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Rio de Janeiro, RJ 2011 ESTRATÉGIAS DE TREINAMENTO EM HABILIDADES SOCIAIS Mônica Portella (org.) THS SUMÁRIO PREFÁCIO ...........................................................................13 INTRODUÇÃO TREINAMENTO EM HABILIDADES SOCIAIS .............................16 1 – Definindo Habilidades Sociais...................................... 17 2 – Classificações das HS ...................................................20 3 – A Nossa Classificação ...................................................23 4 – Treinamentos em Habilidades Sociais............................ 44 CAPÍTULO I COMUNICAÇÃO VERBAL .....................................................49 1 – Elementos da Comunicação.......................................... 50 2 – Importância da Comunicação Verbal ............................. 54 3 – Componentes da Comunicação Verbal .......................... 57 4 – Treinamento em Comunicação Verbal ........................... 62 5 – Diferenças no Estilo de Comunicação ........................... 71 CAPÍTULO II SENSIBILIDADE PERCEPTIVA: DECODIFICANDO E TRANSMITINDO MENSAGENS POR MEIO DA COMUNICAÇÃO NÃO VERBAL .......75 1 – Introdução...................................................................75 2 – Cuidados para Decodificação da Comunicação Não Verbal .............................................78 10 • ESTRATÉGIAS DE THS:TREINAMENTO EM HABILIDAES SOCIAIS 3 – Expressão Facial ...........................................................81 4 – O Sorriso.....................................................................83 5 – Comunicação Visual ....................................................84 6 – Paralinguagem .............................................................86 7 – A Linguagem do Corpo: Gestos e Postura...................... 92 8 – Gesticulação ................................................................94 9 – Exercícios ....................................................................98 CAPÍTULO III CAPACIDADE EMPÁTICA ...................................................107 1 – O Que é Empatia?...................................................... 108 2 – Histórico da Habilidade Empatia................................ 110 3 – Estudos e Pesquisas na Área ........................................ 116 4 – Elementos que Compõem a Empatia e Respectivas Definições ................................................................. 119 5 – O Que Gera Empatia?................................................ 122 6 – Técnicas e Estratégias para Trabalhar os Elementos que Compõem a Compreensão Empática .......................... 124 7 – Aplicação e Importância ............................................. 133 8 – Conclusões ................................................................ 134 CAPÍTULO IV ASSERTIVIDADE ...............................................................139 1 – Comportamentos e suas Consequências....................... 141 2 – Comportamentos Assertivos ....................................... 151 3 – Técnicas de Assertividade............................................ 163 4 – Considerações Finais .................................................. 179 ESTRATÉGIAS DE THS:TREINAMENTO EM HABILIDAES SOCIAIS • 11 CAPÍTULO V AUTOAPRESENTAÇÃO POSITIVA .......................................... 180 1 – Introdução................................................................. 180 2 – Elementos.................................................................. 184 3 – Primeira Impressão..................................................... 203 4 – Exercícios .................................................................. 207 CAPÍTULO VI CAPACIDADE REFORÇADORA ............................................. 214 1 – Teoria da Aprendizagem por Imitação ......................... 215 2 – Teoria do Condicionamento Operante ........................ 217 3 – Feedback .................................................................... 226 4 – Recebendo Feedbacks.................................................. 232 5 – Técnicas .................................................................... 233 6 – Conclusão ................................................................. 243 ÍNDICE REMISSIVO ........................................................ 245 COLABORADORES.......................................................... 249 CPAF-RJ............................................................................. 252 13 PREFÁCIO Em 2008, nosso percurso dentro do CPAF-RJ começou (Vanessa pelo curso de Formação em Terapia Cognitivo-Com- portamental – TCC – e Paula na 1ª turma de Pós em TCC do CPAF-RJ em parceria com a AVM e UCAM). Esse seria o pri- meiro passo de uma longa jornada que estávamos construindo no CPAF-RJ. Após o término do curso, tivemos a grata surpresa de sermos convidadas pela Prof.a Mônica Portella, Prof. Maurício Bastos e Marco Aurélio para integrar a equipe do CPAF-RJ. Desde então, não paramos. Inicialmente, fizemos parte do Grupo PFD (Grupo de For- mação de Docentes), que tinha como objetivo principal formar professores para ministrar os cursos promovidos pelo CPAF-RJ. A formação desse grupo se deve pela grande procura por cursos na área da Terapia Cognitivo-Comportamental. Esse grupo era composto por alunos que se destacavam nas turmas de pós-gradu- ação e curso de formação. Os encontros ocorriam semanalmente com a orientação da Prof.a Dra. Monica Portella e da parceira Prof. Ms. Hebe Goldfeld. O objetivo do grupo foi se ampliando e passamos a escrever artigos para jornais e revistas, organizar e con- feccionar o material didático do CPAF-RJ. Ao longo do tempo, o grupo foi se tornando cada vez mais forte e coeso e esse livro é resultado de um trabalho ao longo de meses, que só foi possível por causa do comprometimento e dedicação de toda a equipe. Hoje continuamos participando do grupo, ministramos aulas no Curso de Formação em TCC, no Curso de Extensão em TCC para Crianças e Adolescentes e na Pós-graduação em TCC. Além das aulas, estamos acompanhando turmas em supervisão de casos clínicos, orientando monografias na Pós-graduação e atu- ando no atendimento através da Clinica Convênio do CPAF-RJ. 14 • ESTRATÉGIAS DE THS:TREINAMENTO EM HABILIDAES SOCIAIS Através desses atendimentos, fazemos supervisão dos casos com o Prof. Dr. Mauricio Bastos semanalmente, que com seu enten- dimento na formulação dos casos, tem nos proporcionado um grande aprendizado. Esse grupo ainda está em crescimento e expandindo sua área de atuação para além da TCC com a Psicologia Positiva. A concentração de esforços nesse sentido se faz necessária por sempre estarmos buscando inovações e atualizações para ofe- recermos maior qualificação aos nossos alunos. Esse percurso nos fez crescer pessoal e profissionalmente e esse livro é mais um passo para o nosso crescimento. Por isso, é um imenso prazer que escrevemos esse prefácio. Este é o segundo livro que o CPAF-RJ está publicando com a participação de seus professores e colaboradores e vem atender mais uma vez a solicitação por material atual e de quali- dade. O livro é constituído por uma coletânea de capítulos escritos pela equipe liderada pela Prof.a Dra. Mônica Portella, composta por professores e colaboradores do CPAF-RJ. Nesse livro são apresentadas as habilidades sociais e a clas- sificação organizada pelo Prof.a Dra. Mônica Portella, numa linguagem didática e simples. Esse livro será de grande impor- tância para pessoas que apresentam deficit em alguma habilidade e para as pessoas em geral que desejam aprender e/ou melhorar suas habilidades sociais. Visto que pessoas socialmente hábeis apresentam melhores relações interpessoais e maior desenvol- vimento profissional. Além disso, essa leitura oferece diversas técnicas e as pos- síveis aplicações dessas habilidades sociais em seus diversos con- textos, como na área profissional, social, afetiva, familiar, entre outras. Através dos exercícios propostos em cada capítulo, vocêmanter um volume apropriado nos mo- mentos críticos. Algumas pessoas não conseguem manter esse volume adequado quando recusam pedidos, pedem algo ou manifestam opinião pessoal, onde abaixam ou elevam sua voz. Ou seja, seu volume de voz não fica de acordo com a mensagem dita. Essas pessoas devem ser treinadas a manter o volume adequado quando manifestam condutas críticas. Pode-se utilizar um gravador para o treinamento, pois ele proporciona uma retroalimentação direta e imediata sobre seu volume de voz. 1.2 – Regulação da Fala As pessoas tendem a regular sua fala de acordo com a mensagem, conteúdo e o interlocutor. Dessa maneira, fala-se baixo em um teatro e alto em um bar. Conversa-se vagarosa- mente à saída do trabalho e apressadamente quando se despede de alguém (DEL PRETTE; DEL PRETTE, 2001). 1.3 – Duração da Fala É o tempo que um dos interlocutores permanece falando. Uma pessoa que fala em demasia sem conceder ao outro a opor- tunidade de falar pode gerar aborrecimento e dificultar intera- ções futuras. Existem outros elementos da comunicação como a pausa, tom de voz, velocidade, timbre, fluência, etc. que serão explo- rados no capítulo sobre comunicação não verbal. 2 – Importância da Comunicação Verbal A comunicação eficaz é essencial nas relações humanas. A seguir exploraremos sua importância entre os casais, no am- biente de trabalho e entre pais e filhos. CAPÍTULO I – COMUNICAÇÃO VERBAL • 55 Segundo Geiss & O’Leary (1981 apud DATTILIO; PADESKY, 1995) tanto os terapeutas quanto os casais citam dificuldades de comunicação como o problema mais frequente e prejudicial nos relacionamentos interpessoais. E segundo Coleta (1991, apud VIEIRA, 2005) os principais motivos de sucesso conjugal são compreensão e diálogo entre os cônjuges. Segundo Silva & Vandenberghe (2008) a falta de habili- dade de comunicação se torna particularmente destrutiva, po- dendo gerar, potencializar ou manter problemas conjugais. Por outro lado, a comunicação eficaz pode ser um dos pré-requisitos para uma boa negociação. Algumas pessoas expressam as opiniões de modo vago, falam muito sem chegar ao que interessa, se perdem em detalhes triviais e acham que o parceiro deve apreender o que estão ten- tando dizer. Beck (1995) cita em seu livro Para Além do Amor uma pesquisa realizada por uma psicóloga que constatou que os casais infelizes entendiam menos o que cada um queria dizer do que os casais felizes. Provavelmente isso ocorre devido aos erros cog- nitivos (erros de pensamento) do emissor e do receptor. É comum escutarmos entre os casais frases do tipo: “Meu marido é surdo. Nunca ouve o que eu digo”. “Ele nunca diz o que pretende”. “Ele sempre fica na defensiva quando peço alguma coisa”. Tais afirmações são características de problemas de comunicação que muitas vezes conduzem a frustrações e hos- tilidades e assim maiores dificuldades de comunicação (BECK, 1995). “O desenvolvimento de uma relação depende, em ampla medida, do que os parceiros fazem juntos e, especialmente, do que dizem um ao outro e de como dizem” (STEEVE DECK apud DEL PRETTE; DEL PRETTE, 2004, pág. 79). 