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2022 MARIANA BARROS BARREIRAS CRIMINOLOGIA DE 1 CRIMINOLOGIA COMO CIÊNCIA Nosso primeiro capítulo abordará itens como o conceito de Crimino- logia, os objetos dessa ciência, os métodos que emprega e suas finalidades. Ao final dele, trataremos da relação entre Criminologia, Política Criminal e Direito Penal. Esses assuntos compreendem 13% das questões objetivas de Criminologia presentes nos bancos de dados (2005-2019). 1. CONCEITO Vamos começar com um conceito de criminologia que será, aos pou- cos, destrinchado no decorrer do capítulo: A Criminologia é uma ciência interdisciplinar, indutiva e empírica, que se ocupa do estudo do crime, do criminoso, da vítima e dos mecanismos de controle social. Ela se aproxima do fenômeno criminal com o intuito de entender muitos de seus aspectos: sua origem, suas causas – individuais e sociais –, sua prevenção, suas con- sequências e o funcionamento das instâncias de controle. A Criminologia é considerada uma ciência autônoma porque possui objeto, método e função próprios. Alguns doutrinadores defendem que a fundação da Criminologia enquanto ciência teria ocorrido com a publicação, em 1876, da obra O Homem Delinquente, de Cesare Lombroso, sobre a qual falaremos bastante mais adiante. Mas o termo Criminologia foi utilizado pela primeira vez três anos depois, por Paul Topinard, em 1879. E a obra de Raffaele Garofalo, denominada Criminologia, de 1885, difundiu o nome da nascente ciência. De qualquer maneira, trata-se de uma ciência relativamente nova, que nasceu no final do século XIX e que teve uma fase pré-científica muito importante, que será analisada no próximo capítulo. 30 Manual de Criminologia • Mariana Barros Barreiras A Criminologia é uma ciência humana, não exata. Assim, a informação que ela fornece é válida, confiável, porém não exata ou definitiva. Sendo uma ciência, seu saber final afasta-se da intuição e do subjetivismo, mas está sujeita a transformações, pois não pretende chegar a conclusões fixas, imutá- veis. Diz-se, então, que o saber da Criminologia é provisório ou provisional, relativo, de certo modo limitado. Os criminólogos observam a realidade, analisam dados, transformam-nos em informações, mas não buscam leis universais irrefutáveis que estabeleçam relações diretas de causa e efeito entre as pessoas e os fenômenos criminais. Em vez de tentar fixar regras de causalidade pura, a Criminologia busca correlações, fatores que interliguem pessoas e eventos criminais. Enquanto o Direito Penal valora a sociedade, dizendo o que pode e o que não pode ser feito e prevendo a aplicação de sanções para o descumprimento das normas, tratando, portanto, do “dever-ser”, a Criminologia cuida do “ser”, encara o fenômeno de forma objetiva, sem conotação valorativa, sem mediação, sem julgamentos. O Direito Penal impõe uma sanção, uma pena ao crime. A Criminologia por sua vez procura compreender os mecanismos que influem para a prática criminosa bem como as consequências que o delito gera na comunidade. A Criminologia analisa, por exemplo, por que o crime ocorreu; por que um determinado crime foi selecionado e punido enquanto outros permane- cem impunes; por que um tipo específico de delito ocorre de maneira mais pronunciada em certo momento ou local; se as estatísticas oficiais sobre um determinado delito refletem a realidade; como foi a experiência das vítimas e como elas devem ser tratadas; como o sistema carcerário está funcionando. 1.1. Etiologia Etiologia é um termo que se refere ao estudo das causas da criminalidade. A Criminologia, ao analisar o fenômeno criminal e seu autor, busca, por vezes (mas nem sempre, como veremos!), a etiologia do crime, isto é, a criminogênese, as causas do cometimento do delito. Há algumas bancas de concurso público que definem a etiologia como a ciência que estuda as causas do crime. Parece-nos que falta um pouco de precisão terminológica ao afirmar que etiologia criminal é uma ciência. Ela é, em realidade, a nosso ver, uma parte, um ramo, da Criminologia. Mas para a Vunesp a etiologia é, sim, uma ciência. 31 Cap. 1 – CRIMINOLOGIA COMO CIÊNCIA 1.2. Conceito moderno de Criminologia Para García-Pablos de Molina, é possível falar em um conceito mais mo- derno de Criminologia. Nessa acepção mais atual, a Criminologia contém uma série de características que, no momento, nos limitaremos a enumerar, mas que serão, ao longo do livro, explicadas com mais detalhamento. Trata-se de uma Criminologia que: • Parte da caracterização do crime como “problema”, ressaltando sua base conflitual e enigmática e sua face humana e dolorosa; • Incorpora em seu objeto investigações sobre a vítima e o controle social; • Acentua a orientação prevencionista, em oposição à obsessão repressiva; • Substitui o conceito de “tratamento”, típico do positivismo, com cono- tações clínicas e individualistas, pelo conceito de “intervenção”, que traz consigo uma noção mais dinâmica, complexa e comunitária; • Destaca a avaliação dos modelos de reação ao delito como um de seus objetos; • Não renuncia a uma análise da etiologia do delito1. 2. CLASSIFICAÇÕES DA CRIMINOLOGIA 2.1. Criminologia Geral x Criminologia Clínica Existe um ramo específico da Criminologia que se convencionou deno- minar Criminologia Clínica e que consiste na aplicação dos conhecimentos teóricos para o tratamento dos criminosos. Um de seus maiores expoentes no Brasil foi Alvino Augusto de Sá, da Universidade de São Paulo. Alvino atuou como psicólogo no sistema carcerário paulista por mais de 30 anos. Segundo seus ensinamentos, a Criminologia Clínica analisa os presos, na tentativa de compreender os indivíduos e grupos que se envolveram com a delinquência; de estudar a instituição prisional; e de desenvolver estratégias de intervenção que promovam a reinserção social dos internos. O campo de trabalho do criminólogo clínico é o cárcere, e é ali que ele vai tentar analisar: 1. GARCÍA-PABLOS de Molina. GOMES, Luiz Flávio. Criminologia: introdução a seus funda- mentos teóricos. 5. ed. São Paulo: RT, 2006, pp. 28-29. 32 Manual de Criminologia • Mariana Barros Barreiras • A conduta delitiva e quem a praticou; • O cárcere e suas vicissitudes (adversidades); • As estratégias de avaliação do preso e de intervenção com vistas à sua reinserção no convívio social2. Diante da existência da Criminologia Clínica, alguns autores dizem que a ciência pode ser dividida em Criminologia Geral e Criminologia Clínica. A Criminologia Geral consiste no estudo mais genérico de todos os objetos da ciência: delito, delinquente, vítima e controle social. Edifica-se com a construção de teorias a partir da sistematização, comparação e clas- sificação dos resultados obtidos em todas as ciências que se debruçam de alguma maneira sobre a questão criminal. Já a Criminologia Clínica consiste na aplicação dos conhecimentos teó- ricos da Criminologia Geral para a análise de condutas delitivas específicas e tratamento dos criminosos. Com isso, no entanto, não se quer dizer que a Criminologia Geral é pura- mente teórica ou abstrata. Como veremos, a Criminologia parte da observação da realidade, e pretende com essa observação chegar a formulações mais gené- ricas sobre o comportamento delitivo. Já a Criminologia Clínica utiliza essas formulações genéricas para compreender a motivação de certos delinquentes e intervir no ambiente carcerário, buscando a reintegração dessas pessoas. Voltaremos a tratar da Criminologia Clínica no capítulo 3, dentro das vertentes psicológicas. 2.2. Macrocriminologia x Microcriminologia Eduardo Viana3 explica que, pela perspectiva etiológica, as correntes criminológicas podem ser divididas em Micro e Macrocriminologia. • Microcriminologia: analisa o autor do delito, seja individualmente, seja levando em consideração o grupo social onde vive. • Macrocriminologia: ocupa-se da análise estrutural da sociedade onde o delito ocorre. 2. SÁ, Alvino Augusto de. Criminologia clínica e psicologiaterciária, que, em uma de suas acepções, diz respeito ao processo de ridicularização que a vítima primária do crime sofre em seu meio social. Há uma exaltação do criminoso e humilhação da vítima primária pelas instâncias informais de controle social. No utem III, o foco principal está no fato de Maria ter que reviver o trauma, relatando os fatos mais de uma vez. Trata-se, nesse ponto, de um processo de vitimização secundária: a vítima primária é objeto da insensibilidade, do desinteresse e da atuação meramente burocrática dos operadores do sistema criminal estatal. Trata-se dos custos adicionais impostos à vítima primária em função da atuação das instâncias de controle social formal: espera em delegacia, tomada de depoimento, comparecimento a inúmeros atos processuais, identificação dos suspeitos, perícia, etc. O sistema penal coisifica a vítima, tratando-a como mero objeto e não como pessoa titular de direitos e me- recedora de dignidade. QUESTÃO 04. LETRA D. Questão bastante polêmica. Vitimização secundária é aquela em que a vítima de um delito é objeto da insensibilidade, do desinteresse e da atuação meramente burocrática dos operadores do sistema criminal estatal. São, portanto, custos adicionais impostos à vítima primária em função da atuação das instâncias de controle social formal. A vítima se sente maltratada e negligen- ciada pelo sistema legal, que não dispensa um tratamento condizente com seu papel. A vitimização secundária também é conhecida como sobrevitimização oucriminal. São Paulo: RT, 2007. 