recomendação
I/Nível de Evidência B);
➢ Esquemas posológicos com maior comodidade:
menores doses possíveis, tomada em dose
única diária, associação de anti-hipertensivos em
um mesmo comprimido (Grau de
Recomendação I/Nível de Evidência A);➢ Implementação de equipes multiprofissionais no
cuidado de pacientes hipertensos com médico,
enfermeiro, farmacêutico, educador físico,
nutricionista, psicólogo, assistente social e
agentes comunitários de saúde (Grau de
Recomendação I/Nível de Evidência B).
CONCLUSÃO
Otimizar os índices de adesão ao tratamento anti-hipertensivo contribui
para a diminuição dos custos de morbidade, mortalidade e com a
assistência à saúde (DIRETRIZ, 2020).
Atualmente, dispõe-se de arsenal terapêutico por meio de tratamento
medicamentoso e não medicamentoso com eficácia comprovada. A
13
Júlia Morbeck – @med.morbeck
adesão às propostas de tratamento e consequente controle dos
hipertensos ainda é um grande desafio para todos profissionais de
saúde (DIRETRIZ, 2020).
Dessa maneira, reunir esforços para atender às reais necessidades da
população hipertensa mostra-se tarefa primordial para a mudança do
atual panorama no contexto da HA (DIRETRIZ, 2020).
Referências
BARROSO et. al. Diretrizes Brasileiras de Hipertensão
Arterial - 2020. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 2021.
CONSOLIM-COLOMBO et. al. Tratado de Cardiologia
SOCESP, 4ª edição – Barueri – São Paulo: Manole, 2019.
NORRIS. PORTH Fisiopatologia, 10ª edição – Rio de Janeiro:
guanabara Koogan, 2021.
FILHO, G. B. Bogliogo, Patologia, 10ª edição – Rio de
Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.
1
Júlia Morbeck – @med.morbeck
Objetivos
1- Discutir sobre protozoários;
2- Identificar o agente etiológico da Doença de
Chagas, sua epidemiologia e seus fatores de
risco;
3- Compreender a fisiopatologia da Doença de
Chagas (Ciclo biológico; Ativação do sistema
imune);
4- Conhecer o diagnóstico, tratamento (mecanismo
de ação) e prevenção da Doença de Chagas;
5- Analisar como funciona a Saúde Indígena.
Protozoários
↠ Os protozoários são organismos microscópicos,
unicelulares e eucariotas, isto é, providos de um núcleo
diferenciado e de outras organelas membranosas, como
mitocôndrias, aparelho de Golgi, lisossomos, vacúolos,
dentre outras (BATISTA, 2020)
↠ O conteúdo nuclear está separado do citoplasma pela
membrana nuclear e o material genético (DNA) está
contido em estruturas especiais, os cromossomos. Nisto se
diferenciam das bactérias e algas azuis (cianofíceas) cujas células, do
tipo procariota, tem seu DNA mergulhado no citoplasma (REY, 4ª
ed.).
↠ Dentre as organelas, podem ser destacadas as
mitocôndrias, estruturas relacionadas com a produção de
energia via respiração celular e que estão ausentes em
protozoários anaeróbio (BATISTA, 2020)
↠ Um protozoário é, ao mesmo tempo, uma célula e
um ser completo, capaz de prover sua nutrição,
crescimento, diferenciação e reprodução, transmitindo as
gerações seguintes a totalidade das informações
genéticas indispensáveis à manutenção das
características da espécie (REY, 4ª ed.).
↠ A forma varia consideravelmente, podendo apresentar
simetria bilateral ou não e modificar-se ciclicamente no
curso da existência. Os que desenvolvem movimentos
ameboides não têm forma constante (REY, 4ª ed.).
↠ A movimentação dos protozoários ocorre por
intermédio de uma ou da associação de duas ou mais das
seguintes estruturas: flagelos, cílios, pseudópodos e
microtúbulos subpeliculares (BATISTA, 2020).
↠ A reprodução dos protozoários pode ser assexuada,
como em amebas e flagelados que infectam os seres
humanos, ou assexuada e sexuada, como nos
protozoários de importância médica, pertencentes ao filo
Apicomplexa (BATISTA, 2020)
↠ Mais de 60.000 espécies foram descritas, a maioria das
quais são organismos de vida livre; os protozoários são
encontrados em quase todos os hábitats possíveis.
Algumas espécies são consideradas comensais, ou seja,
normalmente não são prejudiciais; enquanto outras são
agentes patogênicos e, geralmente, causam alguma
doença (BATISTA, 2020)
↠ A transmissão dos protozoários intestinais,
normalmente, ocorre através da via fecal-oral, enquanto
os que vivem no sangue ou nos tecidos do Homo sapiens
são transmitidos a outros seres humanos, por exemplo a
partir de artrópodes vetores (BATISTA, 2020)
Doença de Chagas
↠ A tripanossomíase americana, ou doença de Chagas,
tem por agente causal o Trypanosoma cruzi, que
determina no homem quadros clínicos com
características e consequências muito variadas (REY, 4ª
ed.).
O professor Chagas havia recebido a tarefa de controlar a malária na
região de Minas Gerais, onde se encontravam os trabalhadores da
Estrada de Ferro Central do Brasil; entretanto, teve sua curiosidade
despertada pela presença de um inseto, comum na área, que picava
os indivíduos durante as horas de sono e que podia ser encontrado
nas frestas das casas cujas paredes eram, em sua maioria, de pau a
pique. Devido a esse fato e a frequente sintomatologia cardíaca e
gastrintestinal, que ainda não estava elucidada entre os habitantes locais
naquela época, Chagas iniciou uma pesquisa envolvendo o inseto e os
residentes na cidade, com o propósito de desvendar possíveis
associações entre tais ocorrências (BATISTA, 2020)
Em 1908, o médico e cientista brasileiro Carlos Chagas encontrou pela
primeira vez os flagelados no intestino de triatomíneos, em Lassance,
Minas Gerais (Brasil). Suspeitando que esses insetos hematófagos
pudessem transmitir o parasito ao homem ou a outros animais, fez
inocular macacos, que desenvolveram parasitemia e uma doença febril
(REY, 4ª ed.).
Coube-lhe diagnosticar e estudar clinicamente o primeiro caso humano
da tripanossomíase americana, encontrado na mesma área endêmica,
em 1909 (REY, 4ª ed.). Como consequência de sua pesquisa, descobriu
um novo protista, o qual denominou Trypanosoma cruzi (BATISTA,
2020)
↠ Sua transmissão pode ocorrer ao homem via vetorial
(repasto sanguíneo com excretas de triatomíneo na pele
ou mucosa lesada); via transfusional, por transfusão de
hemoderivados ou transplantes de órgão por doadores
contaminados; via vertical ou congênita entre gestante e
feto; acidentes laboratoriais; e, por fim, menos comum,
por via oral (ALENCAR et. al., 2020).
APG 04 – “O INIMIGO MORA AO LADO”
2
Júlia Morbeck – @med.morbeck
CARACTERÍSTICAS DO PARASITA
↠Trypanosoma cruzi é um flagelado da família
Trypanosomatidae, que parasita mamíferos e tem como
hospedeiros invertebrados numerosas espécies de
hemípteros hematófagos da família Reduviidae (REY, 4ª
ed.).
↠ A transmissão do inseto ao homem resulta, em geral,
de processo contaminativo da conjuntiva, das mucosas ou
de lesões cutâneas (inclusive o local de picada do inseto)
com as fezes do inseto. Nos hospedeiros vertebrados, o
parasito multiplica-se habitualmente sob a forma
amastigota intracelular (REY, 4ª ed.).
OBS: T. cruzi apresenta muitas variações morfológicas, fisiológicas e
ecológicas, além de variações quanto à sua infectividade e
patogenicidade, o que leva os autores a pensar que não se trate de
uma espécie bem definida mas sim de um “complexo cruzi”,
englobando várias entidades difíceis, por ora, de definição taxonômica
precisa (REY, 4ª ed.).
↠ Isso resultou na classificação desses protozoários nos
seguintes grupos (Rey, 2008): (BATISTA, 2020)
➢ Grupo 1: nesse grupo estão incluídos os protistas de animais
silvestres, notadamente encontrados na Região Amazônica,
responsáveis por causar infecções eventuais e
assintomáticas no homem.
➢ Grupo 2: representa o grupo de maior importância médica,
em que estão os flagelados que causam os tipos graves e
sintomáticos da doença. Estes são encontrados nas áreas
endêmicas, e o Triatoma infestans é o principal vetor.
➢ Grupo 3: engloba os protozoários relacionados com a
infecção de animais silvestres e que raramente causam
infecção humana.
↠ Durante seu ciclo evolutivo, o T. cruzi apresenta
características morfológicas que variam e que podem ser
identificadas, entre outros aspectos,de acordo com a
posição do flagelo e a posição do cinetoplasto, uma
mitocôndria única rica em DNA mitocondrial (BATISTA,
2020)
OBS.: Cinetoplasto – mitocôndria única e ramificada e se estende por
todo o corpo celular
↠ O quadro abaixo aponta essas características de
acordo com a morfologia, a posição do flagelo e do
cinetoplasto, o hospedeiro e o hábitat das formas
evolutivas do T. cruzi (BATISTA, 2020)
CARACTERÍSTICAS DO VETOR
↠ Os insetos adultos recebem, em diferentes regiões do
Brasil, os nomes de barbeiro, bicho-da-parede, bicudo,
chupão, chupança e vários outros. Os hemípteros são
geralmente muito semelhantes entre si (FERREIRA, 2ª ed.).
↠ A probóscida dos triatomíneos, adaptada à sucção de
sangue, é curta (composta de três segmentos) e reta.
Quando em repouso, ela não ultrapassa para trás a
inserção do primeiro par de patas do inseto (FERREIRA,
2ª ed.).
3
Júlia Morbeck – @med.morbeck
Epidemiologia da Doença de Chagas
↠ A Doença de Chagas (DC) destaca-se como uma
parasitose endêmica em países do continente americano.
Nos 21 países das Américas, afeta aproximadamente seis
milhões de pessoas, com incidência anual de 30 mil casos
novos na região, ocasionando em média, 14.000 mortes
por ano e 8.000 recém-nascidos infectados durante a
gestação (ALENCAR et. al., 2020).
↠ Como consequência de correntes migratórias durante
as últimas décadas, a partir de países onde a doença é
endêmica, a Doença de Chagas (DC) tem sido detectada
em taxas significativas em vários pontos do globo
terrestre, principalmente Estados Unidos, Canadá,
Espanha, França, Suíça, Itália, Japão, países emergentes
da Ásia e Austrália (SOCESP, 4ª ed.).
↠ A evolução das taxas de incidência no Brasil e por
Região, sendo visível a influência do crescimento desta
doença na Região Norte. As incidências desta doença na
região Sudeste, Sul e Centro-Oeste foram insignificantes.
A incidência da Região Nordeste apresenta um valor
superior ao das demais, mas muito inferior ainda a região
Norte, provavelmente devido ao nível de urbanização
maior que a Região Norte (ALENCAR et. al., 2020).
↠ A situação apresentada na região Norte corrobora a
relação desta doença com condições relacionadas a falta
de urbanização, saneamento, destinação inadequada de
resíduos sólidos, desigualdades sociais e outras tantas
condições inerentes à regiões mais pobres do país,
atrelado ao fato de que esta região por suas condições
geográficas (clima, temperatura, umidade e vegetação,
por exemplo) favorece as condições necessárias para a
propagação de vetores (ALENCAR et. al., 2020).
↠ Os achados podem indicar uma possível associação
entre a infecção chagásica e indivíduos do sexo
masculino, potencialmente ocasionado pelas atividades
laborais executadas. Outra hipótese sugerida é que isso
pode ocorrer devido a transmissão silvestre, uma vez que
são os homens que adentram na mata para caçar ou
cuidar da lavoura, por dias consecutivos, expondo-se mais
ao vetor (ALENCAR et. al., 2020).
↠ Se comparado à malária (outra parasitose bastante
importante), o impacto de Anos Potenciais de Vida
Ajustados por Incapacidade (DALYs) pode ser até 7,5
vezes maior (ALENCAR et. al., 2020).
No Brasil, a maioria das pessoas infectadas se encontra na fase crônica
da doença, dadas as medidas de controle do vetor e dos bancos de
sangue. Os estados com maior prevalência são Bahia, Goiás, Minas
Gerais, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Sul, mas ela também é
encontrada na Amazônia Legal (BATISTA, 2020).
Fatores de risco da Doença de Chagas
➢ Habitar em uma cabana (pau a pique) onde
insetos transmissores vivam nas paredes;
➢ Morar na América do Sul, América Central ou
no México;
➢ Viver sob condições extremas de pobreza;
➢ Receber transfusões de sangue ou transplante
de órgão de uma pessoa portadora do parasita,
mas que não tenha manifestado a Doença de
Chagas;
➢ Ingerir alimentos contaminados com o parasita
(ex. açaí).
Fisiopatologia da Doença de Chagas
CICLO de vida e FORMAS EVOLUTIVAS
↠ Em seu ciclo vital, o parasito exibe formas amastigota,
epimastigota e tripomastigota, ou de transição entre elas
(REY, 4ª ed.).
↠ Nos hospedeiros vertebrados ocorrem os
tripomastigotas (no sangue) e os amastigotas
intracelulares, enquanto nos hospedeiros invertebrados e
em meios de cultura predominam as formas
epimastigotas, que passam depois a tripomastigotas
metacíclicos (REY, 4ª ed.).
4
Júlia Morbeck – @med.morbeck
➢ Amastigota: apresenta-se como um microrganismo de
pequenas dimensões e contorno aproximadamente
circular, ovoide ou fusiforme. Núcleo relativamente grande,
flagelo curto e incluído em uma invaginação da membrana
chamada bolso flagelar (REY, 3ª ed.). Os amastigotas
ocorrem principalmente durante o ciclo intracelular na
infecção dos mamíferos, constituindo o principal estágio
reprodutivo nesses hospedeiros. Multiplicam-se por fissão
binária no citoplasma das células infectadas (FERREIRA, 2ª
ed.).
➢ Epimastigota: forma alongada (fusiforme). Cinetoplasto
discoide nas proximidades do núcleo. O flagelo emerge
longe da extremidade anterior, mas mantém-se colado à
membrana celular (REY, 3ª ed.). Os epimastigotas são
encontrados no intestino médio dos triatomíneos, onde se
multiplicam abundantemente por fissão binária. São as
únicas formas capazes de reproduzir-se que podem ser
mantidas em cultivo axênico (FERREIRA, 2ª ed.).
➢ Tripomastigota: cinetoplasto arredondado e o bolso flagelar
deslocados para a região entre o núcleo e a extremidade
posterior (REY, 3ª ed.). No hospedeiro vertebrado, os
tripomastigotas são encontrados majoritariamente no
sangue, e são conhecidos como tripomastigotas
sanguícolas ou sanguíneos. Nos triatomíneos, são
encontrados tripomastigotas na extremidade distal do tubo
digestório; são denominados tripomastigotas metacíclicos.
Os tripomastigotas não se reproduzem, mas são as
principais formas infectantes do parasito. Apesar da
semelhança morfológica e biológica, tripomastigotas
metacíclicos e sanguícolas diferem quanto ao metabolismo
e ao perfil de expressão de proteínas, bem como quanto
aos mecanismos de infecção celular (FERREIRA, 2ª ed.).
Tripomastigotas Sanguícolas
No sangue periférico dos mamíferos, o T. cruzi apresenta-se como
um pequeno flagelado, medindo 10 a 25 μm (média, 20 μm) de
comprimento por 1 a 5 μm de largura (média, 2 μm) (REY, 4ª ed.).
Observa-se nítido polimorfismo nos tripanossomos sanguícolas. Assim,
costuma-se descrever dois tipos morfológicos polares, entre os quais
podem existir todas as formas intermediárias: formas finas e largas
(REY, 4ª ed.).
OBS.: Os tripomastigotas, tanto finos como largos, não se reproduzem
no sangue. Não foi possível demonstrar que aí utilizassem glicose,
parecendo que dependem de proteínas do soro como única fonte
energética (REY, 3ª ed.).
OBS: O ciclo de vida de T. cruzi é digenético, com um hospedeiro
mamífero e um inseto. Em ambos os hospedeiros, observa-se
alternância entre estágios reprodutivos que não são infectantes e
estágios infectantes que não se reproduzem (FERREIRA, 2ª ed.).
HOSPEDEIRO INVERTEBRADO
↠ Quando o inseto, ao sugar sangue de um vertebrado,
ingere tripanossomos sanguícolas, tem início o ciclo de
desenvolvimento característico do T. cruzi na luz intestinal
dos triatomíneos (REY, 4ª ed.).
↠ Os tripomastigotas sanguícolas são ingeridos e
diferenciam-se em epimastigotas no intestino médio do
inseto. Nessa fase observam-se estágios de diferenciação
transitórios, como os esferomastigotas, esféricos e
morfologicamente semelhantes aos amastigotas. Os
epimastigotas reproduzem-se por fissão binária e
colonizam o intestino médio e posterior do inseto
(FERREIRA, 2ª ed.).
↠ Na porção distal do tubo digestório, os epimastigotas
aderem-se às células epiteliais e inicia-se o processode
diferenciação em tripomastigotas metacíclicos,
infectantes. Os estímulos conhecidos para desencadear a
diferenciação do parasito no tubo digestório do vetor,
5
Júlia Morbeck – @med.morbeck
conhecida como metaciclogênese, são a queda de pH
para abaixo de 5,5 e o estresse metabólico. Quando os
parasitos atingem o reto, encontram maior concentração
de certos nutrientes que viabilizam, do ponto de vista
energético, a etapa final da diferenciação (FERREIRA, 2ª
ed.).
↠ Os tripomastigotas metacíclicos perdem a aderência
ao epitélio intestinal, sendo liberados no lúmen da porção
distal do tubo digestório do vetor. Desta maneira, o
parasito prepara-se para o encontro com o hospedeiro
mamífero, no próximo repasto sanguíneo do vetor. O
desenvolvimento completo dos parasitos em triatomíneos requer pelo
menos 7 dias (FERREIRA, 2ª ed.).
OBS.: Não há relatos na literatura de transmissão horizontal nem de
cura em triatomíneos infectados (FERREIRA, 2ª ed.).
HOSPEDEIRO VERTEBRADO
↠ Os triatomíneos defecam durante – ou pouco tempo
após – o repasto sanguíneo, depositando as fezes sobre
a pele do mamífero do qual se alimentam. Nas fezes de
triatomíneos infectados encontram-se tripomastigotas
metacíclicos capazes de penetrar o novo hospedeiro por
pequenas lesões ou escarificações da pele ou pelas
mucosas, mesmo íntegras (FERREIRA, 2ª ed.).
OBS.: Não atravessam a pele íntegra, mas o próprio local da picada do
inseto pode constituir a porta de entrada, se contaminada com as
dejecções que esses hemípteros costumam emitir enquanto se
alimentam. Feridas ou escoriações causadas por coçar (que é
motivado pela resposta alérgica à saliva do triatomíneo) são outros
pontos favoráveis para a invasão (REY, 4ª ed.)
OBS.: A cada evacuação, um triatomíneo infectado elimina em média
50 a 300 tripomastigotas metacíclicos (FERREIRA, 2ª ed.).
↠ Ao encontrar células do hospedeiro mamífero, o
parasito começa o complexo processo de invasão, que
pode se dar essencialmente por duas vias: uma
semelhante à fagocitose (predominante em células
fagocíticas como macrófagos, por exemplo) e outra
independente da fagocitose. Em ambos casos, a invasão
celular depende de múltiplas interações bem coordenadas
entre as células hospedeiras e o parasito (FERREIRA, 2ª
ed.).
↠ Do ponto de vista do parasito, o processo de invasão
de células é ativo, dependente de energia, e envolve
numerosas moléculas de adesão presentes em sua
superfície. Ocorre troca de sinais moleculares, incluindo
mobilização transitória de cálcio, que sinaliza para o
recrutamento de lisossomos da célula hospedeira. Os
lisossomos migram para as regiões da membrana
plasmática onde há parasitos aderidos. Durante ou após a
invaginação da membrana plasmática, há a fusão de
lisossomos para formar o vacúolo parasitóforo, estrutura
que aloja os tripomastigotas de maneira transitória
(FERREIRA, 2ª ed.).
Nas culturas de tecidos, examinadas ao microscópio e a fresco, pode-
se ver a penetração dos parasitos no interior das células. As formas
finas efetuam essa penetração em duas horas, mais ou menos (REY,
4ª ed.).
O mecanismo de interiorização corresponde a um processo de
fagocitose induzida, de que participam tanto o parasito como a célula
hospedeira, sendo precedida pela aderência dos tripomastigotas à
membrana do macrófago ou de outras células (REY, 4ª ed.).
Depois de endocitado pelos macrófagos (MF), o Trypanosoma cruzi consegue escapar do vacúolo
parasitóforo ao promover a ruptura da parede do vacúolo em numerosos pontos, como se vê nesta
foto realizada com microscopia eletrônica. F, sistema flagelar; g, aparelho de Golgi; MT, membrana do
tripomastigota forrada por microtúbulos; MV, membrana do vacúolo parasitóforo; N, núcleo do T. cruzi;
P, pontos de ruptura da membrana vacuolar.
6
Júlia Morbeck – @med.morbeck
O parasito fica, pois, contido em um vacúolo digestivo (fagossomo)
onde pode ser eventualmente morto e digerido (REY, 4ª ed.).
Esse desfecho, que tem lugar sempre que formas epimastigotas são
fagocitadas por macrófagos, pode ser evitado pelos tripomastigotas
que escapam do vacúolo digestivo e invadem o citoplasma da célula
parasitada (REY, 4ª ed.).
↠ As condições ambientais do vacúolo parasitóforo, em
especial o pH ácido, induzem o início do processo de
diferenciação em amastigotas, que escapam do vacúolo
para se estabelecerem no citoplasma celular. Livres no
citosol, os amastigotas começam a replicar-se por fissão
binária. Portanto, a invasão das células hospedeiras parece
ser um processo fundamental para a diferenciação do
parasito em um estágio capaz de reproduzir-se. Calcula-
se que cada tripomastigota que penetra em uma célula
hospedeira originará até 500 amastigotas, e essa grande
capacidade de multiplicação é um passo fundamental para
o estabelecimento da infecção (FERREIRA, 2ª ed.).
Desde que penetrem no interior de uma célula, seja no organismo do
hospedeiro vertebrado, seja em cultivo de tecido, os tripanossomos
sofrem total reorganização estrutural, transformando-se em
amastigotas ovoides, que medem apenas 4 μm no maior diâmetro
(REY, 4ª ed.).
Desaparecem o flagelo livre e a membrana ondulante, ficando o
aparelho locomotor reduzido ao segmento contido no bolo flagelar. O
único movimento que os amastigotas apresentam é o de rotação
(REY, 4ª ed.).
Fisiologicamente, a característica mais importante dos amastigotas é a
recuperação da capacidade de multiplicação, que se manifesta cerca
de 35 horas após a invasão da célula hospedeira (REY, 4ª ed.).
Mediante uma divisão binária simples, que se repete a intervalos de 12
horas, cada amastigota produz um número crescente de elementos
filhos semelhantes que, pouco a pouco, vão consumindo o citoplasma
da célula parasitada, até que, umas 12 horas antes de provocarem a
ruptura desta, sofrem uma nova transformação: agora no sentido
amastigota → tripomastigota (REY, 4ª ed.).
↠ Depois de um número variável de divisões celulares,
os parasitos voltam a diferenciar-se em tripomastigotas,
passando por um estágio intermediário conhecido como
epimastigota intracelular, com características morfológicas,
bioquímicas e biológicas semelhantes ao epimastigota
encontrado no vetor. Alternativamente, os amastigotas
podem espontaneamente adiar sua proliferação e entrar
em um estado de dormência. Esses amastigotas
dormentes podem despertar, reiniciando seu ciclo
proliferativo normalmente, ou ainda diferenciar-se em
tripomastigotas infectantes (FERREIRA, 2ª ed.).
↠ Os tripomastigotas rompem a membrana plasmática
da célula hospedeira e são liberados no meio extracelular.
Uma vez fora da célula hospedeira, os tripomastigotas
podem invadir células vizinhas ou atingir a corrente
sanguínea, disseminando-se para outros órgãos e tecidos.
Ao fazer seu repasto sanguíneo em um hospedeiro
mamífero com formas tripomastigotas sanguícolas, um
vetor ingere esses estágios circulantes e se infecta.
Ocasionalmente, a célula hospedeira rompe-se antes da
diferenciação dos amastigotas em tripomastigotas. Os
amastigotas que chegam ao meio extracelular penetram
em algumas células hospedeiras, especialmente células
fagocitárias, mas provavelmente não atingem a corrente
sanguínea (FERREIRA, 2ª ed.).
O ciclo intracelular dura, ao que parece, 5 ou 6 dias e produz cerca
de nove gerações de parasitos, qualquer que seja o tipo de célula
infectada (REY, 4ª ed.).
O ciclo tripomastigota sanguícola → amastigota → tripomastigota
assegura a continuidade da infecção no hospedeiro vertebrado, bem
como a propagação do parasitismo a outros órgãos e tecidos
(formação de novos “ninhos de parasitos”) e o progresso das lesões
devidas diretamente ao parasitismo (REY, 4ª ed.).
7
Júlia Morbeck – @med.morbeck
RESPOSTA IMUNE
↠ O conhecimento dos aspectos imunológicos e
patológicosda doença de Chagas está alicerçado, em
grande medida, nos dados obtidos em modelos
experimentais da enfermidade (BATISTA, 2020)
↠ A resposta imune dirigida ao protista e as alterações
estruturais descritas nos tecidos e órgãos do hospedeiro
variam na dependência da própria evolução bifásica da
moléstia, fase aguda e fase crônica (BATISTA, 2020)
FASE AGUDA
↠ Após a infecção por T. cruzi, há o reconhecimento do
agente etiológico pelo sistema imune e a ocorrência de
uma série de fenômenos que levam ao surgimento da
doença (BATISTA, 2020)
↠ Uma vez parasitada, a célula produz citocinas e
quimiocinas que dão início à resposta inflamatória. A
interferona-gama (IFN-γ) produzida sinaliza a ativação das
células fagocíticas na tentativa de destruir o patógeno
intracelular via produção de fator de necrose tumoral alfa
(TNF-α), óxido nítrico (NO) e radicais livres. Entretanto,
dependendo da intensidade da produção desses
mediadores inflamatórios, para o controle da parasitemia,
lesões teciduais que causam dano ao hospedeiro podem
surgir (BATISTA, 2020)
↠ Esse fato ocorre devido à elevada produção de
espécies reativas de oxigênio (ERO) e de nitrogênio (ERN),
primariamente mediada pela explosão respiratória nos
leucócitos ativados, na tentativa de destruir parasitos
circulantes e células anormais parasitadas. Com o intento
de aumentar os mecanismos de resposta do hospedeiro,
a síntese de óxido nítrico (NO) - uma molécula
fundamental contra o T. cruzi - é reforçada pela
regulação positiva de imunomediadores de NO-sintase
indutível (iNOS), ativando processos nitrosativos contra T.
cruzi e, consequentemente, contra os tecidos do
hospedeiro (BATISTA, 2020)
↠ A resposta imune ao protista na fase aguda da doença,
caracterizada por significativa parasitemia, é marcada pela
ocorrência dos seguintes eventos principais: (BATISTA,
2020)
➢ ativação policlonal de linfócitos associada a
hipergamaglobulinemia;
➢ imunossupressão em níveis celular e humoral.
↠ A ativação policlonal, advinda do processo infeccioso
protagonizado pelo T. cruzi, refere-se à indução de todas
as classes de linfócitos (células T α/βCD4+, α/βCD8+,
γ/δCD8+, γ/δCD8–, CD4–, células B convencionais,
CD5+) e hipergamaglobulinemia oriunda da diferenciação
dos linfócitos B em plasmócitos produtores de anticorpos
(BATISTA, 2020)
↠ Como ocorre ativação de distintos clones de células B,
são secretadas imunoglobulinas específicas e inespecíficas
aos antígenos do T. cruzi e, igualmente, anticorpos
capazes de reagir aos epítopos do hospedeiro vertebrado
(autoanticorpos). Tem sido proposto que a maior parte
dos linfócitos B ativados não responde especificamente
ao protozoário (BATISTA, 2020)
↠ A imunossupressão é um evento igualmente relevante
no processo de resposta imune ao protista, ocorrendo,
em geral, a partir da segunda semana da doença aguda.
Tal circunstância tem participação na disseminação do T. cruzi,
facilitando a invasão de novas células, o que contribui para o
incremento do parasitismo pelo patógeno, achado típico dessa fase da
doença. A imunossupressão é descrita em termos da
atuação das células B e T, além das células do sistema
mononuclear fagocitário (SMF) (BATISTA, 2020)
↠ Deve-se destacar que um dos principais componentes
que se encontram suprimidos na infecção aguda pelo T.
cruzi é a produção de interleucina (IL)-2, bem como a
expressão de seu receptor (IL-2R) nas células-alvo. A IL-
2 é produzida especialmente por subgrupos de células T
CD4+ (Th1) e por células T CD8+ do tipo 1, além das
células natural killer (NK), cujas funções abrangem a
promoção do crescimento dos linfócitos T ativados, a
geração de células apresentadoras de antígenos (APC), e
a ativação e proliferação das células NK (BATISTA, 2020)
Outros elementos de destaque atinentes à imunossupressão, e que
merecem comentário, incluem: a significativa atrofia do timo,
decorrente da apoptose maciça de células duplamente positivas
8
Júlia Morbeck – @med.morbeck
(linfócitos T CD4+ CD8+), e o “escape” anormal de células imaturas e
potencialmente autorreativas do timo. Descreve-se, também, relevante
perda de células T regulatórias de origem tímica (tTreg), evento que
parece estar relacionado parcialmente à desregulação imunológica, em
geral descrita na fase crônica da doença (BATISTA, 2020)
Dados experimentais indicaram que a interferona gama (IFN)-γ e a
interleucina (IL)-12 são componentes fundamentais da resposta imune
protetora na infecção aguda e crônica. Embora a produção de IL-10
contribua para o controle da parasitemia, o excesso dessa citocina
pode também resultar em agravamento da lesão tecidual. A resposta
humoral também parece contribuir para o controle da evolução da
doença; a transferência passiva de anticorpos, em infecções
experimentais, controla a infecção, possivelmente por desencadear
mecanismos efetores de citotoxicidade celular dependente de
anticorpos (FERREIRA, 2ª ed.).
FASE CRÔNICA
↠ A consistente diminuição da parasitemia por T. cruzi
é, provavelmente, um dos achados mais marcantes da
fase crônica da doença de Chagas. Neste momento da
história natural da doença, a resposta imune tende a ser
mais efetiva, possibilitando, por exemplo, o
desenvolvimento de resistência a nova infecção
(BATISTA, 2020)
↠ Um aspecto importante na resposta imune à infecção
crônica pelo T. cruzi é o papel da resposta imune celular.
Merece destaque a centralidade dos linfócitos T CD4+,
uma vez que tais células têm salutar participação no
auxílio (ou controle) das respostas efetoras, dependentes
ou não de anticorpos, a partir da produção de citocinas
que atuam sobre células B, macrófagos e os próprios
linfócitos T (BATISTA, 2020)
↠ A despeito desses achados, não está clara a
participação dos eventos de autoimunidade na doença de
Chagas crônica, tema que permanece controverso
(BATISTA, 2020)
Manifestações Clínicas da Doença de Chagas
↠ A doença de Chagas apresenta duas fases: aguda e
crônica. A fase aguda inicia-se no momento da infecção;
caracteriza-se por parasitemia patente (i. e., detectável
por técnicas parasitológicas rotineiras) e pelos baixos
títulos de anticorpos específicos de classe IgG, embora
anticorpos IgM possam ser encontrados (FERREIRA, 2ª
ed.).
↠ A fase crônica inicia-se entre algumas semanas e uns
poucos meses depois de adquirida a infecção, e
caracteriza-se pela ausência de parasitemia patente e por
uma intensa resposta imune humoral, com predomínio de
anticorpos de tipo IgG (FERREIRA, 2ª ed.).
A infecção crônica pode ser indeterminada ou sintomática. A forma
indeterminada é aquela que se segue à fase aguda, aparente ou não,
em que o indivíduo permanece assintomático. Cerca de 70% dos
indivíduos cronicamente infectados têm a forma indeterminada, de
duração variável, podendo estender-se por alguns meses ou muitos
anos, até o fim da vida do paciente. Eventualmente, a forma
indeterminada pode evoluir para formas sintomáticas ou determinadas,
das quais as mais comuns são a cardíaca e a digestiva (FERREIRA, 2ª
ed.).
PERÍODO DE INCUBAÇÃO: Varia entre uma e três semanas, ainda que já
tenham registrado casos com apenas 4 a 5 dias. Ele depende talvez
da via de penetração, da condição do paciente, entre outros fatores.
Nas infecções transfusionais, esse período costuma ser mais longo e
pode estender-se por mais de 60 dias (REY, 3ª ed.)
FASE AGUDA
Em termos patológicos, merecem descrição: (BATISTA, 2020)
➢ as lesões de porta de entrada (sinal de Romaña e chagoma
de inoculação), as quais apresentam características
compatíveis com a reação de hipersensibilidade mediada
por células;
➢ as alterações cardíacas/miocardite aguda, cujo aspecto
macroscópico exibe focos de congestão e microfocos
hemorrágicos (envolvendo endocárdio e pericárdio), muitas
vezes com dilatação das câmaras cardíacas, descrevendo-se como alteração histopatológica principal a presença de
ninhos de amastigotas no interior dos macrófagos ou das
fibras miocárdicas, com eventual infiltração
predominantemente mononuclear (em caso de ruptura
dos referidos ninhos);
9
Júlia Morbeck – @med.morbeck
➢ as lesões do tubo gastrintestinal, com envolvimento mais
frequente da musculatura (miosite focal) e dos plexos
mioentéricos, com a presença de amastigotas no interior
das células de Schwann, de fibroblastos das bainhas dos
feixes nervosos extraganglionares e nos histiócitos
adjacentes aos gânglios, além de significativos fenômenos
degenerativos dos neurônios;
➢ alterações neurais/meningoencefalite aguda, identificando-
se, na macroscopia, achados como edema, congestão e
hemorragia petequial, e na microscopia, inúmeros nódulos
microgliais, formados por células da glia e mononucleares,
com a presença de protistas em meio aos nódulos ou no
interior das células da glia.
FASE CRÔNICA
Duas formas clínicas são muito importantes pela frequência com que
ocorrem e pela gravidade que podem apresentar: (REY, 3ª ed.).
➢ Cardiopatia crônica devida ao T. cruzi;
➢ Os “megas”: megaesôfago e megacólon, principalmente.
CHAGOMA DE INOCULAÇÃO
↠ A lesão inicial (que nem sempre é observada na
prática cotidiana) chama particularmente a atenção
quando se implanta no olho ou em suas imediações. A
reação inflamatória acompanha-se, então, de conjuntivite
e de edema bipalpebral, geralmente unilateral, que impede
a abertura do olho correspondente (REY, 4ª ed.).
↠ Isso constitui o sinal de Romaña e, embora possa ser
produzido simplesmente por hipersensibilidade à
secreção salivar dos triatomíneos, representa na maioria
dos casos um indício de primoinfecção característico da
tripanossomíase americana (REY, 4ª ed.).
↠ A inflamação propaga-se, por via linfática, aos
linfonodos regionais pré e retroauriculares, submaxilares
ou cervicais. A adenite satélite contribui para formar,
então, um complexo oftalmoganglionar, de importância
para o diagnóstico clínico (REY, 4ª ed.).
Mesmo quando a penetração de parasito não se dê pela região
periocular, pode haver a formação de uma tumoração cutânea, com
hiperemia e ligeiro dolorimento local, constituindo outra modalidade do
chagoma de inoculação. As lesões iniciais regridem espontaneamente,
ao fim de uma ou duas semanas (REY, 4ª ed.).
ALTERAÇÕES NO SANGUE
A parasitemia torna-se patente entre o 4º e o 40º dias (em geral,
entre o 8º e o 12º dias), depois da infecção, e dura cerca de um mês
(REY, 4ª ed.).
↠ Durante a fase aguda pode haver hipoproteinemia,
com redução da soro-albumina e aumento das globulinas
alfa, beta e gama. Às vezes, o hemograma dos pacientes
nessa fase mostra uma ligeira leucocitose, com linfocitose,
mas há tendência à leucopenia (REY, 4ª ed.).
↠ A anemia pode ser particularmente grave, em alguns
casos (REY, 4ª ed.).
ALTERAÇÕES NO CORAÇÃO
↠ Esse órgão é o que se encontra afetado com maior
frequência, se bem que as lesões possam ser leves, nas
formas benignas da doença (REY, 4ª ed.).
↠ Os parasitos formam “ninhos” de amastigotas, às vezes
bastante grandes e de formato alongado, ao se
multiplicarem no interior das fibras musculares. Mas,
enquanto estas não se romperem, não haverá́ sinais de
inflamação no local (REY, 4ª ed.).
↠ Depois, as fibras cardíacas apresentam-se parcialmente
dissociadas pelo edema intersticial. Em torno das que
estão sendo destruídas, observa-se um infiltrado
inflamatório, presente também em outros pontos do
miocárdio. Esse infiltrado tende a ser de tipo
linfoplasmocitário, nas fases iniciais da doença (REY, 4ª ed.).