56 • ESTRATÉGIAS DE THS:TREINAMENTO EM HABILIDAES SOCIAIS Segundo Tess & Savoia (2004), dificilmente casais que não tenham uma boa comunicação ou que tenham ressentimentos e até mesmo raiva permeando o relacionamento poderão dar prazer um ao outro e se sentir confortáveis na relação sexual. A falta de comunicação afeta os relacionamentos e faz com que as pessoas “suponham” o que comportamento do outro significa. Por exemplo, Fernando interpretou a perda de interes- se de Amanda como uma forma passiva de puni-lo, de fazê-lo sentir-se culpado por gritar com ela. Guilherme acreditava que quando Patrícia se mostrava fria, tentava controlar a natureza de sua atividade sexual, forçando-o a ser mais romântico. Bianca interpretava o interesse sexual oscilante de Alexandre como sinal de que ele não se importava mais com ela. A boa comunicação é ainda muito importante para a inte- gração de qualquer grupo de trabalho. A comunicação é de extrema importância para o desenvolvimento do negócio, cri- ando na empresa um dos maiores desafios ao administrador de recursos humanos (CARVALHO, 1995). Uma situação de risco para as empresas é quando ocorrem as falhas de comunicação do seu pessoal. Muitos dos problemas existentes numa organização podem ser oriundos da falta de comunicação (má comunicação) ou das distorções nelas con- tidas. Ao tratar da comunicação nas organizações soluciona-se, em muitos casos, antigos e persistentes problemas, que podem dar lugar a pessoas e ambientes mais leves e motivados, propor- cionando maior produtividade. A comunicação verbal é também muito importante na relação pais-filhos. Bohanek et al. (2006 apud CIA; PAMPLIN; DEL PRETTE, 2006) relatam que uma comunicação adequa- da, onde os pais ajudam os filhos a identificarem emoções, os CAPÍTULO I – COMUNICAÇÃO VERBAL • 57 aconselham, com expressividade emocional positiva e que estão dispostos a conversar com eles, auxilia na melhor interação social destes e na menor probabilidade de apresentarem problemas de comportamento. Cia, Pamplin & Del Prette (2006) revelaram em uma pes- quisa com 110 crianças, que a comunicação pais-filhos foi posi- tivamente relacionada com o desenvolvimento de habilidades sociais nas crianças. Verificou-se que, quanto mais expressivos os indicadores de comunicação e participação dos cônjuges em relação aos filhos, melhor o repertório de habilidades sociais das crianças. Por outro lado nota-se que crianças que não pos- suem tais habilidades possuem mais propensão de desenvol- verem Fobia Social. A seguir traremos os principais componentes da comu- nicação verbal. 3 – Componentes da Comunicação Verbal 3.1 – Iniciar, Manter e Encerrar Conversações 3.1.1 – Iniciar A habilidade de iniciar, manter e encerrar conversas varia de acordo com a cultura. Caballo (2008) afirma que a maneira adequada de se iniciar uma conversação depende ainda de algu- mas variáveis contextuais como local (ônibus, trabalho, uma festa), horário do dia (manhã, almoço, etc.) a pessoa em questão (superior, subordinado, mulher, homem) etc. Existem diferentes maneiras de se iniciar uma conversa. Gambrill e Richey (1985 apud CABALLO, 2008) relatam as seguintes: a) Fazer perguntas ou comentários sobre a situação em que se está envolvido. 58 • ESTRATÉGIAS DE THS:TREINAMENTO EM HABILIDAES SOCIAIS b) Fazer elogios sobre algum aspecto de seu comportamento, aparência ou qualquer outro atributo. c) Fazer uma observação ou pergunta casual sobre o que alguém está fazendo. d) Perguntar se pode juntar-se à outra pessoa ou pedir à outra pessoa que se junte a ele. e) Pedir ajuda, conselho, opinião ou informação à outra pessoa. f ) Oferecer algo a alguém. g) Compartilhar experiências, sentimentos ou opiniões pes- soais. h) Cumprimentar outra pessoa e apresentar-se (neste caso a comunicação não verbal é importante, como por exem- plo, quando faz-se a saudação com a mão como cumpri- mento). Os mesmos autores sugerem, ainda, algumas regras básicas para iniciar conversações como: ser positivo, ser direto, cultivar uma perspectiva dupla, antecipar uma reação positiva, demonstrar senso de humor, utilizar frases iniciais curtas, perguntar a si como responderia, fazer perguntas com final aberto, insistir, cultivar a curiosidade, sorrir e olhar para as pessoas, não intimidar, apro- ximar-se de pessoas que parecem amigáveis, selecionar objetivos alcançáveis, usar o estilo próprio e utilizar a informação livre. Garner (1981 apud CABALLO, 2008) destaca três temas de aproximação numa interação: a situação (melhor maneira de se aproximar), a outra pessoa e si mesmo e ainda três maneiras de começar a conversa: fazer uma pergunta, dar uma opinião e assinalar um fato. Se, mesmo seguindo todas as regras básicas, a pessoa for repelida, é possível que a outra pessoa esteja de mau humor ou que tenha interpretado mal algum comentário e recuse qualquer aproximação. Desenvolver habilidadessociais é um treinamen- to, sem a prática não existe aquisição dessa habilidade. CAPÍTULO I – COMUNICAÇÃO VERBAL • 59 3.1.2 – Manter Há diversas formas de manter uma conversação, como dizer algo e perguntar de imediato à outra pessoa seu ponto de vista, revelar informação pessoal como gostos e atitudes (autorreve- lação). Outro recurso para manter conversações consiste em não responder às perguntas com um “sim” ou “não”, mas colocar o ponto de vista de maneira que a outra pessoa tenha algo a res- ponder. Também é válido se utilizar de perguntas que requeiram mais que um simples “sim” ou “não” (perguntas com final aberto). Algumas vezes será conveniente mudar o conteúdo da conver- sação para dar mais dinâmica e renovar a conversação. Para Caballo (2008) algumas formas de se manter uma conversação são: a) Discutir sentimentos, suposições ou impressões mútuas. b) Compartilhar pensamentos e opiniões pessoais sobre um assunto. c) Intercâmbio mútuo de feitos, dividir informações obje- tivas sobre um tema. d) Compartilhar fantasias, sonhos, imagens, metas ou desejos. e) Compartilhar atividades recentes ou atividades passadas. f ) Compartilhar fatos engraçados, contar histórias diver- tidas. 3.1.3 – Encerrar As conversas têm um limite temporal e é importante apren- der a terminar aquelas de que não gostamos, prolongar as que nos são agradáveis, saber agendar futuros contatos e recusar pedidos de encontros posteriores que não interessem. Algumas pessoas têm grandes dificuldades em encerrar conversas e deixam para que o interlocutor as façam, o que pode gerar transtornos caso esse não queira. 60 • ESTRATÉGIAS DE THS:TREINAMENTO EM HABILIDAES SOCIAIS Segundo Del Prette & Del Prette (2001) a comunicação não verbal, como gestos (olhar o relógio, pegar a bolsa, etc.), mudança de postura, direção do olhar, além de verbalizações e entonações demonstram que a pessoa quer encerrar a conversa. Em situações onde as pessoas estão frente a frente é mais fácil perceber que a outra pessoa quer encerrar. Já numa conversa ao telefone é necessário utilizar a comunicação verbal, ou seja a mensagem fica mais explícita. Por exemplo: “Bem, ficamos por aqui, foi bom falar com você.” 3.2 – Fazer Perguntas O uso de perguntas é essencial nas interações humanas, pois é através delas que obtemos informações sobre o que dese- jamos. Além disso, fazer perguntas demonstra que a pessoa não é autocentrada, que ela tem interesse pelo outro e que está envol- vida (DEMARAIS; WHITE, 2005). Entretanto, muitas pessoas possuem deficits nesse comportamento ou o utilizam de maneira inadequada. As perguntas podem ser fechadas ou abertas. As perguntas com final fechado são as que quem responde não tem alternativa além da oferecida por quem pergunta, ou seja tem geralmente uma resposta curta e direta. Como por exemplo: sim, não, con- cordo. As perguntas que começam por “onde”, “quando” e “quem” são normalmente fechadas assim como as que podem ser respon- didas por “sim” ou “não”; as que oferecem duas ou mais alternati- vas, ou as que pedem que identifiquemos algo. Como exemplos de perguntas com finais fechados temos: “Quem fez a mo- nografia”? Resposta: “João”. Ou ainda: “Você gosta da sua es- cola?” Resposta: “Sim”. As perguntas com final aberto são as que podem ser res- pondidas de diversas maneiras, deixando a resposta aberta CAPÍTULO I – COMUNICAÇÃO VERBAL • 67 mostram que estão prestando atenção, como “mm-hum”, “sei”, “ah tá”, “entendi”. Ver capítulo Capacidade Reforçadora para obter mais informações sobre a importância do reforço verbal. 4.3 – Técnicas para Manutenção de Conversações 4.3.1 – Livre Informação ou Informação Gratuita A livre informação ou informação gratuita é quando as pessoas oferecem informação que não foi pedida e nem atende às perguntas ou comentários em questão no momento. Segundo Smith (1997), a informação gratuita fornece assunto para con- versa e evita os silêncios embaraçosos que geram pensamentos do tipo: “E agora, o que vou dizer?”. Além disso, quando pres- tamos atenção e estimulamos a informação gratuita, facilitamos que a outra pessoa fale de si mesma e demonstramos interesse pelo que é importante para ela. Também é considerada infor- mação gratuita muitos sinais não verbais: a roupa, os traços físicos, sorrisos etc. A técnica da informação gratuita nos permite reconhecer as simples deixas de um interlocutor numa interação social que indica o que interessa e o que é importante para ele. Com a prá- tica da informação gratuita diminuímos a timidez para a con- versa e estimulamos o interlocutor a falar mais facilmente sobre si mesmo. Exemplo: “Você mora aqui perto da casa do Tom?” “Não, eu moro na beira da praia da Barra.” (informação gratuita). “Deve ser muito agradável poder desfrutar da orla da praia para caminhar...” (utilização da informação gratuita fornecida na fala anterior). 68 • ESTRATÉGIAS DE THS:TREINAMENTO EM HABILIDAES SOCIAIS 4.3.2 – Autorrevelação ou Informação Pessoal Consiste em dar informações a nosso respeito, o que pensa- mos, sentimos ou como agimos. Em uma conversa é importante que os participantes façam, pelo menos, alguma autorrevelação para que a relação possa se desenvolver num crescente. À medida que compartilhamos algo sobre nós mesmos, é possível atingirmos níveis maiores de amizade e de intimidade porque dividimos sentimentos, fantasias, gostos, desejos, objetivos a curto e a longo prazo, e ao agirmos desta forma, facilitamos à outra pessoa contar mais coisas sobre si (alguns autores chamam de “reciprocidade”). É preciso ressaltar que não se pode apressar a intimidade, portanto, nos primeiros contatos, a convenção cultural é falar sobre aspectos superficiais e pouco comprometedores e aos pou- cos as revelações vão se tornando mais íntimas. Geralmente, evitamos pessoas que se colocam íntimas muito depressa, por- que partimos do pressuposto que elas esperam níveis de inti- midade que não queremos corresponder. O ideal é que a autor- revelação se dê simetricamente para que se construa uma relação de reciprocidade. Por exemplo: Rita está contando para Luiza sobre um terrível assalto que sofreu. Luiza resolveu então fazer uma autorre- velação sobre um assalto que ela vivenciara a fim de confortar Rita. 4.3.3 – As Pausas Finais Ocorrem quando nenhuma das duas partes tem mais nada a dizer sobre o assunto. Geralmente, os temas de conversação su- perficial como o tempo, o custo de vida ou o filme exibido no dia anterior podem ser sustentados durante apenas alguns minutos. Quando um tema parece ter se esgotado pode-se tentar recuperar a conversa voltando a um assunto anterior já abordado CAPÍTULO I – COMUNICAÇÃO VERBAL • 69 ou a algum tema abordado em conversas anteriores. Por exem- plo, depois da pausa do lapso final, pode-se dizer: “a propósito, estávamos falando no início da conversa”, ou ainda podemos intro- duzir um novo tema dizendo: “está bem, mas há outro assunto do qual não falamos ainda”. Dessa forma conseguiremos estender a conversa, caso contrário, a mesma terminará ou vagará sem rumo ao redor de um assunto já esgotado. Portanto é interes- sante ter alguns temas em mente para usar nessas situações. 