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11UNIDADE I História e Cultura Africana
2. AFRICANOS SÃO TODOS IGUAIS? DE ONDE VEIO A POPULAÇÃO NEGRA NO 
BRASIL?
Segundo Alencastro, entre 1551 e 1575, cerca de 25 mil africanos tinham sido 
trazidos ao Brasil. Entre 1576 e 1600, houve um salto considerável para quase 200 mil afri-
canos. Entre 1676 e 1700 houve um pequeno recuo para cerca de 175 mil pessoas trazidas 
da África e mais de 350 mil entre 1741 e 1760[3]. A maior parte dos africanos trazidos ao 
nosso país era da costa oeste africana, sobretudo dos povos sudaneses e banto.
Da África Setentrional, no norte do continente, vieram ao Brasil povos de Castelo 
da Mina, Costa da Mina, povos Ajudá, Bissau, Oorin, Calabar e Cameron. Calcula-se que 
entre 1812 a 1820 17.691 escravizados tenham sido trazidos em 68 navios. Já da África 
Meridional ao sul do continente, 20.841 africanos foram trazidos em 69 navios negreiros ao 
país do Congo, Zaire, Cabinda, Angola, Moçambique, Quillemani, Cabo Lopes, Malambo, 
Rio Ambris e Zanzibar. Esta estatística não nos diz a nacionalidade dos negros trazidos ao 
Brasil, mas nos apresenta que os navios negreiros vinham da costa oeste africana, entre 
povos bantos e sudaneses.
Os dados, ainda que limitados, nos mostram a procedência dessas pessoas trazi-
das para o trabalho escravo no Brasil. O governo inglês proibira o comércio de escravos, 
tornando, assim, a atividade portuguesa em tráfico negreiro, e para despistar os ingleses, 
muitos documentos foram destruídos, outros nunca chegaram a existir com a intenção de 
enganar os britânicos.
O contingente de pessoas trazidas do Oeste da África fora chamado de “ouro negro” 
pelos mercantilistas europeus. Portugueses, franceses, holandeses e ingleses disputavam 
o comércio de escravos bantos e sudaneses no Oceano Atlântico. Reginaldo Brandi diz o 
seguinte sobre esses povos:
 
‘[...] os sudaneses constituem os povos situados nas regiões que hoje vão 
da Etiópia ao Chade e do sul do Egito a Uganda mais ao norte da Tanzânia’. 
Quanto aos bantos, eram povos da ‘África Meridional, estão representados 
por povos que falam entre 700 e duas mil línguas e dialetos aparentados, 
estendendo-se para o sul, logo abaixo dos limites sudaneses, compreenden-
do as terras que vão do Atlântico ao Índico até o cabo da Boa Esperança. O 
termo ‘banto’ foi criado em 1862 pelo filólogo alemão Willelm Bleek e significa 
‘o povo’, não existindo propriamente uma unidade banto na África’.[4]
 
Brandi afirma que bantos e sudaneses são definições genéricas e imprecisas, pro-
duzidas no contexto da apropriação europeia do continente e dos povos da África. Sendo 
assim, afirmações sobre a origem dos africanos no Brasil são quase sempre imprecisas.
12UNIDADE I História e Cultura Africana
Os bantos dividiam-se em dois grupos, os angola-congoleses e os moçambiques e 
tinham como destino o Maranhão, Pará, Pernambuco, Alagoas, Rio de Janeiro e São Paulo. 
Os sudaneses também se dividiam em três subgrupos: yorubás, jejes e fanti-ashantis e seu 
destino principal era a Bahia. E, ao contrário do imaginário popular, esses povos falavam 
línguas diferentes, muitas vezes dentro de uma mesma fazenda, existiam escravizados de 
várias etnias e, desta forma, não conseguiam se organizar devido a impossibilidade trazida 
pela linguagem.
