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DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO DA POLÍTICA CRIMINAL 
Vamos nos aprofundar nos conceitos e no desenvolvimento histórico da política criminal, 
compreendendo, desta forma, sua evolução ao longo da chamada “era clássica” e “era 
contemporânea”, traçando ainda sua estrita relação com a escola positiva e o surgimento 
da fase científica da criminologia. 
 
INTRODUÇÃO 
Olá, estudante! Durante os estudos, vamos conhecer um pouco acerca do tema Política 
Criminal. Tal assunto é de suma importância, posto que permitirá uma análise aprofundada 
da efetiva evolução do direito penal ao longo do tempo. Em um primeiro momento, vamos 
nos aprofundar nos conceitos e no desenvolvimento histórico da política criminal, 
compreendendo, desta forma, sua evolução ao longo da chamada “era clássica” e “era 
contemporânea”, traçando ainda sua estrita relação com a escola positiva e o surgimento 
da fase científica da criminologia. Por meio do presente estudo será possível o 
entendimento e a aplicação dos principais conceitos relativos à política criminal e à 
criminologia em si. 
 
CONCEITO E OBJETO DA POLÍTICA CRIMINAL 
Conceito e objeto da política criminal 
Antes de nos aprofundarmos no tema proposto, por primeiro, é de relevante importância o 
estudo dos conceitos e objetos da política criminal, posto que, somente por meio destes 
será possível a compreensão fundamental do fenômeno jurídico. 
A fim de possibilitar o entendimento do tema, vamos conceituar a política criminal de duas 
formas: em sentido estrito e em sentido amplo. Em sentido estrito a política criminal pode 
ser definida como um determinado conjunto de princípios e normas, por meio do qual o 
Estado providência a prevenção e repressão da criminalidade e das infrações penais. 
Em sentido amplo, ou seja, em um panorama geral, a política criminal deve ser considerada 
como os mecanismos utilizados para a efetiva execução das penas (política de execução 
penal) e aplicação das medidas de segurança com vistas ao atendimento do interesse 
social e ressocialização do criminoso (política penitenciária). 
A respeito do tema, Fernanda Lara de Carvalho (2016) aponta que a política criminal, 
embora não tenha status de ciência, é responsável pela efetivação das descobertas 
realizadas pela criminologia, ou seja, cabe à política criminal colocar em prática, por meio 
de políticas públicas, os mecanismos para controle da criminalidade de acordo com o perfil 
da cidade ou de regiões da cidade, por exemplo. 
Atenção! 
É importante ressaltar que o objeto da política criminal não se limita a uma simples análise 
da problemática relativa à repressão de crimes, mas sim, de todo um conjunto de técnicas 
por meio das quais a própria sociedade e seus governantes estruturam as reações à 
criminalidade urbana, assim, se pode concluir que a repressão, enquanto ramo do direito, 
não é em hipótese alguma o único instrumento da política criminal e sequer o mais 
recomendado. Existem diversas medidas de caráter estritamente político que podem ser 
empregadas visando a atenuação da criminalidade, incluindo investimentos em programas 
educacionais de sociais focados na diminuição da desigualdade social. 
O autor Paulo Henrique de Godoy Sumariva (2019) ao tratar de política criminal sob o 
enfoque da criminologia, é enfático ao definir que esta se orienta em: 
Prevenção especial e direta dos crimes socialmente relevantes. 
Intervenção relativa às suas manifestações e aos seus efeitos graves para determinados 
indivíduos e famílias. 
A prevenção e a intervenção dirigidas implicam objeto individualizado e comprovado. 
Por fim, podemos concluir que o estudo da política criminal é de suma importância para o 
desenvolvimento das estratégias de combate à criminalidade, quando do ponto de vista da 
repressão e, principalmente para o avanço de políticas relacionadas à ressocialização do 
preso e ao avanço de políticas públicas de controle e redução da criminalidade decorrente 
da implantação de programas sociais que visem a diminuição da desigualdade social em 
âmbito nacional. 
Aula vídeo explicando o conceito e objeto da política criminal, demonstrando a importância 
de seu estudo frente a outros conteúdos próximos. 
Videoaula: Conceito e objeto da Política Criminal 
 
A POLÍTICA CRIMINAL DA ERA CLÁSSICA 
A política criminal da era clássica 
Ao tratarmos do estudo da política criminal no âmbito de direito, impossível não iniciarmos 
por uma análise dos aspectos relevantes ao tema na era clássica. A denominada “Escola 
Clássica” surgiu no século XVIII como uma espécie de resposta ao totalitarismo do Estado 
Absolutista. A Escola Clássica possuiu clara inspiração no antropocentrismo, impondo que 
o Direito seria imperativo da razão. Os principais pensamentos e fundamentos desta escola 
foram concebidos por Cesare Beccaria, por meio de sua obra denominada Dei delitti e delle 
pene (dos Delitos e das Penas), sendo posteriormente aprimorados por outros autores 
como Anselm von Feuerbach, Immanuel Kant e Francesco Carrara. 
Os membros da Escola Clássica pregavam o livre arbítrio, fundamentando que os homens 
podem escolher livremente o caminho que querem seguir, seja ele bom ou ruim, porém, 
caso a escolha realizada recaia sobre o caminho ruim e seus atos sejam reprováveis, este 
homem, detentor do livre arbítrio cuja escolha recaiu sobre o caminho do mal deve ser 
submetido a uma pena como forma de castigo. 
A revolução francesa em 1789 culminou com a queda do sistema político e social da França 
denominado Antigo Regime e com as ideologias que lhe serviam de fundamento, ou seja, 
a estrutura de poder anteriormente utilizada, baseada no exercício de um poder absoluto e 
de caráter religioso por parte do soberano, teve fim. Até por isso, a política criminal no final 
do século XII e início do século XIII foi objeto de relevantes mudanças, principalmente ante 
ao surgimento da prisão como forma de pena. 
Reflita 
É importante ressaltar que a prisão já existia, porém, anteriormente a este marco era 
utilizada provisoriamente, apenas com a finalidade de promover a segregação cautelar de 
um suspeito ou réu até seu efetivo julgamento e aplicação da pena devida. 
De ponto de vista cultural este período também passou por fortes e relevantes mudanças, 
principalmente no que concerne a aceitação dos fenômenos científicos e o fim dos 
fundamentos de caráter estritamente religiosos ou divinos. 
Promovendo uma análise antropológica a política criminal e da aplicação das penas no 
período clássico, resta claro que a intenção do sistema prisional à época era de tornar 
absolutamente controláveis ou até mesmo dóceis, aqueles que representavam ameaça ao 
poder. 
As políticas criminais na era clássica possuíam como objetivo primordial a efetiva 
prevenção a criminalidade, porém, o sistema criado utilizava principalmente o temor das 
pessoas pela ameaça da aplicação de determinada pena, o que foi denominada de 
“prevenção geral” ou ainda, a ameaça de isolamento ou trabalho forçado, denominado de 
“prevenção especial”. 
Em que pesem os avanços no campo da política criminal trazidos pela Escola Clássica, no 
período estudado, principalmente no que concerne ao fim do exercício do poder absoluto 
embasado na religião, é de se ressaltar que não houve a abolição, por parte deste 
movimento, da pena de morte, sendo que esta continuou a ser aplicada, porém apenas em 
algumas hipóteses específicas. 
Aula vídeo tratando da evolução histórica da política criminal e seus aspectos relevantes 
na era clássica pós-revolução francesa. 
 
POLÍTICA CRIMINAL E A ESCOLA POSITIVA 
Política criminal e a escola positiva 
Após o desenvolvimento histórico da política criminal ocorrido na era clássica pós-revolução 
francesa e seus avanços, principalmente no campo das penas, passamos a tratar da 
política criminal na era científica com enfoque na escola positiva de direito. 
A Escola Positiva de direito surgiu no final do séculoda Justiça Restaurativa face a Justiça Retributiva. 
 
ABOLICIONISMO PENAL 
Ao tratarmos de políticas criminais não repressivas em espécies, indispensável abordar o 
tema sob a ótica do abolicionismo penal. 
O abolicionismo penal, no que tange a sua inserção no ramo das políticas não repressivas, 
defende um discurso pautado na premissa de que o modelo penal tradicional cria mais 
problemas do que soluções efetivas, frisando que a função intimidatória da pena não 
cumpre seu objetivo, servindo apenas como espécie de desculpa para a intervenção estatal 
na liberdade individual. 
Michel Foucault, em sua obra Vigiar e Punir: Nascimento da Prisão (1975), ao tratar da 
segregação dos indivíduos na prisão como forma de cumprimento de pena, adota um 
pensamento parcialmente abolicionista, defendendo que a humanidade deveria adotar 
formas diversas de lidar com as dificuldades advindas da vida em sociedade, concluindo 
que uma instância superior, no caso o próprio judiciário, é incapaz de, por si só, dirimir os 
conflitos da convivência social. 
Acerca do fracasso da prisão enquanto instituição, Alessandro Barata (2014, p. 203) é 
didático ao apontar a insuficiência desta no efetivo controle da criminalidade: 
 
Uma análise realista e radical das funções efetivamente exercidas pelo cárcere, isto é, uma 
análise do gênero daquela aqui sumariamente traçada, a consciência do fracasso histórico 
desta instituição para os fins de controle da criminalidade e da reinserção do desviante na 
sociedade, do influxo não só no processo de marginalização de indivíduos isolados, mas 
também no esmagamento de setores marginais da classe operária, não pode deixar de 
levar a uma consequência radical na individualização do objetivo final da estratégia 
alternativa: este objetivo é a abolição da instituição carcerária. 
É impossível tratar do abolicionismo penal sem abordar os estudos do sociólogo norueguês 
Thomas Mathiesen. O autor defende a vertente abolicionista penal do ponto de vista 
marxista e foi presidente da Associação Norueguesa para a Reforma Penal, cujo objetivo, 
segundo Mathiesen (2015, p. 46) é: 
A longo prazo, mudar o pensamento geral a respeito do castigo e substituir o sistema 
penitenciário por medidas mais modernas e adequadas. A curto prazo, derrubar todos os 
muros que não sejam necessários: humanizar as diferentes formas de detenção e aliviar o 
sofrimento que a sociedade infringe aos detentos. 
Thomas Mathiesen, enquanto percursor da vertente marxista do abolicionismo, listou oito 
argumentos para a extinção das prisões, que resumidamente, dizem respeito a ineficácia 
destas na prevenção criminal, a superpopulação carcerária e o tratamento desumano que 
reflete uma crença social de violência. 
O abolicionismo, enquanto política criminal voltada à atuação não repressiva do Estado, 
tem por premissa que o Sistema Penal é defeituoso e responsável por uma ampla gama de 
efeitos negativos sob os sujeitos a ele submetidos, razão pela qual sua abolição é medida 
indispensável à garantia da dignidade da pessoa humana, propondo, desta forma, a adoção 
de meios alternativos para a resolução de litígios. 
O abolicionismo não tem por objeto primordial acabar com as prisões, mas sim, com o 
sistema penal como um todo, visando pôr um fim às relações de poder pautadas no castigo, 
principalmente diante do caráter seletivo e estigmatizante deste sistema. 
Aula vídeo com explanações aprofundadas sobre a Teoria do Abolicionismo Penal, pautado 
nas críticas de Focault e nos argumentos de Thomas Mathiesen. 
 
MINIMALISMO 
Das políticas criminais não repressivas, talvez a que possua mais destaque, sem sombra 
de dúvidas, é o minimalismo penal. 
Ao contrário das bases que alicerçam o abolicionismo com sua defesa do fim efetivo do 
sistema penal, as bases do minimalismo mantêm a existência deste sistema 
institucionalizado, porém, defendem a intervenção mínima do Estado enquanto detentor do 
poder punitivo. 
Os defensores da política minimalista entendem que intervenção do Estado na liberdade 
individual do sujeito é gravíssima, sendo preferível a adoção de medidas punitivas 
alternativas em casos menos graves, como forma de proteção aos direitos e às garantias 
fundamentais, sendo que a privação de liberdade, se preservada, deve ser reservada 
apenas para casos cuja sua aplicação seja indispensável como nos crimes contra a vida. 
A respeito do assunto, o jurista italiano Luigi Ferrajoli (2006, p. 383-384) é enfático: 
A justiça penal, com o caráter inevitavelmente desonroso de suas intervenções, não pode 
ser incomodada e, sobretudo, não pode incomodar os cidadãos por fatos de escasso relevo, 
como o são a maior parte dos atualmente castigados com simples multas. 
Ferrajoli, em sua concepção minimalista aponta que as intervenções penais deveriam ser 
reservadas apenas para as hipóteses em que o Estado não possa dispor de meios diversos 
para a solução do conflito, expondo que o Direito Penal, ao invés de repressivo e 
intervencionista, deveria ter caráter subsidiário, focando-se assim, no instituto da 
despenalização. 
Cabe lembrar que a despenalização objetiva a adoção de penas alternativas como forma 
de sanção decorrente de um ato ilícito cometido. Nesta seara, a Lei Federal nº 9.099/95 
(que dispõe sobre os Juizados Especiais Cíveis e Criminais e dá outras providências) 
consagrou-se como eficaz instrumento da despenalização, ao ponto que definiu, em seu 
art. 61, como infrações penais de menor potencial ofensivo, as contravenções penais e os 
crimes a qual a lei comine pena máxima não superior a 2 (dois) anos. 
A Lei dos Juizados Especiais trouxe importantes medidas voltadas à despenalização, como 
a composição de danos civis e a transação penal, previstas respectivamente no art. 74 e 
76 daquela lei. 
O minimalismo ao defender a intervenção mínima do Estado, tem por base a maximização 
das liberdades individuais com a redução da violação aos diretos fundamentais e a própria 
violência Estatal praticada contra a população. 
Desta feita, sob a ótica do minimalismo, Heleno Cláudio Fragoso (2006, p. 17) explana que 
a política criminal moderna é voltada a descriminalização e desjudicialização, tendo por 
objetivo a minimização da atuação punitiva estatal, posto que as condutas ilícitas menos 
gravosas podem ser reprimidas sem a adoção da prisionalização como meio punitivo, 
interferindo, desta forma, o mínimo possível nas liberdades individuais dos cidadãos. 
Por fim, é possível concluir que o minimalismo penal, diferente do abolicionismo, não busca 
o fim do Direito Penal, o que de fato nos parece utópico, mas sim, a redução da intervenção 
Estatal com a consequente desburocratização do sistema por meio de medidas alternativas, 
visando, desta forma, a preservação da dignidade humana e das garantias constitucionais 
de cada cidadão. 
 
Saiba mais 
OLIVEIRA, S. R. M.; SANTANA, S. P. de; CARDOSO NETO, V. Da justiça retributiva à 
justiça restaurativa: caminhos e descaminhos. Clique aqui para acessar. 
KULLOK, A. L. B. O abolicionismo penal segundo Louk Hulsman. Clique aqui para acessar. 
Aula vídeo relativa à política criminal minimalista, com explanações acerca de sua 
aplicabilidade no direito penal moderno. 
 
JUSTIÇA RESTAURATIVA 
A fim de tratar do tema “Justiça Restaurativa” é necessário, por primeiro, abordar as formas 
de resposta à situação criminal: a retributiva e a restaurativa. 
A justiça retributiva age sob o enfoque de que a resposta para a violação da lei penal é a 
punição, desta forma, as medidas adotadas no âmbito da justiça retributiva são voltadas à 
repressão e aplicação de sanção, incutindo assim, o temor da pena como forma de 
prevenção à criminalidade. 
A justiça restaurativa, por sua vez, não é focada na efetiva punição do acusado ou na 
premissa do medo, mas sim, na forma como o bem jurídico afetado pode ser restaurado. 
Assim, a justiça restaurativa se volta às necessidadesdos envolvidos na lide, sob o enfoque 
de promover a chamada “paz social”, preservando, deste modo, a dignidade das partes. 
O Promotor de Justiça Marcelo Gonçalves Saliba, em seu livro Justiça Restaurativa e 
Paradigma Punitivo (2009, p. 146), ao tratar da origem da Justiça Restaurativa, remonta 
suas raízes ao início da própria sociedade: 
A Justiça Restaurativa não é criação da modernidade ou pós-modernidade, já que a 
restauração é um processo existente nas mais antigas sociedades e ainda vigente em 
diversos sistemas sociais e comunitários. Na modernidade, o Estado, dentro da estrutura 
atual, foi concebido deitando suas raízes em Hobbes, Rousseau e Locke e a concentração 
da resolução dos conflitos com a razão iluminista, sepultou qualquer forma de resolução de 
litígio por método não científico. 
A Organização das Nações Unidas, por meio de seu Conselho Econômico e Social, desde 
1999 recomenda aos Estados membros a efetiva implementação da Justiça Restaurativa, 
tendo publicado, inclusive, a Resolução 2002/12 (ONU, 2002), dispondo sobre os Princípios 
Básicos para Utilização de Programas de Justiça Restaurativa em Matéria Criminal e 
enfatizando que a “justiça restaurativa evolui como uma resposta ao crime que respeita a 
dignidade e a igualdade das pessoas, constrói o entendimento e promove harmonia social 
mediante a restauração das vítimas, ofensores e comunidades”. 
No âmbito nacional, o Conselho Nacional de Justiça, visando dar atendimento a 
recomendação da Organização das Nações Unidas, expediu a Resolução nº 225 de 
31/05/2016 (CNJ, 2016), dispondo sobre a Política Nacional de Justiça Restaurativa no 
âmbito do Poder Judiciário, definindo a Justiça Restaurativa como “um conjunto ordenado 
e sistêmico de princípios, métodos, técnicas e atividades próprias, que visa à 
conscientização sobre os fatores relacionais, institucionais e sociais motivadores de 
conflitos e violência”. 
A mencionada resolução é didática ao apontar que, visando a efetiva implantação da justiça 
restaurativa, os conflitos devem ser solucionados com a participação do ofensor, da vítima, 
de seus familiares e de quem mais estiver envolvido no fato danoso, bem como de um ou 
mais facilitadores restaurativos. 
Assim, a justiça restaurativa, enquanto política criminal não repressiva, é voltada a solução 
alternativa de conflitos podendo, inclusive, englobar o minimalismo e até mesmo o 
abolicionismo penal, posto que visa a desburocratização e a desprisionalização, 
aumentando o enfoque nas causas sociais e restituição do bem jurídico afetado. 
Aula vídeo versando sobre as nuances da Justiça restaurativa e sua aplicabilidade em 
âmbito nacional. 
 
A JUSTIÇA RESTAURATIVA FACE A JUSTIÇA RETRIBUTIVA 
Como já sabemos, a justiça retributiva age sob o enfoque de que a resposta para a violação 
da lei penal é a punição, assim, as medidas adotadas no âmbito da justiça retributiva 
possuem caráter repressivo. 
De modo diverso, a justiça restaurativa não possui por objetivo a aplicação de sanção, mas 
sim, de restauração do bem jurídico afetado. 
Traçando um comparativo entre as duas espécies de resposta ao fenômeno criminal, é de 
fácil percepção que a justiça retributiva, ante ao seu caráter repressivo, vê o delito como a 
pura e simples violação da lei, excluindo da equação as partes relevantes para a justiça 
restaurativa, quais seja, a vítima e sociedade. 
Sob a ótica retributiva, o Estado, por meio do efetivo exercício de seu poder punitivo, busca 
demonstrar sua força, retribuindo uma punição com o objetivo de causar medo e, desta 
forma, prevenir e reprimir a ocorrência de outras condutas delituosas. 
A justiça restaurativa, por sua vez, pode ser traduzida como clara evolução da justiça 
retributiva, ao passo que passa a se importar não com demonstrações de poder, mas sim, 
com o diálogo entre os agentes envolvidos no evento danoso e a efetiva restauração do 
bem jurídico afetado. 
O autor Sérgio Salomão Shecaira (1995, p. 108) ao analisar a justiça retributiva sob a ótica 
da efetividade da aplicação das penas de prisão, é didático ao concluir pela sua ineficiência, 
apontando que os instrumentos de ressocialização são muito mais eficazes do que a 
aplicação de penas mais severas: 
Com o respeito à dignidade do cidadão ao se imporem, as penas podem-se chegar a metas 
muito mais efetivas na educação dos membros da sociedade do que se impondo penas 
mais e mais exacerbadas. A prevenção geral positiva, permeada por critérios de 
proporcionalidade e secundada pela perspectiva de reinserção social, com respeito ao 
direito de pensamento crítico de cidadão, nos parece à ideia mais atual de um sistema 
criminal moderno. 
No atual contexto político criminal, a justiça restaurativa surge como forma de contraposição 
lógica da justiça retributiva, até porque, a ressocialização pretendida por meio da pena 
aplicada no modelo retributivo não vem sendo alcançada, o que poderia levar ao 
entendimento de falência do próprio sistema penal propriamente dito. 
Neste sentido, Raquel Tiverton (2014, p. 125), ao discorrer acerca da cidadania na dicção 
do direito e a construção de um novo paradigma da justiça criminal é enfática ao apontar 
que o atual sistema é ineficaz, “seja porque a reação ao crime não tem sido rápida, eficaz 
e capaz de prevenir novos delitos, seja porque a alegada finalidade de “ressocialização” do 
ofensor, se considerada como forma de intervenção benéfica e positiva nele, também não 
tem sido alcançada. 
Ante ao exposto, é possível concluir que a aplicação da justiça restaurativa em oposição ao 
atual modelo retributivo, é medida que visa resguardar os interesses das partes 
efetivamente envolvidas na situação danosa e objetiva, acima de tudo, resguardar a 
dignidade da pessoa humana e os preceitos e garantias fundamentais protegidos por nossa 
Constituição Federal. 
Aula vídeo com análise acerca do modelo retributivo de justiça em comparação com o 
modelo restaurativo, apontando as nuances e vantagens de cada um destes. 
 
ESTUDO DE CASO 
Imagine o estudante estando na figura de um defensor nos autos de um processo de crime 
de dano consumado, tendo que apresentar uma proposta em que haja menor invasão do 
Estado na liberdade do autor do delito. Tendo em vista as premissas estudadas, o 
estudante deve sugerir o melhor posicionamento do Estado, sob a ótica das justiças 
retributiva e restaurativa, frente a um crime que afeta o bem jurídico patrimonial. 
 
RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO 
É esperado que o estudante, tomando por base o conteúdo teórico estudado, inicie sua 
dissertação apontando que o Estado, do ponto de vista da justiça retributiva, age sob o 
enfoque de que a resposta para a violação da lei penal é a punição, assim, as medidas 
adotadas no âmbito da justiça retributiva possuem caráter repressivo, razão pela qual, face 
a ocorrência de um crime patrimonial, a resposta esperado do estado é a investigação, 
identificação do responsável e sua efetiva punição, visando assim coibir a reiteração da 
conduta criminosa, fazendo com que o sujeito punido sirva de exemplo. 
O estudante deve apontar ainda que o Estado, do ponto de vista da justiça restaurativa não 
possui por objetivo a aplicação de sanção, mas sim, de restauração do bem jurídico afetado, 
dando maior atenção, desta forma, ao diálogo entre os agentes envolvidos no evento 
danoso e a efetiva restauração do bem jurídico afetado. Com isso, a resposta esperada por 
parte do Estado em cumprimento ao modelo restaurativo, é organizar e mediar a 
comunicação entre os envolvidos visando a restituição do bem e a repressividade mínima. 
Visando apresentar uma proposta em que haja menor invasão do Estado na liberdade do 
sujeito, o estudante deve apontar a possibilidade de aplicação da Lei nº 9.099/95 em crimes 
de menor potencial ofensivo, enfatizando, inclusive, a possibilidade de composição civil do 
dano, prevista no art. 74 da mencionada leie seu caráter restaurativo como instrumento 
desmotivador de privação de liberdade. 
 
POLÍTICAS CRIMINAIS REPRESSIVISTAS 
Vamos nos aprofundar em um tema bastante relevante, cujo estudos são indispensáveis 
para entendermos o desenvolvimento das políticas criminais não apenas em âmbito 
nacional como internacional. 
 
INTRODUÇÃO 
Olá, estudante! Vamos nos aprofundar em um tema bastante relevante, cujo estudos são 
indispensáveis para entendermos o desenvolvimento das políticas criminais não apenas 
em âmbito nacional como internacional. 
Abordaremos de modo aprofundado as políticas criminais repressivistas, como o 
movimento de lei e ordem e a política de tolerância zero, bem como faremos uma análise 
pormenorizada do chamado “Direito Penal do Inimigo”, e suas influências para a criação de 
políticas com maior tom intervencionista. 
Não menos importante, no presente estudo, discutiremos acerca da “Teoria das Janelas 
Quebradas” e suas influências no Direito Penal sob a ótica da repressividade estatal, 
ampliando nossos conhecimentos a respeito do tema. 
 
MOVIMENTOS DE LEI E ORDEM E A POLÍTICA CRIMINAL DE TOLERÂNCIA ZERO 
O movimento de lei e ordem se iniciou no decorrer dos anos de 1970 nos Estados Unidos 
da América, sob a justificativa de que, diante do exponencial aumento da criminalidade, 
seria necessária uma política de criação de novos tipos penais e aplicação severa e 
rigorosa daqueles já existentes. 
O Law and Order parte do pressuposto de que as penas possuem caráter retributivo e que 
a segregação cautelar de um indivíduo serve de reação imediata à prática de uma conduta 
criminosa. Esse movimento tinha por objetivo aprimorar a eficácia da segunda fase do 
processo de criminalização, tornando mais severa a atuação das forças policiais na busca 
pela paz social e redução da criminalidade. 
O movimento de Lei e Ordem, enquanto política penal repressiva, defende o que chamamos 
de “direito penal máximo”, ou seja, a máxima efetivação da lei penal, com a criminalização 
de mais condutas e rigidez na aplicação da lei, afastando-se a discricionariedade das 
autoridades policiais, a qual deve dar lugar a maior severidade em sua atuação. 
A “Teoria das Janelas Quebradas” e o Movimento de Lei e Ordem, em meados dos anos 
de 1990, deram origem à chamada “Política Criminal de Tolerância Zero”, em Nova York, 
nos Estados Unidos da América, por meio da adoção da tese pelo então prefeito Rudolph 
Giuliani que denominou a medida como “Programa Qualidade de Vida”. 
 A zero-tolerance policy foi uma política conservadora que visava punir desde os delitos 
mais insignificantes até os mais complexos, sob a premissa de que, com a punição dos 
pequenos delitos, os infratores deixariam de cometer crimes mais graves o que, de fato, 
trouxe uma exponencial redução da criminalidade em solo americano. 
Sergio Salomão Shecaira, atribui a origem da política de tolerância zero a um artigo 
publicado por James Q. Wilson e George Kelling, na década de 1980, intitulado Broken 
Windows: the police and neighborhood safety, Shecaira (2009, p. 166) é didático ao resumir 
o cerne da ideia criminológica por trás da relação feita entre a Teoria das Janelas 
Quebradas e a zero-tolerance policy: 
A ideia central do pensamento ali desenvolvido é o de que uma pequena infração, quando 
tolerada, pode levar ao cometimento de crimes mais graves, em função de uma sensação 
de anomia que viceja em certas áreas da cidade. A leniência e condescendência com 
pequenas desordens do cotidiano não devem ter sua importância minimizada. Ao contrário. 
Não se deve negligenciar essa importante fonte de irradiação da criminalidade violenta. 
A problemática relativa ao programa de Tolerância Zero surge justamente devido à 
seletividade do sistema penal, nesse contexto, o diplomata Benoni Belli (2004, p. 76), ao 
tratar do assunto expõe que o programa fortaleceu a “descrença na reabilitação, na busca 
das causas sociais do crime, na transformação de estruturas sociais, na superlotação da 
exclusão produzida e reproduzida diariamente nas relações sociais”. 
É possível concluir, desta forma, que o Movimento de Lei e Ordem e a Política de Tolerância 
Zero, ante ao seu caráter repressivo, tiveram importante papel na redução da criminalidade, 
porém, sua aplicação pode servir de ferramenta para o aumento da desigualdade e dá 
ensejo ao exponencial aumento da seletividade penal, posto que deixa de lado os aspectos 
sociais que envolvem o fato criminoso, focando-se quase que exclusivamente na retribuição 
penal e no medo como formas de prevenir a criminalidade. 
Aula vídeo com explanações aprofundadas relativas aos Movimentos de Lei e Ordem e a 
Política Criminal de Tolerância Zero com enfoque em seu desenvolvimento e em sua 
aplicabilidade. 
 
TEORIA DAS JANELAS QUEBRADAS 
Criada por James Q. Wilson e George Kelling em 1984 e tomando por base a Escola de 
Chicago, a The Broken Wndows Theory é uma teoria criminológica que defende, em suma, 
que a existência de sinais visíveis de desordem ou crime, encorajam o cometimento de 
outros delitos ou a expansão da desordem. 
As premissas trazidas pela Teoria da Janela Quebrada foram criadas com base no 
experimento social realizado pelo psicólogo e professor Philip Zimbardo em 1969. Tiago Ivo 
Odon (2016, p. 2) descreve o experimento: 
Foram deixados dois automóveis idênticos (mesma marca, modelo e cor) em uma via 
pública – um no Bronx, então uma zona pobre e conflituosa de Nova Iorque, e o outro em 
Palo Alto, zona rica e tranquila da Califórnia. O carro abandonado no Bronx começou a ser 
vandalizado em poucas horas. Levaram tudo que pudesse ser aproveitado, e o que não foi 
possível levar foi destruído. O automóvel em Palo Alto, por sua vez, manteve-se intacto, até 
que os investigadores, após uma semana, quebraram uma das janelas do carro. Então 
desencadeou-se o mesmo processo observado no Bronx. O carro foi destroçado por grupos 
vândalos em poucas horas. 
Por meio do experimento desenvolvido, foi possível concluir que a aparência de abandono 
do veículo influenciou a comunidade local ou transeuntes a vandalizarem o automóvel, 
criando uma espécie de reação em cadeia, demonstrando que, caso a janela do veículo 
tivesse sido reparada, tal situação não seria desencadeada. 
Trazendo a Teoria das Janelas Quebradas para o campo da criminologia, constatou-se que, 
ao reprimir delitos menos graves poderíamos evitar a prática de delitos complexos e até 
mesmo violentos. 
Neste aspecto, temos que o sentimento de que não há autoridades que zelem pelo bem-
estar social ou mesmo que se importem em coibir práticas criminosas, cria o sentimento de 
decadência social, capaz de desencadear a prática de atitudes reprováveis até mesmo por 
pessoas cumpridoras da Lei. 
O estudo da Teoria das Janelas Quebradas nos permite concluir que a criminalidade não 
está atrelada diretamente às condições sociais de determinado grupo, mas sim, às efetivas 
condições de abandono de um determinado local, ou seja, caso o Poder Público deixe de 
prestar serviços públicos em uma região ou abandone a manutenção de um equipamento 
público, gradativamente este local será abandonado pela própria população e, 
consequentemente, tomado por criminosos. 
De igual forma, sob a ótica da Teoria das Janelas Quebradas, caso um delito de menor 
complexidade não seja punido com os rigores da lei, a sensação de descaso do poder 
público face a população, fatalmente, ensejaria a prática de condutas delituosas mais 
complexas e gravosas. 
Com base na Teoria sob análise, foram criadas políticas criminais repressivas e que, por 
muitas vezes, acabaram violando direitos e garantias fundamentais, como o Movimento de 
Lei e Ordem e a Política de Tolerância Zero, que, ante ao caráter seletivista do sistema 
penal, acabaram por estigmatizar a população pertencente a classes sociais menos 
favorecidas. 
Aula vídeo versando sobre a Teoria das JanelasQuebradas com exemplos de sua 
aplicabilidade e as consequências dela decorrente. 
 
O DIREITO PENAL DO INIMIGO - PARTE I 
O jurista alemão Günther Jakobs, na década de 1980, criou o conceito chamado de 
“Feindstrafrecht”, o Direito Penal do Inimigo, tomando por base ensinamentos trazidos 
desde o Direito Romano e as metodologias criadas pelo sociólogo Niklas Luhmann. 
A Teoria do Direito Penal do Inimigo defende que os criminosos são divididos em duas 
classes, sendo os “criminosos tradicionais” aos quais é imperiosa a aplicação do Direito 
Penal Tradicional e os “autores de crimes graves”, cujos atos são atentatórios à própria 
estrutura social, como os terroristas, criminosos sexuais, membros do crime organizado e 
autores de outros crimes graves. Para a Teoria do Direito Penal do Inimigo, esse segundo 
grupo deve ser rotulado como “inimigo da sociedade”, razão pela qual, sequer devem ser 
tratados com as benesses do Direito tradicional, ante a insuficiência deste em reprimir suas 
condutas criminosas. 
Günther Jakobs elabora a Teoria do Direito Penal do Inimigo com a premissa de que o 
sujeito delinquente, ante ao caráter de suas ações, é inimigo do Estado, não podendo ser 
considerado um cidadão, título este, que deveria ser reservado apenas aos que não se 
desviam da vida em sociedade. 
Neste sentido, Jakobs (2007, p. 26) aponta que Johann Gottlieb Fichte possui entendimento 
similar: 
Quem abandona o contrato cidadão em um ponto em que no contrato se contava com sua 
prudência, seja de modo voluntario ou por imprevisão, em sentido estrito perde todos os 
seus direitos como cidadão e ser humano, e passa a um estado de ausência completa de 
direitos. 
A doutrina dominante aponta a existência de três pilares que definem a teoria do direito 
penal do inimigo, sendo eles a antecipação da punibilidade, a desproporcionalidade das 
penas e a relativização das garantias penais. 
É importante frisar que na prática, a aplicabilidade da Teoria do Direito Penal do Inimigo 
enfrenta forte resistência constitucional, posto que algumas medidas adotadas sob o 
pretexto de proteger a ordem e a soberania, por vezes, possuem caráter totalitário e 
gravemente interventivo, como no caso da antecipação da punibilidade do sujeito, no qual 
aquele considerado como inimigo da ordem pública enfrenta a punição não apenas pelo 
ato por ele perpetrado, mas também pelo risco que oferece à sociedade. 
No que tange a desproporcionalidade da pena, a aplicação do Direito Penal do Inimigo, sob 
o manto de proteção da ordem pública, aplica penas severas àqueles tidos como inimigos, 
buscando a punição, inclusive, de atos preparatórios. 
Exemplo prático de aplicação do Direito Penal do Inimigo é o “USA PATRIOT Act”, criado 
pelo ex-presidente George W. Bush após o onze de setembro. Este Decreto permitiu a 
violação de sigilo e realização de interceptação de qualquer pessoa supostamente 
envolvida com terrorismo. Essas disposições vigoraram até meados de 2015, quando 
houve a edição do USA Freedom Act. 
Sob este aspecto, é necessária cautela na aplicação da teoria estudada, posto que a 
relativização das garantias penais e processuais, sob a ótica do direito garantista, 
descumpre o preceito fundamental de guarda da constituição e, objetivando a proteção do 
bem-estar social, acaba por macular os jurídicos tutelados pela Magna Carta. 
Aula vídeo versando sobre as nuances do Direito Penal do Inimigo e seu confronto com as 
garantias fundamentais. 
 
