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Interpretação de Textos Verônica Daniel Kobs Interpretação de Textos Verônica D aniel Kobs Código Logístico I000180 ISBN 978-65-5821-047-4 9 7 8 6 5 5 8 2 1 0 4 7 4 Interpretação de textos Verônica Daniel Kobs IESDE BRASIL 2021 © 2021 – IESDE BRASIL S/A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito do autor e do detentor dos direitos autorais. Projeto de capa: IESDE BRASIL S/A. Imagem da capa: Singleline/masher/Valenty/Shutterstock Todos os direitos reservados. IESDE BRASIL S/A. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 Batel – Curitiba – PR 0800 708 88 88 – www.iesde.com.br CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ K79i Kobs, Verônica Daniel Interpretação de textos / Verônica Daniel Kobs. - [2. ed]. - Curitiba [PR] : IESDE, 2021. 154 p. : il. Inclui bibliografia ISBN 978-65-5821-047-4 1. Língua portuguesa - Problemas, questões, exercícios. 2. Serviço público - Brasil - Concursos. I. Título. 21-71702 CDD: 469.8 CDU: 821.134.3’33 Verônica Daniel Kobs Pós-doutorado em Intermidialidade, doutora em Estudos Literários, mestre em Literatura Brasileira e licenciada em Letras Português-Latim pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Revisora de texto e consultora de língua portuguesa e linguagens em emissoras de televisão, no estado do Paraná. Editora e revisora de revista científica indexada de literatura. Pesquisadora credenciada, atuante em grupos de pesquisa de literatura e intermídia. Autora de livros sobre língua portuguesa, linguagens e argumentação e de materiais didáticos e instrucionais de Língua Portuguesa, na modalidade EaD. É professora em cursos de mestrado e doutorado em Teoria Literária, em curso de graduação em Letras, e em curso de especialização em Teoria da Literatura. SUMÁRIO Agora é possível acessar os vídeos do livro por meio de QR codes (códigos de barras) presentes no início de cada seção de capítulo. Acesse os vídeos automaticamente, direcionando a câmera fotográ�ca de seu smartphone ou tablet para o QR code. Em alguns dispositivos é necessário ter instalado um leitor de QR code, que pode ser adquirido gratuitamente em lojas de aplicativos. Vídeos em QR code! SUMÁRIO Agora é possível acessar os vídeos do livro por meio de QR codes (códigos de barras) presentes no início de cada seção de capítulo. Acesse os vídeos automaticamente, direcionando a câmera fotográ�ca de seu smartphone ou tablet para o QR code. Em alguns dispositivos é necessário ter instalado um leitor de QR code, que pode ser adquirido gratuitamente em lojas de aplicativos. Vídeos em QR code! 1 Elementos estruturais do texto 9 1.1 Parágrafo 9 1.2 Período 12 2 Elementos coesivos e flexibilidade linguística 20 2.1 Elementos coesivos e relações lógicas 21 2.2 Coesão e sinonímia 26 3 Partes do texto e compreensão do texto 32 3.1 Partes do texto 32 3.2 Compreensão do texto 38 4 Ambiguidade e paráfrase 46 4.1 Ambiguidade 46 4.2 Paráfrase 51 5 Fato, opinião e tipos de discurso 59 5.1 O que é fato ou opinião no texto? 59 5.2 Tipos de discurso 66 6 Tipos de texto 76 6.1 Informativos e literários 76 6.2 Textos informativos 80 6.3 Textos literários 82 7 Texto argumentativo 88 7.1 Partes do texto argumentativo 88 7.2 Recursos do texto argumentativo 95 8 Textos não verbais, humorísticos e irônicos 101 8.1 Textos não verbais 101 8.2 Textos verbais 107 9 Estratégias e recursos na construção do texto 113 9.1 Estrutura e linguagem 114 9.2 Empatia e proximidade 119 9.3 Argumentação e retórica 122 10 Interpretação de textos complexos 129 10.1 Leitura e níveis de interpretação do texto 129 10.2 O que analisar em um texto? 132 11 Resolução das atividades 138 O livro Interpretação de textos é composto de dez capítulos que discutem os elementos fundamentais da escrita e da leitura, nos aspectos de estrutura e conteúdo. Partindo das questões básicas para as mais complexas, os tópicos abordados são desenvolvidos na prática, por meio da análise e interpretação de textos diversos, com diferentes graus de dificuldade. O texto é o instrumento mediador entre autor e leitor e, exatamente por isso, deve privilegiar uma linguagem clara e adequada. Uma comunicação eficaz é pautada pelos princípios básicos de alteridade e empatia, afinal todo texto tem como meta estabelecer um diálogo e, nesse processo, evidentemente, a compreensão é requisito essencial. Com base nessa perspectiva, o Capítulo 1 apresenta os conceitos de período e parágrafo, a fim de introduzir os temas da leitura e interpretação. Geralmente, as pessoas tratam essas duas palavras como sinônimas, mas há diferenças entre uma e outra. A leitura diz respeito ao conhecimento de uma língua e depende apenas da alfabetização. Em contrapartida, a interpretação vai muito além do ato de ler, exigindo que o leitor faça relações, desvende sentidos e complemente as informações fornecidas pelo texto. Portanto, a leitura corresponde ao primeiro estágio da interpretação. O Capítulo 2 estabelece o valor dos conectivos para a construção do texto como um todo. Associando ideias, o texto evolui, seguindo os princípios da continuidade e da progressão. Assim como a escrita, a interpretação também exige coesão, porque o leitor precisa juntar as partes do texto e fazer relações entre elas. No Capítulo 3, a interpretação assume um caráter totalitário, deixando claro que se trata de um processo que requer concentração e raciocínio lógico. Aproveitando o destaque dado à releitura, o Capítulo 4 traz dois conceitos complicados, mas que têm grande importância no aspecto semântico ou de significado do texto. Trabalhando com repetição, duplicidade e variação de sentidos, essa parte do livro dá destaque ao conteúdo, oferecendo diferentes possibilidades de escrita e reescrita de períodos. O Capítulo 5 analisa diferentes categorias de adjetivos, a fim de demonstrar quando essa classe de palavra utiliza a descrição apenas e quando a adjetivação expressa opinião. Além disso, as modalidades APRESENTAÇÃO Vídeo discursivas são apresentadas como maneiras de emprestar e preservar a palavra do outro, dentro de um texto. O Capítulo 6 trata das diferenças entre textos informativos e literários, baseando-se na combinação intrínseca da linguagem com o objetivo do texto e com as expectativas do público-alvo. No Capítulo 7, o assunto é o texto argumentativo. Esse modelo textual é bastante complexo e conta com recursos variados, na escrita ou na fala. Da tese à antítese, essa parte do livro menciona o valor do planejamento e da exemplificação na construção do texto, com o objetivo de garantir a clareza e a comprovação das ideias defendidas pelo autor. Mais uma vez, a interpretação surge como atividade mediadora. O Capítulo 8 analisa exemplos de textos não verbais, humorísticos e irônicos. Uma das finalidades dessa seção do livro é consolidar a universalidade da imagem, que privilegia a síntese, ao mesmo tempo que oferece uma ampliação do significado, acessível para qualquer tipo de público e para falantes de qualquer idioma. O segundo objetivo do estudo em questão também está associado aos sentidos do texto, porque o humor e a ironia envolvem elementos extratextuais, como o conhecimento prévio do leitor e o conteúdo implícito — não dito e não escrito. No Capítulo 9, discutimos estratégias e recursos na construção do texto, tendo a crônica como um modelo textual bastante frequente. Sem dúvida, para ler e interpretar alguns tipos de texto, é de grande ajuda consultar um dicionário ou outros materiais de apoio. No entanto, uma crônica propõe outro nível interpretativo, mais específico: o leitor deve ter perspicácia e curiosidade, porque o desafio da compreensão o obriga a revisitar fatos atuais, de grande repercussão nas mídias, para estabelecer relações entre o conteúdo do texto e o mundo que o cerca. Mais do que nunca, é necessárioao serviço remoto para evitar aglomerações e, consequentemente, a transmissão do vírus. (Continua) gpointstudio/Shutterstock As informações não explícitas exigem relações entre o texto e os conhecimentos prévios de cada leitor. Figura 2 O leitor e as informações não explícitas https://www.shutterstock.com/pt/g/gpointstudio 42 Interpretação de textos No texto, há cinco referências à internet: a informação de que o formato do evento será virtual por causa da pandemia; a escolha de dois dias para o even- to para facilitar a “logística”; as dificuldades de acesso por falta de energia ou por outras razões; a mostra de foguetes, que conta com os formatos on-line e presencial; e a indicação de que, no site, há informações sobre o resultado da Olimpíada e do evento paralelo. Com base nesses elementos, comente o papel da tecnologia na sociedade contemporânea. Essa questão, por ser mais aberta, admite vários tipos de resposta. Uma possibilidade abrange a afirmação de um papel de destaque da tecnologia, atualmente. Para embasar essa ideia, podem ser ci- tados alguns exemplos, como: a comunicação por e-mails, por meio de redes sociais e pelo WhatsApp, que, muitas vezes, substituem as ligações telefônicas; a metodologia do ensino a distância (EaD), que vem se consolidando ano após ano; as aulas remotas, por meio de videoconferências, que se mostraram a melhor alternativa para lidar com o isolamento imposto pela pandemia, no ano de 2020; e as possi- bilidades de se encontrar na internet, com extrema facilidade, livros, músicas e filmes, antes de acesso totalmente restrito. A conclusão é simples: com certeza o avanço tecnológico influencia os costumes e o modo de vida das pessoas – afinal, antes da pandemia de Covid-19, quando poderíamos pensar em uma Olimpíada realizada com cada competidor no recinto do seu lar, diante de seu computador, a apenas um clique da vitória? Com os exemplos dados, percebemos claramente que, apesar de terem partido do texto lido, as questões propostas levaram o leitor a expandir o conteúdo apresentado, tornando possíveis a comparação e a efetiva aplicação do texto – na sua vida e na sociedade que o cerca. Além disso, incentivou-se o aprofundamento de tópicos que passariam despercebidos, se a interpretação ficasse restrita àquela primeira eta- pa, mais superficial. CONSIDERAÇÕES FINAIS Levando em conta as habilidades necessárias para a adequada in- terpretação de um texto, verificamos que é imprescindível combinar os elementos textuais aos extratextuais. Isso ocorre porque o processo in- terpretativo é relacional e não apenas associa o texto ao mundo que nos cerca – notícias publicadas, debates on-line etc. –, mas também a conhe- cimentos específicos, que adquirimos ao longo da vida e que formam nosso repertório cultural. Diante dessa constatação, podemos afirmar que a interpretação é objetiva, quando tenta decifrar os elementos do próprio Nos jornais, as notícias policiais são os textos que mais correspondem à estrutura textual apre- sentada neste capítulo. Então, acesse o site de sua preferência ou re- corra ao jornal impresso, selecione alguns textos da seção indicada e revise os conteúdos que acabamos de estudar. Vamos praticar? Partes do texto e compreensão do texto 43 texto, ao mesmo tempo que traz um aspecto subjetivo, afinal cada leitor tem conhecimentos distintos e por isso vai interagir com o texto de um modo bem específico, fazendo valer suas experiências. ATIVIDADES 1. Leia o texto transcrito a seguir e avalie a combinação entre o título do texto e o seu conteúdo: Cantora mistura jazz e música brasileira Com emoções de felicidade e luto se misturando à sua volta, a cantora de jazz Luciana Souza encontrou dificuldades para trabalhar em seu novo álbum. No espaço de nove meses, a artista brasileira enfrentou as mortes de seu pai e da sua mãe, enquanto celebrava o nascimento do seu primeiro filho. (CANTORA, 2010) O texto a seguir será usado para responder às atividades de 2 a 4: Uma tempestade do tamanho de 3 Terras que já dura 400 anos (e está aquecendo) Quando se fala em grande mancha vermelha, Júpiter vem à mente na hora. Falou em Júpiter imediatamente vem à cabeça a grande mancha vermelha. São coisas absolutamente indissociáveis. Essa mancha especial é na verdade uma imensa tempestade na atmosfera de Júpiter, tão grande que nela cabe- riam 2 ou 3 Terras. A tempestade já dura pelo menos 400 anos. Foi observada pela primeira vez no século XVII. Existe alguma controvérsia de quem teria sido o primei- ro a fazê-lo, é difícil acreditar que Galileu, com o seu telescópio rudimentar, tenha conseguido. Robert Hook, físico e astrônomo britânico, foi o primeiro a descrever uma mancha na “superfície” de Júpiter, só que a descrição não corresponde com a posição da grande mancha. Certeza mesmo, apenas dos relatos de Giovanni Cassini, que em 1665 des- creveu uma mancha permanente em Júpiter. Cassini também é reconhecido pela descoberta da rotação diferencial de Júpiter, bem como da faixa escura no sistema de anéis de Saturno que recebe o seu nome. De todo modo, essa tempestade tem, por baixo, uns 400 anos de idade, e não parece perder força ano após ano. Só de observações contínuas já são quase 200 anos. (Continua) Vídeo 44 Interpretação de textos Agora, o que se descobriu é que ela está sofrendo um aquecimen- to. Imagens de dois dos melhores telescópios do mundo, o europeu VLT e o Gemini (operado por um consórcio internacional que envolve o Brasil), mostram que a mancha se aqueceu. O miolo alaranjado do meio da mancha oval na parte direita da imagem está entre 3 e 4 graus mais quente que o seu entorno. Uau! Quatro graus mais quente, quanta diferença! Mas só isso faz toda a diferença quando o sistema é fortemente dependen- te da temperatura. Somente esses quatro graus foram suficientes para rever- ter a rotação das nuvens, nesse miolo alaranjado, de anti-horária para horária. Em imagens no infravermelho, [...] a mancha ficou também mais brilhante, em decorrência do aquecimento. Leigh Fletcher, um dos autores da descoberta, afirma que pela primeira vez ficou evidente a ligação entre as condições ambientais, tais como tem- peratura, ventos e pressão, com a cor da grande mancha. A cor das nuvens que compõem a mancha é determinada pela sua composição química. Ainda que ninguém saiba ao certo como as nuvens de diferentes composições se alternam nesse ambiente turbulento, ao menos agora já se sabe como a tem- peratura pode alterar esse regime de ventos. (BARBOSA, 2010) 2. Relacione o título do texto ao conteúdo apresentado. 3. Identifique o parágrafo que serve de introdução ao texto e faça uma lista das informações que ele reúne e que são detalhadas apenas no desenvolvimento. 4. Com base no texto lido, responda: a) Qual é o tempo de duração da tempestade em Júpiter? b) Qual foi a primeira pessoa a se referir à “mancha” de Júpiter? c) Analise a função deste trecho do texto: “Uau! Quatro graus mais quente, quanta diferença!” d) Das questões propostas nesta atividade, quais se referem a informações explícitas e quais dizem respeito a informações não explícitas no texto? Por quê? Partes do texto e compreensão do texto 45 REFERÊNCIAS ALVES, A. Estudantes participam hoje da Olimpíada Brasileira de Astronomia. Agência Brasil, 12 nov. 2020. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2020-11/ estudantes-participam-hoje-da-olimpiada-brasileira-de-astronomia. Acesso em: 15 jun. 2021. BARBOSA, C. Uma tempestade do tamanho de 3 Terras que já dura 400 anos (e está aquecendo). G1, 23 mar. 2010. Disponível em: http://g1.globo.com/platb/ observatoriog1/2010/03/23/uma-tempestade-do-tamanho-de-3-terras-que-ja-dura-400- anos-e-esta-aquecendo/. Acesso em: 15 jun. 2021. CANTORA mistura jazz e música brasileira. Jornal Primeira Página, 27 jan. 2010. 46 Interpretação de textos 4 Ambiguidade e paráfrase Ambiguidade e paráfrase são processos que exigem um bom nívelde interpretação. Quando um texto é ambíguo, ele apresenta dois sentidos possíveis e, na maioria das vezes, um deles é inade- quado. Apesar de esse ser um problema textual bastante comum, é muito fácil corrigir a ambiguidade. A tarefa mais difícil, com certe- za, é identificá-la. Depois, basta reordenar as palavras no período ou substituir um termo ou outro. No que diz respeito à paráfrase, a interpretação cumpre o objetivo de, na hora da reescrita, evitar que haja desvios em rela- ção ao conteúdo original. A paráfrase é uma versão de algo que foi dito ou escrito por alguém e, justamente por isso, deve ser similar ao texto-base. Nesse sentido, é imprescindível não distorcer ideias, nem fazer acréscimos ou cortes que afetem o nível semântico, já que, quando parafraseamos, estamos trabalhando com as pala- vras do outro. 4.1 Ambiguidade Vídeo A ambiguidade é uma das interferências negativas na coesão tex- tual. Geralmente, esse problema ocorre pelo encadeamento desatento de informações, fazendo com que uma ideia possa ser atribuída a dois antecedentes. Para corrigir um trecho ambíguo, às vezes basta a reor- denação das palavras no período. Mas há casos em que é necessária a inclusão de um novo período, a fim de esclarecer a qual antecedente refere-se a nova informação dada no texto. 4.1.1 Efeitos da ambiguidade Para demonstrar os efeitos da ambiguidade na construção textual e, consequentemente, na comunicação, vamos analisar um exemplo: Ambiguidade e paráfrase 47 O diretor da escola, professor João Aristides Gonçalves, iniciou sua gestão na semana passada. A ambiguidade aparece quando o leitor ou o ouvinte se depara com o aposto professor João Aristides Gonçalves. O aposto é um tipo de deta- lhamento e deve vir entre vírgulas. Além disso, quando há vírgulas, gera- -se um destaque ou uma ênfase. Dessa forma, como o aposto é incluído depois dos termos diretor e escola, surge a dúvida: afinal, qual é o antece- dente a que esse nome se refere, o diretor ou a escola? O problema apa- rece porque, no rol de possibilidades, o nome pode ser da escola, como uma homenagem a algum professor de relevo na região, por exemplo. A outra hipótese é que um professor tenha assumido a direção. Depois que o novo acordo entrou em vigor, em 2016, algumas re- gras mudaram e uma delas passou a exigir que profissões e cargos sejam grafados com inicial minúscula. Sem dúvida, isso ajuda a resolver parcialmente a questão da ambiguidade, no exemplo dado. Entretanto, para quem ouve esse texto e não pode diferenciar entre letra maiús- cula e minúscula, o sentido ambíguo permanece. Outro detalhe funda- mental é que ainda sobram os problemas da pontuação e da ordem dos termos na frase. Diante disso, apesar da complexidade do exemplo analisado, há diver- sas saídas para a resolução do problema. Vamos verificar algumas delas. O diretor, professor João Aristides Gonçalves, iniciou sua gestão na semana passada. Nessa possibilidade, a opção foi tirar a extensão da escola. O nome do diretor continua fazendo o papel de aposto, razão pela qual apa- rece entre vírgulas, logo depois de diretor, que é o antecedente a que professor João Aristides Gonçalves se refere. Para completar a informação com o nome da escola cuja direção foi assumida pelo professor, pode-se propor a alternativa a seguir: A escola do bairro está com novo diretor. O professor João Aristides Gonçalves iniciou sua gestão na semana passada. Essa opção já apresenta mudanças mais consideráveis, pois, para desfazer a ambiguidade, foi acrescentado novo período. A escola é o foco desse período: o leitor é informado sobre a localização (“escola do bairro”) e sobre o fato de que ela ter um “novo diretor”. Porém, apenas 48 Interpretação de textos no período seguinte o nome do diretor é citado. Destaca-se também que é desnecessária a repetição da palavra diretor junto ao nome do professor que assumiu o cargo, porque a continuidade do período (“O professor João Aristides Gonçalves iniciou sua gestão...”) já permite que o leitor conclua que se trata do diretor e não de outra pessoa. A escola Professor João Aristides Gonçalves ganhou novo diretor. Antônio da Silva iniciou sua gestão na semana passada e já definiu uma lista de prioridades. Pressupondo que Professor João Aristides Gonçalves seja o nome da escola, uma alternativa é informar o nome do estabelecimento de ensi- no logo depois da palavra escola. O diretor (nessa versão denominado Antônio da Silva) é apresentado apenas no segundo período. Embora seja possível resolver o problema da ambiguidade de diversos modos, é necessário antes saber reconhecer os trechos ambí- guos. Essa é a tarefa mais difícil e requer um nível razoável de interpre- tação. Depois de cumprida essa etapa, as ambiguidades devem ser desfeitas por meio de uma reescrita adequada, a fim de garantir mais clareza ao texto. 4.1.2 Análise e reescrita da ambiguidade Quando lemos atentamente um texto, o primeiro sinal de que pode haver problemas de ambiguidade é a duplicidade de sentidos. O texto ambíguo traz informações que podem servir a dois ou mais objetos ou sujeitos, e isso interfere negativamente no momento da leitura. Em tese, o texto deve servir de ponte entre o autor e o lei- tor. Porém, quando a ambiguidade aparece, outro sentido passa a ser possível, o que desvirtua o significado que o autor tinha planejado no momento da escrita. A seguir serão apresentados vários períodos com esse problema coesivo. O exercício proposto abrangerá duas etapas. A primeira en- volve a compreensão de por que o período é considerado ambíguo e onde exatamente está o problema. Na segunda etapa, a tarefa é pro- por outros modos de dar a mesma informação de modo claro. Ao longo desse processo, serão exigidas habilidades de escrita e, sobretudo, de interpretação, pois o ponto de partida para a elaboração de um novo período é a compreensão do efeito provocado pela palavra ou pela or- dem que estabelece a ambiguidade. Então, vamos praticar! Figura 1 Ambiguidade e duplicidade de sentidos smartdesign91/Shutterstock https://www.shutterstock.com/pt/g/smartdesign91 Ambiguidade e paráfrase 49 • Esse é um dos engenheiros da casa, cuja compra eu lhe aconselhei. • O funcionário dirigiu-se ao patrão irritado. • Comprei o carro do meu amigo, que estava com vários problemas. • O convite foi feito aos atores e ao patrocinador, mas estes faltaram ao encontro. • O diretor contou detalhes do espetáculo que bateu o recorde de bilheteria e esse fato teve grande repercussão na mídia. Levando-se em conta todos os períodos apresentados, é possível verificar a existência de um ponto comum entre eles: há dois elemen- tos no início da informação e posteriormente apenas um é retomado, sendo fornecido um novo dado. Desse modo, vamos acrescentar esse raciocínio a cada período dado, para identificar como a ambiguidade configura-se em cada exemplo. Esse é um dos engenheiros da casa, cuja compra eu lhe aconselhei. Antecedentes Informação nova Conclusão engenheiros e casa Uma compra foi aconselhada. A compra deve se relacionar apenas à palavra casa. O funcionário dirigiu-se ao patrão irritado. Antecedentes Informação nova Conclusão funcionário e patrão Alguém está irritado. A irritação pode se relacionar tan- to ao funcionário como ao patrão. Comprei o carro do meu amigo, que estava com vários problemas. Antecedentes Informação nova Conclusão carro e amigo O carro ou o amigo tinha problemas. Os problemas podem ser atribuí- dos ao carro (problemas mecâ- nicos) ou ao amigo (problemas financeiros, provavelmente). O convite foi feito aos atores e ao patrocinador, mas estes faltaram ao encontro. Antecedentes Informação nova Conclusão atores e patrocinador Mais de uma pessoa faltou ao encontro. Os atores e o patrocinador falta- ram ao encontro, ou apenas os atores faltaram. (Continua) 50 Interpretação de textos O diretor contou detalhes do espetáculo que bateu o recorde de bilheteria e esse fato tevegrande repercussão na mídia. Antecedentes Informação nova Conclusão contou detalhes do espetáculo e bateu o recorde de bilheteria Um fato teve grande repercussão na mídia. O fato que teve grande repercussão na mídia serve para a narração detalhada do diretor, mas também para a audiência do espetáculo. Depois dos exemplos analisados, nossa tarefa agora é propor uma nova redação aos períodos dados, para corrigir o problema da ambi- guidade. Vamos a isso. Frase original Esse é um dos engenheiros da casa, cuja compra eu lhe aconselhei. Nova redação Essa é a casa que eu lhe aconselhei a comprar e ele é o engenheiro que a construiu. Explicação A compra foi relacionada apenas a casa e a informação sobre o engenheiro foi ampliada. Frase original O funcionário dirigiu-se ao patrão irritado. Nova redação 1 O funcionário, irritado, dirigiu-se ao patrão. Explicação Quem aparece irritado, nesse exemplo, é o funcionário. Nova redação 2 O funcionário dirigiu-se ao patrão, que estava irritado desde cedo. Explicação Quem está irritado, e desde cedo, é o patrão. Frase original Comprei o carro do meu amigo, que estava com vários problemas. Nova redação 1 O carro que comprei do meu amigo estava com vários problemas. Explicação O carro tinha problemas. Nova redação 2 Comprei o carro para ajudar meu amigo, que estava com vários problemas. Explicação Quem tinha problemas era o amigo. Frase original O convite foi feito aos atores e ao patrocinador, mas estes faltaram ao encontro. Nova redação 1 Foi marcado um encontro entre os atores e o patrocinador, mas ninguém compareceu. Explicação Tanto os atores como o patrocinador faltaram ao encontro. Nova redação 2 Os atores faltaram ao encontro marcado com o patrocinador. Explicação Apenas os atores faltaram, mas o patrocinador compareceu. Frase original O diretor contou detalhes do espetáculo que bateu o recorde de bilheteria e esse fato teve grande repercussão na mídia. Nova redação 1 Os detalhes da narração do diretor sobre o espetáculo, o qual bateu o recorde de bi- lheteria, tiveram grande repercussão na mídia. (Continua) Ambiguidade e paráfrase 51 Explicação O que ganhou repercussão foi a narrativa detalhada do diretor, e não o espetáculo. Nova redação 2 Um espetáculo, que bateu o recorde de bilheteria, teve grande repercussão na mídia. Nesta semana, o diretor contou detalhes da produção. Explicação Investe-se em alguns acréscimos para garantir a clareza das informações. Do modo como as informações são apresentadas nesse exemplo, fica claro que aquilo que teve grande repercussão foi o espetáculo, e não os detalhes divulgados pelo diretor. Como podemos perceber, os exercícios de análise e reescrita são fundamentais para corrigir desvios de sentido e para assegurar a cla- reza textual. Além disso, foi observado que há inúmeros modos de retrabalhar uma ambiguidade. Nesse momento, as escolhas do autor refletem seu estilo, ao mesmo tempo que demonstram a flexibilidade da língua portuguesa. 4.2 Paráfrase Vídeo A paráfrase é um tipo de escrita que exige um bom domínio do lé- xico, ou vocabulário. Parafrasear um texto é reescrevê-lo mantendo o sentido original, mas, para se chegar a esse resultado, em vez da cópia pura e simples devem ser usados sinônimos. Exatamente por essa ra- zão, a riqueza vocabular é o principal requisito para uma boa paráfrase. Cotidianamente, fazemos paráfrases o tempo todo, sobretudo quando contamos a alguém um fato que nos chamou a atenção. Saber parafrasear um texto pode evitar situações bastante embara- çosas. Uma delas é a do plágio. Um texto plagiado é uma cópia. Já a paráfrase é a opção honesta, que evita a cópia de um trecho escrito ou dito por outra pessoa. Entretanto, para isso, uma boa interpretação também é essencial. Outra situação difícil e que pode ser evitada pelo uso da paráfrase ocorre quando temos de repetir o que alguém disse. Imaginemos a situação de uma entrevista: mesmo que o entrevistador grave toda a conversa que manteve com a pessoa entrevistada, passar as falas registradas para a forma escrita é um desafio e tanto. A fala apresenta algumas liberdades e marcas que a escrita formal não aceita. Portanto, as mudanças são obrigatórias. Contudo, as altera- ções não podem afetar o conteúdo do que foi dito Figura 2 A paráfrase e o sentido do que foi dito Clever Pencil/Shutterstock https://www.shutterstock.com/pt/g/cleverpencil 52 Interpretação de textos e, nesse sentido, qualquer deslize pode desvirtuar a fala da pessoa, gerando um significado que não fazia parte do enunciado original. Está claro que a pessoa que deu a entrevista não pode ser responsabiliza- da por uma possível falta de habilidade daquele que parafraseou seu discurso. Já as aspas nos lembram de que o discurso do outro deve ser respeitado e conservado. Sabemos que a paráfrase não é um discurso direto, mas justamente por isso nosso cuidado deve ser redobrado, quando parafraseamos a fala ou a escrita de alguém. A paráfrase empresta a estrutura do discur- so indireto – e isso indica que não podemos simplesmente copiar o que foi dito ou escrito. Entretanto, isso não nos dá liberdade para mudar o conteúdo do texto original. A comunicação é subjetiva e qualquer deta- lhe pode fazer muita diferença. Sendo assim, não é adequado fazermos cortes, trocas ou inclusões, para que o sentido não seja prejudicado. Conclusão: a paráfrase é uma arte e tem como principal objetivo manter o sentido do texto ou do enunciado original. 4.2.1 Paráfrase e encadeamento textual Assim como a ambiguidade, que geralmente é percebida em perío- dos mais longos – afinal, é justamente no uso de relatores ou conecti- vos que esse problema coesivo aparece –, a paráfrase apresenta maior grau de dificuldade quando a proposta é reunir várias orações meno- res em um longo período. Nas ligações que se estabelecem para dar unidade ao texto, surgem equívocos que podem desvirtuar completa- mente o sentido original do conjunto de frases que foi dado no início. Em um pequeno texto, pode haver duas informações ou mais so- bre um mesmo objeto ou sujeito. Em exercícios que pedem a união de diversos períodos breves, um erro básico e muito frequente é fazer a junção usando um pronome relativo, mas sem se preocupar com o local exato em que a segunda informação sobre o objeto ou sujeito em questão será inserida. Vamos a um exemplo: O senado estabeleceu um novo cenário político. O senado determinou a intensificação das alianças partidárias. O senado estabeleceu um novo cenário político, que determinou a intensificação das alianças partidárias. Ambiguidade e paráfrase 53 A união das orações está incorreta, porque atribui a determinação da “intensificação das alianças partidárias” ao “novo cenário político”, e não ao “senado”. Sendo assim, percebe-se facilmente que, para se obter uma boa paráfrase, é de suma importância interpretar as infor- mações corretamente – afinal, é isso que irá determinar a clareza do texto produzido. Em suma, para evitar ambiguidades e parafrasear um texto corretamente, interpretação e clareza são imprescindíveis. Para desenvolver a paráfrase, vamos propor modos de agrupar alguns conjuntos de orações: A casa é pequena. Comprei a casa. A casa fica no bairro Água Verde. A casa que comprei é pequena e fica no bairro Água Verde. O sentido original foi mantido: é informada a compra da casa e de- pois são citados os dois atributos da casa comprada, ou seja: o tama- nho – pequena – e a localização – fica no bairro Água Verde. Queria deixar o carro no estacionamento. O estacionamento estava lotado. O estacionamento, onde queria deixar o carro, estava lotado. Escolheu-se aqui como informação principal a segunda oração: “O estacionamento estava lotado”. Mas, afinal, onde mesmo a pessoa “queria deixar o carro”? “No estacionamento”. Então, foi introduzida uma informação secundária – “onde queria deixar o carro” – logo após a palavra estacionamento, pois a informação acrescentadarefere-se a esse antecedente. Inúmeras pessoas leem livros de não ficção. Relações interpessoais e esoterismo são os temas mais procurados atualmente. Inúmeras pessoas leem livros de não ficção, principalmente sobre relações interpessoais e esoterismo, que são os temas mais procurados atualmente. A sugestão para unir as orações desse exercício é bastante parecida com a do exercício anterior: o início permanece – “Inúmeras pessoas 54 Interpretação de textos leem livros de não ficção” – porque a escolha foi manter o primeiro período como informação principal do novo texto. Posteriormente, foi incluído um aposto, entre vírgulas, informando os dois temas. Por fim, depois de especificados os temas, o pronome relativo que foi colocado após a vírgula, retomando “relações interpessoais” e “esoterismo”, mas evitando a repetição, para mencionar que esses “são os temas mais procurados atualmente”. Nesses exemplos, a paráfrase investiu menos no uso de sinônimos e mais na estruturação textual. Nesse primeiro nível de dificuldade do uso da paráfrase, a exigência é menor, já que a manutenção do sentido envolve, principalmente: • a interpretação correta do que se quer comunicar; • o uso adequado de relatores; e • o estabelecimento de uma ordem lógica e coerente para as informações. No entanto, quando a paráfrase pede maior preocupação com o conteúdo, e não com a estrutura, todos esses cuidados continuam me- recendo atenção, mas a novidade é que a riqueza vocabular daque- le que produz o texto passa a ser determinante, como veremos na próxima subseção. 4.2.2 Paráfrase e sinonímia A elaboração da paráfrase põe à prova o repertório de quem escre- ve um texto, pois o desafio é claro: trata-se de afirmar a mesma coisa, mas usando palavras diferentes. A flexibilidade da língua é um recurso praticamente inesgotável e isso pode ser colocado em prática não ape- nas pela variação na estrutura, como demonstramos há pouco, mas também pelo uso de sinônimos. Vamos testar o uso da sinonímia para parafrasear o texto apresentado a seguir. Ambiguidade e paráfrase 55 Parede coberta de chicletes O muro no bairro de Post Alley, próximo do Mercado Park Place, é conheci- do hoje por Parede de Chicletes de Seattle e começou a receber intervenções dos turistas e locais no começo da década de 1990. À época, muitas pessoas passavam pela região e formavam longas filas para comprar ingressos para o teatro local. Irritadas, elas grudavam seus chi- cletes na parede e, algumas vezes, também colavam uma moeda. Com o passar dos anos as moedas foram perdendo espaço para os chicle- tes e, em 1999, a cidade oficializou o local como ponto turístico. (PAREDE, 2010) Para facilitar a tarefa, vamos reescrever um período de cada vez. Texto original: O muro no bairro de Post Alley, próximo do Mercado Park Place, é conhecido hoje por Parede de Chicletes de Seattle e começou a receber intervenções dos turistas e locais no começo da década de 1990. Paráfrase: No bairro de Post Alley, há um muro, perto do Mercado Park Place, hoje chamado Parede de Chicletes de Seattle e que começou a contar com a participação de estrangeiros e moradores da região no início da década de 1990. Vejamos as principais mudanças feitas no trecho, por meio do uso de sinônimos: • “Próximo” foi trocado por “perto”. • Em vez de “começou a receber intervenções dos turistas e locais”, foi usado “começou a contar com a participação de estrangeiros e moradores da região”. • Por fim, para indicar quando começou a formação do muro de chicletes, “no começo da década de 1990”, foi escolhida a opção “no início da década de 1990”. 