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FARMACOCINÉTICA E FARMACODINÂMICA FÁRMACOS DEPRESSORES DO SISTEMA NERVOSO CENTRAL Os fármacos depressores do sistema nervoso central são conhecidos por, dentre suas características, reduzirem a atividade cerebral. Neurotransmissores inibitórios: Acetil-Colina, GABA, Glicina; Neurotransmissores excitatórios: Glutamato, NMDA (N-metil de aspartato). A depressão que estes fármacos podem causar é dose-dependente e pode variar de acordo com a via de administração escolhida, refletindo no tempo de absorção e na biodisponibilidade. As sensibilidades aos fármacos são individuais, ou seja, cada animal tem uma resposta diferente aos efeitos. Os depressores do SNC atuam em diferentes regiões do cérebro. A depressão leva à tranquilização (leva à sonolência e facilita a manipulação), perda de consciência total (anestesia geral) e hipnose (semelhante ao sono fisiológico, proporcionando bem-estar após a manipulação). O extrapolamento da dose pode levar ao aprofundamento (estado de coma) e, posteriormente, parada cardíaca e respiratória, causando, caso não seja revertida a situação, a morte. Indicação: são indicados para redução da agressividade, produzir sedação com alivio concomitante da ansiedade (ansiolítico), induzir ao sono, amnésia anterógrada (paciente não tem lembranças ao acordar), redução do tônus muscular e coordenação, pré-anestésicos e contenção química para facilitar manejo e transporte. CONCEITOS TRANQUILIZANTE: acalmam a agitação e hiperatividade, isto é, docilidade ou contenção química; SEDATIVO (Ansiolítico): reduzem a ansiedade e exercem afeito calmante. O grau de depressão do SNC é compatível com a eficácia; HIPNÓTICO: causam sonolência e estado de sono fisiológico. A depressão no SNC é maior e o efeito é dose-dependente, podendo levar à analgesia geral. GRUPOS 1. TRANQUILIZANTES MAIORES – neurolépticos e tranquilizantes Os fármacos deste grupo são distintos em sua estrutura química, porém tem em comum o efeito tranquilizante. Os neurolépticos são divididos em dois grupos, sendo eles as butifenonas e os fenotiazínicos. Se diferem na capacidade de produzir sedação e os efeitos colaterais. São moléculas lipossolúveis e se ligam a proteínas plasmáticas. A biotransformação ocorre por vários processos e a excreção ocorre via renal, e o fármaco pode ficar in natura por até 6-18 meses. Estes fármacos não apresentam atividade analgésica. Os fármacos neurolépticos são utilizados frequentemente na medicação pré-anestésica (MPA) e seu uso reduz o uso de anestésicos gerais na manutenção. A absorção via oral é rápida, porém incompleta. Distribuição rápida para o fígado, pulmão e encéfalo. O metabolismo de primeira passagem pela via oral confere uma biodisponibilidade de 30% para fenotiazínicos e 69% para butifenonas. A administração por via IM evita o efeito de primeira passagem e IV elimina a irritação local. Mecanismo de ação: bloqueiam a atividade dos sistemas de neurotransmissão como receptores D² da dopamina (diminui atividade motora e espontânea; atividade antiemética), α da noradrenalina (em α¹ leva à dilatação e hipotensão arterial), M da acetilcolina (redução de secreções, constipação e micção), histamínicos do tipo HI (anti-histamínicos* levam a sedação) e da serotonina do tipo 5-HT2. *Histaminas são liberadas nos processos inflamatórios, assim, sua ação anti-histamínica auxilia na diminuição de edemas. Efeitos adversos: Hipotensão, diminuição do limiar convulsivo (predisposição à convulsão), hipotermia, efeitos paradoxais, catalepsia, indiferença a estímulos ambientais. a. FENOTIAZÍNICOS São potentes tranquilizantes amplamente utilizados na medicina veterinária por reduzirem o estresse, irritabilidade e agressividade e são bem absorvidos pelo TGI. Podem causar indiferença à estímulos externos, não produzem efeito hipnótico e perda de consciência, podem deprimir centros nervosos posteriores (tálamo, hipotálamo e tronco encefálico), reduzir atividades límbicas (emocional) do animal, bloqueiam os receptores pós-sinápticos ao efeito da dopamina e reduzem a síntese e liberação de dopamina em receptores pré-sinápticos. Sinais observados: deambulação, ataxia, hipoatividade, sedação, decúbito, antiemético, anti-histamínico, antissialagogo (diminui salivação), antiarrítmico (bloqueia α), hipotermia (inibem o centro termorregulador), vasodilatação periférica, miorrelaxamento, hipotensão arterial (15-30%), redução do volume sistólico e debito