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GEOGRAFIA DA SAÚDE AULA 3 Prof. Thiago Fogaça 2 CONVERSA INICIAL A Geografia, por si só, é uma ciência multidisciplinar. Nesta aula, iremos discutir sobre relações entre questões de saúde e doença das populações e as inter-relações existentes entre as disciplinas tradicionais da Geografia e, também, em outras ciências, como a Epidemiologia e a Saúde coletiva. O geógrafo, ao mapear as doenças, também obtém informações que, na maioria das vezes, são sigilosas, demandando a análise e liberação por parte de comitês de ética. Além disso, existem caminhos necessários para a obtenção de dados de saúde que serão abordados nesta aula. De posse das informações, ainda é necessário o seu tratamento, para que se tornem um dado geográfico. Uma das ciências a que daremos destaque é a Saúde Coletiva, cuja estrutura está atrelada aos conhecimentos biomédicos e das ciências sociais, buscando a relação entre os elementos que caracterizam a problemática das doenças nas populações. A compreensão do contexto de disseminação de determinadas doenças também se faz necessária sob a perspectiva da Epidemiologia, ciência que esteve sempre ligada aos estudos de Geografia médica e da saúde, sendo mecanismo para fortalecer análises e contribuir em outras áreas do saber. Por fim, devido às configurações das sociedades, existem as doenças que se desenvolvem sobretudo em regiões de baixa renda e com graves problemas estruturais, necessitando de análise socioeconômica para seu entendimento. TEMA 1 – GEOGRAFIA DA SAÚDE – MULTIDISCIPLINAR Nosso primeiro tópico foi pensado para apresentar alguns exemplos e conexões entre as disciplinas de Geografia e sua relação com a saúde/doença das populações. Primeiramente, a Geografia possui suas divisões levando em consideração as ciências exatas e humanas, já se apresentando em diferentes estudos de forma multidisciplinar. Agora, pensando diretamente sobre a Geografia da Saúde, é possível apresentarmos exemplos de sua multidisciplinaridade. Iniciaremos com o contexto ambiental, que já abordamos em outro momento, mas agora com vistas a apresentar exemplos práticos da multidisciplinaridade. Em primeiro lugar, é importante pensarmos que o contexto 3 ambiental está relacionado com questões de saúde das populações a partir da paisagem, levando em consideração os elementos do clima, a vegetação e o relevo, por exemplo; eles são determinantes no cotidiano dos homens, ora se apresentando como barreira, ora facilitando a vida cotidiana. Muitos trabalhos de Geografia da Saúde abordam questões da paisagem física e sua relação com os registros de doenças, como as de climatologia e saúde, facilmente encontrados nos periódicos on-line. As doenças respiratórias, como as gripes, são comuns no inverno do centro-sul do Brasil, no entanto, em regiões de clima seco, são expressivos os problemas com alergias, por exemplo. O clima também é condicionante de doenças, direta ou indiretamente. Se pegarmos o exemplo das arbovirores (dengue, chikungunya e zika vírus) que são transmitidas por vetores (mosquito Aedes aegypti) podemos relacionar o clima como condicionante para a sobrevivência do mosquito transmissor; o Aedes aegypti tem seu desempenho facilitado em temperaturas em torno dos 20 e 30 ºC; extremos para mais ou menos são barreiras para ele. Outro exemplo de aspecto ambiental consiste no relevo, que também é responsável por condicionar aspectos do modo de vida da população, inclusive sendo um fator para o clima. No entanto, para pensarmos sobre a Geografia da Saúde e a Geomorfologia, selecionamos um exemplo prático desta relação. O exemplo consiste nos problemas de saúde da população de Cubatão (SP), que na década de 1980 apresentava níveis de poluição do ar muito acima do tolerado, deixando muitos moradores doentes. O local que se destacou com o adoecimento da população se chama Vila Parisi e se encontra na porção norte da cidade. Se pesquisarmos a Geomorfologia do local, veremos que a cidade está próxima à Serra; paralelamente a isso, ocorreu a instalação de muitas fábricas na região e, como consequência, ocorreu concentração de poluentes na superfície. O relevo pode atuar como barreira e dificultar a dissipação de poluentes. Em documento sobre a qualidade do ar em Cubatão, apresentado pelo Governo do Estado de São Paulo (CETESB, 1986), já ocorria a descrição da topografia diferenciada, tendo