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© 2021 ILSI Brasil International Life Sciences Institute do Brasil ILSI BRASIL INTERNATIONAL LIFE SCIENCES INSTITUTE DO BRASIL Rua Hungria, 664 — conj.113 01455-904 — São Paulo — SP — Brasil Tel./Fax: 55 (11) 3035-5585 e-mail: ilsibr@ilsi.org.br © 2021 ILSI Brasil International Life Sciences Institute do Brasil Esta publicação foi possível graças ao apoio da Força-Ta- refa Nutrição da Criança, subordinada ao Comitê de Nutrição e este ao Conselho Científico e de Administração do ILSI Brasil. Na página 142, encontra-se a lista dos membros do Conselho Científico e de Administração do ILSI Brasil e na página 143, as em- presas mantenedoras da Força-Tarefa de Nutrição da Criança em 2020. As afirmações e opiniões expressas nesta publicação são de responsabilidade dos autores, não refletindo, necessariamen- te, as do ILSI Brasil. Além disso, a eventual menção de determi- nadas sociedades comerciais, marcas ou nomes comerciais de produtos não implica endosso pelo ILSI Brasil. O ILSI Brasil – International Life Sciences Institute do Brasil – é uma organização mundial sem fins lucrativos e de integração entre aca- demia, industria e governo. Sua missão e estimular a discussão e aplicação da ciência em temas que visam a melhora da saúde e do bem estar público e preservação do meio ambiente. Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 4 COORDENAÇÃO CIENTÍFICA: Tulio Konstantyner Médico e Pediatra, com área de atuação em Nutrologia. Mestre e Doutor em Ciên- cias Aplicadas à Pediatria (UNIFESP). Pós-Doutorado em Epidemiologia e Saúde Pública pela London School of Hygiene & Tropical Medicine e em Medicina pela Universidade Federal de São Paulo. Professor Adjunto I e Vice Chefe da Disciplina de Nutrologia (EPM/ UNIFESP). Membro Titular do Departamento de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria. Coordenador científico da força-tarefa de Nutrição da Criança do International Life Sciences Institute (ILSI Brasil). REVISÃO CIENTÍFICA: Joel A. Lamounier Médico Pediatra pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Especialista em Nutrição pela Universidade de São Paulo. Mestre em Bioquímica e Imunologia (ICB- -UFMG) e Doutor em Saúde Publica e Nutrição pela Universidade da Califórnia/EUA. Professor titular de Pediatria da UFMG e da Universidade Federal de São João Del Rei (UFSJ - Campus Sede). Chefe do Departamento de Medicina da UFSJ. Pesquisador Bol- sista de Produtividade CNPq 1D. Segundo Vice-presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria. Membro do Comitê de Nutrologia da Sociedade Mineira de Pediatria. Mem- bro do Comitê Científico Consultor do International Life Sciences Institute (ILSI Brasil). AUTORES: Adriana Ronchetti Psicóloga Clínica pela Universidade de São Paulo (USP). Pós- graduada pelo Hos- pital das Clínicas (HC-FMUSP). Especialista em tratamento psicológico de crianças e ado- lescentes, assim como em orientação de pais e terapia Familiar. Atuou como psicóloga e acompanhante terapêutica (at) nas instituições: Hospital das Clínicas (HC/FMUSP), Es- cola Paulista de Medicina (UNIFESP - Ambulatório de Cognição Social), CAPS Infantil Mooca - Prefeitura de São Paulo, Clínica Psiquiátrica Recanto Maria Tereza, entre outras. Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 5 Atualmente atua como psicoterapeuta em consultório particular atendendo crianças, adolescente e suas famílias. Ministra cursos, grupos de estudos e supervisões voltados para infância e adolescência. Aline Hessel Psicóloga formada pela PUC/SP com formação em Terapia Cognitiva Comporta- mental pelo IpqHC - USP. Mestre em qualidade de vida e saúde mental pela UFES e Edu- cadora Parental em Disciplina Positiva formada pela Positive Discipline Association – USA. Ana Paula Black Dreux Nutricionista pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mestrado em Nutrição Hu- mana pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e Doutorado em Ciências Médicas pela Universidade Federal Fluminense. Atualmente é nutricionista e docente da disciplina de Nu- trologia Pediátrica da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Cristina Giovannetti Del Conte Especialista, Mestre e Doutora em Odontopediatria – FOUSP. Professora dos Cur- sos de Especialização em Odontopediatria da FUNDECTO – FOUSP e FAPES. Vice Coor- denadora do Grupo de Saúde Oral da Sociedade de Pediatria de São Paulo. Dentista da Equipe de Estomatologia e Cirurgia Oral e Oncologia Clínica do Hospital Santa Catarina. Daniela Forlin Pereira Passoni Especialista e Mestre em Odontopediatria – FOUSP. Doutora em Ciências apli- cadas à Pediatria - EPM/UNIFESP. Fellowship at CDC - Center for Disease Control and Prevention Atlanta, Georgia, USA. Viral division/ Epi branch/Herpes team. Professora do curso de graduação em Odontologia da FMU. Gilberto Martinez Junior Profissional de Educação Física (Universidade de Mogi das Cruzes). Pós-graduado em Personal Training (FMU); Fisiologia do Exercício (UNIFESP); Treinamento Esportivo (Universidade Gama Filho); Biomecânica do Esporte (Universidade Gama Filho). Mestra- do em Biologia Molecular - (UNIFESP). Doutorando em Biologia Molecular (UNIFESP). Atua como Personal Trainer e Fisiologista (prestação de serviços em institutos de medici- na integrativa, academias e clubes esportivos). Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 6 Maria Arlete Meil Schimith Escrivão Pediatra com área de atuação em Nutrologia pela Associação Brasileira de Nutro- logia (ABRAN) e Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP); Mestre e Doutora pelo Progra- ma de Pós-Graduação em Pediatria da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Orientadora do Programa de Pós-Graduação em Nutrição da UNIFESP. Responsável pelo Setor de Obesidade da Disciplina de Nutrologia do Departamento de Pediatria da UNIFESP. Coordenadora do Grupo de Trabalho sobre Prevenção da Obesidade Infantil do Departamento de Nutrição da Sociedade de Pediatria de São Paulo. Patricia Junqueira Fonoaudióloga (PUC-SP), Especialista em Motricidade Orofacial pelo Conselho Federal de Fonoaudiologia (CFFa), Mestre em Distúrbios da Comunicação (PUC-SP) e Doutora em Distúrbios da Comunicação Humana (UNIFESP). Idealizadora e responsável pela Coordenação do Instituto de Desenvolvimento Infantil. Possui 30 anos de experiên- cia clínica no atendimento a bebês e crianças, identificando e tratando questões da mo- tricidade orofacial, alimentação e fala. Estuda extensivamente e é pioneira no Brasil na utilização de uma Abordagem Integrativa e Responsiva para as Dificuldades Alimentares Infantis. Atualmente ministra cursos pelo Brasil e exterior capacitando fonoaudiólogos para atuarem com dificuldades alimentares infantis com esse conceito integrativo. Publi- cou vários artigos científicos e é autora de vários livros. Rosane Quaranta Lessa Nutricionista, Mestre pelo Programa de Saúde Coletiva da Universidade Federal Fluminense (UFF). Pós-graduação “Latu Sensu” em Fitoterapia na Prática Clínica (Asso- ciação Brasileira de Fitoterapia – Abifit/Nutrinew) e em Vigilância Sanitária (Centro Uni- versitário Plinio Leite). Especialista em Fitoterapia pela ASBRAN. Capacitação em Saúde Coletiva pela UFF. Nutricionista do Ambulatório Geral de Nutrição, preceptora de re- sidência, membro da Comissão de Educação Permanente e membro da Comissão de Curativo do HUAP/UFF. Atua como nutricionista em consultório. Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 7 PREFÁCIO O excesso de peso é considerado um importante problema de saúde pública, sendo é um dos distúrbios nutricionais mais prevalentes em todo o mundo e em todas as faixas etárias. O excessivo acúmulo de gordura corporal desencadeia um processo in- flamatório crônico que acarreta graves repercussões orgânicas e psicossociais. A perma- nência deste desequilíbrio metabólico desde o início da vida por longoda microbiota intestinal do lactente57 e do futuro adulto, já que a mesma se torna complexa e estável a partir de 2,5 anos de idade.55,58 Outros fatores que poderão promover alterações da microbiota intestinal ao longo da vida são causas ambientais, Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 39 procedimentos cirúrgicos e antibioticoterapia.59,60,61,62 Esses gatilhos poderão levar à formação de uma microbiota intestinal menos diversificada, o que pode aumentar o fator de risco de desenvolver o fenótipo de obesidade.63,64 Apesar de todos os benefícios já bem estabelecidos do aleitamento materno, caso haja impossibilidade do mesmo, o profissional de saúde deverá indicar fórmula infantil com baixo teor de proteína, a qual deve ser preparada de forma segura respei- tando-se os padrões de higiene.10,17,43 O leite de vaca fluido somente deve substituir o aleitamento materno ou fórmula infantil na impossibilidade da sua manutenção, a partir dos 9 a 12 meses de vida, por não atender às necessidades de macro e micronu- trientes de lactentes menores.17,52,53 Ao completar 6 meses de vida, o lactente já sustenta a cabeça e possui movi- mento vertical da mandíbula. Esse é o momento para ser estimulada a introdução de novos alimentos. Nessa fase, em horários intercalados com o aleitamento materno ou fórmula infantil, os pais/cuidadores deverão oferecer todos os grupos de alimentos (cereais, leguminosas, hortaliças, proteína animal, frutas), preferencialmente em sua forma in natura ou minimamente processada.17,52 É mandatório respeitar a consistência, a variedade e a quantidade para o preparo da papa principal de misturas múltiplas.17,32 A alimentação complementar pode ser iniciada com pequenas porções de ali- mentos (2 a 3 colheres de sopa por dia) e aumento gradual de acordo com os princípios da alimentação responsiva, evitando-se assim a ingestão excessiva.17,53,65,66 Portanto, é de suma importância que profissionais de saúde orientem aos pais/cuidadores sobre a abor- dagem responsiva visando a interpretação adequada dos sinais de fome e saciedade.43 Quanto aos sinais de saciedade, eles podem ser percebidos pelo ato de parar de ma- mar/comer, fechar a boca, desviar a face, brincar e/ou morder o mamilo ou dormir.17,53 Outras orientações que podem ser fornecidas para construção de hábitos ali- mentares saudáveis e dessa forma na prevenção futura da obesidade são: introdução de alimentos alergênicos como produtos lácteos (queijo e iogurte natural), ovo, amen- doim, nozes, peixe, marisco, trigo e soja por volta dos 6 meses de idade, mas não antes dos 4 meses de idade.17,53 Deve ser introduzido um por vez, respeitando-se um intervalo de 2-5 dias entre cada um deles.17,53 Bebidas adoçadas e alimentos ultraprocessados não devem fazer parte da ali- mentação de crianças menores de 2 anos de idade52 por serem altamente energéticos e de baixo valor nutricional, podendo apresentar elevada quantidade de açúcar, gor- dura, sódio e aditivos, o que os tornam hiperpalatáveis, influenciando negativamente Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 40 as preferências alimentares futuras.30,67 A oferta do mel também não é recomendada até os 2 anos de idade devido a sua alta concentração de açúcares, apesar de já ser seguro contra o risco de botulismo infantil após 12 meses de vida.52 Também não é recomenda- da a adição de sal de cozinha nas refeições de lactentes menores de 1 ano de idade.17,22 Deve-se dar preferência à ingestão de fruta in natura ao invés de suco,52, 53 não sendo recomendado oferecer suco de fruta a crianças menores de 1 ano. Entre 1 a 3 anos, apesar de desnecessário pode ser ofertado até 120ml por dia de suco natural sem açúcar.52 A água própria para consumo deve ser oferecida em copo de transição assim que for introduzida a alimentação complementar, não devendo ser substituída por nenhum outro líquido.52, 53 Concomitante ao hábito alimentar saudável, o estímulo à prática de atividade física de forma lúdica e recreativa devem ser estimulados, exemplos disso são rolar, engatinhar e andar o que auxilia peso adequado para a faixa etária infantil.1,22 Deve ser evitada a exposição de crianças menores de 2 anos às telas.22, 68 Também é importante estimular as horas adequadas de sono,22 uma vez que é essencial para desempenho cognitivo, processos fisiológicos, regulação emocional, além da manutenção da saúde e bem-estar geral. A National Sleep Foundation (NSF) recomenda que recém-nascidos (0 a 3 meses) tenham 14-17 horas por dia de sono, bebês com 4 a 11 meses de vida necessitam dormir de 12-15 horas e crianças de 1 a 2 anos de idade deveriam ter 11-14 horas de sono. Por outro lado, durações de sono aci- ma do recomendado podem trazer prejuízos no que tange o desenvolvimento motor, cognitivo e emocional devido à limitada interação ambiental do lactente.69 Por fim, os profissionais de saúde podem utilizar diversos instrumentos como ferramenta de apoio no estabelecimento da sua conduta médica e nutricional. No Bra- sil, em 2018 a Sociedade Brasileira de Pediatria publicou o “Manual de Alimentação: orientações para alimentação do lactente ao adolescente, na escola, na gestante, na prevenção de doenças e segurança alimentar”, e em 2019 o Ministério da Saúde lançou o “Guia alimentar para crianças menores de 2 anos”, ambos baseados em evidência científica para nortear os profissionais de saúde.17,52 Já o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos elaborou o material educativo MyPlate, disponível no site Choo- seMyPlate.gov onde podem ser encontrados diversos materiais, imagens e gráficos imprimíveis gratuitamente.41 Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 41 2.6. Fase pré-escolar Durante a fase pré-escolar (2 a 6 anos de idade) há uma desaceleração do cresci- mento e do ganho de peso com consequente redução das necessidades nutricionais.17 Nessa fase, deve-se evitar o ganho de peso rápido, caso contrário, conforme anterior- mente mencionado, essa condição poderá persistir até a idade adulta.8,50 Por ser uma fase de plasticidade no desenvolvimento, onde a formação de hábitos de vida saudá- vel pode ser uma oportunidade para prevenção da obesidade, o uso de estratégias voltadas para o estilo de vida saudável que englobe o ambiente escolar e o ambiente domiciliar é de suma importância nesse processo.8,22,32,70 O ambiente propício para manutenção de um padrão alimentar saudável que vem sendo construído desde a lactação deve ser estimulado, consolidando bons há- bitos alimentares e a prática de atividade física.8,9,33,70 Por outro lado, padrões com- portamentais obesogênicos que tenham sido iniciados na primeira infância devem ser desestimulados nesta fase, por representar um ponto importante de intervenção.71,72 Assim, orientações com abordagem multidisciplinar para a prevenção de obesi- dade poderão ser focadas, tanto em âmbito familiar quanto escolar.32 No âmbito fami- liar é importante esclarecer aos pais/cuidadores que eles atuam como modelos para as crianças.9,10,65 Visando a promoção de hábitos alimentares saudáveis, os mesmos devem definir limites estruturados.73 É mister estabelecer horários para as refeições, evitando pular ou substituir por lanches, oferecer alimentos saudáveis, promover um ambiente calmo e sem distrações, estimular o hábito de mastigar, dar reforço positivo através de elogios e sempre que possível, permitir que a criança tenha autonomia nas preferências alimentares.43,73,74 Em contrapartida, adoção de práticas de controle coer- citivo, como restrição (recompensas através da alimentação) ou ainda práticas permis- sivas (utilizando a comida como forma de proporcionar conforto) ou até mesmo não ter regras ou limites estão associados ao maior consumo energético, menor qualidade da dieta e redução da percepção de auto-regulaçãoalimentar.10,43,73,75 Intervenções feitas no ambiente escolar também podem proporcionar resulta- dos satisfatórios para a prevenção de obesidade infantil.72,76,77,78 Para isso, desde 1955, foi criado o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Dentre as medidas adotadas estão maior oferta e exposição a alimentos saudáveis como hortifrútis, aliada à abordagem sobre educação alimentar e nutricional e estímulo a hortas escolares, as quais estimulam preferências alimentares mais saudáveis nessa fase de vida.79,80 Outra Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 42 medida importante foi o lançamento, em 2010, pelo Ministério da Saúde do “Manual das cantinas escolares saudáveis: promovendo a alimentação saudável” que reforça a qualidade de vida através da alimentação81 e as orientações podem ser expandidas para escolas particulares. O papel educativo da escola no contexto alimentar deve fomentar que pais/ cuidadores enviem lanches de qualidade17,82 evitando a aquisição de alimentos ultrapo- cessados.32,82 Para desencorajar o consumo desse tipo de preparação é possível fazer substituições alimentares mais saudáveis e ao mesmo tempo saborosas, como as que constam na lista abaixo. • Bebida gaseificada ou suco/refresco industrializado: substituir preferencial- mente por fruta inteira e água potável.* Outras opções são água saborizada com frutas e especiarias, água de coco, refresco utilizando frutas com baixa carga glicêmica como maracujá, limão, caju, acerola sem adicionar açúcar.* *Deve-se respeitar a quantidade de refresco/água de coco por faixa etária, conforme consta no texto. • Biscoitos, bolos industrializados e salgadinhos fritos: substituir por pipoca de panela, milho cozido, oleaginosas (castanha-do-pará, castanha de caju, amendoim, etc.), biscoito de arroz, biscoitos, bolos, pães e crostinis caseiros, snack caseiro (grão de bico assado, cenoura palito e batata chips assada). *As preparações podem ser enriquecidas com frutas, verduras e legumes tanto na massa quanto no recheio. A farinha de trigo também pode ser substituída parcial ou integralmente por farinha de trigo integral, farinha de arroz, farinha de chia, aveia e linhaça. • Caldos industrializados: usar o caldo de cozimento de carnes, frango e legu- mes para enriquecer e dar sabor aos pratos. • Gelatina industrializada: preparar a gelatina em casa, utilizando alga agar-agar e suco de fruta. Pode colocar frutas picadas para dar mais sabor à preparação. • Granolas e barras de cereal: podem ser feitas em casa, no forno ou frigideira usando castanhas, nozes, amendoins, farelo de aveia, trigo, fruta seca e mel. Pode ser consumido como petisco ou no iogurte. • Hambúrgueres, almôndegas e nuggets industrializados: preparar em casa usando carne moída magra (frango, chã e patinho) e temperos naturais a gosto. • Iogurtes com corantes e adição de açúcares: substituir por iogurte natural sem açúcar batido com fruta ou adicionado de fruta picada. • Massas instantâneas: usar as integrais sem adição de gordura vegetal trans ou Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 43 interesterificada ou massas caseiras enriquecidas com espinafre, beterraba, cenoura e abóbora, por exemplo. • Molhos de salada com alto teor de sódio e gorduras: usar iogurte natural, bio- massa de banana verde, azeite e vinagre, molho de maracujá. • Sorvete ou picolé industrializados: preparar o sorvete em casa, utilizando como base banana congelada, iogurte natural, suco de fruta ou leite. Portanto, o padrão alimentar de crianças em idade pré-escolar deve ser cons- truído utilizando-se como base alimentos in natura ou minimamente processados.29,30 É importante incentivar o consumo de frutas inteiras ao invés de sucos para aumentar a ingestão de fibras ou limitá-lo a um volume diário de 120ml para crianças de 2 a 3 anos e 175 ml para aquelas com 4 a 6 anos de idade.17 A ingestão de água potável deve fazer parte da rotina diária de crianças e ela não deve ser substituída por bebidas ga- seificadas ou adoçadas.10,32,83,84 Os alimentos processados devem representar uma pe- quena parcela da alimentação e os ultraprocessados devem ser evitados ao máximo.22 Ingredientes culinários processados, como açúcar e sal iodado, devem ser utilizados em pequenas porções como parte de preparações culinárias, respeitando-se os limites estabelecidos de consumo, além de limitar a ingestão de calorias provenientes de óle- os e gorduras (principalmente saturada e trans). Os mesmos devem ser utilizados em pequenas porções para temperar, cozinhar e criar preparações culinárias, sem torná-las nutricionalmente desbalanceadas.22,41,84 O uso de adoçantes como substituto do açúcar de adição e preparações contendo adoçantes devem ser desencorajados, salvo por indicação de profissional de saúde.84 Tão importante quanto manter hábito alimentar saudável, é estimular o lazer ativo preferencialmente com atividades aeróbicas, como passeios ao ar livre, andar de bicicleta, jogar bola, correr, brincar com o cachorro, pular corda sempre respei- tando as preferências individuais.22,32 O ambiente escolar torna-se fundamental neste processo servindo de oportunidade para aumentar o número de horas de educação física e desenvolver novas habilidades motoras.10,85 Com o intuito de reduzir atividades sedentárias, o tempo gasto com telas deve ser de no máximo 1-2 horas por dia,22,32,68 evitando-se televisão e computadores no quarto da criança.85 Para crianças em idade pré-escolar é recomendado de 10 a 13 horas de sono por dia para manutenção da saúde cognitiva, emocional e física, assim como para o bem-estar geral, já que menor duração de sono tem sido relacionada com risco de Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 44 obesidade69 por causar mudanças na ingestão calórica e no metabolismo, como redu- ção da sensibilidade à insulina.32 2.7. Fase escolar e adolescência A idade escolar (7 a 10 anos) caracteriza-se pela fase de transição entre a infância e a adolescência, sendo que na adolescência (10 a 20 anos) ocorrerão transformações físicas, psicológicas e comportamentais17 que permitirão maior autonomia quanto ao estilo de vida e estabelecimento de metas, possibilitando que condutas nutricionais sejam passadas diretamente a eles, sem intermédio dos pais/cuidadores.85 Em ambas as fases há grande vulnerabilidade no que tange o hábito alimentar e a prática de atividade física, uma vez que sofre forte influência do meio em que vive.17 Assim, profissionais de saúde devem orientá-los a manter o equilíbrio calórico suficien- te para suprir crescimento e desenvolvimento normais sem promover ganho de peso excessivo.41 Como forma de manter hábitos alimentares saudáveis até esse estágio de vida, deve ser mantido o incentivo à escolha consciente dos alimentos, de acordo com a classificação NOVA, conforme descrito na fase pré-escolar.22,29,30 Os pais devem ser orientados a não comprar alimentos ultraprocessados, uma vez que os mesmos já são capazes de escolher e preparar suas próprias refeições, o que pode comprometer a qualidade global da alimentação. Outros aspectos que precisam ser investigados quanto ao hábito alimentar são: tipos de preparações mais consumidas, ingestão de líquidos junto às refeições, número de refeições e repetições.74 Práticas como pular o café da manhã, principalmente entre meninas adolescentes, devido à falta de tempo para prepará-lo, inapetência matinal e como tentativa de manter o peso, devem ser consideradas já que estão associadas ao maior risco de desenvolvimento de sobrepeso ou obesidade.86 Durante a adolescência também é comum iniciar a ingestão de bebidas alcóolicas, sendo necessário desenco- rajar devido ao seu impacto potencial negativo na saúde.84 É muito importante estimu- lar a realização de refeições em família e até mesmoincluir crianças e adolescentes no preparo das mesmas a fim de desenvolver habilidades culinárias.84,87 Preparar refeição e comer na companhia de outras pessoas é uma oportunidade de compartilhamento de experiências e culturas alimentares.84 Lembrando que ambiente calmo, acolhedor, sem interferência de fatores que possam desviar o foco da alimentação e com rotina Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 45 de horários continua sendo fundamental para a promoção e manutenção de hábitos alimentares saudáveis.74 Recomenda-se equilibrar o tempo de tela que não seja por motivo acadêmico e reduzir o tempo gasto com lazer sedentário a fim de aumentar a disponibilidade para prática de atividade física.10,22,85 Estimular atividades como recreação, esportes em geral, atividade física programada, incluindo exercícios aeróbicos, atividades de forta- lecimento muscular e ósseo regularmente serão imprescindíveis para a manutenção do peso adequado.22,41,74,84 Além da dieta e atividade física, horas adequadas de sono auxiliam na manuten- ção da saúde cognitiva, emocional, física e do bem-estar geral, devido a sua relação com o desempenho cognitivo e acadêmico.69 Em adolescentes, a privação do sono também pode causar diminuição do estado de alerta, acidentes automobilísticos, al- teração de humor e obesidade.74 Dessa forma, recomenda-se para a fase escolar e adolescência, 9 a 11 horas e 8 a 10 horas de sono por dia, respectivamente.69 Como a unidade escolar é vista como um ambiente propício para melhorar os hábitos alimentares dentro e fora da escola,88 esse cenário continua sendo importan- te nessa fase da vida. No Brasil, além do PNAE, existe a Lei de Diretrizes e Bases da Educação89 que incluiu o tema educação alimentar e nutricional no currículo escolar de escolas públicas de ensino fundamental e médio, na perspectiva de desenvolvimento de práticas e habilidades que promovam modos de vida saudáveis, segurança alimen- tar e nutricional. Portanto, apesar de escolares e adolescentes já começarem a desenvolver habili- dades de escolhas de estilo de vida, como padrão alimentar e prática de atividade física, que os deixam mais vulneráveis ao meio externo, o apoio da família e da escola continua fazendo parte do pilar para se obter bons resultados na manutenção do peso adequado. 