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© 2021 ILSI Brasil International Life Sciences Institute do Brasil
ILSI BRASIL
INTERNATIONAL LIFE SCIENCES INSTITUTE DO BRASIL
 Rua Hungria, 664 — conj.113
01455-904 — São Paulo — SP — Brasil
Tel./Fax: 55 (11) 3035-5585 e-mail: ilsibr@ilsi.org.br
© 2021 ILSI Brasil International Life Sciences Institute do Brasil
Esta publicação foi possível graças ao apoio da Força-Ta-
refa Nutrição da Criança, subordinada ao Comitê de Nutrição e 
este ao Conselho Científico e de Administração do ILSI Brasil. 
Na página 142, encontra-se a lista dos membros do Conselho 
Científico e de Administração do ILSI Brasil e na página 143, as em-
presas mantenedoras da Força-Tarefa de Nutrição da Criança em 2020.
As afirmações e opiniões expressas nesta publicação são 
de responsabilidade dos autores, não refletindo, necessariamen-
te, as do ILSI Brasil. Além disso, a eventual menção de determi-
nadas sociedades comerciais, marcas ou nomes comerciais de 
produtos não implica endosso pelo ILSI Brasil.
O ILSI Brasil – International Life Sciences Institute do Brasil – é uma 
organização mundial sem fins lucrativos e de integração entre aca-
demia, industria e governo. Sua missão e estimular a discussão e 
aplicação da ciência em temas que visam a melhora da saúde e do 
bem estar público e preservação do meio ambiente.
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
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COORDENAÇÃO CIENTÍFICA:
Tulio Konstantyner
Médico e Pediatra, com área de atuação em Nutrologia. Mestre e Doutor em Ciên-
cias Aplicadas à Pediatria (UNIFESP). Pós-Doutorado em Epidemiologia e Saúde Pública 
pela London School of Hygiene & Tropical Medicine e em Medicina pela Universidade 
Federal de São Paulo. Professor Adjunto I e Vice Chefe da Disciplina de Nutrologia (EPM/ 
UNIFESP). Membro Titular do Departamento de Nutrologia da Sociedade Brasileira de 
Pediatria. Coordenador científico da força-tarefa de Nutrição da Criança do International 
Life Sciences Institute (ILSI Brasil).
REVISÃO CIENTÍFICA:
Joel A. Lamounier
Médico Pediatra pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Especialista 
em Nutrição pela Universidade de São Paulo. Mestre em Bioquímica e Imunologia (ICB-
-UFMG) e Doutor em Saúde Publica e Nutrição pela Universidade da Califórnia/EUA. 
Professor titular de Pediatria da UFMG e da Universidade Federal de São João Del Rei 
(UFSJ - Campus Sede). Chefe do Departamento de Medicina da UFSJ. Pesquisador Bol-
sista de Produtividade CNPq 1D. Segundo Vice-presidente da Sociedade Brasileira de 
Pediatria. Membro do Comitê de Nutrologia da Sociedade Mineira de Pediatria. Mem-
bro do Comitê Científico Consultor do International Life Sciences Institute (ILSI Brasil).
AUTORES:
Adriana Ronchetti
Psicóloga Clínica pela Universidade de São Paulo (USP). Pós- graduada pelo Hos-
pital das Clínicas (HC-FMUSP). Especialista em tratamento psicológico de crianças e ado-
lescentes, assim como em orientação de pais e terapia Familiar. Atuou como psicóloga 
e acompanhante terapêutica (at) nas instituições: Hospital das Clínicas (HC/FMUSP), Es-
cola Paulista de Medicina (UNIFESP - Ambulatório de Cognição Social), CAPS Infantil 
Mooca - Prefeitura de São Paulo, Clínica Psiquiátrica Recanto Maria Tereza, entre outras. 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
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Atualmente atua como psicoterapeuta em consultório particular atendendo crianças, 
adolescente e suas famílias. Ministra cursos, grupos de estudos e supervisões voltados 
para infância e adolescência.
Aline Hessel
Psicóloga formada pela PUC/SP com formação em Terapia Cognitiva Comporta-
mental pelo IpqHC - USP. Mestre em qualidade de vida e saúde mental pela UFES e Edu-
cadora Parental em Disciplina Positiva formada pela Positive Discipline Association – USA.
Ana Paula Black Dreux
Nutricionista pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mestrado em Nutrição Hu-
mana pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e Doutorado em Ciências Médicas pela 
Universidade Federal Fluminense. Atualmente é nutricionista e docente da disciplina de Nu-
trologia Pediátrica da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).
Cristina Giovannetti Del Conte
Especialista, Mestre e Doutora em Odontopediatria – FOUSP. Professora dos Cur-
sos de Especialização em Odontopediatria da FUNDECTO – FOUSP e FAPES. Vice Coor-
denadora do Grupo de Saúde Oral da Sociedade de Pediatria de São Paulo. Dentista da 
Equipe de Estomatologia e Cirurgia Oral e Oncologia Clínica do Hospital Santa Catarina.
Daniela Forlin Pereira Passoni
Especialista e Mestre em Odontopediatria – FOUSP. Doutora em Ciências apli-
cadas à Pediatria - EPM/UNIFESP. Fellowship at CDC - Center for Disease Control and 
Prevention Atlanta, Georgia, USA. Viral division/ Epi branch/Herpes team. Professora do 
curso de graduação em Odontologia da FMU.
Gilberto Martinez Junior
Profissional de Educação Física (Universidade de Mogi das Cruzes). Pós-graduado 
em Personal Training (FMU); Fisiologia do Exercício (UNIFESP); Treinamento Esportivo 
(Universidade Gama Filho); Biomecânica do Esporte (Universidade Gama Filho). Mestra-
do em Biologia Molecular - (UNIFESP). Doutorando em Biologia Molecular (UNIFESP). 
Atua como Personal Trainer e Fisiologista (prestação de serviços em institutos de medici-
na integrativa, academias e clubes esportivos).
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
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Maria Arlete Meil Schimith Escrivão
Pediatra com área de atuação em Nutrologia pela Associação Brasileira de Nutro-
logia (ABRAN) e Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP); Mestre e Doutora pelo Progra-
ma de Pós-Graduação em Pediatria da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). 
Orientadora do Programa de Pós-Graduação em Nutrição da UNIFESP. Responsável 
pelo Setor de Obesidade da Disciplina de Nutrologia do Departamento de Pediatria da 
UNIFESP. Coordenadora do Grupo de Trabalho sobre Prevenção da Obesidade Infantil 
do Departamento de Nutrição da Sociedade de Pediatria de São Paulo.
Patricia Junqueira
Fonoaudióloga (PUC-SP), Especialista em Motricidade Orofacial pelo Conselho 
Federal de Fonoaudiologia (CFFa), Mestre em Distúrbios da Comunicação (PUC-SP) e 
Doutora em Distúrbios da Comunicação Humana (UNIFESP). Idealizadora e responsável 
pela Coordenação do Instituto de Desenvolvimento Infantil. Possui 30 anos de experiên-
cia clínica no atendimento a bebês e crianças, identificando e tratando questões da mo-
tricidade orofacial, alimentação e fala. Estuda extensivamente e é pioneira no Brasil na 
utilização de uma Abordagem Integrativa e Responsiva para as Dificuldades Alimentares 
Infantis. Atualmente ministra cursos pelo Brasil e exterior capacitando fonoaudiólogos 
para atuarem com dificuldades alimentares infantis com esse conceito integrativo. Publi-
cou vários artigos científicos e é autora de vários livros.
Rosane Quaranta Lessa
Nutricionista, Mestre pelo Programa de Saúde Coletiva da Universidade Federal 
Fluminense (UFF). Pós-graduação “Latu Sensu” em Fitoterapia na Prática Clínica (Asso-
ciação Brasileira de Fitoterapia – Abifit/Nutrinew) e em Vigilância Sanitária (Centro Uni-
versitário Plinio Leite). Especialista em Fitoterapia pela ASBRAN. Capacitação em Saúde 
Coletiva pela UFF. Nutricionista do Ambulatório Geral de Nutrição, preceptora de re-
sidência, membro da Comissão de Educação Permanente e membro da Comissão de 
Curativo do HUAP/UFF. Atua como nutricionista em consultório.
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
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PREFÁCIO
O excesso de peso é considerado um importante problema de saúde pública, 
sendo é um dos distúrbios nutricionais mais prevalentes em todo o mundo e em todas 
as faixas etárias. O excessivo acúmulo de gordura corporal desencadeia um processo in-
flamatório crônico que acarreta graves repercussões orgânicas e psicossociais. A perma-
nência deste desequilíbrio metabólico desde o início da vida por longoda microbiota intestinal do lactente57 e do futuro adulto, já que a mesma se 
torna complexa e estável a partir de 2,5 anos de idade.55,58 Outros fatores que poderão 
promover alterações da microbiota intestinal ao longo da vida são causas ambientais, 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
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procedimentos cirúrgicos e antibioticoterapia.59,60,61,62 Esses gatilhos poderão levar à 
formação de uma microbiota intestinal menos diversificada, o que pode aumentar o 
fator de risco de desenvolver o fenótipo de obesidade.63,64 
 Apesar de todos os benefícios já bem estabelecidos do aleitamento materno, 
caso haja impossibilidade do mesmo, o profissional de saúde deverá indicar fórmula 
infantil com baixo teor de proteína, a qual deve ser preparada de forma segura respei-
tando-se os padrões de higiene.10,17,43 O leite de vaca fluido somente deve substituir 
o aleitamento materno ou fórmula infantil na impossibilidade da sua manutenção, a 
partir dos 9 a 12 meses de vida, por não atender às necessidades de macro e micronu-
trientes de lactentes menores.17,52,53
 Ao completar 6 meses de vida, o lactente já sustenta a cabeça e possui movi-
mento vertical da mandíbula. Esse é o momento para ser estimulada a introdução de 
novos alimentos. Nessa fase, em horários intercalados com o aleitamento materno ou 
fórmula infantil, os pais/cuidadores deverão oferecer todos os grupos de alimentos 
(cereais, leguminosas, hortaliças, proteína animal, frutas), preferencialmente em sua 
forma in natura ou minimamente processada.17,52 É mandatório respeitar a consistência, 
a variedade e a quantidade para o preparo da papa principal de misturas múltiplas.17,32 
 A alimentação complementar pode ser iniciada com pequenas porções de ali-
mentos (2 a 3 colheres de sopa por dia) e aumento gradual de acordo com os princípios 
da alimentação responsiva, evitando-se assim a ingestão excessiva.17,53,65,66 Portanto, é de 
suma importância que profissionais de saúde orientem aos pais/cuidadores sobre a abor-
dagem responsiva visando a interpretação adequada dos sinais de fome e saciedade.43 
Quanto aos sinais de saciedade, eles podem ser percebidos pelo ato de parar de ma-
mar/comer, fechar a boca, desviar a face, brincar e/ou morder o mamilo ou dormir.17,53
 Outras orientações que podem ser fornecidas para construção de hábitos ali-
mentares saudáveis e dessa forma na prevenção futura da obesidade são: introdução 
de alimentos alergênicos como produtos lácteos (queijo e iogurte natural), ovo, amen-
doim, nozes, peixe, marisco, trigo e soja por volta dos 6 meses de idade, mas não 
antes dos 4 meses de idade.17,53 Deve ser introduzido um por vez, respeitando-se um 
intervalo de 2-5 dias entre cada um deles.17,53 
 Bebidas adoçadas e alimentos ultraprocessados não devem fazer parte da ali-
mentação de crianças menores de 2 anos de idade52 por serem altamente energéticos 
e de baixo valor nutricional, podendo apresentar elevada quantidade de açúcar, gor-
dura, sódio e aditivos, o que os tornam hiperpalatáveis, influenciando negativamente 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
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as preferências alimentares futuras.30,67 A oferta do mel também não é recomendada até 
os 2 anos de idade devido a sua alta concentração de açúcares, apesar de já ser seguro 
contra o risco de botulismo infantil após 12 meses de vida.52 Também não é recomenda-
da a adição de sal de cozinha nas refeições de lactentes menores de 1 ano de idade.17,22 
 Deve-se dar preferência à ingestão de fruta in natura ao invés de suco,52, 53 não 
sendo recomendado oferecer suco de fruta a crianças menores de 1 ano. Entre 1 a 3 
anos, apesar de desnecessário pode ser ofertado até 120ml por dia de suco natural 
sem açúcar.52 A água própria para consumo deve ser oferecida em copo de transição 
assim que for introduzida a alimentação complementar, não devendo ser substituída 
por nenhum outro líquido.52, 53
 Concomitante ao hábito alimentar saudável, o estímulo à prática de atividade 
física de forma lúdica e recreativa devem ser estimulados, exemplos disso são rolar, 
engatinhar e andar o que auxilia peso adequado para a faixa etária infantil.1,22 Deve ser 
evitada a exposição de crianças menores de 2 anos às telas.22, 68 
 Também é importante estimular as horas adequadas de sono,22 uma vez que 
é essencial para desempenho cognitivo, processos fisiológicos, regulação emocional, 
além da manutenção da saúde e bem-estar geral. A National Sleep Foundation (NSF) 
recomenda que recém-nascidos (0 a 3 meses) tenham 14-17 horas por dia de sono, 
bebês com 4 a 11 meses de vida necessitam dormir de 12-15 horas e crianças de 1 a 2 
anos de idade deveriam ter 11-14 horas de sono. Por outro lado, durações de sono aci-
ma do recomendado podem trazer prejuízos no que tange o desenvolvimento motor, 
cognitivo e emocional devido à limitada interação ambiental do lactente.69 
 Por fim, os profissionais de saúde podem utilizar diversos instrumentos como 
ferramenta de apoio no estabelecimento da sua conduta médica e nutricional. No Bra-
sil, em 2018 a Sociedade Brasileira de Pediatria publicou o “Manual de Alimentação: 
orientações para alimentação do lactente ao adolescente, na escola, na gestante, na 
prevenção de doenças e segurança alimentar”, e em 2019 o Ministério da Saúde lançou 
o “Guia alimentar para crianças menores de 2 anos”, ambos baseados em evidência 
científica para nortear os profissionais de saúde.17,52 Já o Departamento de Agricultura 
dos Estados Unidos elaborou o material educativo MyPlate, disponível no site Choo-
seMyPlate.gov onde podem ser encontrados diversos materiais, imagens e gráficos 
imprimíveis gratuitamente.41 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
41
2.6. Fase pré-escolar
Durante a fase pré-escolar (2 a 6 anos de idade) há uma desaceleração do cresci-
mento e do ganho de peso com consequente redução das necessidades nutricionais.17 
Nessa fase, deve-se evitar o ganho de peso rápido, caso contrário, conforme anterior-
mente mencionado, essa condição poderá persistir até a idade adulta.8,50 Por ser uma 
fase de plasticidade no desenvolvimento, onde a formação de hábitos de vida saudá-
vel pode ser uma oportunidade para prevenção da obesidade, o uso de estratégias 
voltadas para o estilo de vida saudável que englobe o ambiente escolar e o ambiente 
domiciliar é de suma importância nesse processo.8,22,32,70 
O ambiente propício para manutenção de um padrão alimentar saudável que 
vem sendo construído desde a lactação deve ser estimulado, consolidando bons há-
bitos alimentares e a prática de atividade física.8,9,33,70 Por outro lado, padrões com-
portamentais obesogênicos que tenham sido iniciados na primeira infância devem ser 
desestimulados nesta fase, por representar um ponto importante de intervenção.71,72
Assim, orientações com abordagem multidisciplinar para a prevenção de obesi-
dade poderão ser focadas, tanto em âmbito familiar quanto escolar.32 No âmbito fami-
liar é importante esclarecer aos pais/cuidadores que eles atuam como modelos para 
as crianças.9,10,65 Visando a promoção de hábitos alimentares saudáveis, os mesmos 
devem definir limites estruturados.73 É mister estabelecer horários para as refeições, 
evitando pular ou substituir por lanches, oferecer alimentos saudáveis, promover um 
ambiente calmo e sem distrações, estimular o hábito de mastigar, dar reforço positivo 
através de elogios e sempre que possível, permitir que a criança tenha autonomia nas 
preferências alimentares.43,73,74 Em contrapartida, adoção de práticas de controle coer-
citivo, como restrição (recompensas através da alimentação) ou ainda práticas permis-
sivas (utilizando a comida como forma de proporcionar conforto) ou até mesmo não ter 
regras ou limites estão associados ao maior consumo energético, menor qualidade da 
dieta e redução da percepção de auto-regulaçãoalimentar.10,43,73,75
Intervenções feitas no ambiente escolar também podem proporcionar resulta-
dos satisfatórios para a prevenção de obesidade infantil.72,76,77,78 Para isso, desde 1955, 
foi criado o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Dentre as medidas 
adotadas estão maior oferta e exposição a alimentos saudáveis como hortifrútis, aliada 
à abordagem sobre educação alimentar e nutricional e estímulo a hortas escolares, as 
quais estimulam preferências alimentares mais saudáveis nessa fase de vida.79,80 Outra 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
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medida importante foi o lançamento, em 2010, pelo Ministério da Saúde do “Manual 
das cantinas escolares saudáveis: promovendo a alimentação saudável” que reforça 
a qualidade de vida através da alimentação81 e as orientações podem ser expandidas 
para escolas particulares. 
O papel educativo da escola no contexto alimentar deve fomentar que pais/
cuidadores enviem lanches de qualidade17,82 evitando a aquisição de alimentos ultrapo-
cessados.32,82 Para desencorajar o consumo desse tipo de preparação é possível fazer 
substituições alimentares mais saudáveis e ao mesmo tempo saborosas, como as que 
constam na lista abaixo.
• Bebida gaseificada ou suco/refresco industrializado: substituir preferencial-
mente por fruta inteira e água potável.* Outras opções são água saborizada com frutas 
e especiarias, água de coco, refresco utilizando frutas com baixa carga glicêmica como 
maracujá, limão, caju, acerola sem adicionar açúcar.* 
*Deve-se respeitar a quantidade de refresco/água de coco por faixa etária, conforme 
consta no texto.
• Biscoitos, bolos industrializados e salgadinhos fritos: substituir por pipoca de 
panela, milho cozido, oleaginosas (castanha-do-pará, castanha de caju, amendoim, 
etc.), biscoito de arroz, biscoitos, bolos, pães e crostinis caseiros, snack caseiro (grão 
de bico assado, cenoura palito e batata chips assada). 
*As preparações podem ser enriquecidas com frutas, verduras e legumes tanto na massa 
quanto no recheio. A farinha de trigo também pode ser substituída parcial ou integralmente por 
farinha de trigo integral, farinha de arroz, farinha de chia, aveia e linhaça.
• Caldos industrializados: usar o caldo de cozimento de carnes, frango e legu-
mes para enriquecer e dar sabor aos pratos.
• Gelatina industrializada: preparar a gelatina em casa, utilizando alga agar-agar 
e suco de fruta. Pode colocar frutas picadas para dar mais sabor à preparação.
• Granolas e barras de cereal: podem ser feitas em casa, no forno ou frigideira 
usando castanhas, nozes, amendoins, farelo de aveia, trigo, fruta seca e mel. Pode ser 
consumido como petisco ou no iogurte.
• Hambúrgueres, almôndegas e nuggets industrializados: preparar em casa 
usando carne moída magra (frango, chã e patinho) e temperos naturais a gosto.
• Iogurtes com corantes e adição de açúcares: substituir por iogurte natural sem 
açúcar batido com fruta ou adicionado de fruta picada. 
• Massas instantâneas: usar as integrais sem adição de gordura vegetal trans ou 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
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interesterificada ou massas caseiras enriquecidas com espinafre, beterraba, cenoura e 
abóbora, por exemplo.
• Molhos de salada com alto teor de sódio e gorduras: usar iogurte natural, bio-
massa de banana verde, azeite e vinagre, molho de maracujá.
• Sorvete ou picolé industrializados: preparar o sorvete em casa, utilizando como 
base banana congelada, iogurte natural, suco de fruta ou leite.