3. VIANA, Eduardo. Criminologia. 6. ed. Salvador: Juspodivm, 2018, p. 25. 2 NASCIMENTO DA CRIMINOLOGIA Nesse capítulo, vamos começar (porém não vamos concluir) a análise das escolas criminológicas. Cada escola se aproxima do fenômeno criminal a partir de postulados diferentes e, consequentemente, constrói formulações distintas sobre a criminalidade. No capítulo presente, o foco serão as escolas criminológicas que deram origem ao nascimento da Criminologia. As de- mais escolas serão estudadas nos capítulos seguintes. Aqui, vamos analisar: • os precursores que estudavam o fenômeno criminal antes de a Crimi- nologia se firmar como ciência; • a importância do Iluminismo para o nascimento da Criminologia; • o embate entre as escolas Clássica e Positivista; • As teorias que, no meio dessa luta de escolas, posicionavam-se de modo intermediário. De tudo o que estudaremos nesse capítulo, o que os examinadores mais cobram nas provas de concurso é a diferença entre os clássicos e os posi- tivistas. Secundariamente, são cobrados conhecimentos sobre as Escolas Intermediárias. As questões sobre os temas do presente capítulo correspon- dem a 10% do total de questões objetivas de Criminologia nos bancos de dados (2005-2019). 1. PRECURSORES Antes de falar dos clássicos e positivistas, vamos mencionar alguns auto- res considerados precursores da Criminologia. Eles estudavam o fenômeno 104 Manual de Criminologia • Mariana Barros Barreiras criminal antes de a Criminologia se firmar como ciência, o que só veio a ocorrer no século XIX. Antonio García-Pablos de Molina1 e Sérgio Salomão Shecaira2 fizeram extensas compilações de precursores, nas quais nos basearemos. Segundo eles, os principais precursores da Criminologia se dedicaram a buscar, ge- ralmente no corpo do delinquente, explicação para o cometimento de um crime. Hoje, é fácil perceber que essas explicações careciam de cientificidade, ou seja, eram pseudocientíficas. Mas, por muito tempo, foram aceitas pela comunidade das ciências criminais. Apenas a título exemplificativo, podemos citar a oftalmoscopia, que ten- tava explicar o caráter das pessoas pela observação dos olhos; a metoposcopia que analisava as rugas; ou a frenologia, que se debruçava sobre o cérebro humano, com o mesmo objetivo. Os fisionomistas estudavam a aparência externa do indivíduo para deduzir seus caracteres psíquicos. Vamos men- cionar alguns nomes de precursores. 1.1. Fisionomistas Em um primeiro grupo vamos colocar os fisionomistas, que se dedicavam a estudar a aparência externa dos criminosos. O cientista italiano Giovanni Della Porta, por exemplo, na passagem do século XVI para o século XVII, sustentou a perfeita correspondência entre os aspectos interiores e a forma externa de uma pessoa. Petrus Camper, anatomista e antropólogo holandês, no século XVIII, mostrou a escala de perfeição dos seres, partindo do macaco até chegar a Apolo. O filósofo suíço Johann Lavater, no século XVIII, estudou crânios e defendeu que o temperamento da pessoa pode ser lido pelos contornos da face e que o delinquente tem maldade natural. É por isso considerado o pai da fisiognomonia, a arte de conhecer a personalidade das pessoas através dos traços fisionômicos. 1. GARCÍA-PABLOS de Molina. GOMES, Luiz Flávio. Criminologia: introdução a seus funda- mentos teóricos. 5. ed. São Paulo: RT, 2006, p. 136 e ss. 2. SHECAIRA, Sérgio Salomão. Criminologia. 7. ed. São Paulo: RT, 2018, p. 78 e ss. 105 Cap. 2 – NASCIMENTO DA CRIMINOLOGIA Estudos de fisionomia acabaram levando a atuações judiciais insólitas. O juiz napolitano Marquês de Moscardi, na Itália, costumava incluir em suas sentenças o bordão “Ouvidas acusação e defesa e examinadas a cabeça e a face do acusado...”. Era um ressurgimento do Édito de Valério, oriundo do Império Romano, que determinava que quando se tem dúvida entre dois presumidos culpados, condena-se sempre o mais feio. 1.2. Frenologistas Ao lado dos fisionomistas, os frenologistas também desempenharam papel importante como precursores da Criminologia. A ideia deles era lo- calizar cada um dos instintos humanos em uma parte específica do cérebro. Franz Joseph Gall, médico alemão que viveu nos séculos XVIII e XIX, defendia que o crime é resultado de um desenvolvimento parcial e não com- pensado do cérebro. Johann Spurzheim, outro médico alemão, discípulo e colaborador de Gall, chegou a elaborar uma carta cranioscópica, parecida com os mapas da Geografia. O linguista espanhol Mariano Cubí y Soler elaborou um manual de freno- logia em meados do século XIX e foi um dos primeiros a começar a falar em criminoso nato, um subtipo humano com características que o levavam a co- meter crimes. Para ele, o criminoso é um enfermo que necessita de tratamento. 1.3. Psiquiatras Há ainda um importante grupo de psiquiatras precursores, que anali- savam a correlação entre crime e enfermidade mental. O francês Philippe Pinel (séculos XVIII e XIX) possuía ideias humanitárias de tratamento das doenças mentais. Ele demonstrou que os delinquentes e os doentes mentais eram coisas distintas. Jean Esquirol, outro psiquiatra francês que viveu entre os séculos XVIII e XIX, defendia que o ato criminal somente podia ser realizado sob esta- do delirante. Como o autor do delito não está mentalmente são, não deve haver punição, mas sim tratamento. Como consequência de seu trabalho com internos e loucos, foram criadas comissões para verificar o tratamento dado aos reclusos. 106 Manual de Criminologia • Mariana Barros Barreiras Já o psiquiatra franco-austríaco Bénédict-Augustin Morel (século XIX) associou criminalidade à degeneração. Para ele, o crime é uma forma de- terminada de degeneração hereditária, de regressão. 1.4. Antropólogo O antropólogo francês Prosper Lucas, em 1847, descreveu o conceito de atavismo: reaparecimento, em um descendente, de caráter não presente em ascendentes imediatos, mas em ascendentes remotos. A tendência criminal seria transmissível por via hereditária. 1.5. Preocupados com questões prisionais Outro precursor foi o inglês John Howard, um filantropo que inspecio- nou estabelecimentos prisionais, denunciou o estado miserável dos apenados em 1777 e buscou reformas carcerárias. Ele defendia a superação do pecado do crime por meio da meditação, introspecção e trabalho. Jeremy Bentham, filósofo inglês dos séculos XVIII e XIX e pai do utilitarismo, defendeu a construção de panópticos, ou seja, de sistemas de construções pri- sionais que permitiam, com o mínimo de esforço e o máximo de economia, obter o máximo de controle dos condenados. Da torre central de um presídio circular todos os corredores radiais seriam observados, bastando, para tanto movimentar a cabeça nas diferentes direções, para se ter o controle pleno de todo o edifício, sem que os presos pudessem saber que estavam sendo vigiados3. Como veremos mais adiante, há quem denomine esses autores de pré- -clássicos. 1.6. Escola Cartográfica Outra linha de precursores da Criminologia adveio da Escola Cartográ- fica, cujo nome mais importante foi Adolphe Quetelet, estatístico belga dos séculos XVIII e XIX. Desenvolveu a ideia de “homem médio”, um tipo ideal e abstrato que podia ser visto como um padrão para análises sociológicas. Ele defendia a existência de uma “lei dos grandes números”: o crime apresentaria 3. SHECAIRA, Sérgio Salomão. Criminologia. 7. ed. São Paulo: RT, 2018, p. 86. 107 Cap. 2 – NASCIMENTO DA CRIMINOLOGIA uma regularidade constante e seria representável em funções matemáticas a depender dos estados econômicos e sociais do momento. Haveria, então, uma relação constante entre a criminalidade real (todos os crimes que acontecem), a criminalidade aparente (a criminalidade que se conhece) e a criminalidade legal (os crimes que chegam ao conhecimento do Sistema Judiciário). A Escola Cartográfica tanto pode ser considerada precursora como in- termediária às escolas clássica e positivista,já que nasce no momento em que se tratava esse embate de teorias, como veremos em seguida. 