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Teoria Psicossexual 1

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TEORIA PSICOSSEXUAL DO 
DESENVOLVIMENTO INFANTIL 
AULA 1 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Profª Raquel Berg 
 
 
 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
Olá, seja bem-vindo(a)! Nesta disciplina trataremos sobre diversos temas. 
No primeiro momento, falaremos sobre “Três Ensaios sobre a Teoria da 
Sexualidade”. No segundo momento, falaremos sobre “Minhas teses sobre o 
papel da sexualidade na etiologia das neuroses”, “Esclarecimento Sexual 
das Crianças”, “Teorias Sexuais das Crianças”, “Organização Genital 
Infantil” e “Algumas consequências na distinção anatômica dos sexos”. Na 
sequência, falaremos sobre o Pequeno Hans, denominado “Análise de uma 
fobia em um menino de 5 anos”, “Leonardo da Vinci e uma lembrança de 
sua infância” e “Duas mentiras contadas por crianças”. Adiante, falaremos 
sobre “O caso Schreber”, “História de uma neurose infantil” (conhecida 
como Homem dos Lobos) e “O retorno do Totemismo na Infância”. Depois, 
falaremos sobre “Algumas Reflexões sobre a Psicologia do Escolar”, “Uma 
recordação de infância de Dichtung und Wahrhei”, “Uma criança é 
espancada”, “Associações de uma criança de 4 anos de idade” e o material 
psíquicos dos contos de fada. Por fim, faremos uma breve revisão sobre o 
conteúdo apresentado nas aulas anteriores dessa disciplina e os principais 
conceitos que precisam ficar gravados, a primeira e a segunda tópica, alguns 
conceitos de “O Ego e o Id”, Spitz com sua teoria sobre os organizadores 
psíquicos no primeiro ano de vida, as hipóteses kleinianas e lacanianas sobre o 
desenvolvimento infantil e o tema da morte enquanto objeto de investigação 
infantil. 
Na aula de hoje, nos concentraremos em falar sobre os Três Ensaios. 
Esse texto foi escrito em 1905, porém ele passou por uma série de revisões feitas 
por Freud posteriormente, o que fez com que o documento contenha alguns 
conceitos que só serão efetivamente trabalhados na obra freudiana muitos anos 
depois. Em função disso, faremos uma breve explicação para cada uma dessas 
terminologias apenas para esclarecer o significado delas dentro do contexto dos 
“Três Ensaios”, embora uma explicação mais completa seja feita em outras 
disciplinas que irão tratar diretamente dos textos fundamentais para cada um 
desses conceitos. É importante trazer aqui também que esse texto ensaia a 
transição da primeira para a segunda tópica freudiana, na medida que traz o 
conceito de pulsões e transcende a ideia de um consciente (cs), subconsciente 
(Pcpt) e inconsciente (Ics) com representações e afetos. Nesse texto, Freud vai 
 
 
3 
além da ideia de sexualidade das histéricas e traz a diferenciação entre sexo e 
sexualidade, que não necessariamente envolve o órgão sexual em si e que se 
constitui ao longo da infância, desde o nascimento até a puberdade e a vida 
adulta. Como esse texto é denso e cheio de detalhes, separamos o primeiro 
ensaio ao longo dos dois primeiros temas, o segundo ensaio nos temas 3 e 4 e 
o terceiro ensaio no Tema 5. 
TEMA 1 – AS ABERRAÇÕES SEXUAIS EM FREUD 
 Segundo Freud (1905), há nos homens a existência do que ele chama de 
pulsão sexual, ao que ele compara com a pulsão de nutrição que seria a fome. 
O equivalente dessa fome, na pulsão sexual, Freud dá o nome de “libido” (que 
seria como uma energia que impulsiona o desejo). Segundo o autor, a opinião 
popular da época acreditava que essa libido estaria ausente na infância, surgindo 
na puberdade e direcionada ao ato sexual. No entanto, os estudos de Freud 
(1905) demonstraram a existência de dois tipos de desvios dessa libido: 
referentes ao objeto sexual (de quem procede a atração sexual) e ao alvo sexual 
(ato a que a libido conduz). 
É importante destacar, aqui, que essa classificação de Freud não é mais 
utilizada pelos profissionais da saúde. No último documento do DSM-5 (2013) e 
do CID-11 (2020), a nomenclatura hoje utilizada para o que Freud chamou de 
perversões é “transtornos da preferência sexual” e “transtornos parafílicos”, 
sendo que em ambos a homoafetividade deixou de ser considerada como um 
transtorno, e a transexualidade (que não será tratada aqui) é considerada como 
um transtorno na medida que gera sofrimento ao indivíduo, não sendo a mesma 
coisa que a não identificação com o gênero de origem (ou seja, um homem que 
se percebe como mulher ou mulher que se percebe como homem). Como o 
objetivo aqui é apresentar os textos de origem freudianos, manteremos as 
terminologias apenas para facilitar na compreensão desse texto. 
1.1 Desvios relativos ao objeto e ao alvo sexual 
O desvio do objeto é quando o desejo não é pelo sexo oposto em idade 
madura, ou seja, de um homem para uma mulher e vice-versa. Em seu primeiro 
exemplo, Freud (1905) aborda a homoafetividade, a que ele chama naquele 
momento de “invertidos” (embora hoje vemos a terminologia como inadequada 
 