Portanto, o padrão alimentar de crianças em idade pré-escolar deve ser cons-
truído utilizando-se como base alimentos in natura ou minimamente processados.29,30 
É importante incentivar o consumo de frutas inteiras ao invés de sucos para aumentar 
a ingestão de fibras ou limitá-lo a um volume diário de 120ml para crianças de 2 a 3 
anos e 175 ml para aquelas com 4 a 6 anos de idade.17 A ingestão de água potável deve 
fazer parte da rotina diária de crianças e ela não deve ser substituída por bebidas ga-
seificadas ou adoçadas.10,32,83,84 Os alimentos processados devem representar uma pe-
quena parcela da alimentação e os ultraprocessados devem ser evitados ao máximo.22 
Ingredientes culinários processados, como açúcar e sal iodado, devem ser utilizados 
em pequenas porções como parte de preparações culinárias, respeitando-se os limites 
estabelecidos de consumo, além de limitar a ingestão de calorias provenientes de óle-
os e gorduras (principalmente saturada e trans). Os mesmos devem ser utilizados em 
pequenas porções para temperar, cozinhar e criar preparações culinárias, sem torná-las 
nutricionalmente desbalanceadas.22,41,84 O uso de adoçantes como substituto do açúcar 
de adição e preparações contendo adoçantes devem ser desencorajados, salvo por 
indicação de profissional de saúde.84
Tão importante quanto manter hábito alimentar saudável, é estimular o lazer 
ativo preferencialmente com atividades aeróbicas, como passeios ao ar livre, andar 
de bicicleta, jogar bola, correr, brincar com o cachorro, pular corda sempre respei-
tando as preferências individuais.22,32 O ambiente escolar torna-se fundamental neste 
processo servindo de oportunidade para aumentar o número de horas de educação 
física e desenvolver novas habilidades motoras.10,85 Com o intuito de reduzir atividades 
sedentárias, o tempo gasto com telas deve ser de no máximo 1-2 horas por dia,22,32,68 
evitando-se televisão e computadores no quarto da criança.85
Para crianças em idade pré-escolar é recomendado de 10 a 13 horas de sono 
por dia para manutenção da saúde cognitiva, emocional e física, assim como para o 
bem-estar geral, já que menor duração de sono tem sido relacionada com risco de 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
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obesidade69 por causar mudanças na ingestão calórica e no metabolismo, como redu-
ção da sensibilidade à insulina.32 
2.7. Fase escolar e adolescência
A idade escolar (7 a 10 anos) caracteriza-se pela fase de transição entre a infância 
e a adolescência, sendo que na adolescência (10 a 20 anos) ocorrerão transformações 
físicas, psicológicas e comportamentais17 que permitirão maior autonomia quanto ao 
estilo de vida e estabelecimento de metas, possibilitando que condutas nutricionais 
sejam passadas diretamente a eles, sem intermédio dos pais/cuidadores.85 
Em ambas as fases há grande vulnerabilidade no que tange o hábito alimentar e 
a prática de atividade física, uma vez que sofre forte influência do meio em que vive.17 
Assim, profissionais de saúde devem orientá-los a manter o equilíbrio calórico suficien-
te para suprir crescimento e desenvolvimento normais sem promover ganho de peso 
excessivo.41
Como forma de manter hábitos alimentares saudáveis até esse estágio de vida, 
deve ser mantido o incentivo à escolha consciente dos alimentos, de acordo com a 
classificação NOVA, conforme descrito na fase pré-escolar.22,29,30 Os pais devem ser 
orientados a não comprar alimentos ultraprocessados, uma vez que os mesmos já são 
capazes de escolher e preparar suas próprias refeições, o que pode comprometer a 
qualidade global da alimentação. 
Outros aspectos que precisam ser investigados quanto ao hábito alimentar são: 
tipos de preparações mais consumidas, ingestão de líquidos junto às refeições, número 
de refeições e repetições.74 Práticas como pular o café da manhã, principalmente entre 
meninas adolescentes, devido à falta de tempo para prepará-lo, inapetência matinal e 
como tentativa de manter o peso, devem ser consideradas já que estão associadas ao 
maior risco de desenvolvimento de sobrepeso ou obesidade.86 Durante a adolescência 
também é comum iniciar a ingestão de bebidas alcóolicas, sendo necessário desenco-
rajar devido ao seu impacto potencial negativo na saúde.84 É muito importante estimu-
lar a realização de refeições em família e até mesmoincluir crianças e adolescentes no 
preparo das mesmas a fim de desenvolver habilidades culinárias.84,87 Preparar refeição 
e comer na companhia de outras pessoas é uma oportunidade de compartilhamento 
de experiências e culturas alimentares.84 Lembrando que ambiente calmo, acolhedor, 
sem interferência de fatores que possam desviar o foco da alimentação e com rotina 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
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de horários continua sendo fundamental para a promoção e manutenção de hábitos 
alimentares saudáveis.74 
Recomenda-se equilibrar o tempo de tela que não seja por motivo acadêmico 
e reduzir o tempo gasto com lazer sedentário a fim de aumentar a disponibilidade 
para prática de atividade física.10,22,85 Estimular atividades como recreação, esportes em 
geral, atividade física programada, incluindo exercícios aeróbicos, atividades de forta-
lecimento muscular e ósseo regularmente serão imprescindíveis para a manutenção do 
peso adequado.22,41,74,84
Além da dieta e atividade física, horas adequadas de sono auxiliam na manuten-
ção da saúde cognitiva, emocional, física e do bem-estar geral, devido a sua relação 
com o desempenho cognitivo e acadêmico.69 Em adolescentes, a privação do sono 
também pode causar diminuição do estado de alerta, acidentes automobilísticos, al-
teração de humor e obesidade.74 Dessa forma, recomenda-se para a fase escolar e 
adolescência, 9 a 11 horas e 8 a 10 horas de sono por dia, respectivamente.69
Como a unidade escolar é vista como um ambiente propício para melhorar os 
hábitos alimentares dentro e fora da escola,88 esse cenário continua sendo importan-
te nessa fase da vida. No Brasil, além do PNAE, existe a Lei de Diretrizes e Bases da 
Educação89 que incluiu o tema educação alimentar e nutricional no currículo escolar de 
escolas públicas de ensino fundamental e médio, na perspectiva de desenvolvimento 
de práticas e habilidades que promovam modos de vida saudáveis, segurança alimen-
tar e nutricional.
Portanto, apesar de escolares e adolescentes já começarem a desenvolver habili-
dades de escolhas de estilo de vida, como padrão alimentar e prática de atividade física, 
que os deixam mais vulneráveis ao meio externo, o apoio da família e da escola continua 
fazendo parte do pilar para se obter bons resultados na manutenção do peso adequado.
2.8. Manejo e Tratamento da Obesidade Infantil
Tratar obesidade infantil é uma tarefa difícil e de longo prazo. Requer equipe 
multiprofissional especializada para promover mudanças na alimentação, atividade fí-
sica, ajustes na dinâmica familiar para obtenção de adesão à terapia e apoio psicosso-
cial, ou seja, mudança no estilo de vida.32,74,90 
Na tentativa de se obter resultados satisfatórios no tratamento da obesidade 
infantil é importante que haja consultas médicas mensais e em alguns casos semanal-
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
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mente, durante os primeiros meses.32 O objetivo principal é fazer com que crianças e 
adolescentes com excesso de peso mudem seu padrão alimentar e de atividade física. 
Isso auxilia a manter ou reduzir sua taxa de ganho de peso, enquanto ocorre um cres-
cimento linear e redução do IMC,41,50 sem causar prejuízo na sua velocidade de cresci-
mento ou no ganho de massa muscular.74 
Vale ressaltar que a obesidade é uma doença crônica podendo ocorrer recidiva, 
por isso é importante acompanhamento continuo com consultas mais espaçadas mes-
mo após ajuste do peso.32 Assim, todas as orientações fornecidas anteriormente para 
a prevenção do desenvolvimento da obesidade nas diferentes faixas etárias também 
podem ser utilizadas quando a doença já está estabelecida, ressaltando-se algumas 
condutas conforme explicitado abaixo.
No âmbito cognitivo-comportamental é fundamental orientações quanto à mas-
tigação adequada, não usar telas durante as refeições e reduzir atividades sedentá-
rias, manter uma rotina de horários para se alimentar evitando beliscos desnecessários 
e incentivar a redução gradativa das porções de alimentos consumidos em excesso 
(especialmente ultraprocessados).22,74 Muitas vezes, a sede é confundida com fome, 
sendo, portanto, essencial hidratação adequada. No ambiente familiar devem ser es-
tabelecidas metas, automonitoramento e autoregulação.8 Após a incorporação de mu-
danças comportamentais, deve se dar prosseguimento às condutas baseadas no maior 
consumo de alimentos saudáveis, como frutas, verduras, legumes, cereais integrais, 
leguminosas, leite e derivados.74 
É de suma importância orientar a família que durante esse processo de reeduca-
ção alimentar, haja menor disponibilidade domiciliar de alimentos não saudáveis, mas 
que essa restrição seja feita dando suporte à criança através do estabelecimento de 
limites saudáveis e incentivos. Práticas de controle coercitivas só aumentam as chances 
de elas desenvolverem maior interesse por esses alimentos.10,73
Aliado a isso, deve-se promover reeducação alimentar com prescrição de die-
ta balanceada com distribuição adequada de macro e micronutrientes, seguindo as 
recomendações propostas pela DRI,34-40 com atenção especial à vitamina D que por 
ser uma vitamina lipossolúvel, fica sequestrada no tecido adiposo tornando-se menos 
biodisponível.91 Deve-se respeitar os conceitos de variedade, moderação e proporcio-
nalidade associados às preferências individuais e hábitos culturais para melhor adesão 
ao tratamento.41,50,74 
Com a implementação dessas condutas espera-se que crianças abaixo de 7 anos 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
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mantenham o peso e crianças acima dessa idade apresentem redução gradativa do 
peso e consequentemente diminuição das morbidades,74 podendo ser necessário re-
dução da ingestão calórica e atividade física vigorosa com estímulo à modificação com-
portamental.32,50 Dessa forma, crianças e adolescentes com Z-IMC acima de +2 a perda 
de peso deverá ser gradual (por exemplo, 0,5 kg por mês) e com Z-IMC acima de +3, a 
perda de peso poderá ser maior sem exceder 1kg por semana.50
Profissionais de saúde devem estar atentos que quanto maior for a gravidade da 
obesidade, maiores os riscos de complicações cardiometabólicas, sendo necessário 
investigar história familiar de doenças e realizar avaliações laboratoriais para identificar 
comorbidades e tratá-las precocemente.32,50 É também importante considerar o risco 
de distúrbio do comportamento alimentar na adolescência e início da vida adulta, prin-
cipalmente nas meninas.50
Por fim, compreender as escolhas, motivações e o contexto individual que os 
fazem decidir por não manter um padrão alimentar saudável pode nortear os profis-
sionais de saúde na identificação de estratégias mais eficientes para seu controle,32,41 
Dentre as causas que também devem ser investigadas durante o processo de manejo 
da obesidade são: falta de tempo para preparar as refeições saudáveis, recursos físicos, 
informações corretas sobre o que é de fato alimentação saudável, habilidades culiná-
rias da família, acesso e apoio social.33
2.9. Considerações finais
A prevalência global de obesidade infantil tem aumentado de forma alarman-
te. Mudanças no estilo de vida, tais como adesão a uma dieta saudável, prática de 
atividade física e redução do sedentarismo são importantes na sua prevenção e trata-
mento,8 especialmente quando aliados a programas voltados para o meio ambiente e 
comunidade a fim de positivamente influenciar o peso corporal pelo comportamento 
relacionado à saúde.85 
Dessa forma, além de ações individuais, todos os setores da sociedade como 
escola, governo, sociedade científica, indústria alimentícia e mídia deveriam também 
se envolver com esse propósito.22,90 Caso não haja mudança das políticas atuais, as esti-
mativas do número de casos de sobrepeso ou obesidade até 2030 poderá atingir 3,28 
bilhões de pessoas, cerca de um terçoda população mundial.30
Tais setores têm papel fundamental no processo de escolha porque podem in-
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
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fluenciar o quanto as pessoas terão acesso a alimentos saudáveis e a prática de ativida-
de física, além de interferir em normas sociais e de valores.41, 90 No âmbito da indústria 
alimentícia, deve ser incentivada a produção de alimentos com menor conteúdo de 
gordura total, saturada, sal e açúcar.74 Uma das metas do governo brasileiro é evitar 
propagandas de alimentos não nutritivos destinados ao público infantil, com a coibição 
de mensagens que sejam incompatíveis com a vida saudável, divulgar campanhas de 
conscientização e educação sobre rotulagem e promoção de estilo de vida saudável.92 
Iniciativas provenientes de órgãos governamentais devem ser referentes à me-
lhoria do estilo de vida. Nesse sentido, é crescente a necessidade de investimentos 
que permitam acesso a centros recreativos e parques com melhor segurança e espaço, 
além de estimular o transporte ativo pela construção de ciclovias seguras.71,74 
Outra iniciativa governamental começou a ser consolidada com o decreto de 
408/2008 para atuar no controle da qualidade de informações sobre alimentos com 
ações como obrigatoriedade de rotulagem.92 Para auxiliar os consumidores é neces-
sário que as leis sobre a rotulagem avancem no sentido de melhorar a visibilidade 
de informações, sendo de fácil compreensão e não enganosa, utilizar etiquetas que 
explicitem o teor de nutrientes ou ingredientes de interesse e modo de produção.10,33,74
Outra ação factível por parte governo é a implementação de impostos para pro-
dutos ou ingredientes não nutritivos que poderia reduzir o poder de compra de alimen-
tos ultraprocessados pelos consumidores e faria com que as indústrias repensassem nos 
ingredientes contidos no produto final, como forma de reduzir o custo.33,71,74,85 Atualmen-
te, o acesso e o consumo de uma alimentação saudável são comprometidos, particular-
mente na classe socioeconômica mais baixa, pelos altos preços dos alimentos in natura 
ou minimamente processados, tempo gasto para o seu preparo e menor durabilidade, 
quando comparados aos ultraprocessados.10,33 Nesse sentido é imperativo que o gover-
no dê estímulos fiscais para facilitar o acesso aos alimentos considerados saudáveis.10
 A melhoria da qualidade das refeições oferecidas nas escolas sobressai como 
outra medida fundamental que deve ser apoiada e fiscalizada pelo governo. Como já 
previsto no PNAE79 deve ser limitada a disponibilidade de alimentos e bebidas não 
saudáveis e estimulada a prática de atividade física dissociada de disciplinas teóricas 
de Educação Física, aproveitando intervalos para essa prática no ambiente escolar.71 
Por fim, o combate à obesidade ultrapassa o conceito de escolhas alimentares 
inadequadas. Não se pode ignorar as influências ambientais que permeiam todo esse 
cenário e que irão levar à formação de um padrão alimentar insatisfatório. Assim, famí-
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
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lia, comunidade e governo deverão atuar em conjunto para obter melhores resultados 
neste campo através de programas de incentivo à prática de atividade física, promoção 
de escolhas alimentares saudáveis, incluindo tributação adequada e estímulo à produ-
ção regional de alimentos, resgatando a cultura alimentar local.
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bro de 2008. Aprova diretrizes para a promoção da alimentação saudável com impacto na reversão da 
epidemia de obesidade e prevenção das doenças crônicas não transmissíveis. Diário Oficial da União 
09 de março de 2009; 45. 
3. ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
59
Adriana Ronchetti
Aline Hessel
3.1 Introdução
Há tempos fala-se sobre a obesidade infantil, tanto em meios científicos como 
entre a população em geral. Entretanto, mesmo com sua ampla divulgação, a preva-
lência da obesidade infantil continua a subir em muitos países, gerando consequências 
médicas a curto, médio e longo prazos.1 Dessa forma, a obesidade é considerada um 
problema de saúde pública significativo, com impactos que vão além das consequên-
cias físicas, prejudicando também outras áreas da vida das pessoas afetadas.2
Porém, da mesma forma que a obesidade afeta diferentes áreas da vida de uma 
pessoa, deve-se considerar também que diferentes áreas da vida do sujeito interferem 
no início e na manutenção da obesidade. Dessa forma, para conseguir intervir numa 
pessoa obesa, seja ela criança ou não, é preciso olhar para além dos aspectos físicos e 
de seus hábitos alimentares. Ou seja, com relação tanto ao início como à manutenção 
do sobrepeso e obesidade deve-se levar em consideração a cultura, a condição social, 
o contexto familiar, os padrões nutricionais, estresse familiar, possíveis comorbidades, 
entre outros aspectos que interferem e sofrem interferência dessa condição no indiví-
duo obeso.2 
Sendo assim, para pensar num tratamento para obesidade infantil, é preciso, 
além de considerar uma equipe multiprofissional, levar em consideração todas as variá-
veis da vida dessa criança (nível biopsicossocial) que podem se relacionar à obesidade, 
o que deixa clara a complexidade envolvendo tal tratamento.3 
Em vista disso, iremos transcorrer sobre tal assunto nesse capítulo, explorando 
diferentes variáveis que interferem na obesidade infantil, bem como possíveis inter-
venções já descritas na literatura. Não temos como objetivo delimitar uma definição 
ou estratégia absoluta, mas, sim, contribuir com a produção e divulgação do tema 
obesidade infantil, tão importante e significativo em nossa sociedade.
3.2. Constituição do quadro de obesidade infantil
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
60
As causas relacionadas ao sobrepeso e obesidade infantil são multifatoriais. De-
vem–se considerar fatores genéticos, emocionais e também ambientais, relacionados 
aos hábitos da pessoa, bem como ao momento histórico em que ela se encontra, con-
dição social, psicopatologias da criança ou de seus responsáveis e localização geográ-
fica (grandes centros são diferentes de pequenas comunidades). Somado a esse olhar 
global do indivíduo, é importante que ocorram ações voltadas tanto para a prevenção 
como para a identificação precoce de fatores que podem causar e/ou manter o sobre-
peso e a obesidade.4
Contudo, um dos desafios ao lidar com a obesidade infantil é ser capaz de mane-
jar um processo dinâmico, no qual ocorrem diversas variáveis que se relacionam entre 
si, como: o comportamento, a cognição e a regulação emocional; além de parâmetros 
biológicos e fatores contextuais, como: atitudes dos pais, realidade socioeconômica, 
alimentação familiar, atividade e padrões nutricionais.1,5 Dessa forma, definir apenas 
uma relação causal como responsável pelo desenvolvimento da obesidade infantil é 
limitar demais uma questão humana ampla e complexa. Por isso, foram desenvolvi-
dos nesse texto alguns pontos relevantes sobre a obesidade infantil, deixando clara 
a importância de se pesquisar outras áreas igualmente significativas para prevenção e 
cuidados com tal condição.
Momento histórico e cultural
A obesidade é uma condição desenvolvida a partir do consumo maior de ali-
mentos calóricos, somado a baixa atividade física. As crianças obesas, além de apre-
sentarem tais padrões comportamentais, consomem menos frutas e vegetais desde os 
primeiros anos de vida, se comparadas a crianças com peso normal da mesma idade.6 
Somado a isso, deve-se considerar o momento de urbanização e tecnológico em que 
se vive. No caso dos grandes centros, a violência se tornou justificativa para crianças 
e adolescentes ficarem mais tempo em casa e as tecnologias como videogame e in-
ternet, cada vez mais sedutoras, contribuindo para uma prática cada vez mais passiva 
e sedentária.7 Dessa forma, crianças e adolescentes costumam passar mais tempo em 
atividades como assistir televisão ou jogar videogame.8
Além da diminuição de atividades físicas, outra justificativa para o aumento da 
obesidade infantil na população global é o impacto da urbanização e da industriali-
zação no estilo de vida da sociedade em geral.3 Com a mudança dos tempos, houve 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
61
transformações nos padrões de consumo de alimentos e nas práticas alimentares das 
famílias. A obesidade em adultos tem sido associada à urbanização e ao estilo de vida 
sedentário que a acompanha.9. 
De certa forma, isso pode ser atribuído à crescente industrialização e às mu-
danças econômicas que estão ocorrendo e, de alguma forma, levando a um estilo 
de vida mais sedentário e a mudanças maciças em nossos sistemas alimentares – um 
processo macro chamado de transição nutricional. A transição nutricional também se 
refere às mudanças substanciais observadas nos últimos tempos nas dietas das famílias 
de diferentes países, e foi levantada a hipótese de que ela acompanharia os proces-
sos intimamente ligados de urbanização, modernização, industrialização e globaliza-
ção. Essa transição abrange uma mudança gradual de alimentos naturais para outros 
mais processados, carregados de açúcar e gorduras saturadas, e é acompanhada por 
transições simultâneas a estilos de vida que promovem o sedentarismo de adultos e 
crianças10. Tais transformações exigem uma exploração aprofundada de fatores nesses 
‘ambientes obesogênicos’ que podem contribuir para essas variações nos parâmetros 
nutricionais. Esse termo, 'ambiente obesogênico', foi cunhado para argumentar que os 
ambientes físico, econômico, social e cultural das nações industrializadas incentivam 
um balanço energético positivo em suas populações,11 isto é, há maior consumo que 
dispêndio de energia.
Ambiente familiar
Ao falar de obesidade infantil é fundamental buscar informações sobre o con-
texto familiar, suas relações e seus hábitos alimentares. Assim como em outras áreas 
da vida da criança, os pais são uma importante referência na aquisição de hábitos 
alimentares, tendo influência significativa no início e na manutenção do sobrepeso e 
da obesidade.12 É dentro de casa que a criança tem a principal referência de compor-
tamentos e hábitos de maneira geral, sendo através da observação, da imitação ou 
mesmo seguindo instruções e reforços pontuais dos adultos que a criança reproduz o 
que foi aprendido nesse ambiente.13 Sabe-se, por exemplo, que boa parte das crianças 
obesas também têm pais obesos.14 Ou seja, além de essas crianças terem disponíveis 
alimentos com alto teor calórico, seus pais são exemplos significativos de hábitos ali-
mentares inadequados. 
