Prévia do material em texto
3 ESTOQUES 3.1 Introdução Os estoques, que podem ser tangíveis ou intangíveis (como softwares para venda), estão intimamente relacionados com as atividades operacionais de muitas empresas e podem ser de diferentes naturezas, dependendo do tipo de empresa. Existem estoques de matéria-prima, de produtos em elaboração, de produtos acabados, de almoxarifado, de produtos agrícolas e até mesmo de serviços em andamento. Em termos contábeis, a principal dificuldade dos estoques está relacionada com os processos de controle e de mensuração. Essa questão é relevante, principalmente no caso de empresas industriais e comerciais, já que os estoques representam um dos ativos mais importantes do capital circulante e da posição financeira, de forma que sua correta determinação no início e no fim do período contábil é essencial para uma apuração adequada do lucro líquido do exercício e da situação patrimonial e financeira da entidade. 3.2 Conteúdo e principais contas De acordo com o CPC 16 (R1) Estoques, os estoques são ativos: (a) mantidos para venda no curso normal dos negócios; (b) em processo de produção para venda; ou (c) na forma de materiais ou suprimentos a serem consumidos ou transformados no processo de produção ou na prestação de serviços. Para empresas comerciais, os estoques seriam tão somente os produtos do comércio adquiridos para revenda e eventualmente uma conta de almoxarifado para materiais de consumo. Para empresas prestadoras de serviços, os estoques seriam os custos de serviços em andamento que incluem os gastos com material, mão de obra e outros aplicados à realização do serviço que ainda não tenham sido entregues aos clientes. Já para as indústrias, há necessidade de diversas contas, de acordo com o estágio de desenvolvimento dos produtos. É importante observar que as peças de reposição de equipamentos que serão imobilizadas e os materiais destinados a obras não devem ser classificados no grupo de Estoques, mas sim no grupo de Imobilizado. Também não devem ser incluídas como Scanned with CamScannerMANUAL PRÁTICO DE CONTABILIDADE SOCIETÁRIA Santos, Martins e Gelbcke 22 Estoque as compras que estão em trânsito, a caminho da empresa, quando o transporte de responsabilidade do vendedor. Apresentamos a seguir uma breve descrição das principais contas de Estoques: a) Produtos Acabados: deve representar aqueles já terminados industriais). e oriundos da produção da empresa e disponíveis para venda (empresas adquiridos de b) Mercadorias para Revenda: engloba todos os produtos para revenda, que não sofrerão qualquer processo de transformação (empresas merciais). c) Produtos em Elaboração: representa as matérias-primas consumidas na produção de produtos que estão em processo de transformação e todas as cargas de custos diretos e indiretos incorridos até a data do Balanço. d) Matérias-primas e Materiais Diretos: abriga, primeiramente, todas as primas, ou seja, os materiais essenciais que sofrem transformação no processo pro- dutivo. Além disso, também devem ser registrados em subconta à parte os a serem aplicados diretamente na fabricação do produto, mas que, diferentemente das matérias-primas, não passam por transformação física. e) Adiantamento a Fornecedores: abriga os adiantamentos efetuados pela empresa, vinculados a compras específicas de mercadorias e de materiais que serão incorpo- rados aos estoques quando de seu efetivo recebimento. f) Produtos Agrícolas: representa o produto colhido ou obtido a partir de um ativo biológico da entidade. Para mais informações, consultar Seção 3.3.3. g) Outras contas: existem outras contas de estoques, como Almoxarifado, Materiais Auxiliares, Materiais de Acondicionamento e Embalagem, Serviços em Anda- mento, Materiais de Manutenção e Suprimento Gerais etc. 3.3 Critérios de mensuração Os estoques devem ser mensurados pelo valor de custo ou pelo valor realizável líquido, dos dois o menor. Por valor realizável líquido entende-se o