13UNIDADE I História e Cultura Africana
3. O QUE FOI A ESCRAVIZAÇÃO?
 
Para compreender a história do nosso país é essencial entender o que foi a ampla 
escravidão de pessoas no Brasil.
Os primeiros registros de escravidão de pessoas são de mais de cinco mil anos 
atrás, na região da Mesopotâmia, basicamente no mesmo tempo das primeiras civilizações 
sedentárias. O Código de Hamurabi estabelecia os parâmetros da escravização de pessoas, 
incluindo condições de vida e origem daquele escravizado da seguinte forma: a compra de 
um escravizado em mercados portuários; a escravização de prisioneiros de guerra e pes-
soas endividadas livres que poderiam ser levadas à escravidão. Essas motivações para a 
escravidão levavam as sociedades a terem múltiplos estratos sociais e estiveram presentes 
em diversas civilizações em diferentes regiões e diferentes períodos de tempo como na 
Grécia e Roma antiga.
No Império Romano, a escravidão estava presente nas mesmas possibilidades, 
incluindo o cenário em que um escravizado poderia conquistar ou comprar, não apenas a 
sua liberdade, mas também sua cidadania, por exemplo, pelo serviço militar. É importante 
notar que esses mecanismos eram universais, sem restrições étnicas e geográficas. Em 
Roma, as pessoas escravizadas poderiam ser romanas, germânicas, cartagineses, celtas, 
trácias, etíopes, basicamente todas as etnias dentro das fronteiras da República ou do 
Império. Entre os povos indígenas americanos, a escravidão pela guerra ou por dívidas era 
praticada, dentre outros, pelos povos mesoamericanos, pelos caribe, pelos comanches e 
14UNIDADE I História e Cultura Africana
os tupinambás. Sociedades chinesas, nórdicas, mongóis e japonesas também mantinham 
a prática da escravidão. Na África, praticamente todas as culturas e sociedades tinham o 
costume da escravidão por guerras ou por dívidas, como no Reino do Congo.
O tema escravidão também está presente nas religiões com séculos de debates 
internos de tradições religiosas, tanto a favor como contra a escravização de pessoas. Por 
exemplo, a ideia de que Noé amaldiçoou os africanos, descendentes de seu filho Cam, 
foi defendida por pessoas que aprovavam a escravização de africanos negros. Na bíblia 
existem regulamentos e menções sobre a escravidão, tanto no Antigo, quanto no Novo 
Testamento e diversos patriarcas bíblicos eram donos de pessoas escravizadas. Além 
disso, os textos regulavam e valorizavam quando uma pessoa libertava outras pessoas da 
escravidão, especialmente pela dedicação religiosa. No islã a escravização era autorizada 
para não muçulmanos que fossem tomados como prisioneiros de guerra ou comprados de 
mercadores de não muçulmanos e a alforria de escravizados que se convertessem ao islã 
era incentivada. Nas sociedades árabes a presença de pessoas escravizadas era bastante 
comum e, assim como no caso do Império Romano, não existiam restrições étnicas ou 
geográficas com a possibilidade de ascensão social de pessoas escravizadas[5].
Pode-se afirmar que até a virada do século XIX para o século XX a escravização 
de pessoas era tragicamente comum em diversas culturas, lugares e períodos históricos. 
Também é importante destacar que a crítica da escravidão também é antiga, por exemplo, 
a realizada pelo legislador ateniense, Sólon.
Em algumas discussões atuais, por vezes evocam a escravidão na antiguidade ou 
a realizada por muçulmanos como uma forma de contrapor ou até minimizar a escravidão 
que aconteceu nas américas entre os séculos XVI e XIX e os seus efeitos que duram 
até hoje. É importante compreender os motivos que fazem com que essa comparação 
seja infundada: a escravidão implantada na América pelos europeus tem origem na Idade 
Média, especialmente com as Cruzadas. Ao leste europeu, as Cruzadas resultaram na 
escravização de bálticos eslavos pelos reinos europeus. A palavra “escravo”, assim como 
a palavra em inglês “slave”[6], ambas vêm de referência aos povos eslavos. Nas Cruzadas 
no mar Mediterrâneo, ocorreram escravização, tanto de muçulmanos quanto de cristãos 
mutuamente.
