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Prof. Dr. Milton Junior UNIDADE I Língua e Cultura Latinas Não se sabe ao certo quando surgiram os primeiros vocábulos em latim; costumeiramente, diz-se que no ano 753 a.C. Roma foi fundada. Contudo, assim como uma cidade, uma língua não se solidifica rapidamente. O latim, bem como boa parte dos idiomas falados na Europa e na Ásia, é vinculado ao indo- europeu, idioma hipotético que evoluiu por meio de sucessivas trocas, dando origem a um grande número de troncos linguísticos. Surgimento e ascensão do latim ATLANTIC SEA EUROPE BALKANS AFRICA ARABIA ANATOLIA IRAN INDIA UKRAINE CENTRAL ASIA SIBERIA Fonte: https://i.pinimg.com/736x/4e/da/b4/4edab40ec00cef3a8a7db12825791e65.jpg Em Eneida, Virgílio conta que os latinos foram surpreendidos pela chegada de uma tropa, guiada pelo herói Eneias, que adentrou às terras latinas. Eram os troianos que fugiram da lendária cidade de Troia, que foi destruída pelos gregos. Os latinos, apesar de alguns contratempos, admiraram a força e a história dos guerreiros troianos, acolhendo-os e oferecendo-lhes mais do que terras, mas a própria filha do rei, Lavínia, para ser esposa do líder Eneias. “Latinus” unificou muitas tribos I O casamento entre Eneias e Lavínia é o símbolo da fusão entre os povos latino e troiano. É desta união que surge a prole fundadora da lendária cidade de Alba Longa e, por fim, da cidade de Roma, por volta de 753 a.C., tendo Romulus como o primeiro rei da histórica cidade romana. Desde o período anterior à chegada dos troianos até após a fundação de Roma, a língua permanecente foi o que conhecemos por Prisca Latinitas, “latim primitivo ou antigo”. “Latinus” unificou muitas tribos II Segundo a classificação de Isidóro de Sevilha, o latim pode ser dividido em quatro classes – Latinas autem linguas quattuor esse quidam dixerunt: Prisca – Latim do período dos primeiros reis do Lácio (Juno e Saturno) ao período das Carmen Saliare (hinos sacerdotais). Latina – Período em que a região do Latium estruturava-se a partir da Lei das Doze Tábuas, “Lex Duodecim Tabularum” (base do direito romano). Romana – Período do latim clássico. Mixta – Uma “mistura entre latim clássico e latim vulgar”. “Latinus” unificou muitas tribos III O latim, como língua falada, tem sua origem na Península Itálica, possivelmente, por volta do primeiro milênio antes de Cristo. Segundo Hauy (2008, p. 24), “era a língua de um povo de costumes simples e rudes que habitava o Lácio, região da Itália Central”. Surgimento do latim Fonte: Adaptado de: https://es.vexels.com/ vectores/vista- previa/114125/mapa- de-italia Os aspectos sintáticos dessa língua evidenciam semelhanças gramaticais com outros idiomas adjacentes, como o osco e o úmbrio, que, assim como o latim, são provenientes do tronco linguístico itálico. Outra evidência histórica importante é o fato de o latim ter suplantado essas línguas ainda na Antiguidade, graças à expansão de suas fronteiras, não só geográficas, mas também linguísticas. Quantidade vocálica e acento tônico Fonte: https://www.unonotizie.it/immagini/regione-lazio1.jpg Devido aos interesses militares e econômicos dos romanos, uma ampla faixa territorial foi tomada por eles, incluindo quase a totalidade do continente europeu e parte da Ásia e da África. Romanização do mundo antigo Fonte: https://cdn.civitatis.com/italia/roma/galeria/mapa- imperio-romano.jpg O Império Romano Essas regiões, que passavam a ser colonizadas, tinham, obviamente, seus habitantes e suas próprias línguas, porém, a forma de dominação implementada por Roma não era somente militar, mas, principalmente, cultural e linguística, o que acarretava o desaparecimento gradativo das línguas faladas nessas localidades, bem como as transformações do latim. Romanização do mundo antigo Durante sua evolução, o latim se desenvolveu em várias vertentes, tanto no que diz respeito a variantes escritas quanto a modalidades faladas. Como importantes exemplos dessas variedades, podemos citar: o latim arcaico ligado à tradição oral; o latim clássico (sermo urbanus), mais utilizado na escrita após contato com a civilização grega e mais avançada