preço de venda estimado curso normal necessários dos negócios deduzido dos custos estimados para sua conclusão e dos gastos estimados no para se concretizar a venda. evidências registar uma que parte dos custos dos estoques provavelmente não estoques. será Porém, existirem deve-se Sendo de assim, o custo é base elementar para mensuração dos se 3.3.1 trata da estimativa de perda em conta credora retificadora dos recuperável, a apresentam da perdas estoques. Por fim, como reconhecimento agrícolas estimativa apuração de do com custo e a Seção 3.3.2 do valor realizável líquido estoques. e do Assim, Seção aspectos específicos, o tema será abordado em os seção estoques separada de produtos (3.3.3). 3.3.1 Apuração do custo Contabilidade. A determinação não só por dos ser custos um ativo dos significativo estoques é um aspecto que pode ser complexo na Trata-se pelo fato de de afetar diretamente apuração do resultado em do determinados exercício segmentos, mas também extensa matéria, aqui abordada somente em seus aspectos e as análises principais, de primeiro em Scanned with CamScannerESTOQUES 23 relação aos estoques de matérias-primas e similares (3.3.1.1) e, na sequência, em relação aos produtos em processo e acabados (3.3.1.2). 3.3.1.1 Matérias-primas e contas similares I Componente do custo custo de aquisição desses estoques deve englobar o preço do produto adquirido e todos os custos adicionais incorridos para colocar o produto em condições de uso. o custo de aquisição, portanto, inclui o preço de compra, os impostos de importação e outros tributos não recuperáveis, bem como os custos de transporte, seguro, manuseio e outros diretamente atribuíveis à aquisição de produtos acabados, materiais e serviços. Os descontos comerciais, abatimentos e outros itens semelhantes devem ser deduzidos na determinação do custo de aquisição. Em resumo, devem ser incluídos todos os custos necessários para trazer os estoques à sua condição e localização atuais. Depois que os estoques são colocados em seu local para essa finalidade uso, consumo ou venda -, quaisquer custos adicionais são despesas. No caso de compra a prazo que fuja aos padrões normais de negociação e se caracterize como financiamento, o valor dos juros incorridos e outras despesas financeiras não deve integrar o custo dos estoques e sim ser reconhecido como uma conta retificadora do passivo e apropriado para o resultado como despesa financeira ao longo do prazo de pagamento. Aliás, as despesas de financiamento da produção de estoques são debitadas ao resultado e não ao estoque, com a exceção de quando o estoque leva um tempo muito significativo para ser produzido; segundo o CPC 20 (R1) Custos de Empréstimos, nesses casos as Despesas Financeiras são agregadas ao Estoque. No caso de importações, a variação cambial incorrida até a data da entrada no produto no estabelecimento do adquirente deverá ser agregada ao custo. Na prática, a taxa de câmbio é fechada no momento do desembaraço aduaneiro da mercadoria para emissão da nota fiscal de entrada. Daí em diante, qualquer variação cambial até a data do pagamento ao fornecedor no exterior passará a ser resultado financeiro. No caso de adiantamentos aos fornecedores em moeda estrangeira, o valor em reais precisa ser o relativo à taxa na data do fechamento do câmbio, ou seja, o valor em reais efetivamente desembolsado. As variações cambiais daí para a frente são reconhecidas no resultado, mesmo que o material importado entre na empresa mais à frente com taxa diferente. II Apuração do custo Conhecendo os componentes do custo de aquisição, o problema agora se prende ao fato de a empresa ter em estoque produtos semelhantes adquiridos em datas distintas, com custos unitários diferentes. Assim, surge a dúvida sobre qual preço unitário deve ser atribuído a tais estoques na data do Balanço. Descrevemos a seguir os principais métodos de apuração dos custos reconhecidos contábil e fiscalmente pela Contabilidade e pelo Fisco: a) Preço específico: é usado somente quando for possível determinar o preço espe- cífico de cada unidade em estoque, mediante identificação física, como no caso de revenda de automóveis usados. Scanned with CamScannerMANUAL PRÁTICO DE CONTABILIDADE SOCIETÁRIA Santos, Martins e Gelbcke 24 FIFO: a lógica é que as primeiras mercadorias ocorrem compradas as vendas é que ou são consumo, vendi- b) PEPS ou primeiro. Assim, à medida que primeiras compras, por isso das ou consumidas pelo valor dos itens das Sai (PEPS vai-se dando do baixa método dos estoques é Primeiro que Entra é o Primeiro aceito.) que ou FIFO que First-In-First-Out). o nome (O LIFO ou UEPS não é mais móvel: esse critério, o valor médio de cada diferente. unidade Esse em méto c) Média ponderada compras por de outras unidades por um preço das compras. do que foge altera-se dos extremos, pelas dando como custo o valor médio Exemplo prático ABC é uma empresa comercial que revende produtos que adquiriu o mês de de terceiros. janeiro, Suponha efetuou que A essa empresa começou a operar em 01/01/X0 e que, durante as seguintes transações: 05/01/X0 Compra de 25 unidades de mercadoria por R$ 50 cada (nota fiscal 1) 10/01/X0 Compra de 25 unidades de mercadoria por R$ 60 cada (nota fiscal 2) 20/01/X0 Venda de 20 unidades de mercadoria por R$ 80 cada (nota fiscal X) 25/01/X0 Venda de 25 unidades de mercadoria por R$ 100 cada (nota fiscal Y) pela Para legislação fiscal brasileira, vamos primeiro elaborar a ficha de controle de estoques ilustrar a aplicação dos dois principais métodos de avaliação de estoques permitido pelo método PEPS e depois pela média ponderada móvel. Ficha de controle dos estoques PEPS Saída Saldo Entrada Valor R$ Valor R$ Data Descrição Valor R$ Quant. Quant. Quant. Unit. Total Unit. Total Unit. Total 0 0 0 01/01/X0 Saldo inicial 25 50 1.250 25 50 1.250 05/01/X0 Compra NF 1 25 50 1.250 10/01/X0 Compra NF 2 25 60 1.500 25 60 1.500 50 2.750 5 50 250 20/01/X0 Venda NF X 20 50 1.000 25 60 1.500 30 1.750 5 50 250 5 60 300 25/01/X0 Venda - NFY 20 60 1.200 25 1.450 31/01/X0 Total/Saldo 50 2.750 45 2.450 5 60 300 Scanned with CamScannerCap. 3 ESTOQUES 25 Ficha de controle dos estoques Média ponderada móvel (MPM) Entrada Saída Saldo Data Descrição Valor R$ Quant. Valor R$ Quant. Valor R$ Quant. Unit. Total Unit. Total Unit. Total 01/01/X0 Saldo inicial 0 0 0 05/01/X0 Compra NF 1 25 50 1.250 25 50 1.250 10/01/X0 Compra NF 2 25 60 1.500 50 55 2.750 20/01/X0 20 55 1.100 30 55 1.650 25/01/X0 Venda NFY 25 55 1.375 5 55 275 31/01/X0 Total/Saldo 50 2.750 45 2.475 5 55 275 Como mencionamos anteriormente, o método de avaliação dos estoques é muito relevante, pois afeta a lucratividade da empresa. Sendo assim, apresentamos a seguir uma comparação de qual seria o lucro bruto da empresa pelos dois métodos de avaliação. DRE PEPS MPM Receita de vendas 4.100 4.100 (-) CMV (2.450) (2.475) (=) Lucro bruto 1.650 1.625 Verificamos que o custo da mercadoria vendida pelo método do PEPS é menor do que pela média ponderada, já que o PEPS considera o preço das primeiras mercadorias adquiridas e, por serem preços crescentes, foi menor do que a média. E o estoque final pelo PEPS (R$ 300) é maior do que pela MPM ($ 275). Consequentemente, no próximo período, o custo da mercadoria vendida pelo PEPS será maior do que pela MPM e, portanto, o lucro bruto será menor. Ou seja, as diferenças que possam existir entre os métodos de apuração dos estoques são temporais, pois quando todos os produtos forem vendidos, os resultados acumulados serão iguais. Devoluções É bastante comum ocorrerem devoluções de compras para o fornecedor e devoluções de vendas pelos clientes. Nesses casos, a empresa deve observar o seguinte: a) o valor da devolução ao fornecedor será o mesmo pelo qual houver sido registrada a compra das mercadorias devolvidas. b) valor da devolução de cliente será aquele pelo qual foi registrada a respectiva saída, sendo irrelevante o preço médio (se adotado