↠ Além das lesões inflamatórias, veem-se outras,
isquêmicas e com enfartes microscópicos, em função das
alterações arteriolares. As fibras cardíacas podem
apresentar intensa degeneração das miofibrilas. As células
10
Júlia Morbeck – @med.morbeck
nervosas ganglionares ficam quase sempre lesadas (REY,
4ª ed.).
A miocardite aguda é mais frequente em crianças que em adultos e
pode levar à dilatação cardíaca, à congestão passiva, a edemas e
derrames cavitários, como consequência da insuficiência circulatória. A
morte pode ocorrer então (REY, 4ª ed.).
↠ Na fase crônica, uma fibrose difusa ocupa o lugar das
áreas inflamadas e necrosadas, principalmente no
ventrículo esquerdo, onde também se produzem
tromboses com maior frequência (REY, 4ª ed.).
↠ Interpondo-se aos processos de cicatrização e
reparação, surgem novas áreas inflamatórias, de recente
formação. Há artrites necrosantes, zonas hemorrágicas e
áreas de microenfartes. A substituição dos elementos
musculares por tecido conjuntivo acarreta redução da
força de contração do coração e põe em marcha
mecanismos compensadores tais como: (REY, 4ª ed.).
➢ aumento do diâmetro das fibras musculares
cardíacas, tanto mais acentuado quanto mais
extensos forem os focos inflamatórios crônicos
e maiores as sequelas fibróticas;
➢ aumento do volume cardíaco: dilatação das
cavidades e hipertrofia da parede do órgão, com
aumento eventual dos óstios valvulares,
decorrentes da dilatação (insuficiência valvular); e
taquicardia
↠ O comprometimento do sistema autônomo regulador
das contrações cardíacas (nódulo sinusal, nódulo
atrioventricular e feixe de His) traz como consequência
uma grande variedade de perturbações, tanto da
formação dos estímulos cardíacos, como de sua
propagação. Daí resultam arritmias, fibrilação atrial,
bloqueio atrioventricular (REY, 4ª ed.).
↠ Quando os mecanismos de compensação cardíacos
se tornam incapazes de superar as deficiências de sua
força de contração, aparece a insuficiência circulatória,
pois passa a haver um déficit no volume de sangue e na
quantidade de oxigênio que chegam por minuto a cada
órgão ou tecido, inclusive ao miocárdio, comprometendo
o metabolismo local (REY, 4ª ed.).
↠ Isso traduz-se clinicamente por dispneia aos esforços,
insônia, congestão visceral e edema dos membros
inferiores, que terminam, como nas insuficiências
cardíacas de outras etiologias, em assistolia (REY, 4ª ed.).
ALTERAÇÕES DO SISTEMA DIGESTÓRIO
↠ Os parasitos são encontrados na musculatura lisa, nas
células nervosas e em outros elementos da parede do
tubo digestivo. Porém, sempre em pequeno número
(REY, 4ª ed.).
↠ As lesões podem produzir-se em qualquer sítio, mas
predominam no esôfago, nos cólons e sigmoide, ou no
intestino delgado. São principalmente processos
subagudos e crônicos de miosite focal e intersticial,
acompanhados de: (REY, 4ª ed.).
➢ formação de granulomas;
➢ arterites necrosantes, que destroem total ou
parcialmente a camada média arteriolar;
➢ destruição dos plexos nervosos da parede
(plexos de Meissner e de Auerbach);
➢ inflamação crônica em diferentes fases.
↠ A destruição dos neurônios ganglionares parece
desempenhar papel relevante nas alterações do trânsito
esofágico e intestinal (que se tornam cada vez mais lentos
e difíceis), bem como na hipertrofia muscular e,
finalmente, na dilatação e atonia desses órgãos,
conhecidos respectivamente por megaesófago e
megacólon (REY, 4ª ed.).
↠ O que caracteriza a aperistalse do esôfago é a
incoordenação motora, de modo que não se observa a
propagação da onda contrátil ao longo do órgão, nem o
reflexo de abertura do cárdia, após o ato de deglutição.
A mesma incoordenação é responsável pela estagnação
do bolo fecal no grosso intestino e consequentes
hipertrofia e dilatação das paredes do cólon distal,
sigmoide e reto (REY, 4ª ed.).
OBS.: Os primeiros sintomas são sempre de disfagia. O paciente tem
dificuldade de deglutir alimentos sólidos, como arroz, e bebe água para
ajudar a descer. Surge depois uma tendência à regurgitação. Nos casos
11
Júlia Morbeck – @med.morbeck
mais avançados a disfagia é substituída pela sensaçãode plenitude
intratorácica retroesternal (REY, 4ª ed.).
ALTERAÇÕES DO SISTEMA NERVOSO
↠ No sistema nervoso central pode-se encontrar: (REY,
4ª ed.).
➢ congestão e edema, com escassos focos
hemorrágicos;
➢ discreta infiltração perivascular de células
inflamatórias;
➢ formação de numerosos nódulos (granulomas)
disseminados pelo cérebro, cerebelo e
pedúnculos cerebrais, os quais contém
sobretudo células da micróglia, monócitos e
alguns leucócitos polimorfonucleares.
↠ Nas células nervosas ou outras, degeneradas,
encontram-se acúmulos parasitários. A destruição dessas
células e a disseminação dos flagelados levam a uma
meningencefalite difusa. Há também necroses focais (REY,
4ª ed.).
OBS.: No núcleo dorsal do vago e do hipoglosso, foram descritas lesões
com grande redução do número de neurônios, com significado
particular para a fisiopatologia do megaesôfago (REY, 4ª ed.).
LESÕES EM OUTROS ÓRGÃOS
↠ O fígado apresenta muitas vezes aumento de volume,
na fase aguda, assim como congestão e degeneração
gordurosa das células parenquimatosas. O baço, também,
pode estar aumentado. Os linfonodos, conforme
referimos, são sede de linfadenopatias satélites, que
acompanham o chagoma de inoculação, ou de uma
adenite generalizada, na fase aguda (REY, 4ª ed.).
Diagnóstico da Doença de Chagas
DIAGNÓSTICO CLÍNICO
↠ Elementos importantes para a suspeita da etiologia
chagásica são: (REY, 4ª ed.).
➢ a região de procedência do paciente ou o fato
de ter vivido ou pernoitado em casas onde havia
triatomíneos
➢ paciente ter recebido transfusões sanguíneas,
mesmo fora das áreas endêmicas.
OBS.: Entre as razões que levam o paciente com tripanossomíase a
procurar o médico estão: um exame sorológico positivo, um
eletrocardiograma anormal, falta de ar aos esforços, palpitações, perda
de consciência ou outras manifestações de insuficiência cardíaca,
disfagia ou obstipação prolongada (REY, 4ª ed.).
↠ Em pacientes das áreas endêmicas, deve-se pensar
na tripanossomíase americana sempre que crianças
apresentarem febre, com poliadenite, aumento do fígado
e do baço e sintomas cardíacos (REY, 4ª ed.).
↠ As doenças coronárias parecem-se muito com a
cardiopatia chagásica crônica, se bem que aquelas
predominam em adultos de meia-idade ou velhos, e esta
última não costuma acompanhar-se de dores precordiais
(REY, 4ª ed.).
DIAGNÓSTICO LABORATORIAL
↠ Devido à inespecificidade e diversidade das
manifestações clínicas, os métodos de laboratório devem
ser utilizados sempre que se queira confirmar ou afastar
o diagnóstico de tripanossomíase (REY, 4ª ed.).
↠ No período agudo, em vista da parasitemia ser
geralmente alta, recomenda-se o exame parasitoscópico
do sangue, mas também a punção biópsia de linfonodo,
a imunofluorescência indireta (IFI), a hemaglutinac ̧ão (HA)
entre outras (REY, 4ª ed.).
↠ Na fase crônica, os métodos parasitológicos não
revelam mais que metade dos casos positivos. Mas,
12
Júlia Morbeck – @med.morbeck
havendo em geral títulos altos de anticorpos específicos
no soro, são mais indicados, além da imunofluorescência
e da hemaglutinação, a reação imunoenzimática (ELISA)
e o radioimunoensaio (REY, 4ª ed.).
EXAMES PARASITOLÓGICOS
Pesquisa de parasitos no sangue
Os tripanossomos são abundantes nas primeiras 6 a 8 semanas de
infecção e podem ser encontrados em exame de uma gota de
sangue fresco, entre lâmina e lamínula, graças à sua motilidade
característica (REY, 4ª ed.).
Utilizam-se, também, esfregaços corados pelo Giemsa, Leishman ou
outros métodos derivados do Romanowsky (Fig. 22.10), que permitem
identificar os parasitos morfologicamente. Repetir os exames se
negativos (REY, 4ª ed.).
Outra técnica eficiente consiste em coletar o sangue em tubo capilar
e centrifugá-lo em baixa rotação. Os flagelados, quando presentes, são
vistos (com lupa entomológica) na interface hemácias/soro (REY, 4ª
ed.).
Punção biópsia de linfonodos
Visto que os parasitos acumulam-se desde cedo nos linfonodos,
especialmente quando há adenite satélite do chagoma de inoculação,
podem eles ser facilmente encontrados em macró- fagos ou no
exsudato inflamatório (REY, 4ª ed.).
Xenodiagnóstico
Este método tem o objetivo de investigar a presença de parasitas nas
fezes e/ou conteúdo intestinal dos insetos vetores mantidos em
laboratórios e alimentados com sangue de indivíduos que serão
testados. Quatro caixas contendo dez triatomíneos cada, fechada em
um de seus lados por uma fina rede, são colocadas sobre a face
ventral do antebraço do paciente por cerca de trinta minutos (ALVES
et. al., 2018).
Antes da realização deste exame é necessário que os triatomíneos
sejam mantidos em jejum por um período de duas semanas. Após a
alimentação com sangue do paciente, os insetos devem ser mantidos
a uma temperatura entre 25°C e 30°C e umidade relativa de
aproximadamente 85% na ausência de luz. O exame fecal ou do
conteúdo intestinal será feito após 30-60 dias para pacientes em fase
crônica e 10-30 dias para pacientes em fase aguda (ALVES et. al., 2018).
EXAMES IMUNOLÓGICOS
↠ São muito importantes no reconhecimento da
tripanossomíase americana, não só́ pela grande
sensibilidade e facilidade de execução, como por
fornecerem informações de valor em prazos curtos (de
minutos ou horas) (REY, 4ª ed.).
↠ Eles são utilizados para confirmar ou excluir o
diagnóstico de tripanossomíase, em casos suspeitos,
sobretudo na fase crônica, e para selecionar doadores em
bancos de sangue (REY, 4ª ed.).
↠ Esses métodos beneficiam-se do fato de aparecerem
os anticorpos no sangue muito cedo, ainda na fase aguda
da infecção, e de se manterem em geral continuamente
ao longo de toda a fase crônica da doença (REY, 4ª ed.).
Imunofluorescência Indireta
Esta reação tem sido amplamente empregada no diagnóstico
laboratorial da doença de Chagas (ALVES et. al., 2018).
ELISA
Esta técnica consiste em detectar anticorpos contra o parasita através
da utilização de um segundo anticorpo (anti-imunoglobulina humana
produzido em animais de laboratório), conjugados a enzimas, que, em
presença de substratos específicos, geram produtos coloridos, cuja
quantificação é feita espectrofotometricamente (ALVES et. al., 2018).
Reação em cadeia da polimerase (PCR) e outros métodos
moleculares
Podem detectar DNA do parasito no sangue ou em tecidos com
razoável sensibilidade (50 a 90%), mas não são amplamente
disponíveis em áreas endêmicas. Os testes quantitativos possibilitam
avaliar se houve redução na carga parasitária após o tratamento
(FERREIRA, 2ª ed.).
IMPORTANTE
Na fase aguda da DC, o diagnóstico laboratorial é baseado na
observação do parasito presente no sangue dos indivíduos
infectados, através de testes parasitológicos diretos, como
exame de sangue a fresco, esfregaço e gota espessa. O teste
direto a fresco é mais sensível que o esfregaço corado e deve
ser o método de escolha para a fase aguda. Caso estes testes
sejam negativos, devem ser usados métodos de concentração
(LIMA et. al., 2019).
Os testes de concentração (microhematócrito ou Strout)
apresentam 80% a 90% de positividade e são recomendados
no caso de forte suspeita de DC aguda e negatividade do teste
direto a fresco (LIMA et. al., 2019).
Na fase crônica da doença, o diagnóstico parasitológico direto
torna-se comprometido em virtude da ausência de parasitemia.
Os métodos parasitológicos indiretos (o xenodiagnóstico ou o
hemocultivo) que podem ser utilizados apresentam baixa
Tripomastigotas
sanguíneos de
Trypanosoma cruzi
corados com azul de
metileno (FERREIRA, 2ª
ed.).
13
Júlia Morbeck – @med.morbeck
sensibilidade (20%-50%). Sendo assim, o diagnóstico na fase
crônica é essencialmente sorológico e deve ser realizado
utilizando-se dois testes de princípios metodológicos diferentes:
um teste de elevada sensibilidade (ELISAcom antígeno total ou
frações semipurificadas do parasito ou a IFI) e outro de alta
especificidade (ELISA, utilizando antígenos recombinantes
específicos do T. cruzi) (LIMA et. al., 2019).
Os métodos sorológicos de diagnóstico da doença de Chagas se
baseiam em geral na detecção de anticorpos anti-T.cruzi da classe IgG,
sendo característica da fase crônica. Os anticorpos da classe IgM são
características da fase aguda, porém, esporadicamente podem ser
detectados na fase crônica de alguns pacientes (DAVANÇO, 2015).
AVALIAÇÃO POR MÉTODOS COMPLEMENTARES
↠ Após a confirmação do diagnóstico da doença de
Chagas, deve-se realizar uma avaliação mais detalhada do
paciente, a fim de buscar informações que possam ser
úteis ao prognóstico. Para tanto, anamnese e exame físico
detalhados devem ser revisados em busca de elementos
que possam não ter sido adequadamente valorizados em
avaliação prévia (BATISTA, 2020).
↠ Durante a análise dos dados do paciente, deve-se
averiguar o grau de acometimento dos órgãos mais
afetados pela doença; atenção especial deverá ser dada
à presença de arritmias cardíacas, insuficiência cardíaca
congestiva, tromboembolismo e doença gastrintestinal
(BATISTA, 2020).
↠ O ECG convencional está sempre indicado a partir do
momento em que o diagnóstico é estabelecido,
representando um bom preditor de acometimento do
miocárdico, embora um resultado normal não exclua a
possibilidade de doença. Deve-se atentar principalmente para a
ocorrência de taquicardia sinusal, estreitamento do complexo QRS,
alterações do seguimento ST ou da onda T, extrassístoles atriais ou
ventriculares, taquicardia paroxística atrial ou ventricular, transitória ou
sustentada, bloqueios de condução atrioventriculares e bloqueios de
ramo (BATISTA, 2020).
↠ Nos casos em que o ECG for inconclusivo, uma boa
opção é o eletrocardiograma de longa duração, ou
“Holter”, que monitora por 24 horas a atividade elétrica
cardíaca (BATISTA, 2020).
↠ A ecocardiografia tem grande relevância para definir a
gravidade do acometimento cardíaco por meio da medida
da fração de ejeção do ventrículo esquerdo. Uma
alteração na função desse ventrículo relaciona-se com
um pior prognóstico, sendo possível a ocorrência de
díspares eventos mórbidos, como o acidente vascular
encefálico (AVE) ou mesmo a morte súbita. Pelo
ecocardiograma também é possível identificar o
aneurisma de ponta, que ocorre principalmente no
ventrículo esquerdo, e a existência de trombos
(BATISTA, 2020).
↠ A dosagem de peptídeo natriurético tipo B (BNP) é
um importante biomarcador de disfunção ventricular
esquerda em pacientes com tripanossomíase americana
e é também um preditor de risco de AVE ou de morte
(BATISTA, 2020).
↠ A radiografia de tórax deve ser solicitada; todavia, cabe
comentar que nem sempre apresentará alteração. Em
casos mais avançados da cardiopatia dilatada, entretanto,
o aumento do coração pode ser percebido por ocasião
da avaliação da área cardíaca (BATISTA, 2020).
↠ Outros exames que devem ser solicitados são
hemograma, urina de rotina, provas de função hepática e
ensaios para a avaliação da coagulação (tempo de
tromboplastina parcial ativado – TTPA). Deve-se também
atentar para a realização de endoscopias e radiografias do
tubo gastrintestinal, caso o paciente apresente queixas
digestivas (BATISTA, 2020).
Tratamento da Doença de Chagas
↠ O tratamento antimicrobiano dirigido ao T. cruzi tem
como objetivos curar a infecção, prevenir lesões
orgânicas ou sua evolução e diminuir a possibilidade de
transmissão do protozoário. Essa modalidade terapêutica
tem resultados adequados na maioria dos casos agudos e
congênitos e, também, em casos crônicos recentes.
Desse modo, de acordo com o II Consenso Brasileiro de
Doença de Chagas, estão propostas as seguintes
orientações para o tratamento antiparasitário: (BATISTA,
2020).
➢ Devem ser tratadas todas as crianças com idade
igual ou inferior a 12 anos portadoras da doença
de Chagas em sua fase crônica;
➢ Para adolescentes com idade entre 13 e 18 anos
e adultos com infecção crônica, quando se
consegue estabelecer que a fase aguda ocorreu
até 12 anos antes (considerado como infecção
recente), é usualmente recomendado o
tratamento antiparasitário, embora faltem
evidências consistentes a partir de estudos
randomizados justificando tal conduta;
➢ Para os indivíduos com doença de Chagas na
faixa etária de 19 a 50 anos sem infecção
recente documentada, o tratamento
antiparasitário deve ser considerado de forma
14
Júlia Morbeck – @med.morbeck
individualizada, seja na forma crônica
indeterminada, seja na forma crônica
determinada sem cardiopatia avançada;
➢ Para indivíduos com idade superior a 50 anos,
sem cardiopatia avançada, não há estudos
justificando o tratamento antiparasitário. O
tratamento antiparasitário não deve ser realizado
em indivíduos na fase crônica da doença de
Chagas com a forma cardíaca grave, uma vez
que não há evidências de benefícios clínicos na
evolução desses pacientes.
OBS.: Situações relevantes (para as quais se recomenda consultar o II
Consenso Brasileiro de Doença de Chagas, em que deverá ser
considerada a terapêutica antimicrobiana para o T. cruzi, incluem o
tratamento dos enfermos com imunossupressão (transplantes,
infecção por HIV/AIDS) e da transmissão acidental (contato com fluidos
biológicos de pacientes com doença de Chagas, sinistros laboratoriais,
entre outros) (BATISTA, 2020).
↠ O fármaco de escolha disponível para o tratamento
específico da doença de Chagas no Brasil é o benznidazol,
que é comercializado sob a forma de comprimidos de 100
mg. Sua administração é feita por via oral, sendo rápida a
absorção com concentrações máximas após 2 a 4 horas.
Tem meia-vida de cerca de 12 horas e metabolização
conduzida pelo fígado e eliminação pela urina; uma
pequena parcela não absorvida é eliminada nas fezes
(BATISTA, 2020).
↠ O tratamento deve ser realizado pelo período de 60
dias, nas doses de 5 mg/kg/dia para adultos e de 10
mg/kg/dia para crianças, por via oral, sempre em duas a
três tomadas diárias (12/12 horas ou 8/8 horas) (BATISTA,
2020).
↠ A dose máxima recomendada do fármaco é de 300
mg/dia (BATISTA, 2020).
MECANISMO DE AÇÃO DO BENZNIDAZOL: Seu mecanismo de ação ainda
não está completamente elucidado. Evidências recentes indicam que
age por meio de radicais livres nitrogenados produzidos por nitro-
redutases humanas que induzem modificações covalentes de
macromoléculas. Esses radicais livres podem danificar o DNA do
parasito e exercem efeito inibitório na síntese de proteínas e na
síntese do ácido ribonucleico em células de T. Cruzi (LAFEPE
MEDICAMENTOS).
Outro mecanismo de ação do BNZ seria através do aumento da
fagocitose atuando na elevação da produção da citocina interferon
gama (INF-γ), causando lise celular. Ainda, há evidência de que o
fármaco atue na inibição enzima NADH-fumarase redutase bloqueando
o crescimento do T. cruzi (DAVANÇO, 2015).
Os efeitos adversos do BNZ em humanos podem ser agrupados em
manifestações de hipersensibilidade (20% dos casos): dermatite,
edema periorbital, linfoadenopatia, dores musculares e febre;
depressão da medula óssea (casos raros): neutropenia, agranulociotese
e púrpura trombocitopêmica; e polineuropatia periférica (7% dos
casos): parestesias e polineurite (DAVANÇO, 2015).
↠ Apesar da toxicidade sistêmica e da baixa tolerabilidade
orgânica associada aos efeitos colaterais marcantes com
o uso de benznidazol, estudos clínicos relataram que não
há medicamentos disponíveis com eficiência terapêutica
superior à do benznidazol, o que torna esse fármaco o
único para o tratamento clínico da doença de Chagas no
Brasil (BATISTA, 2020).
OBS.: Na infância, a cura é alcançada em cerca de 90% das crianças
com infecção congênita e que iniciaram o tratamento notempo certo.
Em todos os casos, o tempo necessário para que haja negativação
dos exames sorológicos é proporcional à idade em que a pessoa
adquiriu a doença, ou seja, quanto mais tarde ocorrer a aquisição do
protozoário, mais tempo será preciso até que se alcancem os
resultados esperados (BATISTA, 2020).
↠ Nos casos em que houver intolerância ao benznidazol
ou falha, poderá ser indicado o nifurtimox como opção
terapêutica nos seguintes esquemas, os quais deverão
ser mantidos por 60 dias: (BATISTA, 2020).
➢ adultos: 10 mg/kg/dia (comprimidos de 120 mg),
por via oral, 3 vezes/dia;
➢ crianças: 15 mg/kg/dia (comprimidos de 30 mg),
por via oral, 3 vezes/dia.
MECANISMO DE AÇÃO DO NIFURTIMOX: O Nifurtimox forma um
metabólito radical nitro-ânion que reage com os ácidos nucléicos do
parasita, causando uma quebra significativa do DNA.
Seu mecanismo é semelhante ao proposto para a ação antibacteriana
de agentes nitrofuranos. O Nifurtimox sofre redução e cria radicais de
oxigénio, como o superóxido. Esses radicais são tóxicos para o T. cruzi.
↠ Os principais efeitos adversos do fármaco são similares
aos descritos para o benznidazol (BATISTA, 2020).
OBS.: Os medicamentos disponíveis são relativamente pouco eficientes
contra estágios intracelulares do parasito. Isso foi atribuído,
15
Júlia Morbeck – @med.morbeck
recentemente, ao fato já mencionado de os amastigotas intracelulares
poderem permanecer durante longos períodos de tempo como
formas “dormentes”, com redução de sua atividade metabólica e
replicativa. Portanto, o tratamento etiológico da doença de Chagas
crônica é ainda assunto controverso (FERREIRA, 2ª ed.).
TRATAMENTO SINTOMÁTICO
↠ O tratamento das principais manifestações da doença
deve ser realizado de acordo com as diretrizes para cada
um dos quadros específicos. Na fase aguda, deve ser feito
repouso, e podem ser usadas medicações antitérmicas,
anticonvulsivantes e diuréticas, além de digitálicos e outros
fármacos para o tratamento do quadro de miocardite
aguda (BARBOSA, 2020).
↠ Na fase crônica (para a CCC), recomendam-se dieta e
repouso como terapias não medicamentosas, mas
podem ser usados inibidores da enzima conversora de
angiotensina (IECA), betabloqueadores seletivos, digitálicos
e diuréticos, conforme a necessidade de cada paciente
(BARBOSA, 2020).
PROGNÓSTICO DA DOENÇA DE CHAGAS
A infecção não se cura espontaneamente. Na fase aguda, a doença
pode ser grave e fatal (por meningoencefalite ou cardiopatia grave).
Mesmo assim, a mortalidade não chega aos 10%, de acordo com
estudos a respeito. Nos demais casos, o tratamento pode modificar o
prognóstico, reduzindo a mortalidade (REY, 4ª ed.).
Ultrapassada essa fase, a tendência em geral é para lenta evolução
que, segundo alguns autores, leva inexoravelmente ao aparecimento
de lesões cardíacas e de outros órgãos.
Outros especialistas distinguem dois tipos de evolução:
➢ Na forma indeterminada, sem manifestações clínicas e sem
alterações eletrocardiográficas, a taxa de mortalidade, 10
anos depois de estabelecido o diagnóstico, é muito baixa. O
tratamento dos pacientes jovens ainda pode melhorar o
prognóstico se instituído precocemente.
➢ Na forma crônica da cardiopatia chagásica, isto é, nos casos
com sintomatologia clinica (ainda que por vezes
oligossintomática) e com alterações eletrocardiográficas
precoces, o prognóstico é menos favorável. A partir das
formas assintomáticas, a cada ano que passa 2% dos
pacientes desenvolvem cardiopatias e 1% começa a
apresentar megas.
Prevenção da Doença de Chagas
↠ A primeira linha de controle da doença de Chagas em
regiões endêmicas consiste no controle do vetor, o qual,
tradicionalmente, foi procedido com o uso de inseticidas
no domicílio e no peridomicílio (BARBOSA, 2020).
↠ A Organização Mundial da Saúde (OMS) preconiza a
melhoria das habitações como importante passo na
prevenção da enfermidade, de modo a evitar a infestação
domiciliar pelo triatomíneo. Outras medidas pessoais que
podem ser tomadas são o uso de redes nas camas e de
repelentes em áreas endêmicas do barbeiro (BARBOSA,
2020).
↠ O controle da transmissão transfusional é estabelecido
com o manejo rigoroso do sangue dos doadores. No
Brasil, tal perspectiva é amplamente difundida; porém, em
outras localidades, essa via permanece com importância
na transmissão da doença. De acordo com o II Consenso
Brasileiro de Doença de Chagas, gestantes provenientes
ou que vivem em áreas endêmicas devem ser testadas
quanto à presença do T. cruzi, se possível durante a
primeira consulta do pré-natal (BARBOSA, 2020).
↠ Para a transmissão oral, deve-se ter critério em
relação ao preparo, transporte e armazenamento de
alimentos que tenham possibilidade de entrar em contato
com o vetor ou com suas fezes. Deve ser comentado
que o T. cruzi se classifica como do grupo de risco
biológico 2, ou seja, os laboratórios que trabalham com o
protozoário devem utilizar o equipamento de proteção
individual adequado. Ainda assim, em caso de infecção
acidental, faz-se a quimioprofilaxia com o benzonidazol por
10 dias (BARBOSA, 2020).
Saúde Indígena
↠ No Brasil, segundo o último censo do Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE), vivem mais de 890 mil
índios, distribuídos em todos os estados e
correspondendo a 0,4% da população brasileira. Esse
grupo, distribuído em 505 terras indígenas, ocupa 12,5%
do território nacional. Apesar do contingente populacional
não tão expressivo em relação ao total da população
brasileira, esses povos apresentam imensa
sociodiversidade, incluindo 305 grupos étnicos falantes de
274 idiomas (MENDES et. al., 2018).
↠ No Brasil, a 1ª Conferência Nacional de Proteção à
Saúde Indígena (CNPSI), realizada em 1986, foi um dos
primeiros momentos em que o Estado ouviu diferentes
lideranças indígenas para discutir propostas relacionadas à
formulação de diretrizes voltadas à saúde desses povos,
assumindo como legítimas suas necessidades e
especificidades e tendo como foco a APS (MENDES et.
al., 2018).
↠ A luta pela saúde indígena no Brasil, foi mais legitimada
com a criação do Subsistema de Atenção à Saúde dos
Povos Indígenas, que foi criado em 1999, através da Lei nº
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Júlia Morbeck – @med.morbeck
9.836/99, mais conhecida como Lei Arouca. Este
subsistema é composto pelos Distritos Sanitários Especiais
Indígenas (DSEIS), que se constituem em uma rede de
serviços implantada nos territórios indígenas com o
objetivo de atender essa população, levando em
consideração os critérios geográficos, demográficos e
culturais (SANTOS et. al., 2021).
↠ Durante a 4° Conferência Nacional de Saúde dos
Povos Indígenas, em 2006, foram reivindicadas melhorias
na situação de saúde e questionada a gestão da FUNASA
(MENDES et. al., 2018).
↠ Em 2010, foi aprovada a criação da Secretaria Especial
de Saúde Indígena (SESAI). O que sua criação traz de
novo é, em última instância, a existência de um órgão
responsável unicamente pela saúde indígena (MENDES
et. al., 2018).
↠ De acordo com a Fundação Nacional do Índio (FUNAI)
(2021), para garantir aos povos indígenas o acesso
igualitário e atenção integral aos povos indígenas de
acordo com os princípios do SUS, se fez necessário o
estabelecimento de algumas diretrizes que orientam a
definição de instrumentos de planejamento,
implementação, avaliação e controle das ações de
atenção à saúde dos povos indígenas (SANTOS et. al.,
2021).
↠ As diretrizes para ações de atenção à saúde indígena
são: (SANTOS et. al., 2021).
➢ Organização dos serviços de atenção à saúde
dos povos indígenas na forma de Distritos
Sanitários Especiais e Pólos-Base, no nível local,
onde a atenção primária e os serviços de
referência se situam;
➢ Preparação de recursos humanos para atuação
em contexto intercultural;
➢ Monitoramento das ações desaúde dirigidas aos
povos indígenas;
➢ Promoção do uso adequado e racional de
medicamentos;
➢ Promoção de ações específicas em situações
especiais;
➢ Promoção de ambientes saudáveis e proteção
da saúde indígena;
↠ Além dos aspectos organizacionais do serviço de
saúde indígena, também devem ser levados em
consideração alguns fatores peculiares a essa população
como, a sua situação de transculturação, a localização
geográfica dos índios, com ênfase nas dificuldades de
acesso a essas aldeias; tais fatores acabam por se soma
a falta de infraestrutura e recursos (SANTOS et. al., 2021).
↠ Os polos - bases nas aldeias são estruturados apena
para atender a atenção primária, dessa forma os casos
de média e alta complexidade acabam sendo
referenciados para as unidades do Sistema Único de
Saúde - SUS, tais serviços são localizados em centros
urbanos próximos ou em outros municípios, onde os
povos indígenas sofrem com diferenças organizacionais,
culturais, linguística, refletindo negativamente na
possibilidade do acesso e na qualidade do cuidado
ofertado, piorando o processo saúde - doença que se
encontra (SANTOS et. al., 2021).
↠ A Secretaria Especial de Saúde Indígena conta
com 14.600 mil profissionais de saúde, sendo que
destes, 46% são indígenas, e promove a atenção
primária à saúde e ações de saneamento,
de maneira participativa e diferenciada, respeitando as
especificidades epidemiológicas e socioculturais destes
povos (MINISTÉRIO DA SAÚDE).
↠ A composição da Equipe Multiprofissional de Saúde
Indígena - EMSI, é regulamentada pela portaria nº 1.317, de
3 de agosto de 2017. Nela consta que, a EMSI
corresponde a um conjunto de profissionais responsáveis
pela atenção básica à saúde indígena em uma área, sob
gestão do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena
(SASI-SUS) (SANTOS et. al., 2021).
↠ O gestor/coordenador local pode, opcionalmente, além
da equipe mínima, incluir os seguintes profissionais as
equipes que prestam atenção à saúde indígena como:
médicos clínicos (família), cirurgião dentista (família),
enfermeiros (família), técnicos e auxiliares de
enfermagem (família), técnico em saúde bucal, auxiliar em
saúde bucal, trabalhadores em serviços de promoção e
apoio à saúde (família), agente de saúde pública,
microscopista, entre outros. Estes não deverão ser
marcados como equipe mínima (SANTOS et. al., 2021).
17
Júlia Morbeck – @med.morbeck
Referências
ALENCAR et. al. Epidemiologia da Doença de Chagas
aguda no Brasil de 2007 a 2018. Research, Society and
Development, v. 9, n. 10, 2020.
ALVES et. al. Métodos de diagnóstico para a doença de
Chagas: uma atualização. Revista Brasileira de Análises
Clínicas, 2018.
LAPEDE MEDICAMENTOS. Modelo de bula para os
profissionais de saúde.
DAVANÇO, M. G. Farmacocinética do Benznidazol
administrado em coelhos na forma de comprimidos de
liberação imediata e comprimidos de liberação prolongada.
Dissertação de pós graduação, Araraquara, SP, 2015.
LIMA et. al. Doença de Chagas: uma atualização
bibliográfica. Revista Brasileira de Análises Clínicas, 2019.
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MINISTÉRIO DA SAÚDE. Site do GOV. Disponível em:
Acesado em 14 de agosto de 2022.
SANTOS et. al. O enfermeiro na saúde indígena: uma
revisão de literatura. Research, Society and Development,
v. 10, n. 16, 2021.
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Júlia Morbeck – @med.morbeck
Objetivos
1- Debater a etiologia e a fisiopatologia da
miocardiopatia dilatada;
2- Conhecer a epidemiologia, etiologia, fisiopatologia
e manifestações clínicas da insuficiência cardíaca;
3- Compreender o diagnóstico e tratamento da
insuficiência cardíaca;
4- Explicar o motivo de algumas doenças serem
negligenciadas.
Cardiomiopatia dilata
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as cardiomiopatias,
também chamadas miocardiopatias, são doenças próprias do miocárdio
associadas a disfunção cardíaca. Assim, para caracterizar uma doença
cardíaca como cardiomiopatia é necessário que a disfunção cardíaca
não esteja associada com isquemia miocárdica (coronariopatia) ou com
fatores que acarretam sobrecarga pressórica ou volumétrica, como
valvopatias, hipertensão arterial sistêmica ou cardiopatias congênitas
(BOGLIOGO, 10ª ed.).
↠ As cardiomiopatias representam um grupo de
doenças envolvendo o músculo cardíaco, podendo incluir
doenças que acometem o músculo cardíaco
primariamente e também doenças sistêmicas que podem
afetar de forma indireta a função e anatomia do músculo
cardíaco (SOCESP, 4ª ed.).
↠ A forma mais comum de apresentação desta entidade
é a dilatada, podendo chegar a 90% dos casos. Além de
comprometer a contração ventricular esquerda, ou de
ambos os ventrículos, é muito comum ser acompanhada
de outras desordens como arritmias, tromboembolismo
e, principalmente, a progressão quase que inexorável
para insuficiência cardíaca importante (SOCESP, 4ª ed.).
IMPORTANTE: Muitas vezes a morte súbita pode se fazer presente na
evolução clínica desses pacientes (SOCESP, 4ª ed.).
Sabemos que cardiomiopatia dilatada (CMD) pode ser a via final comum
de várias doenças que acometem o miocárdio, resultante de
mecanismos genéticos, infecciosos, metabólicos, inflamatórios e
citotóxicos (SOCESP, 4ª ed.).
CLASSIFICAÇÃO
IMPORTANTE: A classificação das cardiomiopatias não é tarefa fácil e
tem sido modificada ao longo do tempo. De forma simples e útil para
a prática médica, as cardiomiopatias são divididas nas formas dilatada,
hipertrófica, restritiva e arritmogênica do ventrículo direito; tipos que
não se enquadram nas descrições clássicas, comentadas adiante, são
considerados cardiomiopatias não classificadas. De acordo com a
classificação da OMS, as cardiomiopatias específicas correspondem a
alterações do miocárdio associadas a doenças sistêmicas (p. ex.,
sarcoidose ou mucopolissacaridoses) ou a algumas alterações cardíacas
quando as mesmas não justificam a magnitude da disfunção ventricular
– como acontece em valvopatias discretas, na hipertensão arterial
sistêmica de pequena intensidade ou na coronariopatia incipiente
(BOGLIOGO, 10ª ed.).
↠ Em 2006, a American Heart Association (AHA) definiu
que as cardiomiopatias são um grupo heterogêneo de
doenças do músculo cardíaco com correspondente
disfunção mecânica e/ou elétrica, com frequente, mas
não sempre presente, dilatação e hipertrofia ventricular
inapropriada. Podem ser restritas ao coração ou fazer
parte de doenças sistêmicas (SOCESP, 4ª ed.).
↠ Em 2008, a European Society of Cardiology (ESC)
trouxe uma nova proposta de classificação das
cardiomiopatias, que define as cardiomiopatias como
desordem do músculo cardíaco, que se encontra
estruturalmente e funcionalmente anormal, na ausência
de causas específicas. Manteve as alterações estruturais
e morfológicas dos subtipos das cardiomiopatias em
dilatada, hipertrófica, restritiva e arritmogênica de
ventrículo direito, em forma familiar (genética) e não
familiar (não genética) (SOCESP, 4ª ed.).
↠ Já em 2013, a World Heart Foundation (WHF) publicou
a classificação MOGE(S), inspirada no estadiamento dos
tumores (estágio TNM). A classificação MOGE(S) baseia-
se em anormalidades estruturas e funcionais (M),
extensão do comprometimento do órgão envolvido (O),
se é de causa genética ou não (G), a natureza do defeito
genético molecular ou se a etiologia é conhecida (E) e o
grau do estágio de Insuficiência cardíaca ou grau de
intolerância aos esforços (S) (SOCESP, 4ª ed.).
APG 05 – CORAÇÃO GRANDE É CORAÇÃOcoração
no sulco coronário (MARIEB, 3ª ed.).
↠ A artéria coronária esquerda segue em direção ao
lado esquerdo do coração e se divide em seus ramos
principais: (MARIEB, 3ª ed.).
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Júlia Morbeck – @med.morbeck
➢ o ramo interventricular anterior (também
conhecido clinicamente como artéria
descendente anterior esquerda), o qual percorre
o sulco interventricular anterior e fornece
sangue ao septo interventricular e às paredes
anteriores de ambos os ventrículos;
➢ o ramo circunflexo, que supre o átrio esquerdo
e as paredes posteriores do ventrículo esquerdo.