cardíaco, discreta redução da FC e FR, não altera oximetria, broncodilatação, reduzem hematócrito por sequestro esplênico (baço sequestra hemácias e aumenta de tamanho). Potencializam anestésicos gerais, agentes inalatórios, propofol, miorrelaxantes, barbitúricos, analgésicos. Características farmacológicas: ação bloqueadora sobre α¹ adrenérgico e bloqueio das ações periféricas das catecolaminas. OBS: reduzir significativamente a dose em cães braquicefálicos devida a profunda depressão e sensibilidade (Bulldog, Pug, Boxer). Os principais fenotiazínicos são: Acepromazina, Levomepromazina, Clorpromazina, Prometazina. Acepromazina: mais utilizado em cães, gatos e equinos. Efeito: 4-6 horas. Tempo de latência: IV: 3-5min.; IM: 20-30min. Quando administrar por VO deve-se aumentar a dose para 1mg/kg. Aumentar a dose não aumenta a tranquilização e sim a hipotensão. Em equinos: é contraindicada em pacientes com cólica devido a diminuição no peristaltismo, pode causar ptose palpebral, abaixamento da cabeça, exposição peniana (relaxamento do músculo retrator do pênis) e na dose de 0,002mg/kg já pode levar à hipotensão. A dose de 0,01mg/kg pode reduzir o hematócrito em 25%, sendo assim, fica contraindicada a administração em pacientes anêmicos. Em bovinos causa pouco efeito tranquilizante. Levomepromazina: é conhecido como Metotrimeprazina. Possui ação adrenolítica (reduz adrenalina) e anti-histamínica. Este fármaco possui efeito analgésico dose-dependente somente em humanos, ação sedativa 75% maior que a Clorpromazina e ação anti-histamínica 33% maior que a Prometazina. Clorpromazina: possui ação adrenolítica e pequena ação anti-histamínica. Deprime de forma dose-dependente a função hemodinâmica e renal, não afeta significativamente a função renal, entretanto a metabolização é lenta, fazendo com que o animal fique sobre efeito por longo período de tempo (meia vida de 6 horas no cão). Prometazina: foi a primeira fenotiazínica utilizada na medicina veterinária (Fenergan). Possui ação anti-histamínica e é utilizada em situação de choque anafilático e deve ser aplicada lentamente por via IV diluída em solução salina, pois a rápida administração pode levar à queda abrupta da pressão arterial. Efeito: 4-6 horas. Tempo de latência: IV: 5min.; IM: 20min. b. BUTIFENONAS: Não foram muito bem aceitos na medicina veterinária pois causavam agressividade quando associados à outras drogas. São fármacos que diminuem a atividade motora, causam tranquilização similar aos fenotiazínicos e produzem ação antiemética. Características farmacológicas: bloqueiam os receptores α adrenérgicos e podem reduzir a pressão arterial. Suas vantagens são os mínimos efeitos respiratórios e cardiovasculares. Os principais fármacos deste grupo são Droperidol, Azaperona, Haloperidol. Droperidol: seu efeito antiemético é 1000x maior que a Clorpromazina. Possui formulação associada ao opióide Fentanil (Nilperidol - comercial), garantindo sinergismo e menores efeitos colaterais e ainda, efeito neuroleptoanalgesia. Possui bom efeito tranquilizante, previne arritmias e pode causar, como efeitos adversos, tremores e hiperirritabilidade. Efeito: 3 horas. Azaperona: tranquilizante de eleição para administração em suínos. Reduz os estímulos externos táteis, olfatórios, sonoros e luminosos, também causa mínimos efeitos depressores respiratórios. Este fármaco não possui agregação na carne dos animais. A administração em outras espécies pode causarefeitos adversos como hiperirritabilidade, principalmente quando IV. Tempo de latência: IM: 20min.; IV: causa excitação. c. AGONISTAS α² São fármacos que inibem a síntese e liberação de noradrenalina no SNC e periférico. Reduzem o influxo dos canais de cálcio e são acoplados à proteína G, encontrados em tecidos em pré, pós e extra-sinapses. Produzem ação sedativa intensa, analgesia visceral leve e miorrelaxamento. Pós-sinápticos: ação em tecidos como fígado, rins, pâncreas e olhos; Pré-sinápticos: ação em terminações simpáticas e neurônios noradrenérgicos. Como vantagem apresentam a possibilidade de reverter com antagonistas e como desvantagem pode-se citar a intensa depressão cardiovascular. Todos os efeitos são dose-dependentes. Dexmedetomidina e Detomidina são fármacos puros. Sinais observados: cães e gatos apresentam decúbito e miorrelaxamento; Ruminantes são muito sensíveis, apresentam protrusão da língua, ptose labial e palpebral, sialorreia, mugidos e decúbito; Equinos apresentam abertura do quadrilátero, ataxia