O DIREITO PENAL DO INIMIGO - PARTE II 
É importante ressaltar que a doutrina não é uníssona com relação à aplicabilidade da Teoria 
do Direito Penal do Inimigo. 
Uma parcela da doutrina defende que a teoria de Jakobs se trata da evolução lógica do 
direito penal e serve de resposta ao fenômeno de crescimento exponencial da criminalidade 
em âmbito mundial. 
Por outro lado, uma parcela relevante da doutrina aponta que os preceitos defendidos por 
Jakobs no âmbito da Teoria do Direito Penal do Inimigo são incompatíveis em absoluto com 
os pilares basilares do Estado Democrático de Direito e no próprio desenvolvimento da 
sociedade em si. 
As bases indissolúveis que formam o convívio em sociedade se pautam, inicialmente, na 
premissa da dignidade da pessoa humana, aspecto este que não abre margem para 
relativização. 
Celso Antônio Bandeira de Melo (2014, p. 21-22), ao analisar as nuances da Teoria do 
Direito Penal do Inimigo de Jakobs, enfatiza a clara violação a isonomia, principalmente no 
que tange ao tratamento diferenciado concedido para aqueles que seriam considerados 
“inimigos”, complementando que tal tratamento apenas seria possível se respeitadas as 
garantias e os direitos fundamentais: 
Esclarecendo melhor: tem-se que investigar, de um lado, aquilo que é adotado como critério 
discriminatório; de outro, cumpre verificar se há justificativa racional, isto é, fundamento 
lógico, para, à vista do traço desigualador acolhido, atribuir o específico tratamento jurídico 
construído em função da desigualdade proclamada. Finalmente, impende analisar se a 
correlação ou fundamento racional abstratamente é, ‘in concreto’, afinado com os valores 
prestigiados no sistema normativo constitucional. A dizer: se guarda ou não harmonia com 
ele. 
É importante lembrar que o princípio da isonomia permite o tratamento desigual para 
aqueles que se encontram em posições desiguais, porém, essa medida visa igualar aqueles 
que não possuem as mesmas condições e não como no caso do tratamento conferido pelo 
Direito Penal do Inimigo, que visa dar tratamento diverso ao criminoso em razão de sua 
periculosidade. 
O autor Aury Lopes Junior (2002, p. 64), ao analisar o direito penal sob a ótica do 
garantismo, é didático: 
Uma Constituição democrática deve orientar a democratização substancial do processo 
penal, e isso demonstra a transição do Direito passado ao Direito futuro. Num Estado 
Democrático de Direito, não podemos tolerar um processo penal autoritário e típico de 
Estado-policial, pois o processo deve adequar-se à Constituição e não vice-versa 
Ante aos aspectos apresentados, em que pese a aparente vantagem para a preservação 
da paz social, a aplicabilidade do Direito Penal do Inimigo relativiza direitos fundamentais e 
segrega ainda mais a população, afetando a própria base do Estado Democrático de 
Direito, deixando de lado a almejada justiça restaurativa e endurecendo ainda mais a 
repressividade e intervencionismo Estatal. 
Assim, sob a ótica constitucional, o legislador penal deve buscar sempre o equilíbrio entre 
a retribuição pelo fato delituoso e a garantia dos direitos fundamentais, respeitando a 
dignidade humana e o direito ao tratamento isonômico. 
 
Saiba mais 
SANTOS, M. H. dos. Uma visão garantista acerca do direito penal do inimigo. Clique aqui 
para acessar. 
VALLE, N. do.; MISAKA, M. Y.; FREITAS, R. A. da S. Uma reflexão crítica aos movimentos 
de lei e ordem – teoria das janelas quebradas. Clique aqui para acessar. 
Aula vídeo complementar relativa ao Direito Penal do Inimigo, com análise de seus 
aspectos do ponto de vista constitucional. 
 
ESTUDO DE CASO 
Tomando por base a análise realizada quanto às políticas criminais de caráter repressivo, 
o estudante deve dissertar acerca da possibilidade de aplicação do Direito Penal do Inimigo 
na hipótese de um atentado terrorista no Brasil. 
 
RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO 
Ante as premissas estudadas, é esperado que o estudante conceitue o Direito Penal do 
Inimigo com base nos entendimentos de Jakobs, pontuando que os criminosos são 
divididos em duas classes, sendo os “criminosos tradicionais” aos quais é imperiosa a 
aplicação do Direito Penal Tradicional e os “autores de crimes graves”, cujos atos são 
atentatórios à própria estrutura social, como os terroristas, frisando que, para o Direito Penal 
do Inimigo, o segundo grupo deve ser rotulado como “inimigo da sociedade”, razão pela 
qual, sequer devemser tratados com as benesses do Direito tradicional, ante a insuficiência 
deste em reprimir suas condutas criminosas. 
O estudante deve frisar que na prática, a aplicabilidade da Teoria do Direito Penal do 
Inimigo enfrenta forte resistência constitucional, posto que algumas medidas adotadas sob 
o pretexto de proteger a ordem e a soberania, por vezes, possuem caráter totalitário e 
gravemente interventivo, como no caso da antecipação da punibilidade do sujeito, no qual 
aquele considerado como inimigo da ordem pública enfrenta a punição não apenas pelo 
ato por ele perpetrado, mas também pelo risco que oferece à sociedade. 
Assim, mesmo diante da hipótese de um ato terrorista em solo brasileiro, o estudante deve 
fundamentar que não é possível a relativização dos direitos e das garantias fundamentais, 
sendo importante lembrar que a Lei nº 13.260/16 (lei antiterrorismo) traz medidas a serem 
adotadas em face de tais atos e que, mesmo diante de sua severidade, são mais brandas 
do que as propostas por Jakobs. 
 
PARADIGMAS 
Durante os estudos, analisaremos os paradigmas relativos ao processo de criminalização 
e suas nuances. 
 
INTRODUÇÃO 
Olá, estudante! Durante os estudos, analisaremos os paradigmas relativos ao processo de 
criminalização e suas nuances. 
Destaque-se que abordaremos inicialmente o paradigma etiológico sob a ótica da 
criminologia e da antropologia criminal e os reflexos da alteração deste modelo na 
sociedade moderna. 
Outro ponto relevante a ser tratado nesta aula diz respeito ao paradigma da reação social, 
seus conceitos de desvio de conduta e os efeitos que este tem sobre o a política criminal 
e, principalmente, o processo de criminalização. 
Estudaremos ainda o paradigma garantista e abolicionista, sob o aspecto sociológico e sua 
aplicabilidade na criminologia e na prática penal, seja sob a ótica da defesa ou do próprio 
Estado enquanto garantidor de direitos fundamentais. 
 
PARADIGMA ETIOLÓGICO 
A etiologia é o ramo do conhecimento dedicado à pesquisa da origem das coisas. Desta 
forma, dentro do campo da criminologia, o paradigma etiológico ganhou força com os 
estudos da antropologia e sociologia criminal. 
Sob a ótica do paradigma etiológico, compete a criminologia estudar e fornecer as 
explicações necessárias para a origem do fato criminoso e assim, apontar quais as 
soluções que podem ser adotadas para o combate à criminalidade, ou seja, a criminologia, 
por meio da etiologia, deve exercer o papel de efetiva “defesa da sociedade”. 
As duas correntes de estudo citadas deram origem ao que chamamos de “paradigma 
etiológico”. 
Cesare Lombroso foi considerado o “pai” da antropologia criminal e em seu ramo de 
estudos defendia que a criminalidade tinha origem em aspectos inatos do próprio ser 
humano, frisando que a tendência a prática de condutas delitivas tinha origem genética ou 
mesmo hereditária. 
Desta forma, do ponto de vista Lombrosiano, a origem do fato criminoso está no próprio ser 
humano, não se tratando de uma escolha, mas sim de uma herança genética. A título 
exemplificativo, em sua obra “L'uomo delinquente”, Lombroso (2001), aponta que as 
características físicas dos delinquentes são diferentes para cada delito cometido, frisando 
que os violadores, por exemplo, quase sempre possuem olhos salientes, fisionomia 
delicada, com lábios e pálpebras volumosos, enfatizando que na maior parte das vezes são 
frágeis, louros e magros. 
O autor aponta ainda que os homicidas e arrombadores, tinham cabelos crespos, maxilares 
possantes, crânio deformado, incidência de tatuagens e muitas cicatrizes. 
Já do ponto de vista de Henrique Ferri (1931), em seus estudos relativos a sociologia 
criminal, no que concerne a etiologia do fato criminoso, sustenta-se que o fato criminoso 
não advém do livre arbítrio do ser humano, mas sim da concretização de diversos fatores 
que contribuem para a criação do delinquente, sendo estes de ordem física, social e 
individual. 
Henrique Ferri diverge de Lombroso ao apontar que o crime não é produto apenas de uma 
determinada patologia individual do criminoso, sendo esta, apenas parte dos fatores que 
contribuem para o surgimento do delinquente. 
Nos dias atuais os estudos relativos à etiologia do fato criminoso vêm ganhando cada vez 
espaço, sendo atualmente mais ligada as efetivas motivações para a ocorrência do fato 
criminoso, tendo deixado de lado os aspectos físicos e passado a aceitar as argumentações 
relativas aos impactos sociais, situações socioeconômicas, dentre outras, a depender, 
especificamente, do delito cometido. 
Assim, é possível afirmar que os estudos relativos à criminologia sofreram muitas 
alterações, principalmente no que tange ao desenvolvimento do paradigma etiológico, até 
porque cada delito possui uma diferente motivação e, geralmente, não possui nenhuma 
relação com traços físicos do delinquente, mas sim, com aspectos psicossociais ligados a 
sua estrutura social, cultural, ou mesmo advindos de sua própria criação. 
Aula vídeo com explanações aprofundadas relativas ao paradigma etiológico da 
criminologia e seu desenvolvimento nos dias atuais. 
 
PARADIGMA DA REAÇÃO SOCIAL 
Ao tratarmos do chamado paradigma interacionista (ou da reação social), estamos diante 
da análise, do ponto de vista da criminologia, de como as interações sociais entre os 
indivíduos afetam a construção do delito e criação do próprio criminoso. 
Sob este aspecto, o autor Alessandro Baratta (2002, p.87) é didático: 
Segundo o interacionismo simbólico, a sociedade – ou seja, a realidade social – é 
constituída por uma infinidade de interações concretas entre indivíduos, aos quais um 
processo de tipificação confere um significado que se afasta das situações concretas e 
continua a estender-se através da linguagem. Também segundo a etnometodologia, a 
sociedade não é uma realidade que se possa conhecer sobre o plano objetivo, mas o 
produto de uma ‘construção social’. Obtida graças a um processo de definição e de 
tipificação por parte dos indivíduos e de grupos diversos. 
Assim, no que concerne ao modelo da reação social, a origem do crime se dá por meio de 
uma construção social, ou seja, a comunidade passa a ver que determinado ato fere seus 
costumes ou afeta suas relações, impondo, desta forma, que a prática deste ato é um crime 
e deve ser punida. 
O Paradigma da reação social impõe mudanças bruscas no estudo da criminologia, até 
porque, deixa de dar enfoque ao estudo do sujeito criminoso e as razões que o levam a 
cometer a conduta desviante e passa a dar maior atenção as condições da criminalização, 
ou seja, quais as condições determinantes que fazem com que o indivíduo possa ser 
considerado um criminoso. 
A autora Vera Regina Pereira de Andrade (1997, p. 204), ao tratar sobre o paradigma da 
reação social, é enfática: 
A sociedade não é uma realidade que se possa conhecer objetivamente, mas o produto de 
uma “construção social” obtida mediante um processo de definição e de tipificação por parte 
dos indivíduos e grupos diversos. 
O paradigma da reação social é intrinsecamente ligado a Teoria do Etiquetamento Social 
(labelling approach) ao passo que esta faz uma espécie de interligação entre os conceitos 
de crime e criminoso e o próprio comportamento social, considerando seus costumes e 
valores socialmente aceitos, sob o argumento de que estes sim, seriam os criadores das 
chamadas etiquetas sociais, em detrimento do ato criminoso em si. 
Ante a tais assertivas é possível concluir que, do ponto de vista do paradigma da reação 
social, o fato criminoso deixa de ser uma simples construção teórica relativa a violação do 
regramento penal, passando a ser vista sob o enfoque de uma efetiva reação social a 
determinada conduta, ou seja, um comportamento da própria sociedade face a prática de 
uma conduta moralmente reprovável. 
Desta forma, a própria evolução dos conceitos e parâmetros sociais servem de balizadorespara o processo de criminalização que, seguindo o modelo da reação social, atendem aos 
anseios e tendências da própria sociedade. 
Aula vídeo tratando do paradigma da reação social e seus efeitos sobre o processo de 
criminalização. 
 
PARADIGMA GARANTISTA 
O paradigma garantista serve de base para o próprio sistema penal, ao passo que serve de 
efetivo limitador para os poderes do próprio Estado enquanto detentor do poder 
investigativo e punitivo. 
Este modelo aponta a necessidade de que o processo penal, tanto em suas fases iniciais 
quanto na efetiva aplicação de uma pena, observe as garantias e direitos fundamentais 
previstos na Constituição Federal. 
Ao tratar do garantismo, Alfredo Copetti Neto (2016, p. 23) conceitua o termo, apontando 
se tratar de uma espécie de outra face do constitucionalismo, senão vejamos: 
O termo garantismo representa, como a outra face do constitucionalismo contemporâneo, 
o fundamento da democracia constitucional e, assim, o modelo normativo jurídico que visa 
à efetivação dos direitos fundamentais cuja extensão comporta: da vida à liberdade pessoal, 
da liberdade civil e política às expectativas sociais de subsistência, dos direitos individuais 
àqueles coletivos. 
O modelo garantista é fortemente defendido pelo jurista Luigi Ferrajoli (1998), que aponta 
que este paradigma surge exatamente da incapacidade do Estado de manter a harmonia 
entre suas atuações pela via administrativa ou as atuações de suas instituições policiais e 
as suas próprias normas jurídicas. Assim, o garantismo visa adequar a atuação Estatal com 
as normas por ele mesmo impostas, fazendo uma espécie de junção entre normatividade 
e efetividade. 
É importante ressaltar que as influências do paradigma garantista não se limita ao campo 
do Direito, estendendo-se até mesmo no que tange a matéria política, posto que seus 
postulados têm por objetivo a ampliação da liberdade enquanto direito fundamental e a 
redução exponencial da violência. Sob este enfoque, o papel de punidor é mantido com o 
Estado, posto que, o faria visando garantir os direitos da maioria. 
Cabe lembrar que, enquanto arduamente defendido por Ferrajoli (1998, p. 851), o 
paradigma garantista é modelado sob o aspecto de “modelo normativo de direito”, que tem 
como princípio basilar a legalidade, guardando assim, estrita relação com as bases do 
próprio Estado Democrático de Direito. 
A fim de dar validade e eficácia ao direito propriamente dito, o paradigma garantista impõe 
a necessidade de cumprimento de aspectos substanciais e formais, sem os quais, a própria 
eficácia normativa estaria em risco. Sob esta ótica, impende lembrarmos do pensamento 
Kelsiniano acerca da validade normativa, ou seja, a validade de uma determinada norma 
estaria integrada ao cumprimento de outra norma. 
Ante a tais preceitos, seguindo o paradigma garantista, o Estado não poderia, por exemplo, 
valer-se de uma confissão obtida mediante tortura, até porque, a obtenção deste meio 
probatório desrespeita as bases constitucionais e a própria finalidade Estatal de garantia 
de direitos fundamentais, assim, não pode o Estado valer-se de tal expediente sob o 
argumento de garantia de direitos. 
Desta forma, o paradigma garantista tem por objetivo criar um verdadeiro equilíbrio entre 
validade e eficácia, não apenas no campo teórico, mas também na aplicação prática do 
direito. 
Aula vídeo com conteúdo complementar a respeito do paradigma garantista. 
 
PARADIGMA ABOLICIONISTA 
Ao tratarmos do paradigma abolicionista, estamos diante de um modelo radicalizado, que 
deve ser tratado com a devida cautela. 
O paradigma abolicionista defende que o próprio sistema de persecução penal, enquanto 
ferramenta estatal de punição, serve de criador de injustiças e desigualdades sociais, ao 
passo que, se trata de ferramenta com caráter seletivo e voltada a defesa das elites. 
Cabe frisar que o paradigma abolicionista é divido em três distintas vertentes, como aponta 
Sergio Salomão Shecaira (2018), sendo elas a “anarquista”; a “marxista” e a “liberal”. 
Em análise a vertente anarquista do modelo abolicionista, o pensamento defendido é de 
que a existência de um sistema penal escraviza o ser humano, minguando sua liberdade e 
impedindo sua própria felicidade, razão pela qual, para a formação de uma sociedade unida 
e solidária, é necessário o fim de todo o sistema penal. 
A segunda vertente do paradigma abolicionista, por sua vez, defende que o sistema de 
persecução penal possui caráter estritamente repressivo que acaba por ocultar os 
problemas sociais, ao passo que, ante ao seu caráter estritamente seletivista, pune as 
classes sociais mais baixas para proteger os interesses das elites. 
Por fim, a terceira vertente do modelo abolicionista, chamada também de abolicionismo 
liberal ou cristão, defende que a solução de conflitos não deve ser um papel privativo do 
Estado, posto que os homens, enquanto detentores de direitos e obrigações, tem a 
capacidade de cuidar de solucionar os seus próprios conflitos, em uma espécie de 
solidariedade orgânica. 
Ao tratar do abolicionismo, Carlos Elbert (2003, p. 108), em sua obra “. Manual Básico de 
Criminologia”, faz apontamentos relativos a simplicidade do tema, posto que passou a ser 
visto como uma alternativa a persecução penal, com premissas que visam uma solução 
diversa da utilizada no modelo padrão: 
Campo de discussão e trabalho pragmático, simples e criativo. Sua abertura e 
despreocupação pelo esmero metódico é consequência de um anti-reducionismo que 
aspira não confundir método com ideias. Pode-se dizer que o abolicionismo “tornou 
simples” (em oposição ao que ocorre discursivamente dentro do direito penal e da 
criminologia), propondo “outra lógica” para o tema do delito. 
Assim, em que pese a profundidade do tema e as correntes defendidas por diversos 
autores, temos que o abolicionismo penal, no que tange a sua inserção no ramo das 
políticas não repressivistas, defende um discurso pautado em que o modelo penal 
tradicional é criador de problemas e não de soluções, na medida em que a função 
intimidatória da pena não se presta ao fim proposto, servindo apenas como espécie de 
desculpa para a intervenção estatal na liberdade individual. 
Desta forma, é possível enxergar o abolicionismo mais como uma utopia do que 
efetivamente como uma política criminal aplicável, até porque, seu radicalismo acaba por 
dificultar sua aplicação, sendo preferível, portanto, modelos menos radicais, que visem a 
descriminalização ou despenalização de certas condutas em detrimento de uma política 
com caráter estritamente abolicionista. 
 
Saiba mais 
ACHUTTI, Daniel. Abolicionismo Penal e Justiça Restaurativa: Do Idealismo ao Realismo 
Político-Criminal. 
ANDRADE. Vera Regina Pereira de. Do Paradigma Etiológico ao Paradigma da Reação 
Social: Mudança e Permanência de Paradigmas Criminológicos na Ciência e no Senso 
Comum. 
COLET. Charlise Paula. O Paradigma da Reação Social na Conduta Desviada: O Processo 
de Criminalização e Etiquetamento Social. 
Aula vídeo relativa ao paradigma abolicionista e suas vertentes. 
 
ESTUDO DE CASO 
Uma determinada pessoa é presa em flagrante pela prática de um determinado delito cuja 
pena máxima não ultrapassa 2 (dois) anos, o delegado de polícia representou pela prisão 
preventiva e o juiz converteu o flagrante em preventiva. Ante ao clamor social e 
popularidade do acusado, não lhe concedeu o pagamento de fiança, mesmo sendo caso 
de detenção. 
Você enquanto advogado do acusado, sob a óptica do paradigma garantista, apresente a 
solução prática para o caso a fim de demonstrar eventual ausência de observância das 
regras constitucionais e processuais penais. 
 
RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO 
É esperado que o estudante aponte que o paradigma garantista impõe a necessidade de 
cumprimento de aspectos substanciais e formais, sem os quais, a própria eficácia normativa 
estaria em risco.Sob este aspecto, o estudante deve apontar a ausência de requisitos objetivos para a 
decretação da prisão e a configuração de constrangimento ao acusado, até porque, a não 
demonstração da efetiva necessidade de segregamento cautelar do acusado, traduzir-se-
á em violação a garantia constitucional ao princípio da presunção de inocência. 
Assim, a conclusão do estudante deve se pautar na possibilidade de aplicação de medidas 
cautelares diversas da prisão, ante a necessidade de preservação, do ponto de vista 
garantista, dos princípios constitucionais que preveem a proteção do acusado. 
A fim de complementar sua resposta, o estudante pode apontar as hipóteses de 
arbitramento de fiança pelo delegado previstas no art. 322 e a ausência dos impeditivos do 
art. 323 e 324, todos do Código de Processo Penal. 
 
O MINISTÉRIO PÚBLICO COMO DEFINIDOR DE POLÍTICAS CRIMINAIS 
Durante os estudos, realizaremos uma análise aprofundada do papel do Ministério Público 
enquanto definidor de políticas criminais e sua atuação concatenada com os demais órgãos 
que compõem o sistema penal. 
 
INTRODUÇÃO 
Durante os estudos, realizaremos uma análise aprofundada do papel do Ministério Público 
enquanto definidor de políticas criminais e sua atuação concatenada com os demais órgãos 
que compõem o sistema penal. 
Abordaremos, ainda, a criminalidade sob a ótica contemporânea e como a alteração do 
modo de agir dos criminosos afeta o desenvolvimento das políticas criminais e a efetiva 
atuação do Ministério Público e dos órgãos policiais. Outro ponto relevante de estudo na 
presente disciplina é a atuação integrada e o direito fundamental à segurança pública, em 
que analisaremos a disposição constitucional de garantia à segurança e o papel do Estado 
em fornecê-la. 
Por fim, ao longo dos estudos, abordaremos a repercussão que a própria mudança no meio 
social exerce sobre a política criminal e como isso afeta o protagonismo do Ministério 
Público. 
 
O MINISTÉRIO PÚBLICO NA ESFERA CRIMINAL 
Antes de adentrarmos no assunto, precisamos ressaltar que a Constituição Federal define 
o Ministério Público, em seu art. 127, como uma instituição permanente e essencial à 
função jurisdicional do próprio Estado, atribuindo-lhe a responsabilidade pela defesa da 
ordem jurídica, do regime democrático, dos interesses sociais e individuais indisponíveis. 
No que tange à atuação ministerial dentro da esfera criminal, o art. 129, I, da Magna Carta, 
é enfático ao impor que, ao Ministério Público, compete, privativamente, promover a ação 
penal pública, assim, analisando as nuances do processo criminal, é de fácil percepção que 
o Ministério Público, enquanto único titular da ação penal pública, exerce verdadeiro 
protagonismo na esfera penal. 
Ao tratar da participação do Ministério Público no processo criminal, Norberto Avena (2020, 
p. 255) é didático ao expor seu papel tanto nas ações penais públicas quanto nas privadas, 
diferenciando cada espécie de atuação: 
Na órbita criminal, o Ministério Público representa o Estado-Administração, incumbindo-lhe, 
primordialmente, nos crimes de ação penal pública, deduzir perante o Estado-juiz as 
providências necessárias para que se concretize a pretensão punitiva; e, nos delitos de 
ação penal privada, fiscalizar a instauração e o desenvolvimento regulares do processo, 
bem como o cumprimento e a aplicação da lei ao caso concreto. 
Frente ao papel do Ministério Público dentro do processo criminal, é indispensável 
tratarmos acerca da função atribuída a ele pelo art. 129, VII e VIII, da Constituição Federal, 
qual seja o dever de exercer o controle externo da atividade policial e de requisitar 
diligências investigatórias. 
A respeito do tema, cabe-nos apontar que o assunto foi tratado pelo próprio Supremo 
Tribunal Federal no julgamento do Recurso Extraordinário 593.727, no ano de 2015, 
consolidando-se o Tema de Repercussão Geral nº 184 – Poder Investigativo do Ministério 
Público, restando firmado o entendimento de que o Ministério Público possui competência 
para a promoção de investigações criminais, respeitando-se os direitos e garantias dos 
investigados. 
Os membros do Ministério Público, visando, justamente, à proteção ao efetivo exercício de 
suas atribuições, possuem prerrogativas semelhantes àquelas previstas aos magistrados, 
ou seja, são garantidas a eles, nos termos do art. 38 da Lei Federal nº 8.625/93, a 
vitaliciedade, a inamovibilidade e a irredutibilidade de subsídio. 
Nesse sentido, entendemos que o Ministério Público, no bojo dos processos de natureza 
criminal, exerce verdadeira parcela da soberania do Estado, ao passo que condiciona o 
direito de punir. Cabe lembrarmos que o exercício do direito punitivo estatal possui quatro 
condições, sendo elas: A existência de lei penal anterior ao fato. 
A acusação penal privativa do Ministério Público (em ações penais públicas). 
A jurisdição penal. 
A execução penal. 
Dessa forma, o Ministério Público é indispensável à persecução penal e ao próprio exercício 
da soberania estatal, exercendo verdadeiro papel de protagonismo nas ações penais 
públicas e na defesa da ordem jurídica e social. 
Videoaula acerca da atuação e do protagonismo do Ministério Público na esfera penal. 
 
A CRIMINALIDADE CONTEMPORÂNEA 
Quanto ao cerne da presente disciplina, principalmente no que tange à atuação do 
Ministério Público enquanto definidor de políticas criminais, torna-se indispensável 
procedermos à análise do desenvolvimento da criminalidade e como a atuação dos 
criminosos nos tempos modernos afeta a própria atuação ministerial e as políticas criminais 
propriamente ditas. 
O modo de operação dos criminosos se desenvolveu na mesma velocidade que a própria 
sociedade, sendo que os avanços tecnológicos presentes no mundo moderno 
possibilitaram o surgimento de novas classes de criminosos e delitos. Ademais, os 
criminosos passaram a se estruturar, formando organizações complexas com pluralidade 
de operações. 
A Lei Federal nº 12.850/13, de forma expressa, definiu a expressão “organização 
criminosa”, dispondo, no parágrafo primeiro de seu art. 1º: 
Art. 1º [...] 
§1º Considera-se organização criminosa a associação de 4 (quatro) ou mais pessoas 
estruturalmente ordenada e caracterizada pela divisão de tarefas, ainda que informalmente, 
com objetivo de obter, direta ou indiretamente, vantagem de qualquer natureza, mediante 
a prática de infrações penais cujas penas máximas sejam superiores a 4 (quatro) anos, ou 
que sejam de caráter transnacional. 
(BRASIL, 2013, [s. p.]) 
Sob esse prisma, o Ministério Público, no cumprimento de seu papel enquanto responsável 
privativo para promoção da ação penal pública e, ainda, enquanto responsável pela defesa 
da ordem jurídica e social, deve atentar-se à constante evolução da criminalidade, visando, 
justamente, à preservação do Estado democrático de direito. Não é apenas no sentido de 
organização que podemos constatar o desenvolvimento da criminalidade, como apontado 
anteriormente, os avanços tecnológicos trouxeram não apenas ferramentas auxiliares aos 
criminosos mas também deram origem a diversos outros tipos penais. 
Criminalidade no ambiente virtual 
A Lei 12.737, de 30 de novembro de 2012, alterou o Código Penal, objetivando tipificar 
alguns delitos informáticos, como a invasão de dispositivos informáticos, a interrupção de 
serviços telefônicos e a falsificação de cartões. 
A criminalidade no ambiente virtual é abrangente, apresentando características próprias, 
distintas de outros delitos, como a transnacionalidade, universalidade e ubiquidade. Ao 
tratarmos da transnacionalidade, estamos diante do alcance do delito, ao passo que os 
crimes virtuais ultrapassam as barreiras da nacionalidade, estando presentes em todos os 
continentes. 
A universalidade dos crimes virtuais diz respeito aos níveis sociais em que estão presentes, 
sendo que, devido ao acesso cada vez maior às tecnologias,os delitos acabam se tornando 
universais. Por fim, ao falarmos da ubiquidade, tratamos da presença do delito tanto nos 
setores públicos quanto privados, demonstrando, novamente, o alcance dessa espécie de 
delito. 
Com isso, podemos concluir que a criminalidade contemporânea vem passando por 
constante evolução, sendo que os órgãos de controle devem se desenvolver na mesma 
velocidade, visando, dessa forma, a proteger a paz social e evitar a expansão dos delitos. 
Assim, é imperioso que o Ministério Público e os demais órgãos responsáveis pela 
investigação criminal e definição das políticas criminais estejam atentos ao 
desenvolvimento das ferramentas criminais e da própria sociedade. 
Videoaula a respeito da criminalidade contemporânea e os aspectos relativos ao seu 
desenvolvimento. 
 
ATUAÇÃO INTEGRADA E O DIREITO À SEGURANÇA 
O art. 5º da Constituição Federal é cristalino ao definir a segurança como um direito 
fundamental garantido a todos os brasileiros e estrangeiros residentes no país. 
Em se tratando da segurança, estamos diante de um direito difuso que tem por objeto 
garantir de que os membros da sociedade estejam protegidos da violência e criminalidade 
ante a prestação eficiente dos serviços de segurança pública e a implantação de políticas 
públicas voltadas a essa finalidade. 
A Constituição Federal de 1988 impõe, ainda, que a segurança se trata de um direito social, 
impondo-a como um dever do Estado, a saber: 
Art. 144 – A segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é 
exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do 
patrimônio, através dos seguintes órgãos: 
I – polícia federal; 
II – polícia rodoviária federal; 
III – polícia ferroviária federal; 
IV – polícias civis; 
V – polícias militares e corpos de bombeiros militares. 
(BRASIL, 1988, [s. p.]) 
Importante! 
Sob a ótica constitucional, é importante diferenciarmos o direito à segurança previsto no 
art. 5º daquele previsto no art. 6º da Constituição Federal. Enquanto o primeiro é 
estritamente ligado à garantia individual de segurança, conforme citado, a previsão do art. 
6º se refere ao conceito de segurança pública, tratado, também, no mencionado art. 144. 
O dever do Estado de garantir a segurança não se restringe apenas às condutas 
preventivas mas também à apuração dos atos ilícitos com a efetiva punição de 
responsáveis, ou seja, a garantia de segurança pode ser exercida na fase primária do 
processo de criminalização, por meio de criações legislativas que visem a coibir atos 
criminosos. 
Na fase secundária do processo de criminalização, a garantia à segurança surge com a 
ação dos órgãos estatais visando a coibir as práticas criminosas; já na criminalização 
terciária, a garantia de segurança surge justamente com a efetiva punição dos criminosos 
e o curso da fase de execução penal. 
A atuação integrada do Ministério Público com os demais órgãos estatais na fase de 
investigação preliminar é indispensável à garantia da segurança, principalmente ante os 
constantes avanços da criminalidade e a necessidade de somar esforços para reduzir seu 
aumento desenfreado. 
A respeito do tema, Emiliano Waltrick (2013, p. 8) é didático ao tratar do envolvimento do 
Ministério Público nas investigações: 
E neste contexto, mormente quando se busca atingir aquela criminalidade que se considera 
inatingível, a interação e comunhão de esforços entre polícias e Ministério Público é 
fundamental, sendo imprescindível a articulação de ações coordenadas e eficazes, 
principalmente em investigações envolvendo os crimes econômicos ou políticos e 
organizações criminosas. 
A despeito do tratado, conclui-se a importância da atuação do Ministério Público como 
definidor de políticas criminais para a preservação da segurança enquanto direito 
fundamental e constitucionalmente garantido, considerando, especialmente, a expansão e 
o desenvolvimento da criminalidade contemporânea — o que demanda a criação de novas 
ferramentas e frentes de ação por parte dos órgãos responsáveis. 
Videoaula tratando da garantia de segurança e sua relação com a atuação integrada do 
Ministério Público. 
 
