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BOTÂNICA AULA 1 Profª Nicole Geraldine de Paula Marques Witt 2 CONVERSA INICIAL Olá, estudante. Estamos iniciando nossas aulas e, com isso, precisamos responder a uma primeira pergunta: afinal, o que é estudado em botânica? A botânica é um dos ramos mais antigos das ciências biológicas e visa estudar todos os organismos fotossintetizantes que possuem clorofila e liberam oxigênio em seu processo de fotossíntese. Assim, os organismos que se enquadram nessa definição são: as cianobactérias (procariontes), as algas eucariontes e as plantas terrestres (briófitas, pteridófitas, gimnospermas e angiospermas). Os fungos, tradicionalmente, eram abordados pela botânica. No entanto, com o advento da microscopia e da biologia molecular, percebeu-se que esse grupo está evolutivamente muito mais próximo dos animais do que das plantas. Por isso, trataremos, sobre esses organismos, somente da sua relação ecológica com as plantas. Pensando nisso, os objetivos desta aula são: • entender, de forma resumida, como se faz a classificação biológica, com foco nos novos sistemas de classificação; • compreender a origem e a diversidade dos organismos fotossintetizantes; • elucidar a relação evolutiva entre as algas verdes e as plantas terrestres. TEMA 1 – CLASSIFICAÇÃO BIOLÓGICA Para o reconhecimento dos organismos que abordaremos, é importante examinarmos os diferentes sistemas de classificação biológica. 1.1 Breve histórico A classificação dos organismos em grupos foi algo que instigou a humanidade desde o tempo do filósofo Aristóteles (384-322 a.C.). Considerado o pai da classificação biológica, Aristóteles acreditava que existia uma escala natural na qual todos os organismos poderiam ser agrupados em ordem crescente de complexidade, tendo como base para isso os seus aspectos morfológicos. Séculos mais tarde, o naturalista sueco Carl von Linné (1707- 1778), conhecido popularmente como Lineu, estabeleceu as bases para a taxonomia moderna e fundou o sistema de nomenclatura binomial (gênero seguido de epíteto específico, p. ex.: Homo sapiens). No entanto, Lineu era 3 fixista e acreditava na imutabilidade das espécies, não se atentando assim às relações entre os seres vivos. Por isso, agrupou os organismos vivos em dois reinos: reino Animal e reino Vegetal (Lopes; Ho, 2014). Nos séculos seguintes, com o avançar do pensamento evolutivo1, as semelhanças morfológicas e estruturais passaram a ser complementadas com informações sobre as relações de parentesco evolutivo entre os grupos e a construção das filogenias dos diferentes grupos de organismos. Com isso, novos sistemas de classificação, visando a se estabelecer as principais linhas de evolução, foram propostos. Por exemplo, o do naturalista alemão Ernst Haeckel (1834-1919), que, em 1866, propôs a construção de uma árvore filogenética para ilustrar as relações existentes entre os organismos vivos, agrupando-os em três grandes grupos: plantas, animais e protistas. Adiante, Herbert Faulkner Copeland (1902-1968), utilizando-se do microscópio eletrônico, ao identificar os dois tipos celulares básicos, sugeriu a existência de um quarto reino, Monera, que abrigava todos os organismos procariontes (Lopes; Ho, 2014). Em 1959, Robert Harding Whittaker (1920-1980), utilizando critérios morfológicos e fisiológicos, distribuiu os seres vivos em cinco reinos: Monera (procariontes – bactérias e cianobactérias); Protista (unicelulares eucariontes); Plantae (multicelulares eucariontes fotossintetizantes – algas e plantas terrestres); Fungi (eucariontes unicelulares ou multicelulares heterótrofos que absorvem nutrientes do meio e possuem parede celular de quitina); Animalia (eucariontes multicelulares heterótrofos que ingerem alimento do meio) (Lopes; Ho, 2014). 1 Em 1858, Charles Darwin e Alfred Russel Wallace divulgaram as suas ideias sobre evolução por seleção natural e, em 1859, Darwin (2018) publicou a mais importante obra da biologia: A origem das espécies. 