que os romanos no momento da dominação; o latim vulgar (sermo vulgaris), o baixo latim é a língua oral e popular; o latim eclesiástico, que passou a ser usado nos mosteiros, uma variação do clássico; o latim bárbaro, fruto das invasões e da interconexão com outros povos. Vertentes ou variações do latim Também conhecido como latim primitivo ou antigo. Era a língua falada na região, aproximadamente no primeiro milênio antes de Cristo; mesmo sendo uma língua tradicionalmente oral, foram deixados alguns escritos. Estes escritos sobreviveram por meio do alfabeto etrusco, chegando até nosso conhecimento. Com o passar do tempo, como toda língua, sofre variação à medida que o Império expandia seus domínios. Latim arcaico Também conhecido como sermo urbanus. Era a língua predominantemente utilizada na escrita, por isso foi considerada uma modalidade de língua utilizada nas camadas mais nobres e altas da aristocracia romana. Utilizada amplamente por artistas, oradores, poetas e políticos romanos. Por ser utilizada pela aristocracia, é a língua ou a vertente mais conhecida e preservada das alterações; pelo fato de ser grafada, há muitos registros para estudo. Latim clássico Também conhecido por sermo vulgaris. Era a língua de uso cotidiano, oral e popular; como toda língua do dia a dia, sofreu muitas alterações, criou-se variações diversas – fonológicas, morfológicas e sintáticas, o que levou ao surgimento e à transformação de novas línguas. Era a língua levada pelas legiões romanas às terras conquistadas, impostas aos dominados para a comunicação com o colonizador. Isso propiciou a transformação linguística do sermo vulgaris e, com o passar do tempo, as transformações se tornaram profundas, o que levou ao surgimento de novas línguas. Latim vulgar Após Cristo e a fundação da Igreja Católica Romana, o latim tornou-se a língua oficial da Igreja de Roma com duplo propósito: manter proximidade com o Império e sua nobreza etc. e torná-la a língua oficial por todo o seu território/domínio. Em muitas regiões dominadas, falavam-se outras línguas e poderia não haver algum idioma correspondente para os termos religiosos. Dessa maneira, a fixação do latim como língua oficial eclesiástica propiciou a difusão do latim, tanto que, já no terceiro século d.C., o latim passa a ser a língua mais utilizada e perdura por aproximadamente 10 séculos. Latim eclesiástico Os romanos denominavam “bárbaros” os invasores estrangeiros. As invasões bárbaras ocorreram por volta do século IV d.C. pelos povos germânicos. O termo bárbaro tem origem grega e diz respeito, de forma abrangente, a toda pessoa que não tinha, ou não queria, a capacidade de assimilar a língua e os costumes romanos. O contato com os bárbaros teve grande influência na formação étnica, política, econômica e linguística do mundo ocidental. Bárbaros eram germânicos, hunos, visigodos, suevos, vândalos, francos, entre outros. Latim bárbaro O maior e mais longevo Império ocidental. Sob o domínio do Império Romano, viviam entre 50 e 60 milhões de habitantes. Economicamente comercial, os povos conquistados ficavam sob o jugo (escravizados) de Roma. O controle se dava pela força e imposição da língua. Com o passar do tempo, houve divisões no Império, como também invasões bárbaras, o que levou a transformações étnicas, econômicas e linguísticas, dando origem a diversas línguas/povos do mundo ocidental. Império Romano e a romanização Durante o processo de romanização, eram introduzidos elementos socioculturais desconhecidos pelos povos dominados: [...] o direito romano; a língua latina; a organização militar, civil e política;que eram assimilados conforme a estratégia de colonização aplicada a cada localidade, visando à manutenção e integridade do Império (Aréan-Garcia, 2009, p. 27). O sucesso dessas conquistas duradouras ocorreu graças à forma de administração romana das províncias anexadas, o que, inevitavelmente, envolvia uma questão linguística. Romanização I O latim prevalecia por vastas regiões, todavia, foi sendo desmembrado em vários dialetos, até chegar o momento em que não era mais possível dizer que tais dialetos fossem o latim, ainda que muito