2.8. Manejo e Tratamento da Obesidade Infantil Tratar obesidade infantil é uma tarefa difícil e de longo prazo. Requer equipe multiprofissional especializada para promover mudanças na alimentação, atividade fí- sica, ajustes na dinâmica familiar para obtenção de adesão à terapia e apoio psicosso- cial, ou seja, mudança no estilo de vida.32,74,90 Na tentativa de se obter resultados satisfatórios no tratamento da obesidade infantil é importante que haja consultas médicas mensais e em alguns casos semanal- Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 46 mente, durante os primeiros meses.32 O objetivo principal é fazer com que crianças e adolescentes com excesso de peso mudem seu padrão alimentar e de atividade física. Isso auxilia a manter ou reduzir sua taxa de ganho de peso, enquanto ocorre um cres- cimento linear e redução do IMC,41,50 sem causar prejuízo na sua velocidade de cresci- mento ou no ganho de massa muscular.74 Vale ressaltar que a obesidade é uma doença crônica podendo ocorrer recidiva, por isso é importante acompanhamento continuo com consultas mais espaçadas mes- mo após ajuste do peso.32 Assim, todas as orientações fornecidas anteriormente para a prevenção do desenvolvimento da obesidade nas diferentes faixas etárias também podem ser utilizadas quando a doença já está estabelecida, ressaltando-se algumas condutas conforme explicitado abaixo. No âmbito cognitivo-comportamental é fundamental orientações quanto à mas- tigação adequada, não usar telas durante as refeições e reduzir atividades sedentá- rias, manter uma rotina de horários para se alimentar evitando beliscos desnecessários e incentivar a redução gradativa das porções de alimentos consumidos em excesso (especialmente ultraprocessados).22,74 Muitas vezes, a sede é confundida com fome, sendo, portanto, essencial hidratação adequada. No ambiente familiar devem ser es- tabelecidas metas, automonitoramento e autoregulação.8 Após a incorporação de mu- danças comportamentais, deve se dar prosseguimento às condutas baseadas no maior consumo de alimentos saudáveis, como frutas, verduras, legumes, cereais integrais, leguminosas, leite e derivados.74 É de suma importância orientar a família que durante esse processo de reeduca- ção alimentar, haja menor disponibilidade domiciliar de alimentos não saudáveis, mas que essa restrição seja feita dando suporte à criança através do estabelecimento de limites saudáveis e incentivos. Práticas de controle coercitivas só aumentam as chances de elas desenvolverem maior interesse por esses alimentos.10,73 Aliado a isso, deve-se promover reeducação alimentar com prescrição de die- ta balanceada com distribuição adequada de macro e micronutrientes, seguindo as recomendações propostas pela DRI,34-40 com atenção especial à vitamina D que por ser uma vitamina lipossolúvel, fica sequestrada no tecido adiposo tornando-se menos biodisponível.91 Deve-se respeitar os conceitos de variedade, moderação e proporcio- nalidade associados às preferências individuais e hábitos culturais para melhor adesão ao tratamento.41,50,74 Com a implementação dessas condutas espera-se que crianças abaixo de 7 anos Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 47 mantenham o peso e crianças acima dessa idade apresentem redução gradativa do peso e consequentemente diminuição das morbidades,74 podendo ser necessário re- dução da ingestão calórica e atividade física vigorosa com estímulo à modificação com- portamental.32,50 Dessa forma, crianças e adolescentes com Z-IMC acima de +2 a perda de peso deverá ser gradual (por exemplo, 0,5 kg por mês) e com Z-IMC acima de +3, a perda de peso poderá ser maior sem exceder 1kg por semana.50 Profissionais de saúde devem estar atentos que quanto maior for a gravidade da obesidade, maiores os riscos de complicações cardiometabólicas, sendo necessário investigar história familiar de doenças e realizar avaliações laboratoriais para identificar comorbidades e tratá-las precocemente.32,50 É também importante considerar o risco de distúrbio do comportamento alimentar na adolescência e início da vida adulta, prin- cipalmente nas meninas.50 Por fim, compreender as escolhas, motivações e o contexto individual que os fazem decidir por não manter um padrão alimentar saudável pode nortear os profis- sionais de saúde na identificação de estratégias mais eficientes para seu controle,32,41 Dentre as causas que também devem ser investigadas durante o processo de manejo da obesidade são: falta de tempo para preparar as refeições saudáveis, recursos físicos, informações corretas sobre o que é de fato alimentação saudável, habilidades culiná- rias da família, acesso e apoio social.33 2.9. Considerações finais A prevalência global de obesidade infantil tem aumentado de forma alarman- te. Mudanças no estilo de vida, tais como adesão a uma dieta saudável, prática de atividade física e redução do sedentarismo são importantes na sua prevenção e trata- mento,8 especialmente quando aliados a programas voltados para o meio ambiente e comunidade a fim de positivamente influenciar o peso corporal pelo comportamento relacionado à saúde.85 Dessa forma, além de ações individuais, todos os setores da sociedade como escola, governo, sociedade científica, indústria alimentícia e mídia deveriam também se envolver com esse propósito.22,90 Caso não haja mudança das políticas atuais, as esti- mativas do número de casos de sobrepeso ou obesidade até 2030 poderá atingir 3,28 bilhões de pessoas, cerca de um terçoda população mundial.30 Tais setores têm papel fundamental no processo de escolha porque podem in- Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 48 fluenciar o quanto as pessoas terão acesso a alimentos saudáveis e a prática de ativida- de física, além de interferir em normas sociais e de valores.41, 90 No âmbito da indústria alimentícia, deve ser incentivada a produção de alimentos com menor conteúdo de gordura total, saturada, sal e açúcar.74 Uma das metas do governo brasileiro é evitar propagandas de alimentos não nutritivos destinados ao público infantil, com a coibição de mensagens que sejam incompatíveis com a vida saudável, divulgar campanhas de conscientização e educação sobre rotulagem e promoção de estilo de vida saudável.92 Iniciativas provenientes de órgãos governamentais devem ser referentes à me- lhoria do estilo de vida. Nesse sentido, é crescente a necessidade de investimentos que permitam acesso a centros recreativos e parques com melhor segurança e espaço, além de estimular o transporte ativo pela construção de ciclovias seguras.71,74 Outra iniciativa governamental começou a ser consolidada com o decreto de 408/2008 para atuar no controle da qualidade de informações sobre alimentos com ações como obrigatoriedade de rotulagem.92 Para auxiliar os consumidores é neces- sário que as leis sobre a rotulagem avancem no sentido de melhorar a visibilidade de informações, sendo de fácil compreensão e não enganosa, utilizar etiquetas que explicitem o teor de nutrientes ou ingredientes de interesse e modo de produção.10,33,74 Outra ação factível por parte governo é a implementação de impostos para pro- dutos ou ingredientes não nutritivos que poderia reduzir o poder de compra de alimen- tos ultraprocessados pelos consumidores e faria com que as indústrias repensassem nos ingredientes contidos no produto final, como forma de reduzir o custo.33,71,74,85 Atualmen- te, o acesso e o consumo de uma alimentação saudável são comprometidos, particular- mente na classe socioeconômica mais baixa, pelos altos preços dos alimentos in natura ou minimamente processados, tempo gasto para o seu preparo e menor durabilidade, quando comparados aos ultraprocessados.10,33 Nesse sentido é imperativo que o gover- no dê estímulos fiscais para facilitar o acesso aos alimentos considerados saudáveis.10 A melhoria da qualidade das refeições oferecidas nas escolas sobressai como outra medida fundamental que deve ser apoiada e fiscalizada pelo governo. Como já previsto no PNAE79 deve ser limitada a disponibilidade de alimentos e bebidas não saudáveis e estimulada a prática de atividade física dissociada de disciplinas teóricas de Educação Física, aproveitando intervalos para essa prática no ambiente escolar.71 Por fim, o combate à obesidade ultrapassa o conceito de escolhas alimentares inadequadas. Não se pode ignorar as influências ambientais que permeiam todo esse cenário e que irão levar à formação de um padrão alimentar insatisfatório. Assim, famí- Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 49 lia, comunidade e governo deverão atuar em conjunto para obter melhores resultados neste campo através de programas de incentivo à prática de atividade física, promoção de escolhas alimentares saudáveis, incluindo tributação adequada e estímulo à produ- ção regional de alimentos, resgatando a cultura alimentar local. 2.10. Referências bibliográficas 1. World Health Organization. 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ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 59 Adriana Ronchetti Aline Hessel 3.1 Introdução Há tempos fala-se sobre a obesidade infantil, tanto em meios científicos como entre a população em geral. Entretanto, mesmo com sua ampla divulgação, a preva- lência da obesidade infantil continua a subir em muitos países, gerando consequências médicas a curto, médio e longo prazos.1 Dessa forma, a obesidade é considerada um problema de saúde pública significativo, com impactos que vão além das consequên- cias físicas, prejudicando também outras áreas da vida das pessoas afetadas.2 Porém, da mesma forma que a obesidade afeta diferentes áreas da vida de uma pessoa, deve-se considerar também que diferentes áreas da vida do sujeito interferem no início e na manutenção da obesidade. Dessa forma, para conseguir intervir numa pessoa obesa, seja ela criança ou não, é preciso olhar para além dos aspectos físicos e de seus hábitos alimentares. Ou seja, com relação tanto ao início como à manutenção do sobrepeso e obesidade deve-se levar em consideração a cultura, a condição social, o contexto familiar, os padrões nutricionais, estresse familiar, possíveis comorbidades, entre outros aspectos que interferem e sofrem interferência dessa condição no indiví- duo obeso.2 Sendo assim, para pensar num tratamento para obesidade infantil, é preciso, além de considerar uma equipe multiprofissional, levar em consideração todas as variá- veis da vida dessa criança (nível biopsicossocial) que podem se relacionar à obesidade, o que deixa clara a complexidade envolvendo tal tratamento.3 Em vista disso, iremos transcorrer sobre tal assunto nesse capítulo, explorando diferentes variáveis que interferem na obesidade infantil, bem como possíveis inter- venções já descritas na literatura. Não temos como objetivo delimitar uma definição ou estratégia absoluta, mas, sim, contribuir com a produção e divulgação do tema obesidade infantil, tão importante e significativo em nossa sociedade. 3.2. Constituição do quadro de obesidade infantil Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 60 As causas relacionadas ao sobrepeso e obesidade infantil são multifatoriais. De- vem–se considerar fatores genéticos, emocionais e também ambientais, relacionados aos hábitos da pessoa, bem como ao momento histórico em que ela se encontra, con- dição social, psicopatologias da criança ou de seus responsáveis e localização geográ- fica (grandes centros são diferentes de pequenas comunidades). Somado a esse olhar global do indivíduo, é importante que ocorram ações voltadas tanto para a prevenção como para a identificação precoce de fatores que podem causar e/ou manter o sobre- peso e a obesidade.4 Contudo, um dos desafios ao lidar com a obesidade infantil é ser capaz de mane- jar um processo dinâmico, no qual ocorrem diversas variáveis que se relacionam entre si, como: o comportamento, a cognição e a regulação emocional; além de parâmetros biológicos e fatores contextuais, como: atitudes dos pais, realidade socioeconômica, alimentação familiar, atividade e padrões nutricionais.1,5 Dessa forma, definir apenas uma relação causal como responsável pelo desenvolvimento da obesidade infantil é limitar demais uma questão humana ampla e complexa. Por isso, foram desenvolvi- dos nesse texto alguns pontos relevantes sobre a obesidade infantil, deixando clara a importância de se pesquisar outras áreas igualmente significativas para prevenção e cuidados com tal condição. Momento histórico e cultural A obesidade é uma condição desenvolvida a partir do consumo maior de ali- mentos calóricos, somado a baixa atividade física. As crianças obesas, além de apre- sentarem tais padrões comportamentais, consomem menos frutas e vegetais desde os primeiros anos de vida, se comparadas a crianças com peso normal da mesma idade.6 Somado a isso, deve-se considerar o momento de urbanização e tecnológico em que se vive. No caso dos grandes centros, a violência se tornou justificativa para crianças e adolescentes ficarem mais tempo em casa e as tecnologias como videogame e in- ternet, cada vez mais sedutoras, contribuindo para uma prática cada vez mais passiva e sedentária.7 Dessa forma, crianças e adolescentes costumam passar mais tempo em atividades como assistir televisão ou jogar videogame.8 Além da diminuição de atividades físicas, outra justificativa para o aumento da obesidade infantil na população global é o impacto da urbanização e da industriali- zação no estilo de vida da sociedade em geral.3 Com a mudança dos tempos, houve Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 61 transformações nos padrões de consumo de alimentos e nas práticas alimentares das famílias. A obesidade em adultos tem sido associada à urbanização e ao estilo de vida sedentário que a acompanha.9. De certa forma, isso pode ser atribuído à crescente industrialização e às mu- danças econômicas que estão ocorrendo e, de alguma forma, levando a um estilo de vida mais sedentário e a mudanças maciças em nossos sistemas alimentares – um processo macro chamado de transição nutricional. A transição nutricional também se refere às mudanças substanciais observadas nos últimos tempos nas dietas das famílias de diferentes países, e foi levantada a hipótese de que ela acompanharia os proces- sos intimamente ligados de urbanização, modernização, industrialização e globaliza- ção. Essa transição abrange uma mudança gradual de alimentos naturais para outros mais processados, carregados de açúcar e gorduras saturadas, e é acompanhada por transições simultâneas a estilos de vida que promovem o sedentarismo de adultos e crianças10. Tais transformações exigem uma exploração aprofundada de fatores nesses ‘ambientes obesogênicos’ que podem contribuir para essas variações nos parâmetros nutricionais. Esse termo, 'ambiente obesogênico', foi cunhado para argumentar que os ambientes físico, econômico, social e cultural das nações industrializadas incentivam um balanço energético positivo em suas populações,11 isto é, há maior consumo que dispêndio de energia. Ambiente familiar Ao falar de obesidade infantil é fundamental buscar informações sobre o con- texto familiar, suas relações e seus hábitos alimentares. Assim como em outras áreas da vida da criança, os pais são uma importante referência na aquisição de hábitos alimentares, tendo influência significativa no início e na manutenção do sobrepeso e da obesidade.12 É dentro de casa que a criança tem a principal referência de compor- tamentos e hábitos de maneira geral, sendo através da observação, da imitação ou mesmo seguindo instruções e reforços pontuais dos adultos que a criança reproduz o que foi aprendido nesse ambiente.13 Sabe-se, por exemplo, que boa parte das crianças obesas também têm pais obesos.14 Ou seja, além de essas crianças terem disponíveis alimentos com alto teor calórico, seus pais são exemplos significativos de hábitos ali- mentares inadequados. O consumo e o estoque de alimentos altamente calóricos em casa facilitam o acesso da criança a esses alimentos e, como consequência, o ganho de peso.15 Alguns Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 62 estudos sugerem, por exemplo, a influência do comportamento materno na ingestão de alimentos pela criança. O alto consumo energético pelas crianças é muitas vezes reforçado pelas mães.13 Esse comportamento das mães de crianças com obesidade pediátrica pode ser justificado, muitas vezes, por elas interpretarem todos os sinais dobebê como falta de comida. Assim, o bebê se sintoniza com a comida como uma fonte de conforto, e isso serve como a única fonte de saciedade para ele.16 Assim, é importante considerar as relações familiares como são estabelecidas, pois elas também podem interferir no desenvolvimento da obesidade infantil. Por exemplo, críticas direcionadas à criança obesa pelos próprios pais são comuns, apre- sentando-se muitas vezes como um tratamento diferenciado se comparado com ou- tras crianças da família.17 O descontentamento com a forma corporal foi observado num número significativo de crianças com obesidade pediátrica, que sentem que não são bonitas.18 Isso geralmente começa no início de sua vida, quando essas crianças enfrentam críticas dos pais e familiares por seu tamanho e forma corporal.19 Soma-se a isso que os pais com excesso de peso têm preferência por bebês mais magros e costumam ridicularizar seus próprios filhos se obesos, causando danos ainda maiores à autoestima da criança.20 Há indícios de que pais obesos são mais rígidos quanto aos hábitos alimentares e, muitas vezes, criticam o próprio filho sobre o peso. Eles também são mais rígidos quanto à disciplina e rigorosos quanto à alocação de alimentos para a criança. Esta, por sua vez, pode assumir uma atitude que possa desafiar os pais logo na primeira infância e comer quando os pais estão fora ou comer fora de casa, contri- buindo ainda mais para o seu próprio ganho de peso.21 Existe um padrão familiar observado no meio em que as crianças obesas convi- vem: geralmente famílias menos unidas, com uma fraca aliança conjugal e presença de possíveis estressores parentais interpessoais – geralmente mães superprotetoras e pais passivos e tímidos.12 Em alguns casos, a ausência de um dos pais (por estar ausente no trabalho, por abandono ou devido à morte) pode levar à superproteção e mimos daquele que permanece presente, o que, por sua vez, juntamente com a indulgência alimentar, pode ser um fator causador de obesidade pediátrica.22 Além da relação entre os familiares, deve-se considerar a relação que a família estabelece também com o alimento, pois essa relação terá impacto direto na obesida- de infantil. Frequentemente os pais utilizam do alimento como recompensa para com- portamentos desejados, associando dessa forma alimentos ricos em calorias a prêmios a serem conquistados e, assim, aumentando a chance de desenvolver na criança um Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 63 desejo grande pela comida, que é esperada ansiosamente.23 Dessa forma, a criança passa a se relacionar com a comida como fonte de prazer e não mais como alimento.3 Além de sua influência direta na alimentação, existem outros fatores no con- texto familiar que também demonstram influenciar na obesidade infantil e merecem aprofundamento. Incluem-se entre eles estresses familiares decorrentes de problemas socioeconômicos, transtornos mentais, violência doméstica, dentre outras questões igualmente impactantes.14 Psicopatologias da criança Outro ponto relevante sobre a obesidade infantil é a relação dela com psicopa- tologias. Pesquisas que utilizaram amostras clínicas e populacionais de crianças obesas entre 5 e 12 anos descreveram a presença de diferentes problemas comportamentais. Dentre eles, incluem-se aspectos psicopatológicos como problemas internalizantes (an- siedade e depressão, isolamento e abstinência) e externalizantes (como hiperatividade, problemas de conduta, baixa autoestima e dificuldade de socialização).24-28 Distúrbios afe- tivos e de ansiedade e conduta, além de transtornos de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), também foram descritos como patologias presentes em crianças obesas.26,28 Problemas comportamentais e emocionais são frequentemente encontrados em crianças obesas, mas é importante deixar claro que não são todas as crianças obesas que apresentam alguma questão psicossocial. O que alguns estudos demonstram é que há uma inter-relação entre obesidade e problemas psicológicos, ou seja, o sofri- mento psicológico clinicamente significativo pode promover ganho de peso, e a obe- sidade pode levar a problemas psicossociais.2 Entretanto, apesar dos indícios de inter- -relação entre obesidade e fatores psicológicos (como, por exemplo, impulsividade, depressão, ansiedade, influências familiares e mau funcionamento social), ainda não há uma definição clara e precisa dessa interferência.24,29 Psicopatologias parentais Embora os estudos anteriormente mencionados indiquem uma associação entre obesidade e problemas psicológicos graves, é importante levar em consideração que a psicopatologia pode não se dever apenas à experiência de provocações e a decor- rentes prejuízos à qualidade de vida, frequentemente associados à obesidade,26,30 mas também ser transmitida pelas famílias. Alguns autores25,27 investigaram a psicopatolo- gia materna, o status socioeconômico (SES) e o excesso de peso da criança para testar Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 64 a influência desses fatores no funcionamento psicológico da criança. Foram encontra- das associações positivas entre psicopatologia materna, SES e os problemas emocio- nais e comportamentais da criança.25,27,28 Corroborando esse resultado, outro estudo, que investigou crianças de 8 a 12 anos de idade acima do peso e obesas em busca de tratamentos para a população em geral, confirmou que a psicopatologia da mãe é um preditor dos problemas psicológicos da criança.31 Comportamento alimentar descontrolado Além de internalizar e externalizar problemas comportamentais, há evidências crescentes de que, da mesma forma que adultos obesos que sofrem de transtorno da compulsão alimentar periódica (TCAP), o comportamento alimentar descontrolado parece prevalecer em crianças e adolescentes obesos.32 Embora a perda de controle sobre a alimentação apareça também em crianças e esteja associada ao aumento da psicopatologia geral e de transtornos alimentares, existem várias diferenças importantes na fenomenologia da compulsão alimentar em crianças em comparação com adultos.32-34 A compulsão alimentar incontrolável é as- sociada a um aumento substancial da massa gorda, de 15%, conforme indicado por um estudo longitudinal prospectivo ao longo de 4 anos.35 As crianças experimentam compulsões também durante refeições regulares ou em ocasiões especiais, como em festas ou durante os lanches oferecidos.33 Como nos adultos, a quantidade de ingestão de energia parece ser menos im- portante para a identificação de episódios de compulsão alimentar do que a sensação subjetiva de perda de controle.33 Como a maior parte das crianças não cumpre os cri- térios para reconhecimento de TCAP em adultos, e acaba sendo diagnosticada com EDNOS (que não tem critérios tão específicos)34 foram desenvolvidos critérios específi- cos para avaliar a compulsão alimentar em crianças, o que levou a esforços substanciais para a definição e avaliação da compulsão alimentar na infância. Com base nos dados atuais, Tanofsky-Kraft et al.32 adaptaram os critérios originais para adultos e sugeriram avaliar a experiência de 'perda de controle alimentar’ ou ‘Loss of Control Over Eating (LOC)’, definida como a experiência de perda de controle independentemente da quan- tidade de ingestão de energia, em vez de utilizar o quadro completo do TCAP adulto.32 Estudos transversais que examinam a compulsão alimentar e a ingestão com LOC em diferentes amostras não clínicas em crianças, usando diferentes métodos de questionário, encontraram taxas de prevalência variando de 2 a 10%.32 Outro estudo36 Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 65 investigou 162 crianças com excesso de peso que não procuravam tratamento, usando uma metodologia de entrevista especializada (Inventário de Transtorno Alimentar da Criança, Ch-EDE),37fornecendo uma taxa de prevalência de cerca de 9% para a alimen- tação com LOC. Embora essa seja mais frequente em grupos obesos que procuram tratamento, com taxas de prevalência subindo de 15 a 36%,38 nenhuma das crianças avaliadas sofria de TCAP. Um estudo recente investigou o curso natural da compulsão alimentar durante um ano em 259 crianças (8 a 13 anos) da população em geral, bem como em um am- biente clínico, usando o Exame para Transtorno Alimentar para Crianças,39 avaliando assim preditores de manifestação e desenvolvimento de episódios de compulsão ali- mentar.40 No geral, 4,2 e 5% de todas as crianças sofreram episódios de compulsão ali- mentar com avaliação subjetiva ou objetiva de grande quantidade de alimentos. Após 1 ano, a maioria dessas crianças deixou de comer compulsivamente. As preocupações com a alimentação revelaram ter valor preditivo para a manifestação da compulsão alimentar, enquanto o curso da compulsão alimentar foi significativamente influenciado por alimentação restritiva e emocional. Durante o período de 1 ano de acompanhamen- to, 13 crianças desenvolveram comportamento compulsivo (compulsão subjetiva ou ob- jetiva), sendo que crianças obesas tiveram maior probabilidade de relatar episódios de compulsão alimentar quando comparadas a crianças normais e com excesso de peso.40 As conclusões desse último estudo apoiam os relatos cognitivo-comportamen- tais da compulsão alimentar e sugerem que a compulsão alimentar pode ser causada por um déficit na alimentação emocional de regulação de afetos como resposta a um estado de excitação adversa,41 em combinação com o envolvimento em restrições ali- mentares rigorosas. Segundo Westenhoefer et al. (1994),42 a restrição alimentar não é uma construção homogênea, mas inclui um controle rígido e um flexível. O controle rígido é caracterizado por um estilo cognitivo de "tudo ou nada" em relação a, por exemplo, alimentos proibidos. O controle flexível inclui estratégias como a 'permis- são' de quantidades limitadas de alimentos proibidos, sem sentimento de culpa ou compensações planejadas. Em crianças com sobrepeso, os estudos relatam escores elevados de alimentação externa e emocional, bem como o engajamento na alimen- tação restrita, na tentativa de restringir a ingestão de energia para alcançar o ideal de magreza da sociedade.43 Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 66 3.3. Impacto da obesidade no desenvolvimento social e psíquico da criança Ao falar de obesidade infantil e de seus impactos na vida da criança, é importan- te considerar o mesmo olhar global explorados anteriormente nesse capítulo. Além das consequências físicas relacionadas à própria saúde e do potencial desenvolvimento de agravos,44 a criança também sofre efeitos negativos no seu meio social e psicológico.2 Social Além da própria condição física, as crianças com obesidade são frequentemente expostas a estigmatização, provocação, bullying e uso de apelidos por seus colegas.2,3 O excesso de peso corporal não apenas representa uma condição médica persistente, mas também influencia importantes tarefas de desenvolvimento para crianças e ado- lescentes, como interação e integração em atividades entre pares relevantes para a idade. Ou seja, está presente uma ligação entre obesidade e problemas sociais e com os pares, como estigma social e pior auto percepção.24 Socialmente, a criança costuma ser ridicularizada com relação ao tamanho e à gordura corporal. Em alguns casos, até os professores podem chamar essas crianças por certos nomes na sala de aula que contribuem com sua estigmatização. Esse é um fenô- meno observado em crianças e adolescentes.45 Tais vivências têm o potencial de gerar estresse psicológico, baixa autoestima, isolamento social, dentre outras questões.2 Com relação à auto percepção, a partir da experiência social negativa vivenciada pela criança por sua condição física, ela tende a ter uma imagem também negativa de si própria. Existe uma associação negativa estatisticamente significativa entre os escores de autoestima e a obesidade em crianças medida pelo IMC. Ou seja, quanto maior a obesidade, menor a autoestima da criança.46 Um estudo recente mostrou que a exposição ao bullying foi significativamente maior e a autoestima foi significativa- mente menor em crianças com obesidade. Isso é consistente com D. Bacchini et al.47 que relatou que 27% das crianças obesas foram vítimas de bullying. Além disso, Ozmen et al. (2007)48 descobriram que crianças obesas sofrem de vitimização verbal e física e exclusão de atividades em grupo. A partir disso, as provocações com base no peso contribuem para consequências emocionais devastadoras, fracasso acadêmico, rejei- ção pelos colegas, baixa autoestima e depressão. Outro efeito social presente na obesidade infantil é que, além de ser vítima, a criança obesa também pode fazer outras vítimas. Ou seja, ele pode desejar intimidar Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 67 os outros devido ao seu tamanho e, muitas vezes, o assédio moral é o resultado de querer se sentir superior e com poder sobre os outros. Essa atitude pode ser justificada como uma tentativa da criança obesa de superar seus sentimentos de inferioridade devido à sua própria obesidade e ao seu descontentamento com a imagem corporal. O bullying, assim, pode começar até mesmo na primeira infância, e ter continuidade nos anos seguintes.49 Ao considerar as fases posteriores à infância sabe-se, por exemplo, que a obesi- dade é algo indesejável para os adolescentes, pois atua como um obstáculo em uma sociedade que incomoda e humilha crianças obesas.18 Consequentemente, crianças e adolescentes obesos não apenas experimentam baixa autoestima, como resultado de insultos de colegas, mas também apresentam níveis elevados de solidão e tristeza. Assim, a baixa autoestima os levará a duvidar de seu valor e aceitabilidade2 e, com isso, gerará baixa energia e motivação.48 Psicológico É importante frisar que o impacto na vida da criança com obesidade, somado à experiência social negativa, vai além de imagens corporais ruins e prejuízos à autoes- tima. A obesidade infantil e tudo que a cerca têm o potencial de gerar impactos para toda uma vida, uma vez que tal quadro aumenta as chances de desenvolver distúrbios psicológicos.2 A obesidade afeta adversamente o bem-estar psicológico por meio de estigma de peso, baixa autoestima e/ou comprometimento funcional (menos movi- mento e capacidade limitada de se envolver em atividades, causando retração social).49 Além das questões já descritas quanto ao impacto da obesidade na autoesti- ma e na socialização das crianças, essas consequências podem gerar problemas ainda mais intensos e duradouros. Por exemplo, correlatos da obesidade podem representar fatores de risco para depressão futura, principalmente em indivíduos mais vulneráveis. Em um estudo espanhol, por exemplo, foi detectado que o formato corporal aos 5 anos de idade previu um risco 50% maior de depressão relatada pelo médico em adul- tos que estavam acima do peso na infância, embora eles não se ajustassem a uma possível psicopatologia pré-existente.50 O final da infância é um período crítico de desenvolvimento caracterizado por dramáticas mudanças físicas, psicológicas e sociais. Mudanças físicas e de aparência são preocupações essenciais dos adolescentes e, portanto, a obesidade pode predis- pô-los a consequências para a saúde mental.51 Outro ponto importante é que a obesi- Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 68 dade adolescente tem sido associada a um risco aumentado de sintomas de depres- são na idade adulta, ou depressão maior 20 anos após o início do ganho de peso.52,53 A depressão é um problema psicológico emergente em crianças que está asso- ciado ao baixo desempenho escolar e funcionamentosocial prejudicado, e está forte- mente ligado ao transtorno por uso de substâncias e a um aumento do risco de suicí- dio, que é a segunda principal causa de morte evitável entre os jovens.54 A depressão é uma, mas não a única complicação da obesidade em adultos. Depressão e obesidade Depressão e obesidade são dois problemas de saúde desafiadores. Embora compartimentadas como condições de saúde separadas, as evidências sugerem inte- rações e vias comuns. A OMS sugere que a depressão no ano de 2020 será a doença com maior fardo, com custo intensivo e mortalidade relativamente alta.55 A relação entre depressão e obesidade não é apenas um compartilhamento coincidente de alguns sintomas, como distúrbios do sono, comportamento sedentário e ingestão alimentar desregulada, mas parece estar relacionada à fisiopatologia com- partilhada. Ou seja, a ligação entre os dois distúrbios pode ser parcialmente afetada por mecanismos, por exemplo, neurobiológicos, particularmente em termos de regula- ção da serotonina, bem como alterações no eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA).56 Outro ponto em comum entre a depressão e a obesidade é que a depressão está associada à desregulação do sistema inflamatório e ao aumento dos mediadores pró-in- flamatórios. A obesidade foi identificada como uma condição pró-inflamatória crônica, com expressão aumentada de citocinas pró-inflamatórias pelo tecido