4 Figura 1 – Resumo do desenvolvimento da classificação biológica segundo Whittaker Crédito: Jefferson Schnaider. Embora bem-aceita, a proposta de Whittaker passou por inúmeras revisões e, com as contribuições de Lynn Margulis e Karlene Schwartz, que se utilizaram de dados moleculares, ultraestruturais e da teoria da endossimbiose, as plantas terrestres passaram a formar um reino exclusivo (reino Plantae) e as algas, mesmo as pluricelulares, vieram a fazer parte do reino Protoctista, chamado atualmente de Protista (Lopes; Ho, 2014). Essa é uma classificação válida e comumente utilizada. No entanto, há uma tendência para a formação de grupos cada vez mais naturais, como veremos a seguir. 1.2 Visão atual: os três grandes domínios e seus desdobramentos A disseminação do uso da biologia molecular como ferramenta para elucidar as relações evolutivas entre os organismos vivos revolucionou a sistemática e, com isso, em 1977, Carl Woese, ao comparar as moléculas de ácido ribonucleico (RNA) que formam os ribossomos, evidenciou que os eucariontes são muito próximos entre si, mas que os procariontes formam dois grupos distintos e, assim, passou a agrupar os seres vivos em três grandes domínios (categorias superiores a reinos), sendo os procariontes distribuídos nos domínios Bacteria e Archaea, enquanto os eucariontes em Eukarya (Wanderley; Ayres, 2008). 5 Figura 2 – Diagrama em forma de árvore filogenética dos três domínios da vida, conforme hipótese proposta por Woese em 1977 No âmbito do domínio Eukarya estão os reinos dos fungos, dos animais, das plantas e as diferentes linhagens sem parentesco de eucariontes sem tecido, agrupados anteriormente como protistas. A filogenia mais atual, proposta por Sandra L. Baldauf em 2003 com modificações em 2007, ao tentar elucidar as relações filogenéticas entre os membros do domínio Eukarya, organiza os seres vivos em sete grandes grupos (Fehling; Stoecker; Bauldaf, 2007), conforme ilustrado na Figura 3. Figura 3 – Representação esquemática (árvore filogenética) da filogenia atual dos eucariontes Fonte: Elaborado com base em Fehling; Stoecker; Bauldaf, 2007. 6 Entre os organismos de nosso interesse estão as linhagens classificadas como arqueoplástidas (plantas terrestres e algas verdes e vermelhas), parte dos estramenópilos, euglenídeos (discicristados) e dinoflagelados (alveolados), que em conjunto contemplam o restante da diversidade do coletivo artificial que chamamos algas. Também é grupo de interesse para a botânica as cianobactérias dotadas de células procariontes e constituintes do domínio Bacteria. É importante notar que as classificações que utilizam as relações de parentesco como critério e a análise filogenética como método (como a proposta pelo entomólogo alemão Willi Henning) representam as hipóteses acerca das relações evolutivas dos seres vivos em forma de diagramas como as árvores filogenéticas ou os cladogramas (para saber mais, acesse o item “Na prática”). TEMA 2 – ORIGEM DOS ORGANISMOS FOTOSSINTETIZANTES A fotossíntese com liberação de oxigênio foi desenvolvida cedo na evolução da vida por um grupo de procariotos, as cianobactérias, mas atualmente ocorre também em organismos eucariontes como as algas e plantas terrestres. Análises ultraestruturais e moleculares apontam que, de células de cianobactérias ancestrais, essa habilidade foi transferida lateralmente para os eucariotos pela aquisição dos cloroplastos, organelas responsáveis pela fotossíntese. Esse processo ocorreu por meio do engolfamento e retenção de uma cianobactéria de vida livre por uma célula eucariótica ancestral, segundo a teoria da endossimbiose de Lynn Margulis. Dessa linhagem de endossimbiose primária descendem as arqueoplástidas (Figura 4) e, de outros processos independentes de endossimbiose,ditos secundários, descendem as demais linhagens de algas. A base bioquímica utilizada para justificar essa teoria é a presença de clorofila a e de todo o aparato fotoquímico para o seu funcionamento, em todos esses organismos, havendo apenas variações dos pigmentos acessórios entre as linhagens, o que nos ajuda a entender as relações de parentesco entre elas (Oliveira, 2005). 7 Figura 4 – Representação esquemática da evolução dos plastídios por meio das endossimbioses primária e secundária Crédito: Jefferson Schnaider. 