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DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO DA POLÍTICA CRIMINAL Vamos nos aprofundar nos conceitos e no desenvolvimento histórico da política criminal, compreendendo, desta forma, sua evolução ao longo da chamada “era clássica” e “era contemporânea”, traçando ainda sua estrita relação com a escola positiva e o surgimento da fase científica da criminologia. INTRODUÇÃO Olá, estudante! Durante os estudos, vamos conhecer um pouco acerca do tema Política Criminal. Tal assunto é de suma importância, posto que permitirá uma análise aprofundada da efetiva evolução do direito penal ao longo do tempo. Em um primeiro momento, vamos nos aprofundar nos conceitos e no desenvolvimento histórico da política criminal, compreendendo, desta forma, sua evolução ao longo da chamada “era clássica” e “era contemporânea”, traçando ainda sua estrita relação com a escola positiva e o surgimento da fase científica da criminologia. Por meio do presente estudo será possível o entendimento e a aplicação dos principais conceitos relativos à política criminal e à criminologia em si. CONCEITO E OBJETO DA POLÍTICA CRIMINAL Conceito e objeto da política criminal Antes de nos aprofundarmos no tema proposto, por primeiro, é de relevante importância o estudo dos conceitos e objetos da política criminal, posto que, somente por meio destes será possível a compreensão fundamental do fenômeno jurídico. A fim de possibilitar o entendimento do tema, vamos conceituar a política criminal de duas formas: em sentido estrito e em sentido amplo. Em sentido estrito a política criminal pode ser definida como um determinado conjunto de princípios e normas, por meio do qual o Estado providência a prevenção e repressão da criminalidade e das infrações penais. Em sentido amplo, ou seja, em um panorama geral, a política criminal deve ser considerada como os mecanismos utilizados para a efetiva execução das penas (política de execução penal) e aplicação das medidas de segurança com vistas ao atendimento do interesse social e ressocialização do criminoso (política penitenciária). A respeito do tema, Fernanda Lara de Carvalho (2016) aponta que a política criminal, embora não tenha status de ciência, é responsável pela efetivação das descobertas realizadas pela criminologia, ou seja, cabe à política criminal colocar em prática, por meio de políticas públicas, os mecanismos para controle da criminalidade de acordo com o perfil da cidade ou de regiões da cidade, por exemplo. Atenção! É importante ressaltar que o objeto da política criminal não se limita a uma simples análise da problemática relativa à repressão de crimes, mas sim, de todo um conjunto de técnicas por meio das quais a própria sociedade e seus governantes estruturam as reações à criminalidade urbana, assim, se pode concluir que a repressão, enquanto ramo do direito, não é em hipótese alguma o único instrumento da política criminal e sequer o mais recomendado. Existem diversas medidas de caráter estritamente político que podem ser empregadas visando a atenuação da criminalidade, incluindo investimentos em programas educacionais de sociais focados na diminuição da desigualdade social. O autor Paulo Henrique de Godoy Sumariva (2019) ao tratar de política criminal sob o enfoque da criminologia, é enfático ao definir que esta se orienta em: Prevenção especial e direta dos crimes socialmente relevantes. Intervenção relativa às suas manifestações e aos seus efeitos graves para determinados indivíduos e famílias. A prevenção e a intervenção dirigidas implicam objeto individualizado e comprovado. Por fim, podemos concluir que o estudo da política criminal é de suma importância para o desenvolvimento das estratégias de combate à criminalidade, quando do ponto de vista da repressão e, principalmente para o avanço de políticas relacionadas à ressocialização do preso e ao avanço de políticas públicas de controle e redução da criminalidade decorrente da implantação de programas sociais que visem a diminuição da desigualdade social em âmbito nacional. Aula vídeo explicando o conceito e objeto da política criminal, demonstrando a importância de seu estudo frente a outros conteúdos próximos. Videoaula: Conceito e objeto da Política Criminal A POLÍTICA CRIMINAL DA ERA CLÁSSICA A política criminal da era clássica Ao tratarmos do estudo da política criminal no âmbito de direito, impossível não iniciarmos por uma análise dos aspectos relevantes ao tema na era clássica. A denominada “Escola Clássica” surgiu no século XVIII como uma espécie de resposta ao totalitarismo do Estado Absolutista. A Escola Clássica possuiu clara inspiração no antropocentrismo, impondo que o Direito seria imperativo da razão. Os principais pensamentos e fundamentos desta escola foram concebidos por Cesare Beccaria, por meio de sua obra denominada Dei delitti e delle pene (dos Delitos e das Penas), sendo posteriormente aprimorados por outros autores como Anselm von Feuerbach, Immanuel Kant e Francesco Carrara. Os membros da Escola Clássica pregavam o livre arbítrio, fundamentando que os homens podem escolher livremente o caminho que querem seguir, seja ele bom ou ruim, porém, caso a escolha realizada recaia sobre o caminho ruim e seus atos sejam reprováveis, este homem, detentor do livre arbítrio cuja escolha recaiu sobre o caminho do mal deve ser submetido a uma pena como forma de castigo. A revolução francesa em 1789 culminou com a queda do sistema político e social da França denominado Antigo Regime e com as ideologias que lhe serviam de fundamento, ou seja, a estrutura de poder anteriormente utilizada, baseada no exercício de um poder absoluto e de caráter religioso por parte do soberano, teve fim. Até por isso, a política criminal no final do século XII e início do século XIII foi objeto de relevantes mudanças, principalmente ante ao surgimento da prisão como forma de pena. Reflita É importante ressaltar que a prisão já existia, porém, anteriormente a este marco era utilizada provisoriamente, apenas com a finalidade de promover a segregação cautelar de um suspeito ou réu até seu efetivo julgamento e aplicação da pena devida. De ponto de vista cultural este período também passou por fortes e relevantes mudanças, principalmente no que concerne a aceitação dos fenômenos científicos e o fim dos fundamentos de caráter estritamente religiosos ou divinos. Promovendo uma análise antropológica a política criminal e da aplicação das penas no período clássico, resta claro que a intenção do sistema prisional à época era de tornar absolutamente controláveis ou até mesmo dóceis, aqueles que representavam ameaça ao poder. As políticas criminais na era clássica possuíam como objetivo primordial a efetiva prevenção a criminalidade, porém, o sistema criado utilizava principalmente o temor das pessoas pela ameaça da aplicação de determinada pena, o que foi denominada de “prevenção geral” ou ainda, a ameaça de isolamento ou trabalho forçado, denominado de “prevenção especial”. Em que pesem os avanços no campo da política criminal trazidos pela Escola Clássica, no período estudado, principalmente no que concerne ao fim do exercício do poder absoluto embasado na religião, é de se ressaltar que não houve a abolição, por parte deste movimento, da pena de morte, sendo que esta continuou a ser aplicada, porém apenas em algumas hipóteses específicas. Aula vídeo tratando da evolução histórica da política criminal e seus aspectos relevantes na era clássica pós-revolução francesa. POLÍTICA CRIMINAL E A ESCOLA POSITIVA Política criminal e a escola positiva Após o desenvolvimento histórico da política criminal ocorrido na era clássica pós-revolução francesa e seus avanços, principalmente no campo das penas, passamos a tratar da política criminal na era científica com enfoque na escola positiva de direito. A Escola Positiva de direito surgiu no final do séculoda Justiça Restaurativa face a Justiça Retributiva. ABOLICIONISMO PENAL Ao tratarmos de políticas criminais não repressivas em espécies, indispensável abordar o tema sob a ótica do abolicionismo penal. O abolicionismo penal, no que tange a sua inserção no ramo das políticas não repressivas, defende um discurso pautado na premissa de que o modelo penal tradicional cria mais problemas do que soluções efetivas, frisando que a função intimidatória da pena não cumpre seu objetivo, servindo apenas como espécie de desculpa para a intervenção estatal na liberdade individual. Michel Foucault, em sua obra Vigiar e Punir: Nascimento da Prisão (1975), ao tratar da segregação dos indivíduos na prisão como forma de cumprimento de pena, adota um pensamento parcialmente abolicionista, defendendo que a humanidade deveria adotar formas diversas de lidar com as dificuldades advindas da vida em sociedade, concluindo que uma instância superior, no caso o próprio judiciário, é incapaz de, por si só, dirimir os conflitos da convivência social. Acerca do fracasso da prisão enquanto instituição, Alessandro Barata (2014, p. 203) é didático ao apontar a insuficiência desta no efetivo controle da criminalidade: Uma análise realista e radical das funções efetivamente exercidas pelo cárcere, isto é, uma análise do gênero daquela aqui sumariamente traçada, a consciência do fracasso histórico desta instituição para os fins de controle da criminalidade e da reinserção do desviante na sociedade, do influxo não só no processo de marginalização de indivíduos isolados, mas também no esmagamento de setores marginais da classe operária, não pode deixar de levar a uma consequência radical na individualização do objetivo final da estratégia alternativa: este objetivo é a abolição da instituição carcerária. É impossível tratar do abolicionismo penal sem abordar os estudos do sociólogo norueguês Thomas Mathiesen. O autor defende a vertente abolicionista penal do ponto de vista marxista e foi presidente da Associação Norueguesa para a Reforma Penal, cujo objetivo, segundo Mathiesen (2015, p. 46) é: A longo prazo, mudar o pensamento geral a respeito do castigo e substituir o sistema penitenciário por medidas mais modernas e adequadas. A curto prazo, derrubar todos os muros que não sejam necessários: humanizar as diferentes formas de detenção e aliviar o sofrimento que a sociedade infringe aos detentos. Thomas Mathiesen, enquanto percursor da vertente marxista do abolicionismo, listou oito argumentos para a extinção das prisões, que resumidamente, dizem respeito a ineficácia destas na prevenção criminal, a superpopulação carcerária e o tratamento desumano que reflete uma crença social de violência. O abolicionismo, enquanto política criminal voltada à atuação não repressiva do Estado, tem por premissa que o Sistema Penal é defeituoso e responsável por uma ampla gama de efeitos negativos sob os sujeitos a ele submetidos, razão pela qual sua abolição é medida indispensável à garantia da dignidade da pessoa humana, propondo, desta forma, a adoção de meios alternativos para a resolução de litígios. O abolicionismo não tem por objeto primordial acabar com as prisões, mas sim, com o sistema penal como um todo, visando pôr um fim às relações de poder pautadas no castigo, principalmente diante do caráter seletivo e estigmatizante deste sistema. Aula vídeo com explanações aprofundadas sobre a Teoria do Abolicionismo Penal, pautado nas críticas de Focault e nos argumentos de Thomas Mathiesen. MINIMALISMO Das políticas criminais não repressivas, talvez a que possua mais destaque, sem sombra de dúvidas, é o minimalismo penal. Ao contrário das bases que alicerçam o abolicionismo com sua defesa do fim efetivo do sistema penal, as bases do minimalismo mantêm a existência deste sistema institucionalizado, porém, defendem a intervenção mínima do Estado enquanto detentor do poder punitivo. Os defensores da política minimalista entendem que intervenção do Estado na liberdade individual do sujeito é gravíssima, sendo preferível a adoção de medidas punitivas alternativas em casos menos graves, como forma de proteção aos direitos e às garantias fundamentais, sendo que a privação de liberdade, se preservada, deve ser reservada apenas para casos cuja sua aplicação seja indispensável como nos crimes contra a vida. A respeito do assunto, o jurista italiano Luigi Ferrajoli (2006, p. 383-384) é enfático: A justiça penal, com o caráter inevitavelmente desonroso de suas intervenções, não pode ser incomodada e, sobretudo, não pode incomodar os cidadãos por fatos de escasso relevo, como o são a maior parte dos atualmente castigados com simples multas. Ferrajoli, em sua concepção minimalista aponta que as intervenções penais deveriam ser reservadas apenas para as hipóteses em que o Estado não possa dispor de meios diversos para a solução do conflito, expondo que o Direito Penal, ao invés de repressivo e intervencionista, deveria ter caráter subsidiário, focando-se assim, no instituto da despenalização. Cabe lembrar que a despenalização objetiva a adoção de penas alternativas como forma de sanção decorrente de um ato ilícito cometido. Nesta seara, a Lei Federal nº 9.099/95 (que dispõe sobre os Juizados Especiais Cíveis e Criminais e dá outras providências) consagrou-se como eficaz instrumento da despenalização, ao ponto que definiu, em seu art. 61, como infrações penais de menor potencial ofensivo, as contravenções penais e os crimes a qual a lei comine pena máxima não superior a 2 (dois) anos. A Lei dos Juizados Especiais trouxe importantes medidas voltadas à despenalização, como a composição de danos civis e a transação penal, previstas respectivamente no art. 74 e 76 daquela lei. O minimalismo ao defender a intervenção mínima do Estado, tem por base a maximização das liberdades individuais com a redução da violação aos diretos fundamentais e a própria violência Estatal praticada contra a população. Desta feita, sob a ótica do minimalismo, Heleno Cláudio Fragoso (2006, p. 17) explana que a política criminal moderna é voltada a descriminalização e desjudicialização, tendo por objetivo a minimização da atuação punitiva estatal, posto que as condutas ilícitas menos gravosas podem ser reprimidas sem a adoção da prisionalização como meio punitivo, interferindo, desta forma, o mínimo possível nas liberdades individuais dos cidadãos. Por fim, é possível concluir que o minimalismo penal, diferente do abolicionismo, não busca o fim do Direito Penal, o que de fato nos parece utópico, mas sim, a redução da intervenção Estatal com a consequente desburocratização do sistema por meio de medidas alternativas, visando, desta forma, a preservação da dignidade humana e das garantias constitucionais de cada cidadão. Saiba mais OLIVEIRA, S. R. M.; SANTANA, S. P. de; CARDOSO NETO, V. Da justiça retributiva à justiça restaurativa: caminhos e descaminhos. Clique aqui para acessar. KULLOK, A. L. B. O abolicionismo penal segundo Louk Hulsman. Clique aqui para acessar. Aula vídeo relativa à política criminal minimalista, com explanações acerca de sua aplicabilidade no direito penal moderno. JUSTIÇA RESTAURATIVA A fim de tratar do tema “Justiça Restaurativa” é necessário, por primeiro, abordar as formas de resposta à situação criminal: a retributiva e a restaurativa. A justiça retributiva age sob o enfoque de que a resposta para a violação da lei penal é a punição, desta forma, as medidas adotadas no âmbito da justiça retributiva são voltadas à repressão e aplicação de sanção, incutindo assim, o temor da pena como forma de prevenção à criminalidade. A justiça restaurativa, por sua vez, não é focada na efetiva punição do acusado ou na premissa do medo, mas sim, na forma como o bem jurídico afetado pode ser restaurado. Assim, a justiça restaurativa se volta às necessidadesdos envolvidos na lide, sob o enfoque de promover a chamada “paz social”, preservando, deste modo, a dignidade das partes. O Promotor de Justiça Marcelo Gonçalves Saliba, em seu livro Justiça Restaurativa e Paradigma Punitivo (2009, p. 146), ao tratar da origem da Justiça Restaurativa, remonta suas raízes ao início da própria sociedade: A Justiça Restaurativa não é criação da modernidade ou pós-modernidade, já que a restauração é um processo existente nas mais antigas sociedades e ainda vigente em diversos sistemas sociais e comunitários. Na modernidade, o Estado, dentro da estrutura atual, foi concebido deitando suas raízes em Hobbes, Rousseau e Locke e a concentração da resolução dos conflitos com a razão iluminista, sepultou qualquer forma de resolução de litígio por método não científico. A Organização das Nações Unidas, por meio de seu Conselho Econômico e Social, desde 1999 recomenda aos Estados membros a efetiva implementação da Justiça Restaurativa, tendo publicado, inclusive, a Resolução 2002/12 (ONU, 2002), dispondo sobre os Princípios Básicos para Utilização de Programas de Justiça Restaurativa em Matéria Criminal e enfatizando que a “justiça restaurativa evolui como uma resposta ao crime que respeita a dignidade e a igualdade das pessoas, constrói o entendimento e promove harmonia social mediante a restauração das vítimas, ofensores e comunidades”. No âmbito nacional, o Conselho Nacional de Justiça, visando dar atendimento a recomendação da Organização das Nações Unidas, expediu a Resolução nº 225 de 31/05/2016 (CNJ, 2016), dispondo sobre a Política Nacional de Justiça Restaurativa no âmbito do Poder Judiciário, definindo a Justiça Restaurativa como “um conjunto ordenado e sistêmico de princípios, métodos, técnicas e atividades próprias, que visa à conscientização sobre os fatores relacionais, institucionais e sociais motivadores de conflitos e violência”. A mencionada resolução é didática ao apontar que, visando a efetiva implantação da justiça restaurativa, os conflitos devem ser solucionados com a participação do ofensor, da vítima, de seus familiares e de quem mais estiver envolvido no fato danoso, bem como de um ou mais facilitadores restaurativos. Assim, a justiça restaurativa, enquanto política criminal não repressiva, é voltada a solução alternativa de conflitos podendo, inclusive, englobar o minimalismo e até mesmo o abolicionismo penal, posto que visa a desburocratização e a desprisionalização, aumentando o enfoque nas causas sociais e restituição do bem jurídico afetado. Aula vídeo versando sobre as nuances da Justiça restaurativa e sua aplicabilidade em âmbito nacional. A JUSTIÇA RESTAURATIVA FACE A JUSTIÇA RETRIBUTIVA Como já sabemos, a justiça retributiva age sob o enfoque de que a resposta para a violação da lei penal é a punição, assim, as medidas adotadas no âmbito da justiça retributiva possuem caráter repressivo. De modo diverso, a justiça restaurativa não possui por objetivo a aplicação de sanção, mas sim, de restauração do bem jurídico afetado. Traçando um comparativo entre as duas espécies de resposta ao fenômeno criminal, é de fácil percepção que a justiça retributiva, ante ao seu caráter repressivo, vê o delito como a pura e simples violação da lei, excluindo da equação as partes relevantes para a justiça restaurativa, quais seja, a vítima e sociedade. Sob a ótica retributiva, o Estado, por meio do efetivo exercício de seu poder punitivo, busca demonstrar sua força, retribuindo uma punição com o objetivo de causar medo e, desta forma, prevenir e reprimir a ocorrência de outras condutas delituosas. A justiça restaurativa, por sua vez, pode ser traduzida como clara evolução da justiça retributiva, ao passo que passa a se importar não com demonstrações de poder, mas sim, com o diálogo entre os agentes envolvidos no evento danoso e a efetiva restauração do bem jurídico afetado. O autor Sérgio Salomão Shecaira (1995, p. 108) ao analisar a justiça retributiva sob a ótica da efetividade da aplicação das penas de prisão, é didático ao concluir pela sua ineficiência, apontando que os instrumentos de ressocialização são muito mais eficazes do que a aplicação de penas mais severas: Com o respeito à dignidade do cidadão ao se imporem, as penas podem-se chegar a metas muito mais efetivas na educação dos membros da sociedade do que se impondo penas mais e mais exacerbadas. A prevenção geral positiva, permeada por critérios de proporcionalidade e secundada pela perspectiva de reinserção social, com respeito ao direito de pensamento crítico de cidadão, nos parece à ideia mais atual de um sistema criminal moderno. No atual contexto político criminal, a justiça restaurativa surge como forma de contraposição lógica da justiça retributiva, até porque, a ressocialização pretendida por meio da pena aplicada no modelo retributivo não vem sendo alcançada, o que poderia levar ao entendimento de falência do próprio sistema penal propriamente dito. Neste sentido, Raquel Tiverton (2014, p. 125), ao discorrer acerca da cidadania na dicção do direito e a construção de um novo paradigma da justiça criminal é enfática ao apontar que o atual sistema é ineficaz, “seja porque a reação ao crime não tem sido rápida, eficaz e capaz de prevenir novos delitos, seja porque a alegada finalidade de “ressocialização” do ofensor, se considerada como forma de intervenção benéfica e positiva nele, também não tem sido alcançada. Ante ao exposto, é possível concluir que a aplicação da justiça restaurativa em oposição ao atual modelo retributivo, é medida que visa resguardar os interesses das partes efetivamente envolvidas na situação danosa e objetiva, acima de tudo, resguardar a dignidade da pessoa humana e os preceitos e garantias fundamentais protegidos por nossa Constituição Federal. Aula vídeo com análise acerca do modelo retributivo de justiça em comparação com o modelo restaurativo, apontando as nuances e vantagens de cada um destes. ESTUDO DE CASO Imagine o estudante estando na figura de um defensor nos autos de um processo de crime de dano consumado, tendo que apresentar uma proposta em que haja menor invasão do Estado na liberdade do autor do delito. Tendo em vista as premissas estudadas, o estudante deve sugerir o melhor posicionamento do Estado, sob a ótica das justiças retributiva e restaurativa, frente a um crime que afeta o bem jurídico patrimonial. RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO É esperado que o estudante, tomando por base o conteúdo teórico estudado, inicie sua dissertação apontando que o Estado, do ponto de vista da justiça retributiva, age sob o enfoque de que a resposta para a violação da lei penal é a punição, assim, as medidas adotadas no âmbito da justiça retributiva possuem caráter repressivo, razão pela qual, face a ocorrência de um crime patrimonial, a resposta esperado do estado é a investigação, identificação do responsável e sua efetiva punição, visando assim coibir a reiteração da conduta criminosa, fazendo com que o sujeito punido sirva de exemplo. O estudante deve apontar ainda que o Estado, do ponto de vista da justiça restaurativa não possui por objetivo a aplicação de sanção, mas sim, de restauração do bem jurídico afetado, dando maior atenção, desta forma, ao diálogo entre os agentes envolvidos no evento danoso e a efetiva restauração do bem jurídico afetado. Com isso, a resposta esperada por parte do Estado em cumprimento ao modelo restaurativo, é organizar e mediar a comunicação entre os envolvidos visando a restituição do bem e a repressividade mínima. Visando apresentar uma proposta em que haja menor invasão do Estado na liberdade do sujeito, o estudante deve apontar a possibilidade de aplicação da Lei nº 9.099/95 em crimes de menor potencial ofensivo, enfatizando, inclusive, a possibilidade de composição civil do dano, prevista no art. 74 da mencionada leie seu caráter restaurativo como instrumento desmotivador de privação de liberdade. POLÍTICAS CRIMINAIS REPRESSIVISTAS Vamos nos aprofundar em um tema bastante relevante, cujo estudos são indispensáveis para entendermos o desenvolvimento das políticas criminais não apenas em âmbito nacional como internacional. INTRODUÇÃO Olá, estudante! Vamos nos aprofundar em um tema bastante relevante, cujo estudos são indispensáveis para entendermos o desenvolvimento das políticas criminais não apenas em âmbito nacional como internacional. Abordaremos de modo aprofundado as políticas criminais repressivistas, como o movimento de lei e ordem e a política de tolerância zero, bem como faremos uma análise pormenorizada do chamado “Direito Penal do Inimigo”, e suas influências para a criação de políticas com maior tom intervencionista. Não menos importante, no presente estudo, discutiremos acerca da “Teoria das Janelas Quebradas” e suas influências no Direito Penal sob a ótica da repressividade estatal, ampliando nossos conhecimentos a respeito do tema. MOVIMENTOS DE LEI E ORDEM E A POLÍTICA CRIMINAL DE TOLERÂNCIA ZERO O movimento de lei e ordem se iniciou no decorrer dos anos de 1970 nos Estados Unidos da América, sob a justificativa de que, diante do exponencial aumento da criminalidade, seria necessária uma política de criação de novos tipos penais e aplicação severa e rigorosa daqueles já existentes. O Law and Order parte do pressuposto de que as penas possuem caráter retributivo e que a segregação cautelar de um indivíduo serve de reação imediata à prática de uma conduta criminosa. Esse movimento tinha por objetivo aprimorar a eficácia da segunda fase do processo de criminalização, tornando mais severa a atuação das forças policiais na busca pela paz social e redução da criminalidade. O movimento de Lei e Ordem, enquanto política penal repressiva, defende o que chamamos de “direito penal máximo”, ou seja, a máxima efetivação da lei penal, com a criminalização de mais condutas e rigidez na aplicação da lei, afastando-se a discricionariedade das autoridades policiais, a qual deve dar lugar a maior severidade em sua atuação. A “Teoria das Janelas Quebradas” e o Movimento de Lei e Ordem, em meados dos anos de 1990, deram origem à chamada “Política Criminal de Tolerância Zero”, em Nova York, nos Estados Unidos da América, por meio da adoção da tese pelo então prefeito Rudolph Giuliani que denominou a medida como “Programa Qualidade de Vida”. A zero-tolerance policy foi uma política conservadora que visava punir desde os delitos mais insignificantes até os mais complexos, sob a premissa de que, com a punição dos pequenos delitos, os infratores deixariam de cometer crimes mais graves o que, de fato, trouxe uma exponencial redução da criminalidade em solo americano. Sergio Salomão Shecaira, atribui a origem da política de tolerância zero a um artigo publicado por James Q. Wilson e George Kelling, na década de 1980, intitulado Broken Windows: the police and neighborhood safety, Shecaira (2009, p. 166) é didático ao resumir o cerne da ideia criminológica por trás da relação feita entre a Teoria das Janelas Quebradas e a zero-tolerance policy: A ideia central do pensamento ali desenvolvido é o de que uma pequena infração, quando tolerada, pode levar ao cometimento de crimes mais graves, em função de uma sensação de anomia que viceja em certas áreas da cidade. A leniência e condescendência com pequenas desordens do cotidiano não devem ter sua importância minimizada. Ao contrário. Não se deve negligenciar essa importante fonte de irradiação da criminalidade violenta. A problemática relativa ao programa de Tolerância Zero surge justamente devido à seletividade do sistema penal, nesse contexto, o diplomata Benoni Belli (2004, p. 76), ao tratar do assunto expõe que o programa fortaleceu a “descrença na reabilitação, na busca das causas sociais do crime, na transformação de estruturas sociais, na superlotação da exclusão produzida e reproduzida diariamente nas relações sociais”. É possível concluir, desta forma, que o Movimento de Lei e Ordem e a Política de Tolerância Zero, ante ao seu caráter repressivo, tiveram importante papel na redução da criminalidade, porém, sua aplicação pode servir de ferramenta para o aumento da desigualdade e dá ensejo ao exponencial aumento da seletividade penal, posto que deixa de lado os aspectos sociais que envolvem o fato criminoso, focando-se quase que exclusivamente na retribuição penal e no medo como formas de prevenir a criminalidade. Aula vídeo com explanações aprofundadas relativas aos Movimentos de Lei e Ordem e a Política Criminal de Tolerância Zero com enfoque em seu desenvolvimento e em sua aplicabilidade. TEORIA DAS JANELAS QUEBRADAS Criada por James Q. Wilson e George Kelling em 1984 e tomando por base a Escola de Chicago, a The Broken Wndows Theory é uma teoria criminológica que defende, em suma, que a existência de sinais visíveis de desordem ou crime, encorajam o cometimento de outros delitos ou a expansão da desordem. As premissas trazidas pela Teoria da Janela Quebrada foram criadas com base no experimento social realizado pelo psicólogo e professor Philip Zimbardo em 1969. Tiago Ivo Odon (2016, p. 2) descreve o experimento: Foram deixados dois automóveis idênticos (mesma marca, modelo e cor) em uma via pública – um no Bronx, então uma zona pobre e conflituosa de Nova Iorque, e o outro em Palo Alto, zona rica e tranquila da Califórnia. O carro abandonado no Bronx começou a ser vandalizado em poucas horas. Levaram tudo que pudesse ser aproveitado, e o que não foi possível levar foi destruído. O automóvel em Palo Alto, por sua vez, manteve-se intacto, até que os investigadores, após uma semana, quebraram uma das janelas do carro. Então desencadeou-se o mesmo processo observado no Bronx. O carro foi destroçado por grupos vândalos em poucas horas. Por meio do experimento desenvolvido, foi possível concluir que a aparência de abandono do veículo influenciou a comunidade local ou transeuntes a vandalizarem o automóvel, criando uma espécie de reação em cadeia, demonstrando que, caso a janela do veículo tivesse sido reparada, tal situação não seria desencadeada. Trazendo a Teoria das Janelas Quebradas para o campo da criminologia, constatou-se que, ao reprimir delitos menos graves poderíamos evitar a prática de delitos complexos e até mesmo violentos. Neste aspecto, temos que o sentimento de que não há autoridades que zelem pelo bem- estar social ou mesmo que se importem em coibir práticas criminosas, cria o sentimento de decadência social, capaz de desencadear a prática de atitudes reprováveis até mesmo por pessoas cumpridoras da Lei. O estudo da Teoria das Janelas Quebradas nos permite concluir que a criminalidade não está atrelada diretamente às condições sociais de determinado grupo, mas sim, às efetivas condições de abandono de um determinado local, ou seja, caso o Poder Público deixe de prestar serviços públicos em uma região ou abandone a manutenção de um equipamento público, gradativamente este local será abandonado pela própria população e, consequentemente, tomado por criminosos. De igual forma, sob a ótica da Teoria das Janelas Quebradas, caso um delito de menor complexidade não seja punido com os rigores da lei, a sensação de descaso do poder público face a população, fatalmente, ensejaria a prática de condutas delituosas mais complexas e gravosas. Com base na Teoria sob análise, foram criadas políticas criminais repressivas e que, por muitas vezes, acabaram violando direitos e garantias fundamentais, como o Movimento de Lei e Ordem e a Política de Tolerância Zero, que, ante ao caráter seletivista do sistema penal, acabaram por estigmatizar a população pertencente a classes sociais menos favorecidas. Aula vídeo versando sobre a Teoria das JanelasQuebradas com exemplos de sua aplicabilidade e as consequências dela decorrente. O DIREITO PENAL DO INIMIGO - PARTE I O jurista alemão Günther Jakobs, na década de 1980, criou o conceito chamado de “Feindstrafrecht”, o Direito Penal do Inimigo, tomando por base ensinamentos trazidos desde o Direito Romano e as metodologias criadas pelo sociólogo Niklas Luhmann. A Teoria do Direito Penal do Inimigo defende que os criminosos são divididos em duas classes, sendo os “criminosos tradicionais” aos quais é imperiosa a aplicação do Direito Penal Tradicional e os “autores de crimes graves”, cujos atos são atentatórios à própria estrutura social, como os terroristas, criminosos sexuais, membros do crime organizado e autores de outros crimes graves. Para a Teoria do Direito Penal do Inimigo, esse segundo grupo deve ser rotulado como “inimigo da sociedade”, razão pela qual, sequer devem ser tratados com as benesses do Direito tradicional, ante a insuficiência deste em reprimir suas condutas criminosas. Günther Jakobs elabora a Teoria do Direito Penal do Inimigo com a premissa de que o sujeito delinquente, ante ao caráter de suas ações, é inimigo do Estado, não podendo ser considerado um cidadão, título este, que deveria ser reservado apenas aos que não se desviam da vida em sociedade. Neste sentido, Jakobs (2007, p. 26) aponta que Johann Gottlieb Fichte possui entendimento similar: Quem abandona o contrato cidadão em um ponto em que no contrato se contava com sua prudência, seja de modo voluntario ou por imprevisão, em sentido estrito perde todos os seus direitos como cidadão e ser humano, e passa a um estado de ausência completa de direitos. A doutrina dominante aponta a existência de três pilares que definem a teoria do direito penal do inimigo, sendo eles a antecipação da punibilidade, a desproporcionalidade das penas e a relativização das garantias penais. É importante frisar que na prática, a aplicabilidade da Teoria do Direito Penal do Inimigo enfrenta forte resistência constitucional, posto que algumas medidas adotadas sob o pretexto de proteger a ordem e a soberania, por vezes, possuem caráter