adiposo, mais liga- da à obesidade central do que à periférica. Portanto, o processo inflamatório relacionado à obesidade surgiu como hipótese para explicar sua relação com a depressão.57 Porém, ainda não está claro se os transtornos psiquiátricos e problemas psicoló- gicos são uma causa ou consequência da obesidade infantil.2 Existem alguns estudos longitudinais relacionando problemas comportamentais a ganho de peso subsequente ou a um risco aumentado de sobrepeso em crianças com peso normal.58,59 Estudos recentes revelam o valor preditivo de transtornos mentais, como depressão ou trans- tornos de conduta, para o desenvolvimento de sobrepeso e obesidade.58,60 Existem, ainda, evidências de que crianças com rápido ganho relativo de peso apresentaram maior prevalência de problemas comportamentais e de aprendizado e maior estresse psicossocial.61, 62 Assim, a inter-relação entre ganho de peso e problemas psicológicos Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 69 pode ser bidirecional, pois o sofrimento psicológico clinicamente significativo pode pro- mover ganho de peso, e o rápido ganho de peso pode levar a problemas psicossociais.28 3.4. Intervenções terapêuticas de transformação do quadro Para aprimorar os esforços para prevenção e intervenções sobre a obesidade infantil, existe uma forte necessidade de detecção precoce de fatores psicológicos, so- ciais e culturais que contribuem para seu desenvolvimento e manutenção.4 A obesida- de infantil representa não uma condição estável, mas um processo dinâmico, no qual comportamento, cognição, regulação emocional e ambiente interagem mutuamente com parâmetros biológicos e fatores contextuais, como atitudes dos pais, alimentação familiar, atividade e padrões nutricionais.1,5 O tratamento da obesidade infantil deve levar em conta a idade da criança e quaisquer condições médicas subjacentes, juntamente com quaisquer problemas emo- cionais divulgados durante o exame e entrevista, bem como a condição sociocultural da criança. Ou seja, considerando a complexidade envolta nesse quadro, uma equipe multidisciplinar é fundamental para compreender todas as variáveis correlacionadas. Equipe multidisciplinar No tratamento da obesidade infantil, ao considerar não somente a saúde física, mas também o bem-estar mental, psicoemocional e social, partimos de um olhar glo- bal sobre a criança. Além disso, observa-se que a obesidade é uma doença que se de- senvolve de forma crônica e com causas multifatoriais. Dessa forma, é importante que o tratamento tenha uma perspectiva multidisciplinar, proporcionando uma assistência integral a crianças e adolescentes. A obesidade faz emergir diferentes elementos que se relacionam de forma dinâmica e simultânea, logo qualquer tentativa de lidar com o tema de forma fragmentada ou unilateral diminuirá as chances de uma evolução posi- tiva do quadro.63,64 Embasando a proposta descrita acima, há evidências de que a abordagem com- portamental multidisciplinar de longo prazo é uma das intervenções mais eficientes para o tratamento da obesidade.65 Essa forma de trabalho, inclusive, tem resultados mais sa- tisfatórios em crianças e adolescentes em comparação ao tratamento de adultos.66,67 Um dos fatores que podem justificar tal diferença está relacionado ao índice de desistência. Em média, 50% dos adultos interrompem o tratamento antes de sua con- Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 70 clusão,68 enquanto em adolescentes cerca de 33 a 45% não dão continuidade ao tra- tamento.69,70 A adesão ao tratamento é considerada parte significativa nos resultados de perda de peso,68 e a prevenção e o manejo eficazes da obesidade ainda na infância são mais fáceis e podem resultar em uma prevenção significativa da obesidade adulta.3 Baixa adesão ao tratamento Outro desafio no acompanhamento da obesidade, seja ela infantil ou não, é a adesão ao tratamento. Estudos apontam uma relação expressiva entre a obesidade em adolescentes e a baixa taxa de sucesso ou mesmo a desistência em programas de perda de peso.70,71 Existe a possibilidade de que crianças e jovens com excesso de peso tenham menor probabilidade de se envolver em comportamentos de promoção da saúde.71 Algumas variáveis levantadas pela literatura que justifica essa dificuldade de adesão estão relacionadas com expectativas irreais, somadas a um nível alto de de- sapontamento e, como consequência, a interrupção do tratamento.72 Outro fator que pode influenciar a baixa adesão ao tratamento de crianças e adolescentes obesos é a presença de transtornos psiquiátricos associados.73 Ao considerar que a adesão ao tratamento tem impacto significativo na perda de peso,68 mostra-se novamente a necessidade de um olhar amplo sobre a obesidade infantil e suas intervenções. Perceber que estão presentes obstáculos psicossociais e biológicos que atrapalham o envolvimento do paciente nas intervenções comporta- mentais74 é o primeiro passo para lidar com tais desafios. Para dar a devida importância a como gerar melhor adesão em programas multidisciplinares no tratamento da obe- sidade, é fundamental uma ampla compreensão sobre a predisposição de comporta- mentos ditos saudáveis ou de risco, gerados a partir da interação de fatores biológicos, psicológicos, ambientais e genéticos.75 Finalmente, deve-se ressaltar que a desistência dos programas para tratamento de obesidade não terá como justificativa nem poderá ser prevista por apenas uma variável iso- lada, o que torna imprescindível a investigação continuada sobre os efeitos que interferem na adesão ou não ao tratamento. Efeitos esses que podem ser independentes ou inter-re- lacionais entre os diferentes fatores envolvidos (biológicos, psicológicos e ambientais).76 Terapia Cognitivo Comportamental Mudanças na alimentação e no nível de atividade física devem fazer parte do tratamento. Contudo, para crianças com problemas comportamentais ou emocionais, Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 71 será de fundamental importância o acompanhamento de um profissional da saúde mental com o objetivo de auxiliar na adesão ao tratamento. A partir das terapias de modificação de comportamento, é possível instrumen- talizar os pacientes com habilidades cognitivas e comportamentais para que busquem um estilo de vida diferente daquele que vinham tendo. Além disso, essa técnica con- tribui com a identificação dos comportamentos responsáveis pela manutençãotempo contribui com o desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis, que têm sido apontadas como as principais causas de morte no mundo. Na sociedade atual, prevenir e tratar o excesso de peso em crianças e adolescen- tes tem sido um verdadeiro desafio. Diversas estratégias de manejo clínico e nutricional foram propostas e são aplicadas em âmbito individual e populacional, mas com pouco sucesso efetivo. A atuação transdisciplinar que envolve a família e o ambiente parece ser uma alternativa promissora, mas requer o desenvolvimento de conhecimento da cultura e da complexidade humana de forma abrangente. Para isso, a formação de equipe inter- disciplinar proativa e integrada é essencial, mas nem sempre possível pela limitação de recursos disponíveis. O texto deste fascículo foi desenvolvido com o objetivo de fornecer conheci- mento científico atualizado a profissionais de saúde que combatem o excesso de peso em seus consultórios e equipes de saúde interdisciplinar. O conteúdo traz orientações práticas e assertivas quanto a definição, diagnóstico, manejo clínico, prevenção e trata- mento do sobrepeso e obesidade na população pediátrica. A ideia foi integrar os conhe- cimentos de diferentes áreas de atuação para um único objetivo: prevenir e controlar a obesidade na infância e adolescência. Motivados pela oportunidade de unir os diversos olhares em um único documen- to com relação ao cuidado com as crianças e adolescentes com excesso de peso, a For- ça-Tarefa Nutrição da Criança do ILSI-Brasil convidou especialistas da área para escrever este fascículo. De forma didática, ele foi dividido de em seis capítulos como a participa- ção de um especialista de cada área de atuação: (1) Pediatria (2) Nutrição; (3) Psicologia; (4) Fonoaudiologia; (5) Odontologia; e (6) Educação Física. Assim, esperamos que a leitura deste documento contribua significativamente com os profissionais que se dedicam a cuidar do grupo etário pediátrico e, também, estimule o desenvolvimento de senso crítico aprimorado e sustentado sobre o conheci- mento científico atual dos aspectos que envolvem este prevalente distúrbio nutricional Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 8 na sociedade atual. Portanto, desejamos que o tempo dedicado a esta leitura promova melhorias na prática assistencial com benefício direto a saúde das crianças e adolescentes. Por fim, agradecemos aos colegas que contribuíram com a sua realização e, con- sequentemente, para a manutenção ativa da educação continuada em nutrição infantil. Tulio Konstantyner Coordenador Científico da Força-tarefa de Nutrição da Criança Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 9 SUMÁRIO 1. Atuação do pediatra nutrólogo 1.1 Introdução 1.2 Repercurssões da obesidade 1.3 Diagnóstico de obesidade 1.4 Circunferência abdominal 1.5 Tratamento 1.6 Pevenção 1.7 Sugestões para a prevenção da obesidade 1.8. Referências bibliográficas 2. Atuação do nutricionista 2.1 Definição e diagnóstico 2.2 Implicações relacionadas à obesidade infantil 2.3 Prevenção da obesidade infantil 2.4 Gestação 2.5 Lactente 2.6 Fase pré-escolar 2.7 Fase scolar e adolescência 2.8 Manejo e tratamento da obesidade infantil 2.9 Considerações finais 2.10 Referências bibliográficas 3. Atuaçãodo psicólogo 3.1 Introdução 3.2 Constituição do quadro de obesidade infantil 3.3 Impacto da obesidade no desenvolvimento social e psíquico da criança 3.4 Intervenções terapêuticas de transformação do quadro 3.5 Conclusão 12 12 12 16 17 18 23 25 26 33 33 34 36 36 38 41 44 45 47 49 59 59 60 66 69 74 Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 10 3.6 Referências bibliográficas 4. Atuação do fonoaudiólogo 4.1 Introdução 4.2 Alimentação responsiva e autorregulação 4.3 Etapas para o tratamento das crianças com obesidade 4.4 Habilidade oral 4.5 Dessensibilização sistemática 4.6 Conclusão 4.7 Referêncis bibliográficas 5. Atuação do odontopediatra 5.1 Introdução 5.2 O papel da dieta na saúde oral 5.3 Comportamento alimentar e a cárie dentária 5.4 Obesidade e a cária dentária 5.5 Erosão dentária 5.6 A influência do aleitamento materno, consistência dos alimen- tos e a mastigação na saúde oral 5.7 O respirador oral 5.8 Distúrbios do sono 5.9 Considerações finais 5.10 Referências bibliográficas 6. Atuação do educador físico 6.1 Introdução 6.2 A obesidade infantil 6.3 A ciência do exercício físico 6.4 Obesidade infantil e comorbidades - efeitos no exerício físico 6.5 Obesidade infantil e abordagem multidisciplinar - atuação do profissional de educação física 6.6 Tratamento da obesidade infantil - o papel do profissional de educação física 6.7 Tratamento da obesidade infantil - da anamnese à prescrição 74 83 83 84 91 95 96 99 99 104 104 105 106 107 109 110 111 112 113 114 118 118 119 120 121 125 126 128 Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 11 de exercícios 6.8 Perspectivas futuras 6.9 Referêncis bibliográficas 7. Diretoria e CCA - 2020 8. Força-tarefa Nutrição da Criança 138 138 142 143 Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 12 1. ATUAÇÃO DO PEDIATRA NUTRÓLOGO Maria Arlete Meil Schimith Escrivão 1.1 Introdução A obesidade consiste em um desequilíbrio do metabolismo energético, que acarreta excessivo acúmulo de gordura corporal, com graves repercussões orgânicas e psicossociais.1 Esse distúrbio nutricional é uma doença com etiologia multifatorial e que resulta da associação de fatores genéticos e ambientais, como hábitos alimentares ina- dequados e estilo de vida sedentário. O fácil acesso aos alimentos industrializados com alta densidade energética, o aumento no tamanho das porções, principalmente dos fast foods, a redução da atividade física e o maior tempo gasto com atividades sedentárias contribuíram para a elevação do número de indivíduos obesos no mundo, atingindo todas as idades e todos os níveis socioeconômicos.2,3,4 O excesso de peso é um dos distúrbios nutricionais mais prevalentes em pa- íses desenvolvidos e em desenvolvimento, entre crianças e adolescentes. No Brasil, a Pesquisa de Orçamentos Familiares (2008-09) revelou que 33,5% das crianças de cinco a nove anos de idade estavam com excesso de peso. Foi detectado um salto no número de crianças com excesso de peso, nessa faixa etária, ao longo de 34 anos. Em 2008-09, 34,8% dos meninos e 32% das meninas estavam com o peso acima da faixa considerada normal pelos referenciais da Organização Mundial da Saúde.6 1.2. Repercussões da Obesidade Psicossociais A obesidade é uma doença estigmatizante, que pode propiciar prejuízos psi- cossociais como isolamento social, bullying, especialmente no ambiente escolar, e pro- cessos depressivos em crianças e adolescentes.7,8 Ortopédicas O abdome proeminente do obeso leva ao deslocamento anterior do centro de gravidade corporal, com acentuação da lordose lombar, aumento da inclinação an- Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 13 terior da pelve e rotação interna dos quadris. Esse quadro pode causar deformidades distais, como os joelhos valgos e os pés planos valgos.9 O excesso de peso também costuma provocar traumas nas articulações que sustentam o peso corporal, como as dos quadris, joelhos e tornozelos, com o desen- volvimento de processos degenerativos e dores articulares. Dermatológicas As estrias são bastante comuns, devido ao esgarçamento da pele provocado pelo excesso de tecido adiposo subcutâneo. As infecções fúngicas, associadas ou não a processos bacterianos, também ocor- rem com muita frequência nas regiões de dobras profundas, facilitadas pela presença da umidade nesses locais e pelo atrito com roupas, principalmente de tecidos sintéticos.10 Nos casos de obesidadede há- bitos nocivos. Dessa forma, é possível contribuir na conscientização dessas pessoas a perceberem que a adoção de tais mudanças é uma oportunidade de experimentar uma vida nova, indo além do controle do peso.72 A terapia cognitivo-comportamental combinada à intervenção baseada na família se mostra mais eficaz, especialmente para crianças obesas mórbidas e com condições médicas que apresentam risco de vida. O programa envolve uma série de módulos de tratamento: (1) início do tratamento: fase de pré-admissão; (2) estabelecimento e manu- tenção de perda de peso; (3) incentivo à aceitação abordagem de expectativas realistas em relação ao peso corporal e de preocupações com a imagem corporal; e (4) manuten- ção do peso a longo prazo. O programa deve incluir a intervenção da família e atividade física. Além disso, a equipe de tratamento deve ser multidisciplinar, envolvendo pediatra, psiquiatra, psicólogo, psicoterapeuta familiar, fisioterapeuta e nutricionista.77 Orientação de pais Estudos apontam que o ambiente alimentar precoce de crianças obesas difere acentuadamente quando comparado ao de crianças não obesas.78 As crianças obesas, além de consumirem uma quantidade maior de alimentos, tendem a ter uma qualida- de de alimento também alta em conteúdo calórico. Elas geralmente têm porções de alimentos com tamanhos elevados e aumento da ingestão de gordura e comem menos frutas e vegetais em comparação com crianças com peso normal da mesma idade.3 Os pais são os responsáveis pela disponibilização de tais alimentos à criança; portanto, eles passam a ter um destaque significativo nesse processo de orientação. Os pais de crianças obesas têm um papel importante no tratamento, e merecem uma atenção especial nesse processo. Seja porque é conhecido que muitas crianças com obesidade pediátrica também têm pais obesos, e esses tendem a contribuir para a criação de um ambiente alimentar que facilita o desenvolvimento da obesidade in- fantil,3 ou porque é comum que os pais de adolescentes mais jovens ou crianças sejam os responsáveis por acompanhá-los no tratamento.79 Por essas ou outras razões, é de Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 72 fundamental importância envolver os responsáveis por essas crianças no aprendizado e no desenvolvimento de ações que proporcionem um estilo de vida mais saudável para elas criança e suas famílias. Especialmente para as crianças, parece ser importante envolver a perspectiva de sofrimento psíquico dos pais e das crianças para evitar que problemas de compor- tamento sejam negligenciados pelos pais.80, 81 Além disso, como os pais de crianças obesas geralmente não estão bem cientes dos problemas de saúde de seus filhos, essa situação pode subestimar não apenas o excesso de peso corporal das crianças, mas também os prejuízos psicológicos associados.81 O objetivo de estabelecer relacionamento com os pais é aumentar a probabili- dade de cumprimento do tratamento, de regimes sugeridos pelo provedor de saúde, entre outras orientações. Em muitos casos, o provedor de saúde verá o pai ou a mãe com problemas de peso semelhantes, e não será o papel do agente de saúde julgar ou culpabilizar essa família. Em vez disso, é importante estabelecer um ambiente seguro para que a criança e o cuidador possam se envolver na busca de soluções e expressar seus sentimentos aberta e honestamente.2 Ações na comunidade É necessário que haja a promoção de esforços em diferentes áreas da sociedade para reduzir o consumo calórico excessivo e para aumentar o gasto energético popu- lacional. Esse esforço deve receber atenção primordial no desenho de programas de saúde coletiva e da família. É importante promover o desenvolvimento de estratégias de intervenção culturalmente apropriadas, que demonstrem ser eficazes entre jovens de diversas origens culturais e socioeconômicas.82 Através de intervenções nas escolas e na comunidade, por exemplo, é possível promover a conscientização e a educação sobre hábitos alimentares saudáveis, pa- drões de estilo de vida e exercícios regulares, hábitos essenciais para prevenir a obe- sidade em crianças.83,84 Além disso, diretrizes estritas de propaganda e intervenção na mídia, que impeçam propagandas falsas de alimentos não saudáveis feitas por celebri- dades adoradas pelas crianças são outro passo nesse sentido.85 Intervenções com profissionais de saúde, pais e funcionários da escola e políti- cas públicas podem contribuir para a prevenção de provocações, atitudes e comporta- mentos relacionados ao excesso de peso.86,87 Assim, intervenções em nível biopsicos- social, usando uma abordagem de equipe multidisciplinar, constituem a pedra angular Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 73 no manejo eficaz da obesidade pediátrica.3 Importância do Estado O Estado, através da escola e da construção de diretrizes, tem papel fundamen- tal no incentivo à prática de atividade física e na orientação quanto a hábitos alimen- tares saudáveis. Para além da escola, as equipes de Saúde da Família devem buscar o desenvolvimento de estratégias, em parceria com as escolas da sua área de abrangên- cia, visando conscientizar crianças, adolescentes e suas famílias sobre a importância da adoção de um estilo de vida saudável, incluindo oferta de alimentação adequada e oportunidades para a prática regular de atividade física. Paralelamente, recursos preci- sam ser direcionados à pesquisa e ao desenvolvimento de práticas efetivas que visem prevenir o sobrepeso e a obesidade, maximizando recursos tanto da família quanto da comunidade em geral.88 São muitos os desafios para implementação de estratégias regulatórias que es- timulem e possibilitem hábitos de vida mais saudáveis à luz das recomendações dos órgãos responsáveis.89 Além de toda a complexidade já colocada que envolve a obe- sidade infantil, o governo ainda precisa lidar com a distribuição adequada de recur- sos, os interesses políticos e econômicos das indústrias de alimentos processados e ultraprocessados, as ações regulatórias sobre a publicidade desses alimentos, disputas de interesses entre os fornecedores da alimentação escolar, além de possíveis dificul- dades para que os agricultores familiares viabilizem a comercialização de seus produ- tos para as escolas, ou mesmo para que se interessem por essa fatia de mercado em comparação a outros circuitos comerciais.89 Outro ponto a ser abordado com relação às medidas públicas é sobre a infor- mação que chega à comunidade e como, de fato, ela pode ser transformada em ação. Nota-se que as pessoas, de maneira geral, possuem conhecimento suficiente sobre o que deve ou não ser feito com relação à alimentação e aos hábitos para emagrecer. Entretanto, existem relatos de que não há liberdade para compartilhar as reais dificul- dades nos serviços de saúde, pois frequentemente os próprios usuários desse serviço sofrem censura ou discriminação. Além disso, a informação prescrita nos casos de obe- sidade se mantém: dieta, atividade física, remédio e/ou cirurgia. Ou seja, as avaliações dos casos ficam restritas à condição física, sem um olhar sobre os reais motivos para aquelas pessoas não conseguirem colocar em prática tais orientações. Geralmente, o profissional da saúde que não envolve os pacientes numa reflexão sobre suas próprias Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 74 ações e apenas impõe sua orientação padrão prejudica a autonomia do paciente, des- considera suas particularidades e dificulta a adesão ao tratamento. Não basta limitar o atendimento a uma mera transmissão de orientações, é importante fazer o paciente se colocar no papel principal de sua vida e conduzir seu próprio caminho. Isso só será possível através de uma escuta ativa e da interação do profissional com a realidade social e subjetiva do paciente. Além disso,existe no atendimento público uma dificul- dade grande em se encontrar equipes multidisciplinares especializadas, o que, por si só, passa a ser mais um obstáculo na prevenção e no tratamento da obesidade.64 3.5. Conclusão Para aprimorar os esforços de prevenção da e intervenção sobre a obesidade infantil, existe uma forte necessidade de detecção precoce de fatores psicológicos que contribuem para seu desenvolvimento e manutenção. A obesidade infantil não re- presenta uma condição estável, mas um processo dinâmico, no qual comportamento, cognição e regulação emocional interagem mutuamente. A estrutura e o contexto fa- miliar – ou seja, as atitudes dos pais e da família, a atividade, os padrões nutricionais e o estresse familiar – têm um papel importante no início e na manutenção do sobrepeso e da obesidade. Problemas comportamentais e emocionais são encontrados em mui- tas crianças obesas, embora não em todas, com maior prevalência em amostras clínicas que buscam tratamento. A inter-relação entre obesidade e problemas psicológicos parece ser dupla, ou seja, o sofrimento psicológico clinicamente significativo pode pro- mover o ganho de peso, e a obesidade pode levar a problemas psicossociais. Os fa- tores psicossociais mais frequentemente implicados são problemas comportamentais externalizantes (impulsividade e déficit de atenção e hiperatividade) e internalizantes (depressão e ansiedade), e comportamento alimentar descontrolado. Esses achados reforçam a necessidade de explorar ainda mais a inter-relação entre problemas psico- lógicos e obesidade infantil. 3.5. 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Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 83 4. ATUAÇÃO DO FONOAUDIÓLOGO Patrícia Junqueira 4.1 Introdução Se nosso desejo é ajudar as futuras gerações precisamos olhar além da nutrição, compreendendo os fatores de interferência para o sucesso do aprendizado alimentar. O sobrepeso na infância já é classificado como uma epidemia global. Hábitos alimentares inadequados e a falta de atividades físicas podem ser as principais causas.1 Uma em cada três crianças, com idade entre cinco e nove anos, está acima do peso no Brasil, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). As notificações de 2019 do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional revelam que 16,33% das crianças brasileiras entre cinco e dez anos estão com sobrepeso; 9,38% com obesidade e 5,22% com obesidade grave. Em relação aos adolescentes, 18% apresentam sobrepeso; 9,53% são obesos e 3,98% têm obesidade grave. Já a Organi- zação Mundial da Saúde (OMS) estima que até 2025 o número de crianças obesas no planeta chegue a 75 milhões.2 A prevenção da obesidade na infância é a melhor forma de evitar complicações de saúde na vida adulta, especialmente, no risco de doenças crônicas como hiperten- são e diabetes. Além do aleitamento materno exclusivo até os 6 meses de vida – e re- comendado até os 2 anos de idade, orienta-se, também, evitar alimentos com excesso de açúcar, sal e gorduras saturadas, equilibrando a dieta com a prática de atividade físi- ca frequente. Estas estratégias de prevenção começam no período pré-natal, com con- trole adequado do peso durante a gestação e um parto seguro. Na primeira infância, destaca-se o aleitamento materno exclusivo até os seis meses de idade e o continuado por dois anos ou mais como a principal ação preventiva do ganho de peso excessivo.1 A alimentação saudável se faz pela oferta de todos os alimentos, de forma cor- reta, em quantidade, qualidade e variedade que permitam o crescimento, desenvolvi- mento e imunidade adequados. O diagnóstico precoce do ganho de peso excessivo deve ser função primordial dos pais e dos profissionais de saúde. Os hábitos alimentares da família impactam diretamente o paladar das crianças, sendo os pais o principal guia para a percepção de coisas boas e ruins de forma incons- Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 84 ciente e consciente. A pouca interação com a criança também pode levar à ingestão inadequada de alimentos.3 A falta de alimentos dentro da casa, restrições alimentares excessivas, hábitos inadequados, fatores culturais, crenças maternas, pressão para comer, falta de rotina alimentar, podem também ser exemplos de situações prejudiciais às crianças. Há evidências consideráveis de que a infância é um período importante para de- terminar o risco futuro de obesidade, bem como as consequências relacionadas a ela.4,5 Uma vez que os hábitos alimentares emergem e são estabelecidos precocemen- te na infância, podendo persistir na vida adulta, compreender comportamentos ali- mentares que possam ser modificáveis e que influenciam o ganho excessivo de peso pode ajudar no desenvolvimento de estratégias de intervenção para combater a obe- sidade infantil.6,7. Por essas razões, orientações para lactentes e crianças pequenas deveriam se concentrar em aconselhar os cuidadores não só em O QUE? as crianças pequenas de- vem comer, mas também em COMO? podem favorecer o aprendizado alimentar bem como comportamentos saudáveis para a vida toda. O objetivo desse capítulo é apresentar a atuação do fonoaudiólogo, fundamen- tada nos conceitos da alimentação responsiva e da abordagem integrativa, como es- tratégia de prevenção e tratamento da obesidade na infância. 