2.1 Cianobactérias: os primeiros fotossintetizantes As cianobactérias (domínio Bacteria, filo Cyanobacteria), antigamente classificadas como algas azuis ou cianofíceas, compreendem um grupo de microrganismos procariontes aeróbicos fotossintetizantes cuja origem foi estimada em cerca de 3,5 bilhões de anos, devido a uma descoberta de fósseis na Austrália (Pinto, 2016). Assim como os demais produtores de oxigênio, elas apresentam a clorofila a como pigmento fotossintético, associada ao pigmento vermelho, a ficoeritrina, e, de forma exclusiva, a ficocianina (cor azul). As cianobactérias tiveram um papel muito importante na história evolutiva da Terra, pois foram elas as grandes responsáveis pela liberação de oxigênio para a atmosfera, modificando grandemente o curso da vida. Atualmente, ocupam, junto às microalgas, o posto de principais produtoras de oxigênio e de matéria orgânica em ambientes aquáticos. Em solos úmidos, atuam como fixadoras de nitrogênio, podendo, ainda, estabelecer associações mutualísticas com fungos, formando os líquens. Quando em excesso, nos ambientes aquáticos, contribuem com as chamadas marés tóxicas. 8 Figura 5 – À esquerda, Nostoc, gênero colonial de cianobactérias; à direita, uma floração de cianobactérias Créditos: Elif Bayraktar/Shutterstock; PJ Photography/Shutterstock. TEMA 3 – ALGAS: GRUPO ARTIFICIAL As algas correspondem a um grande grupo de organismos com ampla distribuição, diversidade de formas, funções e estratégias de sobrevivência e que não têm origem monofilética (Bicudo; Menezes, 2010), ou seja, não possuem um ancestral comum e exclusivo. Por isso, não são um grupo válido (natural) para a atual classificação da biodiversidade. O grupo ora tratado como algas apresenta células eucariontes e organização unicelular, colonial ou pluricelular, essa última variando entre filamentos simples ou ramificados, corpo taloso (conjunto de células indiferenciadas), cenocítico (com células alongadas multinucleadas) e mesmo parenquimatoso, o mais alto grau de diferenciação celular entre as algas. Algumas formas unicelulares ou coloniais podem ser móveis, pela presença de um ou mais flagelos, enquanto outras, em conjunto com as pluricelulares, são flutuantes ou vivem aderidas ao substrato. Apresentam, ainda, órgãos de reprodução (gametângios ou esporângios unicelulares ou pluricelulares) não envolvidos por camada de células estéreis (Bicudo; Menezes, 2010), uma das características que as diferenciam dos grupos de plantas terrestres. 3.1 Distribuição e importância ecológica As algas são ubíquas e ocorrem em ampla variedade de habitats, desde aquáticos até terrestres, praticamente em todas as latitudes, longitudes e altitudes do globo (Bicudo; Menezes, 2010). Algumas vivem em associações simbióticas com os cnidários coloniais (corais), as zooxantelas, em que são importantes para a manutenção da saúde dos recifes; e outras com fungos, formando os líquens, importantes colonizadores de rochas e superfícies nuas. 9 Devido ao aumento da poluição dos oceanos, acidificação e aquecimento das águas rasas, as algas estão “saindo” dos corais, causando o branqueamento e o enfraquecimento de recifes por todo o globo. De elevada importância ecológica, algumas algas unicelulares e pluricelulares, em conjunto com as cianobactérias, constituem a parte fotossintetizante do plâncton (do grego planktos, que quer dizer errante – trata- se de um organismo que se movimenta junto com as marés), o fitoplâncton, sendo, portanto, as produtoras das cadeias alimentares aquáticas, formando o que chamamos de celeiro do mar. O zooplâncton, parte heterótrofa do plâncton, é formada por microcrustáceos, protozoários e uma variedade de organismos. No mar, a maioria dos peixes e das grandes baleias se alimentam direta ou indiretamente do plâncton (Raven; Evert; Eichhorn, 2018). Nos ambientes marinhos e dulcícolas pouco impactados por atividades antrópicas, as populações das algas e as cianobactérias planctônicas são controladas por mudanças climáticas sazonais, limitação nutricional e predação. Entretanto, em corpos aquáticos eutrofizados, principalmente pelo aporte de esgoto e fertilizantes agrícolas, certas microalgas e cianobactérias crescem em proporções indesejáveis, causando as florações. As florações das algas, eventos cada vez mais comuns, correlacionam-se com a