O consumo e o estoque de alimentos altamente calóricos em casa facilitam o 
acesso da criança a esses alimentos e, como consequência, o ganho de peso.15 Alguns 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
62
estudos sugerem, por exemplo, a influência do comportamento materno na ingestão 
de alimentos pela criança. O alto consumo energético pelas crianças é muitas vezes 
reforçado pelas mães.13 Esse comportamento das mães de crianças com obesidade 
pediátrica pode ser justificado, muitas vezes, por elas interpretarem todos os sinais dobebê como falta de comida. Assim, o bebê se sintoniza com a comida como uma fonte 
de conforto, e isso serve como a única fonte de saciedade para ele.16
Assim, é importante considerar as relações familiares como são estabelecidas, 
pois elas também podem interferir no desenvolvimento da obesidade infantil. Por 
exemplo, críticas direcionadas à criança obesa pelos próprios pais são comuns, apre-
sentando-se muitas vezes como um tratamento diferenciado se comparado com ou-
tras crianças da família.17 O descontentamento com a forma corporal foi observado 
num número significativo de crianças com obesidade pediátrica, que sentem que não 
são bonitas.18 Isso geralmente começa no início de sua vida, quando essas crianças 
enfrentam críticas dos pais e familiares por seu tamanho e forma corporal.19 Soma-se 
a isso que os pais com excesso de peso têm preferência por bebês mais magros e 
costumam ridicularizar seus próprios filhos se obesos, causando danos ainda maiores 
à autoestima da criança.20 Há indícios de que pais obesos são mais rígidos quanto aos 
hábitos alimentares e, muitas vezes, criticam o próprio filho sobre o peso. Eles também 
são mais rígidos quanto à disciplina e rigorosos quanto à alocação de alimentos para 
a criança. Esta, por sua vez, pode assumir uma atitude que possa desafiar os pais logo 
na primeira infância e comer quando os pais estão fora ou comer fora de casa, contri-
buindo ainda mais para o seu próprio ganho de peso.21 
Existe um padrão familiar observado no meio em que as crianças obesas convi-
vem: geralmente famílias menos unidas, com uma fraca aliança conjugal e presença de 
possíveis estressores parentais interpessoais – geralmente mães superprotetoras e pais 
passivos e tímidos.12 Em alguns casos, a ausência de um dos pais (por estar ausente 
no trabalho, por abandono ou devido à morte) pode levar à superproteção e mimos 
daquele que permanece presente, o que, por sua vez, juntamente com a indulgência 
alimentar, pode ser um fator causador de obesidade pediátrica.22
Além da relação entre os familiares, deve-se considerar a relação que a família 
estabelece também com o alimento, pois essa relação terá impacto direto na obesida-
de infantil. Frequentemente os pais utilizam do alimento como recompensa para com-
portamentos desejados, associando dessa forma alimentos ricos em calorias a prêmios 
a serem conquistados e, assim, aumentando a chance de desenvolver na criança um 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
63
desejo grande pela comida, que é esperada ansiosamente.23 Dessa forma, a criança 
passa a se relacionar com a comida como fonte de prazer e não mais como alimento.3
Além de sua influência direta na alimentação, existem outros fatores no con-
texto familiar que também demonstram influenciar na obesidade infantil e merecem 
aprofundamento. Incluem-se entre eles estresses familiares decorrentes de problemas 
socioeconômicos, transtornos mentais, violência doméstica, dentre outras questões 
igualmente impactantes.14 
Psicopatologias da criança
Outro ponto relevante sobre a obesidade infantil é a relação dela com psicopa-
tologias. Pesquisas que utilizaram amostras clínicas e populacionais de crianças obesas 
entre 5 e 12 anos descreveram a presença de diferentes problemas comportamentais. 
Dentre eles, incluem-se aspectos psicopatológicos como problemas internalizantes (an-
siedade e depressão, isolamento e abstinência) e externalizantes (como hiperatividade, 
problemas de conduta, baixa autoestima e dificuldade de socialização).24-28 Distúrbios afe-
tivos e de ansiedade e conduta, além de transtornos de déficit de atenção e hiperatividade 
(TDAH), também foram descritos como patologias presentes em crianças obesas.26,28
Problemas comportamentais e emocionais são frequentemente encontrados em 
crianças obesas, mas é importante deixar claro que não são todas as crianças obesas 
que apresentam alguma questão psicossocial. O que alguns estudos demonstram é 
que há uma inter-relação entre obesidade e problemas psicológicos, ou seja, o sofri-
mento psicológico clinicamente significativo pode promover ganho de peso, e a obe-
sidade pode levar a problemas psicossociais.2 Entretanto, apesar dos indícios de inter-
-relação entre obesidade e fatores psicológicos (como, por exemplo, impulsividade, 
depressão, ansiedade, influências familiares e mau funcionamento social), ainda não há 
uma definição clara e precisa dessa interferência.24,29
Psicopatologias parentais
Embora os estudos anteriormente mencionados indiquem uma associação entre 
obesidade e problemas psicológicos graves, é importante levar em consideração que 
a psicopatologia pode não se dever apenas à experiência de provocações e a decor-
rentes prejuízos à qualidade de vida, frequentemente associados à obesidade,26,30 mas 
também ser transmitida pelas famílias. Alguns autores25,27 investigaram a psicopatolo-
gia materna, o status socioeconômico (SES) e o excesso de peso da criança para testar 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
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a influência desses fatores no funcionamento psicológico da criança. Foram encontra-
das associações positivas entre psicopatologia materna, SES e os problemas emocio-
nais e comportamentais da criança.25,27,28 Corroborando esse resultado, outro estudo, 
que investigou crianças de 8 a 12 anos de idade acima do peso e obesas em busca de 
tratamentos para a população em geral, confirmou que a psicopatologia da mãe é um 
preditor dos problemas psicológicos da criança.31
Comportamento alimentar descontrolado
Além de internalizar e externalizar problemas comportamentais, há evidências 
crescentes de que, da mesma forma que adultos obesos que sofrem de transtorno 
da compulsão alimentar periódica (TCAP), o comportamento alimentar descontrolado 
parece prevalecer em crianças e adolescentes obesos.32
Embora a perda de controle sobre a alimentação apareça também em crianças 
e esteja associada ao aumento da psicopatologia geral e de transtornos alimentares, 
existem várias diferenças importantes na fenomenologia da compulsão alimentar em 
crianças em comparação com adultos.32-34 A compulsão alimentar incontrolável é as-
sociada a um aumento substancial da massa gorda, de 15%, conforme indicado por 
um estudo longitudinal prospectivo ao longo de 4 anos.35 As crianças experimentam 
compulsões também durante refeições regulares ou em ocasiões especiais, como em 
festas ou durante os lanches oferecidos.33
Como nos adultos, a quantidade de ingestão de energia parece ser menos im-
portante para a identificação de episódios de compulsão alimentar do que a sensação 
subjetiva de perda de controle.33 Como a maior parte das crianças não cumpre os cri-
térios para reconhecimento de TCAP em adultos, e acaba sendo diagnosticada com 
EDNOS (que não tem critérios tão específicos)34 foram desenvolvidos critérios específi-
cos para avaliar a compulsão alimentar em crianças, o que levou a esforços substanciais 
para a definição e avaliação da compulsão alimentar na infância. Com base nos dados 
atuais, Tanofsky-Kraft et al.32 adaptaram os critérios originais para adultos e sugeriram 
avaliar a experiência de 'perda de controle alimentar’ ou ‘Loss of Control Over Eating 
(LOC)’, definida como a experiência de perda de controle independentemente da quan-
tidade de ingestão de energia, em vez de utilizar o quadro completo do TCAP adulto.32
Estudos transversais que examinam a compulsão alimentar e a ingestão com 
LOC em diferentes amostras não clínicas em crianças, usando diferentes métodos de 
questionário, encontraram taxas de prevalência variando de 2 a 10%.32 Outro estudo36 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
65
investigou 162 crianças com excesso de peso que não procuravam tratamento, usando 
uma metodologia de entrevista especializada (Inventário de Transtorno Alimentar da 
Criança, Ch-EDE),37fornecendo uma taxa de prevalência de cerca de 9% para a alimen-
tação com LOC. Embora essa seja mais frequente em grupos obesos que procuram 
tratamento, com taxas de prevalência subindo de 15 a 36%,38 nenhuma das crianças 
avaliadas sofria de TCAP.
Um estudo recente investigou o curso natural da compulsão alimentar durante 
um ano em 259 crianças (8 a 13 anos) da população em geral, bem como em um am-
biente clínico, usando o Exame para Transtorno Alimentar para Crianças,39 avaliando 
assim preditores de manifestação e desenvolvimento de episódios de compulsão ali-
mentar.40 No geral, 4,2 e 5% de todas as crianças sofreram episódios de compulsão ali-
mentar com avaliação subjetiva ou objetiva de grande quantidade de alimentos. Após 
1 ano, a maioria dessas crianças deixou de comer compulsivamente. As preocupações 
com a alimentação revelaram ter valor preditivo para a manifestação da compulsão 
alimentar, enquanto o curso da compulsão alimentar foi significativamente influenciado 
por alimentação restritiva e emocional. Durante o período de 1 ano de acompanhamen-
to, 13 crianças desenvolveram comportamento compulsivo (compulsão subjetiva ou ob-
jetiva), sendo que crianças obesas tiveram maior probabilidade de relatar episódios de 
compulsão alimentar quando comparadas a crianças normais e com excesso de peso.40
As conclusões desse último estudo apoiam os relatos cognitivo-comportamen-
tais da compulsão alimentar e sugerem que a compulsão alimentar pode ser causada 
por um déficit na alimentação emocional de regulação de afetos como resposta a um 
estado de excitação adversa,41 em combinação com o envolvimento em restrições ali-
mentares rigorosas. Segundo Westenhoefer et al. (1994),42 a restrição alimentar não é 
uma construção homogênea, mas inclui um controle rígido e um flexível. O controle 
rígido é caracterizado por um estilo cognitivo de "tudo ou nada" em relação a, por 
exemplo, alimentos proibidos. O controle flexível inclui estratégias como a 'permis-
são' de quantidades limitadas de alimentos proibidos, sem sentimento de culpa ou 
compensações planejadas. Em crianças com sobrepeso, os estudos relatam escores 
elevados de alimentação externa e emocional, bem como o engajamento na alimen-
tação restrita, na tentativa de restringir a ingestão de energia para alcançar o ideal de 
magreza da sociedade.43
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
66
3.3. Impacto da obesidade no desenvolvimento social e psíquico da criança
Ao falar de obesidade infantil e de seus impactos na vida da criança, é importan-
te considerar o mesmo olhar global explorados anteriormente nesse capítulo. Além das 
consequências físicas relacionadas à própria saúde e do potencial desenvolvimento de 
agravos,44 a criança também sofre efeitos negativos no seu meio social e psicológico.2
Social
Além da própria condição física, as crianças com obesidade são frequentemente 
expostas a estigmatização, provocação, bullying e uso de apelidos por seus colegas.2,3 
O excesso de peso corporal não apenas representa uma condição médica persistente, 
mas também influencia importantes tarefas de desenvolvimento para crianças e ado-
lescentes, como interação e integração em atividades entre pares relevantes para a 
idade. Ou seja, está presente uma ligação entre obesidade e problemas sociais e com 
os pares, como estigma social e pior auto percepção.24
Socialmente, a criança costuma ser ridicularizada com relação ao tamanho e à 
gordura corporal. Em alguns casos, até os professores podem chamar essas crianças por 
certos nomes na sala de aula que contribuem com sua estigmatização. Esse é um fenô-
meno observado em crianças e adolescentes.45 Tais vivências têm o potencial de gerar 
estresse psicológico, baixa autoestima, isolamento social, dentre outras questões.2 
Com relação à auto percepção, a partir da experiência social negativa vivenciada 
pela criança por sua condição física, ela tende a ter uma imagem também negativa 
de si própria. Existe uma associação negativa estatisticamente significativa entre os 
escores de autoestima e a obesidade em crianças medida pelo IMC. Ou seja, quanto 
maior a obesidade, menor a autoestima da criança.46 Um estudo recente mostrou que 
a exposição ao bullying foi significativamente maior e a autoestima foi significativa-
mente menor em crianças com obesidade. Isso é consistente com D. Bacchini et al.47 
que relatou que 27% das crianças obesas foram vítimas de bullying. Além disso, Ozmen 
et al. (2007)48 descobriram que crianças obesas sofrem de vitimização verbal e física e 
exclusão de atividades em grupo. A partir disso, as provocações com base no peso 
contribuem para consequências emocionais devastadoras, fracasso acadêmico, rejei-
ção pelos colegas, baixa autoestima e depressão.
Outro efeito social presente na obesidade infantil é que, além de ser vítima, a 
criança obesa também pode fazer outras vítimas. Ou seja, ele pode desejar intimidar 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
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os outros devido ao seu tamanho e, muitas vezes, o assédio moral é o resultado de 
querer se sentir superior e com poder sobre os outros. Essa atitude pode ser justificada 
como uma tentativa da criança obesa de superar seus sentimentos de inferioridade 
devido à sua própria obesidade e ao seu descontentamento com a imagem corporal. 
O bullying, assim, pode começar até mesmo na primeira infância, e ter continuidade 
nos anos seguintes.49
Ao considerar as fases posteriores à infância sabe-se, por exemplo, que a obesi-
dade é algo indesejável para os adolescentes, pois atua como um obstáculo em uma 
sociedade que incomoda e humilha crianças obesas.18 Consequentemente, crianças 
e adolescentes obesos não apenas experimentam baixa autoestima, como resultado 
de insultos de colegas, mas também apresentam níveis elevados de solidão e tristeza. 
Assim, a baixa autoestima os levará a duvidar de seu valor e aceitabilidade2 e, com isso, 
gerará baixa energia e motivação.48 
Psicológico
É importante frisar que o impacto na vida da criança com obesidade, somado à 
experiência social negativa, vai além de imagens corporais ruins e prejuízos à autoes-
tima. A obesidade infantil e tudo que a cerca têm o potencial de gerar impactos para 
toda uma vida, uma vez que tal quadro aumenta as chances de desenvolver distúrbios 
psicológicos.2 A obesidade afeta adversamente o bem-estar psicológico por meio de 
estigma de peso, baixa autoestima e/ou comprometimento funcional (menos movi-
mento e capacidade limitada de se envolver em atividades, causando retração social).49 
Além das questões já descritas quanto ao impacto da obesidade na autoesti-
ma e na socialização das crianças, essas consequências podem gerar problemas ainda 
mais intensos e duradouros. Por exemplo, correlatos da obesidade podem representar 
fatores de risco para depressão futura, principalmente em indivíduos mais vulneráveis. 
Em um estudo espanhol, por exemplo, foi detectado que o formato corporal aos 5 
anos de idade previu um risco 50% maior de depressão relatada pelo médico em adul-
tos que estavam acima do peso na infância, embora eles não se ajustassem a uma 
possível psicopatologia pré-existente.50
O final da infância é um período crítico de desenvolvimento caracterizado por 
dramáticas mudanças físicas, psicológicas e sociais. Mudanças físicas e de aparência 
são preocupações essenciais dos adolescentes e, portanto, a obesidade pode predis-
pô-los a consequências para a saúde mental.51 Outro ponto importante é que a obesi-
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
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dade adolescente tem sido associada a um risco aumentado de sintomas de depres-
são na idade adulta, ou depressão maior 20 anos após o início do ganho de peso.52,53
A depressão é um problema psicológico emergente em crianças que está asso-
ciado ao baixo desempenho escolar e funcionamentosocial prejudicado, e está forte-
mente ligado ao transtorno por uso de substâncias e a um aumento do risco de suicí-
dio, que é a segunda principal causa de morte evitável entre os jovens.54 A depressão 
é uma, mas não a única complicação da obesidade em adultos.
Depressão e obesidade
Depressão e obesidade são dois problemas de saúde desafiadores. Embora 
compartimentadas como condições de saúde separadas, as evidências sugerem inte-
rações e vias comuns. A OMS sugere que a depressão no ano de 2020 será a doença 
com maior fardo, com custo intensivo e mortalidade relativamente alta.55
A relação entre depressão e obesidade não é apenas um compartilhamento 
coincidente de alguns sintomas, como distúrbios do sono, comportamento sedentário 
e ingestão alimentar desregulada, mas parece estar relacionada à fisiopatologia com-
partilhada. Ou seja, a ligação entre os dois distúrbios pode ser parcialmente afetada 
por mecanismos, por exemplo, neurobiológicos, particularmente em termos de regula-
ção da serotonina, bem como alterações no eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA).56
Outro ponto em comum entre a depressão e a obesidade é que a depressão está 
associada à desregulação do sistema inflamatório e ao aumento dos mediadores pró-in-
flamatórios. A obesidade foi identificada como uma condição pró-inflamatória crônica, 
com expressão aumentada de citocinas pró-inflamatórias pelo tecido adiposo, mais liga-
da à obesidade central do que à periférica. Portanto, o processo inflamatório relacionado 
à obesidade surgiu como hipótese para explicar sua relação com a depressão.57
Porém, ainda não está claro se os transtornos psiquiátricos e problemas psicoló-
gicos são uma causa ou consequência da obesidade infantil.2 Existem alguns estudos 
longitudinais relacionando problemas comportamentais a ganho de peso subsequente 
ou a um risco aumentado de sobrepeso em crianças com peso normal.58,59 Estudos 
recentes revelam o valor preditivo de transtornos mentais, como depressão ou trans-
tornos de conduta, para o desenvolvimento de sobrepeso e obesidade.58,60 Existem, 
ainda, evidências de que crianças com rápido ganho relativo de peso apresentaram 
maior prevalência de problemas comportamentais e de aprendizado e maior estresse 
psicossocial.61, 62 Assim, a inter-relação entre ganho de peso e problemas psicológicos 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
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pode ser bidirecional, pois o sofrimento psicológico clinicamente significativo pode pro-
mover ganho de peso, e o rápido ganho de peso pode levar a problemas psicossociais.28
3.4. Intervenções terapêuticas de transformação do quadro
Para aprimorar os esforços para prevenção e intervenções sobre a obesidade 
infantil, existe uma forte necessidade de detecção precoce de fatores psicológicos, so-
ciais e culturais que contribuem para seu desenvolvimento e manutenção.4 A obesida-
de infantil representa não uma condição estável, mas um processo dinâmico, no qual 
comportamento, cognição, regulação emocional e ambiente interagem mutuamente 
com parâmetros biológicos e fatores contextuais, como atitudes dos pais, alimentação 
familiar, atividade e padrões nutricionais.1,5
O tratamento da obesidade infantil deve levar em conta a idade da criança e 
quaisquer condições médicas subjacentes, juntamente com quaisquer problemas emo-
cionais divulgados durante o exame e entrevista, bem como a condição sociocultural 
da criança. Ou seja, considerando a complexidade envolta nesse quadro, uma equipe 
multidisciplinar é fundamental para compreender todas as variáveis correlacionadas.