 
4 
para abordar o tema). Esse é um tema delicado na psicanálise, sobre o qual 
iremos expor também no tópico “Na prática”. Freud (1905), naquela época, 
afirmava que a comunidade homoafetiva podia tratar de sua condição sexual 
com naturalidade (ou seja, com a mesma aceitação natural que um 
heterossexual tem de sua condição) ou com revolta (ou seja, tratando de sua 
condição como se fosse uma patologia). Para o autor, a origem dessa condição 
poderia surgir junto com o indivíduo, numa época remota de sua vida ou pouco 
antes da puberdade; além disso, poderia persistir por toda a vida ou ocorrer 
apenas durante determinado tempo. 
A princípio, a homossexualidade (termo que Freud usa nesse texto) foi 
considerada como contendo dois elementos: o caráter inato e a “degeneração”, 
sendo esse último termo devendo ser dissociado de sua forma pejorativa como 
um desvio grave da norma ou com baixa capacidade de sobrevivência. Segundo 
o autor, entende-se como degenerado aqui apenas o desvio no caráter sexual, 
uma vez que essa condição não tem qualquer relação com o desempenho 
laboral, intelectual ou ético do indivíduo. Já o caráter inato pode ser somente 
para os que Freud chama como “absolutos” (ou seja, aqueles que já nasceram 
com essa condição e que a escolha por outra pessoa do mesmo sexo é a única 
opção possível), enquanto para o demais ele afirma a possibilidade de aquisição 
durante a infância, como se a pessoa mantivesse a bissexualidade após a idade 
adulta. No entanto, ele admite que possuía pouco material para considerar suas 
observações como conclusivas. 
Em um primeiro momento, Freud (1905) tentou usar do hermafroditismo 
como um protótipo para explicar a existência da bissexualidade humana, mas foi 
infeliz nessa primeira tentativa. Depois, avaliou os estudos que afirmavam que 
nos homoafetivos se teria um cérebro contrário ao corpo presente (ou seja, um 
cérebro feminino em um corpo masculino ou um cérebro masculino em um corpo 
feminino). No entanto, para Freud, seria como substituir o problema psíquico pelo 
problema anatômico, o que segue sem resolver a questão. Por fim, o autor 
considerou a teoria de Kraft-Ebing como a mais próxima de uma explicação 
razoável: 
Segundo Kraft-Ebing (1895, 5], a disposição bissexual dota o indivíduo 
tanto de centros cerebrais masculinos e femininos quanto de órgão 
sexuais somáticos. Esses centros começam a desenvolver-se na 
época da puberdade, na maioria das vezes sob a influência das 
glândulas sexuais, que independem deles na disposição [originária]. 
(Freud, 1905, p. 135) 
 
