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2022
MARIANA BARROS BARREIRAS
CRIMINOLOGIA
DE
1
CRIMINOLOGIA COMO CIÊNCIA
Nosso primeiro capítulo abordará itens como o conceito de Crimino-
logia, os objetos dessa ciência, os métodos que emprega e suas finalidades. 
Ao final dele, trataremos da relação entre Criminologia, Política Criminal e 
Direito Penal. Esses assuntos compreendem 13% das questões objetivas de 
Criminologia presentes nos bancos de dados (2005-2019).
1. CONCEITO
Vamos começar com um conceito de criminologia que será, aos pou-
cos, destrinchado no decorrer do capítulo: A Criminologia é uma ciência 
interdisciplinar, indutiva e empírica, que se ocupa do estudo do crime, do 
criminoso, da vítima e dos mecanismos de controle social. Ela se aproxima 
do fenômeno criminal com o intuito de entender muitos de seus aspectos: 
sua origem, suas causas – individuais e sociais –, sua prevenção, suas con-
sequências e o funcionamento das instâncias de controle. 
A Criminologia é considerada uma ciência autônoma porque possui 
objeto, método e função próprios. Alguns doutrinadores defendem que a 
fundação da Criminologia enquanto ciência teria ocorrido com a publicação, 
em 1876, da obra O Homem Delinquente, de Cesare Lombroso, sobre a qual 
falaremos bastante mais adiante. Mas o termo Criminologia foi utilizado 
pela primeira vez três anos depois, por Paul Topinard, em 1879. E a obra de 
Raffaele Garofalo, denominada Criminologia, de 1885, difundiu o nome da 
nascente ciência. De qualquer maneira, trata-se de uma ciência relativamente 
nova, que nasceu no final do século XIX e que teve uma fase pré-científica 
muito importante, que será analisada no próximo capítulo. 
30
Manual de Criminologia • Mariana Barros Barreiras
A Criminologia é uma ciência humana, não exata. Assim, a informação 
que ela fornece é válida, confiável, porém não exata ou definitiva. Sendo 
uma ciência, seu saber final afasta-se da intuição e do subjetivismo, mas está 
sujeita a transformações, pois não pretende chegar a conclusões fixas, imutá-
veis. Diz-se, então, que o saber da Criminologia é provisório ou provisional, 
relativo, de certo modo limitado. Os criminólogos observam a realidade, 
analisam dados, transformam-nos em informações, mas não buscam leis 
universais irrefutáveis que estabeleçam relações diretas de causa e efeito 
entre as pessoas e os fenômenos criminais. Em vez de tentar fixar regras de 
causalidade pura, a Criminologia busca correlações, fatores que interliguem 
pessoas e eventos criminais. 
Enquanto o Direito Penal valora a sociedade, dizendo o que pode e o que 
não pode ser feito e prevendo a aplicação de sanções para o descumprimento 
das normas, tratando, portanto, do “dever-ser”, a Criminologia cuida do 
“ser”, encara o fenômeno de forma objetiva, sem conotação valorativa, sem 
mediação, sem julgamentos. O Direito Penal impõe uma sanção, uma pena 
ao crime. A Criminologia por sua vez procura compreender os mecanismos 
que influem para a prática criminosa bem como as consequências que o 
delito gera na comunidade. 
A Criminologia analisa, por exemplo, por que o crime ocorreu; por que 
um determinado crime foi selecionado e punido enquanto outros permane-
cem impunes; por que um tipo específico de delito ocorre de maneira mais 
pronunciada em certo momento ou local; se as estatísticas oficiais sobre um 
determinado delito refletem a realidade; como foi a experiência das vítimas e 
como elas devem ser tratadas; como o sistema carcerário está funcionando. 
1.1. Etiologia 
Etiologia é um termo que se refere ao estudo das causas da criminalidade. 
A Criminologia, ao analisar o fenômeno criminal e seu autor, busca, por 
vezes (mas nem sempre, como veremos!), a etiologia do crime, isto é, a 
criminogênese, as causas do cometimento do delito. 
Há algumas bancas de concurso público que definem a etiologia como a 
ciência que estuda as causas do crime. Parece-nos que falta um pouco de 
precisão terminológica ao afirmar que etiologia criminal é uma ciência. 
Ela é, em realidade, a nosso ver, uma parte, um ramo, da Criminologia. 
Mas para a Vunesp a etiologia é, sim, uma ciência. 
31
Cap. 1 – CRIMINOLOGIA COMO CIÊNCIA
1.2. Conceito moderno de Criminologia
Para García-Pablos de Molina, é possível falar em um conceito mais mo-
derno de Criminologia. Nessa acepção mais atual, a Criminologia contém 
uma série de características que, no momento, nos limitaremos a enumerar, 
mas que serão, ao longo do livro, explicadas com mais detalhamento. Trata-se 
de uma Criminologia que:
• Parte da caracterização do crime como “problema”, ressaltando sua
base conflitual e enigmática e sua face humana e dolorosa;
• Incorpora em seu objeto investigações sobre a vítima e o controle
social;
• Acentua a orientação prevencionista, em oposição à obsessão repressiva;
• Substitui o conceito de “tratamento”, típico do positivismo, com cono-
tações clínicas e individualistas, pelo conceito de “intervenção”, que
traz consigo uma noção mais dinâmica, complexa e comunitária;
• Destaca a avaliação dos modelos de reação ao delito como um de
seus objetos;
• Não renuncia a uma análise da etiologia do delito1.
2. CLASSIFICAÇÕES DA CRIMINOLOGIA
2.1. Criminologia Geral x Criminologia Clínica
Existe um ramo específico da Criminologia que se convencionou deno-
minar Criminologia Clínica e que consiste na aplicação dos conhecimentos 
teóricos para o tratamento dos criminosos. Um de seus maiores expoentes 
no Brasil foi Alvino Augusto de Sá, da Universidade de São Paulo. Alvino 
atuou como psicólogo no sistema carcerário paulista por mais de 30 anos. 
Segundo seus ensinamentos, a Criminologia Clínica analisa os presos, na 
tentativa de compreender os indivíduos e grupos que se envolveram com a 
delinquência; de estudar a instituição prisional; e de desenvolver estratégias 
de intervenção que promovam a reinserção social dos internos. O campo de 
trabalho do criminólogo clínico é o cárcere, e é ali que ele vai tentar analisar:
1. GARCÍA-PABLOS de Molina. GOMES, Luiz Flávio. Criminologia: introdução a seus funda-
mentos teóricos. 5. ed. São Paulo: RT, 2006, pp. 28-29.
32
Manual de Criminologia • Mariana Barros Barreiras
• A conduta delitiva e quem a praticou;
• O cárcere e suas vicissitudes (adversidades);
• As estratégias de avaliação do preso e de intervenção com vistas à
sua reinserção no convívio social2.
Diante da existência da Criminologia Clínica, alguns autores dizem que 
a ciência pode ser dividida em Criminologia Geral e Criminologia Clínica. 
A Criminologia Geral consiste no estudo mais genérico de todos os 
objetos da ciência: delito, delinquente, vítima e controle social. Edifica-se 
com a construção de teorias a partir da sistematização, comparação e clas-
sificação dos resultados obtidos em todas as ciências que se debruçam de 
alguma maneira sobre a questão criminal. 
Já a Criminologia Clínica consiste na aplicação dos conhecimentos teó-
ricos da Criminologia Geral para a análise de condutas delitivas específicas 
e tratamento dos criminosos. 
Com isso, no entanto, não se quer dizer que a Criminologia Geral é pura-
mente teórica ou abstrata. Como veremos, a Criminologia parte da observação 
da realidade, e pretende com essa observação chegar a formulações mais gené-
ricas sobre o comportamento delitivo. Já a Criminologia Clínica utiliza essas 
formulações genéricas para compreender a motivação de certos delinquentes 
e intervir no ambiente carcerário, buscando a reintegração dessas pessoas. 
Voltaremos a tratar da Criminologia Clínica no capítulo 3, dentro das 
vertentes psicológicas.
2.2. Macrocriminologia x Microcriminologia 
Eduardo Viana3 explica que, pela perspectiva etiológica, as correntes 
criminológicas podem ser divididas em Micro e Macrocriminologia.
• Microcriminologia: analisa o autor do delito, seja individualmente, seja 
levando em consideração o grupo social onde vive.
• Macrocriminologia: ocupa-se da análise estrutural da sociedade onde
o delito ocorre.
2. SÁ, Alvino Augusto de. Criminologia clínica e psicologiaterciária, que, em uma de suas 
acepções, diz respeito ao processo de ridicularização que a vítima primária do crime 
sofre em seu meio social. Há uma exaltação do criminoso e humilhação da vítima 
primária pelas instâncias informais de controle social. No utem III, o foco principal 
está no fato de Maria ter que reviver o trauma, relatando os fatos mais de uma vez. 
Trata-se, nesse ponto, de um processo de vitimização secundária: a vítima primária 
é objeto da insensibilidade, do desinteresse e da atuação meramente burocrática 
dos operadores do sistema criminal estatal. Trata-se dos custos adicionais impostos 
à vítima primária em função da atuação das instâncias de controle social formal: 
espera em delegacia, tomada de depoimento, comparecimento a inúmeros atos 
processuais, identificação dos suspeitos, perícia, etc. O sistema penal coisifica a 
vítima, tratando-a como mero objeto e não como pessoa titular de direitos e me-
recedora de dignidade.
QUESTÃO 04. LETRA D. Questão bastante polêmica. Vitimização secundária é 
aquela em que a vítima de um delito é objeto da insensibilidade, do desinteresse 
e da atuação meramente burocrática dos operadores do sistema criminal estatal. 