próximos. Com o passar do tempo, os dialetos tornaram-se línguas nacionais, sendo estruturadas e se fortalecendo por meio da literatura que surgia. Tais dialetos originaram línguas modernas: português, espanhol, basco, catalão, italiano, galego, romeno, francês, aranês, provençal. Algumas obras criadas: Os Lusíadas, Dom Quixote,Cronicões. Romanização II Proveniente do indo-europeu, ramo itálico. População de Roma, no Lácio. Prevaleceu sobre o osco e o úmbrio (do mesmo ramo itálico), sobre o etrusco ao norte e sobre o grego ao sul da Península Itálica. Difusão no mundo antigo por meio das conquistas e do desenvolvimento do Império Romano. Outros grupos linguísticos do indo-europeu: indo-iraniano (sânscrito, persa, iraniano etc.), helênico (grego), céltico (gaulês), germânico (alemão, inglês, holandês, dinamarquês etc.), eslavo (russo, polonês, tcheco, búlgaro, macedônio etc.). Generalidades sobre a língua latina Assinale a alternativa correta no que diz respeito à pronúncia latina que mais utilizamos e usamos: a) A pronúncia da Igreja. b) A pronúncia da Igreja com influência do italiano. c) A reconstituída da literatura clássica. d) A reconstituída e adaptada. e) A simplificada e adaptada. Interatividade Assinale a alternativa correta no que diz respeito à pronúncia latina que mais utilizamos e usamos: a) A pronúncia da Igreja. b) A pronúncia da Igreja com influência do italiano. c) A reconstituída da literatura clássica. d) A reconstituída e adaptada. e) A simplificada e adaptada. Resposta Pré-literária – desse período há algumas inscrições como testemunho. Arcaica (entre o séc. III a.C. e o início do séc. I a.C.) – inscrições tumulares, textos legais e literários de Névio, Plauto, Terêncio e Catão. Clássica (entre o início do Império Romano no século I a.C. e o início do século. I d.C.) – alguns estudiosos consideram que essa é a “época de ouro” da língua latina, pois houve o nascimento de vários escritores, que, posteriormente, teriam uma influência muito grande sobre a literatura ocidental, como Catulo, Lucrécio, Cícero, César, Virgílio, Horácio, Tíbulo, Tito Lívio etc. Fases do latim O latim presente nas obras de Cícero e César é considerado modelo de correção e pureza. Pós-clássica (a partir da nossa era) – esse período também possui escritores muito importantes, como Sêneca, Lucano, Petrônio, Quintiliano, Tácito, Marcial, Juvenal, entre outros. Cristã (a partir do século III d.C.) – Santo Agostinho, São Jerônimo, entre outros. Fases do latim No Período Clássico, havia 21 letras (A B C D E F G H I K L M N O P Q R S T V X). Não há v (vida) nem j (já). V tinha o valor fonêmico de /u/ e /w/. No séc. XVI, os dicionários adotaram v e j (letras ramistas). As letras y e z foram acrescentadas no final do séc. I a.C., para a transcrição das palavras gregas. Pronúncia: da Igreja, do séc. V e VI da nossa era, com influência do italiano; simplificada e adaptada ao português; reconstituída, da literatura clássica latina. Alfabeto e pronúncia Quantidade vocálica do latim: vogal longa (dois tempos): ā, ē, ī, ō, ū; vogal breve (um tempo): ă, ĕ, ĭ, ŏ, ŭ. Acento tônico: no latim, não há oxítonas; será paroxítona se a penúltima vogal for longa; será proparoxítona se a penúltima vogal for breve. Quantidade vocálica e acento tônico Não há artigo. A posição da palavra na frase não define sua função. Nomes flexionados (substantivo, pronome, adjetivo). Verbos flexionados (indicativo, subjuntivo, imperativo). Número (singular e plural). Gênero (masculino, feminino e neutro). Características O latim é, segundo uma classificação estabelecida no século XIX, uma língua natural, flexiva e sintética. Natural porque se originou, se formou e evoluiu naturalmente em oposição a línguas artificiais, como o esperanto. Flexiva porque apresenta o fenômeno pelo qual boa parte de suas palavras mudam de forma (ou na raiz ou nas desinências), indicando, deste modo, alteração de significado e/ou de relação sintática entre as palavras ou partes do discurso. Sintética porque exprime a função das palavras mediante tais flexões. Caso e função sintática I O conceito de língua sintética opõe-se ao de língua analítica, como