liberação de grandes quantidades de compostos tóxicos na água, o que pode resultar na mortandade de peixes e outros animais vertebrados. Nos oceanos, algumas dessas florações são conhecidas como marés vermelhas ou marés marrons, porque a água se torna colorida devido aos pigmentos acessórios do grupo da alga predominante (Raven; Evert; Eichhorn, 2018). As algas e as cianobactérias também são importantes para a manutenção da composição atmosférica, atuando no ciclo do oxigênio e do carbono (Berchez, Ghilardi e Buckeridge, 2008). Pesquisas como a de Borges et al. (2007) indicam que o fitoplâncton marinho é responsável por fixar cerca de três quartos do gás carbônico (CO2) derivado de atividades humanas, fenômeno conhecido como sucção ou queda de CO2 e, em conjunto, as algas e as cianobactérias são os principais produtores de oxigênio. Ao longo dos costões rochosos, sujeitas às variações de marés, são encontradas diversas espécies de macroalgas bentônicas, consideradas as algas mais complexas. Fazem parte do fitobento as algas vermelhas (filo Rhodophyta), as pardas (filo Phaeophyta) e as verdes (filo Chlorophyta). 10 Ancorados mar afora, além da zona das ondas, massivos kelps pardos formam florestas oceânicas que servem de abrigo e alimentação para uma variedade de animais marinhos (Raven; Evert e Eichhorn, 2018). 3.2 Importância econômica As algas vêm sendo usadas como alimento e produto medicinal desde tempos muito antigos. Esses organismos marinhos já eram utilizados há mais de 12 mil anos no Japão e na América do Sul. Atualmente, os seus maiores consumidores ainda são os povos orientais; porém, em vários países ocidentais, as algas e seus derivados tornaram-se imprescindíveis na preparação de vários pratos da cozinha contemporânea e são adicionados à elaboração de muitos produtos alimentícios industrializados. A sua extração de ambientes naturais ainda ocorre, mas em algumas partes do mundo o cultivo de algas se tornou uma prática comum (Plastino; Chow; Oliveira, 2008). Apesar de não serem boas fontes de carboidratos, devido à difícil digestão dos polissacarídeos nelas presentes, as algas são fontes de proteínas, sais minerais e vitaminas. As macroalgas marinhas mais apreciadas fazem parte dos filos Rhodophyta (vermelhas), sendo o gênero Porphyra o da famosa alga nori utilizada em sushis e temakis; Phaeophyta (pardas), das quais os kelps (kombus – Laminaria japonica) e os wakames (Undaria pinnatifida) são regularmente consumidos como vegetais na China e no Japão; e Chlorophyta (verdes), com espécies do gênero Ulva (alface-do-mar) e outras, apreciadas como verduras (Raven; Evert e Eichhorn, 2018; Plastino; Chow e Oliveira, 2008). Além do seu consumo como alimento direto, muitas algas vermelhas e pardas produzem ficocoloides, substâncias mucilaginosas (polissacarídeos coloidais) extraídas da parede celular de alguns de seus representantes. Das vermelhas, extraem-seo ágar e a carragenina. O primeiro é comumente utilizado como meio de cultura para microrganismos e, assim como o segundo, tem ampla aplicação na indústria alimentícia como gelificante e estabilizante. Das algas pardas de diferentes gêneros de kelps, é extraído o alginato, substância muito utilizada como agente espessante e estabilizante coloidal nas indústrias alimentícia, têxtil e outras (Raven; Evert e Eichhorn, 2018; Plastino; Chow e Oliveira, 2008). 11 3.2 Reprodução e ciclo de vida A reprodução e o ciclo de vida das algas são bem variados e podem reunir três processos: vegetativo, assexuado e sexuado. O vegetativo envolve somente divisões celulares do tipo mitose, sem ocorrerem alterações no número de cromossomos das células – como exemplo, tem-se a divisão binária nas euglenofíceas e diatomáceas, algas unicelulares. Nas formas multicelulares, a reprodução vegetativa pode ocorrer por fragmentação. O processo assexuado envolve a formação de células especializadas, os esporos, que podem ser móveis (zoósporos) ou não (aplanósporos). Esses esporos, formados no interior de esporângios, carecem de fecundação e, em condições ideais, originam, por meio de divisões mitóticas, novos indivíduos (Bicudo; Menezes, 2010). Em alguns grupos de algas, está presente o processo sexuado, o