São, portanto, custos adicionais impostos à vítima primária em função da atuação 
das instâncias de controle social formal. A vítima se sente maltratada e negligen-
ciada pelo sistema legal, que não dispensa um tratamento condizente com seu 
papel. A vitimização secundária também é conhecida como sobrevitimização oucriminal. São Paulo: RT, 2007.
3. VIANA, Eduardo. Criminologia. 6. ed. Salvador: Juspodivm, 2018, p. 25.
2
NASCIMENTO 
DA CRIMINOLOGIA
Nesse capítulo, vamos começar (porém não vamos concluir) a análise 
das escolas criminológicas. Cada escola se aproxima do fenômeno criminal 
a partir de postulados diferentes e, consequentemente, constrói formulações 
distintas sobre a criminalidade. No capítulo presente, o foco serão as escolas 
criminológicas que deram origem ao nascimento da Criminologia. As de-
mais escolas serão estudadas nos capítulos seguintes. Aqui, vamos analisar:
• os precursores que estudavam o fenômeno criminal antes de a Crimi-
nologia se firmar como ciência;
• a importância do Iluminismo para o nascimento da Criminologia;
• o embate entre as escolas Clássica e Positivista;
• As teorias que, no meio dessa luta de escolas, posicionavam-se de
modo intermediário.
De tudo o que estudaremos nesse capítulo, o que os examinadores mais 
cobram nas provas de concurso é a diferença entre os clássicos e os posi-
tivistas. Secundariamente, são cobrados conhecimentos sobre as Escolas 
Intermediárias. As questões sobre os temas do presente capítulo correspon-
dem a 10% do total de questões objetivas de Criminologia nos bancos de 
dados (2005-2019). 
1. PRECURSORES
Antes de falar dos clássicos e positivistas, vamos mencionar alguns auto-
res considerados precursores da Criminologia. Eles estudavam o fenômeno 
104
Manual de Criminologia • Mariana Barros Barreiras
criminal antes de a Criminologia se firmar como ciência, o que só veio a 
ocorrer no século XIX.
Antonio García-Pablos de Molina1 e Sérgio Salomão Shecaira2 fizeram 
extensas compilações de precursores, nas quais nos basearemos. Segundo 
eles, os principais precursores da Criminologia se dedicaram a buscar, ge-
ralmente no corpo do delinquente, explicação para o cometimento de um 
crime. Hoje, é fácil perceber que essas explicações careciam de cientificidade, 
ou seja, eram pseudocientíficas. Mas, por muito tempo, foram aceitas pela 
comunidade das ciências criminais.
Apenas a título exemplificativo, podemos citar a oftalmoscopia, que ten-
tava explicar o caráter das pessoas pela observação dos olhos; a metoposcopia 
que analisava as rugas; ou a frenologia, que se debruçava sobre o cérebro 
humano, com o mesmo objetivo. Os fisionomistas estudavam a aparência 
externa do indivíduo para deduzir seus caracteres psíquicos. Vamos men-
cionar alguns nomes de precursores.
1.1. Fisionomistas
Em um primeiro grupo vamos colocar os fisionomistas, que se dedicavam 
a estudar a aparência externa dos criminosos. 
O cientista italiano Giovanni Della Porta, por exemplo, na passagem do 
século XVI para o século XVII, sustentou a perfeita correspondência entre 
os aspectos interiores e a forma externa de uma pessoa.
Petrus Camper, anatomista e antropólogo holandês, no século XVIII, 
mostrou a escala de perfeição dos seres, partindo do macaco até chegar a 
Apolo.
O filósofo suíço Johann Lavater, no século XVIII, estudou crânios e 
defendeu que o temperamento da pessoa pode ser lido pelos contornos da 
face e que o delinquente tem maldade natural. É por isso considerado o pai 
da fisiognomonia, a arte de conhecer a personalidade das pessoas através 
dos traços fisionômicos.
1. GARCÍA-PABLOS de Molina. GOMES, Luiz Flávio. Criminologia: introdução a seus funda-
mentos teóricos. 5. ed. São Paulo: RT, 2006, p. 136 e ss.
2. SHECAIRA, Sérgio Salomão. Criminologia. 7. ed. São Paulo: RT, 2018, p. 78 e ss.
105
Cap. 2 – NASCIMENTO DA CRIMINOLOGIA
Estudos de fisionomia acabaram levando a atuações judiciais insólitas. O 
juiz napolitano Marquês de Moscardi, na Itália, costumava incluir em suas 
sentenças o bordão “Ouvidas acusação e defesa e examinadas a cabeça e a 
face do acusado...”. Era um ressurgimento do Édito de Valério, oriundo do 
Império Romano, que determinava que quando se tem dúvida entre dois 
presumidos culpados, condena-se sempre o mais feio.
1.2. Frenologistas 
Ao lado dos fisionomistas, os frenologistas também desempenharam 
papel importante como precursores da Criminologia. A ideia deles era lo-
calizar cada um dos instintos humanos em uma parte específica do cérebro. 
Franz Joseph Gall, médico alemão que viveu nos séculos XVIII e XIX, 
defendia que o crime é resultado de um desenvolvimento parcial e não com-
pensado do cérebro.
Johann Spurzheim, outro médico alemão, discípulo e colaborador de 
Gall, chegou a elaborar uma carta cranioscópica, parecida com os mapas 
da Geografia.
O linguista espanhol Mariano Cubí y Soler elaborou um manual de freno-
logia em meados do século XIX e foi um dos primeiros a começar a falar em 
criminoso nato, um subtipo humano com características que o levavam a co-
meter crimes. Para ele, o criminoso é um enfermo que necessita de tratamento.
1.3. Psiquiatras
Há ainda um importante grupo de psiquiatras precursores, que anali-
savam a correlação entre crime e enfermidade mental. O francês Philippe 
Pinel (séculos XVIII e XIX) possuía ideias humanitárias de tratamento das 
doenças mentais. Ele demonstrou que os delinquentes e os doentes mentais 
eram coisas distintas.
Jean Esquirol, outro psiquiatra francês que viveu entre os séculos XVIII 
e XIX, defendia que o ato criminal somente podia ser realizado sob esta-
do delirante. Como o autor do delito não está mentalmente são, não deve 
haver punição, mas sim tratamento. Como consequência de seu trabalho 
com internos e loucos, foram criadas comissões para verificar o tratamento 
dado aos reclusos.
106
Manual de Criminologia • Mariana Barros Barreiras
Já o psiquiatra franco-austríaco Bénédict-Augustin Morel (século XIX) 
associou criminalidade à degeneração. Para ele, o crime é uma forma de-
terminada de degeneração hereditária, de regressão.
1.4. Antropólogo 
O antropólogo francês Prosper Lucas, em 1847, descreveu o conceito de 
atavismo: reaparecimento, em um descendente, de caráter não presente em 
ascendentes imediatos, mas em ascendentes remotos. A tendência criminal 
seria transmissível por via hereditária.
1.5. Preocupados com questões prisionais 
Outro precursor foi o inglês John Howard, um filantropo que inspecio-
nou estabelecimentos prisionais, denunciou o estado miserável dos apenados 
em 1777 e buscou reformas carcerárias. Ele defendia a superação do pecado 
do crime por meio da meditação, introspecção e trabalho.
Jeremy Bentham, filósofo inglês dos séculos XVIII e XIX e pai do utilitarismo, 
defendeu a construção de panópticos, ou seja, de sistemas de construções pri-
sionais que permitiam, com o mínimo de esforço e o máximo de economia, 
obter o máximo de controle dos condenados.
Da torre central de um presídio circular todos os corredores radiais seriam 
observados, bastando, para tanto movimentar a cabeça nas diferentes direções, 
para se ter o controle pleno de todo o edifício, sem que os presos pudessem 
saber que estavam sendo vigiados3.
Como veremos mais adiante, há quem denomine esses autores de pré-
-clássicos.
1.6. Escola Cartográfica
Outra linha de precursores da Criminologia adveio da Escola Cartográ-
fica, cujo nome mais importante foi Adolphe Quetelet, estatístico belga dos 
séculos XVIII e XIX. Desenvolveu a ideia de “homem médio”, um tipo ideal e 
abstrato que podia ser visto como um padrão para análises sociológicas. Ele 
defendia a existência de uma “lei dos grandes números”: o crime apresentaria 
3. SHECAIRA, Sérgio Salomão. Criminologia. 7. ed. São Paulo: RT, 2018, p. 86.
107
Cap. 2 – NASCIMENTO DA CRIMINOLOGIA
uma regularidade constante e seria representável em funções matemáticas a 
depender dos estados econômicos e sociais do momento. Haveria, então, uma 
relação constante entre a criminalidade real (todos os crimes que acontecem), 
a criminalidade aparente (a criminalidade que se conhece) e a criminalidade 
legal (os crimes que chegam ao conhecimento do Sistema Judiciário). 
A Escola Cartográfica tanto pode ser considerada precursora como in-
termediária às escolas clássica e positivista,já que nasce no momento em 
que se tratava esse embate de teorias, como veremos em seguida. 
2. ILUMINISMO
A Europa, nos séculos XV a XVIII, vivenciou o que se convencionou 
chamar de Antigo Regime. Era a época das monarquias absolutistas, com o 
regime centralizado nas mãos do rei. A figura do rei era sagrada e incontestá-
vel e a visão teocêntrica do mundo, amplamente dominante. Nesse período, 
o sistema penal era caótico, cruel e arbitrário. O crime era amplamente en-
carado como um pecado ou como uma afronta direta ao poder monárquico.
A pena simbolizava castigo e vingança, a reafirmação da vontade de Deus e
do soberano. Havia uma natureza religiosa a mística nos institutos penais.
Os réus, de maneira geral, não possuíam as garantias processuais e penais
que hoje existem nos sistemas democráticos.