↠ A artéria coronária direita cursa pelo lado direito do
coração, onde também se divide em dois ramos:
(MARIEB, 3ª ed.).
➢ o ramo marginal direito, o qual supre o miocárdio
do lado direito do coração;
➢ o ramo interventricular posterior, o qual corre
para o ápice do coração e supre as paredes
ventriculares posteriores. Próximo do ápice do
coração, essa artéria se funde (anastomosa)
com a artéria interventricular anterior. Juntos, os
ramos da artéria coronária direita suprem o átrio
direito e quase todo o ventrículo direito.
Há muitas anastomoses entre os ramos arteriais coronarianos. Essas
redes se fundem, proporcionando rotas adicionais (colaterais) para
entrega de sangue ao músculo cardíaco, mas não são suficientemente
robustas para manter a nutrição adequada quando uma artéria
coronária é subitamente ocluída (MARIEB, 3ª ed.).
↠ As artérias coronárias fornecem um fluxo sanguíneo
intermitente, pulsátil, para o miocárdio. Esses vasos e seus
ramos principais se situam no epicárdio e enviam ramos
para dentro, nutrindo o miocárdio. Eles entregam sangue
quando o coração está relaxado, mas são bastante
ineficazes quando os ventrículos estão contraindo, pois
são comprimidos pelo miocárdio em contração (MARIEB,
3ª ed.).
↠ Após passar pelos leitos capilares do miocárdio, o
sangue venoso é coletado pelas veias cardíacas, cujos
trajetos seguem aproximadamente aqueles das artérias
coronárias. Essas veias se juntam para formar um vaso
alargado chamado de seio coronário, o qual libera o
sangue no átrio direito. O seio coronário é evidente na
vista posterior do coração (MARIEB, 3ª ed.).
↠ O seio tem três grandes tributárias: a veia cardíaca
magna, pelo sulco interventricular anterior, a veia
interventricular posterior (média), que percorre o sulco
interventricular posterior, e a veia cardíaca parva, que
corre ao longo da margem inferior direita do coração.
Além disso, várias veias anteriores do ventrículo direito se
esvaziam diretamente no átrio direito anteriormente
(MARIEB, 3ª ed.).
Fibras musculares cardíacas
↠ O músculo c.ardíaco, assim como o músculo
esquelético, é estriado e contrai pelo mecanismo de
deslizamento de filamentos (MARIEB, 3ª ed.).
↠ As fibras cardíacas são curtas, ramificadas e
interconectadas. Cada fibra contém um ou, no máximo,
dois núcleos grandes, pálidos, localizados no centro da
célula (MARIEB, 3ª ed.).
↠ Os espaços intercelulares são preenchidos com uma
matriz de tecido conjuntivo frouxo (o endomísio)
contendo inúmeros capilares. Essa matriz delicada é conectada
ao esqueleto fibroso, o qual atua tanto como um tendão quanto como
uma inserção, fornecendo às células cardíacas ancoragem para
exercer sua força (MARIEB, 3ª ed.).
↠ As membranas plasmáticas das células cardíacas
adjacentes se entrelaçam em junções com coloração
escura chamadas de discos intercalares (intercala = inserir).
Esses discos contêm as junções de ancoramento, os
desmossomos, e as junções comunicantes (MARIEB, 3ª
ed.).
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Júlia Morbeck – @med.morbeck
Os desmossomos evitam que as células adjacentes se separe.m
durante a contração e as junções comunicantes permitem que os
íons passem de célula a célula, transmitindo corrente ao longo de todo
o coração (MARIEB, 3ª ed.).
↠ Mitocôndrias grandes perfazem 25 a 35% do volume
das células cardíacas (comparado com apenas 2% no
músculo esquelético) e conferem às células cardíacas
uma alta resistência à fadiga. A maior parte do volume
restante é ocupada por miofibrilas, compostas de
sarcômeros bastante típicos (MARIEB, 3ª ed.).
O coração é composto por três tipos principais de músculo: o músculo
atrial, o músculo ventricular e as fibras especializadas excitatórias e
condutoras. (GUYTON, 13ª ed.)
Os tipos atrial e ventricular de músculo contraem-se quase como os
músculos esqueléticos, mas com duração muito maior da contração.
(GUYTON, 13ª ed.)
As fibras excitatórias e de condução do coração, no entanto, só se
contraem fracamente por conterem poucas fibras contráteis, mas
apresentam descargas elétricas rítmicas automáticas, na forma de
potenciais de ação, ou fazem a condução desses potenciais de ação
pelo coração, representando sistema excitatório que controla os
batimentos rítmicos. (GUYTON, 13ª ed.)
Considera-se que a disposição das células musculares cardíacas forma
um sincício mecânico e elétrico, fazendo com que um único potencial
de ação (gerado no interior do nó sinoatrial) curse por todo o coração,
de maneira que este se contraia de modo sincrônico, semelhante a
ondas. (BERNE E LEVY)
↠ O sinal para a contração é miogênico, ou seja, é
originado dentro do próprio músculo cardíaco.
(SILVERTHON, 7ª ed.)
↠ O sinal para a contração miocárdica não é proveniente
do sistema nervoso central, mas de células miocárdicas
especializadas, denominadas células autoexcitáveis. As
células autoexcitáveis são também denominadas células
marca-passo, uma vez que elas determinam a frequência
dos batimentos cardíacos. (SILVERTHON, 7ª ed.)
As células autoexcitáveis miocárdicas são anatomicamente distintas das
células contráteis: elas são menores e contêm poucas fibras contráteis.
Como elas não têm sarcômeros organizados, as células autoexcitáveis
não contribuem para a força contrátil do coração. (SILVERTHON, 7ª
ed.)
Potenciais de ação
↠ O músculo cardíaco é um tecido excitável com a
capacidade de gerar potenciais de ação. (SILVERTHON,
7ª ed.)
↠ Cada um dos dois tipos de células musculares cardíacas
tem um potencial de ação distinto, que varia um pouco
no formato, dependendo do local do coração onde ele é
medido. (SILVERTHON, 7ª ed.)
↠ Tanto no miocárdio autoexcitável quanto no contrátil,
o Ca+2 desempenha um papel importante no potencial de
ação. (SILVERTHON, 7ª ed.)
CÉLULAS MIOCÁRDICAS AUTOEXCITÁVEIS
Potencial de membrana instável, o qual inicia em - 60 mV e lentamente
ascende em direção ao limiar. (SILVERTHON, 7ª ed.)
Este potencial de membrana instável é chamado de potencial marca-
passo, em vez de potencial de membrana em repouso, uma vez que
ele nunca permanece em um valor constante. Sempre que o potencial
marca--passo depolariza até o limiar, as células autoexcitáveis disparam
um potencial de ação. (SILVERTHON, 7ª ed.)
As células autoexcitáveis contêm canais que são diferentes dos canais
de outros tecidos excitáveis. Quando o potencial de membrana da
célula é -60 mV, os canais If, que são permeáveis tanto ao K+ quanto
ao Na+2, estão abertos. (SILVERTHON, 7ª ed.)
Os canais If são assim denominados porque eles permitem o fluxo da
corrente (I) e devido às suas propriedades não usuais. (SILVERTHON,
7ª ed.)
Os pesquisadores que primeiro descreveram a corrente iônica através
desses canais não entenderam, naquele momento, o seu
comportamento e a denominaram corrente funny (engraçada), e,
portanto, utilizaram o subscrito f. Os canais If pertencem à família dos
canais HCN, ou canais dependentes de nucleotídeos cíclicos ativados
por hiperpolarização. (SILVERTHON, 7ª ed.)
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Júlia Morbeck – @med.morbeck
Quando os canais If se abrem em potenciais de membrana negativos,
o influxo de Na+
excede o efluxo de K+. O influxo resultante de carga
positiva despolariza lentamente a célula autoexcitável. À medida que o
potencial de membrana se tornaBOM?
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Júlia Morbeck – @med.morbeck
OBS.: A classificação das miocardiopatias é dividida em dois grupos
principais: primárias e secundárias. As miocardiopatias primárias
representam os distúrbios cardíacos limitados ao miocárdio, enquanto
as miocardiopatias secundárias representam as alterações miocárdicas
que ocorrem com uma diversidade de distúrbios sistêmicos (de
diversos órgãos) (PORTH, 10ª ed.).
ETIOLOGIA
↠ As causas de CMD podem incluir uma variedade muito
grande de agentes citotóxicos, metabólicos, infecciosos
ou também um número grande de causas genética
(SOCESP, 4ª ed.).
OBS.: Quando não se encontra uma causa aparente para a CMD, ela é
chamada então de cardiomiopatia dilatada idiopática, em que a etiologia
está presente, mas não foi identificada (SOCESP, 4ª ed.).
EPIDEMIOLOGIA
↠ A cardiomiopatia dilatada é uma das principais
responsáveis por insuficiência cardíaca congestiva e
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Júlia Morbeck – @med.morbeck
transplantes cardíacos em todo o mundo, inclusive no
Brasil (BOGLIOGO, 10ª ed.).
↠ Em adultos a incidência é de 7 para 100.000 por ano. É
mais frequente entre homens do que em mulheres (2,5:
1) e entre os negros do que em brancos (2,5:1). Em
crianças a incidência é de 1,13 casos por 100.000 por ano,
sendo maior em meninos do que em meninas (SOCESP,
4ª ed.).
FISIOPATOLOGIA
De forma geral, na cardiomiopatia dilatada estariam primariamente
alteradas proteínas estruturais do citoesqueleto e do sarcolema,
relacionadas fundamentalmente com a transmissão da força gerada,
como a distrofina e sarcoglicanos (BOGLIOGO, 10ª ed.).
↠ Há fortes indícios de que a doença seja o resultado
final e comum de uma grande variedade de agressões ao
miocárdio ocorridas ao longo da vida. Suas principais
causas são doenças virais, afecções autoimunes,
toxicidade pelo álcool ou outras drogas, distúrbios
associados à gravidez e anormalidades genéticas
(BOGLIOGO, 10ª ed.).
↠ Na maioria dos pacientes, no entanto, esta
cardiomiopatia não se associa a nenhuma causa
conhecida, recebendo, por isso, a denominação
cardiomiopatia dilatada idiopática (BOGLIOGO, 10ª ed.).
OBS.: Com frequência, nenhuma causa pode ser identificada e, nesse
caso, a miocardiopatia é denominada MCD idiopática (PORTH, 10ª ed.).
CARDIMIOPATIA DILATADA IDIOPÁTICA
↠ Nas últimas décadas o papel da genética ganhou
importância muito elevada com a identificação de uma
frequência de casos familiares maior do que o que se
antecipava previamente (30 a 50% dos casos). Um
grande número de genes identificados (mais de 40) e
uma clara evidência de que, mesmo os chamados “casos
esporádicos”, podem abrigar um defeito genético
(SOCESP, 4ª ed.).
Denomina-se forma esporádica os casos em que não se conseguiu
estabelecer um determinante genético e de forma familiar os casos
em que o fenótipo é expressado em mais de um membro da família
(SOCESP, 4ª ed.).
Em mais de 50% das vezes não é possível a sua determinação,
recebendo a denominação de idiopática. Desses casos de MCD
idiopática, cerca de 30-50% dos casos correspondem a forma familiar,
demonstrando a influência da hereditariedade e genética na sua
patogênese (CAMANDAROBA et. al., 2020).
FORMA FAMILIAR
↠ A grande maioria dos casos são autossômica
dominante e uma minoria recessivo ligado ao X,
autossômico recessivo e mitocondrial. Também sabemos hoje
que a penetrância é dependente da idade a expressão clínica variável
(SOCESP, 4ª ed.).
Nos estudos iniciais acreditava-se que a disfunção genética da
cardiomiopatia dilatada idiopática se localizava nas proteínas do
citoesqueleto. Com o avanço da tecnologia genética, viu-se que
existem mutações em praticamente todas as estruturas e vias de
condução do cardiomiócito, podendo conduzir a dilatação ventricular
e má contração do músculo cardíaco (SOCESP, 4ª ed.).
↠ Em sua maioria, os genes envolvidos fazem parte de
codificações do sarcomêro, citoesqueleto, cápsula nuclear
e sarcolema (SOCESP, 4ª ed.).
Estes estudos sugerem que as mutações em genes presentes na CF
são: (SOCESP, 4ª ed.).
➢ Mutações em gene do sarcômero: incluem TTN (titina),
MYH7 (miosina de cadeia pesada); TNNT2 (troponina T) e
TPM1 (alfa – tropomiosina). São as causas mais comuns,
representando cerca de 30% dos casos. A titina (gigante
TTN) é altamente expressa no coração onde funciona
como uma mola gigante, que proporciona uma força
passiva e regula a contração do sarcômero. Em um estudo
multicêntrico recentemente publicado, os autores
mostraram que a maioria das mutações da titina ocorreram
no grupo CMD (mais de 20%).
➢ Mutações em gene SCN5A: gene do canal de sódio;
também apresentam relação com a presença de
cardiomiopatia familiar. Apresenta frequência de cerca 2%
na CMD e foi encontrada tendência para um traço
arritmogênico, incluindo defeitos de condução; fibrilação
atrial e taquicárdica ventricular.
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Júlia Morbeck – @med.morbeck
↠ A MCD é caracterizada por aumento ventricular,
redução da espessura da parede ventricular e
comprometimento da função sistólica de um ou de
ambos os ventrículos (PORTH, 10ª ed.).
↠ O peso está aumentado, geralmente em torno de 400
a 600 g, raramente 900 g ou mais. O achado
predominante é a dilatação das quatro câmaras,
sobretudo do ventrículo esquerdo (BOGLIOGO, 10ª ed.).
↠ Em geral, a dilatação é acentuada e sempre
acompanhada de hipertrofia do miocárdio. Entretanto,
geralmente a parede do ventrículo esquerdo tem
espessura diminuída devido à grande dilatação cavitária
(hipertrofia por adição de sarcômeros em série –
hipertrofia excêntrica). Às vezes, são vistas finas traves
esbranquiçadas de fibrose no miocárdio. Trombos murais
são frequentes, sobretudo nos átrios e no ápice dos
ventrículos (BOGLIOGO, 10ª ed.).
↠ Histologicamente, a MCD é caracterizada por fibras
miocárdicas atróficas e hipertróficas, além de fibrose
intersticial. Os miócitos cardíacos, em particular no
subendocárdio, frequentemente apresentam alterações
degenerativas avançadas. Também há fibrose intersticial,
de modo mais predominante na zona subendocárdica, e
possível presença de células inflamatórias dispersas
(PORTH, 10ª ed.).
↠ Há graus variados de hipertrofia das miocélulas
(caracterizada por núcleos volumosos, irregulares e
hipercromáticos), que paradoxalmente podem
apresentar-se alongadas e adelgaçadas, devido à dilatação
ventricular (BOGLIOGO, 10ª ed.).
↠ À microscopia eletrônica, as alterações também são
inespecíficas e consistem em cardiomiócitos com edema
intracelular, dilatação dos túbulos do sistema T e do
retículo sarcoplasmático, perda de cristas e variação na
forma e no tamanho das mitocôndrias, gotículas de
gordura e grânulos de lipofuscina no sarcoplasma. Todas
essas alterações constituem sinais de processo
degenerativo inespecífico em células hipertróficas
(BOGLIOGO, 10ª ed.).
Insuficiência Cardíaca
↠ A insuficiência cardíaca é definida como uma síndrome
complexa, resultante de qualquer distúrbio funcional ou
estrutural do coração, a qual ocasiona ou aumenta o risco
de desenvolver manifestações de débito cardíaco baixo
e/ou congestão pulmonar ou sistêmica (PORTH, 10ª ed.).
EPIDEMIOLOGIA
↠ A IC tem alta prevalência e grande impacto na
morbidade e mortalidade em todo o mundo, sendo hoje
um grave problema de saúde pública (SOCESP, 4ª ed.).
↠ A insuficiência cardíaca pode ocorrer em qualquer
faixa etária, mas afeta primariamente os idosos. Ainda que
as taxas de morbidade e mortalidade por DCV tenham
diminuído nas últimas décadas, a incidência de insuficiência
cardíaca está aumentando a uma taxa alarmante.
Aproximadamente, 400 mil a 700 mil pessoas são
diagnosticadas com insuficiência cardíaca a cada ano, nos
EUA (SOCESP, 4ª ed.).
↠ No Brasil, dados do Ministério da Saúde mostram que,
em 2007, quase 40% das internações hospitalares foramrelacionadas à IC descompensada. Essa proporção foi de
70% no grupo etário com mais de 60 anos (SOCESP, 4ª
ed.).
5
Júlia Morbeck – @med.morbeck
ETIOLOGIA E CLASSIFICAÇÃO
↠ A síndrome da insuficiência cardíaca pode ser
produzida por qualquer condição cardíaca que reduza a
capacidade de bombeamento do coração (PORTH, 10ª
ed.).
↠ Entre as causas mais comuns de insuficiência cardíaca,
podemos citar DAC, hipertensão, CMD e cardiopatia
valvar. Como muitos processos que levam à insuficiência
cardíaca são de longa duração e progridem
gradualmente, é possível prevenir a insuficiência cardíaca
em muitos casos, ou adiar a progressão por meio da
detecção e intervenção precoces (PORTH, 10ª ed.).
CLASSIFICAÇÃO DE ACORDO COM A FRAÇÃO DE EJEÇÃO
IC com fração de ejeção
reduzida
FEVEcardíaca
esquerda, ocorre uma diminuição no débito cardíaco para
a circulação sistêmica. O sangue se acumula no VE, no
átrio esquerdo e na circulação pulmonar, o que causa
uma elevação na pressão venosa pulmonar. Quando a
pressão nos capilares pulmonares (normalmente de cerca
de 10 mmHg) excede a pressão osmótica capilar (em geral
ao redor de 25 mmHg), ocorre uma transferência do
líquido intravascular para o interstício dos pulmões,
resultando em edema pulmonar (PORTH, 10ª ed.).
O episódio de edema pulmonar costuma ocorrer à noite, após a
permanência da pessoa em posição reclinada durante algum tempo e
a remoção das forças gravitacionais do sistema circulatório. Nesse
momento, o líquido do edema sequestrado nos membros inferiores
ao longo do dia retorna para o compartimento vascular e é
redistribuído para a circulação pulmonar (PORTH, 10ª ed.).
7
Júlia Morbeck – @med.morbeck
CAUSAS DA DISFUNÇÃO VENTRICULAR ESQUERDA
As causas mais comuns de disfunção ventricular esquerda são a
hipertensão e o infarto agudo do miocárdio (PORTH, 10ª ed.).
Mesmo quando a área infartada é pequena, pode haver uma área
adjacente de tecido isquêmico. Isso pode resultar em grandes áreas
de hipocinesia ou acinesia da parede ventricular, e no rápido
aparecimento de congestão e edema pulmonar (PORTH, 10ª ed.).
A estenose ou regurgitação da valva aórtica ou mitral também gera o
nível de retorno do lado esquerdo que resulta em congestão
pulmonar. Conforme a pressão pulmonar aumenta como resultado da
congestão, pode haver progressão para insuficiência cardíaca do lado
direito (PORTH, 10ª ed.).
Manifestações Clínicas da IC
↠ Dependem da extensão e do tipo de disfunção
cardíaca presente, bem como da rapidez com que se
desenvolve. Uma pessoa com insuficiência cardíaca
anteriormente compensada estável pode desenvolver
sinais de insuficiência cardíaca pela primeira vez quando a
condição avançar a um ponto crítico, como no aumento
progressivo da hipertensão pulmonar em pessoas com
regurgitação da valva mitral (PORTH, 10ª ed.).
↠ A gravidade e a progressão dos sintomas dependem
da extensão e do tipo de disfunção presente (sistólica
versus diastólica, do lado direito versus esquerdo) (PORTH,
10ª ed.).
↠ Os sinais e sintomas incluem falta de ar e outras
manifestações respiratórias, fadiga e tolerância limitada aos
exercícios, retenção de líquido e edema, caquexia e
desnutrição, e cianose. As pessoas com insuficiência
cardíaca grave podem apresentar diaforese e taquicardia
(PORTH, 10ª ed.).
MANIFESTAÇÕES RESPIRATÓRIAS
↠ A falta de ar decorrente da congestão da circulação
pulmonar é uma das principais manifestações da
insuficiência cardíaca do lado esquerdo. A falta de ar (i. e.,
dificuldade respiratória) que pode ser percebida é
denominada dispneia (PORTH, 10ª ed.).
FADIGA, FRAQUEZA E CONFUSÃO MENTAL
↠ A fadiga e a fraqueza com frequência acompanham a
diminuição do débito do VE. A fadiga cardíaca é diferente
da fadiga geral, no sentido de normalmente estar ausente
pela manhã, porém surgir e progredir com o aumento da
atividade no decorrer do dia (PORTH, 10ª ed.).
↠ Na insuficiência cardíaca do lado esquerdo aguda ou
grave, o débito cardíaco pode diminuir a níveis
insuficientes para o suprimento adequado de oxigênio
para o cérebro, causando assim confusão mental e
alterações comportamentais (PORTH, 10ª ed.).
Diagnóstico da IC
↠ A IC é uma síndrome complexa, com alteração da
função cardíaca, o que resulta em sintomas e sinais de
baixo débito cardíaco e/ou congestão pulmonar ou
sistêmica, em repouso ou aos esforços (DIRETRIZ, 2018).
↠ Uma história clínica e um exame físico detalhados
devem ser feitos em todos os pacientes em busca dos
principais sinais e sintomas de IC (DIRETRIZ, 2018).
OBS.: Em pacientes crônicos, a detecção de sinais clínicos de
congestão pode estar esmaecida ou ausente, por processos
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Júlia Morbeck – @med.morbeck
adaptativos e pela grande adaptação do sistema linfático em lidar com
congestão. Assim, os sinais clínicos de congestão podem ser pouco
sensíveis e também pouco específicos. Sobressaem-se, no entanto,
sinais como terceira bulha e sintoma como ortopneia como mais
específicos para o diagnóstico de IC (DIRETRIZ, 2018).
EXAMES COMPLEMENTARES
AVALIAÇÃO LABORATORIAL
↠ Na abordagem inicial dos pacientes com sinais e
sintomas sugestivos de IC crônica ambulatorial,
recomenda-se a realização de diversos exames
laboratoriais complementares, não só para avaliar a
presença e a gravidade de lesão de outros órgãos-alvo e
detectar comorbidades, como também para verificar
fatores agravantes do quadro clínico (DIRETRIZ, 2018).
OBS.: A realização de exames seriados pode ser necessária para
monitoração de variáveis de segurança, durante o tratamento da IC,
incluindo função renal e eletrólitos (DIRETRIZ, 2018).
MÉTODOS DE IMAGEM NÃO INVASIVOS
↠ Exames complementares gráficos e de imagem
desempenham papel relevante para confirmação das
alterações estruturais e funcionais cardíacas. Eles auxiliam
no diagnóstico desta condição, além de avaliar a gravidade
e a forma da cardiopatia, o que permite definir etiologia
da IC e estratificar o prognóstico (DIRETRIZ, 2018).
ELETROCARDIOGRAMA EM REPOUSO
↠ A realização de eletrocardiograma (ECG) de 12
derivações é recomendada na avaliação inicial de todos
os pacientes com IC, para avaliar sinais de cardiopatia
estrutural como hipertrofia ventricular esquerda, isquemia
miocárdica, áreas de fibrose, distúrbios da condução
atrioventricular, bradicardia ou taquiarritmias, que podem
demandar cuidados e tratamentos específicos (DIRETRIZ,
2018).
RADIOGRAFIA DO TÓRAX
↠ A radiografia simples do tórax, por sua simplicidade,
rapidez de obtenção e ampla disponibilidade, é
recomendada na avaliação inicial dos pacientes com sinais
e sintomas de IC, para avaliação de cardiomegalia e
congestão pulmonar. Porém, vale ressaltar que a
sensibilidade do método é bastante limitada e, ainda, que
a disfunção sistólica cardíaca significativa pode ocorrer
sem cardiomegalia na radiografia de tórax (DIRETRIZ,
2018).
↠ O método tem maior valor no contexto da IC aguda,
em que as alterações de congestão pulmonar são mais
intensas (DIRETRIZ, 2018).
ECOCARDIOGRAMA
↠ O ecocardiograma transtorácico é exame de imagem
de escolha para o diagnóstico e o seguimento de
pacientes com suspeita de IC. Permite a avaliação da
função ventricular sistólica esquerda e direita, da função
diastólica, das espessuras parietais, do tamanho das
cavidades, da função valvar, da estimativa hemodinâmica
não invasiva e das doenças do pericárdio (DIRETRIZ, 2018).
BIOMARCADORES
PEPTÍDEOS NATRIURÉTICOS
↠ Dentre os diversos biomarcadores estudados em IC,
destacam-se os peptídeos natriuréticos BNP e NT-
proBNP, cujo papel no diagnóstico de IC está bem
estabelecido, tanto no cenário da sala de emergência
quanto em pacientes com IC crônica ambulatoriais
(DIRETRIZ, 2018).
Valores de BNPqualidade de
vida (DIRETRIZ, 2018).
↠ Os bloqueadores dos receptores da angiotensina II
(BRAs) são alternativa com eficácia comparável aos IECA,
e estão indicados em pacientes intolerantes ou com
alergia documentada a esta classe de fármacos (DIRETRIZ,
2018).
Alguns aspectos práticos na utilização de IECAs e BRAs em pacientes
com IC devem ser considerados: (DIRETRIZ, 2018).
➢ Devido ao risco de piora da função renal, hipercalemia e
hipotensão arterial, os IECAs/BRAs devem ser introduzidos
em doses baixas (especialmente nos pacientes com
pressão arterial limítrofe) e titulação progressiva, até atingir
as doses-alvo, que garantem os benefícios documentados
nos grandes estudos clínicos multicêntricos.
➢ Intolerância aos IECAs é definida como a presença de tosse
persistente e debilitante (que ocorre em aproximadamente
10 a 20% dos casos) ou a ocorrência de angioedema
(achado incomum; 2,5 mg/dL) e em
pacientes com hipercalemia persistente (em geral potássio
> 5,9 mmol/L).
INIBIDORES DA NEPRISILINA E DOS RECEPTORES DA
ANGIOTENSINA (SACUBITRIL/VALSARTANA)
↠ O sacubitril/valsartana representa uma nova classe
terapêutica, que atua simultaneamente no sistema renina-
angiotensina-aldosterona (SRAA) e na endopeptidase
neutra (inibidor da neprilisina e do receptor da
angiotensina − INRA) (DIRETRIZ, 2018).
↠ Ao inibir a neprilisina, a degradação de peptídeos
natriuréticos, da bradicinina e de outros peptídeos é
diminuída (DIRETRIZ, 2018).
IVABRADINA
↠ A frequência cardíaca (FC) elevada é um marcador de
eventos em IC, podendo ser considerada um alvo
terapêutico. A ivabradina inibe seletivamente a corrente If
no tecido do nó sinoatrial, reduzindo a FC (DIRETRIZ, 2018).
DIGITÁLICOS
↠ O efeito de digoxina diante do tratamento
contemporâneo da IC, incluindo terapia tripla (IECAs, BB
e antagonistas da aldosterona), inibidores da neprilisina e
dos receptores da angiotensina, cardiodesfibriladores e
ressincronizadores, é virtualmente desconhecido
(DIRETRIZ, 2018).
↠ Existe controvérsia considerável sobre a segurança do
uso da digoxina em pacientes com FA, embora este
fármaco seja eficaz para redução de frequência
ventricular (DIRETRIZ, 2018).
DIURÉTICOS DE ALÇA E TIAZÍDICOS
↠ Os diuréticos são a classe terapêutica mais largamente
utilizada em pacientes com IC para alívio de congestão.
Isto se justifica pelo óbvio efeito terapêutico ao provocar
diurese e alívio da sobrecarga volêmica (DIRETRIZ, 2018).
10
Júlia Morbeck – @med.morbeck
Doenças Negligenciadas
↠ As doenças negligenciadas constituem um grupo de
enfermidades prevalente nos países em
desenvolvimento, que afetam indistintamente toda a
população, mas que tem tido mais impacto em grupos
populacionais em situação de vulnerabilidade social
representando um sério obstáculo ao desenvolvimento
socioeconômico e a melhoria da qualidade de vida
(SANTOS, 2019).
↠ Possui pouco investimentos em pesquisa e tecnologia
para avançar no controle, na prevenção e tratamento
medicamentoso (SANTOS, 2019).
↠ São consideradas doenças negligenciadas, as
enfermidades caracterizadas por incidirem em regiões
tropicais, por serem mortais ou muito graves e afetarem
um país ou região de maneira endêmica e pelo fato das
opções para o tratamento não existirem, serem
inadequadas ou ultrapassadas e com pouca eficácia
(SANTOS, 2019).
↠ A OMS propôs a denominação doenças
negligenciadas referindo-se aquelas enfermidades,
geralmente transmissíveis, que apresentam maior
ocorrência nos países em desenvolvimento, e mais
negligenciadas exclusivas dos países em desenvolvimento
(SANTOS, 2019).
↠ Em uma época marcada pelas transformações
tecnológicas, é contraditório abordar um assunto que trata
da ausência de tecnologias, pesquisa e inovação na área
da saúde, visto que as doenças negligenciadas são um
grupo de afecções transmissíveis em sua maioria causada
por protozoários e transmitidas por vetores cujo
tratamento é inexistente, precário ou desatualizado
(SANTOS, 2019).
↠ Essas doenças podem prejudicar o crescimento infantil
e o desenvolvimento intelectual, bem como a
produtividade do trabalho. Dessa forma, as doenças
negligenciadas são as que não apresentam atrativos
econômicos para o desenvolvimento de fármacos, quer
seja por sua baixa prevalência, ou por atingir população
em região de baixo nível de desenvolvimento (SANTOS,
2019).
↠ Para Morel (2016), são três as causas principais da
permanência das doenças negligenciadas relacionadas ao
que identificado como falhas, quais sejam: (SANTOS, 2019).
➢ Falhas de ciência: referem-se a conhecimentos
insuficientes, apontando para uma construção
de sentidos em que a solução das doenças
negligenciadas está situada no tempo futuro.
➢ Falhas de mercado: dizem respeito à situação
de medicamentos ou vacinas que existem,
porem disponíveis a custos proibitivos.
➢ Falhas de saúde pública: ocorrem quando
estratégias terapêuticas acessíveis ou gratuitas
não chegam às populações afetadas devido a
problemas de planejamento.
↠ As doenças negligenciadas são endêmicas em 149
países e afetam mais de um bilhão de pessoas no mundo
(SANTOS, 2019).
↠ O Brasil buscou, durante os últimos anos, definir um
plano de ação no controle às doenças negligenciadas por
meio de investimento em pesquisa e financiamento em
novas tecnologias, iniciando em 2006, o Programa de
Pesquisa e Desenvolvimento em Doenças Negligenciadas
(SANTOS, 2019).
DOENÇAS MEGLIGENCIADAS 2021 - 2030
↠ A Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou
formalmente nesta quinta-feira, 28 de janeiro de 2021 em
um evento virtual, o seu novo roteiro para as Doenças
Tropicais Negligenciadas (DTN) para o período 2021-2030
(SBMT, 2020).
↠ Entre as 20 DTN incluídas neste documento da OMS
inserem-se, segundo meta de controle em saúde pública:
(SBMT, 2020).
➢ Erradicação: dracunculose, bouba;
➢ Eliminação (interrupção da transmissão):
tripanossomíase africana (Trypanosoma brucei
gambiense), hanseníase, oncocercose;
➢ Eliminação como problema de saúde pública:
doença de Chagas, tripanossomíase africana
(Trypanosoma brucei rhodesiense), leishmaniose
visceral, filariose linfática, raiva, esquistossomose,
geohelmintoses, tracoma;
➢ Controle: úlcera de Buruli, dengue,
equinococose, trematodioses de transmissão
alimentar, leishmaniose cutânea,
micetoma/cromoblastomicose/outras micosesprofundas, escabiose/outras ectoparasitoses,
envenenamento por picada de cobra e
teníase/cisticercose.
11
Júlia Morbeck – @med.morbeck
OBS.: O Dia Mundial das Doenças Tropicais Negligenciadas foi instituído
em 2020 pela Assembleia Mundial da Saúde e é celebrado em 30 de
janeiro.
Referências
ROHDE et. al. Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca
Crônica e Aguda. Arquivo Brasileiro de Cardiologia, 2018.
MARCONDES-BRAGA et. al. Atualização de Tópicos
Emergentes da Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca.
Arquivo Brasileiro de Cardiologia, 2021.
CONSOLIM-COLOMBO et. al. Tratado de Cardiologia
SOCESP, 4ª edição – Barueri – São Paulo: Manole, 2019.
NORRIS. PORTH Fisiopatologia, 10ª edição – Rio de Janeiro:
guanabara Koogan, 2021.
FILHO, G. B. Bogliogo, Patologia, 10ª edição – Rio de
Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.
CAMANDAROBA et. al. Miocardiopatia dilatada: um relato
de caso. Brzilian Journal of health Review, 2020.
SANTOS, C. S. As doenças negligenciadas e suas
representações sociais: um estudo com profissionais de
saúde, Tese de Doutorado, RJ, 2019.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE MEDICINA TROPICAL
(SBMT), 2020. Disponível em:
1
Júlia Morbeck – @med.morbeck
Objetivos
1- Compreender a fisiopatologia da aterosclerose;
2- Discutir a etiologia, fisiopatologia e manifestações
clínicas da doença arterial coronariana;
3- Diferenciar dor precordial típica x atípica e angina
estável x instável;
4- Descrever o diagnóstico da doença arterial
coronariana; (ECG e marcadores de necrose)
5- Explicar o tratamento medicamentoso da
doença arterial coronariana.
*ECG e Marcadores de necrose.
Aterosclerose
↠ Trata-se de uma doença inflamatória crônica sistêmica
de grande complexidade que ocorre sobretudo na
camada íntima das artérias, mas também envolvendo as
camadas média e adventícia (SOCESP, 4ª ed.).
O processo de crescimento e de desenvolvimento da doença
aterosclerótica se dá de maneira silenciosa e ao longo de décadas,
iniciando-se com a formação da estria gordurosa em crianças e
adolescentes, progredindo para formação de placas complexas na
idade adulta. Nesse momento, essas placas, a depender do seu
tamanho e do seu grau de instabilidade, podem levar a um quadro
sintomático como angina pectoris, infarto agudo do miocárdio, acidente
vascular cerebral ou claudicação intermitente (SOCESP, 4ª ed.).
Etiologia e fatores de risco da aterosclerose
↠ O principal fator de risco da aterosclerose é a
hipercolesterolemia e, especialmente, as elevações nos
níveis de colesterol LDL. Entre os fatores de risco não
modificáveis adicionais, estão o avanço da idade, histórico
familiar de doença cardíaca e sexo masculino. Também
foram identificadas diversas alterações determinadas
geneticamente no metabolismo das lipoproteínas e do
colesterol (PORTH, 10ª ed.).
↠ Os fatores de risco cardíaco tradicionais – tabagismo,
obesidade e gordura visceral, hipertensão e diabetes
melito – também são fatores de risco para o
desenvolvimento de aterosclerose. As toxinas que entram
na corrente sanguínea como resultado do tabagismo
podem lesionar o tecido endotelial (PORTH, 10ª ed.).
↠ Tanto a hipertensão (pressão arterial alta) quanto o
diabetes melito são fatores de risco independentes para
o desenvolvimento de aterosclerose, mas também
apresentam efeitos sinérgicos e aditivos. A presença
isolada de hipertensão ou de diabetes melito aumenta o
risco de aterosclerose em no mínimo duas vezes. Quando
ambos coexistem, o risco de aterosclerose aumenta em
oito vezes. Na presença da tríade hipertensão + diabetes
+ hiperlipidemia, o risco de aterosclerose aumenta em
quase 20 vezes (PORTH, 10ª ed.).
Outros fatores associados ao aumento do risco de desenvolver
aterosclerose incluem inatividade física, padrões de vida estressantes,
níveis séricos de proteína C reativa (PCR) e níveis séricos de
homocisteína (PORTH, 10ª ed.).
A PCR é uma proteína reagente de fase aguda do processo
inflamatório, cujos níveis séricos são comprovadamente úteis como
marcador biológico, ainda que inespecífico, da presença de inflamação
sistêmica. Também foi observada a presença de moléculas de PCR
em algumas placas ateroscleróticas, implicando ainda mais o papel da
inflamação na formação dessas estruturas. Portanto, os níveis séricos
de PCR atuam como um marcador clínico efetivo do risco de doença
vascular aterosclerótica. O exame de PCR de alta sensibilidade é
recomendado como um exame de triagem para risco cardiovascular
(PORTH, 10ª ed.).
A homocisteína é derivada do metabolismo da metionina dietética, um
aminoácido abundante em proteínas de origem animal. O metabolismo
normal da homocisteína requer níveis adequados de folato, vitamina
B6, vitamina B12 e riboflavina. A homocisteína inibe elementos da
cascata anticoagulante e está associada à lesão endotelial, que se
acredita ser uma etapa inicial importante no desenvolvimento da
aterosclerose. Um distúrbio autossômico recessivo raro, denominado
homocistinúria, é causado por um defeito hereditário na produção de
uma enzima metabolizadora de homocisteína, resultando na elevação
dos níveis séricos desse aminoácido (PORTH, 10ª ed.).
Locais de aterosclerose grave, em ordem de frequência.
APG 06 – TEMPO É VIDA!