Movidos pelo espírito chamado “cruzadístico”, inicia-se a expansão ultramarina 
portuguesa com a conquista de povos africanos, que acompanhada em 1452 da Bula Papal 
Dum diversas[7] do Pala Nicolau V que autoriza o rei português, Afonso V, o direito de 
aplicar a escravidão perpétua a sarracenos, pagãos e quaisquer descrentes como parte de 
uma escravidão pela guerra, assim como os casos anteriores. 
15UNIDADE I História e Cultura Africana
[...] outorgamos por estes documentos presentes, com a nossa Autoridade 
Apostólica, permissão plena e livre para invadir, buscar, capturar e subjugarsarracenos e pagãos e outros infiéis e inimigos de Cristo onde quer que se 
encontrem, assim como os seus reinos, ducados, condados, principados, e 
outros bens [...] e para reduzir as suas pessoas à escravidão perpétua. [...][8]
 
O papa era a maior autoridade política na Europa naquele período, por isso, uma 
bula papal tinha importância não somente na Europa, mas nos novos territórios que esses 
países conquistavam. Nesta Bula os portugueses eram autorizados a conquistar territórios 
não cristianizados e consignar a escravatura perpétua aos sarracenos e pagãos que cap-
turassem como forma de defesa, uma vez que estes vinham perseguindo e ameaçando 
cristãos da época. Esse documento é considerado frequentemente como o advento do 
comércio e tráfico europeu de escravos na África Ocidental.
Nesse contexto de guerra, entre os séculos XVI e XIX até um milhão de europeus 
foram escravizados por reinos muçulmanos, especialmente para servirem como remadores 
em galés, foram escravizados espanhóis, gregos, italianos e até islandeses. É importante 
notar, entretanto, que esse caráter de guerra religiosa com escravização foi restrito ao 
mediterrâneo e à Europa, não afetando o Brasil e nossa sociedade. Nenhuma expedição 
para captura de pessoas foi realizada por muçulmanos ao solo do continente americano. 
Esse é o primeiro motivo que invalidade a comparação entre a escravização realizada aos 
africanos com as demais escravizações.
Foi a África a região que mais sofreu com a escravização de pessoas de diferentes 
regiões e etnias. Até treze milhões de africanos foram escravizados por reinos muçulmanos, 
outros quatro milhões foram escravizados por povos ocidentais e árabes pelo Oceano Índi-
co e outros vinte milhões escravizados pelo Atlântico, destes, entre 11 e 12 milhões foram 
trazidos para as américas, principalmente para territórios onde hoje são Brasil, Estados 
Unidos da América, além do Caribe e destes, algo entre dois e quatro milhões morreram 
durante o tráfico antes de chegar ao destino final. No Brasil, os primeiros africanos escra-
vizados chegaram em 1538. No total, quatro milhões e oitocentos mil africanos chegaram 
ao litoral brasileiro, fora os que, propositadamente, não foram contabilizados no século XIX.
Com a cada vez maior presença portuguesa no continente africano e sua posição 
geográfica privilegiada, Portugal se torna no maior centro mercador de escravizados da 
Europa. No século XVI, mesmo indo além dos territórios muçulmanos, Portugal já está 
totalmente comprometido com o comércio de africanos escravizados. Outras potências 
europeias também investem nesse comércio de pessoas formado por escravos africanos 
negros.