4.3.4 – Os Silêncios São chamados também de pausas naturais e ocorrem nor- malmente nas conversações oferecendo um lapso de tempo. Os silêncios servem para refletirmos sobre o que foi dito, para fazermos perguntas ou para mudarmos de assunto. Para muitos, esses silêncios produzem ansiedade, mas é im- portante entendermos que não precisamos preencher cada mo- mento da conversa com palavras. É valioso aprender a identifi- car quando se dá uma pausa natural – por exemplo, quando uma das pessoas dá uma pausa para respirar, ou quando está orga- nizando seus pensamentos – para que uma pessoa se introduza em uma conversação. O silêncio ajuda a organizar o pensamento e manter a con- versação; e faz a outra pessoa falar. A seguir apresentaremos uma lista de comportamentos que devem ser evitados, os chamados comportamentos tóxicos. 4.4– Comportamentos Tóxicos e Comunicação Verbal Segundo Karl Albrecht (2006), os comportamentos tóxi- cos são características de pessoas que alienam a outra. A seguir apresentaremos um quadro de comportamentos considerados tóxicos e de comportamentos salutares, que são formas de cons- truir relacionamentos interpessoais empáticos (ver capítulo Capacidade Empática). 70 • ESTRATÉGIAS DE THS:TREINAMENTO EM HABILIDAES SOCIAIS Quadro 3: Comportamentos Tóxicos x Comportamentos Salutares. Adaptado de Karl Albrecht (2006). Comportamentos Tóxicos Lançar farpas verbais. Perder facilmente o controle. Entrar em disputas com pessoas. Discordar como rotina. Gabar-se. Quebrar promessas e acordos. Monopolizar a conversa. Interromper com frequência. Mudar de assunto capricho- samente. Queixar-se demais. Induzir a culpa nos outros. Ridicularizar os outros. Fulminar ideias. Dar conselhos indesejados. Comportamentos Salutares Gracejar construtivamente. Evitar reações automáticas (impulsivas). Cooperar, fazer críticas positivas. Concordar, quando possível. Compartilhar sucesso alheio. Prometer o que vai cumprir. Compartilhar o “tempo no ar”. Ouvir os outros. Ater-se ao assunto. Fazer sugestões construtivas. Persuadir honestamente, negociar. Apoiar os outros, simpatizar. Adiar o julgamento, ouvir. Oferecer informações e ideias. A seguir traremos um exemplo de como podemos trans- formar atitudes tóxicas em atitudes salutares que propiciem a mu- dança de um estado mental de padrões inflexíveis para um estado mental de abertura e reciprocidade, isto é, de atitudes empáticas. No comportamento tóxico de “matar as ideias dos ou- tros”, temos alguns comportamentos verbais como, por exemplo, diante de uma ideia: “É uma boa ideia, mas...”; “Isso não vai dar certo aqui!”; “Já tentamos isso antes...”; “Custa caro demais”; “É complicado demais”; “Não é prático”; “Não temos tempo!”; “Não vão aceitar”; “É muito arriscado”. Para modificar esses comportamentos tóxicos, temos uma técnica variante da Reestruturação Cognitiva, técnica básica da CAPÍTULO I – COMUNICAÇÃO VERBAL • 71 Terapia Cognitivo-Comportamental. Essa envolve propor ques- tões que coloquem a outra pessoa em um estado mental de re- ceptividade aos novos pensamentos ou ideias, e a outras possíveis e viáveis soluções. Por exemplo: “Mudei de ideia sobre isso, desde que soube que...”; “Essa ideia pode parecer antiquada, por isso permita-me explicá-la antes que reaja”; “Tenho uma ideia que gostaria de compartilhar com você alguma hora”; “Gostaria de obter sua ajuda em uma ideia que gostaria de desenvolver”; “Posso fazer uma pergunta?”; “Eis uma ideia semi- pronta, talvez você consiga aprimorá-la”; “Gostaria de dar um passo para trás e esclarecer um certo ponto”; “Não sei muito a esse respeito. E você?”; “Quais opções você vê a essa altura?” 5 – Diferenças no Est ilo de Comunicação É interessante observar que existem algumas diferenças na comunicação entre homens e mulheres. Beck (1995) cita as pesquisas de Maltz e Borker que descobriram que as mulheres fazem mais perguntas por interpretarem como um sinal de carinho e preocupação, portanto pensam: “Se eu não perguntar, ele vai achar que eu não me importo”. Já os homens vêem como intromissão e invasão de privacidade, portanto pensam: “Se ela quiser me dizer alguma coisa, vai me dizer sem eu perguntar”. As mulheres tendem a usar maior número de expressões vocais para encorajar as respostas do outro, já o homem não as utilizará para indicar que está ouvindo e sim apenas quando estiver concordando com a outra pessoa. Portanto, o homem poderá se sentir traído quando souber que ela não estava concor- dando, ela apenas estava demonstrando interesse, já a mulher poderá sentir-se ignorada e desprezada devido a falta de ex- pressão vocal do parceiro. 72 • ESTRATÉGIAS DE THS:TREINAMENTO EM HABILIDAES SOCIAIS Os homens costumam tecer comentários durante as con- versas sem esperar que a outra pessoa termine de falar. As mu- lheres não fazem isso e se sentem incomodadas. Saber que existem essas diferenças entre os sexos ajuda as pessoas a entenderem o estilo de falar de cada um e não tomá-lo como ofensa. A comunicação verbal é essencial em nossas vidas. Ela estabelece as relações sociais, promove vínculos e nos faz reco- nhecermos como seres humanos. As pessoas que não sabem se comunicar adequadamente podem apresentar muitas dificul- dades ao longo da vida. Por fim, é importante ressaltar que assim como a comu- nicação verbal, a comunicação não verbal é essencial para a compreensão da mensagem. Para uma comunicação eficaz é necessário que o verbal e não verbal estejam de acordo um com o outro. No próximo capítulo abordaremos a Comuni- cação Não Verbal. Referências Bibliográficas BECK, A. Para Além do Amor. Como casais podem superar os desen- tendimentos, resolver conflitos e encontrar uma solução para os pro- blemas de relacionamento através da Terapia Cognitiva. Rio de Janeiro: Record – Rosa dos Tempos, 1995. CABALLO, V. Manual de Avaliação e Treinamento das Habilidades Sociais. São Paulo: Ed. Santos, 2008. _______________. 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Pragmática da Comu- nicação Humana. São Paulo: Cultrix, 1993.poderá praticar e expandir o seu repertório de habilidades sociais. ESTRATÉGIAS DE THS:TREINAMENTO EM HABILIDAES SOCIAIS • 15 Por fim, não podemos deixar de agradecer a Prof.a Dra. Mônica Portela, que esteve a frente nessa jornada de trabalho, nos incentivando, apoiando, orientando e principalmente nos dando oportunidades essenciais para nosso desenvolvimento como profissionais. Agradecemos também ao Prof. Dr. Maurício Bastos e ao Prof. Marco Nascimento pela oportunidade de esta- mos fazendo parte dessa equipe e por nos passar seus ensina- mentos. Agradecemos a Prof. Ms. Hebe Goldfeld pela orien- tação, compreensão, carinho e pela alegria que contagia todos nós. Agradecemos aos outros membros da equipe, pelo com- panheirismo, amizade e força que nos faz seguir em frente. Esperamos que esse livro seja um, dentre tantos trabalhos que possamos desenvolver juntos. Prof.a Esp. Paula Fortuna Prof.a Esp. Ms. Vanessa Karam 16 Introdução Treinamento em Habilidades Sociais Prof.a Dra. Mônica Portella & Esp.: Conrado Padula As relações interpessoais representam uma parte essencial da atividade humana, e o transcorrer de nossas vidas irá depender, em grande parte, do desenvolvimento das habilidades sociais (HS). Ou seja, as relações interpessoais são parte integrante da natureza humana e permeiam toda a nossa vida, estando presente de maneira direta ou indireta nas diversas etapas do nosso de- senvolvimento. Este capítulo possui vários objetivos, tendo como meta principal apresentar os principais tipos ou dimensões compor- tamentais que abrangem as habilidades sociais. Além disso, apre- sentaremos ao leitor uma visão do que são as habilidades sociais, explorando definições e classificações. A seguir, apresentaremos, de maneira resumida, a nossa classificação e discutiremos, em linhas gerais, o Treinamento em Habilidades Sociais (THS). Finalmente, apresentaremos o percurso que seguiremos ao longo deste livro. No decorrer de nossas vidas, somos instruídos quanto a nor- mas de conduta perante pessoas, situações e em determinados contextos (regras de demonstração ou exibição), apesar disso, a con- duta interpessoal não possui um protocolo a ser seguido, uma vez INTRODUÇÃO – TREINAMENTO EM HABILIDADES SOCIAIS • 17 que está diretamente ligada a fatores culturais e sociodemográ- ficos, tornando-a situacional (CARDOSO & PORTELLA, 2010). Cada grupo cultural e social possui regras gerais de com- portamento (regras de demonstração) que funcionam como parâmetro para a avaliação da funcionalidade ou não de uma determinada conduta social (PORTELLA, 2006). Desta ma- neira, um comportamento considerado adequado em uma cul- tura, pode ser completamente inadequado em outra. Por exem- plo, cumprimentar uma pessoa com dois beijos no rosto em um primeiro encontro é adequado no Rio de Janeiro, porém esta forma de cumprimento é considerada inadequada no Texas. Segundo Alberti (1977) (citado por CABALLO, 2008) a habilidade social é uma característica do comportamento, não das pessoas; específica à pessoa e à situação, não universal; que deve ser contemplada no contexto cultural do indivíduo, assim como em termos de outras variáveis situacionais. Ela está baseada na capacidade de um indivíduo escolher livremente sua ação e é aprendida (FORTUNA & PORTELLA, 2010). 1 – Def inindo Habilidades Sociais Nas últimas décadas, um corpo consistente de teóricos vem produzindo conhecimento sobre as habilidades sociais (COX & SCHOPLER, 1995; DEL PRETTE & DEL PRETTE, 1996, 2003; 2008; LEMOS & MENESES, 2002; MARINHO, 2003; CABALLO, 2003; FALCONE, 2002; PORTELLA, 2006). No entanto, apesar dos estudos sobre HS terem ganhado força na década de 70, observamos teóricos como Wolpe (1958) e Lazarus (1966) já falando no termo “assertivo” em décadas anteriores (FORTUNA & PORTELLA, 2010). Conforme você poderá perceber a seguir não existe uma única definição para o termo habilidade social, assim como não existe consenso quanto às dimensões comportamentais das HS. 18 • ESTRATÉGIAS DE THS:TREINAMENTO EM HABILIDAES SOCIAIS De modo geral, podemos dizer que, os comportamen- tos sociais podem ser agrupados em duas classes: os antissociais e as habilidades sociais (DEL PRETTE & DEL PRETTE, 2001): a) Os comportamentos antissociais incluem diversos tipos de comportamentos agressivos, tanto verbais (ameaças, xinga- mentos, ironias) como físicos (tapas, socos, pontapés e o uso de instrumentos para ferir) e, comprometem a qualidade das rela- ções interpessoais. b) Habilidade social é a denominação dada às diferentes classes de comportamentos sociais disponíveis no repertório de uma pessoa, que contribuem para a qualidade e a efetividade das interações que ela estabelece com as demais. Tais habilidades dizem respeito a comportamentos necessários a uma relação interpessoal bem-sucedida, conforme parâmetros típicos de cada contexto e cultura, como abordado anteriormente. Caballo (2008); Fortuna & Portella (2010); Trindade Cor- rêa & Portella (2010), enumeraram diversas definições de HS encontradas através de revisão bibliográfica: “A