2
Júlia Morbeck – @med.morbeck
CONCEITOS DA BIOLOGIA VASCULAR
Os dois tipos celulares predominantes em uma artéria normal e que
têm importância fundamental na gênese da placa aterosclerótica são
as células endoteliais (CE) e as células musculares lisas (CML) (SOCESP,
4ª ed.).
As CE estão localizadas primordialmente na camada íntima do vaso,
estando, assim, em contato direto com o sangue e permitindo que o
mesmo, em situações de homeostase normal, possa fluir
adequadamente pelos vasos (SOCESP, 4ª ed.).
Já as CML estão localizadas majoritariamente, em condições normais,
na camada média do vaso e possuem propriedade de contração e
relaxamento, sendo, assim, capazes de regular o fluxo de sangue em
diversos territórios arteriais. Essas células também sintetizam matriz
extracelular (sobretudo colágeno) e podem migrar para a camada
íntima durante o desenvolvimento da placa aterosclerótica (SOCESP,
4ª ed.).
Fisiopatologia da aterosclerose
↠ Apesar de se tratar de um processo contínuo, para
fins didáticos, iremos dividir o processo ateromatoso em
quatro grandes fases: (SOCESP, 4ª ed.).
➢ Fase inicial da aterogênese.
➢ Fase de desenvolvimento da estria gordurosa.
➢ Fase de progressão para placa complexa.
➢ Fase de rotura da placa.
FASE INICIAL DA ATEROGÊNESE
↠ Em seu estado normal, as CE, que recobrem a
superfície da parede arterial, não permitem a adesão de
células sanguíneas como os leucócitos. Entretanto, fatores
de risco ou desencadeadores da aterosclerose como
fumo, hipertensão, hiperglicemia, dieta rica em gorduras
saturadas, obesidade ou resistência à insulina podem
instigar a expressão de moléculas de adesão pelas CE,
permitindo a adesão dos leucócitos à parede arterial
(SOCESP, 4ª ed.).
↠ Um dos responsáveis por permitir a adesão das células
sanguíneas ao endotélio é a molécula de adesão celular
vascular 1 (VCAM-1). A VCAM-1 liga-se a monócitos e
linfócitos T, os dois tipos principais de leucócitos
encontrados na fase inicial da placa aterosclerótica
(SOCESP, 4ª ed.).
A expressão de VCAM-1 é induzida por diversas substâncias. Podemos
citar entre elas os lipídios oxidados e as citocinas pró-inflamatórias,
como interleucina 1 (IL-1) e fator de necrose tumoral-α (TNF-α) que
induzem a expressão de VCAM-1 através do mecanismo mediado pelo
fator--nuclear kappa ß (NFkß) (SOCESP, 4ª ed.).
↠ Sabemos também que a formação de placas
ateroscleróticas é influenciada pelo tipo de fluxo
sanguíneo. Em áreas onde o fluxo é turbulento,há uma maior
propensão para formação de placas ateroscleróticas. Já em áreas com
fluxo laminar, mecanismos antiaterogênicos são deflagrados, como a
expressão de uma enzima antioxidante, a superóxido dismutase, e a
produção de oxido nítrico, um potente vasodilatador (SOCESP, 4ª
ed.).
Acredita-se que as CE possam sentir as diferenças de fluxo através
de cílios presentes em sua superfície luminal e receptores de adesão
em sua parede lateral, embora estes mecanismos ainda necessitem
de maiores estudos. Essas estruturas seriam responsáveis por fazer a
transdução de um sinal mecânico (alteração do fluxo sanguíneo
vascular) em químico (SOCESP, 4ª ed.).
↠ Também nessa fase inicial da aterogênese,
observamos a ocorrência de acúmulo extracelular de
lípideos na íntima. O maior exemplo disso é a ligação das
partículas de LDL aos proteoglicanos da matriz
extracelular arterial, através de um sítio específico da
apoproteína B que compõe as LDLs. Postula-se também
que as LDL pequenas e densas tenham ainda maior
afinidade para formação dessas ligações (SOCESP, 4ª ed.).
↠ Uma vez no espaço intimal, as lipoproteínas
apresentam suscetibilidade aumentada à oxidação, dada a
escassez de antioxidantes nessa região. O processo
inflamatório inicial pode contribuir para a oxidação das
lipoproteínas por diversos mecanismos (SOCESP, 4ª ed.).
De maneira complementar, a LDL-oxidada também pode ser capaz
de amplificar o processo inflamatório inicial local (SOCESP, 4ª ed.).
↠ As células inflamatórias passam a se aderir ao endotélio,
inicialmente por uma fase de rolamento, mediada por
moléculas endoteliais de adesão denominadas selectinas.
Em seguida, os monócitos passam para a fase de adesão
firme, caracterizada pela interação entre a já descrita
VCAM-1 do endotélio e moléculas específicas de integrina
na superfície dos monócitos e linfócitos T (SOCESP, 4ª
ed.).
↠ Uma vez aderidos ao endotélio arterial, os monócitos
penetram por meio do endotélio e entram na íntima do
vaso por diapedese, processo dependente de gradiente
quimiotático, gerado, por exemplo, pela proteína
3
Júlia Morbeck – @med.morbeck
quimiotática de monócito (MCP-1). Placas de ateroma
hiperexpressam MCP-1 e essa citocina é responsável por recrutar
monócitos de caráter inflamatório, presentes nos estágios iniciais da
placa de ateroma (SOCESP, 4ª ed.).
FASE DE DESENVOLVIMENTO DA ESTRIA GORDUROSA
↠ Na íntima das artérias, monócitos maturam–se em
macrófagos que, por apresentarem expressão de
receptores scavenger, que permitem a internalização
excessiva de lipídios modificados, principalmente a LDL-
oxidada (SOCESP, 4ª ed.).
↠ Ésteres de colesterol acumulam-se no citoplasma e,
assim, os macrófagos tornam-se células espumosas,
características desse estágio da aterogênese. Os
macrófagos multiplicam-se e liberam vários fatores de
crescimento e citocinas, amplificando e sustentando os
sinais pró-inflamatórios. Um mediador importante para
esse processo é o fator estimulador de colônia de
macrófago (M-CSF) que é hiperexpresso em placas
ateroscleróticas humanas (SOCESP, 4ª ed.).
OBS.: A presença de numerosos macrófagos transformados em células
espumosas na íntima vascular caracteriza uma lesão aterosclerótica
precursora conhecida como estria gordurosa que, nesse estágio, ainda
pode ser reversível e não causar repercussões clínicas (SOCESP, 4ª
ed.).
As ações de fagocitose e de liberação de citocinas exercidas por estes
macrófagos são componentes da chamada resposta imunológica inata,
aquela que não necessita da ativação e interação entre linfócitos T e
B para ocorrer. Hoje, sabemos também, entretanto, que essas outras
funções do sistema imunológico, chamadas de resposta imune
adaptativa, também contribuem para a aterogênese (SOCESP, 4ª ed.).
Apesar de em menor número, linfócitos T também estão presentes
na placa aterosclerótica. Células dendríticas teciduais ou os próprios
macrófagos provenientes da circulação funcionam como células
apresentadoras de antígenos para os linfócitos T. Os antígenos
apresentados são bastante variáveis, como, por exemplo, porções de
lipoproteínas (SOCESP, 4ª ed.).
↠ Após a apresentação do antígeno (“sinapse imunológi-
ca”), as células T CD4+ (linfócitos T helper) são ativadas
e diferenciam-se em dois subtipos principais de linfócitos
T CD4+, que realizam ações imunológicas distintas: as
células efetoras Th1 e Th2 (SOCESP, 4ª ed.).
A resposta Th1 produz citocinas pró-inflamatórias, como o interferon-
γ, linfotoxina e TNF-α, contribuindo para desestabilização da placa. A
resposta Th2, por sua vez, é responsável por secretar outro perfil de
citocinas, como IL-4 e IL-10, que podem diminuir a inflamação, inclusive
controlando a resposta Th1 e reduzindo a apresentação de antígenos
às células T; sua função na aterogênese, entretanto, é menos
estabelecida do que para a resposta Th1 (SOCESP, 4ª ed.).
Outro subtipo, os linfócitos Th17 secretam interleucina 17, que possui
efeitos mistos na placa de ateroma, tanto pró-aterogênico quanto pró-
fibrótico. Ainda outra população de células TCD4+, os linfócitos T
reguladores (CD4+; CD25+), também estão presentes nesse cenário
e possivelmente desempenham funções antiateroscleróticas (SOCESP,
4ª ed.).
↠ Os linfócitos TCD8+ (linfócitos T citotóxicos), por sua
vez, estão relacionados ao processo de apoptose de
células como macrófagos, CE e CML, por meio da
expressão do fator citotóxico de membrana Fas ligante e
de DAMPs. Todas as ações descritas até o momento são
chamadas de resposta imune adaptativa celular (SOCESP,
4ª ed.).
OBS.: A resposta imune adaptativa humoral, que envolve a ativação das
células B e sua decorrente produção de anticorpos, possivelmente
também participa do processo aterogênico, por meio da produção de
imunoglobulinas M (possivelmente ateroprotetora) pelas células B1 e de
citocinas e imunoglobulinas G (pró-aterogência) pelas células B2
(SOCESP, 4ª ed.).
FASE DE PROGRESSÃO PARA PLACA COMPLEXA
↠ Enquanto o conjunto de células espumosas é
característico da estria gordurosa, a deposição do tecido
4
Júlia Morbeck – @med.morbeck
fibroso define a lesão aterosclerótica mais avançada
(SOCESP, 4ª ed.).
Como vimos, macrófagos e linfócitos T infiltram as lesões
ateroscleróticas e localizam preferencialmente na borda do ateroma,
onde a atividade inflamatória é mais ativa e por onde se dá o
crescimento da placa (SOCESP, 4ª ed.).
↠ Na fase de progressão da placa, as CML sintetizam a
matriz extracelular. Essas células migram da túnica média
para a íntima em resposta à produção de fator de
crescimento derivado de plaqueta (PDGF) secretado
pelos macrófagos ativados e pelas CE, processo em parte
estimulado pela degradação da matriz extracelular pela
metaloproteinase de matriz 9 (MMP-9) e por outras
proteinases (SOCESP, 4ª ed.).
OBS.: Acredita-se também que parte dessas CML seja proveniente de
precursores vindos da corrente sanguínea ou mesmo de células
tronco presentes na própria parede arterial (SOCESP, 4ª ed.).
↠ Uma vez na íntima, as CML proliferam sob influência
de vários fatores de crescimento e secretam proteínas
da matriz extracelular, entre eles o colágeno intersticial.
Além de formação de matriz, também ocorre nesse
momento a mineralização (calcificação) da placa, também
por ação das CML. Esse processo parece ser mediado
pelo sistema RANK/RANK ligante (como estimulantes da
mineralização) e osteoprotegerina (como inibidor), de
maneira análoga à mineralização no tecido ósseo
(SOCESP, 4ª ed.).
↠ Outro processo importante para a progressão da
aterogênese é a formação de novos vasos sanguíneos a
partir da vasa vasorum, processo conhecido como
neovascularização. A neovascularização é mediada por
fatores como o já citado VEGF, fatores de crescimento
de fibroblasto, oncostatina M e fatores de crescimento
placentário. Os neovasos permitema progressão da placa
aterosclerótica por facilitarem a entrada de mais leucócitos
nas placas já estabelecidas (através da hiperexpressão de
VCAM-1) e por possibilitarem o aporte de nutrientes para
regiões mais centrais da placa e, por isso, mais afastadas
do lúmen vascular original (SOCESP, 4ª ed.).
Nesse fenômeno, há a produção de trombina, que promove a ativação
de CE, de monócitos e macrófagos, de CML e de plaquetas. Em
resposta à trombina, essas células secretam mediadores inflamatórios,
entre eles CD40L e RANTES (regulated upon activation, normal T cell
express sequence), que promovem o crescimento da placa, tornando-
as suscetíveis às complicações trombóticas da aterosclerose (SOCESP,
4ª ed.).
↠ As plaquetas têm um papel importante nessa fase,
secretando mediadores inflamatórios, entre eles CD40L e
fator de crescimento plaquetário, o que favorece o
sinergismo entre inflamação e trombose na fisiopatologia
da aterotrombose (SOCESP, 4ª ed.).
A hemorragia causada pelos neovasos consiste num bom exemplo
para ilustrar o conceito mais atual em relação à progressão temporal
da doença aterosclerótica. Hoje, acredita-se, na verdade, que essa
evolução se dê em surtos: as placas podem permanecer quiescentes
por algum tempo, talvez anos, até que algum evento específico
(como, por exemplo, uma hemorragia intraplaca) deflagre uma piora
dessa lesão, levando a um aumento de atividade inflamatória na região,
com acúmulo de CML, aumento de deposição de matriz e
crescimento da espessura global da placa (SOCESP, 4ª ed.).
FASE DE ROTURA DA PLACA
↠ Ao longo de todo o caminho de progressão da
aterogênese, no qual há a transformação de uma placa
rica em gordura para uma placa fibrosa e muitas vezes
calcificada, pode haver estenose do lúmen do vaso
(SOCESP, 4ª ed.).
↠ Considera-se que, em geral, no início do
desenvolvimento das lesões ateroscleróticas, o
crescimento da placa se dá num sentido contrário à luz
vascular, aumentando, assim, a espessura total da parede
do vaso. Esse processo é conhecido como
remodelamento positivo, sendo mediado, sobretudo,
pelos diversos ciclos de secreção e degradação da matriz
extracelular secretada pelas CML. Acredita-se que quando
a placa atinge um determinado tamanho (cerca de 40%
da espessura vascular em corte seccional), a lesão passe
a crescer em direção à luz do vaso, podendo assim,
causar lesões estenóticas (SOCESP, 4ª ed.).
Essa progressão lenta da lesão em geral é responsável por quadros
clínicos crônicos, como a angina estável, com desenvolvimento
sintomático progressivo ao longo de anos (SOCESP, 4ª ed.).
↠ A rotura da placa com sua trombose é a complicação
mais temida da aterosclerose, estando por trás da
5
Júlia Morbeck – @med.morbeck
fisiopatologia de grande parte das síndromes coronárias
agudas (SCA) (SOCESP, 4ª ed.).
↠ A SCA, em particular, pode mais frequentemente
resultar de dois mecanismos distintos em relação à fase
final de instabilização da placa: (SOCESP, 4ª ed.).
➢ rotura da capa fibrosa;
➢ erosão superficial da íntima.
↠ Acredita-se que, para que a rotura aconteça, deva
haver um desequilíbrio entre produção e degradação de
matriz extracelular que compõe a capa fibrosa, sendo
que, no cômputo final, haja predomínio da degradação da
matriz, enfraquecimento da capa e rotura. A inflamação,
mais uma vez, seria o processo básico que faria essa
regulação, sendo que a degradação da capa fibrosa se dá
essencialmente por enzimas (metaloproteinases e
catepsinas) liberadas pelos macrófagos (SOCESP, 4ª ed.).
↠ Com a rotura, as moléculas de fator tecidual do núcleo
lipídico exposto, proveniente das células espumosas e de
partículas apoptóticas de CML, irão interagir com
moléculas de fibrinogênio e inibidor do ativador
plasminogênio (PAI-1) presentes no sangue, levando à
formação de um trombo sobre a placa rota. Este trombo
pode tanto levar a uma obstrução total e dramática do
fluxo sanguíneo como pode ser não oclusivo e transitório,
a depender de como essas interações complexas irão
ocorrer (SOCESP, 4ª ed.).
↠ O segundo mecanismo para SCA, a erosão superficial
da íntima, é menos compreendido. Nesses casos,
encontravam-se erosões no endotélio da placa, expondo
ao sangue uma camada íntima rica em CML e
proteoglicanos, sem haver, entretanto, exposição do
núcleo lipídico (SOCESP, 4ª ed.).
Podemos dizer que a inflamação acaba por modular as seguintes ações
na aterogênese: (SOCESP, 4ª ed.).
➢ A ativação do endotélio e recrutamento monolinfocitário.
➢ A captação e oxidação das partículas de lipoproteínas de
baixa densidade (LDL).
➢ A produção local e sistêmica de citocinas pró-inflamatórias.
➢ A produção de proteases e a degradação da capa fibrótica,
responsáveis pela desestabilização da placa.
➢ A indução da apoptose das células da placa.
➢ O controle da coagulação após rotura da placa,
aumentando fatores pró-coagulantes tanto no núcleo
lipídico quanto no sangue.
Obs.: A aterosclerose tem duas consequências principais: obstrução
arterial, com isquemia, aguda ou crônica; dilatação arterial, resultando
em aneurisma (BOGLIOGO, 10ª ed.).
Doença Arterial Coronariana (DAC)
↠ O termo doença arterial coronariana (DAC) descreve
a cardiopatia causada pelo comprometimento do fluxo
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Júlia Morbeck – @med.morbeck
sanguíneo coronariano. Na maior parte dos casos, a DAC
é causada pela aterosclerose, que não somente afeta as
artérias coronárias como também as artérias em outras
áreas do corpo (PORTH, 10ª ed.).
As doenças das artérias coronárias podem causar isquemia do
miocárdio e angina, infarto do miocárdio ou ataque cardíaco, arritmias
cardíacas, defeitos na condução, insuficiência cardíaca e morte súbita
(PORTH, 10ª ed.).
FATORES DE RISCO DA DAC
↠ Os principais fatores de risco para a DAC incluem: (PORTH, 10ª ed.).
➢ tabagismo;
➢ pressão arterial alta;
➢ elevação dos níveis séricos de colesterol total e de
colesterol de lipoproteína de baixa densidade (LDL);
➢ baixos níveis séricos de colesterol de lipoproteína de alta
densidade (HDL);
➢ diabetes;
➢ idade avançada;
➢ obesidade abdominal;
➢ inatividade física.
OBS.: Os indivíduos com diabetes e síndrome metabólica apresentam
um risco particularmente alto de desenvolvimento de DCV,
apresentando significativa morbidade decorrente da doença (PORTH,
10ª ed.).
Etiologia da DAC
Epidemiologia da DAC
↠ A prevalência da DAC varia de acordo com o estudo
considerado, na medida em que os estudos referentes ao
tema utilizam muitas vezes definições distintas. Estima-se
que no ano de 2018, 16,5 milhões de americanos
apresentavam doença coronária, sendo predominante no
sexo masculino (55%) (SOCESP, 4ª ed.).
↠ Naturalmente que tanto no homem quanto na mulher
a prevalência aumenta com a idade. Nas fases mais
precoces da vida, a maior prevalência entre as mulheres
pode ser explicada pela disfunção microvascular, mais
comum nesse grupo (SOCESP, 4ª ed.).
↠ Em 2017, foi estimada uma prevalência de DAC de
1,75% (2.500.000 de indivíduos), na população brasileira
maior que 20 anos. As maiores prevalências estavam nas
regiões Sul e Sudeste, com taxa de mortalidade
padronizada decrescente, mas com aumento da
prevalência desde 1990 (MARINHO, 2021).
↠ Com estimativa de incidência de cerca de 121 mil casos
por ano1 em 2017, a DAC tem sido um importante
problema de saúde pública no país (MARINHO, 2021).
↠ A maior mortalidade por DAC está relacionada com
um menor nível socioeconômico, países de maior renda
têm, taxa de mortalidade menor que países de média
renda. Os novos tratamentos da DAC com uso de novas
tecnologias têm reduzido a mortalidade, mas não podem
reduzir a carga da doença e a perda da saúde, associada
com a DAC (MARINHO, 2021).
Fisiopatologia da DAC
↠ O fluxo sanguíneo coronariano leva oxigênio aos
miócitos e remove produtos do catabolismo,como
dióxido de carbono, ácido láctico e íons hidrogênio. O
coração tem uma demanda metabólica tremendamente
alta; embora represente apenas 0,3% do peso corporal,
ele é responsável por 7% do consumo de oxigênio em
repouso. Isquemia celular ocorre quando há uma demanda
aumentada por oxigênio em relação ao suprimento
arterial máximo, ou uma redução absoluta do supri-
mento de oxigênio (HAMMER; MCPHEE, 7ª ed.).
↠ A redução do suprimento de oxigênio pode
raramente se originar de diminuição do conteúdo de
oxigênio do sangue – como acontece na intoxicação por
monóxido de carbono ou na anemia –, mas, mais
comumente, é causada por anormalidades de artérias
coronárias, particularmente doença aterosclerótica
(HAMMER; MCPHEE, 7ª ed.).
↠ Isquemia miocárdica pode surgir por uma combinação
de demanda aumentada e suprimento diminuído; o abuso
de cocaína aumenta a demanda de oxigênio (por inibição da
recaptação de noradrenalina nos terminais nervosos adrenérgicos no
coração) e pode reduzir o suprimento de oxigênio por causar
vasoespasmo (HAMMER; MCPHEE, 7ª ed.).
7
Júlia Morbeck – @med.morbeck
↠ O coração recebe sua energia principalmente de ATP
gerado por fosforilação oxidante de ácidos graxos livres,
embora glicose e outros carboidratos possam ser
utilizados. Dentro de 60 segundos após oclusão de artéria
coronária, a tensão de oxigênio nas células miocárdicas
afetadas cai essencialmente para zero. Os estoques
cardíacos de fosfatos de alta energia são exauridos
rapidamente, e as células mudam prontamente para
metabolismo anaeróbio, com a consequente produção de
ácido láctico (HAMMER; MCPHEE, 7ª ed.).
↠ Disfunção do relaxamento e contração do miocárdio
ocorre dentro de segundos, mesmo antes que aconteça
a depleção de fosfatos de alta energia. A base bioquímica
para esta anormalidade não é conhecida. Se a perfusão
não for restabelecida dentro de 40 a 60 minutos, inicia-
se um estágio irreversível de dano, caracterizado por
tumefação difusa de mitocôndrias, lesão da membrana
celular e depleção acentuada de glicogênio. O mecanismo
exato pelo qual dano irreversível ocorre não está claro,
mas depleção intensa de ATP, concentrações
extracelulares de cálcio aumentadas, acidose láctica e
radicais livres têm sido postulados como possíveis causas
(HAMMER; MCPHEE, 7ª ed.).
Manifestações Clínicas da DAC
DOR TORÁCICA
↠ A dor torácica tem sido atribuída tradicionalmente à
isque- mia. Contudo, evidências mais recentes sugerem
que, em pacientes com doença arterial coronariana, 70 a
80% dos episódios de isquemia na verdade são
assintomáticos (HAMMER; MCPHEE, 7ª ed.).
Acredita-se que a dor torácica, quando presente, seja mediada por
fibras aferentes simpáticas que inervam ricamente o átrio e o
ventrículo. A partir do coração, as fibras atravessam os gânglios
simpáticos torácicos superiores e as cinco raízes dorsais torácicas
superiores da medula espinal. Na medula espinal, os impulsos
supostamente convergem com impulsos de outras estruturas. Esta
convergência pode ser o mecanismo da dor na parede torácica, nas
costas e no braço que algumas vezes acompanha a angina de peito
(HAMMER; MCPHEE, 7ª ed.).
A importância dessas fibras pode ser demonstrada em pacientes que
passaram por um transplante de coração. Quando esses pacientes
desenvolvem aterosclerose, eles permanecem completamente
assintomáticos, sem desenvolvimento de angina (HAMMER; MCPHEE,
7ª ed.).
↠ Três fatores provavelmente são responsáveis pela
grande proporção de episódios assintomáticos: disfunção
de nervos aferentes, perfusão reduzida transitória e
limiares de dor diferentes entre pacientes (HAMMER;
MCPHEE, 7ª ed.).
QUARTA BULHA CARDÍACA E DISPNEIA
↠ Esses achados podem ocorrer devido à disfunção
diastólica e sistólica do miocárdio isquêmico (HAMMER;
MCPHEE, 7ª ed.).
CHOQUE
↠ O local de oclusão da artéria coronária determina a
apresentação clínica da isquemia ou do infarto do
miocárdio. Como uma regra geral, quanto mais miocárdio
é suprido pelo vaso ocluído, mais significativos e graves
são os sintomas. Por exemplo, obstrução da artéria coronária
principal esquerda, ou da artéria coronária descendente anterior
esquerda, geralmente se apresentará como insuficiência cardíaca
grave, frequentemente com hipotensão associada (choque)
(HAMMER; MCPHEE, 7ª ed.).
BRADICARDIA
↠ Infartos da parede miocárdica inferior geralmente se
originam de oclusão da artéria coronária direita. Como a
área de tecido ventricular esquerdo suprida por esta
artéria é pequena, os pacientes geralmente não se
apresentam com insuficiência cardíaca (HAMMER;
MCPHEE, 7ª ed.).
↠ Entretanto, a artéria que fornece suprimento
sanguíneo para o nó AV se ramifica a partir da artéria
descendente posterior, de modo que os infartos do
miocárdio da parede inferior às vezes são associados com
condução lenta ou ausente do nó AV. Além da isquemia,
podem ocorrer anormalidades de condução do nó AV
em consequência de ativação reflexa do nervo vago, que
inerva ricamente o nó AV (HAMMER; MCPHEE, 7ª ed.).
OBS.: Disfunção do nó sinusal é raramente observada em doença
arterial coronariana, porque esta área recebe sangue tanto da artéria
coronária direita quanto da esquerda (HAMMER; MCPHEE, 7ª ed.).
NÁUSEA E VÔMITO
↠ Náusea e vômito podem surgir por ativação do nervo
vago na situação de infarto da parede inferior do
miocárdio (HAMMER; MCPHEE, 7ª ed.).
Taquicardia
↠ Os níveis de catecolaminas geralmente estão elevados
em pacientes com infarto do miocárdio. Isso ajuda a
manter o volume sistólico, mas leva a uma frequência
cardíaca aumentada (HAMMER; MCPHEE, 7ª ed.).
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Júlia Morbeck – @med.morbeck
Dor precordial e angina
OBS.: O termo dor precordial se refere ao incômodo na região torácica.
DOR TORÁCICA
↠ A dor torácica aguda é uma das causas mais
frequentes de atendimento nas unidades de emergência
(UE), correspondendo a mais de 5% das visitas em UE e
até 10% das visitas não relacionadas a traumatismos
(DIRETRIZ, 2021).
↠ O diagnóstico de dor precordial se divide em dor típica
e atípica.
➢ A dor típica caracteriza angina ou infarto do
miocárdio, sendo parecida com um aperto ou
opressão no peito.
➢ Já a dor atípica aponta para uma causa
diferente de angina ou infarto. Febre, tosse e
queimação ou azia são alguns dos sinais que
podem acompanhar esse tipo de incômodo.
↠ Ainda, no momento inicial do atendimento, é muito
importante identificar e classificar os pacientes quanto à
probabilidade da dor torácica ser origem isquêmica
(SANTOS; TIMERMAN, 2018).
➢ Dor Tipo A (definitivamente anginosa): dor em
aperto ou queimação, em repouso, ou
desencadeada pelo esforço ou estresse, com
irradiação para o ombro, mandíbula ou face
interna do braço, aliviada pelo repouso ou nitrato.
Não são necessários exames complementares
para a definição diagnóstica.
➢ Dor Tipo B (provavelmente anginosa): as
características da dor torácica fazem da
insuficiência coronária a principal hipótese,
porém, são necessários exames
complementares para a definição diagnóstica.
➢ Dor Tipo C (possivelmente anginosa): dor
torácica cujas características não fazem da
insuficiência coronária a principal hipótese (dor
torácica atípica), porém, são necessários
exames complementares para excluí-la.
➢ Dor Tipo D (definitivamente não anginosa): dor
torácica atípica, cujas características não incluem
a insuficiência coronária aguda no diagnóstico
diferencial.
OBS.: As diretrizes do National Heart Attack Alert Program afirmam
que os pacientes com os sintomas típicos que chamam bastante
atenção, devem ser avaliados de forma imediata pelos enfermeiros de
triagem e encaminhados para avaliação mais precisa, os sintomas são:
dor torácica, em aperto ou opressão, com duração de dez a vinte
minutos, dor que se irradia para o pescoço, mandíbula,ombros, dorso
ou ambos os braços; indigestão, ou azia, náuseas, e/ou vômito
associados a desconforto torácico; dispnéia persistente, fraqueza,
tontura e perda de consciência (LEITE et. al., 2019).
IMPORTANTE: Não esquecer: uma dor torácica com característica mais
intensa, súbita e com duração aproximada de dez a vinte minutos,
junto com outros sinais e sintomas como: dispneia, sudorese, palidez
cutânea e náuseas, frequentemente representa um infarto agudo do
miocárdio (LEITE et. al., 2019).
ANGINA
↠ Angina pectoris representa o quadro de crises de dor
precordial com características de opressão, cortante,
causada por isquemia miocárdica de curta duração
(poucos minutos). Trata-se de uma síndrome
DIRETRIZ, 2014
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Júlia Morbeck – @med.morbeck
essencialmente clínica, sendo o correspondente
anatomopatológico variável (nem sempre há necrose de
miocardiócitos). (BOGLIOGO, 10ª ed.).
ANGINA ESTÁVEL
↠ A angina estável é a forma mais comum. O quadro
aparece por aumento súbito do trabalho cardíaco, como
acontece em exercícios físicos, estados de estresse,
emoções ou outras condições que causam sobrecarga
cardíaca (BOGLIOGO, 10ª ed.).
↠ Ao ECG, encontra-se infradesnivelamento do
segmento ST por a isquemia ser mais intensa na região
subendocárdica. Em geral, associa-se a aterosclerose
acentuada em uma ou mais coronárias. Sua patogênese,
portanto, relaciona-se com fluxo sanguíneo em nível
crítico por obstrução coronariana que se torna
insuficiente quando há aumento da demanda (desbalanço
entre demanda e oferta de sangue). O quadro doloroso
desaparece com repouso ou pelo uso de vasodilatadores
(BOGLIOGO, 10ª ed.).
ANGINA INSTÁVEL
↠ Na angina instável, os episódios são desencadeados
por pequenos esforços, ou até em repouso, e duram
mais tempo (acima de 10 minutos). É o tipo de angina que
geralmente precede o infarto do miocárdio. Na maioria
dos pacientes, existe aterosclerose coronariana e
formação de trombos não oclusivos, às vezes associados
a vasoespasmos. Tanto a angina instável quanto o infarto
do miocárdio são manifestações da síndrome coronariana
aguda (BOGLIOGO, 10ª ed.).
ANGINA DE REPOUSO
↠ A angina de repouso (angina de Prinzmetal) deve-se
também a espasmos coronarianos, muitas vezes
associados a placas ateromatosas. O quadro não tem
relação com aumento da demanda (esforço físico,
emoções etc.) (BOGLIOGO, 10ª ed.).
↠ Ao ECG, encontra-se supradesnivelamento do
segmento ST, indicando isquemia transmural. Esta forma
de angina responde rapidamente a agentes
vasodilatadores (BOGLIOGO, 10ª ed.).
IMPORTANTE: A AI é definida como isquemia miocárdica na ausência de
necrose miocárdica, ou seja, com biomarcadores negativos. Durante o
manejo inicial da SCA, frequentemente, é difícil diferenciar AI do
IAMSSST com base apenas em critérios clínicos (i. e., antes que a
dosagem de marcadores de necrose miocárdica esteja disponível),
devendo ambas as entidades serem conduzidas de forma semelhante
nessa fase (DIRETRIZ, 2021).
IMPORTANTE: O termo síndrome coronariana aguda (SCA) é usado
para pacientes em que há suspeita de isquemia miocárdica aguda ou
IM. São classificadas em três apresentações: angina instável (AI), IM
sem supradesnivelamento do segmento ST (IMsSST) e IM com
supradesnivelamento do segmento ST (IMcSST). O discernimento
entre IM e AI em geral é feito ao comparar as curvas de marcadores
de necrose miocárdica (SOCESP, 4ª ed.).
Diagnóstico da DAC
↠ O diagnóstico da doença arterial coronariana estável
(DAC) deve seguir os princípios da semiologia médica, ou
seja, deve incluir a anamnese detalhada, exame físico e
exames subsidiários. A regra também é válida para os
pacientes assintomáticos, uma vez que a busca ativa pela
doença, utilizando exames subsidiários, só se justifica em
pacientes de maior risco, identificados durante o
atendimento médico (SOCESP, 4ª ed.).
↠ Na história clínica, além da avaliação da dor torácica,
quando existente, é fundamental que os antecedentes
pessoais e familiares sejam explorados adequadamente.
Pacientes com fatores de risco conhecidos estão mais
sujeitos a ter ou a desenvolver a doença, o que torna sua
abordagem diferente daqueles sem qualquer um dos
fatores. Doenças associadas também são igualmente
importantes, pois muitos delas podem, mesmo
isoladamente, levar ao diagnóstico de DAC, como no caso
de um infarto do miocárdio prévio por exemplo
(SOCESP, 4ª ed.).
↠ Em 2010, Boesner et al. propuseram cinco
características para que em um contexto de atendimento
primário fosse possível confirmar ou descartar a hipótese
de doença coronariana: (SOCESP, 4ª ed.).
➢ Homens com idade superior a 55 anos e
mulheres com idade superior a 65 anos.
➢ Doença cardiovascular conhecida.
➢ Crença, pelo paciente, que a dor seja de origem
cardíaca.
➢ Piora da dor durantes os esforços.
➢ Ausência de dor à palpação torácica.
DIRETRIZ, 2014
DIRETRIZ, 2014
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Júlia Morbeck – @med.morbeck
OBS.: Ainda, segundo os autores, quando apenas duas características
(ou menos) estiverem presentes, é possível descartar a hipótese de
DAC com especificidade de 81%. No entanto, quando 3 a 5
características estão presentes, a sensibilidade do teste chega a 87%
(SOCESP, 4ª ed.).
TESTES NÃO INVASIVOS
↠ Embora os testes não invasivos seja de enorme valia
para o diagnóstico de DAC, seu uso só se aplica nas
situações em que a probabilidade de doença é pelo
menos intermediária. Exames realizados em pacientes
assintomáticos ou com probabilidade baixa de doença não
são custo/efetivos, além de aumentarem a possibilidade
de um resultado falso-positivo, o que pode, em diversas
situações, levar a condutas inadequadas (SOCESP, 4ª ed.).
↠ Os mesmos testes usados para o diagnóstico são
também de grande importância para a determinação da
gravidade da doença e, por consequência, do seu
prognóstico. Assim, mesmo nas situações em que o
diagnóstico já está confirmado, os testes não invasivos
podem ser realizados para estratificação de risco ou
avaliação da eficácia terapêutica (SOCESP, 4ª ed.).
EXAMES BIOQUÍMICOS
↠ Os testes bioquímicos têm fundamental importância
na medida em que ajudam a avaliar adequadamente o
risco e/ ou o prognóstico do paciente, auxiliam no
diagnóstico de doenças associadas e colaboram para a
decisão terapêutica (SOCESP, 4ª ed.).
➢ Medida da glicemia de jejum, da hemoglobina
glicada (HbA1c) e, eventualmente, o teste de
tolerância oral à glicose são fundamentais –
correlação entre DM e DAC (SOCESP, 4ª ed.).
➢ Avaliação da função renal associada ao cálculo
da filtração glomerular – doenças renais são
fatores de risco para a DAC (SOCESP, 4ª ed.).
➢ O colesterol total, suas frações HDL e LDL, e
também os triglicérides devem ser avaliados
anualmente (SOCESP, 4ª ed.).
ELETROCARDIOGRAMA EM REPOUSO
↠ O ECG de 12 derivações é o procedimento diagnóstico
cardiovascular utilizado com mais frequência (PORTH, 10ª
ed.).
↠ Alterações eletrocardiográficas em repouso podem
estar ausentes em 50% dos pacientes portadores de
angina estável, principalmente aqueles com função de
ventrículo esquerdo normal (SOCESP, 4ª ed.).
↠ Embora um eletrocardiograma (ECG) em repouso
normal, não seja capaz de excluir a presença da doença
coronariana, algumas alterações podem nos direcionar
para o diagnóstico, como aquelas relacionadas a um
quadro isquêmico prévio. Assim, todo paciente com
suspeita de DAC deve ter o ECG realizado (SOCESP, 4ª
ed.).
O pai do ECG moderno foi o fisiologista holandês Walter Einthoven. Ele
nomeou as partes do ECG como as conhecemos hoje e criou o
“triângulo de Einthoven”, um triângulo hipotético criado ao redor do
coração quando os eletrodos são colocados nos braços e na perna
esquerda. Os lados do triângulo são numerados para corresponder às
três derivações, ou pares de eletrodos, usados para obter oregistro.
(SILVERTHON, 7ª ed.)
Na prática clínica, posicionam-se eletrodos nos braços e pernas
(derivações dos membros) e em seis posições do tórax (derivações
torácicas) para registrar o ECG. (TORTORA, 14ª ed.)
O eletrocardiógrafo amplifica os sinais elétricos do coração e produz
12 traçados diferentes a partir das distintas combinações de derivações
de membros e tórax. Cada eletrodo no membro e tórax registra uma
atividade elétrica discretamente diferente, por causa da diferença em
sua posição em relação ao coração. (TORTORA, 14ª ed.)
11
Júlia Morbeck – @med.morbeck
ONDAS DO ECG
Existem dois componentes principais em um ECG: as ondas e os
segmentos. As ondas fazem parte do traçado que sobe e desce a
partir da linha de base. Os segmentos são partes da linha de base entre
duas ondas. Os intervalos são combinações de ondas e segmentos.
Em um registro típico, três ondas claramente reconhecíveis aparecem
a cada batimento cardíaco. (TORTORA, 14ª ed.)
A primeira, chamada onda P, é um pequeno desvio para cima no ECG.
A onda P representa a despolarização atrial, que se propaga do nó SA
ao longo das fibras contráteis em ambos os átrios. (TORTORA, 14ª ed.)