esse critério de avaliação de estoque) vigente na data do registro da devolução. Para ilustrar essa questão das devoluções, vamos voltar ao exemplo prático da empresa ABC e considerar que, além das transações de compra e venda já registradas: a) No dia 22/01/X0, a empresa ABC efetuou a devolução de 5 unidades das compras realizadas no dia 05/01/X0. b) No dia 30/01/X0, a empresa ABC recebeu uma devolução de clientes de 10 unidades da venda que fez em 20/01/X0. Scanned with CamScannerVejamos a seguir quais seriam os efeitos na ficha de controle de estoques. Por vamos evidenciar apenas a ficha pelo método da média ponderada móvel. Ficha de controle dos estoques Média ponderada móvel (MPM) Entrada Saída Saldo Data Descrição Valor R$ Valor R$ Valor R$ Quant. Quant. Quant. Unit. Total Unit. Total Unit. Total 01/01/X0 Saldo inicial 0 0 0 05/01/X0 Compra - 1 25 50 1.250 25 50 1.250 10/01/X0 Compra NF 2 25 60 1.500 50 55 2.750 20/01/X0 Venda NE X 20 55 1.100 30 55 1.650 Devolução 22/01/X0 Compra (5) 50 (250) 25 56 05/01/X0 1.400 25/01/X0 Venda 25 56.00 1.400 0 0 0 Devolução 30/01/X0 Venda (10) 55 (550) 10 55 20/01/X0 550 31/01/X0 Soma 45 2.500 35 1.950 10 55 550 Tanto a devolução da compra quanto a devolução da venda devem ser feitas pelos respectivos valores de entrada e saída, respectivamente. Observa-se, portanto, que o lançamento dessas devoluções implica ajuste no cálculo do custo médio, em virtude da alteração nos saldos físicos e monetários. Observe-se que não é incomum que empresas utilizem, principalmente para as devoluções de vendas, o valor do último custo médio ponderado utilizado. Essa é uma prática que tem a ver com frequência, materialidade e relevância da operação. 3.3.1.2 Produtos em processo e acabados I Componente do custo custo dos estoques de produtos em processo e acabados na data do Balanço deve incluir fabricação) todos os custos diretos (material, mão de obra e outros) e indiretos (gastos de seguinte composição: necessários para colocar o item em condições de venda. Em resumo, gerais temos a a) Os custos dos materiais diretos equivalem à valoração dos consumos efetuados pela produção, na forma de determinação de custo anteriormente b) e Os custos de mão de obra direta incluem salários do pessoal trabalha direta respectivos produtivamente encargos na sociais, fabricação trabalhistas do produto, e previdenciários. adicionados a eles que os benefícios e c) incluem Os gastos gerais de fabricação, também chamados de custos indiretos seus todos os demais custos incorridos na produção (mão de obra indireta almoxarifado, encargos, depreciações, energia etc., nas funções de manutenção supervisão, administração da fábrica, depreciação, energia, seguros Scanned with CamScannerCap. ESTOQUES 27 etc.) e são, em geral, atribuídos aos produtos por meio de rateios. Tais custos são geralmente aplicados com base em direcionadores como número de horas-homem ou valor da mão de obra direta, ou de horas-máquina etc. Para o caso dos prestadores de serviços, o CPC 16 (R1), item 19, determina que, na medida em que existam estoques de serviços em andamento, também chamados de estoques em elaboração, devem ser mensurados pelos custos da produção (mão de obra, material utilizado, pessoal diretamente envolvido na prestação de serviços etc.). II Custeio Direto (ou Variável) e Custeio por Absorção (ou Integral) A inclusão dos três elementos de custo definidos representa o custeio por absorção, ou seja, o estoque em processo ou acabado "absorve" todos os custos incorridos, diretos ou indiretos. Essa é a base de avaliação aceita conforme Estrutura Conceitual e pela Lei das Sociedades por Ações, sendo que é a base também aceita pela legislação fiscal. método de custeio direto (ou variável) atribui aos objetos de custeio apenas os custos diretos (ou variáveis), sendo que os custos fixos são tratados diretamente como despesas do período. Esse método não é aceito para fins contábeis e de demonstrações contábeis