e abaixamento da cabeça. Reduzem a pressão intraocular e intracraniana e produzem midríase. Inicialmente causam vasoconstrição (ação noradrenérgica) e posteriormente causam vasodilatação (ação adrenolítica) com acentuada hipotensão arterial, aumentam tônus vagal, bradicardia, arritmia, bloqueio AV, redução do volume sistólico, depressão direta do miocárdio, depressão respiratória, estimulo do centro do vomito e salivação, reduzem a motilidade TGI e fluxo sanguíneo (cuidar com quadros de timpanismo e cólicas), efeito ocitócico (aborto), também é contraindicado em pacientes com disfunção cardiorrespiratória. Os fármacos agonistas α² são para pacientes saudáveis devido aos efeitos colaterais. Não são seguros para pacientes cardiopatas, arrítmicos e com obstrução esofágica. Xilazina: foi o primeiro agonista α² adrenérgico utilizado na medicina veterinária, foi sintetizado em 1962. Efeito: 2 horas. Dose: 1-2mg/kg (bradicardia severa); 0,2-0,5mg/kg Ocorre biotransformação hepática e excreção renal (70%) e biliar (30%). Quando maior a dose administrada, maior a depressão respiratória, podendo levar à parada respiratória. Causa aumento da pressão intrapulmonar, não sendo indicado para pacientes com pneumonia. Pode causar êmese (vômito) 3-5 minutos após administração pela diminuição do tônus gastroesofágico. Romifidina: é um potente sedativo utilizado na MPA de equinos. Produz menor ataxia quando comprada a Detomidina, entretanto não é disponível no Brasil. Detomidina: maior utilidade para a espécie equina e é mais potente que a Xilazina e Romifidina. Possui maior especificidade por receptores α² e sua meia vida plasmática é mais longa, proporcionando efeito por maior duração de tempo. Baixas doses não alteram a função uterina, sendo nestes casos, seguro para fêmeas gestantes. Medetomidina: em cães este fármaco pode ser 7x mais potente que a Xilazina para sedação e analgesia. Quando utilizado na MPA, reduz em até 60% o uso de propofol. Não é seguro para fêmeas gestantes. Dexmedetomidina: pode-se utilizar infusão continua. É contraindicado para pacientes com problemas cardíacos. Antagonista: Antisedan. d. ANTAGONISTAS α² Antagonizam a ação central e periférica para α². Antagonizam a sedação e analgesia, revertem intoxicação por amitraz. Provocam vasodilatação arterial e reduzem a PA pulmonar. Os principais fármacos são Ioimbina, Tolazolina e Antipamezol. 2. TRANQUILIZANTES MENORES – ansiolíticos, calmantes, psicoharmonizantes e estabilizadores emocionais São fármacos mais seguros pois causam menores efeitos cardiovasculares. São tranquilizantes, sedativos, miorrelaxantes, anticonvulsivante e aumentam (agonista) a atividade do neurotransmissor GABA (gabaérgicos). Atuam sobre sítios específicos dos receptores de GABA, facilitam a ligação do GABAa e estimulam a abertura dos canais de cloro, causando a hiperpolarização neuronal. a. BENZODIAZEPÍNICOS São fármacos agonistas dos receptores GABAa que agem diretamente sobre o sistema límbico (comportamento emocional) e reduzem a atividade funcional do córtex e hipotálamo. Os neurônios gabaérgicos têm ampla distribuição no SNC. Atravessam a barreira hematoencefálica e ligam-se com facilidade a proteínas plasmáticas (70-99%), o que torna contraindicado em filhotes e cães com hipoproteinemia. Podem ser excretados no leite e não são indicados em cesáreas devido a depressão fetal causada, porém é um fármaco seguro para animais idosos. Efeitos adversos: efeito paradoxal, necrose hepática idiopática em gatos, aumento do apetite (pode ser usado para induzir alimentação), efeito teratogênico (pode causar lábio leporino e abertura da fenda palatina nos filhotes), não reduzem agressividade (usar acepromazina). Diazepam: é um fármaco insolúvel em água e não deve ser misturado a outros fármacos na mesma seringa, pois pode levar à cristalização. É a primeira escolha para associar à Cetamina e, também é utilizado como anticonvulsivante e pode ser administrado por via retal em casos emergentes. Não possui efeito analgésico. É utilizado em casos de intoxicação por Estricnina e quadros de Tétano. Em gatos anoréxicos pode ser administrar Diazepam na dose de 0,02-0,4mg/kg IV para estimulação do apetite, mas deve-se cuidar com gatos hepatopatas. Administração IV realizada de forma rápida pode causar tromboflebite (irritação nos vasos). Por se tratar de um fármaco de composição oleosa, não deve ser administrado via IM, pois causa dor intensa. Em cães e gatos saudáveis a