Prévia do material em texto
DOI: 10.55905/cuadv15n6-006 Recebimento dos originais: 13/06/2023 Aceitação para publicação: 14/07/2023 4942 CUADERNOS DE EDUCACIÓN Y DESARROLLO, v.15, n.6, p. 4942-4955, 2023 Reflexões sobre teorias epistemológicas do conhecimento que influenciam o multiculturalismo Reflections on epistemological theories of knowledge that influence multiculturalism Carlos Gabriel Araújo Bulhões Mestrando em Ensino pelo Programa de Pós-Graduação em Ensino (PPGEN) Instituição: Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso, Universidade de Cuiabá (IFMT-UNIC) Endereço: Rua Professora Zulmira Canavarros, 95, Centro, Cuiabá – MT, CEP: 78005-200 E-mail: carlosgabrielifmt@gmail.com Marta Maria Pontin Darsie Doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) Instituição: Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso, Universidade de Cuiabá (IFMT-UNIC) Endereço: Rua Professora Zulmira Canavarros, 95, Centro, Cuiabá – MT, CEP: 78005-200 E-mail: marponda@uol.com.br Marcelo Franco Leão Doutor em Educação em Ciências pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Instituição: Universidade de Cuiabá, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso (IFMT-UNIC) Endereço: Rua Professora Zulmira Canavarros, 95, Centro, Cuiabá – MT, CEP: 78005-200 E-mail: marcelo.leao@ifmt.edu.br RESUMO Com a globalização o fluxo migratório permitiu a coexistência entre diversas culturas, a qual resultou em um multiculturalismo social presente nas sociedades. Este texto teve como objetivo refletir sobre quais as teorias epistemológicas que se relacionam/influenciam na interculturalidade/ multiculturalismo presente nas sociedades em dias atuais. Configura-se como uma pesquisa bibliográfica, descritiva e exploratória, de abordagem qualitativa, cuja realização ocorreu no primeiro semestre de 2023. Foram realizadas reflexões sobre as nove categoriais epistemológicas (Empirismo; Racionalismo; Interacionista; Materialismo histórico; Tendência histórica; Teoria crítica; Pensamento complexo; Estruturalismo e Pós-estruturalismo), as quais possibilitaram identificar que a teoria epistemológica de Boaventura de Sousa Santos é a que mais se relaciona e/ou influencia no entendimento de multiculturalismo da sociedade contemporânea. A qual fundamenta-se numa 4943 CUADERNOS DE EDUCACIÓN Y DESARROLLO, Portugal, v.15, n.6, p. 4942-4955, 2023 visão descolonizada e fora do padrão eurocêntrico, buscando a construção de suas próprias epistemes. Palavras-chave: epistemologia, globalização, pós-modernismo. ABSTRACT With globalization the migratory flow allowed the coexistence between diverse cultures, which resulted in a social multiculturalism present in societies. This text aimed to reflect on which epistemological theories relate/influence the interculturality/ multiculturalism present in societies today. It is configured as a bibliographic, descriptive and exploratory research, with a qualitative approach, whose realization occurred in the first semester of 2023. Reflections were made on the nine epistemological categories (Empiricism; Rationalism; Interactionist; Historical materialism; Historical trend; Critical theory; Complex thinking; Structuralism and Post-structuralism), which made it possible to identify that Boaventura de Sousa Santos' epistemological theory is the one that most relates and/or influences the understanding of multiculturalism in contemporary society. Which is based on a decolonized vision and outside the Eurocentric pattern, seeking the construction of its own epistemes. Keywords: epistemology, globalization, postmodernism. 