56 Interpretação de textos Texto original: À época, muitas pessoas passavam pela região e formavam longas filas para comprar ingressos para o teatro local. Paráfrase: Naquela época, vários visitantes iam à região e faziam grandes filas para adquirir ingressos para o teatro local. Nessa paráfrase, os sinônimos utilizados foram: • A primeira mudança foi a troca de “Naquela época”, em vez de “À época”. • O trecho original “muitas pessoas passavam pela região” foi substituído, na nova versão, por “vários visitantes iam à região”. • No final do período, “e formavam longas filas para comprar in- gressos para o teatro local”, foi feita a seguinte alteração: “e fa- ziam grandes filas para adquirir ingressos para o teatro local”. Texto original: Irritadas, elas grudavam seus chicletes na parede e, algumas vezes, também colavam uma moeda. Paráfrase: Nervosas, as pessoas grudavam suas gomas de mascar no muro e, às vezes, colocavam ainda uma moeda. Aqui foram utilizados os seguintes sinônimos: • A parte “Irritadas, elas grudavam seus chicletes na parede” foi substituída por “Nervosas, as pessoas grudavam suas gomas de mascar no muro”. • Em vez de “e, algumas vezes, também colavam uma moeda”, foi usado “e, às vezes, colocavam ainda uma moeda”. Texto original: Com o passar dos anos as moedas foram perdendo espaço para os chicletes e, em 1999, a cidade oficializou o local como ponto turístico. Paráfrase: Ao longo do tempo, as moedas foram diminuindo e o número de chicletes foi aumentando e, há mais de vinte anos, a cidade tornou o muro oficialmente um ponto turístico. Ambiguidade e paráfrase 57 Vamos ver os sinônimos utilizados aqui: • A locução adverbial “Com o passar dos anos” foi convertida em “Ao longo do tempo”. • No lugar de “as moedas foram perdendo espaço para os chicle- tes”, escreveu-se “as moedas foram diminuindo e o número de chicletes foi aumentando”. • Finalmente, a parte “e, em 1999, a cidade oficializou o local como ponto turístico” foi substituída por “e, há mais de vinte anos, a cidade tornou o muro, oficialmente, um ponto turístico”. Evidentemente, com as paráfrases sugeridas e o breve comentário que segue cada uma delas, é fácil perceber que a sinonímia só pode ser usada para substituir determinadas palavras. Nomes próprios, idade, nomes de órgãos públicos e outras referências invariáveis são manti- das. Mesmo assim, e apesar de se tratar de um texto curto, como o que foi utilizado nesse exercício, o uso de sinônimos abre possibilidades in- teressantes para a reescrita do texto, às vezes exigindo pequenos ajus- tes – como ocorreu na paráfrase do último período, quando se falou da predominância dos chicletes sobre as moedas. Outro recurso que poderia ter sido utilizado paralelamente à sinoní- mia, nos exemplos trabalhados, é a mudança na ordem das informa- ções. Os advérbios prestam-se muito bem a esse tipo de alteração, pois podem ser colocados em diferentes posições no período, sem que isso cause alteração significativa no sentido do texto. Mais um dado funda- mental sobre os advérbios é que, apesar de muitas pessoas acharem que essa classe de palavras é inalterável, demonstramos justamente o oposto: os advérbios também admitem o recurso da sinonímia. Exem- plificamos isso na substituição da locução adverbial de tempo “em 1999” por “há mais de vinte anos”. Que tal treinar a paráfrase textual? Um bom exercício é ler ou ouvir entrevistas ou notícias apresenta- das em telejornais, sites ou jornais impressos, e depois reescrever o texto com suas palavras. Não se esqueça de comparar a versão que você escreveu com o original, para avaliar seu desempenho. Um livro que aprofunda o conceito de paráfrase é Paródia, Paráfrase & Cia, de Afonso Romano de Sant’Anna. São Paulo: Ática, 1991. Vamos praticar? CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste capítulo, analisamos a ambiguidade e a paráfrase, que tratam do aspecto semântico, ou de significado. Exercitamos maneiras de identificar a ambiguidade e trabalhamos com diversas possibilidades de correção e reescrita. Sobretudo quando escrevemos algo que será publicado, deve- mos revisar o texto atentamente, para nos certificarmos de que o sentido que pretendemos apresentar será de fato entendido pelo leitor. Relacio- nado a isso, também analisamoso recurso da paráfrase, o qual exige igual 58 Interpretação de textos cuidado com o sentido, principalmente por incluir citações, que, a rigor, correspondem a discursos de outras pessoas. Diante disso, a interpreta- ção ganha maior relevo, pois devemos antes compreender a ideia alheia para depois incorporá-la – sem desvios de conteúdo – em nossa escrita ou em nossa fala. ATIVIDADES 1. Reescreva os períodos a seguir, desfazendo a ambiguidade: a) A professora da escola, premiada internacionalmente, apareceu em diversos jornais, na semana passada. b) Ele despediu-se do pai, porque estava doente e precisava ser internado. 2. A partir do conjunto de períodos dado, forme um período maior, unindo as informações sem alterar o sentido: a) Marilyn Monroe fez muito sucesso em Hollywood. Marilyn Monroe foi a estrela de Os homens preferem as loiras e Quanto mais quente melhor. b) As lotéricas oferecem cada vez mais serviços bancários. As lotéricas estão investindo em bons esquemas de segurança. 3. Utilize sinônimos para propor uma paráfrase ao texto que segue: Produção na safra atual é 7,5% menor A União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) afirmou ontem que a produção de álcool combustível do Centro-Sul do Brasil até 16 de janeiro na safra 09/10 está 7,54% abaixo da do mesmo período da safra anterior. Até a primeira quinzena de janeiro, a produção total do combustível na região Centro-Sul atingiu 22,9 bilhões de litros, contra 24,8 bilhões de litros no mesmo período de 08/09. (PRODUÇÃO, 2010) REFERÊNCIAS PAREDE coberta de chicletes mascados vira atração turística nos EUA. G1, 25 mar. 2010. Disponível em: http://g1.globo.com/Noticias/PlanetaBizarro/0,,MUL1543114-6091,00-PAR EDE+COBERTA+DE+CHICLETES+MASCADOS+VIRA+ATRACAO+TURISTICA+NOS+EUA.html. Acesso em: 15 jun. 2021. PRODUÇÃO na safra atual é 7,5% menor. Jornal Primeira Página, 27 jan. 2010. Vídeo http://g1.globo.com/Noticias/PlanetaBizarro/0,,MUL1543114-6091,00-PAREDE+COBERTA+DE+CHICLETES+MASCADOS+VIRA+ATRACAO+TURISTICA+NOS+EUA.html http://g1.globo.com/Noticias/PlanetaBizarro/0,,MUL1543114-6091,00-PAREDE+COBERTA+DE+CHICLETES+MASCADOS+VIRA+ATRACAO+TURISTICA+NOS+EUA.html Fato, opinião e tipos de discurso 59 5 Fato, opinião e tipos de discurso O conteúdo que iremos discutir agora se relaciona ao modo como os textos priorizam o teor factual e os níveis de opinião. Em tese, não existem textos neutros, pois a ordem dos termos já indi- ca o que consideramos mais importante em determinado conjunto de ideias. No entanto, a organização e a sequência das informações são inerentes a qualquer tipo de comunicação – seja ela falada ou escrita. Sendo assim, as preocupações maiores surgem quando é preciso formular um texto não opinativo ou quando se torna ne- cessário combinar fato e opinião. Com base nesses quesitos, neste capítulo abordaremos as diferenças entre os aspectos factuais e opinativos, além de discutirmos os níveis mais adequados para expressarmos opinião em um texto. 5.1 O que é fato ou opinião no texto? Vídeo Um fato é algo que aconteceu na realidade. Por isso, para muitos, essa verdade que o fato representa exige total isenção do autor do texto: fato é fato; opinião é outra coisa. No entanto, as coisas não são assim tão simples. Não existem com- partimentos que garantam que esses dois polos nunca se cruzem. É cer- to que um texto que se restringe aos fatos evita marcas excessivas de opinião. Isso é possível, por exemplo, com o corte de adjetivos que não dizem respeito a fatos. Observe a diferença: 1. Aquele foi o primeiro trabalho dela como atriz. 2. Naquela novela, a interpretação dela estava impecável. 60 Interpretação de textos Comparando os exemplos, concluímos que o período 1 traz uma informação factual, a qual é caracterizada pelo uso da palavra primeiro. A prova de que esse adjetivo estabelece um fato, e não uma opinião, é que ninguém pode contestar esse dado. Por outro lado, no período 2 foi usado o adjetivo impecável, de claro teor opinativo, já que algumas pessoas podem discordar, apresentando uma visão bem diferente. En- quanto para uns a atriz fez uma interpretação impecável, para outros ela pode ter feito uma interpretação apenas satisfatória. Com base nessa distinção, sabemos que as pessoas nunca recon- tam um fato exatamente do mesmo modo. Cada uma começa de um jeito e organiza as ideias que formam o conjunto textual de uma manei- ra bastante específica. Até mesmo a seleção das informações que vão figurar no texto ou que receberão prioridade revela a opinião do autor. Para entender mais claramente esse assunto, observe as imagens a seguir e tente encontrar as mudanças de uma cena para a outra. Figura 1 Exercício para encontrar diferenças Apesar de parecerem iguais, as cenas apresentam várias diferenças. El en a Be ss on ov a/ Sh ut te rs to ck A partir dessa brincadeira, percebemos facilmente que duas narra- tivas podem parecer muito similares, mas, quando analisamos alguns detalhes, constatamos que não temos o fato em si. Em vez disso, temos duas versões e as discrepâncias entre elas revelam a subjetividade e a opinião de cada autor. Como vimos nas duas imagens que comparamos, muitas vezes os desvios são mínimos. Ainda assim, a opinião instala-se no texto, de modo sorrateiro, sendo percebida apenas pelas pessoas mais atentas. Se a opinião pode ser evidenciada até mesmo na organização textual A expressão baseado em fatos reais é incorreta. Como todo fato está naturalmente ligado à realidade, usar o adjetivo real junto com a palavra fato gera uma redundân- cia. Para corrigir esse problema, basta escrever ou falar baseado em fatos. Para saber mais https://www.shutterstock.com/pt/g/sonet Fato, opinião e tipos de discurso 61 e por meio das escolhas do autor, quando se quer dar mais relevo ao fato em si é comum obedecer a alguns critérios que objetivam contro- lar o nível de opinião do texto, assegurando que ela não se alastre, a fim de não comprometer o conteúdo – e também para evitar excessiva influência sobre o leitor. A fórmula mais usada para tentar esse contro- le sobre a opinião e para dar mais destaque ao fato é bem conhecida: verbos na terceira pessoa, pouca adjetivação com juízo de valor e ên- fase à descrição. Vamos, agora, analisar o que é fato e o que é opinião em algumas notas de jornais: Idosos terão recursos A prefeitura de Curitiba, através da Secretaria Municipal do Esporte e Lazer, receberá R$100 mil para atender projetos voltados à terceira idade neste ano. Os recursos são provenientes de emenda ao Orçamento da União, aprovada por solicitação da Câmara, junto aos deputados federais, no Congresso Nacional. De acordo com o projeto, a verba será investida na implantação e moderni- zação da infraestrutura de esporte recreativo e de lazer para idosos. (IDOSOS, 2010) O texto transcrito consegue se deter sobre o fato, sem muitas in- terferências de opinião. Não há adjetivação que julgue as informações apresentadas. Pode-se dizer apenas, pelo conjunto, que o texto deixa transparecer o lado positivo da notícia, o que fica claro desde o título, Idosos terão recursos. As palavras desse título não foram escolhidas ao acaso: elas dão um bom resumo da notícia, apresentam coerência em relação ao texto, e também passam a ideia de que o fato de os idosos receberem recursos é algo benéfico. Luta Acontecerá no próximo dia 13 de março, às 19h, no Palácio de Cristal, no Círculo Militar do Paraná, o Power Fight Extreme 2, eleito o melhor evento de MMA em 2009. (LUTA, 2010) 62 Interpretação de textos Apesar de o fato ser privilegiado também nessa nota, nela há uma amostra de como a seleção das informações passadas ao leitor pode variar, demonstrando opinião, mesmo que em escala bastante redu- zida. O texto faz uma divulgação, informando data, hora, local, e for- necendo o nome completo do evento. Porém, o que chama atenção é que o texto também menciona o fato de o Power Fight Extreme 2 ter sido “eleito o melhorevento de MMA em 2009”. Sem dúvida isso é um fato, pois a eleição foi feita e o evento de artes marciais mistas (ou Mixed Martial Arts – MMA) foi mesmo premiado. Porém, dar essa informação ao se divulgar o evento serve para influenciar o público po- sitivamente – afinal, para quem gosta desse tipo de campeonato, o prê- mio é um estímulo a mais para que a pessoa decida pela participação. Destaca-se, porém, que esse tipo de recurso é normal em textos de divulgação, cujo principal objetivo é criar público para a atração. Fim do sufoco Ponte que vai desafogar o trânsito da região Fazendinha e CIC será inaugu- rada em março. Obra é uma reivindicação antiga da comunidade, e já está em fase de acabamento. (FIM, 2010) Nesse texto, ao contrário dos dois anteriores, a opinião é mais evi- denciada. O primeiro indício dessa predominância é o título, Fim do sufoco. Em tom bastante apelativo, o título corresponde a algo como “até que enfim!” – e isso acontece porque o autor recuperou o fato mentalmente, fez uma avaliação sobre ele e, no título, registrou o re- sultado dessa avaliação. Além disso, há outros pontos com marcas de opinião. É o caso do verbo desafogar, que não apareceria em uma nota que privilegiasse o fato. Aliás, qual é o fato? É a construção de uma ponte. Apenas isso precisava ser informado. A conclusão de que a “ponte vai desafogar o trânsito da região” é subjetividade, opinião e, com certeza, influenciará potencialmente o pensamento do leitor. Outro detalhe que demonstra opinião é a afirmação de que a “obra é uma reivindicação antiga da comunidade”. Esse trecho ressalta o quanto os moradores da região esperavam e lutavam pela construção Fato, opinião e tipos de discurso 63 da ponte e, de certa forma, essa interferência opinativa reforça a ideia implícita no título. 5.1.1 Marcas de opinião Com um simples exercício de separar o fato da opinião, pode-se concluir que há diferentes modos de esta interferir no texto. Alguns, mais abundantes e bastante eficazes, merecem destaque. Veja a seguir: • Uso de adjetivos opinativos. • Uso de frases, locuções ou expressões de valor argumentativo. • Ordem das informações na oração. Comecemos pelo uso de adjetivos, classe de palavras que tem a função de apresentar qualidades ou defeitos de pessoas ou objetos. Para exemplificar como os adjetivos servem para demonstrar opinião, vamos recuperar algumas construções largamente utilizadas na mídia: • O irreverente show da banda… • O bom desempenho do jogador… • A má atuação do político… Os adjetivos, nos exemplos dados, aparecem destacados e são usa- dos para qualificar as palavras a que se referem. Justamente por isso, ou seja, pelo fato de apontarem atributos positivos ou negativos para qualificar o show, o desempenho do jogador e a atuação do político, o autor do texto marca sua opinião, desviando-se da informação pura e simples. Retomando o exemplo do jogador, e considerando que o desempenho do atleta tenha sido realmente bom, bastaria que o autor do texto descrevesse os melhores lances de que ele participou. Com isso, o próprio leitor chegaria à conclusão de que o jogador teve boa atuação em campo. Vamos imaginar agora um exemplo para o uso de frases, locuções ou expressões que marcam opinião: XXX, redator de um jornal espanhol de grande circulação, denunciou que uma de suas matérias foi reescrita, com a supressão de vários trechos. O fato, sem dúvida, é um acinte à liberdade de opinião e à democracia. 64 Interpretação de textos Aqui, a opinião é explícita e corresponde a todo o segundo perío- do do texto. Esse tipo de construção textual privilegia a alternância entre fato e opinião e geralmente aparece em crônicas ou colunas de jornais e revistas. O terceiro modo de marcar a opinião no texto diz respeito à ordem dos elementos no período. Vamos analisar um exemplo: A casa do rei do rock recebe dezenas de pessoas diariamente. Em pleno século XXI, o culto a Elvis Presley continua. Há duas coisas importantes na ordem do período: o destaque ao número de pessoas que visitam a casa do artista e o fato de o título rei do rock ser mencionado antes do nome de Elvis, o que só é possível porque essa expressão já foi empregada inúmeras vezes, para fazer referência a Elvis Presley. Portanto, a expressão acaba funcionando quase como um sinônimo para o nome próprio do artista. Além disso, o exemplo dado acentua o fato de Elvis ser considerado uma lenda, o que justifica tantas homenagens e visitas à mansão dele, diariamente. Agora vamos inverter a ordem do exemplo dado: Em pleno século XXI, o culto a Elvis Presley continua. A casa do rei do rock recebe dezenas de pessoas diariamente. A transformação pode parecer insignificante, mas o fato é que, com essa pequena troca de posição dos períodos, o sentido do texto sofreu um impacto. Indubitavelmente, tudo o que foi dito no primeiro texto também é dito nesse. O que é diferente é o modo como as informações são apresentadas. Agora, o começo do texto prioriza a atemporalidade de Elvis, para só depois mencionar o número de visitantes que chegam à mansão do cantor todos os dias. Observe, porém, que o uso da lo- cução adverbial Em pleno século XXI, logo no início do texto, empresta um tom que pode ser interpretado como crítica àqueles que cultuam a imagem do rei do rock, como se a atitude dos fãs fosse considerada fora de época. Voltando ao uso de adjetivos e frases, locuções ou expressões para evidenciar opinião, é importante perceber que esses dois recursos têm Fato, opinião e tipos de discurso 65 base na escolha vocabular. Sem dúvida, em alguns casos, os termos que utilizamos no texto instituem níveis distintos de opinião. Em ou- tros, as palavras de um texto podem não expressar nenhuma opinião relevante, de modo a privilegiar apenas o fato. Diante disso, temos de ficar atentos ao vocabulário e, nesse sentido, a comparação é um bom modo de entender o impacto que determina- das palavras podem causar no texto. Admitamos, então, dois modos diferentes de noticiar um fato: • O presidente da França visita vários países em companhia da primeira-dama. • O presidente da França visita vários países em companhia da mulher. A única diferença entre os dois períodos é pequena, mas de funda- mental importância. Enquanto o primeiro período cita apenas a palavra primeira-dama, o segundo faz questão de informar que ela é “mulher” do presidente. Esse detalhe pode passar despercebido no primeiro mo- mento – afinal, mulher nem é adjetivo. Entretanto, esse substantivo dá maior importância à vida pessoal do presidente, com atenção especial ao casamento dele. Já no primeiro período, o vocábulo primeira-dama faz com que se destaque o aspecto político, deixando a relação pessoal em segundo plano. Outro dado curioso, no que se refere à escolha das palavras que irão compor o texto, é que muitas vezes o autor tem o claro intuito de despertar a emotividade do leitor. Para entender como esse efeito pode ser obtido, basta pensar na diferença de linguagem entre um jor- nal mais sério e outro, de abordagem totalmente sensacionalista. Su- pondo que uma notícia apresenta uma injustiça sofrida por um idoso, por exemplo, haveria diferença considerável se um jornal (aquele mais sério) usasse o substantivo idoso e o outro (o sensacionalista) optasse pelo diminutivo velhinho. Isso ocorre porque uma das funções do di- minutivo é provocar afetividade e, somando essa carga do diminutivo à ideia de injustiça, é certo que o leitor sentiria piedade depois de ler o texto, dando a resposta que o autor esperava, quando optou por usar velhinho em vez de idoso. Em sites de jornais ou re- vistas, pesquise e leia uma notícia sobre um tema de sua preferência. Durante a leitura, analise a relação entre fato e opinião, tentando identificar qual deles predomina em cada parte do texto. Vamos praticar? 66 Interpretação de textos 5.2 Tipos de discurso Vídeo Fazer uma citação é um bom recursopara garantir a predominân- cia do fato sobre a opinião. Se a fala de alguém, transcrita direta ou indiretamente, fizer algum julgamento de valor, o autor do texto não se compromete com isso: o crédito ou descrédito da afirmação ou da crítica vai para aquela pessoa que fez a declaração. Ao autor do texto apenas coube a tarefa da transcrição. Desse modo, seja qual for o tipo de discurso adotado pelo autor do texto – direto, indireto ou indireto li- vre –, a utilização da palavra do outro é um bom artifício para se isentar de opinar sobre o fato apresentado no texto. Para exemplificar isso, vamos transformar o trecho “O bom desem- penho do jogador…” em um discurso proferido por outra pessoa e apenas citado pelo autor do texto. Vamos tentar primeiro a citação da forma direta: O técnico disse: “O jogador teve um bom desempenho.” Agora, vamos utilizar o discurso indireto: O técnico disse que o jogador teve um bom desempenho. Mesmo considerando as diferentes modalidades de discurso, a con- clusão é uma só: quem achou que “o jogador teve um bom desempe- nho” foi o técnico e não o autor do texto. Isso comprova a validade das citações como meio de dar mais destaque ao fato que à opinião do autor do texto. Porém, não basta sabermos que fato e opinião têm relação com os tipos de discurso. Também é necessário que nos lembremos de como identificar e usar cada um deles. Para isso, com base na breve retoma- da feita pelos exemplos anteriores, leia o texto a seguir e tente localizar nele as partes que exemplificam os discursos direto e indireto, muito usados diariamente, em diversas situações da fala ou da escrita. Fato, opinião e tipos de discurso 67 Veterinárias lançam sorvete para cachorro; especialista condena petiscos Os sorvetes tradicionais podem causar diarreia, vômito e cáries nos dentes dos animais de estimação. Com o forte calor do verão e a relação cada vez mais cheia de mimos entre os donos e seus bichos, duas veterinárias de São Paulo lançaram, em janeiro, um sorvete produzido especialmente para cachorros. Thaís Mucher, veterinária e empresária, afirma que a ideia surgiu porque ela mesma dava sorvete para seu cachorro. “Muita gente faz isso, mas não é reco- mendado. Nós pegamos a fórmula básica de um sorvete e tiramos a gordura hidrogenada, o açúcar e diminuímos em quase 50% o teor de lactose”, explica. […] Mas, assim como os demais petiscos, o sorvete não deve substituir a ra- ção. Thaís e sua irmã Juliana, que também é veterinária, dizem acreditar que o produto é o primeiro do tipo fabricado no Brasil. “Fizemos muitas pesquisas, achamos uma marca registrada, mas não achamos o sorvete para vender e não achamos site da empresa. Encontramos sorvetes para cachorros produzi- dos nos Estados Unidos, Bélgica e Taiwan”, diz Thaís. […] O médico veterinário especialista em dermatologia, Alexandre Pasternak, não recomenda nenhum tipo de petisco para os animais de estimação. Pasternak, que é diretor da Anclivepa (Associação Nacional de Clínicos Veterinários de Pequenos Animais) de São Paulo, diz que 90% das alergias em cachorros são causadas por esses tipos de alimentos. […] De acordo com o veterinário, a alimentação desregulada, com o excesso de carboidrato dos petiscos, pode causar distúrbios gastrointestinal, endocrino- lógico ou dermatológico, como as alergias, obesidade, diabetes e hipertireoi- dismo. “Eu não recomendo bife, sorvete, nada disso. Uma cenoura e interação com o animal são mais indicados do que esses petiscos”, afirma Pasternak. (GRANJEIA, 2010) Depois da análise que você fez do texto, é hora de confirmar as res- postas. Por isso, fique atento às explicações das seções apresentadas a seguir. 5.2.1 Discurso direto O discurso direto inclui no texto uma fala ou um texto escrito, na íntegra ou em partes. As marcas que evidenciam que a citação corres- ponde à fala ou à escrita de outra pessoa compõem uma espécie de 68 Interpretação de textos fórmula responsável por introduzir o discurso do outro no texto que está sendo escrito. Figura 2 Discurso direto e texto literal AV A Bi tte r/ Sh ut te rs to ck O discurso direto pode ser indicado por meio de aspas duplas, ba- lões ou travessões, por exemplo, e deve fornecer uma transcrição exa- ta – ipsis litteris. Dessa forma, esse recurso garante certa credibilidade, além de servir para conservar o sentido do texto original. A fórmula do discurso direto é composta de alguns elementos especiais: O professor solicitou: “Por favor, entreguem os trabalhos no prazo”. Esse tipo de verbo anuncia que alguém disse, relatou, afirmou ou contou alguma coisa. Essa pontuação deve vir logo depois da abertura e funciona como um divisor entre o texto que está sendo escrito e o texto do outro – citação. Pode ser feita pelo nome próprio ou pelo uso de um relator, como cargo/função ou pronome pessoal, por exemplo. Indicação do autor do discurso que será citado Verbo dicendi + + Dois-pontos https://www.shutterstock.com/pt/g/Sergeypykhonin Fato, opinião e tipos de discurso 69 Porém, também há outra fórmula para o discurso direto. Vejamos: “Por favor, entreguem os trabalhos no prazo”, solicitou o professor. Esse tipo de verbo anuncia que alguém disse, relatou, afirmou ou contou alguma coisa. Pode ser feita pelo nome próprio ou pelo uso de um relator, como cargo/função ou pronome pessoal, por exemplo. Esse sinal de pontuação geralmente vem logo depois do discurso citado, a fim de separar a apresentação da citação em si. Vírgula Verbo dicendi + + Indicação do autor do discurso que será citado O que determina qual esquema será usado é a ordem escolhida, e isso às vezes depende do estilo do autor do texto. O primeiro esquema é utilizado quando a citação é feita depois da apresentação de seu au- tor. Já o segundo vale para situações em que a citação vem antes de se dizer ao leitor quem é o autor do discurso citado. No entanto, há um ponto comum entre esses dois modos de se usar o discurso direto: as aspas, que são usadas para indicar que a passagem foi transcrita tal como se apresenta no texto original. Em se tratando de fala, elas indicam que o que o outro falou foi transcrito lite- ralmente, sem nenhuma modificação. Quando as aspas não aparecem, é usado o travessão, com a mesma função de preservar o conteúdo do discurso alheio: O professor solicitou: – Por favor, entreguem os trabalhos no prazo. Depois dessa breve introdução, é possível classificarmos algumas passagens do texto lido como exemplos de discurso direto: 70 Interpretação de textos “Muita gente faz isso, mas não é recomendado. Nós pegamos a fórmula básica de um sorvete e tiramos a gordura hidrogenada, o açúcar e diminuímos em quase 50% o teor de lactose”, explica. “Fizemos muitas pesquisas, achamos uma marca registrada, mas não achamos o sorvete para vender e não achamos site da empresa. Encontramos sorvetes para cachorros produzidos nos Estados Unidos, Bélgica e Taiwan”, diz Thaís. “Eu não recomendo bife, sorve- te, nada disso. Uma cenoura e interação com o animal são mais indicados do que esses petiscos”, afirma Pasternak. Quem explica é Thaís Mucher, veterinária e empresária. Thaís refere-se a ela mesma e à sua irmã, Juliana. A afirmação foi feita pelo veteri- nário Alexandre Pasternak. Observe que todos esses trechos usam o segundo esquema, isto é, primeiramente fazem a citação e depois informam a autoria. Os ele- mentos básicos do esquema utilizado (vírgula, verbo dicendi e nome do autor) aparecem ressaltados em cada citação. Repare, porém, que o primeiro exemplo é o único que não cita o nome de quem fez a decla- ração apresentada entre aspas. Isso é possível porque antes da citação o nome dessa pessoa já foi anunciado. Logo, nesse caso, o autor da citação pode ficar subentendido. 5.2.2 Discurso indireto O discurso indireto diferencia-se bastante do discurso direto. Em primeiro lugar, isso ocorre porque essa modalidade dispensaas aspas. O mesmo ocorre com a pontuação: vírgula e dois-pontos não apare- cem em uma passagem que privilegia o discurso indireto. Entretanto, esse discurso informa quem é o autor do discurso citado e, para isso, também precisa da ajuda do verbo dicendi e do que: A mãe disse que… Mas há casos em que o verbo dicendi e o que são desnecessários, como quando escolhemos usar termos como conforme, de acordo com, segundo etc. Segundo a mãe... No discurso indireto, apesar da ausência das aspas, devemos man- ter o cuidado com a interpretação e a transcrição das ideias alheias, para que o sentido original não seja desvirtuado. Fato, opinião e tipos de discurso 71 Figura 3 Exemplo de como o uso do discurso indireto pode alterar o sentido do texto original. B St ud io /S hu tte rs to ck Sem dúvida, não podemos causar problemas à pessoa que falou ou escreveu o trecho que decidimos incorporar em nosso texto. Por isso, todo cuidado é pouco. Devemos ter atenção aos significados dos termos. Além disso, é de grande ajuda quando dominamos a estrutu- ra dessa modalidade discursiva. Sendo assim, vamos retomar alguns exemplos de discurso indireto que apareceram no texto lido, para tor- nar mais claras algumas informações. • Thaís Mucher, veterinária e empresária, afirma que a ideia surgiu porque ela mesma dava sorvete para seu cachorro. • Thaís e sua irmã Juliana, que também é veterinária, dizem acreditar que o pro- duto é o primeiro do tipo fabricado no Brasil. • Pasternak, que é diretor da Anclivepa (Associação Nacional de Clínicos Veterinários de Pequenos Animais) de São Paulo, diz que 90% das alergias em cachorros são causadas por esses tipos de alimentos. • De acordo com o veterinário, a alimentação desregulada, com o excesso de car- boidrato dos petiscos, pode causar distúrbios gastrointestinal, endocrinológico ou dermatológico, como as alergias, obesidade, diabetes e hipertireoidismo. Para analisarmos os exemplos retirados do texto, vamos dividi- -los em dois grupos: um que abrange os três primeiros e outro que se restringe ao último. https://www.shutterstock.com/pt/g/birdigol 72 Interpretação de textos Observe, no primeiro grupo, o destaque dado ao autor do discurso citado, ao verbo dicendi e ao que: esses três elementos introduzem a citação propriamente dita. As citações não estão entre aspas, mas isso não quer dizer que o autor do texto que recupera o discurso de outra pessoa pode transcrevê-lo de qualquer maneira. Conforme já foi men- cionado, o discurso indireto precisa ser uma paráfrase, sem provocar alteração considerável no sentido daquilo que foi dito ou escrito. Antes de passarmos ao último exemplo, vamos ressaltar que os três primeiros apresentam aposto ou oração explicativa depois de informar o nome da pessoa que é dona do discurso que está sendo citado. Em- bora tenham valor secundário, o aposto e a oração explicativa servem para fornecer ao leitor mais detalhes sobre a pessoa que disse ou es- creveu aquilo que foi citado no texto. Quanto ao último exemplo, percebemos claramente que, em vez do verbo dicendi seguido de que, o autor do texto utiliza “De acordo com o veterinário”, trecho em que a locução conjuntiva de acordo com é seguida da informação de quem é o autor da citação – o veterinário. Além disso, merece atenção a vírgula utilizada entre a primeira e a se- gunda parte do trecho, pois nesse caso a pontuação serve para separar a abertura, que tem função complementar, do discurso propriamente dito, que desempenha o papel principal. 5.2.3 Discurso indireto livre A modalidade do discurso indireto livre abre mão das referências à autoria da fala ou do texto transcrito. É comum também que a passa- gem da voz do narrador para a do personagem que fala não seja mar- cada por pontuação. Apesar da falta de delimitação entre as vozes que compõem esse tipo de discurso, a fusão garante mais dinamismo e fluência ao texto. No entanto, é claro que esse tipo discursivo também exige maior atenção do leitor, que já não conta com os sinais gráficos para saber onde acaba o discurso do autor do texto e onde começa o discurso da outra pessoa, citada pelo autor, a fim de reforçar ou exem- plificar sua ideia. Para apreender a diferença que representa o discurso indireto livre em relação às outras duas modalidades de discurso, mais conhecidas e utilizadas, vamos supor a seguinte situação: Para treinar os tipos de discursos mais utiliza- dos, procure algumas entrevistas publicadas em jornais e revistas (impressos ou on-line) e observe as marcas do discurso direto. Em uma segunda etapa, tente fazer a transcrição de algumas falas, usando a modalida- de do discurso indireto. Vamos praticar? Fato, opinião e tipos de discurso 73 Há um casal e o marido decide pedir demissão do emprego, por diversas razões, sobre as quais já conversou com a mulher. Depois de ele informar sua escolha, ela diz, tocando a mão dele, que o apoiará sempre. Veja que, no exemplo dado, foi usado o discurso indireto ao final do período, para apresentar o que a mulher disse ao marido. As principais marcas desse discurso são, portanto, a indicação de quem fala e o ver- bo dicendi acompanhado do que. Agora vejamos a mesma cena, mas na forma de discurso direto. O marido decide pedir demissão do emprego, por diversas razões, sobre as quais já conversou com a mulher. Depois de ele informar sua escolha, ela diz, tocando a mão dele: – Eu sempre vou apoiar você. O mesmo exemplo, mantendo a forma de discurso direto, poderia, ainda, ser apresentado desta forma, usando aspas em vez de travessão: O marido decide pedir demissão do emprego, por diversas razões, sobre as quais já conversou com a mulher. Depois de ele informar sua escolha, ela diz, tocando a mão dele: “Eu sempre vou apoiar você.” Já no discurso indireto livre, as marcas das modalidades anteriores de discurso desaparecem por completo: O marido decide pedir demissão do emprego, por diversas razões, sobre as quais já conversou com a mulher. Depois de ele informar sua escolha, ela toca a mão dele. Eu sempre vou apoiar você. Não há verbo dicendi, nem que. Também não há dois-pontos, aspas, nem mesmo a indicação clara de que a mulher assumiu a palavra. Isso é subentendido pela sequência da ação – afinal, depois de ser infor- mada da decisão tomada pelo marido, ela se aproxima dele, toca sua mão e, no período seguinte, já aparece uma fala que combina perfei- tamente com a situação. A lógica não permite que o leitor interprete essa fala como sendo do marido. Isso quer dizer que a ausência das marcas dos outros discursos não prejudica a compreensão do texto, 74 Interpretação de textos mas é certo que exige muito mais atenção e comprometimento do lei- tor para interpretá-lo. Desse modo, o discurso indireto livre é mais comum em textos li- terários. Os textos de jornais e revistas (impressos ou on-line), por privilegiarem uma comunicação mais imediata, tendem a usar uma lin- guagem mais clara e objetiva e os discursos direto e indireto servem bem a essa finalidade. CONSIDERAÇÕES FINAIS Com base na diferenciação entre teor factual e opinativo, neste capítu- lo revisamos a função e os tipos de adjetivos. Além disso, com o intuito de privilegiar o máximo possível a neutralidade e a isenção, na escrita ou na fala, exercitamos três modalidades que nos permitem inserir o discurso do outro em nosso próprio texto. Passando, então, do discurso direto ao indireto, retomamos também uma modalidade discursiva mista, chamada de discurso indireto livre. Dessa forma, analisamos formas variadas e efica- zes de indicar o enunciador, o conteúdo e de avaliar, simultaneamente, o posicionamento estabelecido pelo verbo dicendi, afinal, por meio do verbo utilizado, é possível informarmos se o falante simplesmente afirmou – ou se ele reagiu, criticou, complementou, sublinhou etc. Nesse aspecto, a esco- lha do verbo já é capaz de demonstrar opinião, alterando de modo sutil, mas significativo, o sentido do texto.ATIVIDADES 1. Identifique as marcas de opinião no texto a seguir: Navegar é preciso O velejador, economista e empresário Vilfredo Schürmann lançou o livro Navegando com o Sucesso na praça central do Shopping Mueller, em Joinville, e na praça central do Shopping Neumarkt, em Blumenau. Ótimo contador de histórias, apresentou reflexões sobre o sentido de palavras como sucesso, família, trabalho em equipe, sonho e disciplina. (NAVEGAR, 2009, grifos do original) Vídeo Fato, opinião e tipos de discurso 75 2. O texto que segue privilegia mais os fatos ou a opinião? Por quê? Nascida em Curitiba, em 1982, Marjorie Estiano se mudou para São Paulo aos 18 anos, onde se profissionalizou como atriz e cantora. Já no Rio de Janeiro, estreou na tevê em 2003, em Malhação, e desde então esteve em várias novelas. (MARJORIE, 2009) 3. Identifique a modalidade de discurso dada e depois faça a alteração indicada entre parênteses. a) O pai disse ao filho: “Decidi lhe dar um carro.” (Passar para o discurso indireto.) b) A professora informou aos alunos que no dia seguinte não haveria aula. (Passar para o discurso direto.) c) O neto abraçou o avô e disse que quando crescer quer ser aviador. (Passar para o discurso indireto livre.) REFERÊNCIAS FIM do sufoco. Correio do Salles, 5 mar. 2010. GRANJEIA, J. Veterinárias lançam sorvete para cachorro; especialista condena petiscos. Folha de São Paulo, 16 mar. 2010. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ bichos/2010/03/707616-veterinarias-lancam-sorvete-para-cachorro-especialista-condena- petiscos.shtml. Acesso em: 15 jun. 2021. IDOSOS terão recursos. Correio do Salles, 5 mar. 2010. LUTA. Correio do Salles, 5 mar. 2010. MARJORIE Estiano, atriz e cantora. Ler & Cia, set./out. 2009. NAVEGAR é preciso. Ler & Cia, set./out. 2009. 