qual envolve a fusão de gametas com formação de um zigoto e, algumas vezes, de um embrião. Generalizando, os gametas são formados nos gametângios masculinos (anterídios) e femininos (oogônio). Podem ser flagelados ou não, iguais na forma e no tamanho (isogametas) ou diferentes (heterogametas). A reprodução é isogâmica quando envolve isogametas, e anisogâmica ou oogâmica quando envolve heterogametas. Quando oogâmica, os gametas diferem na forma e no tamanho, sendo o masculino muito pequeno e dotado de flagelos (anterozoides) e o gameta feminino (oosfera), maior e imóvel. Em alguns representantes, a reprodução sexuada envolve a produção de fases distintas, gametófito (n) e esporófito (2n), que se alternam em ciclos de gerações isomórficas ou heteromórficas. Em geral, nas algas, a exemplo das briófitas, a fase gametofítica é mais desenvolvida que a esporofítica (Bicudo; Menezes, 2010). TEMA 4 – DIVERSIDADE DAS ALGAS As algas se distribuem em diferentes linhagens e serão tratados aqui os seus principais grupos, respeitando-se as suas relações evolutivas e filos de origem. É importante termos em mente que os critérios utilizados para a classificação das algas envolvem análises genéticas, da ultraestrutura do cloroplasto e bioquímicas dos pigmentos fotossintetizantes. Sabemos que todos os organismos estudados em nossas aulas apresentam clorofila a, mas 12 divergem quanto aos demais tipos de pigmentos acessórios, muitas vezes responsáveis pela coloração típica do grupo. 4.1 Discicristados: filo Euglenophyta Representadas por cerca de 900 espécies, as euglenas (Figura 6) são algas unicelulares, dotadas de flagelo e desprovidas de parede celular. Armazenam carboidratos na forma de paramido e apresentam estigma (sistema fotossensível). A maioria das euglenas habita água doce rica em partículas orgânicas e não apresenta pigmentos fotossintetizantes. As espécies que os apresentam, à semelhança das algas verdes, possuem clorofilas a, b e carotenoides dentro dos cloroplastos, sugerindo que essas organelas derivam de uma alga verde endossimbiótica (Raven; Evert; Eichhorn, 2018). Figura 6 – Exemplares de euglenas, ao microscópio óptico Crédito: Lebendkulturen.de/Shutterstock. 4.2 Alveolados: filo Dinophyta Os dinoflagelados ou pirrófitas (Figura 7) são, na sua maior parte, unicelulares biflagelados, que como característica única batem seus flagelos dentro de dois sulcos, localizados no interior da teca, parede formada por placas rígidas de celulose, e que, por isso, rodopiam. Os pigmentos fotossintetizantes, quando presentes, são as clorofila a, c e carotenoides como a peridinina, que confere às algas uma cor avermelhada. São conhecidas entre 2 mil a 4 mil espécies. A maioria vive em ambiente marinho, algumas em água doce e outras em simbiose, principalmente dentro de corais, com os quais as zooxantelas dividem parte dos seus fotoassimilados. Reservam amido. Outras espécies são bioluminescentes e há, ainda, aquelas que, quando em excesso (em floração), são responsáveis pelo fenômeno da maré vermelha (Raven; Evert; Eichhorn, 2018). 13 Figura 7 – A: exemplo de espécie de dinoflagelado, vista ao microscópio óptico, causador da maré vermelha; B: fenômeno da maré vermelha; C: Noctiluca sp., espécie bioluminescente; D: fenômeno da bioluminescência Créditos: Rattiya Thongdumhyu/Shutterstock; Lightspring//Shutterstock; Rattiya Thongdumhyu/Shutterstock; Shubhashish Chakrabarty/Shutterstock. 4.2 Estramenópilos: heterocontas As heterocontas são assim chamadas por apresentarem dois flagelos de diferentes estruturas e comprimentos. Análises com o microscópio eletrônico e moleculares revelaram que as diatomáceas, as crisófitas, as algas pardas e certos grupos (não discutidos por nós) estão intimamente relacionados (Raven; Evert; Eichhorn, 2018). 