1 INTRODUÇÃO A construção do conhecimento científico trilhou por diversas perspectivas e moldes durante as evoluções sociais, a epistemologia, episteme e logos (do grego), também chamada de estudo do conhecimento. Esses estudos nos forneceram diversas categorias epistemológicas que contribuíram em reflexões e propostas de como podem ou ocorrem a construção desse conhecimento tido como científico. Com o passar dos anos, as evoluções sociais possibilitaram o surgimento de diversas correntes epistemológicas, as quais buscaram contribuir para essa concepção da construção da Ciência, podemos destacar a corrente empirista, racionalista, interacionista, o materialismo e a tendência histórica, a teoria crítica, o estruturalismo e o pós-estruturalismo, as quais são as mais expressivas, dentro de uma visão eurocêntrica colonizadora. Todavia, essa evolução social permitiu também o surgimento de novas epistemologias que não se baseiam em moldes e costumes europeus, 4944 CUADERNOS DE EDUCACIÓN Y DESARROLLO, Portugal, v.15, n.6, p. 4942-4955, 2023 constituindo novas epistemologias do hemisfério sul, descolonizadas, as quais consideram o seu contexto social também passível de contribuição na construção do que ser científico. A globalização, por exemplo, possibilitou um maior fluxo de migrações pelo mundo, sejam por crises humanitárias, desastres naturais ou perseguições políticas a onda de migrantes elevou-se em muitos países nos últimos, na busca de melhores qualidades de vida e de trabalho esses migrantes buscam também, por meio do ambiente social, um espaço de melhores oportunidades profissionais e acolhimento. Neste contexto epistemológico, as sociedades têm se tornado um espaço multicultural a qual possibilita a vivência entre migrantes, refugiados, apátridas, nativos entre outros, e ao mesmo tempo permite a construção de uma interculturalidade, por meio do conhecimento prévio de cada indivíduo, proveniente da interação de culturas e realidades diferentes. Hoje, são os professores, por exemplo, que se caracterizam uma maior centralidade pela construção deste conhecimento e no desenvolvimento de valores relevantes a construção do pensamento científico. Considerando tais fenômenos, é interessante compreender em como as bases conceituais da epistemologia estão presentes nesta interculturalidade e no multiculturalismo, presente na sociedade atual. Desta forma, o presente texto tem como objetivo refletir sobre quais as teorias epistemológicas que se relacionam/influenciam na interculturalidade/multiculturalismo presente nas sociedades em dias atuais. 2 REFLEXÕES TEÓRICAS SOBRE O MULTICULTURALISMO O conceito de epistemologia, segundo Tesser (1995), pode ser definido como a Ciência que estuda a Ciência, em outras palavras, pode ser exemplificada na reflexão da construção do que é ser científico, de como ocorre essa organização, como funciona seus modos operante, e suas manifestações. Ainda para o autor, a Ciência não tem sua organização fundamentada no neutro, mas sim, em interesses e conhecimentos da sociedade em que está inserida. 4945 CUADERNOS DE EDUCACIÓN Y DESARROLLO, Portugal, v.15, n.6, p. 4942-4955, 2023 Desta forma, a epistemologia pode ser caracterizada também como um conjunto de escolhas, decisões e estratégias que são fundamentadas para a construção do que é ser cientifico, vale destacar ainda, que podem coexistir inúmeras correntes epistemológicas, cada qual alicerçada sobre seus teóricos e seu contexto social (PAVIANI, 2009). Historicamente, Santos e Meneses (2010), em sua obra conjunta intitulada ‘Epistemologias do Sul’, faz uma reflexão das agressões realizadas pelo colonialismo e o capitalismo aos povos colonizados, contatando que essas culturas foram imersas involuntariamente na ‘epistemologia da modernidade’, por meio da violência, dos preconceitos e da discriminação. Embora reconheça esses preconceitos, Santos (1987) afirma ainda que estamos caminhando para o fim deste ciclo hegemônico epistemológico, o qual a globalização tornou/tem tornado a ciência multicultural. Santos e Meneses (2010) fazem ainda uma breve alusão ao processo de colonização das américas,a qual a “descoberta” do “Novo mundo” culminou na extensão do comércio europeu levando a ocupação de territórios nas américas e a exploração da mão de obra escrava, como consequência, os povos nativos foram extintos ou tiveram que se refugiarem para o interior do território. Embora o termo ‘multicultural’ seja abrangente e autoexplicativo, proveniente ou composto de várias culturas (Tradução do Dicionário Oxford Languages), Santos (2013) caracteriza esse termo em dois aspectos, o multiculturalismo colonial também chamado de monoculturalismo colonial e o multiculturalismo emancipatório, os quais se diferenciam em suas interpretações. Num ponto de vista histórico, perpetuou-se em todas as sociedades a noção de um multiculturalismo colonial, a qual uma cultura dominante – do colonizador, se sobrepõe as demais geralmente composta por minorias, tornando-as marginalizadas e inferiores, todavia, somente com o passar dos anos essas minorias tiveram reconhecimento aos costumes e a direitos individuais (SANTOS, 2013). 