diferentes níveis de altitude, no intervalo entre 650 e 1.200 metros acima do nível do mar e influenciando nas correntes de ar. Devido a declividade e presença das áreas de Serra, a poluição se concentrava em determinados locais da cidade. Mais detalhes sobre o assunto podem ser encontrados nos periódicos on-line. 4 Prosseguindo, abordaremos os aspectos socioeconômicos relacionados aos estudos de Geografia da Saúde. As disciplinas de Geografia Urbana, Econômica e Regional são exemplos apresentados em publicações de geógrafos da saúde. A organização das cidades influencia na qualidade de vida da população. No exemplo anterior, sobre a Vila Parisi, podemos ainda mencionar que a população mais afetada pela poluição era de baixa renda. Graves problemas sociais são condicionantes na proliferação de doenças. Dentre elas podemos destacar problemas com resíduos sólidos, esgoto a céu aberto, qualidade da água e falta de água potável, afetando grandes contingentes populacionais pelo país, tendo em vista que a organização territorial está baseada no mercado. Os investimentos em infraestrutura e saúde, por exemplo, são maiores em áreas nobres das cidades, por exemplo. Complementando-se, a relação entre renda, escolaridade e qualidade de vida é evidente em estudos sobre doenças transmissíveis, como a dengue. Diferentes estudos identificaram que as pessoas de baixa renda e escolaridade são as mais acometidas por dengue no país. Isso ocorre devido a dinâmica de proliferação do Aedes aegypti, que deposita seus ovos em soluções líquidas (água, esgoto, entre outros), mais abundantes em regiões de vulnerabilidade socioeconômica. Nosso próximo aspecto consiste no contexto cultural. Muitas doenças são oportunistas e se manifestam, também, devido ao modo de vida das populações. No entanto, esta relação não é simples e necessita de estudos aprofundados. Porém, podemos apresentar exemplos práticos e atuais sobre o modo de vida de diferentes populações. Iniciaremos com a alimentação que nos apresenta diferentes processos e modos de obtenção e preparo dos alimentos. Em algumas culturas orientais existe o consumo de animais exóticos e que podem possuir toxinas prejudiciais ao homem; neste sentido o preparado deverá levar em consideração a eliminação destes riscos, mas, caso não ocorra, poderá ocorrer problemas de saúde. Outro exemplo que podemos apresentar consiste no comportamento dos brasileiros perante a pandemia da Covid-19 iniciada em 2019. Muitas pessoas adotaram posturas negacionistas sobre o risco de transmissão do vírus pelo ar, não utilizaram os equipamentos de segurança, como a máscara, e também não fizeram isolamento social, como preconizado pela OMS e por profissionais de saúde. Este comportamento ainda será estudado por diferentes ciências, mas é 5 diretamente relacionável à Geografia da Saúde em parceria com a Educação, no geral, e Educação em Saúde, áreas que poderiam contribuir significativamente para a consolidação da alfabetização científica e o correto uso de resultados comprovados cientificamente. Geógrafos da saúde podem aplicar questionários e entrevistas com profissionais de saúde para entender as características e modo de vida dos pacientes mais resistentes ao tratamento, por exemplo. Todos os exemplos apresentados até o momento ilustram possibilidades de estudos para geógrafos da saúde de maneira interdisciplinare que podem gerar resultados utilizados para a tomada de decisão. Estamos falando de planejamento. Estudos prévios sobre o relevo e outras condições ambientais na cidade de Cubatão poderiam ter evitado a contaminação de muitas pessoas residentes por lá. Investimento em educação e estudos mais aprofundados sobre a transmissão de doenças pela fronteira internacional poderiam ter preparado os brasileiros para lidar com a Covid-19 de forma mais efetiva, por exemplo. Em relação à dengue, investimento em infraestrutura urbana e combater a desigualdade de renda poderão contribuir para diminuir a quantidade de criadouros do vetor em áreas de fragilidade socioambiental e, assim, diminuir os registros da doença. Ambos exemplos citados são questões de planejamento. O geógrafo da saúde, a partir de uma perspectiva multidisciplinar poderá propor ações de planejamento ou fornecer subsidio para os tomadores de decisão elaborarem políticas públicas eficientes sobre diferentes temas. Em nosso próximo tópico falaremos sobre alguns desafios, mas