REPERCUSSÕES NA POLÍTICA CRIMINAL 
As repercussões da atuação do Ministério Público na efetiva definição das políticas 
criminais estatais apresentam estrita relação com a fase secundária do processo de 
criminalização, em que temos a atuação de instituições como o Ministério Público, o 
Judiciário e a própria polícia enquanto agente de controle social. 
Durante o processo de criminalização secundária, o indivíduo que passou pela 
criminalização primária, tendo cometido a conduta penalmente reprovável, e com o início 
da fase secundária, terá sua conduta apreciada pelas instituições anteriormente citadas. 
A atuação do Ministério Público na fase secundária do processo de criminalização serve de 
verdadeira filtragem dos atos praticados e influencia diretamente nas políticas adotadas 
para o combate ou a descriminalização de um determinado fato. 
Ante a ausência de recursos, o próprio sistema penal torna-se seletivista, ao passo que, 
visando a afastar sua inatividade, dá atenção a delitos cujo potencial lesivo é maior, 
deixando de lado aqueles menos gravosos. Com base em tal premissa, o Ministério Público, 
exercendo seu papel de “filtro” dos atos a serem punidos, pode adotar condutas voltadas à 
despenalização ou buscar a condenação a uma pena mais severa, o que influencia 
diretamente a criação de políticas voltadas ao combate desses delitos tidos como mais 
graves. 
Sobre o tema, Silvia Chakian de Toledo Santos e Alexandre Rocha Almeida de Moraes 
(2016 p. 195) são didáticos, principalmente ao tratar do papel do Ministério Público e do 
exercício de sua função nos dias atuais, inclusive no que tange às repercussões na 
formação de políticas criminais: 
A mesma instituição que pode cobrar a implementação de políticas públicas básicas, cujos 
déficits, na maioria das vezes, são (con)causas para a criminalidade, deve velar pelo direito 
social da segurança pública, eis que é a instituição que exerce privativamente a ação penal 
pública. Em outros termos: a instituição que detém enorme quantidade de informação da 
doença – prática de infrações penais - possui instrumentos dados pelo constituinte para 
reprimir, mitigar a repressão ou deixar de punir (ação penal, transação penal e 
arquivamento) e, concomitantemente, possui instrumentos para prevenir a doença 
(inquérito civil, recomendações, termos de ajustamento de conduta e ação civil pública, 
dentre outros). 
Dessa forma, as repercussões da atuação do Ministério Público na fase secundária do 
processo de criminalização restam claras, influenciando diretamente o processo de 
formação das políticas criminais em razão de seu papel de filtragem das condutas a serem 
punidas com maior severidade e aquelas que merecem tratamento mais brando, com 
aplicação de institutos despenalizadores. 
A importância da atuação reside, principalmente, na proximidade do órgão ministerial com 
os diversos setores da sociedade e sua atuação não apenas na esfera criminal mas 
também na defesa dos interesses sociais e na garantia da ordem pública, razão pela qual 
a indispensabilidade de sua atuação é patente. 
Videoaula relativa às repercussões da atuação do Ministério Público na criação e no 
desenvolvimento de políticas criminais. 
 
ESTUDO DE CASO 
Imagine a situação hipotética em que você, estudante, agora, é promotor de justiça da 
comarca fictícia de Santo Ossário, capital de Leonel Caldela. Todo orgulhoso da aprovação 
e no primeiro dia no fórum, depara-se com um processo em que o juiz determinou a 
investigação de um suposto crime à Autoridade Policial, e quando da chegada da diligência, 
encaminha os autos a você para denunciar o investigado. Com base nessas premissas, é 
o momento de se manifestar. Apresente o direito a ser alegado. 
 
RESOLUÇÃODO ESTUDO DE CASO 
É esperado que o estudante discorra acerca do direito privativo do Ministério Público da 
promoção da ação penal e não sobre o juiz da causa. 
Sob esse prisma, em respeito ao art.127 e 129, II, da CRFB, o Ministério Público, no 
cumprimento de seu papel, enquanto responsável privativo pela promoção da ação penal 
pública e pela defesa da ordem jurídica e social, deve atentar-se como fiscal da lei, não se 
sujeitando a aceitar, mesmo que no seu primeiro dia na comarca, que um juiz inaugure uma 
investigação e determine a denúncia. 
 
Saiba mais 
Para complementar os seus estudos, selecionamos algumas dicas de leitura para vo-cê! 
COPETTI. V. L. F. A função seletiva do ministério público no sistema penal. 1998. 
Dissertação (Mestrado em Direito) – Universidade Federal de Santa Catarina, Santa 
Catarina, 1998. 
JUNIOR. J. S. T. A segurança pública como direito fundamental: proposta de modificação 
da atuação ministerial para a sua tutela. Revista do Ministério Público do Estado de Goiás, 
Goiás, p. 47-62, [s. d.]. 
 
CRIMINALIZAÇÃO 
Em nossos estudos vamos tratar sobre o processo de criminalização e suas nuances, 
demonstrando as diferenças entre a criminalização e a criminologia e as distinções entre 
os mais diversos institutos que permeiam o tema. 
 
INTRODUÇÃO 
Bem-vindo, estudante! Em nossos estudos vamos tratar sobre o processo de criminalização 
e suas nuances, demonstrando as diferenças entre a criminalização e a criminologia e as 
distinções entre os mais diversos institutos que permeiam o tema. O objetivo desta aula é 
aprimorar os conhecimentos do estudante com relação tanto a elaboração das normas, com 
a definição e valoração dos bens jurídicos tutelados, quanto com relação a efetiva ação 
punitiva do estado em face de pessoas que praticam atos criminalizáveis, demonstrando 
ainda a evolução histórica do processo de criminalização ao longo do tempo. 
 
CONCEITO 
Antes de nos aprofundarmos no tema proposto, por primeiro, é de relevante importância o 
estudo dos conceitos e objetos da criminalização, posto que, somente por meio destes será 
possível a compreensão fundamental do fenômeno jurídico. 
Criminalização em suma, é estabelecer, por meio de lei, que determinado comportamento 
é tido como criminoso. Para a criminologia, a criminalização pode se dar de forma primária 
ou secundária, sendo a primeira intimamente ligada ao direito positivo e focada na efetiva 
criação da lei penal, introduzindo no ordenamento jurídico a tipificação de uma conduta 
reprovável, enquanto a segunda é voltada a aplicação da lei penal como forma de coibir os 
comportamentos reprováveis praticados. 
A criminologia vem se desenvolvendo através do tempo, de igual forma, o processo de 
criminalização tem evoluído. Condutas anteriormente elogiáveis, passaram a ser 
reprovadas e criminalizadas, assim como condutas que sempre foram criminalizadas, hoje 
são consideradas comuns. 
Um claro exemplo da evolução da criminalização do ponto de vista prático é a capoeira. 
Por medo de rebeliões escravistas as autoridades em meados de 1830 passaram a 
criminalizar a prática da capoeira, tipificando seus praticantes nos artigos 295 e 296 no 
Capítulo IV, intitulado de Vadios e Mendigos, do Código Penal do Império do Brasil, de 
1830. 
Após a abolição da escravatura, o Código Penal da República dos Estados Unidos do Brasil 
(BRASIL, 1890) em seu art. 402 criminalizou de forma expressa a conduta, in verbis: 
Art. 402. Fazer nas ruas e praças públicas exercício de agilidade e destreza corporal 
conhecida pela denominação de Capoeiragem: andar em carreiras, com armas ou 
instrumentos capazes de produzir lesão corporal, provocando tumulto ou desordens, 
ameaçando pessoa certa ou incerta, ou incutindo temor de algum mal; Pena de prisão 
celular por dois a seis meses. 
Parágrafo único. É considerado circunstância agravante pertencer a capoeira em alguma 
banda ou malta. 
A conduta foi posteriormente descriminalizada ante a revogação do Decreto que proibia sua 
prática pelo então presidente Getúlio Vargas. 
Nos dias de hoje o processo de criminalização continua avançando, agora cada vez mais 
alinhado com pensamentos sociais e de proteção a minorias ou vulneráveis, como no caso 
da criminalização da homofobia e do feminicídio, sendo, portanto, de suma importância o 
estudo acerca do processo de criminalização e suas nuances, principalmente face aos 
rápidos e expressivos avanços no que concerne as políticas sociais no país. 
Aula vídeo explicando o conceito de criminalização, com exemplos recentes do atual 
cenário e seu alinhamento com as políticas sociais do país, principalmente aquelas voltadas 
à proteção de minorias ou vulneráveis. 
 
CRIMINALIZAÇÃO E CRIMINOLOGIA 
Ao tratarmos de criminologia e criminalização, indispensável se faz realizar explanações 
acerca dos conceitos relativos a cada instituto e como estes se inter-relacionam. 
Do ponto de vista etiológico, a expressão criminologia vem da junção do termo em latim 
crimino, cujo significado é crime, e do termo grego logos, que se refere a estudo. Assim, o 
termo criminologia, cuja criação é atribuída a Paul Topinard e consolidação a Raffaele 
Garófalo, refere-se ao “estudo do crime”. 
Ainda na década de 1930, o renomado sociólogo americano Edwin Hardin Sutherland, em 
sua obra denominada Principles of Criminology, defendeu uma brusca alteração nas formas 
de análise do próprio fenômeno da criminalidade. Sutherland foi o percursor da teoria da 
differential association (associação diferencial). Essa teoria trazia explicações acerca do 
comportamento do criminoso, atribuindo a causa de sua inserção no mundo dos delitos ao 
meio social em que o sujeito vive, tentando desta forma, desconstruir o paradigma existente 
à época de que os fatores psíquicos ou mesmo biológicos seriam a causa da criminalidade. 
Ao tratarmos do assunto é interessante apontar que na década de 1970 o professor Hilário 
Veiga de Carvalho em seu Compêndio de criminologia, defendeu que a criminologia não se 
tratava de mero estudo do crime, mas sim um estudo conjunto e indissolúvel do crime e do 
criminoso, ou seja, da própria criminalidade em si. 
Do ponto de vista da escola positiva de direito, a criminologia moderna estuda a 
criminalização sob o enfoque de que o cometimento de condutas criminosas e reprováveis 
pelo indivíduo seriam fundadas em explicações individuais decorrentes de patologias ou 
por razões socioestruturais, intrinsicamente atreladas à subsocialização. 
Neste contexto, a própria sociedade passou a ser vista como parte do problema e, pautado 
neste entendimento foi que o criminologista Albert Cohen em sua obra denominada 
Deliquent boys - An Unsolved Problem in Juvenile Delinquency, publicado na década de 
1970, deu origem à chamada Subcultural theory (Teoria da Subcultura), na qual destaca 
que dentro do ambiente das favelas, há uma espécie de subcultura. 
Reflita 
Alberto Cohen aponta que essa subcultura é consistente em um sistema social próprio com 
o sopesamento de comportamento e valor também aplicável a grupos de adolescentes, 
apontando que a própria violência urbana decorrente das condutas perpetradas no 
ambiente não se davam de forma simplesmente arbitrária e desregrada, mas sim com 
normas e regras sociais diversas daquelas adotadas pela cultura dominante e externa 
àquele ambiente. 
Desta forma, resta cristalino que a criminologia, enquanto ciência, é voltada ao estudo não 
apenas do fato criminoso, mas da criminalidade e do processo de criminalização em si, 
sendo, portanto, crucial a compreensão dos fenômenos históricos sociais que envolvem o 
tema, pois, somente assim, é possível a compreensão do processo de criminalização como 
um todo. 
Aula vídeo tratando da evolução histórica da criminologia e sua relação com o estudo da 
criminalidade. 
 
DISTINÇÃO ENTRE CRIMINOSO, CRIMINALIDADE E CRIMINALIZAÇÃO 
Ao tratarmos da expressão “criminoso”,nos referimos àquele que descumpre uma norma 
previamente estabelecida, desviando, desta forma, da normalidade prescrita em uma 
comunidade. 
A Escola Clássica de direito penal via o criminoso como um pecador, que desvirtuava e 
descumpria dogmas religiosos ou a vontade do soberano, até por isso entendia-se que a 
pena seria um mal imposto ao merecedor do castigo pela sua conduta, cometida de forma 
absolutamente consciente e, por esta razão, possuía a finalidade precípua de reestabelecer 
a ordem na sociedade. 
Ao tratarmos do conceito de criminoso na Escola Positiva, diversos autores, destacando-
se Cesare Lombroso, apontavam que nem todos os indivíduos são iguais, frisando que os 
criminosos agiam de forma irracional e predeterminada. Assim, a política criminal à época 
teve por finalidade a defesa social, com o intuito de identificar e neutralizar indivíduos 
considerados perigosos para que cessassem seus atos criminosos, havendo neste período, 
inclusive, a defesa de penas por períodos indeterminados e até mesmo pena capital para 
criminosos que não fossem passíveis de recuperação. 
E em que pese a evolução trazida pela Escola Clássica e pelo positivismo científico, foi 
somente no período contemporâneo que o conceito de criminoso foi ampliado. Enrico Ferri, 
criminologista e político socialista italiano, em sua obra denominada Criminal Sociology 
classificou os criminosos em natos, loucos, habituais, ocasionais e passionais. 
Os criminosos natos seriam os degenerados, que não possuem qualquer espécie de senso 
moral. 
Os criminosos loucos seriam os alienados mentais. 
Os criminosos ocasionais, por sua vez, são aqueles que eventualmente cometem algum 
delito, se tratando de situação absolutamente excepcional e que não faz parte de seu 
comportamento comum. 
Por fim, Ferri cita os criminosos habituais, definindo assim, aqueles reincidentes em 
condutas criminosas, seriam os chamados “profissionais do crime”. 
Pseudocriminosos e verdadeiros criminosos 
Diversas outras classificações de criminosos foram criadas posteriormente, como as 
apresentadas pelo professor Hilário Veiga de Carvalho, que os classificou em dois grupos, 
com subdivisões, sendo: 
Pseudocriminosos: divididos em Biocriminosos puros e Mesocriminosos puros. Na 
concepção de Veiga, estes são os que devido a debilidades psiquiátricas necessitam de 
tratamento (como os Biocriminosos puros) ou ainda, que não possuem grandes taxas de 
recuperação, porque sua conduta criminosa é decorrente sócio culturais (como os 
Mesocriminosos puros), de qualquer forma, para Veiga, estes são considerados 
inimputáveis, não sendo responsáveis pela ação praticada. 
Verdadeiros criminosos: divididos em Biocriminosos preponderantes, Mesocriminosos 
preponderantes e Biomesocriminosos. Os criminosos verdadeiros são efetivamente 
responsáveis pelos seus atos, como os Biocriminosos preponderantes que eram definidos 
segundo a tendência interna de cada indivíduo, independendo da existência de influências 
negativas externas que o levassem a prática criminosa. De forma diversa, os 
Mesocriminosos preponderantes, segundo Veiga, dependiam quase que exclusivamente 
da influência negativa externa, posto que, devido as suas qualidades morais, estes por si 
só não cometeriam atos tidos como contrários à normativa. Por fim, os Biomesocriminosos 
eram definidos como os indivíduos que praticavam a conduta delituosa sob influência de 
fatores tanto internos como externos. 
Cabe ressaltar que cada espécie de criminoso era classificada segundo seu 
comportamento e sua influência. 
De explanação mais simples, a criminalidade nada mais é do que a efetiva ocorrência de 
atos que contrariam os ditames da lei penal, enquanto a criminalização, já explanada 
anteriormente, remete a definição, por meio de lei, que determinado comportamento é tido 
como criminoso. 
Aula vídeo com explicações acerca distinção conceitual e doutrinária entre “criminosos”, 
“criminalidade” e “criminalização”. 
 
CRIMINALIZAÇÃO E VITIMIZAÇÃO 
Criminalização e vitimização 
A fim de analisar o processo de criminalização sob o enfoque específico da vitimização, é 
necessário adentrarmos ao campo da vitimologia na Política Criminal.O conceito de vítima 
na doutrina é amplo, a Organização das Nações Unidas, por exemplo, em 29 de novembro 
de 1985 editou a “Declaration of Basic Principles of Justice for Victims of Crime and Abuse 
of Power”, na qual, em seu anexo, conceitua a expressão vítima da seguinte forma: 
1. Entendem-se por "vítimas" as pessoas que, individual ou coletivamente, tenham sofrido 
um prejuízo, nomeadamente um atentado à sua integridade física ou mental, um sofrimento 
de ordem moral, uma perda material, ou um grave atentado aos seus direitos fundamentais, 
como consequência de atos ou de omissões violadores das leis penais em vigor num 
Estado membro, incluindo as que proíbem o abuso de poder. 
2. Uma pessoa pode ser considerada como "vítima", no quadro da presente Declaração, 
quer o autor seja ou não identificado, preso, processado ou declarado culpado, e quaisquer 
que sejam os laços de parentesco deste com a vítima. O termo "vítima" inclui também, 
conforme o caso, a família próxima ou as pessoas a cargo da vítima direta e as pessoas 
que tenham sofrido um prejuízo ao intervirem para prestar assistência às vítimas em 
situação de carência ou para impedir a vitimização. 
Já autor Paulo Henrique de Godoy Sumariva (2019), ao tratar do assunto, define vítima de 
modo mais simplista, como “quem sofreu ou foi agredido de alguma forma em virtude de 
uma ação delituosa, praticada por um agente”. 
Durante o desenvolvimento do processo de criminalização e até mesmo da criminologia, o 
papel da vítima foi objeto de destaque em determinados períodos assim como foi esquecido 
em outros. 
A idade média foi conhecida como a época do protagonismo da vítima, posto que à época 
era aplicável o instituto da vingança privada, ou seja, caso alguém sofresse algum dano, 
ele mesmo ou sua família tinham o direito de reparar este dano. Essa época foi marcada 
pela luta entre famílias, criando um ciclo de violência infindável. 
A partir do século XII o que houve foi a neutralização da pessoa da vítima, no qual as penas 
aplicadas não tinham um enfoque efetivo na reparação do dano, mas apenas na prevenção 
da atividade criminosa como um todo, ou seja, a aplicação de sanções servia para gerar 
temor na população e, assim, evitar o cometimento de novas condutas. 
A partir dos ensinamentos da Escola Clássica, a vítima passou a ser valorizada no direito 
penal e tornou-se objeto de estudo da criminologia, sendo sua importância consolidada 
após o final da Segunda Guerra Mundial. 
Reflita 
A vitimologia não deve se confundir com a vitimização. Conforme apontado, a primeira 
possui enfoque amplo e se trata de disciplina científica, objeto de estudo da criminologia e 
na qual se insere a vitimização, que pode ser classificada como o processo que leva 
determinado sujeito a se tornar vítima de um terceiro. 
Com a crescente importância do papel da vítima dentro deste contexto histórico do 
processo de criminalização, seu estudo tornou-se indispensável, tanto para o entendimento 
das razões que levam à efetiva criminalização de um determinado fato, quanto para análise 
pontual do próprio fato criminoso. 
Aula vídeo com explicações acerca do processo de criminalização sob o enfoque específico 
da vitimização e da importância do estudo da vitimologia. 
 
ESTUDO DE CASO 
A respeito dos temas “criminoso, criminalidade e criminalização”, descreva sobre o furto de 
energia. Quem é a vítima, o sujeito passivo, para o ordenamento penal e qual o bem 
juridicamente tutelado? E para o ordenamento social, podemos considerar o sujeito ativo 
deste crime, como sendo ele vítima da sociedade? 
 
RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO 
Espera-se que o estudante faça uma introdução acerca do delito questionado, apontado 
que, emXIX, sob forte influência dos iluministas. 
Em um primeiro momento os percursores da Escola Positiva objetivaram a aplicação dos 
métodos investigativos de outras ciências como a antropologia e até mesmo a biologia ao 
direito. Por óbvio tal intento restou infrutífero, posto que a norma jurídica, ante ao seu 
caráter circunstancial e não científico, necessitava de meios diversos de observação, o que 
culminou no surgimento da criminologia. 
Mesmo com o fim das penas de caráter religioso e a imposição de que os governantes 
receberiam mandatos para, desta forma, agir dentro dos limites constitucionalmente 
previstos e em busca dos interesses do povo, o que se viu em meados de 1815 foi o início 
da chamada Era Napoleônica, que, em verdade, se tratava de verdadeiro regime ditatorial. 
Após o fim da Era Napoleônica o mapa político europeu passou por uma verdadeira 
reformulação com a instalação do Congresso de Viena, culminando assim, na efetiva 
consolidação dos Estados-Nações. 
No início do século XIX os países da Europa e América, no intuito de proteger o novo 
sistema criado, editaram códigos penais e processuais. Com isso, a ciência criminal deixou 
de preocupar-se única e exclusivamente com as penas e passou a olhar com outros olhos 
o comportamento dos criminosos, tratando as questões relativas à criminalidade não mais 
no campo filosófico, mas sim no científico, sob um ponto de vista neutro. 
No que tange as políticas criminais, o positivismo científico (primeira fase da Escola 
Positiva), teve como objeto de estudo, de modo diverso da Escola Clássica, o homem 
criminoso. Diversos autores, dentre eles destacando-se Cesare Lombroso, defendiam que 
nem todos os indivíduos são iguais, apontando que os criminosos agiam de forma irracional 
e predeterminada. 
Assim, a política criminal à época teve por finalidade a defesa social, com intuito de 
identificar e neutralizar indivíduos considerados perigosos para que cessassem seus atos 
criminosos, havendo neste período, inclusive, a defesa de penas por períodos 
indeterminados e até mesmo pena capital para criminosos que não fossem passíveis de 
recuperação. 
Desta forma, em que pese a intenção da Escola Positiva tenha sido inicialmente prezar pela 
neutralidade focada no fim científico, ela acabou por transformar os indivíduos criminosos 
em objeto de estudo, criando uma imagem preconceituosa de homem de acordo com 
padrões genéticos e étnicos, o que acabou por culminar até mesmo em políticas que 
defendiam a superioridade das raças, como no nazismo alemão. 
Ante a tais assertivas é possível concluir que com o desenvolvimento da política criminal 
na Era Clássica em comparação com a Escola Positiva, houve uma severa mudança no 
discurso e até mesmo no entendimento no campo da criminologia, afastando a 
centralização política e adotando como meta a redução da criminalidade e a repulsa ao 
indivíduo criminoso. 
Aula vídeo com explicações acerca da evolução da política criminal durante a Era Científica, 
com explanações acerca do positivismo e como essa forma de pensamento alterou o modo 
como a aplicação das penas passou a ser tratada. 
 
A POLÍTICA PENAL CONTEMPORÂNEA 
A política penal contemporânea 
Na década de 1980 tanto a criminalidade quanto as políticas criminais sofreram profundas 
mudanças, tanto pelo expressivo aumento da taxa de criminalidade quanto pela efetiva 
consciência, por parte da população em geral, de que o Estado e seu sistema de segurança 
seriam demasiado limitados para lidar com esta realidade. 
Desde meados dos anos de 1920 os crimes patrimoniais e violentos cresceram 
exponencialmente no mundo todo, principalmente ante o maior alcance dos meios de 
comunicação, que, por meio de narrativas dramáticas e constantes, potencializou o medo 
já existente na mente do cidadão, o que alterou aos poucos o comportamento do homem 
médio, fazendo-o adotar providências voltadas a efetiva prevenção de delitos. 
O aumento das taxas de criminalidade à época foi decorrente das alterações sociais 
ocorridas em larga escala, tanto do ponto de vista econômico quanto do cultural, 
consequentes da expansão do neoliberalismo com a restrição à intervenção estatal sobre 
a economia. 
Com o início desta nova era, o lento desenvolvimento do sistema penal não estava 
preparado para suportar esta acentuada elevação dos níveis de criminalidade, o que 
aumentou ainda mais a impressão de que o próprio Estado seria débil no combate ao crime. 
Desta forma, visando controlar a rápida expansão da criminalidade, o Estado acedeu a uma 
espécie de política previdenciarista, na qual o controle social se dá de forma correcionalista. 
Sobre o tema, David Garland (2008, p. 104-105) expôs suas bases de forma didática: 
 
Com raízes na década de noventa do século XIX e vigorosamente desenvolvido nos anos 
1950 e 1960, o previdenciarismo penal era, nos anos 1970, a política estabelecida tanto na 
Grã-Bretanha quanto nos Estados Unidos. Seu axioma básico – medidas penais devem, 
sempre que possível, se materializar mais em intervenções reabilitadoras do que na 
punição retributiva – proporcionou o aperfeiçoamento de uma nova rede de princípios e 
práticas inter-relacionados. 
No período, o controle do crime foi marcado pela derrocada dos tão buscados ideais de 
reabilitação, que foram rapidamente substituídos pelas metas de retribuição e pelo controle 
efetivo do risco. 
Outro aspecto relevante foi o ressurgimento das sanções de caráter retributivo e a mudança 
de tom das próprias políticas criminais, na qual o criminoso que anteriormente era tratado 
como uma pessoa sem oportunidades na vida, que foi de certa forma obrigado a adentrar 
no mundo do crime, passou a ser visto como uma espécie de predador perigoso e 
oportunista. 
Reflita 
Ainda na Era Contemporânea, passou-se a dar importância às vítimas e aos seus 
sentimentos, posto que o foco passou a ser a proteção das pessoas acima de tudo, dando-
se ênfase à segurança e contenção do perigo. As diversas mudanças ocorridas no campo 
das políticas criminais se fortaleceram ainda mais nos anos de 1980 e foram consolidadas 
em meados dos anos de 1990. 
 
A POLÍTICA PENAL CONTEMPORÂNEA 
Aula vídeo com explicações acerca da evolução da política criminal durante a Era 
Contemporânea, explanando a evolução histórica dos anos de 1920 até meados dos anos 
de 1990. 
 
ESTUDO DE CASO 
Com base no contexto sociológico e político apresentado na aula, o estudante deve 
discorrer acerca da “Teoria da Janela Quebrada” e sua relação com a redução da 
criminalidade e oposição com a o Princípio da Insignificância à luz do desenvolvimento na 
criminologia dos anos de 1980 até hoje. 
 
RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO 
Tendo em vista os assuntos apresentados em aula, espera-se que o estudante em sua 
resposta aponte o conceito da Broken Windows Theory, demonstrando que tal teoria, na 
prática, explicita que ao aplicar sanções para pequenos delitos, há o impedimento de que 
os infratores cometam delitos ainda maiores ante a sensação de impunidade. 
A fim de complementar a resposta, o estudante deve exemplificar a aplicabilidade da Teoria, 
podendo, inclusive, citar o clássico caso da fábrica com janelas quebradas, na qual a 
substituição do vidro destruído deve ser realizada o mais rápido possível, posto que, ao 
passar pela região, outra pessoa vendo a janela quebrada pode sentir-se tentada a jogar 
uma pedra em outra janela. 
É esperado que seja traçado um paralelo entre a Teoria da Janela Quebrada e o Princípio 
da Insignificância, demonstrando que o segundo se contrapõe ao primeiro, posto que 
defende a intervenção mínima do Estado nas relações sociais, servindo de limitador ao 
poder deste. 
Desta forma, em sua conclusão o aluno deve apontar que, do ponto de vista histórico, o 
avanço da criminologia ao dar maior atenção à própria pessoa, do ponto de vista 
sociocultural a partir da década de 1980, passou afastar a aplicabilidadese tratando de furto de energia, o Código Penal Brasileiro o tipifica em seu art. 155, 
§3º ou seja, é considerado um crime contra o patrimônio, até porque, nos termos do Código 
Civil, em seu art. 83, I, a energia elétrica é tida como um bem móvel. 
O aluno deve apontar que nós crimes contra o patrimônio, o sujeito passivo é o proprietário 
ou legítimo possuidor do bem móvel sendo que no caso específico da energia elétrica, a 
fim de especificar exatamente o sujeito passivo, é imprescindível a verificação do momento 
em que houve o delito. Se o “desvio” da energia se deu antes de passar pelo medidor, o 
sujeito passivo seria o fornecedor de energia, posto que a ele é atribuído o prejuízo pelo 
uso gratuito desta, porém, na hipótese de tal conduta dar-se-á após a passagem da energia 
pelo medidor, o prejuízo é direcionado ao próprio consumir, que será, portanto, o sujeito 
passivo do delito. 
A segunda parte do questionamento apresentado trata do ordenamento social e do 
cometimento do delito como vítima da sociedade, neste ponto, é esperado do estudante 
uma explanação sobre a hipótese do furto de energia ser praticado por uma “comunidade”, 
hipótese na qual a razão social imposta por eles sobressai o critério de criminalidade, sendo 
tratada até mesmo como um direito natural, ou seja, é como se para uma determinada 
camada da sociedade fosse permitida a prática de um ato ilícito, que assim não seria 
considerado por causa do ambiente em que está sendo realizado. De modo diverso, se em 
um condomínio de luxo é descoberto que o proprietário de uma mansão está praticando o 
furto de energia, com certeza responderia pelo furto. 
Assim, verifica-se que há dois pesos e duas medidas, o critério de criminalização é distinto 
para pessoas dependendo tanto do sujeito que comete o crime quanto do meio em que 
este vive, isso porque, o papel social do furto de energia por parte da população carente 
decorre justamente da falha do Estado em prover o mínimo deste recurso indispensável as 
famílias que dele necessitam, assim, diante do abandono histórico que decorre até mesmo 
da má distribuição de renda, as ligações clandestinas de energia acabam por se tornar o 
único meio de acesso ao recurso deficiente. 
 
Saiba mais 
Para ampliar os seus conhecimentos sobre os temas abordados durante os nossos 
estudos, indicamos algumas leituras que são muito pertinentes e interessantes! 
Deliquent Boys: the culture of the gang de Albert K. Cohen. 
A Criminologia Cultural e a Criminalização das Culturas Periféricas escrita por Saulo Ramos 
Furquim. 
A vítima no contexto da criminologia contemporânea: os reflexos da vitimologia da política 
criminal, na segurança pública e no sistema processual penal artigo escrito por Viviane de 
Andrade Freitas. 
 
O PROCESSO DE CRIMINALIZAÇÃO 
Os nossos estudos têm por objetivo aprofundar os conhecimentos no processo de 
criminalização, com explanações acerca da criminalização primária, secundária e terciária, 
bem como a forma como o senso comum exerce seu papel no processo de criminalização. 
 
INTRODUÇÃO 
Olá, estudante! Os nossos estudos têm por objetivo aprofundar os conhecimentos no 
processo de criminalização, com explanações acerca da criminalização primária, 
secundária e terciária, bem como a forma como o senso comum exerce seu papel no 
processo de criminalização. 
Ao tratarmos da criminalização primária, abordaremos o processo legislativo propriamente 
dito, com as nuances relativas à tipificação de determinada conduta e a forma técnico-
burocrática como este processo se dá. Com o estudo da fase secundária da criminalização, 
trataremos da criminalização de forma individualizada e com a atuação de instituições como 
o Ministério Público, o Judiciário e a própria polícia enquanto agente de controle social. A 
criminalização terciária, por sua vez, será abordada na fase pós-condenação e os aspectos 
que a permeiam. 
 
CRIMINALIZAÇÃO PRIMÁRIA 
Ao tratarmos do processo de criminalização e os aspectos que o compõe, é necessário, 
inicialmente, entendermos o processo de formação da lei penal. A criminalização em sua 
fase primária, tem por objeto a criação das leis penais, ou seja, a efetiva atividade do 
legislador. 
O direito penal objetiva, via de regra, tutelar os bens jurídicos tidos como mais importantes, 
assim, dependendo do bem jurídico a ser protegido, o legislador, enquanto agente do 
processo de criminalização primário, define a quantidade de pena a ser aplicada e a 
conduta especifica a ser tipificada na lei penal. 
Ao tratar do papel do legislador no direito penal, Rogerio Greco em seu livro Curso de Direito 
Penal – Parte Geral (2004, p. 4), aponta que a Constituição Federal serve de balizadora 
para a formação dos conceitos deste, seja como definidora dos valores indispensáveis à 
tutela do Estado, seja como garantista, impedindo que o legislador viole direitos 
fundamentais: 
Se de um lado orienta o legislador, elegendo valores considerados indispensáveis à 
manutenção da sociedade, por outro, segundo uma concepção garantista do Direito Penal, 
impede que esse mesmo legislador, com uma suposta finalidade protetiva de bens, proíba 
ou imponha determinados comportamentos, violando direito fundamentais atribuídos a toda 
pessoa humana, também consagrados pela Constituição. 
Seguindo as diretrizes impostas pela Magna Carta, o legislador, na fase primária do 
processo de criminalização, tem por objetivo a criação de tipos penais que tutelem os bens 
e valores indispensáveis a convivência em sociedade, definindo as penas aplicadas e a 
forma de cumprimento. 
A definição de um determinado fato como criminoso é balizada, principalmente, pelo modo 
como a sociedade reage ao cometimento deste, ou seja, o senso comum e a própria reação 
social definem se o comportamento adotado por determinado sujeito é reprovável o 
suficiente a fim de exigir, do legislador, a adoção de medidas que importam na criação ou 
alteração de um tipo penal. 
A atuação do legislador, como podemos observar, possui caráter político, posto que este 
opera de maneira abstrata, principalmente ante a conclusão já exposta da importância da 
opinião pública e da formação do senso comum na definição das condutas penalmente 
reprováveis. 
Ao tratar da fase primária do processo de criminalização, o sociólogo Alessandro Baratta, 
em sua obra Criminologia crítica e crítica do direito penal (2002, p. 198), faz comentários à 
atual política criminal, afirmando que: 
[...] importantes zonas de nocividade social ainda amplamente deixadas imunes no 
processo de criminalização e de efetiva penalização (pense-se na criminalidade econômica, 
na poluição ambiental, na criminalidade política dos detentores do poder, na máfia etc.), 
mas socialmente muito mais danosas, em muitos casos, do que o desvio criminalizado e 
perseguido. Realmente, as classes subalternas são aquelas selecionadas negativamente 
pelos mecanismos de criminalização. 
Desta forma, a fim de afastar a chamada “seletividade do sistema penal”, que afasta a 
efetiva utilidade pública da normal penal, é que se recomenda a adoção de viés mais 
jurídico e menos político na criação das normas penais, até porque, o populismo, quando 
aplicado à esfera penal, acaba por desvirtuar o caráter da norma jurídica e seu dever de 
proteção aos bens juridicamente tutelados. 
Aula vídeo versando sobre o processo de criminalização primária e suas nuances, com 
apontamentos relativos ao modo que o comportamento social influência na formação da 
normal penal. 
 