76 Interpretação de textos 6 Tipos de texto A interpretação está intrinsecamente relacionada ao tipo de texto. Portanto, neste capítulo, vamos analisar dois grandes con- juntos textuais: o informativo e o literário, os quais, por sua vez, possuem subcategorias. Entre os vários subtipos, nossas análises vão abranger, na primeira tipologia, os textos jornalísticos e os textos técnicos. No que se refere à literatura, vamos interpretar estruturas distintas, com ênfase à prosa e aos poemas. Esse comparativo vai nos ajudar a entender que tipos diferen- tes de textos apresentam temas, linguagens e níveis de profun- didade igualmente distintos e isso, sem dúvida, é desencadeado pelas funções e pelos objetivos de cada um deles. 6.1 Informativos e literários Vídeo Os diversos tipos de texto podem ser divididos em dois grandes blocos: um que abrange textos de caráter informativo e outro que compreende textos de caráter literário. Podemos resumir as principais diferenças entre esses dois conjuntos elencando: • intenção ou objetivo; • público-alvo; • linguagem; e • comprometimento com a realidade. Com base nessa lista, vamos tratar de comentar cada um desses pontos, para tornar as coisas mais claras. Tipos de texto 77 Tipos de texto 6.1.1 Intenção ou objetivo O texto informativo tem a evidente intenção de informar. Exemplos dessa tipologia são os textos jornalísticos, os panfletos, as bulas de remé- dio, os manuais de instrução etc. Textos informativos têm objetivos bas- tante variados: eles podem mencionar as consequências de uma forte chuva, a oferta de um serviço e até mesmo o lançamento de um produto. Já a intenção do texto literário é diferente, porque envolve uma ex- pressão artística. Obviamente, o texto literário pode, também, infor- mar, mas essa não é a sua principal função. Textos literários podem simplesmente proporcionar entretenimento, contar uma história ou, até mesmo, romper com o padrão artístico vigente, por meio da apre- sentação de uma nova proposta de literatura. GoodStudio/Shutterstock A intenção ou o objetivo do texto varia de acordo com a tipologia textual. Figura 1 O objetivo do texto 6.1.2 Público-alvo Depois de estabelecida uma intenção, os textos têm definido seu público-alvo. Os leitores de um texto informativo são muitos, justa- mente pelo alcance desse texto. A diversidade de pessoas que formam esse público é tanta que é preciso fazer um nivelamento buscando equilibrar as coisas – afinal, há leitores de várias idades, de dife- rentes níveis socioeconômicos, de diferentes gêneros, com inte- resses, profissões e níveis de escolaridade também distintos. No que se refere ao público dos textos literários, de alcan- ce mais restrito, por causa da especificidade desse conjunto, as coisas mudam consideravelmente. É claro que isso se deve à maior dificuldade de acesso a esses textos: o estilo do autor, a divulgação da obra e, sobretudo, o preço do livro ajudam a restringir o público. Entretanto, o aspecto que mais influencia a rela- ção entre essa tipologia e o público é o fato de a arte não ser algo de Figura 2 O público-alvo do texto Cada tipo de texto tem um público-alvo específico. No be lu s/ Sh ut te rs to ck https://www.shutterstock.com/pt/g/GoodStudio https://www.shutterstock.com/pt/g/Nobelus 78 Interpretação de textos consumo obrigatório. O texto literário está associado a lazer e entrete- nimento e, justamente por isso, é uma opção – e depende da formação do leitor, bem como de seus hobbies e de suas preferências. 6.1.3 Linguagem A restrição de que falamos anteriormente também é reflexo da lin- guagem que o texto literário usa. As figuras de linguagem são larga- mente utilizadas, assim como são permitidas algumas licenças poéticas – assim chamadas porque vão de encontro ao padrão gramatical. Yu m m yp ho to s/ Sh ut te rs to ck Figura 3 A linguagem do texto A linguagem que utilizamos sempre deve estar adaptada à nossa intenção e ao nosso público. Em contrapartida, o texto informativo tende a facilitar a linguagem, para atender à demanda do público: notícias, panfletos e informes são consumidos rapidamente e por milhares de pessoas diariamente. Por isso, esses textos devem investir na objetividade e concisão, sem artifí- cios que compliquem a apreensão do sentido do texto. 6.1.4 Comprometimento com a realidade O último quesito usado para diferenciar textos informativos e li- terários diz respeito ao afastamento ou à proximidade em relação à realidade. Esse comprometimento é palavra de lei para os textos que objetivam informar o leitor. Considerando uma notícia de jornal, por https://www.shutterstock.com/pt/g/vikasuperstar Tipos de texto 79 exemplo, é sabido que os fatos devem ser priorizados, inclusive com a apresentação de diversas versões sobre o que aconteceu, de modo a levar até o leitor o maior número de informações apuradas, para evitar parcialidade. Um redator de textos publicados em jornais e revistas – impressos ou on-line – não deve inventar notícias, pois a tarefa dele é registrar o fato da maneira mais neutra possível. Figura 4 O texto e seu comprometimento com a realidade Ga ud iL ab /S hu tte rs to ck Enquanto o texto informativo deve se aproximar da realidade, o literário pode invertê-la por completo. Em um caminho totalmente inverso, o texto literário pode partir da realidade, mas, uma vez que o fato foi transposto para o universo da ficção, admitem-se distorções, cortes ou excessos. Há, inclusive, textos literários que se afastam bastante da realidade. É o caso das histórias de terror, de alguns contos de fada, da literatura fantástica ou da ficção científica. Em contrapartida, outros textos literários, mais afeitos à rea- lidade, apesar de pertencerem ao universo ficcional (que envolve o criado e o imaginado), investem na verossimilhança. Mas atenção: um texto verossímil trabalha para parecer real. Aliás, esse esforço de al- guns textos dessa categoria para parecerem reais já é a prova contun- dente de que eles não são reais e por isso apelam à verossimilhança, buscando o convencimento do leitor, para envolvê-lo na história. 80 Interpretação de textos 6.2 Textosinformativos Vídeo O texto informativo, por privilegiar os fatos e por apresentar uma lin- guagem mais clara e objetiva, compreende dois modelos muito consu- midos diariamente: o texto jornalístico e o texto técnico, sobre os quais discutiremos nas subseções a seguir. 6.2.1 Texto jornalístico Os textos jornalísticos priorizam a informação, têm um público bastante amplo e, por isso, são escritos em língua padrão, o que signifi- ca que as normas gramaticais devem ser seguidas à risca. Embora haja a preocupação com a neutralidade e a imparcialidade do texto, é certo que ocorrem interferências da opinião, às vezes até inconscientemente, por um adjetivo que aparece no texto, pela ordenação das partes que formam os períodos etc. Há algumas editorias, em jornais e revistas, que utilizam uma carga maior de opinião. Nesse sentido, podemos citar como exem- plos as colunas, principalmente as colunas sociais, os artigos sobre cultu- ra, turismo, gastronomia, moda, televisão e algumas matérias esportivas. Para verificar como essas características aparecem em um texto jor- nalístico, vamos analisar o exemplo a seguir. Cirque du Soleil abre 200 vagas para apresentação em Porto Alegre Salários variam de R$ 800 a R$ 1.200. É preciso ter ensino médio completo. Inglês fluente é diferencial A agência de empregos Allis recebe inscrições para 200 vagas em Porto Alegre (RS) para o espetáculo “Quidam”, do Cirque du Soleil, que acontecerá no final de maio na cidade. O salário varia de R$ 800 a R$ 1.200 e inclui benefícios como vale-transporte e alimentação no local. As oportunidades são para os cargos de atendente de bar, caixa, auxiliar de cozinha, cozinheiro bilíngue, garçom, recepcionista, recepcionista bilíngue, vendedor, estoquista, assistente de camarim bilíngue, analista de suporte, au- xiliar administrativo, costureira bilíngue e mâitre. Os candidatos devem ter ensino médio completo e disponibilidade de horá- rio nos períodos da tarde, noite e finais de semana. É desejável ter experiência na função. Fluência em inglês será considerada um diferencial. Características como dinamismo, proatividade e facilidade em comunicação também são vistas como essenciais para integrar a equipe do evento. (CIRQUE, 2010) Tipos de texto 81 O texto lido cumpre as principais funções e apresenta as caracte- rísticas próprias do texto informativo. Considerando o site em que foi publicado – das organizações Globo –, conclui-se que o público-alvo abrange grande número de pessoas. Isso se relaciona fortemente ao objetivo do texto, que é informar uma oportunidade de emprego, em um dos grupos mais famosos do mundo. Obviamente, a repercussão é grande, pela oferta e pelo site em que a matéria foi publicada. Analisando atentamente a linguagem, o texto foi escrito de acordo com as normas da língua portuguesa. É visível também o predomínio do fato sobre a opinião. Nenhum trecho demonstra opinião. Alguns pe- ríodos podem até ser apontados como exemplos de marca de opinião, como: “É desejável ter experiência na função. Fluência em inglês será considerada um diferencial”. Porém, uma leitura mais cuidadosa revela que “É desejável” e “Fluência em inglês será considerada um diferen- cial” não demonstram a opinião do autor do texto, mas a expectativa dos contratantes com relação ao perfil dos candidatos. Para reforçar o teor informativo do texto, basta tentarmos um rápi- do esboço do texto, listando os tópicos na ordem em que eles apare- cem, parágrafo a parágrafo: 1º) empresa contratante, número de vagas, salário e benefícios; 2º) cargos disponíveis; 3º) habilidades exigidas; e 4º) habilidades exigidas novamente. Com base nessa estrutura, verificamos que o início do texto ofere- ceu informações gerais. Posteriormente, foram apresentadas as vagas em aberto. Por último, foram destacadas as características que a em- presa contratante julga fundamentais nos perfis dos candidatos. Perce- ba que essa hierarquia associa a forma ao conteúdo do texto. 6.2.2 Texto técnico Os textos técnicos também fazem parte do conjunto dos textos infor- mativos. O adjetivo técnico deve-se ao fato de a língua padrão dividir espaço com a nomenclatura específica da área de conhecimento com a qual o texto se relaciona. Uma bula de remédio é exemplo de texto técnico e traz um vocabulário bastante específico, da área de medicina, química ou similar. 82 Interpretação de textos Nessa categoria também podem ser incluídos os manuais de instru- ção, os livros didáticos, os dicionários, os contratos etc. Vamos, agora, à análise de um texto técnico: MERITÍSSIMO JUIZ DE DIREITO DA ___________ª VARA CRIMINAL DA COMARCA DE (....................... ) Proc. n.º: (....................... ) REQUERENTE, previamente qualificado nos presentes autos, ciente da prova apresentada no processo, vem, à presença de V. Exa., requerer a realização de exame pericial, uma vez que tal prova – gravação feita em interceptação telefônica e respectiva transcrição – constitui, na realidade, produto de adulterações através de edição, fato este res- ponsável por retirar toda sua validade. Conforme o exposto, fica impugnada a mencionada prova. (PETIÇÃO, 2021) A natureza técnica do texto é evidente desde o início, quando se percebe que se trata de um documento da área do direito, destinado à apreciação de um juiz. Além do formato a que o texto tem de obedecer, com indicação do destinatário, informação do número do processo, o pedido em si e a conclusão, nota-se também que a linguagem é bas- tante específica. O jargão jurídico é largamente utilizado e é isso que garante a classificação do texto como técnico. Verificamos isso, reto- mando termos do texto: Meritíssimo juiz, vara criminal, requerente, autos e exame pericial. É inegável o aspecto informativo do texto analisado, porém ressalte-se que o texto anterior, jornalístico, é muito mais abrangente e de maior re- percussão que a petição transcrita. Essa diferença serve para demonstrar a principal característica do texto técnico: a especificidade, porque a lingua- gem utilizada e, muitas vezes, até o assunto tratado dirigem-se a pessoas de uma determinada área, o que reduz, e muito, a repercussão do texto. 6.3 Textos literários Vídeo Na literatura, os textos diferenciam-se por inúmeros fatores, a exemplo de: estilo do autor, tipo de história, linguagem utilizada e pe- riodização literária. Contudo, em um sentido mais amplo, a estrutura é responsável por esta divisão: textos em prosa e textos em verso. Na Tipos de texto 83 prosa, a escrita deve ser organizada em parágrafos, de modo contínuo, de um lado a outro da página. Entretanto, quando usamos versos, a estrutura fica mais fragmentada e organiza-se em estrofes. Vamos co- nhecer mais detalhes desses dois modelos de textos literários nas duas subseções seguintes. 6.3.1 Prosa Os textos em prosa são aqueles escritos de modo contínuo, for- mando períodos que são reunidos em parágrafos. Há diversos tipos de textos em prosa: romances, novelas, contos, crônicas etc. De variados tipos e tamanhos, a prosa literária só difere da prosa informativa pelos quesitos já apresentados e analisados (intenção ou objetivo, público, linguagem e comprometimento com a realidade). Porém, o formato é exatamente o mesmo. A fim de consolidar as características da prosa literária, vamos ana- lisar dois textos. O filho da mãe Andrei sai do quartel a tempo de chegar à praça da estação às nove da noite. Não deve ser visto. As ruas ainda não estão completamente desertas, mas a essa hora, pelo menos, sua figura solitária não des- pertará tanta suspeita quanto se passasse por ali de madrugada. […] No vagão em que ele entra, há apenas uma mulher com maquiagem carregada. Andrei senta, sem se dar conta, no banco diante do dela. É uma espécie de compulsão inconsciente. Evita ficar sozinho. Como se a proximidade dos outros pudesse desviar a atenção de si mesmo. (CARVALHO, 2021) Esse trecho tem como personagem Andrei. A sua história é contada porir além da palavra, refletindo sobre os sentidos possíveis, que variam de acordo com o contexto. Aprimorando a análise textual que foi colocada em prática no item anterior, o Capítulo 10 apresenta a prática interpretativa em duas etapas – da básica à avançada. Com base na leitura de um texto, é estabelecido um roteiro de análise, exemplificando questões e relações que auxiliam o leitor a interagir com um conteúdo voltado a conhecimentos gerais. De acordo com os capítulos detalhados nesta apresentação, o objetivo deste livro é oferecer um panorama sobre os componentes do texto, variando as tipologias e as profundidades de conteúdo, para que você, leitor, possa interpretar sem dificuldade tudo o que quiser ou precisar ler, no dia a dia pessoal ou profissional. Além disso, como a escrita é indissociável da leitura, esta obra prepara você para redigir textos de modo mais claro e eficaz, garantindo que o conteúdo será bem interpretado pelo público-alvo. Ler e escrever são práticas que aprimoram a interpretação – dos textos, das pessoas, de nós mesmos e do mundo em que vivemos. Boas leituras, boas escritas e boas interpretações! Elementos estruturais do texto 9 1 Elementos estruturais do texto O texto é um conjunto de ideias acerca de um tema e deve desenvolver e aprofundar um assunto a partir do encadeamento e da progressão de informações. Partindo da estrutura maior para a menor, temos: texto; parágrafos; e períodos. Antigamente, o texto era um conceito associado apenas às pala- vras. Porém, hoje, a escrita admite o uso de vários signos: imagens, palavras, sons, desenhos, cheiros etc. Então, um texto passou a ser sinônimo de tudo que nos comunica algo, independente do fato de ele ser feito de palavras ou não. Evidentemente, essa mudança afetou o que entendíamos como escrita e como leitura. A única coi- sa que não foi alterada é que, seja o texto feito só de palavras, só de imagens ou da combinação de signos variados, é indispensável que ele seja coeso e coerente, apresentando todas as suas partes encadeadas e em perfeita sintonia de conteúdo. 1.1 Parágrafo Vídeo Os parágrafos têm duas funções de muita importância na organi- zação textual. A primeira delas é oferecer um leiaute agradável aos lei- tores. Ler um texto longo e com um parágrafo único não é uma tarefa muito fácil e muito menos atraente. Por isso, a paragrafação encarre- ga-se de dividir o texto em blocos. 10 Interpretação de textos Figura 1 Exemplo de texto escrito em parágrafo único Li liG ra ph ie /S hu tte rs to ck Como podemos observar, a escrita de um texto em bloco único de- sestimula o leitor. Não há pausas e esse leiaute cansativo influencia ne- gativamente o público, que, por sua vez, é levado a pensar que o texto é mais longo e complexo do que de fato é. Portanto, os recuos são necessários. São eles que estabelecem a paragrafação. Porém, não se deixe enganar, pois a divisão do texto em parágrafos nunca deve ser aleatória, o que nos leva à segunda função desempenhada pelo parágrafo: a unidade temática. Cada parágrafo detém-se em uma parte do tema do texto. Vejamos um exemplo. Britânicos desvendam mistério de cova com 51 crânios As ossadas de 51 pessoas decapitadas encontradas no sul da Grã-Bretanha em junho do ano passado foram identificadas como perten- cendo a povos vikings que habitaram o país na virada para o segundo milênio. Desde que a cova foi encontrada em junho de 2009, durante a construção de uma rodovia no condado de Dorset para os Jogos Olímpicos de Londres-2012, arqueólogos vinham tentando desvendar o mistério da identidade daqueles ossos e por que os crânios estavam separados do restante dos corpos. […] A partir do teste do carbono-14, os cientistas concluíram que aquelas pessoas foram mortas entre os anos 910 e 1030. Nessa época, os anglo-saxões sofriam com as constantes incursões de povos vikings na Grã-Bretanha, e conflitos entre líderes dos dois lados por controle da região eram comuns. (BRITÂNICOS, 2010, grifos nossos) https://www.shutterstock.com/pt/g/pixelli Elementos estruturais do texto 11 Com a leitura do trecho apresentado, comprovamos facilmente que, embora o texto esteja dividido em quatro parágrafos, há uma se- quência lógica. Observando o começo e o final de cada parágrafo, a continuidade aparece como característica positiva e fundamental na organização do texto. Para entender como a relação entre os parágrafos funciona, vamos analisar o texto. Primeiro, vamos tentar recortar apenas o início e o fim de cada parágrafo, destacados em itálico. Se colarmos cada uma dessas partes uma ao lado da outra, na ordem em que aparecem, aparente- mente não haverá continuidade e muito menos lógica. No entanto, o uso da expressão nessa época, no último parágrafo, só faz sentido quan- do percebemos claramente que ela se refere ao que já foi mencionado anteriormente no texto, ou seja, o período “entre os anos 910 e 1030”. Mas falávamos, antes, sobre a unidade temática do parágrafo. Pois bem: no terceiro parágrafo, o foco é o teste usado para determinar quando as pessoas tinham sido mortas. Já no quarto parágrafo, a opção do autor é clara: oferecer mais dados sobre a época informada no parágrafo anterior. 1.1.1 Parágrafo e apresentação do texto Vamos, agora, analisar um parágrafo apenas, sobre assunto dife- rente daquele abordado no texto anterior. Na semana passada, a indisciplina na escola foi notícia em diversos meios de comunicação. Diante das últimas notícias envolvendo adolescentes entre 14 e 18 anos, pais e especialistas em educação e comportamento têm se mobilizado para tentar entender a causa da agressividade dos jovens de hoje. A falta de limites e o acesso irrestrito à tecnologia aparecem como os fatores mais preocupantes. O parágrafo que acabamos de ler faz uma síntese, o que é muito comum no início dos textos, quando o assunto é apresentado ao leitor. É a partir dele que outros parágrafos serão criados e organizados para o desenvolvimento da ideia apresentada. Não temos o texto inteiro ain- da, mas já podemos tirar conclusões com base nesse início que nos foi exposto. Vamos lá! 12 Interpretação de textos Qual é o tema do texto? A indisciplina de adolescentes na escola. A julgar pelo trecho lido, qual foi o resultado dessa indisciplina? Algum caso de violência noticiado pelos principais meios de comunicação. Que outros temas podem ser desenvolvidos, em parágrafos posteriores, para aprofundar as informações do parágrafo inicial? Algumas possibilidades são: depoimentos de pais e pessoas ligadas à educação – como professores, diretores de esco- las etc.; e detalhamento das causas que receberam desta- que no parágrafo dado (“falta de limites” e “acesso irrestrito à tecnologia”). Como vimos, as perguntas elaboradas permitiram uma reflexão mais detalhada sobre o trecho lido. Isso resultou em associações que, quando concretizadas, possibilitam um entendimento mais amplo e geral do conteúdo. 1.2 Período Vídeo Assim como um texto é formado de parágrafos, o parágrafo é for- mado de unidades menores, chamadas períodos. Os períodos podem ser simples ou compostos, e o que determina o tipo ou a modalidade de cada período é o número de orações ou de verbos/locuções verbais que ele apresenta. Considera-se um período cada bloco de palavras iniciado por letra maiúscula e finalizado por ponto. Exemplo de período simples: A instalação de mais radares eletrônicos garantirá mais segurança no trânsito. (um verbo = uma oração = período simples) Verbo Elementos estruturais do texto 13 Exemplo de período composto: Verbo O crescimento desenfreado, nas grandes cidades, provoca inúmeros problemas no trânsito, que vai ser monitorado por novos radares. Locução verbal (dois ou mais verbos ou locuções verbais =um narrador que usa a terceira pessoa (“Andrei sai”), já que ele está se ocupando com a trajetória de outra pessoa, e não a sua própria. Apenas pelo fato de o trecho transcrito fazer parte da obra O Filho da Mãe, livro publicado em 2009, pelo escritor Bernardo Carvalho, já sabe- mos de detalhes importantes sobre o texto: é uma história de ficção, com intenção artística e, portanto, tem público mais restrito, podendo admitir numerosas variações interpretativas. 84 Interpretação de textos Como um bom texto literário em prosa, é uma narrativa. No entan- to, isso não quer dizer que não existam trechos descritivos dentro da narração. Vamos tratar de exemplificar e comentar essa diferença. • Andrei sai do quartel a tempo de chegar à praça da estação às nove da noite. Não deve ser visto. • Andrei senta, sem se dar conta, no banco diante do dela. Os dois trechos são exemplos de narração. Coincidentemente, am- bos começam com o nome do personagem seguido de um verbo (sai e senta). Isso nos faz confirmar a função de uma narrativa: contar um fato, detendo-se sobre as ações dos personagens. Agora, vem a descrição, que pode ser assim exemplificada: • As ruas ainda não estão completamente desertas. • No vagão em que ele entra, há apenas uma mulher com maquiagem carregada. Perceba que a descrição quebra um pouco o ritmo do texto, que se torna mais lento. Esse intervalo é feito para que as coisas ou pessoas sejam apresentadas com mais detalhe ao leitor, razão pela qual esse procedimento investe mais no uso de adjetivos (desertas e carregada). O Filho da Mãe, de Bernardo Carvalho, é um romance e, sendo assim, apresenta um volume de páginas bastante considerável. Entretanto, a prosa literária nem sempre é longa. Vejamos um texto surpreendente- mente curto. Agulhas brancas ligeirinhas costuram o ar. Chove. (TREVISAN, 1997, p. 12) Esse texto tem dois períodos, mas não chega a completar uma linha, em uma rapidez que é marca registrada do escritor Dalton Trevisan. Como o exemplo anterior, esse texto também tem intenção artística, público mais específico e teor ficcional. O mais importante, porém, é a linguagem. Apesar de sermos capazes de interpretar o texto, a lingua- gem não é transparente. No primeiro período, o narrador faz uso de metáforas, cujo significado simbólico precisa ser desvendado, para se chegar à real situação que está sendo descrita ou apresentada. Ao fi- nal da leitura do primeiro período, agulhas brancas são apenas agulhas Tipos de texto 85 brancas, mas o segundo período traz uma pista importante, causando uma reviravolta no sentido do texto. Assim, chove não fecha o texto por acaso – afinal, qual é a relação desse verbo com as agulhas bran- cas? É respondendo a essa questão que o leitor descobre o real sentido por trás da metáfora e conclui que as agulhas brancas não passam de pingos de chuva. Interpretação mais trabalhosa, não é mesmo? É por essa razão que o texto de Dalton Trevisan é uma prosa literária, e não uma prosa informativa. Um texto artístico pode usar e abusar das metáforas. Não se pode dizer isso de um texto técnico ou jornalístico, nos quais a metá- fora, se utilizada, poderá ser um obstáculo e tanto para a compreensão correta e imediata do sentido pretendido pelos autores. 6.3.2 Poema Outra estrutura que pode ser adotada pelos textos literários é a es- crita em versos. Nesse formato, cada linha do texto constitui um verso e não é preciso que eles sejam escritos de maneira contínua, formando períodos, parágrafos e indo de um lado ao outro da página. Nada disso: os versos privilegiam a sonoridade, preocupam-se mais com as rimas, o ritmo – ou com a falta deles – e são compostos de sílabas poéticas. É a partir delas que se dá a cadência rítmica do texto. Cada conjunto de versos é separado de outro por um espaço em branco, formando blocos. Um bloco equivale a uma estrofe e é o conjunto de estrofes que chamamos poema. Entretanto, como há exceções para tudo, existem poemas com apenas uma estrofe. Como exemplo de texto poético, vamos ler esta estrofe, que integra um soneto de Camões: Transforma-se o amador na cousa amada, Por virtude do muito imaginar; Não tenho logo mais que desejar, Pois em mim tenho a parte desejada. (CAMÕES, 2021) Como os demais textos literários, a intenção artística é eviden- te. O público-alvo é bastante específico, não só porque a maioria das As crônicas são textos em prosa com características bem especiais. Quer saber mais sobre elas? O melhor jeito é ler algumas e compará-las a contos ou romances. Machado de Assis é um autor que escreveu tanto crônicas como romances e contos, entre outros tipos de textos. Que tal uma busca rápida na internet, para poder comparar esses textos, reforçando as dife- renças entre eles? A dica é começar sua pesquisa pelo site indicado a seguir. Disponível em: http://machado.mec. gov.br/obra-completa-lista/itemlist/ category/26-cronica. Acesso em: 15 jun. 2021. Vamos praticar? http://machado.mec.gov.br/obra-completa-lista/itemlist/category/26-cronica http://machado.mec.gov.br/obra-completa-lista/itemlist/category/26-cronica http://machado.mec.gov.br/obra-completa-lista/itemlist/category/26-cronica 86 Interpretação de textos pessoas prefere ler textos em prosa a ler textos em versos, mas tam- bém porque a linguagem, somada à estrutura fragmentada, constitui um desafio maior de interpretação. O escritor português Luís Vaz de Camões tem sua produção datada do século XVII. A distância temporal é, portanto, o primeiro entrave a ser superado pelos leitores dos seus textos. Isso sem falar na lingua- gem figurada e na inversão sintática – afinal, alguns versos usam a or- dem indireta (“Transforma-se o amador na cousa amada”) em vez da ordem direta (sujeito + verbo + predicado = O amador transforma-se na cousa amada). Quanto à estrutura, o fragmento compreende quatro versos e, por isso, é uma estrofe chamada de quadra ou quarteto. No que se refere à sonoridade, destacam-se as rimas (amada e desejada/imaginar e desejar). CONSIDERAÇÕES FINAIS As análises feitas neste capítulo serviram para diferenciar os textos in- formativos e os textos literários. Vimos diversos tipos de cada um desses conjuntos, verificando que é necessária a combinação entre o texto em si, incluindo seu objetivo, sua forma e sua linguagem, com as características do público-alvo. Com base nesse paralelo, foi possível concluir que o contexto informa- tivo tem certas limitações, enquanto a arte pode variar mais, inclusive apresentando novos estilos e novas concepções de realidade. Portanto, sempre que formos ler ou escrever algum tipo de texto, é necessário re- fletirmos sobre os conteúdos que discutimos aqui, para atendermos aos requisitos certos. ATIVIDADES 1. Considerando a seção de classificados de qualquer jornal, defina os textos que a compõem como informativos ou literários. Justifique sua resposta. 2. Escolha um texto técnico e apresente as suas principais características, exemplificando-as. 3. Explique qual a relação entre intenção, público-alvo e a linguagem utilizada nos textos informativos, especificamente nos jornalísticos. Acesse o site a seguir e leia a crônica escrita por Paulo Coelho. Entre o informativo e o literário, esse tipo de texto pode se referir a um acontecimen- to real, como, aliás, parece ser o caso do episódio retratado pelo escritor. Confira! Disponível em: http://g1.globo.com/ platb/paulocoelho/2010/03/25/ tudo-e-uma-coisa-so/. Acesso em: 15 jun. 2021. Para saber mais Vídeo Tipos de texto 87 REFERÊNCIAS CAMÕES, L. V. de. Transforma-se o Amador na Cousa Amada. Escritas.org, 2021. Disponível em: https://www.escritas.org/pt/t/2051/transforma-se-o-amador-na-cousa-amada. Acesso em: 15 jun. 2021. CARNEIRO JÚNIOR, R. A. (coord.). Pratos Típicos Paranaenses. Curitiba: Secretaria de Estado da Cultura, 2004. CARVALHO, B. O Filho da Mãe. Piauí, 29. ed., fev. 2009. Disponível em: https://piaui.folha. uol.com.br/materia/o-filho-da-mae/.Acesso em: 15 jun. 2021. CIRQUE du Soleil abre 200 vagas para apresentação em Porto Alegre. G1, 25 mar. 2010. Disponível em: http://g1.globo.com/Noticias/Concursos_Empregos/0,,MUL1544422- 9654,00-CIRQUE+DU+SOLEIL+ABRE+VAGAS+PARA+APRESENTACAO+EM+PORTO+ALEGRE. html. Acesso em: 15 jun. 2021. PETIÇÃO discordando-se da prova anexada aos autos. 2021. Disponível em: http://www. consultta.com/tributarios/modelos_contratos/modelos_contrato/0267.htm. Acesso em: 15 jun. 2021. TREVISAN, D. 234. Rio de Janeiro: Record, 1997. https://piaui.folha.uol.com.br/materia/o-filho-da-mae/ https://piaui.folha.uol.com.br/materia/o-filho-da-mae/ http://g1.globo.com/Noticias/Concursos_Empregos/0,,MUL1544422-9654,00-CIRQUE+DU+SOLEIL+ABRE+VAGAS+PARA+APRESENTACAO+EM+PORTO+ALEGRE.html http://g1.globo.com/Noticias/Concursos_Empregos/0,,MUL1544422-9654,00-CIRQUE+DU+SOLEIL+ABRE+VAGAS+PARA+APRESENTACAO+EM+PORTO+ALEGRE.html http://g1.globo.com/Noticias/Concursos_Empregos/0,,MUL1544422-9654,00-CIRQUE+DU+SOLEIL+ABRE+VAGAS+PARA+APRESENTACAO+EM+PORTO+ALEGRE.html http://www.consultta.com/tributarios/modelos_contratos/modelos_contrato/0267.htm http://www.consultta.com/tributarios/modelos_contratos/modelos_contrato/0267.htm 88 Interpretação de textos 7 Texto argumentativo O texto argumentativo tem total compromisso com a opinião, pois ele é a defesa de um ponto de vista, contra algum assunto ou a favor dele. Em geral, o tema de um texto argumentativo é sufi- cientemente polêmico – característica que se evidencia no interesse demonstrado pelo autor em expressar um ponto de vista a respeito. Se a intenção do texto argumentativo é expressar opinião so- bre um fato ou uma situação, podemos dizer que a escolha do ponto de vista a ser defendido pelo autor corresponde a uma tese. Depois de apresentado o posicionamento, são necessários bons argumentos para defender a tese. Justamente aqui está o foco do texto argumentativo, que tem a possibilidade de, em certas situa- ções, exceder o simples expressar de uma opinião, porque a ideia defendida pelo autor pode influenciar os leitores e chegar a fazê- -los mudarem de postura quanto à polêmica retomada por meio da escrita do texto. Dessa forma, a argumentação relaciona-se também ao convencimento, almejado pela retórica, e, mesmo que acabem por não concordar totalmente com o autor, os leitores do texto devem identificar bom embasamento nos argumentos apre- sentados e coerência no raciocínio exposto. 7.1 Partes do texto argumentativo Vídeo Como qualquer outro texto, uma argumentação deve ter começo, meio e fim. No entanto, há elementos específicos que devem aparecer em cada uma dessas partes, porque é justamente essa associação que determina a estrutura do texto. Além disso, a argumentação conta com alguns recursos que potencializam seu efeito, oferecendo modos bastan- te eficazes de provar o raciocínio escolhido, a fim de convencer o leitor. Texto argumentativo 89 Texto argumentativo Depois dessa breve introdução sobre o texto argumentativo, veja- mos um exemplo, o qual será analisado neste capítulo, à medida que detalharmos o conteúdo. Autores que escrevam sobre nada A nossa literatura carece de grandes autores que saibam tecer bem histórias sobre nada. Pode soar estranho ou mesmo paradoxal, mas assim se atingirá uma gigantesca parcela da população que ainda não começou a enveredar pelos deliciosos caminhos literários. Infelizmente, como se sabe, o brasileiro lê pouco e em grande parte por causa dessa falta de escritores nacionais que saibam escrever sobre temas corriqueiros, mas agradáveis ao leitor. As novelas estão aí para provar. Cada vez mais aumenta o número de telespectadores que assistem a elas na ânsia de se entreterem com uma grande quantidade de nada. É claro que há aí, nesse contexto, uma gana por contemplar uma vida às vezes tão distante da real ou às vezes tão próximo dela. Mas há, também, essa grande vontade de entreter-se com nada. De não ter que pensar, talvez não por preguiça, mas sim como uma válvula de escape ao estresse diário. É também pelo mesmo motivo que os filmes de ação e aventura são os mais bem cotados da indústria cinematográfica de Hollywood. Quem nunca sentiu um enorme prazer em ir ao cinema simplesmente para ver um filme cheio de tiros, mortes, ou mesmo um romance “água-com-açúcar”, que atire a primeira pedra. O ser humano carece tanto de momentos de reflexão e sapiência quanto de entretenimento e descanso. Mas nossos críticos literários parecem não ver isso e continuam crucificando todo e qualquer livro que não traga “um algo a mais” para o leitor. E nossa popula- ção continua a ler cada vez menos. Não é apenas por esse motivo, entretanto, que a população tem se afastado dos livros. Além das nem sempre eficazes medidas e estímulos educacionais de nosso governo, pode-se perceber nos adolescentes (e por consequência nos adultos) uma “macunaímica” preguiça de ler. Isso deve- -se não somente aos videogames, mas, também, ao grande abismo que há entre a literatura infantil e a adulta. Há uma deficiência de livros que façam a transição entre O Patinho Feio e Memórias Póstumas de Brás Cubas. Ou até mesmo de clássicos infanto-juvenis, como O Mistério do Cinco Estrelas e O Escaravelho do Diabo, para obras de escritores “maiores” como Drummond, Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto e Euclides da Cunha. É exatamente aí que se encaixam os autores que escrevem sobre nada. Apesar de haver no mercado um sem número de obras escritas sobre esse assunto, quase todas são de autores estrangeiros. Não há uma identidade nacional nesses livros e o adolescente de hoje, quando começa a tomar gos- to pela leitura, seja lendo Sidney Sheldon ou Tolkien, ao descobrir os escrito- res nacionais desiste por haver metafísica demais para ele. Parece heresia? (Continua) 90 Interpretação de textos Pois imagine um garoto que leu apenas um ou dois livros em sua vida abrin- do Sagarana, curioso. Seria um trauma! Precisamos de livros que preparem o nosso futuro literário (as crianças e adolescentes) para maravilhas como essa de Guimarães Rosa. Caso contrário, o choque é avassalador. Precisamos nos orgulhar dos nossos bons escritores e livros sobre o nada. Paulo Coelho é um herege, um Judas para a crítica tupiniquim. Por outro lado, J.K. Rowling, a autora de Harry Potter, é uma deusa na Inglaterra. Pois será que o nosso escritor precisaria ter criado um bruxinho de vassou- ra e varinha para ser agraciado? Ou será que só o fato de ele escrever para o entretenimento e com isso levar a literatura brasileira, não só aos nossos pequenos leitores, mas ao mundo, não seria o suficiente? Ninguém começa a ler por Macunaíma. Precisamos nos conscientizar disso. Há um longo caminho até a chegada do gosto e prazer pela leitura de Mário de Andrade, por exemplo. Não afirmo, porém, que devemos nos limitar apenas à literatura infanto-juvenil ou à voltada para o entretenimento pura e simplesmente. Obviamente, é necessário também uma carga cultural intrínseca. Deve-se, sim, continuar a aumentar nosso acervo preeminente, mas se não houver uma importante reflexão sobre como instigar a leitura nos jovens, boa parte da população brasileira viverá (ou continuará a viver) às margens da cultura literária. E os videogames venderão cada vez mais! (SILVA, 2005) Durante a leitura, você conseguiu identificar a tese que foi defen- dida ao longo do texto e os principais argumentos usados pelo autor? Vamos discutir exatamente sobre isso, nas próximas subseções. 