também possibilidade de estudo para os geógrafos da saúde. TEMA 2 – DESAFIOS E POSSIBILIDADES ENTRE GEOGRAFIA E SAÚDE Para prosseguirmos em nossos estudos, passaremos a verificar algumas barreiras/dificuldades para a Geografia da Saúde como disciplina nos cursos de Geografia e possibilidades de trabalho para os futuros geógrafos. Primeiramente, devemos ter em mente que a Geografia da Saúde é uma ciência nova, datando do último século. Sua trajetória esteve ligada ao mapeamento das doenças e seu nome sofreu mudanças, passando de Geografia Médica, para Geografia da Saúde. No entanto, você encontrará textos se referindo a ela das duas maneiras, sobretudo se forem internacionais. 6 O fato de ser novidade no meio acadêmico dificulta sua inserção nos currículos básicos para o ensino de Geografia, no ensino superior. Poucas instituições dispõem da disciplina na grade fixa dos cursos e, em alguns casos, não falam sobre ela. Em outros casos, você poderá encontra-la como disciplina optativa, que não possui data fixa para ser ministrada. Estes fatos estão associados ao grupo de professores dos cursos de Geografia do país, que, na maioria das vezes, trabalham com a divisão tradicional do curso, o que pode dificultar a inserção de novas disciplinas. Além disso, se existem poucas instituições que ofertam a disciplina, serão poucos profissionais disseminando este conhecimento. Assim, existe um desafio inicial de implementação da Geografia da Saúde na grade fixa dos cursos de Geografia do país. Agora que comentamos sobre a inserção da Geografia da Saúde nos cursos de Geografia, devemos tentar extrapolar esse limite, passando para outras áreas do conhecimento. O geógrafo da saúde poderá atuar em diferentes seguimentos da sociedade, como nas Secretarias de Saúde, por exemplo, que possuem equipes multidisciplinares para combater e minimizar impactos das doenças nas sociedades. No entanto, o conhecimento do geógrafo para as questões de saúde ainda não está consolidado na sociedade, pois existe um caminho de consolidação que passará, primeiramente, pela Geografia nas instituições, para poder ser reconhecida em outros segmentos. Um exemplo prático sobre esse assunto pode ser visualizado com a pandemia da Covid-19, que teve sua problemática inserida nas escolas, mas, prioritariamente, nas disciplinas de Ciências e Biologia. Alguns desafios também foram apresentados por Connell e Walton- Roberts (2016), que evidenciaram o que foi chamado por eles de certa negligência dos geógrafos da saúde em suas pesquisas, ocorrendo maior ênfase nos processos de saúde e doença e pouca, ou nenhuma, da geografia do trabalho. Para os autores, os geógrafos não têm se dedicado ao estudo das relações de trabalho dos profissionais de saúde e sua influência nas políticas públicas, por exemplo. Assim, em nosso texto os autores surgem com uma crítica, mas gostaria de convidá-los a pensar na mesma como uma possibilidade de trabalho futuro. Prosseguindo em nossa aula, passaremos a evidenciar algumas possibilidades de trabalho para geógrafos da saúde, com ênfase naquelas evidenciadas pelos autores. 7 Nosso primeiro destaque será para as pesquisas de geógrafos da saúde cujo tema é ou se aproxima de aspectos da violência nas sociedades. Primeiramente, precisamos dar atenção ao uso da palavra violência, cuja trajetória está permeada por discussões, transformações e subdivisões. Ou seja, para deixarmos mais claro este assunto, podemos exemplificar diferenciando-se a violência física da emocional, por exemplo, que podem apresentar “gatilhos” (agentes motivadores) diferenciados. Logo, a violência pode ser diferenciada em seu agente, mas também em sua espacialidade, que fornece ao geógrafo perspectivas de trabalho, pois se tentarmos visualizar uma situação de violência em nossas cidades, provavelmente, terá local e contexto específico. A violência também possui marcador social, pois poderá se manifestar de diferentes formas, levando em consideração a estrutura de determinados grupos. Agora que refletimos sobre a violência podemos pensar sobre temas que se relacionam com o assunto, podendo sugerir pesquisas sobre grupos minoritários, como os moradores de rua e a dinâmica de uso da terra que os colocaram nesta situação; outro exemplo pode estar nas doenças psicossociais, como a depressão e suicídio (ou tentativa), que também se relacionam com processos associados a violência emocional; a violência