4.2 Alimentação responsiva e autorregulação É amplamente aceito que os bebês regulem sua ingestão de alimentos-nutrien- tes através de sinais complexos de fome e saciedade. Práticas ideais de alimentação infantil têm como base respostas apropriadas aos sinais de fome e saciedade da criança8. Através dessas vivencias de respostas a essas necessidades a criança estabelece sua autorregulação. A capacidade de autorregulação das crianças é o centro do trabalho pioneiro de Satter 9, conhecido por Divisão de Responsabilidade. “...relacionamento em que os pais através dessas vivências de respostas, como as necessidades da criança e da fome são responsáveis pelo desenvolvimento, estru- tura e rotina apropriadas de alimentação (o que, quando, e onde comer) e a criança é responsável por quanto e se deve ou não comer o que os pais fornecem.”9 Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 85 O termo Responsive Feeding (RF) apareceu pela primeira vez em pesquisas no início dos anos 2000.10 Descrito em vários artigos em 2011,11-13 a RF reconhece a impor- tância do apoio a habilidades inatas de autorregulação através do estabelecimento parental de um contexto para comer. É considerado a melhor prática de alimentação pela Academia Americana de Pediatria14 e pela Organização Mundial da Saúde.15 A RF envolve o reconhecimento e respeito dos pais aos sinais de fome e ou sa- ciedade das crianças, seguido de uma resposta apropriada para seu estágio de desen- volvimento. Isso é distinto da alimentação não responsiva, na qual os pais permanecem pouco envolvidos ou adotam práticas de controle alimentar como restrição ou pressão para que a criança coma.8 Práticas não responsivas podem interromper a autorregulação e contribuir para recusa alimentar16, descontrole do peso17 e transtornos alimentares.18,19 A RF foca em três necessidadesfundamentais - Autonomia, Competência e Rela- cionamento. Essas necessidades, junto com a autorregulação, são o suporte para a RF, que tem sido associada a um índice de massa corporal mais estável durante toda a vida. Autonomia - Autonomia refere-se a agir de maneira voluntária, congruente e auto aprovada.20. As crianças podem ter graus variados de necessidade de autono- mia, reagindo de maneira diferente à pressão dos pais para comer. A autorregulação da percepção de fome e saciedade, por exemplo, pode ser vista como sendo parte fundamental no contexto da alimentação. Quando a alimentação é dirigida pelos pais em relação ao que e quanto deve ser consumido, a autonomia é comprometida e a autorregulação é dificultada. Competência - Sabe-se que tipos de alimentos oferecidos e métodos de alimen- tação devem estar alinhados com o nível de maturação e desenvolvimento das crian- ças. Se ambos estiverem além das capacidades da criança, ela se verá incompetente e frustrada, podendo assim perder a motivação para comer determinados alimentos. Relacionamento - O relacionamento foi definido como um sentimento de per- tencimento e conexão com os outros; envolve um senso de autoestima, cuidado mú- tuo e importância nas relações humanas.21 As refeições em família fornecem uma rica oportunidade, incluindo a exposição a uma ampla variedade de alimentos, cores, aro- mas, texturas, conhecidas por influenciar significativamente o comportamento alimen- tar das crianças.22 Morris e Junqueira22 descrevem de modo prático como estabelecer entre a crian- ça e o cuidador a RF, visando o desenvolvimento de uma relação de Conforto, Confian- Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 86 ça e Competência com os alimentos e com o momento da refeição. Figura 1. O conceito dos “Quatro Cs” para o aprendizado alimentar.22 Conexão A conexão é a base essencial que dá suporte para os outros três componentes. Outro nome para conexão seria "relacionamento". Como já vimos, a primeira relação importante que um bebê estabelece é com a mãe biológica, em uma conexão íntima e confiante chamada de vínculo. O vínculo começa no útero com o bebê reconhecen- do os ritmos e o estado emocional de sua mãe, bem como sabor e cheiro através do líquido amniótico. Após o nascimento, o bebê reconhece o som da voz de sua mãe e do cheiro de suas mamas. O vínculo e o apego se aprofundam após o nascimento, à medida que a mãe proporciona todo o apoio, orienta o sistema sensorial do bebê e proporciona senti- mentos de segurança a ele. Isso fornece uma base segura a partir da qual o bebê e a criança pequena podem explorar e descobrir o mundo. Desse modo vão estabelecendo um relacionamento com os indivíduos que os alimentam e com o ambiente que os cercam. É importante, também, estabelecer um relacionamento positivo no momento das refeições. Esse relacionamento positivo é um Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 87 “aprendizado” para ambos. Os responsáveis levam tempo para aprender e responder aos sinais verbais e não verbais de prontidão, necessidade e preferências da criança. A forma de lidar positivamente com essa situação reflete um respeito pela criança, na medida em que não a faz ingerir forçosamente um alimento específico ou quantidade de comida durante as refeições. Os pais que estão atentos e identificam os sinais de fome da criança aprendem a interagir com o filho e a preparar as refeições, respeitando seus ciclos naturais de fome e saciedade, tanto quanto possível. Aos pais cabe a responsabilidade de oferecerem alimentos apropriados em um ambiente que sustenta as necessidades da criança e em um momento que seja previ- sível e corresponda aos ciclos gerais de fome da criança. As crianças são responsáveis por suas decisões de quanto comer quando a comida é servida.9 Esse conceito de Divisão de Responsabilidades descrito por Satter(9) colabora para um forte senso de conexão e um relacionamento positivo na hora das refeições, favorecendo o nível de compreensão e empatia dos pais com seus filhos, gerando confiança. Esses são os elementos que dão base ao sistema de apoio para aumentar o conforto da criança du- rante as refeições e a confiança para aceitar formas mais eficientes de comer, descobrir e gostar de diferentes alimentos. Quando a base da conexão não dá apoio, as crianças experimentam mais estres- se, maior tensão física e emocional e níveis mais elevados de desconforto. Elas podem se tornar inseguras sobre suas habilidades e não confiam no que são capazes de fazer. Algumas crianças até desistem e se desligam emocional e socialmente dos outros. A capacidade de aprender é prejudicada pelo foco no desconforto físico e emocional e pela desconfiança em relação aos outros. Conforto Conforto é o mais externo e mais abrangente dos três círculos concêntricos que estão sobre o fundamento da conexão. O conforto físico e emocional possibilita o aprendizado. O conforto ao comer e beber permite que uma criança se aproxime da refeição com o interesse, curiosidade e aceitação que são seus dons naturais. Quando há desconforto, crianças e adultos mudam do modo de aprendizado para o modo de sobre- vivência. Nosso impulso mais fundamental é sobreviver - permanecer vivo. Nosso cérebro é inclinado a reconhecer sinais de perigo mais rápido do que sinais de paz e harmonia. O cérebro prepara-se para sobreviver a uma situação perigosa, desviando o san- Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 88 gue e energia para as extremidades, a fim de combater o inimigo percebido ou fugir. Também muda de um processamento cognitivo da informação pelo córtex frontal para um aumento da ativação do rombencéfalo, que é a sede da reação rápida e automática. Funções como digerir alimentos e sustentar o sistema imunológico tornam-se irrelevantes se você tem medo de sentir dor ou algum desconforto. Para fazer isso, o cérebro inicia uma cascata de hormônios, do hipotálamo à hipófise e às glândulas suprarrenais. Um desses atos retarda a digestão e atrasa o esvaziamento do estômago. O modo de sobrevivência está conectado ao estresse. O cérebro não diferencia entre um perigo físico imediato e um estresse crônico e difuso. O desconforto emocional por outro lado assume muitas formas para uma crian- ça. As crianças com problemas emocionais, como ansiedade, muitas vezes podem comer mais.23 Podem sentir-se emocionalmente recompensadas associando comer a essas experiências vivenciadas. Pesquisas em humanos produziram, também, descobertas relacionadas ao es- tresse e aumento da ingestão de alimentos. Existe, de fato, uma tendência de a maioria das pessoas aumentarem a ingestão de alimentos doces e gordurosos mais do que proteínas quando estão sob estresse.24 Já crianças com dificuldades de processamento sensorial podem experimentar regularmente a resposta ao estresse de luta ou fuga. Visão, olfato, paladar, tato e ou- tros sentidos, obviamente, têm grande influência na hora das refeições. Quando uma criança não é capaz de se sentir confortável frente a esses estímulos, ela pode reagir de modo muito particular. Ela muda o comportamento, tenta escapar da situação da refeição, demonstra medo frente a alguns alimentos e pode engasgar ou vomitar com determinadas texturas, odores ou temperatura dos alimentos.25 São muitas as crianças com comportamento alimentar inadequado que apresen- tam desafios sensoriais.26 Muitos não são diagnosticados precocemente, o que causa, ao longo do tempo, um verdadeiro caos no desenvolvimento alimentar da criança. Identificar precocemente os sinais de uma possível alteração no processamento sen- sorial pode colaborar e garantir o aprendizado alimentar positivo para uma criança. Isso pode ocorrer tanto pelo início do tratamento adequado quanto pelos ajustes e adequações na forma, preparação e adequaçãodos alimentos ofertados. Aqui cabe ressaltar que, crianças típicas com desenvolvimento cognitivo nor- mal, podem apresentar dificuldades no processamento sensorial e não apenas crianças dentro do transtorno do espectro autista ou com déficits neurológicos.27 Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 89 As dificuldades em processar a informação sensorial dos alimentos podem levar à necessidade do uso de distrativos para possibilitar a ingestão o que pode contribuir para um “comer desatento”, contribuindo para uma baixa percepção dos sinais de saciedade, para uma ingestão ainda maior dos alimentos e para o ganho de peso. Ou- tro aspecto muito comum nessas crianças é a dificuldade em lidar com texturas mais fibrosas como os vegetais e proteínas. Alimentos com textura crocante e geralmente homogênea (biscoitos e industrializados em geral) costumam ser mais bem tolerados. Sabemos que esses alimentos podem colaborar para o ganho de peso, bem como, para uma nutrição desequilibrada. Além disso, é bastante comum observarmos um consumo excessivo de leite e, em alguns casos, de suplementos alimentares para garantir a nutrição dessas crianças, contribuindo também para práticas alimentares não responsivas por parte dos pais para garantir o consumo alimentar dos filhos. Os adultos, muitas vezes, acrescentam o estresse às refeições por não ouvirem seus filhos e por criarem pressão direta ou indireta para eles comerem o que acre- ditam ser mais saudável. Os pais ficam preocupados quando as crianças não estão comendo bem (saudavelmente) o suficiente. A ansiedade e estresse são comunicados indiretamente à criança. Devido ao estresse, o estômago e os intestinos processam os alimentos ineficientemente e a digestão é prejudicada. O estresse é um dos maiores contribuintes para as dificuldades de alimentação e de refeições para muitas crianças com desafios físicos, sensoriais e emocionais. É fundamental orientar as famílias a proporcionar um ambiente que dê suporte ao conforto físico e mental, aprimorando automaticamente, o aprendizado e a capa- cidade criativa das crianças e seus pais. Quando o desconforto não é reconhecido ou ignorado, as crianças resistem ou desistem dos desafios de aprendizagem para comer. Confiança A confiança aumenta quando o estresse é reduzido e a criança experimenta maior capacidade física e conforto emocional. O cérebro da criança muda do “modo sobrevi- vência” e do “modo de proteção” para o “modo de aprendizagem”. A falta de confiança gera medo e estresse quando novos alimentos ou sensações são apresentados. Desse modo, os adultos podem ajudar a criança a criar uma relação de confian- ça com os alimentos quando, desde pequenas, já as aproximam das refeições e do contato com os alimentos variados e nutricionalmente adequados. No início a criança Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 90 pode ainda não comer os alimentos da família, mas pode interagir com as múltiplas exposições sensoriais das refeições. Sentir diferentes aromas, visualizar cores e formas e até interagir com alimentos de modo lúdico. Essas vivências ajudam as crianças a de- senvolver consciência e proximidade com os alimentos, aumentando gradativamente, seu nível de conforto e confiança. Competência A competência (ou habilidade) surge mais facilmente quando os aspectos mais fundamentais de Conexão, Conforto e Confiança estão ativos. O desenvolvimento das habilidades de alimentação será muito mais bem-sucedido quando as crianças estive- rem envolvidas de maneira positiva, física e emocionalmente confortáveis. Com a progressão gradativa dos estímulos alimentares (no que tange sabores, consistências, texturas etc.) a criança vai estabelecendo também um “treino” que pos- sibilitará um avanço motor-oral. Esse treino só poderá acontecer se a criança sentir conforto sensorial para pôr em ação os movimentos orais necessários. Em outras pa- lavras, se progredirmos a textura dos alimentos para grãos e pedaços, mas a criança não possuir conforto sensorial para lidar com as características desses alimentos, ela poderá cuspir ou apresentar náusea. Como não consegue lidar com essas texturas, não inicia o processo de aprendizagem da mastigação. Se os pais não identificarem isso, poderão insistir ou até mesmo “enganar” ou distrair a criança para comer. Desse modo a criança, muitas vezes, acaba deglutindo os alimentos inteiros, não progredindo sua habilidade motora-oral. Em outras palavras, cada criança precisa de um "desafio certo" para ter sucesso para aprender algo novo. Se o desafio for grande demais, a criança falhará e não aprenderá; se a tarefa for muito fácil, não há oportunidade para que ela possa aumentar sua habilidade. Mastigação Mastigar bem os alimentos pode ser uma maneira eficaz e fácil de reduzir a quanti- dade de alimentos ingeridos, podendo contribuir para um menor risco de obesidade.28,29 Uma metanálise recente de estudos observacionais, entre adultos, mostrou cla- ramente que comer rapidamente foi associado ao aumento do índice de massa corpo- ral (IMC) e a uma maior prevalência de obesidade.30 Associações positivas semelhantes também foram observadas em crianças.24,31-35 Esses achados levantam a possibilidade de que a reduzir o tempo de mastigação possa ser benéfico em termos de controle de Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 91 peso.36 Vários métodos podem estar disponíveis para reduzir o tempo de mastigação, como a introdução de pausas dentro das refeições, a diminuição da quantidade de comida em cada bocada, ou uma combinação desses métodos.28 Na verdade, estudos recentes sugerem que mastigar lentamente ou aumentar o número de ciclos de mastigação durante as refeições está associado a um IMC menor.37-39 Estudo recente investigou as associações entre quantidade de alimentos ingeri- dos, grau de mastigação e status de peso entre 4.451 crianças japonesas de 5 a 6 anos. A maior quantidade de alimentação e menor grau de mastigação foram associados ao excesso de peso (ambos pem outras preparações) que não possuem habilidade para mastigar devido a uma má-oclusão dentaria que limita seus movimentos mandibulares, exigido para a ingestão de texturas mais pronunciadas e fibrosas. 2) Educação e participação parental Educação e orientação aos pais são a base, pois certas crenças e mitos que os adultos possuem com relação à alimentação infantil, impactam no modo como enten- dem o que a criança deve comer. Se os pais não compreendem a complexidade desse ato, não são capazes de auxiliarem seus filhos, nem mesmo de seguirem o tratamento e orientações propostas. É importante que compreendam que comer é um comportamento aprendido e que, como toda aprendizagem há de que se considerar os pré-requisitos necessários para o desenvolvimento de uma relação cognitiva positiva com os alimentos como: segurança emocional, conforto sensorial e gastrointestinal e habilidade motora-oral. Outro aspecto essencial da abordagem, no processo educativo dos pais, é o esclarecimento da importância da participação e envolvimento familiar. Os pais neces- sitam se envolver com o processo de tratamento, seguindo as orientações propostas e se dispondo a fazer ajustes e mudanças na sua rotina alimentar conforme orientação. Refeições em família, aplicação do conceito de divisão de responsabilidades41 (pais responsáveis pela compra, preparo, modo e horário de oferta dos alimentos x criança responsável pela quantidade ingerida), estímulo à curiosidade e interesse pelos ali- mentos e pelo momento da refeição são partes vitais do tratamento. Parte do sucesso da abordagem baseia-se no envolvimento familiar. Mais do que se envolver, o programa pressupõe que a família seja atuante no processo de cura da criança. 3) Suporte emocional às mães O primeiro vínculo que se estabelece entre a mãe e o filho é por meio da alimen- tação. Quando a mãe se percebe “incapaz” ou que “fracassou” ao alimentar seu filho, sentimentos negativos permeiam sua mente. Identificar e ajudá-las de modo prático a lidar com esses sentimentos e com possíveis crenças, favorece e é, em muitos casos, o primeiro passo para o início do tratamento da criança. Antes de pensar em ações terapêuticas para a criança, é necessário amparar e cuidar das mães. Alguns conceitos devem ser trabalhados com elas de diferentes ma- Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 93 neiras. Esses conceitos são ferramentas poderosas para ajudá-las a sair e ou dar supor- te à situação aflitiva em que, geralmente, se encontram quando o filho não apresenta um comportamento alimentar desejável. 4) Desenvolvimento normal da sequência para o aprendizado alimentar Partindo da premissa que as etapas e habilidades para comer são aprendidas e ensinadas, é necessário identificar e promover estratégias para que a criança desen- volva essas etapas naturalmente. Ou seja, a motivação e curiosidade pelos alimentos deverão ser realizadas no contexto da refeição em família, respeitando as condições apresentadas pela criança. As etapas e hierarquia que fazem parte desse aprendizado com os alimentos (ver, interagir, tocar, cheirar, provar, comer) devem ser respeitadas. Ao participarem das terapias, os pais deverão aprender como motivar e manter a criança participativa no momento da refeição. É essencial que o terapeuta forneça aos pais toda a orientação que favoreça o aprendizado da criança. Orientações Gerais que favorecem o aprendizado alimentar da criança: a. Local em que a criança será alimentada (preferencialmente à mesa com a fa- mília. Evitar situações de sofá, mesas infantis, varandas etc.); b. Preparo antes da refeição (algumas crianças precisam ser preparadas alguns minutos antes do momento da refeição, com diminuição de distrativos, uso de algum estímulo sensorial específico que a organize como estímulo vestibular ou massagem profunda, etc.); c. Tipo de cadeira (ajustar a cadeira ao conforto postural da criança de modo que possa ver e pegar os alimentos, respeitando sua postura corporal); d. Uso de distrativos (se a criança faz uso de distrativos é fundamental que o terapeuta ensine a família como removê-los gradativamente. Sem a remoção dos dis- trativos fica impossível a criança interagir com os alimentos, perceber seus sinais de saciedade e participar ativamente do momento de refeição); e. Utensílios utilizados (orientar os talheres ofertados, tanto para a criança “brin- car” com os alimentos, quanto na necessidade de ser alimentada. Uso de prato, copos, tamanho da colher e demais utensílios como mamadeiras e consumo em embalagens, também precisam ser orientados); f. Cuidador (sempre que possível o cuidador precisa ser orientado e preparado para esse momento. Certos pensamentos repetitivos do cuidador, em especial das Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 94 mães, como: “eu sei que ele não vai comer”, “ele sempre quer comer só porcarias”, etc. podem interferir na aceitação da criança. Além disso, sentimentos como medo e insegurança também podem impactar negativamente. Orienta-se que o cuidador também se prepare para esse momento, realizando um pequeno relaxamento ou uma visualização positiva. Essas estratégias devem ser fornecidas pelos terapeutas durante as sessões de atendimento); g. Formas de comunicação com a criança (durante o momento de refeição é comum os pais ofertarem alimentos à criança para “experimentar”. Geralmente clas- sificam o alimento dizendo que é bom, gostoso, saudável, nutritivo etc. Orientar para que os pais substituam essas expressões por outras como: quer cheirar? tocar? quer dar um beijo? quer lamber? ficar amigo? Incentivar sempre atitudes que valorizem a curiosidade e motivação intrínseca da criança e jamais usar pressão ou coação. Pode- -se usar também algumas expressões como: “Nossa olha a cor dessa fruta? Como seria esse legume crocante na minha boca? Hum.... é diferente!”. Outra estratégia positiva é envolver a criança no processo da refeição, sempre de acordo com a idade e seu de- senvolvimento cognitivo. Pode-se pedir para a criança mexer o suco, polvilhar queijo ralado ou mesmo colocar sal numa salada. Ou mesmo auxiliar no preparo de alguma receita ou na tarefa de pôr e retirar a mesa. Assim, gradativamente, a criança vai sendo exposta à situação de refeição e, consequentemente, ao interesse e aproximação dos alimentos); h. Disposição dos alimentos (é importante que a criança possa ver os alimentos ingeridos pela família, mesmo que ainda não os consuma. Esse processo faz parte do aprendizado alimentar. Se a criança apresentar fobia ou mesmo incômodo com o chei- ro ou visão dos alimentos, eles podem ser dispostos inicialmente mais distantes do seu alcance, até que gradativamente possam ser aproximados); i. Favorecer a autonomia para criança se alimentar (auxiliar os pais no sentido de dar a oportunidade e facilitar a criança a se autoalimentar. O terapeuta pode sugerir que a criança tenha sempre a sua frente um bowl ou pratinho com ventosa com os alimentos que irá consumir. Em outro recipiente a mãe pode ter os mesmos alimentos que serão ofertados à criança, garantindo o controle da quantidade ingerida e evitan- do o desperdício. Orientar talheres de acordo com a idade e possibilidades motoras da criança. Pode-se sugerir ainda alimentos no formato “finger food” que facilitam ainda mais o manuseio para a criança). Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 95 5) Garantir habilidade, conforto e aproximação aos alimentos Desenvolver habilidades orais para a criança comer garantirá a possibilidade para o aprendizado. Ajustes e dessensibilização sistemática são necessários para que a criança tenha sucesso e registre memórias positivas desse aprendizado, aproximando- -se gradativamente dos alimentos. 4.4. Habilidade Oral Algumas crianças podem apresentar extrema aversãoa estímulos orais. Seja pela relação de desconforto e inabilidade sensório-motora-oral ao ser alimentada ou mesmo pela experiência forçosa e memórias negativas associadas ao momento da refeição. Muitas podem ter sido forçadas a comer vegetais ou frutas, evitando e apresentando comportamento de luta e/ou fuga quando expostos a esses alimentos. São mecanismos de “proteção” associados às memórias negativas registradas em sua mente (mais precisamente no sistema límbico). Nesse sentido o objetivo inicial da terapia não é a realização de exercícios ou mesmo de estímulos orais diretos. Em grande parte das vezes, a recusa por determi- nados alimentos não se dá necessariamente por uma inabilidade motora-oral ou sen- sorial. Em muitas situações o grande desafio é mudar, ou seja, aceitar novas situações de apresentação dos alimentos. Ou mesmo quando há fobia, não há como aceitar a aproximação de nenhum tipo de alimento. Assim sendo, não se prioriza inicialmente a situação de estímulos ou exercícios orais, por dois motivos: para evitar mais estímulos invasivos na cavidade oral e não potencializar comportamentos reativos. Há casos em que a criança pode até tolerar estímulos e exercícios orofaciais. Pode até melhorar sua habilidade para comer, mas definitivamente, não amplia seu cardápio, nem tão pouco cria uma relação positiva com os alimentos. Por esses motivos, a abordagem valoriza ações em que a própria criança seja estimulada a conhecer novos alimentos. O papel do terapeuta é criar situações em que a criança possa aprender os passos para comer, ou mesmo maneiras de experimentar novos alimentos. Assim, a “habilidade motora oral e o conforto sensorial” vão sendo garantidos na situação com os próprios alimentos. Quando a criança permitir e, for necessário, podem ser realizados alguns exercícios orofaciais específicos. Mas sempre que possível devem ser associados aos alimentos. Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 96 Lembrar que a MASTIGAÇÃO é sempre essencial e a primeira etapa do proces- so digestório. Velocidade da mastigação, eficiência e outros atributos já foram associa- dos à obesidade. Além disso, dificuldades na habilidade motora-oral podem dificultar a transição para alimentos mais fibrosos (especialmente proteínas e vegetais fibrosos) e facilitar e “incentivar” o consumo em excesso de alimentos mais macios e crocantes que na sua es- sência tendem a ser mais obesogênicos (biscoitos, massas e alimentos industrializados). 4.5. Dessensibilização Sistemática O processo de dessensibilização varia de acordo com o grau e dificuldade apre- sentada pela criança. É necessário esse processo para que a criança, gradativamente, seja aproximada dos alimentos que ainda desconhece, não gosta ou tem medo (fobia). Nem sempre é possível começar com os alimentos em caso de crianças com comportamento de luta, fuga ou medo à situação de refeição. Pode-se iniciar com brinquedos, livros e jogos que remetam aos alimentos e à situação da refeição. As es- tratégias devem variar de acordo com a faixa etária da criança. Quando possível, pode ser iniciado pelos alimentos e ou produtos consumidos ou de maior interesse, curiosidade e preferência sensorial da criança. Inicia-se sempre pelo alimento conhecido, propondo mudanças na sua forma de apresentação. Modos diferen- tes de cortar o alimento, tirar o produto da embalagem e ofertar em outro recipiente etc. Num clima de muita afetividade e respeito o terapeuta desenvolve uma relação de profunda confiança e conexão com a criança. Nesse clima de segurança emocional para criança, sempre permeado pelo brincar, ela vai, gradativamente, se aproximando dos alimentos. Durante a sessão o terapeuta utiliza uma linguagem amorosa e gentil com a criança. Não há chantagens ou recompensas externas. O objetivo é aproximá- -la gradativamente dos alimentos, propondo pequenas mudanças e expandindo os alimentos já aceitos. Sempre se utiliza uma linguagem motivacional, que incentive a criança a brincar e entrar em contato com os alimentos. Um dos maiores desafios da criança obesa e/ou com dificuldades alimentares é a mudança. Mudar algum alimen- to conhecido ou preferido pode causar medo e ameaça. Assim sendo, o processo de dessensibilização prevê mudanças gradativas nos alimentos já aceitos pela criança, variando inicialmente o formato, para depois expandir para outras marcas (no caso de produtos) ou sabores (no caso dos alimentos). Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 97 A textura exerce uma influência muito grande na aceitação pelos alimentos. Mui- tas vezes para que a criança possa aceitar algum vegetal por exemplo adequamos a sua textura preferida. Isso certamente favorecerá uma aproximação mais positiva. Aqui, em especial, as crianças que possuem desafios de ordem sensorial, mais especificamente, uma Alteração no Processamento Sensorial.42 Essas podem rejeitar preparações pelas suas características sensoriais. Por exemplo, uma criança pode rejeitar purê de legumes ou mesmo sopa. Nesses casos não adianta a exposição repetida. Há de que se ajustar o alimento ao CONFORTO SENSORIAL da criança. Por exemplo, pode-se oferecer a cenoura na textura crocante (chips) ou mesmo como sólido macio (muffin). Dessa forma a chance de mudança ou a possibilidade de aceitação será facilitada.43 No processo de dessensibilização é necessário considerar o modo de apresen- tação dos alimentos, principalmente, quando for algo desconhecido ou para a criança considerar pequeníssimas porções como “grãos” ou mesmo “farelos”. Valorizar que a criança possa brincar para interagir, cheirar, tocar, lamber, provar ou comer. Pequenas porções costumam causar menos aversão e parecem ser menos “ameaçadoras” quan- do ainda desconhecidas para a criança. 1) Estratégias lúdicas e relaxamento A criança conhece e se relaciona com o mundo por meio da brincadeira. Por isso, todo o processo é baseado em atividades lúdicas diretamente com os alimentos. Assim, nesse universo do brincar, a criança é gradativamente exposta aos alimentos, favorecendo e possibilitando sua curiosidade e desejo interno por eles. Utilizar os alimentos como “brinquedos” é uma excelente estratégia para que a criança possa se aproximar dos mesmos sem a “pressão” para comê-los. Envolvê-las na preparação de receitas simples também é interessante. Servir pessoas, comer junto com a terapeuta, colegas e família colaboram para essa aproximação. O lúdico favorece que a criança relaxe e não acione tão facilmente comporta- mentos de luta ou fuga frente aos alimentos. Para a criança ela está “brincando” e não aprendendo a comer novos alimentos. E esse pensamento deve ser “reforçado” pela terapeuta durante a sessão. Lembrar sempre a premissa da abordagem que é a de acionar a motivação intrínseca da criança. Pode-se eleger qualquer alimento para a atividade lúdica em terapia, mas pre- ferencialmente optar por alimentos já familiares para a criança e, durante o brincar, gradativamente se introduz novas situações. Por exemplo, se a criança só aceita batata Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 98 frita industrializada, pode-se utilizar a mesma batata como trilho para um trenzinho e uma outra batata chips caseira para ser a carga dos vagões. Outra batata de formato arredondado pode ser o sol e assim por diante. Para crianças maiores, acima de quatro anos, podemos utilizar a técnica de Min- dfulness adaptada para criança, técnicas de relaxamento e atenção na respiração, ati- vidades com arte (pintura em aquarela, atividades com areia ou massa de modelar etc.), contato direto com a natureza (atividades de jardinagem) ou ainda contação de estórias etc. Importante firmar que todas as sessões devem conter uma música suave ao fun- do. Utiliza-se músicas clássicas e harmoniosas com o intuito depropiciar relaxamento e favorecer a intuição, tanto do terapeuta quanto da criança. 