capacidade complexa de emitir comportamentos que são reforçados, positiva ou negativamente, e de não emitir comportamentos que são punidos ou extintos pelos demais” (LIBERT & LEWINSOHN, 1973, pág. 304). “O comportamento interpessoal que implica a honesta e relativamente direta expressão de sentimentos” (RIMM, 1974, pág. 81). “A capacidade de expressar interpessoalmente sentimentos positivos e negativos sem apresentar como resultado uma perda de reforço social” (HERSEN & BELLACK, 1977, pág. 152). “A expressão adequada, dirigida a outra pessoa, de qual- quer emoção que não seja a resposta de ansiedade” (WOLPE, 1977, pág. 96). “O comportamento que permite a alguém agir de acordo com seus interesses mais importantes, defender-se sem ansie- dade inapropriada, expressar de maneira confortável senti- INTRODUÇÃO – TREINAMENTO EM HABILIDADES SOCIAIS • 19 mentos honestos ou exercer os direitos pessoais sem negar os direitos de outrem” (ALBERTI & EMMONS, 1978, pág. 2). “Um conjunto de comportamentos sociais dirigidos a um objetivo, inter-relacionados, que podem ser aprendidos e estão sob o controle do individuo” (HARGIE, SAUNDERS & DICKSON, 1981, pág. 13). “Um conjunto de comportamentos identificáveis, apren- didos, empregados pelos indivíduos nas situações interpes- soais para obter ou manter o reforço de seu ambiente” (KELLY, 1982, pág. 3). “Habilidades Sociais são classes de comportamento neces- sários para que um individuo seja socialmente competente, isto é, que ele consiga obter um desempenho satisfatório em suas relações interpessoais com um repertório rico em um conjunto de comportamentos apropriados para obter tal de- sempenho” (DEL PRETTE & DEL PRETTE, 2001). “O comportamento socialmente hábil é esse conjunto de comportamentos emitidos por um indivíduo em um contexto interpessoal que expressa sentimentos, atitudes, desejos, opini- ões ou direitos desse indivíduo de modo adequado à situação, respeitando esses comportamentos nos demais, e que geral- mente resolve os problemas imediatos da situação enquanto minimiza a probabilidade de futuros problemas” (CABALLO, 2008, pág. 6). Levando-se em consideração as definições citadas acima, neste capítulo adotaremos o conceito de habilidade social utili- zado por Del Prette & Del Prette (2001). Para melhor compreensão do conceito de habilidades so- ciais, é importante citar a diferenciação estabelecida por Del Prette & Del Prette (2008, citado por CARDOSO & PORTELLA, 2010) entre habilidades sociais, desempenho social e competência social: a) Desempenho social: refere-se à emissão de um compor- tamento ou sequência de comportamentos em uma situa- ção social qualquer. 20 • ESTRATÉGIAS DE THS:TREINAMENTO EM HABILIDAES SOCIAIS b) Habilidades sociais: refere-se à existência de diferentes classes de comportamentos sociais no repertório do in- divíduo para lidar de maneira adequada com as demandas das situações interpessoais. c) Competênciasocial: este termo possui um sentido avalia- tivo que remete aos efeitos do desempenho social nas situações vividas pela pessoa. Desta forma, entendemos que a competência social re- fere-se à avaliação de um desempenho social competente, que por sua vez necessita da presença de habilidades sociais para que seja avaliado (CARDOSO & PORTELLA, 2010). Em suma, é a presença ou a ausência de habilidades sociais no repertório comportamental de um indivíduo que determi- nará o sucesso que este obterá em suas relações interpessoais. Pessoas socialmente hábeis (ou com competência social) tendem a apresentar relações pessoais e profissionais mais produ- tivas, satisfatórias e duradouras, além de bem-estar físico e mental e bom funcionamento psicológico (DEL PRETTE & DE PRETTE, 2004). Por outro lado, deficits em habilidades sociais (principalmente de comunicação) geram dificuldades e conflitos interpessoais, pior qualidade de vida e diversos transtornos psicológicos (FORTUNA & PORTELLA, 2010). A seguir, abordaremos classificações das HS propostas por diversos autores, para posteriormente apresentar a nossa classi- ficação, que será trabalhada ao longo dos próximos capítulos deste livro (de maneira teórica e prática, na medida em que sugerimos vários exercícios para treinar as HS). 2 – Classif icações das HS Da mesma maneira que existem diversas definições para o conceito de HS, não existe um consenso no que diz respeito INTRODUÇÃO – TREINAMENTO EM HABILIDADES SOCIAIS • 21 aos comportamentos socialmente hábeis. A seguir abordaremos as classificações de alguns autores. Segundo Lazarus (1973), “a capacidade de dizer “não”, a ha- bilidade de pedir favores e fazer pedidos, a capacidade de expressar sentimentos positivos e negativos e a capacidade de iniciar, manter e terminar conversações” (LAZARUS, 1973, citado por CABALLO, 2003) constituem os elementos básicos das HS. Del Prette & Del Prette (2001; 2008) classificam HS em: HS de civilidade, HS assertivas, direito e cidadania, HS de trabalho, HS de comunicação, HS de expressão de sentimento positivo, e por fim as HS empáticas. Quadro 1: Categogias de HS segundo Del Prette & Del Prette. Os elementos das HS de civilidade envolvem compor- tamentos como, por exemplo, dizer “por favor”, agradecer, apre- sentar-se, cumprimentar e despedir-se. Os elementos das HS assertivas são: manifestar opiniões (concordar, discordar), fazer, aceitar e recusar pedidos, desculpar-se, admitir falhas, interagir com autoridade, encerrar relacionamento, expressar desagrado, pedir mudança de comportamento e lidar com críticas. As HS de trabalho são compostas por respostas como: coordenação de grupos, falar em público, resolver problemas, tomar decisões e mediar conflitos, e HS educativas. As HS de comunicação, por sua vez, compõem-se de fazer e responder perguntas, pedir e dar feedback, gratificar e elogiar e iniciar, manter e terminar uma conversa. As HS de expressão de sentimento positivo Comunicação Civilidade Empatia Expressão de Sentimento Positivo Trabalho Categorias de HS (Del Prette & Del Prette) 22 • ESTRATÉGIAS DE THS:TREINAMENTO EM HABILIDAES SOCIAIS envolvem comportamentos como, fazer amigos, expressar solida- riedade e cultivar o amor. Por fim as HS empáticas são compostas de respostas comportamentais, como por exemplo, parafrasear, entender os sentimentos dos outros, colocando-se no lugar desses e expressar apoio. A partir de uma revisão da literatura, Caballo (2008) destaca as dimensões comportamentais mais presentes e aceitas em di- versos trabalhos. São elas: as classes de HS caracterizadas por com- portamentos como: a capacidade de fazer e aceitar elogios, fazer pe- didos, expressar amor, agrado e afeto, iniciar e manter conversações, defender os próprios direitos, recusar pedidos, expressar opiniões pessoais, inclusive o desacordo, expressar incômodo ou desagrado, pedir mudança de conduta do outro, desculpar-se ou admitir ignorância e enfrentar críticas, solicitar satisfatoriamente um trabalho e falar em público. Estas dimensões comportamentais representam categorias de comportamentos que uma vez desempenhados por um indi- víduo em uma situação ou contexto específico, tornam possível avaliar se um sujeito possui ou não um comportamento social- mente hábil. Falcone e cols. (2001, citado por TRINDADE CORRÊA & PORTELLA, 2010) realizaram um estudo onde vinte HS foram identificadas e classificadas em situações sociais. As HS são: iniciar conversação; encerrar conversação; fazer pedido sem conflito de interesses; fazer pedido com conflito de interesses; fazer pedido de mudança de comportamento; recusar pedidos; responder a críticas; expressar opiniões pessoais; expressar afeto; fazer elo- gios; receber elogios; defender os próprios direitos em situa- ções nas quais são oferecidos serviços insatisfatórios; convidar alguém para um encontro; conversar com uma pessoa que está revelando um problema; fazer perguntas; cumprimentar al- guém; cobrar dívidas; habilidade de lidar com pessoas com ati- tudes grosseiras; expressar sentimentos positivos; expressar senti- mentos negativos. INTRODUÇÃO – TREINAMENTO EM HABILIDADES SOCIAIS • 23 Uma série de autores a exemplo de, Galassi & Galassi, 1977; Furhnmam & Henderson, 1984; Gay & cols, 1975; Liberman & cols, 1977; Bucell, 1979; Rinn & Markle, 1979; Michelson & cols, 1986, Lazarus, 1973; Caballo, 2003; Falcone & cols, 2001; Del Prette & Del Prette, 2008; entre outros consideram uma grande gama de respostas como socialmente hábeis. As dimensões mais comumente aceitas são: iniciar e manter conversações; falar em público; expressar amor, agrado e afeto; defender próprios di- reitos; pedir favores; recusar pedidos; aceitar elogios; expressar opiniões pessoais, inclusive discordantes; expressar incômodo, desagrado ou enfado; desculpar-se ou admitir ignorância; pedir mudança de comportamento do outro e enfrentar críticas. Elegemos a seguir os principais tipos de resposta ou di- mensões comportamentais que abrangem as habilidades sociais. 3 – A Nossa Classif icação A partir de agora, serão descritas as HS que constituem a nossa classificação. As classes de respostas a serem examinadas são: comunicação verbal; sensibilidade perceptiva ou comunicação não verbal; assertividade; capacidade reforçadora; capacidade em- pática e autoapresentação positiva. Quadro 2: Classificação das HS segundo Portella. 24 • ESTRATÉGIAS DE THS:TREINAMENTO EM HABILIDAES SOCIAIS 3.1 – Comunicação Verbal Comunicação ocorre quando duas ou mais pessoas se en- contram e trocam algum tipo de informação, faz parte da rotina do ser humano e, através dela, as pessoas se reconhecem. É um mecanismo essencial da vida e da evolução da espécie. Segundo Chiavenato (2000), a comunicação consiste na troca de informações ou mensagens entre dois ou mais indi- víduos, tornando-as comum a todas as partes. A comunicação é responsável pela formação de extensas redes de troca social que mantêm e alteram a cultura. A interação social se manifesta na comunicação entre as pessoas e é por meio dela que as pessoas manifestam seu comportamento em relação a outras (FORTUNA & PORTELLA, 2010). A habilidade social de comunicação verbal, pode ser de- finida como a capacidade de expressar verbalmente, de maneira clara e objetiva, emoções, pensamentos e desejos pessoais; porém a HS de comunicação verbal não envolve apenas a troca de pa- lavras e sim o processo de escuta, muitas vezes esquecido. Escutar ativamente em uma conversação é tão importante quanto comunicar-se com clareza e objetividade. De acordo com Del Prette & Del Prette (1999) a conver- sação verbal é munida de sinais que atuam na regulagem do inter- câmbio verbal, possibilitando a compreensão do conteúdo que está sendo comunicado. De acordo com Caballo (2003), a co- municação é empregada para uma série de propósitos que en- volvem argumentação, raciocínio, descrição de sentimentos e comunicação de ideias. Ainda de acordo com o autor, a categoria e a quantidade da fala contida nacomunicação verbal socialmente competente variará de acordo com o contexto e com o papel social dos en- volvidos na comunicação. INTRODUÇÃO – TREINAMENTO EM HABILIDADES SOCIAIS • 25 Uma boa comunicação ou comunicação clara, objetiva, na qual o outro entenda o que está sendo dito, terá como conse- quência uma reposta adequada a essa. Por outro lado, quando as pessoas não se expressam com objetividade, a tendência é que ocorram distorções e incompreensões que prejudicam a comu- nicação. De acordo com estudos, grande parte das pessoas cita a dificuldade de comunicação como um problema que atrapalha os seus relacionamentos. Segundo Geiss e O’Leary (1981, citado por DATTILIO & PADESKY, 1995), tanto psicoterapeutas quanto casais citam dificuldades de comunicação como o pro- blema mais frequente e prejudicial nos relacionamentos. E se- gundo Coleta (1991, citado por VIEIRA, 2005), os principais motivos de sucesso conjugal são compreensão e diálogo entre os cônjuges. Logo casais, pais, filhos, colegas de trabalho, líderes, colaboradores de uma empresa, psicoterapeutas, coaches, enfim qualquer pessoa ou profissional que precisa comunicar-se com eficácia pode se beneficiar do treinamento em comunicação. Algumas pessoas expressam as opiniões de maneira vaga, falam muito sem chegar ao que interessa, se perdem em detalhes triviais e acham que o interlocutor deve apreender o que estão tentando dizer (FORTUNA & PORTELLA, 2010). A esses indi- víduos falta clareza e objetividade, que podem ser adquiridas por meio do treinamento. Falhas na clareza e objetividade comprometerão a troca de informações, prejudicando o bom desenvolvimento da co- municação, e, consequentemente, a qualidade da relação. Mui- tos dos problemas que podem surgir em uma instituição ou em uma organização são oriundos da falta de comunicação ou das distorções provocadas por perturbações no processo de comu- nicação. Este fenômeno é chamado de ruído na comunicação (CARVALHO, 1995). 