no campo e sua relação com a propriedade da terra em diferentes regiões do país. Como segundo destaque nas possibilidades de trabalho em Geografia da Saúde, evidenciarmos o contexto das migrações. O registro da movimentação das pessoas não é simples de ser obtido e, muitas vezes, não está disponível. No entanto, como já evidenciamos anteriormente, existe uma demanda por esses fluxos, tendo em vista que o transporte de pessoas doentes tem facilitado a transmissão de doenças pelo mundo. Aproveitando o exemplo já utilizado nesta aula, temos a pandemia da Covid-19 e seu processo de transmissão iniciado na China, tendo rapidamente se espalhado para todos os países. No entanto, vale ressaltar que a dinâmica da doença é complexa e deverá levar em consideração as políticas adotadas, como fechamento das fronteiras, prevenção mediante distanciamento social e uso de equipamentos de segurança básicos, como o caso da máscara. A dinâmica de distribuição e prevalência da doença poderá trazer muitos resultados aos geógrafos da saúde, demonstrando a relevância do tema sobre migração para as questões de saúde/doença das populações. 8 Como terceira e última indicação de possibilidades de trabalho temos o contexto das paisagens terapêuticas, que consistem em locais que poderão proporcionar a cura de doenças físicas, espirituais e mentais. As paisagens terapêuticas têm ganho evidencia devido ao modo de vida das populações e, a partir disso, podem se caracterizar de diferentes maneiras. Tentaremos exemplificar com o modo de vida nos grandes centros urbanos, com a correria do dia a dia e presença de poluição visual e auditiva, por exemplo, fazendo com que seus habitantes procurem locais distantes e próximos a natureza para recarregar energias e buscar equilíbrio mental e espiritual. Aos geógrafos, este tema pode proporcionar diferentes abordagens de estudo, podendo, um deles, basear-se na experiência dos gestores de hotéis-fazenda, buscando compreender as origens do público atendido e possíveis motivações para a hospedagem. Agora que já evidenciamos alguns desafios e possibilidades para estudos em Geografia da Saúde, passaremos a verificar maneiras de obter informações sobre as doenças das populações. TEMA 3 – DESAFIOS E POSSIBILIDADES ENTRE GEOGRAFIA E SAÚDE – OBTENÇÃO DE DADOS Neste ponto de nosso estudo,já podemos falar sobre procedimentos para conseguir informações de saúde no país. No entanto, quando as pesquisas científicas levam em consideração informações sobre a população, como doenças, ou até mesmo com a coletada de dados primários por meio de entrevista ou questionários, elas deverão possuir parecer com aprovação de um ou mais Comitês ou Conselhos de Ética registrados no país. Este fato se justifica devido a necessidade de cautela e métodos que não causem algum tipo de prejuízo para as pessoas e/ou instituições envolvidas no estudo. Por exemplo, se você estiver pesquisando sobre uma doença transmissível, não poderá apresentar informações que permitam a identificação dos infectados; o mesmo vale para as entrevistas. Apenas em casos raros os entrevistados permitem que você informe seus nomes no estudo, mas os Conselhos de Ética solicitarão que eles sejam preservados e substituídos por códigos. Podemos, ainda, exemplificar sobre estudos da área de saúde, que poderão necessitar de coleta de fluídos, como o sangue humano, assim, existe a necessidade de revisão dos métodos e aprovação para sua continuidade. 9 As pesquisas que precisarão de aprovação pelos Conselhos de Ética em pesquisa deverão ser registradas pelo pesquisador principal (no ambiente serão os orientadores e/ou coordenadores de pesquisas) no website disponível em: . O registro solicitará várias etapas prevendo detalhes do projeto de pesquisa, pessoas envolvidas, método da pesquisa, entre outros. No entanto, algumas informações são importantes, como a instituição proponente, que consiste na Instituição de ensino ou pesquisa do pesquisador principal, a ou as instituições coparticipantes, que são aquelas que de forma direta ou indireta estarão participando do estudo. Para tornar o entendimento mais facilitado, utilizaremos um exemplo prático: João Silva é acadêmico do curso de Geografia da Universidade de Belém e pretende estudar os condicionantes da dengue em Belém do Pará. Antes de solicitar os dados sobre os doentes, é preciso fazer a submissão na Plataforma Brasil, para conseguir