oficiais, nem para fins fiscais, já que não reconhece todos os custos de produção na determinação do valor dos estoques. Apesar disso, pode ser bastante útil para fins gerenciais, já que poderá subsidiar diversas análises e decisões gerenciais, como análise da margem de contribuição dos produtos, do ponto de equilíbrio, grau de alavancagem operacional e decisão sobre preço de venda dos produtos e serviços, entre outras. Há outros métodos de custeio, como o RKW ou o ABC, que também não são aceitos nem contábil nem fiscalmente. III Sistemas de custeio Os custos de produtos em processo e acabados são geralmente determinados sob dois tipos básicos de procedimentos ou sistemas de custeio: por ordem ou por processo. Ambos os métodos são perfeitamente viáveis e aceitáveis contábil e fiscalmente. o importante é que um ou outro seja aplicado com base no custeio por absorção e pelos custos reais incorridos. a) Custos por ordem: sua característica básica é identificar e agrupar especifica- mente os custos para cada ordem de serviço para produção de um bem ou ser- viço em particular, os quais não são relativos a determinado período de tempo nem foram obtidos pela média entre uma série de unidades produzidas, como nos custos por processo contínuo. Deve ser usado quando as quantidades de produção são feitas especialmente para determinadas demandas (produção sob encomenda ou projetos). b) Custos por processo: os custos são acumulados por fase do processo, por ope- ração ou por departamento, estabelecendo-se uma média de custo que toma por base as unidades processadas ou produzidas. custeio por processo é indicado quando o processo de produção é contínuo e fabricam-se produtos homogê- neos, tais como na produção de cimento, papel, petróleo, produtos químicos e outros semelhantes. Nesse sistema, os custos são normalmente apropriados por Scanned with CamScannerMANUAL PRÁTICO DE CONTABILIDADE SOCIETÁRIA Santos, Martins e Gelbcke 28 produção ou serviço, com base em consumo, horas departamento etc. ou Assim, seção de os custos totais acumulados durante apurando-se o mês, os de cada despendidas divididos pela quantidade produzida, custos custos unitários. Caso são o processo produtivo englobe várias etapas, e, finalmente, os para incorridos o em cada fase são transferidos para a etapa seguinte, esto. que de produtos acabados. Custo-padrão e custo real IV Custo-padrão é o método de custeio base por nas meio especificações do qual o do custo produto, de cada elementos produto de é antes da produção, com predeterminado, custo e nas condições previstas de produção. de produção Assim, reais os são estoques apurados são apurados e comparados com com em base padrões, custos registrando-se suas diferenças em contas de variação. Tal ineficiências técnica tem perdas, por objetivo unitários padrão e os custos uma melhor análise das operações e possibilitar a identificação de e como base para a tomada de medidas corretivas para períodos seguintes. Considerando que o custo-padrão é um valor do custo "que deveria ocorrer", não é base avaliação dos estoques para efeito de Balanço; por isso, utiliza-se tal sistema durante 0 para exercício, devido à sua utilidade no planejamento e no controle das operações, na avaliação de eficiência e no estabelecimento de preços de venda, retornando-se ao custo real na data do Balanço. Por isso, as contas de variação devem ser proporcionalmente distribuídas entre os estoques e o custo dos produtos vendidos. Só se pode usar o Padrão para Balanço se a diferença entre ele e o custo real for mínima, de forma a garantir que os estoques estejam sempre registrados ao seu custo. Isso tanto para fins contábeis quanto fiscais. 