 
5 
Isso explicaria por que o comportamento e a organização psíquica de uma 
pessoa independem de sua condição sexual: ou seja, uma mulher pode sofrer 
uma transformação psíquica que a torne mais masculina, ou um homem pode 
se comportar exatamente como um homem heterossexual normal. 
Embora naquele momento se acreditasse que a homoafetividade fosse 
oposta ao normal, essa explicação só poderia funcionar para uma parcela das 
pessoas, assim como o é para a heterossexualidade (pois a pessoa vai contra 
seus desejospara buscar a aceitação social). Assim, para Freud (1905), a 
melhor explicação seria a de que o objeto sexual não é o mesmo sexo, mas uma 
conjugação dos caracteres de ambos os sexos e um reflexo especular da própria 
natureza bissexual. O objetivo sexual dos invertidos é diverso, sendo menos 
relevante o órgão sexual em si, pois nos homens heterossexuais também há o 
prazer intenso na relação sexual anal e masturbação, assim como nas mulheres 
heterossexuais há também uma preferência com o contato bucal. 
Por fim, e aqui devemos excluir que a homoafetividade seja um desvio, 
Freud (1905) inclui no grupo dos desvios de objeto as pessoas que escolhem os 
animais e as crianças. Segundo o autor, essas escolhas muitas vezes se dão 
com mais frequência em pessoas com mais oportunidades para sucumbirem a 
esses comportamentos (como professores e camponeses), e a diferença entre 
pessoas com esses comportamentos e as consideradas loucas é somente o grau 
de intensidade do transtorno sexual. Embora Freud (1905) afirme nesse texto 
que os distúrbios sexuais nos loucos não são diferentes dos distúrbios sexuais 
das pessoas consideradas sãs, é importante frisar que esses dois últimos 
exemplos posteriormente foram enquadrados fora do grupo da normalidade, 
uma vez que esse tipo de desvio sexual foge das regras e limites sociais, 
podendo ser comparado ao próprio incesto. 
1.2 Desvios relativos ao alvo sexual 
Para Freud (1905), o objetivo ou alvo sexual normal é o sexo genital, que 
leva ao alívio da tensão e a extinção temporária da pulsão (semelhante a quando 
comemos e saciamos nossa fome). A sexualidade normal pode incluir o uso 
temporário de outras partes do corpo antes do início do coito (conhecidas dentro 
das famosas “preliminares”: o beijo, as carícias etc.), e se distinguem dos 
exemplos que serão dados a seguir quando elas se tornam o objetivo final que 
não o contato genital. Existem dois tipos de perversões aqui, que na verdade 
 
 
6 
podem ser consideradas como a mesma coisa, pois terminam com o desvio do 
objetivo sexual em si: I) as transgressões ou o uso de outras partes do corpo 
obter prazer, e; II) as demoras das preliminares. Melhor explicando: 
I. As transgressões aqui são consideradas como um enfraquecimento do 
juízo, uma cegueira lógica semelhante à obediência do paciente durante 
a hipnose (e que depois ele aprofunda em seu texto “Psicologia das 
Massas”: a submissão que passa pela credulidade amorosa; a 
substituição da figura de autoridade que deveria ter desembocado em um 
vínculo amoroso com uma pessoa do outro sexo, mas que se transforma 
na obediência cega a uma figura supervalorizada. Essa correlação se dá 
na medida que, em ambos os casos, ocorre a restrição do objetivo sexual 
em si – a união de órgãos sexuais – para o desvio da libido para outros 
fins). Alguns dos exemplos aqui são: o sexo oral, pois embora a pessoa 
não compartilhe da escova de dentes do outro por asco, a libido rende o 
sentimento de asco em prol da obtenção de prazer; o sexo anal, criando 
uma sensação [imaginária] semelhante em homens e mulheres – ou seja, 
ambos os sexos se igualam nessa experiência; e o fetichismo, como a 
obtenção de prazer por partes do corpo como pés e cabelos, ou mesmo 
o desejo por pessoas com defeitos físicos específicos, peças de roupa ou 
objetos em particular, que por alguma razão do próprio pervertido 
conservam uma relação com o objeto sexual. Ele se origina na primeira 
infância ou a partir de uma conexão simbólica, e passa a ser um 
transtorno quando gera sofrimento ou dor ao outro contra a sua vontade, 
além de colocar a saúde e a vida do indivíduo em risco. 
II. Aqui, o excesso de preliminares criticadas por Freud inclui o tocar, o olhar 
(como no caso dos voyeurs), o sadismo e o masoquismo (ter prazer em 
provocar dor no outro ou com o próprio sofrimento ou dor). O 
sadomasoquismo será mais bem trabalhado em outros textos de Freud 
(como “O problema econômico do masoquismo”, escrito em 1924), mas 
serve como um modelo de esclarecimento da perversão. O masoquismo 
é oposto ao sadismo, mas sempre o acompanha, pois na perversão, o 
objetivo sexual pode ocorrer nas formas ativa e passiva conjuntamente no 
mesmo indivíduo, o que faz com que alguém que sente prazer em infligir 
dor em seu objeto sexual também terá prazer em dores que virá a sofrer 
ele próprio durante suas relações sexuais. 
 