totalitário e gravemente interventivo, como no caso da antecipação da punibilidade do sujeito, no qual aquele considerado como inimigo da ordem pública enfrenta a punição não apenas pelo ato por ele perpetrado, mas também pelo risco que oferece à sociedade. No que tange a desproporcionalidade da pena, a aplicação do Direito Penal do Inimigo, sob o manto de proteção da ordem pública, aplica penas severas àqueles tidos como inimigos, buscando a punição, inclusive, de atos preparatórios. Exemplo prático de aplicação do Direito Penal do Inimigo é o “USA PATRIOT Act”, criado pelo ex-presidente George W. Bush após o onze de setembro. Este Decreto permitiu a violação de sigilo e realização de interceptação de qualquer pessoa supostamente envolvida com terrorismo. Essas disposições vigoraram até meados de 2015, quando houve a edição do USA Freedom Act. Sob este aspecto, é necessária cautela na aplicação da teoria estudada, posto que a relativização das garantias penais e processuais, sob a ótica do direito garantista, descumpre o preceito fundamental de guarda da constituição e, objetivando a proteção do bem-estar social, acaba por macular os jurídicos tutelados pela Magna Carta. Aula vídeo versando sobre as nuances do Direito Penal do Inimigo e seu confronto com as garantias fundamentais. O DIREITO PENAL DO INIMIGO - PARTE II É importante ressaltar que a doutrina não é uníssona com relação à aplicabilidade da Teoria do Direito Penal do Inimigo. Uma parcela da doutrina defende que a teoria de Jakobs se trata da evolução lógica do direito penal e serve de resposta ao fenômeno de crescimento exponencial da criminalidade em âmbito mundial. Por outro lado, uma parcela relevante da doutrina aponta que os preceitos defendidos por Jakobs no âmbito da Teoria do Direito Penal do Inimigo são incompatíveis em absoluto com os pilares basilares do Estado Democrático de Direito e no próprio desenvolvimento da sociedade em si. As bases indissolúveis que formam o convívio em sociedade se pautam, inicialmente, na premissa da dignidade da pessoa humana, aspecto este que não abre margem para relativização. Celso Antônio Bandeira de Melo (2014, p. 21-22), ao analisar as nuances da Teoria do Direito Penal do Inimigo de Jakobs, enfatiza a clara violação a isonomia, principalmente no que tange ao tratamento diferenciado concedido para aqueles que seriam considerados “inimigos”, complementando que tal tratamento apenas seria possível se respeitadas as garantias e os direitos fundamentais: Esclarecendo melhor: tem-se que investigar, de um lado, aquilo que é adotado como critério discriminatório; de outro, cumpre verificar se há justificativa racional, isto é, fundamento lógico, para, à vista do traço desigualador acolhido, atribuir o específico tratamento jurídico construído em função da desigualdade proclamada. Finalmente, impende analisar se a correlação ou fundamento racional abstratamente é, ‘in concreto’, afinado com os valores prestigiados no sistema normativo constitucional. A dizer: se guarda ou não harmonia com ele. É importante lembrar que o princípio da isonomia permite o tratamento desigual para aqueles que se encontram em posições desiguais, porém, essa medida visa igualar aqueles que não possuem as mesmas condições e não como no caso do tratamento conferido pelo Direito Penal do Inimigo, que visa dar tratamento diverso ao criminoso em razão de sua periculosidade. O autor Aury Lopes Junior (2002, p. 64), ao analisar o direito penal sob a ótica do garantismo, é didático: Uma Constituição democrática deve orientar a democratização substancial do processo penal, e isso demonstra a transição do Direito passado ao Direito futuro. Num Estado Democrático de Direito, não podemos tolerar um processo penal autoritário e típico de Estado-policial, pois o processo deve adequar-se à Constituição e não vice-versa Ante aos aspectos apresentados, em que pese a aparente vantagem para a preservação da paz social, a aplicabilidade do Direito Penal do Inimigo relativiza direitos fundamentais e segrega ainda mais a população, afetando a própria base do Estado Democrático de Direito, deixando de lado a almejada justiça restaurativa e endurecendo ainda mais a repressividade e intervencionismo Estatal. Assim, sob a ótica constitucional, o legislador penal deve buscar sempre o equilíbrio entre a retribuição pelo fato delituoso e a garantia dos direitos fundamentais, respeitando a dignidade humana e o direito ao tratamento isonômico. Saiba mais SANTOS, M. H. dos. Uma visão garantista acerca do direito penal do inimigo. Clique aqui para acessar. VALLE, N. do.; MISAKA, M. Y.; FREITAS, R. A. da S. Uma reflexão crítica aos movimentos de lei e ordem – teoria das janelas quebradas. Clique aqui para acessar. Aula vídeo complementar relativa ao Direito Penal do Inimigo, com análise de seus aspectos do ponto de vista constitucional. ESTUDO DE CASO Tomando por base a análise realizada quanto às políticas criminais de caráter repressivo, o estudante deve dissertar acerca da possibilidade de aplicação do Direito Penal do Inimigo na hipótese de um atentado terrorista no Brasil. RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO Ante as premissas estudadas, é esperado que o estudante conceitue o Direito Penal do Inimigo com base nos entendimentos de Jakobs, pontuando que os criminosos são divididos em duas classes, sendo os “criminosos tradicionais” aos quais é imperiosa a aplicação do Direito Penal Tradicional e os “autores de crimes graves”, cujos atos são atentatórios à própria estrutura social, como os terroristas, frisando que, para o Direito Penal do Inimigo, o segundo grupo deve ser rotulado como “inimigo da sociedade”, razão pela qual, sequer devemser tratados com as benesses do Direito tradicional, ante a insuficiência deste em reprimir suas condutas criminosas. O estudante deve frisar que na prática, a aplicabilidade da Teoria do Direito Penal do Inimigo enfrenta forte resistência constitucional, posto que algumas medidas adotadas sob o pretexto de proteger a ordem e a soberania, por vezes, possuem caráter totalitário e gravemente interventivo, como no caso da antecipação da punibilidade do sujeito, no qual aquele considerado como inimigo da ordem pública enfrenta a punição não apenas pelo ato por ele perpetrado, mas também pelo risco que oferece à sociedade. Assim, mesmo diante da hipótese de um ato terrorista em solo brasileiro, o estudante deve fundamentar que não é possível a relativização dos direitos e das garantias fundamentais, sendo importante lembrar que a Lei nº 13.260/16 (lei antiterrorismo) traz medidas a serem adotadas em face de tais atos e que, mesmo diante de sua severidade, são mais brandas do que as propostas por Jakobs. PARADIGMAS Durante os estudos, analisaremos os paradigmas relativos ao processo de criminalização e suas nuances. INTRODUÇÃO Olá, estudante! Durante os estudos, analisaremos os paradigmas relativos ao processo de criminalização e suas nuances. Destaque-se que abordaremos inicialmente o paradigma etiológico sob a ótica da criminologia e da antropologia criminal e os reflexos da alteração deste modelo na sociedade moderna. Outro ponto relevante a ser tratado nesta aula diz respeito ao paradigma da reação social, seus conceitos de desvio de conduta e os efeitos que este tem sobre o a política criminal e, principalmente, o processo de criminalização. Estudaremos ainda o paradigma garantista e abolicionista, sob o aspecto sociológico e sua aplicabilidade na criminologia e na prática penal, seja sob a ótica da defesa ou do próprio Estado enquanto garantidor de direitos fundamentais. PARADIGMA ETIOLÓGICO A etiologia é o ramo do conhecimento dedicado à pesquisa da origem das coisas. Desta forma, dentro do campo da criminologia, o paradigma etiológico ganhou força com os estudos da antropologia e sociologia criminal. Sob a ótica do paradigma etiológico, compete a criminologia estudar e fornecer as explicações necessárias para a origem do fato criminoso e assim, apontar quais as soluções que podem ser adotadas para o combate à criminalidade, ou seja, a criminologia, por meio da etiologia, deve exercer o papel de efetiva “defesa da sociedade”. As duas correntes de estudo citadas deram origem ao que chamamos de “paradigma etiológico”. Cesare Lombroso foi considerado o “pai” da antropologia criminal e em seu ramo de estudos defendia que a criminalidade tinha origem em aspectos inatos do próprio ser humano, frisando que a tendência a prática de condutas delitivas tinha origem genética ou mesmo hereditária. Desta forma, do ponto de vista Lombrosiano, a origem do fato criminoso está no próprio ser humano, não se tratando de uma escolha, mas sim de uma herança genética. A título exemplificativo, em sua obra “L'uomo delinquente”, Lombroso (2001), aponta que as características físicas dos delinquentes são diferentes para cada delito cometido, frisando que os violadores, por exemplo, quase sempre possuem olhos salientes, fisionomia delicada, com lábios e pálpebras volumosos, enfatizando que na maior parte das vezes são frágeis, louros e magros. O autor aponta ainda que os homicidas e arrombadores, tinham cabelos crespos, maxilares possantes, crânio deformado, incidência de tatuagens e muitas cicatrizes. Já do ponto de vista de Henrique Ferri (1931), em seus estudos relativos a sociologia criminal, no que concerne a etiologia do fato criminoso, sustenta-se que o fato criminoso não advém do livre arbítrio do ser humano, mas sim da concretização de diversos fatores que contribuem para a criação do delinquente, sendo estes de ordem física, social e individual. Henrique Ferri diverge de Lombroso ao apontar que o crime não é produto apenas de uma determinada patologia individual do criminoso, sendo esta, apenas parte dos fatores que contribuem para o surgimento do delinquente. Nos dias atuais os estudos relativos à etiologia do fato criminoso vêm ganhando cada vez espaço, sendo atualmente mais ligada as efetivas motivações para a ocorrência do fato criminoso, tendo deixado de lado os aspectos físicos e passado a aceitar as argumentações relativas aos impactos sociais, situações socioeconômicas, dentre outras, a depender, especificamente, do delito cometido. Assim, é possível afirmar que os estudos relativos à criminologia sofreram muitas alterações, principalmente no que tange ao desenvolvimento do paradigma etiológico, até porque cada delito possui uma diferente motivação e, geralmente, não possui nenhuma relação com traços físicos do delinquente, mas sim, com aspectos psicossociais ligados a sua estrutura social, cultural, ou mesmo advindos de sua própria criação. Aula vídeo com explanações aprofundadas relativas ao paradigma etiológico da criminologia e seu desenvolvimento nos dias atuais. PARADIGMA DA REAÇÃO SOCIAL Ao tratarmos do chamado paradigma interacionista (ou da reação social), estamos diante da análise, do ponto de vista da criminologia, de como as interações sociais entre os indivíduos afetam a construção do delito e criação do próprio criminoso. Sob este aspecto, o autor Alessandro Baratta (2002, p.87) é didático: Segundo o interacionismo simbólico, a sociedade – ou seja, a realidade social – é constituída por uma infinidade de interações concretas entre indivíduos, aos quais um processo de tipificação confere um significado que se afasta das situações concretas e continua a estender-se através da linguagem. Também segundo a etnometodologia, a sociedade não é uma realidade que se possa conhecer sobre o plano objetivo, mas o produto de uma ‘construção social’. Obtida graças a um processo de definição e de tipificação por parte dos indivíduos e de grupos diversos. Assim, no que concerne ao modelo da reação social, a origem do crime se dá por meio de uma construção social, ou seja, a comunidade passa a ver que determinado ato fere seus costumes ou afeta suas relações, impondo, desta forma, que a prática deste ato é um crime e deve ser punida. O Paradigma da reação social impõe mudanças bruscas no estudo da criminologia, até porque, deixa de dar enfoque ao estudo do sujeito criminoso e as razões que o levam a cometer a conduta desviante e passa a dar maior atenção as condições da criminalização, ou seja, quais as condições determinantes que fazem com que o indivíduo possa ser considerado um criminoso. A autora Vera Regina Pereira de Andrade (1997, p. 204), ao tratar sobre o paradigma da reação social, é enfática: A sociedade não é uma realidade que se possa conhecer objetivamente, mas o produto de uma “construção social” obtida mediante um processo de definição e de tipificação por parte dos indivíduos e grupos diversos. O paradigma da reação social é intrinsecamente ligado a Teoria do Etiquetamento Social (labelling approach) ao passo que esta faz uma espécie de interligação entre os conceitos de crime e criminoso e o próprio comportamento social, considerando seus costumes e valores socialmente aceitos, sob o argumento de que estes sim, seriam os criadores das chamadas etiquetas sociais, em detrimento do ato criminoso em si. Ante a tais assertivas é possível concluir que, do ponto de vista do paradigma da reação social, o fato criminoso deixa de ser uma simples construção teórica relativa a violação do regramento penal, passando a ser vista sob o enfoque de uma efetiva reação social a determinada conduta, ou seja, um comportamento da própria sociedade face a prática de uma conduta moralmente reprovável. Desta forma, a própria evolução dos conceitos e parâmetros sociais servem de balizadorespara o processo de criminalização que, seguindo o modelo da reação social, atendem aos anseios e tendências da própria sociedade. Aula vídeo tratando do paradigma da reação social e seus efeitos sobre o processo de criminalização. PARADIGMA GARANTISTA O paradigma garantista serve de base para o próprio sistema penal, ao passo que serve de efetivo limitador para os poderes do próprio Estado enquanto detentor do poder investigativo e punitivo. Este modelo aponta a necessidade de que o processo penal, tanto em suas fases iniciais quanto na efetiva aplicação de uma pena, observe as garantias e direitos fundamentais previstos na Constituição Federal. Ao tratar do garantismo, Alfredo Copetti Neto (2016, p. 23) conceitua o termo, apontando se tratar de uma espécie de outra face do constitucionalismo, senão vejamos: O termo garantismo representa, como a outra face do constitucionalismo contemporâneo, o fundamento da democracia constitucional e, assim, o modelo normativo jurídico que visa à efetivação dos direitos fundamentais cuja extensão comporta: da vida à liberdade pessoal, da liberdade civil e política às expectativas sociais de subsistência, dos direitos individuais àqueles coletivos. O modelo garantista é fortemente defendido pelo jurista Luigi Ferrajoli (1998), que aponta que este paradigma surge exatamente da incapacidade do Estado de manter a harmonia entre suas atuações pela via administrativa ou as atuações de suas instituições policiais e as suas próprias normas jurídicas. Assim, o garantismo visa adequar a atuação Estatal com as normas por ele mesmo impostas, fazendo uma espécie de junção entre normatividade e efetividade. É importante ressaltar que as influências do paradigma garantista não se limita ao campo do Direito, estendendo-se até mesmo no que tange a matéria política, posto que seus postulados têm por objetivo a ampliação da liberdade enquanto direito fundamental e a redução exponencial da violência. Sob este enfoque, o papel de punidor é mantido com o Estado, posto que, o faria visando garantir os direitos da maioria. Cabe lembrar que, enquanto arduamente defendido por Ferrajoli (1998, p. 851), o paradigma garantista é modelado sob o aspecto de “modelo normativo de direito”, que tem como princípio basilar a legalidade, guardando assim, estrita relação com as bases do próprio Estado Democrático de Direito. A fim de dar validade e eficácia ao direito propriamente dito, o paradigma garantista impõe a necessidade de cumprimento de aspectos substanciais e formais, sem os quais, a própria eficácia normativa estaria em risco. Sob esta ótica, impende lembrarmos do pensamento Kelsiniano acerca da validade normativa, ou seja, a validade de uma determinada norma estaria integrada ao cumprimento de outra norma. Ante a tais preceitos, seguindo o paradigma garantista, o Estado não poderia, por exemplo, valer-se de uma confissão obtida mediante tortura, até porque, a obtenção deste meio probatório desrespeita as bases constitucionais e a própria finalidade Estatal de garantia de direitos fundamentais, assim, não pode o Estado valer-se de tal expediente sob o argumento de garantia de direitos. Desta forma, o paradigma garantista tem por objetivo criar um verdadeiro equilíbrio entre validade e eficácia, não apenas no campo teórico, mas também na aplicação prática do direito. Aula vídeo com conteúdo complementar a respeito do paradigma garantista. PARADIGMA ABOLICIONISTA Ao tratarmos do paradigma abolicionista, estamos diante de um modelo radicalizado, que deve ser tratado com a devida cautela. O paradigma abolicionista defende que o próprio sistema de persecução penal, enquanto ferramenta estatal de punição, serve de criador de injustiças e desigualdades sociais, ao passo que, se trata de ferramenta com caráter seletivo e voltada a defesa das elites. Cabe frisar que o paradigma abolicionista é divido em três distintas vertentes, como aponta Sergio Salomão Shecaira (2018), sendo elas a “anarquista”; a “marxista” e a “liberal”. Em análise a vertente anarquista do modelo abolicionista, o pensamento defendido é de que a existência de um sistema penal escraviza o ser humano, minguando sua liberdade e impedindo sua própria felicidade, razão pela qual, para a formação de uma sociedade unida e solidária, é necessário o fim de todo o sistema penal. A segunda vertente do paradigma abolicionista, por sua vez, defende que o sistema de persecução penal possui caráter estritamente repressivo que acaba por ocultar os problemas sociais, ao passo que, ante ao seu caráter estritamente seletivista, pune as classes sociais mais baixas para proteger os interesses das elites. Por fim, a terceira vertente do modelo abolicionista, chamada também de abolicionismo liberal ou cristão, defende que a solução de conflitos não deve ser um papel privativo do Estado, posto que os homens, enquanto detentores de direitos e obrigações, tem a capacidade de cuidar de solucionar os seus próprios conflitos, em uma espécie de solidariedade orgânica. Ao tratar do abolicionismo, Carlos Elbert (2003, p. 108), em sua obra “. Manual Básico de Criminologia”, faz apontamentos relativos a simplicidade do tema, posto que passou a ser visto como uma alternativa a persecução penal, com premissas que visam uma solução diversa da utilizada no modelo padrão: Campo de discussão e trabalho pragmático, simples e criativo. Sua abertura e despreocupação pelo esmero metódico é consequência de um anti-reducionismo que aspira não confundir método com ideias. Pode-se dizer que o abolicionismo “tornou simples” (em oposição ao que ocorre discursivamente dentro do direito penal e da criminologia), propondo “outra lógica” para o tema do delito. Assim, em que pese a profundidade do tema e as correntes defendidas por diversos autores, temos que o abolicionismo penal, no que tange a sua inserção no ramo das políticas não repressivistas, defende um discurso pautado em que o modelo penal tradicional é criador de problemas e não de soluções, na medida em que a função intimidatória da pena não se presta ao fim proposto, servindo apenas como espécie de desculpa para a intervenção estatal na liberdade individual. Desta forma, é possível enxergar o abolicionismo mais como uma utopia do que efetivamente como uma política criminal aplicável, até porque, seu radicalismo acaba por dificultar sua aplicação, sendo preferível, portanto, modelos menos radicais, que visem a descriminalização ou despenalização de certas condutas em detrimento de uma política com caráter estritamente abolicionista. Saiba mais ACHUTTI, Daniel. Abolicionismo Penal e Justiça Restaurativa: Do Idealismo ao Realismo Político-Criminal. ANDRADE. Vera Regina Pereira de. Do Paradigma Etiológico ao Paradigma da Reação Social: Mudança e Permanência de Paradigmas Criminológicos na Ciência e no Senso Comum. COLET. Charlise Paula. O Paradigma da Reação Social na Conduta Desviada: O Processo de Criminalização e Etiquetamento Social. Aula vídeo relativa ao paradigma abolicionista e suas vertentes. ESTUDO DE CASO Uma determinada pessoa é presa em flagrante pela prática de um determinado delito cuja pena máxima não ultrapassa 2 (dois) anos, o delegado de polícia representou pela prisão preventiva e o juiz converteu o flagrante em preventiva. Ante ao clamor social e popularidade do acusado, não lhe concedeu o pagamento de fiança, mesmo sendo caso de detenção. Você enquanto advogado do acusado, sob a óptica do paradigma garantista, apresente a solução prática para o caso a fim de demonstrar eventual ausência de observância das regras constitucionais e processuais penais. RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO É esperado que o estudante aponte que o paradigma garantista impõe a necessidade de cumprimento de aspectos substanciais e formais, sem os quais, a própria eficácia normativa estaria em risco.Sob este aspecto, o estudante deve apontar a ausência de requisitos objetivos para a decretação da prisão e a configuração de constrangimento ao acusado, até porque, a não demonstração da efetiva necessidade de segregamento cautelar do acusado, traduzir-se- á em violação a garantia constitucional ao princípio da presunção de inocência. Assim, a conclusão do estudante deve se pautar na possibilidade de aplicação de medidas cautelares diversas da prisão, ante a necessidade de preservação, do ponto de vista garantista, dos princípios constitucionais que preveem a proteção do acusado. A fim de complementar sua resposta, o estudante pode apontar as hipóteses de arbitramento de fiança pelo delegado previstas no art. 322 e a ausência dos impeditivos do art. 323 e 324, todos do Código de Processo Penal. O MINISTÉRIO PÚBLICO COMO DEFINIDOR DE POLÍTICAS CRIMINAIS Durante os estudos, realizaremos uma análise aprofundada do papel do Ministério Público enquanto definidor de políticas criminais e sua atuação concatenada com os demais órgãos que compõem o sistema penal. INTRODUÇÃO Durante os estudos, realizaremos uma análise aprofundada do papel do Ministério Público enquanto definidor de políticas criminais e sua atuação concatenada com os demais órgãos que compõem o sistema penal. Abordaremos, ainda, a criminalidade sob a ótica contemporânea e como a alteração do modo de agir dos criminosos afeta o desenvolvimento das políticas criminais e a efetiva atuação do Ministério Público e dos órgãos policiais. Outro ponto relevante de estudo na presente disciplina é a atuação integrada e o direito fundamental à segurança pública, em que analisaremos a disposição constitucional de garantia à segurança e o papel do Estado em fornecê-la. Por fim, ao longo dos estudos, abordaremos a repercussão que a própria mudança no meio social exerce sobre a política criminal e como isso afeta o protagonismo do Ministério Público. O MINISTÉRIO PÚBLICO NA ESFERA CRIMINAL Antes de adentrarmos no assunto, precisamos ressaltar que a Constituição Federal define o Ministério Público, em seu art. 127, como uma instituição permanente e essencial à função jurisdicional do próprio Estado, atribuindo-lhe a responsabilidade pela defesa da ordem jurídica, do regime democrático, dos interesses sociais e individuais indisponíveis. No que tange à atuação ministerial dentro da esfera criminal, o art. 129, I, da Magna Carta, é enfático ao impor que, ao Ministério Público, compete, privativamente, promover a ação penal pública, assim, analisando as nuances do processo criminal, é de fácil percepção que o Ministério Público, enquanto único titular da ação penal pública, exerce verdadeiro protagonismo na esfera penal. Ao tratar da participação do Ministério Público no processo criminal, Norberto Avena (2020, p. 255) é didático ao expor seu papel tanto nas ações penais públicas quanto nas privadas, diferenciando cada espécie de atuação: Na órbita criminal, o Ministério Público representa o Estado-Administração, incumbindo-lhe, primordialmente, nos crimes de ação penal pública, deduzir perante o Estado-juiz as providências necessárias para que se concretize a pretensão punitiva; e, nos delitos de ação penal privada, fiscalizar a instauração e o desenvolvimento regulares do processo, bem como o cumprimento e a aplicação da lei ao caso concreto. Frente ao papel do Ministério Público dentro do processo criminal, é indispensável tratarmos acerca da função atribuída a ele pelo art. 129, VII e VIII, da Constituição Federal, qual seja o dever de exercer o controle externo da atividade policial e de requisitar diligências investigatórias. A respeito do tema, cabe-nos apontar que o assunto foi tratado pelo próprio Supremo Tribunal Federal no julgamento do Recurso Extraordinário 593.727, no ano de 2015, consolidando-se o Tema de Repercussão Geral nº 184 – Poder Investigativo do Ministério Público, restando firmado o entendimento de que o Ministério Público possui competência para a promoção de investigações criminais, respeitando-se os direitos e garantias dos investigados. Os membros do Ministério Público, visando, justamente, à proteção ao efetivo exercício de suas atribuições, possuem prerrogativas semelhantes àquelas previstas aos magistrados, ou seja, são garantidas a eles, nos termos do art. 38 da Lei Federal nº 8.625/93, a vitaliciedade, a inamovibilidade e a irredutibilidade de subsídio. Nesse sentido, entendemos que o Ministério Público, no bojo dos processos de natureza criminal, exerce verdadeira parcela da soberania do Estado, ao passo que condiciona o direito de punir. Cabe lembrarmos que o exercício do direito punitivo estatal possui quatro condições, sendo elas: A existência de lei penal anterior ao fato. A acusação penal privativa do Ministério Público (em ações penais públicas). A jurisdição penal. A execução penal. Dessa forma, o Ministério Público é indispensável à persecução penal e ao próprio exercício da soberania estatal, exercendo verdadeiro papel de protagonismo nas ações penais públicas e na defesa da ordem jurídica e social. Videoaula acerca da atuação e do protagonismo do Ministério Público na esfera penal. A CRIMINALIDADE CONTEMPORÂNEA Quanto ao cerne da presente disciplina, principalmente no que tange à atuação do Ministério Público enquanto definidor de políticas criminais, torna-se indispensável procedermos à análise do desenvolvimento da criminalidade e como a atuação dos criminosos nos tempos modernos afeta a própria atuação ministerial e as políticas criminais propriamente ditas. O modo de operação dos criminosos se desenvolveu na mesma velocidade que a própria sociedade, sendo que os avanços tecnológicos presentes no mundo moderno possibilitaram o surgimento de novas classes de criminosos e delitos. Ademais, os criminosos passaram a se estruturar, formando organizações complexas com pluralidade de operações. A Lei Federal nº 12.850/13, de forma expressa, definiu a expressão “organização criminosa”, dispondo, no parágrafo primeiro de seu art. 1º: Art. 1º [...] §1º Considera-se organização criminosa a associação de 4 (quatro) ou mais pessoas estruturalmente ordenada e caracterizada pela divisão de tarefas, ainda que informalmente, com objetivo de obter, direta ou indiretamente, vantagem de qualquer natureza, mediante a prática de infrações penais cujas penas máximas sejam superiores a 4 (quatro) anos, ou que sejam de caráter transnacional. (BRASIL, 2013, [s. p.]) Sob esse prisma, o Ministério Público, no cumprimento de seu papel enquanto responsável privativo para promoção da ação penal pública e, ainda, enquanto responsável pela defesa da ordem jurídica e social, deve atentar-se à constante evolução da criminalidade, visando, justamente, à preservação do Estado democrático de direito. Não é apenas no sentido de organização que podemos constatar o desenvolvimento da criminalidade, como apontado anteriormente, os avanços tecnológicos trouxeram não apenas ferramentas auxiliares aos criminosos mas também deram origem a diversos outros tipos penais. Criminalidade no ambiente virtual A Lei 12.737, de 30 de novembro de 2012, alterou o Código Penal, objetivando tipificar alguns delitos informáticos, como a invasão de dispositivos informáticos, a interrupção de serviços telefônicos e a falsificação de cartões. A criminalidade no ambiente virtual é abrangente, apresentando características próprias, distintas de outros delitos, como a transnacionalidade, universalidade e ubiquidade. Ao tratarmos da transnacionalidade, estamos diante do alcance do delito, ao passo que os crimes virtuais ultrapassam as barreiras da nacionalidade, estando presentes em todos os continentes. A universalidade dos crimes virtuais diz respeito aos níveis sociais em que estão presentes, sendo que, devido ao acesso cada vez maior às tecnologias,os delitos acabam se tornando universais. Por fim, ao falarmos da ubiquidade, tratamos da presença do delito tanto nos setores públicos quanto privados, demonstrando, novamente, o alcance dessa espécie de delito. Com isso, podemos concluir que a criminalidade contemporânea vem passando por constante evolução, sendo que os órgãos de controle devem se desenvolver na mesma velocidade, visando, dessa forma, a proteger a paz social e evitar a expansão dos delitos. Assim, é imperioso que o Ministério Público e os demais órgãos responsáveis pela investigação criminal e definição das políticas criminais estejam atentos ao desenvolvimento das ferramentas criminais e da própria sociedade. Videoaula a respeito da criminalidade contemporânea e os aspectos relativos ao seu desenvolvimento. ATUAÇÃO INTEGRADA E O DIREITO À SEGURANÇA O art. 5º da Constituição Federal é cristalino ao definir a segurança como um direito fundamental garantido a todos os brasileiros e estrangeiros residentes no país. Em se tratando da segurança, estamos diante de um direito difuso que tem por objeto garantir de que os membros da sociedade estejam protegidos da violência e criminalidade ante a prestação eficiente dos serviços de segurança pública e a implantação de políticas públicas voltadas a essa finalidade. A Constituição Federal de 1988 impõe, ainda, que a segurança se trata de um direito social, impondo-a como um dever do Estado, a saber: Art. 144 – A segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, através dos seguintes órgãos: I – polícia federal; II – polícia rodoviária federal; III – polícia ferroviária federal; IV – polícias civis; V – polícias militares e corpos de bombeiros militares. (BRASIL, 1988, [s. p.]) Importante! Sob a ótica constitucional, é importante diferenciarmos o direito à segurança previsto no art. 5º daquele previsto no art. 6º da Constituição Federal. Enquanto o primeiro é estritamente ligado à garantia individual de segurança, conforme citado, a previsão do art. 6º se refere ao conceito de segurança pública, tratado, também, no mencionado art. 144. O dever do Estado de garantir a segurança não se restringe apenas às condutas preventivas mas também à apuração dos atos ilícitos com a efetiva punição de responsáveis, ou seja, a garantia de segurança pode ser exercida na fase primária do processo de criminalização, por meio de criações legislativas que visem a coibir atos criminosos. Na fase secundária do processo de criminalização, a garantia à segurança surge com a ação dos órgãos estatais visando a coibir as práticas criminosas; já na criminalização terciária, a garantia de segurança surge justamente com a efetiva punição dos criminosos e o curso da fase de execução penal. A atuação integrada do Ministério Público com os demais órgãos estatais na fase de investigação preliminar é indispensável à garantia da segurança, principalmente ante os constantes avanços da criminalidade e a necessidade de somar esforços para reduzir seu aumento desenfreado. A respeito do tema, Emiliano Waltrick (2013, p. 8) é didático ao tratar do envolvimento do Ministério Público nas investigações: E neste contexto, mormente quando se busca atingir aquela criminalidade que se considera inatingível, a interação e comunhão de esforços entre polícias e Ministério Público é fundamental, sendo imprescindível a articulação de ações coordenadas e eficazes, principalmente em investigações envolvendo os crimes econômicos ou políticos e organizações criminosas. A despeito do tratado, conclui-se a importância da atuação do Ministério Público como definidor de políticas criminais para a preservação da segurança enquanto direito fundamental e constitucionalmente garantido, considerando, especialmente, a expansão e o desenvolvimento da criminalidade contemporânea — o que demanda a criação de novas ferramentas e frentes de ação por parte dos órgãos responsáveis. Videoaula tratando da garantia de segurança e sua relação com a atuação integrada do Ministério Público. REPERCUSSÕES NA POLÍTICA CRIMINAL As repercussões da atuação do Ministério Público na efetiva definição das políticas criminais estatais apresentam estrita relação com a fase secundária do processo de criminalização, em que temos a atuação de instituições como o Ministério Público, o Judiciário e a própria polícia enquanto agente de controle social. Durante o processo de criminalização secundária, o indivíduo que passou pela criminalização primária, tendo cometido a conduta penalmente reprovável, e com o início da fase secundária, terá sua conduta apreciada pelas instituições anteriormente citadas. A atuação do Ministério Público na fase secundária do processo de criminalização serve de verdadeira filtragem dos atos praticados e influencia diretamente nas políticas adotadas para o combate ou a descriminalização de um determinado fato. Ante a ausência de recursos, o próprio sistema penal torna-se seletivista, ao passo que, visando a afastar sua inatividade, dá atenção a delitos cujo potencial lesivo é maior, deixando de lado aqueles menos gravosos. Com base em tal premissa, o Ministério Público, exercendo seu papel de “filtro” dos atos a serem punidos, pode adotar condutas voltadas à despenalização ou buscar a condenação a uma pena mais severa, o que influencia diretamente a criação de políticas voltadas ao combate desses delitos tidos como mais graves. Sobre o tema, Silvia Chakian de Toledo Santos e Alexandre Rocha Almeida de Moraes (2016 p. 195) são didáticos, principalmente ao tratar do papel do Ministério Público e do exercício de sua função nos dias atuais, inclusive no que tange às repercussões na formação de políticas criminais: A mesma instituição que pode cobrar a implementação de políticas públicas básicas, cujos déficits, na maioria das vezes, são (con)causas para a criminalidade, deve velar pelo direito social da segurança pública, eis que é a instituição que exerce privativamente a ação penal pública. Em outros termos: a instituição que detém enorme quantidade de informação da doença – prática de infrações penais - possui instrumentos dados pelo constituinte para reprimir, mitigar a repressão ou deixar de punir (ação penal, transação penal e arquivamento) e, concomitantemente, possui instrumentos para prevenir a doença (inquérito civil, recomendações, termos de ajustamento de conduta e ação civil pública, dentre outros). Dessa forma, as repercussões da atuação do Ministério Público na fase secundária do processo de criminalização restam claras, influenciando diretamente o processo de formação das políticas criminais em razão de seu papel de filtragem das condutas a serem punidas com maior severidade e aquelas que merecem tratamento mais brando, com aplicação de institutos despenalizadores. A importância da atuação reside, principalmente, na proximidade do órgão ministerial com os diversos setores da sociedade e sua atuação não apenas na esfera criminal mas também na defesa dos interesses sociais e na garantia da ordem pública, razão pela qual a indispensabilidade de sua atuação é patente. Videoaula relativa às repercussões da atuação do Ministério Público na criação e no desenvolvimento de políticas criminais. ESTUDO DE CASO Imagine a situação hipotética em que você, estudante, agora, é promotor de justiça da comarca fictícia de Santo Ossário, capital de Leonel Caldela. Todo orgulhoso da aprovação e no primeiro dia no fórum, depara-se com um processo em que o juiz determinou a investigação de um suposto crime à Autoridade Policial, e quando da chegada da diligência, encaminha os autos a você para denunciar o investigado. Com base nessas premissas, é o momento de se manifestar. Apresente o direito a ser alegado. RESOLUÇÃODO ESTUDO DE CASO É esperado que o estudante discorra acerca do direito privativo do Ministério Público da promoção da ação penal e não sobre o juiz da causa. Sob esse prisma, em respeito ao art.127 e 129, II, da CRFB, o Ministério Público, no cumprimento de seu papel, enquanto responsável privativo pela promoção da ação penal pública e pela defesa da ordem jurídica e social, deve atentar-se como fiscal da lei, não se sujeitando a aceitar, mesmo que no seu primeiro dia na comarca, que um juiz inaugure uma investigação e determine a denúncia. Saiba mais Para complementar os seus estudos, selecionamos algumas dicas de leitura para vo-cê! COPETTI. V. L. F. A função seletiva do ministério público no sistema penal. 