No século XVIII, surgiu o Iluminismo, movimento filosófico que exaltou 
o poder da razão em detrimento do poder da religião. Ideologias absolutistas 
e religiosas foram substituídas pelo conhecimento racional do mundo. Pode-
-se dizer que a burguesia empreendeu uma luta contra os poderes tradicionais 
da nobreza e do clero. Nessa época, surgiram as teorias contratualistas sobre o 
Estado: as pessoas depositavam apenas uma parcela de sua liberdade no cofre 
estatal, logo deveria limites ao poder punitivo. Surgiram muitas críticas ao 
sistema penal do Antigo Regime. O Iluminismo, portanto, promoveu o culto 
à razão e passou a fornecer explicações racionais para os problemas sociais.
É comum, e correto, que se associe a Escola Clássica do Direito Penal ao 
Iluminismo. Mas, em realidade, o movimento Iluminista é considerado a base 
tanto dos autores clássicos do Direito Penal quanto dos autores positivistas 
da Criminologia. A Escola Clássica e a Escola Positivista formam o que se 
costuma denominar Criminologia tradicional, em oposição à Criminologia 
moderna, de forte viés sociológico e crítico. 
108
Manual de Criminologia • Mariana Barros Barreiras
3. ESCOLA CLÁSSICA
A Escola Clássica, do século XVIII e que teve na Itália seu grande epicen-
tro, foi a primeira a empregar os postulados Iluministas para analisar o crime. 
Mas não se trata, ainda, de uma teoria criminológica. O mais adequado é 
chamá-la de Escola Clássica do Direito Penal. 
Aliás, para Cezar Roberto Bittencourt, os diversos juristas representantes 
dessa corrente não apresentavam conteúdo homogêneo. A denominação 
Escola Clássica foi dada pejorativamente, a posteriori, pelos positivistas que 
negaram o caráter científico das valorações jurídicas do delito4. 
Na esfera penal, o Antigo Regime contava com práticas punitivas bár-
baras, aleatórias, desproporcionais. No século XVIII, com o advento do 
Iluminismo e o surgimento das teorias contratualistas, novos códigos pe-
nais entraram em cena, com técnicas mais humanas e racionais de punição. 
Nascia, então, um Direito Penal como conhecemos hoje, com elaboradas 
racionalizações e construções dogmáticas. O alemão Paul Johann Anselm 
von Feuerbach, ou simplesmente Feuerbach, é considerado o fundador da 
moderna dogmática penal. 
Os autores clássicos reconhecem que as pessoas possuem livre-arbítrio, 
ou seja, podem fazer escolhas. Para eles, o criminoso é considerado generi-
camente, abstratamente, uma pessoa como outra qualquer. O cometimento 
de um crime é fruto de uma decisão que implica quebra do pacto social de 
convivência pacífica. O delinquente deve ser punido pelo mal que causou 
com a sua escolha. A ele, então, são aplicáveis as penas previstas no orde-
namento jurídico, utilizando-se a técnica dedutiva de subsumir a conduta 
a uma norma penal incriminadora. 
Os clássicos consideram que o crime é, antes de tudo, um ente jurídico. 
É necessário que haja previsão legal para que uma conduta seja considerada 
criminosa. Por isso, o enfoque clássico se vale de um método dedutivo: parte 
da regra geral (normas jurídicas, por exemplo) para analisar o fenômeno 
criminal. O método é também abstrato, pois se baseia sobretudo na lei, 
um comando genérico. É, ademais, formal, pois há regras procedimentais 
4. BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal: Parte Geral. 17 ed. São Paulo:
Saraiva, 2012, p. 195.
6
VITIMOLOGIA
O termo Vitimologia deriva da união das palavras vítima e logos e refere-
-se, portanto, ao estudo das vítimas. O tema é cobrado em 14% das questões
objetivas de Criminologia presentes nos bancos de dados (2005-2019).
A palavra Vitimologia foi cunhada em 1947 por Benjamim Mendelsohn, 
sobre quem falaremos mais adiante. 
Pode-se adotar um conceito de vítima amplo ou restrito. Mendelsohn, 
como veremos, adotava um conceito amplo. Seria vítima não apenas a pessoa 
afetada por um crime, mas também aquela lesionada por acidentes e catás-
trofes. Esse conceito não foi muito bem aceito pela comunidade científica.
De todos os modos, não se deve restringir demasiadamente o conceito 
de vítima, que pode ser qualquer pessoa, física ou jurídica, desde que sofra 
uma desventura, uma ofensa, uma lesão decorrente de um crime. A lesão 
pode ser de vários tipos, como corpórea, psíquica ou econômica.
Alguns autores defendem que a Vitimologia é uma ciência. Outros, que é 
um ramo da Criminologia. De qualquer maneira, dedica-se a jogar luz sobre 
o papel fundamental que a vítima desempenha no fenômeno criminal. A
Vitimologia analisa, entre outras coisas, a contribuição do ofendido como
causa ou condição do evento delituoso. Preocupa-se com a vítima, buscan-
do restaurar o seu papel no cenário criminal. Além de tentar entender qual
o papel da vítima no delito, defende programas de intervenção em crises,
compensação, restituição, ressarcimento do dano, assistência médica, psi-
cológica e jurídica, seja na etapa de mediação como no processo criminal
ou cível eventualmente instaurado. Movimentos de defesa dos direitos da
mulher, da criança e do adolescente, dos indígenas, dos condenados e de
grupos especialmente vulneráveis têm sido citados como importantes pro-
pulsores da Vitimologia.
540
Manual de Criminologia • Mariana Barros Barreiras
Além de procurar entender o papel desempenhado pela vítima no fenô-
meno criminal e o tipo de assistência necessária para fazer frente aos traumas 
deixados pelo evento criminoso, a Vitimologia desempenha importante 
papel no descobrimento das taxas reais de criminalidade, como veremos 
mais adiante. 
Lola Aniyar de Castro, criminóloga venezuelana, sintetiza os seguintes 
objetos da Vitimologia: 
• Estudo da personalidade da vítima, tanto vítimas de delinquentes, ou
vítima de outros fatores;
• Descobrimentos dos elementos psíquicos do complexo criminógeno
existente na dupla penal, isto é, o potencial de receptividade vitimal;
• Análise da personalidade das vítimas sem intervenção de um terceiro
(como é o caso das vítimas de suicídio);
• Estudo dos meios de identificação dos indivíduos com tendência a se
tornarem vítimas (e inclusão de métodos psicoeducativos necessários
para organizar sua própria defesa);
• Busca dos meios de tratamento curativo, para prevenir a recidiva da
vítima.1
Ester Kosovski, grande nome brasileiro dessa disciplina, defende que a 
Vitimologia repousa em um tripé: estudo e pesquisa; mudança de legislação; e 
assistência e proteção à vítima. Cada um desses elementos seria fundamental 
para a elaboração de uma nova visão do crime, que retiraria a vítima do seu 
papel de grande esquecida do drama criminal.2 
No mesmo sentido, García-Pablos de Molina explica que o Direito Penal 
contemporâneo encontra-se unilateral e equivocadamente voltado para a 
pessoa do delinquente, relegando a vítima a uma posição marginal, de de-
samparo, sem outro papel que o puramente testemunhal. Para ele, o sistema 
legal já nasceu com o propósito deliberado de distanciar os dois protagonistas 
do conflito criminal, despersonalizando a rivalidade, neutralizando a vítima 
e transformando-a em mero conceito abstrato. A Sociologia e Psicologia 
1. KOSOVSKI, Ester. História e escopo da vitimologia. In: KOSOVSKI, Ester; PIEDADE Jr.,Heitor; ROITMAN, Riva (Orgs.) Estudos de Vitimologia. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2014, 
p. 29.
2. KOSOVSKI, Ester. As Novas Formas de Proteção à Vítima. In: KOSOVSKI, Ester; SÉGUIN, 
Elida. Temas de Vitimologia. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2000, p. 21.
541
Cap. 6 – VITIMOLOGIA
Social têm ajudado a denunciar esse abandono e a fornecer modelos teóricos 
aptos a analisar os dados das investigações vitimológicas.3
1. FASES DO ESTUDO DA VÍTIMA
A vítima é um dos objetos da Criminologia, como analisamos no pri-
meiro capítulo. Ali, tivemos a oportunidade de analisar que, em relação à 
vítima, os estudos criminais passaram por três grandes momentos. Vamos 
agora, retomar e aprofundar os conhecimentos sobre essas três fases:4
• Idade de ouro da vítima: perdurou desde os primórdios da civilização
até o fim da Alta Idade Média (século X). Nessa época havia a pos-
sibilidade de composição e de autotutela, ou seja, de fazer justiça
pelas próprias mãos. Havia, ainda, a possibilidade de aplicação da lei
de talião, de que já falamos anteriormente. Conhecida pela máxima
“olho por olho, dente por dente”, essa lei traz a ideia de correspon-
dência entre o mal causado a alguém e o castigo que deve receber.
A um homicida, por exemplo, poderia ser imposta a pena de morte.
Durante a era de ouro da vítima se desenvolveu o processo penal
acusatório, em que as funções de acusar, julgar e defender estavam
em mãos distintas. As partes tinham iniciativa probatória, diante de
um juiz inerte, que não podia produzir as provas independentemente
da provocação do autor e do réu.
• Neutralização do poder da vítima: essa fase teve início na Baixa Idade
Média, com a crise do feudalismo, o início das Cruzadas, e a adoção
do processo penal inquisitivo, no século XII. Em oposição ao processo
acusatório, o processo inquisitivo concentra as funções de acusar e
julgar nas mãos do juiz. Também chamado de processo inquisitório,
acabou se revelando problemático por dificultar a imparcialidade do
juiz, que deixou de ser um árbitro e passou a ser um inquisidor. Nes-
sa fase de neutralização, a vítima perdeu o poder de reação ao fato
delituoso, que passou para as mãos da administração pública. A pena
não era mais dirigida a compensar a dor da vítima ou determinada
em função dessa dor. A sanção penal passou a ser uma garantia para
3. GARCÍA-PABLOS de Molina. GOMES, Luiz Flávio. Criminologia: introdução a seus funda-
mentos teóricos. 5 ed. São Paulo: RT, 2006, p. 67.