aprovação para o estudo. Como João é acadêmico, será seu orientador, um professor efetivo da Universidade de Belém, quem deverá submeter o projeto. Como serão necessários os dados de dengue de Belém, a instituição coparticipante deverá ser ou a Secretaria Municipal de Saúde de Belém de escala municipal ou a Regional de Saúde de escala regional (temos as duas opções de secretarias para solicitar dados, por exemplo). No entanto, existem duas situações que podem ocorrer: 1. João entrará em contato com a Secretaria de Saúde (municipal ou estadual) para pedir os dados de dengue e será solicitado que o Conselho de Ética vinculado à Secretaria analise o projeto. Neste caso, João e seu orientador enviarão o projeto, via Plataforma Brasil, para as secretarias, seguindo o passo a passo do Comitê que for indicado pelos profissionais de saúde. Cada Comitê possui suas regras, que podem ser bastante distintas, por isso, o pesquisador deverá buscar as informações, que estão, geralmente, de forma on-line. 2. João entrará em contato com a Secretaria de Saúde (municipal ou estadual) para solicitar os dados de dengue, mas os profissionais de saúde solicitarão que o projeto tenha sido primeiramente aprovado pelo Conselho de Ética da Universidade de Belém e, após, enviado para aprovação do Conselho de Ética vinculado à Secretaria de Saúde. Atualmente, este processo está automatizado. Assim que o projeto for 10 aprovado pelo Conselho de Ética da universidade, ela poderá encaminhar para o Conselho da Secretaria, pois estará registrada como coparticipante e previamente registrada na Plataforma Brasil. Após a aprovação e com o parecer em mãos, poderão ser solicitados os dados diretamente à Secretaria de Saúde. Outra situação que pode ocorrer é a necessidade de informações de mais de uma cidade ou região, ou até mesmo na escala nacional, o que torna o processo via Plataforma Brasil diferenciado. Primeiramente, você deverá submeter o projeto para avaliação do Conselho de ética da sua Instituição de ensino ou pesquisa e, após a aprovação, solicitará os dados via Ministério da Saúde, para dados nacionais, e Regionais de saúde, para grupos de cidades. No entanto, quanto maior o volume de informações necessárias, mais demorado e burocrático se torna o processo. No entanto, a partir de 2011, tornou possível solicitar dados via Lei de acesso a informação, o que julgo mais adequado para informações de grupos de cidades ou em escala nacional. A Lei n. 12.527, de novembro de 2011, que se refere ao acesso a informações no território nacional, consiste em grande avanço no direito dos pesquisadores em analisar aspectos da sociedade. Esta lei permite acesso aos diferentes tipos de informações. Mas como ela funciona? Primeiramente, deverá ser aberto um pedido (por meio do website disponível em: , do governo federal). Lá você deverá indicar de quais dados necessita e destacar, claramente, os objetivos do estudo e as instituições vinculadas ao mesmo; essas informações ajudam na agilidade do processo. As pessoas responsáveis pela leitura dos pedidos possuem o prazo de 60 dias para responder, no entanto, também são responsáveis por enviar seu pedido para os setores responsáveis. O processo pode demorar um pouco, mas é bastante eficiente. Por mais que a lei garanta o acesso a informação, o mesmo é facilitado se for solicitado por pesquisador vinculado a alguma instituição de ensino nacional, pública ou privada e de posse do parecer de aprovação de algum Conselho de ética envolvido no estudo. Já tivemos uma experiência com solicitação de dados em que informações sobre o zika vírus, por exemplo, foram cedidas com apenas a aprovação do Conselho de Ética da instituição na qual estudávamos. Então, você deverá se informar sobre essa necessidade. 