CRIMINALIZAÇÃO SECUNDÁRIA 
Avançando os estudos relativos ao processo de criminalização, trataremos de sua segunda 
fase, chamada de “criminalização secundária”. A criminalização secundária é a continuação 
lógica da primária, tratando especificamente da efetiva ação punitiva do Estado face a 
infringência de uma conduta tipificada pela norma penal. 
Na fase secundária do processo de criminalização,temos a atuação de instituições como 
o Ministério Público, o Judiciário e da própria polícia enquanto agente de controle social. 
Durante o processo de criminalização secundária, o indivíduo que passou pela 
criminalização primária, tendo cometido a conduta penalmente reprovável e, com o início 
da fase secundária, sua conduta será apreciada pelas instituições anteriormente citadas. 
Essa apreciação pode se dar por meio de um inquérito policial ou pelo próprio magistrado, 
o qual, a depender da ausência de elementos ou existência de excludentes de ilicitude, 
poderá absolver o sujeito ou ainda, concluindo pela presença de materialidade delitiva e 
sendo certa a autoria, poderá condenar o criminoso. 
O objetivo da fase secundária é dar efetivo cumprimento à lei penal, aplicando a punição 
àquele que praticar um ato tido como reprovável pela lei. 
Ao tratar da criminalização secundária, Baratta (2002, p. 98) aponta que esta é exercida 
pelas chamadas “agências de controle penal” como: “a polícia, a magistratura, órgãos de 
controle da delinquência juvenil”. 
A atividade policial, dentro da criminalização secundária, é a primeira a realizar a análise 
do processo de criminalização, até porque, quando da realização de uma conduta tipificada 
como penalmente reprovável, o primeiro contato é justamente com a organização policial, 
a qual, por meio de seus agentes, identifica a materialidade do delito e os investiga com o 
objetivo de identificar indícios de sua autoria. 
Atenção! 
É importante ressaltar que muitos atos praticados por criminosos não chegam à fase 
secundária do processo de criminalização, até porque, muitas vezes estes sequer são 
comunicados às agências de controle. 
A respeito do tema, Molina (2008) aponta que a denúncia do ato perpetrado, mesmo se 
realizada, pode não ter os frutos esperados, não se abrindo a oportuna investigação ou até 
mesmo atingindo-se um resultado final negativo, esclarecendo que tal ato se dá devido a 
seletividade da própria autoridade policial e judiciária, as quais acabam por filtrar e 
selecionar as pretensões punitivas que, segundo a própria autoridade judiciária, requerem 
e merecem uma resposta oficial por parte do Estado. 
Ante a tal assertiva, é possível concluir que a própria persecução formal do ato denunciado 
nem sempre culmina com uma sentença penal condenatória para o infrator, ou seja, em 
que pese a competência do legislador no processo de criminalização primário, por vezes 
não é possível dar cumprimento às políticas criminais, principalmente aquelas voltadas à 
repressão, quando, pelas mais diversas razões, há falhas no processo de criminalização 
secundário. 
Aula vídeo tratando do processo de criminalização secundário, com explanações acerca de 
eventuais falhas que possam decorrer da atuação dos órgãos de controle nesta fase. 
 
CRIMINALIZAÇÃO TERCIÁRIA 
A última fase do processo de criminalização é externalizada por meio da efetiva aplicação 
dos mecanismos de execução pena, formando assim, a criminalização terciária. Essa fase 
compreende tanto as penas privativas de liberdade como aquelas decorrentes do instituto 
da despenalização. 
Ao traçarmos um mapa de todo o processo de criminalização, teremos a primária 
preocupando-se com a efetiva edição das normas penais e a tipificação das condutas 
penalmente reprováveis; a secundária, que traz a prática de toda a teoria editada na 
primeira fase, tratando de investigar e processar os fatos tidos como puníveis por meio da 
fase primária e, por fim, a fase terciária, na qual, após toda a investigação e todo o 
processamento, o Estado adota medidas para a efetiva execução da pena a ser aplicada, 
independentemente de sua forma ou gravosidade. 
Na fase terciária do processo de criminalização o sujeito que praticou o ato penalmente 
reprovável e efetivamente condenado, é praticamente rotulado no meio social como alguém 
de conduta duvidosa e desviada, afetando sua participação na sociedade, no mercado de 
trabalho. 
O ato natural de rotular o criminoso, iniciado na criminalização secundária e consolidado na 
terciária, acabou por dar origem à teoria da labelling approach ou “Etiquetamento Social”. 
Essa teoria altera o objeto de estudo da própria criminologia, dando menos importância ao 
crime ou ao criminoso em si e passando a focar suas análises nas instâncias de controle 
social e sua atuação face a criminalidade. 
Reflita 
A Teoria do Etiquetamento Social faz uma espécie de interligação entre os conceitos de 
crime e criminoso e o próprio comportamento social, considerando seus costumes e valores 
socialmente aceitos, sob o argumento de que este sim, seriam os criadores das chamadas 
etiquetas sociais, em detrimento do ato criminoso em si. 
Um claro exemplo da aplicação prática da labelling approach é o estudo comparativo da Lei 
Federal nº 9.249/95 (Imposto de Renda) e do Código Penal. O art. 34 da Lei nº 9.249/95 
dispõe que “extingue-se a punibilidade dos crimes definidos na Lei nº 8.137, de 27 de 
dezembro de 1990, e na Lei nº 4.729, de 14 de julho de 1965, quando o agente promover 
o pagamento do tributo ou contribuição social, inclusive acessórios, antes do recebimento 
da denúncia”. Assim, nota-se que não houve preocupação em manter a estigma de 
criminoso em quem devolve os valores em crime contra o Sistema Tributário. 
Por sua vez, em se tratando de crimes contra o particular, a labelling approach se torna 
evidente, principalmente ante a clara previsão legal de manutenção da pena, considerando-
se a devolução mera causa de redução desta, conforme disposição expressa do art. 16 do 
Código Penal. 
Desta forma, ao analisar as nuances do processo de criminalização, indispensável dar 
atenção a todas as suas fases, incluindo os efeitos da criminalização terciária e a influência 
da aplicação da pena no meio social ou ainda, o inverso, a influência que o meio social 
exerce sobre a aplicação da pena e os efeitos dela decorrentes. 
Aula vídeo tratando do processo de criminalização em sua fase terciária, com enfoque na 
efetiva aplicação da pena e a Teoria da labelling approach. 
 
FORMAÇÃO DO SENSO COMUM 
É possível extrair do conteúdo da presente aula que, seja na fase primária, secundária ou 
terciária do processo de criminalização, o senso comum, criado a partir dos costumes e das 
vivências cotidianas é o grande responsável pela evolução e pelas diretrizes seguidas pelo 
próprio processo de criminalização. 
Uma conduta criminalizada não é assim considerada de forma automática, é necessário 
que o ato praticado afete de tal modo o convívio em sociedade que o senso comum, 
considerando-o desprezível e atentatório ao “modo de vida normal”, entenda por bem 
criminalizá-lo. 
O senso comum sempre influenciou diretamente no próprio conceito de criminoso. Em 
meados do século XIX, por exemplo, imperava o positivismo científico, no qual se destacou 
Cesare Lombroso, defendendo que nem todos os indivíduos são iguais e apontando que 
os criminosos agiam de forma predeterminada. A política criminal nesta época visava a 
efetiva defesa social, cujo objetivo primordial era a identificação e neutralização dos 
indivíduos que cometessem atos contrários à normativa penal. 
A própria pena aplicada aos sujeitos desviantes, decorre do senso comum, posto que uma 
de suas finalidades é incutir temor no cidadão a fim de coibir práticas criminosas, a respeito 
do tema, Teresa Pires do Rio Caldeira, em sua obra Cidade de muros: crime, segregação 
e cidadania em São Paulo (2000, p. 375), faz um paralelo do temor incutido pelas penas e 
a resistência à expansão da democracia, afirmando: 
Poderíamos sugerir que, por meio da questão da punição violenta e do crime, os brasileiros 
articulam uma forma de resistência às tentativas de expandir a democracia e o respeito 
pelos direitos além dos limites do sistema político. No contexto da transição para a 
democracia, o medo do crime e os desejos de vingançaprivada e violenta vieram simbolizar 
a resistência à expansão da democracia para novas dimensões da cultura brasileira, das 
relações sociais e da vida cotidiana. 
Reflita 
O senso comum, na medida que definido como a mescla entre costumes e experiências 
inerentes à vivência humana, no campo do processo de criminalização, deve ser tratada 
com cuidado. As pessoas que passam por situações traumáticas relacionadas a fatos 
criminosos perpetrados contra elas, por vezes são dominadas por sentimento de vingança 
que não possui qualquer correlação com as políticas criminais voltadas à efetiva prevenção 
do crime, buscando única e exclusivamente maior severidade na aplicação da lei penal. 
Assim, em que pese a importância do senso comum no avanço das políticas relativas ao 
próprio processo de criminalização, a fim de preservar as garantias constitucionais, o 
legislador, enquanto agente atuante da fase primária do processo de criminalização, deve 
ser cauteloso, a fim de não trazer à tona políticas repressivas que, sob o falso manto de 
proteção a população, ataquem as liberdades individuais que, custosamente foram 
conquistadas, posto que o Direito Penal de garantias não deve, em hipótese alguma, ser 
pautado em sentimento de vingança privada. 
Aula vídeo com explicações acerca das influências que o senso comum e a opinião pública 
tem no desenvolvimento do processo de criminalização. 
 
ESTUDO DE CASO 
Dado o caráter técnico-político do processo de criminalização primária, o aluno deve 
discorrer acerca da influência que o senso comum, formado a partir dos costumes e da 
opinião pública, exerce sobre o processo legislativo em matéria penal. 
 
RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO 
Espera-se que, com a efetiva análise do conteúdo da aula, o estudante exponha seu 
pensamento por meio de dissertação, no qual aponte que o processo de criminalização 
primária tem por objetivo a criação de tipos penais que tutelem os bens e valores 
indispensáveis à convivência em sociedade, definindo as penas aplicadas e a forma de seu 
cumprimento. 
O aluno deve ressaltar ainda que a atuação do legislador, enquanto protagonista do 
processo de criminalização primário, possui caráter político, operando de maneira abstrata, 
principalmente ante a importância da opinião pública e da formação do senso comum na 
definição das condutas penalmente reprováveis. 
Espera-se que a conclusão seja no sentido de que a própria definição de um sujeito como 
criminoso, se baliza na forma como a sociedade reage ao cometimento de determinada 
conduta, assim, o senso comum e a própria reação social definem se o comportamento 
adotado por determinado sujeito é reprovável o suficiente, a fim de exigir do legislador, a 
adoção de medidas que importam na criação ou alteração de um tipo penal. 
 
Saiba mais 
Na dissertação sobre a questão social e criminalização da pobreza: o senso comum penal 
no Brasil, Laura Freitas de Oliveira faz uma análise da questão de tempos e também sobre 
o papel do assistente social no campo do sistema penitenciário. 
OLIVEIRA, L. F. de. Questão social e criminalização da pobreza: o senso comum penal no 
Brasil. EM PAUTA, Rio de Janeiro: 1º Semestre de 2019. n. 43, v. 17, p. 108 – 122. 
Outras dicas de leitura são: 
Medo do Crime e Criminalização da Juventude escrito por Bruna Gisi Martis de Almeida. 
A Aplicabilidade da Lei Penal e a Punibilidade do Senso Comum: a criminologia da reação 
social na conduta desviada escrito por Paula Charlie Colet. 
 
O PROCEDIMENTO CRIMINALIZANTE 
O presente estudo tem por finalidade a análise e a compreensão do procedimento 
criminalizante e suas nuances a partir de explanações acerca de seu rito procedimental e 
das problemáticas inerentes a ele. 
 
INTRODUÇÃO 
Olá, estudante! 
O presente estudo tem por finalidade a análise e a compreensão do procedimento 
criminalizante e suas nuances a partir de explanações acerca de seu rito procedimental e 
das problemáticas inerentes a ele. 
Abordaremos, portanto, aspectos relevantes do ponto de vista social e criminológico, como 
as dificuldades de acesso ao Poder Judiciário por parte de populações menos favorecidas 
e as medidas adotadas com a finalidade de se reduzir a desigualdade do ponto de vista 
jurídico-social. 
Outro aspecto relevante que será tratado diz respeito à seletividade do poder punitivo e às 
falhas do próprio Estado no papel de garantidor dos direitos fundamentais e a teoria da 
vulnerabilidade e sua visão enquanto atenuante de culpabilidade. 
 
O RITO PROCEDIMENTAL 
Ao adentrarmos o processo de criminalização sob o enfoque da criminologia moderna, é 
imperioso tratamos do rito procedimental relativo a ele e dos efeitos a médio e longo prazo 
que os ritos de maior complexidade podem causar àqueles que incorrem em infrações. 
A identificação do rito procedimental dentro do processo penal exerce o papel de filtro 
primário, sendo definido pelo grau de reprovação da conduta e o nível de proteção ao bem 
jurídico afetado. 
É importante ressaltar que o processo criminal tem índole estritamente condenatória, sendo 
que o sujeito que sofre um processo dessa espécie, independentemente de seu resultado 
final, suporta seus efeitos estigmatizantes e de caráter social, mesmo com eventual 
absolvição. 
A violência na sociedade contemporânea pode ser definida como o produto decorrente da 
falha no próprio processo social decorrente da ineficiência do Estado enquanto agente 
responsável pelo processo de prevenção primária de situações de crime, na medida que 
as ações realizadas neste processo geralmente possuem caráter social, econômico e 
educativo, atacando, desta forma, a causa inicial da conduta criminosa. 
Assim, o objeto primordial do rito processual penal acaba por focar a violência em sentido 
amplo, ou seja, os atos de desordem social que contrariam as normas, a moral e, até 
mesmo, o senso comum. 
Por rito procedimental, podemos entender a sequência de atos preordenados e voltados a 
um determinado provimento final, sendo que, no âmbito do direito penal, esses 
procedimentos são divididos em: ordinário, sumário, sumaríssimo, júri e especiais. 
Não pretendemos esgotar o tema relativo aos ritos procedimentais, até porque não é o 
objeto central desta aula; a nossa intenção é traçar um panorama geral a respeito de tais 
procedimentos para demonstrar o efeito estigmatizante que o procedimento exerce sobre 
o sujeito processado do ponto de vista social. O rito ordinário é adotado com relação a 
crimes cuja pena é a reclusão, em que não há exigência do rito especial; já o rito sumário 
é aplicável aos crimes em que a pena cominada é de detenção superior a dois anos, e em 
se tratando do rito sumaríssimo, este é aplicado às infrações cuja pena máxima não 
ultrapassa dois anos. O rito do Júri, por sua vez, é aplicado nas hipóteses de crime doloso 
contra a vida; por fim, os ritos especiais são aqueles com tramitação diferenciada, como os 
previstos no Código de Processo Penal (crimes praticados por servidores públicos) e em 
legislação esparsa (Lei de Drogas). 
Com isso, temos que, quanto maior a complexidade do ato perpetrado, mais complexo o 
rito procedimental aplicável e maior a estigma causada. Em que pese a previsão 
constitucional da presunção de inocência, em certos casos há uma espécie de mitigação 
devido a influências internas e externas, dificultando, por vezes, o próprio exercício do 
contraditório, posto que, quando o réu pertence a uma classe que possui o rótulo de 
marginalizada, antes mesmo da prolação de uma sentença, ele é mercado por olhares de 
reprovação, fato este que se agrava quando o sujeito possui condenações anteriores ou 
mesmo se sofreu algum processo que culminou em sua absolvição. 
Assim, é possível concluir que, qualquer que seja o rito e/ou procedimento a que o sujeito 
se submeta, as estigmas causadas são profundas e suas consequências incalculáveis, 
principalmente do ponto de vistada aceitação social. 
Videoaula versando sobre os ritos procedimentais penais e os efeitos estigmatizantes que 
o processo penal causa aos que sofrem suas consequências. 
 
ACESSO AO PODER JUDICIÁRIO 
A Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada e proclamada pela Assembleia 
Geral das Nações Unidas (resolução 217 A III) em 10 de dezembro 1948, em seu art. 8º, é 
enfática ao dispor que todo ser humano tem direito a receber dos tribunais nacionais 
competentes remédio efetivo para os atos que violam os direitos fundamentais que lhe são 
reconhecidos pela Constituição ou pela lei. 
De igual forma, a convenção Americana de Direitos Humanos (1969), em seu art. 8º e 25, 
define as garantias judiciais a todas as pessoas e o direito à proteção judicial. Ao tratar do 
acesso à justiça, Mauro Capelletti, em sua obra Justice Acess, aponta a dificuldade em 
conceituar a expressão, mas, a fim de demonstrar a sua essencialidade, a coloca como um 
dos pilares de funcionamento do próprio sistema jurídico em si, in verbis: 
A expressão ‘acesso à justiça’ é reconhecidamente de difícil definição, mas serve para 
determinar duas finalidades básicas do sistema jurídico – o sistema pelo qual as pessoas 
podem reivindicar seus direitos e/ou resolver seus litígios sob os auspícios do Estado. 
Primeiro, o sistema deve ser igualmente acessível a todos; segundo, ele deve produzir 
resultados que sejam individual e socialmente justos. (1988, p. 8) 
O acesso ao judiciário em matéria penal está intrinsecamente ligado à acessibilidade 
técnica e econômica; nesse ponto, é importante ressaltar que, caso alguém seja acusado 
e não apresente condições econômicas para contratar um defensor, terá o auxílio da 
Defensoria Pública, a fim de possibilitar o efetivo exercício do contraditório e da ampla 
defesa. 
A expressão “acesso ao poder judiciário” na definição formal do termo pode ser definida 
como o efetivo direito de acesso ao órgão jurisdicional por parte do acusado a fim de exercer 
sua defesa e a efetiva simplificação de seus procedimentos. Não se deve, em qualquer 
hipótese, confundir o acesso à justiça com o acesso ao judiciário; enquanto o primeiro tem 
conceito e não se esgota com o simples acesso ao judiciário, o segundo, de caráter estrito, 
diz respeito à instituição em si, dotada de linguagem e procedimentos próprios, e à 
necessidade de aproximação desta com o povo. 
Um exemplo de promoção do acesso ao judiciário em matéria penal é a edição da Lei dos 
Juizados Especiais (9.099/95) cujos procedimentos por ela regidos obedecem aos 
princípios da oralidade, informalidade, economia processual e celeridade, traduzindo-se em 
verdadeiro esforço do legislador na busca pela redução da complexidade processual. 
A Lei Federal 9.099/95 apresenta claro caráter despenalizador e facilitador, posto que a 
redução de documentos necessários ao deslinde do feito tem o condão de facilitar o 
entendimento por parte do acusado e acelerar o trâmite processual. Os atos no âmbito do 
Juizado Especial Criminal são praticados com o mínimo de formalidade possível, sendo, a 
eles, atribuído validade, nos termos do art. 13 do mesmo códex, sempre que preenchem 
as finalidades para as quais foram realizados. 
Assim, no estudo criminológico das políticas criminais e dos processos de criminalização, 
é vital o reconhecimento, do ponto de vista político-social, dos esforços lançados pelo 
legislador em ampliar não apenas o acesso à justiça mas o acesso ao judiciário, 
simplificando seus procedimentos e facilitando os meios de defesa por parte dos acusados. 
Videoaula tratando do acesso ao judiciário em seu conceito estrito e sua distinção com o 
acesso à justiça em sentido amplo. 
 
SELETIVIDADE DO PODER PUNITIVO 
Visando à efetiva análise da seletividade do poder punitivo do ponto de vista sociológico, é 
necessário que nos debrucemos sobre a efetiva ação punitiva do Estado em face à 
infringência de uma conduta tipificada pela norma penal, ou seja, sobre o processo de 
criminalização secundária. 
Como explanado anteriormente, na fase secundária do processo de criminalização, temos 
a atuação de instituições como o Ministério Público, o Judiciário e da própria polícia 
enquanto agente de controle social. Durante essa fase, é possível observar com maior 
clareza a seletividade do poder punitivo, e a esse respeito, Orlando Zaconne (2004, p. 184), 
aponta que “não é possível ao sistema penal prender, processar e julgar todas as pessoas 
que realizam as condutas descritas na lei como crime e, por conseguinte, opta entre o 
caminho da inatividade ou da seleção”. 
Dessa forma, buscando afastar sua inatividade ou mesmo omissão, o Estado acabou por 
optar pelo caminho da seleção diretamente influenciado por estigmas sociais. Esse modelo 
de atuação, baseado em uma espécie de seletividade punitiva velada, traz resquícios das 
teses defendidas por Cesare Lombroso no apogeu do positivismo científico. Lombroso 
realizou pesquisas embasadas na correlação entre o desenvolvimento social e os fatores 
criminológicos, apontando que o sujeito que comete um ato ilícito possui aspectos físicos 
ou fisionômicos que, por si, indicam sua criminalidade. 
O sistema penal, do ponto de vista garantista e constitucional, deve ser igualitário e 
comprometido com a efetiva preservação da dignidade da pessoa humana, porém o que 
se verifica efetivamente é que, na tentativa de não se tornar ineficiente, acaba por se revelar 
um sistema seletivo e repressivo. O jurista argentino Eugenio Raúl Zaffaroni (2011), 
seguindo a mesma esteira de raciocínio, é didático ao tratar do assunto: 
Por tratar-se de pessoas desvaloradas, é possível associar-lhes todas as cargas negativas 
existentes na sociedade sob forma de preconceitos, o que resulta em fixar uma imagem 
pública do delinquente com componentes de classe social, étnicos, etários, de gênero e 
estéticos. (p. 46) 
Mesmo que de forma velada e não intencional, o critério de seleção empregado na fase 
secundária do processo de criminalização acaba sendo estereotipado, voltado a selecionar 
pessoas de classes menos favorecidas e deixando de lado os autores de outros delitos que 
moram em bairros de classe social mais alta. Com isso, é de fácil observação que a 
essência do sistema punitivo, visando a uma maior efetividade de suas ações, é seletiva, 
do ponto de vista político-social, e objetiva, a partir de condutas repressivas, difundir o medo 
na população economicamente menos favorecida como uma estratégia de controle social, 
aumentando exponencialmente sua eficiência ao dar atenção a delitos menores em 
detrimento de condutas consideradas, por vezes, mais complexas. 
Seguindo essa linha de raciocínio, conclui-se que o Estado, enquanto agente punitivo, 
aplica a justiça seletiva principalmente contra a população mais vulnerável, sendo 
necessário, dessa forma, conter os agentes da segunda fase do processo de criminalização 
quando operam contra os menos favorecidos, pois, se de um lado está a população mais 
propícia ao cometimento de condutas ilícitas, de outro, o Estado é o real responsável por 
deixar de promover a melhora de suas condições. 
 
Saiba mais 
SOUZA. K. R. F. de; PINHEIRO, L. G. B. A seletividade do sistema penal como instrumento 
de controle social: uma análise a partir do caso Rafael Braga Vieira. Clique aqui para 
acessar. 
SÁ. S de. Culpabilidade: da teoria psicológica à teoria normativa pura e sua consolidação 
como princípio. Clique aqui para acessar. 
DAMASCENO. A. A. Acesso à justiça penal? Não, obrigado. Clique aqui para acessar. 
Videoaula acerca da seletividade do poder punitivo com explanações sobre o processo 
secundário de criminalização e como a política penal ataca, geralmente, as classes menos 
favorecidas. 
 
TEORIA DA VULNERABILIDADE 
Ao estudarmos o procedimento criminalizante, as influências e os efeitos sociais dele 
decorrentes, faz-se indispensável uma análise acurada acercada teoria da vulnerabilidade. 
Essa teoria, concebida por Eugênio Raúl Zaffaroni, defende que as condições social e 
econômica do agente que comete determinada conduta delituosa, quando reduzida o 
suficiente a ponto de que a prática de um crime seja o único caminho lógico a seguir, devem 
ser analisadas como atenuantes de sua culpabilidade. 
A fim de proceder a efetiva análise quanto à vulnerabilidade do sujeito, Zaffaroni (2002) 
aponta a necessidade de se levar em conta o vínculo existente entre o delito e o criminoso, 
que é estabelecido na fase secundária do processo de criminalização, e o que ele chama 
de “perigosidade do sistema penal”, esclarecendo que o grau de perigosidade é 
individualizado, decorrente, justamente, de seu estado de vulnerabilidade. 
Zaffaroni (2002, p. 654) enfatiza que “o estado de vulnerabilidade se integra com os dados 
que formam seu status social, classe, colocação laboral ou profissional, renda, estereótipo, 
que se aplica, ou seja, por sua posição dentro da escala social”. Sob esse enfoque, é 
possível traçar um paralelo entre o poder punitivo e o estado de vulnerabilidade, verificando 
que a relação entre os dois é diretamente inversa. Dessa forma, quanto melhor a condição 
socioeconômica de uma determinada pessoa, menor o risco de criminalização, posto que 
estão ausentes as vulnerabilidades econômica, educacional, ética ou mesmo cultural. 
A teoria da vulnerabilidade surgiu a partir da teoria da coculpabilidade, sendo a primeira 
uma espécie de evolução da segunda. A coculpabilidade defendia a tese de que o meio 
social, enquanto excludente e estigmatizador, deveria dividir a responsabilidade com o 
agente que cometeu a conduta delituosa, reduzindo a pena do criminoso ante a participação 
da própria sociedade em sua tomada de decisão. Como evolução lógica da coculpabilidade, 
a teoria da vulnerabilidade tem um conceito mais amplo e defende que o Estado, enquanto 
garantidor de direitos básicos, falha ao não fornecer educação ou melhores condições ao 
sujeito, o que, por si só, contribui para o ingresso deste no meio criminal, por isso, ante a 
omissão do Estado, a vulnerabilidade do agente (não apenas econômica) deve abrandar a 
sanção aplicada em razão da prática delituosa. 
Ao discorrer sobre o tema, o professor Nilo Batista (2004, p. 105) é didático: 
Trata-se de considerar, no juízo de reprovabilidade que é a essência da culpabilidade, a 
concreta experiência social dos réus, as oportunidades que se lhes deparam e a assistência 
que lhes foi ministrada, correlacionando sua própria responsabilidade a uma 
responsabilidade geral do estado que vai impor-lhes a pena; em certa medida. 
Com isso, podemos concluir que a teoria da vulnerabilidade de Zaffaroni busca conciliar a 
constante evolução sociológica e o aumento da desigualdade social decorrente de uma má 
prestação de serviços por parte do Estado (enquanto garantidor de direitos básicos) com a 
necessidade de se tomar em conta a própria influência que o meio ambiente social exerce 
sobre o agente que comete a conduta delituosa, quando da dosimetria da pena aplicada, 
conferindo-lhe tratamento desigual com o propósito de alcançar a isonomia na medida de 
sua vulnerabilidade. 
Videoaula com explicações acerca da teoria da vulnerabilidade com exemplos de sua 
aplicação prática. 
 
ESTUDO DE CASO 
Sob a ótica da teoria da vulnerabilidade, você deverá discorrer sobre a possibilidade de se 
considerar alguma atenuante no exame da culpabilidade ou da aplicação da pena ao caso 
“Lázaro” – comentado em larga escala na mídia no ano de 2021. Essa análise terá de ser 
feita sob a razão do meio em que ele viveu, o sistema humilde em que foi criado, os pares 
que o acompanharam e sua exposição a outros presos. 
 
RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO 
Em relação à problemática apresentada, você deve discorrer sobre a aplicabilidade da 
teoria da vulnerabilidade de Zaffaroni, expondo que a teoria defende que as condições 
social e econômica do agente que comete determinada conduta delituosa, quando reduzida 
o suficiente, a ponto de que a prática de um crime seja o único caminho lógico a seguir, 
devem ser analisadas como atenuantes de sua culpabilidade. 
É esperado que, em análise ao caso Lázaro, você destaque a relação entre a 
vulnerabilidade social e a violência, apontando que o Estado, enquanto garantidor de 
direitos básicos, falha ao não fornecer educação ou melhores condições ao sujeito, o que, 
por si só, contribui para o ingresso deste no meio criminal, por isso, ante a omissão do 
Estado, a vulnerabilidade do agente (não apenas econômica) deve abrandar a sanção 
aplicada em razão da prática delituosa. 
Dessa forma, ao concluir seu raciocínio, você deve demonstrar a possibilidade de aplicação 
da mencionada teoria não apenas aos crimes patrimoniais mas também aos demais crimes, 
desde que, como observado no caso concreto, seja possível definir que as condições 
sociais e o próprio meio em que vive o agente influenciam sua conduta delituosa ante a 
falha do Estado em lhe dar melhores condições. 
 
CONTROLE SOCIAL 
Durante os estudos, aprofundaremos nos efeitos que o controle social difuso e 
institucionalizado exercem no processo de criminalização. 
 
INTRODUÇÃO 
Olá, estudante! 
Durante os estudos, aprofundaremos nos efeitos que o controle social difuso e 
institucionalizado exercem no processo de criminalização. 
O controle social pode ser definido como o instrumento voltado a induzir um determinado 
comportamento em elementos de um grupo social ou da própria sociedade, sejam estes 
comportamentos positivos ou negativos. 
O controle social difuso é aquele relacionado a cada sujeito de modo individual e está ligado 
diretamente com a vida privada de cada um. Nesta seara, podemos citar a religião e a 
mídia, como exemplos de controle social difuso, na medida em que exercem papel 
direcionador de condutas. 
Por sua vez, o controle social institucionalizado é aquele ligado diretamente ao Estado e 
que, de igual forma, direciona a conduta de grupos sociais, como é o caso do Sistema 
Escolar (por meio da ampliação de conhecimento) e do Sistema Penal (incutindo o medo 
da segregação). 
 
CONTROLE SOCIAL DIFUSO – RELIGIÃO 
A forma como um indivíduo convive em sociedade não é ditada por suas condições 
biológicas, mas sim, pelos sentimentos desenvolvidos pelo próprio indivíduo enquanto 
membro de determinado grupo. 
Ao tratarmos da religião enquanto instrumento de controle social, é importante enfatizar que 
estamos tratando da instituição religiosa em si e não propriamente de uma religião em 
particular. Para analisarmos a religião sob este enfoque, é preciso ter em mente a existência 
de um dogma religioso, do que chamamos de “lei divina”, com a estipulação de condutas 
vedadas ou pecaminosas que, se executadas, ofendam a vontade divina e afetem a 
convivência com outros fieis. 
A religião do ponto de vista do controle social caracteriza-se pela existência de uma 
comunidade religiosa, ou seja, um grupo social que conjuntamente possui as mesmas 
crenças e segue a mesma lei divina. 
O sociólogo David Émile Durkheim (1886, p. 172-173), ao tratar da função social da religião 
em sua obra Os estudos de ciência social, foi didático: 
Efectivamente, que diferença há entre as prescrições religiosas e as imposições da moral? 
Elas dirigem-se igualmente aos membros de uma mesma comunidade, apoiam-se em 
sanções por vezes idênticas, sempre análogas; enfim, a violação de umas e de outras 
provoca nas consciências os mesmos sentimentos de indignação e repugnância. 
Durkheim aponta que não é possível estudar separadamente as prescrições religiosas e as 
imposições da moral, defendendo que, assim como a religião, o direito é um conjunto de 
ordens cumpridas em decorrência da ameaça de uma sanção material. 
No direito positivado, é cristalina a importância da religião, inclusive no que tange ao 
processo de ressocializaçãodo apenado, até por isso, a própria Lei Federal nº 7.210/84 – 
Lei de Execuções Penais (BRASIL, 1984), em seu art. 24 é cristalina ao dispor a respeito 
da prestação de assistência religiosa, assim definindo: 
Art. 24. A assistência religiosa, com liberdade de culto, será prestada aos presos e aos 
internados, permitindo-se-lhes a participação nos serviços organizados no estabelecimento 
penal, bem como a posse de livros de instrução religiosa. 
O parágrafo primeiro, do citado artigo dispõe ainda que no estabelecimento prisional deverá 
haver local apropriado à prática de cultos religiosos. 
É importante enfatizar que a religião, independentemente de sua crença ou dogma, do 
ponto de vista sociológico, cria uma espécie de solidariedade grupal, fortalecendo a 
integração do sujeito com o grupo social, conduzindo-o na tomada de decisões e na 
formação de seu modo de agir. 
Dentro do processo de criminalização e tomando por base a já estudada Routine Activity 
Theory, a religião pode exercer o papel de influenciadora psicológica do criminoso, 
desestimulando a prática de uma conduta ilícita e servindo como forma de prevenção à 
prática criminosa por meio do controle social. 
Assim, podemos definir a religião como forma de controle social difuso na qual o sujeito, 
integrado em determinado grupo social, é moralmente direcionado a adotar uma conduta 
condizente com sua crença religiosa e, visando não contrariar o comportamento do grupo 
a que pertence, é induzido a não executar uma conduta ilícita, demonstrando assim, a 
importância do papel que a religião exerce na prevenção do crime. 
Aula vídeo relativa ao papel que a religião enquanto instituição de controle social exerce 
sobre o indivíduo e sua atuação na prevenção ao crime. 
 