sedação pode não ser aparente. Dose: Cães: 20mg/kg; Gatos: 5mg/kg. Midazolam: fármaco de alto lipossolubilidade e de rápida ação. Possui ação anticonvulsivante e miorrelaxante. Por não ser um fármaco oleoso, pode ser administrado via IV, IM e SC sem causar irritação e ainda pode ser associado a outros fármacos na mesma seringa, não haverá cristalização. Possui maior risco de efeito paradoxal e não deve ser utilizado de forma isolada (Midazolan + Acepromazina + Fentanil – ação miorrelaxante, tranquilizante e analgésica respectivamente). Antagonistas de benzodiazepínico: é indicado quando há hiperatividade e agressividade causada por uso de benzodiazepínicos. O principal fármaco que compreende este grupo é o Flumazenil, que é capaz de reverter os efeitos em 30 segundos e sua meia vida plasmática é de 50min, podendo ainda ser reaplicado novamente. Dose: Cães e Gatos: 0,1mg/kg IV. São ótimos indutores a sedação e a hipnose na MPA. Deprimem moderadamente o SNC, torna os animais menos responsivos a estímulos dolorosos, prurido e contenção. Em humanos são indutores do sono (hipnóticos) e causam mínimas alterações cardiovasculares, podem causar apneia de curta duração. São completamente absorvidos pelo TGI. 3. ANTIPSICÓTICOS, ANTIDEPRESSIVOS E ANTI-HISTAMÍNICOS (também possuem ação sedativa) FÁRMACOS OPIÓIDES – AÇÃO ANALGÉSICA Histórico São alcaloides naturais ou sintéticos derivados do ópio, extraídos da semente da papoula. Em 1853, com a invenção da agulha hipodérmica, foi utilizado a Morfina de forma injetável em soldados. A Morfina foi o primeiro opióide, sintetizada em 1806 na Alemanha e recebeu este nome em homenagem a Morpheus, Deus dos sonhos. Posteriormente foram sintetizados a Heroína em 1874, Meperidina em 1939 e Metadona em 1942, sendo as duas últimas em tempo de segunda guerra mundial. A metadona veio com a intenção de substituir a Morfina devido aos altos índices de dependência física e química. Quanto mais natural for a droga, maior os níveis de dependência. NATURAIS: Morfina e Codeína; SEMI-SINTÉTICOS: Hidromorfona, Etorfina, Buprenorfina; SINTÉTICOS: Fentanil, Meperidina, Metadona. Efeitos: induzem intensa analgesia, não acompanhada pela perda da propriocepção ou consciência, a menos que a dose seja elevada. Compostos semelhantes a Morfina e que são bloqueados por antagonistas da mesma (Naloxona). Diminuema percepção da dor por ação dos receptores no SNC. Importantes na veterinária para anestesia balanceada, pós-operatório e patologias acompanhadas da dor. Receptores opióides Mi (µ): analgesia supraespinhal, depressão respiratória, euforia (bem-estar), dependência química e sedação. Kappa (κ): analgesia espinhal (bloqueio da dor visceral), disforia, miose e sedação. Delta (δ): provável analgesia periférica, disforia (mal-estar), excitação e seletividade para opióides endógenos. Sigma (σ): estimula a respiração, sistema psicomotor e vasomotor, alucinações (não mais considerado). O receptor sigma é o menos importante, utilizado somente para pesquisas. Receptor µ: mais potente receptor. A ação neste: analgesia, antidiurético, reduz motilidade gastrointestinal, reduz contrações uterinas, êmese (fármaco-especifico), euforia (bem-estar), imunomodulação, aumento do apetite, miose/midríase (espécie especifico), depressão respiratória (diminuição da frequência e amplitude de movimento) e sedação. Receptor κ: A ação neste: analgesia, reduz motilidade gastrointestinal, diurético (inibe a liberação de ADH), aumento do apetite, midríase/miose (espécie especifico) e sedação. Analgesia O grau de analgesia depende do tipo de ligação fármaco-receptor, dose e via de administração. A maioria dos fármacos está ligado ao receptor µ. Reduz estresse e ansiedade causados pela dor como analgesia preventiva (preemptiva). É utilizado para tratamento e controle da dor no pré, trans e pós-operatório e para dores crônicas, sendo associado a outros fármacos, como tranquilizantes e sedativos (neuroleptoanalgesia), reduz a CAM, reduz o uso de anestésicos intravenosos para indução, causa uma analgesia balanceada e multimodal e analgesia espinhal. Conceitos AFINIDADE: capacidade do fármaco se ligar ao receptor; ATIVIDADE: capacidade de causar ação na célula que está o receptor. Obs: pode haver alta afinidade sem atividade. POTÊNCIA: capacidade de fornecer analgesia, associada a afinidade e dose; EFICÁCIA: intensidade da analgesia, de acordo com a afinidade, atividade e potência. Atuação nos receptores Agonista puro: possuem alta afinidade por µ e alta afinidade aos seus receptores, induzem resposta máxima. Ex.: Morfina, Metadona, Meperidina, Fentanil, Peptídeos endógenos. Agonista parcial: na ausência de um agente puro, age em µ como agonista causando analgesia, caso contrário atua como antagonista, tirando o afeito de analgesia. Ex.: Buprenorfina, Nalorfina. Agonista-Antagonista: atua como agonista de κ e δ e antagonista de µ. Ex.: Butorfanol, Nalbufina. Antagonista: reverte as ações dos agonistas opióides. Liga-se ao receptor sem produzir efeito farmacológico. Ex.: Naloxona. Opióides endógenos Peptídeos endógenos são produzidos em todo SNC, TGI e outros tecidos e são divididos em três famílias, sendo elas encefalinas, endorfinas e dinorfinas. Atuam em diferentes receptores opióides além da dor (resposta ao estresse, função cognitiva e memória). Atuam como neurotransmissores, neuromoduladores e neuro-hormônios. Mecanismo de ação: em 1970 foi identificado os sítios de ação e ligação dos opióides no cérebro dos mamíferos: inibem a enzima adenilato ciclase, inibição voltagem dependente dos canais de cálcio (Ca), diminuição da excitabilidade das fibras aferentes e do impulso nociceptivo (informação não chega ao cérebro), levam a hiperpolarização da célula, deixando-as incapacitadas de propagar impulsos nervosos, reduzem a liberação de neurotransmissores excitatórios; A partir do cérebro: ativam vias inibitórias descendentes noradrenérgicas e serotonérgicas, reduzindo efeitos psicológicos da dor, causando leve sedação. Efeitos farmacológicos: se ligam de forma reversível aos receptores, alteram a percepção da dor por inibir a transmissão da informação nociceptiva ascendente, atua também nos componentes emocionais da dor, tem efeito dose-dependente. Efeitos adversos: ocorrem quando há ligação em outros sítios de ação não-alvos. AGUDOS: quando há administração de uma ou duas doses – midríase, salivação, sonolência, sedação, náusea, vômito, constipação, alteração comportamental e efeitos cardiovasculares; CRÔNICO: quando há uso à longo prazo – sonolência, náusea, vômito, constipação e alterações comportamentais. Sistema Nervoso Central O uso de opióides pode causar diferentes respostas em cada espécie. Em humanos e cães pode-se observar sedação e depressão, já em felinos e equinos pode haver excitação, sendo assim utiliza-se doses reduzidas. A eficácia do fármaco irá depender da dose, presença de dor e do ambiente, pois geralmente animais que não estão com tanta dor na MPA podem sofrer excitação e disforia, e o ambiente também influencia na eficácia por meio dos barulhos e sons estressantes. Em espécies que os efeitos são excitatórios há midríase e em espécies que os efeitos são sedativos, há miose. Centro termorregulador Como há depressão do SNC, há depressão do centro termorregulador, podendo causar hipotermia, principalmente quando administrado juntamente com outros fármacos depressores do SNC. Em felinos, suínos e equinos pode haver hipertermia. Em cães, principalmente sem dor, na MPA pode ocorrer taquipnéia excessiva. Depressão respiratória Há ação direta nos centros respiratórios do tronco cerebral, diminuindo sua resposta. O efeito varia de acordo com a dose. A diminuição da frequência respiratória é diferente da diminuição da ventilação pulmonar. Hormonal e equilíbrio hídrico Retenção urinaria (dificuldade em urinar) devido ao aumento do tônus do esfíncter vesical; Dificuldade para urinar por micção voluntaria principalmente se administrado por via epidural; Aumento da liberação de hormônios antidiuréticos (ADH); Exceção dos agonistas κ, que promovem diurese. Efeitos cardiovasculares Efeitos variáveis de acordo com a dose administrada, via de administração e espécie. Ligam-se a receptores opióides no tronco cerebral e no coração; Inibem o tônus simpático cardíaco, principalmente se aplicado IV; Pode ser atenuado com a aplicação de antimuscarínicos; Bradicardia: aumenta atividade parassimpática em neurônios que inervam o coração, o debito cardíaco e pressão arterial se mantem instável (exceto com Metadona); Efeitos vasculares mínimos: se administrado IV causa desgranulação dos mastócitos; Hipotensão, vasodilatação e broncoespasmo irão ocorrer dependendo do fármaco, dose e via de administração. Efeitos anti-eméticos / eméticos Morfina: principal fármaco que induz ao vômito, em baixas doses causa efeito emético através da estimulação dos receptores dopaminérgicos na zona quimiorreceptora do gatilho, principalmente