2. ILUMINISMO A Europa, nos séculos XV a XVIII, vivenciou o que se convencionou chamar de Antigo Regime. Era a época das monarquias absolutistas, com o regime centralizado nas mãos do rei. A figura do rei era sagrada e incontestá- vel e a visão teocêntrica do mundo, amplamente dominante. Nesse período, o sistema penal era caótico, cruel e arbitrário. O crime era amplamente en- carado como um pecado ou como uma afronta direta ao poder monárquico. A pena simbolizava castigo e vingança, a reafirmação da vontade de Deus e do soberano. Havia uma natureza religiosa a mística nos institutos penais. Os réus, de maneira geral, não possuíam as garantias processuais e penais que hoje existem nos sistemas democráticos. No século XVIII, surgiu o Iluminismo, movimento filosófico que exaltou o poder da razão em detrimento do poder da religião. Ideologias absolutistas e religiosas foram substituídas pelo conhecimento racional do mundo. Pode- -se dizer que a burguesia empreendeu uma luta contra os poderes tradicionais da nobreza e do clero. Nessa época, surgiram as teorias contratualistas sobre o Estado: as pessoas depositavam apenas uma parcela de sua liberdade no cofre estatal, logo deveria limites ao poder punitivo. Surgiram muitas críticas ao sistema penal do Antigo Regime. O Iluminismo, portanto, promoveu o culto à razão e passou a fornecer explicações racionais para os problemas sociais. É comum, e correto, que se associe a Escola Clássica do Direito Penal ao Iluminismo. Mas, em realidade, o movimento Iluminista é considerado a base tanto dos autores clássicos do Direito Penal quanto dos autores positivistas da Criminologia. A Escola Clássica e a Escola Positivista formam o que se costuma denominar Criminologia tradicional, em oposição à Criminologia moderna, de forte viés sociológico e crítico. 108 Manual de Criminologia • Mariana Barros Barreiras 3. ESCOLA CLÁSSICA A Escola Clássica, do século XVIII e que teve na Itália seu grande epicen- tro, foi a primeira a empregar os postulados Iluministas para analisar o crime. Mas não se trata, ainda, de uma teoria criminológica. O mais adequado é chamá-la de Escola Clássica do Direito Penal. Aliás, para Cezar Roberto Bittencourt, os diversos juristas representantes dessa corrente não apresentavam conteúdo homogêneo. A denominação Escola Clássica foi dada pejorativamente, a posteriori, pelos positivistas que negaram o caráter científico das valorações jurídicas do delito4. Na esfera penal, o Antigo Regime contava com práticas punitivas bár- baras, aleatórias, desproporcionais. No século XVIII, com o advento do Iluminismo e o surgimento das teorias contratualistas, novos códigos pe- nais entraram em cena, com técnicas mais humanas e racionais de punição. Nascia, então, um Direito Penal como conhecemos hoje, com elaboradas racionalizações e construções dogmáticas. O alemão Paul Johann Anselm von Feuerbach, ou simplesmente Feuerbach, é considerado o fundador da moderna dogmática penal. Os autores clássicos reconhecem que as pessoas possuem livre-arbítrio, ou seja, podem fazer escolhas. Para eles, o criminoso é considerado generi- camente, abstratamente, uma pessoa como outra qualquer. O cometimento de um crime é fruto de uma decisão que implica quebra do pacto social de convivência pacífica. O delinquente deve ser punido pelo mal que causou com a sua escolha. A ele, então, são aplicáveis as penas previstas no orde- namento jurídico, utilizando-se a técnica dedutiva de subsumir a conduta a uma norma penal incriminadora. Os clássicos consideram que o crime é, antes de tudo, um ente jurídico. É necessário que haja previsão legal para que uma conduta seja considerada criminosa. Por isso, o enfoque clássico se vale de um método dedutivo: parte da regra geral (normas jurídicas, por exemplo) para analisar o fenômeno criminal. O método é também abstrato, pois se baseia sobretudo na lei, um comando genérico. É, ademais, formal, pois há regras procedimentais 4. BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal: Parte Geral. 17 ed. São Paulo: Saraiva, 2012, p. 195. 6 VITIMOLOGIA O termo Vitimologia deriva da união das palavras vítima e logos e refere- -se, portanto, ao estudo das vítimas. O tema é cobrado em 14% das questões objetivas de Criminologia presentes nos bancos de dados (2005-2019). A palavra Vitimologia foi cunhada em 1947 por Benjamim Mendelsohn, sobre quem falaremos mais adiante. Pode-se adotar um conceito de vítima amplo ou restrito. Mendelsohn, como veremos, adotava um conceito amplo. Seria vítima não apenas a pessoa afetada por um crime, mas também aquela lesionada por acidentes e catás- trofes. Esse conceito não foi muito bem aceito pela comunidade científica. De todos os modos, não se deve restringir demasiadamente o conceito de vítima, que pode ser qualquer pessoa, física ou jurídica, desde que sofra uma desventura, uma ofensa, uma lesão decorrente de um crime. A lesão pode ser de vários tipos, como corpórea, psíquica ou econômica. Alguns autores defendem que a Vitimologia é uma ciência. Outros, que é um ramo da Criminologia. De qualquer maneira, dedica-se a jogar luz sobre o papel fundamental que a vítima desempenha no fenômeno criminal. A Vitimologia analisa, entre outras coisas, a contribuição do ofendido como causa ou condição do evento delituoso. Preocupa-se com a vítima, buscan- do restaurar o seu papel no cenário criminal. Além de tentar entender qual o papel da vítima no delito, defende programas de intervenção em crises, compensação, restituição, ressarcimento do dano, assistência médica, psi- cológica e jurídica, seja na etapa de mediação como no processo criminal ou cível eventualmente instaurado. Movimentos de defesa dos direitos da mulher, da criança e do adolescente, dos indígenas, dos condenados e de grupos especialmente vulneráveis têm sido citados como importantes pro- pulsores da Vitimologia. 540 Manual de Criminologia • Mariana Barros Barreiras Além de procurar entender o papel desempenhado pela vítima no fenô- meno criminal e o tipo de assistência necessária para fazer frente aos traumas deixados pelo evento criminoso, a Vitimologia desempenha importante papel no descobrimento das taxas reais de criminalidade, como veremos mais adiante. Lola Aniyar de Castro, criminóloga venezuelana, sintetiza os seguintes objetos da Vitimologia: • Estudo da personalidade da vítima, tanto vítimas de delinquentes, ou vítima de outros fatores; • Descobrimentos dos elementos psíquicos do complexo criminógeno existente na dupla penal, isto é, o potencial de receptividade vitimal; • Análise da personalidade das vítimas sem intervenção de um terceiro (como é o caso das vítimas de suicídio); • Estudo dos meios de identificação dos indivíduos com tendência a se tornarem vítimas (e inclusão de métodos psicoeducativos necessários para organizar sua própria defesa); • Busca dos meios de tratamento curativo, para prevenir a recidiva da vítima.1 Ester Kosovski, grande nome brasileiro dessa disciplina, defende que a Vitimologia repousa em um tripé: estudo e pesquisa; mudança de legislação; e assistência e proteção à vítima. Cada um desses elementos seria fundamental para a elaboração de uma nova visão do crime, que retiraria a vítima do seu papel de grande esquecida do drama criminal.2 No mesmo sentido, García-Pablos de Molina explica que o Direito Penal contemporâneo encontra-se unilateral e equivocadamente voltado para a pessoa do delinquente, relegando a vítima a uma posição marginal, de de- samparo, sem outro papel que o puramente testemunhal. Para ele, o sistema legal já nasceu com o propósito deliberado de distanciar os dois protagonistas do conflito criminal, despersonalizando a rivalidade, neutralizando a vítima e transformando-a em mero conceito abstrato. A Sociologia e Psicologia 1. KOSOVSKI, Ester. História e escopo da vitimologia. In: KOSOVSKI, Ester; PIEDADE Jr.,Heitor; ROITMAN, Riva (Orgs.) Estudos de Vitimologia. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2014, p. 29. 2. KOSOVSKI, Ester. As Novas Formas de Proteção à Vítima. In: KOSOVSKI, Ester; SÉGUIN, Elida. Temas de Vitimologia. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2000, p. 21. 541 Cap. 6 – VITIMOLOGIA Social têm ajudado a denunciar esse abandono e a fornecer modelos teóricos aptos a analisar os dados das investigações vitimológicas.3 1. FASES DO ESTUDO DA VÍTIMA A vítima é um dos objetos da Criminologia, como analisamos no pri- meiro capítulo. Ali, tivemos a oportunidade de analisar que, em relação à vítima, os estudos criminais passaram por três grandes momentos. Vamos agora, retomar e aprofundar os conhecimentos sobre essas três fases:4 • Idade de ouro da vítima: perdurou desde os primórdios da civilização até o fim da Alta Idade Média (século X). Nessa época havia a pos- sibilidade de composição e de autotutela, ou seja, de fazer justiça pelas próprias mãos. Havia, ainda, a possibilidade de aplicação da lei de talião, de que já falamos anteriormente. Conhecida pela máxima “olho por olho, dente por dente”, essa lei traz a ideia de correspon- dência entre o mal causado a alguém e o castigo que deve receber. A um homicida, por exemplo, poderia ser imposta a pena de morte. Durante a era de ouro da vítima se desenvolveu o processo penal acusatório, em que as funções de acusar, julgar e defender estavam em mãos distintas. As partes tinham iniciativa probatória, diante de um juiz inerte, que não podia produzir as provas independentemente da provocação do autor e do réu. • Neutralização do poder da vítima: essa fase teve início na Baixa Idade Média, com a crise do feudalismo, o início das Cruzadas, e a adoção do processo penal inquisitivo, no século XII. Em oposição ao processo acusatório, o processo inquisitivo concentra as funções de acusar e julgar nas mãos do juiz. Também chamado de processo inquisitório, acabou se revelando problemático por dificultar a imparcialidade do juiz, que deixou de ser um árbitro e passou a ser um inquisidor. Nes- sa fase de neutralização, a vítima perdeu o poder de reação ao fato delituoso, que passou para as mãos da administração pública. A pena não era mais dirigida a compensar a dor da vítima ou determinada em função dessa dor. A sanção penal passou a ser uma garantia para 3. GARCÍA-PABLOS de Molina. GOMES, Luiz Flávio. Criminologia: introdução a seus funda- mentos teóricos. 