A segunda onda, denominada complexo QRS, começa com uma
deflexão para baixo, continua como uma grande onda vertical
triangular, e termina como uma onda descendente. O complexo QRS
representa a despolarização ventricular rápida, conforme o potencial
de ação se propaga ao longo das fibras contráteis ventriculares.
(TORTORA, 14ª ed.)
A terceira onda é um desvio para cima em forma de cúpula chamada
de onda T. Indica a repolarização ventricular e ocorre apenas quando
os ventrículos começam a relaxar. A onda T é menor e mais larga do
que o complexo QRS, porque a repolarização ocorre mais lentamente
do que a despolarização. (TORTORA, 14ª ed.)
Durante o período de platô da despolarização constante, o traçado do
ECG é reto. (TORTORA, 14ª ed.)
A análise de um ECG também envolve medir os intervalos de tempo
entre ondas, que são chamados intervalos ou segmentos. Por exemplo,
o intervalo PQ é o tempo desde o início da onda P até o início do
complexo QRS. Representa o tempo de condução do início da
excitação atrial até o início da excitação ventricular. (TORTORA, 14ª
ed.)
O segmento ST, que começa no fim da onda S e termina no início
da onda T, representa o momento em que as fibras contráteis
ventriculares são despolarizadas durante a fase de platô do potencial
de ação. (TORTORA, 14ª ed.)
O intervalo QT se estende do início do complexo QRS até ao final da
onda T. É o tempo a partir do início da despolarização ventricular até
o fim da repolarização ventricular. (TORTORA, 14ª ed.)
↠ O ECG tem papel ainda maior na avaliação do paciente
no momento em que a dor se faz presente. Alteração
do segmento ST e da onda T, principalmente as
dinâmicas, são fortemente sugestivas de doença
coronária (SOCESP, 4ª ed.).
↠ Mais de 1/3 dos pacientes apresentam alterações
características de SCA como depressão do segmento
ST, elevação transitória de segmento ST e inversão de
onda T. Alterações dinâmicas no segmento ST
(depressão ou elevação do ST) ou inversões da onda T
durante episódio doloroso, que se resolvem pelo menos
parcialmente quando os sintomas são aliviados, são
importantes marcadores de prognóstico adverso, ou seja,
subsequente IAM ou morte (DIRETRIZ, 2021).
↠ Em pessoas sem elevação do segmento ST ao ECG,
a oclusão coronariana trombótica não é total ou é
intermitente, enquanto aquelas com elevação do
segmento ST normalmente apresentam oclusão
coronariana completa à angiografia; por fim, muitas
apresentam infarto do miocárdio com onda Q. (PORTH,
10ª ed.).
↠ As alterações que ocorrem podem não estar
presentes imediatamente após o início dos sintomas e
variam consideravelmente, dependendo da duração do
evento isquêmico (agudo versus progressivo), da sua
extensão (subendocárdico versus transmural) e da sua
localização (anterior versus septal versus inferoposterior).
Como essas alterações em geral ocorrem ao longo do
tempo e são observadas nas derivações do ECG que
mostram a área do miocárdio envolvida, é indicado o
monitoramento contínuo e sequencial do ECG de 12
derivações (PORTH, 10ª ed.).
↠ A fase de repolarização do potencial de ação (onda T
e segmento ST ao ECG) normalmente é a primeira a
apresentar envolvimento durante a isquemia e a lesão do
endocárdio. Na medida em que a área envolvida se torna
isquêmica, a repolarização do miocárdio sofre alteração,
12
Júlia Morbeck – @med.morbeck
causando mudanças na onda T. Isso comumente é
representado pela inversão da onda T, embora possa
ocorrer uma elevação hiperaguda da onda T como o sinal
mais precoce do infarto (PORTH, 10ª ed.).
↠ As alterações no segmento ST ocorrem com a lesão
isquêmica do miocárdio e, dependendo das derivações
envolvidas, podem indicar a lesão de interesse. Na situação
normal, o segmento ST do ECG é quase isoelétrico (i. e.,
achatado ao longo da linha basal), uma vez que todas as
células miocárdicas hígidas alcançam o mesmo potencial
durante a repolarização inicial (PORTH, 10ª ed.).
↠ A isquemia aguda grave reduz o potencial de repouso
da membrana e abrevia a duração do potencial de ação
na área isquêmica. Tais alterações criam uma diferença
de voltagem entre as áreas normais e isquêmicas do
miocárdio, a qual leva à denominada corrente de lesão
entre essas regiões. As correntes de lesão são as
correntes representadas ao ECG de superfície como um
desvio do segmento ST. Quando a lesão aguda é
transmural, todo o vetor ST está desviado na direção do
epicárdio exterior, resultando em elevação do segmento
ST (PORTH, 10ª ed.).
SITE CARDIOPAPERS
➢ Supra “feliz” = concavidade para cima = pensar em causas
benignas (ou em IAM em fase inicial).
➢ Supra “triste” = concavidade para baixo = pensar em IAM.
↠ No infarto com onda Q, ocorre o desenvolvimento de
ondas Q anormais e perda da onda R, uma vez que não
ocorre a condução da corrente de despolarização a partir
do tecido necrótico. Quando a lesão está confinada
primariamente ao subendocárdio, todo o segmento ST
está desviado na direção da camada ventricular interna,
resultando em uma depressão geral do segmento ST e
não na sua elevação (PORTH, 10ª ed.).
BIOMARCADORES
↠ Marcadores bioquímicos são úteis para auxiliar tanto
no diagnóstico quanto no prognóstico de pacientes com
SCA. Quando as células miocárdicas sofrem lesão, suas
membranas celulares perdem a integridade, as proteínas
intracelulares se difundem no interstício e vão para os
linfáticos e capilares (DIRETRIZ, 2021).
Após a lesão miocárdica, a cinética dos marcadores depende de
diversos fatores: o compartimento intracelular das proteínas; o
tamanho das moléculas; o fluxo regional linfático e sanguíneo; e a taxa
de depuração do marcador. Tais fatores, em conjunto com as
características de cada marcador, diferenciam o desempenho
diagnóstico de cada um para IAM (DIRETRIZ, 2021).
↠ A necrose do músculo cardíaco promove a liberação
de enzimas e proteínas estruturais dos miócitos que
podem ser quantificadas por técnicas específicas no
sangue dos pacientes com IAM.1 Os principais marcadores
séricos de necrose miocárdica são a mioglobina, a
creatinoquinase isoenzima MB (CK-MB), a CK-MB massa
e as troponinas I e T (SANTOS; TIMERMAN, 2018).
IMPORTANTE: As troponinas T e I são os marcadores laboratoriais mais
sensíveis e específicos de lesão miocárdica. Em média, a troponina T
tem sensibilidade de 96,9% e especificidade de 94,5% para o
diagnóstico de IAM. Já a CK-MB massa pode ser uma alternativa às
troponinas cardíacas, quando da não disponibilidade destas (SANTOS;
TIMERMAN, 2018).
↠ Os marcadores de necrose miocárdica devem ser
solicitados em todos os pacientes com suspeita de SCA
e repetidos entre seis e 12mais positivo, os canais de If fecham-
se gradualmente, e alguns canais de Ca+2 se abrem. O resultante
influxo de Ca+2 continua a despolarização, e o potencial de membrana
move-se continuamente em direção ao limiar. (SILVERTHON, 7ª ed.)
Quando o potencial de membrana atinge o limiar, canais adicionais de
Ca+2 dependentes de voltagem se abrem. O cálcio entra rapidamente
na célula, gerando a fase de despolarização rápida do potencial de
ação. (SILVERTHON, 7ª ed.)
Quando os canais de Ca+2 se fecham no pico do potencial de ação,
os canais lentos de K+ estão abrindo. A fase de repolarização do
potencial de ação autoexcitável é devida resultante efluxo de K+.
(SILVERTHON, 7ª ed.)
A velocidade na qual as células marca-passo despolarizam determina a
frequência com que o coração contrai (a frequência cardíaca). O
intervalo entre os potenciais de ação pode ser modificado pela
alteração da permeabilidade das células autoexcitáveis para diferentes
íons, o que, por sua vez, modifica a duração do potencial marca-passo.
(SILVERTHON, 7ª ed.)
CÉLULAS MIOCÁRDICAS CONTRÁTEIS
Os potenciais de ação das células cardíacas contráteis são similares,
de diversas maneiras, aos dos neurônios e dos músculos esqueléticos.
A fase de despolarização rápida do potencial de ação é resultado da
entrada de Na+, e a fase de repolarização rápida é devida à saída de
K+ da célula. (SILVERTHON, 7ª ed.)
➢ Fase 0: despolarização. Quando a onda de despolarização
entra na célula contrátil através das junções comunicantes,
o potencial de membrana torna-se mais positivo. Os canais
de Na+ dependentes de voltagem (canais rápidos de sódio)
se abrem, permitindo que a entrada de Na+ despolarize
rapidamente a célula. O potencial de membrana atinge
cerca de 20 mV antes de os canais de Na+ se fecharem.
Estes são canais de Na+ com duas comportas.
➢ Fase 1: repolarização inicial. Quando os canais rápidos de
Na+ se fecham, a célula começa a repolarizar à medida que
o K+ deixa a célula pelos canais de K+ abertos.
➢ Fase 2: o platô. A repolarização inicial é muito breve. O
potencial de ação, então, se achata e forma um platô como
resultado de dois eventos: uma diminuição na
permeabilidade ao K+ e um aumento na permeabilidade ao
Ca+2.. Os canais de Ca+2 dependentes de voltagem ativados
pela despolarização foram abertos lentamente durante as
fases 0 e 1. Quando eles finalmente abrem, o Ca+2 entra na
célula. Ao mesmo tempo, alguns canais “rápidos” de K+ se
fecham. A combinação do influxo de Ca+2 com a diminuição
do efluxo de K+ faz o potencial de ação se achatar e formar
um platô.
Quando os canais de Ca+2 acionados por voltagem do sarcolema se
abrem, os íons cálcio se movem do líquido intersticial para o citosol.
Este influxo de Ca+2 faz com que ainda mais Ca+2 saia do RS para o
citosol por canais adicionais de Ca+2 da membrana do reticulo
sarcoplasmático. (TORTORA 14ª ed.)
A entrada do cálcio é uma característica do acoplamento excitação-
contração cardíaco
No músculo cardíaco, um potencial de ação inicia o acoplamento EC,
contudo, o potencial de ação origina-se espontaneamente nas células
marca-passo do coração e se propaga para as células contráteis
através das junções comunicantes. (SILVERTHON, 7ª ed.)
1- Um potencial de ação que entra em uma célula contrátil se
move pelo sarcolema e entra nos túbulos T;
2- Onde abre os canais de Ca+2 dependentes de voltagem
tipo L na membrana das células;
3- O Ca+2 entra nas células através desses canais, movendo-
se a favor do seu gradiente eletroquímico. A entrada de
cálcio abre os canais liberadores de cálcio do tipo
rianodínico (RyR) no retículo sarcoplasmático;
4- Esse processo do acoplamento EC no músculo cardíaco é
também chamado de liberação de Ca+2 induzida pelo Ca+2
(LCIC). Quando os canais RyR se abrem, o cálcio estocado
flui para fora do retículo sarcoplasmático e entra no citosol;
5- Cria-se uma fagulha que pode ser vista utilizando-se
métodos bioquímicos especiais. A abertura múltipla de
diferentes canais RyR se somam para criar o sinal de Ca+2;
9
Júlia Morbeck – @med.morbeck
6- A liberação de cálcio do retículo sarcoplasmático fornece,
aproximadamente, 90% do Ca+2 necessário à contração
muscular, sendo que os 10% restantes entram na célula a
partir do líquido extracelular. O cálcio difunde-se pelo citosol
para os elementos contráteis, onde se liga à troponina e
inicia o ciclo de formação de pontes cruzadas e o
movimento;
7- Com a diminuição das concentrações citoplasmáticas de
Ca+2, o Ca+2 desliga-se da troponina, liberando a actina da
miosina, e os filamentos contráteis deslizam de volta para
sua posição relaxada;
8- O Cálcio é transportado de volta para o retículo
sarcoplasmático com a ajuda da Ca+2 -ATPase;
9- No músculo cardíaco, o Cálcio também é removido de
dentro da célula pelo trocador Na+ - Ca+2 (NCX);
10- Um Ca+2 é movido para fora da célula contra o seu
gradiente eletroquímico em troca de 3 Na+ para dentro da
célula a favor do seu gradiente eletroquímico. O sódio que
entra na célula durante essa troca é removido pela Na+-K+-
ATPase.
➢ Fase 3: repolarização rápida. O platô termina quando os
canais de Ca+2 se fecham e a permeabilidade ao K+
aumenta mais uma vez. Os canais lentos de K+,
responsáveis por essa fase são ativados pela
despolarização, mas são abertos lentamente. Quando os
canais lentos de K+ se abrem, o K+ sai rapidamente e a
célula retorna para seu potencial de repouso (fase 4).
➢ Fase 4: potencial de membrana em repouso. As células
miocárdicas contráteis têm um potencial de repouso
estável de aproximadamente -90 mV
Sistema de condução
↠ A comunicação elétrica no coração começa com um
potencial de ação em uma célula autoexcitável. A
despolarização se propaga rapidamente para as células
vizinhas através das junções comunicantes nos discos
intercalares. (SILVERTHON, 7ª ed.)
↠ As fibras do nodo sinusal se conectam diretamente às
fibras musculares atriais, de modo que qualquer potencial
de ação que se inicie no nodo sinusal se difunde de
imediato para a parede do músculo atrial. (GUYTON, 13ª
ed.)
↠ A onda de despolarização é seguida por uma onda de
contração, que passa pelo átrio e depois vai para os
ventrículos. (SILVERTHON, 7ª ed.)
↠ A despolarização inicia no nó sinoatrial (nó SA), as
células autoexcitáveis no átrio direito que servem como
o principal marca-passo do coração. A onda de
despolarização, então, propaga-se rapidamente por um
sistema especializado de condução, constituído de fibras
autoexcitáveis não contráteis. (SILVERTHON, 7ª ed.)
↠ As células do nó SA não têm potencial de repouso
estável. Em vez disso, elas se despolarizam repetida e
espontaneamente até um limiar. Quando o potencial
marcapasso alcança o limiar, ele dispara um potencial de
ação. (TORTORA, 14ª ed.)
↠ Uma via internodal ramificada conecta o nó SA com o
nó atrioventricular (nó AV), um grupo de células
autoexcitáveis perto do assoalho do átrio direito.
(SILVERTHON, 7ª ed.)
↠ No nó AV, o potencial de ação se desacelera
consideravelmente, como resultado de várias diferenças
na estrutura celular do nó AV. Este atraso fornece tempo
para os átrios drenarem seu sangue para os ventrículos.
(TORTORA, 14ª ed.)
NÓ
SINOATRIAL
NÓ
ATRIOVENTRIC
ULAR
FEIXE DE HIS
RAMOS
DIREITO E
ESQUERDO
FIBRAS DE
PURKINJE
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Júlia Morbeck – @med.morbeck
↠ Do nó AV, a despolarização move-se para os
ventrículos. através do feixe AV (fascículo atrioventricular)
também chamado de feixe de His (“hiss”), no septo
ventricular. (SILVERTHON, 7ª ed.)
↠ Percorrido um curto caminho no septo, o feixe se
divide em ramos esquerdo e direito. Esses ramos
continuam se deslocando para o ápice do coração, onde
se dividem em pequenas fibras de Purkinje, que se
espalham lateralmente entre as células contráteis.
(SILVERTHON, 7ª ed.)
Ciclo cardíaco
↠ Ohoras. A elevação de tais
marcadores não é exclusiva dos casos de IAM, mas
também pode estar presente nas situações que cursam
com injúria miocárdica de outra natureza, tais como
taquiarritmias, miocardite, insuficiência cardíaca, pós-
ressuscitação cardiopulmonar, trauma torácico, embolia
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Júlia Morbeck – @med.morbeck
pulmonar, hipertensão pulmonar (SANTOS; TIMERMAN,
2018).
TROPONINAS
As troponinas são proteínas do complexo de regulação miofibrilar
presentes no músculo estriado cardíaco. Existem três subunidades:
troponina T, troponina I e troponina C (DIRETRIZ, 2021).
A troponina C é coexpressa nas fibras musculares esqueléticas de
contração lenta e não é considerada como um marcador específico
cardíaco (DIRETRIZ, 2021).
As troponinas cardíacas permanecem elevadas por tempo mais
prolongado, podendo permanecer elevadas por até 7 dias depois do
IAM. As troponinas são os biomarcadores de primeira escolha para
avaliação diagnóstica de pacientes com suspeita de IAM, pois
apresentam acurácia diagnóstica superior à da CK-MB massa e dos
demais biomarcadores de lesão miocárdicas (DIRETRIZ, 2021).
Pacientes com troponinas elevadas apresentam risco aumentado de
eventos cardíacos nos primeiros dias de internação e identificam um
subgrupo de SCASSST com potencial maior de benefício para
manuseio invasivo. Apesar da identificação acurada de lesão miocárdica
pelas troponinas, elas não identificam o(s) mecanismo(s) de lesão; estes
podem ser múltiplos, incluindo etiologias não coronarianas como
taquiarritmias e miocardite, ou ainda condições não cardíacas, como
sepse, embolia pulmonar e insuficiência renal. Assim, principalmente
naqueles casos em que a apresentação clínica não é típica de SCA,
devem ser consideradas outras causas de lesão cardíaca relacionadas
com aumento de troponinas (DIRETRIZ, 2021).
A maior limitação das troponinas convencionais é sua baixa
sensibilidade quando o paciente tem um tempo de início do quadro
inferior a 6h. Com a introdução das troponinas de alta sensibilidade
(Trop-US), passou a ser possível a detecção de níveis mais baixos de
troponina, em menor tempo após início do quadro de lesão miocárdica
de causa isquêmica (DIRETRIZ, 2021).
CREATINOQUINASE, SUAS ISOENZIMAS E ISOFORMAS
Idealmente, a CK-MB deve ser mensurada por imunoensaio para
dosagem da sua concentração no plasma (CK-MB massa) em vez da
sua atividade (DIRETRIZ, 2021).
As subformas da CK-MB têm surgido como marcadores precoces
(menos de 6h) de lesão miocárdica e inferência precoce da magnitude
do IAM (DIRETRIZ, 2021).
No entanto, a CK-MB massa apresenta como principal limitação elevar-
se após dano em outros tecidos não cardíacos (falso-positivos),
especialmente após lesão em músculo liso e esquelético. Podem
acontecer resultados falso-positivos, em que a CK-MB é positiva e a
troponina é negativa em cerca de 4% dos pacientes (DIRETRIZ, 2021).
MIOGLOBINA
A mioglobina é um marcador muito precoce de necrose miocárdica,
precedendo a liberação de CK-MB em 2 a 5 horas. Como é uma
molécula pequena, ela é liberada na circulação dentro de 1 hora após
a morte da célula miocárdica, com valores de pico sendo atingidos em
5 a 12 horas. Pela elevada sensibilidade precoce, a mioglobina normal
pode auxiliar o afastamento do diagnóstico de infarto (elevado valor
preditivo negativo) (SOCESP, 4ª ed.).
TESTE ERGOMÉTRICO
↠ O teste ergométrico (TE) continua sendo uma ótima
opção para a avaliação de paciente com provável DAC.
A sensibilidade e especificidade do TE é em torno de 45-
50% e de 85-90%, respectivamente, tornando-o
especialmente interessante nos pacientes com
probabilidade pré-teste entre 15-65% (SOCESP, 4ª ed.).
Tratamento da DAC
↠ Por se tratar de doença metabólica progressiva,
independentemente do tratamento de escolha, o controle
a longo prazo da DAC é imprescindível (MOLINA et. al.,
2020).
↠ O tratamento busca prevenir o IAM e diminuir a
mortalidade, reduzindo sintomas e a ocorrência de
isquemia miocárdica, para permitir melhor qualidade de
vida (MOLINA et. al., 2020).
↠ O início do tratamento prevê orientação dietética e a
inclusão de atividade física na rotina do paciente, pois
tratar a doença de base (aterosclerose) faz parte do
manejo da DAC; assim, mudanças no estilo de vida,
controle da HAS, do sedentarismo, do estresse emocional,
do tabagismo ativo e passivo, das dislipidemias e da
obesidade devem ser contemplados durante o
planejamento terapêutico (MOLINA et. al., 2020).
↠ Atualmente são diversas as técnicas para a reperfusão
do miocárdio atingido por essa obstrução, como a
colocação de stents farmacológicos, angioplastia
coronária, com ou sem a colocação de stents coronários,
cirurgias com a colocação de ponte de safena e também
o tratamento farmacológico com o uso de estatinas e
anticoagulantes. Para a escolha do melhor método muitos
cardiologistas utilizam o Syntax Score, uma ferramenta
desenvolvida a partir do estudo Syntax (CAERES; NUNES,
2019).
TRATAMENTO MEDICAMENTOSO
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Júlia Morbeck – @med.morbeck
TROMBOLÍTICOS
↠ A doença tromboembólica aguda em determinados
pacientes pode ser tratada com a administração de
fármacos que ativam a conversão de plasminogênio em
plasmina, uma serinoprotease que hidrolisa fibrina e, assim,
dissolve coágulos (WHALEN, 6ª ed.).
MECANISMO DE AÇÃO: Os trombolíticos apresentam
algumas características comuns. Todos atuam direta ou
indiretamente convertendo plasminogênio em plasmina,
que, então, hidrolisa a fibrina, hidrolisando, assim, os
trombos (WHALEN, 6ª ed.).
↠ A dissolução do coágulo e a reperfusão ocorrem com
maior frequência quando o tratamento é iniciado logo
após a formação do trombo, pois ele se torna mais
resistente à lise à medida que envelhece (WHALEN, 6ª
ed.).
OBS.: Infelizmente, um número maior de trombos pode ocorrer
enquanto o trombo se dissolve, levando a uma maior agregação das
plaquetas e trombose. Estratégias para evitar essa situação incluem a
administração de antiplaquetários, como AAS, ou antitrombóticos,
como heparina (WHALEN, 6ª ed.).
EFEITOS ADVERSOS: Os trombolíticos não diferenciam entre a fibrina de
um trombo indesejado e a fibrina de um tampão hemostático benéfico.
Assim, a hemorragia é o principal efeito adverso. Por exemplo, uma
lesão prévia insuspeita, como a úlcera péptica, pode sangrar após a
injeção de um trombolítico (WHALEN, 6ª ed.).
ESTATINAS
↠ Usados contra hiperlipidemias (WHALEN, 6ª ed.).
↠ O tratamento farmacológico deve sempre ser
acompanhado de modificações no estilo de vida, com
exercícios e dieta pobre em gorduras saturadas
(WHALEN, 6ª ed.).
↠ Os inibidores da HMG-CoA redutase (mais conhecidos
como estatinas) reduzem os níveis elevados de LDL-C,
resultando em redução substancial de eventos
coronarianos e de morte por DCC. Eles são considera dos
o tratamento de primeira escolha para pacientes com
risco elevado de DCVAS (WHALEN, 6ª ed.).
↠ As vantagens terapêuticas incluem estabilização das
placas, melhora da função endotelial coronariana, inibição
da formação do trombo plaquetário e atividade anti-
inflamatória. A importância de diminuir o LDL-C com
estatinas foi demonstrado em pacientes com e sem DCC
estabelecida (WHALEN, 6ª ed.).
MECANISMO DE AÇÃO: Lovastatina, sinvastatina,
pravastatina, atorvastatina, fluvastatina, pitavastatina e
rosuvastatina são inibidores competitivos de HMG-CoA
redutase, a etapa limitante da síntese de colesterol.
Inibindo a síntese do colesterol, elas esgotam o seu
estoque intracelular. O esgotamento do colesterol
intracelular leva a célula a aumentar, na superfície, o
número de receptores específicos de LDL-C que podem
ligar o LDL-C circulante e internalizá-lo. Assim, o colesterol
no plasma diminui por redução da síntese e aumento do
seu catabolismo (WHALEN, 6ª ed.).
EFEITOS ADVERSOS: Pode ocorrer aumentodas enzimas hepáticas no
tratamento com estatinas. Por isso, a função hepática deve ser avaliada
antes de iniciar o tratamento e quando o paciente tem sintomas
consistentes com disfunção hepática.. Esses fármacos são
contraindicados durante a gravidez e a lactação (WHALEN, 6ª ed.).
FÁRMACOS: Ateplase,
reteplase e tenecteplase;
estreptoquinase;
uroquinase.
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Júlia Morbeck – @med.morbeck
BETABLOQUEADORES
↠ Os ß-bloqueadores são opção de tratamento para
pacientes hipertensos com doença ou insuficiência
cardíaca concomitante (WHALEN, 6ª ed.).
↠ Os ß-bloqueadores reduzem a pressão arterial
primariamente diminuindo o débito cardíaco. Eles também
podem diminuir o efluxo simpático do sistema nervoso
central (SNC) e inibir a liberação de renina dos rins,
reduzindo, assim, a formação de angiotensina II e a
secreção de aldosterona (WHALEN, 6ª ed.).
↠ Na coronariopatia aguda, seus benefícios estão
relacionados com sua ação nos receptores beta-1,
diminuindo a frequência cardíaca (FC), a pressão arterial
e a contratilidade miocárdica, e levando deste modo à
redução no consumo de oxigênio pelo miocárdio
(SOCESP, 4ª ed.).
São classificados em cardiosseletivos (maior afinidade pelos receptores
β1-succinato de metoprolol) e não seletivos (ligam--se tanto aos β1
quanto aos β2-propranolol), o que implica em menor ou maior
incidência de efeitos adversos (broncoes-pasmo, por exemplo)
associados ao bloqueio de receptores não β1 (SOCESP, 4ª ed.).
EFEITOS ADVERSOS: Os ß-bloqueadores podem causar bradicardia,
hipotensão e efeitos adversos no SNC, como fadiga, letargia e insônia.
Além disso, podem diminuir a libido e causar disfunção erétil, o que
pode reduzir acentuadamente a adesão do paciente (WHALEN, 6ª ed.).
NITRATOS
↠ Os benefícios terapêuticos do nitrato estão
relacionados aos seus efeitos na circulação periférica e
coronária. Seu efeito venodilatador, diminuindo o retorno
venoso ao coração e o volume diastólico final do VE,
reduz o consumo de oxigênio pelo miocárdio (SOCESP,
4ª ed.).
↠ Esses compostos causam redução na demanda
miocárdica de oxigênio, seguida por alívio dos sintomas.
Eles são eficazes nas anginas estável, instável e variante
(WHALEN, 6ª ed.).
MECANISMO DE AÇÃO: Os nitratos orgânicos relaxam o
músculo liso vascular por sua conversão intracelular em
íons nitrito, e, então, a óxido nítrico, que ativa a
guanilatociclase e aumenta o monofosfato cíclico de
guanosina (GMPc). O GMPc aumentado leva à
desfosforilação das cadeias leves de miosina, resultando
em relaxamento do músculo liso vascular (WHALEN, 6ª
ed.).
↠ Nitratos como a nitroglicerina causam dilatação das
veias grandes, o que reduz a pré-carga (retorno venoso
ao coração) e, assim, reduz o trabalho do coração.
Acredita-se ser esse o principal mecanismo de ação no
tratamento da angina. Os nitratos também dilatam os
vasos coronarianos, proporcionando aumento na oferta
de sangue para o músculo cardíaco (WHALEN, 6ª ed.).
EFEITO ADVERSO: O efeito adverso mais comum dos nitratos orgânicos
é a cefaleia. Doses altas de nitratos também podem causar hipotensão
postural, rubor facial e taquicardia (WHALEN, 6ª ed.).
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Júlia Morbeck – @med.morbeck
ANTICOAGULANTES PLAQUETÁRIOS
↠ Os inibidores da aglutinação plaquetária diminuem a
formação de um coágulo rico em plaquetas ou diminuem
a ação dos sinais químicos promotores da aglutinação
(WHALEN, 6ª ed.).
↠ Os inibidores da aglutinação de plaquetas podem inibir
a cicloxigenase-1 (COX-1) ou bloquear os receptores de
GP IIb/IIIa ou ADP, interferindo, assim, no sinal que
promove a aglutinação plaquetária (WHALEN, 6ª ed.).
ÁCIDO ACETILSALICÍLICO (AAS)
A estimulação das plaquetas por trombina, colágeno e ADP resulta na
ativação das fosfolipases de membrana das plaquetas que liberam
ácido araquidônico dos fosfolipídeos da membrana. O ácido
araquidônico é convertido inicialmente em prostaglandina H2 pela
COX-1. A prostaglandina H2 é metabolizada a tromboxano A2, que é
liberado no plasma. O tromboxano A2 promove o processo de
aglutinação, que é essencial para a rápida formação do tampão
hemostático (WHALEN, 6ª ed.).
MECANISMO DE AÇÃO: O ácido acetilsalicílico (AAS) inibe a
síntese do tromboxano A2 por acetilação do resíduo
serina no centro ativo da COX-1, inativando
irreversivelmente a enzima. Isso desloca o equilíbrio dos
mediadores químicos em favor dos efeitos
antiaglutinantes da prostaciclina, prevenindo a aglutinação
plaquetária (WHALEN, 6ª ed.).
↠ O efeito inibitório é rápido, e a supressão da
tromboxano A2 e a consequente supressão da
aglutinação das plaquetas induzida pelo AAS persistem
por toda a vida da plaqueta, que é 7 a 10 dias
aproximadamente. O AAS é o único fármaco
antiplaquetário que inibe irreversivelmente a função das
plaquetas (WHALEN, 6ª ed.).
EFEITOS ADVERSOS: Dosagens mais altas de AAS aumentam sua
toxicidade, bem como a probabilidade de inibir também a produção de
prostaciclina. O tempo de sangramento é alongado com o tratamento
com AAS, causando complicações que incluem aumento da incidência
de acidente cerebral hemorrágico e sangramento gastrintestinal (GI),
especialmente com dosagens mais elevadas (WHALEN, 6ª ed.).
Ticlopidina, clopidogrel, prasugrel e ticagrelor
↠ Ticlopidina, clopidogrel, prasugrel e ticagrelor são
inibidores do receptor P2Y12 ADP, o que também bloqueia
a aglutinação das plaquetas, mas por mecanismo distinto
do AAS (WHALEN, 6ª ed.).
MECANISMO DE AÇÃO: Esses fármacos inibem a ligação do
ADP aos seus receptores nas plaquetas e, assim, inibem
a ativação dos receptores de GP IIb/IIIa necessários para
que as plaquetas se liguem ao fibrinogênio e umas às
outras. O ticagrelor se liga reversivelmente ao receptor
P2Y ADP. Os demais ligam-se Y12 irreversivelmente.
Quando o tratamento é suspenso, o sistema plaquetário
necessita de tempo para recuperação (WHALEN, 6ª ed.).
EXTRA
OXIGENOTERAPIA
Apesar de evidências prévias sugerirem que a administração de
oxigênio é capaz de diminuir a extensão da lesão miocárdica, dados
revisados da literatura sugerem aumento de resistência vascular
sistêmica, redução de fluxo coronário e aumento no risco de
mortalidade (SOCESP, 4ª ed.).
Por esse motivo, dados recentes de diretrizes internacionais sugerem
que O2 inalatório seja utilizado somente em situações em que haja
cianose ou desconforto respiratório ou na presença de saturação
arterial de oxigênioemergência: quem fica e quem pode ser liberado? Revista
da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, 2018.
NICOLAU et. al. Diretrizes da Sociedade Brasileira de
Cardiologia sobre Angina Instável e Infarto Agudo do
Miocárdio sem Supradesnível do Segmento ST, Arquivo
Brasileiro de Cardiologia, 2021
FERREIRA et. al. Diretriz de Doença Coronária Estável.
Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 2014.
MOLINA et. al. Doença Arterial Coronariana (DAC) NO
Brasil: epidemiologia, causas e consequências, tratamento
e adaptações fisiológicas cardiovasculares e sistêmicas
esperadas, 2020.
CAERES, E.; NUNES, C. P. Doença Arterial Coronariana:
tratamento e suas indicações. Revista de Medicina de
Família e Saúde Mental, 2019.
1
Júlia Morbeck – @med.morbeck
Objetivos
1- Conhecer os principais grupos bacterianos;
2- Entender a definição, etiologia e epidemiologia
da febre reumática;
3- Debater a fisiopatologia e as manifestações
clínicas da febre reumática;
4- Discutir o diagnóstico da febre reumática.
Bactérias
↠ As bactérias apresentam uma estrutura relativamente
simples. São organismos procariotos – organismos
simples unicelulares, que não apresentam membrana
nuclear, mitocôndria, complexo de Golgi, ou retículo
endoplasmático - que se reproduzem por divisão
assexuada (PFALLER et. al., 7ª ed.).
↠ O corpo humano é habitado por milhares de diferentes
espécies bacterianas - algumas vivendo de forma
transitória, outras numa relação parasítica permanente. Do
mesmo modo, as bactérias estão presentes no ambiente
que nos cerca, incluindo o ar que respiramos, a água que
bebemos, e a comida que comemos, sendo que muitas
dessas bactérias são relativamente não virulentas, mas
outras são capazes de causar doenças que ameaçam a
vida (PFALLER et. al., 7ª ed.).
OBS.: A doença pode resultar do efeito tóxico de produtos bacterianos
(p. ex., toxinas) ou quando a bactéria invade sítios anatômicos que são
normalmente estéreis (PFALLER et. al., 7ª ed.).
ESTRUTURAS DAS BACTÉRIAS
↠ Além da falta de um núcleo e outras organelas, o
cromossomo bacteriano difere do cromossomo humano
em vários aspectos. O cromossomo bacteriano é uma fita
única circular de cadeia dupla, que não está contido em
um núcleo, mas em uma área definida conhecida como
nucleoide (PFALLER et. al., 7ª ed.).
↠ Os plasmídeos, que são fragmentos
extracromossômicos menores de DNA circular, também
podem estar presentes. Os plasmídeos, embora
geralmente não sejam essenciais para a sobrevivência
celular, frequentemente conferem uma vantagem
seletiva: muitos conferem resistência a um ou mais
antibióticos (PFALLER et. al., 7ª ed.).
↠ As bactérias utilizam um ribossomo menor, o
ribossomo 70S, e na maioria das bactérias, uma estrutura
tipo emaranhado, a parede celular de peptidoglicano, que
envolve as membranas para protegê-las do meio
ambiente (PFALLER et. al., 7ª ed.).
↠ A membrana citoplasmática tem uma estrutura de
bicamada lipídica semelhante à estrutura das membranas
eucarióticas, mas não contém esteroides (p. ex.,
colesterol); os micoplasmas são exceção a esta regra.
(PFALLER et. al., 7ª ed.).
OBS.: As bactérias podem sobreviver e, em alguns casos, crescer em
ambientes hostis em que a pressão osmótica no exterior da célula é
tão baixa que levaria à lise da maioria das células eucariotas, em
temperatura extremas (tanto quentes quanto frias), em ambiente
áridos, e com fontes de energia muito escassas e diversas (PFALLER
et. al., 7ª ed.).
CLASSIFICAÇÃO BACTERIANA
↠ A aparência microscópica, incluindo o tamanho, a
forma e a morfologia dos organismos (cocos, bacilos,
curvos ou em espiral), e a sua capacidade de reter a
coloração de Gram (Gram-positivas ou Gram-negativas)
são as características primárias para diferenciar as
bactérias (PFALLER et. al., 7ª ed.).
CLASSIFICAÇÃO QUANTO À APARÊNCIA MICROSCÓPICA
↠ Uma bactéria esférica, como Staphylococcus, é um
coco; uma bactéria em forma de bastonete, como E. coli,
é um bacilo; e o treponema, semelhante a uma cobra, é
um espirilo (PFALLER et. al., 7ª ed.).
APG 07 – lambe OS OSSOS E ENCAROÇA O CORAÇÃO
2
Júlia Morbeck – @med.morbeck
↠ Algumas bactérias formam agregados, tais como os
aglomerados em forma de cacho de uva de
Staphylococcus aureus ou os diplococos (duas células
juntas), que são observados nas espécies de
Streptococcus ou Neisseria. (PFALLER et. al., 7ª ed.).
IMPORTANTE: Quando os cocos se dividem em cadeias, são chamados
estreptococos; em pares, diplococos; e em cachos, estafilococos
(PORTH, 10ª ed.).
CLASSIFICAÇÃO QUANTO À COLORAÇÃO DE GRAM
↠ A parede bacteriana é complexa, consistindo em uma
entre duas formas básicas: uma parede celular com uma
camada espessa de peptidoglicano, em bactérias gram-
positivas, e uma parede celular com uma camada fina de
peptidoglicano e uma membrana externa sobreposta, em
bactérias gram-negativas (PFALLER et. al., 7ª ed.).
OBS.: Algumas bactérias não apresentam essa estrutura de parede
celular e compensam sua falta sobrevivendo somente no interior da
célula hospedeira ou em um ambiente hipertônico (PFALLER et. al., 7ª
ed.).
COLORAÇÃO DE GRAM
A coloração de Gram é um teste rápido, eficaz e fácil, que permite
aos clínicos diferenciar as duas principais classes de bactérias,
desenvolver um diagnóstico inicial, e iniciar a terapêutica com base nas
diferenças inerentes às bactérias (PFALLER et. al., 7ª ed.).
As bactérias são fixadas a quente ou deixadas secar sobre uma lâmina,
coradas com cristal violeta, um corante que é precipitado com iodo
(lugol), e em seguida o corante não ligado ou em excesso é removido
por lavagem com descorante, à base de acetona, e água. Um
contracorante vermelho, a safranina, é adicionado para corar as células
descoradas. Este processo leva menos de 10 minutos. (PFALLER et. al.,
7ª ed.).