em pacientes saudáveis, pois pacientes debilitados dificilmente irão vomitar; Maropitant (Cerenia®): antagonista de receptor da neurocinina. Age contra o enjoo, deve ser administrado 1 hora antes da morfina, somente em cães. Fentanil, Butorfanol, Metadona: possuem efeito antiemético, penetram mais rapidamente no SNC e agem inibindo o centro do vômito. Butorfanol é melhor em aves. Motilidade gastrointestinal Cães e gatos toleram bem os efeitos de curta duração, reduzem o peristaltismo e aumentam o tônus da musculatura lisa do esfíncter anal, causando constipação; Equinos devem ser monitorados, principalmente quando aplicado mais de uma dose, pois aumenta os riscos de cólica. Farmacocinética A maioria dos fármacos opióides são absorvidos no intestino e possuem um alto efeito de primeira passagem, quando por via oral a biodisponilidade é muito baixa, por este motivo, recomenda-se a administração por vias parenterais. Morfina (Dimorf): Analgésico clássico e relativamente seguro, possui afinidade 200x para receptores µ, controlam a dor moderada a severa, causam depressão respiratória, supressão da tosse, constipação, aumento do ADH, bradicardia e hipotensão em altas doses, êmese (estimulação dos receptores de dopamina e estimuloda zona de gatilho), liberação de histaminas (IV) – broncoconstrição e hipotensão, miose, hipotermia, a biotransformação hepática ocorre por sistema microssomal, excreção renal 90%, efeito prolongado em neonatos, ação prolongada. Dose: 0,1 – 1,0mg/kg (IM, SC) 2-6 horas de duração; 0,05 – 0,1mg/kg (epidural) 12-24 horas de duração. Ao ser absorvida, atinge o SNC, fígado, rins, pulmão e musculatura. Possui maior tempo de concentração no fluido cérebro- espinhal. Felinos possuem dificuldade de biotransformar ácido glicurônico. Cães: Latência: 5-15min; Efeito máximo: 30-45min; Biotransformação: 50% hepática; Redução significativa da CAM. Efeitos adversos: náusea, vômito, sedação, hipotermia, depressão respiratória leve. Em gatos há excitação em altas doses, dose deve ser reajustada para 0,1-0,25mg/kg. Fentanil (Fentanest): altamente lipossolúvel (potente) e possui alta afinidade pelos receptores µ. É utilizado para resgate analgésico no transoperatório e causa intensa depressão respiratória e cardiovascular. Dose: 1 – 5mg/kg IV, IM, SC; Infusão contínua: 5 - 20µg/kg/h (efeito cumulativo). Este fármaco possui ação antiemética e é 250x mais potente que a Morfina. Dependendo da dose e da via administrada, a ação dura de 30 minutos a 2 horas. Metadona (Metadon): efeitos potentes similares a Morfina. Atua como antagonista do NMDA e agonista µ. Possui ação mais efetiva para controle da dor crônica neuropática e tratamento da síndrome de abstinência de dependentes de opióides; Causa maior depressão respiratória, doses repetidas por via IM ou SC causam irritação ou lesão tecidual, não causa liberação de histaminas (IV), reduz a CAM, não provoca êmese. Repetir a dose a cada 4-8 horas. Dose: 0,2 – 1mg/kg. Meperidina (Petidina): opióide sintético, possui efeito inotrópico negativo e efeito anestésico leve à moderado. É 5x mais potente que a Morfina, a biotransformação ocorre por desmetilação (opção para cesáreas), estrutura química parecida com a Atropina, podendo gerar os mesmos efeitos, não provoca êmese; Causa maior liberação de histaminas quando administrado por via IV Dose: Cães: 2 – 4mg/kg IM 2-3 horas de duração; Gatos: 3 – 5mg/kg IM 2-4 horas de duração. Butorfanol: antagonistas dos receptores µ e agonista κ. Causa sedação e analgesia visceral, discreta ação dos parâmetros fisiológicos, trata dor leve à moderada, bom efeito antitussígeno, efeito antiemético. Dose: 0,1 – 0,4mg/kg IV, IM, SC 3-5 horas de duração. Nalbufina: antagonista dos receptores µ e agonista κ. Tratamento da dor leve à moderada, bom efeito antitussígeno, efeito antiemético. Tramadol: baixa afinidade por receptores µ e agonista κ. Estimula os receptores α2-adrenérgicos, tratamento da dor leve à moderada, bom efeito antitussígeno, não causa depressão respiratória. Em gatos a biotransformação é prejudicada, também causa salivação e midríase. Dose: 1 – 6mg/kg IV, IM, SC. Carfentanil e Etorfina: altamente potentes, utilizados para captura e contenção de animais selvagens. A dose de 0,01ml é letal para humanos. Antagonista próximo: Diprenorfina e Naltrexona. Outros opióides: Oximorfina (não disponível no Brasil), Hidromorfona (dor crônica), Remifentanil (duração de 5min), Buprenorfina. ANTAGONISTAS OPIÓIDES