7.1.1 Introdução A introdução desempenha o papel de informar a posição assumida pelo autor do texto diante de algum assunto. É nela que se explicita a tese do texto argumentativo. No entanto, como em qualquer outro texto, a introdução do texto argumentativo investe apenas em uma brevíssima apresentação do tema, de modo a situar o leitor, familia- rizando-o com a questão que motivou a escrita. Para verificar essas considerações na prática, vamos analisar a introdução do textoque apresentamos anteriormente. Texto argumentativo 91 A nossa literatura carece de grandes autores que saibam tecer bem histórias sobre nada. Pode soar estranho ou mesmo paradoxal, mas assim se atingirá uma gigantesca parcela da população que ainda não começou a enveredar pelos deliciosos caminhos literários. Infelizmente, como se sabe, o brasileiro lê pouco e em grande parte por causa dessa falta de escritores nacionais que saibam escrever sobre temas corriqueiros, mas agradáveis ao leitor. As novelas estão aí para pro- var. Cada vez mais aumenta o número de telespectadores que assistem a elas na ânsia de se entreterem com uma grande quantidade de nada. É cla- ro que há aí, nesse contexto, uma gana por contemplar uma vida às vezes tão distante da real ou às vezes tão próximo dela. Mas há, também, essa grande vontade de entreter-se com nada. De não ter que pensar, talvez não por preguiça, mas sim como uma válvula de escape ao estresse diário. É também pelo mesmo motivo que os filmes de ação e aventura são os mais bem cotados da indústria cinematográfica de Hollywood. Quem nunca sentiu um enorme prazer em ir ao cinema simplesmente para ver um filme cheio de tiros, mortes, ou mesmo um romance “água-com-açú- car”, que atire a primeira pedra. O ser humano carece tanto de momen- tos de reflexão e sapiência quanto de entretenimento e descanso. Com a releitura dessa introdução, chega-se facilmente à ideia sinte- tizada nessa primeira parte do texto. Além disso, combinando o tema e a estrutura, perceba que a introdução nem sempre se resume ao parágrafo inicial. No exemplo que acabamos de ler, a parte inicial da argumentação ocupa quase três parágrafos inteiros. Simplificando ou esquematizando a posição do autor, podemos propor a seguinte ordem: Constatação de que “o brasileiro lê pouco”. Relação entre o baixo índice de leitores e a “falta de escritores nacionais que saibam escrever sobre temas corriqueiros”. Comparação entre literatura e telenovelas/ filmes de ação e aventura, os quais atendem ao desejo do público “de entreter-se com nada”. Apresentação da tese: “O ser humano carece tanto de momentos de reflexão e sapiência quanto de entretenimento e descanso”, que, aliás, dialoga muito bem com o título do texto. Perceba que os elementos que compõem essa sequência orga- nizam-se de modo coerente e progressivo, mas não fomos nós que estabelecemos essa ordem: nós apenas retomamos peças-chave da introdução, na ordem em que o autor as apresentou. Depois de explicitada a tese, que deve ser identificada e compreen- dida pelo leitor, é hora de apresentar os argumentos que vão susten- 92 Interpretação de textos tá-la e adensá-la, de modo a demonstrar a pertinência do raciocínio introdutório – mas essa função cabe à outra parte do texto: o desenvol- vimento, como veremos a seguir. 7.1.2 Desenvolvimento Os argumentos são listados e aprofundados no desenvolvimen- to do texto argumentativo. É nessa parte que a tese é expandida e defendida de fato. Defender uma tese é se posicionar sobre determinado fato ou assun- to. Sendo assim, a argumentação põe em evidência a opinião e a ideo- logia do autor, que irá se comunicar, por meio do texto, com a opinião de cada leitor. Nesse aspecto, importam a diversidade e o modo de apresentar as ideias. Em combinação com os diferentes tipos de leitores, também existem inúmeras maneiras de argumentar, firmando uma posição específica so- bre o assunto em pauta. Variam também os argumentos selecionados para a defesa da tese, afinal toda construção textual, sobretudo quando está em jogo o estabelecimento de uma opinião, envolve ideologia – isto é, um conjunto de conceitos culturais próprios de determinado indivíduo ou grupo e, portanto, vinculado ao contexto histórico-social. Apesar disso, alguns autores preferem fazer uma argumentação ob- jetiva, com verbos na terceira pessoa (como em “...como se sabe...” ou “Quem nunca sentiu...”). Claro que isso é apenas um subterfúgio para diminuir a carga de opinião, mas diminuir não é sinônimo de anular: a opção pelo texto argumentativo objetivo apenas equilibra o seu tom. Em contrapartida, o discurso subjetivo enfatiza a carga opinativa e ideológica do texto, pois o autor assume com convicção a tese e os ar- gumentos citados, chegando, inclusive, a usar situações empíricas – ou seja, de sua vida pessoal – como exemplos, os quais desempenham a função de reforços argumentativos, consolidando os principais argu- mentos e a tese defendida no texto. Figura 1 Argumentação e opinião dos leitores A argumentação permite que a opinião do autor seja comparada à opinião do público. An dr ii Ya la ns ky i/S hu tte rs to ck https://www.shutterstock.com/pt/g/iLixe48 Texto argumentativo 93 Para entendermos como essas orientações sobre o desenvolvimen- to do texto podem servir à argumentação, vamos nos deter nos pa- rágrafos que desenvolvem a tese, no texto que estamos analisando. Nessa etapa, é de fundamental importância identificarmos os argu- mentos arrolados pelo autor. Mas nossos críticos literários parecem não ver isso e continuam cru- cificando todo e qualquer livro que não traga “um algo a mais” para o leitor. E nossa população continua a ler cada vez menos. Não é apenas por esse motivo, entretanto, que a população tem se afastado dos livros. Além das nem sempre eficazes medidas e estímu- los educacionais de nosso governo, pode-se perceber nos adolescentes (e por consequência nos adultos) uma “macunaímica” preguiça de ler. Isso deve-se não somente aos videogames, mas, também, ao grande abismo que há entre a literatura infantil e a adulta. Há uma deficiên- cia de livros que façam a transição entre O Patinho Feio e Memórias Póstumas de Brás Cubas. Ou até mesmo de clássicos infanto-juvenis, como O Mistério do Cinco Estrelas e O Escaravelho do Diabo, para obras de escritores “maiores” como Drummond, Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto e Euclides da Cunha. É exatamente aí que se encaixam os autores que escrevem sobre nada. Apesar de haver no mercado um sem número de obras escritas sobre esse assunto, quase todas são de autores estrangeiros. Não há uma identidade nacional nesses livros e o adolescente de hoje, quan- do começa a tomar gosto pela leitura, seja lendo Sidney Sheldon ou Tolkien, ao descobrir os escritores nacionais desiste por haver metafí- sica demais para ele. Parece heresia? Pois imagine um garoto que leu apenas um ou dois livros em sua vida abrindo Sagarana, curioso. Seria um trauma! Precisamos de livros que preparem o nosso futuro literário (as crianças e adolescentes) para maravilhas como essa de Guimarães Rosa. Caso contrário, o choque é avassalador. Precisamos nos orgulhar dos nossos bons escritores e livros sobre o nada. Paulo Coelho é um herege, um Judas para a crítica tupiniquim. Por outro lado, J.K. Rowling, a autora de Harry Potter, é uma deusa na Inglaterra. Pois será que o nosso escritor precisaria ter criado um bruxinho de vassoura e varinha para ser agraciado? Ou será que só o fato de ele escrever para o entretenimento e com isso levar a literatura brasileira, não só aos nossos pequenos leitores, mas ao mundo, não seria o suficiente? O desenvolvimento do texto em análise tem início no final do tercei- ro parágrafo e se estende até a metade do antepenúltimo parágrafo. Seguindo a função própria dessa parte, no começo do desenvolvimento o autor enfatiza algumas coisas que, na opinião dele, contribuem para 94 Interpretação de textos o fato de os brasileiros lerem pouco. O primeiro problema mencionado é a crítica. Depois, há referência aos “nem sempre eficazes medidas e estímulos educacionais de nosso governo”, para finalmente citar a “‘macunaímica’ preguiça de ler”. Posteriormente, o autor associa a preguiça de ler aos “video- games, mas, também, ao grande abismo que há entre a literatura infantil e a adulta”. Nesse ponto do texto, aliás, a argumentação torna-se bastante complexa, jáque esse argumento é citado como causa do anterior. Outro detalhe é que esse argumento também vai se relacionar com os exemplos abundantes que o autor menciona a seguir, ao fornecer uma lista de obras e escritores que necessitam de um elo, a fim de preparar o leitor para os diferentes níveis de leitura e interpretação. Já no final do desenvolvimento, Bruno da Silva revela que a maioria dos “autores que escrevem sobre nada” é estrangeira e que, portanto, “não há uma identidade nacional nesses livros”. Mais uma vez, o autor combinará um argumento ao reforço argumentativo do exemplo, pois ele compara um autor brasileiro a uma escritora estrangeira – Paulo Coelho e J. K. Rowling, respectivamente – fazendo a seguinte pergunta: “será que o nosso escritor precisaria ter criado um bruxinho de vassou- ra e varinha para ser agraciado?”. Nessa parte do desenvolvimento, o autor da argumentação apresenta nova complexidade no modo de ma- nejar os argumentos. Dessa vez, isso ocorre pela união do argumento com o recurso da pergunta retórica, convidando o público a pensar e a se posicionar sobre o assunto. Por meio dessas breves colocações sobre o desenvolvimento do texto, foi possível perceber o encadeamento lógico entre os argu- mentos, bem como o adensamento da argumentação, nos trechos em que foram utilizados também o reforço argumentativo da exem- plificação e o apoio da pergunta retórica. Desse modo, tornou-se clara a relação entre a tese defendida e a lista de argumentos que tentam comprová-la. 7.1.3 Conclusão A conclusão sintetiza o texto, retomando, na maioria das vezes, o argumento principal e a tese. Sabendo disso, vamos rever a conclusão do texto escrito por Bruno da Silva. Texto argumentativo 95 Ninguém começa a ler por Macunaíma. Precisamos nos conscientizar disso. Há um longo caminho até a chegada do gosto e prazer pela leitura de Mário de Andrade, por exemplo. Não afirmo, porém, que devemos nos limitar apenas à literatura in- fanto-juvenil ou à voltada para o entretenimento pura e simplesmente. Obviamente, é necessário também uma carga cultural intrínseca. Deve-se, sim, continuar a aumentar nosso acervo preeminente, mas se não houver uma importante reflexão sobre como instigar a leitura nos jovens, boa parte da população brasileira viverá (ou continuará a viver) às margens da cultura literária. E os videogames venderão cada vez mais! Verificamos que, na conclusão, quando o autor afirma que “ninguém começa a ler por Macunaíma”, o título e a tese do texto são retomados implicitamente. A fim de marcar bem sua opinião, Bruno da Silva cha- ma a atenção do leitor por meio do plural majestático precisamos. Na sequência, apresenta-se uma série de afirmações e negações categó- ricas (“Há um longo caminho...”, “Não afirmo, porém...”, “Obviamente, é necessário...” e “Deve-se, sim, continuar...”). Em se tratando de uma argumentação, essa postura do autor é extremamente positiva, pois significa que ele tem certeza da ideia que defendeu no texto, sem que haja espaço para dúvidas ou informações imprecisas. Acesse o link a seguir e leia o texto A favor dos videogames, de Stephen Kanitz. Tente identificar, durante a leitura, as partes do texto argumen- tativo, sobretudo o desen- volvimento, em que são arrolados os argumentos escolhidos pelo autor, para comprovar a tese. Disponível em: https://blog.kanitz. com.br/favor-videogames/. Acesso em: 15 jun. 2021. Vamos praticar? 7.2 Recursos do texto argumentativo Vídeo Tal como já demonstramos na análise das partes do texto argumentativo, a organização das ideias, os argumentos, os reforços argumentativos e até mesmo o cruzamento com outras áreas – como a retórica – integram recursos fundamentais para a sustentação da tese. Para aprofundarmos mais esses aspectos, vejamos as explicações apresentadas a seguir. 7.2.1 Detalhamento O detalhamento pode ser usado para aumentar o poder de con- vencimento do texto. Ele garante maior credibilidade para a tese de- fendida, e assim a ideia apresentada tem maior aceitação do público. Detalhar alguma parte do texto empresta à argumentação certo dida- https://blog.kanitz.com.br/favor-videogames/ https://blog.kanitz.com.br/favor-videogames/ 96 Interpretação de textos tismo: é como se o autor guiasse os seus leitores, observando cada passo, de modo a dirimir dúvidas e a aumentar as certezas e a crença com relação à tese que está sendo defendida. O detalhamento pode ser feito pela citação de exemplos ou pela apresentação de alguns desdobramentos dos argumentos principais, de modo a consolidar a importância deles para o tema debatido e para a posição assumida pelo autor desde a introdução. Esse recurso é ativa- do pelo autor do texto, Bruno da Silva, neste trecho: As novelas estão aí para provar. Cada vez mais aumenta o número de telespectadores que assistem a elas na ânsia de se entreterem com uma grande quantidade de nada. É claro que há aí, nesse contexto, uma gana por contemplar uma vida às vezes tão distante da real ou às vezes tão próximo dela. Mas há, também, essa grande vontade de entreter-se com nada. De não ter que pensar, talvez não por preguiça, mas sim como uma válvula de escape ao estresse diário. É também pelo mesmo motivo que os filmes de ação e aventura são os mais bem cotados da indústria cinematográfica de Hollywood. Quem nunca sentiu um enorme prazer em ir ao cinema simplesmen- te para ver um filme cheio de tiros, mortes, ou mesmo um romance “água-com-açúcar”, que atire a primeira pedra. O ser humano carece tanto de momentos de reflexão e sapiência quanto de entretenimento e descanso. Nesses exemplos, o autor detalha a função das telenovelas e dos fil- mes de ação e aventura, que, segundo ele, servem não apenas para o la- zer, mas também para a formação do público. Assim, após esse primeiro estágio de leitura e interpretação, o leitor/espectador poderá interagir com obras mais complexas e desafiadoras, em termos de sentido. O detalhamento que foi feito pelo autor tem, então, a meta de faci- litar o entendimento do público diante da tese que está sendo susten- tada. Em suma, esse recurso tem a função de expandir a informação, tornando-a mais clara para os leitores. 7.2.2 Citação de fontes e exemplos Com a finalidade de embasar a tese defendida no texto, citam-se autores e obras de renome, na tentativa de concretizar a ideia apre- sentada e sustentada. Em outras palavras, a exemplificação é um bom Texto argumentativo 97 modo de unir a teoria à prática. No texto analisado, o trecho que aten- de a esse quesito é: Há uma deficiência de livros que façam a transição entre O Patinho Feio e Memórias Póstumas de Brás Cubas. Ou até mesmo de clássicos infanto-juvenis, como O Mistério do Cinco Estrelas e O Escaravelho do Diabo, para obras de escritores “maiores” como Drummond, Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto e Euclides da Cunha. O fato de se recorrer a autores e obras de renome comprova para o leitor que a ideia defendida no texto não é absurda. Além disso, to- dos os exemplos citados trabalham com a transição que o autor julga adequada no processo de formação de um bom leitor, que deve ler desde textos mais simples até os clássicos da literatura brasileira. Por fim, vale ressaltar que o autor não se contenta em nos fornecer um exemplo apenas. Os exemplos se multiplicam em prol da clareza e da credibilidade do texto. 7.2.3 Raciocínio lógico Apesar de ser um princípio óbvio para a construção de qualquer texto, o raciocínio lógico se faz ainda mais necessário em um texto ar- gumentativo, porque a compreensão da ideia defendida pelo autor é o primeiro passo para o convencimento do leitor. Porém, nem precisa- mos ir tão longe: por mais que o leitor não concorde totalmente com a tese defendida, ele pensará sobre o texto e irá levá-lo em conta – para rever sua ideologia e seu ponto de vista sobre a questão debatida –, se tiver conseguido compreender o raciocínio apresentado pelo autor. Para confirmarmosque a argumentação de Bruno da Silva atende a esse pressuposto, basta voltarmos rapidamente aos parágrafos do texto. As expressões “É também pelo mesmo motivo”, “Não é apenas por esse motivo, entretanto” e “É exatamente aí” indicam as conexões que vão se estabelecendo ao longo do texto. Dessa forma, podemos verificar facilmente que as etapas são enunciadas com progressão, le- vando o público leitor a acompanhar, passo a passo, o aprimoramento e a consolidação das ideias associadas à tese. 98 Interpretação de textos 7.2.4 A antítese como pressuposto A antítese corresponde à posição contrária àquela defendida pelo autor do texto. No entanto, mesmo assim é possível utilizá-la como uma espécie de sombra, no momento da produção do texto argumentativo, para tentar responder de antemão a questões que podem ser feitas por pessoas que defendem postura diferente daquela do autor do texto. Figura 2 O valor da antítese no texto argumentativo ig or k is se le v/ Sh ut te rs to ck A antítese deve ser retomada e organizada pelo autor do texto argumentativo. Devido ao fato de a antítese geralmente estar associada ao senso comum, às vezes pode ser difícil identificá-la, decifrá-la e organizá-la. Porém, isso pode ser feito depois de uma análise atenta e de uma pes- quisa razoável sobre o tema que está sendo debatido. Cumpridas essas etapas, finalmente cabe ao autor do texto pensar em argumentos que tentem neutralizar a antítese, a fim de tornar seu texto mais completo e imune a críticas. Quando fazemos esse tipo de ampliação no texto argumentativo, garantimos que nossa tese fique menos suscetível a réplicas. Em consequência, esse exercício nos ajuda a aprimorar a ar- gumentação, porque investe na produção de um texto mais completo, mais claro e com argumentos menos frágeis. No texto em análise, isso se verifica no momento em que o autor associa a preguiça de ler ao hábito de jogar videogame. Evidentemente, o autor concorda com essa relação, mas, aqui, ela expressa muito mais do que uma visão subjetiva. A comparação atende ao senso comum, https://www.shutterstock.com/pt/g/kislev Texto argumentativo 99 que sempre se posiciona contra os games e em favor da literatura. Por- tanto, fazendo uso desse artifício, Bruno da Silva consegue mais alia- dos, pois, demonstrando conformidade com a postura adotada pela maioria do público, ele pré-orienta o posicionamento favorável dos leitores no que diz respeito à tese que ele está defendendo. O efeito desse recurso é tão poderoso que o autor o utiliza novamente, na frase que encerra sua argumentação: Deve-se, sim, continuar a aumentar nosso acervo preeminente, mas se não houver uma importante reflexão sobre como instigar a leitura nos jovens, boa parte da população brasileira viverá (ou continuará a viver) às margens da cultura literária. E os videogames venderão cada vez mais! Reiterando sua ideia – e a ideia do senso comum –, o autor faz um alerta, o qual, se não for levado em conta, resultará na participa- ção não efetiva dos jovens na cultura literária e na maior vendagem dos videogames. Que tal planejar e escre- ver um texto argumen- tativo sobre a questão “Internet: prejuízo ou benefício?”. Para começar, escolha um ponto de vista. Depois, reúna bons argumentos para defen- dê-lo. Esboçar o texto em tópicos e pesquisar um pouco sobre o assunto podem ser de grande ajuda neste exercício. Bom trabalho! Vamos praticar? CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste capítulo, verificamos que o texto argumentativo exige planeja- mento e organização. O tema gerador da tese precisa de estudo e refle- xão, obrigando o autor a pensar inclusive nas antíteses prováveis, a fim de tornar o texto mais completo. Além disso, a argumentação tem uma estrutura bem definida, demonstrando o valor da continuidade e da pro- gressão, na escrita ou na fala. Por fim, o aprimoramento textual, nesse modelo específico, de- pende, ainda, do vocabulário, do conteúdo e dos recursos usados pelo autor. A argumentação sempre deve pressupor um diálogo com os leitores/ouvintes e esse princípio básico comprova o papel da alteridade ao longo de todo o processo. ATIVIDADES 1. Elabore uma pequena lista, com três argumentos ou mais, para defender a ideia de que se deve evitar o uso de automóveis no centro da cidade, em horários de pico. 2. Considerando este início de texto: “O aumento no mercado de empréstimos financeiros desencadeou crescimento em diversos Vídeo 100 Interpretação de textos setores do comércio.”, defina a tese defendida pelo autor e sugira um argumento principal para sustentá-la. 3. Usando a antítese como recurso que auxilia na escolha dos argumentos, defina: a) Uma tese. b) Uma antítese. c) Argumentos que sirvam de réplica à antítese. REFERÊNCIAS SILVA, B. M. da. Autores que escrevam sobre nada. Superinteressante, 31 out. 2016. Disponível em: https://super.abril.com.br/cultura/autores-que-escrevam-sobre-nada/. Acesso em: 15 jun. 2021. Textos não verbais, humorísticos e irônicos 101 8 Textos não verbais, humorísticos e irônicos A fim de aprofundarmos o tema da interpretação, neste ca- pítulo vamos discutir a relação dos tipos de textos com os níveis de compreensão que cada um deles exige do leitor. Analisaremos textos verbais e não verbais, focalizando a autonomia da imagem na produção de sentidos, em alguns casos, e a complementação necessária entre imagem e palavras, em outros, como ocorre em gráficos e mapas, por exemplo. Esses tipos textuais, de maior ape- lo visual, são fundamentais hoje, para desmistificarmos a ideia já ultrapassada de que um texto utiliza apenas palavras, sendo, por- tanto, sempre associado à escrita. No que se refere aos textos verbais, avaliaremos a função da síntese, da comicidade e da ironia na atividade interpretativa, pois essas características exigem maior atenção do leitor. 8.1 Textos não verbais Vídeo Já há algum tempo, considera-se texto tudo o que pode ser interpre- tado. Em nosso dia a dia, não percebemos, mas até inconscientemente somos influenciados pelo que lemos em um outdoor, pelo que ouvi- mos em uma música, ou pelo que vemos em uma paisagem. Ora, se o significado de texto foi ampliado, é natural que o signifi- cado de leitura tenha sofrido uma alteração semelhante. De fato, ler não implica mais apenas a decodificação de signos escritos (letras ou palavras): ler também é perceber as coisas e emitir julgamentos sobre elas. Trata-se, portanto, de dois níveis diferentes de interação. A simples percepção ocorre quando olhamos algo muito rapida- mente e, talvez por pressa ou pelo fato de o que observamos não ser 102 Interpretação de textos importante no momento, não damos muita importância. Isso não quer dizer, porém, que aquilo que foi visto não tenha sido apreendido ou não tenha provocado nenhum efeito. Toda informação que nos chega é arquivada em nosso cérebro e, algum tempo depois, ela pode ser recuperada por algum estímulo ex- terno, avisando-nos que aquela música, aquela foto ou aquela placa já foi visualizada, faz parte de nossa memória e, portanto, é parte de nossa bagagem cultural. A partir do momento em que uma informação é retomada, aquilo que antes estava inerte, em nosso arquivo mental, torna-se disponível para uso – em análises, comparações etc. Com base nessas informações sobre o que pode ser considerado texto e sobre o conceito mais amplo de leitura, chegamos facilmen- te a textos feitos apenas a partir de imagens ou feitos predominan- temente pela imagem. Tais exemplos podem ser chamados de não verbais e há muitos deles em nosso cotidiano, como: mapas, gráficos, quadros, placas etc. Por condensarem a informação, muitos desses textos não verbais têm um valor simbólico. As placas e os outdoors são bons exemplos disso, pois exigem comunicação imediata: o con- teúdo tem de ser passado rapidamente, para ser apreendido também em poucos segundos. Sempre que se fala de textos não verbais, vem à tona um debate in- findável e já velhoconhecido nosso: o que vale mais – uma imagem ou mil palavras? Se fosse fácil de responder a essa pergunta, ela não des- pertaria tantas opiniões, nem seria tema de debate ainda hoje. A única coisa que se pode afirmar sobre o assunto é que, assim como os textos escritos, algumas imagens prestam-se a uma interpretação mais fácil, enquanto outras requerem uma análise maior, porque permitem uma multiplicidade de pontos de vista. Logo, a unilateralidade ou a multipli- cidade estão intrinsecamente ligadas à intenção do texto verbal ou não verbal, o que, por sua vez, está diretamente relacionado à finalidade e ao público a que se destina. 8.1.1 Placas As placas de sinalização têm uma intenção puramente informati- va e, portanto, não admitem interpretações variadas. Elas precisam ser entendidas do mesmo modo por todos. A rapidez é outro quesito importante nesse tipo de texto não verbal, razão pela qual um dese- Textos não verbais, humorísticos e irônicos 103 nho, ou seja, um signo não verbal, pode corresponder a uma mensa- gem que, na escrita, seria passada por um conjunto de signos escritos (palavras). Por exemplo, a placa indicando que é proibido fumar em determinado local aglutina e resume várias palavras ao optar pela re- presentação visual do aviso. Observe algumas placas bem conhecidas, entre elas a de “Proibido fumar”. Figura 1 Exemplos de placa Outra característica importante das placas de sinalização é que o uso da imagem torna-as universais. Se, em diferentes partes do mundo, fosse usada a escrita para indicar a proibição do fumo ou para mostrar a localização dos banheiros feminino e masculino, seria preciso escre- ver na língua oficial de cada lugar. Com o uso da imagem nas placas de sinalização, isso não se faz necessário, já que, por exemplo, o bone- quinho com características femininas vai ser compreendido da mesma forma por pessoas de diferentes nacionalidades – alemães, brasileiros, cubanos, dinamarqueses, ingleses etc. 8.1.2 Gráficos Os gráficos, por sua vez, compreendem outro tipo de texto não ver- bal e podem ser de diversos modelos. O fundamental em um gráfico é a apresentação de dados, de modo a facilitar a apreensão por parte de quem o visualiza. Com certeza, em um texto, há alguns dados que podem se perder em meio a tantas informações, ainda mais se esse texto for relativa- mente extenso. Utilizando-se o gráfico, que geralmente associa cores e números, a apreensão dos dados é facilitada, sem mencionar que, em caso de dúvida, basta que o leitor recorra ao gráfico novamente, IE SD E Br as il S/ A 104 Interpretação de textos sem necessidade de procurar, em meio às palavras do texto, aquela informação de que precisa. Vejamos a seguir um exemplo de gráfico no formato circular, popularmente chamado de gráfico pizza. Figura 2 Exemplo de gráfico pizza Infoescravo Blog 20 65 Escravos da tecnologia Blogueiros Técnicos em TI 15 Fonte: Cadenas, 2015. Esse gráfico traz informações que poderiam ser apresentadas em forma de texto escrito. Há um título (“Infoescravo Blog”) e, na legenda, três categorias são relacionadas a ele. Cada uma delas corresponde a um tom de cinza marcado no gráfico circular. Correspondendo a uma parte do todo, os três tipos de “infoescravos” também ganham um nú- mero, que indica a porcentagem alcançada pela categoria em relação à totalidade usada do círculo. A partir daí, é fácil a síntese, bastan- do associar os números e os tons de cinza às categorias informadas na legenda: • Escravos da tecnologia = 65% • Blogueiros = 15% • Técnicos em TI = 20% Além disso, podemos fazer outras duas observações importantes a respeito do gráfico analisado. A primeira: é evidente a predominância da imagem (elemento não verbal) em relação às palavras (elementos verbais), que só aparecem na legenda e no título. Outro detalhe a ser observado é que a concretização dos dados apresentados na forma de Textos não verbais, humorísticos e irônicos 105 um círculo dividido em tons de cinza possibilita uma clara percepção do que representa o índice de 65% – atribuído aos “escravos da tecno- logia” – perto das outras porcentagens, muito menores. Obviamente, chegaríamos a essa mesma conclusão apenas pela comparação dos números, mas o desenho mostra essa diferença, ajudando-nos a fixar essa informação. 8.1.3 Mapas Assim como os gráficos, os mapas também trabalham com o predo- mínio das imagens, sendo exemplos de textos não verbais. No entanto, existe uma diferença básica: o gráfico tem de ser construído, enquanto o mapa já está feito, bastando usar as delimitações entre estados e cidades, por exemplo, indicando os agrupamentos importantes para a informação a ser dada, com o uso de cores ou hachuras. Vamos a um exemplo. Figura 3 Exemplo de mapa Fonte: Instituto Pró-Livro, 2007, p. 104. Nesse mapa, os tons de cinza formam conjuntos que deixam a di- visão original em segundo plano, pois não importa mais a delimitação por estados. A informação fundamental passa a ser a correspondência entre os diferentes conjuntos de estados e os respectivos dados sobre 106 Interpretação de textos a leitura. Como o subtítulo anuncia, o mapa tem a intenção de infor- mar as quantidades de “livros lidos por ano por região”. Dessa forma, cada região, formada por vários estados, recebe uma cor e, depois, um número é colocado em destaque em cada uma delas. Por fim, para de- talhar a informação, uma linha conecta esse número a um retângulo, o qual especifica a quantidade de livros lidos na escola e fora dela. 8.1.4 Poemas visuais Há dois tipos de poemas visuais: aqueles feitos de palavras e de ima- gens e aqueles feitos apenas de imagens. Contudo, essa duplicidade também pode aparecer nas placas, nos gráficos e nos mapas. Sendo as- sim, o diferencial dos poemas visuais em relação aos demais textos não verbais já apresentados refere-se à intenção artística – que, por sua vez, vai restringir o alcance do texto, porque textos literários, como poemas visuais, têm um público mais restrito que textos informativos. Em geral, os poemas visuais que conjugam imagem e palavra ten- dem a reforçar, pelo desenho ou pela forma, o significado de um ter- mo-chave usado em sua construção. Vejamos um exemplo, de autoria do compositor, poeta e cantor Arnaldo Antunes. Figura 4 Exemplo de poema visual Fonte: Antunes, 1997, p. 45. Esse texto transforma o título (Rio: o ir) em um elemento concreto, ao formar, com as letras da palavra rio, três círculos que se multiplicam. Além disso, fica clara a ideia de que todo rio desemboca no mar, razão Textos não verbais, humorísticos e irônicos 107 pela qual a letra o funciona como um ralo, por onde escoam as águas que chegam até ele. Mais um detalhe importante é que a escolha do título não foi aleatória, o que é provado pelo fato de os rios correrem para o mar: o ir é a palavra rio ao contrário, comprovando que a forma obtida pelo artista foi desco- berta com base em uma análise bastante atenta da palavra rio. Sendo assim, o poema que analisamos não é feito apenas de imagens, mas sobrepõe a forma visual à escrita, a partir do momento em que rompe com a apresentação tradicional da palavra na página. Se, antes, ela era ape- nas impressa sobre a folha em branco, no poema visual a palavra aparece com uma forma determinada, a qual ajuda a compor o sentido do texto. 8.2 Textos verbais Vídeo Conforme vimos na seção anterior, há inúmeros textos que privile- giam a imagem e, consequentemente, os signos não verbais. Entretan- to, no dia a dia pessoal, acadêmico e profissional, continuamos a ter de escrever e ler textos essencialmente verbais. Esses são compostos apenas por palavras, mas atenção: isso não significa que eles são mais simples ou mais fáceis. Na verdade, tudo depende do texto em si e, no contexto verbal, também existem modelos bastante complexos, como veremos nas subseções a seguir. 8.2.1 Textos humorísticos Voltando agora aos textos verbais, vamos falar de um estiloespecí- fico de escrita: a humorística. Claro que o humor também pode apare- cer em textos não verbais. Independentemente do texto em que esse recurso apareça, o resultado vai ser o mesmo: o riso. Todo jornal tem uma seção de piadas – um tipo de texto que, tanto na fala quanto na escrita, é o mais associado ao humor. No teatro, no cinema e na televisão, há diversos exemplos de comé- dia. Mas os exemplos também aparecem na literatura. Nessa área, po- demos citar os nomes dos cronistas Roberto Gomes, José Simão, Luis Fernando Verissimo, Jô Soares, entre outros. Vejamos, a seguir, dois 108 Interpretação de textos haicais escritos por Dalton Trevisan, que também se dedica a esse tipo de texto, embora eles sejam minoria em sua produção literária. Texto 1 – Já reparei, garçom: a segunda empadinha nunca é tão boa como a primeira. – … – Hoje você me traga a segunda antes da primeira. Texto 2 – É bom ser churrasqueiro: fico olhando o fogo, até esqueço da carne. (TREVISAN, 1994, p. 89-90) Quer saber mais sobre os haicais? De origem japonesa, esse tipo de texto privilegia a síntese. Os haicais mais tradicio- nais são escritos em três versos de cinco, sete e cinco sílabas poéticas, respectivamente. Em geral, essas produções descrevem uma paisagem ou lembram um fato. Para saber mais Dalton Trevisan, ao usar o haicai, faz algumas adaptações. A primei- ra diz respeito à forma: o autor escreve os textos em prosa, e não em verso. A segunda mudança refere-se ao tema, porque esses haicais que acabamos de ler são voltados ao humor, característica inexistente nos haicais tradicionais. Os dois haicais de Dalton Trevisan pertencem ao mesmo livro (Dinorá) e a sua leveza não se deve apenas ao tom humorístico, mas também à brevidade e à simplicidade dos temas. Perceba ainda que o final é importante. No primeiro texto, a graça reside no fato de a con- clusão do cliente ser tão apressada, que ele nem sequer atenta para o detalhe de que, se a ordem das empadas for invertida, o problema não deixará de existir, já que a segunda empadinha passará a ser a primeira. Quanto à interpretação do segundo exemplo, apesar de no início ha- ver referência ao churrasqueiro, o texto termina afirmando que o fogo faz o churrasqueiro se esquecer da carne, o que deixa implícita a questão geradora do riso: mas, afinal, que tipo de churrasqueiro é esse? 8.2.2 Textos sarcásticos Evidentemente, há autores que trabalham com o humor de uma maneira diferente e mais peculiar. Os mestres do sarcasmo costumam associar situações engraçadas a momentos tristes, às vezes trágicos. O fato é que, nos textos sarcásticos, o riso é associado a um contexto sério, que claramente não se relaciona à alegria. Essa inadequação é a principal característica desse tipo de humor, que era característica mar- A crônica é um bom exemplo de texto humorístico. Então, que tal escrever uma crônica sobre um fato engraçado que aconteceu com você? Lembre que a crônica mistura realidade e ficção. Portanto, comece esco- lhendo um fato cômico e depois decida como contá-lo aos leitores. É possível mudar as datas, os nomes dos persona- gens, dos lugares e até mesmo exagerar um pou- co. Por isso, pense com cuidado nos recursos que podem auxiliar você na construção de sua crônica humorística. Boa diversão! Vamos praticar? Textos não verbais, humorísticos e irônicos 109 cante de vários textos do escritor Machado de Assis. A seguir, há uma passagem de Memórias Póstumas de Brás Cubas, a fim de exemplificar o tom sarcástico e zombeteiro na literatura realista. O sujeito magro O sujeito magro […] tornou a tratar da casa, alteando a proposta. – Trinta e oito contos, disse ele. – Ahn?