↠ Para as bactérias Gram-positivas, que se tornam roxas,
o corante fica preso em uma estrutura grossa e
emaranhada, a camada de peptidoglicano, que circunda a
célula. As bactérias Gram-negativas possuem uma fina
camada de peptidoglicano que não retém o corante cristal
violeta, e então as células são coradas com safranina e
tornam-se vermelhas. Uma estratégia mnemônica que
pode ajudar é o “P-PÚRPURA POSITIVO” (PFALLER et. al.,
7ª ed.).
OBS.: Devido à degradação do peptidoglicano, a coloração de Gram
não é um teste confiável para as bactérias que estejam em privação
(p. ex., culturas em fase estacionária ou mais antigas) ou tratadas com
antibióticos. As bactérias que não podem ser classificados pela
coloração de Gram incluem as micobactérias, que possuem um
revestimento externo lipídico e são diferenciadas pelas colorações
álcool-acidorresistentes, e os micoplasmas, que não possuem
peptidoglicano (PFALLER et. al., 7ª ed.).
ESPOROS
Algumas bactérias Gram-positivas, mas nunca as Gram-negativas, tais
como os membros dos gêneros Bacillus (p. ex., Bacillus anthracis) e
Clostridium (p. ex., Clostridium tetani ou botulinum) (bactérias do solo),
são formadoras de esporos. Sob condições ambientais adversas, como
a privação de requerimento nutricional, essas bactérias podem ser
convertidas de um estado vegetativo a um estado dormente, ou
esporos (PFALLER et. al., 7ª ed.).
3
Júlia Morbeck – @med.morbeck
A localização do esporo dentro da uma célula é uma característica das
bactérias e pode ajudar na sua identificação (PFALLER et. al., 7ª ed.).
Febre Reumática
↠ A febre reumática é uma doença de natureza
autoimune de reação cruzada, desencadeada pela
resposta do hospedeiro suscetível após faringotonsilite,
causada por Streptococcus ß-hemolítico do Grupo A
(FIGUEIREDO et. al., 2019).
↠ A febre reumática é a principal causa de doença
cardíaca adquirida nas crianças e jovens adultos em todo
o mundo. Iniciada por uma infecção faríngea aos
estreptococos beta-hemolíticosdo grupo A (EGA) e
seguida de um período latente de aproximadamente 2 a
3 semanas, essa doença caracteriza-se por uma
inflamação aguda do coração, articulações, pele, tecido
subcutâneo e sistema nervoso central (BRAUNWALD, 10ª
ed.).
↠ O processo inflamatório causa lesão nas fibrilas de
colágeno e na substância principal do tecido conjuntivo (i.
e., degeneração fibrinoide), e, assim, a febre reumática é
classificada como uma doença do tecido conjuntivo ou
uma doença do colágeno vascular (BRAUNWALD, 10ª ed.).
OBS.: É o seu efeito destrutivo nas valvas cardíacas que leva a sequelas
crônicas da doença (i. e., doença cardíaca reumática), com distúrbios
hemodinâmicos graves que causam insuficiência cardíaca, assim como
outras complicações, como o acidente vascular (AVC) e a endocardite
infecciosa (BRAUNWALD, 10ª ed.).
Etiologia da FR
↠ O desenvolvimento da FR está associado à infecção
de orofaringe pelo EBGA, principalmente em crianças e
adolescentes. Fatores ambientais e socioeconômicos
contribuem para o aparecimento da doença, uma vez
que alimentação inadequada, habitação em aglomerados
e ausência ou carência de atendimento médico
constituem fatores importantes para o desenvolvimento
da faringoamigdalite estreptocócica (DIRETRIZ, 2008).
Uma incidência maior de FR foi observada em populações junto a
áreas com aglomeração, como barracas militares, devido à alta
virulência e à transmissão rápida (PORTH, 10ª ed.).
↠ Paralelamente, fatores genéticos de suscetibilidade à
doença estão diretamente relacionados ao
desenvolvimento da FR e de suas sequelas (DIRETRIZ,
2008).
IMPORTANTE: Aceita-se plenamente que o indivíduo
atingido deverá ter uma suscetibilidade determinada
geneticamente, o que explicará por que somente uma
mínima porção (1% a 2%) dos portadores da faringite
estreptocócica desenvolverá FR (RACHID, 2003).
Epidemiologia da FR
↠ A faringoamigdalite e o impetigo representam as
infecções mais frequentemente causadas pelo
estreptococo beta-hemolítico do grupo A (EBGA),
responsável por 15 a 20% das faringoamigdalites e pela
quase totalidade daquelas de origem bacteriana. Infecções
causadas por EBGA ocorrem em centenas de milhões de
pessoas, resultando em mais de 500.000 mortes/ano e
contribuindo para problemas de saúde pública em todo o
mundo (REUMATOLOGIA, 5ª ed.).
↠ É uma doença que predomina na idade pediátrica,
entre 5 a 15 anos, sendo a média de idade de 10 anos.
Apenas em 20% dos casos ocorre em adultos. É muito
rara antes dos três anos e depois dos 23 anos. Existe
certa predisposição genética. Além disso, é mais
frequente em ambientes desfavoráveis caracterizados
por pobreza, acesso restringido aos serviços de saúde e
má nutrição (PEIXOTO et. al., 2011).
↠ De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE), o Brasil tem 10 milhões de casos de
faringotonsilite a cada ano, levando a aproximadamente
30.000 casos de febre reumática aguda (FRA)
(FIGUEIREDO et. al., 2019).
↠ Cerca de 70% dos pacientes com FRA evoluem para
cardite, e um terço das cirurgias cardiovasculares
realizadas no Brasil são decorrentes de sequelas da
doença reumática cardíaca (DRC) (FIGUEIREDO et. al.,
2019).
↠ A FRA e a DRC estão incluídas na lista brasileira de
causas de mortes evitáveis para crianças menores de 5
anos e para a faixa etária de 5 a 75 anos. As causas de
morte evitáveis ou redutíveis são definidas como aquelas
total ou parcialmente evitáveis por ações efetivas dos
serviços de saúde, acessíveis em um determinado local e
tempo (FIGUEIREDO et. al., 2019).
Embora a FR e a CR sejam raras nos países desenvolvidos, ainda são
problemas de saúde importantes nos países subdesenvolvidos, onde
há prevalência de atendimento de saúde inadequado, desnutrição e
condições de vida em aglomerações (PORTH, 10ª ed.).
↠ A implementação do tratamento da faringotonsilite
causada pelo Streptococcus ß-hemolítico do Grupo A,
com Penicilina G Benzatina (PGB) em nove dias após o
início dos sintomas, pode erradicar a infecção e evitar um
4
Júlia Morbeck – @med.morbeck
primeiro surto de FR aguda ou um novo surto
(FIGUEIREDO et. al., 2019).
Fisiopatologia da FR
↠ Para que a FR surja, é preciso haver uma
faringoamigdalite pelo EBGA (REUMATOLOGIA, 5ª ed.).
ESTREPTOCOCO
↠ O Streptococcus pyogenes, um patógeno Gram-
positivo que infecta estritamente humanos, é o agente
causador de faringoamigdalite, impetigo e doenças
graves, como fasciíte necrosante. Pode se adaptar a
diversos nichos do corpo humano para obter os
nutrientes necessários, aderir aos tecidos, evadir do
sistema imune e se replicar (REUMATOLOGIA, 5ª ed.).
↠ Essa adaptação ao hospedeiro se dá em virtude das
alterações no transcriptoma desses microrganismos em
resposta aos diversos ambientes encontrados in vivo
durante uma infecção. O estreptococo pode ser
encontrado como colonizador do trato respiratório
superior sem manifestar doença. Em crianças na faixa
etária de 5 a 15 anos, as taxas de colonização por esse
microrganismo podem exceder 30% (REUMATOLOGIA,
5ª ed.).
↠ A bactéria apresenta uma estrutura bem definida
associada à sua virulência e à sua capacidade de
desenvolver o mimetismo molecular. Sua parte mais
externa consiste em uma cápsula de ácido hialurônico,
que pode não estar presente. Impede a fagocitose e é
mais frequente em cepas “epidêmicas”. Confere uma
aparência mucoide às colônias na placa de cultura. Junto
à cápsula, podem ser encontradas fímbrias, flagelos
imóveis responsáveis pela aderência do estreptococo às
células epiteliais da faringe e um pré-requisito para que
haja infecção. A virulência relacionada com as fímbrias é
determinada pela presença de ácido lipoteocoico e
proteína M em sua estrutura. Abaixo da cápsula de ácido
hialurônico há uma parede celular rígida formada por três
camadas: (REUMATOLOGIA, 5ª ed.).
• Camada externa;
• Camada média;
• Camada interna.
Camada externa
↠ O componente mais importante é a proteína M, uma
proteína fibrilar com desenho helicoidal e estrutura
homóloga à das proteínas humanas (miosina cardíaca,
tropomiosina, queratina, laminina, vimentina).
Funcionalmente antifagocítica, trata-se do principal
antígeno implicado na patogênese da FR. Tem
propriedades de superantígeno, sendo capaz de provocar
uma reação imunológica exagerada (REUMATOLOGIA, 5ª
ed.).
↠ As toxinas produzidas pela proteína M ativam uma
grande quantidade de células T, resultando em uma
produção maciça de citocinas pró-inflamatórias. A
proteína M está ancorada na parede celular e estende-
se para a superfície celular. Inibe a deposição de
complementos, contribui para adesão às mucosas e é
codificada pelo gene emm (REUMATOLOGIA, 5ª ed.).
A diferença antigênica da proteína M é a responsável pela classificação
do estreptococo do grupo A em mais de 200 subtipos. Cerca de um
quarto deles é reumatogênico. Há cinco padrões de diferentes
arquiteturas cromossômicas do gene emm que classificam a proteína
M em A, B, C, D e E, com base na existência e no arranjo dos genes
emm e emm-like presentes no genoma de S. pyogenes. Múltiplos tipos
de proteína M indicam que reinfecções são inevitáveis
(REUMATOLOGIA, 5ª ed.).
Os estreptococos com proteína M de padrões A, B e C estão
normalmente associados a infecções de orofaringe; aqueles com o
padrão D são principalmente recuperados de lesões superficiais de
pele (impetigo) e o padrão E representa um grupo “generalista”
relacionado com ambos os sítios de isolamento (REUMATOLOGIA, 5ª
ed.).
CAMADA MÉDIA
↠ Formada por um carboidrato que possibilitou a
classificação sorológica dos estreptococos de A até O.
Mais de 90% dos estreptococos beta-hemolíticos
patogênicos para o homem pertencem ao grupo A.
Somente os estreptococos do grupo A e G conseguem
sintetizar a proteína M (REUMATOLOGIA, 5ª ed.).
Seguem-sea membrana citoplasmática e o citoplasma, que contêm antígenos
implicados na patogênese da coreia e da cardite.
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Júlia Morbeck – @med.morbeck
Camada interna
↠ Composta por um peptideoglicano formado por
unidades básicas repetitivas de N-acetilglicosamina e ácido
N-acetilmurâmico. Confere rigidez e dá forma ao
microrganismo como se fosse sua estrutura esquelética.
A penicilina exerce sua ação letal contra o estreptococo,
bloqueando metabolicamente a síntese desse
peptideoglicano (REUMATOLOGIA, 5ª ed.).
SUSCETIBILIDADE GENÉTICA
Provavelmente, a suscetibilidade genética é poligênica. Genes
polimórficos podem codificar proteínas imunológicas associadas à
suscetibilidade para FRA. Contudo, há diversos genes que codificam
citocinas pró-inflamatórias e regulam a fibrose e calcificação, estando
relacionados com o desenvolvimento da cardite (REUMATOLOGIA, 5ª
ed.).
O primeiro marcador identificado como fator de suscetibilidade foi
chamado de antígeno 883 (descrito em 1979 por Patarroyo) e estaria
presente em até 75% dos indivíduos com FR. O risco relativo de
pessoas com esse marcador apresentarem a FR seria doze vezes
maior que aquelas que não o apresentam (REUMATOLOGIA, 5ª ed.).
RESPOSTA AUTOIMUNE A AUTOINFLAMATÓRIA
↠ A doença é mediada por resposta imune celular e
humoral e o comportamento clínico e evolutivo se baseia
em mecanismos de hipersensibilidade. A evolução se
processa em três fases distintas: infecção estreptocócica;
fase intermediária assintomática; e a fase que surge como
uma complicação tardia ligada à formação de anticorpos
e à ativação da cascata inflamatória (REUMATOLOGIA, 5ª
ed.).
↠ A infecção estreptocócica ativa inicialmente o sistema
imune inato, responsável pela defesa imediata contra a
infecção, recrutando células imunes para o local da
agressão e promovendo a apresentação dos antígenos
estreptocócicos para as células T. As células B respondem
produzindo anticorpos do tipo IgG e IgM e ativam as
células T que incrementarão a produção de citocinas e
influenciarão decisivamente o tipo de resposta clínica nos
pacientes com FR (REUMATOLOGIA, 5ª ed.).
↠ O número aumentado de linfócitos T CD4+ no sangue
periférico de pacientes com cardite está ligado ao
aumento de interleucina 1 (IL1), TNF-alfa e IL2 no soro. No
tecido cardíaco de pacientes com cardiopatia reumática
grave, predominam células mononucleares secretoras de
TNF-alfa e interferon gama (IFN-gama, padrão Th1),
enquanto raras células mononucleares infiltrantes das
valvas produzem IL4. Portanto, a baixa produção de IL4
está associada à progressão das lesões valvares na CRC,
enquanto, no miocárdio, onde há grande número de
células produtoras de IL4, a miocardite é curada após
algumas semanas (REUMATOLOGIA, 5ª ed.).
↠ O sistema imune adaptativo desempenha um papel
importante na manutenção e na expansão da inflamação
que leva ao dano tecidual. A resposta imune nos pacientes
com FR é mais grave e duradoura. Essa reação
exacerbada, reconhecendo antígenos humanos como
antígenos estreptocócicos (mecanismos de mimetismo
antigênico e reação cruzada), representa a essência da
resposta imune na FR e é responsável pelas
manifestações clínicas (REUMATOLOGIA, 5ª ed.).
↠ Assim, o ácido hialurônico da cápsula da bactéria tem
reação cruzada com a sinóvia e a cartilagem articular. A
artrite surge por depósito de imunocomplexos na
membrana sinovial (REUMATOLOGIA, 5ª ed.).
Hipersensibilidade mediada por imunocomplexos (tipo III)
Reações por complexos imunológicos ocorrem quando complexos
antígeno-IgM ou antígeno-IgG se acumulam na circulação ou nos
tecidos e ativam a cascata do complemento. Os granulócitos são
atraídos ao local da ativação resultando dano em consequência da
liberação de enzimas líticas de seus grânulos. As reações ocorrem
horas após o desafio com o antígeno. (COICO, 6ª ed.)
Em condições normais, os imunocomplexos circulantes constituídos
por anticorpos ligados a antígenos estranhos são removidos pelas
células fagocitárias. (COICO, 6ª ed.)
A fagocitose é facilitada pela ligação das regiões Fc dos anticorpos,
presentes nesses complexos, a receptores de Fc de IgG expressos
sobre as células fagocíticas. (COICO, 6ª ed.)
O que acontece quando os mecanismos fisiológicos destinados a
eliminar os imunocomplexos estão "sufocados" pela grande quantidade
destes complexos?
O resultado é que os imunocomplexos de determinados tamanhos
podem, inapropriadamente, depositar-se nos tecidos e desencadear
inúmeros acontecimentos patogênicos sistêmicos conhecidos como
reações de hipersensibilidade do tipo III . Se esta reação for sistêmica,
ela é também conhecida como doença por imunocomplexo sistêmica.
As reações localizadas são também conhecidas como doença por
imunocomplexo localizada. Ambas podem estar associadas com a
deposição dos imunocomplexos nas articulações, rins, pele, plexo
coroide e artéria ciliar ocular. (COICO, 6ª ed.)
O dano tissular causado por esses imunocomplexos varia dependendo
do sítio de localização. Se, por exemplo, o sítio de deposição do
imunocomplexo for o menisco da articulação, pode ocorrer a
destruição das membranas sinoviais e da cartilagem. (COICO, 6ª ed.)
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Júlia Morbeck – @med.morbeck
↠ O carboidrato da camada média reage com o
miocárdio e as valvas, a membrana celular do
estreptococo com o sarcolema miocárdico e com
antígenos do citoplasma de neurônios dos núcleos
caudado e subtalâmico. A cardite se dá por infiltração de
células T nos tecidos cardíacos e a coreia em
consequência de anticorpos que se ligam aos núcleos da
base. Dessa maneira, além da reação cruzada inicial, há
apresentação continuada de antígenos no sítio da lesão,
o que amplifica a resposta imune e a ativação de grande
número de clones autorreativos de linfócitos T
(REUMATOLOGIA, 5ª ed.).
↠ Ainda, a patogênese da CRC tem características
próprias bem marcantes. O anticorpo antiestreptocócico
é citotóxico para as células endoteliais (principalmente o
endotélio que reveste as válvulas) e para a camada da
membrana basal. A lesão endotelial consiste no primeiro
evento relacionado com o desenvolvimento da CRC. As
valvas cardíacas são revestidas por tecido endocárdico,
uma camada formada por tecido conjuntivo (colágeno,
proteoglicanos e fibras elásticas) com aspecto
mixomatoso na face atrial (REUMATOLOGIA, 5ª ed.).
↠ Na cardite reumática, anticorpos reativos ao tecido
cardíaco, por reação cruzada com antígenos do
estreptococo, se fixam à parede do endotélio valvar e
aumentam a expressão da molécula de adesão VCAM I,
que atrai determinadas quimiocinas e favorecem a
infiltração celular por neutrófilos, macrófagos e,
principalmente, linfócitos T, gerando inflamação local,
destruição tecidual e necrose (DIRETRIZ, 2009).
Os nódulos de Aschoff, considerados patognomônicos da doença e
compostos por agregados de células semelhantes a macrófagos e
monócitos, exercem a função de células apresentadoras de antígeno
para as células T. Várias citocinas pró-inflamatórias são produzidas nas
diversas fases evolutivas dos nódulos de Aschoff. Dessa forma, além
da reação cruzada inicial, há apresentação continuada de antígenos no
sítio da lesão, o que amplifica a resposta imune e a ativação de grande
número de clones autorreativos de linfócitos T (DIRETRIZ, 2009).
↠ A produção de citocinas influencia de forma decisiva a
resposta imune nos pacientes com FR. O número
aumentado de linfócitos T CD4+ no sangue periférico de
pacientes com cardite está ligado ao aumento de IL-1,
TNF-a e IL-2 no soro. No tecido cardíaco de pacientes
7
Júlia Morbeck – @med.morbeck
com cardiopatia reumática grave há predomínio de
células mononucleares secretoras de TNF-a e IFN-.
(padrão Th1), enquanto raras células mononucleares
infiltrantes das válvulas produzem IL- 4 e citocina
reguladorada resposta inflamatória. Portanto, a baixa
produção de IL-4 está correlacionada com a progressão
das lesões valvares na CRC, enquanto no miocárdio, onde
há grande número de células produtoras de IL-4, ocorre
cura da miocardite após algumas semanas (DIRETRIZ,
2009).
OBS.: Com base nesses dados, postula-se que a produção de citocinas
direciona para uma resposta celular (Th1), causando quadros de cardite
grave e sequela valvar e, provavelmente, para uma resposta
predominantemente humoral (Th2), que causaria quadro clínico com
coreia e artrite. Essa diferença de resposta é vista também na
apresentação clínica, pois se observou que apenas 5% dos pacientes
com cardite grave cursaram com coreia, enquanto a incidência entre
os pacientes com cardite leve foi de 65% (DIRETRIZ, 2009).
↠ A valvulite aguda evolui de uma endocardite verrucosa
na região mais áspera do folheto, havendo,
histologicamente, edema e inflamação da membrana basal
do endocárdio. Nessa fase, os folhetos exibem infiltração
de células imunológicas, fibrose, neoangiogênese e
posterior calcificação. As áreas de angiogênese estão
associadas à expressão do fator de crescimento endotelial
vascular e à calcificação com presença de células
osteoblasto like. O endotélio valvular e as áreas
perivasculares expressam linfócitos T CD4+ e CD8+ e
macrófagos, promovendo um círculo vicioso de
neovascularização, cura e cicatrização com consequente
proliferação exsudativa. Em seu estágio final, a valva
mostra folhetos firmes e fibróticos com sinais de
espessamento pós-inflamatório evoluindo para
cicatrização, fibrose, fusão e encurtamento de
comissuras, além de encurtamento das cordoalhas. Esses
pacientes apresentam estenose potencialmente grave. A
valva assume uma forma de funil, cujo orifício lembra uma
boca de peixe. Essa é a descrição clássica da anatomia da
estenose mitral
Importante: O mimetismo molecular entre a miosina e a proteína M
parece ser um importante fator na reação cruzada humoral e na
imunidade de células T contra o estreptococo do grupo A e o coração.
Portanto, anticorpos ligados à células T (interação entre linfócitos T e
B) estão intimamente envolvidos na reação cruzada imunológica com
o coração na FR. (RACHID, 2003).
MECANISMOS PATOGÊNICOS (RACHID, 2003)
➢ Por ação direta das bactérias;
➢ Por ação tóxica dos produtos deletéricos depositados nos
tecidos afetados, a estreptolisina O.
➢ Fenômenos de hipersensibilidade e auto-imunidade
Manifestações Clínicas da FR
↠ A FR pode se manifestar como um distúrbio agudo,
recidivante ou crônico. O estágio agudo da FR inclui
histórico de uma infecção estreptocócica inicial e
subsequente envolvimento de elementos do tecido
conjuntivo do coração, dos vasos sanguíneos, das
articulações e dos tecidos subcutâneos (PORTH, 10ª ed.).
↠ Uma lesão comum a todos, denominada corpo de
Aschoff, consiste em uma área localizada de necrose
tecidual circundada por células imunes. A fase recidivante
normalmente envolve a extensão dos efeitos cardíacos
da doença (PORTH, 10ª ed.).
↠ A fase crônica da FR é caracterizada pela deformidade
permanente das valvas cardíacas e é causa frequente de
estenose da valva mitral. O surgimento de CR crônica
geralmente demora no mínimo 10 anos, após a crise inicial,
mas pode demorar décadas (PORTH, 10ª ed.).
ARTRITE (POLIARTRITE)
↠ Manifestação clínica mais frequente da FRA, ocorre
em 75% dos pacientes. Quando típica, acomete as
grandes articulações (joelhos, tornozelos, punhos,
cotovelos) de forma migratória, surgindo em novas
regiões à medida que outras vão se normalizando, sem
qualquer orientação definida de progressão centrífuga ou
centrípeta
↠ Atualmente, observa-se com menor frequência esse
padrão de comportamento, principalmente pela
introdução precoce dos anti-inflamatórios. As pequenas
articulações de mãos e pés, as coxofemorais e a coluna
cervical podem ser afetadas, sendo o último segmento
relatado com frequência maior (REUMATOLOGIA, 5ª ed.).
↠ A dor é de grande intensidade e desproporcional aos
demais achados da inflamação, levando à incapacidade
funcional, uma das características que a diferencia da
artrite idiopática juvenil (AIJ) (REUMATOLOGIA, 5ª ed.).
↠ A artrite costuma ser mais comum e mais intensa em
adultos jovens (100% no primeiro surto), quando
comparada a adolescentes (82%) e crianças (66%). É
mais sintomática na 1ª semana, podendo persistir de forma
leve por mais 1 ou 2 semanas. A duração em cada
articulação em geral é de 1 a 5 dias (REUMATOLOGIA, 5ª
ed.).
OBS.: O uso de anti-inflamatórios em quadros articulares iniciais
prejudica a observação evolutiva da artrite como poliarticular e
migratória. Seria interessante, dentro do possível, aguardar 72 h do
8
Júlia Morbeck – @med.morbeck
início do quadro articular para definir essas características com clareza.
Manifestações articulares atípicas podem ser observadas em até 47%
dos casos, com duração do surto e padrão de resposta aos anti-
inflamatórios não hormonais similares aos das artrites crônicas, o que
dificulta o diagnóstico diferencial (REUMATOLOGIA, 5ª ed.).
↠ É possível observar monoartrite crônica, com duração
de mais de 3 meses e comportamento aditivo em lugar
de migratório. A monoartrite representa uma
manifestação importante de FRA em população de risco
moderado/elevado, sendo considerada um critério maior
(REUMATOLOGIA, 5ª ed.).
↠ A artrite, na apresentação clássica da FR ou na forma
das artrites reativas, evolui para cura em períodos
variáveis, sem deixar sequelas. Entretanto, em 5% dessas
crianças, a artropatia pode evoluir com deformidade e,
eventualmente, até mesmo restrição de movimentos.
Recebe o nome de artropatia de Jaccoud e é considerada uma sequela
rara de surtos repetidos de FR. Caracteriza-se por desvio ulnar,
subluxação e deformidade em flexão das articulações
metacarpofalângicas e hiperextensão das interfalângicas proximais
(REUMATOLOGIA, 5ª ed.).
CARDITE
↠ A mais importante manifestação da FRA é a única que
pode provocar a morte na fase aguda e deixar sequelas.
Ocorre em cerca de 50% dos pacientes. Trata-se de uma
pancardite na fase aguda, mas a lesão primária da CRC é
a valvulite que acomete principalmente as valvas mitral e
aórtica (REUMATOLOGIA, 5ª ed.).
↠ Os principais sinais clínicos consistem em taquicardia,
sopros, cardiomegalia, insuficiência cardíaca congestiva e
atrito pericárdico (REUMATOLOGIA, 5ª ed.).
↠ A cardite manifesta-se principalmente como uma
regurgitação mitral, e menos comumente como
regurgitação aórtica, ainda que todas as quatro valvas
possam estar envolvidas (PORTH, 10ª ed.).
↠ Durante o estágio inflamatório agudo da doença, as
estruturas valvares se tornam vermelhas e edemaciadas,
e ocorre o desenvolvimento de pequenas lesões
vegetativas nos folhetos valvares. As alterações
inflamatórias agudas progridem gradualmente, até o
desenvolvimento de um tecido cicatricial fibroso que
tende a contrair e causar deformidade dos folhetos
valvares e encurtamento das cordas tendíneas. Em alguns
casos, as bordas ou comissuras dos folhetos valvares se
fundem, à medida que ocorre a cicatrização (PORTH, 10ª
ed.).
OBS.: As características clínicas da endocardite/valvite, sem histórico de
CR, incluem um sopro holossistólico apical decorrente de regurgitação
mitral, ou um sopro diastólico precoce basal resultante de regurgitação
aórtica. Em pessoas com histórico de CR, uma alteração na
característica desses sopros ou um novo sopro são indicativos de
cardite reumática aguda (PORTH, 10ª ed.).
COREIA
↠ A coreia de Sydenham é a principal manifestação da
FR no sistema nervoso central. É observada com mais
frequência em meninas e raramente ocorre após os 20
anos de idade (REUMATOLOGIA, 5ª ed.).
↠ Tipicamente, seu início é insidioso de irritabilidade, e
existem outros problemas comportamentais.A criança
aparenta inquietação, chora facilmente, começa a
caminhar desajeitadamente e deixa os objetos caírem. Os
movimentos coreiformes são espasmos espontâneos,
rápidos e despropositados, que interferem nas atividades
voluntárias (REUMATOLOGIA, 5ª ed.).
↠ A coreia é caracterizada pela presença de
movimentos involuntários, sem propósito e irregulares das
mãos, membros superiores, ombros, pés, membros
inferiores, face e tronco, acompanhados de hipotonia e
fraqueza muscular. Os movimentos sem propósito
interferem com a atividade voluntária e desaparecem
durante o sono. Inicialmente, a coreia pode estar confinada
à face ou a um membro superior, e algumas vezes pode
ser completamente unilateral (hemicoreia) (BRAUNWALD,
10ª ed.).
↠ Os pacientes também apresentam impersistência
motora por retirarem a língua de forma intermitente e
involuntária quando tentam fazer a protrusão dessa
durante 30 segundos (língua caixa-surpresa). A
impersistência motora também pode ser demonstrada ao
pedir-se ao paciente para apertar a mão do examinador.
Isso resulta em apertos repetitivos irregulares rotulados
como “o sinal da ordenha”. A labilidade emocional é
manifestada por alterações da personalidade com
comportamento inapropriado, inquietações, surtos de
raiva ou choro e dificuldades de aprendizagem
(BRAUNWALD, 10ª ed.).
↠ É comum haver caretas faciais, e até mesmo a fala
pode estar afetada. A coreia é autolimitante e
normalmente evolui em questão de semanas ou meses,
9
Júlia Morbeck – @med.morbeck
porém as recidivas não são incomuns. Uma infecção
estreptocócica anterior pode ser detectada em apenas
cerca de dois terços dos casos, dificultando o diagnóstico
diferencial (REUMATOLOGIA, 5ª ed.).
ERITEMA MARGINADO
↠ De incidência variável de 5 a 13%, é bastante específico
da FRA, com maior frequência nos pacientes com cardite
e nódulos subcutâneos e nos estágios iniciais da doença.
Trata-se de lesões maculares, eritematosas, que tomam
um aspecto rendilhado com o centro mais claro, não
pruriginosas, não enduradas, indolores, de duração
transitória e caráter recidivante (REUMATOLOGIA, 5ª ed.).
↠ Os locais mais comumente acometidos são o tronco
e a região proximal dos membros. Não surge na face
(REUMATOLOGIA, 5ª ed.).
NÓDULOS SUBCUTÂNEOS
↠ Raros, com frequência de cerca de 8%, ocorrem
tardiamente e quase exclusivamente nos pacientes com
cardite grave (REUMATOLOGIA, 5ª ed.).
↠ Firmes, indolores e móveis, seu tamanho varia de
alguns milímetros até 1 ou 2 cm. São encontrados nas
superfícies extensoras próximas às proeminências ósseas
em cotovelos, joelhos, tornozelos, processos espinhosos
vertebrais, couro cabeludo e fronte. Duram 1 ou 2
semanas, e raramente mais de 1 mês (REUMATOLOGIA,
5ª ed.).
FEBRE
Geralmente presente no início da doença, diminui com o passar dos
dias. Pode durar até 3 semanas e desaparece mesmo sem tratamento.
Níveis maiores de 38°C podem ser considerados para população de
risco elevado e maiores de 38,5°C para população de baixo risco
(REUMATOLOGIA, 5ª ed.).
Diagnóstico da Febre Reumática
↠ O diagnóstico da febre reumática é clínico, não
existindo sinal patognomônico ou exame específico. Os
exames laboratoriais, apesar de inespecíficos, sustentam
o diagnóstico do processo inflamatório e da infecção
estreptocócica (DIRETRIZ, 2009).
↠ Os critérios de Jones, estabelecidos em 1944, tiveram
a sua última modificação em 1992 e continuam sendo
considerados o “padrão ouro” para o diagnóstico do
primeiro surto da FR (DIRETRIZ, 2009).
↠ A divisão dos critérios em maiores e menores é
baseada na especificidade e não na frequência da
manifestação. Outros sinais e sintomas, como epistaxe,
dor abdominal, anorexia, fadiga, perda de peso e palidez
podem estar presentes, mas não estão incluídos entre as
manifestações menores dos critérios de Jones (DIRETRIZ,
2009).
↠ A probabilidade de FR é alta quando há evidência de
infecção estreptocócica anterior, determinada pela
elevação dos títulos da antiestreptolisina O (ASLO), além
da presença de pelo menos dois critérios maiores ou um
critério maior e dois menores (DIRETRIZ, 2009).
↠ Com as sucessivas modificações, os critérios
melhoraram em especificidade e perderam em
sensibilidade devido à obrigatoriedade de comprovação
da infecção estreptocócica. (DIRETRIZ, 2009).
↠ Os critérios de Jones modificados pela American Heart
Association (AHA) em 1992 devem ser utilizados para o
diagnóstico do primeiro surto da doença, enquanto os
critérios de Jones revistos pela OMS e publicados em
2004 destinam-se também ao diagnóstico das
10
Júlia Morbeck – @med.morbeck
recorrências da FR em pacientes com CRC estabelecida
(DIRETRIZ, 2009).
↠ Uma vez que outros diagnósticos sejam excluídos, a
coreia, a cardite indolente e as recorrências são três
exceções em que os critérios de Jones não têm que ser
rigorosamente respeitados: (DIRETRIZ, 2009).
➢ Considerando-se a raridade de outras etiologias
para a coreia, sua presença implica no
diagnóstico de FR, mesmo na ausência dos
outros critérios ou da comprovação da infecção
estreptocócica anterior;
➢ Na cardite indolente, as manifestações clínicas
iniciais são pouco expressivas e, quando o
paciente procura o médico, as alterações
cardíacas podem ser a única manifestação, e os
exames de fase aguda, assim como os títulos de
anticorpos para o estreptococo, podem estar
normais;
➢ Nos casos em que o paciente tem história de
surto agudo prévio ou de cardiopatia crônica
comprovada, o diagnóstico de recorrência pode
ser baseado em apenas um sinal maior ou em
vários sinais menores ou, simplesmente, em dois
sinais menores pelo critério da OMS.
DIAGNÓSTICO DA FARINGOAMIGDALITE
↠ O isolamento do estreptococo do grupo A em vias
aéreas superiores pode representar uma infecção ou a
condição de portador são. Ressalte-se que apenas nos
casos de infecção ocorre elevação de anticorpos e,
consequentemente, risco de desenvolver FR. Por outro
lado, aproximadamente 30% dessas infecções pelo EBGA
são de manifestações subclínicas (DIRETRIZ, 2009).
↠ O diagnóstico da faringoamigdalite estreptocócica
permite o adequado tratamento antimicrobiano e,
consequentemente, a prevenção primária da FR
(DIRETRIZ, 2009).
↠ Recomenda-se a comprovação laboratorial da infecção
pelo EBGA. A cultura de orofaringe é o “padrão ouro”
para o diagnóstico da faringoamigdalite estreptocócica e
tem sensibilidade entre 90%-95%. Quando comparado à
cultura, o teste rápido para a detecção de antígeno tem
a vantagem da rapidez do resultado e, também, apresenta
sensibilidade de 80% e especificidade de 95%. Diante de
quadro clínico sugestivo de faringoamigdalite
estreptocócica e teste rápido negativo, recomenda-se a
realização de cultura de orofaringe (DIRETRIZ, 2009).
↠ Os testes mais comumente utilizados são a
antiestreptolisina O (ASLO) e a anti- desoxyribonuclease
B (anti-DNase). A dosagem dos títulos de ASLO confirma
apenas a presença de infecção estreptocócica anterior. A
elevação dos títulos se inicia por volta do 7º dia após a
infecção e atinge o pico entre a 4a e a 6a semana,
mantendo-se elevada por meses, às vezes até por um
ano após a infecção. Recomenda-se a realização de duas
dosagens de ASLO com intervalo de 15 dias. Tem sido
observado que aproximadamente 20% dos pacientes
com FR não cursam com elevação da ASLO.
Recomenda-se a utilização dos limites-padrão de cada
laboratório para a análise dos resultados (DIRETRIZ, 2009).
REAGENTES DE FASE AGUDA
↠ As provas de atividade inflamatória ou reagentes de
fase aguda não são específicas da FR, porém auxiliam no
monitoramento da presença de processo inflamatório
(fase aguda) e da sua remissão (DIRETRIZ, 2009).
11
Júlia Morbeck – @med.morbeck
↠ A velocidade de hemossedimentação (VHS) se elevanas primeiras semanas de doença. Ressalte-se que, na
presença de anemia, a VHS pode estar superestimada,
bem como subestimada, nos pacientes com insuficiência
cardíaca (DIRETRIZ, 2009).
↠ A proteína C reativa (PCR) se eleva no início da fase
aguda e seus valores diminuem no final da segunda ou da
terceira semana. Sempre que possível deve ser titulada,
sendo mais fidedigna que a VHS (DIRETRIZ, 2009).
↠ A alfa-1-glicoproteína ácida apresenta títulos elevados
na fase aguda da doença, mantendo-se elevada por
tempo mais prolongado. Deve ser utilizada para monitorar
a atividade da FR (DIRETRIZ, 2009).
↠ Na eletroforese de proteína, a alfa-2-globulina se eleva
precocemente na fase aguda e pode ser utilizada
também para o seguimento da atividade da doença
(DIRETRIZ, 2009).
↠ É importante ressaltar que qualquer combinação das
provas laboratoriais de fase aguda deve ser considerada
como apenas uma manifestação menor da FR (DIRETRIZ,
2009).
EXAMES COMPLEMENTARES PARA AVALIAÇÃO DO
COMPROMETIMENTO CARDÍACO NA FR
RADIOGRAFIA DE TÓRAX E ELETROCARDIOGRAMA
↠ Recomenda-se a realização do exame radiológico do
tórax para investigação de cardiomegalia e de sinais de
congestão pulmonar. A análise sequencial caracterizando
o aumento da área cardíaca fala a favor de atividade
reumática, e a presença de congestão pulmonar
caracteriza a cardite grave (DIRETRIZ, 2009).
↠ A respeito do eletrocardiograma, os achados são
inespecíficos, geralmente transitórios e representados
principalmente por taquicardia sinusal, distúrbios de
condução, alterações de ST-T e baixa voltagem do
complexo QRS e da onda T no plano frontal (DIRETRIZ,
2009).
OBS.: Observa-se que em crianças e adolescentes portadores de
cardite, há uma tendência ao alongamento do intervalo QT. Também
foi registrado um aumento na dispersão do QT, assim como sua
redução com a melhora dos sintomas (DIRETRIZ, 2009).