são as línguas neolatinas, porque nestas as flexões são poucas e limitadas, e as palavras têm de expressar seu significado e/ou relação com as outras palavras, servindo-se de outros recursos, como o da posição (bastante rígida) dentro da oração ou um uso mais abundante de construções perifrásticas (com verbos auxiliares, preposições etc.). Caso e função sintática II Na oração “Os romanos mataram os inimigos na luta”, temos, respectivamente, as seguintes funções sintáticas: sujeito + predicado + objeto direto + adjunto adverbial. Se alterássemos as posições destes sintagmas: “Os inimigos mataram os romanos na luta”, teríamos outra significação. Isso acontece porque as palavras em português não possuem uma flexão que indique sua função na oração. No português, os termos nominais variam em gênero e número e a posição dos sintagmas determinam sua função sintática. Exemplo I Os romanos mataram os inimigos na luta. Termos nominais: Os romanos; os inimigos; na luta. Sintagmas: Os romanos (SN); os inimigos (SN); na luta (Sprep). Funções sintáticas: sujeito; objeto direto; adjunto adverbial. Os inimigos mataram os romanos na luta. Termos nominais: Os inimigos; os romanos; na luta. Sintagmas: Os inimigos (SN); os romanos (SN); na luta (Sprep). Funções sintáticas: sujeito; objeto direto; adjunto adverbial. Exemplo II Romāni necauērunt inimīcos pugnā (sujeito + predicado + o.d. + adj. adv.), mas também: Romāni pugnā necauērunt inimīcos (sujeito + adj. adv. + predicado + o.d.) Romāni inimīcos pugnā necauērunt (sujeito + o.d. + adj. adv. + predicado) Pugnā inimīcos Romāni necauērunt (adj. adv. + o.d. + sujeito + predicado) Inimīcos pugnā necauērunt Romāni (o.d. + adj. adv. + predicado + sujeito) No latim I São as terminações nominais que expressam, além do gênero e do número, também as funções sintáticas, o que permite que a posição dos nomes na frase seja totalmente livre. Inimīcos pugnā necauērunt Romāni ou Necauērunt pugnā Romāni inimīcos (o.d. + adj. adv. + predicado + sujeito) (predicado + adj. adv. + sujeito + o.d.) Inimīci necauērunt romānos pugnā Os inimigos mataram os romanos na luta. Compare e verifique o que foi alterado. No latim II São as terminações nominais que expressam, além do gênero e do número, também as funções sintáticas, o que permite que a posição dos nomes na frase seja totalmente livre. Inimīci necauērunt romānos pugnā Romāni necauērunt inimīcos pugnā Os inimigos mataram os romanos na luta. Os romanos mataram os inimigos na luta. Os substantivos, com igual valor para os adjetivos, ao serem flexionados, recebem uma marca que corresponde a uma função sintática. No latim III Esta marca em latim é uma desinência que é acrescentada à raiz das palavras. Por exemplo: inimīcos é formado da raiz inimic + os como desinência própria de objeto direto, plural, masculino, de um determinado grupo de palavras. Os substantivos da língua latina, em nome de certas semelhanças de ordem gramatical,são distribuídos em cinco grupos, aos quais chamamos de declinações. Cada uma destas declinações, por sua vez, apresenta seis casos – caso, em latim, é o correspondente à função sintática, em português. No latim IV Nominativo = sujeito, predicativo do sujeito. Genitivo = adjunto adnominal. Acusativo = objeto direto. Dativo = objeto indireto; complemento nominal. Ablativo = adjunto adverbial. Vocativo = vocativo. No latim V Nomes declináveis (falando agora dos substantivos) são gramaticalmente divididos em 5 grandes grupos ou declinações. Cada declinação possui terminações próprias para os casos, com algumas repetições entre si. Exemplo de declinação e sua correspondência com o português Casos Singular Português Plural Português nominativo lupo o lobo lupi os lobos genitivo lupi do lobo luporum dos lobos acusativo lupum o lobo lupos os lobos dativo lupus ao lobo lupis aos lobos ablativo lupo com o lobo lupis com os lobos vocativo lupe ó lobo lupi ó lobos Fonte: Autoria própria. Assinale a alternativa correta no que diz respeito ao que seja uma desinência e o que ela representa em latim: a) São terminações ou flexões que expressam gênero. b) São terminações ou flexões que expressam número. c) São