 
7 
TEMA 2 – PERVERSÕES E PSICONEUROSES 
A perversão é classificada como uma doença, um transtorno. Segundo 
Freud (1905), existem perversões dos mais variados tipos, incluindo algumas 
muito distanciadas do normal (como necrofilia e coprofagia), e que vão muito 
além de sentimentos como vergonha, repugnância, horror, nojo ou dor. A 
perversão se caracteriza pela existência desses transtornos no âmbito sexual, 
mesmo que em outros aspectos o indivíduo se apresente plenamente dentro da 
normalidade. A natureza patológica da perversão está em sua relação com o 
normal, o que significa que ela se torna um transtorno quando apresenta um grau 
mais elevado de fixação e exclusividade do comportamento. 
Nas neuroses, a pulsão e o recalque são os principais responsáveis na 
formação dos sintomas: na histeria, os sintomas são deslocamento de desejos, 
por associação; na neurose obsessiva e nas fobias, os sintomas representam a 
autocensura por medo e nojo, e na paranoia ocorre a projeção dos desejos 
recalcados sob a forma de alucinações. Nas cartas sobre as psiconeuroses de 
defesa, o autor também comenta sobre a cronologia dessas psiconeuroses, ou 
seja, quando elas se estabelecem. Se considerarmos que existe uma maturação 
do corpo humano em paralelo a essas experiências, poderíamos estabelecer 
uma correspondência entre as experiências com o próprio corpo e essas 
psiconeuroses. Com isso, Freud então cria o conceito de zonas erógenas. 
As zonas erógenas se comportam como uma porção do aparelho sexual, 
e podem servir como aparelhos subordinados aos órgãos genitais ou como 
substitutos deles quando há a formação dessas psiconeuroses. Embora a 
maioria dos psiconeuróticos adoeça após a puberdade, o processo de recalque 
se dá durante a infância e se estabelece com o retorno do recalcado, geralmente 
associado com fatores externos tardios como limitação da liberdade, perigos em 
geral e inacessibilidade do objeto sexual normal, os quais pervertem pessoas 
que, de outra forma, poderiam ter sido normais. Assim, podemos dizer que a 
neurose é uma junção do genético com a experiência prévia do indivíduo. Já as 
perversões podem se originar de características inatas ou surgir de fetichismo, 
e se expressam desde cedo em crianças. 
O conceito das zonas erógenas, embora já tenha surgido nas cartas a 
Fliess, é trabalhado pela primeira vez aqui. De modo geral, significa qualquer 
parte do corpo suscetível de se tornar uma fonte de excitação sexual: a boca, o 
 
 
8 
ânus, o pênis ou a vagina, ou qualquer outra parte, já que na psicanálise todo o 
corpo, pele e membros pode se tornar uma fonte potencial de prazer. Iremos 
tratar em detalhes sobre as fases na sequência. 
TEMA 3 – A SEXUALIDADE INFANTIL 
A opinião popular julga erroneamente que a pulsão sexual está ausente 
nas crianças e só se desenvolve na puberdade, e que muitas das doenças dos 
adultos surgem em consequência de hereditariedade; ou que a presença de 
pulsões sexuais em crianças ocorre como casos excepcionais de depravação 
precoce. Segundo Freud, nós nos esquecemos de grande parte do que nos 
acontece na infância, restando apenas fragmentos (a amnésia infantil). Durante 
essa época, reagimos de maneira vívida (com amor, raiva e tristeza) ao que nos 
acontece, e constituem o princípio da nossa vida sexual. O esquecimento dessas 
experiências infantis ocorre como um processo semelhante ao da amnésia 
neurótica em relação a eventos emocionalmente relevantes: mais do que isso, a 
amnésia neurótica existe porquetraços de memória, interligados entre si, foram 
recalcados, misturando memórias recentes com memórias precoces. Assim, a 
amnésia neurótica não existe sem a amnésia infantil. 
As pulsões sexuais começam desde o nascimento e se desenvolvem 
durante a infância. Nesse período, a formação de traumas associados à amnésia 
infantil faz com que as experiências sejam recalcadas, podendo ser futuramente 
uma fonte de sintomas dependendo das características individuais. A educação 
está diretamente relacionada com a formação do recalque, pois é a principal 
fonte para a criança aprender sobre as regras sociais e como deve se 
estabelecer sua sexualidade nesse contexto. Como vimos antes, todo material 
recalcado necessita ser extravasado, podendo ser por meio dos sonhos, dos 
sintomas, das fantasias e da sublimação, além do próprio sexo. A sublimação é 
uma forma socialmente aceita e que se expressa na forma de talentos individuais 
para os esportes, para as artes ou para a literatura, por exemplo. 
3.1 As manifestações infantis da sexualidade 
Uma das primeiras manifestações da sexualidade infantil é o que Freud 
(1905) chama de chuchar com deleite, que é o comportamento do infante de 
fazer o movimento de mamar sem estar realmente se alimentando do leite 
 