… gemeu o enfermo. O sujeito magro aproximou-se da cama, pegou-lhe na mão, e sentiu-a fria. […] – Não… não… quar… quaren… quar… quar… Teve um acesso de tosse, e foi o último; daí a pouco expirava ele, com grande consternação do sujeito magro, que me confessou depois a dis- posição em que estava de oferecer os quarenta contos; mas era tarde. (ASSIS, 1970, p. 271) Pela leitura do fragmento literário, a situação já parece estranha des- de o começo, quando um homem à beira da morte, querendo vender uma propriedade, negocia com o interessado na compra, sem conseguir chegar a um acordo. Desde o início o proprietário deixa claro que só ven- derá a casa por 40 contos de réis (a moeda da época), mas o outro tenta negociar um preço mais baixo. O resultado da cena, bastante inusitado, é trágico: o doente tem uma crise de tosse da qual não consegue se re- cuperar e acaba morrendo. Em meio a um certo lamento, vem o riso um pouco tímido – dada a morte do personagem –, mas inevitável, diante da descoberta de que a pessoa interessada na compra tinha ideia de pagar os 40 contos pedidos e, se fosse assim, talvez não tivesse ocorrido o acesso de tosse e o enfermo ainda estivesse vivo. 8.2.3 Textos irônicos Os textos irônicos são aqueles que fazem uso da ironia, uma figura de linguagem que trabalha com a duplicidade de sentidos, obrigando o leitor a interagir com um discurso construído em dois níveis – um visível e o outro invisível. Ser irônico é escrever ou falar justamente o oposto do que se pretende expressar. Sendo assim, a fala ou a escrita constitui a parte visível do texto. No entanto, a correta interpretação de um texto com ironia exige que o receptor vá além das palavras, chegan- do à parte invisível, mas subentendida pelo conjunto lido ou ouvido. Para o personagem Sheldon Cooper, da série The Big Bang Theory, é muito difícil estabelecer a diferença entre a infor- mação real e o sarcasmo. Isso ocorre não apenas com ele, mas com muitos de nós, afinal um texto sarcástico é duplo e às vezes não conseguimos identificar a real intenção do autor. Divirta-se com o vídeo The Big Bang Theory – Sheldon e o Sarcasmo, que mostra parte de um episódio da série. Disponível em: https://youtu. be/wh3n5UFlDrs. Acesso em: 15 jun. 2021. Para saber mais https://youtu.be/wh3n5UFlDrs https://youtu.be/wh3n5UFlDrs 110 Interpretação de textos Apenas depois de cumprida essa etapa, o leitor estará apto a concluir que, por exemplo, embora tenha sido usada uma palavra positiva para qualificar determinada pessoa, na verdade o autor sentia desprezo ou indiferença por ela. Esse jogo duplo proposto pela ironia requer habilidade do leitor ou do ouvinte – afinal, não chegar ao real significado de um texto irônico dará uma ideia completamente contrária daquela que fazia parte da real intenção do autor do texto. É como não entender o final de uma piada. Você consegue criar um texto irônico? Então, analise a cena a seguir: Po r A za t V al ee v/ Sh ut te rs to ck Agora, escreva dentro do balão uma frase irônica para a personagem da cena que você acabou de ver. Vamos praticar? Para exemplificar a linguagem irônica, vejamos outra passagem de Machado de Assis, também retirada do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas. Você sabia que gestos e expressões faciais podem revelar ironia? Quando falamos, precisamos ficar atentos a esses aspectos, pois, em alguns casos, eles podem contradizer aquilo que acabamos de falar. Para saber mais so- bre esse assunto, acesse o link a seguir. Disponível em: https://super.abril. com.br/ciencia/caras-e-bocas-das- -expressoes-faciais/. Acesso em: 15 jun. 2021. Para saber mais https://www.shutterstock.com/pt/g/azatvaleev https://super.abril.com.br/ciencia/caras-e-bocas-das-expressoes-faciais/ https://super.abril.com.br/ciencia/caras-e-bocas-das-expressoes-faciais/ https://super.abril.com.br/ciencia/caras-e-bocas-das-expressoes-faciais/ Textos não verbais, humorísticos e irônicos 111 Notas Soluços, lágrimas, casa armada, veludo preto nos portais, um homem que veio vestir o cadáver, outro que tomou a medida do caixão, caixão, essa, tocheiros, convites, convidados que entravam, lentamente, a passo surdo […]. Isto que parece um simples inventário eram notas que eu haviatomado para um capítulo triste e vulgar que não escrevo. (ASSIS, 1970, p. 154) Na sua forma original, o capítulo de que foi retirado esse trecho tem pouco mais de meia página e é todo feito de enumerações, assim como as que podem ser lidas nas linhas transcritas. A ironia aparece ao final da citação. Já sabemos que o trecho faz parte de um capítulo denominado Notas e, mesmo assim, o narrador nega isso, informando justamente o contrário, quando afirma: “Isto que parece um simples inventário eram notas que eu havia tomado para um capítulo triste e vulgar que não escrevo”. Não escreve? Isso não está correto, afinal o leitor acabou de ler o capítulo. É nessa contradição, portanto, que está a ironia: o narrador afirma que não escreve, mas o fato é que ele acabou escrevendo. É comum a associação entre ironia e humor, o que pode ser compro- vado pelo trecho que analisamos. A princípio, a contradição gera um es- tranhamento, mas quando se percebe a ironia também se percebe o bom humor do narrador ao fazer a brincadeira, e o riso é quase inevitável. Para exercitar a inter- pretação de textos que utilizam recursos de humor e ironia e, princi- palmente, para aprimorar a compreensão de textos sarcásticos, leia diariamen- te, no caderno cultural dos jornais, algumas tiras e histórias em quadrinhos. Esses tipos de texto são campeões no uso das linguagens humorística e irônica. Para saber mais sobre eles, comece assis- tindo ao vídeo Humor e ironia em charges, memes e tirinhas (habilidade BNCC). Disponível em: https://youtu.be/du- DRKDzqbIk. Acesso em: 15 jun. 2021. Para saber mais CONSIDERAÇÕES FINAIS Com base no conteúdo deste capítulo, atualizamos o conceito de texto, que, hoje, pode apresentar elementos variados, sem ter que se restringir às palavras. Aliás, como vimos, os textos não verbais são extremamente comuns e, na maioria das vezes, fazem com que a imagem dialogue com palavras e números, a fim de facilitar a interpretação do leitor. Outra prerrogativa do texto não verbal é a síntese. Porém, o tamanho do texto não está associado apenas ao fato de ele usar imagens ou não. Nas análises dos exemplos verbais, vimos textos de tamanhos variados, desde os haicais até fragmentos mais longos, retirados de capítulos de livros. É certo que os textos verbais não são exatamente uma novidade. As palavras ainda são os signos mais utilizados na escrita. No entanto, quando tratamos da verbalidade, neste capítulo, priorizamos os textos de maior dificuldade, que são aqueles relacionados ao humor, ao sarcasmo e https://youtu.be/duDRKDzqbIk https://youtu.be/duDRKDzqbIk 112 Interpretação de textos à ironia. Sem dúvida, essas modalidades exigem um leitor muito atento e exercitam nossa interpretação em um nível mais avançado. ATIVIDADES 1. Faça uma pequena lista de textos não verbais, além daqueles apresentados neste capítulo. Não se esqueça de justificar a inclusão dos textos listados na categoria de textos estudada. 2. Escreva um breve parágrafo interpretativo para o quadro reproduzido a seguir: Fonte: ARCIMBOLDO, G. Summer. 1573. Óleo sobre tela, 76 x 64 cm. Museu do Louvre, Paris. 3. Identifique e comente o uso da ironia nos períodos dados: a) Sua nota na prova de matemática foi excelente: três e meio! b) Na quinta-feira, meu carro foi parar na oficina. O conserto custou a bagatela de 1.500 reais. REFERÊNCIAS ANTUNES, A. 2 ou + Corpos no Mesmo Espaço. São Paulo: Perspectiva, 1997. ASSIS, M. de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. São Paulo: W. M. Jackson, 1970. CADENAS, E. Infoescravo Blog. Série Geográfica (espaço), 2015. Disponível em: https:// slideplayer.com.br/slide/3826735/12/images/13/. Acesso em: 15 jun. 2021. INSTITUTO PRÓ-LIVRO. Número de livros lidos por ano: Livros lidos por ano por região. Retratos da leitura no Brasil. São Paulo: Instituto Pró-Livro, 2007. Disponível em: https:// www.prolivro.org.br/wp-content/uploads/2020/07/APRESENTACAO_RETRATOS_DA_ LEITURA_NO_BRASIL_28MAIO.pdf. Acesso em: 15 jun. 2021. TREVISAN, D. Dinorá. Rio de Janeiro: Record, 1994. Vídeo https://www.prolivro.org.br/wp-content/uploads/2020/07/APRESENTACAO_RETRATOS_DA_LEITURA_NO_BRASIL_28MAIO.pdf https://www.prolivro.org.br/wp-content/uploads/2020/07/APRESENTACAO_RETRATOS_DA_LEITURA_NO_BRASIL_28MAIO.pdf https://www.prolivro.org.br/wp-content/uploads/2020/07/APRESENTACAO_RETRATOS_DA_LEITURA_NO_BRASIL_28MAIO.pdf Estratégias e recursos na construção do texto 113 9 Estratégias e recursos na construção do texto Há inúmeros elementos que podem ser usados na construção de um texto, provocando diferentes efeitos. Alguns podem inter- ferir na clareza, tornando a apreensão do sentido mais fácil ou mais difícil. Outros, se aparecerem com relativa frequência, podem inclusive modificar o tom do texto, tornando-o engraçado ou irô- nico. Desse modo, temos de dominar um número razoável desses recursos e estratégias, tentando conhecer suas funções e seus efeitos mais básicos, a fim de aprimorar nossas possibilidades de comunicação e diversificar nossas técnicas de escrita. Os recursos mais importantes para a elaboração de um texto são: a ordem das informações nos períodos; a concatenação das ideias, que devem ser ligadas por relatores ou conectivos adequa- dos, para assegurar a lógica da informação que está sendo passa- da; e a pontuação. Entre os itens elencados, a pontuação assume a função primordial, já que o uso incorreto de pontos e sobretudo de vírgulas pode alterar significativamente o sentido de um texto. Paralelamente aos recursos de base, há outros, de caráter secundá- rio, mas que também interferem no aspecto semântico e na tipologia textual. São eles: vocabulário, que pode incluir o tema (cotidiano ou não) e a definição da linguagem (simples ou complexa); uso de elementos de efeito, tais como repetição, comparação e formulação de perguntas; e utilização de reforços e facilitadores, como citações e exemplos. Com base nesse rápido panorama, percebemos que um texto é um produto extremamente moldável, permitindo interferências dos mais variados recursos. No entanto, antes de usar algumas dessas inúmeras possibilidades, é fundamental pensar no efeito que será provocado, verificando se ele corresponde perfeitamente à finalidade pretendida. Por esse motivo, nas seções deste capítulo, vamos aprofundar e exercitar cada item que apresentamos aqui. 114 Interpretação de textos 9.1 Estrutura e linguagem Vídeo Quanto aos aspectos estruturais e linguísticos, a pontuação, a coe- são, a citação, os exemplos e a formulação de perguntas desempe- nham uma importante função. Esses elementos, além de dar forma ao texto, contribuem para uma comunicação mais efetiva entre o autor e o público, como veremos a seguir. 9.1.1 Pontuação e elementos coesivos A fim de aprofundarmos a análise dos primeiros recursos e estratégias, verificando os efeitos provocados por eles, vamos à leitura deste texto: Por que ler os clássicos Os grandes textos da escrita universal permitem ao leitor descobrir mais sobre a alma, o mundo e os recursos estilísticos da língua Só as obras bem escritas passam para a posteridade, tornam-se fonte de conhecimento – e não apenas de entretenimento – e, enfim, podem ser chamadas de clássicos. Seus autores são verdadeiros ar- tistas. Eles conseguem organizar bem seus pensamentos, esculpem a língua com cuidado e estilo e põem em foco os principais conflitos da existência humana. Assim, ao experimentar as emoções de diversos personagens consagrados, o leitor busca respostas para a própria vida, compreende melhor o mundo e se torna um escritor mais criativo. “Já que não podemos entrar em uma máquina do tempo e conhe- cer o cotidiano da Grécia Antiga ou a realidade do século XVIII, ler é a melhor maneira de nos transportar para outros universos, tempos e espaços”, diz a escritora Ana Maria Machado. “Todo leitor é, quando está lendo, um leitor de si mesmo”, disse Marcel Proust (1871-1922), um dos maiores escritores franceses, autorda obra-prima Em busca do tempo perdido. Isso acontece quando os personagens retratados servem de inspiração e reflexão para leitores de qualquer época e lugar. E como trabalhar com esses livros? Em que fase os estudantes estão preparados para esse tipo de leitura? É um equívoco explorar apenas títulos que o grau de autonomia da turma permite compreen- der sem dificuldade. Um projeto de leitura comprometido com a formação de leitores apresenta, além de títulos que podem ser lidos com fluência, uma cuidadosa seleção que rompa com seu universo de expectativas. Um clássico pode ser retomado em diferentes etapas do processo de aprendizagem. Quanto mais velhos forem os alunos, maior o aprofundamento da análise da obra. (BENCINI, 2003, grifos do original) Estratégias e recursos na construção do texto 115 Antes da análise propriamente dita, convém relembrar que uma vír- gula colocada em um lugar inadequado pode gerar ambiguidade. Além disso, esse tipo de pontuação pode dar ou tirar ênfases. No aspecto estrutural, as vírgulas em excesso também podem gerar períodos in- termináveis, que, justamente por serem longos demais, às vezes fazem o autor se perder em meio ao conteúdo, esquecendo-se de completar uma informação básica. O resultado disso é um período incompleto: tantos encadeamentos vão surgindo, pelas emendas de uma infor- mação complementar à outra, que se termina o período com diversas informações extras – relacionadas à informação básica, sem dúvida al- guma, mas que não completam, efetivamente, seu sentido. Com o intuito de conhecermos mais sobre o auxílio que a pontuação e a coesão dão ao texto, vamos retomar parte do que acabamos de ler. Seus autores são verdadeiros artistas. Eles conseguem organizar bem seus pensamentos, esculpem a língua com cuidado e estilo e põem em foco os principais conflitos da existência humana. Assim, ao experimentar as emoções de diversos personagens consagrados, o leitor busca respostas para a própria vida, compreende melhor o mundo e se torna um escritor mais criativo. Para comentar a pontuação, basta nos determos sobre o último perío- do do fragmento destacado. Nessa parte do texto, a autora utiliza ponto final e vírgulas, porque agrega dois tipos de informação: as básicas e as complementares. Relembrando esses conceitos rapidamente, sabemos que as básicas têm autonomia de significado e são compostas de sujeito e predicado, enquanto as acessórias ou complementares encarregam-se de detalhar algum ponto da informação básica. Aposto ou advérbio são os mais usados na composição das informações complementares. Sendo assim, a informação básica do último período do trecho dado inicia-se com “o leitor busca respostas para a própria vida”. Embora essa informação já tenha sentido completo e seja formada de sujeito (“o leitor”) e predicado (“busca respostas para a própria vida”), outras duas ações são unidas a ela, formando uma enumeração. Desse modo, “o leitor”: 1) “busca respostas para a própria vida”; 2) “compreende me- lhor o mundo”; 3) “e se torna um escritor mais criativo”. Esses três itens formam a enumeração, que é parte da informação básica. 116 Interpretação de textos No que se refere às informações complementares, temos: Assim, ao experimentar as emoções de diversos persona- gens consagrados, Esse início de período reúne duas informações acessórias, divididas em blocos, pelo uso da vírgula. O primeiro bloco é formado pela con- junção assim e o segundo compreende o longo trecho “ao experimentar as emoções de diversos personagens consagrados”, que desempenha a função de advérbio. Passando agora para a verificação dos elementos coesivos utilizados, percebemos que cada período tem um relator que faz referência a uma palavra já mencionada no período anterior. Isso dá lógica ao texto, per- mitindo que as informações sejam apresentadas de modo encadeado e organizado, pois existe uma continuidade no desenvolvimento do racio- cínio. Para comprovarmos a coesão textual, vamos retomar o trecho que estamos analisando, com o objetivo de incluir algumas observações, as quais irão consolidar as relações estabelecidas pelos elementos coesivos. Seus autores [os autores dos clássicos, mencionados logo no início do texto, no período anterior a este] são verdadeiros artistas. Eles [referência a “artistas” e, por consequência, aos “autores dos clássicos”] conseguem orga- nizar bem seus pensamentos, esculpem a língua com cuidado e estilo e põem em foco os principais conflitos da existência humana. Assim [conjunção que liga “os principais conflitos da existência humana” vividos pelos personagens à experiência do leitor, principal assunto deste período], ao experimentar as emo- ções de diversos personagens consagrados, o leitor busca respostas para a própria vida, compreende melhor o mundo e se torna um escritor mais criativo. Por meio das marcações e das observações feitas no trecho ante- rior, tornaram-se evidentes a progressão do texto e a preocupação da autora em associar uma ideia à outra, para formar um todo organizado e coerente. Sem essa correspondência, com certeza o sentido do texto poderia sofrer enorme prejuízo. Se não houver clareza por parte do autor, o texto não será compreensível e, consequentemente, não fun- cionará como um meio de comunicação eficaz entre autor e leitor. 9.1.2 Citação e exemplos Um exemplo tem a função de comprovar as afirmações feitas pelo autor, ligando a teoria à prática. Já as citações, mais do que comprovar Acesse o link a seguir e assista ao vídeo Como usar a vírgula?. Nele, você vai poder revisar dicas fundamentais para a correta utilização desse sinal de pontuação! Disponível em: https://youtu. be/-6tdXMc6wKU. Acesso em: 15 jun. 2021. Para saber mais https://youtu.be/-6tdXMc6wKU https://youtu.be/-6tdXMc6wKU Estratégias e recursos na construção do texto 117 um pensamento, introduzem no texto a ideia de outro escritor, que tam- bém discutiu determinado assunto. Esse recurso serve para avalizar a ideia defendida no texto. Para conseguir isso, o autor empresta a credi- bilidade de outro escritor de renome, com a finalidade de demonstrar ao leitor que alguém respeitado na área e bastante conhecido por sua obra defende a mesma tese, razão pela qual os trechos citados podem servir de complemento ao texto que está sendo escrito. Para analisarmos como a autora utiliza a citação e os exemplos a seu favor, no texto que acabamos de ler, vamos voltar ao início do se- gundo parágrafo. “Já que não podemos entrar em uma máquina do tempo e conhe- cer o cotidiano da Grécia Antiga ou a realidade do século XVIII, ler é a melhor maneira de nos transportar para outros universos, tempos e espaços”, diz a escritora Ana Maria Machado. “Todo leitor é, quando está lendo, um leitor de si mesmo”, disse Marcel Proust (1871-1922), um dos maiores escritores franceses, autor da obra-prima Em busca do tempo perdido. Os dados que nos interessam estão em destaque. As duas primei- ras marcações servem para exemplificar tanto o papel da citação como do exemplo – afinal, quando a autora revela ao leitor quem disse as palavras que ela resolveu transcrever, por meio do discurso direto, ela deixa claro que optou pela citação para completar e avalizar seu discurso, pois o texto que estamos lendo faz afirmações semelhantes àquelas feitas por autores de renome, como Ana Maria Machado e Marcel Proust. De modos diferentes, os autores mencionados no texto auxiliam a autora Roberta Bencini a respaldar e consolidar a ideia por ela apresentada. Evidentemente, não foi por acaso que a autora escolheu citar os nomes de Ana Maria Machado, especialista em leitura e autora de di- versas obras infantojuvenis, e Marcel Proust, o qual, aliás, Bencini faz questão de apresentar melhor ao leitor, mencionando que ele é “um dos maiores escritores franceses, autor da obra-prima Em busca do tempo perdido”. A estratégia é clara: pelas citações e pelos exemplos mencionados, a própria autora credenciaseu texto. O efeito provocado é imediato e muito simples de ser compreendido: se o leitor conhece e respeita os autores citados pelas obras que produziram, automatica- mente vai dar importância ao texto que está lendo naquele momento. 118 Interpretação de textos 9.1.3 Perguntas No começo do terceiro parágrafo do texto, a autora utiliza algumas perguntas: E como trabalhar com esses livros? Em que fase os estudantes estão preparados para esse tipo de leitura? Esse artifício é importante, porque delimita para o leitor os objetivos do texto. Depois de conhecer os questionamentos propostos, é natural o leitor esperar da autora que ela apresente respostas. No excerto que lemos, essas questões começam a ser respondidas e, até o final do texto, que tem várias páginas, elas são comentadas e aprofundadas. Porém, além de dar ao leitor as informações sobre as metas a serem atingidas ao longo do texto, as perguntas também têm a função de atrair mais público. Mesmo que o leitor não tenha a chance de responder concretamen- te às perguntas formuladas pela autora, elas têm o intuito de provo- car análise e reflexão, mobilizando a subjetividade e a experiência do público. Por essa razão, percebemos que, no texto lido, as perguntas usadas foram cuidadosamente escolhidas. Elas representam dúvidas frequentes. É como se, reproduzindo-as, a autora conseguisse incor- porar o senso comum em seu texto. Dessa forma, sabendo quais são as principais dúvidas do público em geral sobre o tema debatido, e prometendo apresentar soluções eficazes para elas, a autora consegue ampliar o alcance de seu texto. Figura 1 O efeito das perguntas no público As perguntas incentivam a participação do público. m ag ic p ic tu re s/ Sh ut te rs to ck https://www.shutterstock.com/pt/g/magicpictures Estratégias e recursos na construção do texto 119 9.2 Empatia e proximidade Vídeo Para aprofundarmos a relação que o texto estabelece entre autor e público-alvo, nesta seção vamos saber mais sobre o valor da oralidade e dos temas cotidianos. Essas características, que serão abordadas a seguir, conferem simplicidade à linguagem e motivam a aplicabilidade dos conceitos apresentados no texto. 9.2.1 Oralidade Começamos esta seção propondo a leitura e a análise de um novo tex- to. Trata-se de uma crônica de José Simão, a fim de demonstrar uma moda- lidade textual específica, que, por sua vez, faz uso de recursos diferentes. Chega de prata! Vamos virar faqueiro! BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador- -geral da República! Direto do País da Piada Pronta! […] E o Pândega 2007? Chega de prata! O Brasil vai virar um faqueiro. […] E um amigo meu diz que na casa dele há anos que chegou o Pan: pan com ovo, pan com mortadela e pan com manteiga! […] E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulan- te. “Pancreatite”: companheiro inflamado com o clima do Pan! Pancreático! Rarará! O lulês é mais fácil que o inglês. […] Hoje só ama- nhã! […] E vai indo que eu não vou! (SIMÃO, 2007) Figura 2 Oralidade e proximidade com o leitor A oralidade usada na crônica tenta estabelecer um diálogo com a realidade dos leitores. M ar is h/ Sh ut te rs to ck https://www.shutterstock.com/pt/g/marish 120 Interpretação de textos Coerente com a simplicidade e o despojamento permitidos na crô- nica, a oralidade é usada a todo momento pelo cronista, na tentativa de tornar o texto mais próximo do leitor. Para entender como esse recurso foi utilizado no texto lido e para reforçar os efeitos provocados por ele, vamos a alguns exemplos, os quais retomam partes distintas da crônica. E o Pândega 2007? Chega de prata! O Brasil vai virar um faqueiro. […] E um amigo meu diz que na casa dele há anos que chegou o Pan: pan com ovo, pan com mortadela e pan com manteiga! […] E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulan- te. “Pancreatite”: companheiro inflamado com o clima do Pan! Pancreático! Rarará! O lulês é mais fácil que o inglês. […] Hoje só ama- nhã! […] E vai indo que eu não vou! A primeira coisa que chama a atenção é a profusão de e. Os três parágrafos transcritos começam com essa mesma vogal. A repetição, aliás, é uma marca típica da oralidade, bem como a onomatopeia Rarará, figura de linguagem que tenta imitar o som de uma gargalhada. Outra característica importante do autor é que ele subverte alguns vocábulos, ao substituí-los por outros, com som parecido, mas escrita diferente (“óbvio lulante”, em vez de óbvio ululante; e “pan”, em vez de pão). Sendo assim, em vários momentos a gramática não é seguida. Essa é uma das licenças da crônica e do autor, que já é dono de um esti- lo bastante peculiar, o qual se transfere de um texto para outro. O estilo funciona como uma marca registrada, assegurando a correspondência entre o autor e seus textos. No caso do exemplo “óbvio lulante”, os lei- tores bem sabem que o adjetivo “lulante” não existe: é um termo criado pelo autor e refere-se ao ex-presidente Lula. Isso exemplifica, no texto, outra característica bastante acentuada no estilo desse cronista: o neo- logismo, recurso que permite a criação de palavras. Digno de comentário é também o uso das exclamações, outra mar- ca da oralidade. Geralmente não utilizado em textos formais, esse re- curso é admitido na crônica, pela linguagem simples que esse gênero textual costuma privilegiar. Estratégias e recursos na construção do texto 121 9.2.2 Temas do cotidiano A escolha de temas cotidianos é bastante conveniente para a sim- plicidade pretendida pela crônica. Pela leitura dos trechos do texto de José Simão, já foi possível perceber que ele encadeia uma série de fa- tos, de modo a fazer um resumo das novidades da semana no país. Esse artifício exige uma contribuição bastante específica do leitor: para entender o texto lido, ele deve lançar mão de seu conhecimento prévio, retomando as informações que lhe chegaram recentemente, pela mídia, para poder entender todas as referências feitas pelo autor. Sem essa relação do texto com os fatos que deram origem à crítica e ao gracejo, o texto perde completamente o seu efeito. Nesse jogo que o autor estabelece com o leitor, vários conteúdos são exigidos. Vejamos os fragmentos a seguir: E o Pândega 2007? Chega de prata! O Brasil vai virar um faqueiro. […] E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulan- te. “Pancreatite”: companheiro inflamado com o clima do Pan! Pancreático! Rarará! O lulês é mais fácil que o inglês. […] Hoje só ama- nhã! […] E vai indo que eu não vou! Os dois parágrafos pedem que o leitor colabore, acionando seu co- nhecimento prévio. O primeiro, porém, exige que o leitor esteja por dentro de algo que estava acontecendo na época em que o texto foi es- crito: os Jogos Pan-Americanos de 2007, também chamados Pan 2007, no Rio de Janeiro. Logo, quem acompanhava as competições e tinha a informação de que o número de medalhas de prata estava alcançando uma marca impressionante vai saber que se justifica o fato de o autor afirmar que “O Brasil vai virar um faqueiro” – já que a prata é o material de que são feitos os faqueiros de luxo. O segundo trecho, diferentemente do primeiro, já requer um co- nhecimento mais amplo do leitor. Isso ocorre porque o autor não se refere a uma situação específica: ele brinca com os frequentes deslizes do ex-presidente Lula, no que diz respeito ao uso da língua portugue- sa, razão pela qual o cronista cria outro significado para pancreatite – “companheiro inflamado com o clima do Pan” –, afirmando que “O lulês é mais fácil que o inglês”. 122 Interpretação de textos 9.3 Argumentação e retórica Vídeo Quanto mais complexo é o texto, mais ele pode se aproximar da argumentação e da retórica. Por isso, nas subseções que seguem, va- mos discutir os efeitos da comparação, da escolha vocabular e da repe- tição na construção textual. 9.3.1 Comparação A partir desta seção do capítulo, analisaremos alguns recursos de efeito claramente retórico. A comparaçãoduas ou mais orações = período composto) De acordo com os exemplos dados, ficou clara a variação estrutural dos períodos, que dependem essencialmente do número de verbos. Entretanto, o ideal é não fazer períodos longos demais, para não difi- cultar a compreensão do leitor. 1.2.1 Relação entre os períodos Assim como a sequência dos parágrafos não pode ser aleatória no texto, os períodos contam com alguns elementos que garantem a cons- trução lógica, a progressão de ideias e, principalmente, a completude da informação. Vamos retomar o exemplo dado anteriormente para uma análise mais detalhada: O crescimento desenfreado, nas grandes cidades, provoca inúmeros problemas no trânsito, que vai ser monitorado por novos radares. De imediato, temos uma relação de causa (“crescimento desenfrea- do”) e consequência (“inúmeros problemas no trânsito”). Isso significa que, para sanar o problema causado pelo crescimento desenfreado, uma solução é apresentada. Em seguida, temos uma segunda relação de causa e consequência, mas agora uma nova causa (“inúmeros proble- mas no trânsito”) tem como consequência a instalação de novos radares. Tudo o que mencionamos até agora pode ser resumido com o se- guinte esquema: 14 Interpretação de textos Causa 1 Consequência 1/ Causa 2 Consequência 1 Consequência 2= Outra possibilidade de simplificação desse encadeamento de ideias é: Causa Consequência/Problema Solução O importante é que, independentemente do esquema que se utili- ze, confirma-se a clareza do período, que não desobedece à sequência dos fatos. Imagine o caos que poderia ser causado se as partes do pe- ríodo aparecessem organizadas de outro modo. Por exemplo: O crescimento desenfreado vai ser monitorado por novos radares, nas grandes cidades, provoca inúmeros problemas no trânsito. Agora, indo um pouco além da ordem das informações dentro do período, pensemos sobre a função de determinadas palavras, sem as quais ficaria difícil entender o conteúdo. Se tirarmos do período, por exemplo, a palavra que, o prejuízo será grande: O crescimento desenfreado, nas grandes cidades, provoca inúmeros problemas no trânsito, vai ser monitorado por novos radares. A ausência do que faz com que a locução verbal vai ser não seja liga- da a nenhum termo. O resultado é incompletude e confusão – afinal, não está claro o que “vai ser monitorado por novos radares”. Seria o trânsito ou o crescimento desenfreado? 1.2.2 O problema do período incompleto Quem já não escreveu um período incompleto? Esse é um problema bastante recorrente e quase sempre está relacionado ao comprimento das ideias. Quando optamos por uma frase muito longa, às vezes con- sideramos que já é hora de usar o ponto final. Sem dúvida, uma rápida releitura ou revisão bastaria para evitarmos esse erro, que é apresen- tado aqui por meio deste exemplo: Elementos estruturais do texto 15 O livro X, que comprei na semana passada. Nesse exemplo, o período simplesmente não tem um fim. Duas for- mas de arrumar essa construção facilmente são: Comprei o livro X, na semana passada. ou O livro X, que comprei na semana passada, não custou caro. Solucionar o problema não é difícil, mas saber por que o problema foi gerado é fundamental e aí vai o recado: cuidado com o uso do que. Esse pronome relativo sempre insere no período uma informação com- plementar, mas o que de fato importa é não se esquecer de terminar ou completar a informação principal ou básica. Para entender a função das informações básica e complementar no período, observemos o esquema a seguir: O livro X , que comprei na semana passada, não custou caro. Parte 1 da informação básica Informação complementar Parte 2 da informação básica Veja que, somando as partes 1 e 2 da informação básica do período, temos uma ideia completa, formada por sujeito e predicado: O livro X não custou caro. Sujeito Predicado Se destacarmos do período apenas a informação complementar, teremos: ..., que comprei na semana passada,... O que foi comprado? Faltam dados importantes nesse tipo de infor- mação, mas a conclusão é simples: a informação complementar não é completa e não tem autonomia no período. 1.2.3 Relatores Relatores equivalem ao que muitos livros e gramáticas de língua portuguesa denominam conectivos e são as palavras encarregadas de, 16 Interpretação de textos como o nome já diz, estabelecer relações entre os períodos ou entre suas partes. Essas relações podem ser de soma, contradição etc. Os tipos de relatores são bastante numerosos. Vejamos alguns exemplos. Amanhã tenho um compromisso, mas darei um jeito de ir à reunião. O mas estabelece uma relação de contrariedade entre as partes do período, porque o fato de já existir um compromisso teria como conse- quência a ausência na reunião. No entanto, isso não ocorre e o termo responsável por isso é o mas, que é uma conjunção adversativa. Disse que não iria à reunião. Além disso, telefonou ao chefe comunicando que faltaria ao trabalho no dia seguinte. Nesse exemplo, o relator além disso liga um período ao outro e res- salta a ideia de soma (ausência na reunião + ausência no emprego). A função de relator pode ser desempenhada por palavras ou locu- ções conjuntivas, assim como por pronomes ou substantivos. A Lua, que é o satélite natural da Terra, tem quatro fases. O que é um pronome relativo, que dá nova informação sobre a Lua e ao mesmo tempo evita a repetição da palavra a que se refere (Lua). Sendo assim, podemos dizer que esse período é o resultado da união de duas informações: A Lua é o satélite natural da Terra. A Lua tem quatro fases.+ A mesma função desempenhada pelo que pode ser desempenhada por um substantivo sinônimo da palavra sobre a qual temos duas in- formações a dar: A professora de Educação Física só tem aulas às quartas. A docente dá aulas às turmas de primeiro ano. Outra opção de relator bastante comum é o uso de pronomes pessoais: A professora de Educação Física só tem aulas às quartas. Ela dá aulas às turmas de primeiro ano. Elementos estruturais do texto 17 Vejamos, agora, alguns modos de transformar os dois períodos em um só, evitando repetições e organizando as informações logicamente: A professora de Educação Física só tem aulas às quartas e dá aulas às turmas de primeiro ano. (O e simplesmente une as duas informações sobre a professora.) A professora de Educação Física só tem aulas às quartas, nas turmas de primeiro ano. (Em vez de relatores, são usadas a vírgula e a abreviação da segunda informação.) A professora de Educação Física, que só tem aulas às quartas, dá aulas às turmas de primeiro ano. (O pronome relativo que é usado para transformar um dos períodos em informa- ção complementar.) Observe que temos muitas maneiras de unir as informações em um período. Isso demonstra a imensa flexibilidade da língua portuguesa. Além disso, o modo que escolhemos para organizar e expressar o con- teúdo revela nosso estilo e o que consideramos ser mais importante ou secundário. 1.2.4 Relatores internos e externos É importante perceber que, na fala e na escrita, podem ser usados relatores externos, ou seja, elementos que não fazem referência a pa- lavras mencionadas anteriormente. Nesse caso, a elucidação do termo usado como relator pode depender do ambiente que cerca os falantes, em uma situação de diálogo por exemplo, ou do conhecimento prévio. Alguns exemplos do uso de relatores externos na fala são: 1. O que será que é aquilo ali? 2. Olha só a roupa dela! 3. E daí, conseguiu resolver aquela questão? Para entender o uso dos relatores sem um antecedente expresso, façamos algumas suposições sobre os três exemplos apresentados: Para exercitar os conteú- dos apresentados neste capítulo, escreva um parágrafo com base nesta ideia: “É cada vez maior o número de adolescen- tes com problemas de ansiedade”. Desenvolva o tema proposto em um pa- rágrafo de cinco períodos ou mais. Não se esqueça de usar relatores! Vamos praticar?será o primeiro deles. Por- tanto, com o objetivo de apresentar e discutir esses componentes tex- tuais, vejamos este texto, do colunista Stephen Kanitz. Somos Brasileiros e Brasilianos? Por 500 anos mentiram para nós. Esconderam um dado muito importante sobre o Brasil. Disseram-nos que éramos brasileiros. Que éramos cidadãos brasileiros, que deveríamos ajudar os outros, pagando impostos sem reclamar nem esperar muito em troca. Esconderam todo esse tempo o fato de que o termo brasileiro não é sinônimo de cidadania, e sim o nome de uma profissão. Brasileiro rima com padeiro, pedreiro, ferreiro. […] Só que você, caro leitor, é um brasiliano. Brasiliano rima com italiano, indiano, australiano. Brasiliano não é profissão, mas uma declaração de cidadania. [...] Brasilianos investem na Bolsa de Valores de São Paulo. Brasileiros investem em offshores 1 nas ilhas Cayman ou vivem seis meses por ano na Inglaterra para não pagar impostos no Brasil. Brasileiros adoram o livro O ócio criativo, de Domenico de Masi, enquanto os brasilianos não encontram livro algum com o título O Trabalho Produtivo, algo preocupante. […] Não vou fazer estimativa, deixarei o leitor fazê-la com base nas pró- prias observações, para sabermos se haverá crescimento ou somente a continuação do “conflito distributivo” deste país. (Continua) O termo offshore é usado para qualificar empresas que funcionam fora do país, em um artifício que, quase sempre, garante aos associados alguns benefícios, porque a empresa segue as leis do país em que está situada. Em vários casos, há, inclusive, isenção de impostos, medida frequentemente adotada para estimular a aplicação do capital estrangeiro. 