terminações ou flexões que expressam gênero e número. d) São terminações ou flexões que expressam gênero, número e classe. e) São terminações ou flexões que expressam gênero, número e função sintática. Interatividade Assinale a alternativa correta no que diz respeito ao que seja uma desinência e o que ela representa em latim: a) São terminações ou flexões que expressam gênero. b) São terminações ou flexões que expressam número. c) São terminações ou flexões que expressam gênero e número. d) São terminações ou flexões que expressam gênero, número e classe. e) São terminações ou flexões que expressam gênero, número e função sintática. Resposta O primeiro dos critérios que mencionamos para a classificação dos nomes em declinações é o relativo à terminação do genitivo singular, que é distinta em cada declinação e a mesma para todos os vocábulos de uma declinação. Este é o critério tradicionalmente usado para reconhecer a que declinação pertence um vocábulo. Por isso, nos dicionários, os nomes são dados em dois casos, no nominativo e no genitivo singular (ou no plural, é claro, para os pluralícios): amīca, -ae; ludus, -i; homo, -inis; manus, -us; res, rei; insidiae, -ārum (pluralício). Genitivo singular I amīca, -ae; ludus, -i; homo, -inis; manus, -us; res, rei; insidiae, -ārum (pluralício). Temos, assim, as 5 declinações, cada qual com sua terminação do genitivo singular: 1ª 2ª 3ª 4ª 5ª -ae -i -is -us -ei O genitivo possui outra função essencial: a de auxiliar a reconhecer a raiz das palavras. Genitivo singular II Cada declinação apresenta uma vogal temática diferente. A vogal temática é a vogal que se liga ao radical – a parte invariável do nome – para formar o tema. O radical de uma palavra é obtido tirando-se dela a terminação do genitivo singular. Radical, vogal temática, tema I Declinações Nominativo Genitivo Radical 1ª declinação matrōna matrōnae matron- 2ª declinação lupus lupi lup- 3ª declinação labor laboris labor- 4ª declinação fructus fructus fruct- 5ª declinação dies diei di- Fonte: Autoria própria. O segundo critério para a classificação dos nomes em 5 declinações é o da vogal temática. A vogal temática é reconhecida na desinência do genitivo plural. Radical, vogal temática, tema II Declinações Nominativo Genitivo plural 1ª declinação matrōn a arum 2ª declinação lupus ōrum 3ª declinação labor um 4ª declinação fructus uum 5ª declinação dies erum Fonte: Autoria própria. A terceira declinação é conhecida ou denominada declinação consonantal, uma vez que apresenta um grande número de vocábulos cujo radical termina em consoante, como no exemplo (labor – um), e, por isso, sem vogal temática. Todavia, há um pequeno grupo de palavras com vogal temática própria (i), como nau – ium. Em resumo, temos radical + vogal temática = tema. 1ª 2ª 3ª 4ª 5ª a o consoante ou i u e Radical, vogal temática, tema III Flexionar a palavra, ou seja, acrescer ao radical todas as terminações (flexões) que ela possa apresentar nos diferentes casos, por exemplo: amica amicae amicam amicas amicarum amicis Como o que ocorre com os verbos, cujo processo denominamos conjugação: amo amas amat amamus amatis amant Declinar é No latim, há três gêneros: masculino – feminino – neutro. Gênero natural ocorre e vale para todas as declinações: são os substantivos masculinos que designam homens, povos, rios e ventos; são substantivos femininos que designam mulheres, árvores, cidades, terras e ilhas; não há neutro. O gênero gramatical possui regras particulares e determina declinações e grupos de palavras. Os dicionários latinos apresentam ao lado dos nomes seu gênero, ex:. Bellum, -i n. (neutro) guerra; eques, -itis m. (masculino) cavaleiro; spes, spei fm (feminino) esperança. Gênero O latim, assim como em português, possui dois números – singular e plural. Ex.: pater – patres, corpus – corpora. No latim, temos também as palavras pluralícias, isto é, só se encontram e ocorrem no plural, como: nuptiae (núpcias), tenebrae (trevas), insidiae (cilada). Número NOMINATIVO – caso reto ou primeiro caso é um caso gramatical que faz a função ou papel de sujeito e predicativo do sujeito. Ex.: Aquila magna et pulchra