5 ed. São Paulo: RT, 2006, p. 67. 4. SHECAIRA, Sérgio Salomão. Criminologia. 7ª ed. São Paulo: RT, 2018, p. 53 e ss. 542 Manual de Criminologia • Mariana Barros Barreiras o grupo social de que eles podiam ter expectativa na norma, pois a frustração de seus comandos geraria uma consequência. • Revalorização do poder da vítima: essa fase teve início no século XVIII e perdura até os dias atuais. Considera-se que a vítima havia sido esquecida pelo processo criminal e que é necessário recuperar certa parcela de seu protagonismo. Os autores penalistas clássicos (séculos XVIII e XIX) começam a mencionar a importância da vítima, mas é com a consolidação da Criminologia que os discursos de que a vítima deve ter proeminência ganham força. Apesar do forte apelo da Vitimologia à doutrina de direitos humanos, um dos problemas veri- ficados nessa etapa de revalorização do poder da vítima é a pressão que as vítimas ou seus parentes exercem em nossa sociedade, em nossos legisladores e julgadores para que haja punições extrema- mente severas em função da dor que estão sentindo, o que pode levar a um movimento de punitivismo exacerbado. Muitos criminólogos conservadores, de viés punitivista, têm se apoiado nas vítimas com o intuito de fortalecer o argumento de robustecer o poder repressivo, alegando que quanto mais se protege o vitimador, mais dano se faz à vítima. García-Pablos de Molina adverte que, nessa fase, não se pode pretender um retorno à idade de ouro da vítima, afinal já se percebeu que uma resposta institucional e serena ao delito não pode se subordinar aos estados emocionais da vítima. Reconhece-se que a natureza pública do delito, da pena e do processo foram avanços civilizatórios históricos, aos quais não se pretende renunciar. Mas é necessário proceder a uma redefinição global do status da vítima, com identificação de suas expectativas e do papel que pode desem- penhar na busca de concreta justiça. 2. PRINCIPAIS NOMES DA VITIMOLOGIA 2.1. Hans Gross Hans Gross foi um jurista e criminólogo austríaco que teve importância decisiva no nascimento da Criminalística, disciplina que se dedica a eluci- dar os crimes. Além de pai da perícia criminal, Hans Gross é considerado precursor da Vitimologia em virtude de sua obra Raritätenbetrug, publicada em 1901, em que analisou a ingenuidade das vítimas de fraudes raras. 543 Cap. 6 – VITIMOLOGIA 2.2. Benjamim Mendelsohn O discurso de revalorização do poder da vítima se verificou de maneira pronunciada com Benjamim Mendelsohn, advogado nascido na Romênia, mas com nacionalidade israelita, que utilizou o termo Vitimologia em 1947 para descrever o sofrimento dos judeus nos campos de concentração de Alemanha nazista. Considerado um dos pais da Vitimologia, Mendelsohn sustentou a auto- nomia científica desse saber. Para cuidar das vítimas, defendia, é necessário ir além do Direito Penal, pois o arsenal jurídico é estranho a elas. Daí a importância de escapar das armadilhas jurídicas e daí, também, a defesa de uma Vitimologia geral (não exclusivamente jurídico-penal). Mendelsohn argumentava ser impossível realizar justiça sem atentar para o papel da vítima. Para ele, o objetivo da Vitimologia deveria ser: menos vítimas em todos os domínios em que a sociedade está interessada, e na medida desse interesse. Não se deve restringir o domínio da Vitimologia às vítimas de delitos. A vítima da delinquência não é a única que deve des- pertar interesse na sociedade, e o seu sofrimento não é a única praga social pela qual a sociedade deve se interessar. Meldelsohn se valia amplamente do conceito de vitimidade (victimité): trata-se da capacidade de ser vítima de fatores endógenos ou exógenos, ou, dito de outro modo, da totalidade de características biopsicossociais comuns às diferentes categorias de vítimas que a sociedade tem interesse de prevenir e curar, quaisquer que sejam os fatores determinantes. A noção de vitimidade, acrescentava, não é o inverso da noção de cri- minalidade. A vitimidade compreende uma esfera muito mais ampla, que inclui, por exemplo, as vítimas de acidentes de trânsito, de acidentes de trabalho, de vícios, de suicídios, de doenças laborais, dentre outras. Essa noção ampla de vitimidade, aliás, seria determinante para diferenciar o ob- jeto da Vitimologia – vítima em seu conceito amplo – de um dos objetos da Criminologia – vítima de delitos. Assim como a Sociologia se ocupa de todos os problemas sociais; a Medi- cina, de todas as doenças; a Criminologia, de todos os delitos; a Vitimologia deveria se ocupar de todas as categorias de vítimas e de todos os problemas de vitimidade, sem ignorar nenhum dos fatores determinantes que interes- sam à sociedade. 544 Manual de Criminologia • Mariana Barros Barreiras Esses fatores, que determinam que alguém se torne vítima, provêm de seis espécies de meios: • Meio endógeno, bio-psíquico, da própria vítima, tais como negligência, desatenção, esquecimento, falta de coordenação entre a percepção, o discernimento, a decisão e a reação muscular; • Meio natural, físico, imune à influência humana; • Meio natural ambientalmente modificado pela influência humana; • Meio social, aí consideradas as ações antissociais individuais ou orga- nizacionais; • Meio social político, em que se incluem os governos autoritários, di- tatoriais, racistas, genocidas; • Meio motor, em que se encaixam as máquinas da modernidade que têm alto potencial vitimizador. Considerados esses fatores, a Vitimologia deveria concentrar seus esfor- ços na identificação de meios capazes de afastar o “complexo doperigo”, que equivale à soma de elementos objetivos, subjetivos ou mistos, permanentes ou temporários, aparentes ou velados, que determinam quais pessoas se tornarão vítimas. É necessário, portanto, analisar a periculosidade vitimal, que não é distribuída igualmente na população, já que algumas pessoas têm mais propensão a se tornar vítimas. A periculosidade vitimal diz respeito ao comportamento inapropriado da vítima que de certo modo facilita, instiga ou provoca a ação do agressor. Mendelsohn defendia que, caso a ação de prevenção vitimal falhasse, a Vitimologia deveria passar a se preocupar em reduzir ao mínimo a nocivi- dade para as vítimas e em evitar a recidiva vitimal. Aliás, para Mendelsohn, um dos paradoxos da sociedade contemporânea é o fato de que quanto mais avançada uma sociedade, mais riscos ela implica. Assim, o comple- xo do perigo avança rapidamente, com muitos riscos sendo criados para a população, enquanto os meios de evitar os perigos estão sempre atrasados. A vitimidade, portanto, decorre de uma série de fatores e é um problema geral e não individual, que guarda conexão com a evolução da sociedade. Mendelsohn postulava a formulação de uma Vitimologia Clínica, um elemento vital da nova ciência, que diria respeito à criação, nos hospitais, de uma seção especial para onde seriam dirigidas as vítimas de acidentes. Nesse setor, além de médicos, haveria sociólogos, psicólogos e outros profissionais habilitados a lidar com as questões relativas às vítimas. Ele também defendia 545 Cap. 6 – VITIMOLOGIA a criação de um Centro de Vitimologia, que se ocuparia das questões vitimo- lógicas que não fossem clínicas. Para Mendelsohn, portanto, a Vitimologia, além de ampla, devia ter efeitos práticos, de livrar o ser humano do perigo. Se fosse útil e viável, a Vitimologia seria revolucionária5. Sua tipologia das vítimas, apresentada na palestra “Um horizonte novo na ciência biopsicossocial”, pronunciada em um hospital de Bucareste, é bastante conhecida. Possui uma base ao mesmo tempo etiológica e interacionista, já que procura compreender as causas de alguém se tornar vítima analisando a interação existente entre os integrantes da dupla penal (vítima e agressor). Foi desenvolvida, portanto, com base na correlação de culpabilidade entre a vítima e o vitimador (delinquente): quanto maior a culpabilidade de um, me- nor a culpabilidade do outro. As categorias de vítima para Mendelsohn são: • Vítima totalmente inocente, que não tem “culpa” na infração penal, ou seja, não concorre de forma alguma para o evento, como ocorre no caso do infanticídio e das pessoas com mediana prudência. É também chamada de vítima ideal; • Vítima por ignorância, que é menos culpada que o delinquente, como, por exemplo, aquele que anda com a bolsa aberta em local perigoso, sendo imprudente. São também chamadas de vítima de menor culpa- bilidade; • Vítima tão culpada quanto o delinquente, que dá causa ao resultado, como, por exemplo, no caso da rixa (briga), da eutanásia, da dupla sui- cida, do aborto consentido e dos crimes de estelionato em que a vítima tenta se aproveitar de uma situação pretensamente muito vantajosa que lhe é apresentada. É também chamada de vítima voluntária; • Vítima mais culpada que o delinquente, que o provoca, como, por exemplo, a vítima de um homicídio privilegiado praticado após injusta provocação. São também chamadas de vítima por provocação; • Vítima como única culpada, de que é exemplo a pessoa que se coloca em situação de completo risco, como o suicida ou um agressor que acaba sendo vítima de legítima defesa. São também chamadas de vítimas agressoras, simuladas, simuladoras, imaginárias ou pseudoví- timas. Nessas hipóteses não se está diante de uma vítima real. Não se trata de uma pessoa que coopera com o ânimo criminoso de alguém: ao contrário, a pseudovítima é a única culpada pela situação. 