4.2.1 Filo Bacillariophyta: diatomáceas As diatomáceas (de 10 mil a 12 mil espécies vivas) são organismos unicelulares ou coloniais de coloração amarronzada devido à maior quantidade do pigmento fucoxantina, em relação às clorofilas a e c. Importantes componentes do fitoplâncton marinho e dulcícola, nas primeiras, são responsáveis por aproximadamente 25% da produtividade primária total da Terra e, em águas polares, representam a maior biomassa e diversidade de espécies do fitoplâncton. Na sua célula adulta, destituída de flagelos, encontramos uma parede celular constituída de sílica, dividida em duas metades. Denominadas de frústulas, essas paredes são compostas por duas valvas que se encaixam como uma placa de Petri (Raven; Evert; Eichhorn, 2018). Devido à presença de carapaça de sílica, o registro fossilífero das diatomáceas é diverso, com 14 aparecimento relativamente recente – há 250 milhões de anos, tornando-se abundante há 100 milhões de anos, durante o período Cretáceo. Para termos uma ideia, nesse período, o ambiente terrestre já exibia uma flora bastante diversificada. Figura 8 – Exemplos de diatomáceas Crédito: Dr. Norbert Lange/Shutterstock. 4.2.2 As heterocontas mais relacionadas Estudos moleculares revelaram que houve uma separação inicial das formas pigmentadas em dois ramos – uma dessas linhagens originou as diatomáceas e a outra inclui as crisofíceas, as algas pardas e demais heterocontas pigmentadas (Raven; Evert; Eichhorn, 2018). 4.2.2.1 Filo Chrysophyta As crisófitas (do grego chrysos, que significa ouro; e phyta, planta) são organismos unicelulares ou coloniais, abundantes em água doce e salgada ao redor do mundo todo. As crisófitas pigmentadas apresentam clorofila a, c e, como pigmento acessório, fucoxantina, que confere ao grupo a cor marrom- dourada. Assim como as diatomáceas, o carboidrato de reserva é a crisolaminarina. Muitas crisófitas marinhas produzem toxinas e, em ambientes eutrofizados, podem produzir as tóxicas marés marrons; em ambientes dulcícolas, também podem formar floração e causar prejuízo, como mau gosto e mau odor (Raven; Evert; Eichhorn, 2018). 15 4.2.2.2 Filo Phaeophyta: algas pardas Fazem parte do filo Phaeophyta as algas pardas (1,5 mil espécies), organismos predominantemente pluricelulares e de corpo taloso (corpo vegetativo simples, relativamente indiferenciado) com o maior grau de diferenciação celular entre as algas. As feófitas são macroalgas encontradas principalmente em zonas temperadas e polares, onde formam o fitobento, habitando os costões rochosos ou regiões mais distantes da costa, quando espécies da ordem Laminariales formam extensas coberturas,os kelps, constituídos de macroalgas de até 60 metros de comprimento. Em mares mais quentes, algumas espécies do gênero Sargassum podem formar imensas massas flutuantes. Assim como as demais heterocontas, apresentam clorofila a, c e uma grande quantidade de fucoxantina, que dá aos membros desse filo a sua cor característica, marrom-escura ou verde-oliva, e uma reserva de laminarina ou manitol. Algumas feofíceas são comestíveis e alguns gêneros de kelps produzem um material intracelular mucilaginoso chamado alginato, utilizado na indústria (Raven; Evert; Eichhorn, 2018). Figura 9 – A: laminarinas formando kelps; B: massa flutuante de Sargassum sp. em mar tropical; C: algas kombus, apreciadas na culinária oriental Crédito: Tom Ha/Shutterstock; Marshalgonz/Shutterstock; Viktor Kochetkov/Shutterstock. 4.3 Archaeplastida: plantas terrestres, algas verdes e vermelhas Archaeplastida é formado pelas plantas terrestres, algas verdes e vermelhas. Todos esses organismos, possivelmente, descendem de um mesmo ancestral que, há milhões de anos, engolfou uma cianobactéria que veio a dar origem ao cloroplasto (por endossimbiose primária). A B C 16 4.3.1 Filo Rhodophyta: algas vermelhas As rodofíceas (Figura 10) correspondem às algas vermelhas (com 4 mil a 6 mil espécies), com predominância de organização pluricelular e hábito bentônico. Abundantes em águas marinhas tropicais quentes, rasas ou profundas, apresentam cloroplasto rico em clorofila a e grande quantidade de ficobilina, pigmento que dá a cor vermelha ao grupo. O seu principal produto de reserva de carboidrato são os grânulos de amido das florídeas, bioquimicamente mais semelhante ao glicogênio do que ao amido. Na parede celular da maioria das rodofíceas encontramos, além da celulose, uma camada externa mucilaginosa, constituída de ágar ou carragenina, que confere proteção contra outros organismos que poderiam colonizar suas superfícies e reduzir a incidência de luz. Além disso, algumas espécies depositam carbonato de cálcio em suas paredes celulares, compondo o grupo das algas coralináceas. As algas vermelhas apresentam importância industrial (ágar e carragenina) e alimentícia (exemplo: alga nori) (Raven; Evert; Eichhorn, 2018). Figura 10 – Exemplares de rodofíceas componentes do fitobento Créditos: Jesus Cobaleda/Shutterstock; Steve Estvanik/Shutterstock. 