4946 CUADERNOS DE EDUCACIÓN Y DESARROLLO, Portugal, v.15, n.6, p. 4942-4955, 2023 Santos (2013) assume ainda que a valorização e reconhecimento de culturas inferiorizadas anteriormente são de “fachadas” e que esse multiculturalismo colonial busca através do discurso – e somente ele. “valorizar o multicultural”, mas, priorizando uma única cultura. É um multiculturalismo que, mesmo quando reconhece outras culturas, assentasse sempre na incidência, na prioridade de uma língua normalizada, estandardizada, que é a língua oficial, seja o inglês, seja o português, seja qual for - por exemplo, muitos países reagem muito contra a educação bilíngue e currículos bilíngues - e, portanto, é um multiculturalismo que de fato não permite que haja um reconhecimento efetivo das outras culturas (SANTOS, 2013, p. 21). Embora reconheça essas diferenças esse tipo de multiculturalismo não se mostra inclusivo, Tavares (2014), define esse tipo de multiculturalismo como eurocêntrico, o qual é empregado apenas para abranger e conceituar os fluxos migratórios do hemisfério sul em direção ao norte, distinguindo as culturas quantos a língua, costumes e relações étnicas presentes no espaço europeu, sem espaço para a diversidade e para a construção de projetos políticos. Como alternativa, Santos (2013) propõe uma forma denominada de multiculturalismo emancipatório progressista e pós-colonial, baseado na globalização e em diversas culturas, fundamentada na luta de classes e nos interesses individuais, o qual está relacionada primeiramente a uma redistribuição econômica que segundo o mesmo, resulta na igualdade como princípio e prática. E, portanto, o multiculturalismo progressista é o multiculturalismo que procura por numa equação, sem dúvida política, científica, intelectualmente e culturalmente complexa, mas a única que, ao meu entender, vale a pena ser um objeto de luta, esta tensão entre uma política de igualdade e uma política de diferença (SANTOS, 2013, p. 21). O autor supracitado reconhece ainda que não existe é não é um objetivo criar uma cultura pura e totalmente homogênea, assim como para Fleuri (1999), o qual destaca que o termo multicultural considera apenas culturas diferentes coexistindo em um mesmo espaço sem se interrelacionar umas com as outras. De forma análoga, Nanni (1998) sugere também a chamada interculturalidade, 4947 CUADERNOS DE EDUCACIÓN Y DESARROLLO, Portugal, v.15, n.6, p. 4942-4955, 2023 o qual não considera apenas o contexto histórico, mas, as relações e influências que a convivência entre si possibilita essas culturas adquirirem. Araújo, Costa e Tavares (2018) e Tavares (2014) sugerem que a interculturalidade é proveniente do multiculturalismo, a qual considera somente a coexistência de culturas em uma sociedade, todavia, a interculturalidade abrange horizontes mais amplos, a qual aponta para a necessidade de diálogos mais críticos e propostas mais frutíferas, sendo uma construção entre os diferentes tipos de cultura presente na sociedade. Embora Multiculturalismo/interculturalidade sejam termos que abordem a mesma problemática, para Nosella (2020) a ênfase semântica pode ser caracterizada de forma diferente, para a mesma o multiculturalismo está ligado a um sentido político, normativo e ideológico, e a interculturalidade está relacionada a organização de um processo de integração, ou em outras palavras, de uma hegemonia político-cultural. Esses conflitos semânticos influenciaram diretamente na construção do saber científico, o qual se permaneceu alicerçado sobre um monoculturalismo político, ideológico e eurocêntrico. Como proposta, Santos (2002, p. 9) pontua que é necessário “transformar