Equipe multidisciplinar
No tratamento da obesidade infantil, ao considerar não somente a saúde física, 
mas também o bem-estar mental, psicoemocional e social, partimos de um olhar glo-
bal sobre a criança. Além disso, observa-se que a obesidade é uma doença que se de-
senvolve de forma crônica e com causas multifatoriais. Dessa forma, é importante que 
o tratamento tenha uma perspectiva multidisciplinar, proporcionando uma assistência 
integral a crianças e adolescentes. A obesidade faz emergir diferentes elementos que 
se relacionam de forma dinâmica e simultânea, logo qualquer tentativa de lidar com o 
tema de forma fragmentada ou unilateral diminuirá as chances de uma evolução posi-
tiva do quadro.63,64 
Embasando a proposta descrita acima, há evidências de que a abordagem com-
portamental multidisciplinar de longo prazo é uma das intervenções mais eficientes para 
o tratamento da obesidade.65 Essa forma de trabalho, inclusive, tem resultados mais sa-
tisfatórios em crianças e adolescentes em comparação ao tratamento de adultos.66,67
Um dos fatores que podem justificar tal diferença está relacionado ao índice de 
desistência. Em média, 50% dos adultos interrompem o tratamento antes de sua con-
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
70
clusão,68 enquanto em adolescentes cerca de 33 a 45% não dão continuidade ao tra-
tamento.69,70 A adesão ao tratamento é considerada parte significativa nos resultados 
de perda de peso,68 e a prevenção e o manejo eficazes da obesidade ainda na infância 
são mais fáceis e podem resultar em uma prevenção significativa da obesidade adulta.3
Baixa adesão ao tratamento
Outro desafio no acompanhamento da obesidade, seja ela infantil ou não, é a 
adesão ao tratamento. Estudos apontam uma relação expressiva entre a obesidade 
em adolescentes e a baixa taxa de sucesso ou mesmo a desistência em programas 
de perda de peso.70,71 Existe a possibilidade de que crianças e jovens com excesso de 
peso tenham menor probabilidade de se envolver em comportamentos de promoção 
da saúde.71 Algumas variáveis levantadas pela literatura que justifica essa dificuldade 
de adesão estão relacionadas com expectativas irreais, somadas a um nível alto de de-
sapontamento e, como consequência, a interrupção do tratamento.72 Outro fator que 
pode influenciar a baixa adesão ao tratamento de crianças e adolescentes obesos é a 
presença de transtornos psiquiátricos associados.73 
Ao considerar que a adesão ao tratamento tem impacto significativo na perda 
de peso,68 mostra-se novamente a necessidade de um olhar amplo sobre a obesidade 
infantil e suas intervenções. Perceber que estão presentes obstáculos psicossociais e 
biológicos que atrapalham o envolvimento do paciente nas intervenções comporta-
mentais74 é o primeiro passo para lidar com tais desafios. Para dar a devida importância 
a como gerar melhor adesão em programas multidisciplinares no tratamento da obe-
sidade, é fundamental uma ampla compreensão sobre a predisposição de comporta-
mentos ditos saudáveis ou de risco, gerados a partir da interação de fatores biológicos, 
psicológicos, ambientais e genéticos.75
Finalmente, deve-se ressaltar que a desistência dos programas para tratamento de 
obesidade não terá como justificativa nem poderá ser prevista por apenas uma variável iso-
lada, o que torna imprescindível a investigação continuada sobre os efeitos que interferem 
na adesão ou não ao tratamento. Efeitos esses que podem ser independentes ou inter-re-
lacionais entre os diferentes fatores envolvidos (biológicos, psicológicos e ambientais).76 
Terapia Cognitivo Comportamental
Mudanças na alimentação e no nível de atividade física devem fazer parte do 
tratamento. Contudo, para crianças com problemas comportamentais ou emocionais, 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
71
será de fundamental importância o acompanhamento de um profissional da saúde 
mental com o objetivo de auxiliar na adesão ao tratamento.
A partir das terapias de modificação de comportamento, é possível instrumen-
talizar os pacientes com habilidades cognitivas e comportamentais para que busquem 
um estilo de vida diferente daquele que vinham tendo. Além disso, essa técnica con-
tribui com a identificação dos comportamentos responsáveis pela manutençãotempo contribui 
com o desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis, que têm sido apontadas 
como as principais causas de morte no mundo.
Na sociedade atual, prevenir e tratar o excesso de peso em crianças e adolescen-
tes tem sido um verdadeiro desafio. Diversas estratégias de manejo clínico e nutricional 
foram propostas e são aplicadas em âmbito individual e populacional, mas com pouco 
sucesso efetivo. A atuação transdisciplinar que envolve a família e o ambiente parece ser 
uma alternativa promissora, mas requer o desenvolvimento de conhecimento da cultura 
e da complexidade humana de forma abrangente. Para isso, a formação de equipe inter-
disciplinar proativa e integrada é essencial, mas nem sempre possível pela limitação de 
recursos disponíveis.
 O texto deste fascículo foi desenvolvido com o objetivo de fornecer conheci-
mento científico atualizado a profissionais de saúde que combatem o excesso de peso 
em seus consultórios e equipes de saúde interdisciplinar. O conteúdo traz orientações 
práticas e assertivas quanto a definição, diagnóstico, manejo clínico, prevenção e trata-
mento do sobrepeso e obesidade na população pediátrica. A ideia foi integrar os conhe-
cimentos de diferentes áreas de atuação para um único objetivo: prevenir e controlar a 
obesidade na infância e adolescência.
Motivados pela oportunidade de unir os diversos olhares em um único documen-
to com relação ao cuidado com as crianças e adolescentes com excesso de peso, a For-
ça-Tarefa Nutrição da Criança do ILSI-Brasil convidou especialistas da área para escrever 
este fascículo. De forma didática, ele foi dividido de em seis capítulos como a participa-
ção de um especialista de cada área de atuação: (1) Pediatria (2) Nutrição; (3) Psicologia; 
(4) Fonoaudiologia; (5) Odontologia; e (6) Educação Física. 
Assim, esperamos que a leitura deste documento contribua significativamente 
com os profissionais que se dedicam a cuidar do grupo etário pediátrico e, também, 
estimule o desenvolvimento de senso crítico aprimorado e sustentado sobre o conheci-
mento científico atual dos aspectos que envolvem este prevalente distúrbio nutricional 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
8
na sociedade atual. Portanto, desejamos que o tempo dedicado a esta leitura promova 
melhorias na prática assistencial com benefício direto a saúde das crianças e adolescentes.
Por fim, agradecemos aos colegas que contribuíram com a sua realização e, con-
sequentemente, para a manutenção ativa da educação continuada em nutrição infantil.
Tulio Konstantyner
Coordenador Científico da Força-tarefa de Nutrição da Criança
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
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SUMÁRIO
1. Atuação do pediatra nutrólogo
1.1 Introdução
1.2 Repercurssões da obesidade
1.3 Diagnóstico de obesidade
1.4 Circunferência abdominal
1.5 Tratamento
1.6 Pevenção
1.7 Sugestões para a prevenção da obesidade
1.8. Referências bibliográficas
2. Atuação do nutricionista
2.1 Definição e diagnóstico
2.2 Implicações relacionadas à obesidade infantil
2.3 Prevenção da obesidade infantil
2.4 Gestação
2.5 Lactente
2.6 Fase pré-escolar
2.7 Fase scolar e adolescência
2.8 Manejo e tratamento da obesidade infantil
2.9 Considerações finais
2.10 Referências bibliográficas
3. Atuaçãodo psicólogo
3.1 Introdução
3.2 Constituição do quadro de obesidade infantil
3.3 Impacto da obesidade no desenvolvimento social e psíquico 
da criança
3.4 Intervenções terapêuticas de transformação do quadro
3.5 Conclusão
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3.6 Referências bibliográficas
4. Atuação do fonoaudiólogo
4.1 Introdução
4.2 Alimentação responsiva e autorregulação
4.3 Etapas para o tratamento das crianças com obesidade
4.4 Habilidade oral
4.5 Dessensibilização sistemática
4.6 Conclusão
4.7 Referêncis bibliográficas
5. Atuação do odontopediatra
5.1 Introdução
5.2 O papel da dieta na saúde oral
5.3 Comportamento alimentar e a cárie dentária
5.4 Obesidade e a cária dentária
5.5 Erosão dentária
5.6 A influência do aleitamento materno, consistência dos alimen-
tos e a mastigação na saúde oral
5.7 O respirador oral
5.8 Distúrbios do sono
5.9 Considerações finais
5.10 Referências bibliográficas
6. Atuação do educador físico
6.1 Introdução
6.2 A obesidade infantil
6.3 A ciência do exercício físico
6.4 Obesidade infantil e comorbidades - efeitos no exerício físico
6.5 Obesidade infantil e abordagem multidisciplinar - atuação do 
profissional de educação física
6.6 Tratamento da obesidade infantil - o papel do profissional de 
educação física
6.7 Tratamento da obesidade infantil - da anamnese à prescrição 
74
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de exercícios 
6.8 Perspectivas futuras
6.9 Referêncis bibliográficas
7. Diretoria e CCA - 2020
8. Força-tarefa Nutrição da Criança
138
138
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143
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
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1. ATUAÇÃO DO PEDIATRA NUTRÓLOGO
Maria Arlete Meil Schimith Escrivão
1.1 Introdução
 A obesidade consiste em um desequilíbrio do metabolismo energético, que 
acarreta excessivo acúmulo de gordura corporal, com graves repercussões orgânicas e 
psicossociais.1 Esse distúrbio nutricional é uma doença com etiologia multifatorial e que 
resulta da associação de fatores genéticos e ambientais, como hábitos alimentares ina-
dequados e estilo de vida sedentário. O fácil acesso aos alimentos industrializados com 
alta densidade energética, o aumento no tamanho das porções, principalmente dos fast 
foods, a redução da atividade física e o maior tempo gasto com atividades sedentárias 
contribuíram para a elevação do número de indivíduos obesos no mundo, atingindo 
todas as idades e todos os níveis socioeconômicos.2,3,4
 O excesso de peso é um dos distúrbios nutricionais mais prevalentes em pa-
íses desenvolvidos e em desenvolvimento, entre crianças e adolescentes. No Brasil, a 
Pesquisa de Orçamentos Familiares (2008-09) revelou que 33,5% das crianças de cinco a 
nove anos de idade estavam com excesso de peso. Foi detectado um salto no número 
de crianças com excesso de peso, nessa faixa etária, ao longo de 34 anos. Em 2008-09, 
34,8% dos meninos e 32% das meninas estavam com o peso acima da faixa considerada 
normal pelos referenciais da Organização Mundial da Saúde.6
1.2. Repercussões da Obesidade
 
 Psicossociais
 A obesidade é uma doença estigmatizante, que pode propiciar prejuízos psi-
cossociais como isolamento social, bullying, especialmente no ambiente escolar, e pro-
cessos depressivos em crianças e adolescentes.7,8
 Ortopédicas
 O abdome proeminente do obeso leva ao deslocamento anterior do centro 
de gravidade corporal, com acentuação da lordose lombar, aumento da inclinação an-
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
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terior da pelve e rotação interna dos quadris. Esse quadro pode causar deformidades 
distais, como os joelhos valgos e os pés planos valgos.9
 O excesso de peso também costuma provocar traumas nas articulações que 
sustentam o peso corporal, como as dos quadris, joelhos e tornozelos, com o desen-
volvimento de processos degenerativos e dores articulares.
 Dermatológicas
 As estrias são bastante comuns, devido ao esgarçamento da pele provocado 
pelo excesso de tecido adiposo subcutâneo.
 As infecções fúngicas, associadas ou não a processos bacterianos, também ocor-
rem com muita frequência nas regiões de dobras profundas, facilitadas pela presença da 
umidade nesses locais e pelo atrito com roupas, principalmente de tecidos sintéticos.10
 Nos casos de obesidadede há-
bitos nocivos. Dessa forma, é possível contribuir na conscientização dessas pessoas 
a perceberem que a adoção de tais mudanças é uma oportunidade de experimentar 
uma vida nova, indo além do controle do peso.72
A terapia cognitivo-comportamental combinada à intervenção baseada na família 
se mostra mais eficaz, especialmente para crianças obesas mórbidas e com condições 
médicas que apresentam risco de vida. O programa envolve uma série de módulos de 
tratamento: (1) início do tratamento: fase de pré-admissão; (2) estabelecimento e manu-
tenção de perda de peso; (3) incentivo à aceitação abordagem de expectativas realistas 
em relação ao peso corporal e de preocupações com a imagem corporal; e (4) manuten-
ção do peso a longo prazo. O programa deve incluir a intervenção da família e atividade 
física. Além disso, a equipe de tratamento deve ser multidisciplinar, envolvendo pediatra, 
psiquiatra, psicólogo, psicoterapeuta familiar, fisioterapeuta e nutricionista.77
Orientação de pais
Estudos apontam que o ambiente alimentar precoce de crianças obesas difere 
acentuadamente quando comparado ao de crianças não obesas.78 As crianças obesas, 
além de consumirem uma quantidade maior de alimentos, tendem a ter uma qualida-
de de alimento também alta em conteúdo calórico. Elas geralmente têm porções de 
alimentos com tamanhos elevados e aumento da ingestão de gordura e comem menos 
frutas e vegetais em comparação com crianças com peso normal da mesma idade.3 Os 
pais são os responsáveis pela disponibilização de tais alimentos à criança; portanto, 
eles passam a ter um destaque significativo nesse processo de orientação.
Os pais de crianças obesas têm um papel importante no tratamento, e merecem 
uma atenção especial nesse processo. Seja porque é conhecido que muitas crianças 
com obesidade pediátrica também têm pais obesos, e esses tendem a contribuir para 
a criação de um ambiente alimentar que facilita o desenvolvimento da obesidade in-
fantil,3 ou porque é comum que os pais de adolescentes mais jovens ou crianças sejam 
os responsáveis por acompanhá-los no tratamento.79 Por essas ou outras razões, é de 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
72
fundamental importância envolver os responsáveis por essas crianças no aprendizado e 
no desenvolvimento de ações que proporcionem um estilo de vida mais saudável para 
elas criança e suas famílias. 
Especialmente para as crianças, parece ser importante envolver a perspectiva 
de sofrimento psíquico dos pais e das crianças para evitar que problemas de compor-
tamento sejam negligenciados pelos pais.80, 81 Além disso, como os pais de crianças 
obesas geralmente não estão bem cientes dos problemas de saúde de seus filhos, essa 
situação pode subestimar não apenas o excesso de peso corporal das crianças, mas 
também os prejuízos psicológicos associados.81
O objetivo de estabelecer relacionamento com os pais é aumentar a probabili-
dade de cumprimento do tratamento, de regimes sugeridos pelo provedor de saúde, 
entre outras orientações. Em muitos casos, o provedor de saúde verá o pai ou a mãe 
com problemas de peso semelhantes, e não será o papel do agente de saúde julgar ou 
culpabilizar essa família. Em vez disso, é importante estabelecer um ambiente seguro 
para que a criança e o cuidador possam se envolver na busca de soluções e expressar 
seus sentimentos aberta e honestamente.2
Ações na comunidade
É necessário que haja a promoção de esforços em diferentes áreas da sociedade 
para reduzir o consumo calórico excessivo e para aumentar o gasto energético popu-
lacional. Esse esforço deve receber atenção primordial no desenho de programas de 
saúde coletiva e da família. É importante promover o desenvolvimento de estratégias 
de intervenção culturalmente apropriadas, que demonstrem ser eficazes entre jovens 
de diversas origens culturais e socioeconômicas.82 
Através de intervenções nas escolas e na comunidade, por exemplo, é possível 
promover a conscientização e a educação sobre hábitos alimentares saudáveis, pa-
drões de estilo de vida e exercícios regulares, hábitos essenciais para prevenir a obe-
sidade em crianças.83,84 Além disso, diretrizes estritas de propaganda e intervenção na 
mídia, que impeçam propagandas falsas de alimentos não saudáveis feitas por celebri-
dades adoradas pelas crianças são outro passo nesse sentido.85 
Intervenções com profissionais de saúde, pais e funcionários da escola e políti-
cas públicas podem contribuir para a prevenção de provocações, atitudes e comporta-
mentos relacionados ao excesso de peso.86,87 Assim, intervenções em nível biopsicos-
social, usando uma abordagem de equipe multidisciplinar, constituem a pedra angular 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
73
no manejo eficaz da obesidade pediátrica.3
Importância do Estado
O Estado, através da escola e da construção de diretrizes, tem papel fundamen-
tal no incentivo à prática de atividade física e na orientação quanto a hábitos alimen-
tares saudáveis. Para além da escola, as equipes de Saúde da Família devem buscar o 
desenvolvimento de estratégias, em parceria com as escolas da sua área de abrangên-
cia, visando conscientizar crianças, adolescentes e suas famílias sobre a importância 
da adoção de um estilo de vida saudável, incluindo oferta de alimentação adequada e 
oportunidades para a prática regular de atividade física. Paralelamente, recursos preci-
sam ser direcionados à pesquisa e ao desenvolvimento de práticas efetivas que visem 
prevenir o sobrepeso e a obesidade, maximizando recursos tanto da família quanto da 
comunidade em geral.88
São muitos os desafios para implementação de estratégias regulatórias que es-
timulem e possibilitem hábitos de vida mais saudáveis à luz das recomendações dos 
órgãos responsáveis.89 Além de toda a complexidade já colocada que envolve a obe-
sidade infantil, o governo ainda precisa lidar com a distribuição adequada de recur-
sos, os interesses políticos e econômicos das indústrias de alimentos processados e 
ultraprocessados, as ações regulatórias sobre a publicidade desses alimentos, disputas 
de interesses entre os fornecedores da alimentação escolar, além de possíveis dificul-
dades para que os agricultores familiares viabilizem a comercialização de seus produ-
tos para as escolas, ou mesmo para que se interessem por essa fatia de mercado em 
comparação a outros circuitos comerciais.89
Outro ponto a ser abordado com relação às medidas públicas é sobre a infor-
mação que chega à comunidade e como, de fato, ela pode ser transformada em ação. 
Nota-se que as pessoas, de maneira geral, possuem conhecimento suficiente sobre o 
que deve ou não ser feito com relação à alimentação e aos hábitos para emagrecer. 
Entretanto, existem relatos de que não há liberdade para compartilhar as reais dificul-
dades nos serviços de saúde, pois frequentemente os próprios usuários desse serviço 
sofrem censura ou discriminação. Além disso, a informação prescrita nos casos de obe-
sidade se mantém: dieta, atividade física, remédio e/ou cirurgia. Ou seja, as avaliações 
dos casos ficam restritas à condição física, sem um olhar sobre os reais motivos para 
aquelas pessoas não conseguirem colocar em prática tais orientações. Geralmente, o 
profissional da saúde que não envolve os pacientes numa reflexão sobre suas próprias 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
74
ações e apenas impõe sua orientação padrão prejudica a autonomia do paciente, des-
considera suas particularidades e dificulta a adesão ao tratamento. Não basta limitar 
o atendimento a uma mera transmissão de orientações, é importante fazer o paciente 
se colocar no papel principal de sua vida e conduzir seu próprio caminho. Isso só será 
possível através de uma escuta ativa e da interação do profissional com a realidade 
social e subjetiva do paciente. Além disso,existe no atendimento público uma dificul-
dade grande em se encontrar equipes multidisciplinares especializadas, o que, por si 
só, passa a ser mais um obstáculo na prevenção e no tratamento da obesidade.64
3.5. Conclusão
Para aprimorar os esforços de prevenção da e intervenção sobre a obesidade 
infantil, existe uma forte necessidade de detecção precoce de fatores psicológicos 
que contribuem para seu desenvolvimento e manutenção. A obesidade infantil não re-
presenta uma condição estável, mas um processo dinâmico, no qual comportamento, 
cognição e regulação emocional interagem mutuamente. A estrutura e o contexto fa-
miliar – ou seja, as atitudes dos pais e da família, a atividade, os padrões nutricionais e 
o estresse familiar – têm um papel importante no início e na manutenção do sobrepeso 
e da obesidade. Problemas comportamentais e emocionais são encontrados em mui-
tas crianças obesas, embora não em todas, com maior prevalência em amostras clínicas 
que buscam tratamento. A inter-relação entre obesidade e problemas psicológicos 
parece ser dupla, ou seja, o sofrimento psicológico clinicamente significativo pode pro-
mover o ganho de peso, e a obesidade pode levar a problemas psicossociais. Os fa-
tores psicossociais mais frequentemente implicados são problemas comportamentais 
externalizantes (impulsividade e déficit de atenção e hiperatividade) e internalizantes 
(depressão e ansiedade), e comportamento alimentar descontrolado. Esses achados 
reforçam a necessidade de explorar ainda mais a inter-relação entre problemas psico-
lógicos e obesidade infantil. 
3.5. Referências bibliográficas
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Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
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4. ATUAÇÃO DO FONOAUDIÓLOGO
Patrícia Junqueira
4.1 Introdução
Se nosso desejo é ajudar as futuras gerações precisamos olhar além da nutrição, 
compreendendo os fatores de interferência para o sucesso do aprendizado alimentar.
O sobrepeso na infância já é classificado como uma epidemia global. Hábitos 
alimentares inadequados e a falta de atividades físicas podem ser as principais causas.1 
Uma em cada três crianças, com idade entre cinco e nove anos, está acima do 
peso no Brasil, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 
As notificações de 2019 do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional revelam que 
16,33% das crianças brasileiras entre cinco e dez anos estão com sobrepeso; 9,38% 
com obesidade e 5,22% com obesidade grave. Em relação aos adolescentes, 18% 
apresentam sobrepeso; 9,53% são obesos e 3,98% têm obesidade grave. Já a Organi-
zação Mundial da Saúde (OMS) estima que até 2025 o número de crianças obesas no 
planeta chegue a 75 milhões.2
A prevenção da obesidade na infância é a melhor forma de evitar complicações 
de saúde na vida adulta, especialmente, no risco de doenças crônicas como hiperten-
são e diabetes. Além do aleitamento materno exclusivo até os 6 meses de vida – e re-
comendado até os 2 anos de idade, orienta-se, também, evitar alimentos com excesso 
de açúcar, sal e gorduras saturadas, equilibrando a dieta com a prática de atividade físi-
ca frequente. Estas estratégias de prevenção começam no período pré-natal, com con-
trole adequado do peso durante a gestação e um parto seguro. Na primeira infância, 
destaca-se o aleitamento materno exclusivo até os seis meses de idade e o continuado 
por dois anos ou mais como a principal ação preventiva do ganho de peso excessivo.1
A alimentação saudável se faz pela oferta de todos os alimentos, de forma cor-
reta, em quantidade, qualidade e variedade que permitam o crescimento, desenvolvi-
mento e imunidade adequados. O diagnóstico precoce do ganho de peso excessivo 
deve ser função primordial dos pais e dos profissionais de saúde.