5. MENDELSOHN, Benjamin. La victimologie et les besoins de la societe actuelle. In: Revue internationale de criminologie et de police technique, v. 26, n. 3, p. 267-276, jui./sep. 1973. 546 Manual de Criminologia • Mariana Barros Barreiras Nestor Sampaio Penteado Filho diz que Mendelsohn sintetiza essa clas- sificação em três grupos: o da vítima inocente (que não concorre de forma alguma para o crime); o da vítima provocadora (que contribui com o ânimo criminoso); e o da vítima agressora. A VÍTIMA É CULPADA NOMENCLATURA NÃO Ideal - Ignorância = Voluntária + Provocadora EXCLUSIVAMENTE Pseudovítima 2.3. Hans Von Hentig Hans Von Hentig foi um psicólogo criminal alemão radicado nos Es- tados Unidos. No artigo Remarks on the Interaction of Perpretator and Victim6, pu- blicado em 1940, Hans von Hentig explica que, em muitos casos a vítima não contribui para o fenômeno criminal, mas que frequentemente pode ser observada uma mutualidade na conexão entre agressor e vítima. Em clara conexão com os postulados positivistas do século XIX, e nitidamente inserido numa visão de corresponsabilização da vítima, ele defende que em muitos casos a vítima ativamente leva o agressor à tentação. “Se há criminosos na- tos, é evidente que também existem vítimas natas, que se autolesionam e se autodestroem por meio de uma pessoa estranha maleável.” Ele analisa três grupos de crimes, sob o ponto de vista vitimológico: assassinatos, crimes sexuais e estelionatos. No tocante aos crimes sexuais, Hentig assinala – em viés típico de uma cultura pautada por valores androcêntricos – que a sedução e o caráter 6. HENTIG, Hans Von. Remarks on the Interaction of Perpetrator and Victim. In: Journal of Criminal Law and Criminology (1931-1951). 31(3):303-309; Northwestern University Press, 1940. 569 Cap. 6 – VITIMOLOGIA ambientais e relativos a organizações criminosas. Verifica-se uma expansão da proteção de bens jurídicos coletivos, vagos, imprecisos. A essa tendência, dá-se o nome de desmaterialização, liquefação, espiritualização ou dinami- zação do bem jurídico ou da vítima. 11. SELETIVIDADE DA VITIMIZAÇÃO A Vitimologia demonstra que o risco de vitimização é seletivo e diferen- cial.21 Alguns grupos populacionais e segmentos sociais são particularmente propensos à vitimização, seja ela primária, secundária ou terciária. Fatores pessoais, sociais e situacionais atuam para desenhar um maior ou menor prognóstico de vitimização. Minorias e grupos marginalizados atraem uma parcela significativa de delitos. No Brasil, isso é facilmente observável nos delitos violentos. Os jo- vens negros são as principais vítimas de homicídio. Segundo dados do Atlas da Violência 2020, do total das vítimas de homicídio em 2018, 75,7% eram negros. Entre eles, a taxa foi de 37,8 por 100 mil habitantes, enquanto entre os não-negros a taxa foi de 13,9. A chance de uma pessoa negra morrer de forma violenta no Brasil é 2,7 maior que uma pessoa não-negra. E o homi- cídio foi a principal causa de mortalidade de jovens, que são as pessoas de 15 a 29 anos. Fala-se, portanto, em uma juventude perdida. Os escassos recursos socioeconômicos das vítimas pobres potencializam, ademais, os efeitos da revitimização, já que lhes é mais custoso enfrentar as dificuldades para fazer girar com eficiência o sistema de justiça criminal. A população marginalizada, quando vítima, possui reduzida capacidade de se fazer ouvir com credibilidade, de perseguir seus direitos. 12. SÍNDROMES RELACIONADAS À VITIMIZAÇÃO 12.1. Síndrome de Estocolmo A Síndrome de Estocolmo é um estado psicológico em que a vítima passa a ter simpatia ou mesmo sentimento de amor e amizade em relação 21. GARCÍA-PABLOS de Molina. GOMES, Luiz Flávio. Criminologia: introdução a seus funda- mentos teóricos. 5 ed. São Paulo: RT, 2006, p. 71. 570 Manual de Criminologia • Mariana Barros Barreiras ao vitimizador após longo período de intimidação. O termo foi cunhado pelo criminólogo e psiquiatra Nils Bejerot. Tem como origem um assalto a banco realizado em 1973 em Estocolmo, na Suécia. Quatro pessoas foram feitas refénspor cerca de uma semana. Durante as negociações, pediram que os criminosos fossem deixados em liberdade, deram pistas falsas e alegaram que a culpada pela situação era a polícia, que tinha efetuado os primeiros disparos. Ao serem liberadas, recusaram ajuda dos policiais e usaram os pró- prios corpos para proteger os criminosos. Posteriormente, uma das vítimas chegou a criar um fundo para ajudar os assaltantes com as despesas judiciais. Após 40 anos, uma das reféns ainda se comunicava com um dos criminosos. Na Síndrome de Estocolmo, a vítima procura evitar comportamentos que desagradem o vitimador e, aos poucos, passa a encarar com simpatia os atos gentis do agressor, a quem deve sua vida. É um afeto, portanto, decorrente do instinto de sobrevivência da vítima, que sente que, de alguma maneira, o agressor se importa com ela. Verifica-se, com frequência, em casos de sequestro, cárcere privado e agressões domésticas. 12.2. Síndrome de Lima A Síndrome de Lima é o outro aspecto do mesmo fenômeno de afeição. Nela, os agressores desenvolvem sentimentos de simpatia e cumplicidade em relação às vítimas, e preocupam-se com o seu bem-estar. O nome se deve a um sequestro de centenas de pessoas realizado pelo Movimento Revolu- cionário Túpac Amaru. O fato ocorreu na Embaixada do Japão em Lima, capital do Peru, em 1996. Ao final, não houve pedido de resgate: os reféns foram liberados por sentimentos de compaixão e afeto. No mesmo episódio de assalto a banco que deu origem ao termo Sín- drome de Estocolmo, Jan Olsson, um dos raptores, afirmou em entrevistas subsequentes que não conseguiu matar os reféns porque acabou estreitando laço com eles. 12.3. Síndrome de Londres Na Síndrome de Londres, as vítimas adotam postura de enfrentamento com os agressores. Ela é o oposto da Síndrome de Estocolmo. Trata-se de denominação surgida após sequestro realizado por terroristas na Embaixada do Irã em Londres, episódio conhecido como Operação Nimrod. Entre os 571 Cap. 6 – VITIMOLOGIA reféns, havia um funcionário iraniano, chefe de imprensa da Embaixada, chamado Abbas Lavasani, que adotou postura de embate e discussão com os sequestradores. Dizia aos algozes, constantemente, que discordava de suas ideias, pois era crente devoto da Revolução Iraniana. Na Síndrome de Londres, a vítima, também como estratégia de sobrevi- vência, adota postura de desobediência e embate com o agressor, por quem nutre profundo ódio. Esse mecanismo, ao elevar as tensões entre vítima e vitmizador, pode vir a ser fatal. No caso da Embaixada do Irã em Londres, Abbas Lavasani acabou sendo executado e jogado para fora do prédio como demonstração de força dos raptores. 12.4. Síndrome da Mulher de Potifar A Síndrome da Mulher de Potifar diz respeito aos casos em que mu- lheres fazem falsa acusação de estupro ou outros abusos sexuais. Potifar é um personagem bíblico, retratado como um homem poderoso que possuía vários escravos. Sua esposa sentia-se atraída por José, o serviçal de con- fiança de Potifar. José repeliu as investidas sexuais da esposa de Potifar. Sentindo-se humilhada e rejeitada, ela se vingou, acusando falsamente José de estupro. Essa situação é particularmente delicada, já que os delitos sexuais são comumente praticados na ausência de testemunhas, fazendo com que a prova pericial e a palavra da dupla penal (agressor e vítima) ganhem extre- ma relevância na apuração dos fatos. Por isso, os operadores do sistema de justiça criminal devem ter em mente essa figura criminológica para apurar cuidadosamente a verossimilhança da palavra da vítima. 13. DECLARAÇÃO DOS PRINCÍPIOS BÁSICOS DE JUSTIÇA RELATIVOS ÀS VÍTIMAS DA CRIMINALIDADE E DE ABUSO DE PODER Em sintonia com as tendências da Criminologia e da Vitimologia, a Organização das Nações Unidas adotou, em 1985, a Declaração dos Prin- cípios Básicos de Justiça Relativos às Vítimas da Criminalidade e de Abuso de Poder. Antes disso, a preocupação da ONU sempre havia sido voltada para o delinquente. 