26 • ESTRATÉGIAS DE THS:TREINAMENTO EM HABILIDAES SOCIAIS O ruído na comunicação pode ser definido como um con- junto de barreiras, obstáculos, erros e distorções – que também envolvem os chamados erros ou distorções cognitivas – que preju- dicam o fluxo da compreensão da mensagem entre emissor e re- ceptor em qualquer ordem, provocando grandes perdas para os objetivos pessoais, grupais e organizacionais. Em outras palavras, nem sempre a ideia ou sentimento que o emissor deseja informar é exatamente aquilo que o receptor irá compreender ou decifrar. Para minimizar a ocorrência do fenômeno descrito, estudiosos de diversas áreas – destacando-se a psicologia (FORTUNA & PORTELLA, 2010, por ex.) e a administração (CHIAVENATO, 2000, por ex.) – vêm elaborando técnicas que envolvem o desen- volvimento da capacidade das pessoas de comunicar-se entre si. (Trindade CORRÊA & PORTELLA, 2010). Essas estratégias serão abordadas posteriormente no capítulo sobre Comunicação Verbal. Para Dattilio e Padesky (1995), uma boa comunicação não significa necessariamente concordância. Envolve aprender a falar e a ouvir de modo que conduzam a um mútuo entendi- mento e solução de problemas, quando existem divergências. Em síntese, a comunicação verbal é de suma importância para o estabelecimento de relações interpessoais, sendo que esta, de maneira geral, envolve a comunicação clara de sentimentos e ideias e a capacidade de argumentar, além disso esta habilidade envolve a capacidade de escuta. 3.2 – Sensibilidade Perceptiva ou Comunicação Não Verbal A Comunicação Não Verbal (CNV) pode ser definida como a capacidade de decodificar emoções e intenções das pessoas por meio de comportamentos não verbais, bem como de trans- mitir adequadamente sinais não verbais em uma interação social, de acordo com seus objetivos. Um indivíduo pode possuir deficit em qualquer uma das dimensões supracitadas, sendo que isto pode trazer inúmeros prejuízos a suas interações sociais. INTRODUÇÃO – TREINAMENTO EM HABILIDADES SOCIAIS • 27 Quadro 3: Elementos da CNV. Como estamos acostumados à comunicação verbal, quan- do se fala em comunicação não verbal, parece que se está lidando com uma dimensão meramente complementar do processo de comunicação, mas tanto a comunicação verbal, quanto a não verbal são duas modalidades do exercício da faculdade humana da linguagem. O comportamento não verbal não apenas ajusta-se à ex- pressão linguística, como também permite e favorece a expressão de intenções e de emoções. Este influencia todas as formas de relação, regulando a interação entre as pessoas. Ao participar de uma interação social, as pessoas o fazem com todo o seu “ser”, (gestos, movimentos do corpo, expressão facial, olhar) e não apenas com as palavras (PORTELLA, 2006). Comunicar-se não verbalmente é algo inevitável. Uma pessoa pode não falar, ou ser incapaz de se comunicar verbal- mente, mas ainda assim, continua emitindo mensagens não ver- bais. As mensagens não verbais, em geral, são recebidas de forma inconsciente. Ou seja, as pessoas formam impressões dos demais a partir de seu comportamento não verbal, sem entender ao certo porque acham que uma conversa é agradável, irritante etc. Conscientemente estarmos emitindo constantemente sinais não verbais (gestos, posturas, expressões faciais e sinais para- 28 • ESTRATÉGIAS DE THS:TREINAMENTO EM HABILIDAES SOCIAIS linguísticos), a maioria dos que emitimos dá-se de modo não consciente, assim, as “(...) pessoas formam impressões dos demais a partir de sua conduta não verbal, sem saber identificar o que é agradável ou irritante na pessoa, salvo que a conduta seja fa- cilmente identificável” (CABALLO, 2003, pág. 24). Segundo as pesquisas, a porcentagem de comunicação não verbal na transmissão de qualquer mensagem é muito elevada. Para Rector e Trinta (1985; 1990, citado por, Portella, 2010), os elementos não verbais da comunicação social são responsáveis por aproximadamente 65% do total das mensagens enviadas e recebidas. Grande parte da comunicação humana se passa abaixo da consciência, num nível em que a relevância das palavras é ape- nas indireta. Assim, apenas 35% do significado social de uma conversa corresponderiam às palavras pronunciadas, sendo que 65% da mensagem seriam comunicados por meio da comuni- cação não verbal. Isso demonstra a importância de emitir e ler sinais da co- municação. Entretanto devemos tomar algumas precauções ao decodificar esses sinais, como, por exemplo: a) o comportamen- to não verbal não deve ser analisado isoladamente; b) levar em conta a cultura ou subcultura na qual o indivíduo está inserido; c) considerar o contexto e situações que eles aparecem. d) Con- siderar o comportamento natural do interlocutor (PORTELLA, 2006). Esses e outros cuidados que devem ser tomados na hora de decodificar o comportamento não verbal serão trabalhados no capítulo sobre Comunicação Não Verbal. Segundo Fortuna & Portella (2010), as pessoas demonstram seu interesse pelo outro por meio de sinais não verbais, cultural- mente determinados, tais como dilatação da pupila, contatos visuais rápidos seguidos de rebaixamento das pálpebras, ges- tos, expressão facial/corporal e sorrisos. A sinalização pode infor- INTRODUÇÃO – TREINAMENTO EM HABILIDADES SOCIAIS • 29 mar disponibilidade e correspondência ou repulsão a qualquer iniciativa. Existe uma série de diferenças em relação à emissão e a de- codificação de mensagens não verbais entre homens e mulheres. Abordamos algumas dessas diferenças e seguir. As mulheres emitem e decifram melhor os sinais de co- municação não verbal. Os homens conseguem simular a lingua- gem corporal melhor. Imagens de Ressonância Magnética mos- traram que as mulheres utilizam de 14 a 16 áreas do cérebro para avaliar o comportamento das pessoas, e os homens apenas 4 a 6 áreas (PEASE, 2005). Pesquisas realizadas por psicólogos da Universidade de Harvard demonstraram de que maneira as mulheres decifram melhor os sinais não verbais. Eles mostraram filmes de curta duração com o som desligado mostrando diálogosentre homens e mulheres e os voluntários tinham que decifrar o que estava acontecendo por meio da leitura da expressão do casal. As mu- lheres fizeram leituras precisas da situação em 87% dos casos e os homens apenas 42% (PEASE, 2005, citado por, FORTUNA & PORTELLA, 2010). De acordo com Pease (2005), a mulher, quando no papel de ouvinte, usa cerca de seis expressões faciais a cada 10 segundos para refletir e realimentar as emoções da pessoa que fala. Seu rosto espelha as emoções da pessoa que fala. Os homens relutam em utilizar a técnica da realimentação facial. Entretanto as pesquisas mostram que os homens que espelham as expressões faciais das mulheres quando elas falam são considerados carinhosos, inte- ligentes, interessantes e atraentes. Em geral, um homem não faz nem um terço das expres- sões faciais das mulheres. Este fato ocorre devido a padrões evolu- cionistas. Os homens antepassados tinham que controlar suas 30 • ESTRATÉGIAS DE THS:TREINAMENTO EM HABILIDAES SOCIAIS emoções para repelir possíveis ataques por parte de estranhos. Muitas mulheres relatam que parece indiferença essa “máscara” que eles criam para demonstrar que estão no controle da situa- ção. Entretanto não significa que eles não sintam emoções. Imagens do cérebro mostram que tanto os homens quanto as mulheres são sujeitos a experimentar emoções. Goleman (1995) aponta que raramente as emoções das pessoas são postas em palavras, sendo expressas através de indí- cios, como pequenos gestos, micromudanças na expressão facial (EKMAN, 1985) que irão depender da capacidade de interpre- tação de sinais não verbais do interlocutor, para que haja com- preensão dos sentimentos do outro. Vale lembrar, que a capaci- dade de decodificar a Comunicação Não Verbal (CNV) do in- terlocutor pode ser treinada como veremos no capítulo referente a CNV. Segundo pesquisas (CONGER & CONGER, 1982; KOLKO & MILAN 1985; FARRELL & cols, 1985, etc.) citadas em Caballo (2008), os elementos mais importantes para classi- ficar uma conduta como socialmente hábil são: olhar/contato visual, conversação (conteúdo, fluência e duração), qualidade da voz e gestos com as mãos. Os componentes não verbais das HS são bastante variados de acordo com a literatura. Cabe destacar: 1) o olhar e o contato visual – forte indicativo do grau de atenção à fala do interlo- cutor; 2) o sorriso – utilizado intencionalmente para camuflar emoções, atitudes e comportamentos; 3 ) a expressão facial – que expõe as emoções universais básicas e as misturas de afeto; 4) a ges- tualidade – que soma-se à comunicação verbal, podendo substi- tuir, repetir, enfatizar, regular ou contradizer o que está sendo dito verbalmente; 5) a postura corporal – que pode comunicar sinais de interesse, amizade, aborrecimento ou aversão ao interlocutor; 6) os movimentos com a cabeça – que podem, por exemplo, negar INTRODUÇÃO – TREINAMENTO EM HABILIDADES SOCIAIS • 31 ou afirmar uma informação; 7) o contato físico sinalizando dife- rentes emoções de acordo com sua intensidade; 8) e a proxi- midade – componente estudado por Hall (1977) que o chamou de proxêmica, que pode identificar a proximidade ou a distância afetiva entre duas pessoas. Nunca é demais lembrar ao leitor que os padrões de comportamento não verbais competentes variam enormemente dependendo da cultura e da situação onde estes comportamentos aparecem. A comunicação não verbal pode ser classificada em três grandes áreas: Movimentos do Corpo – gestos e posturas; Face – expressão facial e olhar e Paralinguagem – tom de voz, pausas, volume, velocidade da fala etc (PORTELLA, 2006). Adotaremos essa classificação ao longo deste livro. Pesquisadores verificaram que dificuldade de reconhecer as emoções por meio das expressões faciais e do tom de voz demonstraram estar deliberadamente relacionadas ao pouco su- cesso nos relacionamentos pessoais. Verificou-se também uma relação entre deficit na percepção não verbal e sintomas de doen- ça mental. As pessoas com maior habilidade social gesticulavam cerca de 10% do tempo total de interação. As pessoas com menor ha- bilidade social, gesticulavam apenas durante 4% do tempo. Logo podemos perceber a HS de CNV envolve tanto demonstrar ade- quadamente sinais não verbais, quanto decodificar os mesmos. Como foi visto, o comportamento não verbal tem uma importância central no que se refere à expressão de emoções. Esses comportamentos incluem expressão facial, postura, gestos e tom de voz. Dada a importância do comportamento não ver- bal para a comunicação de estados emocionais, propõem-se que a habilidade de interpretar sinais não verbais e de emitir os mes- mos, tem um papel central na manutenção bem-sucedida de relacionamentos. 