Os hábitos alimentares da família impactam diretamente o paladar das crianças, 
sendo os pais o principal guia para a percepção de coisas boas e ruins de forma incons-
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
84
ciente e consciente. A pouca interação com a criança também pode levar à ingestão 
inadequada de alimentos.3 
A falta de alimentos dentro da casa, restrições alimentares excessivas, hábitos 
inadequados, fatores culturais, crenças maternas, pressão para comer, falta de rotina 
alimentar, podem também ser exemplos de situações prejudiciais às crianças.
Há evidências consideráveis de que a infância é um período importante para de-
terminar o risco futuro de obesidade, bem como as consequências relacionadas a ela.4,5
Uma vez que os hábitos alimentares emergem e são estabelecidos precocemen-
te na infância, podendo persistir na vida adulta, compreender comportamentos ali-
mentares que possam ser modificáveis e que influenciam o ganho excessivo de peso 
pode ajudar no desenvolvimento de estratégias de intervenção para combater a obe-
sidade infantil.6,7. 
Por essas razões, orientações para lactentes e crianças pequenas deveriam se 
concentrar em aconselhar os cuidadores não só em O QUE? as crianças pequenas de-
vem comer, mas também em COMO? podem favorecer o aprendizado alimentar bem 
como comportamentos saudáveis para a vida toda. 
O objetivo desse capítulo é apresentar a atuação do fonoaudiólogo, fundamen-
tada nos conceitos da alimentação responsiva e da abordagem integrativa, como es-
tratégia de prevenção e tratamento da obesidade na infância. 
4.2 Alimentação responsiva e autorregulação
É amplamente aceito que os bebês regulem sua ingestão de alimentos-nutrien-
tes através de sinais complexos de fome e saciedade.
Práticas ideais de alimentação infantil têm como base respostas apropriadas aos 
sinais de fome e saciedade da criança8. Através dessas vivencias de respostas a essas 
necessidades a criança estabelece sua autorregulação. 
A capacidade de autorregulação das crianças é o centro do trabalho pioneiro de 
Satter 9, conhecido por Divisão de Responsabilidade.
“...relacionamento em que os pais através dessas vivências de respostas, como 
as necessidades da criança e da fome são responsáveis pelo desenvolvimento, estru-
tura e rotina apropriadas de alimentação (o que, quando, e onde comer) e a criança é 
responsável por quanto e se deve ou não comer o que os pais fornecem.”9
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
85
O termo Responsive Feeding (RF) apareceu pela primeira vez em pesquisas no 
início dos anos 2000.10 Descrito em vários artigos em 2011,11-13 a RF reconhece a impor-
tância do apoio a habilidades inatas de autorregulação através do estabelecimento 
parental de um contexto para comer. É considerado a melhor prática de alimentação 
pela Academia Americana de Pediatria14 e pela Organização Mundial da Saúde.15
A RF envolve o reconhecimento e respeito dos pais aos sinais de fome e ou sa-
ciedade das crianças, seguido de uma resposta apropriada para seu estágio de desen-
volvimento. Isso é distinto da alimentação não responsiva, na qual os pais permanecem 
pouco envolvidos ou adotam práticas de controle alimentar como restrição ou pressão 
para que a criança coma.8
Práticas não responsivas podem interromper a autorregulação e contribuir para 
recusa alimentar16, descontrole do peso17 e transtornos alimentares.18,19
A RF foca em três necessidadesfundamentais - Autonomia, Competência e Rela-
cionamento. Essas necessidades, junto com a autorregulação, são o suporte para a RF, 
que tem sido associada a um índice de massa corporal mais estável durante toda a vida.
Autonomia - Autonomia refere-se a agir de maneira voluntária, congruente e 
auto aprovada.20. As crianças podem ter graus variados de necessidade de autono-
mia, reagindo de maneira diferente à pressão dos pais para comer. A autorregulação 
da percepção de fome e saciedade, por exemplo, pode ser vista como sendo parte 
fundamental no contexto da alimentação. Quando a alimentação é dirigida pelos pais 
em relação ao que e quanto deve ser consumido, a autonomia é comprometida e a 
autorregulação é dificultada.
Competência - Sabe-se que tipos de alimentos oferecidos e métodos de alimen-
tação devem estar alinhados com o nível de maturação e desenvolvimento das crian-
ças. Se ambos estiverem além das capacidades da criança, ela se verá incompetente 
e frustrada, podendo assim perder a motivação para comer determinados alimentos.
Relacionamento - O relacionamento foi definido como um sentimento de per-
tencimento e conexão com os outros; envolve um senso de autoestima, cuidado mú-
tuo e importância nas relações humanas.21 As refeições em família fornecem uma rica 
oportunidade, incluindo a exposição a uma ampla variedade de alimentos, cores, aro-
mas, texturas, conhecidas por influenciar significativamente o comportamento alimen-
tar das crianças.22
Morris e Junqueira22 descrevem de modo prático como estabelecer entre a crian-
ça e o cuidador a RF, visando o desenvolvimento de uma relação de Conforto, Confian-
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
86
ça e Competência com os alimentos e com o momento da refeição. 
Figura 1. O conceito dos “Quatro Cs” para o aprendizado alimentar.22
Conexão
A conexão é a base essencial que dá suporte para os outros três componentes. 
Outro nome para conexão seria "relacionamento". Como já vimos, a primeira relação 
importante que um bebê estabelece é com a mãe biológica, em uma conexão íntima 
e confiante chamada de vínculo. O vínculo começa no útero com o bebê reconhecen-
do os ritmos e o estado emocional de sua mãe, bem como sabor e cheiro através do 
líquido amniótico. Após o nascimento, o bebê reconhece o som da voz de sua mãe e 
do cheiro de suas mamas. 
O vínculo e o apego se aprofundam após o nascimento, à medida que a mãe 
proporciona todo o apoio, orienta o sistema sensorial do bebê e proporciona senti-
mentos de segurança a ele. Isso fornece uma base segura a partir da qual o bebê e a 
criança pequena podem explorar e descobrir o mundo.
Desse modo vão estabelecendo um relacionamento com os indivíduos que os 
alimentam e com o ambiente que os cercam. É importante, também, estabelecer um 
relacionamento positivo no momento das refeições. Esse relacionamento positivo é um 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
87
“aprendizado” para ambos. Os responsáveis levam tempo para aprender e responder 
aos sinais verbais e não verbais de prontidão, necessidade e preferências da criança. 
A forma de lidar positivamente com essa situação reflete um respeito pela criança, na 
medida em que não a faz ingerir forçosamente um alimento específico ou quantidade 
de comida durante as refeições. 
Os pais que estão atentos e identificam os sinais de fome da criança aprendem a 
interagir com o filho e a preparar as refeições, respeitando seus ciclos naturais de fome 
e saciedade, tanto quanto possível. 
Aos pais cabe a responsabilidade de oferecerem alimentos apropriados em um 
ambiente que sustenta as necessidades da criança e em um momento que seja previ-
sível e corresponda aos ciclos gerais de fome da criança. As crianças são responsáveis 
por suas decisões de quanto comer quando a comida é servida.9 Esse conceito de 
Divisão de Responsabilidades descrito por Satter(9) colabora para um forte senso de 
conexão e um relacionamento positivo na hora das refeições, favorecendo o nível de 
compreensão e empatia dos pais com seus filhos, gerando confiança. Esses são os 
elementos que dão base ao sistema de apoio para aumentar o conforto da criança du-
rante as refeições e a confiança para aceitar formas mais eficientes de comer, descobrir 
e gostar de diferentes alimentos. 
Quando a base da conexão não dá apoio, as crianças experimentam mais estres-
se, maior tensão física e emocional e níveis mais elevados de desconforto. Elas podem 
se tornar inseguras sobre suas habilidades e não confiam no que são capazes de fazer. 
Algumas crianças até desistem e se desligam emocional e socialmente dos outros. A 
capacidade de aprender é prejudicada pelo foco no desconforto físico e emocional e 
pela desconfiança em relação aos outros.
Conforto 
Conforto é o mais externo e mais abrangente dos três círculos concêntricos que 
estão sobre o fundamento da conexão. O conforto físico e emocional possibilita o 
aprendizado. O conforto ao comer e beber permite que uma criança se aproxime da 
refeição com o interesse, curiosidade e aceitação que são seus dons naturais. Quando há 
desconforto, crianças e adultos mudam do modo de aprendizado para o modo de sobre-
vivência. Nosso impulso mais fundamental é sobreviver - permanecer vivo. Nosso cérebro 
é inclinado a reconhecer sinais de perigo mais rápido do que sinais de paz e harmonia.
O cérebro prepara-se para sobreviver a uma situação perigosa, desviando o san-
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
88
gue e energia para as extremidades, a fim de combater o inimigo percebido ou fugir. 
Também muda de um processamento cognitivo da informação pelo córtex frontal para 
um aumento da ativação do rombencéfalo, que é a sede da reação rápida e automática. 
Funções como digerir alimentos e sustentar o sistema imunológico tornam-se 
irrelevantes se você tem medo de sentir dor ou algum desconforto. Para fazer isso, 
o cérebro inicia uma cascata de hormônios, do hipotálamo à hipófise e às glândulas 
suprarrenais. Um desses atos retarda a digestão e atrasa o esvaziamento do estômago. 
O modo de sobrevivência está conectado ao estresse. O cérebro não diferencia entre 
um perigo físico imediato e um estresse crônico e difuso. 
O desconforto emocional por outro lado assume muitas formas para uma crian-
ça. As crianças com problemas emocionais, como ansiedade, muitas vezes podem 
comer mais.23 Podem sentir-se emocionalmente recompensadas associando comer a 
essas experiências vivenciadas. 
Pesquisas em humanos produziram, também, descobertas relacionadas ao es-
tresse e aumento da ingestão de alimentos. Existe, de fato, uma tendência de a maioria 
das pessoas aumentarem a ingestão de alimentos doces e gordurosos mais do que 
proteínas quando estão sob estresse.24
Já crianças com dificuldades de processamento sensorial podem experimentar 
regularmente a resposta ao estresse de luta ou fuga. Visão, olfato, paladar, tato e ou-
tros sentidos, obviamente, têm grande influência na hora das refeições. Quando uma 
criança não é capaz de se sentir confortável frente a esses estímulos, ela pode reagir 
de modo muito particular. Ela muda o comportamento, tenta escapar da situação da 
refeição, demonstra medo frente a alguns alimentos e pode engasgar ou vomitar com 
determinadas texturas, odores ou temperatura dos alimentos.25
São muitas as crianças com comportamento alimentar inadequado que apresen-
tam desafios sensoriais.26 Muitos não são diagnosticados precocemente, o que causa, 
ao longo do tempo, um verdadeiro caos no desenvolvimento alimentar da criança. 
Identificar precocemente os sinais de uma possível alteração no processamento sen-
sorial pode colaborar e garantir o aprendizado alimentar positivo para uma criança. 
Isso pode ocorrer tanto pelo início do tratamento adequado quanto pelos ajustes e 
adequações na forma, preparação e adequaçãodos alimentos ofertados. 
Aqui cabe ressaltar que, crianças típicas com desenvolvimento cognitivo nor-
mal, podem apresentar dificuldades no processamento sensorial e não apenas crianças 
dentro do transtorno do espectro autista ou com déficits neurológicos.27
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
89
As dificuldades em processar a informação sensorial dos alimentos podem levar 
à necessidade do uso de distrativos para possibilitar a ingestão o que pode contribuir 
para um “comer desatento”, contribuindo para uma baixa percepção dos sinais de 
saciedade, para uma ingestão ainda maior dos alimentos e para o ganho de peso. Ou-
tro aspecto muito comum nessas crianças é a dificuldade em lidar com texturas mais 
fibrosas como os vegetais e proteínas. Alimentos com textura crocante e geralmente 
homogênea (biscoitos e industrializados em geral) costumam ser mais bem tolerados. 
Sabemos que esses alimentos podem colaborar para o ganho de peso, bem como, 
para uma nutrição desequilibrada. 
Além disso, é bastante comum observarmos um consumo excessivo de leite e, 
em alguns casos, de suplementos alimentares para garantir a nutrição dessas crianças, 
contribuindo também para práticas alimentares não responsivas por parte dos pais 
para garantir o consumo alimentar dos filhos.
Os adultos, muitas vezes, acrescentam o estresse às refeições por não ouvirem 
seus filhos e por criarem pressão direta ou indireta para eles comerem o que acre-
ditam ser mais saudável. Os pais ficam preocupados quando as crianças não estão 
comendo bem (saudavelmente) o suficiente. A ansiedade e estresse são comunicados 
indiretamente à criança. Devido ao estresse, o estômago e os intestinos processam os 
alimentos ineficientemente e a digestão é prejudicada. O estresse é um dos maiores 
contribuintes para as dificuldades de alimentação e de refeições para muitas crianças 
com desafios físicos, sensoriais e emocionais. 
É fundamental orientar as famílias a proporcionar um ambiente que dê suporte 
ao conforto físico e mental, aprimorando automaticamente, o aprendizado e a capa-
cidade criativa das crianças e seus pais. Quando o desconforto não é reconhecido ou 
ignorado, as crianças resistem ou desistem dos desafios de aprendizagem para comer. 
Confiança 
A confiança aumenta quando o estresse é reduzido e a criança experimenta maior 
capacidade física e conforto emocional. O cérebro da criança muda do “modo sobrevi-
vência” e do “modo de proteção” para o “modo de aprendizagem”. A falta de confiança 
gera medo e estresse quando novos alimentos ou sensações são apresentados.
Desse modo, os adultos podem ajudar a criança a criar uma relação de confian-
ça com os alimentos quando, desde pequenas, já as aproximam das refeições e do 
contato com os alimentos variados e nutricionalmente adequados. No início a criança 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
90
pode ainda não comer os alimentos da família, mas pode interagir com as múltiplas 
exposições sensoriais das refeições. Sentir diferentes aromas, visualizar cores e formas 
e até interagir com alimentos de modo lúdico. Essas vivências ajudam as crianças a de-
senvolver consciência e proximidade com os alimentos, aumentando gradativamente, 
seu nível de conforto e confiança. 
Competência
A competência (ou habilidade) surge mais facilmente quando os aspectos mais 
fundamentais de Conexão, Conforto e Confiança estão ativos. O desenvolvimento das 
habilidades de alimentação será muito mais bem-sucedido quando as crianças estive-
rem envolvidas de maneira positiva, física e emocionalmente confortáveis.
Com a progressão gradativa dos estímulos alimentares (no que tange sabores, 
consistências, texturas etc.) a criança vai estabelecendo também um “treino” que pos-
sibilitará um avanço motor-oral. Esse treino só poderá acontecer se a criança sentir 
conforto sensorial para pôr em ação os movimentos orais necessários. Em outras pa-
lavras, se progredirmos a textura dos alimentos para grãos e pedaços, mas a criança 
não possuir conforto sensorial para lidar com as características desses alimentos, ela 
poderá cuspir ou apresentar náusea. Como não consegue lidar com essas texturas, não 
inicia o processo de aprendizagem da mastigação. Se os pais não identificarem isso, 
poderão insistir ou até mesmo “enganar” ou distrair a criança para comer. Desse modo 
a criança, muitas vezes, acaba deglutindo os alimentos inteiros, não progredindo sua 
habilidade motora-oral.
Em outras palavras, cada criança precisa de um "desafio certo" para ter sucesso 
para aprender algo novo. Se o desafio for grande demais, a criança falhará e não aprenderá; 
se a tarefa for muito fácil, não há oportunidade para que ela possa aumentar sua habilidade. 
Mastigação
Mastigar bem os alimentos pode ser uma maneira eficaz e fácil de reduzir a quanti-
dade de alimentos ingeridos, podendo contribuir para um menor risco de obesidade.28,29
Uma metanálise recente de estudos observacionais, entre adultos, mostrou cla-
ramente que comer rapidamente foi associado ao aumento do índice de massa corpo-
ral (IMC) e a uma maior prevalência de obesidade.30 Associações positivas semelhantes 
também foram observadas em crianças.24,31-35 Esses achados levantam a possibilidade 
de que a reduzir o tempo de mastigação possa ser benéfico em termos de controle de 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
91
peso.36 Vários métodos podem estar disponíveis para reduzir o tempo de mastigação, 
como a introdução de pausas dentro das refeições, a diminuição da quantidade de 
comida em cada bocada, ou uma combinação desses métodos.28 
Na verdade, estudos recentes sugerem que mastigar lentamente ou aumentar o 
número de ciclos de mastigação durante as refeições está associado a um IMC menor.37-39
Estudo recente investigou as associações entre quantidade de alimentos ingeri-
dos, grau de mastigação e status de peso entre 4.451 crianças japonesas de 5 a 6 anos. 
A maior quantidade de alimentação e menor grau de mastigação foram associados 
ao excesso de peso (ambos pem outras preparações) que não possuem habilidade para mastigar 
devido a uma má-oclusão dentaria que limita seus movimentos mandibulares, exigido 
para a ingestão de texturas mais pronunciadas e fibrosas.
2) Educação e participação parental 
Educação e orientação aos pais são a base, pois certas crenças e mitos que os 
adultos possuem com relação à alimentação infantil, impactam no modo como enten-
dem o que a criança deve comer. Se os pais não compreendem a complexidade desse 
ato, não são capazes de auxiliarem seus filhos, nem mesmo de seguirem o tratamento 
e orientações propostas. 
É importante que compreendam que comer é um comportamento aprendido e 
que, como toda aprendizagem há de que se considerar os pré-requisitos necessários 
para o desenvolvimento de uma relação cognitiva positiva com os alimentos como: 
segurança emocional, conforto sensorial e gastrointestinal e habilidade motora-oral. 
Outro aspecto essencial da abordagem, no processo educativo dos pais, é o 
esclarecimento da importância da participação e envolvimento familiar. Os pais neces-
sitam se envolver com o processo de tratamento, seguindo as orientações propostas e 
se dispondo a fazer ajustes e mudanças na sua rotina alimentar conforme orientação. 
Refeições em família, aplicação do conceito de divisão de responsabilidades41 (pais 
responsáveis pela compra, preparo, modo e horário de oferta dos alimentos x criança 
responsável pela quantidade ingerida), estímulo à curiosidade e interesse pelos ali-
mentos e pelo momento da refeição são partes vitais do tratamento. 
Parte do sucesso da abordagem baseia-se no envolvimento familiar. Mais do que se 
envolver, o programa pressupõe que a família seja atuante no processo de cura da criança. 
3) Suporte emocional às mães 
O primeiro vínculo que se estabelece entre a mãe e o filho é por meio da alimen-
tação. Quando a mãe se percebe “incapaz” ou que “fracassou” ao alimentar seu filho, 
sentimentos negativos permeiam sua mente. Identificar e ajudá-las de modo prático a 
lidar com esses sentimentos e com possíveis crenças, favorece e é, em muitos casos, o 
primeiro passo para o início do tratamento da criança. 
Antes de pensar em ações terapêuticas para a criança, é necessário amparar e 
cuidar das mães. Alguns conceitos devem ser trabalhados com elas de diferentes ma-
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
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neiras. Esses conceitos são ferramentas poderosas para ajudá-las a sair e ou dar supor-
te à situação aflitiva em que, geralmente, se encontram quando o filho não apresenta 
um comportamento alimentar desejável. 
4) Desenvolvimento normal da sequência para o aprendizado alimentar 
Partindo da premissa que as etapas e habilidades para comer são aprendidas e 
ensinadas, é necessário identificar e promover estratégias para que a criança desen-
volva essas etapas naturalmente. Ou seja, a motivação e curiosidade pelos alimentos 
deverão ser realizadas no contexto da refeição em família, respeitando as condições 
apresentadas pela criança. As etapas e hierarquia que fazem parte desse aprendizado 
com os alimentos (ver, interagir, tocar, cheirar, provar, comer) devem ser respeitadas. 
Ao participarem das terapias, os pais deverão aprender como motivar e manter 
a criança participativa no momento da refeição. É essencial que o terapeuta forneça 
aos pais toda a orientação que favoreça o aprendizado da criança.