4. SHECAIRA, Sérgio Salomão. Criminologia. 7ª ed. São Paulo: RT, 2018, p. 53 e ss.
542
Manual de Criminologia • Mariana Barros Barreiras
o grupo social de que eles podiam ter expectativa na norma, pois a
frustração de seus comandos geraria uma consequência.
• Revalorização do poder da vítima: essa fase teve início no século
XVIII e perdura até os dias atuais. Considera-se que a vítima havia
sido esquecida pelo processo criminal e que é necessário recuperar
certa parcela de seu protagonismo. Os autores penalistas clássicos
(séculos XVIII e XIX) começam a mencionar a importância da vítima,
mas é com a consolidação da Criminologia que os discursos de que a
vítima deve ter proeminência ganham força. Apesar do forte apelo da 
Vitimologia à doutrina de direitos humanos, um dos problemas veri-
ficados nessa etapa de revalorização do poder da vítima é a pressão
que as vítimas ou seus parentes exercem em nossa sociedade, em
nossos legisladores e julgadores para que haja punições extrema-
mente severas em função da dor que estão sentindo, o que pode levar 
a um movimento de punitivismo exacerbado. Muitos criminólogos
conservadores, de viés punitivista, têm se apoiado nas vítimas com o
intuito de fortalecer o argumento de robustecer o poder repressivo,
alegando que quanto mais se protege o vitimador, mais dano se faz
à vítima. García-Pablos de Molina adverte que, nessa fase, não se
pode pretender um retorno à idade de ouro da vítima, afinal já se
percebeu que uma resposta institucional e serena ao delito não pode 
se subordinar aos estados emocionais da vítima. Reconhece-se que
a natureza pública do delito, da pena e do processo foram avanços
civilizatórios históricos, aos quais não se pretende renunciar. Mas é
necessário proceder a uma redefinição global do status da vítima,
com identificação de suas expectativas e do papel que pode desem-
penhar na busca de concreta justiça.
2. PRINCIPAIS NOMES DA VITIMOLOGIA
2.1. Hans Gross
Hans Gross foi um jurista e criminólogo austríaco que teve importância 
decisiva no nascimento da Criminalística, disciplina que se dedica a eluci-
dar os crimes. Além de pai da perícia criminal, Hans Gross é considerado 
precursor da Vitimologia em virtude de sua obra Raritätenbetrug, publicada 
em 1901, em que analisou a ingenuidade das vítimas de fraudes raras. 
543
Cap. 6 – VITIMOLOGIA
2.2. Benjamim Mendelsohn 
O discurso de revalorização do poder da vítima se verificou de maneira 
pronunciada com Benjamim Mendelsohn, advogado nascido na Romênia, 
mas com nacionalidade israelita, que utilizou o termo Vitimologia em 1947 
para descrever o sofrimento dos judeus nos campos de concentração de 
Alemanha nazista. 
Considerado um dos pais da Vitimologia, Mendelsohn sustentou a auto-
nomia científica desse saber. Para cuidar das vítimas, defendia, é necessário 
ir além do Direito Penal, pois o arsenal jurídico é estranho a elas. Daí a 
importância de escapar das armadilhas jurídicas e daí, também, a defesa de 
uma Vitimologia geral (não exclusivamente jurídico-penal). 
Mendelsohn argumentava ser impossível realizar justiça sem atentar para 
o papel da vítima. Para ele, o objetivo da Vitimologia deveria ser: menos
vítimas em todos os domínios em que a sociedade está interessada, e na
medida desse interesse. Não se deve restringir o domínio da Vitimologia
às vítimas de delitos. A vítima da delinquência não é a única que deve des-
pertar interesse na sociedade, e o seu sofrimento não é a única praga social
pela qual a sociedade deve se interessar. Meldelsohn se valia amplamente
do conceito de vitimidade (victimité): trata-se da capacidade de ser vítima
de fatores endógenos ou exógenos, ou, dito de outro modo, da totalidade de
características biopsicossociais comuns às diferentes categorias de vítimas
que a sociedade tem interesse de prevenir e curar, quaisquer que sejam os
fatores determinantes.
A noção de vitimidade, acrescentava, não é o inverso da noção de cri-
minalidade. A vitimidade compreende uma esfera muito mais ampla, que 
inclui, por exemplo, as vítimas de acidentes de trânsito, de acidentes de 
trabalho, de vícios, de suicídios, de doenças laborais, dentre outras. Essa 
noção ampla de vitimidade, aliás, seria determinante para diferenciar o ob-
jeto da Vitimologia – vítima em seu conceito amplo – de um dos objetos da 
Criminologia – vítima de delitos. 
Assim como a Sociologia se ocupa de todos os problemas sociais; a Medi-
cina, de todas as doenças; a Criminologia, de todos os delitos; a Vitimologia 
deveria se ocupar de todas as categorias de vítimas e de todos os problemas 
de vitimidade, sem ignorar nenhum dos fatores determinantes que interes-
sam à sociedade. 
544
Manual de Criminologia • Mariana Barros Barreiras
Esses fatores, que determinam que alguém se torne vítima, provêm de 
seis espécies de meios: 
• Meio endógeno, bio-psíquico, da própria vítima, tais como negligência, 
desatenção, esquecimento, falta de coordenação entre a percepção,
o discernimento, a decisão e a reação muscular;
• Meio natural, físico, imune à influência humana;
• Meio natural ambientalmente modificado pela influência humana;
• Meio social, aí consideradas as ações antissociais individuais ou orga-
nizacionais;
• Meio social político, em que se incluem os governos autoritários, di-
tatoriais, racistas, genocidas;
• Meio motor, em que se encaixam as máquinas da modernidade que
têm alto potencial vitimizador.
Considerados esses fatores, a Vitimologia deveria concentrar seus esfor-
ços na identificação de meios capazes de afastar o “complexo doperigo”, que 
equivale à soma de elementos objetivos, subjetivos ou mistos, permanentes 
ou temporários, aparentes ou velados, que determinam quais pessoas se 
tornarão vítimas. É necessário, portanto, analisar a periculosidade vitimal, 
que não é distribuída igualmente na população, já que algumas pessoas têm 
mais propensão a se tornar vítimas. A periculosidade vitimal diz respeito ao 
comportamento inapropriado da vítima que de certo modo facilita, instiga 
ou provoca a ação do agressor. 
Mendelsohn defendia que, caso a ação de prevenção vitimal falhasse, a 
Vitimologia deveria passar a se preocupar em reduzir ao mínimo a nocivi-
dade para as vítimas e em evitar a recidiva vitimal. Aliás, para Mendelsohn, 
um dos paradoxos da sociedade contemporânea é o fato de que quanto 
mais avançada uma sociedade, mais riscos ela implica. Assim, o comple-
xo do perigo avança rapidamente, com muitos riscos sendo criados para a 
população, enquanto os meios de evitar os perigos estão sempre atrasados. 
A vitimidade, portanto, decorre de uma série de fatores e é um problema 
geral e não individual, que guarda conexão com a evolução da sociedade. 
Mendelsohn postulava a formulação de uma Vitimologia Clínica, um 
elemento vital da nova ciência, que diria respeito à criação, nos hospitais, de 
uma seção especial para onde seriam dirigidas as vítimas de acidentes. Nesse 
setor, além de médicos, haveria sociólogos, psicólogos e outros profissionais 
habilitados a lidar com as questões relativas às vítimas. Ele também defendia 
545
Cap. 6 – VITIMOLOGIA
a criação de um Centro de Vitimologia, que se ocuparia das questões vitimo-
lógicas que não fossem clínicas. Para Mendelsohn, portanto, a Vitimologia, 
além de ampla, devia ter efeitos práticos, de livrar o ser humano do perigo. 
Se fosse útil e viável, a Vitimologia seria revolucionária5.
Sua tipologia das vítimas, apresentada na palestra “Um horizonte novo na 
ciência biopsicossocial”, pronunciada em um hospital de Bucareste, é bastante 
conhecida. Possui uma base ao mesmo tempo etiológica e interacionista, já 
que procura compreender as causas de alguém se tornar vítima analisando 
a interação existente entre os integrantes da dupla penal (vítima e agressor). 
Foi desenvolvida, portanto, com base na correlação de culpabilidade entre a 
vítima e o vitimador (delinquente): quanto maior a culpabilidade de um, me-
nor a culpabilidade do outro. As categorias de vítima para Mendelsohn são:
• Vítima totalmente inocente, que não tem “culpa” na infração penal, ou
seja, não concorre de forma alguma para o evento, como ocorre no
caso do infanticídio e das pessoas com mediana prudência. É também
chamada de vítima ideal;
• Vítima por ignorância, que é menos culpada que o delinquente, como,
por exemplo, aquele que anda com a bolsa aberta em local perigoso,
sendo imprudente. São também chamadas de vítima de menor culpa-
bilidade;
• Vítima tão culpada quanto o delinquente, que dá causa ao resultado,
como, por exemplo, no caso da rixa (briga), da eutanásia, da dupla sui-
cida, do aborto consentido e dos crimes de estelionato em que a vítima 
tenta se aproveitar de uma situação pretensamente muito vantajosa
que lhe é apresentada. É também chamada de vítima voluntária;
• Vítima mais culpada que o delinquente, que o provoca, como, por
exemplo, a vítima de um homicídio privilegiado praticado após injusta 
provocação. São também chamadas de vítima por provocação;
• Vítima como única culpada, de que é exemplo a pessoa que se coloca
em situação de completo risco, como o suicida ou um agressor que
acaba sendo vítima de legítima defesa. São também chamadas de
vítimas agressoras, simuladas, simuladoras, imaginárias ou pseudoví-
timas. Nessas hipóteses não se está diante de uma vítima real. Não se
trata de uma pessoa que coopera com o ânimo criminoso de alguém:
ao contrário, a pseudovítima é a única culpada pela situação.