1998. Dissertação (Mestrado em Direito) – Universidade Federal de Santa Catarina, Santa Catarina, 1998. JUNIOR. J. S. T. A segurança pública como direito fundamental: proposta de modificação da atuação ministerial para a sua tutela. Revista do Ministério Público do Estado de Goiás, Goiás, p. 47-62, [s. d.]. CRIMINALIZAÇÃO Em nossos estudos vamos tratar sobre o processo de criminalização e suas nuances, demonstrando as diferenças entre a criminalização e a criminologia e as distinções entre os mais diversos institutos que permeiam o tema. INTRODUÇÃO Bem-vindo, estudante! Em nossos estudos vamos tratar sobre o processo de criminalização e suas nuances, demonstrando as diferenças entre a criminalização e a criminologia e as distinções entre os mais diversos institutos que permeiam o tema. O objetivo desta aula é aprimorar os conhecimentos do estudante com relação tanto a elaboração das normas, com a definição e valoração dos bens jurídicos tutelados, quanto com relação a efetiva ação punitiva do estado em face de pessoas que praticam atos criminalizáveis, demonstrando ainda a evolução histórica do processo de criminalização ao longo do tempo. CONCEITO Antes de nos aprofundarmos no tema proposto, por primeiro, é de relevante importância o estudo dos conceitos e objetos da criminalização, posto que, somente por meio destes será possível a compreensão fundamental do fenômeno jurídico. Criminalização em suma, é estabelecer, por meio de lei, que determinado comportamento é tido como criminoso. Para a criminologia, a criminalização pode se dar de forma primária ou secundária, sendo a primeira intimamente ligada ao direito positivo e focada na efetiva criação da lei penal, introduzindo no ordenamento jurídico a tipificação de uma conduta reprovável, enquanto a segunda é voltada a aplicação da lei penal como forma de coibir os comportamentos reprováveis praticados. A criminologia vem se desenvolvendo através do tempo, de igual forma, o processo de criminalização tem evoluído. Condutas anteriormente elogiáveis, passaram a ser reprovadas e criminalizadas, assim como condutas que sempre foram criminalizadas, hoje são consideradas comuns. Um claro exemplo da evolução da criminalização do ponto de vista prático é a capoeira. Por medo de rebeliões escravistas as autoridades em meados de 1830 passaram a criminalizar a prática da capoeira, tipificando seus praticantes nos artigos 295 e 296 no Capítulo IV, intitulado de Vadios e Mendigos, do Código Penal do Império do Brasil, de 1830. Após a abolição da escravatura, o Código Penal da República dos Estados Unidos do Brasil (BRASIL, 1890) em seu art. 402 criminalizou de forma expressa a conduta, in verbis: Art. 402. Fazer nas ruas e praças públicas exercício de agilidade e destreza corporal conhecida pela denominação de Capoeiragem: andar em carreiras, com armas ou instrumentos capazes de produzir lesão corporal, provocando tumulto ou desordens, ameaçando pessoa certa ou incerta, ou incutindo temor de algum mal; Pena de prisão celular por dois a seis meses. Parágrafo único. É considerado circunstância agravante pertencer a capoeira em alguma banda ou malta. A conduta foi posteriormente descriminalizada ante a revogação do Decreto que proibia sua prática pelo então presidente Getúlio Vargas. Nos dias de hoje o processo de criminalização continua avançando, agora cada vez mais alinhado com pensamentos sociais e de proteção a minorias ou vulneráveis, como no caso da criminalização da homofobia e do feminicídio, sendo, portanto, de suma importância o estudo acerca do processo de criminalização e suas nuances, principalmente face aos rápidos e expressivos avanços no que concerne as políticas sociais no país. Aula vídeo explicando o conceito de criminalização, com exemplos recentes do atual cenário e seu alinhamento com as políticas sociais do país, principalmente aquelas voltadas à proteção de minorias ou vulneráveis. CRIMINALIZAÇÃO E CRIMINOLOGIA Ao tratarmos de criminologia e criminalização, indispensável se faz realizar explanações acerca dos conceitos relativos a cada instituto e como estes se inter-relacionam. Do ponto de vista etiológico, a expressão criminologia vem da junção do termo em latim crimino, cujo significado é crime, e do termo grego logos, que se refere a estudo. Assim, o termo criminologia, cuja criação é atribuída a Paul Topinard e consolidação a Raffaele Garófalo, refere-se ao “estudo do crime”. Ainda na década de 1930, o renomado sociólogo americano Edwin Hardin Sutherland, em sua obra denominada Principles of Criminology, defendeu uma brusca alteração nas formas de análise do próprio fenômeno da criminalidade. Sutherland foi o percursor da teoria da differential association (associação diferencial). Essa teoria trazia explicações acerca do comportamento do criminoso, atribuindo a causa de sua inserção no mundo dos delitos ao meio social em que o sujeito vive, tentando desta forma, desconstruir o paradigma existente à época de que os fatores psíquicos ou mesmo biológicos seriam a causa da criminalidade. Ao tratarmos do assunto é interessante apontar que na década de 1970 o professor Hilário Veiga de Carvalho em seu Compêndio de criminologia, defendeu que a criminologia não se tratava de mero estudo do crime, mas sim um estudo conjunto e indissolúvel do crime e do criminoso, ou seja, da própria criminalidade em si. Do ponto de vista da escola positiva de direito, a criminologia moderna estuda a criminalização sob o enfoque de que o cometimento de condutas criminosas e reprováveis pelo indivíduo seriam fundadas em explicações individuais decorrentes de patologias ou por razões socioestruturais, intrinsicamente atreladas à subsocialização. Neste contexto, a própria sociedade passou a ser vista como parte do problema e, pautado neste entendimento foi que o criminologista Albert Cohen em sua obra denominada Deliquent boys - An Unsolved Problem in Juvenile Delinquency, publicado na década de 1970, deu origem à chamada Subcultural theory (Teoria da Subcultura), na qual destaca que dentro do ambiente das favelas, há uma espécie de subcultura. Reflita Alberto Cohen aponta que essa subcultura é consistente em um sistema social próprio com o sopesamento de comportamento e valor também aplicável a grupos de adolescentes, apontando que a própria violência urbana decorrente das condutas perpetradas no ambiente não se davam de forma simplesmente arbitrária e desregrada, mas sim com normas e regras sociais diversas daquelas adotadas pela cultura dominante e externa àquele ambiente. Desta forma, resta cristalino que a criminologia, enquanto ciência, é voltada ao estudo não apenas do fato criminoso, mas da criminalidade e do processo de criminalização em si, sendo, portanto, crucial a compreensão dos fenômenos históricos sociais que envolvem o tema, pois, somente assim, é possível a compreensão do processo de criminalização como um todo. Aula vídeo tratando da evolução histórica da criminologia e sua relação com o estudo da criminalidade. DISTINÇÃO ENTRE CRIMINOSO, CRIMINALIDADE E CRIMINALIZAÇÃO Ao tratarmos da expressão “criminoso”,nos referimos àquele que descumpre uma norma previamente estabelecida, desviando, desta forma, da normalidade prescrita em uma comunidade. A Escola Clássica de direito penal via o criminoso como um pecador, que desvirtuava e descumpria dogmas religiosos ou a vontade do soberano, até por isso entendia-se que a pena seria um mal imposto ao merecedor do castigo pela sua conduta, cometida de forma absolutamente consciente e, por esta razão, possuía a finalidade precípua de reestabelecer a ordem na sociedade. Ao tratarmos do conceito de criminoso na Escola Positiva, diversos autores, destacando- se Cesare Lombroso, apontavam que nem todos os indivíduos são iguais, frisando que os criminosos agiam de forma irracional e predeterminada. Assim, a política criminal à época teve por finalidade a defesa social, com o intuito de identificar e neutralizar indivíduos considerados perigosos para que cessassem seus atos criminosos, havendo neste período, inclusive, a defesa de penas por períodos indeterminados e até mesmo pena capital para criminosos que não fossem passíveis de recuperação. E em que pese a evolução trazida pela Escola Clássica e pelo positivismo científico, foi somente no período contemporâneo que o conceito de criminoso foi ampliado. Enrico Ferri, criminologista e político socialista italiano, em sua obra denominada Criminal Sociology classificou os criminosos em natos, loucos, habituais, ocasionais e passionais. Os criminosos natos seriam os degenerados, que não possuem qualquer espécie de senso moral. Os criminosos loucos seriam os alienados mentais. Os criminosos ocasionais, por sua vez, são aqueles que eventualmente cometem algum delito, se tratando de situação absolutamente excepcional e que não faz parte de seu comportamento comum. Por fim, Ferri cita os criminosos habituais, definindo assim, aqueles reincidentes em condutas criminosas, seriam os chamados “profissionais do crime”. Pseudocriminosos e verdadeiros criminosos Diversas outras classificações de criminosos foram criadas posteriormente, como as apresentadas pelo professor Hilário Veiga de Carvalho, que os classificou em dois grupos, com subdivisões, sendo: Pseudocriminosos: divididos em Biocriminosos puros e Mesocriminosos puros. Na concepção de Veiga, estes são os que devido a debilidades psiquiátricas necessitam de tratamento (como os Biocriminosos puros) ou ainda, que não possuem grandes taxas de recuperação, porque sua conduta criminosa é decorrente sócio culturais (como os Mesocriminosos puros), de qualquer forma, para Veiga, estes são considerados inimputáveis, não sendo responsáveis pela ação praticada. Verdadeiros criminosos: divididos em Biocriminosos preponderantes, Mesocriminosos preponderantes e Biomesocriminosos. Os criminosos verdadeiros são efetivamente responsáveis pelos seus atos, como os Biocriminosos preponderantes que eram definidos segundo a tendência interna de cada indivíduo, independendo da existência de influências negativas externas que o levassem a prática criminosa. De forma diversa, os Mesocriminosos preponderantes, segundo Veiga, dependiam quase que exclusivamente da influência negativa externa, posto que, devido as suas qualidades morais, estes por si só não cometeriam atos tidos como contrários à normativa. Por fim, os Biomesocriminosos eram definidos como os indivíduos que praticavam a conduta delituosa sob influência de fatores tanto internos como externos. Cabe ressaltar que cada espécie de criminoso era classificada segundo seu comportamento e sua influência. De explanação mais simples, a criminalidade nada mais é do que a efetiva ocorrência de atos que contrariam os ditames da lei penal, enquanto a criminalização, já explanada anteriormente, remete a definição, por meio de lei, que determinado comportamento é tido como criminoso. Aula vídeo com explicações acerca distinção conceitual e doutrinária entre “criminosos”, “criminalidade” e “criminalização”. CRIMINALIZAÇÃO E VITIMIZAÇÃO Criminalização e vitimização A fim de analisar o processo de criminalização sob o enfoque específico da vitimização, é necessário adentrarmos ao campo da vitimologia na Política Criminal.O conceito de vítima na doutrina é amplo, a Organização das Nações Unidas, por exemplo, em 29 de novembro de 1985 editou a “Declaration of Basic Principles of Justice for Victims of Crime and Abuse of Power”, na qual, em seu anexo, conceitua a expressão vítima da seguinte forma: 1. Entendem-se por "vítimas" as pessoas que, individual ou coletivamente, tenham sofrido um prejuízo, nomeadamente um atentado à sua integridade física ou mental, um sofrimento de ordem moral, uma perda material, ou um grave atentado aos seus direitos fundamentais, como consequência de atos ou de omissões violadores das leis penais em vigor num Estado membro, incluindo as que proíbem o abuso de poder. 2. Uma pessoa pode ser considerada como "vítima", no quadro da presente Declaração, quer o autor seja ou não identificado, preso, processado ou declarado culpado, e quaisquer que sejam os laços de parentesco deste com a vítima. O termo "vítima" inclui também, conforme o caso, a família próxima ou as pessoas a cargo da vítima direta e as pessoas que tenham sofrido um prejuízo ao intervirem para prestar assistência às vítimas em situação de carência ou para impedir a vitimização. Já autor Paulo Henrique de Godoy Sumariva (2019), ao tratar do assunto, define vítima de modo mais simplista, como “quem sofreu ou foi agredido de alguma forma em virtude de uma ação delituosa, praticada por um agente”. Durante o desenvolvimento do processo de criminalização e até mesmo da criminologia, o papel da vítima foi objeto de destaque em determinados períodos assim como foi esquecido em outros. A idade média foi conhecida como a época do protagonismo da vítima, posto que à época era aplicável o instituto da vingança privada, ou seja, caso alguém sofresse algum dano, ele mesmo ou sua família tinham o direito de reparar este dano. Essa época foi marcada pela luta entre famílias, criando um ciclo de violência infindável. A partir do século XII o que houve foi a neutralização da pessoa da vítima, no qual as penas aplicadas não tinham um enfoque efetivo na reparação do dano, mas apenas na prevenção da atividade criminosa como um todo, ou seja, a aplicação de sanções servia para gerar temor na população e, assim, evitar o cometimento de novas condutas. A partir dos ensinamentos da Escola Clássica, a vítima passou a ser valorizada no direito penal e tornou-se objeto de estudo da criminologia, sendo sua importância consolidada após o final da Segunda Guerra Mundial. Reflita A vitimologia não deve se confundir com a vitimização. Conforme apontado, a primeira possui enfoque amplo e se trata de disciplina científica, objeto de estudo da criminologia e na qual se insere a vitimização, que pode ser classificada como o processo que leva determinado sujeito a se tornar vítima de um terceiro. Com a crescente importância do papel da vítima dentro deste contexto histórico do processo de criminalização, seu estudo tornou-se indispensável, tanto para o entendimento das razões que levam à efetiva criminalização de um determinado fato, quanto para análise pontual do próprio fato criminoso. Aula vídeo com explicações acerca do processo de criminalização sob o enfoque específico da vitimização e da importância do estudo da vitimologia. ESTUDO DE CASO A respeito dos temas “criminoso, criminalidade e criminalização”, descreva sobre o furto de energia. Quem é a vítima, o sujeito passivo, para o ordenamento penal e qual o bem juridicamente tutelado? E para o ordenamento social, podemos considerar o sujeito ativo deste crime, como sendo ele vítima da sociedade? RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO Espera-se que o estudante faça uma introdução acerca do delito questionado, apontado que, emXIX, sob forte influência dos iluministas. Em um primeiro momento os percursores da Escola Positiva objetivaram a aplicação dos métodos investigativos de outras ciências como a antropologia e até mesmo a biologia ao direito. Por óbvio tal intento restou infrutífero, posto que a norma jurídica, ante ao seu caráter circunstancial e não científico, necessitava de meios diversos de observação, o que culminou no surgimento da criminologia. Mesmo com o fim das penas de caráter religioso e a imposição de que os governantes receberiam mandatos para, desta forma, agir dentro dos limites constitucionalmente previstos e em busca dos interesses do povo, o que se viu em meados de 1815 foi o início da chamada Era Napoleônica, que, em verdade, se tratava de verdadeiro regime ditatorial. Após o fim da Era Napoleônica o mapa político europeu passou por uma verdadeira reformulação com a instalação do Congresso de Viena, culminando assim, na efetiva consolidação dos Estados-Nações. No início do século XIX os países da Europa e América, no intuito de proteger o novo sistema criado, editaram códigos penais e processuais. Com isso, a ciência criminal deixou de preocupar-se única e exclusivamente com as penas e passou a olhar com outros olhos o comportamento dos criminosos, tratando as questões relativas à criminalidade não mais no campo filosófico, mas sim no científico, sob um ponto de vista neutro. No que tange as políticas criminais, o positivismo científico (primeira fase da Escola Positiva), teve como objeto de estudo, de modo diverso da Escola Clássica, o homem criminoso. Diversos autores, dentre eles destacando-se Cesare Lombroso, defendiam que nem todos os indivíduos são iguais, apontando que os criminosos agiam de forma irracional e predeterminada. Assim, a política criminal à época teve por finalidade a defesa social, com intuito de identificar e neutralizar indivíduos considerados perigosos para que cessassem seus atos criminosos, havendo neste período, inclusive, a defesa de penas por períodos indeterminados e até mesmo pena capital para criminosos que não fossem passíveis de recuperação. Desta forma, em que pese a intenção da Escola Positiva tenha sido inicialmente prezar pela neutralidade focada no fim científico, ela acabou por transformar os indivíduos criminosos em objeto de estudo, criando uma imagem preconceituosa de homem de acordo com padrões genéticos e étnicos, o que acabou por culminar até mesmo em políticas que defendiam a superioridade das raças, como no nazismo alemão. Ante a tais assertivas é possível concluir que com o desenvolvimento da política criminal na Era Clássica em comparação com a Escola Positiva, houve uma severa mudança no discurso e até mesmo no entendimento no campo da criminologia, afastando a centralização política e adotando como meta a redução da criminalidade e a repulsa ao indivíduo criminoso. Aula vídeo com explicações acerca da evolução da política criminal durante a Era Científica, com explanações acerca do positivismo e como essa forma de pensamento alterou o modo como a aplicação das penas passou a ser tratada. A POLÍTICA PENAL CONTEMPORÂNEA A política penal contemporânea Na década de 1980 tanto a criminalidade quanto as políticas criminais sofreram profundas mudanças, tanto pelo expressivo aumento da taxa de criminalidade quanto pela efetiva consciência, por parte da população em geral, de que o Estado e seu sistema de segurança seriam demasiado limitados para lidar com esta realidade. Desde meados dos anos de 1920 os crimes patrimoniais e violentos cresceram exponencialmente no mundo todo, principalmente ante o maior alcance dos meios de comunicação, que, por meio de narrativas dramáticas e constantes, potencializou o medo já existente na mente do cidadão, o que alterou aos poucos o comportamento do homem médio, fazendo-o adotar providências voltadas a efetiva prevenção de delitos. O aumento das taxas de criminalidade à época foi decorrente das alterações sociais ocorridas em larga escala, tanto do ponto de vista econômico quanto do cultural, consequentes da expansão do neoliberalismo com a restrição à intervenção estatal sobre a economia. Com o início desta nova era, o lento desenvolvimento do sistema penal não estava preparado para suportar esta acentuada elevação dos níveis de criminalidade, o que aumentou ainda mais a impressão de que o próprio Estado seria débil no combate ao crime. Desta forma, visando controlar a rápida expansão da criminalidade, o Estado acedeu a uma espécie de política previdenciarista, na qual o controle social se dá de forma correcionalista. Sobre o tema, David Garland (2008, p. 104-105) expôs suas bases de forma didática: Com raízes na década de noventa do século XIX e vigorosamente desenvolvido nos anos 1950 e 1960, o previdenciarismo penal era, nos anos 1970, a política estabelecida tanto na Grã-Bretanha quanto nos Estados Unidos. Seu axioma básico – medidas penais devem, sempre que possível, se materializar mais em intervenções reabilitadoras do que na punição retributiva – proporcionou o aperfeiçoamento de uma nova rede de princípios e práticas inter-relacionados. No período, o controle do crime foi marcado pela derrocada dos tão buscados ideais de reabilitação, que foram rapidamente substituídos pelas metas de retribuição e pelo controle efetivo do risco. Outro aspecto relevante foi o ressurgimento das sanções de caráter retributivo e a mudança de tom das próprias políticas criminais, na qual o criminoso que anteriormente era tratado como uma pessoa sem oportunidades na vida, que foi de certa forma obrigado a adentrar no mundo do crime, passou a ser visto como uma espécie de predador perigoso e oportunista. Reflita Ainda na Era Contemporânea, passou-se a dar importância às vítimas e aos seus sentimentos, posto que o foco passou a ser a proteção das pessoas acima de tudo, dando- se ênfase à segurança e contenção do perigo. As diversas mudanças ocorridas no campo das políticas criminais se fortaleceram ainda mais nos anos de 1980 e foram consolidadas em meados dos anos de 1990. A POLÍTICA PENAL CONTEMPORÂNEA Aula vídeo com explicações acerca da evolução da política criminal durante a Era Contemporânea, explanando a evolução histórica dos anos de 1920 até meados dos anos de 1990. ESTUDO DE CASO Com base no contexto sociológico e político apresentado na aula, o estudante deve discorrer acerca da “Teoria da Janela Quebrada” e sua relação com a redução da criminalidade e oposição com a o Princípio da Insignificância à luz do desenvolvimento na criminologia dos anos de 1980 até hoje. RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO Tendo em vista os assuntos apresentados em aula, espera-se que o estudante em sua resposta aponte o conceito da Broken Windows Theory, demonstrando que tal teoria, na prática, explicita que ao aplicar sanções para pequenos delitos, há o impedimento de que os infratores cometam delitos ainda maiores ante a sensação de impunidade. A fim de complementar a resposta, o estudante deve exemplificar a aplicabilidade da Teoria, podendo, inclusive, citar o clássico caso da fábrica com janelas quebradas, na qual a substituição do vidro destruído deve ser realizada o mais rápido possível, posto que, ao passar pela região, outra pessoa vendo a janela quebrada pode sentir-se tentada a jogar uma pedra em outra janela. É esperado que seja traçado um paralelo entre a Teoria da Janela Quebrada e o Princípio da Insignificância, demonstrando que o segundo se contrapõe ao primeiro, posto que defende a intervenção mínima do Estado nas relações sociais, servindo de limitador ao poder deste. Desta forma, em sua conclusão o aluno deve apontar que, do ponto de vista histórico, o avanço da criminologia ao dar maior atenção à própria pessoa, do ponto de vista sociocultural a partir da década de 1980, passou afastar a aplicabilidadese tratando de furto de energia, o Código Penal Brasileiro o tipifica em seu art. 155, §3º ou seja, é considerado um crime contra o patrimônio, até porque, nos termos do Código Civil, em seu art. 83, I, a energia elétrica é tida como um bem móvel. O aluno deve apontar que nós crimes contra o patrimônio, o sujeito passivo é o proprietário ou legítimo possuidor do bem móvel sendo que no caso específico da energia elétrica, a fim de especificar exatamente o sujeito passivo, é imprescindível a verificação do momento em que houve o delito. Se o “desvio” da energia se deu antes de passar pelo medidor, o sujeito passivo seria o fornecedor de energia, posto que a ele é atribuído o prejuízo pelo uso gratuito desta, porém, na hipótese de tal conduta dar-se-á após a passagem da energia pelo medidor, o prejuízo é direcionado ao próprio consumir, que será, portanto, o sujeito passivo do delito. A segunda parte do questionamento apresentado trata do ordenamento social e do cometimento do delito como vítima da sociedade, neste ponto, é esperado do estudante uma explanação sobre a hipótese do furto de energia ser praticado por uma “comunidade”, hipótese na qual a razão social imposta por eles sobressai o critério de criminalidade, sendo tratada até mesmo como um direito natural, ou seja, é como se para uma determinada camada da sociedade fosse permitida a prática de um ato ilícito, que assim não seria considerado por causa do ambiente em que está sendo realizado. De modo diverso, se em um condomínio de luxo é descoberto que o proprietário de uma mansão está praticando o furto de energia, com certeza responderia pelo furto. Assim, verifica-se que há dois pesos e duas medidas, o critério de criminalização é distinto para pessoas dependendo tanto do sujeito que comete o crime quanto do meio em que este vive, isso porque, o papel social do furto de energia por parte da população carente decorre justamente da falha do Estado em prover o mínimo deste recurso indispensável as famílias que dele necessitam, assim, diante do abandono histórico que decorre até mesmo da má distribuição de renda, as ligações clandestinas de energia acabam por se tornar o único meio de acesso ao recurso deficiente. Saiba mais Para ampliar os seus conhecimentos sobre os temas abordados durante os nossos estudos, indicamos algumas leituras que são muito pertinentes e interessantes! Deliquent Boys: the culture of the gang de Albert K. Cohen. A Criminologia Cultural e a Criminalização das Culturas Periféricas escrita por Saulo Ramos Furquim. A vítima no contexto da criminologia contemporânea: os reflexos da vitimologia da política criminal, na segurança pública e no sistema processual penal artigo escrito por Viviane de Andrade Freitas. O PROCESSO DE CRIMINALIZAÇÃO Os nossos estudos têm por objetivo aprofundar os conhecimentos no processo de criminalização, com explanações acerca da criminalização primária, secundária e terciária, bem como a forma como o senso comum exerce seu papel no processo de criminalização. INTRODUÇÃO Olá, estudante! Os nossos estudos têm por objetivo aprofundar os conhecimentos no processo de criminalização, com explanações acerca da criminalização primária, secundária e terciária, bem como a forma como o senso comum exerce seu papel no processo de criminalização. Ao tratarmos da criminalização primária, abordaremos o processo legislativo propriamente dito, com as nuances relativas à tipificação de determinada conduta e a forma técnico- burocrática como este processo se dá. Com o estudo da fase secundária da criminalização, trataremos da criminalização de forma individualizada e com a atuação de instituições como o Ministério Público, o Judiciário e a própria polícia enquanto agente de controle social. A criminalização terciária, por sua vez, será abordada na fase pós-condenação e os aspectos que a permeiam. CRIMINALIZAÇÃO PRIMÁRIA Ao tratarmos do processo de criminalização e os aspectos que o compõe, é necessário, inicialmente, entendermos o processo de formação da lei penal. A criminalização em sua fase primária, tem por objeto a criação das leis penais, ou seja, a efetiva atividade do legislador. O direito penal objetiva, via de regra, tutelar os bens jurídicos tidos como mais importantes, assim, dependendo do bem jurídico a ser protegido, o legislador, enquanto agente do processo de criminalização primário, define a quantidade de pena a ser aplicada e a conduta especifica a ser tipificada na lei penal. Ao tratar do papel do legislador no direito penal, Rogerio Greco em seu livro Curso de Direito Penal – Parte Geral (2004, p. 4), aponta que a Constituição Federal serve de balizadora para a formação dos conceitos deste, seja como definidora dos valores indispensáveis à tutela do Estado, seja como garantista, impedindo que o legislador viole direitos fundamentais: Se de um lado orienta o legislador, elegendo valores considerados indispensáveis à manutenção da sociedade, por outro, segundo uma concepção garantista do Direito Penal, impede que esse mesmo legislador, com uma suposta finalidade protetiva de bens, proíba ou imponha determinados comportamentos, violando direito fundamentais atribuídos a toda pessoa humana, também consagrados pela Constituição. Seguindo as diretrizes impostas pela Magna Carta, o legislador, na fase primária do processo de criminalização, tem por objetivo a criação de tipos penais que tutelem os bens e valores indispensáveis a convivência em sociedade, definindo as penas aplicadas e a forma de cumprimento. A definição de um determinado fato como criminoso é balizada, principalmente, pelo modo como a sociedade reage ao cometimento deste, ou seja, o senso comum e a própria reação social definem se o comportamento adotado por determinado sujeito é reprovável o suficiente a fim de exigir, do legislador, a adoção de medidas que importam na criação ou alteração de um tipo penal. A atuação do legislador, como podemos observar, possui caráter político, posto que este opera de maneira abstrata, principalmente ante a conclusão já exposta da importância da opinião pública e da formação do senso comum na definição das condutas penalmente reprováveis. Ao tratar da fase primária do processo de criminalização, o sociólogo Alessandro Baratta, em sua obra Criminologia crítica e crítica do direito penal (2002, p. 198), faz comentários à atual política criminal, afirmando que: [...] importantes zonas de nocividade social ainda amplamente deixadas imunes no processo de criminalização e de efetiva penalização (pense-se na criminalidade econômica, na poluição ambiental, na criminalidade política dos detentores do poder, na máfia etc.), mas socialmente muito