3.3.1.3 Aspectos adicionais I Capacidade ociosa Na hipótese de a empresa estar operando apenas parcialmente sua capacidade de ou seja, com parte ociosa, há que se considerar que, mesmo no método de custeio real por absorção, o custo adicional relativo à capacidade ociosa não deve ser atribuído à produção elaborada no período caso essa ociosidade seja anormal e significativa (greve, recessão econômica setorial profunda etc.). De fato, nessa circunstância, os custos fixos relativos à parte ociosa devem ser lançados diretamente nos resultados do período da ociosidade, e não onerar o custo dos produtos elaborados no mesmo período. II Férias coletivas Como no período de férias coletivas não haverá produção, mas haverá custos fixos, esses devem ser atribuídos aos custos dos 11 meses anteriores em que houve produção normal. por esse motivo que, para as empresas que têm política de paralisar anualmente suas atividades em face de férias coletivas. o procedimento correto é registrar mensalmente uma provisão nos 11 meses anteriores para cobrir os custos fixos estimados do mês de férias coletivas. Dessa forma, tais custos serão atribuídos à produção de cada mês e, quando das férias coletivas, custo custos fixos reais serão debitados contra a provisão anteriormente formada. o mesmo do salário. E seus encargos. Scanned with CamScannerCap. ESTOQUES 29 III Ineficiências, quebras e perdas de produção As ineficiências, quebras e perdas de produção podem ocorrer por uma infinidade de motivos. Basicamente, o critério a ser seguido é lançá-las ao custo normal de produção sempre que forem normais e inerentes ao processo produtivo, e lançá-las diretamente no resultado do período quando forem esporádicas e não normais, além de significativas. 3.3.2 Apuração do valor realizável líquido Como mencionado no início da Seção 3.3, os estoques devem ser mensurados pelo valor de custo ou pelo valor realizável líquido, dos dois o menor. objetivo desse procedimento é que os estoques não fiquem registrados por um valor maior do que o seu valor recuperável. objetivo aqui é apresentar os aspectos da apuração do valor realizável líquido e do reconhecimento de uma estimativa de perdas em estoques, quando necessário. Assim, o valor realizável líquido é apurado pela diferença entre o preço de venda do item e as despesas estimadas para vender e receber, entendendo-se como tais as despesas diretamente relacionadas com a venda do produto e a cobrança de seu valor, tais como tributos, comissões, fretes, embalagens, taxas e desconto das duplicatas etc. Despesas do tipo propaganda, gerais, administrativas etc., que beneficiam não diretamente um produto, mas genérica e constantemente todos os produtos da sociedade, não devem ser incluídas nessa determinação de despesas para vender e receber. Se o valor realizável líquido de determinado item do estoque for menor do que o custo registrado, isso significa que uma parcela desse custo não será recuperada e, portanto, a empresa deve reconhecer uma perda estimada com estoques. Essa estimativa de perda deve ser reconhecida em uma conta retificadora do estoque, tendo como contrapartida uma despesa do período. Exemplo prático A empresa ABC possui quatro tipos de produtos diferentes em seu estoque, sendo que o custo de aquisição total é de R$ conforme evidenciado a seguir. Custo unitário Quantidade Custo total Produtos 20 500 10.000 A 50 360 10.000 B 30 200 10.000 C 100 10.000 D 80 10.000 Total 180 algum de seus produtos está registrado por um valor maior do líquido que o valor Para recuperável, avaliarmos precisamos se comparar o custo de aquisição 3.1. com o valor realizável de cada um dos produtos. As informações estão no Quadro Scanned with CamScannerQuadro 3.1 Valor Valor de Valor de Custo de Despesas venda venda realizável Quant. aquisição Diferença Produtos de venda unitário total líquido 11.250 10.000 1.250 25 500 12.500 1.250 A 19.800 5.800 14.000 18.000 (4.000) B 55 360 35 200 7.000 1.500 5.500 6.000 (500) C 13.000 5.000 8.000 8.000 D 130 100 52.300 13.550 38.750 42.000 Total Observa-se que o valor realizável líquido do produto A é maior do que seu custo de aquisição, não sendo necessário reconhecer nenhuma estimativa de perda. Da mesma forma, o valor realizável líquido do produto