5. MENDELSOHN, Benjamin. La victimologie et les besoins de la societe actuelle. In: Revue
internationale de criminologie et de police technique, v. 26, n. 3, p. 267-276, jui./sep. 1973.
546
Manual de Criminologia • Mariana Barros Barreiras
Nestor Sampaio Penteado Filho diz que Mendelsohn sintetiza essa clas-
sificação em três grupos: o da vítima inocente (que não concorre de forma 
alguma para o crime); o da vítima provocadora (que contribui com o ânimo 
criminoso); e o da vítima agressora. 
A VÍTIMA É CULPADA NOMENCLATURA
NÃO Ideal
- Ignorância
= Voluntária
+ Provocadora
EXCLUSIVAMENTE Pseudovítima
2.3. Hans Von Hentig 
Hans Von Hentig foi um psicólogo criminal alemão radicado nos Es-
tados Unidos. 
No artigo Remarks on the Interaction of Perpretator and Victim6, pu-
blicado em 1940, Hans von Hentig explica que, em muitos casos a vítima 
não contribui para o fenômeno criminal, mas que frequentemente pode ser 
observada uma mutualidade na conexão entre agressor e vítima. Em clara 
conexão com os postulados positivistas do século XIX, e nitidamente inserido 
numa visão de corresponsabilização da vítima, ele defende que em muitos 
casos a vítima ativamente leva o agressor à tentação. “Se há criminosos na-
tos, é evidente que também existem vítimas natas, que se autolesionam e se 
autodestroem por meio de uma pessoa estranha maleável.” Ele analisa três 
grupos de crimes, sob o ponto de vista vitimológico: assassinatos, crimes 
sexuais e estelionatos. 
No tocante aos crimes sexuais, Hentig assinala – em viés típico de uma 
cultura pautada por valores androcêntricos – que a sedução e o caráter 
6. HENTIG, Hans Von. Remarks on the Interaction of Perpetrator and Victim. In: Journal of
Criminal Law and Criminology (1931-1951). 31(3):303-309; Northwestern University Press, 
1940.
569
Cap. 6 – VITIMOLOGIA
ambientais e relativos a organizações criminosas. Verifica-se uma expansão 
da proteção de bens jurídicos coletivos, vagos, imprecisos. A essa tendência, 
dá-se o nome de desmaterialização, liquefação, espiritualização ou dinami-
zação do bem jurídico ou da vítima. 
11. SELETIVIDADE DA VITIMIZAÇÃO
A Vitimologia demonstra que o risco de vitimização é seletivo e diferen-
cial.21 Alguns grupos populacionais e segmentos sociais são particularmente 
propensos à vitimização, seja ela primária, secundária ou terciária. Fatores 
pessoais, sociais e situacionais atuam para desenhar um maior ou menor 
prognóstico de vitimização. 
Minorias e grupos marginalizados atraem uma parcela significativa de 
delitos. No Brasil, isso é facilmente observável nos delitos violentos. Os jo-
vens negros são as principais vítimas de homicídio. Segundo dados do Atlas 
da Violência 2020, do total das vítimas de homicídio em 2018, 75,7% eram 
negros. Entre eles, a taxa foi de 37,8 por 100 mil habitantes, enquanto entre 
os não-negros a taxa foi de 13,9. A chance de uma pessoa negra morrer de 
forma violenta no Brasil é 2,7 maior que uma pessoa não-negra. E o homi-
cídio foi a principal causa de mortalidade de jovens, que são as pessoas de 
15 a 29 anos. Fala-se, portanto, em uma juventude perdida. 
Os escassos recursos socioeconômicos das vítimas pobres potencializam, 
ademais, os efeitos da revitimização, já que lhes é mais custoso enfrentar as 
dificuldades para fazer girar com eficiência o sistema de justiça criminal. A 
população marginalizada, quando vítima, possui reduzida capacidade de se 
fazer ouvir com credibilidade, de perseguir seus direitos. 
12. SÍNDROMES RELACIONADAS À VITIMIZAÇÃO
12.1. Síndrome de Estocolmo 
A Síndrome de Estocolmo é um estado psicológico em que a vítima 
passa a ter simpatia ou mesmo sentimento de amor e amizade em relação 
21. GARCÍA-PABLOS de Molina. GOMES, Luiz Flávio. Criminologia: introdução a seus funda-
mentos teóricos. 5 ed. São Paulo: RT, 2006, p. 71.
570
Manual de Criminologia • Mariana Barros Barreiras
ao vitimizador após longo período de intimidação. O termo foi cunhado 
pelo criminólogo e psiquiatra Nils Bejerot. Tem como origem um assalto a 
banco realizado em 1973 em Estocolmo, na Suécia. Quatro pessoas foram 
feitas refénspor cerca de uma semana. Durante as negociações, pediram que 
os criminosos fossem deixados em liberdade, deram pistas falsas e alegaram 
que a culpada pela situação era a polícia, que tinha efetuado os primeiros 
disparos. Ao serem liberadas, recusaram ajuda dos policiais e usaram os pró-
prios corpos para proteger os criminosos. Posteriormente, uma das vítimas 
chegou a criar um fundo para ajudar os assaltantes com as despesas judiciais. 
Após 40 anos, uma das reféns ainda se comunicava com um dos criminosos. 
Na Síndrome de Estocolmo, a vítima procura evitar comportamentos que 
desagradem o vitimador e, aos poucos, passa a encarar com simpatia os atos 
gentis do agressor, a quem deve sua vida. É um afeto, portanto, decorrente 
do instinto de sobrevivência da vítima, que sente que, de alguma maneira, 
o agressor se importa com ela. Verifica-se, com frequência, em casos de
sequestro, cárcere privado e agressões domésticas.
12.2. Síndrome de Lima 
A Síndrome de Lima é o outro aspecto do mesmo fenômeno de afeição. 
Nela, os agressores desenvolvem sentimentos de simpatia e cumplicidade 
em relação às vítimas, e preocupam-se com o seu bem-estar. O nome se deve 
a um sequestro de centenas de pessoas realizado pelo Movimento Revolu-
cionário Túpac Amaru. O fato ocorreu na Embaixada do Japão em Lima, 
capital do Peru, em 1996. Ao final, não houve pedido de resgate: os reféns 
foram liberados por sentimentos de compaixão e afeto. 
No mesmo episódio de assalto a banco que deu origem ao termo Sín-
drome de Estocolmo, Jan Olsson, um dos raptores, afirmou em entrevistas 
subsequentes que não conseguiu matar os reféns porque acabou estreitando 
laço com eles. 
12.3. Síndrome de Londres
Na Síndrome de Londres, as vítimas adotam postura de enfrentamento 
com os agressores. Ela é o oposto da Síndrome de Estocolmo. Trata-se de 
denominação surgida após sequestro realizado por terroristas na Embaixada 
do Irã em Londres, episódio conhecido como Operação Nimrod. Entre os 
571
Cap. 6 – VITIMOLOGIA
reféns, havia um funcionário iraniano, chefe de imprensa da Embaixada, 
chamado Abbas Lavasani, que adotou postura de embate e discussão com os 
sequestradores. Dizia aos algozes, constantemente, que discordava de suas 
ideias, pois era crente devoto da Revolução Iraniana. 
Na Síndrome de Londres, a vítima, também como estratégia de sobrevi-
vência, adota postura de desobediência e embate com o agressor, por quem 
nutre profundo ódio. Esse mecanismo, ao elevar as tensões entre vítima e 
vitmizador, pode vir a ser fatal. No caso da Embaixada do Irã em Londres, 
Abbas Lavasani acabou sendo executado e jogado para fora do prédio como 
demonstração de força dos raptores. 
12.4. Síndrome da Mulher de Potifar
A Síndrome da Mulher de Potifar diz respeito aos casos em que mu-
lheres fazem falsa acusação de estupro ou outros abusos sexuais. Potifar é 
um personagem bíblico, retratado como um homem poderoso que possuía 
vários escravos. Sua esposa sentia-se atraída por José, o serviçal de con-
fiança de Potifar. José repeliu as investidas sexuais da esposa de Potifar. 
Sentindo-se humilhada e rejeitada, ela se vingou, acusando falsamente 
José de estupro. 
Essa situação é particularmente delicada, já que os delitos sexuais são 
comumente praticados na ausência de testemunhas, fazendo com que a 
prova pericial e a palavra da dupla penal (agressor e vítima) ganhem extre-
ma relevância na apuração dos fatos. Por isso, os operadores do sistema de 
justiça criminal devem ter em mente essa figura criminológica para apurar 
cuidadosamente a verossimilhança da palavra da vítima. 
13. DECLARAÇÃO DOS PRINCÍPIOS BÁSICOS DE JUSTIÇA
RELATIVOS ÀS VÍTIMAS DA CRIMINALIDADE E DE ABUSO
DE PODER
Em sintonia com as tendências da Criminologia e da Vitimologia, a 
Organização das Nações Unidas adotou, em 1985, a Declaração dos Prin-
cípios Básicos de Justiça Relativos às Vítimas da Criminalidade e de Abuso 
de Poder. Antes disso, a preocupação da ONU sempre havia sido voltada 
para o delinquente. 