 
9 
materno. Outro comportamento é o chupar o dedo ou a chupeta, às vezes 
acompanhado de segurar a própria orelha ou a orelha de outra pessoa. Esse 
comportamento aparece na primeira infância e espera-se que se encerre na 
maturidade. Esse chuchar (seja o peito, o dedo ou a chupeta) tem o objetivo de 
acalmar o bebê, de levá-lo ao sono ou a uma reação semelhante ao orgasmo. O 
autor considera que as crianças que buscam o sugar como uma forma de prazer 
autoerótico tendem a, quando adultos, dar uma importância erógena para os 
lábios. Assim, o objetivo da pulsão sexual infantil é obter prazer, tranquilidade e 
satisfação por meio de uma parte do corpo que for escolhida (erógena) para 
estimular essa sensação. 
Assim como a zona labial (ou oral), a zona anal também pode atuar como 
uma via sexual. Um exemplo disso são as crianças que seguram as fezes até 
que seu acúmulo provoque intensas contrações musculares que provocam dor 
e prazer, como se fosse um comportamento masturbatório do ânus. Sobre a 
masturbação, na psicanálise distinguem-se três fases de masturbação infantil: 
uma pertencente à primeira infância, outra por volta dos quatro anos e uma 
terceira na puberdade. A excitação sexual relativa da primeira infância, assim 
como as demais, busca satisfação pela masturbação ou pela polução noturna, 
mas cada uma delas deve ter uma separação marcada no desenvolvimento 
infantil. 
A continuidade desse comportamento masturbatório ao longo da infância 
pode representar um desvio de conduta e posteriormente se transformar em um 
transtorno. As crianças podem ter todo tipo de irregularidades sexuais, já que 
barreiras como a vergonha, a repugnância e a moral ainda não foram formados. 
Nesse sentido, são chamadas, portanto, de perverso-polimorfas. Laplanche e 
Pontalis (2001, p. 342) esclarecem que a perversão faz parte do comportamento 
infantil e é esperado como parte de sua interação com o ambiente. E, na medida 
que essa perversão está ligada às pulsões parciais pertencentes às zonas 
erógenas durante o desenvolvimento infantil, se apresenta, portanto, como uma 
disposição perverso-polimorfa. 
As crianças, durante seus primeiros anos, têm muito prazer em expor seus 
corpos, com ênfase nas suas partes genitais. Quando adquirem a capacidade 
de sentir vergonha, essas crianças passam a exibir curiosidade pelas genitais de 
outras pessoas e pelas diferenças anatômicas entre os sexos. Além disso, outra 
característica das crianças é a crueldade, pois o sentimento de piedade se 
 
 
10 
desenvolve somente mais tarde. Esse impulso de crueldade surge do desejo de 
domínio (sadismo infantil), o que leva algumas crianças a um desejo de bater em 
animais e coleguinhas, e pode levar ao prazer de apanhar nas nádegas, 
relacionado à passividade (masoquismo). 
Entre três e cinco anos a criança chega no primeiro ápice sexual. Nesse 
momento, surge a necessidade de fazer perguntas, e essa necessidade pode 
ser despertada por diversos motivos, como a chegada de um novo bebê. Nesse 
sentido, a primeira dúvida costuma ser de onde vêm os bebês (para as pessoas 
que têm filhos adotados, por exemplo, não é incomum a criança perguntar sobre 
seu processo e como ela poderia ter se tornado filha daqueles pais sem ter sido 
gerada no ventre da mãe). Ao perguntar sobre a origem dos bebês, a criança 
começa a compreender a própria constituição sexual, a diferença anatômica dos 
sexos e o papel fertilizante do esperma. Segundo Freud (1905), essa curiosidade 
pode ser comparada ao enigma da Esfinge (chamado de Complexo de Édipo 
quando Freud for apresentar o caso do Pequeno Hans). Ao descobrir as 
diferenças sexuais entre homens e mulheres, surge o complexo de castração 
(nas meninas se refere à frustração de não ter pênis, e nos meninos se refere ao 
medo de perder seu pênis) e a inveja do pênis. 
TEMA 4 – FASES E FONTES DO DESENVOLVIMENTO SEXUAL 
Existem quatro fases de desenvolvimento sexual humano: a fase oral (que 
envolve o desejo de incorporar o objeto), sádico-anal (que inicia a relação ativa 
e passiva), fálica e genital. Entre as fases fálica e genital há o período de latência, 
pois na fase fálica há a organização genital infantil sob o primado das pulsões 
parciais (e, nesse sentido, o falo é o único órgão genital), e na fase genital 
constitui-se a genitalidade propriamente dita para os sexos. A escolha de um 
objeto é difásica, uma entre as idades de dois a cinco anos (infantil) e outra no 
início da puberdade e que determinará o resultado da vida sexual. Essas 
determinadas partes do corpo são escolhidas como zonas erógenas principais 
por causa de sua relevância e determinadas idades: assim, a boca é o ponto de 
contato afetivo e de nutrição com o corpo da mãe desde o nascimento; o ânus 
representa a fase quando a criança precisa aprender a controlar seus esfíncteres 
e, com isso, controlar seu próprio corpo (normalmente, após os dois anos), e a 
fase genital ocorre na puberdade e no término do amadurecimento sexual, na 
adolescência. Nesse sentido, Freud amplia e traz a existência de dois tipos de 
 