32 • ESTRATÉGIAS DE THS:TREINAMENTO EM HABILIDAES SOCIAIS 3.3 – Capacidade Empática Rogers e Rosenberg (1977) realizaram um amplo estudo relativo à empatia. Empatia significa penetrar no mundo per- ceptual do outro e, ao realizar este feito, sentir-se à vontade dentro dele. Segundo Trindade Corrêa & Portella (2010), a empatia re- quer uma constante sensibilidade em relação às mudanças veri- ficadas na pessoa, relacionadas aos significados que ela percebe e vivencia. Nesta visão, a empatia pode significar temporaria- mente viver a vida da outra pessoa, não aplicando juízos de valor mas percebendo os sentimentos e significados dos quais a pessoa não tem consciência; sem, contudo, revelá-los, pois, de acordo com os autores, isto poderia tornar-se ameaçador. Desta forma, a empatia implica avaliar em conjunto o modo como a pessoa se sente, guiando-se a partir das respostas obtidas através dela. À medida que o observador sente o mundo da pessoa, ele examina diretamente os aspectos que causam temor na vida dela, frequentemente ampliando a precisão daquilo que está sendo percebido. Rogers e Rosenberg (1977), afirmam que a empatia sig- nifica estar com o outro, deixando de lado, no momento em que o fenômeno ocorre, seus próprios valores e pontos de vista, mergulhando no mundo da pessoa sem preconceitos. “Empatia é a capacidade de compreender e sentir o que alguém pensa e sente em uma situação de demanda afetiva, co- municando-lhe adequadamente tal compreensão e sentimento” (DEL PRETTE & DEL PRETTE, 2001, pág. 86). A empatia tem aparecido como fonte de satisfação. Através da empatia é possível compreender os sentimentos e perspec- tivas da outra pessoa e experimentar para com a mesma com- paixão e preocupação com seu bem-estar (FALCONE, 1999). INTRODUÇÃO – TREINAMENTO EM HABILIDADES SOCIAIS • 33 A empatia é formada por três componentes: um cogni- tivo, que permite ao sujeito interpretar e compreender senti- mentos e pensamentos do outro; um afetivo, que possibilita experienciar a emoção do outro, mantendo controle sobre ela e um comportamental, que consiste na compreensão e sen- timentos relacionados às dificuldades ou êxito do interlocutor (FORTUNA & PORTELLA, 2010). Para Fortuna e Portella (2010), a comunicação empática pode validar o sentimento do outro; reduzir tensão; produzindo alívio e consolo, gerar disposição de partilhar as dificuldades ou êxitos; diminuir sentimentos de desvalia, culpa ou vergonha; recuperar a autoestima da pessoa envolvida; criar e intensificar um canal de comunicação entre as pessoas e predispor à analise de problemas e à busca de solução. A capacidade empática inclui comportamentos verbais – falas não avaliativas, centradas na comunicação do interlocutor, indicando reconhecimento de seu conteúdo e sinalizando dis- posição para ajudar – e comportamentos não verbais – contatos visuais, postura aberta, proximidade e gesticulação e paralinguís- ticos, como volume e velocidade moderados e pausas. Em resumo, ser empático é aceitar o outro, sabendo que não existe apenas uma única forma de ser correta, e sim várias maneiras de comportar-se. É ter a humildade de reconhecer que uma ideia contrária ao que pensa, pode ser válida para outra pessoa (TRINDADE CORRÊA & PORTELLA, 2010). O filósofo iluminista “Voltaire”, precursor das ideias deigualdade e fraternidade, expôs de modo brilhante a concepção de empatia, séculos antes de ser chamada assim, em sua frase: “Não concordo com nada do que dissestes, mas defenderei até a morte seu direito de dizer.” 34 • ESTRATÉGIAS DE THS:TREINAMENTO EM HABILIDAES SOCIAIS 3.4 – Assertividade Assertividade refere-se à expressão direta, honesta e ade- quada de sentimentos acompanhada dos comportamentos correspondentes. O comportamento assertivo é ativo, transpa- rente, e é focado na solução, não no problema. Ele não ameaça, humilha, nem viola o direito dos outros. Além disso, gera uma sensação de bem-estar e dever cumprido, embora não assegure nenhum ganho (CABALLO, 2008). A mensagem básica do comportamento assertivo é: “Isso é o que eu acho”, “Isso é o que eu sinto”, “É assim que vejo a situa- ção”, sem contudo atuar como se a pessoa estivesse certa. Existe o respeito por si próprio, ou seja, expressar suas necessidades e defender os próprios direitos e o respeito aos direitos e às necessi- dades da outra pessoa (FORTUNA & PORTELLA, 2010). Existem duas classes de afirmações que a pessoa deve ex- plorar para ser assertiva. A primeira são crenças particulares referentes a quem a pessoa é. Por exemplo: “Sinto-me bem do jeito que eu sou”; “Sou amável e capaz de amar”; “Sou uma pes- soa importante”; “Mereço o devido respeito, cuidado e atenção”. A segunda são crenças referentes às expectativas da pessoa de como deve agir. São afirmações que mostram que não é pre- ciso agradar a todos e ignorar suas vontades e desejos. Por exem- plo: “Não há problemas em dizer não aos outros”; “Faz bem para mim ter um tempo só para mim”; “Eu posso cometer erros e ainda assim me sentir amado”. Quadro 4: Ilustração do Contínuo da Assertividade. INTRODUÇÃO – TREINAMENTO EM HABILIDADES SOCIAIS • 35 O comportamento assertivo difere do passivo, onde a pessoa viola os próprios direitos por não conseguir expressar honestamente sentimentos, pensamentos e opiniões. A pessoa passiva expressa seus pensamentos e sentimentos de maneira autoderrotista, com falta de confiança (CABALLO, 2008). O comportamento passivo mostra uma falta de respeito às próprias necessidades. O objetivo é apaziguar, evitar o con- flito. A pessoa que se comporta desta maneira, em geral, não terá suas necessidades atendidas nem compreendidas, pois sua comunicação é indireta e incompleta. A pessoa agressiva, geralmente, consegue aquilo que quer, ela é direta e incisiva. Muitas vezes faz ameaças, possui um volu- me alto e a velocidade da fala é rápida. O fato é que, na maioria das vezes, o agressivo consegue sua meta, no entanto, a longo pra- zo, a agressividade tem um custo alto (PORTELLA & SANTOS, 2011). Para Caballo (2008), Smith (1997), Alberti e Emmons (2008), a raiva tem um efeito muito negativo na clareza e eficácia da comunicação com as outras pessoas. Elas prestam mais aten- ção à raiva e menos ao que está se tentando comunicar. O agres- sivo desrespeita os direitos individuais dos demais e faz com que o outro se sinta magoado, indefeso e humilhado e sua atitude gera ressentimento e frustração, sentimentos que mais tarde pode- rão retornar como vingança. A curto prazo, as consequências desse tipo de compor- tamento são resultados positivos que incluem um sentimento de poder e conquista dos objetivos e necessidades, o que acabará reforçando esse comportamento. Por outro lado, as consequên- cias a longo prazo, em geral, são negativas, como conflitos inter- pessoais, culpa, frustrações, imagem pobre de si mesmo, perda de oportunidades e solidão (FORTUNA & PORTELLA, 2010). 36 • ESTRATÉGIAS DE THS:TREINAMENTO EM HABILIDAES SOCIAIS Existem situações onde é adaptativo ser passivo e outras onde é adaptativo ser agressivo, isso dependerá do contexto e do seu objetivo numa determinada situação. Qual o comportamento mais adequado em cada situação? Isso vai depender (1o) da relação interpessoal que estamos viven- do e (2o) das nossas crenças e objetivos no que se refere à situação. Ser assertivo ou não, é um sinal de inteligência e de competência social, mas, às vezes, ser assertivo não é a coisa mais correta a se fazer (PORTELLA & SANTOS, 2010). Comportar-se assertivamente nem sempre é fácil e muitas vezes precisamos de treinamento principalmente se estivermos envolvidos emocionalmente. É relativamente fácil agir asserti- vamente com pessoas que não conhecemos e que provavelmente não iremos mais travar relações. Mas, se a pessoa em questão é do nosso círculo de relação e mais ainda quando é íntima, fica mais difícil comportar-se assertivamente. O comportamento assertivo se subdivide em categorias. Elegemos a seguir alguns comportamentos assertivos: Fazer pedidos – Inclui pedir favores e pedir ajuda. Os pe- didos devem ser claros, diretos, objetivos e não precisam de justi- ficativas ou pretextos. Pedir mudança de comportamento – Deve incluir a des- crição do comportamento que queremos suprimir, e a especi- ficação da mudança desejada. Recusar pedidos – Não devemos justificar ou dar pre- textos para a negativa e precisamos ser persistentes na resposta. Dizer não – Dizer “não” quando desejar e não se sentir culpado por fazê-lo com firmeza e usando a persistência. Expressar amor, agrado e afeto – Expressar amor, agrado e afeto de maneira adequada fortalece e aprofunda as relações. INTRODUÇÃO – TREINAMENTO EM HABILIDADES SOCIAIS • 37 Expressar incômodo, desagrado e desgosto de modo justi- ficado – Expressar e especificar o incômodo para o outro e se possí- vel assinalar consequências positivas para que motive a mudança. Fazer críticas – A crítica deve ser feita ao comportamento e não à pessoa, devemos falar do comportamento que não gos- tamos e não do que pensamos da pessoa que executa aquele com- portamento. Receber críticas – Deixar a crítica seguir até o fim para expressar o que desejamos, quer seja para nos justificarmos, quer seja para pedirmos mais informações. Resumindo, a assertividade melhora a qualidade dos rela- cionamentos, facilitando a resolução de problemas, aumen- tando o senso de autoeficácia e a autoestima. A assertividade pode ser treinada e aprendida, por meio de várias técnicas, que serão apresentadas em um capítulo sobre o tema. 3.5 – Autoapresentação Positiva A autoapresentação positiva refere-se a uma habilidade social que consiste na capacidade de apresentar-se de maneira adequada nas diferentes situações sociais, envolvendo aspectos relacionados às regras de demonstração e à aparência (PORTELLA; STINGEL & BASTOS, 2005). Pode também ser definida como as maneiras pelas quais os indivíduos buscam controlar as impres- sões pessoais para atingir determinado objetivo (LEARY, 1995). Quadro 5: Alguns elementos que envolvem a autoapresentação positiva. 