est. (A águia é grande e bela.) VOCATIVO – é um caso gramatical usado no vocativo, isto é, uma referência à 2ª pessoa, um apelo, um chamado, e é usado para o nome que identifica a pessoa (animal, objeto etc.) a quem se dirige. Ex.: Aquila, pulchra es. (Águia, tu és bela.) Caso/função ACUSATIVO – é o caso gramatical usado para marcar o objeto direto de um verbo transitivo. Ex.: Video magnam aquilam. (Vejo uma grande águia.) Adjunto adverbial de lugar (para onde): Eo Romam. (Vou a Roma.) Obs.: No português, os pronomes oblíquos átonos são declinados no caso acusativo (chamado comumente de caso oblíquo, que é uma denominação genérica para casos que não o reto). Caso/função DATIVO – é um caso gramatical, geralmente usado para indicar o nome dado a algo. O termo deriva do latim dativus, significando “próprio ao ato de dar”. Ex.: Non muscas aquilae damus. (Não damos moscas à águia.) Obs.: Em português equivale, aproximadamente, ao objeto indireto e ao complemento nominal, embora a língua não tenha um caso dativo propriamente dito. Caso/função ABLATIVO – é um caso gramatical indicador de movimento para longe de algo. O nome “ablativo” é derivado do verbo latino ablatus, o particípio irregular do verbo auferreum, que significa “levar”. Ex.: Adjunto adverbial: Volemus cum aquilis. (Voemos com as águias.) Agente da passiva: Muscae ab aquilis non captantur. (Moscas não são apanhadas pelas águias.) Caso/função Caso/função GENITIVO – é um caso gramatical que indica uma relação, principalmente de posse. Em sentido mais geral, pode-se pensar esta relação de genitivo como uma coisa que pertence a algo, que é criada a partir de algo ou, de outra maneira, derivando de alguma outra coisa. (A relação é, normalmente, expressa pela preposição “de” em português.) Obs.: O adjunto adnominal, em português, corresponde em latim ao caso genitivo. Ex.: O pelo do gato é macio. Os apreciadores das artes adquirem cultura. Função de sujeito – agente da ação, uma vez que é impossível uma ação sem causa; se uma xícara, por exemplo, aparece quebrada, alguém deve ter praticado a ação de quebrar. Ex.: Neste ano, o governador morreu – (quem) – governador. Função de vocativo é indicar apelo, chamado. Quando vemos um amigo e dizemos: “Pedro, venha cá”. Recapitulando as funções sintáticas I Função de adjunto adnominalé o complemento que especifica um nome. Ex.: “A casa é de Pedro”. A casa podia ser de Paulo, de João, de Antônio, mas “casa de Pedro” especifica a palavra casa. Obs.: O adjunto adnominal, em português, corresponde em latim ao caso genitivo. Função objeto direto – toda ação tem uma causa, um agente, da mesma forma que toda ação produz um efeito. Quando se diz “Pedro comprou um carro”, nota-se que o verbo precisa de um complemento: “um carro”. Recapitulando as funções sintáticas II Função de objeto indireto – o complemento do sentido de um verbo é regido de preposição, como de, com, a, para, em. Ex.: Gosto de sorvete. Função de adjunto adverbial – Se na oração “Pedro nasceu” (de sentido completo, pois o verbo é intransitivo e não pede nenhum complemento) acrescentarmos uma circunstância de lugar, por exemplo, “Pedro nasceu em São Paulo”, “em São Paulo”, constituirá um adjunto adverbial. Recapitulando as funções sintáticas III Assinale a alternativa correta no que diz respeito à primeira declinação com tema em -a: a) Contém substantivos femininos e nenhum neutro. b) Terminação que toma o dativo no singular é u. c) Contém somente substantivos femininos. d) Contém substantivos masculinos. e) Contém substantivos neutros. Interatividade Assinale a alternativa correta no que diz respeito a primeira declinação com tema em -a: a) Contém substantivos femininos e nenhum neutro. b) Terminação que toma o dativo no singular é u. c) Contém somente substantivos femininos. d) Contém substantivos masculinos. e) Contém substantivos neutros. Resposta Em português, determinamos o sentido de uma frase por meio da ordem em que as palavras aparecem. A frase “O homem morde o cachorro” significa algo totalmente diferente da frase “O cachorro morde o homem”, e isso devido ao fato de as palavras aparecerem numa ordem diferente. Em