ECOCARDIOGRAMA
↠ Persistência ou agravamento das lesões valvares ao
ecocardiograma poderão ocorrer, mesmo com
regressão dos achados clínicos. Assim, a OMS
recomenda, nas áreas em que a doença é endêmica, a
utilização da ecocardiografia para diagnosticar cardite
subclínica (DIRETRIZ, 2009).
↠ Na fase aguda da doença, a regurgitação mitral é a
alteração mais frequente. Para se aumentar a
especificidade do diagnóstico ecocardiográfico da
regurgitação mitral é necessário que alterações valvares
morfológicas também estejam presentes. A regurgitação
mitral é causada por dilatação ventricular, dilatação do anel
mitral e pelo prolapso mitral (DIRETRIZ, 2009).
↠ A regurgitação aórtica é a segunda lesão mais
frequente, e lesões valvares obstrutivas não ocorrem nos
episódios iniciais da FR. Espessamento valvar é frequente,
e têm sido observados nódulos valvares focais que
desaparecem durante a evolução. O diagnóstico da valvite
não deve ser baseado em lesões isoladas do lado direito
do coração (DIRETRIZ, 2009).
DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL
↠ O diagnóstico diferencial da FR deve ser feito com um
grande número de doenças (DIRETRIZ, 2009).
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Júlia Morbeck – @med.morbeck
INVESTIGAÇÕES NO CASO DE SUSPEITA DE FR
RECOMENDAÇÕES PARA TODOS OS CASOS
Contagem de leucócitos
VHS ou PCR
Esfregaço faríngeo antes da administração de antibiótico
para cultura de EGA
Sorologia antiestreptocócica: títulos de antiestreptolisina O
e anti-DNase B
Hemocultura se febril
ECG
RX de tórax
ECO
Braunwald, 10ª ed.
Referências
PFALLER et. al. Microbiologia Médica, 7ª edição. Elsevier.
FIGUEIREDO et. al. Febre reumática: uma doença sem cor.
Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 2019.
PEIXOTO et. al. Febre reumática: revisão sistemática.
Revista Brasileira de Clínica Médica, 2011.
COICO, Richard; SUNSHINE, Geoffrey. Imunologia, 6ª
edição. Guanabara Koogan, 2010.
RACHID, A. etiopatogenia da febre reumática. Revista
Brasileira de Reumatologia, 2003.
BONOW et. al. Braunwald Tratado de Doenças
Cardiovasculares, 10ª edição. Elsevier, 2018.
BRAGA et. al. Diretrizes Brasileiras para o Diagnóstico,
Tratamento e a Prevenção da Febre Reumática. Arquivos
Brasileiros de Cardiologia, 2009.
CARVALHO et. al. Reumatologia: Diagnóstico e
Tratamento, 5ª edição. Guanabara Koogan, 2019.
NORRIS. PORTH Fisiopatologia, 10ª edição – Rio de Janeiro:
guanabara Koogan, 2021.
1
Júlia Morbeck – @med.morbeck
Objetivos
1- Discutir a etiologia, epidemiologia e os fatores de
risco da endocardite infecciosa;
2- Debater a fisiopatologia da endocardite infecciosa
e suas manifestações clínicas;
3- Explicar o diagnóstico e tratamento da
endocardite infecciosa;
4- Explanar as medidas preventivas da endocardite
infecciosa;
5- Realizar uma breve discussão sobre o
atendimento à saúde da população rural.
Endocardite Infecciosa
DEFINIÇÃO: Endocardite infecciosa é uma doença resultante da
colonização de fungos, vírus e principalmente de bactérias causando
inflamação e danos é uma infecção localizada nos tecidos internos do
coração (endocárdio), bem como estruturas associadas (válvulas)
(GALVÃO, 2016).
↠ A endocardite infecciosa (EI) é uma doença causada
por microrganismos que se aderem à superfície endotelial
do coração ou sobre algum dispositivo, como eletrodos
de marca-passos, desfibriladores implantáveis ou próteses
cardíacas (SOCESP, 5ª ed.).
OBS.: As estruturas mais suscetíveis são as valvas atrioventriculares,
podendo também ocorrer no endocárdio dos átrios, ventrículos e
grandes vasos (SOCESP, 5ª ed.).
↠ A lesão endotelial é o primeiro evento para o
aparecimento da endocardite e ocorre por
turbilhonamento do sangue que ocorre nas valvopatias,
pelas lesões endoteliais causadas por cateteres ou por
lesão bacteriana direta (SOCESP, 5ª ed.).
↠ A EI é doença complexa e grave, de altas morbidade
e mortalidade, com grande espectro de manifestações
clínicas, de diagnóstico e tratamento difíceis, podendo
cursar com várias complicações cardíacas, sistêmicas,
imunes e vasculares (SOCESP, 5ª ed.).
Etiologia e Fatores de risco da EI
↠ As infecções estafilocócicas recentemente se
tornaram a causa líder de EI, com os estreptococos e os
enterococos sendo as duas outras causas mais comuns
(PORTH, 10ª ed.).
↠ Outros agentes causais incluem o grupo denominado
HACEK (espécies de Haemophilus, Actinobacillus
actinomycetemcomitans, Cardiobacterium hominis,
Eikenella corrodens e Kingella kingae), os bacilos Gram-
negativos e os fungos (PORTH, 10ª ed.).
IMPORTANTE: Os agentes causais diferem razoavelmente quanto aos
principais grupos de alto risco. Por exemplo, o Staphylococcus aureus
é o principal agente agressor em usuários de drogas intravenosas,
enquanto a EI em próteses valvares tende a ser causada por
estafilococos coagulase-negativos (p. ex., Staphylococcus epidermidis).
Além disso, o S. epidermidis foi associado à contaminação em
dispositivos implantáveis e a infecções relacionadas ao atendimento de
saúde (PORTH, 10ª ed.).
↠ O principal fator causador de EI é a contaminação do
sangue por microrganismos. A porta de entrada para a
corrente sanguínea pode ser:
➢ uma infecção manifesta;
➢ um procedimento odontológico ou cirúrgico que
causa bacteremia transitória;
➢ a injeção de uma substância contaminada
diretamente no sangue de usuários de drogas
intravenosas;
➢ presença de uma fonte oculta na cavidade oral
ou no intestino.
FATORES DE RISCO (PORTO & PORTO)
➢ Doença valvar (reumática e não reumática);
➢ Cardiopatias congênitas cianóticas (persistência do canal
arterial [PCA], comunicação interventricular [CIV], tetralogia
de Fallot, valva aórtica bicúspide);
➢ Prótese valvar;
➢ Cardiomiopatia hipertrófica obstrutiva;
➢ Prolapso da valva mitral com regurgitação;
➢ Endocardite prévia;
➢ Presença de dispositivos intravasculares e/ou intracardíacos
(cateteres, fios de marca-passo);
➢ Infecção pelo HIV;
➢Doença periodontal;
➢ Hemodiálise;
➢ Usuários de drogas ilícitas intravenosas;
➢ Lesões residuais após cirurgia cardíaca.
Classificação da EI
QUANTO À CLÍNICA
↠ Quanto à clínica, a EI é tradicionalmente classificada nos
tipos agudo ou subagudo-crônico, dependendo do início,
da etiologia e da gravidade da doença. De modo geral, o
início dos casos agudos é rápido e envolve pessoas com
valvas cardíacas normais, sadias ou que, eventualmente,
apresentam histórico de uso de medicamentos ou drogas
intravenosos, ou que se encontram debilitadas (PORTH,
10ª ed.).
↠ Os casos subagudos-crônicos evoluem ao longo de
meses, em pacientes comumente portadores de
anormalidades valvares. O desenvolvimento de cepas de
microrganismos resistentes a medicamentos, em
APG 08 – “COUVE-FLOR?”
2
Júlia Morbeck – @med.morbeck
consequência do uso indiscriminado de antibióticos e do
aumento da população de imunocomprometidos,
dificultou a classificação dos casos agudos e subagudos-
crônicos (PORTH, 10ª ed.).
CLASSIFICAÇÃO (PORTO & PORTO)
↠ Endocardite em valva natural: Infecção microbiana em
valvas naturais normais ou anormais. Pode evoluir de duas
formas:
➢ Endocardite infecciosa aguda: evolução rápida, com
toxemia. O óbito pode ocorrer em poucos dias ou semanas.
Em geral é causada por microrganismos mais virulentos
(estafilococos, pneumococos, e estreptococos do grupo A).
A infecção pode situar-se em valvas normais. O
prognóstico é reservado
➢ Endocardite infecciosa subaguda: início insidioso e evolução
mais prolongada. Costuma mimetizar outras doenças
sistêmicas, pois evolui durante algum tempo com sintomas
inespecíficos (febre baixa, sudorese noturna, anorexia,
astenia, calafrios, perda de peso). Mais frequente em
pacientes com lesões valvares preexistentes. Agentes
etiológicos mais comuns: Streptococcus do grupo viridans,
S. mutans, S. mitis, S. mitior, S. sanguis, S. salivarius. Outros
agentes etiológicos: Streptococcus do grupo D não
enterocócico, S. bovis, enterococos (E. faecalis, E. faecium),
grupo HACEK (Haemophylus, Actinobacillus,
Cardiobacterium, Eikenella, Kingella).
↠ Endocardite infecciosa em usuários de drogas ilícitas:
Afeta mais frequentemente a valva tricúspide. As
manifestações pulmonares podem dominar o quadro
clínico (dor pleurítica, abscesso pulmonar, hemoptise). Os
microrganismos mais encontrados são Staphylococcus
aureus, Pseudomonas, bacilos gram-negativos e fungos.
↠ Endocardite infecciosa pós-implante de prótese valvar:
Forma grave que ocorre em paciente com prótese
biológica ou mecânica. Pode ser precoce (até 60 dias) ou
tardia (após 1 ano). Os germes comumente isolados na
forma precoce são o S. aureus e S. coagulose-negativos,
mas pode ser causada por outros microrganismos (S.
aureus, bacilos gram-negativos, fungos). Na forma tardia
predominam germes semelhantes aos encontrados na
endocardite infecciosa de valvas naturais.
↠ Endocardite nosocomial: Infecção associada a
internação hospitalar prolongada, procedimentos invasivos
e presença de dispositivos intravasculares. Os germes
mais encontrados são Staphylococcus aureus,
enterococos e bacilos gram-negativos. Menos de 50%
têm fatores cardíacos predisponentes e cursam com alta
mortalidade.
Epidemiologia da EI
↠ Pacientes jovens com EI em geral são portadores de
sequela valvar de febre reumática, cardiopatia congênita
ou são usuários de drogas endovenosas. Um maior
número de casos tem sido observado em idosos,
pacientes institucionalizados/hospitalizados e submetidos a
procedimentos invasivos, representando cerca de 35%
dos casos. A endocardite infecciosa consequente ao
implante de próteses valvares corresponde cerca de 10 a
30% dos casos, acomete 1 a 6 % dos pacientes
portadores de prótese valvar e afeta igualmente próteses
biológicas e mecânicas (SOCESP, 5ª ed.).
↠ Há diferenças geográficas na epidemiologia da EI. Nos
países em desenvolvimento, como o Brasil, em razão da
alta incidência de portadores de sequela da febre
reumática, cuidado inadequado com a higiene dental e
deficiência ao acesso aos sistemas de saúde. Por outro
lado, nos Estados Unidos e na Europa, endocardite em
pacientes com lesões reumáticas ocorre em menos de
5% dos casos (SOCESP, 5ª ed.).
↠ Outros grupos de risco são pacientes idosos,
geralmente hospitalizados e com infecções associadas a
procedimentos invasivos. Portanto, a endocardite
nosocomial é mais comum nos países desenvolvidos,
enquanto as nações menos desenvolvidas mantêm o
perfil clássico de EI (SOCESP, 5ª ed.).
OBS.: O Brasil está em uma fase de transição e observa-se um padrão
de infecção endocárdica de países desenvolvidos em grandes hospitais
privados e, ao mesmo tempo, pacientes com a clássica endocardite
estreptocócica nos estratos menos favorecidos da sociedade.
Globalmente, a EI é atribuída a procedimentos invasivos (desde acessos
venosos, sobretudo em pacientes em diálise, até biópsias) em quase
25% dos pacientes (SOCESP, 5ª ed.).
↠ No Brasil, a real prevalência das endocardites não é
conhecida, mas especula-se que possa até ser maior em
razão do contingente ainda elevado de indivíduos
portadores de valvopatia reumática crônica, doença que
predispõe à endocardite e cuja prevalência diminuiu de
maneira acentuada nos países desenvolvidos (SOCESP, 5ª
ed.).
↠ A mortalidade intra-hospitalar atual de pacientes com
EI é de 15 a 20%, aumentando para até 40%, após 1 ano
do diagnóstico (SOCESP, 5ª ed.).
3
Júlia Morbeck – @med.morbeck
REGISTRO MULTICÊNTRICO
Entretanto, um interessante registro multicêntrico prospectivo da EI é
a Colaboração Internacional sobre Endocardite (ICE-PCS). Em estudo
produzido com a cooperação de 25 países, incluindo o Brasil, com
impacto significativo sobre o conhecimento da doença, foram avaliados
2.781 pacientes admitidos em 58 hospitais de 25 países, entre 2000 e
2005. A idade média dos pacientes foi de 57,9 anos, sendo 72% dos
casos em válvula nativa. A maioria (77% dos pacientes) teve
apresentação precoce, dentro de 30 dias, com poucas manifestações
clínicas. Exposição a cuidados de saúde foi encontrada em 25% dos
pacientes. O Staphylococcus aureus foi o patógeno mais comum
(31,2%). As valvas mitral e aórtica foram as mais infectadas, com 41,1%
e 37,6%, respectivamente. As complicações mais comuns foram
insuficiência cardíaca (32,3%), embolização sistêmica (22,6%), AVC
(16,9%) e abscesso intracardíaco (14,4%). O tratamento cirúrgico foi
realizado em 48,2% dos casos, com mortalidade intra-hospitalar de
17,7% (SOCESP, 5ª ed.).
Fisiopatologia da EI
↠ A endocardite resulta de vários eventos
independentes: (PORTO & PORTO).
➢ bacteriemia transitória;
➢ superfície endocárdica alterada, funcionando
como ponto inicial da infecção;
➢ fluxo sanguíneo turbulento;
➢ depósito de plaquetas e fibrina (trombo estéril);
➢ adesão e proliferação de germes.
OBS.: As vegetações (lesões características da endocardite) são
constituídas de plaquetas, fibrina, células inflamatórias e colônias de
microrganismos (PORTO & PORTO).
↠ O endotélio valvular normal é resistente à colonização
e infecção por bactérias circulantes, porém quando
ocorre à ruptura mecânica do endotélio leva à exposição
da matriz extracelular ao depósito de fibrina e plaquetas,
facilitando a aderência bacteriana e causando a infecção
(GALVÃO, 2016).
O dano endotelial pode resultar de lesões mecânicas provocadas pelo
fluxo sanguíneo turbulento, como pelos cateteres intravasculares,
inflamação como na cardite reumática ou por alterações
degenerativas, como em idosos. Essas degenerações são detectadas
por ecocardiográfias em 50% dos pacientes considerados
assintomáticos, acima de 60 anos, em uma proporção parecida com
pacientes portadores de EI (GALVÃO, 2016).
↠ Geralmente, essa vegetação se desenvolve em
regiões em que o endotéliofoi lesado devido a jatos
anormais de sangue, que se formam quando este passa
das câmaras de alta pressão para as câmaras de menor
pressão, produzindo um “efeito jato” que exerce ação
abrasiva sobre a superfície endotelial provocando
desgaste, como por exemplo, em lesões valvares do tipo
estenose e insuficiência expondo tecido colágeno, o que
desencadeia uma sucessão de eventos fisiopatológicos
como: (GALVÃO, 2016).
➢ a formação de um trombo de fibrina,
inicialmente asséptico, que tem função de
reparar o endotélio;
➢ a eventual colonização desse trombo durante
um episódio de bacteremia por microrganismos
patológicos; o início de um processo infeccioso
nesse local, criando condições para maior adesão
plaquetária, mais deposição de fibrina, e
eritrócitos e células inflamatórias com o
crescimento da lesão.
IMPORTANTE: Com o depósito progressivo de mais plaquetas, fibrina e
microrganismos há crescimento da vegetação. A bacteremia é um
fator importante, sendo que o risco de endocardite infecciosa depende
da magnitude da bacteremia e da habilidade do patógeno de atuar nas
válvulas lesadas (GALVÃO, 2016).
Uma vez infectadas, essas vegetações continuam a crescer por meio
do depósito adicional de plaquetas e fibrina, fornecendo às bactérias
um santuário contra os mecanismos de defesa do hospedeiro, como
leucócitos polimorfonucleares e complemento. Consequentemente,
uma vez que a infecção se firma, a vegetação infectada continua a
crescer de maneira largamente desimpedida (HAMMER; MCPHEE,
2015).
Para haver colonização endocárdica e, portanto, para se desencadear
uma endocardite, há necessidade de bacteriemia ou fungemia,
Perfil epidemiológico da endocardite infecciosa em diferentes
continentes.
4
Júlia Morbeck – @med.morbeck
transitória ou duradoura; estas se originam de infecções em diversos
locais do organismo (cutâneas, urinárias, pulmonares etc.) ou são
secundárias a manipulações dentárias, queimaduras, procedimentos
invasivos (hemodiálise, uso prolongado de sondas uretrais e, sobretudo,
cateteres intravasculares) ou uso de substâncias injetáveis por usuários
de drogas. Indivíduos nas duas últimas situações constituem grupo de
risco para endocardite, sobretudo as do lado direito do coração
(BOGLIOGO, 10ª ed.).
OBS.: Histologicamente, as vegetações são constituídas por inflamação
aguda, com predomínio de neutrófilos e número menor de
macrófagos e outras células, de permeio a rede de fibrina e produtos
da destruição tecidual (BOGLIOGO, 10ª ed.).
IMPORTANTE: As lesões vegetativas intracardíacas também apresentam
efeitos locais e sistêmicos a distância. A organização frouxa dessas
lesões possibilita que os organismos e fragmentos da lesão formem
êmbolos, os quais são levados pela corrente sanguínea e causam
embolia cerebral, sistêmica ou pulmonar. Os fragmentos podem se
alojar em vasos de pequeno calibre, causando hemorragias de
pequeno porte, abscessos e infarto tecidual. A bacteremia também
pode iniciar respostas imunes supostamente responsáveis por
manifestações cutâneas, poliartrite, glomerulonefrite e outros
distúrbios imunes (PORTH, 10ª ed.).
↠ Lesões endoteliais inflamadas sem danos valvulares
também podem promover o surgimento dessa doença.
Inflamação local induz células endoteliais a expressar
integrinas do grupo B1 (antígeno tardio). Integrinas são
proteínas transmembrana que podem ligar componentes
extracelulares ao citoesqueleto celular. Essas integrinas ligam
fibronectinas circulantes à superfície do endotélio,
enquanto S. aureus entre outros microrganismos
causadores da EI que possuem o agente ligante da
fribronectina na sua superfície. Consequentemente,
quando ativadas as fibronectinas das células endoteliais,
elas promovem uma superfície adesiva aos patógenos
circulantes, como por exemplo, S. aureus. Uma vez
aderido, ele inicia sua colonização nas células das válvulas
endoteliais, onde o agente pode executar mecanismos de
burlar os mecanismos de defesa do hospedeiro e
antibiótico, bem como se multiplicar e se espalhar para
órgãos distintos (GALVÃO, 2016).
Patógenos clássicos dessa enfermidade compartilham a habilidade de
aderir a válvulas danificadas, ativam fator local de coagulação, e nutrem
vegetações infectadas as quais eles podem sobreviver. Seguindo sua
colonização, necessita escapar dos mecanismos de defesa do
hospedeiro. Bactérias gram positivas são geralmente resistentes.
Contudo, são alvo de proteínas microbicidas plaquetárias (PMPs), as
quais são produzidas por plaquetas ativadas e destroem
microrganismos por desregular sua membrana plasmática. Bactérias
encontradas em pacientes com EI são, na maioria das vezes,
resistentes as PMPs (GALVÃO, 2016).
Endocardite infecciosa. Vista da face atrial da valva mitral com grande
vegetação. Espécime de ressecção cirúrgica.
5
Júlia Morbeck – @med.morbeck
Manifestações Clínicas da EI
Em mais de 80% dos casos, o período de incubação até o início dos
sintomas é de aproximadamente 2 semanas ou menos. Contudo, na
presença de infecção por Candida relacionada, o período de incubação
pode chegar a 5 meses (PORTH, 10ª ed.).
↠ Os pacientes apresentam quadro infeccioso e
septicêmico e, portanto, têm manifestações sistêmicas
em geral exuberantes, como febre, mal-estar, cefaleia,
anorexia, aumento de linfonodos e hepatoesplenomegalia
(BOGLIOGO, 10ª ed.).
Importante: A febre é o principal sintoma da EI e está presente em
cerca de 90% dos casos (SOCESP, 5ª ed.).
↠ Em consequência de embolia séptica, podem surgir
necrose e infecções em outros órgãos, com os sinais e
sintomas clínicos correspondentes. Sinais periféricos de
endocardite incluem petéquias, nódulos ou pápulas
eritematosas muito dolorosas na polpa dos dedos e nos
artelhos (nódulos de Osler), hemorragias nas palmas das
mãos e na planta dos pés (lesão de Janeway) e
hemorragias conjuntivais e na retina (manchas de Roth)
(BOGLIOGO, 10ª ed.).
Em muitos casos, surgem pequenas petéquias hemorrágicas quando
os êmbolos se alojam nos vasos de pequeno calibre da pele, nos leitos
ungueais e nas membranas mucosas. É comum haver hemorragias
lineares (i. e., linhas vermelhas escuras) sob as unhas das mãos e dos
pés (PORTH, 10ª ed.).
↠ Alguns pacientes têm manifestações de nefropatia
pela deposição de imunocomplexos nos glomérulos.
Certo número de pacientes desenvolve estado de
choque, séptico e/ou cardiogênico, podendo, em alguns
casos, ter componente hipovolêmico por causa das
hemorragias (BOGLIOGO, 10ª ed.).
↠ Tosse, dispneia, artralgia ou artrite, diarreia e dor
abdominal ou no flanco podem ocorrer como resultado
da embolia sistêmica (PORTH, 10ª ed.).
↠ Pode haver o desenvolvimento de insuficiência
cardíaca congestiva em consequência da destruição da
valva, embolia em artéria coronária ou miocardite, bem
como de insuficiência renal decorrente da destruição ou
das toxicidades dos antimicrobianos (PORTH, 10ª ed.).
RESUMO DAS MANIFESTAÇÕES (PORTO & PORTO)
➢ Manifestações sistêmicas: febre (ausente em cerca de 5 a
15% dos casos), anorexia, náuseas e vômitos, perda de
peso, sudorese noturna, calafrios, fadiga, astenia, dores
musculares, artralgias.
➢ Manifestações neurológicas: cefaleia, rigidez da nuca,
torpor, delirium, hemiparesia, parestesias, afasia, coma.
➢ Manifestações renais: hematúria
➢ Manifestações cutaneomucosas: petéquias, nódulos de
Osler (pequenas formações nodulares dolorosas na polpa e
face lateral dos dedos), hemorragia conjuntival, lesões de
Janeway (máculas eritematosas ou purpúricas, planas e
indolores nas regiões palmares, plantares, eminências
tenares e hipotenares das mãos, pontas dos dedos das
mãos e superfícies plantares dos artelhos)
➢ Manifestações respiratórias: tosse, dor pleurítica, hemoptise
➢ Manifestações cardíacas: dispneia, ortopneia, dispneia
paroxística noturna, mudançasconjunto dos eventos cardíacos, que ocorre entre
o início de um batimento e o início do próximo, é
denominado ciclo cardíaco. Cada ciclo é iniciado pela
geração espontânea de potencial de ação no nodo
sinusal. (GUYTON, 13ª ed.)
DiÁstole e SÍstole
↠O ciclo cardíaco consiste no período de relaxamento,
chamado diástole, durante o qual o coração se enche de
sangue, seguido pelo período de contração, chamado
sístole. A duração total do ciclo cardíaco, incluindo a sístole
e a diástole, é a recíproca da frequência cardíaca.
(GUYTON, 13ª ed.)
Por exemplo, se a frequência cardíaca é de 72 batimentos/min, a
duração do ciclo cardíaco é de 1/72 batimentos/min —
aproximadamente 0,0139 minuto por batimento, ou 0,833 segundo por
batimento.
Obs.: O Aumento da Frequência Cardíaca Reduz a Duração do Ciclo
Cardíaco.
Os átrios funcionam como pré-bombas para os ventrículos:
Normalmente, o sangue flui de forma contínua, vindo das
grandes veias para os átrios; cerca de 80% do sangue fluem
diretamente dos átrios para os ventrículos, mesmo antes da
contração atrial. Então, essa contração representa os 20%
adicionais para acabar de encher os ventrículos. Desse modo,
os átrios funcionam como bomba de escova (primer pump),
que melhora a eficácia do bombeamento ventricular por, no
máximo, 20%. Entretanto, o coração pode continuar operando,
na maioria das circunstâncias, mesmo sem esses 20% a mais
de eficiência, pois ele normalmente tem capacidade de
bombear de 300 a 400% a mais de sangue do que o
necessário para o corpo, nas condições de repouso (GUYTON,
13ª ed.).
Período de Contração Isovolumétrica (Isométrica)
↠ Imediatamente após o início da contração ventricular,
a pressão ventricular sobe, de modo abrupto, fazendo
com que as valvas A-V se fechem.
↠ É necessário mais 0,02 a 0,03 segundo para que o
ventrículo gere pressão suficiente para empurrar e abrir
as válvulas semilunares (aórtica e pulmonar) contra a
pressão nas artérias aorta e pulmonar.
↠ Durante esse período os ventrículos estão se
contraindo, mas não ocorre esvaziamento. É o chamado
período de contração isovolumétrica ou isométrica.
Período de Ejeção
↠ Quando a pressão no interior do ventrículo esquerdo
aumenta até pouco acima de 80 mmHg (e a pressão do
ventrículo direito, pouco acima de 8 mmHg), a pressão
ventricular força a abertura das valvas.
↠ Imediatamente, o sangue começa a ser lançado para
diante, para as artérias. Em torno de 60% do sangue do
ventrículo são ejetados durante a sístole.
↠ Cerca de 70% dessa porção são ejetados durante o
primeiro terço do período de ejeção, e os 30% restantes
do esvaziamento ocorrem nos outros dois terços do
período.
↠ Assim, o primeiro terço é o chamado período de
ejeção rápida, e os demais dois terços, período de ejeção
lenta.
Período de Relaxamento Isovolumétrico (Isométrico)
↠ Ao final da sístole, o relaxamento ventricular começa
de modo repentino, fazendo com que as pressões
intraventriculares direita e esquerda diminuam
rapidamente.
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Júlia Morbeck – @med.morbeck
↠ As altas pressões nas artérias distendidas que
acabaram de ser cheias com o sangue vindo dos
ventrículos contraídos tornam a empurrar o sangue de
volta para os ventrículos, causando o fechamento das
valvas aórtica e pulmonar.
↠ Durante mais 0,03 a 0,06 segundo, o músculo
ventricular continua a relaxar, mesmo que o volume não
se altere, originando o período de relaxamento
isovolumétrico ou isométrico.
↠ As pressões intraventriculares diminuem rapidamente
de volta aos valores diastólicos. É então que as valvas A-
V se abrem para iniciar novo ciclo de bombeamento
ventricular.
Os Ventrículos se Enchem de Sangue durante a
Diástole.
↠ Assim que a sístole termina e as pressões ventriculares
retornam aos baixos valores diastólicos, as pressões
moderadamente altas que se desenvolveram nos átrios
durante a sístole ventricular forçam de imediato as valvas
A-V a se abrirem.
↠ É o chamado período de enchimento rápido
ventricular. O período de enchimento rápido ocorre
aproximadamente durante o primeiro terço da diástole.
↠ Ao longo do segundo terço, uma pequena quantidade
de sangue nas condições normais flui para os ventrículos,
sendo esse o sangue que continua a chegar aos átrios,
vindo das veias, fluindo diretamente para os ventrículos.
↠ Durante o último terço da diástole, os átrios se
contraem, dando impulso adicional ao fluxo sanguíneo
para os ventrículos. Esse mecanismo responde por mais
ou menos 20% do enchimento ventricular total em cada
ciclo cardíaco.
Regulação do sistema cardiovascular
CONCEITOS IMPORTANTES
DÉBITO CARDÍACO
↠ Débito cardíaco (DC) é a quantidade de sangue bombeada
por cada ventrículo em um minuto. Ele é o produto da
frequência cardíaca (FC) pelo volume sistólico (VS) (MARIEB, 3ª
ed.).
↠ Volume sistólico é definido como o volume de sangue
bombeado por um ventrículo em cada batimento. Em geral, o
volume sistólico é correlacionado com a força da contração
ventricular (MARIEB, 3ª ed.).
DC = FC X VS
O volume de sangue em um adulto normal é de aproximadamente 5
L. Assim, todo o suprimento sanguíneo passa através de cada lado do
coração uma vez em cada minuto. Observe que o DC varia
diretamente com o VS e a FC. Portanto, o DC aumenta quando o VS
aumenta ou o coração bate mais rápido, ou ambos, e diminui quando
um ou os ambos fatores diminuem (MARIEB, 3ª ed.).
↠ O DC é muito variável e aumenta substancialmente em
resposta a demandas especiais, como correr para alcançar um
ônibus. A diferença entre o DC máximo e o de repouso é
chamada de reserva cardíaca. Em pessoas não-atletas, a
reserva cardíaca em geral é 4 a 5 vezes o DC (20 a 25
mL/min), mas o DC em atletas treinados pode atingir 35 mL/
min (sete vezes o do repouso) durante a competição (MARIEB,
3ª ed.).
REGULAÇÃO DO VOLUME SISTÓLICO
↠ Essencialmente, o VS representa a diferença entre o
volume diastólico final (VDF), a quantidade de sangue que se
acumula em um ventrículo durante a diástole, e o volume
sistólico final (VSF), o volume de sangue que permanece em
um ventrículo após ele ter contraído (MARIEB, 3ª ed.).
↠ O VDF, determinado pela duração da diástole ventricular e
pela pressão venosa (um aumento em qualquer desses fatores
eleva o VDF), normalmente é de cerca de 120 mL (MARIEB, 3ª
ed.).
↠ O VSF, determinado pela pressão sanguínea arterial (quanto
maior a pressão, maior o VSF) e pela força de contração
ventricular, é de aproximadamente 50 mL (MARIEB, 3ª ed.).
↠ Embora muitos fatores afetem o VS por causar alterações
no VDF ou no VSF, os três mais importantes são a pré-carga,
a contratilidade e a pós-carga (MARIEB, 3ª ed.).
Pré-carga: grau de estiramento do músculo cardíaco
↠ De acordo com a lei de Frank-Starling do coração, o fator
crítico no controle do VS é a pré-carga, a qual é o grau de
12
Júlia Morbeck – @med.morbeck
estiramento das fibras musculares cardíacas imediatamente
antes de contraírem (MARIEB, 3ª ed.).
↠ O fator mais relevante para o estiramento cardíaco é a
quantidade de sangue que retoma ao coração e distende os
ventrículos, chamado de retorno venoso (MARIEB, 3ª ed.).
Contratilidade
↠ Embora o VDF seja o principal fator intrínseco que influencia
o VS, o último também pode ser aumentado por fatores
extrínsecos que aumentam a contratilidade do músculo
cardíaco. Contratilidade é definida como a força contrátil atingida
em um determinado comprimento muscular (MARIEB, 3ª ed.).
↠ Observe que a contratilidade é independente do estiramento
do músculo e do VDF. Um aumento na contratilidade é devido
a um maior influxo de Ca+2 para o citoplasma, a partir do líquido
extracelular e do RS. O aumento da contratilidade resulta em
ejeção de sangue do coração (maior VS) e,
consequentemente, em um menor VSF. Aumento da
estimulação simpática aumenta a contratilidadedas características dos
sopros cardíacos, atrito pericárdico
Endocardite bacteriana. A valva mitral apresenta formações vegetativas
destrutivas que erodiram a margem livre do folheto valvar.
Fundoscopia em paciente com endocardite infecciosa, sendo
observada hemorragia retiniana, com palidez central (mancha de Roth).
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Júlia Morbeck – @med.morbeck
➢ Manifestações abdominais: dor abdominal, esplenomegalia,
hepatomegalia
➢ Manifestações oculares: manchas de Roth no fundo de olho.
Diagnóstico da EI
↠ A EI continua a impor desafios importantes ao
diagnóstico e ao tratamento, apesar dos avanços a
respeito da sua epidemiologia e microbiologia. O
diagnóstico de EI não pode ser obtido com um único
exame, e inclui a consideração das características clínicas,
laboratoriais e ecocardiográficas (PORTH, 10ª ed.).
EXAMES LABORATORIAIS
↠ Os exames laboratoriais mostram com maior
frequência um hemograma com leucocitose e desvio de
células jovens para esquerda e aumento de provas
inflamatórias (proteína C-reativa e velocidade de
hemossedimentação) (SOCESP, 5ª ed.).
↠ A hemocultura permanece como procedimento
diagnóstico mais definitivo e é essencial para direcionar o
tratamento (PORTH, 10ª ed.). Devem ser coletadas com técnica
asséptica três amostras de hemoculturas puncionadas em veia
periférica de locais diferentes e antes do início dos antibióticos. A
bacteriemia da EI é contínua, portanto não há necessidade de se colher
as hemoculturas em vigência de febre (SOCESP, 5ª ed.).
↠ A análise da urina pode mostrar hematúria, proteinúria
e até mesmo piúria causada pelas alterações imunológicas
da endocardite sobre os rins (SOCESP, 5ª ed.).
ECOCARDIOGRAMA
↠ O ecocardiograma é a técnica primária para detecção
de formações vegetativas e complicações cardíacas
resultantes da EI, constituindo uma ferramenta importante
no diagnóstico e no tratamento da doença (SOCESP, 5ª
ed.).
↠ O ACC e a AHA recomendam a realização de um
ecocardiograma em todas as pessoas com suspeita de EI.
Recomenda-se o uso do ecocardiograma transtorácico
quando há risco inicial baixo ou uma leve suspeita clínica;
e o ecocardiograma transesofágico deve ser utilizado em
casos com apresentações clínicas moderada ou
altamente suspeitas. Os indivíduos altamente suspeitos
incluem aqueles com próteses valvares, EI anterior,
doença congênita complexa, insuficiência cardíaca ou
sopro cardíaco de início recente (SOCESP, 5ª ed.).
↠ Para auxiliar no frequentemente difícil diagnóstico de
endocardite infecciosa, foram criados critérios, chamados
de critérios de Duke, subsequentemente modificados
(BOGLIOGO, 10ª ed.).
Critérios maiores são:
➢ cultura positiva para microrganismos típicos de
endocardite ou culturas persistentemente
positivas a despeito de terapêutica
antimicrobiana;
➢ vegetações valvares, nova insuficiência valvar,
abscessos intracardíacos ou deiscência de
prótese valvar detectada por ecocardiografia;
➢ cultura positiva para Coxiella burnetti ou título de
anticorpos IgG anti-fase 1 ≥ 1:800.
Critérios menores são:
➢ condições predisponentes;
➢ febre (T: >38ºC);
➢ sequelas vasculares de endocardite (eventos
embólicos);
➢ deficiência imunitária;
➢ culturas positivas para microrganismos menos
típicos de endocardite.
↠ O diagnóstico de endocardite envolve a combinação
de:
➢ dois critérios maiores;
➢ um critério maior e ao menos três menores;
➢ cinco critérios menores.
OBS.: Quando há um critério maior e um menor, ou três menores, a
endocardite é considerada “possível”.
Imagem de ecocardiograma transtorácico mostrando vegetação em
face atrial da valva mitral.
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Júlia Morbeck – @med.morbeck
Tratamento da IE
↠ Tem por objetivo identificar e eliminar o
microrganismo causal, minimizar os efeitos cardíacos
residuais e tratar o efeito patológico da embolia. A escolha
da terapia antimicrobiana depende do organismo cultivado
e da sua ocorrência em uma valva nativa ou prótese
valvar (PORTH, 10ª ed.).
↠ A terapia é normalmente longa e por via parenteral
(SOUSA; PINTO, 2022).
↠ Além de antibioticoterapia, a cirurgia pode ser
necessária em casos de infecção sem resolução,
insuficiência cardíaca grave e embolia significativa (PORTH,
10ª ed.).
TRATAMENTO MEDICAMENTOSO
↠ Deve ser iniciado de imediato, logo após obtenção de
hemoculturas, nos casos graves, instáveis, sem condições
clínicas para aguardar resultado das hemoculturas ou
naqueles cujas hemoculturas foram negativas. Optar por
um esquema terapêutico levando em conta o agente
etiológico mais provável (PORTO & PORTO).
Estreptococos do grupo viridans e S. bovis sensíveis à penicilina
➢ 1ª opção: benzilpenicilina cristalina.
➢ 2ª opção: ceftriaxona.
➢ Pacientes alérgicos à penicilina: vancomicina.
Enterococos e estreptococos resistentes à penicilina
➢ Benzilpenicilina cristalina ou ampicilina + gentamicina.
➢ Pacientes alérgicos à penicilina: vancomicina.
Estafilococos
➢ Oxacilina.
➢ Pacientes alérgicos à penicilina: vancomicina no lugar da
oxacilina.