Orientações Gerais que favorecem o aprendizado alimentar da criança:
a. Local em que a criança será alimentada (preferencialmente à mesa com a fa-
mília. Evitar situações de sofá, mesas infantis, varandas etc.);
b. Preparo antes da refeição (algumas crianças precisam ser preparadas alguns 
minutos antes do momento da refeição, com diminuição de distrativos, uso de algum 
estímulo sensorial específico que a organize como estímulo vestibular ou massagem 
profunda, etc.);
c. Tipo de cadeira (ajustar a cadeira ao conforto postural da criança de modo 
que possa ver e pegar os alimentos, respeitando sua postura corporal);
d. Uso de distrativos (se a criança faz uso de distrativos é fundamental que o 
terapeuta ensine a família como removê-los gradativamente. Sem a remoção dos dis-
trativos fica impossível a criança interagir com os alimentos, perceber seus sinais de 
saciedade e participar ativamente do momento de refeição);
e. Utensílios utilizados (orientar os talheres ofertados, tanto para a criança “brin-
car” com os alimentos, quanto na necessidade de ser alimentada. Uso de prato, copos, 
tamanho da colher e demais utensílios como mamadeiras e consumo em embalagens, 
também precisam ser orientados); 
f. Cuidador (sempre que possível o cuidador precisa ser orientado e preparado 
para esse momento. Certos pensamentos repetitivos do cuidador, em especial das 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
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mães, como: “eu sei que ele não vai comer”, “ele sempre quer comer só porcarias”, 
etc. podem interferir na aceitação da criança. Além disso, sentimentos como medo 
e insegurança também podem impactar negativamente. Orienta-se que o cuidador 
também se prepare para esse momento, realizando um pequeno relaxamento ou uma 
visualização positiva. Essas estratégias devem ser fornecidas pelos terapeutas durante 
as sessões de atendimento); 
g. Formas de comunicação com a criança (durante o momento de refeição é 
comum os pais ofertarem alimentos à criança para “experimentar”. Geralmente clas-
sificam o alimento dizendo que é bom, gostoso, saudável, nutritivo etc. Orientar para 
que os pais substituam essas expressões por outras como: quer cheirar? tocar? quer 
dar um beijo? quer lamber? ficar amigo? Incentivar sempre atitudes que valorizem a 
curiosidade e motivação intrínseca da criança e jamais usar pressão ou coação. Pode-
-se usar também algumas expressões como: “Nossa olha a cor dessa fruta? Como seria 
esse legume crocante na minha boca? Hum.... é diferente!”. Outra estratégia positiva 
é envolver a criança no processo da refeição, sempre de acordo com a idade e seu de-
senvolvimento cognitivo. Pode-se pedir para a criança mexer o suco, polvilhar queijo 
ralado ou mesmo colocar sal numa salada. Ou mesmo auxiliar no preparo de alguma 
receita ou na tarefa de pôr e retirar a mesa. Assim, gradativamente, a criança vai sendo 
exposta à situação de refeição e, consequentemente, ao interesse e aproximação dos 
alimentos);
h. Disposição dos alimentos (é importante que a criança possa ver os alimentos 
ingeridos pela família, mesmo que ainda não os consuma. Esse processo faz parte do 
aprendizado alimentar. Se a criança apresentar fobia ou mesmo incômodo com o chei-
ro ou visão dos alimentos, eles podem ser dispostos inicialmente mais distantes do seu 
alcance, até que gradativamente possam ser aproximados);
i. Favorecer a autonomia para criança se alimentar (auxiliar os pais no sentido de 
dar a oportunidade e facilitar a criança a se autoalimentar. O terapeuta pode sugerir 
que a criança tenha sempre a sua frente um bowl ou pratinho com ventosa com os 
alimentos que irá consumir. Em outro recipiente a mãe pode ter os mesmos alimentos 
que serão ofertados à criança, garantindo o controle da quantidade ingerida e evitan-
do o desperdício. Orientar talheres de acordo com a idade e possibilidades motoras 
da criança. Pode-se sugerir ainda alimentos no formato “finger food” que facilitam 
ainda mais o manuseio para a criança). 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
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5) Garantir habilidade, conforto e aproximação aos alimentos 
Desenvolver habilidades orais para a criança comer garantirá a possibilidade 
para o aprendizado. Ajustes e dessensibilização sistemática são necessários para que a 
criança tenha sucesso e registre memórias positivas desse aprendizado, aproximando-
-se gradativamente dos alimentos. 
4.4. Habilidade Oral
Algumas crianças podem apresentar extrema aversãoa estímulos orais. Seja 
pela relação de desconforto e inabilidade sensório-motora-oral ao ser alimentada 
ou mesmo pela experiência forçosa e memórias negativas associadas ao momento 
da refeição. Muitas podem ter sido forçadas a comer vegetais ou frutas, evitando e 
apresentando comportamento de luta e/ou fuga quando expostos a esses alimentos. 
São mecanismos de “proteção” associados às memórias negativas registradas em sua 
mente (mais precisamente no sistema límbico). 
Nesse sentido o objetivo inicial da terapia não é a realização de exercícios ou 
mesmo de estímulos orais diretos. Em grande parte das vezes, a recusa por determi-
nados alimentos não se dá necessariamente por uma inabilidade motora-oral ou sen-
sorial. Em muitas situações o grande desafio é mudar, ou seja, aceitar novas situações 
de apresentação dos alimentos. Ou mesmo quando há fobia, não há como aceitar a 
aproximação de nenhum tipo de alimento. Assim sendo, não se prioriza inicialmente a 
situação de estímulos ou exercícios orais, por dois motivos: para evitar mais estímulos 
invasivos na cavidade oral e não potencializar comportamentos reativos. 
Há casos em que a criança pode até tolerar estímulos e exercícios orofaciais. 
Pode até melhorar sua habilidade para comer, mas definitivamente, não amplia seu 
cardápio, nem tão pouco cria uma relação positiva com os alimentos. 
Por esses motivos, a abordagem valoriza ações em que a própria criança seja 
estimulada a conhecer novos alimentos. O papel do terapeuta é criar situações em que 
a criança possa aprender os passos para comer, ou mesmo maneiras de experimentar 
novos alimentos. 
Assim, a “habilidade motora oral e o conforto sensorial” vão sendo garantidos 
na situação com os próprios alimentos. 
Quando a criança permitir e, for necessário, podem ser realizados alguns exercícios 
orofaciais específicos. Mas sempre que possível devem ser associados aos alimentos. 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
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Lembrar que a MASTIGAÇÃO é sempre essencial e a primeira etapa do proces-
so digestório. Velocidade da mastigação, eficiência e outros atributos já foram associa-
dos à obesidade.
Além disso, dificuldades na habilidade motora-oral podem dificultar a transição 
para alimentos mais fibrosos (especialmente proteínas e vegetais fibrosos) e facilitar e 
“incentivar” o consumo em excesso de alimentos mais macios e crocantes que na sua es-
sência tendem a ser mais obesogênicos (biscoitos, massas e alimentos industrializados).
4.5. Dessensibilização Sistemática 
O processo de dessensibilização varia de acordo com o grau e dificuldade apre-
sentada pela criança. É necessário esse processo para que a criança, gradativamente, 
seja aproximada dos alimentos que ainda desconhece, não gosta ou tem medo (fobia). 
Nem sempre é possível começar com os alimentos em caso de crianças com 
comportamento de luta, fuga ou medo à situação de refeição. Pode-se iniciar com 
brinquedos, livros e jogos que remetam aos alimentos e à situação da refeição. As es-
tratégias devem variar de acordo com a faixa etária da criança. 
Quando possível, pode ser iniciado pelos alimentos e ou produtos consumidos ou 
de maior interesse, curiosidade e preferência sensorial da criança. Inicia-se sempre pelo 
alimento conhecido, propondo mudanças na sua forma de apresentação. Modos diferen-
tes de cortar o alimento, tirar o produto da embalagem e ofertar em outro recipiente etc.
Num clima de muita afetividade e respeito o terapeuta desenvolve uma relação 
de profunda confiança e conexão com a criança. Nesse clima de segurança emocional 
para criança, sempre permeado pelo brincar, ela vai, gradativamente, se aproximando 
dos alimentos. Durante a sessão o terapeuta utiliza uma linguagem amorosa e gentil 
com a criança. Não há chantagens ou recompensas externas. O objetivo é aproximá-
-la gradativamente dos alimentos, propondo pequenas mudanças e expandindo os 
alimentos já aceitos. Sempre se utiliza uma linguagem motivacional, que incentive a 
criança a brincar e entrar em contato com os alimentos. Um dos maiores desafios da 
criança obesa e/ou com dificuldades alimentares é a mudança. Mudar algum alimen-
to conhecido ou preferido pode causar medo e ameaça. Assim sendo, o processo 
de dessensibilização prevê mudanças gradativas nos alimentos já aceitos pela criança, 
variando inicialmente o formato, para depois expandir para outras marcas (no caso de 
produtos) ou sabores (no caso dos alimentos). 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
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A textura exerce uma influência muito grande na aceitação pelos alimentos. Mui-
tas vezes para que a criança possa aceitar algum vegetal por exemplo adequamos a 
sua textura preferida. Isso certamente favorecerá uma aproximação mais positiva. 
Aqui, em especial, as crianças que possuem desafios de ordem sensorial, mais 
especificamente, uma Alteração no Processamento Sensorial.42 Essas podem rejeitar 
preparações pelas suas características sensoriais. Por exemplo, uma criança pode rejeitar 
purê de legumes ou mesmo sopa. Nesses casos não adianta a exposição repetida. Há de 
que se ajustar o alimento ao CONFORTO SENSORIAL da criança. Por exemplo, pode-se 
oferecer a cenoura na textura crocante (chips) ou mesmo como sólido macio (muffin). 
Dessa forma a chance de mudança ou a possibilidade de aceitação será facilitada.43 
No processo de dessensibilização é necessário considerar o modo de apresen-
tação dos alimentos, principalmente, quando for algo desconhecido ou para a criança 
considerar pequeníssimas porções como “grãos” ou mesmo “farelos”. Valorizar que a 
criança possa brincar para interagir, cheirar, tocar, lamber, provar ou comer. Pequenas 
porções costumam causar menos aversão e parecem ser menos “ameaçadoras” quan-
do ainda desconhecidas para a criança.
1) Estratégias lúdicas e relaxamento
A criança conhece e se relaciona com o mundo por meio da brincadeira. Por 
isso, todo o processo é baseado em atividades lúdicas diretamente com os alimentos. 
Assim, nesse universo do brincar, a criança é gradativamente exposta aos alimentos, 
favorecendo e possibilitando sua curiosidade e desejo interno por eles.
Utilizar os alimentos como “brinquedos” é uma excelente estratégia para que a 
criança possa se aproximar dos mesmos sem a “pressão” para comê-los. Envolvê-las 
na preparação de receitas simples também é interessante. Servir pessoas, comer junto 
com a terapeuta, colegas e família colaboram para essa aproximação. 
O lúdico favorece que a criança relaxe e não acione tão facilmente comporta-
mentos de luta ou fuga frente aos alimentos. Para a criança ela está “brincando” e não 
aprendendo a comer novos alimentos. E esse pensamento deve ser “reforçado” pela 
terapeuta durante a sessão. Lembrar sempre a premissa da abordagem que é a de 
acionar a motivação intrínseca da criança. 
Pode-se eleger qualquer alimento para a atividade lúdica em terapia, mas pre-
ferencialmente optar por alimentos já familiares para a criança e, durante o brincar, 
gradativamente se introduz novas situações. Por exemplo, se a criança só aceita batata 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
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frita industrializada, pode-se utilizar a mesma batata como trilho para um trenzinho e 
uma outra batata chips caseira para ser a carga dos vagões. Outra batata de formato 
arredondado pode ser o sol e assim por diante. 
Para crianças maiores, acima de quatro anos, podemos utilizar a técnica de Min-
dfulness adaptada para criança, técnicas de relaxamento e atenção na respiração, ati-
vidades com arte (pintura em aquarela, atividades com areia ou massa de modelar 
etc.), contato direto com a natureza (atividades de jardinagem) ou ainda contação de 
estórias etc.
Importante firmar que todas as sessões devem conter uma música suave ao fun-
do. Utiliza-se músicas clássicas e harmoniosas com o intuito depropiciar relaxamento 
e favorecer a intuição, tanto do terapeuta quanto da criança. 
2) Ajustes e adequações nutricionais 
Outro passo essencial da abordagem é o ajuste e as adequações nutricionais no 
cardápio da criança. Elas deverão ser realizadas visando os seguintes objetivos:
- Ajustar as características sensoriais dos alimentos ofertados às habilidades e 
preferências sensório-motoras-orais da criança (nem sempre apenas a idade crono-
lógica da criança pode e deve ser determinante para escolha dos alimentos a serem 
ofertados). É primordial que se avalie se a criança possui a habilidade motora-oral ne-
cessária para comer o alimento ofertado, bem como, se ele está ajustado ao seu con-
forto sensorial. Em outras palavras, a criança pode ter dois anos e possuir habilidade 
motora-oral de seis meses. Ou seja, uma criança nessa faixa etária é recomendável que 
se alimente com os mesmos alimentos da família, ingerindo alimentos com diversas 
texturas e sabores. Por outro lado, essa criança pode, pelos mais diversos motivos, não 
ter a habilidade motora-oral para lidar com texturas mais avançadas, mantendo por 
exemplo, ainda nessa idade, um movimento de língua primitivo, que a “impeça” de 
mastigar. Certos comportamentos de recusa ou aversão podem surgir desse “desajus-
te”. Estas correções no cardápio são necessárias para a criança ter conforto e conse-
guir se alimentar com segurança e de modo mais saudável. 
- Adequar o volume, densidade calórica nutricional ofertado. (Muito comum o 
excesso de volume líquido em mamadeira ou ainda alimentos não ingeridos, como fru-
tas e vegetais, adicionados a essas preparações para garantir a nutrição balanceada da 
criança que possui uma dieta inadequada. Os pais, para garantirem a nutrição saudável 
de seus filhos, podem realizar preparações equivocadas, muitas vezes sem orientação 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
99
profissional. Adequar a oferta diária da criança favorecerá e possibilitará uma relação 
mais positiva e nutricionalmente adequada com os alimentos). 
- Estabelecer uma rotina que favoreça a relação fome x saciedade e, consequen-
temente, evite beliscos ao longo do dia (algumas famílias podem encontrar extrema 
dificuldade no estabelecimento de uma rotina para criança). Fundamental orientar: ho-
rário do sono, do brincar e das refeições, são essenciais para todo o desenvolvimento 
da criança, impactando sobremaneira em seu comportamento alimentar. O terapeuta 
necessita auxiliar os pais a realizarem os ajustes necessários que favoreçam uma rotina 
saudável para a criança, explicitando a importância dessas mudanças para o bem-estar 
global dela, além do impacto positivo na sua relação com os alimentos.
4.6. Conclusão 
A alimentação responsiva pode ser um caminho para motivar os pais a abraça-
rem práticas alimentares positivas, prevenindo potencialmente, doenças como a obe-
sidade e a dificuldade no controle de peso. 
A atuação do fonoaudiólogo fundamentada na alimentação responsiva e aborda-
gem integrativa é recente e mais pesquisas serão necessárias para sedimentar sua ação. 
Que os principais conceitos aqui apresentados nesse capítulo comecem a lançar 
uma nova luz sobre o manejo da criança obesa.
4.6. Referências bibliográficas
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5. ATUAÇÃO DA ODONTOPEDIATRIA 
Daniela Forlin Pereira Passoni 
Cristina Giovannetti Del Conte
5.1 Introdução
A saúde oral está associada a vários fatores da saúde geral do indivíduo e a sua 
alimentação. A alimentação pode afetar a condição oral de inúmeras maneiras, tais 
como a instalação da doença cárie, surgimento de quadros de erosão dentária, favo-
recer má oclusão e impactar na qualidade de vida da criança e sua família, pois com-
prometem seu lado emocional, social e psicológico, seu bem estar e sua saúde física, 
assim como modifica a rotina da família.1,2 A boca exerce papel importante na vida da 
criança física e emocionalmente, uma vez que participa na alimentação, na fala e em 
expressar sentimentos, além de participar na autoestima e na sua formação intelectual. 
A relação entre nutrição e dieta na saúde oral envolve efeitos locais e sistêmicos. 
O efeito sistêmico afeta a formação dos dentes e a composição salivar. Já o efeito local 
da dieta atua nos processos de cárie dentária, erosão dentária3 e oclusão.4,5 Os efeitos 
sistêmicos também estão relacionados às alterações dentais tardias, levando-se em 
consideração que os dentes decíduos são formados ainda na gestação e os dentes 
permanentes nos primeiros anos de vida. 
O estudo Global Burden of Disease de 2017 da Organização Mundial da Saúde, 
estimou que as doenças bucais afetam 3,5 bilhões de pessoas em todo o mundo, e a 
cárie dentária não tratada é a mais prevalente entre as doenças não transmissíveis. A 
maioria das doenças e condições bucais compartilham fatores de risco modificáveis 
com as principais doenças não transmissíveis como as cardiovasculares, câncer, respi-
ratórias crônicas e diabetes. Além disso, existe uma associação de causalidade entre 
alto consumo de açúcar e diabetes, obesidade e cárie dentária.6 
Doenças crônicas como obesidade, diabetes e cárie estão aumentando nos pa-
íses em desenvolvimento, com a implicação de que a qualidade de vida relacionada à 
saúde oral, bem como a qualidade de vida geral, pode se deteriorar. Como as doenças 
bucais e outras doenças crônicas têm determinantes em comum, mais ênfase deve ser 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
105
dada a abordagem comum dos fatores de risco. O conceito chave subjacente às futu-
ras estratégias de saúde oral é a integração com essa abordagem, sendo um grande 
benefício o foco na melhoria das condições de saúde em geral para toda a população 
e para grupos de alto risco, reduzindo assim as desigualdades sociais.7 
5.2 O papel da dieta na saúde oral
Cárie dentária
É importante reconhecer que a cárie dentária é uma DOENÇA e não somente 
uma cavidade no dente. No mundo, estima-se que entre 530 e 600 milhões de crian-
ças sofrem desta condição.6,8 É definida como uma doença crônica, não contagiosa, 
porém dinâmica e multifatorial, determinada pelo consumo de açúcar, e mediada por 
biofilme bacteriano aderido à superfície dentária, que utiliza o açúcar consumido para 
transformá-lo em ácidos que promovem a destruição dessa estrutura,6,8 sendo deter-
minada por fatores biológicos, comportamentais e psicossociais relacionados ao meio 
ambiente do indivíduo.8 
Quando não tratada, a cárie pode afetar o bem estar da criança, pois é comum 
observar dor crônica, infecções, alteração na rotina de estudo e outras morbidades , 
como a desnutrição.8,9 
A prevalência de cárie dentária em crianças permanece alta. Na faixa etária de 2 
a 5 anos aumentou de 22% para 30% entre 1988–1994 e 1999–2004, e depois diminuiu 
para 23% em 2011–2012.6
Recentemente, a Associação Internacional de Odontopediatria (IAPD) elaborou 
um documento definindo etiologia, fatores de risco e intervenções para a Cárie na 
Primeira Infância (CPI).10 Recomendam quatro áreas essenciais, com a participação de 
diversos profissionais da saúde e não somente dentistas:
1. Conscientizar pais/cuidadores, dentistas, técnicos em saúde bucal, médicos, 
enfermeiras, profissionais da saúde e outros grupos interessados sobre CPI.
2. Limitar o consumo de açúcar em alimentos e bebidas e evitar açúcares livres 
para crianças com menos de 2 anos de idade. 
3. Escovar os dentes de todas as crianças duas vezes por dia com pasta fluoretada 
(com ao menos 1000 ppm de flúor), usando uma quantidade adequada de dentifrício.com hiperinsulinismo, pode ser detectada a acantose nigri-
cans, uma hiperpigmentação da pele que surge principalmente no pescoço e nas axilas.11
 
 Respiratórias
 As crianças com obesidade grave podem apresentar a síndrome da apneia 
obstrutiva do sono, caracterizada por roncos, sono agitado com múltiplos despertares 
e pausas respiratórias.12 Além das manifestações que ocorrem durante o período de 
sono, geralmente apresentam sonolência diurna e déficits neurocognitivos. O diagnós-
tico é confirmado pela polissonografia. 