572
Manual de Criminologia • Mariana Barros Barreiras
O texto da Declaração parte de um conceito amplo de vítima: são as 
pessoas que, individual ou coletivamente, tenham sofrido um prejuízo, no-
meadamente um atentado à sua integridade física ou mental, um sofrimento 
de ordem moral, uma perda material, ou um grave atentado aos seus direitos 
fundamentais, como consequência de atos ou de omissões violadores das 
leis penais em vigor num Estado membro, incluindo as leis que proíbem o 
abuso de poder. Uma pessoa pode ser considerada vítima quer o autor seja 
ou não identificado, preso, processado ou declarado culpado, e quaisquer 
que sejam os eventuais laços de parentesco do autor com a vítima. O termo 
vítima inclui também, conforme o caso, a família próxima ou as pessoas 
a cargo da vítima direta e as pessoas que tenham sofrido um prejuízo ao 
intervirem para prestar assistência às vítimas em situação de carência ou 
para impedir a vitimização. 
Assim, trata-se, hoje em dia, no âmbito internacional, de uma Vitimo-
logia definida em termos de direitos humanos, e não meramente de Direito 
Penal. Essa é a atual tendência da Vitimologia. 
A Declaração considera que as vítimas da criminalidade, as vítimas de 
abuso de poder e, frequentemente, as respectivas famílias, testemunhas e 
outras pessoas que acorrem em seu auxílio sofrem injustamente perdas, 
danos ou prejuízos. Além disso, podem ser submetidas a provações suple-
mentares quando colaboram na perseguição dos delinquentes – é a chamada 
vitimização secundária. Daí a necessidade de se adotar de medidas que visem 
garantir o reconhecimento universal e eficaz dos direitos das vítimas da 
criminalidade e de abuso de poder. 
As vítimas devem ser tratadas com compaixão e respeito pela sua digni-
dade. Têm direito ao acesso às instâncias judiciárias e à obtenção de reparação 
através de procedimentos, oficiais ou oficiosos, que sejam rápidos, equitati-
vos, de baixo custo e acessíveis. 
Os países devem tomar medidas para minimizar, tanto quanto possível, 
as dificuldades encontradas pelas vítimas, proteger a sua vida privada e ga-
rantir a sua segurança, bem como a da sua família e a das suas testemunhas, 
preservando-as de manobras de intimidação e de represálias.
Quando se revelem adequados, os meios extrajudiciários de solução de 
conflitos, incluindo a mediação, a arbitragem e as práticas de direito con-
suetudinário ou as práticas autóctones de justiça, devem ser utilizados, para 
facilitar a conciliação e obter a reparação em favor das vítimas.
573
Cap. 6 – VITIMOLOGIA
Os autores de crimes ou os terceiros responsáveis pelo seu comporta-
mento devem, se necessário, reparar de forma equitativa o prejuízo causado 
às vítimas, às suas famílias ou às pessoas a seu cargo. Tal reparação deve 
incluir a restituição dos bens, uma indenização pelos prejuízos sofridos, o 
reembolso das despesas feitas como consequência da vitimização, a prestação 
de serviços e o restabelecimento dos direitos.
Em todos os casos em que sejam causados graves danos ao ambiente, a 
restituição deve incluir, na medida do possível, a reabilitação do ambiente, 
a reposição das infraestruturas, a substituição dos equipamentos coletivos 
e o reembolso das despesas de reinstalação. 
Quando servidores públicos ou outras pessoas, agindo a título oficial 
ou quase oficial, tenham cometido uma infração penal, as vítimas devem 
receber a restituição por parte do Estado cujos funcionários ou agentes sejam 
responsáveis pelos prejuízos sofridos. No caso em que o Governo sob cuja 
autoridade se verificou o ato ou a omissão na origem da vitimização já não 
exista, o Estado ou o Governo sucessor deve assegurar a restituição às vítimas. 
Quando não seja possível obter do delinquente ou de outras fontes uma 
indenização completa, os Estados devem procurar assegurar uma indeni-
zação financeira às vítimas que tenham sofrido um dano corporal ou um 
atentado importante à sua integridade física ou mental; ou à família, em 
particularàs pessoas a cargo das vítimas que tenham falecido ou que te-
nham sido atingidas por incapacidade física ou mental como consequência 
da vitimização. Para tanto, será incentivado o estabelecimento, o reforço e 
a expansão de fundos nacionais de indenização às vítimas. 
A Declaração orienta que os funcionários dos serviços de polícia, de 
justiça e de saúde, tal como o dos serviços sociais e o de outros serviços 
interessados, devem receber uma formação que os sensibilize para as neces-
sidades das vítimas, bem como instruções que garantam uma ajuda pronta 
e adequada a elas. 
Alinhada com os ideais de direitos humanos, a Declaração da ONU 
pretende reduzir a vitimização e solicita aos países signatários – dentre os 
quais se inclui o Brasil: 
• que tomem medidas nos domínios da assistência social, da saúde,
incluindo a saúde mental, da educação e da economia, bem como
medidas especiais de prevenção criminal para reduzir a vitimização
e promover a ajuda às vítimas em situação de carência;
574
Manual de Criminologia • Mariana Barros Barreiras
• que incentivem os esforços coletivos e a participação dos cidadãos na
prevenção do crime;
• que adaptem as respectivas legislações aos direitos humanos;
• que reforcem os meios necessários à investigação, à persecução e à
condenação dos culpados da prática de crimes;
• que promovam a divulgação de informações que permitam aos cida-
dãos a fiscalização da conduta dos servidores públicos e das empre-
sas e a promoção de outros meios de acolher as preocupações dos
cidadãos;
• que haja o respeito de códigos de conduta e normas éticas por parte
dos servidores públicos, incluindo o pessoal encarregado da aplicação 
das leis, o dos serviços penitenciários, o dos serviços médicos e sociais
e o das forças armadas, bem como por parte do pessoal das empresas
comerciais;
• que proíbam as práticas e os procedimentos suscetíveis de favorecer os 
abusos, tais como o uso de locais secretos de detenção e a detenção
em situação incomunicável;
• que colaborem com os outros Estados, no quadro de acordos de auxílio 
judiciário e administrativo, em domínios como o da investigação e o da 
persecução penal dos delinquentes, da sua extradição e da penhora
dos seus bens para os fins de indenização às vítimas.
14. RESUMO – VITIMOLOGIA
CONCEITUAÇÃO E FINALIDADE
Vitimologia é o estudo das vítimas. O termo foi cunhado em 1947 por Benjamim 
Mendelsohn. 
Vítima pode ser qualquer pessoa, física ou jurídica, que sofra uma desventura, uma 
ofensa, uma lesão (física, psíquica, econômica, etc.) decorrente de um crime. 
Para alguns, a Vitimologia é uma ciência. Para outros, um ramo da Criminologia. 
Dedica-se a: 
• compreender o papel fundamental que a vítima desempenha no fenômeno cri-
minal;
• defender programas de intervenção em crises, ressarcimento do dano e assistência 
médica, psicológica e jurídica;
• descobrir das taxas reais de criminalidade;
• mudar a legislação naquilo que for necessário;
• retirar a vítima do papel meramente testemunhal.
575
Cap. 6 – VITIMOLOGIA
FASES DO ESTUDO DA VÍTIMA
» Idade de ouro da vítima: desde os primórdios da civilização até o fim da Alta
Idade Média. Possibilidade de composição e de autotutela. Lei de talião: “olho
por olho, dente por dente”. Desenvolveu-se o processo penal acusatório, em que
as funções de acusar, julgar e defender estavam em mãos distintas.
» Neutralização do poder da vítima: da Baixa Idade Média (século XII) até século
XVII. Processo inquisitivo: concentra as funções de acusar e julgar nas mãos do
juiz e dificulta a imparcialidade do magistrado. A vítima perdeu o poder de reação 
ao fato delituoso, que passou para as mãos da administração pública.
» Revalorização do poder da vítima: do século XVIII até os dias atuais. Percebe-se
que a vítima havia sido esquecida pelo processo criminal e que é necessário
recuperar certa parcela de seu protagonismo. Um dos problemas é a pressão
que as vítimas ou seus parentes exercem para que haja leis e punições extre-
mamente severas.
PRINCIPAIS NOMES DA VITIMOLOGIA 
b Hans Gross:
Jurista e criminólogo austríaco considerado precursor da Vitimologia em virtude de 
sua obra Raritätenbetrug, publicada em 1901, em que analisou a ingenuidade das 
vítimas de fraudes raras. 
b Benjamim Mendelsohn:
Advogado romeno-israelita, utilizou o termo Vitimologia em 1947 para descrever o 
sofrimento dos judeus nos campos de concentração de Alemanha nazista. Susten-
tou a autonomia científica da Vitimologia. Defesa de uma Vitimologia geral (não 
exclusivamente jurídico-penal). Não se deve restringir o domínio da Vitimologia às 
vítimas de delitos: compreende uma esfera muito mais ampla, que inclui as vítimas 
de acidentes de trânsito, de acidentes de trabalho, de vícios, de suicídios, de doenças 
laborais, dentre outras. Fatores que determinam que alguém se torne vítima provêm 
de seis espécies de meios: 
• Meio endógeno, biopsíquico, da própria vítima;
• Meio natural, físico, imune à influência humana;
• Meio natural ambientalmente modificado pela influência humana;
• Meio social (ações antissociais);
• Meio social político (governos autoritários, ditatoriais, racistas, genocidas);
• Meio motor (máquinas da modernidade).
A periculosidade vitimal não é distribuída igualmente na população: algumas pessoas 
têm mais propensão a se tornar vítimas em função de seu comportamento inapro-
priado que facilita, instiga ou provoca a ação do agressor. Necessário se preocupar 
com a prevenção vitimal. Caso ela falhe, a Vitimologia deve atuar para reduzir ao 
mínimo a nocividade para as vítimas e para evitar a recidiva vitimal. A vitimidade é 
um problema geral e não individual, que guarda conexão com a evolução da socie-
dade. Paradoxo da sociedade contemporânea: quanto mais avançada uma sociedade, 
mais riscos ela implica. 