 
11 
pulsões: sexuais e de autoconservação, como o amor e a fome. Dentro das 
pulsões sexuais, estão inseridas as pulsões parciais, as quais estão ligadas a 
cada órgão de acordo com a idade, e que se juntam para se tornarem pulsões 
totais somente na vida adulta. Posteriormente, em “Pulsões e seus destinos”, 
Freud irá mudar essa divisão das pulsões para pulsões de vida e de morte, mas 
isso é tema para uma outra aula. 
 A excitação sexual pode ter diversas origens: na repetição de um prazer 
já experimentado; pela estimulação das zonas erógenas; como expressão de 
algumas pulsões como a crueldade. Essa excitação pode ser adquirida pela 
agitação do corpo e na estimulação sensorial desse corpo (olhos, ouvidos, pele 
e músculos), por isso as crianças também têm muita satisfação e necessidade 
em praticar exercícios físicos. A tarefa intelectual também pode provocar prazer, 
pois toda atividade praticada ou experimentada com intensidade pode gerar 
prazer e estimular a sexualidade. Mas é importante frisar que a estimulação só 
ocorre dependendo da qualidade dos estímulos, do quanto a criança está 
satisfeita em praticá-los (ou seja, não adianta forçar a criança a uma atividade 
que não a faz feliz porque isso não a irá estimular adequadamente). 
TEMA 5 – AS TRANSFORMAÇÕES DA PUBERDADE 
Até antes da adolescência, as pulsões sexuais são autoeróticas. Com a 
chegada da puberdade, um novo objetivo sexual aparece, pois um dos principais 
processos da puberdade é o desenvolvimento dos genitais externos. Na 
adolescência, a pessoa passa a ter a capacidadede se estimular sexualmente 
de três formas: externamente (p. ex., pela masturbação), internamente (p. ex., 
uso de substâncias) e mentalmente (p. ex., vídeos, filmes e sonhos). Essa 
excitação independe da capacidade fértil do indivíduo e está diretamente 
relacionada com a libido (que já mencionamos antes), que é a responsável pela 
geração de prazer e desprazer: prazer pela eliminação da tensão, e desprazer 
porque cria mais desejo de prazer (semelhante ao uso de drogas: quanto mais 
usamos, mais queremos experimentar). A libido pode ser considerada como uma 
força quantitativamente variável, com caráter qualitativo. Aqui, Freud (1905) 
estabelece que na infância há uma libido do ego, ou libido narcísica (na medida 
que há um autoinvestimento) e depois surge uma libido do objeto. Portanto, 
temos aqui dois tipos de libido (vale informar que, quando Freud escrever seu 
 