38 • ESTRATÉGIAS DE THS:TREINAMENTO EM HABILIDAES SOCIAIS Os componentes que envolvem a autoapresentação posi- tiva são: a aparência (constituída pelos traços inatos e traços opcionais) e as regras de demonstração. Estes temas serão apro- fundados no capítulo sobre autoapresentação positiva. O conjunto de características que formam a aparência pessoal estará influenciando sensivelmente a qualidade de nossas relações interpessoais. A aparência pessoal é constituída das rou- pas, adornos e indicadores de cuidado pessoal, e como estes aspectos se adequam ao ambiente e ao contexto social. Além disso, a maneira como as pessoas se apresentam fornece pistas da forma como ela se vê e como gostaria de ser tratada, estando intima- mente ligada com o que a mesma transmite sobre si mesma. (DEL PRETTE & DEL PRETTE, 1999). Segundo Dimitrius (2006), a primeira coisa que as pessoas notam e examinam é a aparência. Para Schlender, Dlugolecki e Doherty (1994, citado por TRINDADE CORRÊA & PORTELLA, 2010), as pessoas de- senvolvem estratégias de autoapresentação para transmitir aos outros uma imagem positiva de si mesmas. Para os autores, a autoapresentação positiva consiste em um componente com- portamental do conceito que a pessoa forma acerca de si mesma – o autoconceito.Além do componente comportamental, o autoconceito é permeado por mais dois constructos: o ava- liativo, que refere-se a autoestima, ou seja a aceitação de si mes- mo, a autoconfiança e sentimentos de valor pessoal; e o cognitivo que constitui-se de percepções acerca dos traços, características e habilidades que a pessoa possui ou deseja possuir (SALMIVALLI, KAUKIAINEN, KAISTANIEMI & LAGERSPETZ,1999). Embora a um olhar desavisado pareça que somente o compo- nente comportamental esteja diretamente ligado com a concep- INTRODUÇÃO – TREINAMENTO EM HABILIDADES SOCIAIS • 39 ção de autoapresentação, estes três componentes, avaliativo, cognitivo e comportamental estão relacionados entre si. A principal finalidade da manipulação da aparência é a auto- apresentação, que indica como a pessoa se vê e como a pessoa gostaria de ser tratada. Aparência pode ser cuidadosamente pre- parada e tem um efeito poderoso sobre as percepções e as reações das outras pessoas (PORTELLA, 2010). Características da aparência pessoal oferecem impressões aos outros sobre vários aspectos como: atratividade, status social, inteligência, personalidade, tipo social, estilo, gostos pessoais, sexualidade, idade etc. A primeira impressão que uma pessoa forma da outra é um determinante básico para o estabelecimento das relações sociais. Na formação da primeira impressão, recortam-se as ca- racterísticas mais salientes de uma pessoa e forma-se um quadro global a partir destas características. Na formação da primeira impressão, um indivíduo volta a sua atenção para aspectos mais salientes de uma pessoa, bem como para os atributos particulares associados e a esta saliência. A informação inicial tem primazia na medida em que se criam expectativas a respeito do outro e há uma predisposição a se negar, reduzir ou suprimir quaisquer informações posterio- res que sejam incoerentes frente à primeira impressão. Ou seja, há uma tendência a se negar qualquer informação que vá contra a primeira impressão, logo podemos dizer que “a primeira im- pressão é a que fica”. Assim, nossa aparência pode revelar às pessoas como somos. Ao escolher a roupa, sapatos, corte de cabelo, maquia- gem, óculos e acessórios, devemos considerar nosso bem-estar 40 • ESTRATÉGIAS DE THS:TREINAMENTO EM HABILIDAES SOCIAIS e a impressão que desejamos provocar, pois nunca teremos uma segunda chance de provocar uma boa primeira impressão. Os cuidados que dispensamos a nossa aparência diz muita coisa a nosso respeito e poderão fazer com que as pessoas nos percebam de maneira positiva ou negativa, respeitando-nos ou não, fornecendo ou não credibilidade. Os elementos que influenciam especialmente a autoapre- sentação são: traços inatos (altura, cor dos olhos, traços faciais, entre outras características) e os traços opcionais (como a vesti- menta e os acessórios). Devemos nos lembrar, ainda, das regras de demonstração (que podem ser definidas como normas que regulam o controle do nosso comportamento e de nossas expres- sões faciais diante de situações sociais) que são um elemento constitutivo da autoapresentação positiva. Esses elementos se- rão explicados de maneira minuciosa no capítulo sobre auto- apresentação. Resumindo, a autoapresentação positiva (constituída por, traços inatos, traços opcionais e regras de demonstração), possui um consistente papel nas interações sociais, podendo influenciar diretamente o julgamento que as pessoas fazem, indicando sua posição e função social, além de comunicar múltiplas caracterís- ticas pessoais, podendo ser utilizada competentemente para maxi- mizar traços inatos e opcionais positivos e minimizar os traços inatos indesejados. 3.6 – Capacidade Reforçadora Capacidade Reforçadora, refere-se à habilidade de for- necer e de receber feedback positivo e negativo (de maneira ver- bal e não verbal, por meio de gestos, posturas, expressões faciais e paralinguagem), bem como de fornecer reforçamento, a fim de aumentar a frequência de um comportamento desejado. INTRODUÇÃO – TREINAMENTO EM HABILIDADES SOCIAIS • 41 Quadro 6: Quadro resumo da Capacidade Reforçadora. Para Fortuna e Portella (2010), dar e receber feedback (re- troalimentação) constituem habilidades essenciais para regular o próprio desempenho e os das pessoas com quem se convive, visando relações saudáveis e satisfatórias. Vale lembrar que o feedback pode ser apresentado de forma verbal ou escrita. A capacidade reforçadora não se limita apenas a capaci- dade de dar e receber feeedback, sendo que a esses comporta- mentos acrescentamos a capacidade de empregar reforços para aumentar a frequência de um dado comportamento. Entende- mos por reforçar o comportamento de uma pessoa, o manejo ade- quado de diferentes estratégias de reforçamento a fim de au- mentar a frequência de um comportamento alvo. Essas técnicas serão explicadas no capítulo sobre a Capacidade Reforçadora. A palavra feedback na língua portuguesa significa retroa- limentação e remete-se à regulagem de um sistema, onde parte da energia que sai de um determinado mecanismo retorna como entrada (DEL PRETTE & DEL PRETTE, 1999). Desta forma, para Trindade Corrêa e Portella (2010), nas relações sociais, 42 • ESTRATÉGIAS DE THS:TREINAMENTO EM HABILIDAES SOCIAIS o feedback opera no padrão comportamental, mantendo ou al- terando este padrão. Sendo assim, o feedback permite que a pes- soa regule seu comportamento de modo à ajustá-lo às demandas da interação se for necessário. Segundo Del Prette & Del Prette (2001), o feedback posi- tivo é mais eficaz pois evita ressentimentos e reações defensivas; faz com que a pessoa ouça com mais atenção, ampliando seu conhecimento sobre o próprio desempenho, motiva a pessoa a investir no aperfeiçoamento dos elementos assinalados e au- menta a probabilidade dos desempenhos valorizados voltarem a ocorrer. Fazer elogios é um tipo de feedback positivo. O elogio é en- tendido como um comentário positivo em relação a qualquer coisa feita por alguém e deve ser sincero e pertinente. A competência em fazer o elogio implica coerência entre pensar, sentir e agir e de- pende de uma discriminação sobre o que, a quem, como e quando elogiar (FORTUNA & PORTELLA, 2010). Vale lembrar, que o ato de fazer elogios também pode funcionar como reforço, aumen- tando um dado comportamento. Fazer elogios fortalece e aprofunda as relações interpes- soais. As pessoas que recebem o elogio não se sentem esqueci- das e depreciadas (CABALLO, 2008). Reagir ao elogio, ou seja, receber feedback positivo, en- volve apenas aceitar e agradecer à pessoa. Entretanto muitas pessoas têm dificuldades em responder a elogios recebidos, prin- cipalmente pessoas tímidas, com baixa autoestima e ansiedade social. O feedback negativo consiste numa crítica a um compor- tamento. Mesmo que tenhamos uma boa relação interpessoal, seremos criticados em algum momento de nossas vidas. Apesar de a crítica ser importante, algumas pessoas a recebem tentando INTRODUÇÃO – TREINAMENTO EM HABILIDADES SOCIAIS • 43 ignorá-la, negando-a, mudando de assunto, indo embora e muitas vezes a devolvendo, o que causa danos às relações. Existem algumas técnicas para se fazer uma crítica, que serão abordadas em capítulos posteriores. Quando criticadas, as pessoas, frequentemente, tornam-se hostis ou ficam na de- fensiva. Nunca é demais lembrar que, ao fornecer qualquer tipo de feedback, este deve feito ao comportamento e não à pessoa. Como explicado anteriormente, a capacidade reforçadora envolve a capacidade de manejar adequadamente reforços posi- tivos e negativos nas relações interpessoais. Portella & Taboas (1995) destacam cinco tipos de reforços: Reforço Material, Reforço Social, Reforço de Atividades, Refor- ço Simbólico e Reforço Encoberto, que podem ser empregados tanto como reforços positivos, quanto como reforços negativos. Esses conceitos e as estratégias de reforçamento serão explicados no capítulo sobre Capacidade Reforçadora. Podemos reforçar o comportamento de uma pessoa de di- versas maneiras, como por exemplo,por meio do reforço ma- terial, social, por atividade, simbólico etc. Por exemplo, uma descrição verbal ou escrita sobre o desempenho da pessoa, pode ser considerado um reforço social importante, para aumentar a frequência de um determinado comportamento. Em resumo, a utilização de reforços e de feedbacks de ma- neira adequada e competente, munido de seriedade, pode motivar as pessoas a realizar modificações positivas em seu comporta- mento, bem como a continuar realizando aquilo que já é digno de admiração. Conclui-se também que a capacidade reforçadora pode ser treinada e aprendida, favorecendo assim relações inter- pessoais mais saudáveis e proveitosas. 44 • ESTRATÉGIAS DE THS:TREINAMENTO EM HABILIDAES SOCIAIS Propomos acima nossa classificação das habilidades sociais. A seguir, antes de terminar este capítulo, gostaríamos de traçar algumas considerações sobre o Treinamento em Habilidades Sociais. 4 – Treinamentos em Habilidades Sociais O Treinamento em Habilidades Sociais consiste em um treino realizado através de diferentes estratégias comportamen- tais que visam melhorar a competência social de uma pessoa. Ele oferece destreza interpessoal/social para pessoas socialmente inadequadas e/ou para pessoas que, graças a necessidades e de- mandas pessoas ou profissionais, precisam melhorar suas habili- dades sociais. Deficits em habilidades sociais geram dificuldades e conflitos interpessoais, pior qualidade de vida e diversos problemas psico- lógicos. Deficits em habilidades sociais estão presentes em pato- logias como: fobia social, asperger, transtorno obsessivo compul- sivo, transtorno invasivo, transtorno do humor (como depressão e transtorno bipolar) etc. Logo, o treinamento em habilidades sociais pode ser empregado com pacientes portadores dos pro- blemas supracitados. Cabe ressaltar que o treinamento em habilidades sociais não é importante apenas para pessoas portadoras de grandes deficits, mas também pode ser útil para pessoas sem grandes deficits que desejam melhorar suas habilidades sociais em função de demandas pessoais ou profissionais. Quanto maior o desenvol- vimento profissional e pessoal, mais esta precisará interagir, necessitando assim de um repertório social bem desenvolvido. Segundo Lana & Portella (2010), vários estudos e pesqui- sas validam o THS para diversas populações (crianças, adoles- INTRODUÇÃO – TREINAMENTO EM HABILIDADES SOCIAIS • 45 centes, universitários, casais e idosos, entre outras), o que tem impulsionado o crescimento de programas e estudos tanto com população geral (que deseja ou precisa melhorar suas habilidades sociais), quanto clínica. De modo geral, podemos dizer que o treinamento em habilidades sociais implica em exposição a situações temidas, difíceis de enfrentar ou simplesmente que a pessoa deseje apri- moramento. O THS pode envolver elementos de redução de ansiedade (quando necessário), de situações temidas. Reavalia- ção cognitiva, reestruturação cognitiva e ensaio do comporta- mento. Antes que o treinamento em habilidades sociais se inicie, é importante um trabalho de informação ao cliente sobre a natu- reza das Habilidades Sociais, do THS em si, sobre os objetivos a alcançar e o que se espera do cliente. O trabalho motivacional é imprescindível, pois irá requerer uma grande quantidade de participação ativa da pessoa. A presente introdução teve como meta principal apresentar os principais tipos ou dimensões comportamentais que abran- gem as habilidades sociais. Além disso, apresentamos ao leitor uma visão do que são as habilidades sociais, explorando diversas definições e classificações. Apresentamos de forma resumida a nossa classificação e discutimos, em linhas gerais, o Treinamento em Habilidades Sociais (THS). A seguir, apresentaremos o per- curso que seguiremos ao longo deste livro. Este livro é comporto por 6 capítulos: Capítulo I . Comunicação Verbal – O objetivo deste capítulo é apresentar o conceito de comunicação verbal, os ele- mentos que compõe, sua importância na vida dos seres hu- manos, como ocorrem as falhas na comunicação e as principais técnicas para uma comunicação eficaz. 