CONTROLE SOCIAL DIFUSO – MÍDIA 
Antes de adentrar a esta seara, é importante ressaltar que não se pretende, no presente 
estudo, criticar a atuação da mídia, sendo reconhecida sua importância para o pleno 
funcionamento e preservação do Estado Democrático, principalmente ante a garantia da 
liberdade de expressão e a necessidade, cada vez maior, de transparência em todos os 
atos praticados pelo Estado. 
Com a expansão das formas de transmissão, as notícias passaram a alcançar uma parcela 
cada vez maior da sociedade, o que por si só é algo exemplar, porém, a propagação de 
conteúdo, por vezes, assume tons severos e extremistas, capazes de influenciar grupos 
sociais inteiros. 
A respeito do tema o jurista argentino Eugenio Raúl Zaffaroni (2012, p. 333) é enfático ao 
tratar dos efeitos que o extremismo da mídia causa: 
a criminologia midiática não tem limites, que ela vai num crescendo infinito e acaba 
clamando pelo inadmissível: pena de morte, expulsão de todos os imigrantes, demolição 
dos bairros pobres, deslocamento de população, castração dos estupradores, legalização 
da tortura, redução da obra pública à construção de cadeias, supressão de todas as 
garantias penais e processuais, destituição dos juízes. 
A mídia, enquanto ferramenta de influência, ao noticiar um fato criminoso sem objetividade, 
apelando, por vezes, ao sensacionalismo, acaba criando verdadeiros “escândalos criminis” 
e, com apoio popular decorrente do alcance, leva o legislador a promover alterações na lei 
penal e pior, induz a prolação de decisões pouco fundamentas que se baseiam mais em 
atender os anseios da população do que na justiça propriamente dita. 
Outro aspecto relevante relativo ao controle social exercido pela mídia, diz respeito à 
exposição direta do sujeito acusado de um delito, desrespeitando irreversivelmente suas 
garantias fundamentais constitucionalmente previstas, principalmente no que tange a clara 
violação ao princípio da presunção de inocência, pilar do Estado Democrático de Direito. 
Com relação à violação de tal preceito, Marilia de Nardin Budó (2013, p. 102), ao tratar do 
assunto aponta que “a pena instituída pelos meios de comunicação é a execração pública 
do suspeito ou acusado, a violação de sua imagem, honra, estado de inocência, sua 
estigmatização, de forma irrecuperável”. 
Desta forma, é perceptível que a influência da mídia no processo de criminalização pode 
seguir caminhos danosos, quando do ponto de vista da rotulação e estigmatização do 
indivíduo face a sociedade, desrespeitando, inclusive, o princípio da presunção de 
inocência ou ainda, pode auxiliar na formação de sistema dotado de maior repressão, 
quando analisado sob a ótica do recrudescimento do sistema penal, advindo do apelo 
popular por uma solução imediata para os problemas de segurança. 
Com isso, a mídia pode ser considerada uma ferramenta de controle social difuso e informal 
apta a influenciar de forma positiva ou negativa a população quando não atuante de forma 
objetiva e parcial. 
Aula vídeo tratando das influências da mídia no processo de criminalização e sua 
capacidade de influenciar a população. 
 
CONTROLE SOCIAL INSTITUCIONALIZADO - SISTEMA ESCOLAR 
A educação, conforme previsão da própria Constituição da República Federativa do Brasil 
(BRASIL, 1988) “é direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e 
incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da 
pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. 
Assim, é perceptível que a educação visa o desenvolvimento da pessoa e, sem ela, a 
própria construção da convivência em sociedade estaria ameaçada. 
É importante relembrarmos que, na fase primária do processo de prevenção de situações 
de crime, o Estado tem por objeto a implementação de ações indiretas voltadas à 
prevenção, evitando estímulos a prática criminosa. Essas ações possuem caráter social, 
econômico e educativo, atacando, desta forma, a causa inicial da conduta criminosa, 
evitando, assim, que o indivíduo cometa desvios. 
O Estado, enquanto garantidor dos direitos fundamentais, visando a efetiva redução da 
criminalidade, deve intervir de forma preventiva para conscientizar os cidadãos, desde as 
primeiras fases da educação básica, de suas responsabilidades no que concerne à 
segurança pública. 
Como instrumento de controle social institucionalizado, o sistema escolar é responsável por 
afastar a juventude da criminalidade, posto que, quanto maior o grau de escolaridade de 
um determinado grupo, menor a incidência de delitos. Assim, o Estado, atuando na 
prevenção de condutas criminosas, deve maior atenção às políticas voltadas ao processo 
educacional, visando assim, a gradativa redução da criminalidade. 
Émile Durkheim (1975, p. 41-42) ao tratar da educação e o seu papel na formação social 
do indivíduo, conclui que: 
A educação consiste numa socialização metódica das novas gerações. Em cada um de 
nós, já o vimos, pode-se dizer que existem dois seres. Um, constituído de todos os estados 
mentais que não se relacionam senão conosco mesmo e com os acontecimentos de nossa 
vida pessoal; é o que se poderia chamar de ser individual. O outro é o sistema de ideias 
sentimentos e de hábitos, que exprimem em nós não a nossa personalidade, mas o grupo 
ou os grupos diferentes de que fazemos parte; tais são as crenças religiosas, as crenças e 
as práticas morais, as tradições nacionais ou profissionais, as opiniões coletivas de toda a 
espécie. Seu conjunto forma o ser social. Constituir esse ser em cada um de nós - tal é o 
fim da educação 
Sob este enfoque, podemos constatar que a educação, enquanto instrumento de controle 
social institucionalizado, exerce importante papel na constituição da sociedade e no 
direcionamento da tomada de decisão de cada indivíduo enquanto membro desta 
sociedade. 
Traçando um paralelo com países que realizaram maiores investimentos no âmbito 
educacional como a Noruega, Finlândia e Dinamarca, é possível verificar que houve uma 
redução exponencial dos índices e da criminalidade quando em comparação com o Brasil. 
Desta forma é preciso destacar que,a fim de aumentar a efetividade das medidas de 
prevenção ao crime, é fundamental um maior investimento nas políticas educacionais, 
posto que o aumento da criminalidade é inversamente proporcional aos níveis 
educacionais. 
 
Saiba mais 
WEISS, R. Durkheim e as formas elementares da vida religiosa. Clique aqui para acessar. 
SILVEIRA, F. L. da. Mídia, medo e controle: ensaio sobre o papel da mídia na dinâmica do 
recrudescimento do sistema penal. Clique aqui para acessar. 
Aula vídeo versando sobre o papel do sistema educacional enquanto instituição de controle 
social institucionalizada e os efeitos deste na prevenção a criminalidade. 
 
CONTROLE SOCIAL INSTITUCIONALIZADO - SISTEMA PENAL 
O sistema penal, enquanto ferramenta de controle social institucionalizado, tem por objetivo 
incutir o medo da pena, decorrente da prática de uma conduta tida como ilícita, atuando, 
consequentemente na prevenção do delito. 
Conforme já abordado, a essência do sistema punitivo, visando maior efetividade em suas 
ações, é seletiva do ponto de vista político-social e objetiva, por meio de condutas 
repressivas, difundir o medo na população economicamente menos favorecida como 
estratégia de controle social, aumentando exponencialmente sua eficiência ao dar atenção 
a delitos menores, em detrimento de condutas consideradas por vezes mais complexas. 
Ao tratar do assunto, Eugenio Raúl Zaffaroni (2012, p. 23) defende que o sistema penal 
exerce uma espécie de controle social militarizado e verticalizado: 
Mediante está expressa e legal renúncia à legalidade penal, os órgãos do sistema penal 
são encarregados de um controle social militarizado e verticalizado, de uso cotidiano, 
exercido sobre a grande maioria da população, que se estende além do alcance meramente 
repressivo, por ser substancialmente configurador da vida social. 
Sob este prisma, o autor dá ênfase à Teoria da Seletividade do Poder Punitivo e a 
preferência do sistema penal ao selecionar os setores marginalizados da sociedade em sua 
atuação. 
Ao tratar do sistema penal propriamente dito, o professor Nilo Batista (2007, p. 25) aponta 
que este é formado pela instituição policial, a instituição judiciária e a instituição 
penitenciária, sendo que, a este grupo, compete a efetiva realização do Direito Penal. 
A instituição policial, no que tange ao controle social atua diretamente na fase secundária 
do processo de criminalização é a primeira a realizar a análise do processo de 
criminalização, até porque, quando da realização de uma conduta tipificada como 
penalmente reprovável, o primeiro contato é justamente com a organização policial, a qual, 
por meio de seus agentes, identifica a materialidade do delito e os investiga com o objetivo 
de identificar indícios de sua autoria. 
Assim, a atuação repressiva da instituição policial serve de ferramenta de controle social, 
posto que o coíbe a prática de condutas delitivas. 
A instituição judiciária, por sua vez, também atuante na fase secundária do processo de 
criminalização, servindo aos propósitos de controle social institucionalizado, posto que, sua 
postura estigmatizante e penosa, faz com que os sujeitos que respondam processos 
judiciais, mesmo que ao final sejam absolvidos, sofram com o trâmite judicial deste, 
incutindo na população em geral, uma espécie de medo do processamento judicial, 
servindo, desta forma, como medida de controle social preventiva. 
Por fim, a instituição penitenciária, enquanto ferramenta de controle social 
institucionalizado, tem por objetivo incutir o medo da segregação no indivíduo, fazendo que 
os grupos suscetíveis às práticas criminosas sintam-se desencorajados de cometer delitos 
devido ao medo da aplicação de penas severas. 
Desta forma, é possível concluir que o Sistema Penal, formado pelas instituições policial, 
judiciária e penitenciária, no âmbito do controle social institucionalizado, e tem por objeto 
coibir práticas criminosas, operando de forma repressiva ou mesmo preventiva, pautadas 
no medo do cidadão da aplicação das severidades da lei. 
Aula vídeo relativa ao sistema penal e sua atuação repressiva e preventiva no combate à 
criminalidade enquanto instituição de controle social. 
 
ESTUDO DE CASO 
Diante do quanto abordado, o estudante deve discorrer acerca do reflexo social e 
institucional provocado pela educação, no âmbito do Direito Penal. 
 
RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO 
Tomando por base as premissas estudadas, é esperado que o estudante discorra sobre as 
respostas sociais positivas e equilibradas provocadas pelo investimento estatal em seu 
sistema educacional, fundamentando que o avanço e desenvolvimento da educação enseja 
o encorajamento e a motivação. 
É importante que o estudante aborde o tema sob o enfoque de que a Teoria da Seletividade 
do Poder Punitivo traz a premissa de provocar o medo do castigo, enquanto com o efetivo 
desenvolvimento educacional, o Estado deixa de investir na política do medo, passando a 
atacar a raiz do problema, inclusive como forma de prevenção primária a conduta criminosa. 
O estudante deve enfatizar que as ações realizadas na prevenção primária geralmente 
possuem caráter social, econômico e educativo, atacando, desta forma, a causa inicial da 
conduta criminosa, aumentando a renda do cidadão, melhorando as condições de moradia 
e emprego e possibilitando uma vida minimamente saudável e digna a estes, evitando, 
assim, que o indivíduo cometa desvios de conduta e atos criminosos. 
Com isso, deve voltar sua conclusão para as vantagens sociais do ponto de vista do 
processo de criminalização que se obtém com o investimento em educação, demonstrando 
que, quanto maior o grau de investimento, inversamente proporcional é a prática criminosa. 
SELETIVIDADE DO SISTEMA PENAL 
Ao decorrer dos estudos vamos nos aprofundar no tema relativo à seletividade do sistema 
penal em todas as fases do processo de criminalização e às formas de mitigação dessa 
problemática. 
 
INTRODUÇÃO 
Olá, estudante! Ao decorrer dos estudos vamos nos aprofundar no tema relativo à 
seletividade do sistema penal em todas as fases do processo de criminalização e às formas 
de mitigação dessa problemática. 
Ao adentrarmos no tema proposto, torna-se imperiosa a análise do processo de aplicação 
das penas e o confronto da finalidade e da efetividade do sistema punitivo sob a ótica da 
aplicação igualitária da retribuição penal. Aqui, aprofundaremos os conhecimentos relativos 
às escolas penais e o ponto de vista da criminologia crítica a respeito da função preventiva 
do sistema penal pautada na política do medo influenciada por fatores externos e internos 
inerentes ao próprio poder punitivo do Estado. 
 
A FUNÇÃO E OS FINS DA PENA 
Para tratarmos da seletividade no sistema penal, indispensável se faz abordar a função e 
a finalidade da pena sob a ótica do poder punitivo do Estado. 
Do ponto de vista histórico, as penas surgiram como forma de punição em decorrência de 
um mal causado. Nesse aspecto, é possível apontar que as penas se desenvolveram em 3 
fases: vingança divina, vingança privada e vingança pública. 
A vingança de caráter religioso originou-se nos primórdios da civilização e tinha por 
finalidade punir aqueles que feriam a lei divina; assim, as “vítimas” propriamente ditas eram, 
de forma direta ou indireta, os entes divinos. Nesse período, as penas não tinham caráter 
retributivo ou restaurativo, mas, sim, um caráter meramente expiatório, ou seja, buscava-
se, com a aplicação da pena, o perdão pelo pecado cometido. 
Após essa primeira fase, surgiu o período da vingança privada, em que foi deixada de lado 
a premissa de castigo divino e passou-se a dar importância aos sentimentos e anseios da 
vítima do fato danoso. Nesse período, não havia respeito ou mesmo definição de direitos 
fundamentais, imperavam a responsabilidade objetiva e o castigo violento ou 
desproporcional, como amputações, execuções e banimento.Com o desenvolvimento do direito e da própria vida em sociedade, alcançamos a época da 
vingança pública, em que o Estado passou a ser o detentor do poder punitivo, visando, ao 
menos em tese, à paz social. 
A respeito da evolução das penas, Luiz Régis Prado (2012, p. 84) é didático: 
Primeira época. Crimen é atentado contra os deuses. Pena, meio de aplacar a cólera divina; 
b) Segunda época. Crimen é agressão violenta de uma tribo contra outra. Pena, vingança 
de sangue de tribo a tribo; c) Terceira época. Crimen é transgressão da ordem jurídica 
estabelecida pelo poder do estado. Pena é a reação do Estado contra a vontade individual 
oposta à sua. 
A aplicação de pena tem por objetivo a proteção do bem social, porém, sob a ótica da 
seletividade do sistema penal, a função motivadora e a função social da sanção não estão 
em consonância, porque os grupos que detêm o poder de influenciar na edição ou mesmo 
na aplicação de normas penais, a fim de proteger seus objetivos escusos, desenvolvem 
meios de neutralizar a aplicabilidade da norma ou penal. 
Solução importante, ainda que economicamente onerosa, foi a da construção de novos 
presídios. Não só́ para criá-los em locais onde eles antes eram inexistentes, porém também 
para melhorá-los, modernizando-os, em locais onde eles já atuavam de forma ultrapassada 
e deficiente, gerando, em contrapartida, considerável tensão no es- pírito do reeducando 
neles submetidos à privação da liberdade. sob o prisma da edificação de penitenciárias, a 
prática tem demonstrado que o sistema implementado no Brasil encontra-se muito aquém 
do ideal. (Roberto, PORTO, Crime organizado e sistema Prisional. 
Disponível em: Minha Biblioteca, Grupo GEN, 2008) 
Sob essa ótica, é possível constatar que a seletividade do sistema penal influencia a própria 
finalidade da pena, uma vez que seu desvirtuamento remove a efetividade de aplicação do 
sistema penal como um todo; assim, o objetivo da pena de preservar um bem juridicamente 
tutelado, do ponto de vista social, fracassa quando a pena é aplicada somente em face da 
população menos favorecida e deixa de funcionar para as classes que detêm o poder. 
Videoaula relativa à função e aos fins da pena e sua ineficiência em face à seletividade do 
sistema penal no caso concreto. 
 
AS ESCOLAS PENAIS 
Para compreender a seletividade do sistema penal, é fundamental um estudo aprofundado 
acerca das principais escolas penais e da influência que exerceram na formação do direito 
penal moderno, bem como as nuances relativas a cada uma delas, em especial o 
positivismo científico e seus entendimentos relativos à concepção de seletividade. 
Quanto às escolas penais, é importante destacarmos as principais: a escola clássica, a 
escola positivista, o correcionalismo penal, o tecnicismo jurídico-penal e a defesa social. 
Sob a ótica da seletividade penal, a escola de maior destaque é a positivista, razão pela 
qual abordaremos, nesta aula, seus principais aspectos. 
Conforme já abordado, o positivismo científico teve como objeto de estudo o homem 
criminoso. Diversos autores, como Cesare Lombroso, defendiam que nem todos os 
indivíduos são iguais, apontando que os criminosos agiam de forma irracional e 
predeterminada. 
Lombroso, em claro entendimento seletivo do sujeito criminoso, acreditava que o 
delinquente apresenta características físicas que o tornam um “criminoso nato”. Em sua 
obra O homem delinquente, Lombroso (2001) apontou que, para cada tipo de conduta 
criminosa, as características fisiológicas são distintas, frisando que os violadores, por 
exemplo, quase sempre possuem olhos salientes, fisionomia delicada e lábios e pálpebras 
volumosos, enfatizando que, na maior parte das vezes, são frágeis, louros e magros. 
Por sua vez, Lombroso apontava que os homicidas e arrombadores apresentam cabelos 
crespos, maxilares possantes, crânio deformado, incidência de tatuagens e muitas 
cicatrizes. A atribuição de Lombroso relativa ao criminoso nato influenciou, de forma 
negativa, os sistemas penais, criando uma visão preconceituosa e estigmatizante do sujeito 
que comete uma conduta ilícita. 
A respeito do tema, Raul Eugenio Zaffaroni (2011) é didático ao expor seu pensamento 
sobre a criminalização decorrente da classe social influenciada pelos entendimentos 
advindos do positivismo científico: 
Há uma clara demonstração de que não somos todos igualmente ‘vulneráveis’ ao sistema 
penal, que costuma orientar-se por ‘estereótipos’ que recolhem os caracteres dos setores 
marginalizados e humildes, que a criminalização gera fenômeno de rejeição do etiquetado 
como também daquele que se solidariza ou contata com ele, de forma que a segregação 
se mantém na sociedade livre. A posterior perseguição por parte das autoridades com rol 
de suspeitos permanentes, incrementa a estigmatização social do criminalizado. 
Ante o exposto, é possível delinear que o desenvolvimento das escolas penais no decorrer 
dos anos foi crucial para o avanço do processo de criminalização, porém, com o advento 
do pensamento científico advindo da ascensão da escola positivista, o pensamento 
lombrosiano trouxe uma marca estigmatizante que influenciou e ainda influencia o direito. 
Sob a concepção seletivista, é fácil notar que o pensamento defendido pelo positivismo 
criou certa dose de separação racial e social, impondo que os criminosos, ante as suas 
características físicas, fossem segregados. Tal pensamento, por sua vez, não prospera nos 
dias atuais, porém sua influência é vista na atuação da fase secundária do processo de 
criminalização, em que as instituições de controle social, buscando maior efetividade em 
suas ações, agem, muitas vezes, com foco repressivo em face de populações menos 
favorecidas. 
Videoaula tratando das escolas penais sob a ótica da seletividade do sistema penal, 
principalmente no que tange às influências do pensamento lombrosiano no processo 
criminalizante. 
 
CRIMINOLOGIA CRÍTICA E A FUNÇÃO PREVENTIVA DO SISTEMA PENAL 
Desenvolvida por Alessandro Baratta, a teoria da criminologia crítica é uma ideia recente 
voltada ao aprofundamento dos estudos relativos à teoria do etiquetamento, servindo de 
verdadeira crítica ao sistema penal ante a sua cristalina seletividade. 
Em sua obra, Criminologia crítica y crítica del derecho penal, Alessandro Baratta (1986, p. 
10) aponta que a justiça criminal, em sua essência, é seletiva do ponto de vista social, assim 
dispondo: 
O funcionamento da justiça penal é altamente seletivo, seja no que diz respeito à proteção 
outorgada aos bens e aos interesses, seja no que concerne ao processo de criminalização 
e ao recrutamento da clientela do sistema (a denominada população criminal). Todo ele 
está dirigido, quase que exclusivamente, contra as classes populares e, em particular, 
contra os grupos sociais mais débeis, como o evidencia a composição social da população 
carcerária, apesar de que os comportamentos socialmente negativos estão distribuídos em 
todos os extratos sociais e de que as violações mais graves aos direitos humanos ocorrem 
por obra de indivíduos pertencentes aos grupos dominantes ou que fazem parte de 
organismos estatais ou organizações econômicas privadas, legais ou ilegais 
Sob o enfoque da criminologia crítica, a variação social e a seletividade penal dela 
decorrente são impeditivos claros ao fracasso do sistema penal. A materialização da 
isonomia se dá pela edição da lei em abstrato, ainda na fase primária do processo de 
criminalização, sob a premissa de que, em sendo uma conduta considerada ilícita, o 
cidadão, com medo da aplicação de uma pena, abstém-se de praticá-la. 
A problemática surge quando a seletividade opera desde a fase inicial do processo de 
criminalização, como na fase primária. A Lei de Drogas (11.343/06) é um claro exemplo 
dessa conduta, uma vez que, em seu art. 28, § 2º, prevê a possibilidade de diferenciação 
do sujeito, se usuário ou traficante dedrogas, com base em aspectos sociais e pessoais. 
Veja: 
Art. 28 [...] 
§ 2º Para determinar se a droga destinava-se a consumo pessoal, o juiz atenderá à natureza 
e à quantidade da substância apreendida, ao local e às condições em que se desenvolveu 
a ação, às circunstâncias sociais e pessoais, bem como à conduta e aos antecedentes do 
agente. 
Assim, segundo a criminologia crítica, o fracasso da justiça penal decorre da seletividade 
social intrínseca ao próprio processo de criminalização, que, mesmo com o 
desenvolvimento obtido no decorrer dos anos, mantem seu caráter repressivo e 
estigmatizante. 
Em se tratando da prevenção criminal, o estudo da criminologia crítica defende, visando à 
manutenção dos direitos humanos, a adoção de medidas menos interventivas por parte do 
Estado, enaltecendo os benefícios da adoção de meios alternativos de resolução de 
conflitos e a prevenção por meio da melhoria social em vez da ineficaz política do medo. 
Videoaula a respeito do posicionamento da criminologia crítica com relação à seletividade 
penal. 
 
DIREITO PENAL NÃO IGUALITÁRIO 
Como é possível concluir pela análise do conteúdo estudado até agora, as relações 
existentes entre o sistema penal e os direitos e garantias fundamentais são extremamente 
estreitas, havendo certa dose de flexibilidade visando, em tese, ao bem-estar social e à 
defesa dos bens juridicamente tutelados. 
A igualdade formal é prevista na Constituição da República Federativa do Brasil no caput 
do art. 5º (BRASIL, 1988), que nos traz a máxima de que “todos são iguais perante a lei, 
sem distinção de qualquer natureza” ([s. p.]). Já no âmbito do processo penal, o princípio 
da isonomia sofre certa relativização em razão do in dubio pro reo, como aponta Fernando 
Capez (2008, p. 19): 
As partes devem ter, em juízo, as mesmas oportunidades de fazer valer suas razões, e ser 
tratadas igualitariamente, na medida de suas igualdades, e desigualmente, na proporção 
de suas desigualdades. Na execução penal e no processo penal, o princípio sofre alguma 
atenuação pelo, também constitucional, princípio favor rei, postulado segundo o qual o 
interesse do acusado goza de alguma prevalência em contraste com a pretensão punitiva. 
Não obstante, ao tratarmos de direito penal igualitário, não estamos nos restringido ao 
respeito da isonomia constitucional em material processual, mas, sim, à ótica da 
seletividade do sistema. Dessa forma, vamos analisar, de modo amplo, a efetiva 
aplicabilidade da lei penal em face das populações menos favorecidas. 
Ao analisarmos a seletividade sob a ótica do direito penal não igualitário, temos que o 
legislador penal reprime determinados delitos com mais ferocidade do que outros que 
afetam bens jurídicos mais relevantes, por vezes, ou, ainda, concede benefícios de forma 
não isonômica aos infratores, traduzindo-se em verdadeira seleção arbitrária dos alvos da 
norma penal. 
A aplicação igualitária da norma penal não deve ser voltada à fixação de penas idênticas 
para delitos idênticos, mas, sim, estar ao alcance da lei de modo isonômico a todos os que 
cometem um delito. 
José Afonso da Silva (2014, p. 203), ao tratar do assunto, conceitua a igualdade penal de 
forma didática: 
Essa igualdade não há de ser entendida, já dissemos, como aplicação da mesma pena 
para o mesmo delito. Mas deve significar que a mesma lei penal e seus sistemas de 
sanções hão de se aplicar a todos quantos pratiquem o fato típico nela definido como crime. 
Sabe-se por experiência, contudo, que os menos afortunados ficam muito mais sujeitos aos 
rigores da justiça penal que os mais aquinhoados de bens materiais. As condições reais de 
desigualdade condicionam o tratamento desigual perante a lei penal, apesar do princípio 
da isonomia assegurado a todos pela Constituição (art. 5.º). 
Dessa feita, do ponto de vista da seletividade e até mesmo da criminologia crítica de 
Alessandro Baratta, é possível concluir que o Direito Penal, em que pese as disposições 
constitucionais, privilegia os interesses de classes dominantes e, por selecionar indivíduos 
de classes sociais mais baixas para aplicação incisiva de suas punições, de forma não 
igualitária, concede certa dose de imunização aos detentores de poder. 
Videoaula com explanações acerca da aplicação não igualitária na justiça penal sob o 
enfoque da seletividade e da criminologia crítica de Alessandro Baratta. 
 
ESTUDO DE CASO 
Imagine uma situação hipotética em que um sujeito tenha sido preso após a ocorrência de 
um suposto crime apenas por uma única semelhança: sua cor de pele. Na descrição do 
autor do delito, pela vítima, o crime foi praticado por um negro, alto, de camisa vermelha, 
ao passo que, a pessoa detida, apesar de negra, foi presa tempo depois da ocorrência dos 
fatos sem o objeto do crime, vestindo camisa azul e tendo estatura baixa. Por ocasião do 
seu reconhecimento na delegacia, todas as outras pessoas eram brancas, e o imputado foi 
reconhecido pela vítima pela forma que a autoridade policial conduziu o ato do 
reconhecimento. 
Frente a isso, e tendo em vista as premissas apresentadas, o estudante deve discorrer 
acerca da teoria do etiquetamento sob o enfoque da seletividade criada pelo sistema penal. 
 
RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO 
O estudante deve apontar que o ato do reconhecimento foi estigmatizado a ponto de induzir 
a vítima ao reconhecimento de um único negro colocado ao lado de outras pessoas 
brancas, uma vez que, todas as outras características são distintas daquelas narradas pela 
vítima. 
Com bases nas premissas estudadas, é esperado que o estudante aponte que o sistema 
penal, do ponto de vista garantista e constitucional, deve ser igualitário e comprometido 
com a efetiva preservação da dignidade da pessoa humana, porém o que se verifica 
efetivamente é que, na tentativa de não se tornar ineficiente, acaba por se revelar um 
sistema seletivo e repressivo. 
O estudante deve complementar sua dissertação apontando que, visando a afastar sua 
inatividade ou omissão, o Estado optou pelo caminho da seleção diretamente influenciado 
por estigmas sociais, esclarecendo que esse modelo de atuação, baseado em uma espécie 
de seletividade punitiva velada, traz resquícios das teses defendidas por Cesare Lombroso 
no apogeu do positivismo científico e a influência dos aspectos físicos ou fisionômicos de 
um sujeito na prática do ato criminoso. 
É importante que a dissertação apresentada aponte que a teoria do etiquetamento social 
faz uma espécie de ligação entre os conceitos de crime e criminoso e o próprio 
comportamento social, considerando seus costumes e valores socialmente aceitos sob o 
argumento de que estes, sim, são os criadores das chamadas etiquetas sociais em 
detrimento do ato criminoso em si. 
 
Saiba mais 
MOREIRA, R. D. Notas sobre a seletividade do sistema penal. Revista Eletrônica da 
Faculdade Metodista Granbery, Juiz de Fora, n. 8, jan./jun. 2010. 
Acesse para uma breve leitura do artigo: RIBEIRO, H. B. A necessidade de superação do 
paradigma criminológico tradicional: a criminologia crítica como alternativa à ideologia da 
“lei e ordem”. 2010. 
 
ASPECTOS CONTROVERSOS - PARTE 1 
Nesta aula abordaremos alguns temas controversos relativos ao processo de 
criminalização, como a criminalização de letras musicais e da homofobia, de movimentos 
sociais e o estigma racial por trás do processo de criminalização. 
 
INTRODUÇÃO 
Olá, estudante! 
Nesta aula abordaremos alguns temas controversos relativos ao processo de 
criminalização, como a criminalização de letras musicais e da homofobia, de movimentos 
sociais e o estigma racial por trás do processo de criminalização. 
Ao tratarmos da criminalização de letras musicais, enfatizaremos o limite existente entre o 
exercício constitucional da liberdade de expressão e apologia ao crime, bem como a 
criminalização de determinado estilo musical, geralmente de origem periférica, podeauxiliar 
no aumento da segregação social. 
Aspecto relevante a ser abordado na presente aula é o relativamente recente processo de 
criminalização da LGBTfobia e seus efeitos na política penal brasileira e ainda, o estigma 
racial e a criminalização de movimentos sociais sob o enfoque da criminologia crítica. 
 
CRIMINALIZAÇÃO EM LETRAS MUSICAIS 
Com enfoque recente na mídia, a criminalização de letras musicais é assunto relevante e 
controverso ao tratarmos do processo de criminalização, guardando estrita relação com a 
liberdade de expressão. 
A criminalização de letras musicais no Brasil é assunto que se repete com o passar do 
tempo, desde a criminalização das rodas de samba e capoeira na época do Código Penal 
do Império; a censura da produção cultural na época da ditadura militar; as acusações de 
apologia ao crime, realizadas em 1997, decorrente das letras musicais da banda Planet 
Hemp; a tentativa de criminalizar o funk por meio da SUG n° 17/2017, no Senado Federal 
e; mais recentemente, o Projeto de Lei nº 5.194/2019, que objetivou tipificar como crime 
qualquer estilo musical que contenha expressões pejorativas ou ofensivas. 
A linha entre a liberdade de expressão e a apologia criminal é tênue, sendo que, em 
produções artísticas, principalmente aquelas que enfatizam a cultura periférica, a licença 
poética por vezes dá azo a colisão entre princípios e garantias fundamentais, razão pela 
qual, a própria Constituição impõe limites à liberdade de expressão. 
No contexto histórico, a descriminalização do samba veio com a popularização do carnaval 
que, mesmo diante da intensificação da perseguição advinda da Lei de Contravenções 
Penais, caiu no gosto de públicos com classes sociais mais altas, o que culminou em uma 
maior aceitação da cultura do samba e o fim da perseguição. 
Com o advento do militarismo em solo brasileiro, a censura a letras musicais ganhou força. 
Em 21 de janeiro de 1970 foi expedido o Decreto-Lei nº 1.077 (BRASIL, 1970), que impôs 
que “não serão toleradas as publicações e exteriorizações contrárias à moral e aos bons 
costumes quaisquer que sejam os meios de comunicação”. A censura efetivada com 
relação às manifestações artísticas foi sendo reduzida gradativamente até o 
reestabelecimento da democracia. 
Em meados de 1997 a banda carioca Planet Hemp foi alvo de um mandado de prisão 
expedido pela justiça de Brasília, sob acusação de que suas letras faziam clara apologia ao 
uso de drogas, tendo passado cerca de uma semana recolhidos até sua soltura em 
decorrência de erros processuais. 
Ainda mais recente, a Sugestão Legislativa nº 17 de 2017 visava criminalizar o estilo 
musical denominado Funk como crime contra a saúde pública, tendo sido rejeitada pela 
Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal (CDH, 2017), sob o argumento de que 
não é possível relacionar as letras musicais com os casos de violência, afirmando ainda 
que a manifestação artística, nos termos da constituição, é livre, complementando: 
Não nos devemos esquecer, por fim, que em tempos não longínquos outros gêneros 
musicais populares já foram vítimas de perseguição. O samba, outrora, foi considerado 
ritmo lascivo e pertencente à gente da “ralé”. No mesmo sentido, o jazz já foi considerado 
um estilo musical degenerado, de gente “impura”. Todavia, embora se tenha tentado, o 
Estado nunca conseguiu proibir a manifestação da cultura popular. A sabedoria do tempo 
ensinou que não se consegue algemar o pensamento; ele sempre encontrará um caminho 
para se libertar. 
De igual forma, ante a repercussão negativa, o Projeto de Lei nº 5.194/2019 do Deputado 
Charlles Evangelista, foi retirado pelo próprio autor. 
Assim, temos que a criminalização de letras musicais, sob o enfoque constitucional, 
encontra claro óbice na liberdade de expressão, a qual, independente do assunto, deve ter 
sua relativização tratada com extrema cautela. 
Aula vídeo relativa ao processo de criminalização e sua influência nas produções culturais, 
incluindo explanações sobre o AI-5. 
 