mais danosas, em muitos casos, do que o desvio criminalizado e perseguido. Realmente, as classes subalternas são aquelas selecionadas negativamente pelos mecanismos de criminalização. Desta forma, a fim de afastar a chamada “seletividade do sistema penal”, que afasta a efetiva utilidade pública da normal penal, é que se recomenda a adoção de viés mais jurídico e menos político na criação das normas penais, até porque, o populismo, quando aplicado à esfera penal, acaba por desvirtuar o caráter da norma jurídica e seu dever de proteção aos bens juridicamente tutelados. Aula vídeo versando sobre o processo de criminalização primária e suas nuances, com apontamentos relativos ao modo que o comportamento social influência na formação da normal penal. CRIMINALIZAÇÃO SECUNDÁRIA Avançando os estudos relativos ao processo de criminalização, trataremos de sua segunda fase, chamada de “criminalização secundária”. A criminalização secundária é a continuação lógica da primária, tratando especificamente da efetiva ação punitiva do Estado face a infringência de uma conduta tipificada pela norma penal. Na fase secundária do processo de criminalização,temos a atuação de instituições como o Ministério Público, o Judiciário e da própria polícia enquanto agente de controle social. Durante o processo de criminalização secundária, o indivíduo que passou pela criminalização primária, tendo cometido a conduta penalmente reprovável e, com o início da fase secundária, sua conduta será apreciada pelas instituições anteriormente citadas. Essa apreciação pode se dar por meio de um inquérito policial ou pelo próprio magistrado, o qual, a depender da ausência de elementos ou existência de excludentes de ilicitude, poderá absolver o sujeito ou ainda, concluindo pela presença de materialidade delitiva e sendo certa a autoria, poderá condenar o criminoso. O objetivo da fase secundária é dar efetivo cumprimento à lei penal, aplicando a punição àquele que praticar um ato tido como reprovável pela lei. Ao tratar da criminalização secundária, Baratta (2002, p. 98) aponta que esta é exercida pelas chamadas “agências de controle penal” como: “a polícia, a magistratura, órgãos de controle da delinquência juvenil”. A atividade policial, dentro da criminalização secundária, é a primeira a realizar a análise do processo de criminalização, até porque, quando da realização de uma conduta tipificada como penalmente reprovável, o primeiro contato é justamente com a organização policial, a qual, por meio de seus agentes, identifica a materialidade do delito e os investiga com o objetivo de identificar indícios de sua autoria. Atenção! É importante ressaltar que muitos atos praticados por criminosos não chegam à fase secundária do processo de criminalização, até porque, muitas vezes estes sequer são comunicados às agências de controle. A respeito do tema, Molina (2008) aponta que a denúncia do ato perpetrado, mesmo se realizada, pode não ter os frutos esperados, não se abrindo a oportuna investigação ou até mesmo atingindo-se um resultado final negativo, esclarecendo que tal ato se dá devido a seletividade da própria autoridade policial e judiciária, as quais acabam por filtrar e selecionar as pretensões punitivas que, segundo a própria autoridade judiciária, requerem e merecem uma resposta oficial por parte do Estado. Ante a tal assertiva, é possível concluir que a própria persecução formal do ato denunciado nem sempre culmina com uma sentença penal condenatória para o infrator, ou seja, em que pese a competência do legislador no processo de criminalização primário, por vezes não é possível dar cumprimento às políticas criminais, principalmente aquelas voltadas à repressão, quando, pelas mais diversas razões, há falhas no processo de criminalização secundário. Aula vídeo tratando do processo de criminalização secundário, com explanações acerca de eventuais falhas que possam decorrer da atuação dos órgãos de controle nesta fase. CRIMINALIZAÇÃO TERCIÁRIA A última fase do processo de criminalização é externalizada por meio da efetiva aplicação dos mecanismos de execução pena, formando assim, a criminalização terciária. Essa fase compreende tanto as penas privativas de liberdade como aquelas decorrentes do instituto da despenalização. Ao traçarmos um mapa de todo o processo de criminalização, teremos a primária preocupando-se com a efetiva edição das normas penais e a tipificação das condutas penalmente reprováveis; a secundária, que traz a prática de toda a teoria editada na primeira fase, tratando de investigar e processar os fatos tidos como puníveis por meio da fase primária e, por fim, a fase terciária, na qual, após toda a investigação e todo o processamento, o Estado adota medidas para a efetiva execução da pena a ser aplicada, independentemente de sua forma ou gravosidade. Na fase terciária do processo de criminalização o sujeito que praticou o ato penalmente reprovável e efetivamente condenado, é praticamente rotulado no meio social como alguém de conduta duvidosa e desviada, afetando sua participação na sociedade, no mercado de trabalho. O ato natural de rotular o criminoso, iniciado na criminalização secundária e consolidado na terciária, acabou por dar origem à teoria da labelling approach ou “Etiquetamento Social”. Essa teoria altera o objeto de estudo da própria criminologia, dando menos importância ao crime ou ao criminoso em si e passando a focar suas análises nas instâncias de controle social e sua atuação face a criminalidade. Reflita A Teoria do Etiquetamento Social faz uma espécie de interligação entre os conceitos de crime e criminoso e o próprio comportamento social, considerando seus costumes e valores socialmente aceitos, sob o argumento de que este sim, seriam os criadores das chamadas etiquetas sociais, em detrimento do ato criminoso em si. Um claro exemplo da aplicação prática da labelling approach é o estudo comparativo da Lei Federal nº 9.249/95 (Imposto de Renda) e do Código Penal. O art. 34 da Lei nº 9.249/95 dispõe que “extingue-se a punibilidade dos crimes definidos na Lei nº 8.137, de 27 de dezembro de 1990, e na Lei nº 4.729, de 14 de julho de 1965, quando o agente promover o pagamento do tributo ou contribuição social, inclusive acessórios, antes do recebimento da denúncia”. Assim, nota-se que não houve preocupação em manter a estigma de criminoso em quem devolve os valores em crime contra o Sistema Tributário. Por sua vez, em se tratando de crimes contra o particular, a labelling approach se torna evidente, principalmente ante a clara previsão legal de manutenção da pena, considerando- se a devolução mera causa de redução desta, conforme disposição expressa do art. 16 do Código Penal. Desta forma, ao analisar as nuances do processo de criminalização, indispensável dar atenção a todas as suas fases, incluindo os efeitos da criminalização terciária e a influência da aplicação da pena no meio social ou ainda, o inverso, a influência que o meio social exerce sobre a aplicação da pena e os efeitos dela decorrentes. Aula vídeo tratando do processo de criminalização em sua fase terciária, com enfoque na efetiva aplicação da pena e a Teoria da labelling approach. FORMAÇÃO DO SENSO COMUM É possível extrair do conteúdo da presente aula que, seja na fase primária, secundária ou terciária do processo de criminalização, o senso comum, criado a partir dos costumes e das vivências cotidianas é o grande responsável pela evolução e pelas diretrizes seguidas pelo próprio processo de criminalização. Uma conduta criminalizada não é assim considerada de forma automática, é necessário que o ato praticado afete de tal modo o convívio em sociedade que o senso comum, considerando-o desprezível e atentatório ao “modo de vida normal”, entenda por bem criminalizá-lo. O senso comum sempre influenciou diretamente no próprio conceito de criminoso. Em meados do século XIX, por exemplo, imperava o positivismo científico, no qual se destacou Cesare Lombroso, defendendo que nem todos os indivíduos são iguais e apontando que os criminosos agiam de forma predeterminada. A política criminal nesta época visava a efetiva defesa social, cujo objetivo primordial era a identificação e neutralização dos indivíduos que cometessem atos contrários à normativa penal. A própria pena aplicada aos sujeitos desviantes, decorre do senso comum, posto que uma de suas finalidades é incutir temor no cidadão a fim de coibir práticas criminosas, a respeito do tema, Teresa Pires do Rio Caldeira, em sua obra Cidade de muros: crime, segregação e cidadania em São Paulo (2000, p. 375), faz um paralelo do temor incutido pelas penas e a resistência à expansão da democracia, afirmando: Poderíamos sugerir que, por meio da questão da punição violenta e do crime, os brasileiros articulam uma forma de resistência às tentativas de expandir a democracia e o respeito pelos direitos além dos limites do sistema político. No contexto da transição para a democracia, o medo do crime e os desejos de vingançaprivada e violenta vieram simbolizar a resistência à expansão da democracia para novas dimensões da cultura brasileira, das relações sociais e da vida cotidiana. Reflita O senso comum, na medida que definido como a mescla entre costumes e experiências inerentes à vivência humana, no campo do processo de criminalização, deve ser tratada com cuidado. As pessoas que passam por situações traumáticas relacionadas a fatos criminosos perpetrados contra elas, por vezes são dominadas por sentimento de vingança que não possui qualquer correlação com as políticas criminais voltadas à efetiva prevenção do crime, buscando única e exclusivamente maior severidade na aplicação da lei penal. Assim, em que pese a importância do senso comum no avanço das políticas relativas ao próprio processo de criminalização, a fim de preservar as garantias constitucionais, o legislador, enquanto agente atuante da fase primária do processo de criminalização, deve ser cauteloso, a fim de não trazer à tona políticas repressivas que, sob o falso manto de proteção a população, ataquem as liberdades individuais que, custosamente foram conquistadas, posto que o Direito Penal de garantias não deve, em hipótese alguma, ser pautado em sentimento de vingança privada. Aula vídeo com explicações acerca das influências que o senso comum e a opinião pública tem no desenvolvimento do processo de criminalização. ESTUDO DE CASO Dado o caráter técnico-político do processo de criminalização primária, o aluno deve discorrer acerca da influência que o senso comum, formado a partir dos costumes e da opinião pública, exerce sobre o processo legislativo em matéria penal. RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO Espera-se que, com a efetiva análise do conteúdo da aula, o estudante exponha seu pensamento por meio de dissertação, no qual aponte que o processo de criminalização primária tem por objetivo a criação de tipos penais que tutelem os bens e valores indispensáveis à convivência em sociedade, definindo as penas aplicadas e a forma de seu cumprimento. O aluno deve ressaltar ainda que a atuação do legislador, enquanto protagonista do processo de criminalização primário, possui caráter político, operando de maneira abstrata, principalmente ante a importância da opinião pública e da formação do senso comum na definição das condutas penalmente reprováveis. Espera-se que a conclusão seja no sentido de que a própria definição de um sujeito como criminoso, se baliza na forma como a sociedade reage ao cometimento de determinada conduta, assim, o senso comum e a própria reação social definem se o comportamento adotado por determinado sujeito é reprovável o suficiente, a fim de exigir do legislador, a adoção de medidas que importam na criação ou alteração de um tipo penal. Saiba mais Na dissertação sobre a questão social e criminalização da pobreza: o senso comum penal no Brasil, Laura Freitas de Oliveira faz uma análise da questão de tempos e também sobre o papel do assistente social no campo do sistema penitenciário. OLIVEIRA, L. F. de. Questão social e criminalização da pobreza: o senso comum penal no Brasil. EM PAUTA, Rio de Janeiro: 1º Semestre de 2019. n. 43, v. 17, p. 108 – 122. Outras dicas de leitura são: Medo do Crime e Criminalização da Juventude escrito por Bruna Gisi Martis de Almeida. A Aplicabilidade da Lei Penal e a Punibilidade do Senso Comum: a criminologia da reação social na conduta desviada escrito por Paula Charlie Colet. O PROCEDIMENTO CRIMINALIZANTE O presente estudo tem por finalidade a análise e a compreensão do procedimento criminalizante e suas nuances a partir de explanações acerca de seu rito procedimental e das problemáticas inerentes a ele. INTRODUÇÃO Olá, estudante! O presente estudo tem por finalidade a análise e a compreensão do procedimento criminalizante e suas nuances a partir de explanações acerca de seu rito procedimental e das problemáticas inerentes a ele. Abordaremos, portanto, aspectos relevantes do ponto de vista social e criminológico, como as dificuldades de acesso ao Poder Judiciário por parte de populações menos favorecidas e as medidas adotadas com a finalidade de se reduzir a desigualdade do ponto de vista jurídico-social. Outro aspecto relevante que será tratado diz respeito à seletividade do poder punitivo e às falhas do próprio Estado no papel de garantidor dos direitos fundamentais e a teoria da vulnerabilidade e sua visão enquanto atenuante de culpabilidade. O RITO PROCEDIMENTAL Ao adentrarmos o processo de criminalização sob o enfoque da criminologia moderna, é imperioso tratamos do rito procedimental relativo a ele e dos efeitos a médio e longo prazo que os ritos de maior complexidade podem causar àqueles que incorrem em infrações. A identificação do rito procedimental dentro do processo penal exerce o papel de filtro primário, sendo definido pelo grau de reprovação da conduta e o nível de proteção ao bem jurídico afetado. É importante ressaltar que o processo criminal tem índole estritamente condenatória, sendo que o sujeito que sofre um processo dessa espécie, independentemente de seu resultado final, suporta seus efeitos estigmatizantes e de caráter social, mesmo com eventual absolvição. A violência na sociedade contemporânea pode ser definida como o produto decorrente da falha no próprio processo social decorrente da ineficiência do Estado enquanto agente responsável pelo processo de prevenção primária de situações de crime, na medida que as ações realizadas neste processo geralmente possuem caráter social, econômico e educativo, atacando, desta forma, a causa inicial da conduta criminosa. Assim, o objeto primordial do rito processual penal acaba por focar a violência em sentido amplo, ou seja, os atos de desordem social que contrariam as normas, a moral e, até mesmo, o senso comum. Por rito procedimental, podemos entender a sequência de atos preordenados e voltados a um determinado provimento final, sendo que, no âmbito do direito penal, esses procedimentos são divididos em: ordinário, sumário, sumaríssimo, júri e especiais. Não pretendemos esgotar o tema relativo aos ritos procedimentais, até porque não é o objeto central desta aula; a nossa intenção é traçar um panorama geral a respeito de tais procedimentos para demonstrar o efeito estigmatizante que o procedimento exerce sobre o sujeito processado do ponto de vista social. O rito ordinário é adotado com relação a crimes cuja pena é a reclusão, em que não há exigência do rito especial; já o rito sumário é aplicável aos crimes em que a pena cominada é de detenção superior a dois anos, e em se tratando do rito sumaríssimo, este é aplicado às infrações cuja pena máxima não ultrapassa dois anos. O rito do Júri, por sua vez, é aplicado nas hipóteses de crime doloso contra a vida; por fim, os ritos especiais são aqueles com tramitação diferenciada, como os previstos no Código de Processo Penal (crimes praticados por servidores públicos) e em legislação esparsa (Lei de Drogas). Com isso, temos que, quanto maior a complexidade do ato perpetrado, mais complexo o rito procedimental aplicável e maior a estigma causada. Em que pese a previsão constitucional da presunção de inocência, em certos casos há uma espécie de mitigação devido a influências internas e externas, dificultando, por vezes, o próprio exercício do contraditório, posto que, quando o réu pertence a uma classe que possui o rótulo de marginalizada, antes mesmo da prolação de uma sentença, ele é mercado por olhares de reprovação, fato este que se agrava quando o sujeito possui condenações anteriores ou mesmo se sofreu algum processo que culminou em sua absolvição. Assim, é possível concluir que, qualquer que seja o rito e/ou procedimento a que o sujeito se submeta, as estigmas causadas são profundas e suas consequências incalculáveis, principalmente do ponto de vistada aceitação social. Videoaula versando sobre os ritos procedimentais penais e os efeitos estigmatizantes que o processo penal causa aos que sofrem suas consequências. ACESSO AO PODER JUDICIÁRIO A Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada e proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas (resolução 217 A III) em 10 de dezembro 1948, em seu art. 8º, é enfática ao dispor que todo ser humano tem direito a receber dos tribunais nacionais competentes remédio efetivo para os atos que violam os direitos fundamentais que lhe são reconhecidos pela Constituição ou pela lei. De igual forma, a convenção Americana de Direitos Humanos (1969), em seu art. 8º e 25, define as garantias judiciais a todas as pessoas e o direito à proteção judicial. Ao tratar do acesso à justiça, Mauro Capelletti, em sua obra Justice Acess, aponta a dificuldade em conceituar a expressão, mas, a fim de demonstrar a sua essencialidade, a coloca como um dos pilares de funcionamento do próprio sistema jurídico em si, in verbis: A expressão ‘acesso à justiça’ é reconhecidamente de difícil definição, mas serve para determinar duas finalidades básicas do sistema jurídico – o sistema pelo qual as pessoas podem reivindicar seus direitos e/ou resolver seus litígios sob os auspícios do Estado. Primeiro, o sistema deve ser igualmente acessível a todos; segundo, ele deve produzir resultados que sejam individual e socialmente justos. (1988, p. 8) O acesso ao judiciário em matéria penal está intrinsecamente ligado à acessibilidade técnica e econômica; nesse ponto, é importante ressaltar que, caso alguém seja acusado e não apresente condições econômicas para contratar um defensor, terá o auxílio da Defensoria Pública, a fim de possibilitar o efetivo exercício do contraditório e da ampla defesa. A expressão “acesso ao poder judiciário” na definição formal do termo pode ser definida como o efetivo direito de acesso ao órgão jurisdicional por parte do acusado a fim de exercer sua defesa e a efetiva simplificação de seus procedimentos. Não se deve, em qualquer hipótese, confundir o acesso à justiça com o acesso ao judiciário; enquanto o primeiro tem conceito e não se esgota com o simples acesso ao judiciário, o segundo, de caráter estrito, diz respeito à instituição em si, dotada de linguagem e procedimentos próprios, e à necessidade de aproximação desta com o povo. Um exemplo de promoção do acesso ao judiciário em matéria penal é a edição da Lei dos Juizados Especiais (9.099/95) cujos procedimentos por ela regidos obedecem aos princípios da oralidade, informalidade, economia processual e celeridade, traduzindo-se em verdadeiro esforço do legislador na busca pela redução da complexidade processual. A Lei Federal 9.099/95 apresenta claro caráter despenalizador e facilitador, posto que a redução de documentos necessários ao deslinde do feito tem o condão de facilitar o entendimento por parte do acusado e acelerar o trâmite processual. Os atos no âmbito do Juizado Especial Criminal são praticados com o mínimo de formalidade possível, sendo, a eles, atribuído validade, nos termos do art. 13 do mesmo códex, sempre que preenchem as finalidades para as quais foram realizados. Assim, no estudo criminológico das políticas criminais e dos processos de criminalização, é vital o reconhecimento, do ponto de vista político-social, dos esforços lançados pelo legislador em ampliar não apenas o acesso à justiça mas o acesso ao judiciário, simplificando seus procedimentos e facilitando os meios de defesa por parte dos acusados. Videoaula tratando do acesso ao judiciário em seu conceito estrito e sua distinção com o acesso à justiça em sentido amplo. SELETIVIDADE DO PODER PUNITIVO Visando à efetiva análise da seletividade do poder punitivo do ponto de vista sociológico, é necessário que nos debrucemos sobre a efetiva ação punitiva do Estado em face à infringência de uma conduta tipificada pela norma penal, ou seja, sobre o processo de criminalização secundária. Como explanado anteriormente, na fase secundária do processo de criminalização, temos a atuação de instituições como o Ministério Público, o Judiciário e da própria polícia enquanto agente de controle social. Durante essa fase, é possível observar com maior clareza a seletividade do poder punitivo, e a esse respeito, Orlando Zaconne (2004, p. 184), aponta que “não é possível ao sistema penal prender, processar e julgar todas as pessoas que realizam as condutas descritas na lei como crime e, por conseguinte, opta entre o caminho da inatividade ou da seleção”. Dessa forma, buscando afastar sua inatividade ou mesmo omissão, o Estado acabou por optar pelo caminho da seleção diretamente influenciado por estigmas sociais. Esse modelo de atuação, baseado em uma espécie de seletividade punitiva velada, traz resquícios das teses defendidas por Cesare Lombroso no apogeu do positivismo científico. Lombroso realizou pesquisas embasadas na correlação entre o desenvolvimento social e os fatores criminológicos, apontando que o sujeito que comete um ato ilícito possui aspectos físicos ou fisionômicos que, por si, indicam sua criminalidade. O sistema penal, do ponto de vista garantista e constitucional, deve ser igualitário e comprometido com a efetiva preservação da dignidade da pessoa humana, porém o que se verifica efetivamente é que, na tentativa de não se tornar ineficiente, acaba por se revelar um sistema seletivo e repressivo. O jurista argentino Eugenio Raúl Zaffaroni (2011), seguindo a mesma esteira de raciocínio, é didático ao tratar do assunto: Por tratar-se de pessoas desvaloradas, é possível associar-lhes todas as cargas negativas existentes na sociedade sob forma de preconceitos, o que resulta em fixar uma imagem pública do delinquente com componentes de classe social, étnicos, etários, de gênero e estéticos. (p. 46) Mesmo que de forma velada e não intencional, o critério de seleção empregado na fase secundária do processo de criminalização acaba sendo estereotipado, voltado a selecionar pessoas de classes menos favorecidas e deixando de lado os autores de outros delitos que moram em bairros de classe social mais alta. Com isso, é de fácil observação que a essência do sistema punitivo, visando a uma maior efetividade de suas ações, é seletiva, do ponto de vista político-social, e objetiva, a partir de condutas repressivas, difundir o medo na população economicamente menos favorecida como uma estratégia de controle social, aumentando exponencialmente sua eficiência ao dar atenção a delitos menores em detrimento de condutas consideradas, por vezes, mais complexas. Seguindo essa linha de raciocínio, conclui-se que o Estado, enquanto agente punitivo, aplica a justiça seletiva principalmente contra a população mais vulnerável, sendo necessário, dessa forma, conter os agentes da segunda fase do processo de criminalização quando operam contra os menos favorecidos, pois, se de um lado está a população mais propícia ao cometimento de condutas ilícitas, de outro, o Estado é o real responsável por deixar de promover a melhora de suas condições. Saiba mais SOUZA. K. R. F. de; PINHEIRO, L. G. B. A seletividade do sistema penal como instrumento de controle social: uma análise a partir do caso Rafael Braga Vieira. Clique aqui para acessar. SÁ. S de. Culpabilidade: da teoria psicológica à teoria normativa pura e sua consolidação como princípio. Clique aqui para acessar. DAMASCENO. A. A. Acesso à justiça penal? Não, obrigado. Clique aqui para acessar. Videoaula acerca da seletividade do poder punitivo com explanações sobre o processo secundário de criminalização e como a política penal ataca, geralmente, as classes menos favorecidas. TEORIA DA VULNERABILIDADE Ao estudarmos o procedimento criminalizante, as influências e os efeitos sociais dele decorrentes, faz-se indispensável uma análise acurada acercada teoria da vulnerabilidade. Essa teoria, concebida por Eugênio Raúl Zaffaroni, defende que as condições social e econômica do agente que comete determinada conduta delituosa, quando reduzida o suficiente a ponto de que a prática de um crime seja o único caminho lógico a seguir, devem ser analisadas como atenuantes de sua culpabilidade. A fim de proceder a efetiva análise quanto à vulnerabilidade do sujeito, Zaffaroni (2002) aponta a necessidade de se levar em conta o vínculo existente entre o delito e o criminoso, que é estabelecido na fase secundária do processo de criminalização, e o que ele chama de “perigosidade do sistema penal”, esclarecendo que o grau de perigosidade é individualizado, decorrente, justamente, de seu estado de vulnerabilidade. Zaffaroni (2002, p. 654) enfatiza que “o estado de vulnerabilidade se integra com os dados que formam seu status social, classe, colocação laboral ou profissional, renda, estereótipo, que se aplica, ou seja, por sua posição dentro da escala social”. Sob esse enfoque, é possível traçar um paralelo entre o poder punitivo e o estado de vulnerabilidade, verificando que a relação entre os dois é diretamente inversa. Dessa forma, quanto melhor a condição socioeconômica de uma determinada pessoa, menor o risco de criminalização, posto que estão ausentes as vulnerabilidades econômica, educacional, ética ou mesmo cultural. A teoria da vulnerabilidade surgiu a partir da teoria da coculpabilidade, sendo a primeira uma espécie de evolução da segunda. A coculpabilidade defendia a tese de que o meio social, enquanto excludente e estigmatizador, deveria dividir a responsabilidade com o agente que cometeu a conduta delituosa, reduzindo a pena do criminoso ante a participação da própria sociedade em sua tomada de decisão. Como evolução lógica da coculpabilidade, a teoria da vulnerabilidade tem um conceito mais amplo e defende que o Estado, enquanto garantidor de direitos básicos, falha ao não fornecer educação ou melhores condições ao sujeito, o que, por si só, contribui para o ingresso deste no meio criminal, por isso, ante a omissão do Estado, a vulnerabilidade do agente (não apenas econômica) deve abrandar a sanção aplicada em razão da prática delituosa. Ao discorrer sobre o tema, o professor Nilo Batista (2004, p. 105) é didático: Trata-se de considerar, no juízo de reprovabilidade que é a essência da culpabilidade, a concreta experiência social dos réus, as oportunidades que se lhes deparam e a assistência que lhes foi ministrada, correlacionando sua própria responsabilidade a uma responsabilidade geral do estado que vai impor-lhes a pena; em certa medida. Com isso, podemos concluir que a teoria da vulnerabilidade de Zaffaroni busca conciliar a constante evolução sociológica e o aumento da desigualdade social decorrente de uma má prestação de serviços por parte do Estado (enquanto garantidor de direitos básicos) com a necessidade de se tomar em conta a própria influência que o meio ambiente social exerce sobre o agente que comete a conduta delituosa, quando da dosimetria da pena aplicada, conferindo-lhe tratamento desigual com o propósito de alcançar a isonomia na medida de sua vulnerabilidade. Videoaula com explicações acerca da teoria da vulnerabilidade com exemplos de sua aplicação prática. ESTUDO DE CASO Sob a ótica da teoria da vulnerabilidade, você deverá discorrer sobre a possibilidade de se considerar alguma atenuante no exame da culpabilidade ou da aplicação da pena ao caso “Lázaro” – comentado em larga escala na mídia no ano de 2021. Essa análise terá de ser feita sob a razão do meio em que ele viveu, o sistema humilde em que foi criado, os pares que o acompanharam e sua exposição a outros presos. RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO Em relação à problemática apresentada, você deve discorrer sobre a aplicabilidade da teoria da vulnerabilidade de Zaffaroni, expondo que a teoria defende que as condições social e econômica do agente que comete determinada conduta delituosa, quando reduzida o suficiente, a ponto de que a prática de um crime seja o único caminho lógico a seguir, devem ser analisadas como atenuantes de sua culpabilidade. É esperado que, em análise ao caso Lázaro, você destaque a relação entre a vulnerabilidade social e a violência, apontando que o Estado, enquanto garantidor de direitos básicos, falha ao não fornecer educação ou melhores condições ao sujeito, o que, por si só, contribui para o ingresso deste no meio criminal, por isso, ante a omissão do Estado, a vulnerabilidade do agente (não apenas econômica) deve abrandar a sanção aplicada em razão da prática delituosa. Dessa forma, ao concluir seu raciocínio, você deve demonstrar a possibilidade de aplicação da mencionada teoria não apenas aos crimes patrimoniais mas também aos demais crimes, desde que, como observado no caso concreto, seja possível definir que as condições sociais e o próprio meio em que vive o agente influenciam sua conduta delituosa ante a falha do Estado em lhe dar melhores condições. CONTROLE SOCIAL Durante os estudos, aprofundaremos nos efeitos que o controle social difuso e institucionalizado exercem no processo de criminalização. INTRODUÇÃO Olá, estudante! Durante os estudos, aprofundaremos nos efeitos que o controle social difuso e institucionalizado exercem no processo de criminalização. O controle social pode ser definido como o instrumento voltado a induzir um determinado comportamento em elementos de um grupo social ou da própria sociedade, sejam estes comportamentos positivos ou negativos. O controle social difuso é aquele relacionado a cada sujeito de modo individual e está ligado diretamente com a vida privada de cada um. Nesta seara, podemos citar a religião e a mídia, como exemplos de controle social difuso, na medida em que exercem papel direcionador de condutas. Por sua vez, o controle social institucionalizado é aquele ligado diretamente ao Estado e que, de igual forma, direciona a conduta de grupos sociais, como é o caso do Sistema Escolar (por meio da ampliação de conhecimento) e do Sistema Penal (incutindo o medo da segregação). CONTROLE SOCIAL DIFUSO – RELIGIÃO A forma como um indivíduo convive em sociedade não é ditada por suas condições biológicas, mas sim, pelos sentimentos desenvolvidos pelo próprio indivíduo enquanto membro de determinado grupo. Ao tratarmos da religião enquanto instrumento de controle social, é importante enfatizar que estamos tratando da instituição religiosa em si e não propriamente de uma religião em particular. Para analisarmos a religião sob este enfoque, é preciso ter em mente a existência de um dogma religioso, do que chamamos de “lei divina”, com a estipulação de condutas vedadas ou pecaminosas que, se executadas, ofendam a vontade divina e afetem a convivência com outros fieis. A religião do ponto de vista do controle social caracteriza-se pela existência de uma comunidade religiosa, ou seja, um grupo social que conjuntamente possui as mesmas crenças e segue a mesma lei divina. O sociólogo David Émile Durkheim (1886, p. 172-173), ao tratar da função social da religião em sua obra Os estudos de ciência social, foi didático: Efectivamente, que diferença há entre as prescrições religiosas e as imposições da moral? Elas dirigem-se igualmente aos membros de uma mesma comunidade, apoiam-se em sanções por vezes idênticas, sempre análogas; enfim, a violação de umas e de outras provoca nas consciências os mesmos sentimentos de indignação e repugnância. Durkheim aponta que não é possível estudar separadamente as prescrições religiosas e as imposições da moral, defendendo que, assim como a religião, o direito é um conjunto de ordens cumpridas em decorrência da ameaça de uma sanção material. No direito positivado, é cristalina a importância da religião, inclusive no que tange ao processo de ressocializaçãodo apenado, até por isso, a própria Lei Federal nº 7.210/84 – Lei de Execuções Penais (BRASIL, 1984), em seu art. 24 é cristalina ao dispor a respeito da prestação de assistência religiosa, assim definindo: Art. 24. A assistência religiosa, com liberdade de culto, será prestada aos presos e aos internados, permitindo-se-lhes a participação nos serviços organizados no estabelecimento penal, bem como a posse de livros de instrução religiosa. O parágrafo primeiro, do citado artigo dispõe ainda que no estabelecimento prisional deverá haver local apropriado à prática de cultos religiosos. É importante enfatizar que a religião, independentemente de sua crença ou dogma, do ponto de vista sociológico, cria uma espécie de solidariedade grupal, fortalecendo a integração do sujeito com o grupo social, conduzindo-o na tomada de decisões e na formação de seu modo de agir. Dentro do processo de criminalização e tomando por base a já estudada Routine Activity Theory, a religião pode exercer o papel de influenciadora