 
12 
texto “Além do princípio do prazer”, ele passará a trazer o conceito de libido como 
Eros, ligado às pulsões de vida, em oposição às pulsões de morte). 
5.1 A diferenciação entre homens e mulheres 
 As disposições sexuais de meninos e meninas são percebidas na infância. 
E, embora seja possível identificarmos diferenças entre eles, a atividade 
autoerótica é idêntica em ambos (lembrando que, aqui, não estamos discutindo 
a concepção moderna de gênero, mas como se dá o comportamento infantil com 
os órgãos sexuais, pênis e vagina/ clitóris). Com a puberdade, o objetivo sexual 
deixa de ser autoerótico e focado na mãe e passa a ser em um outro diferente 
da mãe. 
As relações afetivas que permeiam a vida das crianças é que irão formar 
um modelo de suas relações afetivas futuras – por meio do modelo que a criança 
concebe com a pessoa que cuida dela, acaricia-a, beija-a, essa criança buscará 
no futuro um objeto sexual substituto dessa relação. Quando a criança 
experimenta relações não saudáveis, como excesso de mimos ou privação de 
afeto, isso pode desencadear futuramente comportamentos como ansiedade e 
carência afetiva intensa, ou ser despertada sexualmente mais cedo. É claro que 
seria muito mais fácil para a criança manter o direcionamento de seus impulsos 
sexuais para as pessoas que cuidaram dela; porém, a barreira do incesto impede 
esse tipo de relação. O período de latência até a puberdade auxilia a criança a 
impedir o desenvolvimento desse tipo de relação incestuosa e ajuda a criança a 
criar moldes para o relacionamento com outras pessoas. Durante a escolha do 
objeto, que ocorre em paralelo ao amadurecimento sexual, há também o desejo 
de independência em relação aos pais (mas isso não ocorre em todos os jovens). 
Nos psiconeuróticos, o desligamento dos pais e o impedimento incestuoso 
causam repúdio à sexualidade, e a escolha do objeto se mantém no 
inconsciente, procurando sempre uma relação assexual e se mantendo apegado 
às suas antigas relações infantis. As pessoas normais também sofrem influência 
do incesto, porém contornam essa frustração ao buscarem uma pessoa madura 
com características de seu pai, mãe ou cuidador. 
 Durante a escolha do objeto, na adolescência, irá contar a atração sexual 
pela constituição anatômica e psicológica antagônica, a repressão da sociedade, 
o desenvolvimento de uma relação hostil com pessoas do mesmo sexo ou do 
sexo oposto, além de experiências infantis como divórcio, morte etc. Ou seja, 
 
 
13 
tudo que acontece na infância pode influenciar os relacionamentos futuros da 
criança, muito embora eles não sejam determinantes (nem todo mundo que 
vivencia um luto ou um trauma terá as mesmas escolhas objetais). 
NA PRÁTICA 
 A proposta prática desse tema é vasta, mas aqui gostaríamos de trabalhar 
sobre o tema da homoafetividade. Mais especificamente, a forma como as 
instituições psicanalíticas lidaram com esse tema controverso durante o século 
XX. No texto “A psicanálise ‘no armário’, a autora comenta que na década de 
1920 era sabido que as sociedades de psicanálise recusavam candidatos às 
escolas que fossem assumidamente gays ou que revelassem essa informação 
durante o processo seletivo. Isso porque a homossexualidade era considerada 
uma doença, constando inclusive no DSM (Manual Diagnóstico dos Transtornos 
Mentais) até 1973. E a autora continua, em referência à IPA (Associação 
Psicanalítica Internacional): 
Em circular enviada a todos os membros do secreto comitê, Ernest 
Jones relatava ter aconselhado contra a admissão, pela Sociedade 
Holandesa de Psicanálise, de um membro que “se sabia 
manifestamente homossexual”. Otto Rank e Freud discordavam da 
posição do colega, pois, para eles, a homossexualidade não era razão 
suficiente para a rejeição. Por outro lado, porém, a contratação não 
poderia tornar-se uma lei, “considerando os vários tipos de 
homossexualidade e os diferentes mecanismos que a causam”. Já 
para os berlinenses Karl Abraham, Hanns Sachs e Max Eitingon, esses 
indivíduos só deveriam ser admitidos se tivessem “outras qualidades a 
seu favor”. (Oliveira, 2016, p. 39) 
 Com isso, conclui-se que o principal problema é o risco de apropriação e 
simplificação da teoria psicanalítica (podendo ampliar essa simplificação para 
outros discursos que fazem parte do saber histórico da humanidade) para 
discurso com viés preconceituoso, intolerante e parcial. Já discutimos no caso 
Dora como ela sofria por se sentir reprimida intelectualmente, pela frustração de 
sua condição como mulher na sociedade e, portanto, com o casamento como 
sua única opção. Da mesma forma, Freud (1905) também comenta em seu texto 
sobre o risco de desenvolvimento de psicopatologias em filhos de pais 
separados, algo que na época era considerado um desvio familiar. Ayouch e 
Bulamah (2013) trouxeram uma série de exemplos ao longo da história da IPA, 
dentre outras instituições ao redor do mundo, nas quais somente em 1992 foi 
possível que essa exclusão caísse e as instituições finalmente aceitassem a 
 