São utilizados para reversão de reações adversas graves causadas por opióides em procedimentos não dolorosos. A margem de segurança dos opióides é muito ampla. Os efeitos antagônicos são mais curtos que de opióides. Naloxona: reversão de todos os efeitos opióides, deve-se cuidar pois sua aplicação retira os efeitos de analgesia. Dose: 0,001 – 0,04mg/kg IV, repetir a cada 1-2 minutos até obter efeito desejado. ANESTÉSICOS INJETÁVEIS São fármacos que promovem depressão do SNC de forma dose-dependente e reversível, resultando na perda das capacidades de percepção de estímulos dolorosos e resposta a estes estímulos. São de administração IV e utilizados na fase de indução e manutenção, levando a perda de consciência (anestesia geral). Não causam efeito de analgesia, a dor ainda é sentida, entretanto não há reflexo. A dor leva ao aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial, por este motivo, é indicado sempre associar a opióides. Função: indução anestésica, manutenção anestésica (infusão continua), sedação em UTI para ventilação mecânica, anestésicos únicos para procedimentos menores (associados a opióides). Objetivo: hipnose, estabilidade hemodinâmica e pulmonar, amnésia, imobilidade em resposta ao estimulo nocivo, inconsciência, miorrelaxamento, recuperação rápida e tranquila. Vantagens: baixo custo, administração pratica, não produz poluição, não há sobrecarga pulmonar, menor estresse durante indução, melhor recuperação e rápido início de ação anestésica (mais rápida que voláteis). Desvantagens: risco de sobredose (não há antagonista), eliminação depende de função hepática e renal (integridade orgânica), recuperação prolongada e depressão cardiorrespiratória. Características ideais: as características ideais de um anestésico injetável são: hidrossolúvel e estável em solução, rápido equilíbrio entre sangue e cérebro, não causar dano local quando administrado extra-vascular, mínima depressão cardiopulmonar, depuração e meia-vida curta e gerar metabolitos inativos e/ou atóxicos. Classificação dos anestésicos injetáveis 1. Barbitúricos – Tiopental (Hypnol), Pentobarbital (Pentothal); Latência: 10-20 segundos, desprovidos de analgesia. São fármacos altamente lipossolúveis (equilíbrio entre plasma e cérebro em menos de 1min). Doses complementares (seguidas aplicações) causam efeito acumulativo, levando a retardo na recuperação anestésica, hipotermia e excitação. Possuem ultracurta duração de ação (baixa meia-vida plasmática), sua metabolização ocorre exclusivamente no fígado e excreção renal. A administração perivascular pode causar dor, flebite (inflamação na parede dos vasos) e necrose. Quase que sua totalidade está ligada a proteínas plasmáticas, sendo 70-85% ligados a albumina, assim, deve-se cuidar com pacientes que apresentem hipoproteinemia, podendo gerar depressão acentuada. Na MPA: potencialização de 40-60% com o emprego de fenotiazínicos (Acepromazina p. ex.); Benzodiazepínicos também potencializam intensamente. Vantagens: baixo custo e mantém os planos anestésicos; Desvantagens: biotransformação lenta, efeito cumulativo, não é indicado para pacientes idosos e neonatos, causa depressão do SNC, atravessa a barreira hematoencefálica e não há antagonistas. A administração de barbitúricos concomitantemente com a administração de glicose pode retardar ainda mais a biotransformação dos fármacos. Química e formulações: sais sódicos a 6%. São fármacos extremamente alcalinos e, deve-se diluir em solução salina ou água para injeção produzindo soluções a 2,5%, assim diminuindo a alcalinidade. Quando misturados a outros fármacos acabam por precipitar, causando cristalização, que caso venha a ser administrada, pode levar a formação de trombos devido a micropartículas na solução. Mecanismo de ação: potencializam a ação do GABA (principal neurotransmissor inibitório do SNC) causando retardo nas sinapses e hiperpolarização celular, diminuem condutância de íons K (potássio), Ca (cálcio) e Na (sódio) e diminuem a ligação e seletividade da acetilcolina. Farmacodinâmica: SNC: depressão de córtex e tálamo levando desde a hipnose até o choque bulbar, efeito anticonvulsivante (estimular GABA), redução do consumo de CO² cerebral, redução do fluxo sanguíneo cerebral (diminui as chances de edema), redução da pressão intracraniana (PIC), depressão do centro termorregulador (leva à hipotermia); SISTEMA HEMODINÂMICO: redução do débito cardíaco (inotropismo negativo, hipotensão), redução do fluxo sanguíneo