576
Manual de Criminologia • Mariana Barros Barreiras
Defesa da Vitimologia Clínica: criação, nos hospitais, de uma seção especial para 
onde seriam dirigidas as vítimas de acidentes, com médicos, sociólogos, psicólogos 
e outros profissionais habilitados. 
» Tipologia das vítimas conforme Mendelsohn:
• Vítima totalmente inocente (ou ideal): não concorre de forma alguma para o
evento. Ex: infanticídio.
• Vítima menos culpada que o delinquente (ou por ignorância): é imprudente. Ex:
andar com a bolsa aberta um lugar perigoso.
• Vítima tão culpada quanto o delinquente (ou voluntária): dá causa ao resultado.
Ex: rixa.
• Vítima mais culpada que o delinquente (ou por provocação): provoca o delin-
quente. Ex: homicídio privilegiado praticado após injusta provocação.
• Vítima exclusivamente culpada (ou agressora, simulada, simuladora, imaginária
ou pseudovítima): Ex: agressor vítima de legítima defesa.
b Hans Von Hentig:
“O criminoso e sua vítima”, 1948. Psicólogo criminal alemão radicado nos Estados 
Unidos. Há mutualidade na conexão entre agressor e vítima. Visão de corresponsabi-
lização da vítima: a vítima ativamente leva o agressor à tentação. “Se há criminosos 
natos, é evidente que também existem vítimas natas”. 
» Classes gerais de vítimas, para Hentig:
• A vítima jovem: a juventude é o período mais perigoso da vida. Mas algumas
ficções distorcem a realidade. Mulheres jovens muitas vezes consentem com o
ato sexual.
• A vítima mulher: gênero feminino é forma de fraqueza reconhecida pela lei. Em
muitos casos a mulher é responsável por sua vitimização, como as trabalhadoras
domésticas que engravidam dos seus patrões e acabam sendo mortas.
• A vítima idosa: no idoso, há uma combinação de patrimônio acumulado, fraqueza
física e debilidade mental. Qualquer um que supere a desconfiança e a apreensão
dos idosos pode se aproximar, para o bem ou para o mal.
• A vítima doente mental ou com perturbações mentais: dementes, loucos, viciados
em drogas, alcoólatras não têm noção do perigo e se colocam facilmente em
situação de vítima.
• A vítima imigrante, ignorante ou minoritária: imigrantes e ignorantes são vítimas
potenciais de estelionatários. A estupidez psicológicaé muito procurada pelos
criminosos, porque se aproxima da infantilidade. Os grupos minoritários não
recebem a mesma proteção da lei do que as classes dominantes. Além disso,
são vítimas do próprio sistema de justiça criminal. A cor da vítima influencia
enormemente no desfecho do caso.
» Tipos psicológicos de vítimas para Hentig:
• O tipo depressivo: dominado por um desejo subconsciente de ser aniquilado.
Possui instinto de autopreservação débil.
• O tipo ganancioso: dominado por sua expectativa de obter dinheiro de maneira
fácil. São vítimas da própria ganância ou vaidade.
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Cap. 6 – VITIMOLOGIA
• O tipo lascivo: mulheres jovens e de meia idade cuja sensualidade é uma fraqueza
facilmente explorável.
• O tipo solitário ou de coração partido: para quem está solitário, qualquer coisa
é melhor do que ficar sozinho. É o caso de idosos, viúvas, crianças abandonadas
ou que fugiram de seus lares, prostitutas sem rede familiar.
• O tipo tormentoso: pessoas tiranas, que passam de algozes de um relacionamen-
to abusivo a vítimas de assassinato, praticado pelo oprimido, num momento de
rebelião e explosão. Ex: pai que tortura os filhos e depois é por eles assassinado.
• O tipo bloqueado, isento ou lutador:
• O tipo bloqueado: é o indivíduo que se encontra em situação tão perdida que
movimentos defensivos parecem impossíveis ou mais danosos que a lesão pro-
vocada pelo criminoso. Ex: criminoso extorquido pela polícia.
• O tipo isento: indivíduo que poderia ser vítima, mas que, por suas características
e atitudes, é desqualificado, descartado. Ex: o ladrão católico normalmente não
vai roubar um padre.
• O tipo lutador: é o indivíduo que resiste, revida à violência.
CONSOLIDAÇÃO DA VITIMOLOGIA 
» 1973: 1º Simpósio Internacional de Vitimologia, em Jerusalém, Israel, presidido
por Israel Drapkin Senderey, médico argentino-chileno.
» 1984: Fundação da Sociedade Brasileira de Vitimologia (SBV).
» 1991: 7º Simpósio Internacional de Vitimologia foi realizado no Rio de Janeiro.
Alguns nomes de destaque da Vitimologia no Brasil: Ester Kosovski, Edgard de Moura 
Bittencourt, Laércio Pellegrino, Heitor Piedade Júnior e Heber Soares Vargas. 
CONTRIBUIÇÕES DA VITIMOLOGIA 
• Vítima e dinâmica criminal: nem sempre a vítima é aleatória, fungível, acidental
ou irrelevante no “iter criminis”.
• Vítima e prevenção do delito: prevenção vitimária é a prevenção da delinquên-
cia voltada para a vítima em potencial. É uma prevenção complementar e não
substitutiva da prevenção criminal.
• Vítima como fonte alternativa informadora da criminalidade real: possuem
relevância central as pesquisas de vitimização, em que se pede diretamente à
população que relate suas experiências como vítimas de delitos em certo espaço
temporal.
• Vítima e medo do delito: Vitimologia preocupa-se com o medo como estado
de ânimo coletivo e não necessariamente associado a uma prévia experiência
vitimária.
• Vítima e política social: a Vitimologia preocupa-se com a ressocialização da
vítima, que não reclama apenas compaixão, mas respeito aos seus direitos.
• Vítima e sistema legal: a vítima tem em suas mãos a chave da movimentação
legal, já que praticamente somente os delitos noticiados são perseguidos.
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Manual de Criminologia • Mariana Barros Barreiras
OUTRAS CLASSIFICAÇÕES DAS VÍTIMAS
• Vítima nata: aquela que a apresenta, desde o nascimento, predisposição para ser
vítima.
• Vítima potencial ou latente: aquela que apresenta comportamento, temperamento 
ou estilo de vida que atrai o delinquente.
• Vítima eventual, real ou inocente: aquela que é verdadeiramente vítima, ou seja,
cuja conduta não contribuiu para a ocorrência do crime.
• Vítima falsa ou simuladora: aquela que imputa falsamente a alguém a prática
de um delito contra si, mesmo não tendo sido vítima de crime algum.
• Vítima voluntária: aquela que concorda com o crime, como a vítima de eutanásia.
• Vítima acidental: aquela que é vítima de si mesma, geralmente por inobservância
do dever de cuidado, como negligência ou imprudência.
• Vítima indefesa: aquela que tolera a lesão sofrida, pois sabe que perseguir o
infrator será tarefa ainda mais custosa.
• Vítima imune: aquela que, por ser famosa ou por ocupar algum posto, cargo ou
função de prestígio, os delinquentes evitam vitimar.
• Vítima atuante ou inconformada: aquela que busca determinadamente a punição
dos autores e a indenização dos danos sofridos.
• Vítima omissa ou ilhada: aquela que se afasta das relações sociais e, por não
participar da sociedade e viver isoladamente, deixa de relatar às autoridades
competentes seus direitos violados.
• Vítima da Política Social: aquela que é vítima do Estado, da negligência do Poder
Público.
CIFRAS DA CRIMINALIDADE
Nas pesquisas de vitimização, pergunta-se às pessoas de um grupo social se elas 
foram vítimas de algum delito em certo marco temporal. São importantes porque 
as taxas de subnotificação criminal são muito significativas em uma série de delitos, 
como é o caso dos crimes sexuais e dos crimes de corrupção policial. 
» Cifra negra: diferença entre a criminalidade real – isto é, a totalidade de delitos
praticados – e a criminalidade conhecida ou revelada.
» Cifra dourada: criminalidade do colarinho branco que não chega ao conhecimento 
das instâncias de controle social formal.
» Cifra cinza: crimes que são de conhecimento das instâncias policiais, mas que
não chegam a virar um processo penal.
» Cifra amarela: casos em que as vítimas sofrem algum tipo de violência pratica-
da por servidor público e deixam, por temor, de denunciar o ilícito às unidades
competentes pela apuração.
» Cifra verde: delitos que têm por objeto o meio ambiente e que não chegam ao
conhecimento policial ou não são processados porque impossível tentar descobrir 
a autoria.
» Cifra rosa: crimes de caráter homofóbico que não chegam ao conhecimento das
autoridades.
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Cap. 6 – VITIMOLOGIA
CLASSIFICAÇÕES DA VITIMIZAÇÃO
» Vitimização direta x Vitimização indireta: vítima direta é aquela que sofre dire-
tamente os efeitos de um delito. A vítima indireta é aquela que, por ter alguma 
relação com a vítima direta, acaba sofrendo indiretamente as consequências 
do crime.
» Vitimização Primária, Secundária, Terciária e Quartenária: vitimização primária é 
aquela em que o sujeito é atingido pela prática do crime ou de um fato traumático. 