psicológica do criminoso, desestimulando a prática de uma conduta ilícita e servindo como forma de prevenção à prática criminosa por meio do controle social. Assim, podemos definir a religião como forma de controle social difuso na qual o sujeito, integrado em determinado grupo social, é moralmente direcionado a adotar uma conduta condizente com sua crença religiosa e, visando não contrariar o comportamento do grupo a que pertence, é induzido a não executar uma conduta ilícita, demonstrando assim, a importância do papel que a religião exerce na prevenção do crime. Aula vídeo relativa ao papel que a religião enquanto instituição de controle social exerce sobre o indivíduo e sua atuação na prevenção ao crime. CONTROLE SOCIAL DIFUSO – MÍDIA Antes de adentrar a esta seara, é importante ressaltar que não se pretende, no presente estudo, criticar a atuação da mídia, sendo reconhecida sua importância para o pleno funcionamento e preservação do Estado Democrático, principalmente ante a garantia da liberdade de expressão e a necessidade, cada vez maior, de transparência em todos os atos praticados pelo Estado. Com a expansão das formas de transmissão, as notícias passaram a alcançar uma parcela cada vez maior da sociedade, o que por si só é algo exemplar, porém, a propagação de conteúdo, por vezes, assume tons severos e extremistas, capazes de influenciar grupos sociais inteiros. A respeito do tema o jurista argentino Eugenio Raúl Zaffaroni (2012, p. 333) é enfático ao tratar dos efeitos que o extremismo da mídia causa: a criminologia midiática não tem limites, que ela vai num crescendo infinito e acaba clamando pelo inadmissível: pena de morte, expulsão de todos os imigrantes, demolição dos bairros pobres, deslocamento de população, castração dos estupradores, legalização da tortura, redução da obra pública à construção de cadeias, supressão de todas as garantias penais e processuais, destituição dos juízes. A mídia, enquanto ferramenta de influência, ao noticiar um fato criminoso sem objetividade, apelando, por vezes, ao sensacionalismo, acaba criando verdadeiros “escândalos criminis” e, com apoio popular decorrente do alcance, leva o legislador a promover alterações na lei penal e pior, induz a prolação de decisões pouco fundamentas que se baseiam mais em atender os anseios da população do que na justiça propriamente dita. Outro aspecto relevante relativo ao controle social exercido pela mídia, diz respeito à exposição direta do sujeito acusado de um delito, desrespeitando irreversivelmente suas garantias fundamentais constitucionalmente previstas, principalmente no que tange a clara violação ao princípio da presunção de inocência, pilar do Estado Democrático de Direito. Com relação à violação de tal preceito, Marilia de Nardin Budó (2013, p. 102), ao tratar do assunto aponta que “a pena instituída pelos meios de comunicação é a execração pública do suspeito ou acusado, a violação de sua imagem, honra, estado de inocência, sua estigmatização, de forma irrecuperável”. Desta forma, é perceptível que a influência da mídia no processo de criminalização pode seguir caminhos danosos, quando do ponto de vista da rotulação e estigmatização do indivíduo face a sociedade, desrespeitando, inclusive, o princípio da presunção de inocência ou ainda, pode auxiliar na formação de sistema dotado de maior repressão, quando analisado sob a ótica do recrudescimento do sistema penal, advindo do apelo popular por uma solução imediata para os problemas de segurança. Com isso, a mídia pode ser considerada uma ferramenta de controle social difuso e informal apta a influenciar de forma positiva ou negativa a população quando não atuante de forma objetiva e parcial. Aula vídeo tratando das influências da mídia no processo de criminalização e sua capacidade de influenciar a população. CONTROLE SOCIAL INSTITUCIONALIZADO - SISTEMA ESCOLAR A educação, conforme previsão da própria Constituição da República Federativa do Brasil (BRASIL, 1988) “é direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. Assim, é perceptível que a educação visa o desenvolvimento da pessoa e, sem ela, a própria construção da convivência em sociedade estaria ameaçada. É importante relembrarmos que, na fase primária do processo de prevenção de situações de crime, o Estado tem por objeto a implementação de ações indiretas voltadas à prevenção, evitando estímulos a prática criminosa. Essas ações possuem caráter social, econômico e educativo, atacando, desta forma, a causa inicial da conduta criminosa, evitando, assim, que o indivíduo cometa desvios. O Estado, enquanto garantidor dos direitos fundamentais, visando a efetiva redução da criminalidade, deve intervir de forma preventiva para conscientizar os cidadãos, desde as primeiras fases da educação básica, de suas responsabilidades no que concerne à segurança pública. Como instrumento de controle social institucionalizado, o sistema escolar é responsável por afastar a juventude da criminalidade, posto que, quanto maior o grau de escolaridade de um determinado grupo, menor a incidência de delitos. Assim, o Estado, atuando na prevenção de condutas criminosas, deve maior atenção às políticas voltadas ao processo educacional, visando assim, a gradativa redução da criminalidade. Émile Durkheim (1975, p. 41-42) ao tratar da educação e o seu papel na formação social do indivíduo, conclui que: A educação consiste numa socialização metódica das novas gerações. Em cada um de nós, já o vimos, pode-se dizer que existem dois seres. Um, constituído de todos os estados mentais que não se relacionam senão conosco mesmo e com os acontecimentos de nossa vida pessoal; é o que se poderia chamar de ser individual. O outro é o sistema de ideias sentimentos e de hábitos, que exprimem em nós não a nossa personalidade, mas o grupo ou os grupos diferentes de que fazemos parte; tais são as crenças religiosas, as crenças e as práticas morais, as tradições nacionais ou profissionais, as opiniões coletivas de toda a espécie. Seu conjunto forma o ser social. Constituir esse ser em cada um de nós - tal é o fim da educação Sob este enfoque, podemos constatar que a educação, enquanto instrumento de controle social institucionalizado, exerce importante papel na constituição da sociedade e no direcionamento da tomada de decisão de cada indivíduo enquanto membro desta sociedade. Traçando um paralelo com países que realizaram maiores investimentos no âmbito educacional como a Noruega, Finlândia e Dinamarca, é possível verificar que houve uma redução exponencial dos índices e da criminalidade quando em comparação com o Brasil. Desta forma é preciso destacar que,a fim de aumentar a efetividade das medidas de prevenção ao crime, é fundamental um maior investimento nas políticas educacionais, posto que o aumento da criminalidade é inversamente proporcional aos níveis educacionais. Saiba mais WEISS, R. Durkheim e as formas elementares da vida religiosa. Clique aqui para acessar. SILVEIRA, F. L. da. Mídia, medo e controle: ensaio sobre o papel da mídia na dinâmica do recrudescimento do sistema penal. Clique aqui para acessar. Aula vídeo versando sobre o papel do sistema educacional enquanto instituição de controle social institucionalizada e os efeitos deste na prevenção a criminalidade. CONTROLE SOCIAL INSTITUCIONALIZADO - SISTEMA PENAL O sistema penal, enquanto ferramenta de controle social institucionalizado, tem por objetivo incutir o medo da pena, decorrente da prática de uma conduta tida como ilícita, atuando, consequentemente na prevenção do delito. Conforme já abordado, a essência do sistema punitivo, visando maior efetividade em suas ações, é seletiva do ponto de vista político-social e objetiva, por meio de condutas repressivas, difundir o medo na população economicamente menos favorecida como estratégia de controle social, aumentando exponencialmente sua eficiência ao dar atenção a delitos menores, em detrimento de condutas consideradas por vezes mais complexas. Ao tratar do assunto, Eugenio Raúl Zaffaroni (2012, p. 23) defende que o sistema penal exerce uma espécie de controle social militarizado e verticalizado: Mediante está expressa e legal renúncia à legalidade penal, os órgãos do sistema penal são encarregados de um controle social militarizado e verticalizado, de uso cotidiano, exercido sobre a grande maioria da população, que se estende além do alcance meramente repressivo, por ser substancialmente configurador da vida social. Sob este prisma, o autor dá ênfase à Teoria da Seletividade do Poder Punitivo e a preferência do sistema penal ao selecionar os setores marginalizados da sociedade em sua atuação. Ao tratar do sistema penal propriamente dito, o professor Nilo Batista (2007, p. 25) aponta que este é formado pela instituição policial, a instituição judiciária e a instituição penitenciária, sendo que, a este grupo, compete a efetiva realização do Direito Penal. A instituição policial, no que tange ao controle social atua diretamente na fase secundária do processo de criminalização é a primeira a realizar a análise do processo de criminalização, até porque, quando da realização de uma conduta tipificada como penalmente reprovável, o primeiro contato é justamente com a organização policial, a qual, por meio de seus agentes, identifica a materialidade do delito e os investiga com o objetivo de identificar indícios de sua autoria. Assim, a atuação repressiva da instituição policial serve de ferramenta de controle social, posto que o coíbe a prática de condutas delitivas. A instituição judiciária, por sua vez, também atuante na fase secundária do processo de criminalização, servindo aos propósitos de controle social institucionalizado, posto que, sua postura estigmatizante e penosa, faz com que os sujeitos que respondam processos judiciais, mesmo que ao final sejam absolvidos, sofram com o trâmite judicial deste, incutindo na população em geral, uma espécie de medo do processamento judicial, servindo, desta forma, como medida de controle social preventiva. Por fim, a instituição penitenciária, enquanto ferramenta de controle social institucionalizado, tem por objetivo incutir o medo da segregação no indivíduo, fazendo que os grupos suscetíveis às práticas criminosas sintam-se desencorajados de cometer delitos devido ao medo da aplicação de penas severas. Desta forma, é possível concluir que o Sistema Penal, formado pelas instituições policial, judiciária e penitenciária, no âmbito do controle social institucionalizado, e tem por objeto coibir práticas criminosas, operando de forma repressiva ou mesmo preventiva, pautadas no medo do cidadão da aplicação das severidades da lei. Aula vídeo relativa ao sistema penal e sua atuação repressiva e preventiva no combate à criminalidade enquanto instituição de controle social. ESTUDO DE CASO Diante do quanto abordado, o estudante deve discorrer acerca do reflexo social e institucional provocado pela educação, no âmbito do Direito Penal. RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO Tomando por base as premissas estudadas, é esperado que o estudante discorra sobre as respostas sociais positivas e equilibradas provocadas pelo investimento estatal em seu sistema educacional, fundamentando que o avanço e desenvolvimento da educação enseja o encorajamento e a motivação. É importante que o estudante aborde o tema sob o enfoque de que a Teoria da Seletividade do Poder Punitivo traz a premissa de provocar o medo do castigo, enquanto com o efetivo desenvolvimento educacional, o Estado deixa de investir na política do medo, passando a atacar a raiz do problema, inclusive como forma de prevenção primária a conduta criminosa. O estudante deve enfatizar que as ações realizadas na prevenção primária geralmente possuem caráter social, econômico e educativo, atacando, desta forma, a causa inicial da conduta criminosa, aumentando a renda do cidadão, melhorando as condições de moradia e emprego e possibilitando uma vida minimamente saudável e digna a estes, evitando, assim, que o indivíduo cometa desvios de conduta e atos criminosos. Com isso, deve voltar sua conclusão para as vantagens sociais do ponto de vista do processo de criminalização que se obtém com o investimento em educação, demonstrando que, quanto maior o grau de investimento, inversamente proporcional é a prática criminosa. SELETIVIDADE DO SISTEMA PENAL Ao decorrer dos estudos vamos nos aprofundar no tema relativo à seletividade do sistema penal em todas as fases do processo de criminalização e às formas de mitigação dessa problemática. INTRODUÇÃO Olá, estudante! Ao decorrer dos estudos vamos nos aprofundar no tema relativo à seletividade do sistema penal em todas as fases do processo de criminalização e às formas de mitigação dessa problemática. Ao adentrarmos no tema proposto, torna-se imperiosa a análise do processo de aplicação das penas e o confronto da finalidade e da efetividade do sistema punitivo sob a ótica da aplicação igualitária da retribuição penal. Aqui, aprofundaremos os conhecimentos relativos às escolas penais e o ponto de vista da criminologia crítica a respeito da função preventiva do sistema penal pautada na política do medo influenciada por fatores externos e internos inerentes ao próprio poder punitivo do Estado. A FUNÇÃO E OS FINS DA PENA Para tratarmos da seletividade no sistema penal, indispensável se faz abordar a função e a finalidade da pena sob a ótica do poder punitivo do Estado. Do ponto de vista histórico, as penas surgiram como forma de punição em decorrência de um mal causado. Nesse aspecto, é possível apontar que as penas se desenvolveram em 3 fases: vingança divina, vingança privada e vingança pública. A vingança de caráter religioso originou-se nos primórdios da civilização e tinha por finalidade punir aqueles que feriam a lei divina; assim, as “vítimas” propriamente ditas eram, de forma direta ou indireta, os entes divinos. Nesse período, as penas não tinham caráter retributivo ou restaurativo, mas, sim, um caráter meramente expiatório, ou seja, buscava- se, com a aplicação da pena, o perdão pelo pecado cometido. Após essa primeira fase, surgiu o período da vingança privada, em que foi deixada de lado a premissa de castigo divino e passou-se a dar importância aos sentimentos e anseios da vítima do fato danoso. Nesse período, não havia respeito ou mesmo definição de direitos fundamentais, imperavam a responsabilidade objetiva e o castigo violento ou desproporcional, como amputações, execuções e banimento.Com o desenvolvimento do direito e da própria vida em sociedade, alcançamos a época da vingança pública, em que o Estado passou a ser o detentor do poder punitivo, visando, ao menos em tese, à paz social. A respeito da evolução das penas, Luiz Régis Prado (2012, p. 84) é didático: Primeira época. Crimen é atentado contra os deuses. Pena, meio de aplacar a cólera divina; b) Segunda época. Crimen é agressão violenta de uma tribo contra outra. Pena, vingança de sangue de tribo a tribo; c) Terceira época. Crimen é transgressão da ordem jurídica estabelecida pelo poder do estado. Pena é a reação do Estado contra a vontade individual oposta à sua. A aplicação de pena tem por objetivo a proteção do bem social, porém, sob a ótica da seletividade do sistema penal, a função motivadora e a função social da sanção não estão em consonância, porque os grupos que detêm o poder de influenciar na edição ou mesmo na aplicação de normas penais, a fim de proteger seus objetivos escusos, desenvolvem meios de neutralizar a aplicabilidade da norma ou penal. Solução importante, ainda que economicamente onerosa, foi a da construção de novos presídios. Não só́ para criá-los em locais onde eles antes eram inexistentes, porém também para melhorá-los, modernizando-os, em locais onde eles já atuavam de forma ultrapassada e deficiente, gerando, em contrapartida, considerável tensão no es- pírito do reeducando neles submetidos à privação da liberdade. sob o prisma da edificação de penitenciárias, a prática tem demonstrado que o sistema implementado no Brasil encontra-se muito aquém do ideal. (Roberto, PORTO, Crime organizado e sistema Prisional. Disponível em: Minha Biblioteca, Grupo GEN, 2008) Sob essa ótica, é possível constatar que a seletividade do sistema penal influencia a própria finalidade da pena, uma vez que seu desvirtuamento remove a efetividade de aplicação do sistema penal como um todo; assim, o objetivo da pena de preservar um bem juridicamente tutelado, do ponto de vista social, fracassa quando a pena é aplicada somente em face da população menos favorecida e deixa de funcionar para as classes que detêm o poder. Videoaula relativa à função e aos fins da pena e sua ineficiência em face à seletividade do sistema penal no caso concreto. AS ESCOLAS PENAIS Para compreender a seletividade do sistema penal, é fundamental um estudo aprofundado acerca das principais escolas penais e da influência que exerceram na formação do direito penal moderno, bem como as nuances relativas a cada uma delas, em especial o positivismo científico e seus entendimentos relativos à concepção de seletividade. Quanto às escolas penais, é importante destacarmos as principais: a escola clássica, a escola positivista, o correcionalismo penal, o tecnicismo jurídico-penal e a defesa social. Sob a ótica da seletividade penal, a escola de maior destaque é a positivista, razão pela qual abordaremos, nesta aula, seus principais aspectos. Conforme já abordado, o positivismo científico teve como objeto de estudo o homem criminoso. Diversos autores, como Cesare Lombroso, defendiam que nem todos os indivíduos são iguais, apontando que os criminosos agiam de forma irracional e predeterminada. Lombroso, em claro entendimento seletivo do sujeito criminoso, acreditava que o delinquente apresenta características físicas que o tornam um “criminoso nato”. Em sua obra O homem delinquente, Lombroso (2001) apontou que, para cada tipo de conduta criminosa, as características fisiológicas são distintas, frisando que os violadores, por exemplo, quase sempre possuem olhos salientes, fisionomia delicada e lábios e pálpebras volumosos, enfatizando que, na maior parte das vezes, são frágeis, louros e magros. Por sua vez, Lombroso apontava que os homicidas e arrombadores apresentam cabelos crespos, maxilares possantes, crânio deformado, incidência de tatuagens e muitas cicatrizes. A atribuição de Lombroso relativa ao criminoso nato influenciou, de forma negativa, os sistemas penais, criando uma visão preconceituosa e estigmatizante do sujeito que comete uma conduta ilícita. A respeito do tema, Raul Eugenio Zaffaroni (2011) é didático ao expor seu pensamento sobre a criminalização decorrente da classe social influenciada pelos entendimentos advindos do positivismo científico: Há uma clara demonstração de que não somos todos igualmente ‘vulneráveis’ ao sistema penal, que costuma orientar-se por ‘estereótipos’ que recolhem os caracteres dos setores marginalizados e humildes, que a criminalização gera fenômeno de rejeição do etiquetado como também daquele que se solidariza ou contata com ele, de forma que a segregação se mantém na sociedade livre. A posterior perseguição por parte das autoridades com rol de suspeitos permanentes, incrementa a estigmatização social do criminalizado. Ante o exposto, é possível delinear que o desenvolvimento das escolas penais no decorrer dos anos foi crucial para o avanço do processo de criminalização, porém, com o advento do pensamento científico advindo da ascensão da escola positivista, o pensamento lombrosiano trouxe uma marca estigmatizante que influenciou e ainda influencia o direito. Sob a concepção seletivista, é fácil notar que o pensamento defendido pelo positivismo criou certa dose de separação racial e social, impondo que os criminosos, ante as suas características físicas, fossem segregados. Tal pensamento, por sua vez, não prospera nos dias atuais, porém sua influência é vista na atuação da fase secundária do processo de criminalização, em que as instituições de controle social, buscando maior efetividade em suas ações, agem, muitas vezes, com foco repressivo em face de populações menos favorecidas. Videoaula tratando das escolas penais sob a ótica da seletividade do sistema penal, principalmente no que tange às influências do pensamento lombrosiano no processo criminalizante. CRIMINOLOGIA CRÍTICA E A FUNÇÃO PREVENTIVA DO SISTEMA PENAL Desenvolvida por Alessandro Baratta, a teoria da criminologia crítica é uma ideia recente voltada ao aprofundamento dos estudos relativos à teoria do etiquetamento, servindo de verdadeira crítica ao sistema penal ante a sua cristalina seletividade. Em sua obra, Criminologia crítica y crítica del derecho penal, Alessandro Baratta (1986, p. 10) aponta que a justiça criminal, em sua essência, é seletiva do ponto de vista social, assim dispondo: O funcionamento da justiça penal é altamente seletivo, seja no que diz respeito à proteção outorgada aos bens e aos interesses, seja no que concerne ao processo de criminalização e ao recrutamento da clientela do sistema (a denominada população criminal). Todo ele está dirigido, quase que exclusivamente, contra as classes populares e, em particular, contra os grupos sociais mais débeis, como o evidencia a composição social da população carcerária, apesar de que os comportamentos socialmente negativos estão distribuídos em todos os extratos sociais e de que as violações mais graves aos direitos humanos ocorrem por obra de indivíduos pertencentes aos grupos dominantes ou que fazem parte de organismos estatais ou organizações econômicas privadas, legais ou ilegais Sob o enfoque da criminologia crítica, a variação social e a seletividade penal dela decorrente são impeditivos claros ao fracasso do sistema penal. A materialização da isonomia se dá pela edição da lei em abstrato, ainda na fase primária do processo de criminalização, sob a premissa de que, em sendo uma conduta considerada ilícita, o cidadão, com medo da aplicação de uma pena, abstém-se de praticá-la. A problemática surge quando a seletividade opera desde a fase inicial do processo de criminalização, como na fase primária. A Lei de Drogas (11.343/06) é um claro exemplo dessa conduta, uma vez que, em seu art. 28, § 2º, prevê a possibilidade de diferenciação do sujeito, se usuário ou traficante dedrogas, com base em aspectos sociais e pessoais. Veja: Art. 28 [...] § 2º Para determinar se a droga destinava-se a consumo pessoal, o juiz atenderá à natureza e à quantidade da substância apreendida, ao local e às condições em que se desenvolveu a ação, às circunstâncias sociais e pessoais, bem como à conduta e aos antecedentes do agente. Assim, segundo a criminologia crítica, o fracasso da justiça penal decorre da seletividade social intrínseca ao próprio processo de criminalização, que, mesmo com o desenvolvimento obtido no decorrer dos anos, mantem seu caráter repressivo e estigmatizante. Em se tratando da prevenção criminal, o estudo da criminologia crítica defende, visando à manutenção dos direitos humanos, a adoção de medidas menos interventivas por parte do Estado, enaltecendo os benefícios da adoção de meios alternativos de resolução de conflitos e a prevenção por meio da melhoria social em vez da ineficaz política do medo. Videoaula a respeito do posicionamento da criminologia crítica com relação à seletividade penal. DIREITO PENAL NÃO IGUALITÁRIO Como é possível concluir pela análise do conteúdo estudado até agora, as relações existentes entre o sistema penal e os direitos e garantias fundamentais são extremamente estreitas, havendo certa dose de flexibilidade visando, em tese, ao bem-estar social e à defesa dos bens juridicamente tutelados. A igualdade formal é prevista na Constituição da República Federativa do Brasil no caput do art. 5º (BRASIL, 1988), que nos traz a máxima de que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza” ([s. p.]). Já no âmbito do processo penal, o princípio da isonomia sofre certa relativização em razão do in dubio pro reo, como aponta Fernando Capez (2008, p. 19): As partes devem ter, em juízo, as mesmas oportunidades de fazer valer suas razões, e ser tratadas igualitariamente, na medida de suas igualdades, e desigualmente, na proporção de suas desigualdades. Na execução penal e no processo penal, o princípio sofre alguma atenuação pelo, também constitucional, princípio favor rei, postulado segundo o qual o interesse do acusado goza de alguma prevalência em contraste com a pretensão punitiva. Não obstante, ao tratarmos de direito penal igualitário, não estamos nos restringido ao respeito da isonomia constitucional em material processual, mas, sim, à ótica da seletividade do sistema. Dessa forma, vamos analisar, de modo amplo, a efetiva aplicabilidade da lei penal em face das populações menos favorecidas. Ao analisarmos a seletividade sob a ótica do direito penal não igualitário, temos que o legislador penal reprime determinados delitos com mais ferocidade do que outros que afetam bens jurídicos mais relevantes, por vezes, ou, ainda, concede benefícios de forma não isonômica aos infratores, traduzindo-se em verdadeira seleção arbitrária dos alvos da norma penal. A aplicação igualitária da norma penal não deve ser voltada à fixação de penas idênticas para delitos idênticos, mas, sim, estar ao alcance da lei de modo isonômico a todos os que cometem um delito. José Afonso da Silva (2014, p. 203), ao tratar do assunto, conceitua a igualdade penal de forma didática: Essa igualdade não há de ser entendida, já dissemos, como aplicação da mesma pena para o mesmo delito. Mas deve significar que a mesma lei penal e seus sistemas de sanções hão de se aplicar a todos quantos pratiquem o fato típico nela definido como crime. Sabe-se por experiência, contudo, que os menos afortunados ficam muito mais sujeitos aos rigores da justiça penal que os mais aquinhoados de bens materiais. As condições reais de desigualdade condicionam o tratamento desigual perante a lei penal, apesar do princípio da isonomia assegurado a todos pela Constituição (art. 5.º). Dessa feita, do ponto de vista da seletividade e até mesmo da criminologia crítica de Alessandro Baratta, é possível concluir que o Direito Penal, em que pese as disposições constitucionais, privilegia os interesses de classes dominantes e, por selecionar indivíduos de classes sociais mais baixas para aplicação incisiva de suas punições, de forma não igualitária, concede certa dose de imunização aos detentores de poder. Videoaula com explanações acerca da aplicação não igualitária na justiça penal sob o enfoque da seletividade e da criminologia crítica de Alessandro Baratta. ESTUDO DE CASO Imagine uma situação hipotética em que um sujeito tenha sido preso após a ocorrência de um suposto crime apenas por uma única semelhança: sua cor de pele. Na descrição do autor do delito, pela vítima, o crime foi praticado por um negro, alto, de camisa vermelha, ao passo que, a pessoa detida, apesar de negra, foi presa tempo depois da ocorrência dos fatos sem o objeto do crime, vestindo camisa azul e tendo estatura baixa. Por ocasião do seu reconhecimento na delegacia, todas as outras pessoas eram brancas, e o imputado foi reconhecido pela vítima pela forma que a autoridade policial conduziu o ato do reconhecimento. Frente a isso, e tendo em vista as premissas apresentadas, o estudante deve discorrer acerca da teoria do etiquetamento sob o enfoque da seletividade criada pelo sistema penal. RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO O estudante deve apontar que o ato do reconhecimento foi estigmatizado a ponto de induzir a vítima ao reconhecimento de um único negro colocado ao lado de outras pessoas brancas, uma vez que, todas as outras características são distintas daquelas narradas pela vítima. Com bases nas premissas estudadas, é esperado que o estudante aponte que o sistema penal, do ponto de vista garantista e constitucional, deve ser igualitário e comprometido com a efetiva preservação da dignidade da pessoa humana, porém o que se verifica efetivamente é que, na tentativa de não se tornar ineficiente, acaba por se revelar um sistema seletivo e repressivo. O estudante deve complementar sua dissertação apontando que, visando a afastar sua inatividade ou omissão, o Estado optou pelo caminho da seleção diretamente influenciado por estigmas sociais, esclarecendo que esse modelo de atuação, baseado em uma espécie de seletividade punitiva velada, traz resquícios das teses defendidas por Cesare Lombroso no apogeu do positivismo científico e a influência dos aspectos físicos ou fisionômicos de um sujeito na prática do ato criminoso. É importante que a dissertação apresentada aponte que a teoria do etiquetamento social faz uma espécie de ligação entre os conceitos de crime e criminoso e o próprio comportamento social, considerando seus costumes e valores socialmente aceitos sob o argumento de que estes, sim, são os criadores das chamadas etiquetas sociais em detrimento do ato criminoso em si. Saiba mais MOREIRA, R. D. Notas sobre a seletividade do sistema penal. Revista Eletrônica da Faculdade Metodista Granbery, Juiz de Fora, n. 8, jan./jun. 2010. Acesse para uma breve leitura do artigo: RIBEIRO, H. B. A necessidade de superação do paradigma criminológico tradicional: a criminologia crítica como alternativa à ideologia da “lei e ordem”. 