as ausências em presenças.” Ou seja, é necessária uma superação da escola e cultura dominante, a qual hoje a ciência deve se fundamentar no universalismo e na globalização. Araújo, Costa e Tavares (2018) discorrem ainda que essa dominação europeia e epistemológica sobre os povos do hemisfério sul são frutos restantes do colonialismo, o qual ainda influencia fortemente devido a paradigmas impostos inerente ao sistema capitalista. Assim como Tavares (2009) aponta como uma dominação na esfera política e cultural do conhecimento. Desta forma, são necessárias novas epistemologias a qual contemple também outros olhares e outras posições, seja do colonizado, do nativo ou do imigrante. 4948 CUADERNOS DE EDUCACIÓN Y DESARROLLO, Portugal, v.15, n.6, p. 4942-4955, 2023 3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Esta pesquisa caracteriza-se como um estudo bibliográfico, descritivo e exploratório, de abordagem qualitativa, realizado a partir da leitura de artigos científicos que contemplam a temática interculturalidade e multiculturalismo, visto que, esse tipo de abordagem possibilita uma maior abrangência dos fenômenos estudados do que a investigação direta (GIL, 2002). O levantamento bibliográfico foi realizado no mês de abril de 2023, na base de dados do portal Periódicos da CAPES, sendo aplicados filtros de pesquisa para seleção de artigos publicados e com maior relevância. Foram utilizadas como descritores de busca as seguintes palavras: “multiculturalismo”, “interculturalidade”, “epistemologia”, “multicultural”, “intercultural” e “multiculturalismo/interculturalidade” nos títulos e resumos de cada artigo, as quais foram também combinadas e colocadas nos respectivos plurais com objetivos de maximizar a buscar. Como critérios para seleção de objeto de estudos, foram analisados o título e resumo de cada artigo, quando necessário realizado a leitura em sua totalidade, as obras que contemplassem a reflexão das bases epistemológica acerca do multiculturalismo/interculturalidade foram selecionadas como objeto de estudo e discutidas posteriormente. Para melhor contextualizar as discussões e os resultados obtidos foi elaborado um quadro, o qual contempla um resumo das principais correntes epistemológicas apresentadas na disciplina de ‘Epistemologia: Teorias do conhecimento’, ofertada pelo Programa de Pós-Graduação em Ensino (PPGEn) do Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT). É importante ressaltar que o intuito deste estudo não é aprofundar em várias correntes epistemológicas, esse resumo serviu como norte para as discussões que envolvam, fundamentam e contribuem com as bases do multiculturalismo e da interculturalidade. 4 RESULTADOS E DISCUSSÕES Embora exista o embate semântico entre as diferenças políticas e ideológicas do multiculturalismo e a interculturalidade (NOSELLA, 2020), 4949 CUADERNOS DE EDUCACIÓN Y DESARROLLO, Portugal, v.15, n.6, p. 4942-4955, 2023 fundamentamos aqui nossas discussões acerca do caráter epistemológico, o qual buscar compreender quais as bases epistemológicas comuns que alicercearam esses dois movimentos recentes. O Quadro1 consiste numa breve descrição das principais categoriais epistemológicas e suas concepções acerca da construção do conhecimento, obtidos da literatura inerente as anotações de bordo da disciplina ministrada no PPGEn-IFMT. Cabe ressaltar que o diário de bordo possibilita a reflexão acerca do ponto de vista do autor, permitindo também focalizações em torno da problemática analisada e desenvolvimento de níveis descritivos analisados (OLIVEIRA et al, 2017). Quadro 1: Categoriais epistemológicas. Epistemologia Teoria Empirismo O conhecimento é construído por meio de estímulos em que o objeto de estudo promove nos sentidos do espectador de forma a induzi-lo – Uma relação direta e unidirecional entre Objeto → Sujeito. E que a partir desta relação ocorre a construção do conhecimento. Sendo assim, o sujeito é caracterizado como um receptor passivo e devendo assim permanecer sem interferir no estudo. Racionalismo A construção do conhecimento deve ser formada assim como na matemática e na lógica, o espectador através dos