1 Estratégias e recursos na construção do texto 123 O eterno conflito entre aqueles que se preocupam com a geração de empregos e aqueles que só pensam na distribuição da renda. Os brasilianos desta terra não têm uma Constituição, que ainda é ne- gada a uma parte importante da população. Uma Constituição feita pelos verdadeiros cidadãos, que estimule o tra- balho, o investimento, a família, a responsabilidade social, a geração de renda, e não somente sua distribuição. Uma Constituição de obrigações, como a de construir um futuro, e não somente de direitos, de quem quer apenas garantir o seu. […] São 500 anos de cultura brasileira que precisamos mudar, a começar pela nossa própria identidade, pelo nosso próprio nome, pela nossa própria definição. (KANITZ, 2007, grifos do original) No texto de Stephen Kanitz, a figura de linguagem da comparação serve para exemplificar e opor características das duas “classes” que o autor apresenta: brasileiros e brasilianos. Figura 3 O recurso da comparação At el ie r4 2/ Sh ut te rs to ck Como a figura mostra, uma comparação avalia a correspondência entre duas ou mais coisas: objetos, pessoas, pontos de vista etc. Diante disso, é possível estabelecer relações de igualdade, inferioridade ou su- perioridade. Nesse sentido, observe este trecho comparativo: Brasilianos investem na Bolsa de Valores de São Paulo. Brasileiros investem em offshores nas ilhas Cayman ou vivem seis meses por ano na Inglaterra para não pagar impostos no Brasil. Uma comparação exige a análise de dois ou mais objetos. https://www.shutterstock.com/pt/g/Atelier42 124 Interpretação de textos Como o autor define desde o início o que, para ele, é ser brasileiro e brasiliano, a comparação também serve para tornar as informações mais claras. Em vez da parte teórica dos conceitos, privilegia-se a exemplifica- ção, na tentativa de buscar, para a teoria, um correspondente na prática. No trecho em análise, o que faz a comparação e também a oposição é o fato de os exemplos aparecerem em sequência e associados às duas categorias apresentadas. Além disso, comparar é estabelecer relações e os polos da compara- ção podem fazer menção a elementos do texto ou de fora dele. De novo, torna-se importante o conhecimento prévio do leitor, porque saber que os “Brasileiros investem em offshores nas ilhas Cayman” vai ao encon- tro da perspectiva adotada pelo autor, que defende a superioridade dos brasilianos em relação aos brasileiros. Levando em conta o fato de que as ilhas Cayman são consideradas um paraíso fiscal, o leitor compreende, com base na comparação feita, a ideia defendida pelo autor, depois de relacioná-la com algumas notícias que repercutiram na mídia. 9.3.2 Escolha vocabular A escolha do vocabulário é algo que depende essencialmente do perfil do público-alvo e das características do modelo de texto. Uma crônica ou um anúncio publicitário, por exemplo, têm mais liberdade para o uso de gírias e palavras mais simples. O estilo mais despojado da crônica e a necessidade de o anúncio publicitário seduzir o consumi- dor exigem como pressuposto a proximidade com o público. Para atin- gir essa meta, é preciso pensar em um modo de comunicação eficaz e, nesse momento, a escolha do vocabulário a ser utilizado é questão da maior importância. Entretanto, a seleção das palavras que serão usadas não depende apenas do tipo do texto, mas também do estilo do autor. Depois de ler os textos de José Simão e Stephen Kanitz, torna-se evidente o po- der das palavras. O texto Brasileiros e brasilianos não usa gírias, nem onomatopeias, nem neologismos. O autor segue à risca a gramática e escolhe um vocabulário apropriado à seriedade do seu texto. No entanto, pode-se perceber que, além disso, determinadas pa- lavras excedem a função de emprestar um tom sério ao texto. A utili- zação de verbos e pronomes na primeira pessoa, por exemplo, tenta transpor os obstáculos que distanciam autor e leitor. Em numerosas Para saber mais sobre os recursos que podem ser utilizados nos textos e sobre os efeitos provo- cados por eles, assista ao vídeo Figuras de linguagem para o Enem — Quer que desenhe?. Nele, você vai encontrar outras possibi- lidades que servem para a produção de diferentes tipos textuais. Disponível em: https://youtu.be/xf- jSzZf6JA4. Acesso em: 15 jun. 2021. Para saber mais https://youtu.be/xfjSzZf6JA4 https://youtu.be/xfjSzZf6JA4 Estratégias e recursos na construção do texto 125 vezes, o autor inclui sua voz no texto, para gerar a ideia de que é igual ao leitor. Vejamos alguns exemplos da utilização desse recurso: • Disseram-nos que éramos brasileiros. • Só que você, caro leitor, é um brasiliano. • Não vou fazer estimativa, deixarei o leitor fazê-la com base nas próprias observações... • São 500 anos de cultura brasileira que precisamos mudar, a começar pela nossa própria identidade, pelo nosso próprio nome, pela nossa própria definição. No primeiro e no último períodos, o autor usa abundantemente ver- bos e pronomes na primeira pessoa do plural, em um processo que é denominado plural majestático. Isso confere o mesmo status ao autor e ao leitor, consolidando a proximidade pretendida pelo escritor, para envolver o público e facilitar a sua adesão à tese defendida no texto. No segundo período, aparece outro recurso, de efeito bastante pa- recido à utilização da primeira pessoa: o autor conversa com o leitor, usando o pronome você e o vocativo caro leitor. Por fim, no terceiro período, outro artifício interessante é que, por meio de um vocabulário cuidadosamente escolhido, o autor faz parecer que dá liberdade de julgamento ao leitor. É claro que se trata de outro modo de conquistar a sua simpatia. Na verdade, a indução é funda- mental em qualquer texto argumentativo, razão pela qual o autor tenta se aproximar do público e depois finge completo desinteresse sobre as observações que o leitor vai fazer. Porém, há um ponto comum nas duas estratégias: o convencimento. Essa coincidência é a maior respon- sável pelo teor retórico do texto. 9.3.3 Repetição Em geral, a repetição costuma ser evitada, na maioria dos textos, porque deixa transparecer certa infantilidade no uso da língua portu- guesa, acusando um vocabulário restrito. Entretanto, há casosem que a repetição pode assumir outros papéis – os quais, aliás, não desmere- cem o texto, nem o autor. 126 Interpretação de textos Figura 4 Efeitos da repetição no texto Cr ea tu s/ Sh ut te rs to ck A repetição de ideias pode ser usada como recurso de fixação ao longo do texto. Como podemos ver na figura, a mesma forma surge várias vezes. Na produção textual, esse recurso pode ser comparado ao efeito da redundância funcional – espécie de repetição, literal ou não, que tem como principal objetivo destacar os conteúdos mais importantes. A re- petição, então, assume um caráter didático. Para demonstrar isso, ve- jamos estes trechos do texto lido: Disseram-nos que éramos brasileiros. Que éramos cidadãos brasi- leiros, que deveríamos ajudar os outros […]. Os brasilianos desta terra não têm uma Constituição, que ainda é negada a uma parte importante da população. Uma Constituição feita pelos verdadeiros cidadãos, que estimule o trabalho, o investi- mento, a família, a responsabilidade social, a geração de renda, e não somente sua distribuição. Uma Constituição de obrigações, como a de construir um futuro, e não somente de direitos, de quem quer apenas garantir o seu. O primeiro parágrafo repete o uso do que. No primeiro período, essa conjunção aparece completando o sentido de “Disseram-nos”. No perío- do seguinte, o que antes dos verbos éramos e deveríamos é um modo Estratégias e recursos na construção do texto 127 peculiar e paradoxal que o autor encontrou de evitar a repetição de “Disseram-nos”, usando outra repetição, a do que. Brincadeiras à parte, a atitude é eficaz, porque o que subentende disseram-nos, sem deixar o texto incompleto, e porque é muito melhor usar a repetição de um tre- cho pequeno do que de um trecho muito longo. Vejamos como ficaria o texto, se “Disseram-nos” também fosse repetido, junto com o que: Disseram-nos que éramos brasileiros. Disseram-nos que éramos cidadãos brasileiros, disseram-nos que deveríamos ajudar os outros Quanto ao segundo parágrafo transcrito, que também utiliza repe- tição, destaca-se o uso de “Uma Constituição”, que aparece três vezes em um espaço de poucas linhas. Nesse caso, o objetivo é reforçar uma ideia. Primeiramente, o autor escreve com todas as letras que “Os brasilianos desta terra não têm uma Constituição”. Depois, a cada uso da expressão “Uma Constituição”, reforça-se a ausência, ao mesmo tempo que o autor aproveita para elencar as características que deve- riam fazer parte de uma Constituição de fato. Pode-se dizer, então, que, no exemplo dado, o objetivo da repetição é fixar para criticar. CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste capítulo, foi possível verificarmos os efeitos de diferentes recursos, que podem ser usados em qualquer tipo de texto, seja ele oral ou escrito. Nesse sentido, analisamos estratégias relacionadas a três gran- des conjuntos: estrutura e linguagem; empatia e proximidade; e argumen- tação e retórica. Esse panorama permitiu maior compreensão da função de cada es- tratégia textual, para que, durante a leitura e durante a escrita, possamos combinar essas funcionalidades com as intenções autorais, os objetivos e as características gerais de cada texto. Conhecer algumas técnicas de comunicação com mais profundidade sem dúvida é o primeiro passo para o aprimoramento de nossa capacidade interpretativa. 128 Interpretação de textos ATIVIDADES 1. Leia o fragmento a seguir: Vinte e uma coisas que aprendi como escritor APRENDI que escrever é basicamente contar histórias, e que os melhores livros de ficção que li eram aqueles que tinham uma história para contar. APRENDI que o ato de escrever é uma sequela do ato de ler. É pre- ciso captar com os olhos as imagens das letras, guardá-las no reservatório que temos em nossa mente e utilizá-las para compor depois as nossas próprias palavras. (SCLIAR, 2011) Agora, comente: a) A escolha vocabular. b) A repetição. 2. Explique o efeito provocado pelo uso de citações em um texto. 3. Usando a vírgula, pontue o texto a seguir e depois sublinhe apenas a informação básica de cada período: Ontem à tarde uma forte chuva deixou vários bairros da cidade sem luz. Moradores do Boa Vista Sítio Cercado Portão e Água Verde foram os que mais sofreram com a falta de energia que durou três horas. REFERÊNCIAS BENCINI, R. Por que ler os clássicos. Nova Escola, n. 161, abr. 2003. Disponível em: https:// novaescola.org.br/conteudo/2598/por-que-ler-os-classicos. Acesso em: 15 jun. 2021. KANITZ, S. Brasileiros e Brasilianos. 21 dez. 2007. Disponível em: https://kanitz.com.br/ somos-brasileiros-ou-brasilianos/. Acesso em: 15 jun. 2021. SCLIAR, M. Vinte e uma coisas que aprendi como escritor. 10 mar. 2011. Disponível em: https://www.betalotti.com.br/2011/03/vinte-e-uma-coisas-que-a-aprendi-como-escritor- moacyr-scliar/. Acesso em: 15 jun. 2021. SIMÃO, J. Chega de prata! Vamos virar faqueiro! Folha de São Paulo, 18 jul. 2007. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1807200703.htm. Acesso em: 15 jun. 2021. Vídeo https://kanitz.com.br/somos-brasileiros-ou-brasilianos/ https://kanitz.com.br/somos-brasileiros-ou-brasilianos/ Interpretação de textos complexos 129 10 Interpretação de textos complexos A interpretação de textos abrange dois níveis: o básico e o avança- do. A diferença entre um e outro diz respeito às questões que moti- vam a recuperação das informações e ao modo de fazer esse resgate. Depois de lermos um texto, devemos ter claro em nossa mente um esboço que o simplifique e o resuma. Nesse nível, que é o bási- co, importa retomar os tópicos principais no texto, de preferência seguindo a ordem proposta pelo autor. Em geral, não há dificul- dade em fazer essa retomada. Necessita-se apenas de atenção. Afinal, todas as informações estão lá, explícitas, no texto. Partindo para o nível avançado, é preciso aprofundar aquelas questões que são apenas citadas ou sugeridas no texto. Sendo assim, essa etapa interpretativa exige que o leitor estabeleça re- lações com outros textos, incluindo filmes, livros, séries e outros produtos culturais que já fazem parte de seu repertório. Além disso, é de extrema relevância tentar associar os temas discutidos no texto com problemas da realidade, pois é inegável que todo tipo de reflexão está embasada nas questões que caracterizam deter- minado contexto ou época. 10.1 Leitura e níveis de interpretação do texto Vídeo Na primeira leitura que se faz de um texto, alguns elementos devem ser observados para facilitar e permitir a interpretação. É fundamental, por exemplo, identificar o tipo de texto lido – é uma argumentação, uma crônica, um poema? Além disso, é importante se certificar de que o conteúdo geral foi apreendido, mas, às vezes, para cumprirmos com sucesso essa etapa, torna-se indispensável uma consulta ao dicionário. 130 Interpretação de textos Durante o contato inicial com o texto, é comum o leitor associar uma parte à outra, para avaliar a progressão das ideias, a coerência e também a correspondência do texto com o título. Nesse processo de (re)conhecimento, listamos mentalmente alguns tópicos, os quais, à medida que avançamos na leitura, acabam se desdobrando e aprofun- dando o grande tema. Em contrapartida, na etapa avançada da interpretação surge a ne- cessidade de pesquisa, sobre o autor do texto, o estilo literário do escri- tor, o contexto histórico etc., pois questões como essas auxiliam o leitor na hora da ampliação do texto. Figura 1 O texto e os níveis de interpretação Gu st av o Fr az ao /S hu tte rs to ck Quanto mais complexo é o texto, mais níveis interpretativos ele apresenta. A figura apresentada associa os diferentes níveis à metáfora de uma escada. De fato, essa ideia representa muito bem a colaboração gradativa do leitor, desde o início até o fim da leitura. Quanto mais envolvido com o texto, mais o leitor reflete sobre os assuntos rela- cionados àquilo que está lendo, de modo a aprofundar o sentido e a compreensão textual.No entanto, perceba que, muitas vezes, a interpretação exige mais do que pesquisa e conhecimento. O leitor deve sempre estar aberto ao diálogo e às novas ideias. Nesse sentido, podemos citar como exemplo os textos de época. Quando descobrimos que estamos lendo algo que foi escrito em um tempo diferente do nosso, é preciso evitar julgamen- tos que desconsiderem o contexto original da obra. Sendo assim, não https://www.shutterstock.com/pt/g/gustavofrazao Interpretação de textos complexos 131 podemos cobrar de um texto posicionamentos mais coerentes com nossa época ou nossas crenças, em detrimento dos princípios do passado, os quais vigoravam no momento em que o texto foi escrito. Se um texto sempre é influenciado por questões de seu tempo, é tare- fa do leitor verificar quais questões eram debatidas em determinada época. Aliás, hoje, é muito fácil pesquisar qualquer coisa na internet. O processo interpretativo leva tempo e precisa trabalhar com os de- talhes do texto. Quanto mais conhecimento, mais elementos vão sen- do acrescentados à interpretação textual. Contudo, além de usar seu próprio conhecimento, o leitor deve ficar atento às dicas textuais, pois elas incentivam outras relações e permitem a expansão do conteúdo. Há casos em que o autor cita o título de uma obra, o nome de outro au- tor, e pode, inclusive, citar uma passagem de um artigo ou de um livro. Sem dúvida, o trecho citado não foi uma escolha aleatória. Portanto, o exercício interpretativo é justamente tentar entender a relação entre o conteúdo do texto lido e as citações. Vamos, agora, passar da teoria à prática, lendo o texto a seguir e refletindo sobre ele, de modo a cumprir boa parte da etapa básica de interpretação. Do que é feito o Nobel da Paz? A eleição do presidente Barack Obama ao prêmio Nobel da Paz, anun- ciada nesta sexta-feira, é um prêmio às boas intenções. Porque essas são, por enquanto, as credenciais de seu governo. Cabe analisar do que é feito, afinal o prêmio Nobel da Paz, a mais simpática e política das seis pre- miações da Real Academia de Ciências da Suécia. É de ações individuais ou das de governo? No caso de Obama, seu principal gesto individual será a doação do dinheiro do prêmio a instituições de caridade. Como governante, sim, ele tem o que mostrar. Sua recente proposta de desarmamento nuclear tem um peso extraordinário. Aponta uma mudança importante na posição do governo americano. Sua disposição ao diálogo com os países islâmicos, sem perder a firmeza na condenação ao avanço iraniano na área nuclear, também. A recente crítica ao governo de Israel pelas ocupações em território palestino é outra guinada admirável. Mas são ações motivadas pela necessidade de uma correção de ru- mos inescapável. Deveriam resultar, no máximo, em um prêmio Nobel do Bom Senso. […] O reposicionamento da política externa americana é resultado do deslocamento do eixo político global com [a] entrada da China e dos outros emergentes no jogo. É resultado também da absurda situação de endividamento (Continua) 132 Interpretação de textos legada por George W. Bush, que ele precisa contornar se quiser manter a capacidade de intervenção em conflitos regionais ao redor do mundo. Não se pode dizer que seja uma propensão do presidente à bondade. O líder político que, durante sua campanha, encantou multidões com a perspectiva de uma nova era de Aquarius, é pragmático a ponto de manter a posição americana em relação às guerras e adiar a retirada de tropas do Iraque. Da mesma forma, adotou medidas para redução das emissões de gases de efeito estufa muitíssimo mais modestas do que prometeu na campanha. O prêmio que acaba de ganhar criou a suspeita de que os senhores da Nobel Foundation, na Suécia, estão de birra com George W. Bush. […] Premiar Obama agora, com apenas nove meses de governo, parece um recado claro de contestação ao governo Bush — que diga-se de passagem, lutou com afinco contra a paz mundial. Talvez o maior feito de Obama seja não ser Bush. (FRANÇA, 2010) E então? Você conseguiu fazer as associações mais elementares e construir um breve mapa mental com os subtemas responsáveis pelo desenvolvimento do assunto? Vamos confirmar suas respostas na aná- lise que será apresentada na próxima seção deste capítulo. 10.2 O que analisar em um texto? Vídeo Para atendermos ao nível mais básico, que corresponde à primeira etapa da interpretação, algumas considerações são importantes. Pelas características e pela referência do texto, podemos concluir que o texto lido assemelha-se a uma coluna. Os textos dessa categoria geralmente são publicados em jornais e revistas – impressos ou on-line – e têm maior liberdade para mesclar fatos com opinião. Quanto ao vocabulário, não há palavras de difícil compreensão. Por- tanto, não há obstáculos que impeçam uma boa interpretação do texto. Além disso, vale ressaltar que o texto comenta um fato que alcançou grande repercussão na mídia. Logo, o autor do texto já pressupõe que o leitor esteja razoavelmente informado a respeito do tema abordado: o ex-presidente Barack Obama recebeu o prêmio Nobel da Paz em 2009. Por se tratar de um fato relativamente recente, basta que o leitor faça uso de seus conhecimentos prévios para acompanhar o desenvolvimen- to do texto. Dependendo da faixa etária do público, esse texto pode dis- pensar aquela pesquisa histórica e, dessa forma, o leitor também não Para saber mais sobre in- terpretação e fazer alguns exercícios que seguem os moldes das provas dos principais concursos, a dica é o livro Interpretação de textos: aprenda fazendo – questões gabaritadas e comentadas das principais bancas examinadoras, de Antonio Oliveira Lima. Rio de Janeiro: Campus, 2008. Para saber mais Interpretação de textos complexos 133 terá problemas com juízos de valor, porque a realidade representada no texto está muito próxima daquilo que ele vivencia ou vivenciou. Como se vê, quanto mais o leitor analisa o texto, mais detalhes vão surgindo – e isso, sem dúvida, facilita a compreensão. Dando continuidade à interpretação do texto lido, devemos dedi- car atenção também à estrutura. Em linhas gerais, esse aspecto textual pode ser esquematizado desta forma: • problema; • análise dos prós e contras da questão proposta; e • conclusão. Com base nesse esboço, está claro que o texto tem a intenção de questionar algo, a fim de consolidar uma posição sobre o problema analisado. Sendo assim, podemos afirmar que se trata de um texto ar- gumentativo. Nesse tipo de texto, a opinião é peça fundamental e o próprio título, em formato de pergunta (Do que é feito o Nobel da Paz?), deixa claro o destaque ao teor opinativo do texto. Associando, agora, o conteúdo que integra cada uma das partes da argumentação, podemos chegar a um esquema bem mais detalha- do, expondo tópicos gerais e específicos e fazendo a correspondência correta entre os assuntos e as partes do texto: PROBLEMAS Quais critérios determinam o vencedor do prêmio Nobel da Paz? Obama de fato mereceu ganhar o Nobel da Paz, em 2009? ANÁLISE DOS PRÓS E CONTRAS QUE COMPÕEM AS QUESTÕES PROPOSTAS PRÓS CONTRAS Proposta de desarmamento nuclear. Obama não mudou a postura americana com relação às guerras. Abertura ao diálogo com os paí- ses islâmicos. Adiamento da retirada das tropas ameri- canas do Iraque. Crítica a Israel. Apresentação de poucas medidas para a redução do efeito estufa, considerando que esse era o ponto forte de sua cam- panha eleitoral CONCLUSÃO Os critérios usados para a premiação não são adequados. Portanto, Obama não mereceu o prêmio Nobel da Paz. A pesquisa e os níveis interpretativos tornam o leitor mais próximo do texto. Pr an ch /S hu tte rs to ck Figura 2 A importância da pesquisa na leitura https://www.shutterstock.com/pt/g/Sergey+Paranchuk 134 Interpretação de textos Em outro estágio interpretativo, devemos buscar aquelas questões não tão evidentes no texto, atentando para detalhes que geralmentepassam despercebidos em uma primeira leitura. Isso significa que, para chegarmos a esse nível de compreensão textual, é necessária uma releitura. Nesse aspecto, retomando o esquema feito anteriormente, temos que considerar algumas afirmações, as quais antecipam o que depois vai se configurar como a conclusão do autor. Depois da apresentação dos tópicos favoráveis ao prêmio concedi- do a Obama, o autor do texto escreve: Mas são ações motivadas pela necessidade de uma correção de rumos inescapável. Deveriam resultar, no máximo, em um prêmio Nobel do Bom Senso. […] O reposicionamento da política externa americana é resultado do deslocamento do eixo político global com [a] entrada da China e dos outros emergentes no jogo. É resultado também da absurda si- tuação de endividamento legada por George W. Bush, que ele precisa contornar se quiser manter a capacidade de intervenção em conflitos regionais ao redor do mundo. Nessa parte, é primordial a análise do autor, o qual julga que as ca- racterísticas positivas apresentadas pelo ex-presidente norte-americano, justificadoras da concessão do prêmio, não passam de obrigações. Logo, “deveriam resultar, no máximo, em um prêmio Nobel do Bom Senso”. Para aprofundar essa postura, o autor fornece, no parágrafo seguin- te, elementos que desencadearam as atitudes do ex-presidente: 1) a “en- trada da China e dos outros emergentes” no cenário político global; e 2) a “absurda situação de endividamento legada por George W. Bush”. Com base nesses dois fatos, o autor reforça sua posição contrária ao prêmio dado a Obama, porque o político agiu conforme a necessidade. Sendo assim, suas atitudes não podem ser consideradas um feito: elas apenas atenderam à expectativa dos Estados Unidos e de outros países. Já na terceira parte, a conclusão, o autor questiona enfaticamente a lisura da comissão avaliadora do Nobel, quando menciona que “O prêmio que acaba de ganhar criou a suspeita de que os senhores da Nobel Foundation, na Suécia, estão de birra com George W. Bush”. Esse período reforça os argumentos anteriores contra a atribuição do prêmio a Obama, assim como reduz a competição a rixas políticas de pouca importância. Interpretação de textos complexos 135 Voltando, agora, ao início do texto, ainda há partes repletas de críti- ca, as quais merecem ser comentadas: A eleição do presidente Barack Obama ao prêmio Nobel da Paz, anunciada nesta sexta-feira, é um prêmio às boas intenções. Porque essas são, por enquanto, as credenciais de seu governo. Cabe analisar do que é feito, afinal o prêmio Nobel da Paz, a mais simpática e política das seis premiações da Real Academia de Ciências da Suécia. Nesse trecho, foram marcados dois grupos de palavras. O primei- ro afirma que o Nobel da Paz “é um prêmio às boas intenções”. Ape- nas essa referência já reduz a importância da premiação. No entanto, quando o autor retoma as boas intenções, registrando que “essas são, por enquanto, as credenciais” do governo de Barack Obama, a críti- ca se intensifica. Intenções não significam ação efetiva. Dessa forma, a afirmação do autor equivale à consideração de que existe um abismo entre as propostas e a sua realização, ou seja, teoria e prática estão em desacordo. Quanto ao segundo grupo destacado no fragmento que acabamos de reler, percebe-se a marcação de uma postura muito parecida com aquela apontada na conclusão do texto. Ao mencionar que a premia- ção do Nobel da Paz é “simpática e política”, o autor está demonstrando a tendenciosidade da concessão do prêmio nessa categoria, ao passo que o recomendável seria a imparcialidade. Evidentemente, a interpretação que fizemos do texto foi apenas um modelo. Há outras possibilidades. O importante, porém, é sempre con- siderar as orientações apresentadas neste capítulo, a fim de relacionar estrutura e conteúdo, buscando atender aos níveis básico e avançado do exercício interpretativo, pois uma coisa leva à outra. Conhecer as características mais superficiais do texto é o ponto de partida para o aprofundamento das questões que ficam nas entrelinhas e que, por- tanto, pedem uma análise mais atenta e cuidadosa. Acesse o link a seguir e leia o texto Conhecimento: a melhor moeda. O desafio é fazer sua interpretação, seguindo as mesmas etapas e orientações que vimos neste capítulo. Bom trabalho! Disponível em: https://vocesa.abril. com.br/economia/conhecimento- -a-melhor-moeda/. Acesso em: 15 jun. 2021. Vamos praticar? CONSIDERAÇÕES FINAIS Este capítulo apresentou a questão dos níveis interpretativos, que sur- gem naturalmente, por meio do aprofundamento dos temas e recursos utilizados pelo autor. Dessa forma, à medida que o leitor passa do estágio mais básico para o mais avançado, o texto vai adquirindo novas conota- https://vocesa.abril.com.br/economia/conhecimento-a-melhor-moeda/ https://vocesa.abril.com.br/economia/conhecimento-a-melhor-moeda/ https://vocesa.abril.com.br/economia/conhecimento-a-melhor-moeda/ 136 Interpretação de textos ções, quase sempre motivando um estudo comparativo, com outros tex- tos e com a realidade que vivemos. A fim de exercitarmos esse processo mais completo de interpretação, os conteúdos que vimos nos permitiram ir além da simples decodificação e da superfície do texto. Seguindo um roteiro detalhado de análise, pude- mos perceber o valor da continuidade das ideias e da estrutura textual, consolidando a importância da pesquisa e do papel colaborativo do leitor na compreensão do conteúdo. ATIVIDADES A seguir, é apresentado o texto para as atividades de 1 a 3. Chapeuzinho Vermelho Era uma vez (admitindo-se aqui o tempo como uma realidade pal- pável, estranho, portanto, à fantasia da história) uma menina, linda e um pouco tola, que se chamava Chapeuzinho Vermelho. (Esses nomes que se usam em substituição do nome próprio chamam-se alcunha ou vulgo). […] Chapeuzinho Vermelho andava, pois, na Floresta, quando lhe aparece um lobo, animal selvagem carnívoro do gênero cão […] Chapeuzinho Vermelho foi detida pelo Lobo, que lhe disse: (Outro parêntese: os animais jamais falaram. Fica explicado aqui que isso é um recurso de fantasia do autor […] Esse princípio animista é ancestra- líssimo e está em todo o folclore universal.) Disse o Lobo: “Aonde vais, linda menina?” Respondeu Chapeuzinho Vermelho: “Vou levar estes doces à minha avozinha que está doente. Atravessarei dunas, montes, cabos, istmos e outros acidentes geográficos e deverei chegar lá às treze e trinta e cinco, ou seja, a uma hora e trinta e cinco minutos da tarde”. Ouvindo isso o Lobo saiu correndo, estimulado por desejos repri- midos (Freud: Psychopathology Of Everiday Life, The Modern Library Inc. N.Y.). Chegando na casa da avozinha ele engoliu-a de uma vez – o que, segundo o conceito materialista de Marx indica uma intenção crítica do autor, estando oculta aí a ideia do capitalismo devorando o proletariado – e ficou esperando, deitado na cama, fantasiado com a roupa da avó. Passaram-se 15 minutos (diagrama explicando o funcionamento do relógio e seu processo evolutivo através da história). Chapeuzinho Vermelho chegou e não percebeu que o lobo não era sua avó, porque sofria de astigmatismo convergente, que é uma perturbação visual oriunda da curvatura da córnea. Nem percebeu que a voz não era a da avó, porque sofria de otite, inflamação do ouvido […]. Mas, para salvação de Chapeuzinho Vermelho, apareceram os lenhadores, mata- ram cuidadosamente o Lobo, depois de verificar a localização da avó através da Roentgenfotografia. (Continua) Vídeo Interpretação de textos complexos 137 E Chapeuzinho Vermelho viveu tranquila 57 anos, que é a média da vida humana segundo Maltus, Thomas Robert, economista inglês nascido em 1766, em Rookew, pequena propriedade de seu pai, que foi grande amigo de Rousseau. (FERNANDES, 2010) 1. Explique a função dos parênteses utilizados no texto. 2. O texto de Millôr Fernandes tem o mesmo título do famoso conto de fadas. Essa similaridadeassegura também a semelhança no perfil dos personagens, no texto clássico e nesse que acabamos de ler? Explique sua resposta. 3. Retome o final do texto e analise a relevância da referência ao nome do filósofo Rousseau. REFERÊNCIAS FERNANDES, M. Chapeuzinho Vermelho. In: FERNANDES, M. Lições de um Ignorante. Rio de Janeiro: Jose Alvaro Editora S. A., 1967. FRANÇA, R. Do que é feito o Nobel da Paz? Veja 40 anos, 9 out. 2009. 138 Interpretação de textos Resolução das atividades 1 Elementos estruturais do texto O texto que segue foi retirado do site Guiame.com.br. O começo dele você leu no início deste capítulo. Leia, agora, o final e depois faça as atividades de 1 a 4. Com base nas cerâmicas encontradas na cova, os arqueólogos suspei- taram inicialmente que as ossadas datavam de um período entre 800 a.C. e 43 d.C., ou seja, entre a Idade do Ferro e o início da Era Romana. Mas os exames do carbono 14 provaram que os restos mortais eram muito mais recentes. Os cientistas sabem também que a maioria dos ossos pertencia a adolescentes e jovens, que seriam altos e teriam boa saúde. Há tam- bém a suspeita de que eles tenham sido mortos ou enterrados nus, porque não há vestígio de roupas ou adornos na cova. (BRITÂNICOS, 2010, grifos nossos) 1. Resuma o assunto de cada parágrafo apresentado. Primeiro parágrafo: Pesquisas científicas para determinar a época das ossadas encontradas. Segundo parágrafo: Características das ossadas encontradas. 2. Classifique o último período do primeiro parágrafo como simples ou composto e explique o porquê. O período “Mas os exames do carbono-14 provaram que os restos mortais eram muito mais recentes” é composto, porque nele há dois verbos: provaram e eram. 3. Retome os relatores marcados no texto e cite a ideia que estabelecem ou os antecedentes a que se referem. Mas...: o antecedente é a ideia expressa no texto, em todo o primeiro período; e mas é uma conjunção adversativa que indica contrariedade. ...os restos mortais...: referem-se a “ossadas”. O relator é sinônimo do antecedente. ..., que...: é um pronome relativo que retoma “adolescentes e jovens”. Para confirmar isso, basta reler o período inteiro: “Os cientistas sabem também que a maioria dos ossos pertencia a adolescentes e jovens, que seriam altos e teriam boa saúde”. Resolução das atividades 139 4. Retome os períodos do segundo parágrafo do texto e marque apenas as informações básicas de cada um deles. Justifique sua resposta. Primeiro período: “Os cientistas sabem também que a maioria dos ossos pertencia a adolescentes e jovens, que seriam altos e teriam boa saúde”. A informação básica é a parte grifada, porque é composta de sentido completo e tem autonomia de significado. Segundo período: “Há também a suspeita de que eles tenham sido mortos ou enterrados nus, porque não há vestígio de roupas ou adornos na cova”. Aqui também a informação básica é a parte grifada, pelo mesmo motivo. Repare que nos dois períodos as informações complementares são aquelas iniciadas por relatores (que e porque), o que as torna incompletas e não autônomas. 5. Una os períodos usando relatores. Seguem algumas respostas possíveis para esta atividade: a) A moça era alta. A moça usava sapatos de salto alto. A moça era alta e usava sapatos de salto alto. b) Meu amigo excedeu o limite de velocidade. O limite de velocidade é de 60 km/h. Meu amigo excedeu o limite de velocidade, que é de 60 km/h. c) Ele adoeceu. Ele não foi à viagem com os amigos. Porque ele adoeceu, não foi à viagem com os amigos. 2 Elementos coesivos e flexibilidade linguística O texto a seguir servirá de base para a atividade 1. Crise e literatura A palavra escrita reconquistou um espaço avassalador no ambiente da vida. Hoje parece que tudo provoca curiosamente uma compulsão de ler e escrever. Uma velha pergunta: o que leva alguém a escrever? Parece que escre- ver é sempre a manifestação de uma crise. Talvez seja preciso inverter a equação, da crise mundial (como todas, em todos os tempos, e essa não foi sequer a pior), para a crise da literatura, hoje quase um patinho feio da cultura. E penso que nem de longe ela voltará à glória com que explodiu no século XIX, quando se criaram enfim as suas condições modernas – o leitor, o lazer, o império da escrita, a circulação espetacular do livro, a valorização do indivíduo e a sempre importante separação política entre Igreja e Estado, marca registrada do Ocidente (sem essa separação crucial, abandonemos toda esperança). (Continua) 140 Interpretação de textos Por um bom tempo a literatura foi a arena em que se discutiam, pela simples representação ficcional do mundo, praticamente todos os grandes temas das humanidades. Leia-se Dostoiévski, Dickens, Tolstói, Balzac, e é isso que se encontra. Mas a ficção foi perdendo terreno para outros meios da cultura popular, começando pelo cinema, avançando pela televisão e hoje chegando à internet (o que é outro momento e outra história). A pri- meira “vítima” (se é lícito falar assim) desse avanço foi o tempo de lazer – ingrediente indispensável de quem lê – agora repartido entre mil outras atividades, quem sabe muito mais atraentes, cantos da sereia tecnológica que ao mesmo tempo colocou o mundo inteiro à disposição e nos tirou a paz e as condições de desfrutá-lo. Não tenho nada contra os novos meios, é bom deixar claro. Escrevo esse texto num computador de última geração, sou viciado em Google e me encanta o infinito potencial informativo desses novos tempos – não sofro de nenhuma nostalgia da máquina de escrever. O que me interessa é localizar o espaço da literatura que restou nesse mundo novo. Não vou falar em “função” da literatura porque isso seria lhe dar uma direção e um sentido a priori; melhor pensar em “espaço” mesmo, o lugar em que ela surge, cria forma e se move. Pelo menos num ponto, estamos melhor do que há 30 anos: da era da televisão, um lugar de pura oralidade, passamos à internet, que é basicamente escrita. Sempre bato nessa tecla: a palavra escrita reconquistou um espaço avassalador no ambiente da vida. Hoje parece que tudo provoca curiosamente uma com- pulsão de ler e escrever. Certo, todas são palavras “pragmáticas” – nesse mundo de utilidades, o escritor respira em solidão, afirmando uma contrapalavra. Não é a crise do mundo que faz nascer romancistas e poetas. Eles escrevem porque são eles mesmos que estão em crise – um poderoso sentimento de inadequa- ção, que é a alma da arte, sopra-lhes a primeira palavra, com a qual eles tentam redesenhar o mundo. (TEZZA, 2010) 1. Retome o último parágrafo do texto de Cristovão Tezza, identifique os relatores e relacione-os aos antecedentes ou às funções que eles desempenham. “Certo, todas são palavras ‘pragmáticas’– nesse mundo de utilidades, o escritor respira em solidão, afirmando uma contrapalavra. Não é a crise do mundo que faz nascer romancistas e poetas. Eles [romancistas e poetas] escrevem porque [relação de causa e efeito] são eles [romancistas e poetas] mesmos que estão em crise – um poderoso sentimento de inadequação [crise], que [um poderoso sentimento de inadequação] é a alma da arte, sopra-lhes a primeira palavra, Resolução das atividades 141 com a qual [a primeira palavra] eles [romancistas e poetas] tentam redesenhar o mundo.” 