LGBTFOBIA 
A Constituição é precisa ao dispor em seu art. 3º (BRASIL, 1988), que “é objetivo 
fundamental da República Federativa do Brasil promover o bem de todos, sem preconceitos 
de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”. 
O professor argentino Daniel Borrillo (2010, p. 22) ao conceituar o termo homofobia, o faz 
sob dois aspectos, sendo a dimensão pessoal e a dimensão cultural: 
O termo ‘homofobia’ designa, assim, dois aspectos diferentes da mesma realidade: a 
dimensão pessoal, de natureza afetiva, que se manifesta pela rejeição dos homossexuais; 
e a dimensão cultural, de natureza cognitiva, em que o objeto da rejeição não é o 
homossexual enquanto indivíduo, mas a homossexualidade como fenômeno psicológico e 
social. Essa distinção permite compreender melhor uma situação bastante disseminada nas 
sociedades modernas que consiste em tolerar e, até mesmo, em simpatizar com os 
membros do grupo estigmatizado, no entanto, considera inaceitável qualquer política de 
igualdade a seu respeito 
Em 13 de junho de 2019, o Supremo Tribunal Federal julgou a Ação Direta de 
Inconstitucionalidade por Omissão nº 26, na qual reconheceu a mora inconstitucional do 
Congresso na implementação da prestação legislativa destinada a cumprir o mandado de 
incriminação a que se refere o art. 5º, XLI e XLII da Constituição, para efeito de proteção 
penal aos integrantes do grupo LGBTI +, enquadrando, desta forma, a homofobia e a 
transfobia, em qualquer que seja a forma de sua manifestação, nos diversos tipos penais 
definidos na Lei nº 7.716/89. 
A Lei 7.716, promulgada em 5 de janeiro de 1989 tem por objeto a definição dos crimes 
resultantes de preconceito de raça ou de cor e, com a extensão de seu alcança decorrente 
da ADO nº 26, passou a ser aplicada também nos casos de homofobia ou situações 
análogas. 
O Ministro Celso de Mello (STF, ADO nº 26) ao tratar do assunto em seu voto, é enfático 
ao tratar da impossibilidade de se admitir condutas homofóbicas nos dias de hoje 
principalmente face a proteção constitucional garantida às minorias: 
Direitos relativos à orientação sexual e à identidade de gênero são reconhecidos, hoje, 
nacional e internacionalmente, como essenciais para a dignidade e humanidade da pessoa 
humana, integrando o núcleo dos direitos à igualdade e à não-discriminação. Os referidos 
Princípios de Yogyakarta voltam-se a tutelar o indivíduo diante da violência, do assédio, da 
discriminação, da exclusão, da estigmatização e do preconceito dirigidos contra pessoas 
em todas as partes do mundo por causa de sua orientação sexual ou identidade de gênero. 
Esses grupos, por serem minoritários e, não raro, vítimas de preconceito e violência, 
demandam especial proteção do Estado. Nesse sentido, a criminalização de condutas 
discriminatórias não é só um passo importante, mas também obrigatório, eis que a 
Constituição contém claro mandado de criminalização neste sentido: conforme o art. 5º, 
XLI, “a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais. 
Assim, a proteção conferida às minorias, aí incluída a comunidade LGBTI +, é preceito 
constitucional e vai ao encontro da garantia de igualdade inserida no art. 3º da Magna Carta, 
ao passo que o processo de criminalização, enquanto ferramenta garantista do Estado, 
deve estar em consonância com tais preceitos. 
 
Saiba mais 
SILVA, T. H. C. A criminalização e a marginalização dos movimentos sociais no Brasil - O 
caso do coletivo feminista pagu. Clique aqui para acessar. 
SANTOS. C. J. A criminalização da LGBTfobia pelo Supremo Tribunal Federal do Brasil. 
Clique aqui para acessar. 
Aula vídeo com explanações acerca da LGBTfobia e seu processo de criminalização. 
 
ESTIGMA RACIAL 
Outro tema de grande controvérsia é o estigma racial e sua influência no processo de 
criminalização. 
O antropólogo Erving Goffman (1988,da teoria da janela 
quebrada em detrimento ao princípio da insignificância, sob o argumento de que tal princípio 
objetiva selecionar situações cujas consequências sejam mais graves às vítimas, não 
utilizando a pena como simples forma de coibir a prática delituoso, mas sim, com o caráter 
de reintegração do sujeito criminoso na sociedade. 
 
Saiba mais 
Para ampliar os seus conhecimentos sobre os temas abordados durante os nossos 
estudos, indicamos algumas leituras que são muito pertinentes e interessantes! 
Clique aqui para ler o artigo A Nova Ordem Socioeconômica e a Indústria do Controle Penal 
escrito por Washington Pereira da Silva dos Reis. 
Clique aqui para ler o artigo Política Criminal e Criminologia Humanista escrito pela dra. 
Ryanna Pala Veras. 
Clique aqui para ler o artigo Direito Penal Contemporâneo e o Expansionismo Punitivo 
escrito por Gabriela Serra Pinto de Alencar. 
 
 
 
 
 
 
 
PROCESSOS POLÍTICO-CRIMINAIS 
Durante os estudos, vamos nos aprofundar no tema da política criminal, principalmente no 
que concerne aos seus movimentos específicos, como os de Lei e Ordem, com 
explanações acerca da Política Criminal de Tolerância Zero e o Direito Penal do Inimigo. 
 
INTRODUÇÃO 
Olá, estudante! Durante os estudos, vamos nos aprofundar no tema da política criminal, 
principalmente no que concerne aos seus movimentos específicos, como os de Lei e 
Ordem, com explanações acerca da Política Criminal de Tolerância Zero e o Direito Penal 
do Inimigo. Serão abordados no presente estudo os movimentos político-criminais 
repressivistas (ou punitivistas) e os não intervencionistas (ou não repressivistas), 
possibilitando uma análise da evolução sociológica do controle estatal exercido por meio 
do próprio Direito Penal. 
A proposta de estudo abordará ainda temas relevantes tanto para os estudos do Direito 
Penal quanto da criminologia, como o processo de criminalização em contraponto ao 
processo de descriminalização e como eles afetam as políticas criminais modernas ou 
ainda, os processos de penalização e despenalização e o fenômeno da prisionalização 
como medida de segregação cautelar e da desprisionalização com adoção de medidas 
diversas à prisão com a finalidade de evitar a segregação do indivíduo. 
 
MOVIMENTOS DE POLÍTICA CRIMINAL 
- Movimentos de Política Criminal 
Ao tratarmos de políticas criminais, indispensável a realização de reflexões acerca dos 
movimentos a elas relacionados. 
Movimentos de política criminal podem ser definidos como os meios adotados pelo Estado 
como resposta ao fenômeno da criminalidade, ou seja, a efetiva ação a ser tomada em face 
de um desvio de conduta por parte do criminoso e as políticas que serão implementadas 
pelo Estado como forma de coibir a prática delitiva. 
A maior parte dos autores divide os movimentos de política criminal em movimentos 
repressivistas e movimentos não repressivistas. 
- Movimentos repressivistas 
Os movimentos rotulados de repressivistas são aqueles que defendem a intervenção 
estatal máxima no que concerne a ação punitiva. Esse movimento vê o criminoso como 
alguém que deve ser tirado de circulação, possuindo uma proposta de punição voltada à 
segregação ou mesmo para execução. 
Em meados dos anos de 1970 nos Estados Unidos, foi implantado o Movimento de Lei e 
Ordem, que, diante do exponencial aumento da criminalidade, objetivava o combate a esta 
por meio de uma política de criação de novos tipos penais e aplicação severa e rigorosa 
daqueles já existentes. Este movimento parte do pressuposto de que as penas possuem 
caráter retribuitivo e que a segregação cautelar de um indivíduo serviria como forma de 
reação imediata à prática de um crime. 
Relevante política criminal com caráter repressivista foi a chamada Teoria do Direito Penal 
do Inimigo, criada pelo professor alemão Günther Jakobs com base nos ensinamentos do 
sociólogo Niklas Luhmann. Para essa teoria, os criminosos são divididos em duas classes, 
sendo os “criminosos tradicionais” aos quais é imperiosa a aplicação do Direito Penal 
Tradicional e os “autores de crimes graves”, cujos atos são atentatórios à própria estrutura 
social, como os terroristas, criminosos sexuais, membros do crime organizado e autores de 
outros crimes graves. 
Para a Teoria do Direito Penal do Inimigo, esse segundo grupo deve ser rotulado como 
“inimigo da sociedade”, razão pela qual, sequer devem ser tratados com as benesses do 
Direito tradicional, ante a insuficiência deste em reprimir suas condutas criminosas. 
Exemplo de aplicação de política criminal repressiva é o chamado “USA PATRIOT Act”, 
criado pelo ex-presidente George W. Bush após o onze de setembro. Este Decreto permite 
a violação de sigilo e realização de interceptação de qualquer pessoa supostamente 
envolvida com terrorismo. Essas disposições vigoraram até meados de 2015, quando 
houve a edição do USA Freedom Act. 
- Movimentos não repressivistas 
Os movimentos político-criminais não repressivistas, como o abolicionismo penal e o 
modelo restaurativo de justiça, possuem objetivos diversos, como a diminuição gradativa 
do controle penal formal e da intervenção punitiva estatal, buscando, desta forma, a adoção 
de soluções informais pautadas em políticas sociais. 
 
Reflita 
O abolicionismo penal, no que tange a sua inserção no ramo das políticas não 
repressivistas, defende um discurso pautado em que o modelo penal tradicional é criador 
de problemas e não de soluções, na medida em que a função intimidatória da pena não se 
presta ao fim proposto, servindo apenas como espécie de desculpa para a intervenção 
estatal na liberdade individual. 
Pode-se concluir que os movimentos de política criminal vêm se aperfeiçoando com o 
passar do tempo, sendo que sua aplicabilidade, seja voltada ao aspecto social ou ao 
aspecto punitivo em si, depende tanto do posicionamento adotado em determinada época 
pelo próprio governo quanto pelos anseios da população na adoção de medidas que visem 
o efetivo controle da criminalidade. 
Aula vídeo versando sobre os movimentos de política criminal, com explicações acerca dos 
movimentos repressivistas, (incluindo explanações sobre o USA PATRIOT Act), e não 
repressivistas e a evolução histórica deles do ponto de vista sociocultural. 
 
A CRIMINALIZAÇÃO E A DESCRIMINALIZAÇÃO COMO FENÓMENOS ANÍMICOS DA 
POLÍTICA CRIMINAL 
A criminalização e a descriminalização como fenômenos anímicos da política criminal 
Inicialmente, cumpre esclarecer que, por anímico, entende-se aquilo que vem da alma, ou 
seja, intrínseco à Política Criminal, desta forma, o presente estudo visa demonstrar que a 
criminalização e a descriminalização, mais do que ferramentas que estabelecem diretrizes 
para as políticas criminais adotadas, são verdadeiros fenômenos inseparáveis e 
indissolúveis de qualquer modelo de política adotada, seja ela repressiva, visando a maior 
criminalização de determinados fatos ou abolicionista, visando a menor intervenção Estatal 
em matéria penal. 
Como já explanado, a criminalização em suma, é estabelecer, por meio de lei, que 
determinado comportamento é tido como criminoso, podendo se dar de modo primário, 
quando ligada ao direito positivo e atuando diretamente na efetiva criação da lei penal 
introduzindo no ordenamento jurídico a tipificação de uma conduta reprovável. Ou de modo 
secundário, e voltada à aplicação da lei penal como forma de coibir os comportamentos 
reprováveis praticados. 
A descriminalização, por sua vez, visa remover o caráter criminoso de um fato 
anteriormente tido como ilícito criminal. Ainda no conceito de descriminalização, insere-se 
a transformação de um ilícito criminal em espécie diversa de ilícito, seja ele administrativo 
ou uma contravenção. 
Ao tratarmos dos institutos da criminalização e da descriminalização enquanto fenômenos 
anímicos das políticas criminais, é importante apontar que todas as políticas criminais sãop. 13-14) em seu livro Estigma: notas sobre a 
manipulação da identidade deteriorada conceitua a expressão “estigma” de forma didática, 
definindo: 
Estigma é um tipo especial de relação entre atributo e estereótipo. São classificáveis em 
três espécies: primeiramente os defeitos físicos ou abominações do corpo; em segundo 
lugar as culpas de caráter individual, como desonestidade, prisão, vícios, 
homossexualismo, desemprego etc; em terceiro lugar em estigmas que tangem às raças, 
nações, religiões. 
Em se tratando do tema sob análise, importa para nosso estudo o estigma racial, ou seja, 
as influências que o preconceito racial direto ou indireto exercem sobre o processo de 
criminalização. 
O racismo, de acordo com a professora Dora Lúcia Bertulio (2002, p. 82) por ser 
conceituado de três formas, a saber: 
O primeiro, o individual, assemelhar-se-ia ao denominado preconceito racial, podendo se 
manifestar na figura do racista dominador ou aversivo. O segundo, institucional, 
manifestarse-ia por ações oficiais que, de alguma forma, excluem ou prejudicam indivíduos 
ou grupos distintos. O terceiro tipo, o cultural, é a expressão individual ou institucional da 
superioridade da herança cultural de uma raça com relação a outra. 
Dentro do processo de criminalização, principalmente em suas fases primária e secundária, 
o racismo institucional se faz presente. Tal afirmativa se deve em razão da dificuldade do 
próprio Estado em se autoexaminar e reconhecer sua condição de produtor de 
desigualdade. 
A fase primária do processo de criminalização, como já explanado, diz respeito a efetiva 
criação da normal penal. Nesta fase o paradigma racial se faz presente quando o legislador, 
no cumprimento de seu papel, age de forma a criminalizar e punir severamente condutas 
menos complexas que são praticadas, comumente, pela população de classes sociais mais 
baixas e, em sua grande maioria negra, deixando punições mais brandas para os crimes 
de alta complexidade praticados por pessoas com melhores condições financeiras. 
O racismo institucional está ainda mais presente durante a criminalização secundária, 
principalmente no que tange a atuação da organização policial e a seletividade de suas 
ações. Orlando Zaconne (2004, p. 184), no que tange a seletividade é didático ao afirmar 
que “não é possível ao sistema penal prender, processar e julgar todas as pessoas que 
realizam as condutas descritas na lei como crime e, por conseguinte, opta entre o caminho 
da inatividade ou da seleção”. 
Seguindo tal premissa, e visando afastar uma possível omissão, o Estado opta pelo 
caminho da seleção, diretamente influenciado por estigmas sociais e muitas vezes raciais. 
Este modelo de atuação, baseado em uma espécie de seletividade punitiva velada, traz 
resquícios das teses defendidas por Cesare Lombroso no apogeu do positivismo científico. 
Lombroso realizou pesquisas embasadas na correlação entre o desenvolvimento social e 
os fatores criminológicos, apontando que o sujeito que comete um ato ilícito possui 
aspectos físicos ou fisionômicos que por si, indicam sua criminalidade. 
Assim, em que pese as dificuldades do Estado em assumir sua posição de responsável 
pelo racismo institucional, esta é uma realidade que deve ser enfrentada, adotando-se 
medidas para garantir um tratamento isonômico a todos, independe de raça ou sua cor. 
Aula vídeo a respeito do paradigma racial e sua influência no processo de criminalização 
primária e secundária. 
 
MOVIMENTOS SOCIAIS 
Ao tratar de movimentos sociais, é imprescindível explanar que estes são estruturas 
formadas pela própria sociedade, que, no intuito de atingir um objetivo comum, se organiza 
e luta pela defesa de uma causa política ou social. 
A difusão dos meios de comunicação possibilitou uma maior proximidade da população e, 
consequentemente, a ampliação do alcance dos ideais defendidos pelos movimentos 
sociais. 
No contexto histórico brasileiro, alguns movimentos sociais fizeram história, principalmente 
no que tange a defesa da democracia, dentre os quais podemos destacar O Diretas Já, O 
Movimento dos Caras Pintadas e as Jornadas de Junho de 2013. 
O movimento popular denominado Diretas Já teve por objetivo a retomada da democracia 
durante o período militar, exigindo a realização de eleições diretas para o cargo de 
Presidente da República. 
É importante ressaltar que o então presidente João Figueiredo, visando reprimir as 
manifestações populares do movimento Diretas Já, foi enfático ao ordenar prisões e 
aumentar a censura sobre a imprensa. 
O Movimento dos Caras Pintadas, por sua vez, teve por objetivo o impeachment do ex-
presidente Fernando Collor de Mello, no ano de 1992. 
Por fim, as Jornadas de Junho de 2013 foram caracterizadas como uma mobilização em 
massa realizada pela população, que reivindicou a implantação de tarifa zero no transporte 
público, maior investimento em serviços de saúde e educação e ainda, criticou o 
investimento realizado com eventos esportivos. 
Demonstrada a importância da atuação de movimentos sociais sérios que visam, 
efetivamente, melhoras na prestação de serviços e até mesmo a manutenção da 
democracia, relevante enfatizar a relação do tema com o processo de criminalização. 
É possível verificar que os movimentos sociais, quase sempre, estão em posição oposta ao 
governo, cobrando e fiscalizando a prestação de serviços públicos, assim, visando coibir 
manifestações contrárias, o governo acaba rotulando estes movimentos como inimigos. A 
este respeito a organização internacional denominada Via Campesina (2010, p. 6) em sua 
cartilha A ofensiva da Direita para criminalizar os Movimentos Sociais no Brasil expõe: 
O objetivo da criminalização é criar as condições legais e, se possível, legítimas perante a 
sociedade para: a) impedir que a classe trabalhadora tenha conquistas econômicas e 
políticas; b) restringir, diminuir ou dificultar o acesso às políticas públicas; c) isolar e 
desmoralizar os movimentos sociais junto à sociedade; d) e, por fim, criar as condições 
legais para a repressão física aos movimentos sociais. 
A criminalização de movimentos sociais ganhou ênfase com a promulgação da Lei 
Antiterrorismo (13.260/2016), posto que a lei é omissa em tipificar precisamente atos de 
terrorismo, permitindo que um determinado grupo seja investigado pelo simples porte de 
determinado objeto, neste sentido, Aline Siqueira Veronezi (2018, p. 153) é didática ao 
apontar que “o que torna tudo mais emblemático é o fato de o tipo de objeto considerado 
ameaçador não ser especificado no texto da lei, cabendo ao discernimento do policial 
decidir o que é ou não objeto ameaçador”. 
Desta feita, podemos concluir que a luta dos movimentos sociais é legitima, isso quando 
pautada em causas socialmente relevantes e desde que efetivada por meio de 
manifestações pacíficas e, a tentativa de criminalização destes movimentos nada mais é 
do que a criação de obstáculos para a efetivação de direitos e a tentativa de afastar ainda 
mais a população da classe governista. 
Aula vídeo versando sobre movimentos sociais e as tentativas de criminalizá-los. 
 
ESTUDO DE CASO 
À luz dos conceitos até então estudados, o estudante deve discorrer sobre até que ponto o 
Estado, como poder sancionador, pode interferir na liberdade de expressão e artística de 
uma pessoa, principalmente no que tange aos abusos de letras musicais atuais com 
apologia ao crime e quanto à possibilidade de aplicação da justiça retributiva ou 
ressocializadora para o caso. O estudante deve dissertar ainda sobre a possibilidade de 
utilização do mesmo critério de apologia ao crime utilizado à época da censura militar 
quando da análise da música Cálice de Chico Buarque, nos dias de hoje. 
 
RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO 
É esperado que o estudante discorra sobre a liberdade de expressão constitucionalmente 
garantida, dando ênfase ao inciso IV do art. 5º da Magna Carta.O estudante deve conceituar a apologia ao crime e demonstrar que a divisão entre a 
liberdade de expressão e a apologia criminal é tênue, frisando que em produções artísticas, 
principalmente aquelas que enfatizam a cultura periférica, a licença poética por vezes dá 
azo a colisão entre princípios e garantias fundamentais, razão pela qual, a própria 
Constituição impõe limites à liberdade de expressão. 
Espera-se que a dissertação apresentada aponte os limites constitucionais à liberdade de 
expressão, dando enfoque a colisão entre ela e os direitos relativos a honra e a imagem. 
O estudante deve apresentar seu ponto de vista quanto à possibilidade de aplicação da 
justiça restaurativa em casos de “excesso de liberdade de expressão”, apontando as 
vantagens em relação à aplicação do modelo retributivo no caso concreto. 
Com relação à opressão e censura à época do militarismo, é esperado que o estudante 
aponte a impossibilidade de utilização dos mesmos critérios até então aplicados para 
análise de uma letra música. O estudante deve enfatizar que o Ato Institucional nº 5 tinha 
por objetivo a repressão de fatos perturbadores da ordem e os ideais superiores da 
Revolução, preservando a ordem, a segurança, a tranquilidade, sendo que, nos dias atuais, 
não persiste a premissa repressiva e perseguidora dos governos militares, razão pela qual, 
a aplicação dos mesmos critérios, fatalmente traduzir-se-ia em violação literal as garantias 
constitucionais preservadas pelo Estado Democrático de Direito. 
 
ASPECTOS CONTROVERSOS - PARTE 2 
Nesta aula, abordaremos os aspectos controversos e atuais que envolvem o processo de 
criminalização, entre eles, a criminalização do stalking e sua clara relação com a proteção 
da mulher. 
 
INTRODUÇÃO 
Olá, estudante, nesta aula, abordaremos os aspectos controversos e atuais que envolvem 
o processo de criminalização, entre eles, a criminalização do stalking e sua clara relação 
com a proteção da mulher. Realizaremos, ainda, um estudo aprofundado da criminalização 
e sua errônea utilização como arma política, bem como da criminalização do uso de drogas 
e os movimentos que visam a sua efetiva descriminalização. Por fim, faremos uma 
abordagem teórica a respeito do recente processo de criminalização do feminicídio e como 
vem se dando sua aplicação nos dias atuais. 
 
CRIMINALIZAÇÃO DO STALKING E A PROTEÇÃO A MULHER 
O processo de criminalização é um tema relevante e trouxe recentes alterações na 
legislação penal: a criminalização do stalking. Sob o aspecto etimológico, a expressão 
“stalker” tem origem no inglês e significada perseguidor, sendo utilizada, principalmente, 
para definir pessoas obsessivas que perseguem e espionam outros sujeitos de forma 
constante e contrária a sua vontade. 
A terminologia ganhou destaque ainda na década de 1980, com a ascensão dos paparazzis 
e a constante perseguição às celebridades. Damásio de Jesus (2006) conceitua a 
expressão de forma didática: 
Não é raro que alguém, por amor ou desamor, por vingança ou inveja ou por outro motivo 
qualquer, passe a perseguir uma pessoa com habitualidade incansável. Repetidas cartas 
apaixonadas, e-mails, telegramas, bilhetes, mensagens na secretária eletrônica, recados 
por interposta pessoa ou por meio de rádio ou jornal tornam um inferno a vida da vítima, 
causando-lhe, no mínimo, perturbação emocional. A isso dá-se o nome de stalking. 
O processo de criminalização do stalking foi objeto de diversos Projetos de Lei, como o 
5.499/2009, de autoria do então deputado federal Capitão Assumção; o 946/2019, de 
autoria do deputado federal Lincoln Portela, que visava à criminalização da ameaça virtual; 
e o 1.291/2019, do deputado federal Alex Manente, que tinha por objeto a criminalização 
da perseguição obsessiva, porém todos foram julgados prejudicados em face da aprovação 
em plenário da Subemenda Substitutiva Global ao Projeto de Lei nº 1.369, de 2019. 
O Projeto de Lei nº 1.369/2019 foi apresentado pela senadora Leila Barros do PSB/DF e 
teve por objeto alterar o Código Penal com a finalidade de tipificar o crime de perseguição, 
tendo sido transformado na Lei Ordinária nº 14.132/2021, que, por sua vez, acrescentou o 
art. 147-A ao Código Penal, prevendo o crime de perseguição e revogando o art. 65 da Lei 
de Contravenções Penais. 
A criminalização do stalking é um importante passo à evolução do processo de 
criminalização e do próprio direito penal, porque os atos de violência doméstica ou mesmo 
feminicídios, por vezes, têm origem na perseguição obsessiva. Ao tratar do assunto, a 
relatora do projeto, a deputada Shéridan, aponta que 76% das vítimas de feminicídio foram 
perseguidas por seus parceiros íntimos, conforme pesquisa realizada pelo Stalking 
Resource Center, frisando, ainda, que 54% das vítimas reportaram à polícia que estavam 
sendo “stalkeadas‟. 
Esses dados reforçam a importância da criminalização da mencionada conduta, 
aumentando, ainda mais, as medidas que visam a proteger a mulher, cabendo lembrar que, 
embora sejam a maioria, não são apenas as mulheres vítimas de perseguição, não havendo 
distinções no tipo penal apresentado. 
Sob a ótica da criminologia moderna, é possível concluir que a criminalização do “stalking” 
vai ao encontro das políticas criminais protetivas atuais, servindo de verdadeira ferramenta 
de prevenção a crimes mais graves, como feminicídios, homicídios, crimes sexuais ou 
lesões corporais, demonstrando, assim, o papel preventivo da primeira fase do processo 
de criminalização, ou seja, a prevenção de delitos complexos pela criminalização de 
condutas mais simples. 
Videoaula com explanações acerca da criminalização do stalking e os fundamentos que 
levaram a sua promulgação. 
 
A CRIMINALIZAÇÃO COMO ARMA POLÍTICA 
Um aspecto controverso e de absoluta importância nesta aula é a utilização do processo 
de criminalização como arma política a fim de se minguar as liberdades individuais. 
Alguns governos autoritários, para se manterem no poder, utilizam-se dos processos de 
criminalização para atacar diretamente seus opositores ou mesmo reduzir a propagação de 
informações utilizando esses processos, erroneamente, como verdadeiras armas políticas. 
Um claro exemplo dessa tentativa de utilização dos processos de criminalização como arma 
política são as tentativas de criminalizar movimentos sociais. Como sabido, estes se 
encontram, geralmente, em posição oposta à dos governos, cobrando e fiscalizando a 
prestação de serviços públicos; por essa razão, governos autoritários utilizam-se dos 
processos de criminalização, por vezes sob o manto de proteção à segurança nacional, 
visando a coibir a livre manifestação. 
É importante salientar que não é apenas nesse sentido que o uso dos processos de 
criminalização encontra seu fundo político, mas também como ferramenta de manobra de 
massa escorada na proliferação de que o direito penal, por si só, é a solução para a 
expansão da criminalidade. 
Dessa forma, o legislador, visando a passar a ideia de que o clamor social vem sendo 
atendido, ainda na fase primária do processo de criminalização, expande as condutas 
criminalizáveis não objetivando sua utilidade prática mas sim demonstrar que está 
preocupado com seus eleitores, criando uma espécie de efeito psicológico neles, que, 
satisfeitos com o atendimento da demanda, não buscam informações acerca da 
aplicabilidade da norma editada. 
Assim, a classe política, buscando angariar ou manter votos, utiliza-se dos processos de 
criminalização como verdadeira ferramenta da captação de votos ora criminalizando (ou 
descriminalizando) atos voltados a agradar a direita, como a facilitação na posse e porte de 
armas, ora tomando atitudes que agradam a esquerda, como a criminalização LGBTfobia. 
O que se questiona aqui não são as atitudes tomadas, posto que a criminalização da 
LGBTfobia é pauta absolutamente importante e que traduz uma efetiva conquista dasminorias que tanto sofrem com o preconceito e a violência, mas, sim, da real intenção dos 
legisladores para a tomada de decisão, ou seja, com o fundo político que permeia o 
processo de criminalização. 
O processo de criminalização no Brasil vem se desenvolvendo a passos rápidos, estando 
cada vez mais em consonância com pensamentos sociais e de proteção aos vulneráveis e 
às minorias, como no caso da criminalização da LGBTfobia, do feminicídio e do stalking — 
razão pela qual sua utilização deve ser pautada em critérios técnicos com estrita 
observação às necessidades da população, porém deixando de lado seu uso político, que, 
fatalmente, é danoso ao próprio avanço do direito. 
Sob esse aspecto, é importante esclarecermos que o uso do processo de criminalização 
como ferramenta política afeta diretamente a própria segurança jurídica, posto que há 
governos voltados a pensamentos liberais e conservadores alternando no poder, e caso o 
processo de criminalização alinhe-se única e exclusivamente com o pensamento político, o 
desenvolvimento do próprio Estado de Direito fica ameaçado. 
Por fim, os processos de criminalização devem estar alinhados com o pensamento social e 
os interesses da população, desenvolvendo-se na mesma velocidade que a própria 
sociedade, pautando-se, o legislador, nos direitos fundamentais e no garantismo 
constitucional. 
Videoaula tratando do processo de criminalização e sua utilização como ferramenta política. 
 
CRIMINALIZAÇÃO DO USO DE DROGAS 
No nosso ordenamento jurídico, a Lei Federal 11.343/2006 define, logo em seu art. 1º, o 
conceito de drogas ilícitas, classificando-as como produtos que causam dependência e que 
estão especificados nas listas atualizadas expedidas pela União. 
Ao adotar políticas criminais que visam à efetiva criminalização do uso de drogas, o Estado 
tem por objetivo, pautado claramente na The Broken Windows Theory (teoria das janelas 
quebradas), coibir o tráfico punindo o usuário. A teoria das janelas quebradas no campo da 
criminologia constata que, ao reprimir delitos menos graves, a prática de delitos complexos 
e até mesmo violentos é evitada. 
Cabe enfatizarmos que a Magna Carta brasileira tem por base a proteção da dignidade da 
pessoa humana, dessa forma, ao criminalizar determinada conduta, o escopo deve ser a 
efetiva proteção do bem jurídico de um terceiro, não sendo possível a criminalização de 
uma determinada conduta que afete apenas a esfera pessoal do próprio agente praticante. 
Ante tal apontamento, os defensores da descriminalização do uso de drogas apontam que 
a autolesão, ou seja, a conduta que afeta apenas a esfera da saúde do próprio usuário não 
deve ser passível de punição ou mesmo tratada pelo Direito Penal, porque a intervenção 
em tal esfera fatalmente fere a dignidade da pessoa humana. 
Por outro lado, os defensores da criminalização do uso de drogas apontam que o uso 
dessas substâncias não fere e atinge apenas a esfera pessoal do agente mas sim a própria 
saúde pública, razão pela qual tal conduta não pode ser comparada com uma autolesão. 
Serve de argumento à criminalização do uso de entorpecentes a alegação de que o uso 
incentiva o tráfico, porém não nos parece acertado tal posicionamento, porque o Estado, 
ao aplicar determinada punição ao usuário de entorpecentes sob essa alegação, assume 
sua ineficiência no combate à criminalidade. 
O Supremo Tribunal Federal vem tratando do assunto sob o Tema 506 da repercussão 
geral, que versa exatamente sobre a tipicidade do porte de droga para consumo pessoal 
desde o ano de 2015 e cujo julgamento não foi concluído até o momento. 
Em julgamento ao Recurso Extraordinário nº 635.659, o ministro Gilmar Mendes, em seu 
voto, apontou a inconstitucionalidade do art. 28 da Lei Federal nº 11.343/06 sob o 
argumento de que a criminalização do uso de entorpecentes vai de encontro ao próprio 
direito à liberdade, afirmando, ainda, que: 
Pesquise mais 
“apesar da política de guerra às drogas, já está demostrado que o consumo só vem 
aumentando nos últimos anos. Não existem estudos suficientes ou incontroversos que 
demonstrem que a repressão ao consumo é o meio mais eficiente para combater o tráfico 
de drogas”. Acesse o SFT para acompanhar a Tipicidade do porte de droga para consumo 
pessoal. 
Dessa forma, no que tange à criminalização ou descriminalização do uso de drogas, é 
necessário realizar um sopesamento de valores, a fim de se verificar até que ponto é 
possível considerar que a proibição ao consumo cumpre seu papel e se a descriminalização 
seria uma atitude sensata ou apenas criaria mais problemas. 
Videoaula tratando dos aspectos controversos relativos à criminalização e 
descriminalização do uso de drogas. 
 