sentidos deve fazer deduções acerca do objeto analisado – Uma relação direta e unidirecional entre Sujeito → Objeto as quais são obtidas por intuição e inferência racionais e lógicas, em que o sujeito é participante ativo do processo de construção do conhecimento. Interacionista Busca resolver o debate empirista x racionalista, propondo que tanto a razão quanto a experiência são necessárias para se chegar ao conhecimento, sendo essa aquisição um processo constituído pelo indivíduo durante toda a vida. De tal forma, que o ser humano é fruto de uma série influências no processo de aprendizagem. Materialismo histórico Fruto das relações sociais capitalistas, marcada pelas lutas de classe e exploração do homem pelo homem. Tendo como principais nomes Karl Marx e Friedrich Engels, os quais debruçaram também sobre a organização social e econômica voltada exclusivamente para industrias sustentadas pela exploração da mão de obra. Tendência histórica A construção do conhecimento decorre de um processo histórico social, o qual a metafísica e a ontologia são valorizadas. Isso significa que todos os seres humanos passam a ser considerados críticos, pensantes e autônomos. Teoria crítica (Escola de Frankfurt) A escola de Frankfurt surge como uma crítica a teoria tradicional, buscando a realização de estudos que transformem a realidade social, como pesquisas interdisciplinares com várias áreas do conhecimento. Pensamento complexo Desenvolve uma nova concepção de como o mundo existe e suas inter-relações, sendo uma maneira de repensar a realidade e suas 4950 CUADERNOS DE EDUCACIÓN Y DESARROLLO, Portugal, v.15, n.6, p. 4942-4955, 2023 relações sistêmicas. Tendo como principal nome Edgar Morin, essa corrente destaca a presença do “todo” nas “partes” a qual ocorre de forma inseparável e complexa. Estruturalismo A cultura humana está colocada no homem criando uma estrutura interligada em vários aspectos, como estruturas, em que elementos culturais estão imersos na mente das pessoas, em outras palavras, o todo por ser considerado bem maior que a mera soma das partes, visto que, as partes se inter-relacionam. Pós-estruturalismo Consiste na superação do estruturalismo através da radicalização, sendo um movimento pluridisciplinar, que sugere novas abordagens da realidade social e especificamente nos sujeitos, as quais são influenciadas pelas relações de poder a partir do desenvolvimento histórico e cultural a qual estão inseridos. Fonte: Diário de bordo dos autores (2023). Historicamente, todas essas correntes epistemológicas abordadas tiveram suas bases fundamentadas no contexto social europeu colonizador, interligadas ao poderio dos cleros e da Igreja Católica, o qual iniciou a partir do século XV, e foi expandida com o advento das grandes navegações, e também, posteriormente a partir do século XVII com o iluminismo. Essa breve reflexão nos leva a compreender que a construção do conhecimento científico trilhou por diversas concepções, todavia, sempre relacionadas ao contexto social e político europeu: ‘O monoculturalismo’, pontuado por Santos (2013). De tal forma, as questões sociais e do indivíduo não foram consideradas pelas primeiras correntes epistemológicas. No embate entre empiristas x racionalistas, acerca da construção do conhecimento e nas relações entre sujeito e objeto, embora essas correntes não tenham um interesse na abordagem cultural e intercultural, concordamos que, nestas concepções a aprendizagem do indivíduo (único) está sendo analisada, dessa forma, um único sujeito não promove cultura (FLEURI, 1990). A corrente interacionista, por sua vez, no campo cultural buscou apenas solucionar o embate entre empiristas x racionalistas acerca da construção do conhecimento, pontuando que tanto os sentidos quanto razão são necessárias para a construção do conhecimento tido até então como cientifico. É em Marx e Engels que surgem os primeiros atos voltados a sociedade, todavia, não uma sociedade multicultural, pluralista e detentora de direitos, mas sim uma classe de povos trabalhadores pobres, famintos, doentes e explorados 4951 CUADERNOS DE EDUCACIÓN Y DESARROLLO, Portugal, v.15, n.6, p. 