 
14 
presença de homossexuais. Assim podemos concluir que modelos teóricos são 
protótipos que precisam ser constantemente revistos e adaptados, ou como 
psicanalistas incorreremos no risco de nos colocarmos fora de contexto, fora 
daquilo que é relevante, pertinente e adequado para a sociedade atual e para 
nossos clientes, criando assim um falso problema, ou seja, uma questão que não 
pertence de fato à psicanálise e que não deveria ser considerada um problema 
em si. Não é a homoafetividade que traz uma falha de caráter ou social, ou 
mesmo fazendo parte de um erro genético; são as escolhas que fazemos, que 
provocam dor e constrangimento no outro, que precisam ser vistas como um 
problema real, tanto do ponto de vista da psicanálise quanto da sociedade como 
um todo. 
FINALIZANDO 
Nosso objetivo foi trazer de maneira detalhada o estudo de Freud “Três 
Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”, emblemático para compreendermos o 
desenvolvimento psicossexual infantil e a formação sexual de homens e 
mulheres. Embora alguns tópicos pretendam ser tratados somente em outras 
aulas, como o Complexo de Édipo e o sadismo-masoquismo, alguns desses 
tópicos foram mencionados aqui para que os alunos compreendam sua conexão 
com o tema desenvolvido na aula de hoje uma vez que, ao longo da construção 
da teoria psicanalítica, Freud foi, aos poucos, revisitando e aprofundando sobre 
cada um desses conceitos, até que fosse possível ter uma proposta mais 
coerente sobre a estrutura do aparelho psíquico, a dinâmica das estruturas 
psíquicas e dos principais transtornos, e sobre a prática clínica. Os conceitos 
mais importantes apresentados aqui foram o conceito de libido, os tipos de 
desvios dessa libido (ao objeto e ao alvo), a natureza bissexual da criança e sua 
disposição perverso-polimorfa, as fases do desenvolvimento (oral, anal, fálica e 
genital), o período de latência, zonas erógenas/ pulsões parciais, as perversões 
e as psiconeuroses no desenvolvimento infantil, a amnésiainfantil como 
protótipo da amnésia neurótica, a diferença entre pulsões sexuais e pulsões de 
autoconservação, o complexo de castração/ inveja do pênis, o complexo de 
Édipo e a curiosidade infantil, a libido narcísica (ou do ego) versus libido do 
objeto e a função da masturbação na infância, e a necessidade de contextualizar 
a teoria psicanalítica na sociedade, enquadrando e ponderando temas dentro do 
período histórico em que foram analisadas. 
 
 
15 
Esperamos que tenha aproveitado as discussões apresentadas aqui para 
conhecer um pouco mais das origens da psicanálise, e o convidamos a continuar 
acompanhando as aulas para saber mais sobre esse campo do saber tão 
envolvente como é a psicanálise. 
 
 
 
16 
REFERÊNCIAS 
APA. American Psychiatric Association. Diagnostic and statistical manual of 
mental disorders DSM-5. Washington: APA, 2013. 
AYOUCH, T.; BULAMAH, L. C. A homossexualidade dos analistas: história, 
política e metapsicologia. Revista Percurso, n. 51, dezembro 2013, p. 115-126. 
FREUD, S. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de 
Sigmund Freud (1886-1899) – livro VII. Rio de Janeiro: Imago, 1977. 
GARCIA-ROZA, L. A. Introdução à metapsicologia freudiana. Rio de Janeiro: 
Jorge Zahar, 1995. v. 1, v. 2 e v. 3. 
LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. B. Vocabulário da psicanálise. 4. ed. São 
Paulo: Martins Fontes, 2001. 552 p. 
OLIVEIRA, A. A psicanálise “no armário”. Revista Psico. USP, n. 2/3, jul. 2016. 
p. 38-42. 
ROUDINESCO, E.; PLON, M. Dicionário de psicanálise. Tradução de Vera 
Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. 874 p. 
WHO. World Health Organization. ICD-11, 2022. 
BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR 
BIRMAN, J. Freud e a interpretação psicanalítica. Rio de Janeiro: Relumé-
Dumará, 1991. 
MEZAN, R. Freud: a trama dos conceitos. São Paulo: Perspectiva, 1980. 350 p.

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