11 Até este momento, você pode estar se questionando sobre a burocracia para elaborar estudos com base na Geografia da Saúde. A princípio, parece trabalhoso, no entanto, com o tempo estas etapas são mais tranquilas. Mas é importante prever no cronograma do estudo pelo menos três meses para a aprovação no Conselho e solicitação dos dados. Agora, se você quiser fazer algum estudo com menor aprofundamento, poderá conseguir informações sobre determinadas doenças mediante consulta on-line no DataSUS, sistema de dados de saúde do SUS, no link: . Os dados disponíveis não possuirão todas as informações registradas no sistema, como a idade, escolaridade, endereço e bairro, por exemplo, mas podem ser utilizados para comparar cidades, pelo registro histórico de doenças. Vale ressaltar que só se deve “comparar o comparável”; essa frase serve para muitos fatos da sociedade, mas para nosso estudo se relaciona ao fato de não ser possível comparar casos de doenças em cidades com características distintas, como por exemplo, uma cidade com 500.000 habitantes e outra com 50.000, pois, a dinâmica delas será diferenciada. Espero que mediante minhas contribuições vocês possam obter dados de saúde para pesquisas futuras. TEMA 4 – RELACIONANDO SABERES: GEOGRAFIA DA SAÚDE, SAÚDE COLETIVA E EPIDEMIOLOGIA SOCIAL Nesta aula, estamos enfatizando a multidisciplinaridade da Geografia da Saúde, passando pelas áreas de atuação da Geografia e estabelecendo relações com os processos de saúde/doença das populações. Agora, devemos dar atenção aos conhecimentos de outras ciências que também são essenciais para a construção de análises em Geografia da Saúde. Para tanto, falaremos da Saúde Coletiva e da Epidemiologia Social. A Saúde Coletiva foi fortalecida e difundida pelo Brasil após os anos 1970,cujo marco foi a criação da Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (Abrasco). Em um primeiro momento, ao analisarmos a junção dos dois termos (saúde + coletiva), temos condições de inferir que se trata de uma ciência que busca compreender processos de saúde/doença nas coletividades. A Saúde Coletiva é uma ciência que visa relacionar aspectos individuais (a doença) com o complexo processo coletivo de formação das sociedades, http://www2.datasus.gov.br/DATASUS/index.php?area=0203 12 levando em consideração a economia, meio ambiente e aspectos psíquicos, por exemplo, que estão presentes no contexto da saúde/doença das populações. É uma ciência que também se relaciona com outros conhecimentos de forma multidisciplinar e interdisciplinar. Muitos geógrafos da saúde têm citado e utilizado metodologias de pesquisa da Saúde Coletiva. A que daremos destaque consiste na Figura 1, com os Determinantes Sociais de Saúde (DSS), que apresentam diferentes elementos, separados por hierarquia, para auxiliar na compreensão dos processos de saúde/doença das populações. Figura 1 – Determinantes Sociais de Saúde (DSS) Fonte: CCMS, 2016. Para compreendermos melhor a dinâmica apresentada na Figura 1, partiremos de alguns exemplos práticos de possíveis processos de saúde/doença das populações. A pandemia da Covid-19 poderá nos trazer diferentes métodos de análise utilizando os DSS. Primeiro exemplo de cunho individual: Maria tem 35 anos de idade e trabalha como gerente de relacionamentos em um banco privado. Maria está grávida e possui histórico de problemas no aparelho respiratório. Ela positivou para Covid-19 e ficou hospitalizada. 13 Agora que já descrevemos uma situação individual, podemos extrapolar para o coletivo, quando pensamos nas várias Marias que tiveram a doença e viveram situações similares. A análise geográfica utilizando os DSS deverá levar em consideração: 1. Idade, sexo e fatores hereditários, já explicitados no exemplo; 2. Ambiente de trabalho; 3. Condições socioeconômicas; neste caso, se Maria perder o emprego; 4. Serviços sociais de saúde; verificar o contexto do atendimento e se Maria possui plano de saúde, por exemplo. Poderíamos elencar mais tópicos, caso Maria apresentasse outras características que afetam diferentemente seu modo de vida. No entanto, o intuito foi introduzir maneiras de estudar o caso de Maria e similares. O próximo exemplo será para identificarmos outros aspectos. João contraiu a Covid-19 no início da epidemia no Brasil. Precisou ser hospitalizado, onde permaneceu 45 dias. Mesmo se recuperando da Covid-19, João apresentou efeitos colaterais (sequelas) que impediram seu retorno ao trabalho. Seis meses após a infecção, João ainda apresenta dificuldades respiratórias que comprometeram seu trabalho na construção civil. João, entre muitos outros brasileiros, está desempregado. Seguindo a mesma lógica do exemplo anterior, precisaremos estabelecer alguns elementos essenciais: 1. Idade, sexo e fatores hereditários; 2. Redes sociais e comunitárias; auxílio em despesas básicas, por exemplo; 3. Ambiente de trabalho – formal ou informal? Poderá receber auxílio do governo? 