2. Destaque os elementos coesivos nos períodos dados e explicite a relação estabelecida por eles. a) Apesar de ter chovido durante toda a semana, descerão para a praia. Apesar de – causa e efeito contrário. b) Devido à falta de dinheiro, estão restringindo gastos. Devido a – causa e efeito. c) Para chegar ao hotel que não conhecia, imprimiu um mapa. Para – finalidade. 3. Substitua as palavras marcadas nos períodos a seguir por sinônimos. Seguem algumas respostas possíveis para esta atividade: a) Os detalhes da narração fizeram diferença! Os detalhes [os pormenores, as minúcias, as particularidades] da narração fizeram diferença! b) A televisão está no conserto. A televisão[a TV, a tevê, o aparelho] está no conserto. c) Ela não percebeu que havia sido vítima de um embuste. Ela não percebeu que havia sido vítima de um embuste [uma cilada, uma armadilha]. d) Comprou um carro zero, no final do ano. Comprou um carro [um veículo, um automóvel] zero, no final do ano. e) O show foi sensacional. O show [o espetáculo, a apresentação] foi sensacional. 4. Analise o efeito dos termos em destaque nas ocorrências que seguem: I) O negócio foi celebrado pelos sócios da empresa. II) A negociata gerou muito lucro para o comerciante. Os exemplos são bastante diferentes. Na opção I, o termo negócio não encerra juízo de valor negativo e, por isso, é usado quando o objetivo é passar certa neutralidade ou atender à formalidade exigida pela situação ou pelo público-alvo. Na opção II, o termo negociata 142 Interpretação de textos compromete o sentido do período, porque significa negócio ilegal e, portanto, tem um tom pejorativo, que desqualifica quem é adepto dessa prática. 3 Partes do texto e compreensão do texto 1. Leia o texto transcrito a seguir e avalie a combinação entre o título do texto e o seu conteúdo. Cantora mistura jazz e música brasileira Com emoções de felicidade e luto se misturando à sua volta, a cantora de jazz Luciana Souza encontrou dificuldades para trabalhar em seu novo álbum. No espaço de nove meses, a artista brasileira enfrentou as mortes de seu pai e da sua mãe, enquanto celebrava o nascimento do seu primeiro filho. (CANTORA, 2010) O título Cantora mistura jazz e música brasileira é inadequado e está em discordância com o texto, porque a nota fala mais da vida pessoal da cantora que de sua obra. Além disso, a única vez em que o adjetivo brasileira aparece no texto refere-se à cantora, e não à sua música. O texto a seguir será usado para responder às atividades de 2 a 4. Uma tempestade do tamanho de 3 Terras que já dura 400 anos (e está aquecendo) Quando se fala em grande mancha vermelha, Júpiter vem à mente na hora. Falou em Júpiter imediatamente vem à cabeça a grande mancha vermelha. São coisas absolutamente indissociáveis. Essa mancha especial é na verdade uma imensa tempestade na atmosfera de Júpiter, tão grande que nela cabe- riam 2 ou 3 Terras. A tempestade já dura pelo menos 400 anos. Foi observada pela primeira vez no século XVII. Existe alguma controvérsia de quem teria sido o primei- ro a fazê-lo, é difícil acreditar que Galileu, com o seu telescópio rudimentar, tenha conseguido. Robert Hook, físico e astrônomo britânico, foi o primeiro a descrever uma mancha na “superfície” de Júpiter, só que a descrição não corresponde com a posição da grande mancha. Certeza mesmo, apenas dos relatos de Giovanni Cassini, que em 1665 des- creveu uma mancha permanente em Júpiter. Cassini também é reconhecido pela descoberta da rotação diferencial de Júpiter, bem como da faixa escura no sistema de anéis de Saturno que recebe o seu nome. De todo modo, essa tempestade tem, por baixo, uns 400 anos de idade, e não parece perder força ano após ano. Só de observações contínuas já são quase 200 anos. (Continua) Resolução das atividades 143 Agora, o que se descobriu é que ela está sofrendo um aquecimen- to. Imagens de dois dos melhores telescópios do mundo, o europeu VLT e o Gemini (operado por um consórcio internacional que envolve o Brasil), mostram que a mancha se aqueceu. O miolo alaranjado do meio da mancha oval na parte direita da imagem está entre 3 e 4 graus mais quente que o seu entorno. Uau! Quatro graus mais quente, quanta diferença! Mas só isso faz toda a diferença quando o sistema é fortemente dependen- te da temperatura. Somente esses quatro graus foram suficientes para rever- ter a rotação das nuvens, nesse miolo alaranjado, de anti-horária para horária. Em imagens no infravermelho, [...] a mancha ficou também mais brilhante, em decorrência do aquecimento. Leigh Fletcher, um dos autores da descoberta, afirma que pela primeira vez ficou evidente a ligação entre as condições ambientais, tais como tem- peratura, ventos e pressão, com a cor da grande mancha. A cor das nuvens que compõem a mancha é determinada pela sua composição química. Ainda que ninguém saiba ao certo como as nuvens de diferentes composições se alternam nesse ambiente turbulento, ao menos agora já se sabe como a tem- peratura pode alterar esse regime de ventos. (BARBOSA, 2010) 2. Relacione o título do texto ao conteúdo apresentado. O título Uma tempestade do tamanho de 3 Terras que já dura 400 anos (e está aquecendo) é adequado, porque menciona o fenômeno apresentado e explicado no texto. Entre parênteses aparece uma informação secundária, que funciona apenas como acréscimo. 3. Identifique o parágrafo que serve de introdução ao texto e faça uma lista das informações que ele reúne e que são detalhadas apenas no desenvolvimento. O parágrafo que corresponde à introdução do texto vai de “Quando se fala em grande mancha vermelha” até “tão grande que nela caberiam 2 ou 3 Terras”. Nesse parágrafo, as informações apresentadas e que serão aprofundadas no desenvolvimento são: • A associação entre Júpiter e uma grande mancha vermelha. • A mancha é, na verdade, uma tempestade na atmosfera do planeta. • O tamanho da tempestade equivale a 2 ou 3 Terras. 4. Com base no texto lido, responda: a) Qual é o tempo de duração da tempestade em Júpiter? “A tempestade já dura pelo menos 400 anos”. 144 Interpretação de textos b) Qual foi a primeira pessoa a se referir à “mancha” de Júpiter? “Robert Hook, físico e astrônomo britânico, foi o primeiro a descrever uma mancha na ‘superfície’ de Júpiter”. c) Analise a função deste trecho do texto: “Uau! Quatro graus mais quente, quanta diferença!” Esse trecho tem função irônica: com ele, o autor incorpora no texto a visão do senso comum, que considera pequena a elevação da temperatura, para depois invalidá-la no parágrafo seguinte. d) Das questões propostas nesta atividade, quais se referem a informações explícitas e quais dizem respeito a informações não explícitas no texto? Por quê? As questões que se referem a informações explícitas no texto são as de letras a e b, porque nas suas respostas é suficiente transcrever partes do texto. Já a pergunta c trabalha com as informações não explícitas no texto, pois amplia o conteúdo apresentado no artigo, tornando possível o estabelecimento de relações entre os elementos intra e extratextuais. 4 Ambiguidade e paráfrase 1. Reescreva os períodos a seguir, desfazendo a ambiguidade: Seguem algumas respostas possíveis para esta atividade: a) A professora da escola, premiada internacionalmente, apareceu em diversos jornais, na semana passada. A professora, que trabalha em uma escola premiada internacionalmente, apareceu em diversos jornais, na se- mana passada. A professora, premiada internacional- mente, apareceu em diversos jornais, na semana passada. Atualmente, ela trabalha na escola do bairro. A escola é premiada. A professora é premiada. b) Ele despediu-se do pai, porque estava doente e precisava ser internado. Ele, porque estava doente e precisava ser internado, despediu-se do pai. Eles despediram-se, porque o pai es- tava doente e precisava ser in ternado. O filho estava doente. O pai estava doente. 2. A partir do conjunto de períodos dado, forme um período maior, unindo as informações sem alterar o sentido: Seguem algumas respostas possíveis para esta atividade: Resolução das atividades 145 a) Marilyn Monroe fez muito sucesso em Hollywood. Marilyn Monroe foi a estrela de Os homens preferem as loiras e Quanto mais quente melhor. Marilyn Monroe, estrela de Os homens preferem as loiras e Quanto mais quente melhor, fez muito sucesso em Hollywood. b) As lotéricas oferecem cada vez mais serviços bancários. As lotéricas estão investindo em bons esquemas de segurança. As lotéricas oferecem cada vez mais serviços bancários, razão pela qual esses estabelecimentos estão investindo em bons esquemas de segurança.3. Utilize sinônimos para propor uma paráfrase ao texto que segue. Produção na safra atual é 7,5% menor A União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) afirmou ontem que a pro- dução de álcool combustível do Centro-Sul do Brasil até 16 de janeiro na safra 09/10 está 7,54% abaixo da do mesmo período da safra anterior. Até a primeira quinzena de janeiro, a produção total do combustível na região Centro-Sul atingiu 22,9 bilhões de litros, contra 24,8 bilhões de litros no mesmo período de 08/09. (PRODUÇÃO, 2010) Segue uma sugestão de resposta para esta atividade: Produção nesta safra sofre queda de 7,5% A União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) declarou ontem que o Centro-Sul do Brasil produziu, até 16 de janeiro, na safra 09/10, menos 7,54% de combustível etanol em relação ao mesmo período e safra do ano anterior. Até 15 de janeiro, a produção de álcool totalizou 22,9 bilhões de litros no Centro-Sul do país, enquanto a safra de 08/09 fechou em 24,8 bilhões de litros. 146 Interpretação de textos 5 Fato, opinião e tipos de discurso 1. Identifique as marcas de opinião no texto a seguir. Navegar é preciso O velejador, economista e empresário Vilfredo Schürmann lançou o livro Navegando com o Sucesso na praça central do Shopping Mueller, em Joinville, e na praça central do Shopping Neumarkt, em Blumenau. Ótimo contador de histórias, apresentou reflexões sobre o sentido de palavras como sucesso, família, trabalho em equipe, sonho e disciplina. (NAVEGAR, 2009, grifos do original) Há marca de opinião no uso do adjetivo, em “Ótimo contador de histórias...”. 2. O texto que segue privilegia mais os fatos ou a opinião? Por quê? Nascida em Curitiba, em 1982, Marjorie Estiano se mudou para São Paulo aos 18 anos, onde se profissionalizou como atriz e cantora. Já no Rio de Janeiro, estreou na tevê em 2003, em Malhação, e desde então esteve em várias novelas. (MARJORIE, 2009) O texto restringe-se aos fatos, pois não apresenta marcas explícitas de opinião. As informações dizem respeito à cidade de origem da artista, à idade com que se mudou para São Paulo, ao ano de sua estreia na tevê etc., e essas informações não são julgadas, nem positiva, nem negativamente. 3. Identifique a modalidade de discurso dada e depois faça a alteração indicada entre parênteses. a) O pai disse ao filho: “Decidi lhe dar um carro.” (Passar para o discurso indireto.) Discurso direto. Sugestão de passagem para o discurso indireto: O pai disse ao filho que tinha decidido lhe dar um carro. b) A professora informou aos alunos que no dia seguinte não haveria aula. (Passar para o discurso direto.) Discurso indireto. Sugestão de passagem para o discurso direto: A professora informou aos alunos: “Amanhã não haverá aula.” c) O neto abraçou o avô e disse que quando crescer quer ser aviador. (Passar para o discurso indireto livre.) Resolução das atividades 147 Discurso indireto. Sugestão de passagem para o discurso indireto livre: O neto abraçou o avô. Quando eu crescer, quero ser aviador. 6 Tipos de texto 1. Considerando a seção de classificados de qualquer jornal, defina os textos que a compõem como informativos ou literários. Justifique sua resposta. Os anúncios classificados são informativos, porque não têm intenção artística, mas informativa. O público desse tipo de texto é bastante amplo e variado, razão pela qual os classificados são escritos em língua padrão. A única ressalva cabe às abreviaturas, aceitas para dar maior brevidade aos textos. Por fim, o comprometimento desse tipo de texto com a realidade deve ser total, porque, em tese, eles anunciam vagas, produtos ou serviços que de fato estão disponíveis no mercado. 2. Escolha um texto técnico e apresente as suas principais características, exemplificando-as. Segue uma resposta possível: Pão de bafo Ingredientes Massa do pão 1 kg de farinha de trigo Sal a gosto Fermento Óleo Água morna 1 ovo Complemento Repolho ou couve refogada Bacon Costelinha defumada Linguiça Modo de preparar Faça o pão, misturando todos os ingredientes e deixando a massa crescer. Prepare o complemento misturando os ingredientes em uma panela, frite e depois deixe cozinhar. Abra a massa do pão, passe a banha no meio e en- role em forma de bolinhas, deixando crescer. Depois de crescido, coloque sobre o complemento, tampe e deixe ferver por 40 minutos. (CARNEIRO JÚNIOR, 2004, p. 89) 148 Interpretação de textos Análise: A receita de pão de bafo pode ser considerada um texto técnico, porque tem caráter informativo e utiliza um vocabulário específico da área de gastronomia. Exemplos que comprovam essa particularidade: “1 kg de farinha de trigo” e “tampe e deixe ferver por 40 minutos”. Além disso, a estrutura também é comum à maioria das receitas, que primeiro apresentam a lista de ingredientes e depois o modo de preparo. Acrescente-se ainda que o texto obedece à norma gramatical. 3. Explique qual a relação entre intenção, público-alvo e a linguagem utilizada nos textos informativos, especificamente nos jornalísticos. Os textos jornalísticos devem priorizar o objetivo da informação, buscada por quase todas as pessoas, diariamente. Esse público, amplo e variado, é largamente atingido pelo uso da língua padrão, a qual, justamente por ser padrão, pode ser compreendida por pessoas de diferentes regiões, profissões, idades, interesses, classes sociais, níveis de escolaridade etc. 7 Texto argumentativo 1. Elabore uma pequena lista, com três argumentos ou mais, para defender a ideia de que se deve evitar o uso de automóveis no centro da cidade, em horários de pico. Algumas sugestões são: 1) O elevado número de carros e motos aumenta o risco de acidente. 2) O tráfego intenso pode provocar congestionamentos. 3) O tempo de deslocamento entre um lugar e outro pode dobrar, o que implica perda de tempo. 2. Considerando este início de texto: “O aumento no mercado de empréstimos financeiros desencadeou crescimento em diversos setores do comércio.”, defina a tese defendida pelo autor e sugira um argumento principal para sustentá-la. Segue uma sugestão de resposta para esta atividade: Há grande chance de a tese defendida pelo autor do texto ser a favor dos empréstimos financeiros, pois esse início relaciona o aumento nos empréstimos a uma consequência positiva (o “crescimento em diversos setores do comércio”). Um bom argumento para sustentar essa posição é o fato de a antecipação de determinada quantia ao Resolução das atividades 149 consumidor possibilitar o imediato fechamento de um negócio, pois sem a quantia em mãos a compra pode ser protelada. Por sua vez, essa protelação ainda traz o risco de a compra não se efetivar, em função de a quantia necessária ser relativamente grande, de modo que, mesmo economizando, o consumidor pode vir a gastar seu dinheiro em outra situação ou outro produto. 3. Usando a antítese como recurso que auxilia na escolha dos argumentos, defina: Seguem algumas respostas possíveis para esta atividade: a) Uma tese. A amizade entre pais e filhos pode facilitar a passagem pela adolescência. b) Uma antítese. A amizade entre pais e filhos restringe a privacidade do adolescente. c) Argumentos que sirvam de réplica à antítese. A limitação da privacidade pode ser facilmente contornada, ao passo que algumas coisas que advêm da falta de amizade entre pais e filhos podem colocar o adolescente em um caminho sem volta. 8 Textos não verbais, humorísticos e irônicos 1. Faça uma pequena lista de textos não verbais, além daqueles apresentados neste capítulo. Não se esqueça de justificar a inclusão dos textos listados na categoria de textos estudada. Segue uma sugestão de resposta para esta atividade: Outros exemplos de textos não verbais são: escultura, fotografia, logomarca, outdoor etc. Eles podem ser assim classificados porque usam a imagem como principal meio de comunicação, permitindo variadas interpretações – já que a falta do signo escrito não inviabiliza a compreensãodo texto. 150 Interpretação de textos 2. Escreva um breve parágrafo interpretativo para o quadro reproduzido a seguir. Fonte: ARCIMBOLDO, G. Summer. 1573. Óleo sobre tela, 76 x 64 cm. Museu do Louvre, Paris. Algumas respostas possíveis são: • Modo literal de representar o ditado popular: “Você é o que você come.” • Os alimentos são essenciais ao ser humano. • Relação entre os legumes e as frutas próprios do verão (Summer) e o humor das pessoas, pelo que a estação representa. 3. Identifique e comente o uso da ironia nos períodos dados: a) Sua nota na prova de matemática foi excelente: três e meio! A ironia está na palavra excelente, usada para se referir a uma nota baixa. b) Na quinta-feira, meu carro foi parar na oficina. O conserto custou a bagatela de 1.500 reais. É irônico o trecho “custou a bagatela de 1.500 reais”, pois o valor mencionado não é uma bagatela. Sendo assim, comprova-se a ironia, que usa um termo para se referir ao contrário daquilo que ele representa. Resolução das atividades 151 9 Estratégias e recursos na construção do texto 1. Leia o fragmento a seguir. Vinte e uma coisas que aprendi como escritor APRENDI que escrever é basicamente contar histórias, e que os melhores livros de ficção que li eram aqueles que tinham uma história para contar. APRENDI que o ato de escrever é uma sequela do ato de ler. É pre- ciso captar com os olhos as imagens das letras, guardá-las no reservatório que temos em nossa mente e utilizá-las para compor depois as nossas próprias palavras. (SCLIAR, 2011) Agora, comente: a) A escolha vocabular. A escolha vocabular privilegia uma escrita formal. Dessa forma, o autor não utiliza marcas de oralidade. Percebe-se também a recorrência de verbos na primeira pessoa do singular, como Aprendi, que se repete ao início de cada parágrafo, em uma clara referência ao título do texto: Vinte e uma coisas que aprendi como escritor. Esse recurso combina com a simplicidade da crônica e com a proximidade entre autor e leitor, exigida por esse tipo de texto. b) A repetição. A repetição é uma opção de estilo do autor. Iniciando cada parágrafo com o mesmo verbo (“Aprendi”), acentuam-se a subjetividade e a quantidade – afinal, como o título indica, serão listadas “vinte e uma coisas”. 2. Explique o efeito provocado pelo uso de citações em um texto. As citações podem servir de sustentação à tese defendida pelo autor do texto, ao mesmo tempo que emprestam a credibilidade do autor dos trechos utilizados para avalizar o texto que os incorporou. 3. Usando a vírgula, pontue o texto a seguir e depois sublinhe apenas a informação básica de cada período. Ontem à tarde uma forte chuva deixou vários bairros da cidade sem luz. Moradores do Boa Vista Sítio Cercado Portão e Água Verde foram os que mais sofreram com a falta de energia que durou três horas. 152 Interpretação de textos Ontem à tarde, uma forte chuva deixou vários bairros da cidade sem luz. Moradores do Boa Vista, Sítio Cercado, Portão e Água Verde foram os que mais sofreram com a falta de energia, que durou três horas. 10 Interpretação de textos complexos A seguir, é apresentado o texto para as atividades de 1 a 3. Chapeuzinho Vermelho Era uma vez (admitindo-se aqui o tempo como uma realidade pal- pável, estranho, portanto, à fantasia da história) uma menina, linda e um pouco tola, que se chamava Chapeuzinho Vermelho. (Esses nomes que se usam em substituição do nome próprio chamam-se alcunha ou vulgo). […] Chapeuzinho Vermelho andava, pois, na Floresta, quando lhe aparece um lobo, animal selvagem carnívoro do gênero cão […] Chapeuzinho Vermelho foi detida pelo Lobo, que lhe disse: (Outro parêntese: os animais jamais falaram. Fica explicado aqui que isso é um recurso de fantasia do autor […] Esse princípio animista é ancestra- líssimo e está em todo o folclore universal.) Disse o Lobo: “Aonde vais, linda menina?” Respondeu Chapeuzinho Vermelho: “Vou levar estes doces à minha avozinha que está doente. Atravessarei dunas, montes, cabos, istmos e outros acidentes geográficos e deverei chegar lá às treze e trinta e cinco, ou seja, a uma hora e trinta e cinco minutos da tarde”. Ouvindo isso o Lobo saiu correndo, estimulado por desejos repri- midos (Freud: Psychopathology Of Everiday Life, The Modern Library Inc. N.Y.). Chegando na casa da avozinha ele engoliu-a de uma vez – o que, segundo o conceito materialista de Marx indica uma intenção crítica do autor, estando oculta aí a ideia do capitalismo devorando o proletariado – e ficou esperando, deitado na cama, fantasiado com a roupa da avó. Passaram-se 15 minutos (diagrama explicando o funcionamento do relógio e seu processo evolutivo através da história). Chapeuzinho Vermelho chegou e não percebeu que o lobo não era sua avó, porque sofria de astigmatismo convergente, que é uma perturbação visual oriunda da curvatura da córnea. Nem percebeu que a voz não era a da avó, porque sofria de otite, inflamação do ouvido […]. Mas, para salvação de Chapeuzinho Vermelho, apareceram os lenhadores, mata- ram cuidadosamente o Lobo, depois de verificar a localização da avó através da Roentgenfotografia. E Chapeuzinho Vermelho viveu tranquila 57 anos, que é a média da vida humana segundo Maltus, Thomas Robert, economista inglês nascido em 1766, em Rookew, pequena propriedade de seu pai, que foi grande amigo de Rousseau. (FERNANDES, 2010) Resolução das atividades 153 1. Explique a função dos parênteses utilizados no texto. Os parênteses servem para eliminar o aspecto de fantasia do texto. Isso fica evidente com a releitura do trecho: “Chapeuzinho Vermelho foi detida pelo Lobo que lhe disse: (Outro parêntese: os animais jamais falaram. Fica explicado aqui que isso é um recurso de fantasia do autor […]. Esse princípio animista é ancestralíssimo e está em todo o folclore universal.)”. O recurso usado pelo autor, em vez de permitir que o leitor dê asas à imaginação, é uma lembrança constante de que os animais não falam. 2. O texto de Millôr Fernandes tem o mesmo título do famoso conto de fadas. Essa similaridade assegura também a semelhança no perfil dos personagens, no texto clássico e nesse que acabamos de ler? Explique sua resposta. Não. A Chapeuzinho do conto clássico é totalmente diferente da personagem do texto de Millôr Fernandes. O que prova isso é que, logo no início do texto, o narrador refere-se à garota como sendo “linda e um pouco tola”. Além disso, quando ela chega à casa da avó e não percebe que a avó é, na verdade, o lobo fantasiado, a “tolice” da garota é desculpada pelo “astigmatismo convergente”. 3. Retome o final do texto e analise a relevância da referência ao nome do filósofo Rousseau. Jean-Jacques Rousseau foi um filósofo iluminista suíço. A principal característica do Iluminismo era o racionalismo. Portanto, é extremamente relevante a citação do nome desse filósofo, pelo autor, ao final do texto, porque isso explica a versão racional que se faz do conto de fadas, tipo de texto que não tem nada de racional. Muito pelo contrário: o conto clássico é fantasioso, imaginativo e admite a irrealidade desde o famoso “era uma vez”. Interpretação de Textos Verônica Daniel Kobs Interpretação de Textos Verônica D aniel Kobs Código Logístico I000180 ISBN 978-65-5821-047-4 9 7 8 6 5 5 8 2 1 0 4 7 418 Interpretação de textos • No item 1, os interlocutores veem um objeto que gera curiosida- de, porque eles não sabem do que se trata, por isso o emprego de aquilo ali. • No item 2, os falantes podem estar, por exemplo, em um ônibus, e veem uma mulher na rua que lhes chama atenção pela roupa que usa, daí o emprego do relator dela. • No último item, provavelmente os falantes são amigos e já tinham conversado anteriormente sobre aquela questão, que pode ser o pagamento de uma dívida, a ameaça de reprovação no colégio, uma briga com a namorada etc. Pensando, agora, no uso dos relatores internos, é indispensável que eles se relacionem a um antecedente e, como o nome já diz, os ante- cedentes devem ser apresentados antes dos relatores. Em uma escrita formal, que não pressupõe muita intimidade entre o escritor e o leitor do texto, não é adequado começar com a utilização de relatores sem antecedentes. Para entender a necessidade de obedecer à ordem que se estabelece naturalmente entre antecedente e relator, vamos com- parar as seguintes ocorrências: A diretora dessa escola é muito rígida. (...dessa escola...: de qual escola?) A escola X fica no bairro onde moro. A diretora dessa escola é muito rígida. (...dessa escola... = da escola X) A primeira opção deixa uma lacuna que não pode ser preenchida, simplesmente porque o nome da escola não foi apresentado antes do uso do relator dessa. Já a segunda opção está correta, porque apresen- ta, em dois períodos diferentes, duas informações sobre a escola: uma sobre a localização e outra sobre a diretora. Nesse caso, o relator dessa cumpre duas funções: a de evitar a repetição do nome da escola e a de estabelecer uma relação lógica entre os períodos. CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste primeiro capítulo, vimos como a estrutura e a organização das partes e dos outros elementos que compõem o texto são fundamentais para a interpretação. Essas etapas privilegiam a clareza e, quando realiza- das de modo adequado, revelam o nível de objetividade e didatismo do Acesse o link a seguir e leia a crônica Aula de redação, de Roberto Gomes. Durante a leitura, tente observar o uso de relatores, a formação dos períodos e a divisão do texto em parágrafos. Boa leitura! Disponível em: https://revista- daanpoll.emnuvens.com.br/revista/ article/view/433/442. Acesso em: 15 jun. 2021. Para saber mais https://revistadaanpoll.emnuvens.com.br/revista/article/view/433/442 https://revistadaanpoll.emnuvens.com.br/revista/article/view/433/442 https://revistadaanpoll.emnuvens.com.br/revista/article/view/433/442 Elementos estruturais do texto 19 autor. Como consequência, a leitura passa a ser facilitada, garantindo uma comunicação mais eficaz entre autor/texto e público. Investir no aspecto formal do texto, portanto, evita desvios de sentido. ATIVIDADES O texto que segue foi retirado do site Guiame.com.br. O começo dele você leu no início deste capítulo. Leia, agora, o final e depois faça as atividades de 1 a 4. Com base nas cerâmicas encontradas na cova, os arqueólogos suspei- taram inicialmente que as ossadas datavam de um período entre 800 a.C. e 43 d.C., ou seja, entre a Idade do Ferro e o início da Era Romana. Mas os exames do carbono 14 provaram que os restos mortais eram muito mais recentes. Os cientistas sabem também que a maioria dos ossos pertencia a adolescentes e jovens, que seriam altos e teriam boa saúde. Há tam- bém a suspeita de que eles tenham sido mortos ou enterrados nus, porque não há vestígio de roupas ou adornos na cova. (BRITÂNICOS, 2010, grifos nossos) 1. Resuma o assunto de cada parágrafo apresentado. 2. Classifique o último período do primeiro parágrafo como simples ou composto e explique o porquê. 3. Retome os relatores marcados no texto e cite a ideia que estabelecem ou os antecedentes a que se referem. 4. Retome os períodos do segundo parágrafo do texto e marque apenas as informações básicas de cada um deles. Justifique sua resposta. 5. Una os períodos usando relatores. a) A moça era alta. A moça usava sapatos de salto alto. b) Meu amigo excedeu o limite de velocidade. O limite de velocidade é de 60 km/h. c) Ele adoeceu. Ele não foi à viagem com os amigos. REFERÊNCIAS BRITÂNICOS desvendam mistério de cova com 51 crânios. Guiame.com.br, 12 mar. 2010. Disponível em: https://guiame.com.br/noticias/mundo/britanicos-desvendam-misterio- de-cova-com-51-cranios.html. Acesso em: 15 jun. 2021. Vídeo 20 Interpretação de textos 2 Elementos coesivos e flexibilidade linguística A coesão é o principal recurso de encadeamento e construção do texto. Os elementos coesivos desempenham a função de ligar as ideias umas às outras, sem descuidar da lógica e da progressão das informações dadas. Para que o texto seja coeso, não basta escrever um número razoável de períodos, agrupá-los sem muito critério em parágrafos e, depois, somar os parágrafos já formados a outros, para, da união deles, chegar à construção de um texto. Como se vê, de acordo com esse raciocínio, que retomou bre- vemente as etapas de formação de um texto, os períodos e os pa- rágrafos formam um grande quebra-cabeças. Sendo assim, para unir uma peça à outra e para conseguir, com numerosas combina- ções, formar um conjunto que faça sentido e seja compreendido pela maioria dos leitores, é necessário escolher com cuidado os elementos coesivos, que são os grandes responsáveis pela mon- tagem textual. Essa tarefa é desempenhada por diferentes tipos de palavras: conjunções, advérbios, pronomes, preposições, locuções etc. O correto emprego dos elementos coesivos gera a interdepen- dência das informações apresentadas no texto, promovendo a continuidade e estabelecendo relações entre o que está sendo dito ou escrito e os dados já mencionados anteriormente. Além disso, a coesão relaciona-se fortemente à coerência do texto – afinal, para que um texto seja coerente é necessário que os conectivos tenham sido bem empregados, com o objetivo de evitar a incompletude de algumas partes do texto ou o conflito entre as ideias apresentadas. Elementos coesivos e flexibilidade linguística 21 2.1 Elementos coesivos e relações lógicas Vídeo Na prática textual, os elementos coesivos servem não apenas para conectar as ideias, mas também para delinear o sentido, a fim de faci- litar a leitura e a interpretação. Vejamos, então, um exemplo de texto coeso e coerente. Scorsese domina um jogo de aparências Começa Ilha do medo, o detetive Teddy Daniels passa mal. Logo se descobre que ele está num navio e sente enjoo. No convés, ao lado do parceiro Chuck e debaixo de um céu cinza, carregado, ele conversa sobre o trabalho. Os dois viajam para uma ilha-presídio onde ficam os criminosos com distúrbios mentais que ninguém mais tem disposição para tratar. Os doentes mais perigosos do país. A cena é banal, nada demais acontece, mas a música de fundo sugere a presença do mal – parece que o navio vai ser engolido pelo mar ou outra tragédia qualquer. A composição de Krzysztof Penderecki não é um achado do diretor Martin Scorsese porque o polonês já trabalhou para David Lynch (o que diz muito sobre sua obra) e muitos o estimam. (NETTO, 2010, grifos nossos) Para verificar a importância dos elementos coesivos no texto e iden- tificar os antecedentes a que eles se referem, façamos uma rápida aná- lise dos termos destacados no trecho transcrito. Já no início, temos o uso de três relatores: • ele, que aparece duas vezes; • no convés; e • os dois. Fica claro que ele, nos dois casos, refere-se ao detetive Teddy Da- niels, pois primeiro vem a informação de que ele “passa mal” e, logo depois, de que “ele está num navio e sente enjoo”. O uso do ele, prono- me pessoal do caso reto, dá nova informação sobre o detetive e evita a repetição do nome próprio. A locução adverbial no convés serve para lembrar o leitor de que os personagens estão em um navio e para indicar a posição deles nesse ambiente. No mesmo período introduzido por essa locução, há ouso do relator ele novamente. Não há dúvida de que ele se refere a Teddy 22 Interpretação de textos e não a Chuck, já que esse segundo personagem ainda é periférico e secundário no texto. Mesmo ele tendo aparecido, o texto continua a informar sobre Teddy, principalmente. Porém, no próximo período, Chuck começa a ganhar importância. Como ele já foi apresentado, passa agora a dividir a cena com Teddy. Em razão disso, o relator os dois retoma Teddy e Chuck. Perceba que, nesse caso, não foi usado um pronome, mas um numeral que serve de sinônimo ao antecedente. Além disso, destaque-se que a substituição também evita a repetição e abrevia o texto. Mas o que se diz sobre os dois? Diz-se que “viajam para uma ilha-presídio onde ficam os criminosos com distúrbios mentais que nin- guém mais tem disposição para tratar.” Pois bem: nessa continuidade, aparece outro relator, onde, um pronome relativo que retoma o local de destino dos personagens, ou seja, a ilha-presídio. Nesse mesmo pe- ríodo, há a informação de que, naquele local, “ficam os criminosos com distúrbios mentais que ninguém mais tem disposição para tratar”. Porém, o autor do texto quer dar outra informação sobre as pessoas que habitam a ilha. Por essa razão, ele substitui criminosos com distúrbios mentais por doentes, apenas, no período seguinte. Além disso, repare que o período inteiro (“Os doentes mais perigosos do país.”) ainda não deixa o leitor se esquecer de que não se trata de doentes comuns, mas de criminosos doentes, por isso eles são também qualifi- cados como os “mais perigosos do país”. O lembrete associa as partes do texto e acentua a ideia de que cada linha, cada período ou cada parágrafo é apenas uma pequena parte do todo. Passemos agora à análise do segundo parágrafo do texto. De início, é usado o relator a cena, cujo antecedente pode ser facilmente identifi- cado. Para tanto, basta que o leitor pergunte “Que cena?” para lembrar a viagem da dupla de detetives à ilha-presídio. Essa é a cena e ela é composta pela chegada deles e pelo que veem no local. Nessa passagem, o autor destaca a função da música, mencionando que ela “sugere a presença do mal”. Logo em seguida, o novo período afirma que “A composição de Krzysztof Penderecki não é um achado...”. A composição é um relator e serve de sinônimo para música. Perceba que as informações são apresentadas progressivamente. Primeiro, fa- lou-se do efeito da música e, depois, de quem a compôs. Na sequência, naturalmente, há relatores que retomam o nome do compositor para Elementos coesivos e flexibilidade linguística 23 apresentar mais dados sobre ele. Isso explica a continuação: “o polonês já trabalhou para David Lynch (o que diz muito sobre sua obra) e muitos o estimam”. Nela, o polonês retoma Krzysztof Penderecki, assim como sua obra (A obra de quem? De Krzysztof Penderecki) e muitos o estimam (Estimam quem? Krzysztof Penderecki). Verificamos, com essa análise, que o texto enca- deia informações relacionadas a um grande tema – o filme Ilha do medo, de Martin Scorsese –, tornando perceptível a função dos elementos coesivos para o desenvolvimento gradual e progressivo do conteú- do do texto e para a riqueza do léxico ou vocabulá- rio utilizado. Portanto, algumas informações dizem respeito a um mesmo objeto, que é nomeado de di- ferentes formas, com o uso de palavras sinônimas. Conectando as partes do texto por meio de pa- lavras substitutas, as quais permitem que muitas informações associem-se a um mesmo objeto ou a uma mesma pessoa, quem escreve vai tecendo uma espécie de rede, repleta de significados. Quanto mais relações, mais complexo o texto se torna. Por isso, o uso de um vocabulário diversifi- cado contribui para a organização das ideias. Paralelamente a esse pro- cesso, destacam-se também as conjunções, capazes de juntar períodos ou até parágrafos inteiros, como veremos a seguir. 