16UNIDADE I História e Cultura Africana
Esse processo da escravização pelo Atlântico será um fenômeno próprio, diferente 
da escravidão que existia até o momento que já citamos aqui. O comércio de pessoas era 
realizado não mais como consequência de uma guerra justa, mas realizado no Atlântico 
como um processo mercantil. O africano era um produto em si mesmo, para ser lucrati-
vo. Também não era uma escravidão por dívida ou como pena criminal. A escravidão era 
uma atividade ampla, de larga escala, extremamente organizada, lucrativa e base para a 
economia dessas regiões do continente americano na produção de tabaco e açúcar, por 
exemplo. A escravidão do Atlântico é a única que é específica etnicamente, voltada contra 
pessoas negras, mesmo que adotassem o cristianismo. Esse é o segundo motivo que inva-
lida a comparação entre a escravidão do Atlântico e a Antiguidade. Ao contrário da antiga 
sociedade romana, por exemplo, o componente étnico que o tráfico atlântico adiciona ao 
comércio de escravos cria uma estrutura racial, ou seja, existe um povo que, por causa da 
sua cor de pele, é considerado escravo e isso é herdado pelos filhos perpetuamente.
Essa particularidade étnica cria uma estrutura racial. No nosso país, a cor da pele 
era prova suficiente da escravização, ser negro no Brasil e em outros territórios do conti-
nente americano era sinônimo de escravizado. Uma inversão sem o ônus de prova, isto é, 
a pessoa, por ser negra, tinha que provar sua inocência. Essa estrutura dura oficialmente 
mais de trezentos anos. Esse componente étnico da escravidão cria uma série de barreiras 
e efeitos nocivos vistos até hoje em todos os países americanos onde ocorreu a escravidão.
É importante frisar que não se trata de justificar ou amenizar a escravização de 
pessoas em outros lugares, mas enfatizar a importância de compreender que a escravidão 
do Atlântico é um fenômeno próprio que não pode ser comparado a uma estrutura, pois é 
uma estrutura econômica voltada especificamente para o comércio de seres humanos e 
exclusivamente porque é voltada para um típico específico de pessoa, o negro africano. E 
isso gerou e ainda gera problemas que afetam nossa sociedade e a compreensão disso é 
também essencial para superação e conserto desses problemas.
17UNIDADE I História e Cultura Africana
4. O AFRICANO NO BRASIL
A história do africano no Brasil é uma história de resistência. Entre 1500 e 1850, 
mais ou menos doze milhões de africanos foram raptados, escravizados e transportados 
para venda como mercadoria do outro lado do oceano. Cerca de um terço veio para o Brasil, 
que é, de longe, o país que mais recebeu escravos na Idade Moderna. Mas a história dos 
africanos na formação do Brasil vai muito do tráfico negreiro e da escravidão. Resistindo 
à toda violência, do rapto, do tráfico, do cativeiro e da imposição da cultura europeia, os 
africanos reconstruíram suas tradições e criaram diferentes alternativas para sobreviver ao 
escravismo e ao colonialismo.
Por muito tempo a história nos livros apenas falava dos africanos no Brasil como 
mão-de-obra, uma vez que era assim que os europeus os viam. A história dos africanos na 
formação do Brasil começa com o rapto praticado na África, seguido por longas viagens a 
pé até chegar nos navios e, após, a compra por algum fazendeiro no Brasil. E essa história 
prossegue na resistência e na construção de alternativas para buscar a liberdade em solo 
brasileiro.
Na época do descobrimento do Brasil por Portugal, o tráfico de pessoas escravi-
zadas existia em diversas partes da Europa, da África e da Ásia, sendo que os maiores 
praticantes desse comércio eram mercadores árabes. Estima-se que ao longo do século 
XVI, eles traficaram quatro vezes mais pessoas que os europeus. Mas isso foi mudando 
no decorrer do século, quando os portugueses passaram a controlar cada vez mais as 
18UNIDADE I História e Cultura Africana
rotas de comércio no interior da África, ampliando o acesso aos locais onde pessoas eram 
capturadas, criando novas guerras e expedições para escravizar mais pessoas. Eles não 
só conquistaram e ampliaram as rotas africanas, como colocaram essas rotas a serviço de 
um novo tipo de exploração econômica, a agricultura escravista.