latim, não importa a ordem das palavras, mas sim as formas que assumem. Casos latinos O que é importante em latim são as formas que as palavras assumem: Marcellum Fortunata amat. Tradução: Fortunata ama Marcelo. Marcellus Fortunatam amat. E agora, quem ama quem? Tradução: Marcelo ama Fortunata. Atenção: em latim, a ordem das palavras não determina as funções gramaticais dos vocábulos na frase, e sim seus casos ou declinações. Casos latinos No latim, há cinco formas ou modelos diferentes de declinações, que regem a forma como se acrescentam os sufixos às raízes dos substantivos e adjetivos para que concordem gramaticalmente em função do gênero, número e caso deles. A primeira declinação com o tema em -a. Contém principalmente substantivos femininos, e nenhum neutro. Caracteriza-se pelo fato de a desinência do genitivo ser ae, terminação que toma o dativo no singular, bem como o nominativo e vocativo no plural. Declinações A segunda declinação com tema em -ou. A evolução fonética do latim converteu o som “o” em u–us. Há três tipos de substantivos: com nominativo em -us; com nominativo em -er; com nominativo em -um. Todos eles fazem o genitivo em i. Os substantivos em -us e -er costumam ser masculinos, enquanto os acabados em -um são neutros. Declinações A terceira se caracteriza pelo genitivo em -is. Os substantivos podem ser de qualquer gênero (masculino, feminino ou neutro) e encontramos três tipos: Tema em consoante. Neste caso, o tema no genitivo acaba em consoante e tem um número de sílabas diferente em nominativo e em genitivo. Declinações Os substantivos neutros comportam-se de forma diferente dos masculinos e femininos: Em nominativo, vocativo e acusativo têm-se a mesma forma no singular; já para o plural, adquirem a terminação -a. Tema em i. Neste caso, o tema em genitivo acaba em vogal e o número de sílabas tanto faz em nominativo e genitivo. A declinação é quase igual ao tema em consoante, salvo no nominativo, acusativo e vocativo do plural (desinência -ia) e em genitivo do plural (-ium). Tema misto. No singular, toma as desinências, como no tema em consoante, já no plural o faz como no tema em i. Declinações Em latim, há seis casos: nominativo, acusativo, genitivo, dativo, ablativo e vocativo. Há cinco declinações. Quantidade vocálica e acento tônico Fonte: https://www.latinitasbrasil.org/_files/ugd/0f7cc7_2bf602c3f8ae4e5fadc5966975416cce.pdf Todas as frases dizem a mesma coisa: Marcelo ama Fortunata. Cada uma dessas formas se chama caso. O conjunto de formas de cada palavra se chama declinação. Declinar uma palavra é exibir todos os seus casos. Marcellus Fortunatam amat. Marcellus amat Fortunatam. Fortunatam Marcellus amat. Fortunatam amat Marcellus. Amat Marcellus Fortunatam. Amat Fortunatam Marcellus. Quantidade vocálica e acento tônico Fonte: https://www.latinitasbrasil.org/_files/ugd/0f7cc7_2bf602c3f8ae4e5fadc 5966975416cce.pdf O verbo sum é o mais comum em latim. Pode ser traduzido por ser, estar ou haver. Como em português, a terminação do verbo indica a pessoa em que o verbo está. Se eu digo “adoro chocolate”, todos entendem que eu adoro chocolate. Verbo mais comum sum – ser 1ª pessoa do singular (eu) (ego) sum sou/estou 2ª pessoa do singular (tu) (tu) es tu és/estás 3ª pessoa do singular (ele/ela) (----) ele é/está 1ª pessoa do plural (nós) (nos) sumus nós somos/estamos 2ª pessoa do plural (vós) (uos) estis vós sois/estais 3ª pessoa do plural (eles/elas) (---) sunt eles são/estão Fonte: Autoria própria. É o caso sujeito. Não há nada de muito complicado nisso – isso significa, simplesmente, que a forma nominativa é o que é usado em uma determinada frase como sujeito. Magistra sum. – Eu sou professora. Puella es. – Tu és uma menina. Silvia serva est. – Sílvia é uma escrava. Nominativo cumpre as funções de: sujeito – o termo da oração sobre o qual se faz uma declaração ou aquele que realiza a ação expressa em um verbo. Predicativo do sujeito: quando temos o verbo de ligação sum. Cāsus nōminātīvus – Caso nominativo 1ª declinação 2ª declinação singular plural singular plural Nominativo rosa rosae servus servi Fonte: Autoria própria. Na primeira declinação, a maioria