2.1.1 Causa e efeito Em um texto, para se estabelecer esse tipo de relação, podem ser usados relatores distintos, tais como os que aparecem em destaque nestes exemplos: • Como há muitas etapas burocráticas a serem cumpridas, o processo ainda demorará meses. • Por causa da falta de emprego, a situação financeira dessa família é precária. Embora os exemplos tenham apresentado como relatores apenas como e por causa de, podemos ampliar essa lista, tentando substituir os elementos coesivos usados por outros, de sentido semelhante: Lightspring/Shutterstock Figura 1 Representação das relações estabelecidas no texto 24 Interpretação de textos • Já que há muitas etapas burocráticas a serem cumpridas, o processo ainda demorará meses. • Porque há muitas etapas burocráticas a serem cumpridas, o processo ainda demorará meses. Invertendo a ordem das orações do período, é possível também usar o pois: O processo ainda demorará meses, pois há muitas etapas burocráticas a serem cumpridas. Tentando, agora, a substituição do relator por causa de, no outro exemplo, é possível a seguinte construção: Em consequência da falta de emprego, a situação financeira dessa família é precária. Outra possibilidade é dividir o período composto em dois outros, simples, interligados pelo relator portanto: Há falta de emprego. Portanto, a situação financeira dessa família é precária. A relação de causa e efeito está presente em todos os exemplos, ligando o fato gerador (excesso de burocracia e falta de emprego) à sua consequência (lentidão do processo e situação precária). Porém, variam os modos de relacionar as duas partes da ideia, ou seja, variam os elementos coesivos usados e a prova disso é que, a partir de apenas dois exemplos, formamos muitos outros, mantendo o sentido. 2.1.2 Causa e efeito contrário Esse tipo de relação rompe com o efeito esperado, ou seja, a conse- quência provocada vai contra o que se espera diante do fato gerador. Para simplificar essa ideia, observemos o período a seguir: Embora estivesse com pressa, evitou pegar o atalho. Elementos coesivos e flexibilidade linguística 25 Nessa situação, a pressa justificaria o recurso de tomar um atalho. No entanto, a ação esperada não foi concretizada. A causa (pressa) ge- rou o efeito contrário (recusa à possibilidade de pegar o atalho). Nesse exemplo, o relator usado foi embora, mas há outros que po- dem cumprir a mesma função. Vejamos: • Apesar de estar com pressa, evitou pegar o atalho. • Estava com pressa, mas evitou pegar o atalho. • Estava com pressa. Contudo, evitou pegar o atalho. • Estava com pressa. Entretanto, evitou pegar o atalho. • Evitou pegar o atalho, mesmo estando com pressa. Além dessas possibilidades, há outras, mas mais importante do que multiplicar os exemplos é perceber que os relatores usados para estabelecer a relação de causa e efeito contrário são as conjunções adversativas ou concessivas, porque trabalham com a ideia de oposi- ção ou contrariedade. 2.1.3 Condição Essa relação também é bastante conhecida pelos falantes e escrito- res da língua portuguesa. A ideia básica que ela encerra é impor uma condição para que algo se realize. Exemplo: Passarei de ano, se estudar bastante. Nessa possibilidade, foi empregado o relator se, porém é permiti- do o uso de outros elementos coesivos, pois o efeito será o mesmo. Vamos conferir: • Passarei de ano, caso estude bastante. • Desde que estude bastante, passarei de ano. • Contanto que estude bastante, passarei de ano. Perceba que, entre as conjunções condicionais, o se exige tratamen- to especial. Como demonstrado, esse termo utiliza o verbo no infinitivo, enquanto, nos outros casos, foi utilizada a forma verbal estude. 26 Interpretação de textos 2.1.4 Finalidade A finalidade, ou o objetivo, também pode ser marcada pelo uso de relatores. Embora a preposição para seja o elemento coesivo mais uti- lizado em uma relação desse tipo, quase sempre é viável a substituição desse relator por a fim de ou a fim de que, como demonstram as seguin- tes ocorrências: • A fim de evitarem a cobrançaabusiva de juros, resolveram pagar o imposto em dia. • Para evitarem a cobrança abusiva de juros, resolveram pagar o imposto em dia. Quando lidamos com as conjunções finais, temos de tentar respon- der à pergunta para quê? e não por quê? Essa diferença é de grande ajuda, quando precisamos distinguir entre finalidade e causa. 2.1.5 Adição Talvez, em um texto, a relação de acréscimo ou adição seja uma das mais utilizadas, pois aparece não apenas na junção de períodos e pa- rágrafos, mas também nos termos de uma enumeração, caso que vem em primeiro lugar, entre os exemplos arrolados a seguir: • Comprei caneta, lápis, caderno e apontador. • Ela corre e faz musculação. • Ela corre, mas também faz musculação. • Ela faz musculação, além de correr. Na enumeração clássica, representada no primeiro exemplo, o uso das vírgulas e da conjunção aditiva e é fundamental. Isso torna o perío- do completo e acabado. 2.2 Coesão e sinonímia Vídeo Assim como é possível substituir um elemento coesivo por outro equivalente, sem grandes prejuízos de significado, pode-se usar um ou outro substantivo como relator. Esse tipo de recurso, também chama- do sinonímia, permite que o texto se desenvolva e anule as repetições. Acesse o link a seguir e leia o texto Crise e literatura, escrito por Cristovão Tezza. Essa crônica reúne diversos exemplos de uso de elementos coesivos e relações lógicas por eles estabelecidas. Então, observe com atenção! Disponível em: https://www.gaze- tadopovo.com.br/vida-e-cidadania/ colunistas/cristovao-tezza/crise-e- -literatura-ayzb2c722irg8o3srm6x- cadla/. Acesso em: 15 jun. 2021. Para saber mais https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/colunistas/cristovao-tezza/crise-e-literatura-ayzb2c722irg8o3srm6xcadla/ https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/colunistas/cristovao-tezza/crise-e-literatura-ayzb2c722irg8o3srm6xcadla/ https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/colunistas/cristovao-tezza/crise-e-literatura-ayzb2c722irg8o3srm6xcadla/ https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/colunistas/cristovao-tezza/crise-e-literatura-ayzb2c722irg8o3srm6xcadla/ https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/colunistas/cristovao-tezza/crise-e-literatura-ayzb2c722irg8o3srm6xcadla/ Elementos coesivos e flexibilidade linguística 27 Às vezes, dependendo da palavra, usar sinônimo como relator é tarefa bastante complicada. No entanto, há palavras que admitem um núme- ro bastante variado de opções. Vejamos um exemplo: • A menina não cansava de brincar. Jogando bola, a menina se divertia. • A menina não cansava de brincar. Jogando bola, a garota se divertia. • A menina não cansava de brincar. Jogando bola, a criança se divertia. • A menina não cansava de brincar. Jogando bola, a pequena se divertia. Com base nessas possibilidades, é fácil concluir que é possível se re- ferir ao sujeito (a menina) ao menos de quatro modos diferentes. Isso, claro, sem contar a substituição da palavra em questão pelo pronome pessoal ela, por um nome próprio (Letícia, por exemplo), ou, ainda, por palavras específicas de determinadas regiões do país (como é o caso de guria, muito comum no extremo Sul do Brasil). 2.2.1 Sinonímia e manutenção do sentido Para treinar o uso dos sinônimos e demonstrar a imensa flexibilida- de linguística, a qual permite a construção de ideias similares a partir da combinação de diferentes elementos, vamos substituir por sinôni- mos as palavras marcadas nos períodos a seguir: O lembrete O recado O aviso O comunicado foi passado por e-mail a todos os funcionários. Durante o verão, a casa a moradia a habitação a propriedade foi alugada. Nos dois conjuntos, as mudanças propostas não acarretaram alte- ração significativa no significado dos períodos. Isso quer dizer que, por mais que tenham sido usadas palavras diferentes, a ideia principal e inicial foi mantida. Porém, isso nem sempre acontece. Há muitas palavras com si- nônimos bastante conhecidos e utilizados, mas que, se empregados em determinadas situações, podem sugerir intimidade, preconceito, emotividade e assim por diante. Para ilustrar essas hipóteses, vamos 28 Interpretação de textos experimentar trocar a palavra casa por lar, no último exemplo dado. Teríamos, então: Durante o verão, o lar foi alugado. Obviamente, não se pode negar que lar e casa são sinônimos. Entre- tanto, lar não é a alternativa mais apropriada para a ocasião, já que seu significado envolve afetividade. Uma casa pode ser qualquer casa, mas um lar é a sua casa e, justamente por esse laço afetivo, não é normal que ele seja alugado. 2.2.2 Sinonímia e alteração de sentido Geralmente, a alteração de sentido ocorre em casos de substituição de um termo por outro, em situações que imprimem à palavra um tom pejorativo – encerrando, portanto, um juízo de valor negativo. Vamos analisar os exemplos dados, na ordem em que aparecem. • Ontem, ele se excedeu na bebida. • Ontem, foi dia de bebedeira para ele. • Ontem, ele tomou um pileque. A ordem dos períodos que nos servem de exemplo é fundamental, porque a escala vai desde a expressão comportada e formal se excedeu na bebida, passa pelo termo bebedeira, bem mais informal, e chega à expressão popularíssima e quase de baixo calão tomou um pileque. Nessa pequena relação de períodos isolados, os sinônimos estão corretamente empregados. No entanto, o uso de determinada palavra ou expressão deve ser sempre regulado pelo contexto, que envolve a situação da fala e da escrita e, principalmente, o público-alvo. Outro exemplo similar ocorre com os termos menino e moleque. A pri- meira é uma forma mais “neutra” de se referir a uma criança do gênero masculino. Já a segunda depende dos gestos, da entonação etc. – afi- nal, quando alguém emprega o termo moleque, pode estar querendo ressaltar a molecagem ou o jeito brincalhão de uma criança, ou pode estar usando a palavra como modo de sinalizar que aquela criança é alguém da família. Por isso, atenção aos sinônimos! Isoladamente, a substituição de um termo por outro pode parecer a melhor escolha, Para saber mais sobre o uso de sinônimos, vale consultar o livro Prática de Texto, de Carlos Alberto Faraco e Cristovão Tezza. Petrópolis: Vozes, 2004. Saiba mais Elementos coesivos e flexibilidade linguística 29 mas sempre é bom analisar o contexto ou a moldura textual (o antes e o depois do texto) em que aquela palavra, tão cuidadosamente selecio- nada, será encaixada. CONSIDERAÇÕES FINAIS Este conteúdo serviu para aprofundarmos os critérios que nos auxi- liam na escrita e na interpretação textual, atividades que, por sua vez, irão influenciar positivamente a compreensão do leitor. Nesse estágio, os usos de relatores, como conjunções, pronomes ou sinônimos, demonstraram suas funções, alinhavando as partes do texto – períodos e parágrafos – e introduzindo marcas de sentido. Esses recursos são os responsáveis pe- los fatores que caracterizam um bom texto: unidade, coesão e coerência. ATIVIDADES O texto a seguir servirá de base para a atividade 1. Crise e literatura A palavra escrita reconquistou um espaço avassalador no ambiente da vida. Hoje parece que tudo provoca curiosamente uma compulsão de ler e escrever. Uma velha pergunta: o que leva alguém a escrever? Parece que escre- ver é sempre a manifestação de uma crise. Talvez seja preciso inverter a equação, da crise mundial (como todas, em todos os tempos, e essa não foi sequer a pior), para a crise da literatura, hoje quase um patinho feio da cultura. E penso que nem de longe ela voltará à glória com que explodiu no século XIX, quando se criaram enfim as suas condições modernas – o leitor, o lazer, o império da escrita, a circulação espetacular do livro, a valorização do indivíduo e a sempre importante separação política entre Igreja e Estado, marca registrada do Ocidente (sem essa separação crucial, abandonemos toda esperança). Por um bom tempo a literatura foi a arena em que se discutiam, pela simples representaçãoficcional do mundo, praticamente todos os grandes temas das humanidades. Leia-se Dostoiévski, Dickens, Tolstói, Balzac, e é isso que se encontra. Mas a ficção foi perdendo terreno para outros meios da cultura popular, começando pelo cinema, avançando pela televisão e hoje chegando à internet (o que é outro momento e outra história). A pri- meira “vítima” (se é lícito falar assim) desse avanço foi o tempo de lazer – ingrediente indispensável de quem lê – agora repartido entre mil outras atividades, quem sabe muito mais atraentes, cantos da sereia tecnológica (Continua) Vídeo 30 Interpretação de textos que ao mesmo tempo colocou o mundo inteiro à disposição e nos tirou a paz e as condições de desfrutá-lo. Não tenho nada contra os novos meios, é bom deixar claro. Escrevo esse texto num computador de última geração, sou viciado em Google e me encanta o infinito potencial informativo desses novos tempos – não sofro de nenhuma nostalgia da máquina de escrever. O que me interessa é localizar o espaço da literatura que restou nesse mundo novo. Não vou falar em “função” da literatura porque isso seria lhe dar uma direção e um sentido a priori; melhor pensar em “espaço” mesmo, o lugar em que ela surge, cria forma e se move. Pelo menos num ponto, estamos melhor do que há 30 anos: da era da televisão, um lugar de pura oralidade, passamos à internet, que é basicamente escrita. Sempre bato nessa tecla: a palavra escrita reconquistou um espaço avassalador no ambiente da vida. Hoje parece que tudo provoca curiosamente uma com- pulsão de ler e escrever. Certo, todas são palavras “pragmáticas” – nesse mundo de utilidades, o escritor respira em solidão, afirmando uma contrapalavra. Não é a crise do mundo que faz nascer romancistas e poetas. Eles escrevem porque são eles mesmos que estão em crise – um poderoso sentimento de inadequa- ção, que é a alma da arte, sopra-lhes a primeira palavra, com a qual eles tentam redesenhar o mundo. (TEZZA, 2010) 1. Retome o último parágrafo do texto de Cristovão Tezza, identifique os relatores e relacione-os aos antecedentes ou às funções que eles desempenham. 2. Destaque os elementos coesivos nos períodos dados e explicite a relação estabelecida por eles. a) Apesar de ter chovido durante toda a semana, descerão para a praia. b) Devido à falta de dinheiro, estão restringindo gastos. c) Para chegar ao hotel que não conhecia, imprimiu um mapa. 3. Substitua as palavras marcadas nos períodos a seguir por sinônimos. a) Os detalhes da narração fizeram diferença! b) A televisão está no conserto. c) Ela não percebeu que havia sido vítima de um embuste. d) Comprou um carro zero, no final do ano. e) O show foi sensacional. Elementos coesivos e flexibilidade linguística 31 4. Analise o efeito dos termos em destaque nas ocorrências que seguem: I) O negócio foi celebrado pelos sócios da empresa. II) A negociata gerou muito lucro para o comerciante. REFERÊNCIAS NETTO, I. B. Scorsese domina um jogo de aparências. Gazeta do Povo, 11 mar. 2010. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/caderno-g/scorsese-domina-um-jogo- de-aparencias-dk44xih4taycndxvvttvgb6tq/. Acesso em: 15 jun. 2021. TEZZA, C. Crise e literatura. Gazeta do Povo, 22 fev. 2010. Disponível em: https://www. gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/colunistas/cristovao-tezza/crise-e-literatura- ayzb2c722irg8o3srm6xcadla/. Acesso em: 15 jun. 2021. https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/colunistas/cristovao-tezza/crise-e-literatura-ayzb2 https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/colunistas/cristovao-tezza/crise-e-literatura-ayzb2 https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/colunistas/cristovao-tezza/crise-e-literatura-ayzb2 32 Interpretação de textos 3 Partes do texto e compreensão do texto A escrita de um texto exige um planejamento, como se fosse uma espécie de roteiro. Esse procedimento assegura que o autor defina os assuntos que irá abordar no início, no meio e no final do texto. Sem dúvida, a introdução e a conclusão são bastante breves, mas isso não isenta essas partes de serem fundamentais para a compreensão textual, afinal a apresentação, por estabelecer o pri- meiro contato entre o conteúdo de que será tratado e o leitor, tem função essencial e quase didática. De modo similar, a conclusão encarrega-se de revisar os principais pontos levantados ao longo do texto, permitindo o reforço das ideias que embasaram a dis- cussão que acabou de ser desenvolvida. A fim de alinhar todos os componentes, é claro que interessam, tanto ao autor como ao lei- tor, a organização e a linearidade do texto, já que esse grande con- junto de ideias deve ser estruturado de modo lógico e progressivo. 3.1 Partes do texto Vídeo Para que o texto seja completo, além do título, é preciso atender a três etapas: • introdução; • desenvolvimento; e • conclusão. Devemos observar, porém, que essa estrutura não equivale a três parágrafos apenas. Geralmente, a introdução e a conclusão do texto são formadas de parágrafo único. No entanto, o desenvolvimento ne- cessita de mais espaço, porque é nele que a ideia principal é aprofun- Partes do texto e compreensão do texto 33 dada, discutida e comprovada, dependendo do modelo de texto que está sendo produzido. Ao contrário do que muitos pensam, o título também é uma parte importante do texto, razão pela qual a escolha de um título apropriado às vezes é tarefa bastante difícil. Vamos acompa- nhar, em cada seção deste capítulo, uma apresentação das caracterís- ticas e das funções das partes que integram o texto, para detalharmos algumas informações. 3.1.1 Título O título deve fazer referência ao tema principal do texto e suas principais características são a concisão e a ligação estabelecida com o conjunto do texto. Observemos, entretanto, que a concisão deve ser medida sempre em relação ao tamanho do texto, o que significa que a brevidade do título não implica o uso de poucas palavras. Há bons títulos com uma linha ou pouco mais. O importante é que, comparando esse volume com o total de linhas do texto (por exemplo, 20 linhas), percebe-se claramente que a função de tentar passar apenas as coisas mais importantes foi de fato cumprida. Quanto à ligação entre título e texto, só depois da leitura o leitor consegue avaliar se a associação foi feita adequadamente ou não. Há títulos que têm maior clareza e outros que, embora se refiram ao tema principal do texto, optam por uma abrangência maior, omitindo os detalhes que um título mais completo ou claro revelaria. Isso não sig- nifica, no entanto, que aquele mais abrangente seja inadequado. Se, depois de terminada a leitura, a escolha do título fizer sentido, a partir da comparação com o conteúdo desenvolvido, significa que há o en- caixe necessário entre o título e o conjunto do texto. Para tornar essa questão mais clara, vamos analisar os títulos a seguir: • Filmes influenciam comportamento de adolescentes • O poder do cinema O primeiro é mais explicativo que o segundo, porque já associa o cinema ao comportamento dos adolescentes e até deixa clara a relação de causa e consequência. O segundo é mais rápido, também subenten- de que o cinema seja a causa, mas sem informar exatamente do quê. Logo, o segundo título é mais aberto do que o primeiro, que alonga e detalha as informações. Por isso, ambos são diferentes, mas nenhum 34 Interpretação de textos pode ser considerado errado, se imaginarmos que o texto contará so- bre mais um crime cometido por um adolescente que reproduziu o comportamento violento de um personagem de algum filme recém- -lançado. A distinção, sem dúvida, obedece a critérios subjetivos, como o estilo do autor, por exemplo. Outra coisa fundamental acerca do título é que se faz uma confusão recorrente entre ele e o tema do texto, mas na verdade o tema não corresponde ao título, assim como o título não corresponde ao tema. Tema é sinônimo de assunto e a única relação que existe entre o tema e o título é queeste último deve se referir ao assunto principal do texto. Retomando os títulos dados, é fácil pensar em possibilidades para elucidar o assunto do texto: • Repercussão do cinema na sociedade • Cinema e violência Analisando atentamente as opções dadas e comparando-as com os títulos sugeridos, conclui-se que não há repetição. O que existe é uma proximidade que estabelece a coerência entre o assunto geral do texto e uma de suas partes – o título. Afinal, como seria um texto que falasse sobre um tema, mas apresentasse título totalmente diverso? O texto poderia até apresentar coerência e progressão de conteúdo, porém o fato de ele ficar desarticulado do título revelaria um problema de interpretação – do autor, nesse caso –, e poderia afastar o leitor. O título é sempre o cartão de visitas do texto. Portanto, se ele não for bem elaborado, poderá afastar o público, por não apresentar o texto de modo eficaz. 3.1.2 Introdução A introdução abre o texto e tem a função de apresentá-lo em linhas gerais. Funciona quase como um pequeno resumo do que o leitor en- contrará no desenvolvimento. Aliás, aproveitando a relação entre in- trodução e desenvolvimento, podemos considerar que este detalha os dados que foram apresentados rapidamente na introdução. Vejamos um exemplo: Partes do texto e compreensão do texto 35 Estudantes participam hoje da Olimpíada Brasileira de Astronomia Provas podem ser feitas até amanhã de forma virtual Mais de 437 mil estudantes, em todo o país, devem participar nesta quin- ta (12) e sexta-feira (13) da Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica promovida desde 1998 pela Sociedade Astronômica Brasileira. O número de inscritos foi confirmado nesta quinta-feira pelo coordenador da OBA, professor João Batista Canalle. Devido à pandemia de coronavírus, este ano, as provas serão feitas de forma virtual, em dois dias. Ou seja, o participante que por alguma questão logística não consiga fazer o exame hoje, terá até esta sexta-feira. O professor destacou, por exemplo, instabilidades no acesso à energia e à internet, como ocorre no Amapá. Podem participar da olimpíada estudantes do 1º ano do ensino fundamental até o 3º ano do ensino médio. O exame tem 10 questões – sendo 7 de astronomia e 3 de astronáutica. Segundo a organização da competição, as perguntas são em sua maioria de múltipla escolha. Também está sendo realizada, hoje e amanhã, a Mostra Brasileira de Foguetes. Além da forma virtual – com auxílio de um software – a mostra pode ser feita também presencialmente, no local onde for possível. Os resultados da olimpíada e da exposição estão previstos para o dia 30 de dezembro. Informações no site. (ALVES, 2020, grifo do original) Retomando apenas a introdução do texto, temos: Mais de 437 mil estudantes, em todo o país, devem participar nesta quinta (12) e sexta-feira (13) da Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica promovida desde 1998 pela Sociedade Astronômica Brasileira. O número de inscritos foi confirmado nesta quinta-feira pelo coordenador da OBA, professor João Batista Canalle. Com base nesse parágrafo, é possível listar alguns temas que, de- pois, serão relacionados às informações dadas no desenvolvimento: • A relação do texto com a área da Astronomia. • A realização de uma Olimpíada de Astronomia. • A participação dos estudantes no evento. http://oba.org.br/ 36 Interpretação de textos Outra informação fundamental é a que abre a introdução, chamada de tópico frasal ou frase-guia. No parágrafo em análise, o tópico frasal já dá dicas preciosas para o leitor entender o título dado ao texto. São mencionados: o número de participantes – o que, aliás, enfatiza o ca- ráter estudantil do evento; o período de realização; desde quando a Olimpíada é realizada; e o nome do coordenador. Em linhas gerais, a introdução fornece apenas algumas informa- ções essenciais, que só serão detalhadas e associadas a dados novos no desenvolvimento. 3.1.3 Desenvolvimento O desenvolvimento é o meio do texto, parte que detalha e apro- funda as informações introdutórias. É composto de dois parágrafos ou mais e segue uma progressão no modo de apresentar o conteúdo, pri- mando pelo encadeamento e pela concatenação de ideias. Vamos ana- lisar melhor a construção do desenvolvimento do texto lido há pouco: Devido à pandemia de coronavírus, este ano, as provas serão feitas de forma virtual, em dois dias. Ou seja, o participante que por alguma ques- tão logística não consiga fazer o exame hoje, terá até esta sexta-feira. O professor destacou, por exemplo, instabilidades no acesso à energia e à internet, como ocorre no Amapá. Podem participar da olimpíada estu- dantes do 1º ano do ensino fundamental até o 3º ano do ensino médio. O exame tem 10 questões – sendo 7 de astronomia e 3 de astronáutica. Segundo a organização da competição, as perguntas são em sua maioria de múltipla escolha. Também está sendo realizada, hoje e amanhã, a Mostra Brasileira de Foguetes. Além da forma virtual – com auxílio de um software – a mostra pode ser feita também presencialmente, no local onde for possível. O desenvolvimento desse texto compreende cinco parágrafos. O pri- meiro informa que o evento adotará a modalidade on-line, citando, inclusive, o motivo. Além disso, nesse parágrafo o autor enfatiza que a escolha de fazer a Olimpíada em dois dias visa minimizar os efei- tos de possíveis dificuldades de acesso ao site. O segundo parágrafo continua a tratar da acessibilidade, mas também menciona que alu- nos dos ensinos fundamental e médio podem participar. Os parágra- Partes do texto e compreensão do texto 37 fos terceiro e quarto detalham o tamanho da prova e o formato das questões. Por fim, o último parágrafo do desenvolvimento informa o leitor sobre um evento paralelo: uma mostra de foguetes, realizada vir- tual e presencialmente. Essa breve retomada do miolo do texto permite que seja confirmada a organização dos parágrafos, de acordo com a ordem de importância das informações que cada um deles contém. É isso que delineia uma sequência progressiva no texto. Simplificando essa escala, chega-se à seguinte ordem: Mudança no formato do evento Quantidade de questões Alunos participantes Formato das questões Evento paralelo A partir dessa estrutura, percebemos que o desenvolvimento do texto analisado organizou adequadamente os parágrafos que o com- põem. Dessa forma, comprovamos o alinhamento que deve existir – entre forma e conteúdo. 3.1.4 Conclusão A conclusão corresponde à parte final do texto e tem a função de arrematar o conteúdo apresentado, reforçando algumas informações importantes. É preciso, no entanto, que não se associe essa retomada à repetição pura e simples. Mesmo no caso de o autor querer mencionar novamente um dado que já foi apresentado anteriormente, isso deve ser feito por meio de sinônimos ou paráfrase, e não de uma cópia do trecho que se quer ressaltar. Atualmente, muitos livros, revistas científicas e trabalhos acadêmi- cos fazem uma distinção importante, que diz respeito à nomenclatu- ra. Enquanto o termo conclusão indica um caráter mais autoritário e estanque, a expressão considerações finais é mais aberta a revisões, apontando para o diálogo e para a continuidade da pesquisa, como se o autor convidasse o leitor, e também outros estudiosos do assunto, a opinar e a contribuir com a pesquisa. Por esse motivo, o uso de consi- derações finais produz um efeito retórico, porque sugere um trabalho mais democrático. Vejamos a seguir como foi feita a conclusão do texto que estamos analisando: 38 Interpretação de textos Os resultados da olimpíada e da exposição estão previstos para o dia 30 de dezembro. Informações no site. Nesse parágrafo, há informações novas. No entanto, elas estão automaticamente ligadas a outras, citadas na introdução e principal- mente no desenvolvimento. A Olimpíada e a exposição, que já tinham sido detalhadas nos parágrafos anteriores, são retomadas naconclu- são, para que seja acrescentada a informação de quando os resultados serão divulgados. Mas como os participantes podem acessar esses dados? Com essa pergunta, destaca-se a importância do site como meio de comunicação, além de remeter o leitor novamente ao início do desenvolvimento, reforçando que a edição atual do evento adotará o formato on-line. 3.2 Compreensão do texto Vídeo Ao contrário do que se pensa, a ação de tentar compreender um texto vai além das palavras. A leitura, que implica a decodificação dos vocábulos, é apenas o estágio inicial. Posteriormente, é necessário in- terpretar o conteúdo lido e, na maioria das vezes, também lançar mão de conteúdos extras, estabelecendo conexões com conhecimentos que adquirimos por meio de outras leituras, sobretudo quando se trata de um tema bastante atual. Nesses casos, é primordial estarmos atuali- zados e termos acesso à cobertura midiática oferecida pelos veículos informativos, como jornais e revistas. 3.2.1 Introdução à compreensão textual A compreensão de um texto é feita em dois níveis – um mais su- perficial e outro mais profundo. No primeiro, deve haver uma coinci- dência de sentidos, o que faz com que todos os leitores cheguem a uma compreensão comum, pois essa etapa nos obriga a perceber e listar as informações mais elementares do texto. Em contrapartida, no segundo momento, ocorrem algumas variações, resultantes da subje- tividade de cada leitor e do modo como cada pessoa irá interpretar o que acabou de ler. Visite o site a seguir e leia a matéria escrita por Cássio Barbosa. Observe a divisão do texto, levando em conta as partes que o compõem: título, intro- dução, desenvolvimento e conclusão. Disponível em: http:// g1.globo.com/platb/ observatoriog1/2010/03/23/ uma-tempestade-do-tamanho-de- 3-terras-que-ja-dura-400-anos- e-esta-aquecendo/. Acesso em: 15 jun. 2021. Para saber mais http://oba.org.br/ http://g1.globo.com/platb/observatoriog1/2010/03/23/uma-tempestade-do-tamanho-de-3-terras-que-ja-dura-400-anos-e-esta-aquecendo/ http://g1.globo.com/platb/observatoriog1/2010/03/23/uma-tempestade-do-tamanho-de-3-terras-que-ja-dura-400-anos-e-esta-aquecendo/ http://g1.globo.com/platb/observatoriog1/2010/03/23/uma-tempestade-do-tamanho-de-3-terras-que-ja-dura-400-anos-e-esta-aquecendo/ http://g1.globo.com/platb/observatoriog1/2010/03/23/uma-tempestade-do-tamanho-de-3-terras-que-ja-dura-400-anos-e-esta-aquecendo/ http://g1.globo.com/platb/observatoriog1/2010/03/23/uma-tempestade-do-tamanho-de-3-terras-que-ja-dura-400-anos-e-esta-aquecendo/ http://g1.globo.com/platb/observatoriog1/2010/03/23/uma-tempestade-do-tamanho-de-3-terras-que-ja-dura-400-anos-e-esta-aquecendo/ Partes do texto e compreensão do texto 39 No nível 1, o leitor deve fazer uma leitura atenta, localizando as prin- cipais informações do conteúdo apresentado. Para cumprir essa etapa, é de grande ajuda fazer perguntas bem objetivas acerca do texto, as quais exigem apenas que o leitor o retome em busca das respostas pedidas, a fim de fixar os pontos mais importantes da explanação feita pelo au- tor. Logo, nesse nível, o teste é mais de leitura e de atenção, porque as respostas aparecem de maneira explícita, em diferentes partes do texto. O nível 2, contudo, obriga que o leitor vá além do texto, desempe- nhando tarefas um pouco mais complexas. Depois do mapeamento feito na primeira etapa da compreensão do texto, agora o leitor deve estabelecer relações e fazer inferências, a fim de desenvolver um racio- cínio lógico sobre determinadas questões. Ao mesmo tempo que isso permite uma extensão de conteúdo, o leitor tem mais liberdade para usar sua experiência e seu repertório. Sendo assim, nesse estágio da interpretação, o texto possibilita ao leitor o uso de conhecimentos pré- vios no debate de algumas questões relevantes e representativas – de aspecto social ou cultural, por exemplo. 3.2.2 Informações explícitas no texto A retomada das informações mais importantes do texto visa sinteti- zar e reforçar aquilo que o leitor deve tentar reter, em meio ao conjun- to de ideias que lhe foi apresentado. Logo, esse primeiro passo da compreensão textual funciona como um exercício de fixação. Como as questões são objetivas, elas também cumprem a função de suprir a lacuna resultante de alguma desatenção durante a leitura, ou mesmo de corrigir desvios de entendimento, pos- sibilitando a confirmação dos dados essenciais do texto lido. Usando novamente o texto sobre a Olimpíada de astronomia e as- tronáutica, façamos um exercício de interpretação que consiste em um resgate de informações explícitas no texto. Quantos estudantes irão participar do evento? “Mais de 437 mil estudantes, em todo o país”. (Continua) Gr im gr am /S hu tte rs to ck Figura 1 Releitura e identificação das informações centrais do texto https://www.shutterstock.com/pt/g/Robert+Pepper 40 Interpretação de textos Quando o evento será realizado? “Quinta (12) e sexta-feira (13)”. Por que houve mudança no formato do evento? A alteração foi feita “devido à pandemia de coronavírus”. A que público se destina a Olimpíada de astronomia? O evento destina-se a “estudantes do 1º ano do ensino fun- damental até o 3º ano do ensino médio”. Como será a prova? O exame terá “10 questões – sendo 7 de astronomia e 3 de astronáutica” e “as perguntas são em sua maioria de múltipla escolha”. Que outro evento está sendo realizado junto com a Olimpíada? “Também está sendo realizada [...] a Mostra Brasileira de Foguetes”. Quando serão divulgados os resultados? “Os resultados da olimpíada e da exposição estão previstos para o dia 30 de dezembro”. Depois de respondidas as questões propostas, algumas conclusões sobre essa etapa interpretativa inicial devem ser apresentadas. A primei- ra delas diz respeito à ordem das perguntas – que, em geral, segue a ordem do texto. A segunda remete ao título da subseção que estamos estudando. Como o exercício retoma informações já apresentadas e lidas no texto, a função do leitor é apenas identificá-las e usá-las na formulação das respostas, que correspondem a muitas palavras do próprio texto, o que significa que as respostas estão explícitas no texto apresentado. Partes do texto e compreensão do texto 41 3.2.3 Informações não explícitas no texto As informações que não são explícitas no texto, mas que se relacionam ao seu conteúdo, fazem parte da segunda etapa da interpretação e impli- cam certa profundidade. Além da identificação e da fixação do assunto e da sequência textual, as informações não explícitas no texto obrigam o lei- tor a pensar sobre o conteúdo lido, relacionando-o à realidade, a outros textos já conhecidos ou mes- mo ao julgamento da posição defendida pelo autor. Sendo assim, as perguntas que compreendem essa etapa do exercício interpretativo funcionam como dicas de possíveis desdobramentos que ampliam o significado do texto. Vejamos, com base no texto que estamos ana- lisando, três exemplos desse nível mais avançado de compreensão: Com base na contextualização do evento (Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica), pesquise outros temas que poderiam figurar na lista dos con- teúdos a serem conhecidos e estudados pelos participantes da competição. Ao lado dos conteúdos mencionados, poderiam ser incluídos temas como movimentos de translação e rotação, resultados das princi- pais experiências sobre indícios de vida em outros planetas, fases da Lua e suas influências sobre as marés, princípios básicos de Navegação, Matemática Espacial, Astrodinâmica, Engenharia de Aeronaves etc. Considerando o fragmento “Devido à pandemia de coronavírus, este ano, as provas serão feitas de forma virtual, em dois dias”, é possível listar outras atividades que tiveram mudança de formato? Quais? Sim. A pandemia do novo coronavírus instituiu o home office e o atendimento on-line em diversas áreas e profissões. Bancos, escolas, empresas, lojas e até supermercados deram preferência