4. Serviços Sociais de Saúde; acompanhamento após o período de internação; 5. Condições de vida e de trabalho; contexto coletivo e social, levando em consideração moradia e modo de vida. Note que são muitas variáveis que deverão ser analisadas para compreendermos aspectos geográficos utilizando os DSS como embasamento metodológico para este exemplo. Prosseguindo com nosso conteúdo, passaremos a identificar como a Epidemiologia está presente nos estudos geográficos. No entanto, iniciaremos com uma breve definição da mesma. A Epidemiologia é uma disciplina dos 14 cursos de saúde e se destina a estudar a proliferação das doenças e seus diagnósticos, mas, também, levando em consideração o modo de vida e perfil socioeconômico dos infectados, utilizando-se de métodos de análise que contemplam os determinantes e condicionantes das epidemias. A relação entre a Geografia e a Epidemiologia se faz presente pelo uso de conceitos tradicionais, como o de lugar, espaço geográfico e território, como ferramentas de caracterização dos ambientes, pessoas e doenças. Vale ressaltar que já estamos abordando as questões sociais e as territorialidades em saúde desde o início de nossos estudos, pois nossa sociedade é desigual e promove territórios mais vulneráveis a determinadas doenças. Outro destaque para a Epidemiologia foi a inserção da variável social em seus estudos, datando-se em período após anos 1970, em que o mundo viu surgir novas doenças, como o HIV. A Epidemiologia Social Crítica, conforme foi nominado essa atribuição da Epidemiologia, foi o de maior incorporação da Geografia nas questões de saúde coletiva (Faria; Bortolozzi, 2009) e possuía como principal objetivo, a análise das desigualdades na saúde, que são ocasionadas, sobretudo, pelas diferenças socioeconômicas. A junção dos conhecimentos da Saúde Coletiva e da Epidemiologia nos estudos de geógrafos se tornam maneira de avançar na proposta de investigar os condicionantes das doenças e subsidiar políticas públicas para diminuir as desigualdades e, assim, garantir melhor qualidade de vida para a população. Aproveitando as discussões sobre a questão social e a distribuição das doenças, passaremos a evidenciar aspectos da reprodução de doenças psicossociais. TEMA 5 – DESIGUALDADES SOCIAIS E AS DOENÇAS: O LUGAR E A REPRODUÇÃO DAS DOENÇAS PSICOSSOCIAIS Chegamos ao último tema de nossa aula para tratar de outros assuntos que são multidisciplinares. Vimos até o momento como a Geografia da Saúde possui condições de conversar com disciplinas da Geografia e outras ciências. Assim, para finalizarmos com o mesmo objetivo inicial, falaremos da relação com o lugar de convivência e a reprodução das doenças psicossociais, cujo tema é bastante complexo e pouco abordado por geógrafos da saúde. 15 A depressão é hoje um exemplo de doença psicossocial evidente em nossa sociedade, mas que necessita, por exemplo, que se verifique os DSS para analisar as influências do meio que ocasionam sua ocorrência. Diferentes fatores deverão ser levados em consideração, porém, o modo de vida é um condicionante essencial para esta análise. Já estudamos sobre os impactos do modo de vida na proliferação das doenças, no geral. Há que se mencionar, também, que ocorreram transformações importantes em nossas sociedades nas últimas décadas, como a industrialização, urbanização, mecanização da agricultura, entre outros. Junto com as transformações, chegaram os problemas ambientais, como os diferentes tipos de poluição (da água, ar, alimentos, sonora e visual, por exemplo), o incentivo ao consumismo e a busca pela satisfação pessoal com bens materiais, por exemplo. Todos esses fatores podem ser condicionantes para a depressão. Para tornar este texto mais próximo de nossa realidade, utilizaremos o exemplo da pandemia da Covid-19, iniciada, no Brasil, no ano de 2020. Mas porque a pandemia de uma doença poderia ser um exemplo de condicionante para doenças psicossociais? São diversas formas para estabelecermos uma relação, que poderão ser visualizados pelos exemplos a seguir. 1. Acompanhando os casos de Covid-19, acentuou-se uma crise na economia e no fechamento de muitos estabelecimentos comerciais, em sua maioria de menor porte, colaborando com o crescente aumento do desemprego. 