 Hipertensão arterial
 A pressão sistólica e a diastólica aumentam com o incremento do IMC.13 A 
obesidade é uma das principais causas de hipertensão arterial em crianças e adoles-
centes, favorecendo complicações cerebrovasculares e cardiovasculares futuras.14
 Considera-se hipertensão arterial quando os valores da pressão sistólica e/ou 
diastólica estão no percentil 95 ou acima deste, em três ou mais ocasiões, e pré-hiperten-
são, quando estão entre os percentis 90 e 95, de acordo com o sexo, a idade e altura.15
 Alterações do metabolismo da glicose
 Aproximadamente 25% das crianças obesas apresentam alterações do meta-
bolismo da glicose, como resistência insulínica, hiperinsulinemia, intolerância à glicose, 
que podem culminar com o diabetes mellitus tipo 2.16
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
14
 A resistência insulínica consiste na incapacidade do organismo de responder 
à ação da insulina. Para a manutenção da tolerância normal à glicose, ocorre aumento 
compensatório da secreção de insulina pelas células beta pancreáticas, desencadean-
do, assim, o hiperinsulinismo. A insulinemia de jejum é normal quando está abaixo de 
15µU/mL. A resistência insulínica pode ser avaliada pelo índice HOMA-IR (Homeostasis 
Model Assessment of Insulin Resistance),17 calculado pela seguinte fórmula:
HOMA-IR = glicemia jejum (mmol/L) × insulinemia jejum (µU/mL)
22,5
Para converter a glicemia em mg/dL para mmol/L, basta multiplicar o valor por 0,05.
 Considera-se resistência insulínica quando os valores de HOMA-IR estão acima 
de 3,43. Quanto maior o valor do HOMA-IR, maior é o grau da resistência insulínica.
 São identificados como normais os valores de glicemia de jejum abaixo de 100 
mg/dL; alterados entre 100 e abaixo de 126 mg/dL; e, a partir de 126 mg/dL, faz-se o 
diagnóstico de diabetes mellitus. Quando são encontrados valores alterados de glice-
mia de jejum (entre 100 e 126 mg/dL), há indicação do teste de tolerância oral à glicose. 
Após 2 horas da sobrecarga oral, valores de glicemia P90) + antecedentes familiares de obesidade, diabetes 
tipo 2, dislipidemias, hipertensão arterial, doença cardiovascular – os demais parâme-
tros devem ser avaliados.
• 10 anos e abaixo de 16 anos – o diagnóstico é feito quando há obesidade central (CA 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
16
> P90) e duas ou mais das seguintes alterações: TG ≥ 150 mg/dL; HDL-C 100mg/dL ou a presença de diabetes tipo 2; PAS (pressão arterial sistólica) 
> 130 mm Hg ou PAD (pressão arterial diastólica) > 85 mm Hg. 
• A partir de 16 anos – deve ser usado o critério da IDF para adultos, com os mesmos 
pontos de corte utilizados para indivíduos abaixo de 16 anos para TG, pressão arterial 
e glicemia; CA > 94 cm para homens e > 80 cm para mulheres; HDL-C4. Prover orientações preventivas no primeiro ano de vida, por um profissional 
da saúde ou agente comunitário de saúde (em conjunto com programas já existentes 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
106
– por exemplo, campanhas de vacinação – sempre que possível) e, idealmente, referir 
para um dentista para manutenção e cuidados preventivos.8 
O primeiro sinal clínico da doença cárie é a lesão de cárie incipiente, denomina-
da também de mancha branca ativa. Essa lesão precede a formação de uma cavidade. 
Nesse estágio a lesão de cárie já é passível de ser diagnosticada a olho nu e pode ser 
paralisada, desde que diagnosticada adequadamente e iniciada as medidas preventi-
vas de higiene e flúorterapia.8 Mas atenção, pois há várias alterações de cor branca no 
esmalte dentário, e nem todas são lesões de cárie. Portanto, recomenda-se o exame 
clínico por um profissional treinado.
O controle de biofilme/placa bacteriana, somado a outras medidas como con-
trole da dieta e uso de flúor, permitem o tratamento não invasivo e a inativação das 
lesões, independentemente de sua localização.8,11 Embora o açúcar, especialmente se 
consumido em alta frequência, seja um fator que contribui para a cárie dentária, um 
estudo sistemático sobre o consumo de açúcar e o risco de cárie concluiu que a relação 
entre consumo de açúcar e cárie é mais fraco após a introdução da exposição ao flúor.12 
Em crianças de tenra idade, apesar do diagnóstico precoce ainda permitir um 
tratamento bastante conservador, o ideal seria evitar a instalação da doença. Reco-
nhecer os fatores de risco, é essencial para direcionar o atendimento preventivo indi-
vidualizado. Um fator de risco importante nessa idade, é a presença de biofilme (placa 
bacteriana) nos dentes anteriores.11 
Comportamento alimentar e a cárie dentária 
A alta frequência de consumo de alimentos cariogênicos está diretamente asso-
ciada à cárie dentária. Quanto maior a frequência de ingestão, maior é a possibilidade 
de desenvolvimento de lesões de cárie.11 
A American Academy Pediatric Dentistry (AAPD) recomenda que sucos não de-
vem ser introduzidos antes de um ano de idade e devem ser limitados a crianças entre 
um e quatro anos, e não ser oferecidos em recipientes de fácil ingestão e nem na hora 
de dormir, pois não tem um papel essencial em uma dieta saudável e seu consumo 
excessivo contribui para o risco de desenvolvimento de cárie dentária.13 
 Um dos fatores de risco fortemente associado à cárie dentária da Primeira in-
fância é o consumo de leite em mamadeira de maneira frequente durante o dia e/ou 
no período noturno, e principalmente se esta for oferecida enquanto a criança dorme. 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
107
É comum observar o uso da mamadeira como indutor do sono nessa faixa etária. 
Essa atitude apresenta vários fatores de risco a mais para o desenvolvimento da cárie. 
Um destes fatores é o costume de acrescentar açúcar, achocolatado, engrossantes, 
farinhas ou mel ao leite. Ocorre também a situação na qual a criança toma a mama-
deira praticamente dormindo ou acorda no meio da noite, toma a mamadeira e volta 
a adormecer com a mamadeira ainda na boca. O segundo fator de risco nessas situ-
ações, é o fato de não haver higiene oral após essas mamadas, pois o objetivo todo 
dessa “alimentação” era fazer a criança dormir. Se não houver higiene oral após o uso 
da mamadeira noturna, o leite açucarado fica em contato com a superfície dental por 
tempo prolongado, justamente num período no qual há diminuição do fluxo salivar. 
Vale a pena destacar também os fatores relacionados à higiene oral em crianças 
de pouca idade. É comum pais relatarem dificuldade em realizar a escovação diária. Há 
ainda muita desinformação por parte das famílias e de muitos profissionais da saúde 
sobre a importância do uso de dentifrício fluoretado, desde o aparecimento do primei-
ro dente. Famílias relatam com frequência que não praticam higiene oral nos bebês 
por desinformação e até por hábitos culturais. Várias associações médicas e odontoló-
gicas reconhecem a importância do uso de dentifrício fluoretado com pelo menos 1000 
ppm de flúor desde o aparecimento do primeiro dente de leite.13,14 
Portanto, o hábito de fornecer leite ou outros líquidos adoçados em mamadeira 
no período da noite enquanto a criança dorme está fortemente ligado à cárie na Pri-
meira infância, anteriormente denominada de “cárie de estabelecimento precoce”, 
“cárie de mamadeira”, ou “cárie aguda generalizada”. 8,11 
A mamadeira é uma maneira fácil para a mãe alimentar seu bebê, pois permite à 
criança alimentar-se sozinha sem depender da sua presença. Essa praticidade faz com 
que algumas mães introduzam a mamadeira por comodidade e não por necessidade; 
ou seja, elas poderiam aleitar seus filhos ao seio materno, porém utilizam esse recurso 
pela comodidade.11 
Obesidade e a cárie dentária
Cárie dentária compartilha fatores de risco comuns a outras doenças não trans-
missíveis associadas com consumo excessivo de açúcar, como doença cardiovascular, 
diabetes e obesidade.11 
Como a cárie dentária e a obesidade são doenças multi-etiológicas, uma relação 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
108
direta entre ambas não é uma observação rotineira. Um dos fatores etiológicos comum 
em ambas é um alto consumo de carboidratos fermentáveis, principalmente na forma 
de sucos e fórmulas em crianças de tenra idade. Contudo, fatores modificadores da 
saúde oral, como por exemplo a higiene oral, podem modular de maneira favorável a 
saúde. Se a criança apresenta consumo de carboidrato fermentável, mas mantém hi-
giene oral regular com uso de dentifrício fluoretado, o processo de formação da cárie 
dentária pode ser controlado e até mesmo evitado. A intervenção do profissional da 
saúde através de orientações nas consultas de puericultura e no pré-natal são essen-
ciais para a prevenção do desenvolvimento da doença .
Em crianças e adolescentes os resultados ainda são muito conflitantes e controver-
sos. Os fatores modificadores atuam de maneira muito intensa em ambas as doenças.9 
Em um estudo de coorte conduzido na Inglaterra, com 2958 participantes, ava-
liando inicialmente crianças entre 7 e 9 anos, e após 5 anos (entre 12 e 16 anos), não 
encontraram correlação entre obesidade e cárie dentária na adolescência.15 
Em revisão sistemática e meta-análise, Chen e colaboradores em 201816 não en-
contraram associação entre cárie dentária e estado nutricional, entre crianças e adoles-
centes, com idades entre 30 meses e 15 anos. Contudo, quando realizaram análise de 
sensibilidade, encontraram que crianças obesas apresentaram maior número de lesões 
de cárie quando comparadas às crianças eutróficas, na dentição decídua. Também ve-
rificaram maior número de lesões de cárie em crianças obesas e sobrepeso de nível 
socioeconômico mais elevado. 
Nas crianças de pouca idade, principalmente quando o uso de mamadeira é 
frequente, há maior chance de apresentarem obesidade e cárie, pois mantém um fa-
tor etiológico em comum em ambas as doenças: as fórmulas infantis. Em relação à 
cárie dentária, os pais têm maior dificuldade em realizar a higiene oral nesta fase, ou 
até mesmo, nem sabem que precisa ser efetuada, e em alguns casos, até realizam o 
processo de escovação dentária, mas sem o uso de dentifrício fluoretado, conforme 
discutido anteriormente. 
A abordagem multiprofissional para prevenção da obesidade e cárie dentária 
resultaria em maior benefício ao paciente. Essas doenças apresentam alguns fatores 
etiológicos em comum, e reconhecê-los é o primeiro passo para realizar ações preven-
tivas amplas.17 
Os profissionais de odontologia precisam estar mais atentos na identificação de 
crianças em risco de obesidade e encaminhá-las para o nutricionista e pediatra. Po-
Obesidade infantil:uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
109
rém, uma pesquisa realizada com odontopediatras relatou que apenas 17% intervém 
na obesidade infantil. Muitas foram as barreiras relatadas, como medo de ofender os 
pais, e criar insatisfação e falta de aceitação dos mesmos por essa abordagem vir de 
um dentista.13 
Erosão dentária
Outra alteração dentária que tem sido frequentemente observada e que está 
relacionada a dieta do indivíduo é a erosão dental. Se trata de um processo químico 
pelo qual ocorre a dissolução dos tecidos dentais mineralizados, resultando em uma 
perda progressiva de estruturas dentárias. Pode ser causado por ácidos intrínsecos 
(estomacais) devido a vômito frequente ou refluxo gástrico, ou extrínsecos, pela expo-
sição crônica a ácidos em alimentos, bebidas e medicações. Ocorre tanto na dentição 
decídua como na permanente.18-21 O baixo fluxo salivar e os componentes da saliva 
podem agravar mais ainda a situação.18 
Uma revisão sistemática epidemiológica e meta análise encontrou que aproxi-
madamente 30% de crianças e adolescentes são acometidos pela erosão dentária.22 
A prevalência de erosão dentária encontrada por Pedrosa e Menezes em 2020 variou 
entre 1,8% e 68%, dependendo do país no qual foi realizado o estudo e dos costumes 
em relação ao tipo de dieta; mas concluíram, após analisar todos os dados, que a pre-
valência dessa condição em adolescentes é alta.21
A erosão pode ocorrer em crianças que mantém o hábito de consumir frequen-
temente alimentos e líquidos ácidos,18-21,23,24, principalmente refrigerantes, sucos indus-
trializados e isotônicos.11,20,21,23,24 A severidade da erosão depende de vários parâme-
tros, entre eles a nutrição, a saliva, outras patologias e o stress mecânico mastigatório.18 
Vale ressaltar que um estudo realizado no Brasil com medicamentos comumente 
utilizados por crianças destacou que vários destes apresentavam pH baixo, e portanto 
com risco para erosão dentária.23 
Algumas doenças que afetam a produção e qualidade da saliva podem oferecer 
risco para erosão dentária.18,21,23,24 Pedrosa e Menezes em 2020 também encontraram 
associação positiva entre erosão dentária e refluxo gastroesofágico.21 Marqués Martí-
nez et al. em 2019 encontraram uma correlação positiva entre o uso de inalação em 
pacientes asmáticos e essa condição em crianças.24
A erosão dental pode ser um dos sinais clínicos que evidenciam a bulimia. Quan-
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
110
do o paciente possui bulimia por um tempo longo, apresenta erosão nas faces linguais 
dos dentes ântero-superiores e oclusais dos dentes superiores.18
Tschammler et al. em 201920 observaram associação positiva entre erosão den-
tária e obesidade em crianças e adolescentes na Alemanha. O maior peso corporal de 
crianças e adolescentes está significativamente associado a um maior risco de desgas-
te e cárie dentária erosiva. Já a prevalência e a gravidade do desgaste dentário erosivo 
nos dentes decíduos e permanentes aumentaram significativamente em crianças com 
obesidade e obesidade extrema em comparação com crianças eutróficas. O desgaste 
erosivo dos dentes e a cárie têm alguns fatores etiológicos em comum, como o alto 
consumo de refrigerantes, hábitos alimentares e alterações quantitativas e qualitativas 
da saliva, o que indica que ambas as doenças podem estar correlacionadas.20 
5.6. A influência do aleitamento materno, consistência dos alimentos e a mastifa-
ção na saúde oral
Além dos inúmeros benefícios já amplamente reconhecidos do aleitamento ma-
terno para o lactente e a sua mãe, vale a pena destacar a importância também para 
o crescimento e desenvolvimento facial.25,26 Durante a amamentação, o lactente realiza 
exercícios musculares que estimulam o crescimento mandibular e favorecem o posicio-
namento adequado da mandíbula, corrigindo o retrognatismo mandibular fisiológico 
que se apresenta ao nascer.4,5,25 Por meio do aleitamento materno, há estímulo de vá-
rios grupos musculares do complexo craniofacial. A literatura também aponta que os 
benefícios da amamentação não são somente do recém-nascido, favorece a instalação 
de oclusão adequada na dentição decídua evitando a maloclusão.4,5,25-27 
A amamentação é um ótimo “exercício” para a criança respirar pelo nariz e se 
alimentar pela boca. O correto posicionamento durante o aleitamento materno, pro-
move o selamento labial na aréola da mama, estimulando a respiração nasal; o ar por 
sua vez entra pelas narinas e preenche os seios da face estimulando o desenvolvimento 
facial adequado. O contrário acontece quando ocorre a substituição da amamentação 
pelo uso do veículo mamadeira. O bebê se acostuma com um novo referencial com a 
ausência da mama. O selamento labial não ocorre de maneira adequada e não existe mais 
o esforço necessário para a extração do leite, o que favorece a entrada de ar pela boca.27
A partir do início da alimentação complementar, a consistência e propriedades 
físicas dos alimentos tem um papel fundamental no crescimento e desenvolvimento da 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
111
face da criança e oclusão dentária.4,5,28 Uma dieta pastosa, mole e pobre em fibras apre-
senta destaque na etiologia da maloclusão. Crianças com esse tipo de dieta apresen-
tam pouco estímulo na musculatura mastigatória, resultando em subdesenvolvimento 
dos ossos da face, arcos dentários e articulação temporo-mandibular (ATM).4,28 
As crianças que estão acostumadas com alimentação pastosa ou liquefeita após 
os 12 meses de vida terão maior dificuldade em executar os movimentos de laterali-
dade com os alimentos mais consistentes, devido à falta de treinamento neurológico. 
Os pedaços presentes na dieta são responsáveis pela estimulação do componente de 
lateralidade do movimento mandibular, contribuindo para a adaptação da criança a 
consumir alimentos cada vez mais consistentes e que exijam mastigação.5 
Atualmente, existem dados limitados sobre a influência da mastigação no ganho 
de peso corporal. Evidências indiretas são fornecidas por estudos que examinaram a 
relação entre dureza alimentar e peso ou composição corporal.19 
O respirador oral
A respiração oral é um sintoma relativamente comum na infância e decorrente 
de obstrução nasal crônica. Contudo, é imprescindível o correto diagnóstico da causa 
da obstrução nasal, pois em alguns pacientes ela pode se apresentar somente como 
hábito, sem obstrução nasal verdadeira.29 
O paciente respirador oral, precisa adaptar sua função respiratória mudando o 
padrão respiratório, repercutindo em distúrbios sistêmicos e desarmonia da face, tais 
como desvios do padrão de crescimento dentocraniofacial, maior frequência de infec-
ções de vias aéreas superiores, distúrbios do sono, déficit de crescimento, sintomas 
neurocognitivos e problemas cardiovasculares.29 
A ausência de respiração nasal altera não somente as bases ósseas da face, mas 
também parte muscular e outras estruturas levando a uma desarmonia da face com ca-
racterísticas típicas. Dentre elas a maxila atrésica (estreita), mordida cruzada posterior, 
mordida aberta anterior, reversão dos lábios, lábio superior hipodesenvolvido, narinas 
estreitas e hipotonia da musculatura perioral.4,29 Vale a pena salientar que a respiração 
oral também pode afetar a postura de cabeça e pescoço levando a uma hiperextensão 
da cabeça.4,30 
A respiração oral modifica o processo alimentar por vários motivos, tais como 
alteração no olfato e paladar, podendo repercutir no estado nutricional do paciente.30 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
112
Os músculos responsáveis pela mastigação apresentam uma diminuição no seu 
tônus e, portanto, pacientes respiradores orais terão maior dificuldade em mastigar 
alimentos mais duros, fibrosos e secos. Por sua vez essa diminuição da função masti-
gatóriaretroalimenta a falta de estímulo para o desenvolvimento da face e da ATM.4 
Outro fator a ser levado em consideração durante o processo de alimentação e 
que dificulta esse processo é que a criança com a respiração bucal deve respirar e se 
alimentar na mesma via. Além dos fatores citados acima, ela prefere alimentos mais 
fáceis de serem ingeridos, que necessitem menos esforço mastigatório, pois precisa 
processar rapidamente esses alimentos na boca para abrir a via de respiração.
5.8. Distúrbios do sono
A falta de sono e a má qualidade de descanso na infância e adolescência preju-
dicam o aprendizado, a atenção, a concentração, podendo levar ao diagnóstico de hipera-
tividade e maior risco de desenvolver quadro grave de depressão, chegando até a instalar 
alterações endócrinas e metabólicas que aumentam o risco de sobrepeso e obesidade.31 
 Entre os distúrbios do sono de maior importância encontramos distúrbios de 
movimento rítmicos e ranger os dentes – o bruxismo.
 As consequências dos distúrbios do sono são relacionadas à qualidade de vida 
da criança e do adolescente e é um fator que contribui para o aparecimento da obe-
sidade. A Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS) um dos mais importantes 
fatores e a obesidade o maior fator de risco primário estabelecido.31 
A Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono é uma condição caracterizada por 
episódios repetidos de obstrução parcial ou completa das vias aérea superiores, asso-
ciada a episódios de ronco (evolui da respiração oral crônica) durante o sono e também 
de leves despertares. A criança com SAOS pode apresentar alterações no comporta-
mento, déficit do desenvolvimento pôndero-estatural, prejuízo escolar, sendo essa últi-
ma a queixa principal relatada pelos pais. A sonolência diurna é também um parâmetro 
clínico importante para a suspeita do diagnóstico da SAOS.32 
Afeta aproximadamente 18 milhões de pessoas nos Estados Unidos. Entre 1 e 
5% das crianças de qualquer idade, porém é mais frequente em crianças de dois a sete 
anos de idade. Os critérios de diagnóstico em adultos para SAOS podem ser usados 
em pacientes com idades entre 13 e 18 anos.32 
Os sintomas incluem sonolência diurna excessiva, ronco alto três ou mais noites 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
113
por semana, episódios de interrupção da respiração testemunhados por outra pessoa, 
despertares abruptos acompanhados por falta de ar, despertar com boca seca ou dor 
de garganta, dor de cabeça matinal, dificuldade em permanecer dormindo, problemas 
de atenção, respiração bucal, sudorese, inquietação, acordando muito. SAOS não tra-
tada em combinação com resistência à insulina e obesidade em uma criança prepara 
o cenário para doenças cardíacas e endocrinopatias. O não tratamento pode incluir 
danos cerebrais, convulsões, coma e complicações cardíacas.31 
O diagnóstico e tratamento precoces pode diminuir a morbidade. No entanto, 
o diagnóstico frequentemente é atrasado. A fim de reduzir as complicações da AOS, 
a American Academy Pediatric Dentistry (AAPD) incentiva os profissionais de saúde a 
rastrear rotineiramente seus pacientes para facilitar o encaminhamento médico, como 
o otorrinolaringologista, pneumologista, e médico do sono.31 
A hipertrofia adenotonsilar e a obesidade são os principais fatores de risco para 
SAOS em crianças,33,34 e infecção recorrente do trato respiratório.33 
Um estudo investigou a associação entre obesidade e apneia obstrutiva do sono 
(SAOS) em crianças em idade pré-escolar e escolar. Os casos de SAOS foram definidos 
como índice de apneia obstrutiva e hipopneia (IAOH). A prevalência de SAOS foi maior 
em crianças obesas e em idade escolar, sendo a hipopneia a mais relevante nessa faixa 
etária. No entanto, não houve correlação positiva entre SAOS e índice de massa cor-
poral (IMC).32 
Os odontopediatras possuem papel importantíssimo no diagnóstico precoce 
para identificar pacientes com maior risco, realizando a triagem de pacientes para ron-
co e distúrbios respiratórios relacionados ao sono, avaliar hipertrofia de tonsilas e o 
posicionamento da língua.31 
5.9. Considerações finais
Esse capítulo abordou várias condições de saúde oral que podem afetar signifi-
cativamente a saúde geral da criança, apresentamos também alguns desses aspectos 
relacionados com a obesidade infantil. Segundo a OMS, a condição de saúde de um 
indivíduo depende da presença de saúde em vários níveis: a saúde física, emocional e 
social.34 A saúde oral não pode ser considerada separada da saúde geral. Esse capítulo 
evidencia a forte influência da alimentação da criança para sua saúde oral e geral. Uma 
abordagem transdisciplinar com a inserção de odontopediatras nas equipes que pres-
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
114
tam atendimento ao paciente infantil em tenra idade promoverá a oportunidade de 
atuar na promoção de saúde, por meio das orientações e ações preventivas iniciadas 
precocemente, evitando a instalação de doenças crônicas.