A CRIMINALIZAÇÃO DO FEMINICÍDIO 
A criminalização do feminicídio no Brasil é um marco histórico que simboliza a conquista 
das mulheres de mais uma ferramenta que visa à efetiva proteção de sua integridade. 
O Senado Federal, por meio de Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, realizou a 
proposição do Projeto de Lei nº 8.305/2014, em 17 de dezembro de 2014, no qual objetivou 
a alteração do Código Penal com a finalidade de incluir o feminicídio no rol das 
qualificadoras do homicídio e, ainda, prevê-lo como um crime hediondo. 
O Projeto de Lei nº 8.305/2014 foi convertido na Lei Ordinária 13.104/2015, que alterou o 
art. 121 do Código Penal, incluindo a qualificadora de feminicídio em seu inciso VI, e, ainda, 
a Lei 8.072/90, a fim de incluir o feminicídio no rol de crimes hediondos. 
O objetivo da criminalização do feminicídio foi criar mais um mecanismo de defesa, coibindo 
a prática de violência contra as mulheres. 
Um ponto controvertido relativo ao tema diz respeito à alteração promovida no projeto antes 
da conversão em lei. Em seu texto original, o Projeto de Lei nº 8.305/2014 conceituava o 
feminicídio como o homicídio realizado contra a mulher por razões de gênero. Essa 
disposição foi alterada, passando a ser considerado feminicídio o homicídio praticado 
“contra a mulher por razões da condição de sexo feminino” (BRASIL, 2015, [s. p.]). 
A respeito dessa alteração, Adriana Mello (2015, p. 225) é didática ao explicar que a 
qualificadora não tem o condão de se referir ao sexo biológico, mas sim a questões de 
gênero atreladas ao campo da sociologia: 
[...] a qualificadora do feminicídio incide quando o sujeito passivo for mulher, entendido, na 
minha forma de ver, de acordo com o critério psicológico, ou seja, quando a pessoa se 
identificar com o sexo feminino, mesmo quando não tenha nascido com o sexo biológico 
feminino. O projeto que deu origem à Lei no 13.104/2015 (PL no 8.305/2014) sofreu, pouco 
tempo antes de ser aprovado, uma modificação: o termo “gênero” foi substituído pela 
expressão “condição de sexo feminino”. No entanto, entendemos que essa modificação não 
altera a interpretação, já que a expressão “por razões da condição de sexo feminino” 
prende-se, da mesma forma, a razões de gênero. Observa-se que o legislador não trouxe 
uma qualificadora para a morte de mulheres. Se assim fosse, teria dito: “Se o crime é 
cometido contra a mulher”, sem utilizar a expressão “por razões da condição de sexo 
feminino” 
Someone famous 
Os movimentos de proteção à mulher deram seus primeiros passos com a criação da Lei 
de Violência Doméstica no Brasil, no ano de 2006, cujo escopo é coibir a violência 
doméstica e familiar contra a mulher. A criminalização do feminicídio foi além, não 
restringindo-se ao âmbito familiar, mas, sim, visando à proteção da integridade física da 
mulher, independentemente do local ou por quem o ato violento é realizado. 
Videoaula referente à criminalização do feminicídio e aos aspectos relevantes que 
permearam a alteração legislativa. 
 
ESTUDO DE CASO 
O estudante, de posse da tão sonhada carteira da OAB, está em seu escritório, em uma 
bela tarde ensolarada, quando, então, é surpreendido com a chegada deum astro da TV, 
que, em uma consulta, senta-se a sua frente e narra a seguinte história: existe um fã que o 
persegue de maneira constrangedora, que o incomoda diariamente, seja em suas 
apresentações, seja em um mercado ou em qualquer outro ambiente, e que o trata como 
se fosse um parente ou amigo a quem lhe deve satisfação. Incomodado com essa situação, 
o astro lhe informa que já pediu à pessoa que parasse com essas atitudes, no entanto, a 
perseguição continua, agora, de maneira mais violenta, o que tem lhe causado extremo 
incômodo, além de sentir-se ameaçado e constrangido. 
Frente a isso, você, de posse de conhecimentos jurídicos, uma vez aprovado na OAB, em 
uma pronta resposta, justifique se o ato é ou não amparado pela legislação penal e se existe 
uma medida prática e satisfativa a ponto de lhe garantir o sossego esperado. 
 
RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO 
Espera-se que o estudante apresente uma resposta embasada na Lei Federal nº 14.132, 
de 31 de março de 2021, apontando que a referida lei alterou o Código Penal, tipificando a 
conduta da perseguição ao criar o art. 147-A naquele códex. 
O estudante deve, ainda, apontar que, a fim de se proceder a uma medida prática e 
satisfativa, é possível promover a representação criminal contra o fã nos termos do § 3º, do 
art. 147-A, informando o cliente que tal medida não isenta o acusado das penas relativas a 
uma futura agressão. 
 
Saiba mais 
Leia mais sobre o feminicídio no artigo: MACHADO, I. V. Feminicídio em cena da dimensão 
simbólica à política. Tempo Social, São Paulo, v. 30, n. 1, p. 283-304, abr. 2018. Disponível 
em: 
Outra leitura com tema importante: NASCIMENTO. A. B. Uma visão crítica das políticas de 
descriminalização e de patologização do usuário de drogas. Psicologia em Estudo, Maringá, 
v. 11, n. 1, p. 185-190, jan./abr. 2006. 
 
TEORIA DO ETIQUETAMENTO 
Neste momento, vamos nos aprofundar na teoria da labelling approach (teoria do 
etiquetamento), analisando desde o seu surgimento até os reflexos exercidos no processo 
de ressocialização do preso. 
 
INTRODUÇÃO 
Prezado estudante, neste momento, vamos nos aprofundar na teoria da labelling approach 
(teoria do etiquetamento), analisando desde o seu surgimento até os reflexos exercidos no 
processo de ressocialização do preso. 
Abordaremos, ainda, de forma individualizada, os mecanismos de ressocialização e como 
sua aplicação pautada em critérios técnicos pode ser benéfica à reinserção do sujeito na 
sociedade. 
Outro aspecto relevante a ser tratado diz respeito ao instituto da reincidência. A respeito do 
tema, abordaremos as causas sociais que levam à reincidência criminosa e os mecanismos 
que o Estado dispõe, em termos de políticas criminais, para reduzir ou evitar a reincidência 
delituosa. 
 
TEORIA DO LABELLING APPROACH 
Logo no início da década de 1960, o sociólogo americano Howard S. Becker, em uma clara 
crítica aos posicionamentos da Nova Escola de Chicago, desenvolveu um estudo 
sociológico pautado na reação social e no etiquetamento, dando início, assim, à teoria do 
labeling approach. 
A mencionada teoria crítica, principalmente, a forma de atuação do próprio Estado enquanto 
detentor exclusivo do poder punitivo e a definição do que seria um ato reprovável e passível 
de punição. A ideia central da labeling approach está pautada na premissa de que há uma 
espécie de rotulação dos indivíduos e de condutas para se definir quem merece os rigores 
da lei e para quem a lei deve “fechar seus olhos”. 
Reflita 
A teoria do etiquetamento prevê que o próprio Estado, por meio de suas instituições 
voltadas ao controle social, estigmatiza os cidadãos, rotulando-os como criminosos perante 
a sociedade e fazendo com que eles, devido à tal estigmatização, apresentem dificuldades 
de reinserção social, reincidindo nos delitos e tornando-se, dessa forma, criminosos 
habituais. 
Ao tratar dos efeitos e das consequências do etiquetamento social, Juarez Cirino dos 
Santos (2008, p. 20) é didático, apontando que, além da reincidência, o efeito 
estigmatizante perpetua o comportamento e cria subculturas criminosas por meio da 
aproximação desses indivíduos: 
O rotulo criminal, principal elemento de identificação do criminoso, produz as seguintes 
consequências: assimilação das características do rotulo pelo rotulado, expectativa social 
de comportamento do rotulado conforme as características do rotulo, perpetuação do 
comportamento criminoso mediante formação de características criminosas e criação de 
subculturas criminosas através da aproximação reciproca de indivíduos estigmatizados. 
A importância da teoria do etiquetamento de Becker reside na crítica ao sistema de 
persecução penal da época, posto que, até então, era atribuída exclusivamente ao agente 
criminoso a culpa pelos fatos criminosos, desconsiderando-se, assim, as influências sociais 
exercidas, por vezes, em decorrência do próprio comportamento estatal. 
Atuação do Estado 
A atuação do Estado enquanto detentor do poder punitivo deve ser isonômica e 
comprometida com a preservação da dignidade da pessoa humana, porém, em decorrência 
do etiquetamento social, o que vemos é um desvio de conduta dos próprios agentes do 
Estado, que são influenciados, por vezes, por uma espécie de racismo estrutural ou mesmo 
pelas influências incutidas no comportamento dos profissionais. 
Ao tratar do assunto, Eugenio Zaffaroni (2011, p. 46) é cristalino ao discorrer sobre a 
associação de cargas sociais negativas e preconceitos às classes menos favorecidas: 
Por tratar-se de pessoas desvaloradas, é possível associar-lhes todas as cargas negativas 
existentes na sociedade sob forma de preconceitos, o que resulta em fixar uma imagem 
pública do delinquente com componentes de classe social, étnicos, etários, de gênero e 
estéticos. 
Dessa forma, a atuação do Estado, quando pautada em rótulos predefinidos, auxilia no 
aumento da criminalidade e na própria formação de grupos criminosos, assim, visando a 
uma atuação transparente e voltada às políticas criminais de prevenção, é dever do Estado 
adotar medidas que visem à melhora de condições às populações menos favorecidas e 
afastem os efeitos estigmatizantes do etiquetamento social. 
Videoaula acerca da teoria do etiquetamento e seus efeitos. 
 
OS REFLEXOS DO LABELLING APPROACH NA RESSOCIALIZAÇÃO DO PRESO 
Como já sabemos, umas das consequências do etiquetamento social é a estigmatização 
do sujeito, levando à perpetuação criminosa, reincidência e formação de subculturas 
criminais. Frente a isso, os reflexos do etiquetamento da ressocialização do preso são 
severos, influenciando negativamente no processo de reinserção do preso na sociedade. 
A Lei Federal nº 7.210, de 11 de julho de 1984, é cristalina ao dispor que “a execução penal 
tem por objetivo efetivar as disposições de sentença ou decisão criminal e proporcionar 
condições para a harmônica integração social do condenado e do internado” (BRASIL, 
1984b, [s. p.]), dessa forma, é de fácil constatação que a execução penal é voltada à 
reinserção na sociedade do criminoso que, efetivamente, cumpriu sua pena. 
Ao tratar do modelo ressocializador, Antonio Garcia-Pablos de Molina (1998, p. 383) é 
didático, apontando que o modelo proposto visa, justamente, a afastar os efeitos 
estigmatizantes da pena: 
O modelo ressocializador propugna, portanto, pela neutralização, na medida do possível, 
dos efeitos nocivos inerentes ao castigo, por meio de uma melhora substancial ao seu 
regime de cumprimento e de execução e, sobretudo, sugere uma intervenção positiva no 
condenado que, longe de estigmatizá-lo com uma marca indelével, o habilite para integrar-
se e participar da sociedade, de forma digna e ativa, sem traumas, limitações ou 
condicionamentos especiais. 
A teoria do labelling approach vê a pena de prisão como ineficiente, principalmente no que 
tange às dificuldades de ressocialização do egresso do sistema carcerário.Todo sujeito pertence a uma comunidade, e a sua segregação do meio social para o 
cumprimento de uma pena faz com que essa comunidade se desenvolva sem sua 
participação, excluindo-o do grupo e dificultando sua reinserção em momento posterior. 
Com isso, o etiquetamento e a estigmatização do sujeito condenado acaba fazendo com 
que ele integre subculturas que possuem as mesmas etiquetas, perpetuando seu 
comportamento criminoso. 
O autor Júlio Fabbrini Mirabete (2000, p. 83) opina sobre o assunto com fluidez, fazendo 
apontamentos acerca desse desenvolvimento desproporcional da comunidade com relação 
ao egresso, concluindo que tal situação acaba por agravar o desajustamento social do 
indivíduo. 
Todo indivíduo, desde que excluído do contato com os outros indivíduos ou do meio social, 
tende a uma evolução diversa da experimentada pelos outros homens ou por esse meio 
social. Ocorre, nessa hipótese, o que se tem denominado de evolução desproporcional 
entre o indivíduo e a comunidade, o que pode conduzir ou agravar o desajustamento social. 
[...] Se, de um lado, a reinserção social depende principalmente do próprio delinquente, o 
ajustamento ou reajustamento social depende também, e muito, do grupo ao qual retorna 
(família, comunidade, sociedade). 
Assimile 
No que tange aos reflexos do etiquetamento na ressocialização dos egressos do sistema 
penal, é evidente a influência negativa, principalmente com relação as dificuldades de 
reinserção do indivíduo no meio social em decorrência do desenvolvimento em ritmo 
diverso da própria comunidade. Dessa forma, o Estado, enquanto agente responsável pela 
preservação das garantias e dos direitos fundamentais, deve adotar políticas criminais 
voltadas a afastar o etiquetamento e possibilitar um melhor desenvolvimento dos sistemas 
de ressocialização na criminalização terciária. 
Este vídeo trata da privação de liberdade sob o enfoque constitucional, seja decorrente de 
uma condenação, seja como instrumento de segregação cautelar. 
 
MECANISMOS DE RESSOCIALIZAÇÃO 
A ressocialização do indivíduo é a reinserção dele no meio social após a sua efetiva 
recuperação, livre de sequelas, objetivando que tenha uma vida normal. Para que a 
reinserção social do indivíduo seja bem-sucedida, deve ter início concomitante com o 
efetivo cumprimento da pena. Em se tratando dos mecanismos de ressocialização, 
podemos defini-los como as benesses concedidas aos indivíduos, por força da Lei de 
Execuções Penais, voltadas não apenas a sua ressocialização com também para a 
chamada “humanização” da pena, preservando-se os direitos e garantias fundamentais a 
todos aqueles que cumprem pena. 
A ressocialização não é o objetivo da pena e sim a sua finalidade, a qual deve ser 
perseguida pelo Estado em sua atuação garantista. 
A respeito do tema, José Wilson Seixas Santos (1996, p.139) é enfático ao classificar a 
ressocialização como um direito fundamental do preso: 
 
[...] a ressocialização é um dos direitos fundamentais do preso e está vinculada ao welfare 
statate (estado de direito), que [...] se emprenha por assegurar o bem-estar material a todos 
os indivíduos, para ajuda-los fisicamente, economicamente e socialmente. O delinquente, 
como indivíduo em situação difícil e como cidadão, tem direito à sua reincorporação social 
[...]. 
Entre os mecanismos voltados à ressocialização, a Lei de Execução Penal prevê uma série 
de medidas e benesses voltadas à reinserção do preso e à garantia de humanização da 
pena, como: 
Saída temporária. 
Remição. 
Progressão de regime. 
Indulto. 
Livramento condicional. 
Permissão de saída. 
Pela própria nomenclatura dos mecanismos citados, é possível perceber que seu objetivo 
é a reinserção, com parcimônia, do indivíduo na comunidade. 
Assimile 
A saída temporária, por exemplo, tem por finalidade a manutenção dos laços familiares do 
preso, auxiliando, assim, na sua aceitação quando de retorno à comunidade. Outro 
relevante mecanismo de ressocialização é a progressão de regime, por meio da qual o 
condenado deve cumprir uma série de requisitos, objetivando, aos poucos, retornar ao 
convívio social, como no caso da progressão ao regime semiaberto, em que o acusado vai 
conquistando, paulatinamente, sua liberdade. 
Norberto Avena (2014, p. 248), ao tratar da progressão de regime, é didático, enfatizando 
que tal mecanismo objetiva, justamente, a ressocialização do preso: 
A progressão do regime prisional fundamenta-se na necessidade de individualização da 
execução e tem por fim assegurar que a pena privativa de liberdade a que submetido o 
condenado alcançará efetivamente seu objetivo, que é o de reinserção na sociedade. 
Nesse viés, o benefício poderá ser deferido quando o apenado revelar condições de 
adaptar-se ao regime menos rigoroso. 
Assim, no que tange aos mecanismos voltados à ressocialização dos indivíduos, estes 
visam, justamente, à reinserção do convívio em sociedade dos criminosos considerados 
recuperados, evitando, assim, que os efeitos estigmatizantes da pena tenham o condão de 
levá-los a, reiteradamente, cometer crimes, convertendo-se em criminosos habituais. 
Esta videoaula tratará do sistema de execução penal sob o enfoque da garantia dos direitos 
fundamentais e de como as alterações no Plano Nacional de Política Criminal e 
Penitenciária, pautadas na opinião pública, podem sobrepujar as garantias constitucionais. 
 
A REINCIDÊNCIA DOS PRESOS 
Um assunto de relevante importância ao tratarmos da teoria do etiquetamento é a 
reincidência dos presos, posto que é justamente o efeito estigmatizante da pena que acaba 
por forçar ao etiquetamento do indivíduo perante à sociedade que se revela como uma das 
causas da reincidência criminal. 
A reincidência é instituto previsto no art. 63 do Código de Processo Penal, o qual dispõe 
que “verifica-se a reincidência quando o agente comete novo crime, depois de transitar em 
julgado a sentença que, no País ou no estrangeiro, o tenha condenado por crime anterior” 
(BRASIL, 1984a, [s. p.]). 
Devido aos estigmas causados pelo cumprimento de uma pena, a sociedade rotula o 
indivíduo como alguém que não é bem-vindo, dificultando sua reinserção no mercado de 
trabalho e, consequentemente, o seu próprio sustento, não lhe dando, dessa forma, 
alternativas capazes de lhe garantir uma vida saudável e longe da criminalidade. 
O autor Alexandro Baratta (2002, p. 89) se debruça sobre o tema, fazendo apontamentos 
acerca das relações entre o etiquetamento e a vida em sociedade: 
A pergunta relativa à natureza do sujeito e do objeto, na definição do comportamento 
desviante, orientou a pesquisa dos teóricos do labeling approach em duas direções: uma 
direção conduziu ao estudo da formação de “identidade” desviante, e o efeito da aplicação 
da etiqueta de “criminoso” (ou também “doente mental”)sobre a pessoa em quem se aplica 
a etiqueta; a outra direção conduz ao problema da definição, da constituição do desvio 
como qualidade atribuída a comportamentos e a indivíduos, no curso da interação, e por 
isto, conduz também para o problema da distribuição do poder da definição, para o estudo 
dos que detém, em maior medida, na sociedade, o poder de definição, ou seja, para o 
estudo das agências de controle social. 
O Estado é falho ao cumprir seu papel na ressocialização do preso, posto que não é 
realizado um preparo efetivo para o sujeito retornar à vida em sociedade, não havendo, de 
igual forma, certeza quanto a sua recuperação. Assim, a própria sociedade cria resistência 
quanto à reinserção do sujeito na comunidade, por ainda vê-lo como um criminoso, mesmo 
após o efetivo cumprimento da pena. 
O art. 25 da Lei de Execuções Penais dispõe que o Estado tem o dever de prestar 
assistência ao preso, consistente na orientação e no apoio, objetivando sua reintegração à 
vida em liberdade, colaborando, inclusive, para obtenção de trabalho nos termos do art. 27 
do mesmo códex. 
Dessaforma, é possível atribuir ao Estado as falhas pela reinserção do indivíduo em 
sociedade, posto que sem a devida preparação do sujeito, a obtenção de trabalho, sustento 
ou mesmo a vida na comunidade torna-se insustentável, facilitando, assim, a reincidência 
criminosa, até porque, por vezes, esta acaba sendo a única alternativa possível para 
subsistência do sujeito socialmente etiquetado. 
Esta videoaula tratará das influências da teoria do etiquetamento na reincidência do preso. 
 
ESTUDO DE CASO 
Imagine a situação hipotética em que, em fase de execução de pena transitada em julgado 
por crime de roubo, um sentenciado recebeu o direito à progressão para o regime aberto. 
Tendo que demonstrar residência fixa e ocupação lícita, junta, nos autos, o seu antigo 
endereço e a sua nomeação a cargo comissionado de secretário adjunto da saúde do 
município de Aquipodetudo. Você é o Juiz da execução penal e deverá decidir sobre a 
progressão de pena do condenado, haja vista ser obrigação do Estado a colaboração de 
trabalho para fins de ressocialização. Para tanto, leve em consideração o teor do Art. 15, 
III, da Constituição, no que concerne à suspensão de direitos políticos. 
 
RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO 
É esperado que o estudante aponte que o art. 25 da Lei de Execuções Penais dispõe que 
o Estado tem o dever de prestar assistência, orientação e apoio ao preso, objetivando sua 
reintegração à vida em liberdade, colaborando, até mesmo, para obtenção de trabalho nos 
termos do art. 27 da referida lei. 
A resposta deve ser complementada, apontando que a CRFB, em seu Art. 15, inciso III, 
aduz que ocorrerá a suspensão de direitos políticos, entre outros motivos, quando houver 
condenação criminal transitada em julgado. Além disso, é enfática ao afirmar que perdurará 
a suspensão enquanto durarem os efeitos da condenação. Como o sentenciado ainda 
cumpre pena, mesmo que em regime aberto, está sob os efeitos de tal normatividade, 
motivo que inviabiliza sua nomeação. 
 
Saiba mais 
Para complementar os seus estudos sobre o tema estudado, trouxemos algumas dicas bem 
interessantes de leitura! 
Reincidência criminal e sua atuação como circunstância agravante escrito por Adler 
Chiquezi. 
Os reflexos da teoria do labelling approach (etiquetamento social) na ressocialização de 
presos escrito por Jhonathan Marques Santos.ligadas diretamente a estes e os utilizam como ferramenta para cumprir seus objetivos. 
O minimalismo penal, por exemplo, sempre foi um movimento crítico ao próprio direito 
penal, posto que, seus seguidores defendem a aplicabilidade do direito penal deve se dar 
no mínimo possível e somente quando absolutamente indispensável. 
Desta forma, resta cristalino que, na aplicação da política criminal minimalista, o instituto da 
descriminalização está mais presente que o da criminalização, até porque, a fim de que a 
esfera penal seja reservada apenas as condutas mais danosas aos indivíduos, aplicar-se-
á a descriminalização para as condutas mais brandas, dando assim, efetivo cumprimento 
à política minimalista. 
Por sua vez, ao tratarmos de políticas criminais de caráter repressivo (ou punitivo), como 
no caso da política criminal de tolerância zero (baseada na broken windows theory), temos 
um uso mais relevante da ferramenta da criminalização, posto que tal política visava a 
aplicação de penas severas a crimes a delitos comuns e de baixo potencial ofensivo, sob o 
fundamento de que a exemplar condenação de tais delitos evitaria, seguindo o raciocínio 
da Teoria das Janelas Quebradas, a prática de delitos mais graves. Assim, a criminalização 
passou a ser adotada até mesmo em condutas corriqueiras que antes poderiam se 
configurar mera contravenção ou ilícito administrativo, tornando desta forma, a 
criminalização primeira extremamente rígida, por meio do que foi chamado de processo de 
hipercriminalização. 
Com isso, é possível concluir que a criminalização e a descriminalização, mais do que 
meras ferramentas, são a alma de qualquer política criminal, independente do objetivo que 
se pretende alcançar. De fácil percepção que caso a intenção seja enrijecer o processo de 
criminalização primária e adotar políticas marcadas por maior punitividade, o Estado deve 
se fazer valer do instituto da criminalização, enquanto caso o objetivo seja abrandar a 
criminalização primária, descriminalizando fatos antes tido como criminosos ou mesmo 
despenalizando uma conduta, o Estado se vale do instituto da descriminalização. 
Aula vídeo tratando dos institutos da criminalização e descriminalização como 
indispensáveis na aplicação de qualquer política criminal, com explanações acerca de sua 
aplicabilidade nas políticas repressivas e não repressivas. 
 
PENALIZAÇÃO E DESPENALIZAÇÃO 
Penalização e despenalização 
Diretamente ligados à criminalização e descriminalização, os institutos da penalização e 
despenalização são de absoluta relevância na matéria de políticas criminais. 
O processo de criminalização consiste em estabelecer, por meio de lei, que determinado 
comportamento é tido como criminoso, desta forma, ao tratarmos da penalização enquanto 
instrumento da criminalização primária, visamos a aplicação de penas severas como forma 
de abrandar sistematicamente o cometimento de atos criminosos. 
A despenalização, por sua vez, é ligada umbilicalmente ao instituto da descriminalização, 
na medida que objetiva a adoção de penas alternativas para o ato cometido. 
Atenção! 
É importante ressaltar que, diferente da descriminalização, que possui caráter amplo e 
engloba até mesmo a transformação de um ilícito em um ato jurídico-penalmente 
irrelevante, a despenalização possui caráter mais estrito, ao ponto que não tem o condão 
de abolir a tipificação do ato, mas apenas de substituir a pena aplicada na intenção de 
abrandar a punição pelo fato tipificado. 
A Lei Federal nº 9.099/95 (que dispõe sobre os Juizados Especiais Cíveis e Criminais e dá 
outras providências) consagrou-se como eficaz instrumento da despenalização, ao ponto 
que definiu, em seu art. 61, como infrações penais de menor potencial ofensivo, as 
contravenções penais e os crimes a qual a lei comine pena máxima não superior a 2 (dois) 
anos. A Lei dos Juizados Especiais não transformou qualquer ilícito em ato jurídico-
penalmente irrelevante, como poderia ocorrer por meio da descriminalização, mas sim, 
criou uma série de medidas de despenalização para serem aplicadas em substituição à 
prisão propriamente dita. 
Uma das medidas de despenalização contidas na Lei dos Juizados Especiais diz respeito 
à composição civil dos danos que, nos termos impostos pelo art. 74 de referido códex, 
importa renúncia do direito de queixa ou representação, culminando na extinção do feito: 
 
Art. 74. A composição dos danos civis será reduzida a escrito e, homologada pelo Juiz 
mediante sentença irrecorrível, terá eficácia de título a ser executado no juízo civil 
competente. 
Parágrafo único. Tratando-se de ação penal de iniciativa privada ou de ação penal pública 
condicionada à representação, o acordo homologado acarreta a renúncia ao direito de 
queixa ou representação. 
Outra relevante medida criada pela Lei Federal nº 9.099/95 é a chamada transação penal, 
materializada pelo art. 76 da mencionada lei, no qual, havendo representação ou tratando-
se de crime de ação penal pública incondicionada, não sendo caso de arquivamento, o 
Ministério Público poderá propor a aplicação imediata de pena restritiva de direitos ou 
multas, a ser especificada na proposta. Tal instituto, como medida de despenalização, 
atribuiu ao Ministério Público a possibilidade de propor ao sujeito tido como autor de 
infração de menor potencial ofensivo, a aplicação de pena restritiva de direitos, como forma 
de abrandar e até mesmo acelerar a aplicação de penas. 
Os institutos da penalização e despenalização são partes integrantes dos processos de 
criminalização e descriminalização, servindo de ferramentas para consecução dos objetivos 
precípuos destes enquanto fenômenos anímicos da política criminal. 
Aula vídeo relativa aos processos de penalização e despenalização, contendo conceitos e 
explicações práticas acerca de cada um deles. 
 
PRISIONALIZAÇÃO E DESPRISIONALIZAÇÃO 
Prisionalização e desprisionalização 
No estudo dos processos político-criminais é imprescindível a análise acerca de dois 
institutos de notável relevância, sendo eles a prisionalização e a desprisionalização em 
caráter cautelar. O fenômeno da prisionalização como medida de segregação cautelar do 
indivíduo, ou seja, antes de uma sentença penal condenatória, remonta a idade média, 
posto que, a privação de liberdade de determinado sujeito, até meio do século XVII, não 
era tida como uma sanção propriamente dita, mas sim, era utilizada como meio cautelar de 
deter uma pessoa até a efetiva definição do que seria feito com ela. 
A Comissão Interamericana de Direito Humanos (CIDH), órgão principal e autônomo da 
Organização dos Estados Americanos (OEA), no documento intitulado de Informe sobre el 
uso de la prisión preventiva en las Américas aponta que o respeito aos direitos das pessoas 
privadas da liberdade é um dos principais desafios que os Estados Membros enfrentam, 
reconhecendo o uso excessivo da privação preventiva de liberdade na região. 
Em seus estudos e análises, a CIDH aponta ter observado que o alto índice de detidos 
provisórios na região decorre de diversos aspectos, dentre eles: 
Demora na solução judicial. 
Falta de capacidade operativa e técnica dos corpos policiais e de investigação. 
Falta de capacidade operativa, independência e recursos das Defensorias Públicas. 
Deficiência no acesso aos serviços das Defensorias Públicas. 
Existência de legislações que privilegiam a aplicação de prisão preventiva. 
Falta de mecanismos para aplicação de medidas cautelares diversas da prisão. 
Corrupção. 
Uso estendido da medida em casos de delitos menos gravosos. 
Dificuldade no êxito da revogação da medida. 
No Brasil, a Constituição de 1824 (BRASIL, 1824) ao tratar da inviolabilidade dos direitos 
civil e políticos dos brasileiros, dispôs que ninguém poderia ser preso sem culpa formada, 
exceto nos casos expressamente declarados na Lei e ainda, definiu que em 24 horas a 
contar da entrada na prisão(para cidades, vilas ou povoados próximos ao local de 
residência do Juiz) o magistrado deveria emitir nota assinada por ele, na qual informa ao 
réu os motivos que levaram à sua prisão, os nomes dos seus acusadores e das 
testemunhas. O mesmo códex dispôs que em se tratando de locais mais remotos o prazo 
de 24 horas seria estendido por período de tempo razoável, definido com base na extensão 
do território. 
Com a evolução jurídica moderna e ascensão do garantismo, o Código de Processo Penal 
atual passou a admitir a prisão preventiva nas hipóteses elencadas em seu art. 312 e 313. 
Ante o exposto, é possível concluir acerca da importância do estudo do instituto da 
prisionalização e desprisionalização no âmbito das políticas criminais, bem como a 
evolução e o desenvolvimento do instituto no decorrer dos anos com ascensão do 
garantismo moderno, bem como, preocupação interna e externa em reduzir gradativamente 
o número de prisões cautelares, não a tratando como regra, mas sim como exceção à 
garantia individual de liberdade. 
Aula vídeo com explicações acerca dos institutos da prisionalização e desprisionalização 
sob o enfoque do garantismo constitucional e a preocupação de órgãos externos na 
redução das prisões cautelares. 
 
ESTUDO DE CASO 
Tomando por base os assuntos tratados em aula, o estudante deve dissertar sob o ponto 
de vista de Jakobs, sobre as justificativas para adoção de medidas extremas do modelo de 
lei antiterrorista do USA PATRIOT Act. 
 
RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO 
À luz dos conceitos expostos em aula, espera-se que o estudante em sua dissertação, 
explique que a adoção de medidas extremas do modelo de lei antiterrorista do USA 
PATRIOT Act justifica-se pela adoção de políticas criminais repressivas pautadas na Teoria 
do Direito Penal do Inimigo. Segundo esta teoria, há duas espécies de infratores, os 
chamados “criminosos tradicionais”, aos quais é imperiosa a aplicação do Direito Penal 
Tradicional e, os “autores de crimes graves”, cujos atos são atentatórios à própria estrutura 
social, como os terroristas, criminosos sexuais, membros do crime organizado e autores de 
outros crimes graves. Para a Teoria do Direito Penal do Inimigo, esse segundo grupo deve 
ser rotulado como “inimigo da sociedade”, razão pela qual, sequer devem ser tratados com 
as benesses do Direito tradicional, ante a insuficiência deste em reprimir suas condutas 
criminosas. 
O aluno deve apontar que o posicionamento expresso no USA PATRIOT Act possibilita a 
restrição de direitos e liberdades civis, possibilitando a prática de tortura para assegurar o 
bem maior: incolumidade pública. Segundo essa teoria, existe a antecipação da punição, a 
desproporcionalidade das penas e supressão de direitos com leis severas. 
Saiba mais 
Para ampliar os seus conhecimentos sobre os temas abordados durante os nossos 
estudos, indicamos algumas leituras que são muito pertinentes e interessantes! 
FERRAJOLI, L. Direito e razão: teoria do garantismo penal. São Paulo: Editora Revista dos 
Tribunais, 2006. 
Clique aqui para ler o artigo Revendo os conceitos das prisões cautelares a partir da prisão 
do senador Delcídio Amaral escrito por Alencar Frederico Margraf. 
 
POLÍTICAS CRIMINAIS NA PÓS-MODERNIDADE 
Ao tratarmos do desenvolvimento das políticas criminais em âmbito mundial, abordaremos 
a Teoria da Rational Choice, sua preocupação com as situações que envolvem o 
comportamento do criminoso e como o meio ambiente exerce influências sobre este. 
 
INTRODUÇÃO 
Olá estudante! O presente estudo tem por escopo aprofundar-se no tema relativo às 
políticas criminais, focando na era da pós-modernidade. Ao tratarmos do desenvolvimento 
das políticas criminais em âmbito mundial, abordaremos a Teoria da Rational Choice, sua 
preocupação com as situações que envolvem o comportamento do criminoso e como o 
meio ambiente exerce influências sobre este. 
Será ainda objeto deste estudo a teoria chamada de Routine Activity, ou Teoria das 
Atividades Rotineiras, por meio da qual se busca explanar acerca das taxas de 
criminalidade, atribuindo seu aumento as oportunidades criminais decorrentes da alteração 
das atividades rotineiras no período moderno, (Segunda Guerra Mundial). 
Trataremos também da prevenção de situações e crime sob o enfoque da criminologia 
moderna, com explanações acerca da evolução do pensamento criminológico a respeito da 
prevenção e como as políticas criminais atuais são aplicadas com este enfoque. 
 