2. A doença, que esteve sem controle no país, ocasionou mudanças na rotina dos brasileiros, com muitos serviços sendo adaptados para o modelo home office, priorizando o isolamento social preconizado pela OMS. 3. Muitas famílias perderam seus entes queridos para a doença, tendo sido registrados mais de 500.000 óbitos em 2021. Todos os exemplos apresentadosilustram um cenário de tristeza e dificuldades que as pessoas passaram a viver com a pandemia. Em reportagem elaborada por Tiago Américo, da CNN de São Paulo, deu-se destaque para o aumento no consumo de antidepressivos no ano de 2020. A venda de antidepressivos e estabilizadores de humor tiveram um aumento expressivo durante o ano passado. Um levantamento, obtido 16 com exclusividade pela CNN, do Conselho Federal de Farmácias, mostra que quase 100 milhões de caixas de medicamentos controlados foram vendidos em todo o ano de 2020 - um salto de 17% na comparação com os 12 meses anteriores. (CNN Brasil, 2021, s/p.) As variáveis geográficas presentes no modo de vida e como condicionantes para a pandemia da Covid-19 poderão ser utilizadas pelos geógrafos para analisar o impacto da doença no território e auxiliar na tomada de decisão. É importante frisarmos que as doenças psicossociais podem ter influência genética, como nos casos de bipolaridade, porém, o modo de vida e a estrutura da sociedade podem contribuir para intensificar ou amenizar sintomas. NA PRÁTICA Leia a citação a seguir: “O clima pode influenciar tanto indireta quanto diretamente a saúde das populações, podendo ser maléfico ou benéfico, dependendo do contexto de vulnerabilidade das populações” (Ayoade, 2002). Com base no trecho lido, pesquise e aponte ao menos dois exemplos dessas influências climáticas na sociedade. FINALIZANDO A Geografia já se apresenta como uma ciência inter e multidisciplinar na compreensão do espaço geográfico. Ao relacioná-la com a saúde das populações e as outras ciências da saúde, evidencia-se uma gama de atributos e possibilidades para os geógrafos da saúde atuarem. Paralelamente ao avanço das ciências sociais, da saúde coletiva e da epidemiologia, os geógrafos passaram a discutir aspectos das desigualdades que condicionam os modos de vida (Milton Santos é um personagem ímpar nesse cenário) e a interagir com maior influência nas ciências médicas. Esse fato foi apresentado com os desafios e possibilidades para o trabalho dos geógrafos da saúde e sua efetivação nas sociedades. Com base nas discussões, é necessário frisar que a saúde das populações é um misto de fatos histórico-culturais e econômicos que foram herdados desde as civilizações antigas e não devem ser reduzidos para experiências individuais, pois sua totalidade se encontra na coletividade e no ambiente em que vivem (Backes et al., 2009). No entanto, “para as ciências médicas o olhar para o indivíduo é importante, pois a partir do modo de vida é 17 possível analisar variáveis particulares, tais como hábitos alimentares, condicionamento físico, idade, sexo, raça, entre outras” (Backes et al., 2009). Além disso, a relação entre renda e escolaridade também é definidora de ambientes mais saudáveis, pois, à medida que o indivíduo adquire conhecimentos, pode alterar posturas e criar melhores condições de vida. Assim, visualizamos diferentes relações entre a Geografia da Saúde e outras ciências, apresentando exemplos práticos de sua aplicação. Esperamos ter possibilitado reflexões sobre a disciplina em sua realidade, no seu cotidiano, incentivando estudos futuros. 18 REFERÊNCIAS AYOADE, J.O. Introdução à climatologia para os trópicos. 8. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002. BACKES, M. T. S. et al. Conceitos de saúde e doença ao longo da história sob o olhar epidemiológico e antropológico. Revista de Enfermagem, Rio de Janeiro, v. 17, n. 1, p. 111-117, 2009. CCMS (Centro Cultural do Ministério da Saúde). Condições socioeconômicas, culturais e ambientais gerais. CCMS, 2016. Disponível em: . Acesso em: 5 out. 2021. CETESB. Qualidade do ar na região metropolitana de São Paulo e em Cubatão. Governo do Estado de São Paulo. Companhia Ambiental do Estado de São Paulo. 1986. Disponível em: . Acesso em: 5 out. 2021. CNN Brasil. Venda de antidepressivos cresce 17% durante pandemia no Brasil. Reportagem de Tiago Américo. 23 de fevereiro de 2021. Disponível em: . Acesso em: 5 out. 2021. CONNELL, J.; WALTON-ROBERTS, M. What about the workers? The missing geographies of health care. Progress in Human Geography. v. 40, n. 2, 2016, p. 158–176. FARIA, R.M.; BORTOLOZZI, A. Espaço, território e saúde: contribuições de Milton Santos para o tema da Geografia da Saúde no Brasil. R. 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