Esse tipo de agricultura aconteceu primeiro nas ilhas que Portugal e Espanha 
tinham encontrado no início da expansão marítima, como as ilhas Canárias e Cabo Verde. 
Foi lá que a empresa colonial europeia criou as primeiras áreas de produção que usavam 
mão-de-obra escravizada para produzir mercadorias de grande valor, como o açúcar, que 
na época não era produzido na Europa. A Espanha também passou a comprar africanos 
escravizados para explorar nas ilhas do Caribe, onde as populações indígenas desapare-
ceram completamente.
Apesar da escravização realizada pelos espanhóis, eles não se estabeleceram na 
África, e assim, concederam a Portugal o monopólio desse comércio em acordos conhe-
cidos como asientos. Depois das ilhas atlânticas e do Caribe espanhol, o terceiro território 
que se tornou comprador de pessoas escravizadas foi o Brasil.
Os portugueses se especializaram no negócio escravista, um pioneirismo que 
garantiu a liderança mesmo depois da concorrência holandesa e inglesa entrar nadisputa. 
E não só os portugueses, mas também a elite colonial nascida no Brasil que, a partir do 
século XVII, passou a controlar diretamente os portos africanos. Isso contribuiu para que 
um terço dos doze milhões de indivíduos que sobreviveram às travessias ao longo de 350 
anos vieram para o continente americano em navios de bandeira portuguesa ou brasileira.
Estima-se que dos quatro milhões de africanos trazidos para cá em navios ne-
greiros, cerca de 700 mil não sobreviveram à viagem. Para que se tenha uma base, esse 
número é dez vezes o total em toda a história dos Estados Unidos da América.
A história das travessias mudou ao longo do tempo, até porque no começo elas 
eram muito menos frequentes. No primeiro século vieram 34 mil escravos. No segundo sé-
culo foram mais de 900 mil. No terceiro século foram quase 2 milhões. E o auge aconteceu 
no século XIX, na mesma época em que o Brasil se formou como um país independente. 
Entre 1790 e 1830 o Brasil recebeu uma média de 17 mil escravizados por ano.
A história da escravização e da migração forçada geralmente começava com algu-
ma guerra entre diferentes povos da África, com ou sem a participação direta dos poderes 
europeus. Nessas guerras eram feitos prisioneiros, que ao longo da época das navegações 
começaram a ser vendidos para comerciantes e militares europeus. Também poderiam ser 
escravizadas por dívidas ou crimes e ainda existiam os que eram simplesmente raptados 
por comerciantes e militares europeus, sem qualquer tipo de acordo com os poderes locais.
19UNIDADE I História e Cultura Africana
O sucesso da empresa colonial no Brasil, no Caribe e em outras regiões da América 
fez com que mais investidores europeus se envolvessem no negócio, com apoio dos reis 
e da Igreja Católica, aumentando a demanda de escravos. O aumento da demanda e a 
concorrência entre as potências europeias fez com que a escravização se tornasse uma 
prática de dimensões muito maiores em qualquer momento na história da humanidade.
Existem poucas fontes publicadas mostrando o ponto de vista dos escravizados. 
Uma dessas fontes é a autobiografia de Mahommah Gardo Baquaqua, publicada em inglês 
em 1854 e traduzida para o português em 1988. Baquaqua nasceu na África Ocidental, hoje 
Genin, e pertenceu a uma família muçulmana poderosa. Graças a isso, ele foi alfabetizado 
em árabe e em ajami, que é uma escrita árabe praticada ao sul do Saara, e teve menor 
dificuldade para aprender sobre as línguas e culturas dos dominadores ao longo de sua 
vida.
O relato de Baquaqua mostra como era a experiência de se tornar escravo. Ele 
descreve desde a surpresa quando viu um homem branco pela primeira vez, ao chegar 
num grande porto do litoral africano, e conta que lá reencontrou por acaso um conhecido 
vindo de sua região. Também descreve como foi a viagem dentro do tumbeiro – navio 
negreiro – e como resistia à escravidão todos os dias no Brasil.