2010. ASPECTOS CONTROVERSOS - PARTE 1 Nesta aula abordaremos alguns temas controversos relativos ao processo de criminalização, como a criminalização de letras musicais e da homofobia, de movimentos sociais e o estigma racial por trás do processo de criminalização. INTRODUÇÃO Olá, estudante! Nesta aula abordaremos alguns temas controversos relativos ao processo de criminalização, como a criminalização de letras musicais e da homofobia, de movimentos sociais e o estigma racial por trás do processo de criminalização. Ao tratarmos da criminalização de letras musicais, enfatizaremos o limite existente entre o exercício constitucional da liberdade de expressão e apologia ao crime, bem como a criminalização de determinado estilo musical, geralmente de origem periférica, podeauxiliar no aumento da segregação social. Aspecto relevante a ser abordado na presente aula é o relativamente recente processo de criminalização da LGBTfobia e seus efeitos na política penal brasileira e ainda, o estigma racial e a criminalização de movimentos sociais sob o enfoque da criminologia crítica. CRIMINALIZAÇÃO EM LETRAS MUSICAIS Com enfoque recente na mídia, a criminalização de letras musicais é assunto relevante e controverso ao tratarmos do processo de criminalização, guardando estrita relação com a liberdade de expressão. A criminalização de letras musicais no Brasil é assunto que se repete com o passar do tempo, desde a criminalização das rodas de samba e capoeira na época do Código Penal do Império; a censura da produção cultural na época da ditadura militar; as acusações de apologia ao crime, realizadas em 1997, decorrente das letras musicais da banda Planet Hemp; a tentativa de criminalizar o funk por meio da SUG n° 17/2017, no Senado Federal e; mais recentemente, o Projeto de Lei nº 5.194/2019, que objetivou tipificar como crime qualquer estilo musical que contenha expressões pejorativas ou ofensivas. A linha entre a liberdade de expressão e a apologia criminal é tênue, sendo que, em produções artísticas, principalmente aquelas que enfatizam a cultura periférica, a licença poética por vezes dá azo a colisão entre princípios e garantias fundamentais, razão pela qual, a própria Constituição impõe limites à liberdade de expressão. No contexto histórico, a descriminalização do samba veio com a popularização do carnaval que, mesmo diante da intensificação da perseguição advinda da Lei de Contravenções Penais, caiu no gosto de públicos com classes sociais mais altas, o que culminou em uma maior aceitação da cultura do samba e o fim da perseguição. Com o advento do militarismo em solo brasileiro, a censura a letras musicais ganhou força. Em 21 de janeiro de 1970 foi expedido o Decreto-Lei nº 1.077 (BRASIL, 1970), que impôs que “não serão toleradas as publicações e exteriorizações contrárias à moral e aos bons costumes quaisquer que sejam os meios de comunicação”. A censura efetivada com relação às manifestações artísticas foi sendo reduzida gradativamente até o reestabelecimento da democracia. Em meados de 1997 a banda carioca Planet Hemp foi alvo de um mandado de prisão expedido pela justiça de Brasília, sob acusação de que suas letras faziam clara apologia ao uso de drogas, tendo passado cerca de uma semana recolhidos até sua soltura em decorrência de erros processuais. Ainda mais recente, a Sugestão Legislativa nº 17 de 2017 visava criminalizar o estilo musical denominado Funk como crime contra a saúde pública, tendo sido rejeitada pela Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal (CDH, 2017), sob o argumento de que não é possível relacionar as letras musicais com os casos de violência, afirmando ainda que a manifestação artística, nos termos da constituição, é livre, complementando: Não nos devemos esquecer, por fim, que em tempos não longínquos outros gêneros musicais populares já foram vítimas de perseguição. O samba, outrora, foi considerado ritmo lascivo e pertencente à gente da “ralé”. No mesmo sentido, o jazz já foi considerado um estilo musical degenerado, de gente “impura”. Todavia, embora se tenha tentado, o Estado nunca conseguiu proibir a manifestação da cultura popular. A sabedoria do tempo ensinou que não se consegue algemar o pensamento; ele sempre encontrará um caminho para se libertar. De igual forma, ante a repercussão negativa, o Projeto de Lei nº 5.194/2019 do Deputado Charlles Evangelista, foi retirado pelo próprio autor. Assim, temos que a criminalização de letras musicais, sob o enfoque constitucional, encontra claro óbice na liberdade de expressão, a qual, independente do assunto, deve ter sua relativização tratada com extrema cautela. Aula vídeo relativa ao processo de criminalização e sua influência nas produções culturais, incluindo explanações sobre o AI-5. LGBTFOBIA A Constituição é precisa ao dispor em seu art. 3º (BRASIL, 1988), que “é objetivo fundamental da República Federativa do Brasil promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”. O professor argentino Daniel Borrillo (2010, p. 22) ao conceituar o termo homofobia, o faz sob dois aspectos, sendo a dimensão pessoal e a dimensão cultural: O termo ‘homofobia’ designa, assim, dois aspectos diferentes da mesma realidade: a dimensão pessoal, de natureza afetiva, que se manifesta pela rejeição dos homossexuais; e a dimensão cultural, de natureza cognitiva, em que o objeto da rejeição não é o homossexual enquanto indivíduo, mas a homossexualidade como fenômeno psicológico e social. Essa distinção permite compreender melhor uma situação bastante disseminada nas sociedades modernas que consiste em tolerar e, até mesmo, em simpatizar com os membros do grupo estigmatizado, no entanto, considera inaceitável qualquer política de igualdade a seu respeito Em 13 de junho de 2019, o Supremo Tribunal Federal julgou a Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão nº 26, na qual reconheceu a mora inconstitucional do Congresso na implementação da prestação legislativa destinada a cumprir o mandado de incriminação a que se refere o art. 5º, XLI e XLII da Constituição, para efeito de proteção penal aos integrantes do grupo LGBTI +, enquadrando, desta forma, a homofobia e a transfobia, em qualquer que seja a forma de sua manifestação, nos diversos tipos penais definidos na Lei nº 7.716/89. A Lei 7.716, promulgada em 5 de janeiro de 1989 tem por objeto a definição dos crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor e, com a extensão de seu alcança decorrente da ADO nº 26, passou a ser aplicada também nos casos de homofobia ou situações análogas. O Ministro Celso de Mello (STF, ADO nº 26) ao tratar do assunto em seu voto, é enfático ao tratar da impossibilidade de se admitir condutas homofóbicas nos dias de hoje principalmente face a proteção constitucional garantida às minorias: Direitos relativos à orientação sexual e à identidade de gênero são reconhecidos, hoje, nacional e internacionalmente, como essenciais para a dignidade e humanidade da pessoa humana, integrando o núcleo dos direitos à igualdade e à não-discriminação. Os referidos Princípios de Yogyakarta voltam-se a tutelar o indivíduo diante da violência, do assédio, da discriminação, da exclusão, da estigmatização e do preconceito dirigidos contra pessoas em todas as partes do mundo por causa de sua orientação sexual ou identidade de gênero. Esses grupos, por serem minoritários e, não raro, vítimas de preconceito e violência, demandam especial proteção do Estado. Nesse sentido, a criminalização de condutas discriminatórias não é só um passo importante, mas também obrigatório, eis que a Constituição contém claro mandado de criminalização neste sentido: conforme o art. 5º, XLI, “a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais. Assim, a proteção conferida às minorias, aí incluída a comunidade LGBTI +, é preceito constitucional e vai ao encontro da garantia de igualdade inserida no art. 3º da Magna Carta, ao passo que o processo de criminalização, enquanto ferramenta garantista do Estado, deve estar em consonância com tais preceitos. Saiba mais SILVA, T. H. C. A criminalização e a marginalização dos movimentos sociais no Brasil - O caso do coletivo feminista pagu. Clique aqui para acessar. SANTOS. C. J. A criminalização da LGBTfobia pelo Supremo Tribunal Federal do Brasil. Clique aqui para acessar. Aula vídeo com explanações acerca da LGBTfobia e seu processo de criminalização. ESTIGMA RACIAL Outro tema de grande controvérsia é o estigma racial e sua influência no processo de criminalização. O antropólogo Erving Goffman (1988,da teoria da janela quebrada em detrimento ao princípio da insignificância, sob o argumento de que tal princípio objetiva selecionar situações cujas consequências sejam mais graves às vítimas, não utilizando a pena como simples forma de coibir a prática delituoso, mas sim, com o caráter de reintegração do sujeito criminoso na sociedade. Saiba mais Para ampliar os seus conhecimentos sobre os temas abordados durante os nossos estudos, indicamos algumas leituras que são muito pertinentes e interessantes! Clique aqui para ler o artigo A Nova Ordem Socioeconômica e a Indústria do Controle Penal escrito por Washington Pereira da Silva dos Reis. Clique aqui para ler o artigo Política Criminal e Criminologia Humanista escrito pela dra. Ryanna Pala Veras. Clique aqui para ler o artigo Direito Penal Contemporâneo e o Expansionismo Punitivo escrito por Gabriela Serra Pinto de Alencar. PROCESSOS POLÍTICO-CRIMINAIS Durante os estudos, vamos nos aprofundar no tema da política criminal, principalmente no que concerne aos seus movimentos específicos, como os de Lei e Ordem, com explanações acerca da Política Criminal de Tolerância Zero e o Direito Penal do Inimigo. INTRODUÇÃO Olá, estudante! Durante os estudos, vamos nos aprofundar no tema da política criminal, principalmente no que concerne aos seus movimentos específicos, como os de Lei e Ordem, com explanações acerca da Política Criminal de Tolerância Zero e o Direito Penal do Inimigo. Serão abordados no presente estudo os movimentos político-criminais repressivistas (ou punitivistas) e os não intervencionistas (ou não repressivistas), possibilitando uma análise da evolução sociológica do controle estatal exercido por meio do próprio Direito Penal. A proposta de estudo abordará ainda temas relevantes tanto para os estudos do Direito Penal quanto da criminologia, como o processo de criminalização em contraponto ao processo de descriminalização e como eles afetam as políticas criminais modernas ou ainda, os processos de penalização e despenalização e o fenômeno da prisionalização como medida de segregação cautelar e da desprisionalização com adoção de medidas diversas à prisão com a finalidade de evitar a segregação do indivíduo. MOVIMENTOS DE POLÍTICA CRIMINAL - Movimentos de Política Criminal Ao tratarmos de políticas criminais, indispensável a realização de reflexões acerca dos movimentos a elas relacionados. Movimentos de política criminal podem ser definidos como os meios adotados pelo Estado como resposta ao fenômeno da criminalidade, ou seja, a efetiva ação a ser tomada em face de um desvio de conduta por parte do criminoso e as políticas que serão implementadas pelo Estado como forma de coibir a prática delitiva. A maior parte dos autores divide os movimentos de política criminal em movimentos repressivistas e movimentos não repressivistas. - Movimentos repressivistas Os movimentos rotulados de repressivistas são aqueles que defendem a intervenção estatal máxima no que concerne a ação punitiva. Esse movimento vê o criminoso como alguém que deve ser tirado de circulação, possuindo uma proposta de punição voltada à segregação ou mesmo para execução. Em meados dos anos de 1970 nos Estados Unidos, foi implantado o Movimento de Lei e Ordem, que, diante do exponencial aumento da criminalidade, objetivava o combate a esta por meio de uma política de criação de novos tipos penais e aplicação severa e rigorosa daqueles já existentes. Este movimento parte do pressuposto de que as penas possuem caráter retribuitivo e que a segregação cautelar de um indivíduo serviria como forma de reação imediata à prática de um crime. Relevante política criminal com caráter repressivista foi a chamada Teoria do Direito Penal do Inimigo, criada pelo professor alemão Günther Jakobs com base nos ensinamentos do sociólogo Niklas Luhmann. Para essa teoria, os criminosos são divididos em duas classes, sendo os “criminosos tradicionais” aos quais é imperiosa a aplicação do Direito Penal Tradicional e os “autores de crimes graves”, cujos atos são atentatórios à própria estrutura social, como os terroristas, criminosos sexuais, membros do crime organizado e autores de outros crimes graves. Para a Teoria do Direito Penal do Inimigo, esse segundo grupo deve ser rotulado como “inimigo da sociedade”, razão pela qual, sequer devem ser tratados com as benesses do Direito tradicional, ante a insuficiência deste em reprimir suas condutas criminosas. Exemplo de aplicação de política criminal repressiva é o chamado “USA PATRIOT Act”, criado pelo ex-presidente George W. Bush após o onze de setembro. Este Decreto permite a violação de sigilo e realização de interceptação de qualquer pessoa supostamente envolvida com terrorismo. Essas disposições vigoraram até meados de 2015, quando houve a edição do USA Freedom Act. - Movimentos não repressivistas Os movimentos político-criminais não repressivistas, como o abolicionismo penal e o modelo restaurativo de justiça, possuem objetivos diversos, como a diminuição gradativa do controle penal formal e da intervenção punitiva estatal, buscando, desta forma, a adoção de soluções informais pautadas em políticas sociais. Reflita O abolicionismo penal, no que tange a sua inserção no ramo das políticas não repressivistas, defende um discurso pautado em que o modelo penal tradicional é criador de problemas e não de soluções, na medida em que a função intimidatória da pena não se presta ao fim proposto, servindo apenas como espécie de desculpa para a intervenção estatal na liberdade individual. Pode-se concluir que os movimentos de política criminal vêm se aperfeiçoando com o passar do tempo, sendo que sua aplicabilidade, seja voltada ao aspecto social ou ao aspecto punitivo em si, depende tanto do posicionamento adotado em determinada época pelo próprio governo quanto pelos anseios da população na adoção de medidas que visem o efetivo controle da criminalidade. Aula vídeo versando sobre os movimentos de política criminal, com explicações acerca dos movimentos repressivistas, (incluindo explanações sobre o USA PATRIOT Act), e não repressivistas e a evolução histórica deles do ponto de vista sociocultural. A CRIMINALIZAÇÃO E A DESCRIMINALIZAÇÃO COMO FENÓMENOS ANÍMICOS DA POLÍTICA CRIMINAL A criminalização e a descriminalização como fenômenos anímicos da política criminal Inicialmente, cumpre esclarecer que, por anímico, entende-se aquilo que vem da alma, ou seja, intrínseco à Política Criminal, desta forma, o presente estudo visa demonstrar que a criminalização e a descriminalização, mais do que ferramentas que estabelecem diretrizes para as políticas criminais adotadas, são verdadeiros fenômenos inseparáveis e indissolúveis de qualquer modelo de política adotada, seja ela repressiva, visando a maior criminalização de determinados fatos ou abolicionista, visando a menor intervenção Estatal em matéria penal. Como já explanado, a criminalização em suma, é estabelecer, por meio de lei, que determinado comportamento é tido como criminoso, podendo se dar de modo primário, quando ligada ao direito positivo e atuando diretamente na efetiva criação da lei penal introduzindo no ordenamento jurídico a tipificação de uma conduta reprovável. Ou de modo secundário, e voltada à aplicação da lei penal como forma de coibir os comportamentos reprováveis praticados. A descriminalização, por sua vez, visa remover o caráter criminoso de um fato anteriormente tido como ilícito criminal. Ainda no conceito de descriminalização, insere-se a transformação de um ilícito criminal em espécie diversa de ilícito, seja ele administrativo ou uma contravenção. Ao tratarmos dos institutos da criminalização e da descriminalização enquanto fenômenos anímicos das políticas criminais, é importante apontar que todas as políticas criminais sãop. 13-14) em seu livro Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada conceitua a expressão “estigma” de forma didática, definindo: Estigma é um tipo especial de relação entre atributo e estereótipo. São classificáveis em três espécies: primeiramente os defeitos físicos ou abominações do corpo; em segundo lugar as culpas de caráter individual, como desonestidade, prisão, vícios, homossexualismo, desemprego etc; em terceiro lugar em estigmas que tangem às raças, nações, religiões. Em se tratando do tema sob análise, importa para nosso estudo o estigma racial, ou seja, as influências que o preconceito racial direto ou indireto exercem sobre o processo de criminalização. O racismo, de acordo com a professora Dora Lúcia Bertulio (2002, p. 82) por ser conceituado de três formas, a saber: O primeiro, o individual, assemelhar-se-ia ao denominado preconceito racial, podendo se manifestar na figura do racista dominador ou aversivo. O segundo, institucional, manifestarse-ia por ações oficiais que, de alguma forma, excluem ou prejudicam indivíduos ou grupos distintos. O terceiro tipo, o cultural, é a expressão individual ou institucional da superioridade da herança cultural de uma raça com relação a outra. Dentro do processo de criminalização, principalmente em suas fases primária e secundária, o racismo institucional se faz presente. Tal afirmativa se deve em razão da dificuldade do próprio Estado em se autoexaminar e reconhecer sua condição de produtor de desigualdade. A fase primária do processo de criminalização, como já explanado, diz respeito a efetiva criação da normal penal. Nesta fase o paradigma racial se faz presente quando o legislador, no cumprimento de seu papel, age de forma a criminalizar e punir severamente condutas menos complexas que são praticadas, comumente, pela população de classes sociais mais baixas e, em sua grande maioria negra, deixando punições mais brandas para os crimes de alta complexidade praticados por pessoas com melhores condições financeiras. O racismo institucional está ainda mais presente durante a criminalização secundária, principalmente no que tange a atuação da organização policial e a seletividade de suas ações. Orlando Zaconne (2004, p. 184), no que tange a seletividade é didático ao afirmar que “não é possível ao sistema penal prender, processar e julgar todas as pessoas que realizam as condutas descritas na lei como crime e, por conseguinte, opta entre o caminho da inatividade ou da seleção”. Seguindo tal premissa, e visando afastar uma possível omissão, o Estado opta pelo caminho da seleção, diretamente influenciado por estigmas sociais e muitas vezes raciais. Este modelo de atuação, baseado em uma espécie de seletividade punitiva velada, traz resquícios das teses defendidas por Cesare Lombroso no apogeu do positivismo científico. Lombroso realizou pesquisas embasadas na correlação entre o desenvolvimento social e os fatores criminológicos, apontando que o sujeito que comete um ato ilícito possui aspectos físicos ou fisionômicos que por si, indicam sua criminalidade. Assim, em que pese as dificuldades do Estado em assumir sua posição de responsável pelo racismo institucional, esta é uma realidade que deve ser enfrentada, adotando-se medidas para garantir um tratamento isonômico a todos, independe de raça ou sua cor. Aula vídeo a respeito do paradigma racial e sua influência no processo de criminalização primária e secundária. MOVIMENTOS SOCIAIS Ao tratar de movimentos sociais, é imprescindível explanar que estes são estruturas formadas pela própria sociedade, que, no intuito de atingir um objetivo comum, se organiza e luta pela defesa de uma causa política ou social. A difusão dos meios de comunicação possibilitou uma maior proximidade da população e, consequentemente, a ampliação do alcance dos ideais defendidos pelos movimentos sociais. No contexto histórico brasileiro, alguns movimentos sociais fizeram história, principalmente no que tange a defesa da democracia, dentre os quais podemos destacar O Diretas Já, O Movimento dos Caras Pintadas e as Jornadas de Junho de 2013. O movimento popular denominado Diretas Já teve por objetivo a retomada da democracia durante o período militar, exigindo a realização de eleições diretas para o cargo de Presidente da República. É importante ressaltar que o então presidente João Figueiredo, visando reprimir as manifestações populares do movimento Diretas Já, foi enfático ao ordenar prisões e aumentar a censura sobre a imprensa. O Movimento dos Caras Pintadas, por sua vez, teve por objetivo o impeachment do ex- presidente Fernando Collor de Mello, no ano de 1992. Por fim, as Jornadas de Junho de 2013 foram caracterizadas como uma mobilização em massa realizada pela população, que reivindicou a implantação de tarifa zero no transporte público, maior investimento em serviços de saúde e educação e ainda, criticou o investimento realizado com eventos esportivos. Demonstrada a importância da atuação de movimentos sociais sérios que visam, efetivamente, melhoras na prestação de serviços e até mesmo a manutenção da democracia, relevante enfatizar a relação do tema com o processo de criminalização. É possível verificar que os movimentos sociais, quase sempre, estão em posição oposta ao governo, cobrando e fiscalizando a prestação de serviços públicos, assim, visando coibir manifestações contrárias, o governo acaba rotulando estes movimentos como inimigos. A este respeito a organização internacional denominada Via Campesina (2010, p. 6) em sua cartilha A ofensiva da Direita para criminalizar os Movimentos Sociais no Brasil expõe: O objetivo da criminalização é criar as condições legais e, se possível, legítimas perante a sociedade para: a) impedir que a classe trabalhadora tenha conquistas econômicas e políticas; b) restringir, diminuir ou dificultar o acesso às políticas públicas; c) isolar e desmoralizar os movimentos sociais junto à sociedade; d) e, por fim, criar as condições legais para a repressão física aos movimentos sociais. A criminalização de movimentos sociais ganhou ênfase com a promulgação da Lei Antiterrorismo (13.260/2016), posto que a lei é omissa em tipificar precisamente atos de terrorismo, permitindo que um determinado grupo seja investigado pelo simples porte de determinado objeto, neste sentido, Aline Siqueira Veronezi (2018, p. 153) é didática ao apontar que “o que torna tudo mais emblemático é o fato de o tipo de objeto considerado ameaçador não ser especificado no texto da lei, cabendo ao discernimento do policial decidir o que é ou não objeto ameaçador”. Desta feita, podemos concluir que a luta dos movimentos sociais é legitima, isso quando pautada em causas socialmente relevantes e desde que efetivada por meio de manifestações pacíficas e, a tentativa de criminalização destes movimentos nada mais é do que a criação de obstáculos para a efetivação de direitos e a tentativa de afastar ainda mais a população da classe governista. Aula vídeo versando sobre movimentos sociais e as tentativas de criminalizá-los. ESTUDO DE CASO À luz dos conceitos até então estudados, o estudante deve discorrer sobre até que ponto o Estado, como poder sancionador, pode interferir na liberdade de expressão e artística de uma pessoa, principalmente no que tange aos abusos de letras musicais atuais com apologia ao crime e quanto à possibilidade de aplicação da justiça retributiva ou ressocializadora para o caso. O estudante deve dissertar ainda sobre a possibilidade de utilização do mesmo critério de apologia ao crime utilizado à época da censura militar quando da análise da música Cálice de Chico Buarque, nos dias de hoje. RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO É esperado que o estudante discorra sobre a liberdade de expressão constitucionalmente garantida, dando ênfase ao inciso IV do art. 5º da Magna Carta.O estudante deve conceituar a apologia ao crime e demonstrar que a divisão entre a liberdade de expressão e a apologia criminal é tênue, frisando que em produções artísticas, principalmente aquelas que enfatizam a cultura periférica, a licença poética por vezes dá azo a colisão entre princípios e garantias fundamentais, razão pela qual, a própria Constituição impõe limites à liberdade de expressão. Espera-se que a dissertação apresentada aponte os limites constitucionais à liberdade de expressão, dando enfoque a colisão entre ela e os direitos relativos a honra e a imagem. O estudante deve apresentar seu ponto de vista quanto à possibilidade de aplicação da justiça restaurativa em casos de “excesso de liberdade de expressão”, apontando as vantagens em relação à aplicação do modelo retributivo no caso concreto. Com relação à opressão e censura à época do militarismo, é esperado que o estudante aponte a impossibilidade de utilização dos mesmos critérios até então aplicados para análise de uma letra música. O estudante deve enfatizar que o Ato Institucional nº 5 tinha por objetivo a repressão de fatos perturbadores da ordem e os ideais superiores da Revolução, preservando a ordem, a segurança, a tranquilidade, sendo que, nos dias atuais, não persiste a premissa repressiva e perseguidora dos governos militares, razão pela qual, a aplicação dos mesmos critérios, fatalmente traduzir-se-ia em violação literal as garantias constitucionais preservadas pelo Estado Democrático de Direito. ASPECTOS CONTROVERSOS - PARTE 2 Nesta aula, abordaremos os aspectos controversos e atuais que envolvem o processo de criminalização, entre eles, a criminalização do stalking e sua clara relação com a proteção da mulher. INTRODUÇÃO Olá, estudante, nesta aula, abordaremos os aspectos controversos e atuais que envolvem o processo de criminalização, entre eles, a criminalização do stalking e sua clara relação com a proteção da mulher. Realizaremos, ainda, um estudo aprofundado da criminalização e sua errônea utilização como arma política, bem como da criminalização do uso de drogas e os movimentos que visam a sua efetiva descriminalização. Por fim, faremos uma abordagem teórica a respeito do recente processo de criminalização do feminicídio e como vem se dando sua aplicação nos dias atuais. CRIMINALIZAÇÃO DO STALKING E A PROTEÇÃO A MULHER O processo de criminalização é um tema relevante e trouxe recentes alterações na legislação penal: a criminalização do stalking. Sob o aspecto etimológico, a expressão “stalker” tem origem no inglês e significada perseguidor, sendo utilizada, principalmente, para definir pessoas obsessivas que perseguem e espionam outros sujeitos de forma constante e contrária a sua vontade. A terminologia ganhou destaque ainda na década de 1980, com a ascensão dos paparazzis e a constante perseguição às celebridades. Damásio de Jesus (2006) conceitua a expressão de forma didática: Não é raro que alguém, por amor ou desamor, por vingança ou inveja ou por outro motivo qualquer, passe a perseguir uma pessoa com habitualidade incansável. Repetidas cartas apaixonadas, e-mails, telegramas, bilhetes, mensagens na secretária eletrônica, recados por interposta pessoa ou por meio de rádio ou jornal tornam um inferno a vida da vítima, causando-lhe, no mínimo, perturbação emocional. A isso dá-se o nome de stalking. O processo de criminalização do stalking foi objeto de diversos Projetos de Lei, como o 5.499/2009, de autoria do então deputado federal Capitão Assumção; o 946/2019, de autoria do deputado federal Lincoln Portela, que visava à criminalização da ameaça virtual; e o 1.291/2019, do deputado federal Alex Manente, que tinha por objeto a criminalização da perseguição obsessiva, porém todos foram julgados prejudicados em face da aprovação em plenário da Subemenda Substitutiva Global ao Projeto de Lei nº 1.369, de 2019. O Projeto de Lei nº 1.369/2019 foi apresentado pela senadora Leila Barros do PSB/DF e teve por objeto alterar o Código Penal com a finalidade de tipificar o crime de perseguição, tendo sido transformado na Lei Ordinária nº 14.132/2021, que, por sua vez, acrescentou o art. 147-A ao Código Penal, prevendo o crime de perseguição e revogando o art. 65 da Lei de Contravenções Penais. A criminalização do stalking é um importante passo à evolução do processo de criminalização e do próprio direito penal, porque os atos de violência doméstica ou mesmo feminicídios, por vezes, têm origem na perseguição obsessiva. Ao tratar do assunto, a relatora do projeto, a deputada Shéridan, aponta que 76% das vítimas de feminicídio foram perseguidas por seus parceiros íntimos, conforme pesquisa realizada pelo Stalking Resource Center, frisando, ainda, que 54% das vítimas reportaram à polícia que estavam sendo “stalkeadas‟. Esses dados reforçam a importância da criminalização da mencionada conduta, aumentando, ainda mais, as medidas que visam a proteger a mulher, cabendo lembrar que, embora sejam a maioria, não são apenas as mulheres vítimas de perseguição, não havendo distinções no tipo penal apresentado. Sob a ótica da criminologia moderna, é possível concluir que a criminalização do “stalking” vai ao encontro das políticas criminais protetivas atuais, servindo de verdadeira ferramenta de prevenção a crimes mais graves, como feminicídios, homicídios, crimes sexuais ou lesões corporais, demonstrando, assim, o papel preventivo da primeira fase do processo de criminalização, ou seja, a prevenção de delitos complexos pela criminalização de condutas mais simples. Videoaula com explanações acerca da criminalização do stalking e os fundamentos que levaram a sua promulgação. A CRIMINALIZAÇÃO COMO ARMA POLÍTICA Um aspecto controverso e de absoluta importância nesta aula é a utilização do processo de criminalização como arma política a fim de se minguar as liberdades individuais. Alguns governos autoritários, para se manterem no poder, utilizam-se dos processos de criminalização para atacar diretamente seus opositores ou mesmo reduzir a propagação de informações utilizando esses processos, erroneamente, como verdadeiras armas políticas. Um claro exemplo dessa tentativa de utilização dos processos de criminalização como arma política são as tentativas de criminalizar movimentos sociais. Como sabido, estes se encontram, geralmente, em posição oposta à dos governos, cobrando e fiscalizando a prestação de serviços públicos; por essa razão, governos autoritários utilizam-se dos processos de criminalização, por vezes sob o manto de proteção à segurança nacional, visando a coibir a livre manifestação. É importante salientar que não é apenas nesse sentido que o uso dos processos de criminalização encontra seu fundo político, mas também como ferramenta de manobra de massa escorada na proliferação de que o direito penal, por si só, é a solução para a expansão da criminalidade. Dessa forma, o legislador, visando a passar a ideia de que o clamor social vem sendo atendido, ainda na fase primária do processo de criminalização, expande as condutas criminalizáveis não objetivando sua utilidade prática mas sim demonstrar que está preocupado com seus eleitores, criando uma espécie de efeito psicológico neles, que, satisfeitos com o atendimento da demanda, não buscam informações acerca da aplicabilidade da norma editada. Assim, a classe política, buscando angariar ou manter votos, utiliza-se dos processos de criminalização como verdadeira ferramenta da captação de votos ora criminalizando (ou descriminalizando) atos voltados a agradar a direita, como a facilitação na posse e porte de armas, ora tomando atitudes que agradam a esquerda, como a criminalização LGBTfobia. O que se questiona aqui não são as atitudes tomadas, posto que a criminalização da LGBTfobia é pauta absolutamente importante e que traduz uma efetiva conquista dasminorias que tanto sofrem com o preconceito e a violência, mas, sim, da real intenção dos legisladores para a tomada de decisão, ou seja, com o fundo político que permeia o processo de criminalização. O processo de criminalização no Brasil vem se desenvolvendo a passos rápidos, estando cada vez mais em consonância com pensamentos sociais e de proteção aos vulneráveis e às minorias, como no caso da criminalização da LGBTfobia, do feminicídio e do stalking — razão pela qual sua utilização deve ser pautada em critérios técnicos com estrita observação às necessidades da população, porém deixando de lado seu uso político, que, fatalmente, é danoso ao próprio avanço do direito. Sob esse aspecto, é importante esclarecermos que o uso do processo de criminalização como ferramenta política afeta diretamente a própria segurança jurídica, posto que há governos voltados a pensamentos liberais e conservadores alternando no poder, e caso o processo de criminalização alinhe-se única e exclusivamente com o pensamento político, o desenvolvimento do próprio Estado de Direito fica ameaçado. Por fim, os processos de criminalização devem estar alinhados com o pensamento social e os interesses da população, desenvolvendo-se na mesma velocidade que a própria sociedade, pautando-se, o legislador, nos direitos fundamentais e no garantismo constitucional. Videoaula tratando do processo de criminalização e sua utilização como ferramenta política. CRIMINALIZAÇÃO DO USO DE DROGAS No nosso ordenamento jurídico, a Lei Federal 11.343/2006 define, logo em seu art. 1º, o conceito de drogas ilícitas, classificando-as como produtos que causam dependência e que estão especificados nas listas atualizadas expedidas pela União. Ao adotar políticas criminais que visam à efetiva criminalização do uso de drogas, o Estado tem por objetivo, pautado claramente na The Broken Windows Theory (teoria das janelas quebradas), coibir o tráfico punindo o usuário. A teoria das janelas quebradas no campo da criminologia constata que, ao reprimir delitos menos graves, a prática de delitos complexos e até mesmo violentos é evitada. Cabe enfatizarmos que a Magna Carta brasileira tem por base a proteção da dignidade da pessoa humana, dessa forma, ao criminalizar determinada conduta, o escopo deve ser a efetiva proteção do bem jurídico de um terceiro, não sendo possível a criminalização de uma determinada conduta que afete apenas a esfera pessoal do próprio agente praticante. Ante tal apontamento, os defensores da descriminalização do uso de drogas apontam que a autolesão, ou seja, a conduta que afeta apenas a esfera da saúde do próprio usuário não deve ser passível de punição ou mesmo tratada pelo Direito Penal, porque a intervenção em tal esfera fatalmente fere a dignidade da pessoa humana. Por outro lado, os defensores da criminalização do uso de drogas apontam que o uso dessas substâncias não fere e atinge apenas a esfera pessoal do agente mas sim a própria saúde pública, razão pela qual tal conduta não pode ser comparada com uma autolesão. Serve de argumento à criminalização do uso de entorpecentes a alegação de que o uso incentiva o tráfico, porém não nos parece acertado tal posicionamento, porque o Estado, ao aplicar determinada punição ao usuário de entorpecentes sob essa alegação, assume sua ineficiência no combate à criminalidade. O Supremo Tribunal Federal vem tratando do assunto sob o Tema 506 da repercussão geral, que versa exatamente sobre a tipicidade do porte de droga para consumo pessoal desde o ano de 2015 e cujo julgamento não foi concluído até o momento. Em julgamento ao Recurso Extraordinário nº 635.659, o ministro Gilmar Mendes, em seu voto, apontou a inconstitucionalidade do art. 28 da Lei Federal nº 11.343/06 sob o argumento de que a criminalização do uso de entorpecentes vai de encontro ao próprio direito à liberdade, afirmando, ainda, que: Pesquise mais “apesar da política de guerra às drogas, já está demostrado que o consumo só vem aumentando nos últimos anos. Não existem estudos suficientes ou incontroversos que demonstrem que a repressão ao consumo é o meio mais eficiente para combater o tráfico de drogas”. Acesse o SFT para acompanhar a Tipicidade do porte de droga para consumo pessoal. Dessa forma, no que tange à criminalização ou descriminalização do uso de drogas, é necessário realizar um sopesamento de valores, a fim de se verificar até que ponto é possível considerar que a proibição ao consumo cumpre seu papel e se a descriminalização seria uma atitude sensata ou apenas criaria mais problemas. Videoaula tratando dos aspectos controversos relativos à criminalização e descriminalização do uso de drogas. A CRIMINALIZAÇÃO DO FEMINICÍDIO A criminalização do feminicídio no Brasil é um marco histórico que simboliza a conquista das mulheres de mais uma ferramenta que visa à efetiva proteção de sua integridade. O Senado Federal, por meio de Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, realizou a proposição do Projeto de Lei nº 8.305/2014, em 17 de dezembro de 2014, no qual objetivou a alteração do Código Penal com a finalidade de incluir o feminicídio no rol das qualificadoras do homicídio e, ainda, prevê-lo como um crime hediondo. O Projeto de Lei nº 8.305/2014 foi convertido na Lei Ordinária 13.104/2015, que alterou o art. 121 do Código Penal, incluindo a qualificadora de feminicídio em seu inciso VI, e, ainda, a Lei 8.072/90, a fim de incluir o feminicídio no rol de crimes hediondos. O objetivo da criminalização do feminicídio foi criar mais um mecanismo de defesa, coibindo a prática de violência contra as mulheres. Um ponto controvertido relativo ao tema diz respeito à alteração promovida no projeto antes da conversão em lei. Em seu texto original, o Projeto de Lei nº 8.305/2014 conceituava o feminicídio como o homicídio realizado contra a mulher por razões de gênero. Essa disposição foi alterada, passando a ser considerado feminicídio o homicídio praticado “contra a mulher por razões da condição de sexo feminino” (BRASIL, 2015, [s. p.]). A respeito dessa alteração, Adriana Mello (2015, p. 225) é didática ao explicar que a qualificadora não tem o condão de se referir ao sexo biológico, mas sim a questões de gênero atreladas ao campo da sociologia: [...] a qualificadora do feminicídio incide quando o sujeito passivo for mulher, entendido, na minha forma de ver, de acordo com o critério psicológico, ou seja, quando a pessoa se identificar com o sexo feminino, mesmo quando não tenha nascido com o sexo biológico feminino. O projeto que deu origem à Lei no 13.104/2015 (PL no 8.305/2014) sofreu, pouco tempo antes de ser aprovado, uma modificação: o termo “gênero” foi substituído pela expressão “condição de sexo feminino”. No entanto, entendemos que essa modificação não altera a interpretação, já que a expressão “por razões da condição de sexo feminino” prende-se, da mesma forma, a razões de gênero. Observa-se que o legislador não trouxe uma qualificadora para a morte de mulheres. Se assim fosse, teria dito: “Se o crime é cometido contra a mulher”, sem utilizar a expressão “por razões da condição de sexo feminino” Someone famous Os movimentos de proteção à mulher deram seus primeiros passos com a criação da Lei de Violência Doméstica no Brasil, no ano de 2006, cujo escopo é coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher. A criminalização do feminicídio foi além, não restringindo-se ao âmbito familiar, mas, sim, visando à proteção da integridade física da mulher, independentemente do local ou por quem o ato violento é realizado. Videoaula referente à criminalização do feminicídio e aos aspectos relevantes que permearam a alteração legislativa. ESTUDO DE CASO O estudante, de posse da tão sonhada carteira da OAB, está em seu escritório, em uma bela tarde ensolarada, quando, então, é surpreendido com a chegada deum astro da TV, que, em uma consulta, senta-se a sua frente e narra a seguinte história: existe um fã que o persegue de maneira constrangedora, que o incomoda diariamente, seja em suas apresentações, seja em um mercado ou em qualquer outro ambiente, e que o trata como se fosse um parente ou amigo a quem lhe deve satisfação. Incomodado com essa situação, o astro lhe informa que já pediu à pessoa que parasse com essas atitudes, no entanto, a perseguição continua, agora, de maneira mais violenta, o que tem lhe causado extremo incômodo, além de sentir-se ameaçado e constrangido. Frente a isso, você, de posse de conhecimentos jurídicos, uma vez aprovado na OAB, em uma pronta resposta, justifique se o ato é ou não amparado pela legislação penal e se existe uma medida prática e satisfativa a ponto de lhe garantir o sossego esperado. RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO Espera-se que o estudante apresente uma resposta embasada na Lei Federal nº 14.132, de 31 de março de 2021, apontando que a referida lei alterou o Código Penal, tipificando a conduta da perseguição ao criar o art. 147-A naquele códex. O estudante deve, ainda, apontar que, a fim de se proceder a uma medida prática e satisfativa, é possível promover a representação criminal contra o fã nos termos do § 3º, do art. 147-A, informando o cliente que tal medida não isenta o acusado das penas relativas a uma futura agressão. Saiba mais Leia mais sobre o feminicídio no artigo: MACHADO, I. V. Feminicídio em cena da dimensão simbólica à política. Tempo Social, São Paulo, v. 30, n. 1, p. 283-304, abr. 2018. Disponível em: Outra leitura com tema importante: NASCIMENTO. A. B. Uma visão crítica das políticas de descriminalização e de patologização do usuário de drogas. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 11, n. 1, p. 185-190, jan./abr. 2006. TEORIA DO ETIQUETAMENTO Neste momento, vamos nos aprofundar na teoria da labelling approach (teoria do etiquetamento), analisando desde o seu surgimento até os reflexos exercidos no processo de ressocialização do preso. INTRODUÇÃO Prezado estudante, neste momento, vamos nos aprofundar na teoria da labelling approach (teoria do etiquetamento), analisando desde o seu surgimento até os reflexos exercidos no processo de ressocialização do preso. Abordaremos, ainda, de forma individualizada, os mecanismos de ressocialização e como sua aplicação pautada em critérios técnicos pode ser benéfica à reinserção do sujeito na sociedade. Outro aspecto relevante a ser tratado diz respeito ao instituto da reincidência. A respeito do tema, abordaremos as causas sociais que levam à reincidência criminosa e os mecanismos que o Estado dispõe, em termos de políticas criminais, para reduzir ou evitar a reincidência delituosa. TEORIA DO LABELLING APPROACH Logo no início da década de 1960, o sociólogo americano Howard S. Becker, em uma clara crítica aos posicionamentos da Nova Escola de Chicago, desenvolveu um estudo sociológico pautado na reação social e no etiquetamento, dando início, assim, à teoria do labeling approach. A mencionada teoria crítica, principalmente, a forma de atuação do próprio Estado enquanto detentor exclusivo do poder punitivo e a definição do que seria um ato reprovável e passível de punição. A ideia central da labeling approach está pautada na premissa de que há uma espécie de rotulação dos indivíduos e de condutas para se definir quem merece os rigores da lei e para quem a lei deve “fechar seus olhos”. Reflita A teoria do etiquetamento prevê que o próprio Estado, por meio de suas instituições voltadas ao controle social, estigmatiza os cidadãos, rotulando-os como criminosos perante a sociedade e fazendo com que eles, devido à tal estigmatização, apresentem dificuldades de reinserção social, reincidindo nos delitos e tornando-se, dessa forma, criminosos habituais. Ao tratar dos efeitos e das consequências do etiquetamento social, Juarez Cirino dos Santos (2008, p. 20) é didático, apontando que, além da reincidência, o efeito estigmatizante perpetua o comportamento e cria subculturas criminosas por meio da aproximação desses indivíduos: O rotulo criminal, principal elemento de identificação do criminoso, produz as seguintes consequências: assimilação das características do rotulo pelo rotulado, expectativa social de comportamento do rotulado conforme as características do rotulo, perpetuação do comportamento criminoso mediante formação de características criminosas e criação de subculturas criminosas através da aproximação reciproca de indivíduos estigmatizados. A importância da teoria do etiquetamento de Becker reside na crítica ao sistema de persecução penal da época, posto que, até então, era atribuída exclusivamente ao agente criminoso a culpa pelos fatos criminosos, desconsiderando-se, assim, as influências sociais exercidas, por vezes, em decorrência do próprio comportamento estatal. Atuação do Estado A atuação do Estado enquanto detentor do poder punitivo deve ser isonômica e comprometida com a preservação da dignidade da pessoa humana, porém, em decorrência do etiquetamento social, o que vemos é um desvio de conduta dos próprios agentes do Estado, que são influenciados, por vezes, por uma espécie de racismo estrutural ou mesmo pelas influências incutidas no comportamento dos profissionais. Ao tratar do assunto, Eugenio Zaffaroni (2011, p. 46) é cristalino ao discorrer sobre a associação de cargas sociais negativas e preconceitos às classes menos favorecidas: Por tratar-se de pessoas desvaloradas, é possível associar-lhes todas as cargas negativas existentes na sociedade sob forma de preconceitos, o que resulta em fixar uma imagem pública do delinquente com componentes de classe social, étnicos, etários, de gênero e estéticos. Dessa forma, a atuação do Estado, quando pautada em rótulos predefinidos, auxilia no aumento da criminalidade e na própria formação de grupos criminosos, assim, visando a uma atuação transparente e voltada às políticas criminais de prevenção, é dever do Estado adotar medidas que visem à melhora de condições às populações menos favorecidas e afastem os efeitos estigmatizantes do etiquetamento social. Videoaula acerca da teoria do etiquetamento e seus efeitos. OS REFLEXOS DO LABELLING APPROACH NA RESSOCIALIZAÇÃO DO PRESO Como já sabemos, umas das consequências do etiquetamento social é a estigmatização do sujeito, levando à perpetuação criminosa, reincidência e formação de subculturas criminais. Frente a isso, os reflexos do etiquetamento da ressocialização do preso são severos, influenciando negativamente no processo de reinserção do preso na sociedade. A Lei Federal nº 7.210, de 11 de julho de 1984, é cristalina ao dispor que “a execução penal tem por objetivo efetivar as disposições de sentença ou decisão criminal e proporcionar condições para a harmônica integração social do condenado e do internado” (BRASIL, 1984b, [s. p.]), dessa forma, é de fácil constatação que a execução penal é voltada à reinserção na sociedade do criminoso que, efetivamente, cumpriu sua pena. Ao tratar do modelo ressocializador, Antonio Garcia-Pablos de Molina (1998, p. 383) é didático, apontando que o modelo proposto visa, justamente, a afastar os efeitos estigmatizantes da pena: O modelo ressocializador propugna, portanto, pela neutralização, na medida do possível, dos efeitos nocivos inerentes ao castigo, por meio de uma melhora substancial ao seu regime de cumprimento e de execução e, sobretudo, sugere uma intervenção positiva no condenado que, longe de estigmatizá-lo com uma marca indelével, o habilite para integrar- se e participar da sociedade, de forma digna e ativa, sem traumas, limitações ou condicionamentos especiais. A teoria do labelling approach vê a pena de prisão como ineficiente, principalmente no que tange às dificuldades de ressocialização do egresso do sistema carcerário.Todo sujeito pertence a uma comunidade, e a sua segregação do meio social para o cumprimento de uma pena faz com que essa comunidade se desenvolva sem sua participação, excluindo-o do grupo e dificultando sua reinserção em momento posterior. Com isso, o etiquetamento e a estigmatização do sujeito condenado acaba fazendo com que ele integre subculturas que possuem as mesmas etiquetas, perpetuando seu comportamento criminoso. O autor Júlio Fabbrini Mirabete (2000, p. 83) opina sobre o assunto com fluidez, fazendo apontamentos acerca desse desenvolvimento desproporcional da comunidade com relação ao egresso, concluindo que tal situação acaba por agravar o desajustamento social do indivíduo. Todo indivíduo, desde que excluído do contato com os outros indivíduos ou do meio social, tende a uma evolução diversa da experimentada pelos outros homens ou por esse meio social. Ocorre, nessa hipótese, o que se tem denominado de evolução desproporcional entre o indivíduo e a comunidade, o que pode conduzir ou agravar o desajustamento social. [...] Se, de um lado, a reinserção social depende principalmente do próprio delinquente, o ajustamento ou reajustamento social depende também, e muito, do grupo ao qual retorna (família, comunidade, sociedade). Assimile No que tange aos reflexos do etiquetamento na ressocialização dos egressos do sistema penal, é evidente a influência negativa, principalmente com relação as dificuldades de reinserção do indivíduo no meio social em decorrência do desenvolvimento em ritmo diverso da própria comunidade. Dessa forma, o Estado, enquanto agente responsável pela preservação das garantias e dos direitos fundamentais, deve adotar políticas criminais voltadas a afastar o etiquetamento e possibilitar um melhor desenvolvimento dos sistemas de ressocialização na criminalização terciária. Este vídeo trata da privação de liberdade sob o enfoque constitucional, seja decorrente de uma condenação, seja como instrumento de segregação cautelar. MECANISMOS DE RESSOCIALIZAÇÃO A ressocialização do indivíduo é a reinserção dele no meio social após a sua efetiva recuperação, livre de sequelas, objetivando que tenha uma vida normal. Para que a reinserção social do indivíduo seja bem-sucedida, deve ter início concomitante com o efetivo cumprimento da pena. Em se tratando dos mecanismos de ressocialização, podemos defini-los como as benesses concedidas aos indivíduos, por força da Lei de Execuções Penais, voltadas não apenas a sua ressocialização com também para a chamada “humanização” da pena, preservando-se os direitos e garantias fundamentais a todos aqueles que cumprem pena. A ressocialização não é o objetivo da pena e sim a sua finalidade, a qual deve ser perseguida pelo Estado em sua atuação garantista. A respeito do tema, José Wilson Seixas Santos (1996, p.139) é enfático ao classificar a ressocialização como um direito fundamental do preso: [...] a ressocialização é um dos direitos fundamentais do preso e está vinculada ao welfare statate (estado de direito), que [...] se emprenha por assegurar o bem-estar material a todos os indivíduos, para ajuda-los fisicamente, economicamente e socialmente. O delinquente, como indivíduo em situação difícil e como cidadão, tem direito à sua reincorporação social [...]. Entre os mecanismos voltados à ressocialização, a Lei de Execução Penal prevê uma série de medidas e benesses voltadas à reinserção do preso e à garantia de humanização da pena, como: Saída temporária. Remição. Progressão de regime. Indulto. Livramento condicional. Permissão de saída. Pela própria nomenclatura dos mecanismos citados, é possível perceber que seu objetivo é a reinserção, com parcimônia, do indivíduo na comunidade. Assimile A saída temporária, por exemplo, tem por finalidade a manutenção dos laços familiares do preso, auxiliando, assim, na sua aceitação quando de retorno à comunidade. Outro relevante mecanismo de ressocialização é a progressão de regime, por meio da qual o condenado deve cumprir uma série de requisitos, objetivando, aos poucos, retornar ao convívio social, como no caso da progressão ao regime semiaberto, em que o acusado vai conquistando, paulatinamente, sua liberdade. Norberto Avena (2014, p. 248), ao tratar da progressão de regime, é didático, enfatizando que tal mecanismo objetiva, justamente, a ressocialização do preso: A progressão do regime prisional fundamenta-se na necessidade de individualização da execução e tem por fim assegurar que a pena privativa de liberdade a que submetido o condenado alcançará efetivamente seu objetivo, que é o de reinserção na sociedade. Nesse viés, o benefício poderá ser deferido quando o apenado revelar condições de adaptar-se ao regime menos rigoroso. Assim, no que tange aos mecanismos voltados à ressocialização dos indivíduos, estes visam, justamente, à reinserção do convívio em sociedade dos criminosos considerados recuperados, evitando, assim, que os efeitos estigmatizantes da pena tenham o condão de levá-los a, reiteradamente, cometer crimes, convertendo-se em criminosos habituais. Esta videoaula tratará do sistema de execução penal sob o enfoque da garantia dos direitos fundamentais e de como as alterações no Plano Nacional de Política Criminal e Penitenciária, pautadas na opinião pública, podem sobrepujar as garantias constitucionais. A REINCIDÊNCIA DOS PRESOS Um assunto de relevante importância ao tratarmos da teoria do etiquetamento é a reincidência dos presos, posto que é justamente o efeito estigmatizante da pena que acaba por forçar ao etiquetamento do indivíduo perante à sociedade que se revela como uma das causas da reincidência criminal. A reincidência é instituto previsto no art. 63 do Código de Processo Penal, o qual dispõe que “verifica-se a reincidência quando o agente comete novo crime, depois de transitar em julgado a sentença que, no País ou no estrangeiro, o tenha condenado por crime anterior” (BRASIL, 1984a, [s. p.]). Devido aos estigmas causados pelo cumprimento de uma pena, a sociedade rotula o indivíduo como alguém que não é bem-vindo, dificultando sua reinserção no mercado de trabalho e, consequentemente, o seu próprio sustento, não lhe dando, dessa forma, alternativas capazes de lhe garantir uma vida saudável e longe da criminalidade. O autor Alexandro Baratta (2002, p. 89) se debruça sobre o tema, fazendo apontamentos acerca das relações entre o etiquetamento e a vida em sociedade: A pergunta relativa à natureza do sujeito e do objeto, na definição do comportamento desviante, orientou a pesquisa dos teóricos do labeling approach em duas direções: uma direção conduziu ao estudo da formação de “identidade” desviante, e o efeito da aplicação da etiqueta de “criminoso” (ou também “doente mental”)sobre a pessoa em quem se aplica a etiqueta; a outra direção conduz ao problema da definição, da constituição do desvio como qualidade atribuída a comportamentos e a indivíduos, no curso da interação, e por isto, conduz também para o problema da distribuição do poder da definição, para o estudo dos que detém, em maior medida, na sociedade, o poder de definição, ou seja, para o estudo das agências de controle social. O Estado é falho ao cumprir seu papel na ressocialização do preso, posto que não é realizado um preparo efetivo para o sujeito retornar à vida em sociedade, não havendo, de igual forma, certeza quanto a sua recuperação. Assim, a própria sociedade cria resistência quanto à reinserção do sujeito na comunidade, por ainda vê-lo como um criminoso, mesmo após o efetivo cumprimento da pena. O art. 25 da Lei de Execuções Penais dispõe que o Estado tem o dever de prestar assistência ao preso, consistente na orientação e no apoio, objetivando sua reintegração à vida em liberdade, colaborando, inclusive, para obtenção de trabalho nos termos do art. 27 do mesmo códex. Dessaforma, é possível atribuir ao Estado as falhas pela reinserção do indivíduo em sociedade, posto que sem a devida preparação do sujeito, a obtenção de trabalho, sustento ou mesmo a vida na comunidade torna-se insustentável, facilitando, assim, a reincidência criminosa, até porque, por vezes, esta acaba sendo a única alternativa possível para subsistência do sujeito socialmente etiquetado. Esta videoaula tratará das influências da teoria do etiquetamento na reincidência do preso. ESTUDO DE CASO Imagine a situação hipotética em que, em fase de execução de pena transitada em julgado por crime de roubo, um sentenciado recebeu o direito à progressão para o regime aberto. Tendo que demonstrar residência fixa e ocupação lícita, junta, nos autos, o seu antigo endereço e a sua nomeação a cargo comissionado de secretário adjunto da saúde do município de Aquipodetudo. Você é o Juiz da execução penal e deverá decidir sobre a progressão de pena do condenado, haja vista ser obrigação do Estado a colaboração de trabalho para fins de ressocialização. Para tanto, leve em consideração o teor do Art. 15, III, da Constituição, no que concerne à suspensão de direitos políticos. RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO É esperado que o estudante aponte que o art. 25 da Lei de Execuções Penais dispõe que o Estado tem o dever de prestar assistência, orientação e apoio ao preso, objetivando sua reintegração à vida em liberdade, colaborando, até mesmo, para obtenção de trabalho nos termos do art. 27 da referida lei. A resposta deve ser complementada, apontando que a CRFB, em seu Art. 15, inciso III, aduz que ocorrerá a suspensão de direitos políticos, entre outros motivos, quando houver condenação criminal transitada em julgado. Além disso, é enfática ao afirmar que perdurará a suspensão enquanto durarem os efeitos da condenação. Como o sentenciado ainda cumpre pena, mesmo que em regime aberto, está sob os efeitos de tal normatividade, motivo que inviabiliza sua nomeação. Saiba mais Para complementar os seus estudos sobre o tema estudado, trouxemos algumas dicas bem interessantes de leitura! Reincidência criminal e sua atuação como circunstância agravante escrito por Adler Chiquezi. Os reflexos da teoria do labelling approach (etiquetamento social) na ressocialização de presos escrito por Jhonathan Marques Santos.ligadas diretamente a estes e os utilizam como ferramenta para cumprir seus objetivos. O minimalismo penal, por exemplo, sempre foi um movimento crítico ao próprio direito penal, posto que, seus seguidores defendem a aplicabilidade do direito penal deve se dar no mínimo possível e somente quando absolutamente indispensável. Desta forma, resta cristalino que, na aplicação da política criminal minimalista, o instituto da descriminalização está mais presente que o da criminalização, até porque, a fim de que a esfera penal seja reservada apenas as condutas mais danosas aos indivíduos, aplicar-se- á a descriminalização para as condutas mais brandas, dando assim, efetivo cumprimento à política minimalista. Por sua vez, ao tratarmos de políticas criminais de caráter repressivo (ou punitivo), como no caso da política criminal de tolerância zero (baseada na broken windows theory), temos um uso mais relevante da ferramenta da criminalização, posto que tal política visava a aplicação de penas severas a crimes a delitos comuns e de baixo potencial ofensivo, sob o fundamento de que a exemplar condenação de tais delitos evitaria, seguindo o raciocínio da Teoria das Janelas Quebradas, a prática de delitos mais graves. Assim, a criminalização passou a ser adotada até mesmo em condutas corriqueiras que antes poderiam se configurar mera contravenção ou ilícito administrativo, tornando desta forma, a criminalização primeira extremamente rígida, por meio do que foi chamado de processo de hipercriminalização. Com isso, é possível concluir que a criminalização e a descriminalização, mais do que meras ferramentas, são a alma de qualquer política criminal, independente do objetivo que se pretende alcançar. De fácil percepção que caso a intenção seja enrijecer o processo de criminalização primária e adotar políticas marcadas por maior punitividade, o Estado deve se fazer valer do instituto da criminalização, enquanto caso o objetivo seja abrandar a criminalização primária, descriminalizando fatos antes tido como criminosos ou mesmo despenalizando uma conduta, o Estado se vale do instituto da descriminalização. Aula vídeo tratando dos institutos da criminalização e descriminalização como indispensáveis na aplicação de qualquer política criminal, com explanações acerca de sua aplicabilidade nas políticas repressivas e não repressivas. PENALIZAÇÃO E DESPENALIZAÇÃO Penalização e despenalização Diretamente ligados à criminalização e descriminalização, os institutos da penalização e despenalização são de absoluta relevância na matéria de políticas criminais. O processo de criminalização consiste em estabelecer, por meio de lei, que determinado comportamento é tido como criminoso, desta forma, ao tratarmos da penalização enquanto instrumento da criminalização primária, visamos a aplicação de penas severas como forma de abrandar sistematicamente o cometimento de atos criminosos. A despenalização, por sua vez, é ligada umbilicalmente ao instituto da descriminalização, na medida que objetiva a adoção de penas alternativas para o ato cometido. Atenção! É importante ressaltar que, diferente da descriminalização, que possui caráter amplo e engloba até mesmo a transformação de um ilícito em um ato jurídico-penalmente irrelevante, a despenalização possui caráter mais estrito, ao ponto que não tem o condão de abolir a tipificação do ato, mas apenas de substituir a pena aplicada na intenção de abrandar a punição pelo fato tipificado. A Lei Federal nº 9.099/95 (que dispõe sobre os Juizados Especiais Cíveis e Criminais e dá outras providências) consagrou-se como eficaz instrumento da despenalização, ao ponto que definiu, em seu art. 61, como infrações penais de menor potencial ofensivo, as contravenções penais e os crimes a qual a lei comine pena máxima não superior a 2 (dois) anos. A Lei dos Juizados Especiais não transformou qualquer ilícito em ato jurídico- penalmente irrelevante, como poderia ocorrer por meio da descriminalização, mas sim, criou uma série de medidas de despenalização para serem aplicadas em substituição à prisão propriamente dita. Uma das medidas de despenalização contidas na Lei dos Juizados Especiais diz respeito à composição civil dos danos que, nos termos impostos pelo art. 74 de referido códex, importa renúncia do direito de queixa ou representação, culminando na extinção do feito: Art. 74. A composição dos danos civis será reduzida a escrito e, homologada pelo Juiz mediante sentença irrecorrível, terá eficácia de título a ser executado no juízo civil competente. Parágrafo único. Tratando-se de ação penal de iniciativa privada ou de ação penal pública condicionada à representação, o acordo homologado acarreta a renúncia ao direito de queixa ou representação. Outra relevante medida criada pela Lei Federal nº 9.099/95 é a chamada transação penal, materializada pelo art. 76 da mencionada lei, no qual, havendo representação ou tratando- se de crime de ação penal pública incondicionada, não sendo caso de arquivamento, o Ministério Público poderá propor a aplicação imediata de pena restritiva de direitos ou multas, a ser especificada na proposta. Tal instituto, como medida de despenalização, atribuiu ao Ministério Público a possibilidade de propor ao sujeito tido como autor de infração de menor potencial ofensivo, a aplicação de pena restritiva de direitos, como forma de abrandar e até mesmo acelerar a aplicação de penas. Os institutos da penalização e despenalização são partes integrantes dos processos de criminalização e descriminalização, servindo de ferramentas para consecução dos objetivos precípuos destes enquanto fenômenos anímicos da política criminal. Aula vídeo relativa aos processos de penalização e despenalização, contendo conceitos e explicações práticas acerca de cada um deles. PRISIONALIZAÇÃO E DESPRISIONALIZAÇÃO Prisionalização e desprisionalização No estudo dos processos político-criminais é imprescindível a análise acerca de dois institutos de notável relevância, sendo eles a prisionalização e a desprisionalização em caráter cautelar. O fenômeno da prisionalização como medida de segregação cautelar do indivíduo, ou seja, antes de uma sentença penal condenatória, remonta a idade média, posto que, a privação de liberdade de determinado sujeito, até meio do século XVII, não era tida como uma sanção propriamente dita, mas sim, era utilizada como meio cautelar de deter uma pessoa até a efetiva definição do que seria feito com ela. A Comissão Interamericana de Direito Humanos (CIDH), órgão principal e autônomo da Organização dos Estados Americanos (OEA), no documento intitulado de Informe sobre el uso de la prisión preventiva en las Américas aponta que o respeito aos direitos das pessoas privadas da liberdade é um dos principais desafios que os Estados Membros enfrentam, reconhecendo o uso excessivo da privação preventiva de liberdade na região. Em seus estudos e análises, a CIDH aponta ter observado que o alto índice de detidos provisórios na região decorre de diversos aspectos, dentre eles: Demora na solução judicial. Falta de capacidade operativa e técnica dos corpos policiais e de investigação. Falta de capacidade operativa, independência e recursos das Defensorias Públicas. Deficiência no acesso aos serviços das Defensorias Públicas. Existência de legislações que privilegiam a aplicação de prisão preventiva. Falta de mecanismos para aplicação de medidas cautelares diversas da prisão. Corrupção. Uso estendido da medida em casos de delitos menos gravosos. Dificuldade no êxito da revogação da medida. No Brasil, a Constituição de 1824 (BRASIL, 1824) ao tratar da inviolabilidade dos direitos civil e políticos dos brasileiros, dispôs que ninguém poderia ser preso sem culpa formada, exceto nos casos expressamente declarados na Lei e ainda, definiu que em 24 horas a contar da entrada na prisão(para cidades, vilas ou povoados próximos ao local de residência do Juiz) o magistrado deveria emitir nota assinada por ele, na qual informa ao réu os motivos que levaram à sua prisão, os nomes dos seus acusadores e das testemunhas. O mesmo códex dispôs que em se tratando de locais mais remotos o prazo de 24 horas seria estendido por período de tempo razoável, definido com base na extensão do território. Com a evolução jurídica moderna e ascensão do garantismo, o Código de Processo Penal atual passou a admitir a prisão preventiva nas hipóteses elencadas em seu art. 312 e 313. Ante o exposto, é possível concluir acerca da importância do estudo do instituto da prisionalização e desprisionalização no âmbito das políticas criminais, bem como a evolução e o desenvolvimento do instituto no decorrer dos anos com ascensão do garantismo moderno, bem como, preocupação interna e externa em reduzir gradativamente o número de prisões cautelares, não a tratando como regra, mas sim como exceção à garantia individual de liberdade. Aula vídeo com explicações acerca dos institutos da prisionalização e desprisionalização sob o enfoque do garantismo constitucional e a preocupação de órgãos externos na redução das prisões cautelares. ESTUDO DE CASO Tomando por base os assuntos tratados em aula, o estudante deve dissertar sob o ponto de vista de Jakobs, sobre as justificativas para adoção de medidas extremas do modelo de lei antiterrorista do USA PATRIOT Act. RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO À luz dos conceitos expostos em aula, espera-se que o estudante em sua dissertação, explique que a adoção de medidas extremas do modelo de lei antiterrorista do USA PATRIOT Act justifica-se pela adoção de políticas criminais repressivas pautadas na Teoria do Direito Penal do Inimigo. Segundo esta teoria, há duas espécies de infratores, os chamados “criminosos tradicionais”, aos quais é imperiosa a aplicação do Direito Penal Tradicional e, os “autores de crimes graves”, cujos atos são atentatórios à própria estrutura social, como os terroristas, criminosos sexuais, membros do crime organizado e autores de outros crimes graves. Para a Teoria do Direito Penal do Inimigo, esse segundo grupo deve ser rotulado como “inimigo da sociedade”, razão pela qual, sequer devem ser tratados com as benesses do Direito tradicional, ante a insuficiência deste em reprimir suas condutas criminosas. O aluno deve apontar que o posicionamento expresso no USA PATRIOT Act possibilita a restrição de direitos e liberdades civis, possibilitando a prática de tortura para assegurar o bem maior: incolumidade pública. Segundo essa teoria, existe a antecipação da punição, a desproporcionalidade das penas e supressão de direitos com leis severas. Saiba mais Para ampliar os seus conhecimentos sobre os temas abordados durante os nossos estudos, indicamos algumas leituras que são muito pertinentes e interessantes! FERRAJOLI, L. Direito e razão: teoria do garantismo penal. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2006. Clique aqui para ler o artigo Revendo os conceitos das prisões cautelares a partir da prisão do senador Delcídio Amaral escrito por Alencar Frederico Margraf. POLÍTICAS CRIMINAIS NA PÓS-MODERNIDADE Ao tratarmos do desenvolvimento das políticas criminais em âmbito mundial, abordaremos a Teoria da Rational Choice, sua preocupação com as situações que envolvem o comportamento do criminoso e como o meio ambiente exerce influências sobre este. INTRODUÇÃO Olá estudante! O presente estudo tem por escopo aprofundar-se no tema relativo às políticas criminais, focando na era da pós-modernidade. Ao tratarmos do desenvolvimento das políticas criminais em âmbito mundial, abordaremos a Teoria da Rational Choice, sua preocupação com as situações que envolvem o comportamento do criminoso e como o meio ambiente exerce influências sobre este. Será ainda objeto deste estudo a teoria chamada de Routine Activity, ou Teoria das Atividades Rotineiras, por meio da qual se busca explanar acerca das taxas de criminalidade, atribuindo seu aumento as oportunidades criminais decorrentes da alteração das atividades rotineiras no período moderno, (Segunda Guerra Mundial). Trataremos também da prevenção de situações e crime sob o enfoque da criminologia moderna, com explanações acerca da evolução do pensamento criminológico a respeito da prevenção e como as políticas criminais atuais são aplicadas com este enfoque. CENÁRIO HISTÓRICO Cenário histórico Para compreender o desenvolvimento das políticas criminais na atualidade é necessário traçarmos um panorama histórico de sua evolução ao longo das eras. Como já sabemos, podemos dividir a evolução histórica da política criminal em: Era Clássica, Era Científica e Era Moderna. Na Era Clássica da criminologia, sedimentou o antropocentrismo como definidor de que o direito era imperativo da razão. Esse período foi abordado por autores como Cesare Beccaria e aprimorado por Anselm von Feuerbach, Immanuel Kant e Francesco Carrara, que, sob o ponto de vista do livre arbítrio, defendiam que os homens escolhiam seu caminho livremente, sem interferência do meio ambiente. Caso o caminho escolhido pelo sujeito fosse ruim, com a prática de condutas moral e socialmente reprováveis, este deveria ser submetido a uma pena como forma de castigo. Na chamada Era Científica, a consolidação da Escola Positiva trouxe novo enfoque às políticas criminais, passando-se a análise não apenas dos fatos criminosos, mas do homem criminoso. Neste período, destacou-se o autor Cesare Lombroso, que defendia que nem todos os indivíduos são iguais, apontando que os criminosos agiam de forma irracional e predeterminada. Desta forma, a política criminal à época teve como finalidade a defesa social com intuito de identificar e neutralizar indivíduos considerados perigosos para que cessassem seus atos criminosos. Com o final da Segunda Guerra Mundial houve um relevante aumento das taxas de criminalidade, até porque, o mundo todo passou por severa crise econômica na época. No período, a criminologia e as políticas criminais passaram por um processo de separação, até porque, as políticas criminais passaram a adotar o chamado “idealismo de esquerda”, com o aumento da vitimização por parte da população economicamente menos favorecida. No período denominado como pós-moderno, marcado pelo início dos anos 1990 e consolidado na virada do século, o pensamento racionalista é drasticamente afastado, dando espaço à sensação geral de que o Estado não possui capacidade de resolver seus próprios problemas e coibir de forma satisfatória a criminalidade crescente. Na pós-modernidade, passou-se a tratar do fato criminoso de modo imediato, posto que esse seria cometido ante a ausência de controle social e devido a existência de oportunidade para tanto, o que culminou em políticas criminais voltadas a criar meios de dificultar a prática da conduta criminosa. As políticas criminais passaram a ser dotadas de caráter conservador e deixaram de lado o pensamento de recuperação do indivíduo, focando quase que exclusivamente na prevenção do ato delituoso em si. Esse período foi marcado pelo surgimento de teorias como a Rational Choice e sua preocupação com as situações que envolvem o comportamento do criminoso e como o meio ambiente exerce influência sobre este e a Teoria das Atividades Rotineiras, que busca explicar como a alteração da rotina do cidadão comum no mundo moderno afetaram as “oportunidades de crime”. Desta forma, sob o enfoque criminológico, no período pós-moderno houve drástica alteração nas políticas criminais, com a evolução de conceitos e desenvolvimento de teorias até então não exploradas, alterando até mesmo as formas de prevenção de fatos criminosos. Aula vídeo versando sobre o cenário histórico das políticas criminais no período moderno e pós-moderno.RATIONAL CHOICE Teoria da Rational Choice No período pós-moderno, surgiu a chamada Rational Choice Theory (Teoria da Escolha Racional), a partir desta teoria, criada no período pós-guerra, passou-se a aplicar as ciências sociais no campo da criminologia, analisando como o meio ambiente e a sociedade em que vive determinado sujeito, influencia suas escolhas. A Rational Choice estuda especificamente as escolhas de um determinado indivíduo diante da interação deste com o meio em que vive, com o intuito de verificar se a atitude adotada por este sujeito foi livre e racional, levando-o a cometer uma conduta antijurídica. A criação da Teoria da Escolha Racional teve por base duas teorias já conhecidas, a “Teoria dos Jogos” e a “Teoria da Decisão”. Teoria dos jogos: conclui que as pessoas tomam determinadas atitudes com base especificamente nas consequências das atitudes de terceiros, assim, os indivíduos atuam socialmente como se estivessem participando de um jogo, lançando sua estratégia de acordo com as jogadas realizadas por outros jogadores. Teoria da decisão: conclui que, se uma pessoa é racional, suas decisões devem seguir o caminho da racionalidade. Reflita A Teoria Rational Choice, tendo por base as outras duas já citadas, afasta o isolamento ocorrido em períodos anteriores, relativo ao interesse do criminoso, passando a considerar todo o meio como formador da racionalidade e das escolhas do sujeito. O autor Patrick Baert (1997, p. 12), ao tratar sobre o assunto, considera algumas noções- chave para a teoria: Premissa da intencionalidade: ao falarmos de intencionalidade, sob o enfoque da Teoria da Escolha Racional, temos que o indivíduo age intencionalmente, porém, sob influência do meio em que vive e ante as práticas sociais adotadas, sua escolha intencional seja influenciada a seguir em determinada direção, trazendo consequências não intencionais. Premissa da racionalidade: se tratando da premissa da racionalidade, temos que, os indivíduos agem de forma racional e coerente, porém, de acordo com suas próprias convicções. Desta forma, as atitudes adotadas por uma determinada pessoa buscam o aumento de sua satisfação e a redução dos custos envolvidos, porém, é plenamente possível que alguém, sob influência de convicções falsas, realize um ato reprovável, de forma racional, com o intuito de atingir seus objetivos. Distinção entre informação completa e incompleta e a diferença entre risco e incerteza: a Teoria da Escolha Racional defende a existência de “informações imperfeitas”, apontando que ao tomarmos determinada atitude, assumimos que sabemos todas as suas consequências, que nossas informações são perfeitas, quando, em verdade, realizamos um balanço entre incerteza e risco, sendo que, ao enfrentar os riscos, calculamos as probabilidades de resultado, afirmando que situações de incerteza simplesmente não existem. A distinção entre ação estratégica e ação interdependente: sob o enfoque prático, o autor Anthony Downs (1957) ao tratar do assunto no livro An economic theory of democracy, aponta que tantos políticos como os eleitores agem de forma racional, sendo os primeiros com a motivação voltada a seus ganhos pessoais, seja poder ou dinheiro, enquanto os segundos, estabelecem suas preferências comparando os ganhos pessoais que podem ter com cada partido no poder. Aula vídeo tratando da Teoria da Rational Choice e sua aplicabilidade prática, bem como sua correlação com a criminologia sob o enfoque da influência do meio ambiente nos atos praticados e sua racionalidade. ROUTINE ACTIVITY Teoria da Routine Activity A Teoria das Atividades Rotineiras foi criada por Albert K. Cohen e Marcus Felson e tinha como intuito proceder a efetiva análise das razões que ensejaram o aumento da criminalidade no período marcado pelo fim da Segunda Guerra Mundial. Segundo a Routine Activity Theory a modificação de rotina da população em conjunto com o aumento da desigualdade social, contribuíram para criar as chamadas “oportunidades de crime”. Ao tratar do assunto, Molina (1997, p. 416) aponta que “o crime é uma opção reflexiva, calculada, oportunista, que pondera os custos, riscos e benefícios em função sempre de uma oportunidade ou situação concreta”. Assim, havendo a oportunidade para a prática de um crime, o delinquente analisa as condições e os riscos envolvidos e decide se é ou não viável a execução de conduta. A Teoria das Atividades Rotineiras possui como objeto principal de estudo os crimes de ordem patrimonial, apontando que o fator determinante para a execução do fato criminoso dessa ordem não é simplesmente a existência de um sujeito capaz de cometer a conduta antijurídica, mas também, a oportunidade concreta para a realização deste, ou seja, amplia- se aqui a participação da vítima no processo criminoso, aumentando o enfoque da vitimologia nas situações de prevenção de crime. Nos crimes de ordem patrimonial, para a Routine Activity Theory, os criminosos definem como alvo os objetos de maior valor, fáceis de esconder e com menor risco, realizando uma verdadeira avaliação dos riscos e recompensas, posto que, se menor ou ausente a necessidade de superação de um determinado obstáculo, a recompensa supera o fator risco. A teoria analisada possui ainda a figura do chamado guardião, que é alguém que desestimula a execução da atividade criminosa, podendo este ser uma autoridade policial ou, mais comumente, transeuntes, o proprietário do bem ou qualquer outro que possa dificultar a ação predeterminada. Outra figura relevante no estudo da Routine Activity Theory é o chamado manipulador, que pode ser definido como alguém com proximidade em relação ao criminoso, seja seus pais, professores ou amigos, exercendo, desta forma, certa dose de influência psicológica sobre ele, a ponto de dissuadi-lo da prática criminosa. Reflita Na concepção da teoria analisada, é possível definir uma espécie de “triângulo do crime”, formado pela vítima ou pelo objeto (protegidos pelo seu guardião) o infrator (diretamente ligado ao manipulador ou supervisor que pode dissuadi-lo) e o local (ambiente propício a oportunidades de crime), com base nesta figura, o criminologista canadense Kim Rossmo (1997) definiu as oportunidades de crime por meio da seguinte equação: delito = (criminoso + objeto – guardião) (lugar + tempo). Dessa forma, em que pese a importância da motivação do criminoso, a situação de crime somente se concretiza se presentes os elementos que constituem a oportunidade criminosa, demonstrando, desta forma, que o ambiente e as rotinas adotadas pelas próprias vítimas, afetam diretamente o sopesamento entre recompensa e risco, criando assim, as oportunidades perfeitas para criminosos motivados. Aula vídeo tratando da Routine Activity Theory, com explanações acerca do triângulo da atividade criminosa e da efetiva oportunidade de crime. PREVENÇÃO DE SITUAÇÕES DE CRIME Prevenção de situações de crime Com base nas premissas apresentadas pela Rational Choice Theory e Routine Activity Theory, é possível concluir, do ponto de vista da criminologia moderna, como as situações criminosas se desenvolvem e são influenciadas pelo ambiente interno, externo e pelas condutas das vítimas, sendo, portanto, possível proceder a análise da prevenção da situação criminal com enfoque nas teorias apresentadas. O ponto de convergência entre as teorias estudadas se encontra justamente na motivação do sujeito que pretende cometer o ilícito e a influência exercida sobre ele. Como explanado anteriormente, a existência de um guardião, por si só, já é fator primordial na política de prevenção, enquanto sob o ponto de vista do desenvolvimento social e das relações culturais, a existência da figura do manipulador pode evitar o cometimento de delitos por meio da influência psicológica exercida sobre o infrator. Podemos definir a prevençãode situações de crime, como o conjunto de medidas que visam evitar a ocorrência ou reincidência de determinado delito, sendo que a criminologia moderna divide o processo de prevenção em três espécies: a prevenção primária, secundária e terciária. A prevenção primária, enquanto fase inicial do processo de prevenção de situações de crime, tem por objeto a implementação de ações indiretas voltadas à prevenção, evitando estímulos à prática criminosa. As ações realizadas na prevenção primária geralmente possuem caráter social, econômico e educativo, atacando, desta forma, a causa inicial da conduta criminosa, aumentando a renda do cidadão, melhorando as condições de moradia e emprego e possibilitando uma vida minimamente saudável e digna a estes, evitando, assim, que o indivíduo cometa desvios de conduta e atos criminosos. A prevenção secundária de situações de crime, por sua vez, não é voltada para as pessoas individualmente, sendo focada na coletividade e aplicada apenas em momento posterior a execução da conduta delitiva ou mesmo em sua iminência, sendo voltada aos grupos mais tendenciosos a prática delitiva. Em se tratando da prevenção secundária, é possível destacar que esta opera a curto e médio prazo, sendo diretamente ligada com a política legislativa penal (criminalização primária) e com a atividade policial (criminalização secundária), postos que estas são voltadas aos interesses de prevenção geral de condutas delitivas. Por fim, a prevenção terciária, enquanto fase final do processo de prevenção de situações criminais, é voltada de modo individualizada a cada sujeito, posto que sua aplicabilidade se dá por meio das penas aplicadas no campo do processo penal e do efetivo processo de ressocialização intrínseco às execuções penais. A prevenção terciária tem início apenas com o cumprimento de pena por parte do infrator, independente do caráter efetivo desta pena, se reclusão, detenção, prestação de serviços à comunidade ou qualquer medida restritiva de direitos, a intenção da prevenção terciária, nesta fase, é coibir a reiteração da conduta. Aula vídeo relativa ao processo de prevenção criminal em todas as suas fases, com explanações sobre como o ambiente externo influi na prevenção. ESTUDO DE CASO Uma pessoa maior, capaz, cresceu em uma comunidade carente e violenta, sobre as influências locais, tendo percepções próprias sobre a realidade, comete um crime de roubo. Sob a premissa lançada, tendo em vista o conteúdo estudado, o estudante deverá elaborar um texto tendo como objeto de análise a concepção da Rational Choice Theory e Routine Activity Theory. RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO Com base nos conceitos expostos em aula, espera-se que o estudante, em sua dissertação, aponte que, em se tratando da Rational Choice Theory, do ponto de vista da criminologia moderna, será objeto de análise não apenas o criminoso em si ou a conduta criminosa, mas também as influências que o meio externo exerce sobre ele. É importante que aponte que a Rational Choice estuda especificamente as escolhas de um determinado indivíduo diante da interação deste com o meio em que vive, com o intuito de verificar se a atitude adotada por este sujeito foi livre e racional, levando-o a cometer uma conduta antijurídica. O estudante deve frisar que pelo enfoque da Rational Choice Theory o indivíduo age intencionalmente, porém, sob influência do meio em que vive e ante as práticas sociais adotadas, sua escolha intencional seja influenciada a seguir em determinada direção, trazendo consequências não intencionais. Por outro lado, em se tratando da Routine Activity Theory, o estudante deve discorrer que o objeto de estudo deixa de ser especificamente as influencias exercidas pelo meio externo e seu caráter social, passando a ser a oportunidade criminosa em si e os fatores determinantes para sua prevenção. É relevante que a dissertação mostre que o fator determinante para a execução do fato criminoso de caráter patrimonial, sob a ótica da Routine Activity Theory, não é simplesmente a existência de um sujeito capaz de cometer a conduta antijurídica, mas também, a oportunidade concreta para a realização desta, ou seja, amplia-se aqui a participação da vítima no processo criminoso, aumentando o enfoque da vitimologia nas situações de prevenção de crime. Resolução do Estudo de Caso Saiba mais Para ampliar os seus conhecimentos sobre os temas abordados durante os nossos estudos, indicamos algumas leituras que são muito pertinentes e interessantes! Clique aqui para ler o artigo A nova criminologia administrativa escrito por Pedro Augusto Dassan. Clique aqui para ler o artigo Teoria da escolha racional: a evidenciação do Homo Economicus? escrito por Fernando Scheeffer. POLÍTICAS CRIMINAIS E DIREITOS FUNDAMENTAIS Durante os estudos, vamos nos aprofundar nos efeitos que as políticas criminais exercem sobre os direitos fundamentais de ordem constitucional. INTRODUÇÃO Olá, estudante! Durante os estudos, vamos nos aprofundar nos efeitos que as políticas criminais exercem sobre os direitos fundamentais de ordem constitucional. É importante ressaltar que o objetivo desta aula é proceder à análise apurada de como a privação de liberdade, seja ela cautelar ou decorrente da efetiva aplicação de uma condenação criminal, afeta os direitos garantidos a todos pela Magna Carta. Neste ínterim, vamos tratar ainda da questão relativa à reserva legal inserta no âmbito do direito penal e da privação de liberdade, ambos sob o enfoque constitucional. Ressalte-se que outro assunto relevante e de caráter teórico com aplicação prática, a ser tratado aqui, é a execução penal e as políticas penitenciárias, incluindo uma observação acerca dos objetivos traçados no Plano Nacional de Política Criminal e Penitenciária (2020- 2023) elaborado pelo Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária – CNPCP em novembro de 2019. GARANTIAS FUNDAMENTAIS Ao tratarmos de políticas criminais, processo de criminalização ou qualquer outra matéria afeta ao direito penal propriamente dito, indispensável tratar de garantias fundamentais, principalmente ante ao caráter punitivo do sistema penal. Os direitos e garantias fundamentais encontram-se descritos no Título II, da Constituição Federal, do art. 5º ao art. 17, e podem ser definidos como o mínimo necessário para que uma pessoa viva com dignidade. Do ponto de vista do direito penal, devemos ressaltar que o Estado, enquanto garantidor dos direitos fundamentais, não pode aplicar penas, sanções ou mesmo impor tratamento desumano ou degradante a alguém, posto que a dignidade da pessoa humana é um dos fundamentos da República Federativa do Brasil enquanto Estado Democrático de Direito. Em se tratando da dignidade da pessoa humana, no âmbito do processo de criminalização, temos que o direito penal não deve, em qualquer hipótese, punir condutas que a própria sociedade considera inofensiva, demonstrando assim, novamente, a influência social no processo de criminalização primária. Claro exemplo da preservação de direitos fundamentais no âmbito do direito penal brasileiro é a determinação contida no art. 5º, XLVII da Magna Carta, quanto a proibição, não absoluta (devido a previsão em caso de guerra), de pena de morte; de penas de caráter perpétuo (máximo de 30 anos); de penas de banimento ou mesmo de penas cruéis. No mesmo artigo há proibição de penas de trabalho forçado, porém, cabe ressaltar que na Lei de Execuções Penais há a existência de trabalho obrigatório, o qual não deve ser confundido com os trabalhos forçados tratados na vedação do art. 5º, XLVII da Constituição, havendo uma espécie de cuidado com a necessidade de cada pessoa submetida a este instituto. A fim de diferenciar o instituto do trabalho obrigatório dos trabalhos forçados, a própria Lei de Execuções Penais (BRASIL, 1984) definiu em seuartigo 28 que “o trabalho do condenado, como dever social e condição de dignidade humana, terá finalidade educativa e produtiva”. O conflito entre a proibição de trabalhos forçados e o trabalho obrigatório previsto na Lei de Execuções penais é meramente aparente, posto que, o trabalho penitenciário é um dever e um direito do preso, garantido pelo artigo 48 do mesmo códex e dá direito a remissão de pena. Em se tratando de direitos fundamentais no âmbito do direito penal é necessário abordar o princípio da legalidade penal, segundo o qual a lei deve ser estrita e legal, sendo definido no art. 5º, XXXIX, da Constituição Federal (BRASIL, 1988) que “não há crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem prévia cominação legal”. Outro princípio relevante que demonstra a afinidade do direito penal com os direitos fundamentais é o da presunção de inocência, segundo o qual ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória, ou seja, a presunção de inocência, dentro da visão garantista do Estado, pode ser considerada como um dos pilares basilares do próprio Estado Democrático de Direito. Desta forma, deve-se ressaltar a importância do respeito das normas constitucionais e do garantismo esperado do direito penal, a fim de preservar a própria dignidade daqueles que forem investigados ou mesmos condenados em virtude da prática de uma conduta delituosa, a fim de preservar o próprio Estado de Direito. Aula vídeo com explanações aprofundadas acerca do direito penal e a necessidade de preservação dos direitos fundamentais. A PRIVAÇÃO DA LIBERDADE A liberdade, enquanto direito fundamental, é prevista no próprio caput do art. 5º da Constituição Federal. É importante ressaltar que a garantia constitucional não é relativa apenas a liberdade de ir e vir, mas também engloba uma série de liberdades indispensáveis à garantia da dignidade da pessoa humana. Quanto ao rol de liberdades protegidas pelo texto constitucional, José Afonso da Silva (2008, p. 235) lista tais liberdades como: a liberdade de locomoção; liberdade de pensamento; liberdade de expressão; liberdade de exercer uma profissão e a liberdade social. Visando aprofundar os estudos relativos a privação de liberdade sob o enfoque das políticas criminais e o respeito aos direitos fundamentais, abordaremos exclusivamente a liberdade de locomoção. Do ponto de vista constitucional, a liberdade somente pode ser restringida em razão do princípio da legalidade. O art. 5º, II da Constituição da República Federativa do Brasil (BRASIL, 1988) é cristalino ao definir que “ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei”, desta forma, o direito à liberdade de ação sofre restrições por parte do princípio da legalidade. Ante a tal fundamento, temos que a privação de liberdade somente é válida se decorrente de Lei, partindo assim, do próprio Poder Legislativo, que é constituído por uma escolha do povo no exercício de seu direito de voto. Desta forma, fácil perceber que a privação de liberdade, quando decorrente de uma condenação criminal, cujo crime é tipificado em lei, criada pelo Poder Legislativo enquanto órgão constituído em decorrência da escolha do povo no exercício da soberania popular, não fere o direito constitucional à liberdade, até porque, a restrição desta decorre do próprio princípio da legalidade. Tomando por base o tema abordado, seria correto afirmar que, em se tratando da privação de liberdade decorrente de prisões cautelares, haveria desrespeito ao direito fundamental à presunção de inocência? A resposta seria não. A Constituição Federal, em seu art. 5º, LXI (BRASIL, 1988) é enfática ao dispor que “ninguém será preso senão em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada de autoridade judiciária competente, salvo nos casos de transgressão militar ou crime propriamente militar, definidos em lei”. Assim, há previsão constitucional para a decretação do segregamento cautelar de um indivíduo, sendo que tal ato visa resguardar a ordem social, porém, deve ser utilizada com cautela, até porque, com a expansão dos meios de comunicação na atualidade, o próprio clamor popular e a perseguição midiática podem acabar por influir na tomada de decisão de um magistrado, levando a valer-se do instituto da prisão cautelar apenas para o controle dos ânimos sociais. Por fim, podemos concluir que a privação de liberdade de um indivíduo, em que pese o garantismo constitucional, não fere seus direitos fundamentais, posto que prevista na Magna Carta e pautada na própria legalidade, sendo que, de igual forma, o segregamento cautelar visando a manutenção da ordem social, quando aplicado dentro dos requisitos previstos em lei e utilizado com parcimônia, também não fere tais direitos, servindo desta forma, como ferramentas das políticas criminais para a consecução de seus objetivos. Saiba mais CARNELÓS, E. P. Garantias constitucionais, direito penal e processo penal: considerações sobre uma época sombria. Revista Brasileira da Advocacia, jul. set. 2016. Clique aqui para acessar. CARVALHO. L. G. G. C. de. Garantias constitucionais processuais penais (a efetividade e a ponderação) das garantias no processo penal. Aula vídeo tratando da privação de liberdade sob o enfoque constitucional, seja decorrente de uma condenação ou como instrumento de segregação cautelar. EXECUÇÃO PENAL E POLÍTICA PENITENCIÁRIA A execução penal, conforme previsão legal, tem por objetivo efetivar as disposições de sentença ou decisão criminal e proporcionar condições para a harmônica integração social do condenado e do internado, e é regulada pela Lei Federal nº 7.210 de 11 de julho de 1984. Na seara dos direitos fundamentais, a relevância dos estudos relativos à execução penais é ampliada, posto que, com a segregação de indivíduo para cumprimento da pena imposta, as garantias de seus direitos não devem ser afastadas, mesmo dentro de um estabelecimento prisional. Com base em tais premissas, o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, no exercício de suas atividades é incumbido, por força do art. 64 da Lei de Execuções Penais, de propor diretrizes da política criminal quanto à prevenção do delito, administração da Justiça Criminal e execução das penas e das medidas de segurança, contribuindo para elaboração de planos nacionais de desenvolvimento, sugerindo as metas e prioridades da política criminal e penitenciária. O Estado, no curso da execução penal, deve garantir ao preso assistência material, jurídica, educacional, religiosa, social e de saúde, nos termos do art. 14 a 27 da Lei Federal nº 7.210/84. A respeito da relação entre direitos fundamentais e o instituto da execução penal, Nucci (2016, p. 942) é enfático: O estudo da execução penal deve fazer-se sempre ligado aos princípios constitucionais penais e processuais penais, até porque, para realizar o direito punitivo do Estado, justificasse, no Estado Democrático de Direito, um forte amparo dos direitos e garantias individuais. Não é viável a execução da pena dissociada da individualização, da humanidade, da legalidade, da anterioridade, da irretroatividade da lei prejudicial ao réu (princípios penais) e do devido processo legal, como todos os seus corolários (ampla defesa, contraditório, oficialidade, publicidade, entre outros). Com base em tal premissa, temos que o procedimento de execução penal deve respeitar os direitos e garantias fundamentais dos indivíduos que se encontram em cumprimento de pena, não devendo ocorrer a relativização de seus direitos em decorrência de sua segregação. Tratando do Plano Nacional de Política Criminal e Penitenciária (BRASIL, 2019) elaborado para o triênio 2020/2023, no que tange as execuções criminais, a Comissão propôs a completa revisão do sistema de execução de penas no Brasil, levando-se em contaos Projetos de Lei nº 10.372, de 2018 (BRASIL, 2018b), e 882, de 2019 (BRASIL, 2019a). O Projeto de Lei nº 10.372/18 foi transformado na Lei Ordinária nº 13.964/2019, modificando a legislação penal e processual penal, objetivando o desenvolvimento das políticas de combate ao crime organizado, tráfico de drogas, dentre outros e ainda agilizando e modernizando a investigação criminal e a persecução penal. O projeto de Lei nº 882/2019, que acabou sendo arquivado, por sua vez, estabelecia medidas contra a corrupção, o crime organizado e os crimes praticados com grave violência à pessoa. É importante ressaltar que a atual política penitenciária tem por objetivo enrijecer as normas penais relativas ao cumprimento de pena, partindo de uma premissa da falência dos critérios atuais para progressão de regime e propondo assim, o fim do regime semiaberto como etapa do sistema progressivo. Assim, do ponto de vista dos direitos fundamentais, é necessário cautela para que, pautado em sentimentos da sociedade e a comoção social acerca da impunidade, as políticas criminais e penitenciárias não sobrepujem as garantias constitucionais dos cidadãos. Aula vídeo tratando do sistema de execução penal sob o enfoque da garantia dos direitos fundamentais e como as alterações no Plano Nacional de Política Criminal e Penitenciária, pautadas na opinião pública, podem sobrepujar as garantias constitucionais. RESERVA LEGAL DO CASTIGO O princípio da Reserva Legal ou da Estrita Legalidade, é um princípio de ordem constitucional com ampla aplicabilidade no âmbito do direito penal. Conforme citado anteriormente segundo a Reserva Legal, trazida pelo inciso XXXIX do art. 5° da Constituição da República Federativa do Brasil (BRASIL, 1988), “não há crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem prévia cominação legal”, desta forma, a lei em matéria penal deve ser taxativa, descrevendo a tipificação da conduta criminosa com precisão e com pouco ou nenhuma margem para interpretação. Com relação à lógica trazida pelo princípio da Reserva Legal, é importante lembrar que sua aplicabilidade também se estende às contravenções penais, ou seja, não há crime ou contravenção sem que haja definição legal com a descrição da pena cominada. Em se tratando da Reserva Legal do Castigo no direito penal, é imperioso que seja esclarecido que a pena aplicada ao sujeito que comete uma conduta tipificada na lei penal, não possui apenas o objetivo de privar-lhe da liberdade, mas sim, de servir como verdadeiro castigo no qual o sujeito sinta-se culpado pelo ato cometido, um castigo não apenas no sentido físico, mas também psicológico. A respeito do poder-dever do Estado, de punir o criminoso, Fernando Capez (2012, p. 45) é didático ao definir, in verbis: O Estado, única entidade dotada de poder soberano, é o titular exclusivo do direito de punir (para alguns, poder-dever de punir). Mesmo no caso da ação penal exclusivamente privada, o Estado somente delega ao ofendido a legitimidade para dar início ao processo, isto é, confere-lhe o jus persequendi in judicio, conservando consigo a exclusividade do jus puniendi. Assim, a pena aplicada pelo Estado, no exercício do jus puniendi, ao sujeito que comete uma conduta criminalizada, enquanto limitador de direitos fundamentais, possui o caráter de castigo físico e psicológico, porém, não fere as garantias constitucionalmente previstas, na medida em que a estrita legalidade prevê a possibilidade de sua aplicação quando decorrente de previsão legal. A sociedade hodierna, do ponto de vista garantista e no intuito de redução da prisionalização, buscou meios de abrandar o castigo em situações menos gravosas, criando meios alternativos de castigo, como, por exemplo, as penas restritivas de direitos previstas na Lei nº 9.099/95 e, por outro lado, agravou as penas para crimes mais complexos e que envolvam violência. Desta forma, temos que a reserva legal do castigo, está atrelada diretamente ao poder punitivo do Estado e na forma como as penas são aplicadas, sendo que, independentemente da complexidade do delito, as garantias fundamentais não podem ser afastadas, devendo ser preservada a dignidade da pessoa humana, constitucionalmente prevista, em qualquer hipótese ou seja, o próprio poder do Estado de aplicar castigos, possui limitadores constitucionais que visam a proteção individual das pessoas, evitando, assim, penas desproporcionais ou mesmo cruéis, buscando a ressocialização do indivíduo no lugar de sua segregação por tempo indeterminado. ASSISTÊNCIAS AO PRESO GARANTIDAS NA LEI Nº 7.210/84 ASSISTÊNCIA MATERIAL Art. 12 – Consiste no fornecimento da alimentação, vestuário e instalações higiênicas, além da disponibilização além de local destinado à venda de produtos e objetos permitidos. ASSISTÊNCIA SAÚDE Art. 14 – Possui caráter preventivo e curativo, compreendendo atendimento médico, farmacêutico e odontológico. ASSISTÊNCIA JURÍDICA Art. 15 – Destinada a presos sem recursos financeiros para constituir advogado, engloba assistência jurídica integral pela Defensoria Pública dentro e fora dos estabelecimentos penais. ASSISTÊNCIA EDUCAÇÃO Art. 17 – Compreende a instrução escolar e a formação profissional do preso, prevendo o oferecimento de cursos supletivos e de aperfeiçoamento técnico aos presos. ASSISTÊNCIA SOCIAL Art. 22 – Tem por finalidade amparar o preso e prepara-lo para o retorno à realidade. Engloba ainda orientar e amparar quando necessário, a família do preso e da vítima. ASSISTÊNCIA RELIGIOSA Art. 24 – A assistência religiosa é prestada aos presos, permitindo a participação nos serviços organizados no estabelecimento penal, bem como a posse de livros de instrução religiosa. Prevê que deve haver local apropriado para os cultos religiosos. Fonte: elaborada pela autora. Aula vídeo relativa a Reserva Legal do Castigo e sobre o poder-dever do Estado em exercer o jus puniendi. ESTUDO DE CASO Tomando por base os elementos constitucionais limitadores da reserva legal do castigo citados em aula, o estudante deve dissertar acerca da possibilidade de aplicação da pena de morte no Brasil. RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO É esperado que o estudante, pautado no conteúdo estudado, argumente em sua dissertação que em regra o Brasil não adotou a pena de morte como sanção, nos termos da alínea “a”, inciso XLVII, do art. 5º da Constituição Federal. O estudante deve apontar ainda que há previsão de pena de morte no caso de guerra declarada, por fuzilamento, consoante nos orientam o art. 55, alínea “a” e o art. 56, ambos do Código Penal Militar. A fim de complementar o assunto abordado, deve constar que o art. 707 do Código de Processo Penal Militar traz o procedimento de execução, tais como a forma, socorro espiritual, vestimenta, etc). POLÍTICAS CRIMINAIS NÃO REPRESSIVISTAS Este estudo abordará ainda outra espécie de política criminal não repressiva, o chamado Minimalismo Penal, que visa a menor intervenção do Estado em matéria penal, aliado ou não ao pensamento abolicionista. INTRODUÇÃO Olá, estudante! É chegada a hora de nos aprofundarmos nas políticas criminais não repressivas em espécie. Em que pese o tema ter sido abordado de maneira rasa em aulas anteriores, no presente momento vamos investigar a fundo o abolicionismo penal com as influências do pensamento de Michel Foucault e as medidas propostas pelo movimento como meio alternativo de resolução de conflitos. Este estudo abordará ainda outra espécie de política criminal não repressiva, o chamado Minimalismo Penal, que visa a menor intervenção do Estado em matéria penal, aliado ou não ao pensamento abolicionista. Relevante tema a ser tratado, pois diz respeito à Justiça Restaurativa e sua aplicabilidade e realização, com explanações acerca da figura do mediador e a diferenciação prática dos conceitos e objetivos