CENÁRIO HISTÓRICO 
Cenário histórico 
Para compreender o desenvolvimento das políticas criminais na atualidade é necessário 
traçarmos um panorama histórico de sua evolução ao longo das eras. Como já sabemos, 
podemos dividir a evolução histórica da política criminal em: Era Clássica, Era Científica e 
Era Moderna. 
Na Era Clássica da criminologia, sedimentou o antropocentrismo como definidor de que o 
direito era imperativo da razão. Esse período foi abordado por autores como Cesare 
Beccaria e aprimorado por Anselm von Feuerbach, Immanuel Kant e Francesco Carrara, 
que, sob o ponto de vista do livre arbítrio, defendiam que os homens escolhiam seu caminho 
livremente, sem interferência do meio ambiente. Caso o caminho escolhido pelo sujeito 
fosse ruim, com a prática de condutas moral e socialmente reprováveis, este deveria ser 
submetido a uma pena como forma de castigo. 
Na chamada Era Científica, a consolidação da Escola Positiva trouxe novo enfoque às 
políticas criminais, passando-se a análise não apenas dos fatos criminosos, mas do homem 
criminoso. Neste período, destacou-se o autor Cesare Lombroso, que defendia que nem 
todos os indivíduos são iguais, apontando que os criminosos agiam de forma irracional e 
predeterminada. Desta forma, a política criminal à época teve como finalidade a defesa 
social com intuito de identificar e neutralizar indivíduos considerados perigosos para que 
cessassem seus atos criminosos. Com o final da Segunda Guerra Mundial houve um 
relevante aumento das taxas de criminalidade, até porque, o mundo todo passou por severa 
crise econômica na época. No período, a criminologia e as políticas criminais passaram por 
um processo de separação, até porque, as políticas criminais passaram a adotar o chamado 
“idealismo de esquerda”, com o aumento da vitimização por parte da população 
economicamente menos favorecida. 
No período denominado como pós-moderno, marcado pelo início dos anos 1990 e 
consolidado na virada do século, o pensamento racionalista é drasticamente afastado, 
dando espaço à sensação geral de que o Estado não possui capacidade de resolver seus 
próprios problemas e coibir de forma satisfatória a criminalidade crescente. 
Na pós-modernidade, passou-se a tratar do fato criminoso de modo imediato, posto que 
esse seria cometido ante a ausência de controle social e devido a existência de 
oportunidade para tanto, o que culminou em políticas criminais voltadas a criar meios de 
dificultar a prática da conduta criminosa. As políticas criminais passaram a ser dotadas de 
caráter conservador e deixaram de lado o pensamento de recuperação do indivíduo, 
focando quase que exclusivamente na prevenção do ato delituoso em si. 
Esse período foi marcado pelo surgimento de teorias como a Rational Choice e sua 
preocupação com as situações que envolvem o comportamento do criminoso e como o 
meio ambiente exerce influência sobre este e a Teoria das Atividades Rotineiras, que busca 
explicar como a alteração da rotina do cidadão comum no mundo moderno afetaram as 
“oportunidades de crime”. 
Desta forma, sob o enfoque criminológico, no período pós-moderno houve drástica 
alteração nas políticas criminais, com a evolução de conceitos e desenvolvimento de teorias 
até então não exploradas, alterando até mesmo as formas de prevenção de fatos 
criminosos. 
Aula vídeo versando sobre o cenário histórico das políticas criminais no período moderno 
e pós-moderno.RATIONAL CHOICE 
Teoria da Rational Choice 
No período pós-moderno, surgiu a chamada Rational Choice Theory (Teoria da Escolha 
Racional), a partir desta teoria, criada no período pós-guerra, passou-se a aplicar as 
ciências sociais no campo da criminologia, analisando como o meio ambiente e a sociedade 
em que vive determinado sujeito, influencia suas escolhas. 
A Rational Choice estuda especificamente as escolhas de um determinado indivíduo diante 
da interação deste com o meio em que vive, com o intuito de verificar se a atitude adotada 
por este sujeito foi livre e racional, levando-o a cometer uma conduta antijurídica. 
A criação da Teoria da Escolha Racional teve por base duas teorias já conhecidas, a “Teoria 
dos Jogos” e a “Teoria da Decisão”. 
Teoria dos jogos: conclui que as pessoas tomam determinadas atitudes com base 
especificamente nas consequências das atitudes de terceiros, assim, os indivíduos atuam 
socialmente como se estivessem participando de um jogo, lançando sua estratégia de 
acordo com as jogadas realizadas por outros jogadores. 
Teoria da decisão: conclui que, se uma pessoa é racional, suas decisões devem seguir o 
caminho da racionalidade. 
 
Reflita 
A Teoria Rational Choice, tendo por base as outras duas já citadas, afasta o isolamento 
ocorrido em períodos anteriores, relativo ao interesse do criminoso, passando a considerar 
todo o meio como formador da racionalidade e das escolhas do sujeito. 
O autor Patrick Baert (1997, p. 12), ao tratar sobre o assunto, considera algumas noções-
chave para a teoria: 
Premissa da intencionalidade: ao falarmos de intencionalidade, sob o enfoque da Teoria da 
Escolha Racional, temos que o indivíduo age intencionalmente, porém, sob influência do 
meio em que vive e ante as práticas sociais adotadas, sua escolha intencional seja 
influenciada a seguir em determinada direção, trazendo consequências não intencionais. 
Premissa da racionalidade: se tratando da premissa da racionalidade, temos que, os 
indivíduos agem de forma racional e coerente, porém, de acordo com suas próprias 
convicções. Desta forma, as atitudes adotadas por uma determinada pessoa buscam o 
aumento de sua satisfação e a redução dos custos envolvidos, porém, é plenamente 
possível que alguém, sob influência de convicções falsas, realize um ato reprovável, de 
forma racional, com o intuito de atingir seus objetivos. 
Distinção entre informação completa e incompleta e a diferença entre risco e incerteza: a 
Teoria da Escolha Racional defende a existência de “informações imperfeitas”, apontando 
que ao tomarmos determinada atitude, assumimos que sabemos todas as suas 
consequências, que nossas informações são perfeitas, quando, em verdade, realizamos 
um balanço entre incerteza e risco, sendo que, ao enfrentar os riscos, calculamos as 
probabilidades de resultado, afirmando que situações de incerteza simplesmente não 
existem. 
A distinção entre ação estratégica e ação interdependente: sob o enfoque prático, o autor 
Anthony Downs (1957) ao tratar do assunto no livro An economic theory of democracy, 
aponta que tantos políticos como os eleitores agem de forma racional, sendo os primeiros 
com a motivação voltada a seus ganhos pessoais, seja poder ou dinheiro, enquanto os 
segundos, estabelecem suas preferências comparando os ganhos pessoais que podem ter 
com cada partido no poder. 
Aula vídeo tratando da Teoria da Rational Choice e sua aplicabilidade prática, bem como 
sua correlação com a criminologia sob o enfoque da influência do meio ambiente nos atos 
praticados e sua racionalidade. 
 
ROUTINE ACTIVITY 
Teoria da Routine Activity 
A Teoria das Atividades Rotineiras foi criada por Albert K. Cohen e Marcus Felson e tinha 
como intuito proceder a efetiva análise das razões que ensejaram o aumento da 
criminalidade no período marcado pelo fim da Segunda Guerra Mundial. 
Segundo a Routine Activity Theory a modificação de rotina da população em conjunto com 
o aumento da desigualdade social, contribuíram para criar as chamadas “oportunidades de 
crime”. 
Ao tratar do assunto, Molina (1997, p. 416) aponta que “o crime é uma opção reflexiva, 
calculada, oportunista, que pondera os custos, riscos e benefícios em função sempre de 
uma oportunidade ou situação concreta”. Assim, havendo a oportunidade para a prática de 
um crime, o delinquente analisa as condições e os riscos envolvidos e decide se é ou não 
viável a execução de conduta. 
A Teoria das Atividades Rotineiras possui como objeto principal de estudo os crimes de 
ordem patrimonial, apontando que o fator determinante para a execução do fato criminoso 
dessa ordem não é simplesmente a existência de um sujeito capaz de cometer a conduta 
antijurídica, mas também, a oportunidade concreta para a realização deste, ou seja, amplia-
se aqui a participação da vítima no processo criminoso, aumentando o enfoque da 
vitimologia nas situações de prevenção de crime. 
Nos crimes de ordem patrimonial, para a Routine Activity Theory, os criminosos definem 
como alvo os objetos de maior valor, fáceis de esconder e com menor risco, realizando uma 
verdadeira avaliação dos riscos e recompensas, posto que, se menor ou ausente a 
necessidade de superação de um determinado obstáculo, a recompensa supera o fator 
risco. 
A teoria analisada possui ainda a figura do chamado guardião, que é alguém que 
desestimula a execução da atividade criminosa, podendo este ser uma autoridade policial 
ou, mais comumente, transeuntes, o proprietário do bem ou qualquer outro que possa 
dificultar a ação predeterminada. 
Outra figura relevante no estudo da Routine Activity Theory é o chamado manipulador, que 
pode ser definido como alguém com proximidade em relação ao criminoso, seja seus pais, 
professores ou amigos, exercendo, desta forma, certa dose de influência psicológica sobre 
ele, a ponto de dissuadi-lo da prática criminosa. 
 
Reflita 
Na concepção da teoria analisada, é possível definir uma espécie de “triângulo do crime”, 
formado pela vítima ou pelo objeto (protegidos pelo seu guardião) o infrator (diretamente 
ligado ao manipulador ou supervisor que pode dissuadi-lo) e o local (ambiente propício a 
oportunidades de crime), com base nesta figura, o criminologista canadense Kim Rossmo 
(1997) definiu as oportunidades de crime por meio da seguinte equação: delito = (criminoso 
+ objeto – guardião) (lugar + tempo). 
Dessa forma, em que pese a importância da motivação do criminoso, a situação de crime 
somente se concretiza se presentes os elementos que constituem a oportunidade 
criminosa, demonstrando, desta forma, que o ambiente e as rotinas adotadas pelas próprias 
vítimas, afetam diretamente o sopesamento entre recompensa e risco, criando assim, as 
oportunidades perfeitas para criminosos motivados. 
Aula vídeo tratando da Routine Activity Theory, com explanações acerca do triângulo da 
atividade criminosa e da efetiva oportunidade de crime. 
 
PREVENÇÃO DE SITUAÇÕES DE CRIME 
Prevenção de situações de crime 
Com base nas premissas apresentadas pela Rational Choice Theory e Routine Activity 
Theory, é possível concluir, do ponto de vista da criminologia moderna, como as situações 
criminosas se desenvolvem e são influenciadas pelo ambiente interno, externo e pelas 
condutas das vítimas, sendo, portanto, possível proceder a análise da prevenção da 
situação criminal com enfoque nas teorias apresentadas. 
O ponto de convergência entre as teorias estudadas se encontra justamente na motivação 
do sujeito que pretende cometer o ilícito e a influência exercida sobre ele. Como explanado 
anteriormente, a existência de um guardião, por si só, já é fator primordial na política de 
prevenção, enquanto sob o ponto de vista do desenvolvimento social e das relações 
culturais, a existência da figura do manipulador pode evitar o cometimento de delitos por 
meio da influência psicológica exercida sobre o infrator. 
Podemos definir a prevençãode situações de crime, como o conjunto de medidas que 
visam evitar a ocorrência ou reincidência de determinado delito, sendo que a criminologia 
moderna divide o processo de prevenção em três espécies: a prevenção primária, 
secundária e terciária. 
A prevenção primária, enquanto fase inicial do processo de prevenção de situações de 
crime, tem por objeto a implementação de ações indiretas voltadas à prevenção, evitando 
estímulos à prática criminosa. As ações realizadas na prevenção primária geralmente 
possuem caráter social, econômico e educativo, atacando, desta forma, a causa inicial da 
conduta criminosa, aumentando a renda do cidadão, melhorando as condições de moradia 
e emprego e possibilitando uma vida minimamente saudável e digna a estes, evitando, 
assim, que o indivíduo cometa desvios de conduta e atos criminosos. 
A prevenção secundária de situações de crime, por sua vez, não é voltada para as pessoas 
individualmente, sendo focada na coletividade e aplicada apenas em momento posterior a 
execução da conduta delitiva ou mesmo em sua iminência, sendo voltada aos grupos mais 
tendenciosos a prática delitiva. Em se tratando da prevenção secundária, é possível 
destacar que esta opera a curto e médio prazo, sendo diretamente ligada com a política 
legislativa penal (criminalização primária) e com a atividade policial (criminalização 
secundária), postos que estas são voltadas aos interesses de prevenção geral de condutas 
delitivas. 
Por fim, a prevenção terciária, enquanto fase final do processo de prevenção de situações 
criminais, é voltada de modo individualizada a cada sujeito, posto que sua aplicabilidade se 
dá por meio das penas aplicadas no campo do processo penal e do efetivo processo de 
ressocialização intrínseco às execuções penais. A prevenção terciária tem início apenas 
com o cumprimento de pena por parte do infrator, independente do caráter efetivo desta 
pena, se reclusão, detenção, prestação de serviços à comunidade ou qualquer medida 
restritiva de direitos, a intenção da prevenção terciária, nesta fase, é coibir a reiteração da 
conduta. 
Aula vídeo relativa ao processo de prevenção criminal em todas as suas fases, com 
explanações sobre como o ambiente externo influi na prevenção. 
 
ESTUDO DE CASO 
Uma pessoa maior, capaz, cresceu em uma comunidade carente e violenta, sobre as 
influências locais, tendo percepções próprias sobre a realidade, comete um crime de roubo. 
Sob a premissa lançada, tendo em vista o conteúdo estudado, o estudante deverá elaborar 
um texto tendo como objeto de análise a concepção da Rational Choice Theory e Routine 
Activity Theory. 
 
RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO 
Com base nos conceitos expostos em aula, espera-se que o estudante, em sua dissertação, 
aponte que, em se tratando da Rational Choice Theory, do ponto de vista da criminologia 
moderna, será objeto de análise não apenas o criminoso em si ou a conduta criminosa, mas 
também as influências que o meio externo exerce sobre ele. É importante que aponte que 
a Rational Choice estuda especificamente as escolhas de um determinado indivíduo diante 
da interação deste com o meio em que vive, com o intuito de verificar se a atitude adotada 
por este sujeito foi livre e racional, levando-o a cometer uma conduta antijurídica. 
O estudante deve frisar que pelo enfoque da Rational Choice Theory o indivíduo age 
intencionalmente, porém, sob influência do meio em que vive e ante as práticas sociais 
adotadas, sua escolha intencional seja influenciada a seguir em determinada direção, 
trazendo consequências não intencionais. 
Por outro lado, em se tratando da Routine Activity Theory, o estudante deve discorrer que 
o objeto de estudo deixa de ser especificamente as influencias exercidas pelo meio externo 
e seu caráter social, passando a ser a oportunidade criminosa em si e os fatores 
determinantes para sua prevenção. 
É relevante que a dissertação mostre que o fator determinante para a execução do fato 
criminoso de caráter patrimonial, sob a ótica da Routine Activity Theory, não é 
simplesmente a existência de um sujeito capaz de cometer a conduta antijurídica, mas 
também, a oportunidade concreta para a realização desta, ou seja, amplia-se aqui a 
participação da vítima no processo criminoso, aumentando o enfoque da vitimologia nas 
situações de prevenção de crime. 
Resolução do Estudo de Caso 
 
Saiba mais 
Para ampliar os seus conhecimentos sobre os temas abordados durante os nossos 
estudos, indicamos algumas leituras que são muito pertinentes e interessantes! 
Clique aqui para ler o artigo A nova criminologia administrativa escrito por Pedro Augusto 
Dassan. 
Clique aqui para ler o artigo Teoria da escolha racional: a evidenciação do Homo 
Economicus? escrito por Fernando Scheeffer. 
 
POLÍTICAS CRIMINAIS E DIREITOS FUNDAMENTAIS 
Durante os estudos, vamos nos aprofundar nos efeitos que as políticas criminais exercem 
sobre os direitos fundamentais de ordem constitucional. 
 
INTRODUÇÃO 
Olá, estudante! 
Durante os estudos, vamos nos aprofundar nos efeitos que as políticas criminais exercem 
sobre os direitos fundamentais de ordem constitucional. É importante ressaltar que o 
objetivo desta aula é proceder à análise apurada de como a privação de liberdade, seja ela 
cautelar ou decorrente da efetiva aplicação de uma condenação criminal, afeta os direitos 
garantidos a todos pela Magna Carta. 
Neste ínterim, vamos tratar ainda da questão relativa à reserva legal inserta no âmbito do 
direito penal e da privação de liberdade, ambos sob o enfoque constitucional. 
Ressalte-se que outro assunto relevante e de caráter teórico com aplicação prática, a ser 
tratado aqui, é a execução penal e as políticas penitenciárias, incluindo uma observação 
acerca dos objetivos traçados no Plano Nacional de Política Criminal e Penitenciária (2020-
2023) elaborado pelo Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária – CNPCP em 
novembro de 2019. 
 
GARANTIAS FUNDAMENTAIS 
Ao tratarmos de políticas criminais, processo de criminalização ou qualquer outra matéria 
afeta ao direito penal propriamente dito, indispensável tratar de garantias fundamentais, 
principalmente ante ao caráter punitivo do sistema penal. 
Os direitos e garantias fundamentais encontram-se descritos no Título II, da Constituição 
Federal, do art. 5º ao art. 17, e podem ser definidos como o mínimo necessário para que 
uma pessoa viva com dignidade. 
Do ponto de vista do direito penal, devemos ressaltar que o Estado, enquanto garantidor 
dos direitos fundamentais, não pode aplicar penas, sanções ou mesmo impor tratamento 
desumano ou degradante a alguém, posto que a dignidade da pessoa humana é um dos 
fundamentos da República Federativa do Brasil enquanto Estado Democrático de Direito. 
Em se tratando da dignidade da pessoa humana, no âmbito do processo de criminalização, 
temos que o direito penal não deve, em qualquer hipótese, punir condutas que a própria 
sociedade considera inofensiva, demonstrando assim, novamente, a influência social no 
processo de criminalização primária. 
Claro exemplo da preservação de direitos fundamentais no âmbito do direito penal brasileiro 
é a determinação contida no art. 5º, XLVII da Magna Carta, quanto a proibição, não absoluta 
(devido a previsão em caso de guerra), de pena de morte; de penas de caráter perpétuo 
(máximo de 30 anos); de penas de banimento ou mesmo de penas cruéis. 
No mesmo artigo há proibição de penas de trabalho forçado, porém, cabe ressaltar que na 
Lei de Execuções Penais há a existência de trabalho obrigatório, o qual não deve ser 
confundido com os trabalhos forçados tratados na vedação do art. 5º, XLVII da Constituição, 
havendo uma espécie de cuidado com a necessidade de cada pessoa submetida a este 
instituto. 
A fim de diferenciar o instituto do trabalho obrigatório dos trabalhos forçados, a própria Lei 
de Execuções Penais (BRASIL, 1984) definiu em seuartigo 28 que “o trabalho do 
condenado, como dever social e condição de dignidade humana, terá finalidade educativa 
e produtiva”. O conflito entre a proibição de trabalhos forçados e o trabalho obrigatório 
previsto na Lei de Execuções penais é meramente aparente, posto que, o trabalho 
penitenciário é um dever e um direito do preso, garantido pelo artigo 48 do mesmo códex e 
dá direito a remissão de pena. 
Em se tratando de direitos fundamentais no âmbito do direito penal é necessário abordar o 
princípio da legalidade penal, segundo o qual a lei deve ser estrita e legal, sendo definido 
no art. 5º, XXXIX, da Constituição Federal (BRASIL, 1988) que “não há crime sem lei 
anterior que o defina, nem pena sem prévia cominação legal”. 
Outro princípio relevante que demonstra a afinidade do direito penal com os direitos 
fundamentais é o da presunção de inocência, segundo o qual ninguém será considerado 
culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória, ou seja, a presunção de 
inocência, dentro da visão garantista do Estado, pode ser considerada como um dos pilares 
basilares do próprio Estado Democrático de Direito. 
Desta forma, deve-se ressaltar a importância do respeito das normas constitucionais e do 
garantismo esperado do direito penal, a fim de preservar a própria dignidade daqueles que 
forem investigados ou mesmos condenados em virtude da prática de uma conduta 
delituosa, a fim de preservar o próprio Estado de Direito. 
Aula vídeo com explanações aprofundadas acerca do direito penal e a necessidade de 
preservação dos direitos fundamentais. 
 
A PRIVAÇÃO DA LIBERDADE 
A liberdade, enquanto direito fundamental, é prevista no próprio caput do art. 5º da 
Constituição Federal. É importante ressaltar que a garantia constitucional não é relativa 
apenas a liberdade de ir e vir, mas também engloba uma série de liberdades indispensáveis 
à garantia da dignidade da pessoa humana. 
Quanto ao rol de liberdades protegidas pelo texto constitucional, José Afonso da Silva 
(2008, p. 235) lista tais liberdades como: a liberdade de locomoção; liberdade de 
pensamento; liberdade de expressão; liberdade de exercer uma profissão e a liberdade 
social. 
Visando aprofundar os estudos relativos a privação de liberdade sob o enfoque das políticas 
criminais e o respeito aos direitos fundamentais, abordaremos exclusivamente a liberdade 
de locomoção. 
Do ponto de vista constitucional, a liberdade somente pode ser restringida em razão do 
princípio da legalidade. O art. 5º, II da Constituição da República Federativa do Brasil 
(BRASIL, 1988) é cristalino ao definir que “ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer 
alguma coisa senão em virtude de lei”, desta forma, o direito à liberdade de ação sofre 
restrições por parte do princípio da legalidade. 
Ante a tal fundamento, temos que a privação de liberdade somente é válida se decorrente 
de Lei, partindo assim, do próprio Poder Legislativo, que é constituído por uma escolha do 
povo no exercício de seu direito de voto. 
Desta forma, fácil perceber que a privação de liberdade, quando decorrente de uma 
condenação criminal, cujo crime é tipificado em lei, criada pelo Poder Legislativo enquanto 
órgão constituído em decorrência da escolha do povo no exercício da soberania popular, 
não fere o direito constitucional à liberdade, até porque, a restrição desta decorre do próprio 
princípio da legalidade. 
Tomando por base o tema abordado, seria correto afirmar que, em se tratando da privação 
de liberdade decorrente de prisões cautelares, haveria desrespeito ao direito fundamental 
à presunção de inocência? A resposta seria não. A Constituição Federal, em seu art. 5º, 
LXI (BRASIL, 1988) é enfática ao dispor que “ninguém será preso senão em flagrante delito 
ou por ordem escrita e fundamentada de autoridade judiciária competente, salvo nos casos 
de transgressão militar ou crime propriamente militar, definidos em lei”. 
Assim, há previsão constitucional para a decretação do segregamento cautelar de um 
indivíduo, sendo que tal ato visa resguardar a ordem social, porém, deve ser utilizada com 
cautela, até porque, com a expansão dos meios de comunicação na atualidade, o próprio 
clamor popular e a perseguição midiática podem acabar por influir na tomada de decisão 
de um magistrado, levando a valer-se do instituto da prisão cautelar apenas para o controle 
dos ânimos sociais. 
Por fim, podemos concluir que a privação de liberdade de um indivíduo, em que pese o 
garantismo constitucional, não fere seus direitos fundamentais, posto que prevista na 
Magna Carta e pautada na própria legalidade, sendo que, de igual forma, o segregamento 
cautelar visando a manutenção da ordem social, quando aplicado dentro dos requisitos 
previstos em lei e utilizado com parcimônia, também não fere tais direitos, servindo desta 
forma, como ferramentas das políticas criminais para a consecução de seus objetivos. 
Saiba mais 
CARNELÓS, E. P. Garantias constitucionais, direito penal e processo penal: considerações 
sobre uma época sombria. Revista Brasileira da Advocacia, jul. set. 2016. 
Clique aqui para acessar. 
CARVALHO. L. G. G. C. de. Garantias constitucionais processuais penais (a efetividade e 
a ponderação) das garantias no processo penal. 
Aula vídeo tratando da privação de liberdade sob o enfoque constitucional, seja decorrente 
de uma condenação ou como instrumento de segregação cautelar. 
 
EXECUÇÃO PENAL E POLÍTICA PENITENCIÁRIA 
A execução penal, conforme previsão legal, tem por objetivo efetivar as disposições de 
sentença ou decisão criminal e proporcionar condições para a harmônica integração social 
do condenado e do internado, e é regulada pela Lei Federal nº 7.210 de 11 de julho de 
1984. 
Na seara dos direitos fundamentais, a relevância dos estudos relativos à execução penais 
é ampliada, posto que, com a segregação de indivíduo para cumprimento da pena imposta, 
as garantias de seus direitos não devem ser afastadas, mesmo dentro de um 
estabelecimento prisional. 
Com base em tais premissas, o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, no 
exercício de suas atividades é incumbido, por força do art. 64 da Lei de Execuções Penais, 
de propor diretrizes da política criminal quanto à prevenção do delito, administração da 
Justiça Criminal e execução das penas e das medidas de segurança, contribuindo para 
elaboração de planos nacionais de desenvolvimento, sugerindo as metas e prioridades da 
política criminal e penitenciária. 
O Estado, no curso da execução penal, deve garantir ao preso assistência material, jurídica, 
educacional, religiosa, social e de saúde, nos termos do art. 14 a 27 da Lei Federal nº 
7.210/84. 
A respeito da relação entre direitos fundamentais e o instituto da execução penal, Nucci 
(2016, p. 942) é enfático: 
 
O estudo da execução penal deve fazer-se sempre ligado aos princípios constitucionais 
penais e processuais penais, até porque, para realizar o direito punitivo do Estado, 
justificasse, no Estado Democrático de Direito, um forte amparo dos direitos e garantias 
individuais. Não é viável a execução da pena dissociada da individualização, da 
humanidade, da legalidade, da anterioridade, da irretroatividade da lei prejudicial ao réu 
(princípios penais) e do devido processo legal, como todos os seus corolários (ampla 
defesa, contraditório, oficialidade, publicidade, entre outros). 
Com base em tal premissa, temos que o procedimento de execução penal deve respeitar 
os direitos e garantias fundamentais dos indivíduos que se encontram em cumprimento de 
pena, não devendo ocorrer a relativização de seus direitos em decorrência de sua 
segregação. 
Tratando do Plano Nacional de Política Criminal e Penitenciária (BRASIL, 2019) elaborado 
para o triênio 2020/2023, no que tange as execuções criminais, a Comissão propôs a 
completa revisão do sistema de execução de penas no Brasil, levando-se em contaos 
Projetos de Lei nº 10.372, de 2018 (BRASIL, 2018b), e 882, de 2019 (BRASIL, 2019a). 
O Projeto de Lei nº 10.372/18 foi transformado na Lei Ordinária nº 13.964/2019, modificando 
a legislação penal e processual penal, objetivando o desenvolvimento das políticas de 
combate ao crime organizado, tráfico de drogas, dentre outros e ainda agilizando e 
modernizando a investigação criminal e a persecução penal. 
O projeto de Lei nº 882/2019, que acabou sendo arquivado, por sua vez, estabelecia 
medidas contra a corrupção, o crime organizado e os crimes praticados com grave violência 
à pessoa. 
É importante ressaltar que a atual política penitenciária tem por objetivo enrijecer as normas 
penais relativas ao cumprimento de pena, partindo de uma premissa da falência dos 
critérios atuais para progressão de regime e propondo assim, o fim do regime semiaberto 
como etapa do sistema progressivo. 
Assim, do ponto de vista dos direitos fundamentais, é necessário cautela para que, pautado 
em sentimentos da sociedade e a comoção social acerca da impunidade, as políticas 
criminais e penitenciárias não sobrepujem as garantias constitucionais dos cidadãos. 
Aula vídeo tratando do sistema de execução penal sob o enfoque da garantia dos direitos 
fundamentais e como as alterações no Plano Nacional de Política Criminal e Penitenciária, 
pautadas na opinião pública, podem sobrepujar as garantias constitucionais. 
 
RESERVA LEGAL DO CASTIGO 
O princípio da Reserva Legal ou da Estrita Legalidade, é um princípio de ordem 
constitucional com ampla aplicabilidade no âmbito do direito penal. Conforme citado 
anteriormente segundo a Reserva Legal, trazida pelo inciso XXXIX do art. 5° da 
Constituição da República Federativa do Brasil (BRASIL, 1988), “não há crime sem lei 
anterior que o defina, nem pena sem prévia cominação legal”, desta forma, a lei em matéria 
penal deve ser taxativa, descrevendo a tipificação da conduta criminosa com precisão e 
com pouco ou nenhuma margem para interpretação. 
Com relação à lógica trazida pelo princípio da Reserva Legal, é importante lembrar que sua 
aplicabilidade também se estende às contravenções penais, ou seja, não há crime ou 
contravenção sem que haja definição legal com a descrição da pena cominada. 
Em se tratando da Reserva Legal do Castigo no direito penal, é imperioso que seja 
esclarecido que a pena aplicada ao sujeito que comete uma conduta tipificada na lei penal, 
não possui apenas o objetivo de privar-lhe da liberdade, mas sim, de servir como verdadeiro 
castigo no qual o sujeito sinta-se culpado pelo ato cometido, um castigo não apenas no 
sentido físico, mas também psicológico. 
A respeito do poder-dever do Estado, de punir o criminoso, Fernando Capez (2012, p. 45) 
é didático ao definir, in verbis: 
 
O Estado, única entidade dotada de poder soberano, é o titular exclusivo do direito de punir 
(para alguns, poder-dever de punir). Mesmo no caso da ação penal exclusivamente privada, 
o Estado somente delega ao ofendido a legitimidade para dar início ao processo, isto é, 
confere-lhe o jus persequendi in judicio, conservando consigo a exclusividade do jus 
puniendi. 
Assim, a pena aplicada pelo Estado, no exercício do jus puniendi, ao sujeito que comete 
uma conduta criminalizada, enquanto limitador de direitos fundamentais, possui o caráter 
de castigo físico e psicológico, porém, não fere as garantias constitucionalmente previstas, 
na medida em que a estrita legalidade prevê a possibilidade de sua aplicação quando 
decorrente de previsão legal. 
A sociedade hodierna, do ponto de vista garantista e no intuito de redução da 
prisionalização, buscou meios de abrandar o castigo em situações menos gravosas, criando 
meios alternativos de castigo, como, por exemplo, as penas restritivas de direitos previstas 
na Lei nº 9.099/95 e, por outro lado, agravou as penas para crimes mais complexos e que 
envolvam violência. 
Desta forma, temos que a reserva legal do castigo, está atrelada diretamente ao poder 
punitivo do Estado e na forma como as penas são aplicadas, sendo que, 
independentemente da complexidade do delito, as garantias fundamentais não podem ser 
afastadas, devendo ser preservada a dignidade da pessoa humana, constitucionalmente 
prevista, em qualquer hipótese ou seja, o próprio poder do Estado de aplicar castigos, 
possui limitadores constitucionais que visam a proteção individual das pessoas, evitando, 
assim, penas desproporcionais ou mesmo cruéis, buscando a ressocialização do indivíduo 
no lugar de sua segregação por tempo indeterminado. 
 
ASSISTÊNCIAS AO PRESO GARANTIDAS NA LEI Nº 7.210/84 
 
ASSISTÊNCIA MATERIAL 
Art. 12 – Consiste no fornecimento da alimentação, vestuário e instalações higiênicas, além 
da disponibilização além de local destinado à venda de produtos e objetos permitidos. 
 
ASSISTÊNCIA SAÚDE 
Art. 14 – Possui caráter preventivo e curativo, compreendendo atendimento médico, 
farmacêutico e odontológico. 
 
ASSISTÊNCIA JURÍDICA 
Art. 15 – Destinada a presos sem recursos financeiros para constituir advogado, engloba 
assistência jurídica integral pela Defensoria Pública dentro e fora dos estabelecimentos 
penais. 
 
ASSISTÊNCIA EDUCAÇÃO 
Art. 17 – Compreende a instrução escolar e a formação profissional do preso, prevendo o 
oferecimento de cursos supletivos e de aperfeiçoamento técnico aos presos. 
 
ASSISTÊNCIA SOCIAL 
Art. 22 – Tem por finalidade amparar o preso e prepara-lo para o retorno à realidade. 
Engloba ainda orientar e amparar quando necessário, a família do preso e da vítima. 
 
ASSISTÊNCIA RELIGIOSA 
Art. 24 – A assistência religiosa é prestada aos presos, permitindo a participação nos 
serviços organizados no estabelecimento penal, bem como a posse de livros de instrução 
religiosa. Prevê que deve haver local apropriado para os cultos religiosos. 
Fonte: elaborada pela autora. 
Aula vídeo relativa a Reserva Legal do Castigo e sobre o poder-dever do Estado em exercer 
o jus puniendi. 
 
ESTUDO DE CASO 
Tomando por base os elementos constitucionais limitadores da reserva legal do castigo 
citados em aula, o estudante deve dissertar acerca da possibilidade de aplicação da pena 
de morte no Brasil. 
 
RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO 
É esperado que o estudante, pautado no conteúdo estudado, argumente em sua 
dissertação que em regra o Brasil não adotou a pena de morte como sanção, nos termos 
da alínea “a”, inciso XLVII, do art. 5º da Constituição Federal. 
O estudante deve apontar ainda que há previsão de pena de morte no caso de guerra 
declarada, por fuzilamento, consoante nos orientam o art. 55, alínea “a” e o art. 56, ambos 
do Código Penal Militar. 
A fim de complementar o assunto abordado, deve constar que o art. 707 do Código de 
Processo Penal Militar traz o procedimento de execução, tais como a forma, socorro 
espiritual, vestimenta, etc). 
POLÍTICAS CRIMINAIS NÃO REPRESSIVISTAS 
Este estudo abordará ainda outra espécie de política criminal não repressiva, o chamado 
Minimalismo Penal, que visa a menor intervenção do Estado em matéria penal, aliado ou 
não ao pensamento abolicionista. 
 
INTRODUÇÃO 
Olá, estudante! 
É chegada a hora de nos aprofundarmos nas políticas criminais não repressivas em 
espécie. Em que pese o tema ter sido abordado de maneira rasa em aulas anteriores, no 
presente momento vamos investigar a fundo o abolicionismo penal com as influências do 
pensamento de Michel Foucault e as medidas propostas pelo movimento como meio 
alternativo de resolução de conflitos. 
Este estudo abordará ainda outra espécie de política criminal não repressiva, o chamado 
Minimalismo Penal, que visa a menor intervenção do Estado em matéria penal, aliado ou 
não ao pensamento abolicionista. 
Relevante tema a ser tratado, pois diz respeito à Justiça Restaurativa e sua aplicabilidade 
e realização, com explanações acerca da figura do mediador e a diferenciação prática dos 
conceitos e objetivos

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