Uma característica do tráfico negreiro era que ele misturava gente das mais varia-
das origens, etnias e línguas, quebrando os vínculos familiares, comunitários e religiosos. A 
pessoa era vendida como uma unidade, que pode ser separada dos pais, dos filhos e dos 
cônjuges, e uma vez separados, os reencontros eram raros. Isso fazia com que as pessoas 
que pertenciam a povos diferentes dividissem espaços nos navios e nas senzalas, o que 
era útil para os traficantes de escravos, pois evitava a união de todos contra eles.
Baquaqua também relatou que os europeus se esforçavam para apagar as identi-
dades das pessoas que eles escravizavam. Por exemplo, ao chegarem na feitoria comercial 
as pessoas tinham os cabelos cortados iguais para destruir suas identidades, já que, nas 
palavras de Baquaqua: “Na África, as nações das distintas partes do território têm seus 
modos diferentes de cortar o cabelo e são conhecidas por essa marca, a que parte do ter-
ritório pertencem[9]”. O que Baquaqua descreve é a tentativa europeia de transformar cada 
indivíduo escravizado numa “peça’ que pode ser vendida como qualquer outra mercadoria. 
Mas ele descreve também a resistência que é a grande marca de sua biografia.
Mohammah Baquaqua tinha sido feito prisioneiro numa guerra, depois foi escra-
vizado e embarcado num navio negreiro com destino ao Brasil, e em todo esse percurso 
ele narra a violência das correntes, das jaulas e das tentativas de destruir sua identidade. 
Quando viu uma grande embarcação pela primeira vez, a achou tão grandiosa que pensou 
20UNIDADE I História e Cultura Africana
se tratar de um objeto de adoração dos brancos. Já no embarque, trinta pessoas morreram 
afogadas quando afundou um dos barcos que os levava ao navio. A viagem foi um grande 
tormento. Muitos morreram. Baquaqua jamais esqueceu os horrores da travessia. A única 
comida que ele recebeu foi milho velho cozido, e um pouco de água. Segundo ele: “quando 
qualquer um de nós se tornava rebelde, sua carne era cortada com uma faca e o corte 
esfregado com pimenta e vinagre, para torna-lo pacífico”[10].
Os sobreviventes foram vendidos em Pernambuco, num mercado que funcionava 
na casa de um fazendeiro. Ele ficou dois dias esperando um comprador, que foi um comer-
ciante que o revendeu a um padeiro. O livro relata a experiência de trabalhar para este e 
outros proprietários e como sua liberdade foi conquistada de forma excepcional. Depois de 
trabalhar com o padeiro que o comprou, ele sofre castigos terríveis e tentou suicídio. 
As coisas iam de mal a pior e estava muito ansioso para trocar de senhor, 
então tentei fugir, mas logo fui apanhado, atado e restituído a ele. [...] fui mui 
severamente espancado. Eu disse a ele que não deveria mais me açoitar e 
fiquei com tanta raiva que me veio à cabeça a ideia de matá-lo e, em seguida, 
suicidar-me. [...]. [11]
 Diante da tentativa de suicídio foi vendido a outro proprietário, que fazia viagens 
marítimas pelo litoral brasileiro. Numa viagem a nova York, em 1847, ele conseguiu fugir com 
ajuda de religiosos abolicionistas dos Estados Unidos. Ele já sabia falar diversas línguas, 
incluindo o árabe, o português e o francês e aprendeu a escrever em inglês. Mudou-se 
para o Canadá, onde escreveu seu livro, depois foi para o Haiti, que era o único país do 
continente onde os negros chegaram ao poder. O final de sua vida não é conhecido, mas 
seus planos eram de retornar ao continente africano.
Essa história tem algo em comum com as demais histórias dos sobreviventes do 
tráfico negreiro, seja pela fuga, pela revolta ou pela negociação e busca de alforria: a resis-
tência.

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