572 Manual de Criminologia • Mariana Barros Barreiras O texto da Declaração parte de um conceito amplo de vítima: são as pessoas que, individual ou coletivamente, tenham sofrido um prejuízo, no- meadamente um atentado à sua integridade física ou mental, um sofrimento de ordem moral, uma perda material, ou um grave atentado aos seus direitos fundamentais, como consequência de atos ou de omissões violadores das leis penais em vigor num Estado membro, incluindo as leis que proíbem o abuso de poder. Uma pessoa pode ser considerada vítima quer o autor seja ou não identificado, preso, processado ou declarado culpado, e quaisquer que sejam os eventuais laços de parentesco do autor com a vítima. O termo vítima inclui também, conforme o caso, a família próxima ou as pessoas a cargo da vítima direta e as pessoas que tenham sofrido um prejuízo ao intervirem para prestar assistência às vítimas em situação de carência ou para impedir a vitimização. Assim, trata-se, hoje em dia, no âmbito internacional, de uma Vitimo- logia definida em termos de direitos humanos, e não meramente de Direito Penal. Essa é a atual tendência da Vitimologia. A Declaração considera que as vítimas da criminalidade, as vítimas de abuso de poder e, frequentemente, as respectivas famílias, testemunhas e outras pessoas que acorrem em seu auxílio sofrem injustamente perdas, danos ou prejuízos. Além disso, podem ser submetidas a provações suple- mentares quando colaboram na perseguição dos delinquentes – é a chamada vitimização secundária. Daí a necessidade de se adotar de medidas que visem garantir o reconhecimento universal e eficaz dos direitos das vítimas da criminalidade e de abuso de poder. As vítimas devem ser tratadas com compaixão e respeito pela sua digni- dade. Têm direito ao acesso às instâncias judiciárias e à obtenção de reparação através de procedimentos, oficiais ou oficiosos, que sejam rápidos, equitati- vos, de baixo custo e acessíveis. Os países devem tomar medidas para minimizar, tanto quanto possível, as dificuldades encontradas pelas vítimas, proteger a sua vida privada e ga- rantir a sua segurança, bem como a da sua família e a das suas testemunhas, preservando-as de manobras de intimidação e de represálias. Quando se revelem adequados, os meios extrajudiciários de solução de conflitos, incluindo a mediação, a arbitragem e as práticas de direito con- suetudinário ou as práticas autóctones de justiça, devem ser utilizados, para facilitar a conciliação e obter a reparação em favor das vítimas. 573 Cap. 6 – VITIMOLOGIA Os autores de crimes ou os terceiros responsáveis pelo seu comporta- mento devem, se necessário, reparar de forma equitativa o prejuízo causado às vítimas, às suas famílias ou às pessoas a seu cargo. Tal reparação deve incluir a restituição dos bens, uma indenização pelos prejuízos sofridos, o reembolso das despesas feitas como consequência da vitimização, a prestação de serviços e o restabelecimento dos direitos. Em todos os casos em que sejam causados graves danos ao ambiente, a restituição deve incluir, na medida do possível, a reabilitação do ambiente, a reposição das infraestruturas, a substituição dos equipamentos coletivos e o reembolso das despesas de reinstalação. Quando servidores públicos ou outras pessoas, agindo a título oficial ou quase oficial, tenham cometido uma infração penal, as vítimas devem receber a restituição por parte do Estado cujos funcionários ou agentes sejam responsáveis pelos prejuízos sofridos. No caso em que o Governo sob cuja autoridade se verificou o ato ou a omissão na origem da vitimização já não exista, o Estado ou o Governo sucessor deve assegurar a restituição às vítimas. Quando não seja possível obter do delinquente ou de outras fontes uma indenização completa, os Estados devem procurar assegurar uma indeni- zação financeira às vítimas que tenham sofrido um dano corporal ou um atentado importante à sua integridade física ou mental; ou à família, em particularàs pessoas a cargo das vítimas que tenham falecido ou que te- nham sido atingidas por incapacidade física ou mental como consequência da vitimização. Para tanto, será incentivado o estabelecimento, o reforço e a expansão de fundos nacionais de indenização às vítimas. A Declaração orienta que os funcionários dos serviços de polícia, de justiça e de saúde, tal como o dos serviços sociais e o de outros serviços interessados, devem receber uma formação que os sensibilize para as neces- sidades das vítimas, bem como instruções que garantam uma ajuda pronta e adequada a elas. Alinhada com os ideais de direitos humanos, a Declaração da ONU pretende reduzir a vitimização e solicita aos países signatários – dentre os quais se inclui o Brasil: • que tomem medidas nos domínios da assistência social, da saúde, incluindo a saúde mental, da educação e da economia, bem como medidas especiais de prevenção criminal para reduzir a vitimização e promover a ajuda às vítimas em situação de carência; 574 Manual de Criminologia • Mariana Barros Barreiras • que incentivem os esforços coletivos e a participação dos cidadãos na prevenção do crime; • que adaptem as respectivas legislações aos direitos humanos; • que reforcem os meios necessários à investigação, à persecução e à condenação dos culpados da prática de crimes; • que promovam a divulgação de informações que permitam aos cida- dãos a fiscalização da conduta dos servidores públicos e das empre- sas e a promoção de outros meios de acolher as preocupações dos cidadãos; • que haja o respeito de códigos de conduta e normas éticas por parte dos servidores públicos, incluindo o pessoal encarregado da aplicação das leis, o dos serviços penitenciários, o dos serviços médicos e sociais e o das forças armadas, bem como por parte do pessoal das empresas comerciais; • que proíbam as práticas e os procedimentos suscetíveis de favorecer os abusos, tais como o uso de locais secretos de detenção e a detenção em situação incomunicável; • que colaborem com os outros Estados, no quadro de acordos de auxílio judiciário e administrativo, em domínios como o da investigação e o da persecução penal dos delinquentes, da sua extradição e da penhora dos seus bens para os fins de indenização às vítimas. 14. RESUMO – VITIMOLOGIA CONCEITUAÇÃO E FINALIDADE Vitimologia é o estudo das vítimas. O termo foi cunhado em 1947 por Benjamim Mendelsohn. Vítima pode ser qualquer pessoa, física ou jurídica, que sofra uma desventura, uma ofensa, uma lesão (física, psíquica, econômica, etc.) decorrente de um crime. Para alguns, a Vitimologia é uma ciência. Para outros, um ramo da Criminologia. Dedica-se a: • compreender o papel fundamental que a vítima desempenha no fenômeno cri- minal; • defender programas de intervenção em crises, ressarcimento do dano e assistência médica, psicológica e jurídica; • descobrir das taxas reais de criminalidade; • mudar a legislação naquilo que for necessário; • retirar a vítima do papel meramente testemunhal. 575 Cap. 6 – VITIMOLOGIA FASES DO ESTUDO DA VÍTIMA » Idade de ouro da vítima: desde os primórdios da civilização até o fim da Alta Idade Média. Possibilidade de composição e de autotutela. Lei de talião: “olho por olho, dente por dente”. Desenvolveu-se o processo penal acusatório, em que as funções de acusar, julgar e defender estavam em mãos distintas. » Neutralização do poder da vítima: da Baixa Idade Média (século XII) até século XVII. Processo inquisitivo: concentra as funções de acusar e julgar nas mãos do juiz e dificulta a imparcialidade do magistrado. A vítima perdeu o poder de reação ao fato delituoso, que passou para as mãos da administração pública. » Revalorização do poder da vítima: do século XVIII até os dias atuais. Percebe-se que a vítima havia sido esquecida pelo processo criminal e que é necessário recuperar certa parcela de seu protagonismo. Um dos problemas é a pressão que as vítimas ou seus parentes exercem para que haja leis e punições extre- mamente severas. PRINCIPAIS NOMES DA VITIMOLOGIA b Hans Gross: Jurista e criminólogo austríaco considerado precursor da Vitimologia em virtude de sua obra Raritätenbetrug, publicada em 1901, em que analisou a ingenuidade das vítimas de fraudes raras. b Benjamim Mendelsohn: Advogado romeno-israelita, utilizou o termo Vitimologia em 1947 para descrever o sofrimento dos judeus nos campos de concentração de Alemanha nazista. Susten- tou a autonomia científica da Vitimologia. Defesa de uma Vitimologia geral (não exclusivamente jurídico-penal). Não se deve restringir o domínio da Vitimologia às vítimas de delitos: compreende uma esfera muito mais ampla, que inclui as vítimas de acidentes de trânsito, de acidentes de trabalho, de vícios, de suicídios, de doenças laborais, dentre outras. Fatores que determinam que alguém se torne vítima provêm de seis espécies de meios: • Meio endógeno, biopsíquico, da própria vítima; • Meio natural, físico, imune à influência humana; • Meio natural ambientalmente modificado pela influência humana; • Meio social (ações antissociais); • Meio social político (governos autoritários, ditatoriais, racistas, genocidas); • Meio motor (máquinas da modernidade). A periculosidade vitimal não é distribuída igualmente na população: algumas pessoas têm mais propensão a se tornar vítimas em função de seu comportamento inapro- priado que facilita, instiga ou provoca a ação do agressor. Necessário se preocupar com a prevenção vitimal. Caso ela falhe, a Vitimologia deve atuar para reduzir ao mínimo a nocividade para as vítimas e para evitar a recidiva vitimal. A vitimidade é um problema geral e não individual, que guarda conexão com a evolução da socie- dade. Paradoxo da sociedade contemporânea: quanto mais avançada uma sociedade, mais riscos ela implica. 