D é exatamente igual ao seu custo de aquisição e, portanto, nenhuma estimativa de perda é necessária. Entretanto, tanto o produto B quanto o C apresentam valores de realização menores do que os respectivos custos de aquisição. Especificamente, do custo total de R$ 18.000 do produto B, existe a estimativa de não recuperação de R$ 4.000. Da mesma forma, estima-se não recuperar R$ 500 do produto C. Consequentemente, a empresa ABC deve reconhecer uma estimativa de perda em estoques no montante total de R$ 4.500, por meio do lançamento contábil a seguir. Débito Crédito Despesa com Estimativa de Perdas em Estoques 4.500 a Perda Estimada para Redução ao Valor Recuperável Estoque B (conta redutora do ativo) 4.000 a Perda Estimada para Redução ao Valor Recuperável Estoque C (conta redutora do ativo) 500 3.3.3 Produto agrícola Os conceitos de apuração de custos expostos nas seções anteriores aplicam-se mais a empresas industriais e comerciais, mas há uma exceção, o dos estoques de produtos biológicos. É o caso, por exemplo, das empresas pecuárias e de produção agrícola. Em vez do custo, tais produto é obtido. empresas geralmente utilizam o valor justo como base de mensuração na hora em que 0 o tema de ativo biológico e produto agrícola é normatizado pelo CPC 29. Em seu item de 5, esse um Pronunciamento ativo define produto agrícola como aquele que é colhido ou obtido a partir o ativo biológico biológico, gera o que produto por sua vez representa um animal ou uma planta, vivos. Assim, agrícola. Por que gera o produto agrícola "leite". Esse gado fica exemplo, ao custo o no gado Imobilizado, leiteiro é um e ativo biológico produzido, este é avaliado ao valor realizável líquido (e não ao custo de o leite, assim que agrícola o cafezal fica ao custo, e o café ao valor justo líquido das que despesas gera o de produto venda. possa "cafe"; ser obtido). Outros exemplos: o pé de café é o ativo biológico produção, mesmo que Scanned with CamScannerCap. 3 ESTOQUES 31 o eucalipto é o ativo biológico, a madeira é produto agrícola, a ser colhida e utilizada como matéria-prima para a obtenção de celulose etc. Ou seja, os denominados produtos biológicos, colhidos ou obtidos de ativos biológicos da entidade, devem ser mensurados ao valor justo, menos a despesa de venda, no momento da colheita, nascimento ou qualquer outra forma de obtenção do produto agrícola. o valor assim atribuído representa o custo para o caso de, na sequência, passar a ser utilizado como matéria-prima num processo industrial, por exemplo. Para os produtos agrícolas com características de commodity, valem duas regras: a partir da produção (ou da compra), ficam ao custo como qualquer estoque; mas podem, se essa for a prática utilizada no mercado, ser avaliados com base no valor justo menos as despesas de vendas em cada Balanço, com as variações sendo reconhecidas no resultado. ganho ou a perda proveniente do reconhecimento inicial do produto agrícola recém- obtido ao valor justo, menos a despesa de venda, devem ser incluídos no resultado do período em que ocorrerem. Assim, existe aí um lucro, na produção do café, pela diferença entre o estoque ao valor justo e todos os custos de produção lançados como despesa. A entidade deve evidenciar em nota explicativa o método e as premissas significativas aplicados na determinação do valor justo de cada grupo de produto agrícola. 3.4 Tratamento para as pequenas e médias empresas Os conceitos abordados neste capítulo também são aplicáveis às entidades de pequeno e médio portes. Apenas para o caso dos ativos biológicos há uma menção de que, se houver necessidade de esforço excessivo para a obtenção de seu valor justo, pode-se permanecer com o uso do custo como base de avaliação. E, no caso de produção de estoques de longa maturação, não lhe são adicionadas as despesas financeiras, que vão para o resultado. Para mais detalhamento, consulte o CPC PME Contabilidade para Pequenas e Médias Empresas. Scanned with CamScanner