4.3.2 Filo Chlorophyta: algas verdes As clorofíceas (17 mil espécies) correspondem a um grupo muito diversificado tanto na forma e organização, quanto no hábito de vida (planctônico ou bentônico) e ambiente (Raven; Evert; Eichhorn, 2018). Embora a maioria seja aquática, com predominância em água doce, muitas são encontradas no mar, em ambientes terrestres úmidos, em regiões polares ou formando associações simbióticas. Com os fungos, elas constituem os líquens. Podem viver em simbiose com protozoários de água doce, esponjas e cnidários, como Hydras. Muitas algas verdes são microscópicas unicelulares ou coloniais, móveis ou 17 imóveis, enquanto outras são pluricelulares filamentosas ou talosas. A sua cor verde está associada ao predomínio de clorofila a e b, em relação aos pigmentos acessórios, classificados como carotenoides. Como reserva, utilizam o amido e apresentam parede celular de celulose, características essas compartilhadas com as plantas terrestres. As classes de algas verdes mais conhecidas são: Chlorophyceae, com destaque para Chlamydomonas, alga unicelular flagelada comum em água doce; e Volvox, que forma colônias móveis; Ulvophyceae, espécies primariamente marinhas, filamentosas como Codium, que vem se espalhando como daninhas, em algas calmas; ou talosas, em forma de lâmina, como Ulva (alface-do-mar), consumida como verdura em países orientais; e Charophyceae (carofíceas), com alguns membros que se assemelham às plantas terrestres (próximo tópico). Na classe, existem gêneros unicelulares, coloniais, filamentosos e parenquimatosos. Spirogyra é um gênero de algas filamentosas bem conhecido das carofíceas (carófitas) e as ordens Coleochaetales e Charales contêm as espécies mais semelhantes às embriófitas (Raven; Evert; Eichhorn, 2018). Figura 11 – A: Chlamydomona sp. vistas ao microscópio óptico; B: Volvox sp. vistas ao microscópio óptico; C: Ulva sp.; D: Codium sp.; E: Spirogyra sp.; F: espécie da ordem Charales, aparentado às plantas A B C D E F 18 Crédito: Rattiya Thongdumhyu/Shutterstock; Pongsadhornjr/Shutterstock; Syarafina/Shutterstock; Jesus Cobaleda/Shutterstock; Theapflueger/Shuttersock; Elif Bayraktar/Shutterstock. TEMA 5 – AS ALGAS VERDES E AS PLANTAS Na biologia evolutiva, um dos passos evolutivos mais intrigantes e estudados é a relação de parentesco entre as algas verdes e as plantas. Estudos indicam muitas similaridades estruturais, genéticas e bioquímicas entre esses grupos, o que muito provavelmente ocorreu devido à presença de um ancestral comum, possivelmente um membro extinto das carofíceas, que habitou a zona entre marés há mais de 480 milhões de anos atrás. As clorofíceas assemelham-se às plantas em diversas características importantes, tais quais: presença de clorofila a, b e carotenoides; armazenamento de amido, dentro de plastídios; e parede celular constituída de celulose, hemicelulose e substâncias pécticas. Além disso, as carofíceas das ordens Coleochaetales e Charales (Figura 11F), devido à semelhança estrutural entre os flagelos das suas células reprodutoras e os anterozoides das briófitas e pteridófitas, à reprodução oogâmica e a detalhes da divisão celular, assemelham-se ainda mais às plantas terrestres. A presença, nas algas, de gametângios, anterídios (no gênero masculino) e oogônios (no gênero feminino), bem como a formação de células recobrindo o zigoto, ainda preso ao talo parental, e o que parecem ser células de transferência de nutrientes são indícios de como a matrotrofia (que significa alimento derivado da mãe), a condição embriófita, o ciclo de vida característico das plantas e a geração esporofítica podem ter evoluído nos ancestrais extintos das plantas viventes (Raven; Evert; Eichhorn, 2018). NA PRÁTICA Como mencionado anteriormente, após a publicação, em 1859, da obra A origem das espécies, de Darwin (2018), as diferenças e semelhanças