576 Manual de Criminologia • Mariana Barros Barreiras Defesa da Vitimologia Clínica: criação, nos hospitais, de uma seção especial para onde seriam dirigidas as vítimas de acidentes, com médicos, sociólogos, psicólogos e outros profissionais habilitados. » Tipologia das vítimas conforme Mendelsohn: • Vítima totalmente inocente (ou ideal): não concorre de forma alguma para o evento. Ex: infanticídio. • Vítima menos culpada que o delinquente (ou por ignorância): é imprudente. Ex: andar com a bolsa aberta um lugar perigoso. • Vítima tão culpada quanto o delinquente (ou voluntária): dá causa ao resultado. Ex: rixa. • Vítima mais culpada que o delinquente (ou por provocação): provoca o delin- quente. Ex: homicídio privilegiado praticado após injusta provocação. • Vítima exclusivamente culpada (ou agressora, simulada, simuladora, imaginária ou pseudovítima): Ex: agressor vítima de legítima defesa. b Hans Von Hentig: “O criminoso e sua vítima”, 1948. Psicólogo criminal alemão radicado nos Estados Unidos. Há mutualidade na conexão entre agressor e vítima. Visão de corresponsabi- lização da vítima: a vítima ativamente leva o agressor à tentação. “Se há criminosos natos, é evidente que também existem vítimas natas”. » Classes gerais de vítimas, para Hentig: • A vítima jovem: a juventude é o período mais perigoso da vida. Mas algumas ficções distorcem a realidade. Mulheres jovens muitas vezes consentem com o ato sexual. • A vítima mulher: gênero feminino é forma de fraqueza reconhecida pela lei. Em muitos casos a mulher é responsável por sua vitimização, como as trabalhadoras domésticas que engravidam dos seus patrões e acabam sendo mortas. • A vítima idosa: no idoso, há uma combinação de patrimônio acumulado, fraqueza física e debilidade mental. Qualquer um que supere a desconfiança e a apreensão dos idosos pode se aproximar, para o bem ou para o mal. • A vítima doente mental ou com perturbações mentais: dementes, loucos, viciados em drogas, alcoólatras não têm noção do perigo e se colocam facilmente em situação de vítima. • A vítima imigrante, ignorante ou minoritária: imigrantes e ignorantes são vítimas potenciais de estelionatários. A estupidez psicológicaé muito procurada pelos criminosos, porque se aproxima da infantilidade. Os grupos minoritários não recebem a mesma proteção da lei do que as classes dominantes. Além disso, são vítimas do próprio sistema de justiça criminal. A cor da vítima influencia enormemente no desfecho do caso. » Tipos psicológicos de vítimas para Hentig: • O tipo depressivo: dominado por um desejo subconsciente de ser aniquilado. Possui instinto de autopreservação débil. • O tipo ganancioso: dominado por sua expectativa de obter dinheiro de maneira fácil. São vítimas da própria ganância ou vaidade. 577 Cap. 6 – VITIMOLOGIA • O tipo lascivo: mulheres jovens e de meia idade cuja sensualidade é uma fraqueza facilmente explorável. • O tipo solitário ou de coração partido: para quem está solitário, qualquer coisa é melhor do que ficar sozinho. É o caso de idosos, viúvas, crianças abandonadas ou que fugiram de seus lares, prostitutas sem rede familiar. • O tipo tormentoso: pessoas tiranas, que passam de algozes de um relacionamen- to abusivo a vítimas de assassinato, praticado pelo oprimido, num momento de rebelião e explosão. Ex: pai que tortura os filhos e depois é por eles assassinado. • O tipo bloqueado, isento ou lutador: • O tipo bloqueado: é o indivíduo que se encontra em situação tão perdida que movimentos defensivos parecem impossíveis ou mais danosos que a lesão pro- vocada pelo criminoso. Ex: criminoso extorquido pela polícia. • O tipo isento: indivíduo que poderia ser vítima, mas que, por suas características e atitudes, é desqualificado, descartado. Ex: o ladrão católico normalmente não vai roubar um padre. • O tipo lutador: é o indivíduo que resiste, revida à violência. CONSOLIDAÇÃO DA VITIMOLOGIA » 1973: 1º Simpósio Internacional de Vitimologia, em Jerusalém, Israel, presidido por Israel Drapkin Senderey, médico argentino-chileno. » 1984: Fundação da Sociedade Brasileira de Vitimologia (SBV). » 1991: 7º Simpósio Internacional de Vitimologia foi realizado no Rio de Janeiro. Alguns nomes de destaque da Vitimologia no Brasil: Ester Kosovski, Edgard de Moura Bittencourt, Laércio Pellegrino, Heitor Piedade Júnior e Heber Soares Vargas. CONTRIBUIÇÕES DA VITIMOLOGIA • Vítima e dinâmica criminal: nem sempre a vítima é aleatória, fungível, acidental ou irrelevante no “iter criminis”. • Vítima e prevenção do delito: prevenção vitimária é a prevenção da delinquên- cia voltada para a vítima em potencial. É uma prevenção complementar e não substitutiva da prevenção criminal. • Vítima como fonte alternativa informadora da criminalidade real: possuem relevância central as pesquisas de vitimização, em que se pede diretamente à população que relate suas experiências como vítimas de delitos em certo espaço temporal. • Vítima e medo do delito: Vitimologia preocupa-se com o medo como estado de ânimo coletivo e não necessariamente associado a uma prévia experiência vitimária. • Vítima e política social: a Vitimologia preocupa-se com a ressocialização da vítima, que não reclama apenas compaixão, mas respeito aos seus direitos. • Vítima e sistema legal: a vítima tem em suas mãos a chave da movimentação legal, já que praticamente somente os delitos noticiados são perseguidos. 578 Manual de Criminologia • Mariana Barros Barreiras OUTRAS CLASSIFICAÇÕES DAS VÍTIMAS • Vítima nata: aquela que a apresenta, desde o nascimento, predisposição para ser vítima. • Vítima potencial ou latente: aquela que apresenta comportamento, temperamento ou estilo de vida que atrai o delinquente. • Vítima eventual, real ou inocente: aquela que é verdadeiramente vítima, ou seja, cuja conduta não contribuiu para a ocorrência do crime. • Vítima falsa ou simuladora: aquela que imputa falsamente a alguém a prática de um delito contra si, mesmo não tendo sido vítima de crime algum. • Vítima voluntária: aquela que concorda com o crime, como a vítima de eutanásia. • Vítima acidental: aquela que é vítima de si mesma, geralmente por inobservância do dever de cuidado, como negligência ou imprudência. • Vítima indefesa: aquela que tolera a lesão sofrida, pois sabe que perseguir o infrator será tarefa ainda mais custosa. • Vítima imune: aquela que, por ser famosa ou por ocupar algum posto, cargo ou função de prestígio, os delinquentes evitam vitimar. • Vítima atuante ou inconformada: aquela que busca determinadamente a punição dos autores e a indenização dos danos sofridos. • Vítima omissa ou ilhada: aquela que se afasta das relações sociais e, por não participar da sociedade e viver isoladamente, deixa de relatar às autoridades competentes seus direitos violados. • Vítima da Política Social: aquela que é vítima do Estado, da negligência do Poder Público. CIFRAS DA CRIMINALIDADE Nas pesquisas de vitimização, pergunta-se às pessoas de um grupo social se elas foram vítimas de algum delito em certo marco temporal. São importantes porque as taxas de subnotificação criminal são muito significativas em uma série de delitos, como é o caso dos crimes sexuais e dos crimes de corrupção policial. » Cifra negra: diferença entre a criminalidade real – isto é, a totalidade de delitos praticados – e a criminalidade conhecida ou revelada. » Cifra dourada: criminalidade do colarinho branco que não chega ao conhecimento das instâncias de controle social formal. » Cifra cinza: crimes que são de conhecimento das instâncias policiais, mas que não chegam a virar um processo penal. » Cifra amarela: casos em que as vítimas sofrem algum tipo de violência pratica- da por servidor público e deixam, por temor, de denunciar o ilícito às unidades competentes pela apuração. » Cifra verde: delitos que têm por objeto o meio ambiente e que não chegam ao conhecimento policial ou não são processados porque impossível tentar descobrir a autoria. » Cifra rosa: crimes de caráter homofóbico que não chegam ao conhecimento das autoridades. 