2) Ajustes e adequações nutricionais Outro passo essencial da abordagem é o ajuste e as adequações nutricionais no cardápio da criança. Elas deverão ser realizadas visando os seguintes objetivos: - Ajustar as características sensoriais dos alimentos ofertados às habilidades e preferências sensório-motoras-orais da criança (nem sempre apenas a idade crono- lógica da criança pode e deve ser determinante para escolha dos alimentos a serem ofertados). É primordial que se avalie se a criança possui a habilidade motora-oral ne- cessária para comer o alimento ofertado, bem como, se ele está ajustado ao seu con- forto sensorial. Em outras palavras, a criança pode ter dois anos e possuir habilidade motora-oral de seis meses. Ou seja, uma criança nessa faixa etária é recomendável que se alimente com os mesmos alimentos da família, ingerindo alimentos com diversas texturas e sabores. Por outro lado, essa criança pode, pelos mais diversos motivos, não ter a habilidade motora-oral para lidar com texturas mais avançadas, mantendo por exemplo, ainda nessa idade, um movimento de língua primitivo, que a “impeça” de mastigar. Certos comportamentos de recusa ou aversão podem surgir desse “desajus- te”. Estas correções no cardápio são necessárias para a criança ter conforto e conse- guir se alimentar com segurança e de modo mais saudável. - Adequar o volume, densidade calórica nutricional ofertado. (Muito comum o excesso de volume líquido em mamadeira ou ainda alimentos não ingeridos, como fru- tas e vegetais, adicionados a essas preparações para garantir a nutrição balanceada da criança que possui uma dieta inadequada. Os pais, para garantirem a nutrição saudável de seus filhos, podem realizar preparações equivocadas, muitas vezes sem orientação Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 99 profissional. Adequar a oferta diária da criança favorecerá e possibilitará uma relação mais positiva e nutricionalmente adequada com os alimentos). - Estabelecer uma rotina que favoreça a relação fome x saciedade e, consequen- temente, evite beliscos ao longo do dia (algumas famílias podem encontrar extrema dificuldade no estabelecimento de uma rotina para criança). Fundamental orientar: ho- rário do sono, do brincar e das refeições, são essenciais para todo o desenvolvimento da criança, impactando sobremaneira em seu comportamento alimentar. O terapeuta necessita auxiliar os pais a realizarem os ajustes necessários que favoreçam uma rotina saudável para a criança, explicitando a importância dessas mudanças para o bem-estar global dela, além do impacto positivo na sua relação com os alimentos. 4.6. Conclusão A alimentação responsiva pode ser um caminho para motivar os pais a abraça- rem práticas alimentares positivas, prevenindo potencialmente, doenças como a obe- sidade e a dificuldade no controle de peso. A atuação do fonoaudiólogo fundamentada na alimentação responsiva e aborda- gem integrativa é recente e mais pesquisas serão necessárias para sedimentar sua ação. Que os principais conceitos aqui apresentados nesse capítulo comecem a lançar uma nova luz sobre o manejo da criança obesa. 4.6. Referências bibliográficas 1. Feeding guidelines for infants and young toddlers: a responsive parenting approach. Technical Re- port. 2017. DOI: 10.13140/RG.2.2.23363.81442. Citations. 2. World Health Organization. Report of the Commission on Ending Childhood Obesity; WHO Docu- ment Production Services: Geneva, Switzerland; 2016. 3. Fisberg M. Apresentação. In: Junqueira P. Por que meu filho não quer comer?: uma visão além da boca e do estômago. Bauru: Idea; 2017. p. 17-22. 4. 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O efeito sistêmico afeta a formação dos dentes e a composição salivar. Já o efeito local da dieta atua nos processos de cárie dentária, erosão dentária3 e oclusão.4,5 Os efeitos sistêmicos também estão relacionados às alterações dentais tardias, levando-se em consideração que os dentes decíduos são formados ainda na gestação e os dentes permanentes nos primeiros anos de vida. O estudo Global Burden of Disease de 2017 da Organização Mundial da Saúde, estimou que as doenças bucais afetam 3,5 bilhões de pessoas em todo o mundo, e a cárie dentária não tratada é a mais prevalente entre as doenças não transmissíveis. A maioria das doenças e condições bucais compartilham fatores de risco modificáveis com as principais doenças não transmissíveis como as cardiovasculares, câncer, respi- ratórias crônicas e diabetes. Além disso, existe uma associação de causalidade entre alto consumo de açúcar e diabetes, obesidade e cárie dentária.6 Doenças crônicas como obesidade, diabetes e cárie estão aumentando nos pa- íses em desenvolvimento, com a implicação de que a qualidade de vida relacionada à saúde oral, bem como a qualidade de vida geral, pode se deteriorar. Como as doenças bucais e outras doenças crônicas têm determinantes em comum, mais ênfase deve ser Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 105 dada a abordagem comum dos fatores de risco. O conceito chave subjacente às futu- ras estratégias de saúde oral é a integração com essa abordagem, sendo um grande benefício o foco na melhoria das condições de saúde em geral para toda a população e para grupos de alto risco, reduzindo assim as desigualdades sociais.7 5.2 O papel da dieta na saúde oral Cárie dentária É importante reconhecer que a cárie dentária é uma DOENÇA e não somente uma cavidade no dente. No mundo, estima-se que entre 530 e 600 milhões de crian- ças sofrem desta condição.6,8 É definida como uma doença crônica, não contagiosa, porém dinâmica e multifatorial, determinada pelo consumo de açúcar, e mediada por biofilme bacteriano aderido à superfície dentária, que utiliza o açúcar consumido para transformá-lo em ácidos que promovem a destruição dessa estrutura,6,8 sendo deter- minada por fatores biológicos, comportamentais e psicossociais relacionados ao meio ambiente do indivíduo.8 Quando não tratada, a cárie pode afetar o bem estar da criança, pois é comum observar dor crônica, infecções, alteração na rotina de estudo e outras morbidades , como a desnutrição.8,9 A prevalência de cárie dentária em crianças permanece alta. Na faixa etária de 2 a 5 anos aumentou de 22% para 30% entre 1988–1994 e 1999–2004, e depois diminuiu para 23% em 2011–2012.6 Recentemente, a Associação Internacional de Odontopediatria (IAPD) elaborou um documento definindo etiologia, fatores de risco e intervenções para a Cárie na Primeira Infância (CPI).10 Recomendam quatro áreas essenciais, com a participação de diversos profissionais da saúde e não somente dentistas: 1. Conscientizar pais/cuidadores, dentistas, técnicos em saúde bucal, médicos, enfermeiras, profissionais da saúde e outros grupos interessados sobre CPI. 2. Limitar o consumo de açúcar em alimentos e bebidas e evitar açúcares livres para crianças com menos de 2 anos de idade. 3. Escovar os dentes de todas as crianças duas vezes por dia com pasta fluoretada (com ao menos 1000 ppm de flúor), usando uma quantidade adequada de dentifrício.com hiperinsulinismo, pode ser detectada a acantose nigri- cans, uma hiperpigmentação da pele que surge principalmente no pescoço e nas axilas.11 Respiratórias As crianças com obesidade grave podem apresentar a síndrome da apneia obstrutiva do sono, caracterizada por roncos, sono agitado com múltiplos despertares e pausas respiratórias.12 Além das manifestações que ocorrem durante o período de sono, geralmente apresentam sonolência diurna e déficits neurocognitivos. O diagnós- tico é confirmado pela polissonografia. Hipertensão arterial A pressão sistólica e a diastólica aumentam com o incremento do IMC.13 A obesidade é uma das principais causas de hipertensão arterial em crianças e adoles- centes, favorecendo complicações cerebrovasculares e cardiovasculares futuras.14 Considera-se hipertensão arterial quando os valores da pressão sistólica e/ou diastólica estão no percentil 95 ou acima deste, em três ou mais ocasiões, e pré-hiperten- são, quando estão entre os percentis 90 e 95, de acordo com o sexo, a idade e altura.15 Alterações do metabolismo da glicose Aproximadamente 25% das crianças obesas apresentam alterações do meta- bolismo da glicose, como resistência insulínica, hiperinsulinemia, intolerância à glicose, que podem culminar com o diabetes mellitus tipo 2.16 Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 14 A resistência insulínica consiste na incapacidade do organismo de responder à ação da insulina. Para a manutenção da tolerância normal à glicose, ocorre aumento compensatório da secreção de insulina pelas células beta pancreáticas, desencadean- do, assim, o hiperinsulinismo. A insulinemia de jejum é normal quando está abaixo de 15µU/mL. A resistência insulínica pode ser avaliada pelo índice HOMA-IR (Homeostasis Model Assessment of Insulin Resistance),17 calculado pela seguinte fórmula: HOMA-IR = glicemia jejum (mmol/L) × insulinemia jejum (µU/mL) 22,5 Para converter a glicemia em mg/dL para mmol/L, basta multiplicar o valor por 0,05. Considera-se resistência insulínica quando os valores de HOMA-IR estão acima de 3,43. Quanto maior o valor do HOMA-IR, maior é o grau da resistência insulínica. São identificados como normais os valores de glicemia de jejum abaixo de 100 mg/dL; alterados entre 100 e abaixo de 126 mg/dL; e, a partir de 126 mg/dL, faz-se o diagnóstico de diabetes mellitus. Quando são encontrados valores alterados de glice- mia de jejum (entre 100 e 126 mg/dL), há indicação do teste de tolerância oral à glicose. Após 2 horas da sobrecarga oral, valores de glicemia P90) + antecedentes familiares de obesidade, diabetes tipo 2, dislipidemias, hipertensão arterial, doença cardiovascular – os demais parâme- tros devem ser avaliados. • 10 anos e abaixo de 16 anos – o diagnóstico é feito quando há obesidade central (CA Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 16 > P90) e duas ou mais das seguintes alterações: TG ≥ 150 mg/dL; HDL-C 100mg/dL ou a presença de diabetes tipo 2; PAS (pressão arterial sistólica) > 130 mm Hg ou PAD (pressão arterial diastólica) > 85 mm Hg. • A partir de 16 anos – deve ser usado o critério da IDF para adultos, com os mesmos pontos de corte utilizados para indivíduos abaixo de 16 anos para TG, pressão arterial e glicemia; CA > 94 cm para homens e > 80 cm para mulheres; HDL-C4. Prover orientações preventivas no primeiro ano de vida, por um profissional da saúde ou agente comunitário de saúde (em conjunto com programas já existentes Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 106 – por exemplo, campanhas de vacinação – sempre que possível) e, idealmente, referir para um dentista para manutenção e cuidados preventivos.8 O primeiro sinal clínico da doença cárie é a lesão de cárie incipiente, denomina- da também de mancha branca ativa. Essa lesão precede a formação de uma cavidade. Nesse estágio a lesão de cárie já é passível de ser diagnosticada a olho nu e pode ser paralisada, desde que diagnosticada adequadamente e iniciada as medidas preventi- vas de higiene e flúorterapia.8 Mas atenção, pois há várias alterações de cor branca no esmalte dentário, e nem todas são lesões de cárie. Portanto, recomenda-se o exame clínico por um profissional treinado. O controle de biofilme/placa bacteriana, somado a outras medidas como con- trole da dieta e uso de flúor, permitem o tratamento não invasivo e a inativação das lesões, independentemente de sua localização.8,11 Embora o açúcar, especialmente se consumido em alta frequência, seja um fator que contribui para a cárie dentária, um estudo sistemático sobre o consumo de açúcar e o risco de cárie concluiu que a relação entre consumo de açúcar e cárie é mais fraco após a introdução da exposição ao flúor.12 Em crianças de tenra idade, apesar do diagnóstico precoce ainda permitir um tratamento bastante conservador, o ideal seria evitar a instalação da doença. Reco- nhecer os fatores de risco, é essencial para direcionar o atendimento preventivo indi- vidualizado. Um fator de risco importante nessa idade, é a presença de biofilme (placa bacteriana) nos dentes anteriores.11 Comportamento alimentar e a cárie dentária A alta frequência de consumo de alimentos cariogênicos está diretamente asso- ciada à cárie dentária. Quanto maior a frequência de ingestão, maior é a possibilidade de desenvolvimento de lesões de cárie.11 A American Academy Pediatric Dentistry (AAPD) recomenda que sucos não de- vem ser introduzidos antes de um ano de idade e devem ser limitados a crianças entre um e quatro anos, e não ser oferecidos em recipientes de fácil ingestão e nem na hora de dormir, pois não tem um papel essencial em uma dieta saudável e seu consumo excessivo contribui para o risco de desenvolvimento de cárie dentária.13 Um dos fatores de risco fortemente associado à cárie dentária da Primeira in- fância é o consumo de leite em mamadeira de maneira frequente durante o dia e/ou no período noturno, e principalmente se esta for oferecida enquanto a criança dorme. Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 107 É comum observar o uso da mamadeira como indutor do sono nessa faixa etária. Essa atitude apresenta vários fatores de risco a mais para o desenvolvimento da cárie. Um destes fatores é o costume de acrescentar açúcar, achocolatado, engrossantes, farinhas ou mel ao leite. Ocorre também a situação na qual a criança toma a mama- deira praticamente dormindo ou acorda no meio da noite, toma a mamadeira e volta a adormecer com a mamadeira ainda na boca. O segundo fator de risco nessas situ- ações, é o fato de não haver higiene oral após essas mamadas, pois o objetivo todo dessa “alimentação” era fazer a criança dormir. Se não houver higiene oral após o uso da mamadeira noturna, o leite açucarado fica em contato com a superfície dental por tempo prolongado, justamente num período no qual há diminuição do fluxo salivar. Vale a pena destacar também os fatores relacionados à higiene oral em crianças de pouca idade. É comum pais relatarem dificuldade em realizar a escovação diária. Há ainda muita desinformação por parte das famílias e de muitos profissionais da saúde sobre a importância do uso de dentifrício fluoretado, desde o aparecimento do primei- ro dente. Famílias relatam com frequência que não praticam higiene oral nos bebês por desinformação e até por hábitos culturais. Várias associações médicas e odontoló- gicas reconhecem a importância do uso de dentifrício fluoretado com pelo menos 1000 ppm de flúor desde o aparecimento do primeiro dente de leite.13,14 Portanto, o hábito de fornecer leite ou outros líquidos adoçados em mamadeira no período da noite enquanto a criança dorme está fortemente ligado à cárie na Pri- meira infância, anteriormente denominada de “cárie de estabelecimento precoce”, “cárie de mamadeira”, ou “cárie aguda generalizada”. 8,11 A mamadeira é uma maneira fácil para a mãe alimentar seu bebê, pois permite à criança alimentar-se sozinha sem depender da sua presença. Essa praticidade faz com que algumas mães introduzam a mamadeira por comodidade e não por necessidade; ou seja, elas poderiam aleitar seus filhos ao seio materno, porém utilizam esse recurso pela comodidade.11 Obesidade e a cárie dentária Cárie dentária compartilha fatores de risco comuns a outras doenças não trans- missíveis associadas com consumo excessivo de açúcar, como doença cardiovascular, diabetes e obesidade.11 Como a cárie dentária e a obesidade são doenças multi-etiológicas, uma relação Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 108 direta entre ambas não é uma observação rotineira. Um dos fatores etiológicos comum em ambas é um alto consumo de carboidratos fermentáveis, principalmente na forma de sucos e fórmulas em crianças de tenra idade. Contudo, fatores modificadores da saúde oral, como por exemplo a higiene oral, podem modular de maneira favorável a saúde. Se a criança apresenta consumo de carboidrato fermentável, mas mantém hi- giene oral regular com uso de dentifrício fluoretado, o processo de formação da cárie dentária pode ser controlado e até mesmo evitado. A intervenção do profissional da saúde através de orientações nas consultas de puericultura e no pré-natal são essen- ciais para a prevenção do desenvolvimento da doença . Em crianças e adolescentes os resultados ainda são muito conflitantes e controver- sos. Os fatores modificadores atuam de maneira muito intensa em ambas as doenças.9 Em um estudo de coorte conduzido na Inglaterra, com 2958 participantes, ava- liando inicialmente crianças entre 7 e 9 anos, e após 5 anos (entre 12 e 16 anos), não encontraram correlação entre obesidade e cárie dentária na adolescência.15 Em revisão sistemática e meta-análise, Chen e colaboradores em 201816 não en- contraram associação entre cárie dentária e estado nutricional, entre crianças e adoles- centes, com idades entre 30 meses e 15 anos. Contudo, quando realizaram análise de sensibilidade, encontraram que crianças obesas apresentaram maior número de lesões de cárie quando comparadas às crianças eutróficas, na dentição decídua. Também ve- rificaram maior número de lesões de cárie em crianças obesas e sobrepeso de nível socioeconômico mais elevado. Nas crianças de pouca idade, principalmente quando o uso de mamadeira é frequente, há maior chance de apresentarem obesidade e cárie, pois mantém um fa- tor etiológico em comum em ambas as doenças: as fórmulas infantis. Em relação à cárie dentária, os pais têm maior dificuldade em realizar a higiene oral nesta fase, ou até mesmo, nem sabem que precisa ser efetuada, e em alguns casos, até realizam o processo de escovação dentária, mas sem o uso de dentifrício fluoretado, conforme discutido anteriormente. A abordagem multiprofissional para prevenção da obesidade e cárie dentária resultaria em maior benefício ao paciente. Essas doenças apresentam alguns fatores etiológicos em comum, e reconhecê-los é o primeiro passo para realizar ações preven- tivas amplas.17 Os profissionais de odontologia precisam estar mais atentos na identificação de crianças em risco de obesidade e encaminhá-las para o nutricionista e pediatra. Po- Obesidade infantil:uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 109 rém, uma pesquisa realizada com odontopediatras relatou que apenas 17% intervém na obesidade infantil. Muitas foram as barreiras relatadas, como medo de ofender os pais, e criar insatisfação e falta de aceitação dos mesmos por essa abordagem vir de um dentista.13 Erosão dentária Outra alteração dentária que tem sido frequentemente observada e que está relacionada a dieta do indivíduo é a erosão dental. Se trata de um processo químico pelo qual ocorre a dissolução dos tecidos dentais mineralizados, resultando em uma perda progressiva de estruturas dentárias. Pode ser causado por ácidos intrínsecos (estomacais) devido a vômito frequente ou refluxo gástrico, ou extrínsecos, pela expo- sição crônica a ácidos em alimentos, bebidas e medicações. Ocorre tanto na dentição decídua como na permanente.18-21 O baixo fluxo salivar e os componentes da saliva podem agravar mais ainda a situação.18 Uma revisão sistemática epidemiológica e meta análise encontrou que aproxi- madamente 30% de crianças e adolescentes são acometidos pela erosão dentária.22 A prevalência de erosão dentária encontrada por Pedrosa e Menezes em 2020 variou entre 1,8% e 68%, dependendo do país no qual foi realizado o estudo e dos costumes em relação ao tipo de dieta; mas concluíram, após analisar todos os dados, que a pre- valência dessa condição em adolescentes é alta.21 A erosão pode ocorrer em crianças que mantém o hábito de consumir frequen- temente alimentos e líquidos ácidos,18-21,23,24, principalmente refrigerantes, sucos indus- trializados e isotônicos.11,20,21,23,24 A severidade da erosão depende de vários parâme- tros, entre eles a nutrição, a saliva, outras patologias e o stress mecânico mastigatório.18 Vale ressaltar que um estudo realizado no Brasil com medicamentos comumente utilizados por crianças destacou que vários destes apresentavam pH baixo, e portanto com risco para erosão dentária.23 Algumas doenças que afetam a produção e qualidade da saliva podem oferecer risco para erosão dentária.18,21,23,24 Pedrosa e Menezes em 2020 também encontraram associação positiva entre erosão dentária e refluxo gastroesofágico.21 Marqués Martí- nez et al. em 2019 encontraram uma correlação positiva entre o uso de inalação em pacientes asmáticos e essa condição em crianças.24 A erosão dental pode ser um dos sinais clínicos que evidenciam a bulimia. Quan- Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 110 do o paciente possui bulimia por um tempo longo, apresenta erosão nas faces linguais dos dentes ântero-superiores e oclusais dos dentes superiores.18 Tschammler et al. em 201920 observaram associação positiva entre erosão den- tária e obesidade em crianças e adolescentes na Alemanha. O maior peso corporal de crianças e adolescentes está significativamente associado a um maior risco de desgas- te e cárie dentária erosiva. Já a prevalência e a gravidade do desgaste dentário erosivo nos dentes decíduos e permanentes aumentaram significativamente em crianças com obesidade e obesidade extrema em comparação com crianças eutróficas. O desgaste erosivo dos dentes e a cárie têm alguns fatores etiológicos em comum, como o alto consumo de refrigerantes, hábitos alimentares e alterações quantitativas e qualitativas da saliva, o que indica que ambas as doenças podem estar correlacionadas.20 5.6. A influência do aleitamento materno, consistência dos alimentos e a mastifa- ção na saúde oral Além dos inúmeros benefícios já amplamente reconhecidos do aleitamento ma- terno para o lactente e a sua mãe, vale a pena destacar a importância também para o crescimento e desenvolvimento facial.25,26 Durante a amamentação, o lactente realiza exercícios musculares que estimulam o crescimento mandibular e favorecem o posicio- namento adequado da mandíbula, corrigindo o retrognatismo mandibular fisiológico que se apresenta ao nascer.4,5,25 Por meio do aleitamento materno, há estímulo de vá- rios grupos musculares do complexo craniofacial. A literatura também aponta que os benefícios da amamentação não são somente do recém-nascido, favorece a instalação de oclusão adequada na dentição decídua evitando a maloclusão.4,5,25-27 A amamentação é um ótimo “exercício” para a criança respirar pelo nariz e se alimentar pela boca. O correto posicionamento durante o aleitamento materno, pro- move o selamento labial na aréola da mama, estimulando a respiração nasal; o ar por sua vez entra pelas narinas e preenche os seios da face estimulando o desenvolvimento facial adequado. O contrário acontece quando ocorre a substituição da amamentação pelo uso do veículo mamadeira. O bebê se acostuma com um novo referencial com a ausência da mama. O selamento labial não ocorre de maneira adequada e não existe mais o esforço necessário para a extração do leite, o que favorece a entrada de ar pela boca.27 A partir do início da alimentação complementar, a consistência e propriedades físicas dos alimentos tem um papel fundamental no crescimento e desenvolvimento da Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 111 face da criança e oclusão dentária.4,5,28 Uma dieta pastosa, mole e pobre em fibras apre- senta destaque na etiologia da maloclusão. Crianças com esse tipo de dieta apresen- tam pouco estímulo na musculatura mastigatória, resultando em subdesenvolvimento dos ossos da face, arcos dentários e articulação temporo-mandibular (ATM).4,28 As crianças que estão acostumadas com alimentação pastosa ou liquefeita após os 12 meses de vida terão maior dificuldade em executar os movimentos de laterali- dade com os alimentos mais consistentes, devido à falta de treinamento neurológico. Os pedaços presentes na dieta são responsáveis pela estimulação do componente de lateralidade do movimento mandibular, contribuindo para a adaptação da criança a consumir alimentos cada vez mais consistentes e que exijam mastigação.5 Atualmente, existem dados limitados sobre a influência da mastigação no ganho de peso corporal. Evidências indiretas são fornecidas por estudos que examinaram a relação entre dureza alimentar e peso ou composição corporal.19 O respirador oral A respiração oral é um sintoma relativamente comum na infância e decorrente de obstrução nasal crônica. Contudo, é imprescindível o correto diagnóstico da causa da obstrução nasal, pois em alguns pacientes ela pode se apresentar somente como hábito, sem obstrução nasal verdadeira.29 O paciente respirador oral, precisa adaptar sua função respiratória mudando o padrão respiratório, repercutindo em distúrbios sistêmicos e desarmonia da face, tais como desvios do padrão de crescimento dentocraniofacial, maior frequência de infec- ções de vias aéreas superiores, distúrbios do sono, déficit de crescimento, sintomas neurocognitivos e problemas cardiovasculares.29 A ausência de respiração nasal altera não somente as bases ósseas da face, mas também parte muscular e outras estruturas levando a uma desarmonia da face com ca- racterísticas típicas. Dentre elas a maxila atrésica (estreita), mordida cruzada posterior, mordida aberta anterior, reversão dos lábios, lábio superior hipodesenvolvido, narinas estreitas e hipotonia da musculatura perioral.4,29 Vale a pena salientar que a respiração oral também pode afetar a postura de cabeça e pescoço levando a uma hiperextensão da cabeça.4,30 A respiração oral modifica o processo alimentar por vários motivos, tais como alteração no olfato e paladar, podendo repercutir no estado nutricional do paciente.30 Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 112 Os músculos responsáveis pela mastigação apresentam uma diminuição no seu tônus e, portanto, pacientes respiradores orais terão maior dificuldade em mastigar alimentos mais duros, fibrosos e secos. Por sua vez essa diminuição da função masti- gatóriaretroalimenta a falta de estímulo para o desenvolvimento da face e da ATM.4 Outro fator a ser levado em consideração durante o processo de alimentação e que dificulta esse processo é que a criança com a respiração bucal deve respirar e se alimentar na mesma via. Além dos fatores citados acima, ela prefere alimentos mais fáceis de serem ingeridos, que necessitem menos esforço mastigatório, pois precisa processar rapidamente esses alimentos na boca para abrir a via de respiração. 5.8. Distúrbios do sono A falta de sono e a má qualidade de descanso na infância e adolescência preju- dicam o aprendizado, a atenção, a concentração, podendo levar ao diagnóstico de hipera- tividade e maior risco de desenvolver quadro grave de depressão, chegando até a instalar alterações endócrinas e metabólicas que aumentam o risco de sobrepeso e obesidade.31 Entre os distúrbios do sono de maior importância encontramos distúrbios de movimento rítmicos e ranger os dentes – o bruxismo. As consequências dos distúrbios do sono são relacionadas à qualidade de vida da criança e do adolescente e é um fator que contribui para o aparecimento da obe- sidade. A Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS) um dos mais importantes fatores e a obesidade o maior fator de risco primário estabelecido.31 A Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono é uma condição caracterizada por episódios repetidos de obstrução parcial ou completa das vias aérea superiores, asso- ciada a episódios de ronco (evolui da respiração oral crônica) durante o sono e também de leves despertares. A criança com SAOS pode apresentar alterações no comporta- mento, déficit do desenvolvimento pôndero-estatural, prejuízo escolar, sendo essa últi- ma a queixa principal relatada pelos pais. A sonolência diurna é também um parâmetro clínico importante para a suspeita do diagnóstico da SAOS.32 Afeta aproximadamente 18 milhões de pessoas nos Estados Unidos. Entre 1 e 5% das crianças de qualquer idade, porém é mais frequente em crianças de dois a sete anos de idade. Os critérios de diagnóstico em adultos para SAOS podem ser usados em pacientes com idades entre 13 e 18 anos.32 Os sintomas incluem sonolência diurna excessiva, ronco alto três ou mais noites Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 113 por semana, episódios de interrupção da respiração testemunhados por outra pessoa, despertares abruptos acompanhados por falta de ar, despertar com boca seca ou dor de garganta, dor de cabeça matinal, dificuldade em permanecer dormindo, problemas de atenção, respiração bucal, sudorese, inquietação, acordando muito. SAOS não tra- tada em combinação com resistência à insulina e obesidade em uma criança prepara o cenário para doenças cardíacas e endocrinopatias. O não tratamento pode incluir danos cerebrais, convulsões, coma e complicações cardíacas.31 O diagnóstico e tratamento precoces pode diminuir a morbidade. No entanto, o diagnóstico frequentemente é atrasado. A fim de reduzir as complicações da AOS, a American Academy Pediatric Dentistry (AAPD) incentiva os profissionais de saúde a rastrear rotineiramente seus pacientes para facilitar o encaminhamento médico, como o otorrinolaringologista, pneumologista, e médico do sono.31 A hipertrofia adenotonsilar e a obesidade são os principais fatores de risco para SAOS em crianças,33,34 e infecção recorrente do trato respiratório.33 Um estudo investigou a associação entre obesidade e apneia obstrutiva do sono (SAOS) em crianças em idade pré-escolar e escolar. Os casos de SAOS foram definidos como índice de apneia obstrutiva e hipopneia (IAOH). A prevalência de SAOS foi maior em crianças obesas e em idade escolar, sendo a hipopneia a mais relevante nessa faixa etária. No entanto, não houve correlação positiva entre SAOS e índice de massa cor- poral (IMC).32 Os odontopediatras possuem papel importantíssimo no diagnóstico precoce para identificar pacientes com maior risco, realizando a triagem de pacientes para ron- co e distúrbios respiratórios relacionados ao sono, avaliar hipertrofia de tonsilas e o posicionamento da língua.31 5.9. Considerações finais Esse capítulo abordou várias condições de saúde oral que podem afetar signifi- cativamente a saúde geral da criança, apresentamos também alguns desses aspectos relacionados com a obesidade infantil. Segundo a OMS, a condição de saúde de um indivíduo depende da presença de saúde em vários níveis: a saúde física, emocional e social.34 A saúde oral não pode ser considerada separada da saúde geral. Esse capítulo evidencia a forte influência da alimentação da criança para sua saúde oral e geral. Uma abordagem transdisciplinar com a inserção de odontopediatras nas equipes que pres- Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 114 tam atendimento ao paciente infantil em tenra idade promoverá a oportunidade de atuar na promoção de saúde, por meio das orientações e ações preventivas iniciadas precocemente, evitando a instalação de doenças crônicas. 