Vitimização secundária (sobrevitimização, revitimização) é aquela em que a vítima 
primária é objeto da insensibilidade, do desinteresse e da atuação meramente 
burocrática dos operadores do sistema criminal estatal. Sobre o conceito de vi-
timização terciária não há consenso. Para alguns, ocorre a vitimização terciária 
quando a vítima primária do crime é abandonada ou ridicularizada em seu meio 
social (Vunesp e FCC). Para outros (Nestor Sampaio Penteado Filho), a vitimização 
terciária se verifica igualmente com o abandono das vítimas, mas esse abandono 
pode ser praticado tanto pelas instâncias informais como pelas agências formais 
de controle social. Para um terceiro grupo (Shecaira), a vitimização terciária não 
atinge a vítima primária do crime, mas sim o seu autor, que recebe um sofrimento 
excessivo, como tortura, apedrejamento, linchamento, ou responde a processos 
que não deveriam ter sido a ele imputados. Vitimização Quaternária: é o medo 
irracional de se converter em vítima que se internaliza pela falsa percepção da 
realidade a partir das informações levantadas pela mídia.
» Vitimização Subjetiva: aquela em que se constrói e se promove a figura de uma 
vítima, com um perfil definido de prejuízos e sofrimentos, que não corresponde 
a uma ofensa real e objetiva.
» Heterovitimização: Autorrecriminação da vítima pela ocorrência do crime.
VITIMOLOGIA CLÁSSICA X VITIMOLOGIA SOLIDARISTA OU HUMANITÁRIA 
» Vitimologia Clássica: termo cunhado por Elena Larrauri. Tendências de transferir
para a vítima a responsabilidade pela gênese criminal. Vitimologia carregada de
preconceitos, pré-julgamentos e tendente à coculpabilização da vítima.
» Vitimologiahumanitária ou solidarista: nítida preocupação de conferir à vítima
um papel de destaque nos procedimentos de apuração de responsabilidades, de
proteger seus interesses e sua dignidade, e de ressarcir seus prejuízos. Alterações
legislativas nesse sentido:
• Lei nº 9.099/95: mudança paradigmática no ordenamento jurídico brasileiro em
direção à consideração da vítima na relação delitiva. Processo deve objetivar,
sempre que possível, a reparação dos danos sofridos pela vítima.
• Lei nº 11.106/05: retirou o termo “mulher honesta” de alguns tipos penais. Retirou,
do rol de causas extintivas da punibilidade, algumas previsões como o casamento
do agente com a vítima ou com terceiro nos crimes contra os costumes.
• Lei Maria da Penha: contém dispositivos para, expressamente, evitar a revitimização 
da depoente, como atendimento policial e pericial especializado, e a determinação 
para que sejam evitadas sucessivas inquirições sobre o mesmo fato.
• Lei nº 13.431/17 (Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente): dispõe,
expressamente, que a revitimização da criança e do adolescente é um tipo de
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Manual de Criminologia • Mariana Barros Barreiras
violência institucional que deve ser evitada, e disciplina a escuta especializada 
e o depoimento especial. 
• Lei nº 14.245/21 (Lei Mariana Ferrer): nas audiências e, em especial, nas que 
apurem crimes contra a dignidade sexual, todas as partes e demais sujeitos pro-
cessuais presentes no ato deverão zelar pela integridade física e psicológica da 
vítima, sob pena de responsabilização civil, penal e administrativa, sendo vedadas: 
manifestações sobre circunstâncias ou elementos alheios aos fatos objeto de 
apuração nos autos; e a utilização de linguagem, de informações ou de material 
que ofendam a dignidade da vítima ou de testemunhas.
VÍTIMO-DOGMÁTICA
Implicações que a Vitimologia causou na dogmática penal, sobretudo a partir da 
Alemanha na década de 1990. Analisa a contribuição da vítima para a ocorrência de 
um crime e o consequente impacto na dosimetria da pena. Se a vítima renuncia às 
medidas de autoproteção disponíveis e, consequentemente, abandona o bem jurídico, 
a responsabilidade penal do autor deve ser eximida ou atenuada. 
• Visão vítimo-dogmática moderada, ou fraca: o comportamento da vítima somente
pode repercutir no âmbito da dosimetria da pena. É a corrente majoritária (Art.
59 do CP; Hillemkamp; Hassemer).
• Visão vítimo-dogmática radical, ou forte: não é adequado, sequer, impor pena se
a vítima não necessita ou não merece proteção. A corresponsabilidade da vítima
implica a exclusão do crime, pela atipicidade (Schünemann, Roxin). É criticada
por impor pesada carga de responsabilidade penal sobre a vítima: “blaming the
victim” (culpando a vítima).
DESMATERIALIZAÇÃO DA VÍTIMA: 
Atualmente, vivemos em sociedades de risco: sociedade pós-industrial, altamente 
tecnológica e global, que destruiu os recursos naturais e presencia o desmoro-
namento dos sistemas sociais. População sente medo e necessidade de consumir 
segurança. Riscos são desconhecidos e incontroláveis. Surgem novas modalidades 
criminosas, de caráter supraindividual, como a econômica e a ambiental. Tendência 
de desmaterialização (liquefação, espiritualização ou dinamização) do bem jurídico 
ou da vítima. Política criminal punitiva com tipos preventivos, expansão da proteção 
de bens jurídicos coletivos, vagos. 
SELETIVIDADE DA VITIMIZAÇÃO:
» O risco de vitimização é seletivo e diferencial. Minorias e grupos marginalizados
atraem uma parcela significativa de delitos. No Brasil, os jovens negros são as
principais vítimas de homicídio. Os escassos recursos socioeconômicos das vítimas
pobres potencializam os efeitos da revitimização.
SÍNDROMES RELACIONADAS À VITIMIZAÇÃO 
» Síndrome de Estocolmo: a vítima passa a ter simpatia ou mesmo sentimento de
amor e amizade em relação ao vitimizador após longo período de intimidação.
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Cap. 6 – VITIMOLOGIA
É um afeto decorrente do instinto de sobrevivência da vítima. Comum em casos 
de sequestro, cárcere privado e agressões domésticas. 
» Síndrome de Lima: agressor desenvolve sentimentos de simpatia e cumplicidade
em relação às vítimas, e preocupa-se com o seu bem-estar.
» Síndrome de Londres: a vítima adota postura de enfrentamento com os agressores. 
» Síndrome da Mulher de Potifar: casos em que mulheres fazem falsa acusação de
estupro ou outros abusos sexuais.
DECLARAÇÃO DOS PRINCÍPIOS BÁSICOS DE JUSTIÇA RELATIVOS 
ÀS VÍTIMAS DA CRIMINALIDADE E DE ABUSO DE PODER
» ONU, 1985: Declaração dos Princípios Básicos de Justiça Relativos às Vítimas da
Criminalidade e de Abuso de Poder.
Conceito amplo de vítima: são as pessoas que, individual ou coletivamente, tenham 
sofrido um prejuízo, nomeadamente um atentado à sua integridade física ou mental, 
um sofrimento de ordem moral, uma perda material, ou um grave atentado aos seus 
direitos fundamentais, como consequência de atos ou de omissões violadores das 
leis penais em vigor num Estado membro, incluindo as leis que proíbem o abuso de 
poder. O conceito de vítima inclui também a família próxima ou as pessoas a cargo 
da vítima direta e as pessoas que tenham sofrido um prejuízo ao intervirem para 
prestar assistência às vítimas em situação de carência ou para impedir a vitimização. 
Vítimas devem ser tratadas com compaixão e respeito pela sua dignidade. Têm 
direito ao acesso às instâncias judiciárias e à obtenção de reparação através de 
procedimentos rápidos, equitativos, de baixo custo e acessíveis. 
Meios extrajudiciários de solução de conflitos (mediação, arbitragem) podem ser 
utilizados. 
Quando não for possível obter do delinquente uma indenização completa, os Estados 
devem procurar assegurar uma indenização financeira às vítimas. 
15. QUESTÕES DE CONCURSO
1. (FCC/2009/DPE-SP Defensor Público) A expressão ‘cifra negra’ ou oculta, 
refere-se
a) às descriminantes putativas, nos casos em que não há tipo culposo
do crime cometido.
b) ao fracasso do autor na empreitada em que a maioria tem êxito.
c) à porcentagem de presos que não voltam da saída temporária do
semi-aberto.
d) à porcentagem de crimes não solucionados ou punidos porque, num 
sistema seletivo, não caíram sob a égide da polícia ou da justiça ou
da administração carcerária, porque nos presídios ‘não estão todos
os que são’.
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Manual de Criminologia • Mariana Barros Barreiras
16. GABARITO COMENTADO
QUESTÃO 01. LETRA D. A cifra negra diz respeito à parcela de crimes que não 
chegam ao conhecimento da polícia, da justiça ou da administração carcerária e 
que, portanto, não são solucionados ou punidos. Trata-se, portanto, da diferença 
entre a criminalidade real e a criminalidade conhecida. Ela se deve a vários fato-
res, dentre os quais se encontra a seletividade do sistema penal, que direciona sua 
engrenagem para a parcela mais marginalizada da população. Assim, nem todas 
as pessoas que praticam atos definidos como crimes caem nos filtros do controle 
social formal. 
QUESTÃO 02. LETRA E. Em Criminologia, as cifras são usadas para expressar 
uma parcela de criminalidade que, pelas mais variadas razões, não chega ao co-
nhecimento das autoridades ou não é apurada, em consequência do efeito funil 
da seletividade penal. As cifras douradas correspondem aos crimes dos poderosos 
praticados no contexto laboral, também conhecidos como delitos do colarinho 
branco, que ficam impunes. A alternativa E é a melhor opção, mas, tecnicamente, 
nem todos os crimes do colarinho branco integram a cifra dourada, que diz respeito 
somente à diferença entre a criminalidade do colarinho branco real e criminalidade 
do colarinho branco conhecida. 
QUESTÃO 03. LETRA B. No item I, o foco principal é o abuso sexual sofrido por 
Maria. Nesse momento ela passou por um processo de vitimização primária, que é 
aquela em que o sujeito é atingido pela prática do crime ou de um fato traumáti-
co. No item II, o foco principal é a humilhação por que passou Maria em seu meio 
social. Nesse momento, ela foi alvo de vitimização

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