das palavras pertence ao gênero feminino, mas algumas, principalmente nomes de profissão, são masculinas. Ex.: agrícola, agricultor, nauta, marinheiro, poeta etc. Na segunda declinação, a maioria das palavras pertence ao gênero masculino, mas algumas são femininas, como o nome de determinadas árvores e lugares. Ex.: fagus (faia), pinus (pinheiro), Aegyptus (Egito) etc. Algumas palavras da segunda declinação são do gênero neutro. Caso nominativo e acusativo A função sintática relacionada ao caso acusativo é o objeto direto. A terminação do caso acusativo no singular na primeira declinação é -AM. A terminação do caso acusativo no plural na primeira declinação é -AS. A terminação do caso acusativo singular na segunda declinação é -UM. A terminação do caso acusativo plural na segunda declinação é -OS. No latim, não há oxítonas. Será paroxítona se a penúltima vogal for longa. Será proparoxítona se a penúltima vogal for breve. O caso acusativo 1ª declinação 2ª declinação singular plural singular plural Nominativo Rosa Rosae Servus Servi Acusativo Rosam Rosas Servum servos Fonte: Autoria própria. Observe que os verbos são construídos a partir de um radical a que são acrescentadas terminações que indicam a pessoa gramatical: -o/-m: 1ª pessoa do singular (“eu”). Ex.: amo, sum. -s: 2ª pessoa do singular (“você”/“tu”). Ex.: amas, es. -t: 3ª pessoa do singular (“ele/ela”). Ex.: amat, est. -mus: 1ª pessoa do plural (“nós”). Ex.: amamus, sumus. -tis: 2ª pessoa do plural (“vocês”/“vós”). Ex.: amatis, estis. -nt: 3ª pessoa do plural (“eles/elas”). Ex.: amant, sunt. A primeira conjugação no presente do indicativo Infinitivo: amare 1ª pessoa do singular (eu) (ego) amo eu amo2ª pessoa do singular (tu) (tu) amas tu amas 3ª pessoa do singular (ele/ela) (----) amat ele ama 1ª pessoa do plural (nós) (nos) amamus nós ama- mos 2ª pessoa do plural (vós) (uos) amatis vós amais 3ª pessoa do plural (eles/elas) (---) amant eles amam Fonte: Autoria própria. -o/-m: 1ª pessoa do singular (“eu”). Ex.: amo, sum. -s: 2ª pessoa do singular (“você”/“tu”). Ex.: amas, es. -t: 3ª pessoa do singular (“ele/ela”). Ex.: amat, est. -mus: 1ª pessoa do plural (“nós”). Ex.: amamus, sumus. -tis: 2ª pessoa do plural (“vocês”/“vós”). Ex.: amatis, estis. -nt: 3ª pessoa do plural (“eles/elas”). Ex.: Amant, sunt. Essas desinências pessoais serão as mesmas em todos os verbos, regulares e irregulares, de todas as conjugações, quase todos os tempos, exceto quando estiverem na voz passiva ou nos tempos perfeito e mais-que-perfeito. Desinências pessoais do verbo -o/-m: 1ª pessoa do singular (“eu”). Ex.: amo, sum. -s: 2ª pessoa do singular (“você”/“tu”). Ex.: amas, es. -t: 3ª pessoa do singular (“ele/ela”). Ex.: amat, est. -mus: 1ª pessoa do plural (“nós”). Ex.: amamus, sumus. -tis: 2ª pessoa do plural (“vocês”/“vós”). Ex.: amatis, estis. -nt: 3ª pessoa do plural (“eles/elas”). Ex.: Amant, sunt. Observe também a presença da vogal temática “a” em todas as pessoas, exceto na primeira. A presença da vogal temática “a” nos mostra que o verbo pertence à primeira conjugação. Desinências pessoais do verbo Assinale a alternativa correta no que diz respeito ao nominativo. a) Terminação que toma o dativo no singular é us. b) Realiza a ação expressa no verbo e por isso tem o papel de sujeito. c) Contém apenas substantivos masculinos e não cumpre o papel de sujeito. d) A ação tem alguma consequência direta para a pessoa. e) Faz a função de objeto direto na sentença. Interatividade Assinale a alternativa correta no que diz respeito ao nominativo. a) Terminação que toma o dativo no singular é us. b) Realiza a ação expressa no verbo e por isso tem o papel de sujeito. c) Contém apenas substantivos masculinos e não cumpre o papel de sujeito. d) A ação tem alguma consequência direta para a pessoa. e) Faz a função de objeto direto na sentença. Resposta AREÁN-GARCÍA, Nilsa. Breve histórico da Península Ibérica. Revista Philologus, ano 15, n. 45, Rio de Janeiro, set./dez. 2009. HAUY, Amini Boainain. Origem e formação da Língua Portuguesa. In: SPINA, Segismundo (Org.). História da Língua Portuguesa. Cotia: Ateliê editorial, 2008. Referências ATÉ A PRÓXIMA!