5.10. Referências bibliográficas 1. Sun L, Wong HM, McGrath CPJ. Association Between the Severity of Malocclusion, Assessed by Occlusal Indices, and Oral Health Related Quality of Life: A Systematic Review and Meta-Analysis. Oral Health Prev Dent. 2018;16(3):211�23. doi:10.3290/j.ohpd.a40761 2. WHO. What is the WHO definition of health? https://www.who.int/about/who-we-are/frequently- -asked questions#:~:text=What%20is%20the%20WHO%20definition,absence%20of%20disease%20 or%20infirmity - (acessado em 9 de julho de 2020). 3. Gondivkar SM, Gadbail AR, Gondivkar RS, Sarode SC, Sarode GS, Patil S, Awan KH. 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Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 118 6. ATUAÇÃO DO EDUCADOR FÍSICO Gilberto Martinez Junior 6.1. Introdução Podemos brevemente refletir que a obesidade (e o emagrecimento) são temas que geram bastante polêmica, intensos debates e despertam significativo interesse da comunidade científica e população geral. De um lado, temos a pesquisa e a ciência, que busca elucidar os mecanismos fisiopatológicos da doença, e profissionais da saú- de, os quais visam adotar os melhores modelos de gestão no tratamento multidiscipli- nar da obesidade infantil e comorbidades associadas. Por outro lado, temos enorme especulação e as chamadas fake news sobre o tema; os melhores tipos de dietas e alimentos emagrecedores; medicamentos ou fórmulas milagrosas; ou até mesmo, os melhores métodos de treinamento, intensidades ou tipos de exercícios físicos utili- zados para alcançar a tão “desejada” perda de gordura corporal. O fato é que não existe milagres! Nesse contexto, vemos inúmeras metodologias e abordagens clínicas, nutricionais e de exercícios físicos, que além de ineficazes, podem desencadear outros distúrbios ao organismo do indivíduo e, consequentemente, acarretar em outras pa- tologias. Portanto, existe a urgente necessidade de uma abordagem responsável na gestão do tratamento da obesidade infantil. Nesse capítulo, faremos uma breve abordagem dos aspectos epidemiológi- cos, conceituais e do desenvolvimento da obesidade infantil e partiremos para o nosso foco principal de estudo, baseado em 2 abordagens centrais: 1ª) Como a aplicação das ferramentas da Fisiologia do Exercício pode nos auxiliar no diagnóstico e identificação das possíveis causas da obesidade e/ou comorbidades associadas (através da análise do perfil antropométrico, cardiometabólico, nutricional, ortopédico e clínico da criança obesa); e com isso, promover a melhor estratégia a ser adotada pela equipe multidisci- plinar na gestão do tratamento da obesidade; e 2ª) Como o profissional de Educação Físi- ca, através do planejamento e estruturação de um Programa de Treinamento e da Prescri- ção de Exercícios, pode otimizar a prevenção, a manutenção e o tratamento da obesidade pediátrica e suas comorbidades associadas juntamente a equipe multidisciplinar. Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 119 6.2. A obesidade infantil A prevalência mundial de indivíduos com sobrepeso e obesidade mais do que triplicou nas últimas décadas. Segundo dados recentes da Organização Mundial de Saúde (OMS) são mais de 340 milhões de crianças e adolescentes com sobrepeso e obesas no mundo, das quais, aproximadamente 38 milhões, são menores de 5 anos de idade, o que reflete num dos mais importantes problemas de saúde pública mundial.1,2 No Brasil, 3 em cada 10 crianças atendidas no Sistema Único de Saúde (SUS) estão com sobrepeso e/ou obesas, totalizando, aproximadamente, 4,4 milhões de crianças e adolescentes segundo o Ministério da Saúde.4 Além disso, temos que considerar nesse balanço epidemiológico, crianças que desenvolveram sobrepeso ou já diagnosticadas obesas, pertencentes a famílias de classes sociais de perfil econômico mais elevado que não recebem atendimento do sistema público de saúde e que, possivelmente, não entram nessa contabilidade. Considerada uma doença inflamatória crônica multifatorial, a obesidade não está mais associada simplesmente ao acúmulo de gordura no tecido adiposo. Atual- mente, o tecido adiposo branco é considerado um importante órgão endócrino envol- vido em diversos papéis metabólicos e fisiológicos no organismo.5 Inúmeros fatores estão associados ao desenvolvimentoda obesidade (etiologia). Fatores genéticos, ambientais, psicossociais e culturais têm sido os mais citados nos estudos revisados.1,5 Sobre os fatores ambientais e culturais, hábitos alimentares e padrões do sono inade- quados; maior tempo de tela (utilização de celulares, tablets, games, computadores e TVs); associados a reduzida prática de atividades físicas,5,6 certamente contribuem para a diminuição do gasto calórico total e aumento do sobrepeso e obesidade na criança, além da diminuição ou prejuízo de suas capacidades físicas (resistência cardio- pulmonar, resistência anaeróbia, força, potência, velocidade, agilidade e flexibilidade). Sendo assim, a atividade física e/ou exercício físico pode desequilibrar a balança bioe- nergética a favor do emagrecimento e favorecer os processos de manejo, prevenção e tratamento da obesidade infantil e comorbidades associadas, bem como melhorar as capacidades físicas (cardiometabólicas e neuromusculares) e psicossociais da criança. Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 120 6.3. A ciência do exercício físico A ciência do exercício é uma área em crescente desenvolvimento. Devido ao grande número de evidências científicas e avanço tecnológico na área da saúde, o exercício físico é hoje considerado uma importante ferramenta terapêutica na prevenção e no tratamento de várias doenças crônico-degenerativas. De fato, a realização regular de algum tipo de exercício físico, ou mais genericamente de uma atividade física, promove vários resultados benéficos à saúde, prevenindo contra possíveis fatores de riscos e do- enças associadas ao sedentarismo, como obesidade, hipertensão, diabetes, osteoporose, sarcopenia, doenças cardiovasculares, além de evitar a mortalidade prematura.7,8 A atividade física é definida como qualquer movimento corporal produzido em decorrência do processo de contração muscular e consequente aumento do gasto energético. Já o exercício físico é uma subcategoria da atividade física, caracterizado por movimentos corporais sucessivos que provêm e/ou mantêm uma ou mais capaci- dades físicas e que pode ser planejado, estruturado e dividido em dois tipos basica- mente: exercícios aeróbios e exercícios anaeróbios.7 Os exercícios aeróbios englobam atividades dinâmicas que envolvem grandes grupos musculares e que, consequente- mente, aumentam a frequência cardíaca (FC) e o gasto energético e melhora a função do sistema cardiopulmonar e dos músculos esqueléticos. Já os exercícios anaeróbios são geralmente realizados a intensidades mais elevadas, com elevado consumo de adenosina trifosfato (ATP) e produção significativa de lactato.7 A quantificação da carga de treino necessária para gerar um estímulo e obter uma resposta específica no organismo, depende das variáveis: 1) volume, 2) intensi- dade, 3) frequência, 4) tipos de exercícios realizados e 5) métodos de treinamento de- senvolvidos. Particularmente, a intensidade descreve o esforço associado ao exercício físico e é classificada como leve, moderada, intensa e muito intensa. Ela depende: 1) do percentual da capacidade máxima de captação, transporte e utilização do oxigênio pelos músculos ativos durante exercícios dinâmicos, definido como consumo máxi- mo de oxigênio (VO 2 máx), ou consumo pico de oxigênio (VO 2 pico) e 2) dos limiares anaeróbios ventilatórios I e II (LAV I e LAV II). O LAV I corresponde ao maior consumo de oxigênio (VO 2 ) que pode ser atingido sem acúmulo de lactato sanguíneo significativo durante o esforço. O LAV II corresponde ao valor do VO 2 , a partir do qual a estabilidade dos parâmetros ventilatórios e da concentração de lactato sanguíneo é rompida.7 A partir do LAV II fica muito difícil sustentar o tempo do exercício físico (exaustão). Assim, Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 121 o exercício moderado é classificado como aquele que utiliza, em média, 55 a 75% do VO 2 máx, não provoca acúmulo significativo de lactato sanguíneo e permite a realiza- ção do exercício físico por longos períodos de tempo. Já o exercício intenso é carac- terizado por valores de VO 2 acima de 80% do VO 2 máx, acompanhado por significativo acúmulo de lactato sanguíneo e por consequentes alterações ventilatórias.7 Uma sessão única de exercício físico é definida como exercício agudo, en- quanto treinamento é o termo geralmente usado para o exercício crônico, o qual é elaborado para manter, melhorar e/ou aprimorar as capacidades físicas ou o rendimen- to esportivo do indivíduo.7 Por fim, o exercício resistido é uma denominação utilizada para exercícios que utilizem pesos contra uma determinada resistência (cabos, elásti- cos, peso do próprio corpo, barras, anilhas ou halteres). Segundo o Colégio Americano de Medicina Esportiva (ACSM), os benefícios contra os fatores de riscos à saúde podem ser alcançados através da participação regu- lar (exercício crônico) em tipos de exercícios de intensidade moderada, com duração de pelo menos 30 minutos/dia e frequência mínima de 3x/semana.8 Entretanto, tais recomendações para o tratamento de crianças com sobrepeso, ou já obesas, podem não ser eficazes, como veremos adiante nesse capítulo. O grande desafio para profissionais de Educação Física é quantificar a carga de treino. Devemos chamar a atenção nesse ponto, pois, dependendo da intensidade, duração, frequência semanal, tipo de exercício realizado e o tempo de recuperação entre as sessões de exercício, pode-se comprometer a homeostasia corporal, por au- mentar o estresse oxidativo e provocar danos em vários órgãos e tecidos.9,10 Tratando- -se de crianças em desenvolvimento, isso poderia ser ainda mais grave no processo de crescimento e maturação biológica dos tecidos. Por outro lado, um programa habitual de exercício, com cargas controladas, aumenta a capacidade antioxidante e de pro- teção a órgão e tecidos,10,11 o que é uma adaptação extremamente interessante em termos de saúde e qualidade de vida, ainda mais, se o programa de treinamento for associado às estratégias de introdução de alimentos ricos em antioxidantes no plane- jamento nutricional. 6.4. Obesidade infantil e comorbidades - efeitos no exercício físico O aumento da prevalência da obesidade infantil está associado ao aumento de várias comorbidades. Uma vez que a severidade das comorbidades aumenta com o Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 122 grau da obesidade, o exercício físico torna-se importante ferramenta multidisciplinar no tratamento da obesidade. Aqui, resumiremos os efeitos do exercício físico nos prin- cipais tipos de comorbidades decorrentes da obesidade infantil. Alterações metabólicas A obesidade infantil está relacionada ao aumento do risco de: 1) diabetes melli- tus tipo 2, 2) hiperinsulinemia e resistência à insulina, 3) dislipidemias e 4) síndrome me- tabólica.1 Por outro lado, o exercício físico exerce forte papel modulador anti-inflama- tório e do metabolismo. O exercício crônico regula a glicemia, melhora a sensibilidade a insulina e aspectos da síndrome metabólica, por elevar os níveis de interleucinas an- ti-inflamatórias IL-6 muscular e IL-15 e diminuir os níveis das citocinas pró-inflamatórias IL-1β, do fator de necrose tumoral-α (TNF-α) e da hemoglobina A1c (HbA1c), associadas a esses distúrbios metabólicos.12,13 Na prática, a prescrição de exercícios aeróbios, ou uma combinação de exercícios aeróbio e resistido (treinamento concorrente), vem sen- do bastante utilizada no tratamento da criança obesa com tais alterações metabólicas. Além disso, o treinamento intervalado de alta intensidade (HIIT) mostrou ótimos efei- tos benéficos no controle dessas comorbidades.13 Alterações Cardiovasculares A obesidade infantil provoca várias alterações cardiovasculares: 1) aumento da pressão sanguínea, 2) hipertrofia cardíaca do ventrículoesquerdo, 3) aumento dos di- âmetros do átrio e ventrículo esquerdo, 4) disfunção sistólica e diastólica e 5) doenças vasculares.1 O exercício físico promove vários efeitos benéficos funcionais e estruturais no coração e vasos sanguíneos. No coração, o exercício crônico estimula o remodela- mento cardíaco metabólico (biogênese mitocondrial) e vascular, melhorando a eficiên- cia cardíaca na extração e oferta de O2, por exemplo; bem como estimula o crescimen- to celular dos cardiomiócitos gerando melhores respostas da FC, pressão arterial (PA), débito cardíaco e volume de ejeção.14 Já nos vasos sanguíneos, o treinamento (aeróbio e concorrente) exerce impacto hemodinâmico significativo por estimular respostas fi- siológicas no ajuste e modulação da função, do diâmetro e da espessura da parede dos vasos sanguíneos.15 Alterações Endócrinas A obesidade infantil está relacionada: 1) ao hipotireoidismo, 2) às alterações da Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 123 maturação sexual e crescimento; 3) bem como alterações endócrinas específicas em meninas, como a síndrome do ovário policístico (SOP) e câncer de endométrio.1,5 Como descrito no item 4.1, o treinamento (aeróbio e concorrente) é um excelente modulador do metabolismo. Seus efeitos também promovem regulação dos ciclos menstruais, da ovulação e da fertilidade, além de promover maior taxa de gravidez que mulheres com SOP sedentárias.16 Alterações Pulmonares A obesidade infantil provoca vários distúrbios pulmonares: 1) apneia obstrutiva do sono, 2) hipoventilação alveolar associada com dessaturação de O 2 , 3) asma e 4) dispneia.1 Como a eficiência do sistema pulmonar na criança obesa é muito baixa e seus músculos respiratórios são fracos, o exercício aeróbio associado ao exercício resis- tido (treinamento concorrente) pode promover o fortalecimento de músculos periféri- cos e respiratórios e melhorar a resposta à fadiga.17 Além disso, o treinamento aeróbio (método contínuo e HIIT) melhora a cinética de recuperação do VO 2 pós-exercício e a diferença arteriovenosa de O 2 (dif. a-vO 2 ), o qual é um parâmetro funcional de doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC).18,19 Alterações Gastrointestinais A obesidade infantil acarreta vários distúrbios e doenças gastrointestinais: 1) es- teatose hepática não alcóolica 2) fibrose,1 3) hérnia de hiato, 4) colelitíase, 5) hemorroi- da e 6) câncer de cólon intestinal.5 Apesar de pouco abordado entre profissionais da saúde, infelizmente, o exercício físico promove vários benefícios ao sistema gastroin- testinal, prevenindo contra colelitíase, diverticulite, constipação intestinal e câncer de cólon.20 O treinamento aeróbio mostrou proteger a camada mucosa intestinal e me- lhorou a motilidade gastrointestinal de camundongos em estudos realizados em nos- so laboratório na Unifesp-SP.11 Entretanto, observamos que dependendo do estímulo, o exercício físico pode aumentar o estresse oxidativo e provocar danos estruturais e funcionais no trato gastrointestinal, como observado na camada mucosa (digestão e absorção) e muscular externa (motilidade) do íleo de camundongos representado na Figura 1, em resposta a uma única sessão de exercício aeróbio moderado. Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 124 Figura 1. Micrografias do íleo ilustrando alterações da camada mucosa (seta preta fina) e camada muscular externa (seta preta grossa) nos grupos controle sedentá- rio (SED), exercitado (EX), recuperação 24 horas pós-exercício (REC-24) e recuperação 48 horas pós-exercício (REC-48). Coloração: hematoxilina-eosina. Mesmo uma recuperação de 24 a 48 horas pós-exercício, os danos estruturais e funcionais ainda permaneceram presentes. Apesar desses estudos utilizarem animais como modelos experimentais, observamos que o exercício intenso também provoca vários distúrbios gastrointestinais em humanos, como vômito, náusea, sangramento nas fezes, e diarreia.20 Em resumo, demonstramos que o intestino é um órgão extre- mamente sensível aos estímulos de exercício e que sua regularidade (programa de exercício), bem como a introdução de alimentos ricos em antioxidantes, pode proteger esse órgão tão complexo das crianças em tratamento. Alterações Musculoesqueléticas e Ortopédicas Por fim, o aumento do sobrepeso em crianças pode acarretar: 1) prejuízos na mobilidade, 2) alterações do alinhamento postural e consequente dores articulares, principalmente de membros inferiores e coluna lombar e 3) gotas e osteoartrite.1 O treinamento concorrente associado ao treinamento de flexibilidade e propriocepção (estímulos sensório-motor), são bastante eficazes na reorganização dessas alterações, Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 125 pois além de estimular a perda de peso corporal, o que minimiza a sobrecarga na colu- na lombar e de membros inferiores, auxilia no fortalecimento muscular, fortalecimento ós- seo e estabilização articular.6 Os exercícios funcionais podem englobar todas essas carac- terísticas de treino e também são bastante eficientes, como discutido adiante no capítulo. 6.5. Obesidade infantil e abordagem multidisciplinar - atuação do profissional da educação física A obesidade é uma doença multifatorial. Portanto, seu tratamento deve ser multidisciplinar. A interação entre profissionais da saúde (médicos, nutricionistas, psi- cólogos, fisioterapeutas, fisiologistas do exercício, profissionais de Educação Física, entre outros) possibilita o sucesso do tratamento. A “equipe multidisciplinar” deve proporcionar estratégias e metodologias de gestão para prevenir, tratar e controlar a evolução da obesidade e comorbidades associadas. Entretanto, a experiência prática profissional nos revela que ainda estamos muito distantes dessa perfeita integração multiprofissional, apesar de já observado algum avanço em clínicas e/ou institutos de medicina integrativa ou em academias. Ao contrário do passado, atualmente o profissional de Educação Física tem um papel bem mais atuante na abordagem multidisciplinar na gestão de doenças. Sua atuação prática profissional em clínicas médicas, ambulatórios, clubes e academias, bem como na Educação Física escolar, pode contribuir significativamente para reduzir o peso corporal de crianças com sobrepeso e obesas, e consequentemente, melhorar sua saúde e qualidade de vida. Particularmente, dentro desse escopo, atuamos em 2 linhas de frente na gestão multidisciplinar do tratamento da obesidade, a qual nos tem revelado resultados práticos bem animadores. Na 1ª linha, atuamos como fisiologistas do exercício junto a uma equipe multidisciplinar composta por médicos, nutricionistas, psicólogo, fisioterapeuta, fisiologistas do exercício e profissionais de Educação Física (Figura 2), e utilizamos ferramentas específicas da Fisiologia do Exercício para auxiliar na avaliação e diagnóstico do perfil clínico da criança junto a essa equipe. Já na 2ª linha, atuamos como professores e treinadores, onde utilizamos os parâmetros obtidos para criar estratégias e elaborar o programa de treinamento e as prescrições de exercício. Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 126 Figura 2. Equipe multidisciplinar adotada em Núcleos de Fisiologia do Exercício de Clínicas/Institutos de Medicina Integrativa e Academias de SP. 6.6. Tratamento da obesidade infantil - o papel do profissional de educação física O tratamento da criança com sobrepeso e/ou obesa deve ser individualizado, personalizado e de abordagem/metodologia organizada e multidisciplinar. Inúmeros grupos de pesquisa e organizações de saúde têm proposto uma estruturação sistema- tizada do tratamento da obesidade em etapas ou estágios. Anderson KL (2017) aborda em seu artigo de revisão um modelo de 4 estágios para a gestão da obesidade infantil baseadonas recomendações do Expert Commiitte on the Assessment, Prevention, and Treatment of Child and Adolescent Overweigth and Obesity.5 Resumidamente, e de acordo com as metas atingidas, temos: Estágio 1: recomendação de dieta; indicação de atividade física (1 hora/dia); e limitação de atividades sedentárias (redução do tempo de tela, por exemplo); Estágio 2: recomendação de dieta balanceada; indicação de atividade física su- pervisionada (1 hora/dia); sugestão de 1 hora ou menos do tempo de tela; e registro alimentar e de atividade física diário; Estágio 3: recomendações do estágio 2; implantação de equipe multidisciplinar; maior contato do paciente na clínica (semanal ou mensal); maior efetividade de es- tratégias comportamentais e cognitivas; e maior envolvimento dos pais para crianças menores de 12 anos; Estágio 4: recomendações do estágio 3; troca do local das refeições; dietas hi- pocalóricas; prescrição de medicamentos; e intervenções cirúrgicas. Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 127 A equipe multidisciplinar abrange pediatra, psicólogo, nutricionista, profissio- nal de Educação Física e um coordenador do tratamento. Particularmente, nesse mo- delo, as recomendações de intervenções com exercícios físicos entram nos 4 estágios do tratamento. Nos estágios 1 e 2, as recomendações são mais gerais, com duração das sessões de 60 minutos/dia e sem planejamento sistematizado. Já nos estágios 3 e 4, sugere um planejamento de exercícios, ou seja, um programa de treinamento mais específico e organizado que proporcione melhor controle das variáveis do treinamento e proporcione um balanço calórico negativo efetivo. Na prática profissional, podemos criar e adotar uma metodologia particular, ou modelo de gestão semelhante no tratamento da obesidade, desde que minimamente baseado na ciência e que mostre resultados práticos efetivos na saúde e qualidade de vida da criança. De modo geral, acreditamos que estratégias comportamentais que visem: 1) nutrição saudável, 2) redução do tempo de sedentarismo, 3) padrões do sono saudáveis e 4) aumento no tempo de atividade física serão os pilares de sucesso na gestão do tratamento da criança obesa. Portanto, metodologias adotadas por profissionais de Educação Física que compreendam sua participação em uma equipe multiprofissional, a estruturação do tratamento da doença/distúrbio em etapas/estágios, e o planejamento individualiza- do e personalizado das prescrições de exercícios, é no mínimo, científica, organizada e diferenciada. A Figura 3 exemplifica recomendações de etapas que adotamos no tratamento de crianças com sobrepeso e obesas. Acreditamos que a base dessa me- todologia possa ser utilizada para o manuseio e tratamento de qualquer patologia ou utilizada por qualquer profissional da saúde. Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 128 Figura 3. Etapas do tratamento de crianças com sobrepeso e obesas. Adotadas em Núcleos de Fisiologia do Exercício de Clínicas/Institutos de Medicina Integrativa e Aca- demias de SP. 6.7. Tratamento da obesidade infantil - da anamnese à prescrição de exercícios Baseado na Figura 3, abordaremos a atuação prática do profissional de Educação Física (papel de gestor, treinador e fisiologista do exercício) na gestão do tratamento da obesidade infantil. ETAPA 1 - Anamnese/Questionário Consideramos uma das etapas mais importantes na gestão do tratamento da obesidade infantil. Nela, devemos destinar o maior tempo do atendimento/consulta para conhecer e mapear o perfil clínico do paciente na sua totalidade; bem como con- quistar e cativar a criança e seus familiares. Juntamente com os pais e/ou outros fami- liares, e equipe multidisciplinar, devemos compreender: 1) seus principais objetivos, 2) seu perfil clínico geral, como o grau da obesidade ou a periodicidade de consultas médicas, etc., 3) seu perfil nutricional, 4) seu perfil de sedentarismo e 5) seu perfil de atividade física, como o tempo diário ou semanal dedicado ao exercício físico, ou a algum esporte (natação, futebol, luta, ginástica, ballet, etc.), se faz Educação Física na escola, quantas horas/dia, quantas vezes/semana, se sente dor ao fazer exercício e etc. Enfim, baseado em inúmeros questionários disponíveis na web ou na utilização de softwares de avaliação física/nutricional que já possuem questionários prontos, cabe ao profissional desenvolver o seu próprio questionário, o mais completo possível e per- Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 129 sonalizado. No caso de crianças, vale ressaltar que nem sempre conseguimos aplicar o questionário na sequência exata. Podemos aproveitar para desenvolver as perguntas quando elas nos fazem comentários ou perguntas espontâneas de forma a conquistar sua confiança e a de seus familiares. ETAPA 2 - Avaliação e Diagnóstico A etapa de avaliação e diagnóstico permitirá: 1) o mapeamento completo da criança necessário para desenvolvermos estratégias junto a equipe multidisciplinar, 2) organizar dados e parâmetros e 3) sistematizar o planejamento da estruturação do programa de treinamento e da prescrição de exercícios. Além de exames clínicos la- boratoriais (sangue, fezes, urina); laudos de exames médicos (eletrocardiograma, po- lissonografia, espirometria, ressonância magnética, etc.), podemos utilizar ferramentas da Fisiologia do Exercício para complementar os parâmetros (Figura 4). A seguir, des- crevemos alguns serviços que adotamos dentro da nossa metodologia, bem como as considerações mais relevantes: Exame de Bioimpedância A bioimpedância é um dos exames mais utilizado em clínicas/institutos de saú- de (custo e praticidade). Através de eletrodos acoplados a uma balança específica, o sistema permite avaliar a composição corporal, a quantidade e distribuição de água corporal, e a Taxa Metabólica de Repouso calculada (TMR) do paciente. O método de coleta de dados e análise dos resultados é extremamente rápido, o que permite acom- panharmos a evolução do tratamento em períodos de tempo mais curtos (semanal, quinzenal, mensal, por exemplo). Entretanto, o preparo do exame deve ser bastante rigoroso para evitar variações nos resultados (e varia bastante). Outro indicativo da utli- zação dessa ferramenta, é quando a criança obesa possui dobras cutâneas elevadas, as quais não permitem a utilização do compasso de dobras cutâneas. Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 130 Figura 4. Modelos de serviços realizados em Núcleos de Fisiologia do Exercício de Clínicas/Institutos de Medicina Integrativa e Academias de SP. Exame Esportivo O exame esportivo é uma ferramenta desenvolvida pela nossa equipe multi- disciplinar e avalia os seguintes parâmetros: 1) medidas antropométricas, 2) perfil cor- poral, 3) composição corporal, 4) índices corporais, 5) teste de flexibilidade, 6) análise postural com fotos e 7) laudos com recomendações. Brevemente, a partir da cole- ta das medidas antropométricas da criança (peso corporal, altura, dobras cutâneas, perímetros corporais e diâmetros ósseos), obtemos os demais parâmetros através de um software de avaliação física (Inforsob/Inforfisic). Para traçarmos o perfil corporal da criança, extraímos sua somatotipia, ou seja, as características do seu perfil morfológico (ectomorfo, mesomorfo ou endomorfo) e comparamos a valores previstos para sexo e idade da criança. Geralmente, crianças com sobrepeso e obesas avaliadas pela nossa equipe se enquadram num perfil bastante endomorfo e abaixo da referência para o perfil mesomorfo, ou seja, crianças com alto % de massa de gordura e baixo % de mas- sa muscular, sugerindo baixos níveis de atividade física. Para análise da composição corporal, obtemos os valores do % da massa de gordura e % da massa magra; valores do peso (em Kg)da massa de gordura e da massa magra; e propomos a composição corporal a ser atingida de acordo com os valores previstos para sexo e idade da crian- ça. Já para os índices corporais (preditores de risco cardiovascular) obtemos: 1) o índice de massa corporal (IMC), percentis e escore z IMC, 2) a relação cintura-quadril (RCQ), 3) o índice de conicidade, 4) a estimativa de gordura corporal, e classificamos em relação ao previsto para sexo e idade da criança. No teste de flexibilidade utilizamos o banco de Wells, uma ferramenta sim- ples e barata, mas extremamente eficaz na avaliação da flexibidade geral da criança. Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 131 Através da coleta de dados, classificamos como está seu nível de flexibilidade (fraco, regular, bom, ótimo e excelente) em relação ao previsto para sexo e idade. Para a aná- lise postural com fotos, tiramos 4 fotos da criança (perfis: frente, lado direito, costas e lado esquerdo) posicionada à frente de um simetrógrafo (equipamento quadriculado para avaliar alinhamentos posturais). Solicitamos que as crianças fiquem de shorts ou bermuda (meninos e meninas) e top (meninas), na presença dos pais. Após análise com o auxílio do simetrógrafo e do software de análise, conseguimos detectar os princi- pais desvios posturais (escoliose, hipercifose, joelho genovalgo, protusão abdominal, etc.). Além disso, utilizamos as fotos para controle comparativo da evolução do perfil corporal da criança nas reavaliações periódicas. Por fim, criamos um laudo (colorido e personalizado) sugerindo recomendações de exercícios para atender a todos os parâ- metros avaliados e analisados. O laudo deve ser apresentado e discutido com os pais da criança ou responsáveis, bem como ao seu professor de Educação Física ou perso- nal trainer. Exame Metabólico O exame metabólico, apesar de seu alto custo, é o exame mais indicado no controle do tratamento da obesidade em crianças, pois mede, de forma bastante efi- caz, a taxa metabólica de repouso (TMR) e o Quociente Respiratório (QR). Através de um sistema de análise de gases e máscara acoplada ao rosto da criança (acima de 5 anos), o método permite medir diretamente o VO 2 e a produção de gás carbônico (VCO 2 ) e quantificarmos/compararmos a TMR medida em relação a TMR prevista para sexo e idade. Do ponto de vista prático, o método é um excelente indicador do meta- bolismo basal da criança, o qual podemos acompanhar sua evolução periodicamente e interferir junto a equipe multidisciplinar quando necessário. O QR é um marcador indireto do substrato energético celular. A partir dos gases respiratórios, calculamos o QR não protéico da criança. Para valores de QR entre 0,7 e 0,85, o metabolismo é predominantemente oxidativo, ou seja, a célula utiliza mais gordura que carboidrato. Já para valores de QR entre 0,85 e 1, o metabolismo é pre- dominantemente glicolítico, ou seja, oxida mais carboidrato (glicose) que gordura. Do ponto de vista prático, o QR reflete se a criança está consumindo carboidrato em ex- cesso (caso o QR seja maior que 0,85) em qualquer etapa do tratamento, pois os valo- res basais do QR devem ficar entre 0,7 e 0,85 (metabolismo eficiente). Portanto, para otimizar o emagrecimento devemos acelerar o metabolismo da criança (TMR) com a Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 132 prática de exercícios físicos (ou alimentos termogênicos) e monitorar o QR, periodica- mente, juntamente a equipe multidisciplinar. Exame Cardiopulmonar O exame cardiopulmonar é um teste de esforço progressivo, o qual avalia a capacidade cardiorespiratória da criança, ou seja, avalia a eficiência dos sistemas respi- ratório, cardiovascular e muscular esquelético em resposta ao esforço submáximo do exercício. Também denominado teste ergoespirométrico, o princípio da metodologia se baseia na análise simultânea de parâmetros ventilatórios e cardiovasculares durante um teste de esforço progressivo, realizado em esteira rolante (geralmente com cami- nhada e inclinações progressivas até a exaustão para crianças obesas acima de 6 anos). Dentre os parâmetros obtidos nesse exame, destacamos o consumo máximo de O 2 (VO 2 máx.) ou consumo pico de O 2 (VO 2 pico), que reflete a capacidade cardiopulmonar máxima da criança; e os LVI e LVII, já descritos acima no capítulo, os quais são impor- tantes parâmetros na prescrição do exercício aeróbio, como veremos adiante. Outra possibilidade de análise cardiopulmonar é o sistema de ventilometria, que além de ser bem mais barato, permite identificar fluxos ventilarórios e o LAVII. Por fim, podemos adotar o Teste de Conconi para controle do treinamento aeróbio, que apesar de indireto, os parâmetros de FC em resposta ao teste de esforço são mais fidedignos que utilizar % de FC máxima para prescrições de exercício aeróbio. Exame de Termografia O exame de termografia ou termometria cutânea por infravermelho é um exa- me fisiológico que capta, registra e analisa a radiação natural emitida a partir da der- me, na faixa espectral do infravermelho longo 7,5 a 13μm (calor). O exame é indolor, sem contraste ou radiação, sem contato, e avalia em tempo real, e de forma objetiva e quantitativa, padrões térmicos sugestivos de anormalidades. Anormalidades estru- turais e funcionais são refletidas na pele, através de reflexos neurovegetativos, con- trolados pelo sistema nervoso simpático, influenciado por fatores locais e sistêmicos, formando padrões térmicos diversos na pele, que permitem a identificação e quanti- ficação da anormalidade. O organismo saudável apresenta padrão térmico estável e simétrico ao longo do tempo. Avaliamos simetria entre os lados direito e esquerdo do corpo (dimídios). A perda da simetria térmica indica a presença de disfunção ou pato- logia. Valores Normais: Padrões térmicos simétricos entre os dimídios. Basicamente, a criança fica termalizada por 15 minutos em sala com temperatura controlada a 23ºC. A Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 133 análise ocorre bilateralmente em 90 regiões neurovasculares e permite avaliar: 1) áreas de risco para lesões futuras, 2) postura, 3) desordens músculo-esquelética, 4) desor- dens neurológicas, 5) desordens vasculares e gastrointestinais e 6) o perfil metabólico através da análise da temperatura de regióes corporais específicas da criança. Exame da Pisada (Baropodometria) e Confecção de Palmilhas Brevemente, toda a ação da gravidade incide nos pés. A baropodometria, ou mais comumente chamado “exame da pisada”, consiste em avaliar sobrecargas me- cânicas nos diferentes tipos de pé, tipos de pisada, bem como analisar o alinhamento postural e a estabilidade corporal, através de plataforma sensorizada extremamente sensível a variações mecânicas. Regiões de maiores pontos de pressão mecânica em análise estática e dinâmica (facilmente observadas pelas cores avermelhadas no sof- tware de análise), permite identificar as alterações específicas e, através da confecção de palmilhas personalizadas, reduzir ou anular tais alterações mecânicas. Do ponto de vista prático, a baropodometria é uma excelente ferramenta para crianças obesas que estão inseridas no programa de treinamento, a qual, através da utilização de palmilhas, minimiza sobrecargas mecânicas e previne possíveis lesões ortopédicas durante a prá- tica do exercício. Teste de Perfil Genético A análise do perfil genético da criança é um dos exames mais refinados que executamos. Através de swab bucal, coletamos material genético da saliva e mucosa da parte interna da bochecha. A seguir, utilizamos técnicas em biologia molecular es- pecíficas para analisarmos polimorfismos do gene ACTN3, o qual expressa a proteína α-actinina-3 (actn3). Essa proteína está bastante expressa em fibras musculares do tipo IIx (fibras de contraçãorápida), característica de modalidades esportivas que priorizam força, potência e velocidade. As fibras de contração lenta (Tipo I), característica de mo- dalidades esportivas que priorizam resistência cardiopulmonar, não expressam actn3.21 Portanto, se a criança possui polimorfismo no gene ACTN3 (não expressa a proteína actn3) significa que ela provavelmente não terá uma boa performance em atividades que exijam força, potência e velocidade, comparadas a crianças que expressam actn3. Entretanto, essas crianças possuem maior vantagem em atividades com características aeróbias em relação a crianças que expressam a actn3. Do ponto de vista prático, sig- nifica que podemos prescrever o exercício de forma personalizada e criar estratégias Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 134 esportivas para que elas se beneficiem ao máximo do seu perfil genético específico. Esse teste é realizado uma única vez. Por fim, apesar dessas ferramentas da Fisiologia do Exercício serem poten- cialmente eficazes na avaliação e diagnóstico de inúmeros parâmetros associados a gestão do tratamento da obesidade, nem todo profissional da saúde ou criança obesa, tem acesso a elas, seja pelo custo elevado dos equipamentos, seja pela falta de infor- mação e conhecimento dos gestores de clínicas de saúde particulares, seja por sérios problemas de gestão na saúde pública. ETAPA 3 - Estratégias, Organização e Planejamento A etapa 3 é o momento de agirmos. Nela devemos: 1) organizar todos os da- dos e parâmetros do paciente e criar seu “prontuário”, 2) criar estratégias para otimi- zar seu tratamento junto a equipe multidisciplinar e 3) desenvolver o planejamento dos profissionais, o qual aqui, seria o planejamento do programa de treinamento, ou simplesmente, a periodização de treinamento. A periodização do treinamento é uma forma de planejar e estruturar o treinamento a ser desenvolvido, por um determinado período, para um indivíduo ou um grupo esportivo. Especificamente, organizamos o programa de treino de uma criança obesa a cada 3 meses (macrociclo), divididos pelos respectivos meses (mesociclos) e subdivididos pelas respectivas semanas (microciclos). Dentro dos microciclos semanais, podemos organizar basicamente: 1) quais exames ou avaliações a criança irá realizar (médico, nutricional, psicológico, termografia, perfil genético e etc.), 2) quais capacidades físicas serão priorizadas, 3) a evolução dos % de cargas de treino e 4) os períodos de reavaliação ao final do macrociclo. Ao final do macrociclo, realizamos as reavaliações (etapa 5) e elaboramos outro macrociclo de mais 3 meses, até atingirmos o objetivo principal. A seguir, entramos no período de manutenção do peso corporal e assim sucessivamente. É importante ressaltar que a or- ganização dos microciclos semanais deve levar em conta os princípios do treinamento (individualidade biológica, adaptação, sobrecarga, continuidade, etc.), os quais devem ser seguidos à risca no tratamento da obesidade infantil de forma a otimizar seus resul- tados e minimizar os riscos de lesões nas crianças. ETAPA 4 - Prescrição de Exercícios A organização das capacidades físicas a serem desenvolvidas nos microciclos semanais determinará a prescrição de exercícios. Por exemplo, se no microciclo 1 do Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 135 treinamento (semana 1) priorizarmos treinar a resistência cardiopulmonar, a força mus- cular e a flexibilidade da criança (consideradas capacidades físicas gerais), devemos prescrever exercícios aeróbios, resistidos e de alongamento, respectivamente. Tais ca- pacidades físicas podem ser trabalhadas individualmente na sessão de treino (somente exercícios aeróbios para estimular a resistência cardiopulmonar); ou conjuntamente, para estimular 2 ou mais capacidade físicas. Particularmente, crianças entre 2 e 10 anos, independentemente do sexo, acham monótono fazer uma sessão de exercício com poucas atividades ou um mesmo tipo de exercício a sessão toda (caminhada na estei- ra, por exemplo). Obviamente, elas preferem sessões de exercícios mais lúdicas, que envolvam brincadeiras mais dinâmicas ou desafios (pega-pega, esconde-esconde, po- lícia-ladrão, etc.); ou jogos recreativos e esportivos que auxiliem no aprendizado mo- tor (queimada, futebol, natação, ballet, tênis, basquete, vôlei, handebol, entre outros). Além disso, aulas em grupo motivam mais que aulas individuais.6 A prescrição de exercícios para crianças com sobrepeso e obesas deve considerar a idade, o sexo, a presença de comorbidades, e limitações fisiológicas e/ou ortopédicas (etapas 1 e 2) que possam comprometer uma boa execução dos movimentos corporais ou até mesmo acarretar em lesões mais sérias. A intensidade das sessões de treino deve ser de leve a moderada nos 4 primeiros microciclos (sugestão) para promover adaptações fisiológicas e ortopédicas; e em seguida, ajustar a intensidade de modera- da a intensa nos próximos microciclos. Exercícios mais intensos são mais eficientes na redução da gordura corporal em crianças.22 A recomendação de duração das sessões é de 60 minutos (média) e a frequência semanal de 3 a 5x/semana para melhores resul- tados de emagrecimento corporal.6 Prescrição de Exercício Aeróbio O exercício aeróbio é a base do tratamento da obesidade infantil no programa de treinamento. Como crianças nessa faixa etária são pouco toleráveis a prática de ati- vidades físicas em ambientes fechados (academias), e a alguns equipamentos (esteira rolante, bicicleta ergométrica ou transport), devemos criar estratégias de sessões de exercícios, com essa característica, que promovam maiores taxas de adesão e resultem num alto gasto calórico total. Particularmente, utilizamos uma metodologia específi- ca para prescrição de exercícios aeróbios. A partir das FC dos LVI e LVII (obtidas no exame cardiopulmonar), criamos as zonas metabólicas de treinamento (tabela 1). Para exemplificarmos a metodologia, se a FC de repouso da criança foi de 90 batimentos/ Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 136 minuto (bpm) no dia do exame; atingiu FC do LVI = 135 bpm; FC do LVII = 165 bpm, e chegou a uma FC = 185 bpm na exaustão (final do teste), podemos organizar os níveis de intensidade em zonas de treino, como ilustrada na Tabela 1 abaixo: Tabela 1. Zonas de treino metabólicas. Para otimizar o emagrecimento corporal, utilizamos a zona 2 (tabela 1), ou seja, na faixa de FC entre 135 e 165 bpm do nosso exemplo, a qual é a zona metabólica mais eficiente na oxidação da gordura corporal, apesar de ser uma zona de metabolismo misto. A zona 1 é interessante no início da sessão de treino para aquecimento e ao final da sessão para restabelecer o organismo ao repouso, mas mobiliza pouca gordura corporal durante o exercício, apesar de ser uma zona lipolítica. Já na zona 3, as fibras musculares esqueléticas ativas priorizam a utilização de glicose como substrato ener- gético para a ressíntese de ATP. Embora, inevitavelmente a FC da criança atinja a zona 3 no decorrer da sessão, a FC média ao final da sessão de treino certamente estará dentro da zona 2. Baseado nisso, a metodologia do Treinamento Intervalado de Alta In- tensidade (HIIT), comparado ao método contínuo, tem sido bastante empregada para redução de gordura corporal em crianças e adolescentes.23 Entretanto, para crianças nessa faixa etária, podemos adaptar tal metodologia a atividades mais lúdicas e menos sistematizadas, como os exercícios funcionais, por exemplo. Prescrição de Exercício Resistido Embora a musculação seja o método mais conhecido, existem outros métodos eficientes que utilizam o exercício resistido como ferramenta para o ganho de massa muscular (treinamento funcional, por exemplo). Aumentar a massa muscular significa otimizar a TMR e o controle do perfilmetabólico da criança. A prescrição de muscula- ção para crianças obesas pode e deve ser indicada para crianças a partir de 6 ou 7 anos de idade, dependendo da maturação biológica e sempre com supervisão do profissio- Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 137 nal de Educação Física. A evolução das cargas de treino (nº de séries, nº de repetições, ajustes do peso, tempo entre séries e exercícios, etc.) deve ser crescente, de acordo com os microciclos do programa de treinamento. A recomendação é priorizar grandes grupos musculares (quadríceps, glúteos, peitoral, costas e abdome) para aumentar o gasto energético total e favorecer o emagrecimento. Já a frequência semanal pode ser de 2 a 3x/semana. Entretanto, devemos nos atentar ao controle da carga para não acar- retar possíveis lesões ortopédicas na criança. Por fim, o exercício resistido associado ao exercício aeróbio (treinamento concorrente), também favorece a redução e o controle do peso corporal por aumentar a massa muscular e estimular a lipólise.24 Prescrição de Exercício Funcional Os exercícios funcionais são extremamente eficazes no tratamento da obesi- dade infantil. Seus movimentos dinâmicos mobilizam grandes grupos musculares ao mesmo tempo, favorecendo um maior gasto calórico total e a redução da gordura cor- poral. Exercícios funcionais (pranchas, pontes, afundo, burpee, saltos ou saltos em pla- taformas elásticas) e elementos coloridos e desafiadores (cordas, bolas, discos, elásti- cos, TRX, bambolês, e etc.), tornam a atividade física mais lúdica e alegre promovendo melhor taxa de adesão da criança. Temos melhores resultados quando realizados em grupo e devemos levar em conta a escolha do nível dos exercícios para não provocar constrangimento na criança. Os exercícios funcionais, por serem dinâmicos, trabalham todas as capacida- des físicas da criança numa única sessão e podem ser combinados com musculação e exercícios aeróbios numa mesma sessão. Podemos criar circuitos de exercícios funcio- nais em grupo. Por exemplo, criamos 10 estações com diferentes exercícios e elemen- tos para 10 crianças, onde a cada 30 segundos ou 1 minuto, elas vão se revezando no circuito. É extremamente divertido e eficiente essa variação do método. As sessões de treino devem durar no máximo 60 minutos para essa faixa etária devido a sua mais alta intensidade de execução. Por fim, os exercícios funcionais devem incluir exercícios de propriocepção (exercícios com bases instáveis) para estimular o sistema sensório-mo- tor, e auxiliar na estabilização articular, pois crianças nessa faixa etária, as articulações ainda são bastante instáveis; bem como desenvolver a flexibilidade da criança com exercícios de alongamento na sessão de treino para auxiliar na prevenção de lesões. Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 138 ETAPA 5 - Reavaliação As reavaliações devem ser realizadas a cada 3 meses, dependendo de cada consulta, exame ou teste, após o término de cada macrociclo. Períodos entre 4 e 6 me- ses são ainda satisfatórios para reavaliarmos. Entretanto, períodos acima de 6 meses podem não ser eficaz no controle do tratamento da obesidade infantil. Obviamente, o sucesso desta etapa não está atrelado somente aos profissionais da equipe multi- disciplinar em realizar todas as etapas do tratamento novamente (o que seria ideal), mas também, dependerá do perfil econômico dos familiares da criança em investir na continuidade do tratamento (se tem plano de saúde ou não, por exemplo). Além disso, a disponibilidade e vontade dos familiares, e da criança, devem ser levados em conta nesta etapa do tratamento. Devemos sempre lembrar os pais que a saúde da criança não tem preço. É muito comum familiares abandonarem o tratamento após a criança atingir seus objetivos de saúde e emagrecimento, mesmo com boas condições finan- ceiras. Uma pena! 6.8. Perspectivas futuras Acreditamos em um cenário futuro preocupante no Brasil e no mundo, onde a prevalência da obesidade infantil deverá ser ainda maior nos próximos anos. Entretan- to, os avanços na pesquisa e tecnologia na área da saúde, a implementação e aplica- ção de melhores modelos de políticas de gestão no combate a obesidade (pública ou privada), e a maior atuação e qualificação dos profissionais da saúde, pode e deve fazer um contrabalanço nesse cenário atual. 6.9. Referências bibliográficas 1.Kumar S, Kelly AS. Review of childhood obesity: From epidemiology, etiology, and comorbidities to clinical assessment and treatment. Mayo Clin Proc. 2016;92(2):1-15. 2. Organização Mundial de Saúde. Obesidade e sobrepeso. Genebra: WHO; 2020. 3. https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/obesity-and-overweight. 4. Agência Brasil [homepage na internet]. Ministério lança campanha para prevenir obesidade infantil Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 139 (alimentação saudável e atividade física são algumas recomendações) [acesso em 15 nov 2019]. Dispo- nível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2019-11/saude-lanca-campanha-para-preve- nir-obesidade-infantil. 5. Anderson KL. A review of the prevention and medical management of childhood obesity. Child Ado- lesc Psychiatric Clin N Am. 2017;27(1):63-76. 6. Foster C, Moore JB, Singletary CR, Skelton JA. Physical activity and family-based obesity treatment: a review of expert recommendations on physical activity in youth. Clinical Obesity. 2017;8(1):68-79. 7. Howley ET. Type of activity: resistance, aerobic and leisure versus occupational physical activity. Med Sci Sports Exerc. 2001;33:S364-9. 8. Centers for Disease Control and Prevention. Prevalence of physical activity, including lifestyle activi- ties among adults - United States 2000-2001. MMWR Morb Mortal Wkly Rep. 2003;52:764-69. 9. Bejma J, Ji LL. Aging and acute exercise enhance free radical generation in rat skeletal muscle. J Appl Physiol .1999;87:465-70. 10. 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Braz J Med Biol Res.o IMC = peso (kg) /estatura2 (metros), que apresenta boa correlação com a quantidade da gordura corporal. O valor do IMC encontrado deverá ser analisado, utilizando-se um referencial in- ternacional como o da OMS (2006, 2007).26 O diagnóstico do excesso de peso é baseado em percentis ou escores-z do IMC/idade, como mostrado na Tabela 1: Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 17 Tabela 1. IMC/IDADE Fonte: OMS, 2006,2007 Circunferência abdominal A circunferência abdominal (CA) é um parâmetro importante a ser avaliado no obeso, pois mede indiretamente os depósitos intra-abdominais de gordura. A adiposi- dade central (abdominal) está relacionada ao maior risco de desenvolvimento de mor- bidades associadas à obesidade. A medida é realizada com uma fita inextensível, no ponto médio entre a borda inferior da última costela e a borda superior da crista ilíaca. Valores elevados da circunferência abdominal (a partir do percentil 90) em crianças e adolescentes são associados a alterações metabólicas, como resistência insulínica, dislipidemias, hipertensão arterial e ao maior risco cardiovascular.27 A Tabela 2, derivada do Bogalusa Heart Study,27 apresenta os valores de circun- ferência abdominal, segundo idade, sexo e raça, com ponto de corte no percentil 90. Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 18 Tabela 2. Circunferência abdominal em crianças e adolescentes Fonte: Freedman et al.,1999.27 1.4. Tratamento A abordagem transdisciplinar, buscando compreender a complexidade desse distúrbio nutricional, é considerada a forma mais adequada para o tratamento da obe- sidade. A equipe de atendimento deve ser formada por pediatra, nutricionista, psicó- logo, educador físico, entre outros profissionais. Ao exame físico, possíveis complicações da obesidade, como alterações ortopé- dicas, dermatológicas e a hipertensão arterial, já podem ser observadas. Os exames complementares são úteis para o diagnóstico das repercussões me- tabólicas (dislipidemias, alterações do metabolismo da glicose) e incluem a dosagem do colesterol total e das frações (HDL, LDL), de triglicérides, da glicemia e da insulinemia de jejum. US para detectar estea¬tose hepática e avaliação da função hepática, por meio da atividade das enzimas ALT, AST e gama-GT, também precisam ser realizados. Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 19 O tratamento dietético da obesidade deve ser feito de forma individualizada, elaborado em conjunto com o paciente e sua família, levando-se em conta a idade, o grau do excesso de peso e a presença ou não de comorbidades.28 Para que a intervenção nutricional seja efetiva, a rotina diária da criança ou do adolescente necessita ser conhecida, avaliando-se cuidadosamente o padrão alimen- tar (quantitativo e qualitativo), os hábitos e as preferências alimentares, a fim de se identificar os fatores que estão contribuindo para o excesso de peso.29 Dietas rígidas e extremamente restritivas são contraindicadas, pois podem acarretar diminuição da velocidade de crescimento e redução da massa muscular. A dieta deve ser balanceada, com distribuição adequada de macro e micronutrientes, e uma orientação alimentar que permita a escolha de alimentos consumidos habitualmente. O paciente e sua família têm grande responsabilidade para a obtenção do suces- so no tratamento, sendo necessário contar com determinação, paciência e disciplina. A educação nutricional é de extrema importância e tem a finalidade de tornar o indivíduo apto para organizar e controlar a alimentação, mantendo sua rotina diária. Esse processo deve estimular mudanças no hábito e comportamento alimentar de for- ma lenta e gradativa, fundamentais para o controle de peso.29 A pirâmide é um instrumento que costuma ser utilizado para auxiliar o paciente a quantificar as porções de alimentos e fazer substituições entre aqueles que pertencem a um mesmo grupo e que têm valor energético semelhante. Com esse instrumento é possível realizar trabalho educativo com a criança, propondo brincadeiras, jogos, de- senhos, tanto no atendimento individual como em grupos de educação nutricional.29 Para melhor aderência ao tratamento, as mudanças devem ser propostas gra- dualmente ao longo do acompanhamento, evitando diminuições drásticas nas quan- tidades de alimentos, imposição de dietas muito diferentes do hábito do paciente ou excesso de orientações na mesma consulta.30 O tratamento dietético deve ser realizado de maneira gradativa, em etapas:30 Conhecimento e esclarecimentos: o profissional deve conhecer detalhadamente a alimentação da criança ou do adolescente, para estabelecer as estratégias de atua- ção. É importante esclarecer conceitos inadequados e bastante difundidos, como o de comer apenas alguns tipos de alimentos, como verduras, legumes, frutas. Ressaltar que não há alimentos proibidos e mesmo aqueles que apresentam maior densidade ener- gética podem ser consumidos com moderação e menor frequência. Também é funda- mental destacar os conceitos sobre alimentação saudável. Quanto mais esclarecidos Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 20 e seguros estiverem o paciente e a sua família, melhor será a adesão ao tratamento. Avaliação e orientação sobre comportamentos relacionados à alimentação: é importante identificar algumas atitudes comuns entre crianças e adolescentes obesos, como comer rapidamente, com a televisão ligada, não ter horários estabelecidos para se alimentar, beliscar entre as refeições e repetir as porções dos alimentos. Esses comportamentos inadequados devem ser corrigidos paulatinamente, ini- ciando-se com aqueles que a criança e sua família consideram mais simples e ir progre- dindo para os de maior grau de dificuldade. Ao final dessa etapa, o esperado é que a criança ou o adolescente esteja fazen- do cinco a seis refeições ao dia (café da manhã, almoço, jantar e dois a três lanches), em local apropriado (sentado à mesa), de preferência em companhia de algum familiar, sem distrações, com TV, computador, tablet, videogame, celular desligados, comendo devagar, com mastigação adequada e sem repetições. Quantidade: nessa fase, as orientações são voltadas para a diminuição gradativa do excesso alimentar ingerido, com adequação das porções e redução das repetições. É importante perceber os limites de cada paciente para realizar a diminuição da inges- tão energética, pois uma redução muito acentuada pode deixar o indivíduo com fome e atrapalhar a evolução do tratamento. Qualidade: nessa etapa, o controle do ganho de peso já foi conseguido, com a adequação das quantidades alimentares consumidas e a incorporação das mudanças comportamentais. A meta, nesse momento, é melhorar a qualidade da dieta, incentivan- do o consumo crescente de alimentos que não costumam fazer parte do hábito alimen- tar da criança e do adolescente obesos (verduras, legumes, frutas, cereais integrais), mas que têm grande importância nutricional, sendo fontes de micronutrientes e fibras. Manutenção: nessa fase, o próprio paciente ou a sua família, utiliza as informa- ções e os aprendizados adquiridos nas etapas anteriores para se adaptar às diversas situações (festas, viagens, passeios da escola, casa de amigos), controlando os exces- sos e realizando substituições. Todas as mudanças comportamentais, quantitativas e qualitativas sugeridas de- vem ser discutidas com a criança ou o adolescente. As negociações são fundamentais para se estabelecer um vínculo de confiança com o profissional e o tratamento poder fluir com tranquilidade. Limites podem ser colocados, mas sempre respeitando o mo- mento de cada paciente. Proibir a ingestão de certos alimentos é uma conduta que deve ser evitada. Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 21 A participação da família2020;53(3):e9391. 20. Peters HPF, Vries WR, Vanberge-Henegouwen, Akkermans LMA. Potential benefits and hazards of physical activity and exercise on the gastrointestinal tract. Gut. 2001;48:435-9. 21. Lek M, North KN. Are biological sensors modulated by their structural scaffolds? The role of the structural muscle proteins a-actinin-2 and a-actinin-3 as modulators of biological sensors. FEBS Letters. 2010;584(14):2974-80. 22. Hens W, Vissers D, Hansen D, Peeters S, Gielen J, Van Gaal L, Taeymans J. The effect of diet or exercise on ectopic adiposity in children and adolescents with obesity: a systematic review and meta- -analysis. Obesity Reviews. 2017;18(11):1310-22. 23. Liu JX, Zhu L, Deng JM.The effects of high-intensity interval training versus moderate-inten- sity continuous training on fat loss and cardiometabolic health in pediatric obesity. Medicine. 2019;98(10):e14751. 24. Garcia Hermoso A, Ramírez Velez R, Ramíres Campillo R, Peterson MD, Martínez Vizcaíno V. Con- current aerobic plus resistance exercise versus aerobic exercise alone to improve health outcomes in paediatric obesity: a systematic review and meta-analysis. Br J Sports Med. 2016;0:1-7. Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 141 Diretoria e Conselho Científico e de Administração do ILSI Brasil Presidente do Conselho Científico e de Administração Chair Franco Lajolo (Fac. de Ciências Farmacêu- ticas/USP) Vice-Presidente do Conselho Científico e de Administração Vice-Chair Paulo Stringheta (Universidade Fed. de Viçosa) Presidente Executivo Executive President Luiz Henrique Fernandes (Pfizer) Vice-Presidente Executivo Executive Vice-President Amanda Poldi (Cargill) Diretoria Financeira Executive Finance Luiz Henrique Fernandes (Pfizer) Diretoria Board of Directors Amanda Poldi (Cargill) Bernadette Franco (Fac. de Ciências Far- macêuticas /USP) Deise Capalbo (Embrapa) Fernanda Martins (Unilever) Helio Vannucchi (Fac. de Medicina de Ri- beirão Preto/USP) Maria Cecília Toledo (CCFA Brazilian delega- tion/UNICAMP) Mariela Berezovsky (Danone) Taiana Trovão (Mondelez) Diretoria Executiva Executive Director Flavia Franciscato Cozzolino Goldfinger Conselho Científico e de Administração Board of Trustees Adriana Arisseto (Fac. Eng. Alimentos/UNICAMP) Amanda Poldi (Cargill) Bernadette Franco (Fac. de Ciências Farma- cêuticas/USP) Carlos Nogueira-de-Almeida (Universidade Federal de São Carlos) Deise M. F. Capalbo (EMBRAPA) Eduardo Nascimento Silva (Coca-Cola) Fernanda de Oliveira Martins (Unilever) Felix Reyes (Fac. Eng. Alimentos/UNICAMP) Flavio Zambrone (Inst. Brasileiro de Toxicologia) Franco Lajolo (Fac. de Ciências Farmacêuticas/USP) Helio Vannucchi (Fac. de Medicina de Ribei- rão Preto/USP) João Paulo Fabi (Fac. de Ciências Farmacêu- ticas/USP) Luiz Henrique Fernandes (Pfizer) Maria Cecília Toledo (CCFA Brazilian dele- gation/UNICAMP) Mariela Weingarten Berezovsky (Danone) Mauro Fisberg (Instituto PENSI e Pediatria EPM/UNIFESP) Neuza Hassimotto (Fac. de Ciências Farma- cêuticas/USP) Paulo Stringheta (Univ. Federal de Viçosa) Renata Cassar (Tate & Lyle) Silvia Maria Franciscato Cozzolino (Fac. de Ciências Farmacêuticas /USP) Taiana Trovão (Mondelez) Tatiana da Costa Raposo Pires (DSM) Thaise Mendes – Herbalife Board of Directors and Board of Trustees - ILSI Brasil 7. DIRETORIA E CCA 2020 Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 142 8. FORÇA-TAREFA NUTRIÇÃO DA CRIANÇA Histórico e Justificativa Com atividades iniciadas, em 2011, como um Grupo de Trabalho ligado a For- ca-Tarefa Nutrição Clínica, a equipe consolidou seus objetivos e metas ate se tornar uma Forca-Tarefa independente, em 2016. Atualmente, sua atuação é direcionada à nutrição da gestante e lactente, prosseguindo na Primeira Infância expandida (ate os 5 anos de vida) e, posteriormente, na faixa etária escolar ate o início da adolescência (10 anos), considerando as peculiaridades destes grupos na promoção da saúde. A proposta e estimular a discussão multidisciplinar neste universo, que envolve profissionais de diversas especialidades, e contribuir para que a informação isenta e de qualidade seja ferramenta importante na atualização científica do profissional atuante na saúde, que envolve o acompanhamento do crescimento e desenvolvimento da criança, contribuindo, assim, para a saude e qualidade do capital humano na vida adulta. Objetivos • Estimular a discussão de assuntos ligados as necessidades nutricionais de crianças de 0 a 10 anos, levando conhecimento científico sobre o tema. • Atuar como facilitador nas trocas de informacoes entre profissionais da area de saúde, empresas, academia, orgaos cientificos e governamentais. • Melhoria da qualidade de vida destes grupos populacionais. Empresas mantenedoras 2020 Reckitt Benckiser Danone Piracanjuba Abbotté essencial no tratamento de crianças e adolescentes obesos, colaborando com a compra e o preparo dos alimentos consumidos em casa e com a escolha daqueles consumidos fora. Para melhor aderência ao tratamento, as mudanças são estimuladas gradual- mente ao longo do acompanhamento, evitando sempre mudanças drásticas nas quan- tidades, imposição de dieta muito diferente do habitual ou excesso de orientações na mesma consulta. O objetivo do tratamento dietético da obesidade é a reeducação alimentar, com o consumo variado e adequado de representantes de todos os grupos alimentares, de tal forma que a ingestão de macro e micronutrientes seja apropriada para o crescimen- to e desenvolvimento, de acordo com as diferentes faixas etárias. A utilização de alimentos diet e de adoçantes é indicada apenas para os obesos que apresentam intolerância à glicose ou diabetes mellitus. O uso de alimentos diet não está indicado para o manejo da obesidade infantil. Além de não contribuírem para a mudança do hábito alimentar, esses produtos podem não apresentar impacto na redução da ingestão calórica total. Além disso, contêm adoçantes que não foram sufi- cientemente estudados para serem usados com segurança, na faixa etária pediátrica, em longo prazo.29 A obesidade pode se associar às dislipidemias (aumento de triglicérides, LDL- -colesterol e/ou redução do HDL-colesterol), alterações do metabolismo da glicose e à hipertensão arterial, fatores que elevam o risco para o desenvolvimento das doenças cardiovasculares e do diabetes tipo 2. Para a prevenção e o controle dessas comorbi- dades, mudanças específicas na dieta também devem ser realizadas dentro da propos- ta de reeducação alimentar.29 As recomendações para prevenção e controle das doenças cardiovasculares determinam o consumo diário de 30% do valor energético total (VET) em gorduras totais, sendo de 10% e 7% em gorduras saturadas para a prevenção e o tratamento das dislipidemias, respectivamente. Também deve ser evitada a ingestão de gorduras trans, restringido o consumo de sódio, de alimentos e bebidas ricos em carboidratos simples e bebidas alcoólicas. O consumo de aves, carnes magras e peixes (no mínimo, duas vezes/semana), frutas e hortaliças (> 5 porções/dia), com o objetivo de aumentar a ingestão de gorduras insaturadas, vitaminas antioxidantes e fibra alimentar, deve ser estimulado.29 Em crianças ou adolescentes com aumento da fração LDL-colesterol, maior ên- Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 22 fase precisa ser dada ao controle de alimentos ricos em gorduras saturadas, trans e colesterol, presentes em carnes vermelhas, leite e derivados lácteos integrais, embu- tidos, preparações fritas e produtos industrializados elaborados com gordura vegetal hidrogenada.29 Quando existe aumento de triglicérides, observar a presença de beliscos, re- petições ou o consumo exagerado de determinados alimentos. Na presença dessa alteração, prioriza-se o controle de alimentos ricos em carboidratos simples (açúcar e farinha refinada), produtos industrializados ou preparações/bebidas com adição des- ses ingredientes (balas, sucos, refrigerantes, iogurtes, biscoitos, doces).29 A restrição de alimentos ricos em carboidratos simples também deve ocorrer na presença de intolerância à glicose ou de diabetes mellitus. Nesses casos, pode-se dis- cutir com a família a utilização de produtos dietéticos, avaliando sempre a necessidade de sua inclusão e o real benefício, o tipo de adoçante presente e o número de porções consumidas por dia, de forma a não ultrapassar o limite tolerável de seu consumo, com o uso indiscriminado.29 Nos casos de aumento da pressão arterial sistêmica, avaliar a qualidade dos alimentos consumidos dentro e fora de casa, a forma de preparo, os temperos e con- dimentos utilizados. Restringir o consumo de temperos industrializados, embutidos, frios, alimentos em conserva, enlatados, congelados, salgadinhos de pacote e pro- dutos industrializados de forma geral, pois costumam ser ricos em sódio. Nos obesos hipertensos, a redução da quantidade de sódio na dieta é importante para a normali- zação dos níveis pressóricos. Recomenda-se ingestão máxima de 2,3 g/dia de sódio, que corresponde, aproximadamente, a 5g de sal.29 O atendimento de crianças e adolescentes obesos é complexo e os resultados são lentos. Dessa forma, sempre que possível manter as consultas em intervalos curtos (semanal, quinzenal, mensal, conforme a necessidade do paciente), associar ao aten- dimento individual grupos educativos, estimular e valorizar constantemente as mudan- ças observadas e promover o atendimento transdisciplinar. A manutenção e a redução gradativa do peso esperadas, respectivamente, para crianças e adolescentes pós-púberes, e as mudanças do hábito e comportamento ali- mentar, costumam ocorrer em médio e longo prazo. Quando grupos de educação nu- tricional são associados ao atendimento individual, os resultados podem ser obtidos com maior rapidez.31 Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 23 1.5. Prevenção A obesidade é uma doença de difícil controle, com altos percentuais de in-su- cesso e recidivas no seu tratamento, podendo acarretar sérias repercussões orgânicas e psicossociais, especialmente nas formas mais graves.32 A obesidade iniciada na infância ou na adolescência pode persistir na fase adulta e levar à diminuição da qualidade e da expectativa de vida, devido ao desenvolvimen- to de morbidades associadas ao excesso de peso, como as doenças cardiovasculares, o diabetes tipo 2, entre outras.33,34 Dados derivados de estudos longitudinais, em geral, mostram associação entre valores elevados de IMC na infância e obesidade na fase adulta. O estudo de Bogalu- sa,35 que seguiu uma coorte de 2.124 crianças e adolescentes de 5 a 17 anos até os 42 anos de idade, verificou obesidade em 66% dos adultos provenientes do grupo de crianças e adolescentes com sobrepeso e em 87% daqueles que pertenciam ao grupo de crianças e adolescentes obesos. A média do IMC entre os adultos oriundos do gru- po de crianças e adolescentes com sobrepeso era de 32 kg/m2 e entre os que vieram do grupo de crianças e adolescentes obesos, de 38 kg/m2, com 39% dos indivíduos apresentando IMC ≥ 40 kg/m2. O risco de a obesidade na infância continuar na vida adulta está relacio-nado ao tempo de duração da doença e a sua gravidade. As taxas de remissão diminuem e o risco de persistência aumenta com o avanço da idade e com o aumento do grau de obesidade.36 O aumento da prevalência de obesidade nas últimas décadas, a gravidade das suas repercussões, as dificuldades para o seu controle e o alto custo para a sociedade fazem desse distúrbio nutricional relevante problema de saúde pública, que precisa ser combatido desde idades bem precoces.37-39 A prevenção da obesidade deve ser iniciada durante o período intrauterino, com a adequada nutrição da gestante. Segundo o conceito de programação metabólica, um agravo que altera uma estrutura somática ou o ajuste de um sistema fisiológico, em fases críticas do desenvolvimento, pode acarretar consequências deletérias para a saúde em longo prazo.40 Há evidências científicas mostrando que a quantidade e a qualidade dos nutrientes recebidos pelo feto influenciam o seu desenvolvimento e o aparecimento futuro de doenças não transmissíveis, como obesidade, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares.41,42,43 Da mesma forma, fatores nutricionais nos pri- meiros anos de vida podem modular o risco para essas doenças.44 O leite materno, exclusivo até os 6 meses de vida e complementado a partir Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 24 dessa idade até os dois anos ou mais, é o alimento ideal para suprir as necessi-dades nutricionais do lactente e proporcionar crescimento e desenvolvimento adequados.Além disso, ele também funciona como proteção contra a obesidade, devido a sua apropriada composição nutricional e por conter substâncias que participam da home- ostase energética, como leptina, adiponectina, grelina, resistina e obestatina.45-49 A prevenção da obesidade infantil pode ser feita a partir dos cuidados primários de saúde, tendo o pediatra papel de destaque ao realizar o monitoramento do peso e da estatura da criança.50 Quando for verificado aumento excessivo de peso em relação à estatura em uma criança, especialmente com pais obesos, deve ser realizada adequa- da orientação nutricional com o objetivo de evitar o desenvolvimento da obesidade, pois, uma vez instalada, fica muito mais difícil a reversão do quadro. Também cabe ao pediatra a promoção do aleitamento materno e a introdução correta dos alimentos complementares, tanto em relação à idade de introdução, quanto à qualidade dessa alimentação.51,52 A introdução precoce da alimentação complementar, especialmente dos alimentos sólidos, além de inter-romper o aleitamento materno exclusivo, leva a maior ingestão energética. Seach et al.53 encontraram associação entre a idade de in- trodução dos alimentos sólidos e o IMC na infância mais tardia. Acompanharam 307 crianças do nascimento até os 10 anos de idade e verificaram que o risco de sobrepe- so/obesidade era reduzi-do significativamente a cada mês de retardo na introdução de alimentos sólidos. O pediatra também precisa ficar atento aos distúrbios da relação mãe-filho e da dinâmica familiar, os quais, muitas vezes, interferem na esfera alimentar e contribuem para a instalação e manutenção da obesidade na infância.8 A participação ativa da família é fundamental no sentido de propiciar hábitos alimentares adequados, oferecendo à criança uma alimentação saudável, com maior disponibilidade de frutas, legumes e verduras e redução do consumo de alimentos com quantidades elevadas de açúcar, sal, gorduras saturadas e trans e de bebidas com baixo valor nutricional, como refrigerantes e sucos artificiais.54,55 Fazer as refeições com as crianças, ser modelo de consumo de alimentos saudáveis, observar sinais de fome e saciedade dos filhos e não realizar trocas afetivas exclusivamente por meio da alimentação são importantes recomenda-ções aos pais.56 A família deve modificar o comportamento sedentário, estimulan-do a criança para ter estilo de vida mais ativo. A troca de atividades sedentárias (tempo gasto com TV, videogame, computador, tablet, celular) por brincadeiras ao ar livre, caminhadas, andar de bicicleta, com o envolvi- Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 25 mento dos pais, precisa ser incentivada. O estímulo à prática de exercícios físicos, de acordo com a idade, e a restrição de atividades sedentárias devem ser realizados, para que a criança adquira estilo de vida mais ativo e saudável.57 As intervenções em escolas também fazem parte das estratégias para o controle da obesidade infantil, com a vantagem de a escola já possuir uma estrutura organizada e de ser atingido grande percentual da população a custo baixo.58 O tempo de perma- nência dos alunos na escola é longo e, nela, eles fazem uma ou duas refeições ao dia durante cinco dias da semana. Destaca-se ainda o fato de o escolar ser um potencial agente de mudança na família e na comunidade onde está inserido. Os modos de intervenção em escolas incluem a introdução no currículo escolar de matérias que for- neçam informações sobre saúde, alimentação, nutrição, vantagens do exercício físico; atuação junto às lanchonetes ou à merenda oferecida pela escola, assegurando maior oferta de alimentos saudáveis; promoção de práticas esportivas; participação dos pro- fessores e demais funcionários. Outras intervenções importantes para a prevenção da obesidade podem ser destacadas, como a regulação do marketing de alimentos não saudáveis, principal- mente voltado para o público infantil, melhora da rotulagem dos produtos alimentí- cios, taxação de alimentos não saudáveis, mudanças na infraestrutura urbana, com a finalidade de promover transporte ativo e aumentar espaços para recreação.55 A prevenção do excessivo ganho de peso é mais barata, mais fácil e mais eficiente do que o tratamento da obesidade e de suas comorbidades já plenamente desenvolvidas. As estratégias para o controle da obesidade necessitam da atuação de toda a sociedade (família, escola, órgãos governamentais, indústria alimentícia, socie-dades científicas, mídia), com o objetivo de modificar o ambiente "obesogênico", que favo- rece a instalação do excesso de peso em indivíduos geneticamente pre-dispostos.59,60 1.6. Sugestões para a Prevenção da Obesidade Pediatra – Estimular o aleitamento materno; introduzir adequadamente os ali- mentos complementares; detectar precocemente aumento excessivo de peso em re- lação à estatura; orientar a alimentação para evitar o desenvolvimento da obesidade; incentivar o aumento da atividade física; envolver a família; observar distúrbios da rela- ção mãe-filho e da dinâmica familiar. Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 26 Família - Modificar hábitos alimentares inadequados e estilo de vida sedentário. Escola - Fornecer informações sobre saúde, nutrição, atividade física; aumentar a disponibilidade de alimentos saudáveis nas cantinas e na merenda; estimular práticas esportivas; envolver toda a comunidade escolar. Órgãos governamentais – Criar, em áreas urbanas, mais espaços para pedestres, ciclovias seguras, centros recreativos e parques, proporcionando aumento da atividade física; melhorar a rotulagem dos produtos alimentícios, com informações nutricionais claras e de fácil entendimento; regulamentar a propaganda de alimentos não saudá- veis voltada para crianças e adolescentes. Indústria alimentícia – Desenvolver alimentos e bebidas mais saudáveis, consi- derando a densidade energética e a composição de nutrientes. Sociedades científicas – Alertar os seus membros sobre o problema e fornecer subsídios para o controle e a prevenção da obesidade. Mídia – Promover alimentação adequada e estilo de vida saudável. 1.7. Referências bibliográficas 1. 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ATUAÇÃO DO NUTRICIONISTA Ana Paula Black Dreux Rosane Quaranta Lessa 2.1 Definição e diagnóstico A obesidade infantil é uma epidemia global que afeta todos os países do mundo em todos os estágios da vida e classes sociais,1 sendo definida pelo acúmulo excessivo de camada de tecido adiposo no organismo.2 Na população infantil, o diagnóstico de obesidade pode ser realizado pelo índi- ce de massa corporal ajustado por idade (IMC/I) de acordo com o sexo.3,4 Esse índice, apesar de não diferenciar músculo de tecido adiposo, possui boa correlação com a adi- posidade.5 A caderneta de saúde da criança fornecida pelo Ministério da Saúde dispo- nibiliza os gráficos de IMC da Organização Mundial de Saúde3,4 que podem auxiliar os profissionais de saúde durante a triagem nutricional e acompanhamento evolutivo da criança, incluindo ganho ponderal. Também é possível utilizar o software WHO Anthro para a aplicação global da referência da OMS 2006 destinado à faixa etária de 0-5 anos de idade e WHO AnthroPlus para a aplicação global da referência da OMS 2007 para a faixa etária de 5-19 anos, ambos disponíveis no site da Organização Mundial da Saúde. Os pontos de corte para diagnóstico serão apresentados no Quadro 1. Quadro 1. Classificação de sobrepeso e obesidade, segundo o índice de massa corporal por idade. Fonte: WHO 2006 e 2007. Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 34 2.2. Implicações relacionadas à obesidade infantil O diagnóstico precoce de excesso de adiposidade infantil é de extrema im- portância por esta ter implicações imediatas na saúde física da criança, e mais tardias, aumentando o risco de obesidade na adolescência e vida adulta.1 O desenvolvimento desse excesso de adiposidade na infância é fator de risco para doenças crônicas não transmissíveis,6 como cardiovasculares (hiperlipidemia, hipertensão arterial), endocri- nológicas (diabetes mellitus tipo 2, síndrome metabólica), gastrointestinais (doença hepática gordurosa não alcoólica), respiratórias (apneia obstrutiva do sono) e musculo esqueléticas (geno valgo, geno varo, risco de fraturas nos membros inferiores) o que aumenta o risco de morte prematura na vida adulta.7,8,9,10 É importante ressaltar que essa adversidade não é limitada à saúde física, mas pode também impactar de maneira negativa a saúde mental com aumento da estigmatização e impacto no comporta- mento resultando em timidez, ansiedade, agressividade, depressão e dificuldades no relacionamento social.11 Os esforços mundiais relacionados à diminuição da incidência de obesidade infantil e suas consequências têm sido focados especialmente na prevenção,10 prin- cipalmente em três momentos críticos para seu desenvolvimento, que são o período gestacional, a fase pré-escolar e a adolescência.12 Os conceitos mais novos sobre este tema referem-se ao período que envolve a pré-concepção13 e o pré-natal, com foco em diminuir a exposição intrauterina aos fato- res de risco que possam influenciar negativamente na vida pós-natal.14 Assim, durante o período gestacional é importante identificar fatores de risco associados à saúde ma- terna como pré-eclâmpsia,15 diabetes gestacional,16 doenças cardiovasculares, obesi- dade,17 estado nutricional da gestante (IMC pré-gestacional e ganho de peso durante a gestação),18,19 exposição à xenobióticos20 e padrão alimentar insatisfatório.1,21,22,23 Outras fases que merecem atenção para o desenvolvimento de obesidade são a infância e adolescência, uma vez que ocorre a definição do número de células adipo- sas, que se tornarão relativamente estáveis na vida adulta. De fato, estudos mostram que indivíduos adultos que perdem peso mantêm o número dessas células após ema- grecimento.24,25 Portanto, na fase pré-escolar, caso haja hábitos de vida inadequados, poderá ocorrer maior renovação de tecido adiposo associado à sua disfunção12,25,26 o que aumenta o risco de manutenção da obesidade na adolescência e na vida adulta.12,25,26,27 Além dos determinantes biológicos, a forte influência do ambiente no desen- Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 35 volvimento da obesidade infantil também deve ser considerada.22 A urbanização, a renda familiar e o fácil acesso a redes de supermercados e fast food comprometem a escolha de alimentos com melhor qualidade nutricional.28 Isso leva ao aumento do consumo de alimentos ricos em gorduras, principalmente saturada e trans, açúcar e sal, ou seja, alimentos densamente energéticos e pouco nutritivos (Tabela 1). Como conse- quência dessas escolhas ocorre a redução da frequência de refeições elaboradas com alimentos in natura ou minimamente processados feitas em família.29,30 Somado a disso, mudança no estilo de vida ocasionada pela redução da atividade física e aumento de comportamento sedentário tem sido influenciada pelo uso de transporte motorizado e pelo maior tempo gasto com tela (computador, celular, televisão, videogame),1 esta última, associada também ao maior consumo de alimentos não saudáveis, especial- mente alimentos ultraprocessados.31 Tabela 1. Alimentos ricos em sódio, açúcar de adição egordura trans. Assim, o estabelecimento da obesidade infantil envolve comportamentos individu- ais associados ao meio ambiente, necessitando dessa forma de uma série de intervenções assertivas para reduzir o risco de desenvolvimento da mesma e de diversas outras doenças que culminarão em pior qualidade de vida na fase adulta. Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 36 2.3. Prevenção da obesidade infantil Por se tratar de uma doença multifatorial, as estratégias para sua prevenção devem englobar ações multivariadas e os profissionais de saúde devem estar treinados para orientar crianças, adolescentes, pais e comunidades sobre hábitos alimentares saudáveis, prática de atividade física e mudanças comportamentais.10,32 Apoiar um ambiente que incentive preferências alimentares saudáveis nos primeiros cinco anos de vida é fundamental para estabelecer um padrão alimentar adequado.6,10 Isso acontece porque crianças são influenciadas e direcionadas pelo comportamento alimentar dos pais/cuidadores e colegas, pela disponibilidade de ali- mentos dentro e fora de casa, pelo marketing e propaganda voltados para o público infantil. Todos esses estímulos interferem no padrão que será adotado por elas, como por exemplo, escolha do tamanho das porções e frequência de consumo de determi- nados alimentos.33 Para manter um crescimento e desenvolvimento saudável é imprescindível a orientação quanto à ingestão alimentar de energia e nutrientes estabelecidos pela DRIs proposta de acordo com a idade, estágio da vida e sexo. 34,35,36,37,38,39,40 Em alguns casos, como por exemplo, gestação e os primeiros anos de vida, alimentos fortificados e suplementos alimentares podem ser necessários para atingir tais reco- mendações.17,19,41 Adiante serão abordadas medidas preventivas da obesidade em di- ferentes estágios da vida. 2.4. Gestação Para prevenção de obesidade infantil, o profissional de saúde deverá ter uma visão mais ampliada quanto aos aspectos diretamente relacionados à saúde materno- -fetal-infantil antes mesmo da concepção.18 As mulheres, em idade fértil, que estejam com magreza ou sobrepeso/obesidade e desejam engravidar devem ser incentivadas a mudar seu estilo de vida por meio de mudanças no hábito alimentar e prática de atividade física.10,19,21,41 Com o objetivo de se alcançar o adequado crescimento e de- senvolvimento infantil, a mesma deve ser orientada quanto a importância de uma nu- trição adequada durante os primeiros 1000 dias, que compreendem o período desde a concepção aos 2 primeiros anos de vida.42,43 Em contrapartida, a má nutrição materna durante esta “janela de oportunidades” poderá ocasionar danos irreversíveis ao cére- Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 37 bro do bebê, além de aumentar o risco de desenvolvimento de doenças crônicas na vida adulta, como obesidade e diabetes.44 Durante a gestação é de suma importância a manutenção de ações educativas para a alimentação saudável visto que a gestante deverá ganhar peso de acordo com seu IMC pré-gestacional.19,21,45 Além disso, deve receber tratamento médico e nutri- cional para comorbidades, caso existam, pois isso pode imprimir melhores caraterísti- cas de saúde em seus filhos.45,46,47 Gestantes tendem a superestimar sua necessidade energética, sendo fundamental informá-las que esse aumento de fato é pequeno (em torno de 10%)19 desmitificando que gestante deve “comer por dois” para suprir suas necessidades e as do bebê. A ingestão excessiva de energia é prejudicial por aumentar o ganho de peso materno e consequentemente do feto.19,43 Quanto a distribuição dos macronutrientes, essa deve seguir recomendações semelhantes a da população saudável, com exceção da ingestão proteica que deve ser discretamente aumentada para atender as demandas desse período.19,21,41 Uma ressalva pode ser feita quanto a maior necessidade de ácidos graxos poli-insaturados ômega 3, principalmente na proporção ácido docosaexaenoico, o qual deve ser suplementado, especialmente em gestantes que não consumam alimentos-fonte.19,21 A ingestão ade- quada de folato de ser corrigida desde o início da gestação, via suplementação, uma vez que é difícil alcançar as necessidades pela dieta. Demais micronutrientes como ferro, colina, vitamina B12, B6 e D também serão fundamentais para a diminuição de desfechos desfavoráveis ao desenvolvimento fetal e podem ser suplementados levan- do em consideração história clínica, anamnese, cultura e região geográfica.19,21,34,36,40 Recomendações adicionais importantes durante a gestação são redução da ingestão de cafeína, evitar a ingestão de alimentos crus, malpassados ou mal higieniza- dos, incentivo ao consumo de alimentos orgânicos e à prática de atividade física. Outro fator importante é a redução da exposição à xenobióticos, como metais pesados, ci- garro/drogas, inseticidas/agrotóxico, bisfenol A (BPA) e bebidas alcoólicas.19,21 Concomitante ao que foi exposto é importante focar na qualidade alimentar glo- bal48 priorizando alimentos in natura ou minimamente processados e preparações culiná- rias à base desses alimentos, reduzindo ao máximo o consumo de alimentos processados e ultraprocessados.19 Para melhor compreensão, a classificação NOVA categoriza os alimen- tos de acordo com a extensão e o propósito de seu processamento, considerando-se:29 • Alimentos in natura - partes comestíveis de plantas (sementes, frutos, folhas, caules, raízes), animais (músculos, vísceras, ovos, leite), cogumelos, algas e água própria para consumo. Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil 38 • Alimentos minimamente processados - alimentos in natura submetidos a pro- cessos como remoção de partes não comestíveis ou não desejadas dos alimentos, secagem, desidratação, trituração ou moagem, fracionamento, torra, cocção apenas com água, pasteurização, refrigeração ou congelamento, acondicionamento em em- balagens, empacotamento a vácuo e fermentação não alcoólica (farinha de trigo, man- dioca ou milho, leite pasteurizado, leite em pó, iogurte natural, café, macarrão). • Ingredientes culinários processados - incluem substâncias extraídas direta- mente de alimentos in natura ou da natureza e consumidas como itens de preparações culinárias (sal, açúcar, mel, manteiga, creme de leite, óleo de soja ou oliva). • Alimentos processados - incluem produtos fabricados a partir de alimentos in natura ou minimente processado com a adição de sal, açúcar, óleo, vinagre ou outro ingrediente culinário, sendo em sua maioria produtos com dois ou três ingredientes (queijos, pães, compotas e conservas). • Alimentos ultraprocessados – formulações industriais feitas com cinco ou mais ingredientes. Incluem substâncias e aditivos como açúcar, óleos, gorduras e sal, além de antioxidantes, estabilizantes, conservantes corantes, aromatizantes, realçadores de sabor, produtos à base de petróleo e vários tipos de aditivos usados para adicionar aos produtos de propriedades sensoriais atraentes (ex. refrigerante, suco em pó, pão de forma, salgadinhos, biscoitos, fórmula infantil, composto lácteo, temperos prontos, salsicha, hambúrguer, macarrão instantâneo). 2.5. Lactente No primeiro ano de vida do lactente, o aleitamento materno exclusivo até 6 meses sob livre demanda e a amamentação continuada até 24 meses ou mais, com in- trodução adequada de alimentação complementar é de fundamental importância para se evitar ganho de peso excessivo e obesidade futura.17,22,32,33,49-53 Ultimamente tem-se focado na relação entre a composição da microbiota in- testinal e o desenvolvimento de obesidade.54 Já é consenso de que a escolha do tipo de parto (vaginal ou cesariano),55 do tipo de aleitamento (leite materno, fórmula infantil ou leite de vaca fluido)56 e do tipo de alimentação complementar irão contribuir para a modulação