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20 um longo período de ditadura militar, durante o qual inúmeras pessoas foram torturadas, era de se esperar uma nítida preocupação do constituinte em coibir tal prática. Essa expectativa restou consolidada em alguns dispositivos constitucionais, quais sejam: a) o art. 5°, inciso III, dispõe que ninguém será submetido à tortura nem a tratamento desumano ou degradante; b)o mandado de criminalização do inciso XLIII do art. 5° determina que a lei deverá considerar inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou anistia a prática da tortura, o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o terrorismo e os definidos como crimes hediondos, por eles respondendo os mandantes, os executores e os que, podendo evitá-los, se omitirem. Em relação a lei de tortura, nº 9.455/97, tem-se: Art. 1º Constitui crime de tortura: I - constranger alguém com emprego de violência ou grave ameaça, causando-lhe sofrimento físico ou mental: a) com o fim de obter informação, declaração ou confissão da vítima ou de terceira pessoa; b) para provocar ação ou omissão de natureza criminosa; c) em razão de discriminação racial ou religiosa; II - submeter alguém, sob sua guarda, poder ou autoridade, com emprego de violência ou grave ameaça, a intenso sofrimento físico ou mental, como forma de aplicar castigo pessoal ou medida de caráter preventivo. Pena - reclusão, de dois a oito anos. De acordo com Renato Brasileiro (p.988, 2020) A Constituição Federal prevê tão somente duas hipóteses de imprescritibilidade: a) a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei (art. 5°, XLII); b) constitui crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado Democrático (art. 5°, XLIV). Não há, pois, qualquer referência à imprescritibilidade dos crimes de tortura, nem tampouco dos demais crimes hediondos ou equiparados. d) Prescritibilidade do crime de tortura: Considerando que a Constituição Federal elencou como crimes imprescritíveis apenas o racismo e a ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado Democrático (incisos XLII e XLIV do art. 5°), revela-se indevida a criação de novas hipóteses de imprescritibilidade, ainda que por meio de Convenções Internacionais. Afinal, os tratados internacionais de direitos humanos são ratificados com status de norma infraconstitucional, ainda que supralegal. Ora, ao tratar dos crimes hediondos e equiparados, sujeitos pela Constituição Federal a uma série de ditames gravosos, como, por exemplo, inafiançabilidade e insuscetibilidade de graça e anistia, o inciso XLIII do art. 5° da Constituição Federal, inserido exatamente entre os dois incisos que versam sobre crimes imprescritíveis (XLII e XLIV), silenciou acerca da imprescritibilidade. Não se trata, portanto, de um mero lapso do constituinte originário. Então, em resumo, o crime de tortura é prescritível por ausência de determinação legal, aplicando os prazos prescricionais previstos no Código Penal. Além disso, em relação a hediondez, os crimes comissivos da Lei de tortura são equiparados a hediondos, conforme a própria lei nº 8.072/90 versa.