coronariano (diminui irrigação cardíaca), redução do consumo de CO² pelo miocárdio, redução da pressão venosa central (reduz retorno venoso); CENTRO RESPIRATÓRIO:depressão do centro bulbar dose-dependente, hipoventilação (diminui frequência e amplitude respiratória); BULBO OCULAR: midríase (dilatação pupilar) inicial seguida de miose (contração pupilar), redução da pressão intraocular; SISTEMA DIGESTÓRIO: redução do peristaltismo e tônus, redução das secreções; SISTEMA URINÁRIO: hipotensão e vasoconstrição renal, redução da filtração glomerular e redução do volume urinário (aumento do ADH); ÚTERO: redução do tônus uterino e depressão fetal; 2. Alquifenóis – Propofol (Diprivan, Propovan); São fármacos derivados fenólicos de baixa solubilidade em água formulados em veículo de emulsão glicoproteica aquosa – aspecto leitoso – 10% óleo de soja, 2.25% glicerol e 1.2% fosfolipídios de ovo purificado, o que facilita a proliferação de bactérias quando aberto, podendo levar à quadros de sepse, assim, possuem curto período de validade após aberto e, devem ser armazenados sobre refrigeração. Possuem ação antiemética (inibem vômito), causam um despertar de um sono fisiológico, são utilizados para indução ou manutenção anestésica e causam efeito acumulativo após infusão prolongada. Farmacocinética: distribuição de 2-8 minutos, sendo que 97-99% está ligado a proteínas plasmáticas, não produz efeito acumulativo e a recuperação é rápida (alta biotransformação). A biotransformação ocorre 10x mais rápida que o Tiopental (barbitúrico), sendo ela hepática, plasmática, pulmonar e renal, garantindo maior segurança para pacientes hepatopatas, pois a metabolização não depende exclusivamente do fígado. A excreção ocorre 30-60 minutos após aplicação através de metabolitos inativos via renal. Farmacodinâmica: SNC: depressão do córtex e tálamo levando desde a hipnose ao choque bulbar, redução do fluxo sanguíneo cerebral, redução da pressão intracraniana, efeito miorrelaxante (não necessita associação a benzodiazepínicos), infusão continua pode causar efeito anticonvulsivante; SISTEMA CARDIOVASCULAR: redução do debito cardíaco, hipotensão em 40% dos pacientes, mínima alteração da frequência cardíaca, redução da resistência vascular periférica, inotropismo negativo, aumento do fluxo sanguíneo coronariano – seguro para cardiopatas, desde que não seja hipotenso e redução do consumo de O² pelo miocárdio; SISTEMA RESPIRATÓRIO: apnéia velocidade-dependente e bradipnéia; OUTROS EFEITOS: hipotermia, não libera histamina (não causa alergia facilmente) ou broncoespasmo, dor no local da aplicação e tempo limitado para uso após abertura do frasco. Mecanismo de ação: potencializam o GABA e diminuem a atividade metabólica cerebral 3. Compostos imidazólicos – Etomidato; São fármacos derivados imizólico carboxilado, hidrossolúveis, mais instável em solução aquosa, rápido período de latência (30 segundos), administração pode causar dor e mioclonias (movimentos musculares involuntários – associar a benzodiazepínicos causando miorrelaxamento) e vômito no pós-operatório. Utilizados em traumas cranioencefálicos por reduzir o metabolismo cerebral em até 50%. Não deprimem o tronco bulbar e são mais seguros para o sistema cardíaco e respiratório. Mecanismo de ação: potencializam a ação do GABA Farmacocinética: 65-75% estão ligados a proteínas plasmáticas, possui alta lipossolubilidade e não produz efeito acumulativo. A biotransformação ocorre de forma hepática e a excreção via renal (85%) e biliar (13%). Farmacodinâmica: SNC: depressão de córtex e tálamo, levando desde a hipnose até o choque bulbar, redução do consumo de O² cerebral, redução do fluxo sanguíneo cerebral, redução da pressão intracraniana, depressão do centro termorregulador e reduz metabolismo cerebral em 50%; SISTEMA CARDIOVASCULAR: alterações discretas, manutenção da pressão arterial, aumento discreto da frequência cardíaca, volume sanguíneo e debito cardíaco, redução da resistência vascular periférica; SISTEMA RESPIRATÓRIO: aumento da frequência respiratória; OUTROS EFEITOS: redução da pressão intraocular, redução do peristaltismo, dor no local da aplicação (23%), náusea e vômito (40%), aumento de secreções após cessar administração, inibe a síntese de cortisol (1 única dose pode levar a supressão adenocortical) sendo assim, contraindicada em pacientes com hipoadrenocorticismo; Infusão prolongada: oligúria, desequilíbrio eletrólito e hipotensão. 4. Dissociativos – Cetamina.