4942-4955, 2023 pelas grandes empresas movidas no sistema capitalista, desta forma, essa corrente epistemológica busca a valorização do trabalho manual, a qual Marx chama de mais valia. E a igualdade de todos promovida diretamente pelo estado. Embora o Materialismo histórico de Marx e Engels não se configure diretamente como uma luta pela valorização das culturas e dos sujeitos presentes no multiculturalismo e na interculturalidade atual, no viés epistemológico, podemos considerar esse o precursor para as futuras correntes, as quais observamos na tendência histórica, na escola de Frankfurt e no pensamento complexo, um profundo embasamento na complexidade das relações e nos indivíduos como críticos e ativos do processo cultural, nos sistemas sociais complexos, na individualidade do sujeito com o ‘todo’ e com as ‘partes’. Assim como, destacado por Nosella (2020), a interculturalidade sempre esteve presente na sociedade, todavia, somente nos dias atuais é mais atenuante. É no pós-estruturalismo que encontramos a maior influência quanto a fundamentação do multiculturalismo/interculturalidade, embora não sejam correntes similares, é possível notar algumas semelhanças entre si. Casali e Peres (2018) pontuam que para o pós-estruturalismo as relações da sociedade não se configuram apenas no campo econômico, mas também no campo individual, como o gênero, a sexualidade e as questões étnicos racionais. De forma semelhante, o multiculturalista Santos (2013) reflete sobre o viés cultural progressista que busca dar luz a questões discriminatórias, étnicas, sexuais e muitas outras proveniente das diferenciações por classes sociais. E a política da diferença não se resolve progressisticamente pela redistribuição: resolve-se por reconhecimento. E, portanto, o multiculturalismo progressista é o multiculturalismo que procura por numa equação, sem dúvida política, científica, intelectualmente e culturalmente complexa, mas a única que, ao meu entender, vale a pena ser um objeto de luta, esta tensão entre uma política de igualdade e uma política de diferença (SANTOS, 2013, p. 21). Santos (2013) se coloca em uma epistemologia semelhante aos pós- estruturalismo ao qual denomina pós-modernismo de oposição, onde reconhece 4952 CUADERNOS DE EDUCACIÓN Y DESARROLLO, Portugal, v.15, n.6, p. 4942-4955, 2023 que é necessário um tipo de produção cientifica mais intercultural, a qual não se debruça somente sobre os dos grandes problemas da modernidade. Portanto, temos problemas modernos para os quais não há soluções modernas. Esta visão, pela qual me tenho batido, é o que eu chamo de pós-modernode oposição; aliás, sem olhar muito as palavras, porque a minha posição cabe perfeitamente dentro da modernidade, para aqueles que consideram que a modernidade tem em si mesma diferentes paradigmas, diferentes formas de modernidade; portanto, esta versão que eu defendo pode ser perfeitamente englobada dentro de uma destas versões oposicionais, marginalizadas dentro da própria modernidade ocidental (SANTOS, 2013, p. 28). Ainda interligada ao movimento pós-estruturalista e presente no multiculturalismo, destacam a abordagem das identidades individuais dos sujeitos, inerentes de práticas, aos sistemas sociais e as relações de poder (DINIS; PEREIRA, 2015). No tocante a interculturalidade, concordamos com Fleuri (1990), na estratégia em que antes de tudo é necessário promover a relação entre todas as pessoas, enquanto membros da sociedade histórica, as quais são fruto de um processo cultural heterogêneo onde cada sujeito é ativo para suas críticas e pensamentos. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Por meio da reflexão realizada foi possível constatar que o epistemólogo Boaventura de Sousa Santos conceitua a globalização como um processo contínuo, podendo ora se caracterizar como hegemônico e contra hegemônico, o qual está relacionando diretamente com o contexto histórico, político e social em que a sociedade está inserida. Além disso, o epistemólogo apresenta o multiculturalismo como duas vertentes, uma colonial, baseada nos moldes e na perspectiva do colonizador, a qual reconhece a existência de outras culturas, mas a inferioriza tornando-a marginalizada. E um multiculturalismo emancipatório, o qual é baseado na globalização e em diversas culturas, este, sugere as relações entre culturas, como um interculturalismo, vale ressaltar, que o objetivo do autor não é criar uma 4953 CUADERNOS DE EDUCACIÓN Y DESARROLLO, Portugal, v.15, n.6, p. 4942-4955, 2023 cultura hegemônica, mas, possibilitar através dos discursos, das estruturas e dos diálogos uma igualdade como princípio e prática -descolonizada. Essas características multiculturais/interculturais apresentam também algumas fundamentações com as correntes epistemológicas pós-estruturalistas, embora o autor se coloque numa posição de pós-modernismo de oposição, o mesmo considera a qual destaca a necessidade de uma produção cientifica mais multicultural. Ao analisar o contexto histórico das correntes epistemológicas, foi possível constatam também que a ciência durante seu desenvolvimento é uma ferramenta de construção social, ligadas a interesses políticos e ao contexto histórico em que se estava imersa. Por fim, esse estudo sobre a epistemologia do conhecimento de forma ampla, permite refletirmos em como a ciência se faz ciência, tornando-nos sujeitos mais críticos e participantes do processo de transformação da Ciência, assim como, os povos colonizados mantiveram suas culturas frente a opressão e a marginalização imposta pelo colonizador. 4954 CUADERNOS DE EDUCACIÓN Y DESARROLLO, Portugal, v.15, n.6, p. 4942-4955, 2023 REFERÊNCIAS ARAUJO V. A.; COSTA T. B.; TAVARES M. Multiculturalismo, interculturalismo e pluriculturalismo: debates e horizontes políticos e epistemológicos. Revista @mbienteeducação. São Paulo: Universidade Cidade de São Paulo, v. 11, n. 1, p. 29-44 jan./abr. 2018. CASALI, J. P.; PERES, J. Pós-estruturalismo: algumas considerações sobre esse movimento do pensamento. Revista Espaço de Diálogo e Desconexão, Online, v. 10, n. 8, p. 84-92, 2018. (E-ISSN: 1984-1736). DINIS. N. F; PEREIRA, R. S. Itinerários da pesquisa pós-estruturalista em educação. Itinerarius Reflectionis. Jataí, v.11, n. 2., p. 1-16, 2015. FLEURI, R. M. Educação intercultural no Brasil: a perspectiva epistemológica da complexidade. R. bras. Est. Pedag., Brasília, v. 80, n. 195, p. 277-289, maio/ago. 1999. GIL, A. C. Como elaborar projetos de pesquisa. 4. ed. São Paulo: Atlas; 2002. NANNI, A. L'educazione interculturale oggi in Italia. Brescia: EMI, 1998. NOSELLA, P. Filosofia da Educação: multiculturalismo e interculturalismo. Dossiê: Educação do Campo: processos formativos no Espírito Santo e no Brasil. v. 1 n. 4 2020. OLIVEIRA, A. M. de; GEREVINI, A. M.; STROHSCHOEN, A. A. G. Diário de bordo: uma ferramenta metodológica para o desenvolvimento da alfabetização científica. Revista Tempos e Espaços em Educação. São Cristóvão, Sergipe, Brasil, v. 10, n. 22, p. 119-132, maio 2017. PAVIANI, J. Epistemologia prática: ensino e conhecimento cientifico. Caxias do Sul, RS: Educs, 2009. SANTOS, Boaventura de Sousa; MENESES, Maria Paula. Epistemologias do Sul. São. Paulo; Editora Cortez. 2010. SANTOS, Boaventura de Sousa. Dilemas do Nosso Tempo: globalização, multiculturalismo e conhecimento. Educação e Realidade, [S. l.], v. 26, n. 1, 2013. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/educacaoerealidade/article/view/41311. Acesso em: 1 maio. 2023. SANTOS, Boaventura de Sousa. Um Discurso sobre as Ciências. Porto: Afrontamento, 1987. 4955 CUADERNOS DE EDUCACIÓN Y DESARROLLO, Portugal, v.15, n.6, p. 4942-4955, 2023 SANTOS, Boaventura de Sousa. Para uma sociologia das ausências e uma sociologia das emergências. Revista crítica de ciências sociais, v. 6, n. 3, p. 237-280, 2002. Acesso em: 1 maio. 2023. TAVARES, M. Resenha de “Epistemologia do Sul” de Boaventura de Sousa Santos e Maria Paula Meneses (org.). Revista Lusófona de Educação, 13, 2009, p. 183-189. TAVARES, M. Culturas e Educação: a retórica do multiculturalismo e a ilusão do interculturalismo. In: Revista Educação e Cultura Contemporânea. v. 11 25., 2014. p. 163- 190. TESSER, G. J. Principais linhas epistemológicas contemporâneas. Educar, Curitiba, n. 10, p. 91-98, 1995.