46 • ESTRATÉGIAS DE THS:TREINAMENTO EM HABILIDAES SOCIAIS Capítulo II. Sensibilidade perceptiva: decodificando e trans- mitindo mensagens por meio da comunicação não verbal – O ca- pítulo II tem como objetivo abordar questões relacionadas à co- municação não verbal (transmissão e identificação da linguagem não verbal), bem como discutir pesquisas a respeito deste tema. Apresentaremos, ainda, ao longo do texto, alguns exercícios, a fim de, desenvolver a comunicação não verbal. Capítulo III. Capacidade Empática – Um dos objetivos deste capítulo é fornecer aos profissionais e às pessoas de modo geral informações que enriqueçam sua prática. Outro objetivo é fazer da prática da Empatia uma ferramenta de caráter edu- cativo-terapêutico que integre programas preventivos em di- versos campos. Capítulo IV. Assertividade – O Capítulo tem como obje- tivo definir, conceituar e analisar a assertividade. Abordar, ainda, a definição dos comportamentos não assertivos (o comporta- mento passivo e agressivo), sua forma de manifestação, bem como exemplificaremos os mesmos. Em seguida apresentaremos es- tratégias de treinamento de assertividade. Capítulo V. Autoapresentação Positiva – O capítulo V tem por objetivo conceituar o que é autoapresentação posi- tiva, assim como seus componentes: a aparência, constituída pelos traços inatos e traços opcionais, e as regras de demonstração. Por fim, é inserido o tema primeiras impressões, relacionado com a autoapresentação positiva. Capítulo VI. Capacidade Reforçadora – O capítulo ana- lisa o conceito, define o tema. Passaremos pelos conceitos de feedback positivo e negativo. Apresentaremos estratégias e re- forçamento e explicaremos como pode ser utilizadas adequa- damente. Finalmente explicamos estratégias de feedbacck e de reforçamento, que podem ser utilizadas para melhorar as rela- ções interpessoais. INTRODUÇÃO – TREINAMENTO EM HABILIDADES SOCIAIS • 47 Bibliografia CARDOSO, T. F. & Portella, M. (2010), Avaliação das Habilidades Sociais de Jovens e Adultos com Défict Cognitivo: Sugestão de um Protocolo de Avaliação rara Treinamento das Habilidades Sociais. Monografia de pós-graduação AVM (Não Publicada). FORTUNA, P. & Portella, M. (2010). Treinamento em Habilidades Sociais. Em, Temas em Terapia Cognitivo-Comportamental: Vol 1. Edi- ções CPAF-RJ. KARAN, V. (2011). Auto-Apresentação Positiva. Site Psi Mais. PORTELLA, M. (2010). A Ciência de Falar em Público. Edições CPAF-RJ. PORTELLA, M. (2006). Como Identificar a Mentira: Sinais Não verbais da Dissimulação. Qualitymark. TRINDADE CORRÊA, C. P. (2010). Habilidades Sociais: Conceitua- ção, Avaliação e Treinamento. Monografia de pós-graduação AVM (Não Publicada). BANDURA, A; Modificação do Comportamento. Rio de Janeiro: In- teramericana, 1969. BECK, A.T; Cognitive Therapy and emotional disorders; New York: International Universities Press, 1976. 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Mônica Portella “Quem não se comunica, se trumbica.” (Chacrinha) Este capítulo tem como objetivo apresentar o conceito de comunicação verbal, os elementos que compõe, sua impor- tância na vida dos seres humanos, como ocorrem as falhas na comunicação e as principais técnicas para uma comunicação eficaz. A comunicação pode ser definida quando duas ou mais pessoas se encontram e trocam algum tipo de informação. Se- gundo Chiavenato (2000), significa tornar comum uma men- sagem ou informação. Ela faz parte da rotina do ser humano e é através dela que as pessoas se reconhecem. É um mecanismo essencial da vida e da evolução da espécie. As pessoas se comunicam de diversas formas ou tipos, mas a comunicação verbal oral é a mais comum e refere-se à emissão de palavras e sons que usamos para nos comunicar. Apesar dos grandes avanços tecnológicos, a palavra con- tinua a ser um dos meios de comunicação mais eficazes que existem. Esse tipo de comunicação, como todos os outros, pas- 50 • ESTRATÉGIAS DE THS:TREINAMENTO EM HABILIDAES SOCIAIS sou por diversas modificações até que se chegasse ao que temos hoje: a fala objetiva e articulada. Segundo Ordahi, Padilha & Souza (2007), nos primórdios da comunicação o homem se expressava por gestos, imagens, e sons. Só mais tarde é que o homem aprendeu a usar sinais gráficos para se referir aos objetos que conhecia pelos sentidos e que comunicava através dos gestos. A partir da comunicação verbal, o ser humano passou da inteligência concreta, limitada, ao o que é agora. E é essa forma de comunicação que o diferencia das outras espécies. Ela é responsável pela formação de extensas redes de troca social que mantém e alteram a cultura. A interação social se manifesta na comunicação entre as pessoas e é através dessa e de outros fenômenos que as pessoas manifestam seu compor- tamento em relação a outros. Uma boa comunicação, clara, objetiva, na qual o outro entenda o que está sendo dito, terá como consequência uma resposta adequada a essa comunicação. Por outro lado, quando as pessoas não se expressam com objetividade, a tendência é que hajam distorções e incompreensões que prejudicam a perfeita comunicação. Na próxima seção traremos os elementos que compõe a comunicação. 1 – Elementos da Comunicação O processo de comunicação é composto por 3 elementos: Emissor, Mensagem e Receptor. Emissor é quem produz a mensagem, codifica e transmite a mensagem. Pode ser uma pessoa ou grupo de pessoas que dese- jam exprimir seus propósitos. CAPÍTULO I – COMUNICAÇÃO VERBAL • 51 Mensagem é o conteúdo da comunicação. É a ideia que o emissor deseja comunicar. É necessário que ambos estejam dentro do mesmo contexto. Canal é o meio pelo qual a men- sagem é transmitida ao receptor, a via de transmissão, seja através de gestos, códigos, expressões faciais, linguagem oral ou escrita. Receptor é quem recebe a mensagem, a decodifica e a co- loca em ação, isto é, emite uma resposta. O Emissor precisa codificar a mensagem ou seja, o pro- cesso de codificação é a transposição das ideias e pensamentos para a mensagem a ser comunicada, pois ela necessita ser com- posta de palavras e signos para ser enviada ao receptor. É funda- mental que o emissor considere as características do receptor para codificar a mensagem, de modo que seja compreendida por ele (DORNELLES, 2004). O receptor decodifica, que é o processo de tradução das palavras e signos. Após a decodificação da mensagem pelo receptor, ocorre o feedback, que corresponde à informação que o emissor con- segue obter e pela qual sabe se a sua mensagem foi captada. Quadro 1: Elementos da Comunicação. Se qualquer um destes elementos falhar, ocorre uma si- tuação de ruído na comunicação, entendido como todo o fe- nômeno que perturba de alguma forma a transmissão da men- sagem e a sua perfeita decodificação por parte do receptor. De acordo com Carvalho (1995), o ruído é identificado na comu- nicação humana como o conjunto de barreiras, obstáculos, acréscimos, erros e distorções que prejudicam a compreensão 52 • ESTRATÉGIAS DE THS:TREINAMENTO EM HABILIDAES SOCIAIS da mensagem em seu fluxo: emissor x receptor e vice-versa. Isto significa que nem sempre aquilo que o emissor deseja infor- mar é precisamente aquilo que o receptor decifra e compreende. Com a Terapia Cognitivo-Comportamental aprendemos sobre a influência que nossas crenças têm sobre os pensamentos. Dessa forma elas irão interferir na maneira que decodificamos a mensagem do receptor. Por exemplo, através de um erro cogni- tivo (erro de pensamento) como a leitura mental, onde a pes- soa acha que sabe o que o outro está pensando, sem considerar outras possibilidades. Esse erro prejudica a comunicação e faz com que a pessoa não compreenda adequadamente o que foi dito pelo emissor. Por exemplo, Carla chega do trabalho após um dia difícil e começa a queixar-se do seu patrão. Seu marido escuta o que ela diz e pensa que ela quer abandonar o emprego e que se ela o fizer será muito difícil para ambos. Carla queria apenas em- patia por parte do marido, ela estava sofrendo e queria consolo, já o marido traduziu a queixa como uma ameaça (Erro Cog- nitivo – Leitura Mental). 1.1 – Elementos Paralinguísticos 1.1.1 – Ênfase A comunicação depende do emprego do canal vocal. São os aspectos formais da fala (o “como”) ao invés do conteúdo (o que pretendo transmitir). Os sinais vocais podem interferir no significado do que se diz e de como a mensagem é recebida. Por- tanto, devemos embutir nas palavras a inflexão de voz e o sen- timento que as caracterizam (PORTELLA, 2010) . O destaque que damos a determinadas palavras, que possuem valores mais expressivos numa frase, informa o que desejamos comunicar. CAPÍTULO I – COMUNICAÇÃO VERBAL • 53 A mesma frase com ênfase em cada palavra tem signi- ficados diferentes. Por exemplo: EU gosto de você. (outras pessoas podem não gostar, mas eu gosto) Eu GOSTO de você. (comunicando afeição) Eu gosto de VOCÊ. (não é de outra pessoa que eu gosto, é de você). No capítulo de Comunicação Não Verbal esse tema será melhor explorado e terá exercícios para facilitar a compreensão. 1.1.2 – Latência Latência é o intervalo temporal entre a apresentação de um estímulo e a resposta do interlocutor. Uma alta frequência de res- postas demoradas assim como responder rapidamente podem prejudicar as interações. Latências longas são consideradas con- dutas passivas e as curtas condutas agressivas. A latência deve adequar-se ao conteúdo da mensagem do interlocutor e ao contexto em que a interação ocorre. 1.1.3 – Volume A função do volume é fazer com que determinada men- sagem chegue a um ouvinte. Um volume baixo pode indicar submissão ou tristeza, e um volume alto pode revelar segurança, domínio, extroversão ou persuasão (CABALLO, 2008). Um volume alto, que sugere agressividade, pode prejudicar a interação humana. O volume moderado é considerado mais agradável, assim como as variações da modulação indicam au- tenticidade. Uma voz que não varia de volume torna-se desin- teressante e monótona. 54 • ESTRATÉGIAS DE THS:TREINAMENTO EM HABILIDAES SOCIAIS É importante