entre os organismos passaram a ser vistas como produtos de sua história evolutiva. A partir de então, as classificações visam retratar as relações evolutivas entre os organismos representadas em diagramas como os das árvores filogenéticas e dos cladogramas. Como método, se utiliza da cladística ou análise 19 filogenética. Pautada nas relações de parentesco, a abordagem enfoca a ramificação de uma linhagem com base na outra, no curso de uma evolução, procurando-se, então, identificar os grupos (clados) monofiléticos que podem ser definidos pela posse de atributos únicos, novidades evolutivas compartilhadas (ou caracteres derivados compartilhados), em oposição à posse de atributos mais amplamente distribuídos (ou caracteres preexistentes, ou ancestrais). Esses dois tipos de estados de caracteres geralmente são distintos uns dos outros pela comparação com um ou mais grupos externos, ou seja, com táxons estreitamente relacionados, mas não incluídos no grupo sob análise, lembrando que uma questão-chave em sistemática é a origem da semelhança ou diferença, sendo válidas apenas as características homólogas, aquelas que refletem parentesco, indicando uma origem comum. O resultado da análise é um cladograma ou uma árvore filogenética que represente as hipóteses de sequências de ramificações. Essas hipóteses são continuamente testadas e revisadas, pois novas informações sobre cada um dos táxons podem surgir e revolucionar as relações de parentesco e, consequentemente, o diagrama. Um princípiofundamental da cladística é que cada cladograma deve ser formado da maneira mais simples, menos complicada e eficiente. Esse princípio é chamado de princípio da parcimônia. Ao analisar um cladograma, note que as bifurcações (nós) indicam o processo em que uma espécie ancestral hipotética origina, por cladogênese, novas espécies ou novos grupos, que ficam no ápice dos ramos. O nó na base do diagrama é a raiz da árvore, e os ramos representam os caminhos da evolução daquele grupo analisado. Observe o exemplo da Figura 12. Figura 12 – Esquema de um cladograma 20 Agora, vamos à prática! Utilize o exemplo da Figura 12 e as informações a seguir e monte o seu próprio cladograma. Para se ver como um cladograma é construído, consideremos cinco grupos distintos de organismos fotossintetizantes: algas verdes, briófitas, pteridófitas, gimnospermas e angiospermas, sendo as algas o grupo externo mais próximo às plantas. Para cada um dos grupos, foram selecionadas características homólogas compartilhadas (que refletem parentescos) e novidades evolutivas exclusivas (autapomorfias). No Quadro 1, o sinal de + indica a presença de uma característica e –, a sua ausência. As algas verdes correspondem ao grupo externo, compartilhando com as plantas, no nosso exemplo, apenas as clorofilas. Quadro 1 – Características das algas Caracteres Táxon Clorofila a e b Embrião Vasos condutores Sementes Estróbilos com óvulos Flores e frutos Algas verdes + - - - - - Briófitas + + - - - - Pteridófitas + + + - - - Gimnospermas + + + + + - Angiospermas + + + + - + FINALIZANDO Ao longo desta aula, revisamos a história da classificação biológica até os dias atuais. Compreendemos a importância da filogenética e, assim, das relações de parentesco para a classificação da biodiversidade e estudamos, ainda, a origem, a diversidade e a filogenia dos organismos fotossintetizantes basais, as cianobactérias e as algas. Por fim, apresentamos as características que justificam a classificação das algas verdes como grupo irmão das plantas, o que nos ajuda a desvendar a evolução das plantas terrestres. 21 REFERÊNCIAS BERCHEZ, F.; GHILARDI, N.; BUCKERIDGE, M. A relação do homem com os oceanos e seus vegetais. In: SANTOS, D. Y. A. C dos; CHOW, F.; FURLAN, C. M. (Org.). Ensino de botânica: curso para atualização de professores de educação básica – a botânica no cotidiano. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2008. BICUDO, C. E. M.; MENEZES, M. Introdução: as algas do Brasil. In: FORZZA, R. C. et al. (Org.). Catálogo de plantas e fungos do Brasil. Rio de Janeiro: Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, 2010. p. 49-60. DARWIN, C. 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