Estafilococos resistentes à meticilina
➢ Vancomicina.
Bactérias do grupo HACEK
➢ 1ª opção: ceftriaxona.
➢ 2ª opção: ampicilina + gentamicina.
Pacientes portadores de prótese valvar
➢ Estafilococos sensíveis à meticilina: oxacilina + rifampicina, +
gentamicina.
➢ Estafilococos resistentes à meticilina: vancomicina +
rifampicina + gentamicina.
ANTIMICROBIANO
↠ A escolha do antimicrobiano mais apropriado requer o
conhecimento: (WHALEN, 6ª ed.).
➢ da identificação do microrganismo;
➢ da suscetibilidade do organismo com relação a
um fármaco em particular;
➢ do local da infecção;
➢ de fatores do paciente;
➢ da segurança do fármaco;
➢ do custo do tratamento.
OBS.: Entretanto, alguns pacientes precisam do tratamento empírico
(administração imediata do(s) fármaco(s) antes da identificação
bacteriana e dos testes de suscetibilidade) (WHALEN, 6ª ed.).
LOCAIS DE AÇÃO DOS ANTIMICROBIANOS
↠ Os antimicrobianos podem ser classificados de várias
formas: (WHALEN, 6ª ed.).
➢ Por sua estrutura química (p. ex., beta-lactâmicos
ou aminoglicosídeos);
➢ Por seu mecanismo de ação (p. ex., inibidores da
síntese da parede celular);
➢ Por sua atividade contra tipos particulares de
microrganismos (p. ex., bactérias, fungos ou
vírus).
ANTIMICROBIANOS INIBIDORES DA PAREDE CELULAR
↠ Alguns antimicrobianos interferem seletivamente na
síntese da parede celular bacteriana – uma estrutura que
as células dos mamíferos não possuem (WHALEN, 6ª ed.).
↠ Os inibidores da síntese de parede celular apresentam
eficácia máxima quando os microrganismos estão se
proliferando. Eles têm pouco ou nenhum efeito em
bactérias que não estejam crescendo e se dividindo
(WHALEN, 6ª ed.).
↠ Os antimicrobianos que interferem na síntese da
parede celular são: (WHALEN, 6ª ed.).
➢ Penicilinas;
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Júlia Morbeck – @med.morbeck
➢ Cefalosporinas;
➢ Carbapenemos;
➢ Outros antimicrobianos.
PENICILINAS
MECANISMO DE AÇÃO: interferem na última etapa da síntese da parede
bacteriana (transpeptidação ou ligações cruzadas), resultando em
exposição da membrana osmoticamente menos estável. Então pode
ocorrer lise celular, seja pela pressão osmótica, seja pela ativação de
autolisinas (WHALEN, 6ª ed.).
ANTIMICROBIANOS INIBIDORES DA SÍNTESE PROTEICA
↠ Muitos antimicrobianos exercem seu efeito
antimicrobiano agindo nos ribossomas bacterianos e
inibindo a síntese proteica das bactérias. Os ribossomas
bacterianos diferem estruturalmente dos ribossomas
citoplasmáticos dos mamíferos e são compostos de
subunidades 30S e 50S (os ribossomas de mamíferos
têm subunidades 40S e 60S) (WHALEN, 6ª ed.).
↠ Em geral, a seletividade pelos ribossomas bacterianos
minimiza potenciais consequências adversas resultantes
da interrupção da síntese proteica nas células do
hospedeirodo coração
(MARIEB, 3ª ed.).
Pós-carga: pressão retrógrada exercida pelo sangue arterial
↠ A pressão que deve ser superada para que os ventrículos
ejetem o sangue é denominada pós-carga. Ela é essencialmente
a pressão para trás exercida pelo sangue arterial nas valvas
aórtica e pulmonar, cerca de 80 mmHg na aorta e 8 mmHg no
tronco pulmonar.
↠ Em indivíduos saudáveis, a pós-carga não é o principal
determinante do volume sistólico, pois é relativamente
constante. Contudo, em hipertensos (alta pressão arterial), sem
dúvida ela é importante, por reduzir a capacidade dos
ventrículos de ejetar sangue. Consequentemente, mais sangue
permanece no coração após a sístole, resultando em aumento
do VSF e redução do VS (MARIEB, 3ª ed.).
Regulação do sistema cardiovascular
↠ Vários sistemas de feedback negativo interligados
controlam a pressão arterial por meio do ajuste do ritmo
cardíaco, do volume sistólico, da resistência vascular
sistêmica e do volume de sangue. Alguns sistemas
possibilitam ajustes rápidos para lidar com mudanças
bruscas, como a queda da pressão sanguínea no encéfalo
que ocorre quando a pessoa levanta da cama; outros
agem mais lentamente para fornecer a regulação a longo
prazo da pressão sanguínea. (TORTORA, 14ª ed.)
PAPEL DO CENTRO CARDIOVASCULAR
↠ O centro cardiovascular (CV) no bulbo ajuda a regular a frequência
cardíaca e o volume sistólico. O centro CV também controla sistemas
de feedback negativo neurais, hormonais e locais que regulam a
pressão e fluxo sanguíneo a tecidos específicos. (TORTORA, 14ª ed.)
↠ Grupos de neurônios espalhados no centro CV regulam a
frequência cardíaca, a contratilidade (força de contração) dos
ventrículos e o diâmetro dos vasos sanguíneos. (TORTORA, 14ª ed.)
↠ Os três tipos principais de receptores sensitivos que fornecem
informações ao centro cardiovascular são os proprioceptores, os
barorreceptores e os quimiorreceptores. (TORTORA, 14ª ed.)
Regulação autonômica
A regulação do coração pelo sistema nervoso se origina no centro
cardiovascular localizado no bulbo. Esta região do tronco encefálico
recebe informações de vários receptores sensoriais e dos centros
cerebrais superiores, como o sistema límbico e o córtex cerebral. O
centro cardiovascular então direciona o débito apropriado,
aumentando ou diminuindo a frequência dos impulsos nervosos nas
partes simpática e parassimpática do SNA (TORTORA, 14ª ed.).
REFLEXOS BARORRECEPTORES
↠ Mecanismo rápido de controle da pressão que atuam
em segundos ou minutos (GUYTON, 13ª ed.).
↠ Os barorreceptores, receptores sensitivos sensíveis à
pressão, estão localizados na aorta, nas artérias carótidas
internas (artérias do pescoço que fornecem sangue ao
encéfalo) e outras grandes artérias do pescoço e do tórax.
(TORTORA, 14ª ed.)
↠ Eles enviam impulsos para o centro cardiovascular para
ajudar a regular a pressão sanguínea. Os dois reflexos
barorreceptores mais importantes são o reflexo do seio
carótico e o reflexo da aorta. (TORTORA, 14ª ed.)
Os seios caróticos são pequenas ampliações das artérias carótidas
internas direita e esquerda, um pouco acima do ponto em que elas se
ramificam da artéria carótida comum. (TORTORA, 14ª ed.)
↠ A pressão arterial distende a parede do seio carótico,
o que estimula os barorreceptores. (TORTORA, 14ª ed.)
↠ Quando a pressão arterial cai, os barorreceptores são
menos distendidos e enviam impulsos nervosos em uma
frequência mais lenta ao centro cardiovascular. Em
resposta, o centro CV diminui a estimulação
parassimpática do coração por meio dos axônios motores
dos nervos vago e aumenta a estimulação simpática do
13
Júlia Morbeck – @med.morbeck
coração via nervos aceleradores cardíacos. (TORTORA,
14ª ed.)
↠ Inversamente, quando é detectado um aumento na
pressão, os barorreceptores enviam impulsos em uma
frequência mais rápida. O centro CV responde
aumentando a estimulação parassimpática e diminuindo a
estimulação simpática. As reduções resultantes da
frequência cardíaca e força de contração diminuem o
débito cardíaco. (TORTORA, 14ª ed.)
REFLEXOS QUIMIORRECEPTORES
↠ Os quimiorreceptores, receptores sensitivos que
monitoram a composição química do sangue, estão
localizados perto dos barorreceptores do seio carótico e
do arco da aorta em pequenas estruturas chamadas
glomos caróticos e glomos para-aórticos,
respectivamente. (TORTORA, 14ª ed.)
↠ Estes quimiorreceptores detectam mudanças nos
níveis sanguíneos de O2, CO2 e H+. Hipoxia (baixa
disponibilidade de O2), acidose (aumento na concentração
de H+) ou hipercapnia (excesso de CO2) estimulam os
quimiorreceptores a enviar impulsos ao centro
cardiovascular. Em resposta, o centro CV aumenta a
estimulação simpática de arteríolas e veias, provocando
vasoconstrição e aumento da pressão sanguínea.
(TORTORA, 14ª ed.)
Os neurônios simpáticos se estendem do bulbo à medula espinal. Da
região torácica da medula espinal, nervos simpáticos aceleradores
cardíacos estendem-se para o nó SA, para o nó AV e para a maior
parte das porções do miocárdio. Os impulsos nos nervos cardíacos
aceleradores desencadeiam a liberação de norepinefrina, que se liga
os receptores beta-1 (ß1) das fibras musculares cardíacas. (TORTORA,
14ª ed.).
Essa interação tem dois efeitos distintos: (TORTORA, 14ª ed.).
➢ nas fibras do nó SA (e AV), a norepinefrina acelera a taxa
de despolarização espontânea, de modo que estes
marcapassos disparam impulsos mais rapidamente e
aumentam a frequência cardíaca;
➢ nas fibras contráteis dos átrios e ventrículos, a
norepinefrina aumenta a entrada de Ca2+ através dos
canais lentos de Ca2+ acionados por voltagem, aumentando
assim a contratilidade. Como resultado, um maior volume
de sangue é ejetado durante a sístole. Em caso de
aumento moderado da frequência cardíaca, o volume
sistólico não diminui, porque o aumento da contratilidade
compensa a redução da pré-carga.
Com a estimulação simpática máxima, no entanto, a frequência
cardíaca pode chegar a 200 bpm em uma pessoa de 20 anos de
idade. Em uma frequência cardíaca assim alta, o volume sistólico é
menor do que em repouso, por causa do tempo de enchimento muito
curto. A frequência cardíaca máxima diminui com a idade; como regra,
subtrair sua idade de 220 fornece uma boa estimativa de sua
frequência cardíaca máxima em batimentos por minuto (TORTORA,
14ª ed.).
Os impulsos nervosos parassimpáticos chegam ao coração por meio
dos nervos vagos (NC X) direito e esquerdo. Os axônios vagais
terminam no nó SA, no nó AV e no miocárdio atrial. Eles liberam
acetilcolina, o que reduz a frequência cardíaca, diminuindo a velocidade
de despolarização espontânea das fibras autorrítmicas. Dado que
apenas algumas fibras vagais inervam o músculo ventricular, as
alterações na atividade parassimpática pouco influenciam a
contratilidade dos ventrículos (TORTORA, 14ª ed.).
Existe um equilíbrio que flutua continuamente entre a estimulação
simpática e a estimulação parassimpática do coração. Em repouso, a
estimulação parassimpática predomina. A frequência cardíaca de
repouso – de aproximadamente 75 bpm – geralmente é menor do
que a frequência autorrítmica do nó SA (cerca de 100 bpm). Com a
estimulação máxima pela parte parassimpática, o coração pode
desacelerar para 20 ou 30 bpm, ou pode até mesmo parar
momentaneamente (TORTORA, 14ª ed.).
Regulação química
↠ Determinados produtos químicos influenciam a
fisiologia de base do músculo cardíaco e a frequência
cardíaca (TORTORA, 14ª ed.).
SISTEMA RENINA-ANGIOTENSINA-ALDOSTERONA
↠ Mecanismo de controle da pressão que age após
vários minutos (GUYTON, 13ª ed.).
↠ A renina é uma enzima proteica liberada pelos rins
quando a pressão arterial cai para níveis muito baixos. Sua
resposta consiste em elevar a pressão arterial de diversos
modos, contribuindo para a correção da queda inicial da
pressão. (GUYTON &HALL, 13ª ed.)
↠ A renina é sintetizada e armazenada em forma inativa
chamada pró-renina nas células justaglomerulares (células
JG) dos rins. (GUYTON & HALL, 13ª ed.)
➢ Quando a pressão arterial cai, reações
intrínsecas dos rins fazem com que muitas das
moléculas de pró-renina nas células JG sejam
clivadas, liberando renina. (GUYTON & HALL, 13ª
ed.)
14
Júlia Morbeck – @med.morbeck
➢ A renina é uma enzima e age enzimaticamente
sobre outra proteína plasmática, a globulina
referida como substrato de renina (ou
angiotensinogênio), liberando peptídeo com 10
aminoácidos, a angiotensina I. (GUYTON & HALL,
13ª ed.)
➢ A angiotensina I tem ligeiras propriedades
vasoconstritoras, mas não suficientes para
causar alterações significativas na função
circulatória. (GUYTON & HALL, 13ª ed.)
➢ Alguns segundos após a formação de
angiotensina I, dois aminoácidos adicionais são
removidos da angiotensina I, formando o
peptídeo de oito aminoácidos angiotensina II.
Essa conversão ocorre, em grande parte, nos
pulmões, enquanto o sangue flui por seus
pequenos vasos catalisados pela enzima
conversora de angiotensina (ECA) presente no
endotélio dos vasos pulmonares. (GUYTON &
HALL, 13ª ed.)
➢ A angiotensina II é vasoconstritor extremamente
potente, e ela afeta a função circulatória por
outros modos. Entretanto, ela persiste no sangue
por apenas 1 ou 2 minutos por ser rapidamente
inativada por múltiplas enzimas sanguíneas e
teciduais, coletivamente chamadas de
angiotensinases. (GUYTON & HALL, 13ª ed.)
↠ A angiotensina II exerce dois efeitos principais capazes
de aumentar a pressão arterial:
➢ Vasoconstrição em muitas áreas do corpo,
ocorre com muita rapidez. A vasoconstrição se
dá, de modo muito intenso, nas arteríolas e com
intensidade muito menor nas veias. A constrição
das arteríolas aumenta a resistência periférica
total, elevando, dessa forma, a pressão arterial.
Além disso, a leve constrição das veias promove
o aumento do retorno venoso do sangue para
o coração, contribuindo para o maior
bombeamento cardíaco contra a pressão
elevada. (GUYTON & HALL, 13ª ed.)
➢ Diminuição da excreção de sal e de água pelos
rins: essa ação eleva lentamente o volume do
líquido extracelular, o que aumenta a pressão
arterial durante as horas e dias subsequentes.
(GUYTON & HALL, 13ª ed.)
Epinefrina e norepinefrina
↠ Em resposta à estimulação simpática, a medula da
glândula suprarrenal libera epinefrina e norepinefrina.
Esses hormônios aumentam o débito cardíaco ao
elevarem a velocidade e força das contrações cardíacas.
Também causam constrição das arteríolas e veias na pele
e órgãos abdominais e dilatação das arteríolas no músculo
cardíaco e esquelético, o que ajuda a aumentar o fluxo
sanguíneo para o músculo durante o exercício.
(TORTORA, 14ª ed.)
HORMÔNIO ANTIDIURÉTICO (HAD)
↠ O hormônio antidiurético (HAD) é produzido pelo
hipotálamo e liberado pela neuro-hipófise em resposta à
desidratação ou à diminuição no volume sanguíneo. Entre
outras ações, o HAD causa vasoconstrição, o que
aumenta a pressão arterial. Por isso, o HAD é também
chamado vasopressina. O HAD também promove o
deslocamento de água do lúmen dos túbulos renais para
a corrente sanguínea. Isso resulta em aumento no volume
sanguíneo e diminuição na produção de urina.
(TORTORA, 14ª ed.)
PEPTÍDIO NATRIURÉTICO ATRIAL (PNA)
↠ Liberado pelas células do átrio do coração, o PNA
reduz a pressão arterial ao causar vasodilatação e
promover a perda de sal e água na urina, o que reduz o
volume sanguíneo. (TORTORA, 14ª ed.).
Outros fatores
CÁTIONS
↠ Dado que as diferenças entre as concentrações
intracelulares e extracelulares de vários cátions (p. ex., Na+
e K+) são cruciais para a produção de potenciais de ação
em todas as fibras nervosas e musculares, não é de se
estranhar que os desequilíbrios iônicos possam
comprometer rapidamente a efetividade do
bombeamento cardíaco (TORTORA, 14ª ed.).
↠ As concentrações relativas de três cátions – K+, Ca2+
e Na+ – exercem efeito acentuado na função cardíaca.
Níveis sanguíneos elevados de K+ ou Na+ diminuem a
frequência e a contratilidade cardíaca. O excesso de Na+
bloqueia o influxo de Ca2+ durante potenciais de ação
cardíacos, diminuindo assim a força de contração,
enquanto o excesso de K+ bloqueia a produção de
potenciais de ação. Um aumento moderado do nível
intersticial (e, portanto, intracelular) de Ca2+ acelera a
15
Júlia Morbeck – @med.morbeck
frequência cardíaca e fortalece as contrações cardíacas
(TORTORA, 14ª ed.).
A idade, o sexo, a condição física e a temperatura corporal também
influenciam na frequência cardíaca de repouso (TORTORA, 14ª ed.).
O aumento da temperatura corporal, como ocorre durante a febre
ou os exercícios extenuantes, faz com que o nó SA libere impulsos
mais rapidamente, aumentando assim a frequência cardíaca. A
diminuição da temperatura corporal reduz a frequência e a força de
contração cardíacas (TORTORA, 14ª ed.).
Referências
SILVERTHORN, Dee U. Fisiologia Humana. Disponível em:
Minha Biblioteca, (7th edição). Grupo A, 2017.
BERNE & LEVY. Fisiologia, 6ª ed. Elsevier Editora, SP, 2009.
GUYTON & HALL. Tratado de Fisiologia Médica, 13ª ed.
Editora Elsevier Ltda., 2017.
MARIEB, E. N.; HOEHN, K. Anatomia e Fisiologia, 3ª ed.,
Porto Alegra: Artmed, 2008.
TORTORA. Princípios de Anatomia e Fisiologia. Disponível
em: Minha Biblioteca, (14th edição). Grupo GEN, 2016.
1
Júlia Morbeck – @med.morbeck
Objetivos
1- Debater sobre a fisiopatologia, epidemiologia,
manifestações clínicas, etiologia e fatores de
risco da HAS;
2- Compreender como é feito o diagnóstico,
tratamento e prevenção da HAS.
IMPORTANTE
A pressão arterial deve ser cuidadosamente regulada ao longo do
corpo, para assegurar a perfusão adequada dos tecidos corporais e
prevenir a lesão dos vasos sanguíneos (PORTH, 10ª ed.).
Com uma pressão arterial muito baixa, o fluxo sanguíneo para os
tecidos é insuficiente para assegurar o suprimento de nutrientes e
oxigênio, bem como para remover os produtos residuais celulares. Isso
gera o risco de lesão celular hipóxica-isquêmica e possível morte
celular (PORTH, 10ª ed.).
Contrariamente, as pressões elevadas no interior dos vasos sanguíneos
podem facilmente lesionar o delicado tecido endotelial, o que aumenta
a probabilidade tanto de doença vascular aterosclerótica quanto de
ruptura vascular. Outra consequência séria é a possibilidade de os
próprios órgãos perfundidos serem gravemente lesionados pela
pressão arterial elevada (PORTH, 10ª ed.).
PA = DC x RVP
Diante disso, mecanismos patogênicos devem envolver:
➢ DC aumentado;
➢ RVP aumentada;
➢ Ambos.
Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS)
Definição da HAS
↠ A hipertensão arterial (HA) é uma doença crônica não
transmissível (DCNT) definida por níveis pressóricos, em
que os benefícios do tratamento (não medicamentoso e/
ou medicamentoso) superam os riscos (DIRETRIZ, 2020).
↠ Trata-se de uma condição multifatorial, que depende
de fatores genéticos/epigenéticos, ambientais e sociais,
caracterizada por elevação persistente da pressão arterial
(PA), ou seja, PA sistólica (PAS) maior ou igual a 140
mmHg e/ou PA diastólica (PAD) maior ou igual a 90
mmHg, medida com a técnica correta, em pelo menos
duas ocasiões diferentes, na ausência de medicação anti-
hipertensiva (DIRETRIZ, 2020).
↠ A hipertensão é um fator de risco primário para
doenças cardiovasculares e uma causa líder de morbidade
e mortalidade em todo o mundo (PORTH, 10ª ed.).
OBS.: Por se tratar de condição frequentemente assintomática, a HA
costuma evoluir com alterações estruturais e/ou funcionais em órgãos-
alvo, como coração, cérebro, rins e vasos. Ela é o principal fator de
risco modificável com associação independente, linear e contínua para
doençascardiovasculares (DCV), doença renal crônica (DRC) e morte
prematura (DIRETRIZ, 2020).
Além disso, apresenta impacto significativo nos custos médicos e
socioeconômicos, decorrentes das complicações nos órgãos-alvo,
fatais e não fatais, como: (DIRETRIZ, 2020).
➢ coração: doença arterial coronária (DAC), insuficiência
cardíaca (IC), fibrilação atrial (FA) e morte súbita;
➢ cérebro: acidente vascular encefálico (AVE) isquêmico
(AVEI) ou hemorrágico (AVEH), demência;
➢ rins: DRC que pode evoluir para necessidade de terapia
dialítica.
Recentemente, o papel da imunidade/inflamação foi acrescentado aos
demais mecanismos envolvidos na fisiopatologia da HAS primária. A
inflamação “de baixo grau”, ou inflamação subc línica, é atualmente uma
característica reconhecida de HAS, aterosclerose e obesidade. A
proteína C--reativa ultrassensível (PCRus) encontra-se aumentada em
pacientes hipertensos, de forma contínua e gradual aos valores de PA
(SOCESP, 4ª ed.).
Etiologia da HAS
↠ A hipertensão é amplamente classificada, com base na
etiologia, como hipertensão primária (essencial) ou
hipertensão secundária (PORTH, 10ª ed.).
HIPERTENSÃO PRIMÁRIA
↠ A hipertensão primária (essencial) se refere à
presença clínica de hipertensão sem evidências de uma
condição clínica causal específica. Tanto os fatores não
modificáveis quanto aqueles relacionados ao estilo de vida
são implicados, seja isolada ou coletivamente, como
fatores de contribuição para o desenvolvimento da
hipertensão primária (PORTH, 10ª ed.).
APG 02: HIPERTENSÃO ARTERIAL SISTÊMICA (HAS)
2
Júlia Morbeck – @med.morbeck
FATORES DE RISCO NÃO MODIFICÁVEIS DA HIPERTENSÃO
PRIMÁRIA
↠ Os fatores de risco de hipertensão primária incluem
fatores não modificáveis, como idade, sexo, raça, histórico
familiar e genética (PORTH, 10ª ed.).
IDADE
↠ A hipertensão primária é mais comum em adultos do
que em crianças. Historicamente, a hipertensão em
crianças é mais provavelmente secundária, muitas vezes
em consequência de distúrbios cardíacos congênitos ou
doença renal (PORTH, 10ª ed.).
OBS.: Entretanto, a incidência de hipertensão primária em crianças e
adolescentes está aumentado, acompanhando o aumento da incidência
de obesidade e diabetes melito tipo 2 em crianças (PORTH, 10ª ed.).
↠ Na fase adulta, a probabilidade de hipertensão aumenta
com o avanço da idade, assim como aumenta a
probabilidade de morbidades cardiovasculares associadas
à hipertensão (PORTH, 10ª ed.).
↠ A elevação da pressão arterial com o envelhecimento
está relacionada a um enrijecimento das paredes arteriais,
que afeta a pressão sistólica em particular. Evidências mais
recentes também indicam que a capacidade renal de excreção do
sódio diminui com a idade, e a retenção de sódio também contribui
para a hipertensão (PORTH, 10ª ed.).
Em torno de 65% dos indivíduos acima dos 60 anos apresentam HA,
e deve-se considerar a transição epidemiológica que o Brasil vem
sofrendo, com um número ainda maior de idosos (= 60 anos) nas
próximas décadas, o que acarretará um incremento substancial da
prevalência de HA e de suas complicações (DIRETRIZ, 2020).
SEXO
↠ Em faixas etárias mais jovens, a PA é mais elevada
entre homens, mas a elevação pressórica por década se
apresenta maior nas mulheres (DIRETRIZ, 2020).
Assim, na sexta década de vida, a PA entre as mulheres costuma ser
mais elevada e a prevalência de HA, maior. Em ambos os sexos, a
frequência de HA aumenta com a idade, alcançando 61,5% e 68,0%
na faixa etária de 65 anos ou mais, em homens e mulheres,
respectivamente (DIRETRIZ, 2020).
ETNIA
↠ A etnia é um fator de risco importante para a HA, mas
condições socioeconômicas e de hábitos de vida parecem
ser fatores mais relevantes para as diferenças na
prevalência da HA do que a implicação étnica
propriamente dita (DIRETRIZ, 2020).
↠ Em comparação a outros grupos étnicos nos EUA, a
hipertensão é mais prevalente e mais grave em
afrodescendentes (PORTH, 10ª ed.).
↠ Estudos comparativos entre populações também
indicam que afrodescendentes tendem a desenvolver
hipertensão em uma idade menos avançada do que as
demais populações. Os fatores responsáveis por essas
diferenças podem incluir aumento da sensibilidade ao sal,
aumento dos níveis de obesidade e fatores genéticos
(PORTH, 10ª ed.).
IMPORTANTE: Dados do Vigitel 2018 mostraram que, em nosso país, não
houve uma diferença significativa entre negros e brancos no que diz
respeito à prevalência de HA (24,9% versus 24,2%) (DIRETRIZ, 2020).
HISTÓRICO FAMILIAR E GENÉTICA
↠ A hipertensão é observada com mais frequência entre
pessoas com histórico familiar de pressão arterial alta.
Acredita-se que a contribuição genética para a
hipertensão possa se aproximar dos 50%. Embora os
geneticistas tenham identificado muitos loci genéticos associados à
hipertensão, nenhum deles é responsável por uma grande proporção
da incidência de hipertensão (PORTH, 10ª ed.).
Pesquisadores estão explorando como os efeitos epigenéticos
relacionados à metilação do DNA podem influenciar a incidência e a
gravidade da hipertensão. Também é importante observar que o
ambiente interage com a genética, conforme evidenciado por muitos
distúrbios sem um locus genético comumente identificado e que, ainda
assim, tendem a recidivar nas famílias (PORTH, 10ª ed.).
Outra possibilidade é que a influência genética sobre a hipertensão seja
mediada por uma via de patogênese comum com outros distúrbios.
Por exemplo, a hipertensão é um componente da síndrome
metabólica associada ao diabetes tipo 2, e algumas evidências
científicas iniciais identificaram que os genes selecionados reguladores
do metabolismo lipídico podem ter uma ligação genética comum com
a síndrome metabólica (PORTH, 10ª ed.).
FATORES DE RISCO MODIFICÁVEIS DA HIPERTENSÃO
PRIMÁRIA
↠ Também foram identificados fatores de risco
modificáveis da hipertensão primária, incluindo dieta, níveis
de lipídios séricos, consumo de tabaco e álcool, nível de
condicionamento físico e atividades, sobrepeso/obesidade
e controle glicêmico no diabetes melito (PORTH, 10ª ed.).
OBS.: As vias fisiopatológicas que podem ser fatores de contribuição
comuns entre esses aspectos do estilo de vida incluem perturbações
no sistema renina-angiotensina-aldosterona, alterações dos
mecanismos dos peptídios natriuréticos, ativação do SNS e alteração
da função das células endoteliais (PORTH, 10ª ed.).
3
Júlia Morbeck – @med.morbeck
INGESTÃO DE SÓDIO E POTÁSSIO
↠ A ingestão elevada de sódio tem-se mostrado um
fator de risco para a elevação da PA, e
consequentemente, da maior prevalência de HA. A literatura
científica mostra que a ingestão de sódio está associada a DCV e AVE,
quando a ingestão média é superior a 2 g de sódio, o equivalente a 5
g de sal de cozinha (DIRETRIZ, 2020).
OBS.: O consumo excessivo de sódio é um dos principais fatores de
risco modificáveis para a prevenção e o controle da HA e das DCV
(DIRETRIZ, 2020).
↠ De maneira inversa, o aumento na ingestão de
potássio reduz os níveis pressóricos. Deve ser salientado
que o efeito da suplementação de potássio parece ser
maior naqueles com ingestão elevada de sódio e entre
os indivíduos da raça negra (DIRETRIZ, 2020).
A ingestão média de sal no Brasil é de 9,3 g/dia (9,63 g/dia para
homens e 9,08 g/dia para mulheres), enquanto a de potássio é de 2,7
g/dia para homens e 2,1 g/dia para mulheres (DIRETRIZ, 2020).
DISLIPIDEMIA
↠ A dislipidemia contribui para o aumento do risco de
hipertensão. Acredita-se que esse efeito seja em grande
parte mediado pela associação entre os lipídios no sangue
e a aterosclerose (PORTH, 10ª ed.).
↠ As placas ateroscleróticas no interior das artérias
aumentam a resistência ao fluxo sanguíneo por esses
vasos, o que contribui para a elevação da pressão arterial
para superar o aumento da resistência (PORTH, 10ªed.).
↠ A associação ao risco aumentado de hipertensão se
dá com presença de níveis mais altos de colesterol,
triglicerídios e LDL entre os lipídios sanguíneos;
entretanto, níveis baixos de HDL estão associados a um
risco maior de hipertensão (PORTH, 10ª ed.).
OBS.: A ingestão alimentar de gorduras e colesterol também é um
fator que contribui para a hipertensão, em parte porque a ingestão
alimentar de gorduras contribui para o desenvolvimento de dislipidemia
(PORTH, 10ª ed.).
TABACO
↠ Há muito tempo observa-se que o tabagismo está
associado ao desenvolvimento de hipertensão; contudo,
as conexões causais ainda não foram claramente
identificadas (PORTH, 10ª ed.).
↠ Teorias atuais propõem que o mecanismo causal pode
envolver alterações inflamatórias relacionadas às toxinas
químicas do tabaco que contribuem para o
desenvolvimento da aterosclerose subclínica. Essa
conexão patogenética entre o tabaco e a hipertensão
também pode se estender para outros tipos de consumo
de tabaco, além do consumo de cigarros (PORTH, 10ª ed.).
CONSUMO DE ÁLCOOL
↠ O impacto da ingestão de álcool foi avaliado em
diversos estudos epidemiológicos. Há maior prevalência de
HA ou elevação dos níveis pressóricos naqueles que
ingeriam seis ou mais doses ao dia, o equivalente a 30 g
de álcool/dia = 1 garrafa de cerveja (5% de álcool, 600
mL); = 2 taças de vinho (12% de álcool, 250 mL); = 1
dose (42% de álcool, 60 mL) de destilados (uísque, vodca,
aguardente). Esse limite deve ser reduzido à metade para
homens de baixo peso e mulheres (DIRETRIZ, 2020).
SOBREPESO/OBESIDADE
↠ Parece haver uma relação direta, contínua e quase
linear entre o excesso de peso (sobrepeso/obesidade) e
os níveis de PA (DIRETRIZ, 2020).
OBS.: Apesar de décadas de evidências inequívocas de que a
circunferência de cintura (CC) fornece informações independentes e
aditivas ao índice de massa corpórea (IMC) para predizer morbidade e
risco de morte, tal medida não é rotineiramente realizada na prática
clínica. Recomenda-se que os profissionais de saúde sejam treinados
para realizar adequadamente essa simples medida e considerá-la como
um importante “sinal vital” na prática clínica (DIRETRIZ, 2020).
Evidências recentes indicam que a leptina, um hormônio derivado dos
adipócitos, pode representar uma ligação entre a adiposidade e o
aumento da atividade simpática cardiovascular. Além do seu efeito
sobre o apetite e o metabolismo, a leptina atua sobre o hipotálamo e
aumenta a pressão arterial por meio da ativação do SNS. Níveis altos
de ácidos graxos livres circulantes em pessoas obesas aparentemente
também participam na ativação do SNS (PORTH, 10ª ed.).
SEDENTARISMO
↠ Há uma associação direta entre sedentarismo,
elevação da PA e da HA. Chama a atenção que, em 2018,
globalmente, a falta de atividade física (menos de 150
minutos de atividade física por semana ou 75 minutos de
atividade vigorosa por semana) era de 27,5%, com maior
prevalência entre as mulheres (31,7%) do que nos
homens (23,4%) (DIRETRIZ, 2020).
↠ No Brasil, o inquérito telefônico Vigitel de 2019
identificou que 44,8% dos adultos não alcançaram um
nível suficiente de prática de atividade física, sendo esse
percentual maior entre mulheres (52,2%) do que entre
homens (36,1%) (DIRETRIZ, 2020).
4
Júlia Morbeck – @med.morbeck
APNEIA OBSTRUTIVA DO SONO (AOS)
↠ A apneia obstrutiva do sono tem sido ligada
diretamente à hipertensão. Acredita-se que o mecanismo
causal envolva, em parte, a perturbação do sono, a qual
interfere na “queda” circadiana noturna normal da pressão
arterial. Essa “queda” noturna está associada a níveis de
pressão arterial mais baixos. Interrupções repetitivas do
sono e diminuição da duração ou da qualidade do sono
estão associadas a uma menor “queda” noturna da
pressão arterial (PORTH, 10ª ed.).
HIPERTENSÃO SECUNDÁRIA
↠ É a elevação da pressão arterial em consequência de
outra condição patológica. Contrariamente à hipertensão
primária, muitas condições causadoras de hipertensão
secundária podem ser corrigidas por cirurgia ou
tratamento clínico específico (PORTH, 10ª ed.).
↠ A hipertensão secundária tende a ser observada em
pessoas com menos de 30 e mais de 50 anos de idade
(PORTH, 10ª ed.).
Cocaína, anfetaminas e outras drogas ilícitas podem causar hipertensão
significativa, assim como os agentes simpaticomiméticos
(descongestionantes, anorexígenos), a eritropoetina e o alcaçuz
(incluindo alguns tipos de tabaco para mascar contendo alcaçuz como
um dos ingredientes) (PORTH, 10ª ed.).
↠ Entre as causas mais comuns de hipertensão, estão a
doença renal (i. e., hipertensão renovascular), os distúrbios
dos hormônios corticais suprarrenais, o feocromocitoma,
a coarctação da aorta e o uso de anticoncepcionais orais
(PORTH, 10ª ed.).
HIPERTENSÃO RENAL
↠ Com o papel dominante assumido pelo rim na
regulação da pressão arterial, não surpreende que a
maior causa isolada de hipertensão secundária seja a
doença renal (PORTH, 10ª ed.).
↠ A hipertensão renovascular se refere à hipertensão
causada pela redução do fluxo sanguíneo renal e pela
ativação do mecanismo da renina-angiotensina-
aldosterona. É a causa mais comum de hipertensão
secundária, sendo responsável por 1 a 2% de todos os
casos de hipertensão (PORTH, 10ª ed.).
↠ Como consequência da diminuição do fluxo sanguíneo
renal observada com a doença renovascular, o rim
afetado libera quantidades excessivas de renina,
aumentando os níveis circulantes de angiotensina II. A
angiotensina II, por sua vez, atua como um vasoconstritor
para o aumento da RVP, e como um estímulo para o
aumento dos níveis de aldosterona e da retenção de
sódio pelo rim. Um ou ambos os rins podem estar
afetados. Com o envolvimento da artéria renal de um dos
rins, o rim não afetado fica sujeito aos efeitos deletérios
da elevação da pressão arterial (PORTH, 10ª ed.).
DISTÚRBIOS DOS HORMÔNIOS ADRENOCORTICAIS
↠ O aumento dos níveis de hormônios adrenocorticais
também pode ocasionar a hipertensão, em consequência
da retenção renal de sal e água induzida por hormônios
(PORTH, 10ª ed.).
↠ O hiperaldosteronismo primário (produção excessiva
de aldosterona resultante de hiperplasia adrenocortical ou
adenoma) e níveis excessivos de glicocorticoides (doença
ou síndrome de Cushing) tendem a elevar a pressão
arterial (PORTH, 10ª ed.).
Feocromocitoma
↠ O feocromocitoma é um tumor do tecido cromafínico,
o qual contém células nervosas simpáticas que são
coradas com sais de cromo e liberam catecolaminas. O
tumor está mais comumente localizado na medula da
suprarrenal, mas pode surgir em outros locais, como os
gânglios simpáticos, onde existe tecido cromafínico.
Embora seja rara, a presença de um feocromocitoma
pode causar crises hipertensivas sérias (PORTH, 10ª ed.).
COARCTAÇÃO DA AORTA
↠ A coarctação da aorta é uma condição congênita
envolvendo um estreitamento na área do arco aórtico. O
estreitamento aórtico aumenta a resistência ao fluxo
sanguíneo e isso eleva a pressão no ventrículo esquerdo,
em uma tentativa de superar a resistência (PORTH, 10ª
ed.).
↠ Como as artérias subclávias tipicamente têm origem
acima do ponto de estreitamento, o resultado é o
desenvolvimento de hipertensão nos membros
superiores e uma pressão arterial normal ou baixa nos
membros inferiores. A coarctação pode ser reparada
cirurgicamente, com o objetivo de remover a restrição
ao fluxo pela aorta e normalizar a pressão arterial (PORTH,
10ª ed.).
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Júlia Morbeck – @med.morbeck
Anticoncepcionais orais
↠ O uso de anticoncepcionais orais é uma causa comum
de hipertensão secundária em mulheres jovens. A causa
do aumento da pressão arterial não está muito clara,
embora haja indícios de que a causa provável seja a
expansão do volume, uma vez que tanto os estrogênios
quanto as progesteronas sintéticas