579 Cap. 6 – VITIMOLOGIA CLASSIFICAÇÕES DA VITIMIZAÇÃO » Vitimização direta x Vitimização indireta: vítima direta é aquela que sofre dire- tamente os efeitos de um delito. A vítima indireta é aquela que, por ter alguma relação com a vítima direta, acaba sofrendo indiretamente as consequências do crime. » Vitimização Primária, Secundária, Terciária e Quartenária: vitimização primária é aquela em que o sujeito é atingido pela prática do crime ou de um fato traumático. Vitimização secundária (sobrevitimização, revitimização) é aquela em que a vítima primária é objeto da insensibilidade, do desinteresse e da atuação meramente burocrática dos operadores do sistema criminal estatal. Sobre o conceito de vi- timização terciária não há consenso. Para alguns, ocorre a vitimização terciária quando a vítima primária do crime é abandonada ou ridicularizada em seu meio social (Vunesp e FCC). Para outros (Nestor Sampaio Penteado Filho), a vitimização terciária se verifica igualmente com o abandono das vítimas, mas esse abandono pode ser praticado tanto pelas instâncias informais como pelas agências formais de controle social. Para um terceiro grupo (Shecaira), a vitimização terciária não atinge a vítima primária do crime, mas sim o seu autor, que recebe um sofrimento excessivo, como tortura, apedrejamento, linchamento, ou responde a processos que não deveriam ter sido a ele imputados. Vitimização Quaternária: é o medo irracional de se converter em vítima que se internaliza pela falsa percepção da realidade a partir das informações levantadas pela mídia. » Vitimização Subjetiva: aquela em que se constrói e se promove a figura de uma vítima, com um perfil definido de prejuízos e sofrimentos, que não corresponde a uma ofensa real e objetiva. » Heterovitimização: Autorrecriminação da vítima pela ocorrência do crime. VITIMOLOGIA CLÁSSICA X VITIMOLOGIA SOLIDARISTA OU HUMANITÁRIA » Vitimologia Clássica: termo cunhado por Elena Larrauri. Tendências de transferir para a vítima a responsabilidade pela gênese criminal. Vitimologia carregada de preconceitos, pré-julgamentos e tendente à coculpabilização da vítima. » Vitimologiahumanitária ou solidarista: nítida preocupação de conferir à vítima um papel de destaque nos procedimentos de apuração de responsabilidades, de proteger seus interesses e sua dignidade, e de ressarcir seus prejuízos. Alterações legislativas nesse sentido: • Lei nº 9.099/95: mudança paradigmática no ordenamento jurídico brasileiro em direção à consideração da vítima na relação delitiva. Processo deve objetivar, sempre que possível, a reparação dos danos sofridos pela vítima. • Lei nº 11.106/05: retirou o termo “mulher honesta” de alguns tipos penais. Retirou, do rol de causas extintivas da punibilidade, algumas previsões como o casamento do agente com a vítima ou com terceiro nos crimes contra os costumes. • Lei Maria da Penha: contém dispositivos para, expressamente, evitar a revitimização da depoente, como atendimento policial e pericial especializado, e a determinação para que sejam evitadas sucessivas inquirições sobre o mesmo fato. • Lei nº 13.431/17 (Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente): dispõe, expressamente, que a revitimização da criança e do adolescente é um tipo de 580 Manual de Criminologia • Mariana Barros Barreiras violência institucional que deve ser evitada, e disciplina a escuta especializada e o depoimento especial. • Lei nº 14.245/21 (Lei Mariana Ferrer): nas audiências e, em especial, nas que apurem crimes contra a dignidade sexual, todas as partes e demais sujeitos pro- cessuais presentes no ato deverão zelar pela integridade física e psicológica da vítima, sob pena de responsabilização civil, penal e administrativa, sendo vedadas: manifestações sobre circunstâncias ou elementos alheios aos fatos objeto de apuração nos autos; e a utilização de linguagem, de informações ou de material que ofendam a dignidade da vítima ou de testemunhas. VÍTIMO-DOGMÁTICA Implicações que a Vitimologia causou na dogmática penal, sobretudo a partir da Alemanha na década de 1990. Analisa a contribuição da vítima para a ocorrência de um crime e o consequente impacto na dosimetria da pena. Se a vítima renuncia às medidas de autoproteção disponíveis e, consequentemente, abandona o bem jurídico, a responsabilidade penal do autor deve ser eximida ou atenuada. • Visão vítimo-dogmática moderada, ou fraca: o comportamento da vítima somente pode repercutir no âmbito da dosimetria da pena. É a corrente majoritária (Art. 59 do CP; Hillemkamp; Hassemer). • Visão vítimo-dogmática radical, ou forte: não é adequado, sequer, impor pena se a vítima não necessita ou não merece proteção. A corresponsabilidade da vítima implica a exclusão do crime, pela atipicidade (Schünemann, Roxin). É criticada por impor pesada carga de responsabilidade penal sobre a vítima: “blaming the victim” (culpando a vítima). DESMATERIALIZAÇÃO DA VÍTIMA: Atualmente, vivemos em sociedades de risco: sociedade pós-industrial, altamente tecnológica e global, que destruiu os recursos naturais e presencia o desmoro- namento dos sistemas sociais. População sente medo e necessidade de consumir segurança. Riscos são desconhecidos e incontroláveis. Surgem novas modalidades criminosas, de caráter supraindividual, como a econômica e a ambiental. Tendência de desmaterialização (liquefação, espiritualização ou dinamização) do bem jurídico ou da vítima. Política criminal punitiva com tipos preventivos, expansão da proteção de bens jurídicos coletivos, vagos. SELETIVIDADE DA VITIMIZAÇÃO: » O risco de vitimização é seletivo e diferencial. Minorias e grupos marginalizados atraem uma parcela significativa de delitos. No Brasil, os jovens negros são as principais vítimas de homicídio. Os escassos recursos socioeconômicos das vítimas pobres potencializam os efeitos da revitimização. SÍNDROMES RELACIONADAS À VITIMIZAÇÃO » Síndrome de Estocolmo: a vítima passa a ter simpatia ou mesmo sentimento de amor e amizade em relação ao vitimizador após longo período de intimidação. 581 Cap. 6 – VITIMOLOGIA É um afeto decorrente do instinto de sobrevivência da vítima. Comum em casos de sequestro, cárcere privado e agressões domésticas. » Síndrome de Lima: agressor desenvolve sentimentos de simpatia e cumplicidade em relação às vítimas, e preocupa-se com o seu bem-estar. » Síndrome de Londres: a vítima adota postura de enfrentamento com os agressores. » Síndrome da Mulher de Potifar: casos em que mulheres fazem falsa acusação de estupro ou outros abusos sexuais. DECLARAÇÃO DOS PRINCÍPIOS BÁSICOS DE JUSTIÇA RELATIVOS ÀS VÍTIMAS DA CRIMINALIDADE E DE ABUSO DE PODER » ONU, 1985: Declaração dos Princípios Básicos de Justiça Relativos às Vítimas da Criminalidade e de Abuso de Poder. Conceito amplo de vítima: são as pessoas que, individual ou coletivamente, tenham sofrido um prejuízo, nomeadamente um atentado à sua integridade física ou mental, um sofrimento de ordem moral, uma perda material, ou um grave atentado aos seus direitos fundamentais, como consequência de atos ou de omissões violadores das leis penais em vigor num Estado membro, incluindo as leis que proíbem o abuso de poder. O conceito de vítima inclui também a família próxima ou as pessoas a cargo da vítima direta e as pessoas que tenham sofrido um prejuízo ao intervirem para prestar assistência às vítimas em situação de carência ou para impedir a vitimização. Vítimas devem ser tratadas com compaixão e respeito pela sua dignidade. Têm direito ao acesso às instâncias judiciárias e à obtenção de reparação através de procedimentos rápidos, equitativos, de baixo custo e acessíveis. Meios extrajudiciários de solução de conflitos (mediação, arbitragem) podem ser utilizados. Quando não for possível obter do delinquente uma indenização completa, os Estados devem procurar assegurar uma indenização financeira às vítimas. 15. QUESTÕES DE CONCURSO 1. (FCC/2009/DPE-SP Defensor Público) A expressão ‘cifra negra’ ou oculta, refere-se a) às descriminantes putativas, nos casos em que não há tipo culposo do crime cometido. b) ao fracasso do autor na empreitada em que a maioria tem êxito. c) à porcentagem de presos que não voltam da saída temporária do semi-aberto. d) à porcentagem de crimes não solucionados ou punidos porque, num sistema seletivo, não caíram sob a égide da polícia ou da justiça ou da administração carcerária, porque nos presídios ‘não estão todos os que são’. 606 Manual de Criminologia • Mariana Barros Barreiras 16. GABARITO COMENTADO QUESTÃO 01. LETRA D. A cifra negra diz respeito à parcela de crimes que não chegam ao conhecimento da polícia, da justiça ou da administração carcerária e que, portanto, não são solucionados ou punidos. Trata-se, portanto, da diferença entre a criminalidade real e a criminalidade conhecida. Ela se deve a vários fato- res, dentre os quais se encontra a seletividade do sistema penal, que direciona sua engrenagem para a parcela mais marginalizada da população. Assim, nem todas as pessoas que praticam atos definidos como crimes caem nos filtros do controle social formal. QUESTÃO 02. LETRA E. Em Criminologia, as cifras são usadas para expressar uma parcela de criminalidade que, pelas mais variadas razões, não chega ao co- nhecimento das autoridades ou não é apurada, em consequência do efeito funil da seletividade penal. As cifras douradas correspondem aos crimes dos poderosos praticados no contexto laboral, também conhecidos como delitos do colarinho branco, que ficam impunes. A alternativa E é a melhor opção, mas, tecnicamente, nem todos os crimes do colarinho branco integram a cifra dourada, que diz respeito somente à diferença entre a criminalidade do colarinho branco real e criminalidade do colarinho branco conhecida. QUESTÃO 03. LETRA B. No item I, o foco principal é o abuso sexual sofrido por Maria. Nesse momento ela passou por um processo de vitimização primária, que é aquela em que o sujeito é atingido pela prática do crime ou de um fato traumáti- co. No item II, o foco principal é a humilhação por que passou Maria em seu meio social. Nesse momento, ela foi alvo de vitimização