5.10. Referências bibliográficas
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Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
118
6. ATUAÇÃO DO EDUCADOR FÍSICO
Gilberto Martinez Junior
6.1. Introdução
Podemos brevemente refletir que a obesidade (e o emagrecimento) são temas 
que geram bastante polêmica, intensos debates e despertam significativo interesse da 
comunidade científica e população geral. De um lado, temos a pesquisa e a ciência, 
que busca elucidar os mecanismos fisiopatológicos da doença, e profissionais da saú-
de, os quais visam adotar os melhores modelos de gestão no tratamento multidiscipli-
nar da obesidade infantil e comorbidades associadas. Por outro lado, temos enorme 
especulação e as chamadas fake news sobre o tema; os melhores tipos de dietas e 
alimentos emagrecedores; medicamentos ou fórmulas milagrosas; ou até mesmo, os 
melhores métodos de treinamento, intensidades ou tipos de exercícios físicos utili-
zados para alcançar a tão “desejada” perda de gordura corporal. O fato é que não 
existe milagres! Nesse contexto, vemos inúmeras metodologias e abordagens clínicas, 
nutricionais e de exercícios físicos, que além de ineficazes, podem desencadear outros 
distúrbios ao organismo do indivíduo e, consequentemente, acarretar em outras pa-
tologias. Portanto, existe a urgente necessidade de uma abordagem responsável na 
gestão do tratamento da obesidade infantil.
 Nesse capítulo, faremos uma breve abordagem dos aspectos epidemiológi-
cos, conceituais e do desenvolvimento da obesidade infantil e partiremos para o nosso 
foco principal de estudo, baseado em 2 abordagens centrais: 1ª) Como a aplicação das 
ferramentas da Fisiologia do Exercício pode nos auxiliar no diagnóstico e identificação 
das possíveis causas da obesidade e/ou comorbidades associadas (através da análise 
do perfil antropométrico, cardiometabólico, nutricional, ortopédico e clínico da criança 
obesa); e com isso, promover a melhor estratégia a ser adotada pela equipe multidisci-
plinar na gestão do tratamento da obesidade; e 2ª) Como o profissional de Educação Físi-
ca, através do planejamento e estruturação de um Programa de Treinamento e da Prescri-
ção de Exercícios, pode otimizar a prevenção, a manutenção e o tratamento da obesidade 
pediátrica e suas comorbidades associadas juntamente a equipe multidisciplinar.
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
119
6.2. A obesidade infantil
A prevalência mundial de indivíduos com sobrepeso e obesidade mais do que 
triplicou nas últimas décadas. Segundo dados recentes da Organização Mundial de 
Saúde (OMS) são mais de 340 milhões de crianças e adolescentes com sobrepeso e 
obesas no mundo, das quais, aproximadamente 38 milhões, são menores de 5 anos de 
idade, o que reflete num dos mais importantes problemas de saúde pública mundial.1,2 
No Brasil, 3 em cada 10 crianças atendidas no Sistema Único de Saúde (SUS) estão 
com sobrepeso e/ou obesas, totalizando, aproximadamente, 4,4 milhões de crianças e 
adolescentes segundo o Ministério da Saúde.4 Além disso, temos que considerar nesse 
balanço epidemiológico, crianças que desenvolveram sobrepeso ou já diagnosticadas 
obesas, pertencentes a famílias de classes sociais de perfil econômico mais elevado 
que não recebem atendimento do sistema público de saúde e que, possivelmente, não 
entram nessa contabilidade.
 Considerada uma doença inflamatória crônica multifatorial, a obesidade não 
está mais associada simplesmente ao acúmulo de gordura no tecido adiposo. Atual-
mente, o tecido adiposo branco é considerado um importante órgão endócrino envol-
vido em diversos papéis metabólicos e fisiológicos no organismo.5 Inúmeros fatores 
estão associados ao desenvolvimentoda obesidade (etiologia). Fatores genéticos, 
ambientais, psicossociais e culturais têm sido os mais citados nos estudos revisados.1,5 
Sobre os fatores ambientais e culturais, hábitos alimentares e padrões do sono inade-
quados; maior tempo de tela (utilização de celulares, tablets, games, computadores 
e TVs); associados a reduzida prática de atividades físicas,5,6 certamente contribuem 
para a diminuição do gasto calórico total e aumento do sobrepeso e obesidade na 
criança, além da diminuição ou prejuízo de suas capacidades físicas (resistência cardio-
pulmonar, resistência anaeróbia, força, potência, velocidade, agilidade e flexibilidade). 
Sendo assim, a atividade física e/ou exercício físico pode desequilibrar a balança bioe-
nergética a favor do emagrecimento e favorecer os processos de manejo, prevenção e 
tratamento da obesidade infantil e comorbidades associadas, bem como melhorar as 
capacidades físicas (cardiometabólicas e neuromusculares) e psicossociais da criança.
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
120
6.3. A ciência do exercício físico
A ciência do exercício é uma área em crescente desenvolvimento. Devido ao 
grande número de evidências científicas e avanço tecnológico na área da saúde, o 
exercício físico é hoje considerado uma importante ferramenta terapêutica na prevenção 
e no tratamento de várias doenças crônico-degenerativas. De fato, a realização regular de 
algum tipo de exercício físico, ou mais genericamente de uma atividade física, promove 
vários resultados benéficos à saúde, prevenindo contra possíveis fatores de riscos e do-
enças associadas ao sedentarismo, como obesidade, hipertensão, diabetes, osteoporose, 
sarcopenia, doenças cardiovasculares, além de evitar a mortalidade prematura.7,8
 A atividade física é definida como qualquer movimento corporal produzido 
em decorrência do processo de contração muscular e consequente aumento do gasto 
energético. Já o exercício físico é uma subcategoria da atividade física, caracterizado 
por movimentos corporais sucessivos que provêm e/ou mantêm uma ou mais capaci-
dades físicas e que pode ser planejado, estruturado e dividido em dois tipos basica-
mente: exercícios aeróbios e exercícios anaeróbios.7 Os exercícios aeróbios englobam 
atividades dinâmicas que envolvem grandes grupos musculares e que, consequente-
mente, aumentam a frequência cardíaca (FC) e o gasto energético e melhora a função 
do sistema cardiopulmonar e dos músculos esqueléticos. Já os exercícios anaeróbios 
são geralmente realizados a intensidades mais elevadas, com elevado consumo de 
adenosina trifosfato (ATP) e produção significativa de lactato.7
 A quantificação da carga de treino necessária para gerar um estímulo e obter 
uma resposta específica no organismo, depende das variáveis: 1) volume, 2) intensi-
dade, 3) frequência, 4) tipos de exercícios realizados e 5) métodos de treinamento de-
senvolvidos. Particularmente, a intensidade descreve o esforço associado ao exercício 
físico e é classificada como leve, moderada, intensa e muito intensa. Ela depende: 1) 
do percentual da capacidade máxima de captação, transporte e utilização do oxigênio 
pelos músculos ativos durante exercícios dinâmicos, definido como consumo máxi-
mo de oxigênio (VO
2
máx), ou consumo pico de oxigênio (VO
2
pico) e 2) dos limiares 
anaeróbios ventilatórios I e II (LAV I e LAV II). O LAV I corresponde ao maior consumo de 
oxigênio (VO
2
) que pode ser atingido sem acúmulo de lactato sanguíneo significativo 
durante o esforço. O LAV II corresponde ao valor do VO
2
, a partir do qual a estabilidade 
dos parâmetros ventilatórios e da concentração de lactato sanguíneo é rompida.7 A 
partir do LAV II fica muito difícil sustentar o tempo do exercício físico (exaustão). Assim, 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
121
o exercício moderado é classificado como aquele que utiliza, em média, 55 a 75% do 
VO
2
máx, não provoca acúmulo significativo de lactato sanguíneo e permite a realiza-
ção do exercício físico por longos períodos de tempo. Já o exercício intenso é carac-
terizado por valores de VO
2 
acima de 80% do VO
2
 máx, acompanhado por significativo 
acúmulo de lactato sanguíneo e por consequentes alterações ventilatórias.7
 Uma sessão única de exercício físico é definida como exercício agudo, en-
quanto treinamento é o termo geralmente usado para o exercício crônico, o qual é 
elaborado para manter, melhorar e/ou aprimorar as capacidades físicas ou o rendimen-
to esportivo do indivíduo.7 Por fim, o exercício resistido é uma denominação utilizada 
para exercícios que utilizem pesos contra uma determinada resistência (cabos, elásti-
cos, peso do próprio corpo, barras, anilhas ou halteres).
 Segundo o Colégio Americano de Medicina Esportiva (ACSM), os benefícios 
contra os fatores de riscos à saúde podem ser alcançados através da participação regu-
lar (exercício crônico) em tipos de exercícios de intensidade moderada, com duração 
de pelo menos 30 minutos/dia e frequência mínima de 3x/semana.8 Entretanto, tais 
recomendações para o tratamento de crianças com sobrepeso, ou já obesas, podem 
não ser eficazes, como veremos adiante nesse capítulo.
 O grande desafio para profissionais de Educação Física é quantificar a carga 
de treino. Devemos chamar a atenção nesse ponto, pois, dependendo da intensidade, 
duração, frequência semanal, tipo de exercício realizado e o tempo de recuperação 
entre as sessões de exercício, pode-se comprometer a homeostasia corporal, por au-
mentar o estresse oxidativo e provocar danos em vários órgãos e tecidos.9,10 Tratando-
-se de crianças em desenvolvimento, isso poderia ser ainda mais grave no processo de 
crescimento e maturação biológica dos tecidos. Por outro lado, um programa habitual 
de exercício, com cargas controladas, aumenta a capacidade antioxidante e de pro-
teção a órgão e tecidos,10,11 o que é uma adaptação extremamente interessante em 
termos de saúde e qualidade de vida, ainda mais, se o programa de treinamento for 
associado às estratégias de introdução de alimentos ricos em antioxidantes no plane-
jamento nutricional.
6.4. Obesidade infantil e comorbidades - efeitos no exercício físico
O aumento da prevalência da obesidade infantil está associado ao aumento de 
várias comorbidades. Uma vez que a severidade das comorbidades aumenta com o 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
122
grau da obesidade, o exercício físico torna-se importante ferramenta multidisciplinar 
no tratamento da obesidade. Aqui, resumiremos os efeitos do exercício físico nos prin-
cipais tipos de comorbidades decorrentes da obesidade infantil.
Alterações metabólicas
A obesidade infantil está relacionada ao aumento do risco de: 1) diabetes melli-
tus tipo 2, 2) hiperinsulinemia e resistência à insulina, 3) dislipidemias e 4) síndrome me-
tabólica.1 Por outro lado, o exercício físico exerce forte papel modulador anti-inflama-
tório e do metabolismo. O exercício crônico regula a glicemia, melhora a sensibilidade 
a insulina e aspectos da síndrome metabólica, por elevar os níveis de interleucinas an-
ti-inflamatórias IL-6 muscular e IL-15 e diminuir os níveis das citocinas pró-inflamatórias 
IL-1β, do fator de necrose tumoral-α (TNF-α) e da hemoglobina A1c (HbA1c), associadas 
a esses distúrbios metabólicos.12,13 Na prática, a prescrição de exercícios aeróbios, ou 
uma combinação de exercícios aeróbio e resistido (treinamento concorrente), vem sen-
do bastante utilizada no tratamento da criança obesa com tais alterações metabólicas. 
Além disso, o treinamento intervalado de alta intensidade (HIIT) mostrou ótimos efei-
tos benéficos no controle dessas comorbidades.13
Alterações Cardiovasculares
A obesidade infantil provoca várias alterações cardiovasculares: 1) aumento da 
pressão sanguínea, 2) hipertrofia cardíaca do ventrículoesquerdo, 3) aumento dos di-
âmetros do átrio e ventrículo esquerdo, 4) disfunção sistólica e diastólica e 5) doenças 
vasculares.1 O exercício físico promove vários efeitos benéficos funcionais e estruturais 
no coração e vasos sanguíneos. No coração, o exercício crônico estimula o remodela-
mento cardíaco metabólico (biogênese mitocondrial) e vascular, melhorando a eficiên-
cia cardíaca na extração e oferta de O2, por exemplo; bem como estimula o crescimen-
to celular dos cardiomiócitos gerando melhores respostas da FC, pressão arterial (PA), 
débito cardíaco e volume de ejeção.14 Já nos vasos sanguíneos, o treinamento (aeróbio 
e concorrente) exerce impacto hemodinâmico significativo por estimular respostas fi-
siológicas no ajuste e modulação da função, do diâmetro e da espessura da parede 
dos vasos sanguíneos.15
Alterações Endócrinas
A obesidade infantil está relacionada: 1) ao hipotireoidismo, 2) às alterações da 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
123
maturação sexual e crescimento; 3) bem como alterações endócrinas específicas em 
meninas, como a síndrome do ovário policístico (SOP) e câncer de endométrio.1,5 Como 
descrito no item 4.1, o treinamento (aeróbio e concorrente) é um excelente modulador 
do metabolismo. Seus efeitos também promovem regulação dos ciclos menstruais, da 
ovulação e da fertilidade, além de promover maior taxa de gravidez que mulheres com 
SOP sedentárias.16 
Alterações Pulmonares
A obesidade infantil provoca vários distúrbios pulmonares: 1) apneia obstrutiva 
do sono, 2) hipoventilação alveolar associada com dessaturação de O
2
, 3) asma e 4) 
dispneia.1 Como a eficiência do sistema pulmonar na criança obesa é muito baixa e 
seus músculos respiratórios são fracos, o exercício aeróbio associado ao exercício resis-
tido (treinamento concorrente) pode promover o fortalecimento de músculos periféri-
cos e respiratórios e melhorar a resposta à fadiga.17 Além disso, o treinamento aeróbio 
(método contínuo e HIIT) melhora a cinética de recuperação do VO
2
 pós-exercício e a 
diferença arteriovenosa de O
2
 (dif. a-vO
2
), o qual é um parâmetro funcional de doença 
pulmonar obstrutiva crônica (DPOC).18,19
Alterações Gastrointestinais
A obesidade infantil acarreta vários distúrbios e doenças gastrointestinais: 1) es-
teatose hepática não alcóolica 2) fibrose,1 3) hérnia de hiato, 4) colelitíase, 5) hemorroi-
da e 6) câncer de cólon intestinal.5 Apesar de pouco abordado entre profissionais da 
saúde, infelizmente, o exercício físico promove vários benefícios ao sistema gastroin-
testinal, prevenindo contra colelitíase, diverticulite, constipação intestinal e câncer de 
cólon.20 O treinamento aeróbio mostrou proteger a camada mucosa intestinal e me-
lhorou a motilidade gastrointestinal de camundongos em estudos realizados em nos-
so laboratório na Unifesp-SP.11 Entretanto, observamos que dependendo do estímulo, 
o exercício físico pode aumentar o estresse oxidativo e provocar danos estruturais e 
funcionais no trato gastrointestinal, como observado na camada mucosa (digestão e 
absorção) e muscular externa (motilidade) do íleo de camundongos representado na 
Figura 1, em resposta a uma única sessão de exercício aeróbio moderado.
 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
124
Figura 1. Micrografias do íleo ilustrando alterações da camada mucosa (seta 
preta fina) e camada muscular externa (seta preta grossa) nos grupos controle sedentá-
rio (SED), exercitado (EX), recuperação 24 horas pós-exercício (REC-24) e recuperação 
48 horas pós-exercício (REC-48). Coloração: hematoxilina-eosina.
 Mesmo uma recuperação de 24 a 48 horas pós-exercício, os danos estruturais 
e funcionais ainda permaneceram presentes. Apesar desses estudos utilizarem animais 
como modelos experimentais, observamos que o exercício intenso também provoca 
vários distúrbios gastrointestinais em humanos, como vômito, náusea, sangramento 
nas fezes, e diarreia.20 Em resumo, demonstramos que o intestino é um órgão extre-
mamente sensível aos estímulos de exercício e que sua regularidade (programa de 
exercício), bem como a introdução de alimentos ricos em antioxidantes, pode proteger 
esse órgão tão complexo das crianças em tratamento.
Alterações Musculoesqueléticas e Ortopédicas
Por fim, o aumento do sobrepeso em crianças pode acarretar: 1) prejuízos na 
mobilidade, 2) alterações do alinhamento postural e consequente dores articulares, 
principalmente de membros inferiores e coluna lombar e 3) gotas e osteoartrite.1 O 
treinamento concorrente associado ao treinamento de flexibilidade e propriocepção 
(estímulos sensório-motor), são bastante eficazes na reorganização dessas alterações, 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
125
pois além de estimular a perda de peso corporal, o que minimiza a sobrecarga na colu-
na lombar e de membros inferiores, auxilia no fortalecimento muscular, fortalecimento ós-
seo e estabilização articular.6 Os exercícios funcionais podem englobar todas essas carac-
terísticas de treino e também são bastante eficientes, como discutido adiante no capítulo.
6.5. Obesidade infantil e abordagem multidisciplinar - atuação do profissional da 
educação física
 A obesidade é uma doença multifatorial. Portanto, seu tratamento deve ser 
multidisciplinar. A interação entre profissionais da saúde (médicos, nutricionistas, psi-
cólogos, fisioterapeutas, fisiologistas do exercício, profissionais de Educação Física, 
entre outros) possibilita o sucesso do tratamento. A “equipe multidisciplinar” deve 
proporcionar estratégias e metodologias de gestão para prevenir, tratar e controlar a 
evolução da obesidade e comorbidades associadas. Entretanto, a experiência prática 
profissional nos revela que ainda estamos muito distantes dessa perfeita integração 
multiprofissional, apesar de já observado algum avanço em clínicas e/ou institutos de 
medicina integrativa ou em academias.
 Ao contrário do passado, atualmente o profissional de Educação Física tem 
um papel bem mais atuante na abordagem multidisciplinar na gestão de doenças. Sua 
atuação prática profissional em clínicas médicas, ambulatórios, clubes e academias, 
bem como na Educação Física escolar, pode contribuir significativamente para reduzir 
o peso corporal de crianças com sobrepeso e obesas, e consequentemente, melhorar 
sua saúde e qualidade de vida. Particularmente, dentro desse escopo, atuamos em 2 
linhas de frente na gestão multidisciplinar do tratamento da obesidade, a qual nos tem 
revelado resultados práticos bem animadores. Na 1ª linha, atuamos como fisiologistas 
do exercício junto a uma equipe multidisciplinar composta por médicos, nutricionistas, 
psicólogo, fisioterapeuta, fisiologistas do exercício e profissionais de Educação Física 
(Figura 2), e utilizamos ferramentas específicas da Fisiologia do Exercício para auxiliar 
na avaliação e diagnóstico do perfil clínico da criança junto a essa equipe. Já na 2ª linha, 
atuamos como professores e treinadores, onde utilizamos os parâmetros obtidos para 
criar estratégias e elaborar o programa de treinamento e as prescrições de exercício.
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
126
Figura 2. Equipe multidisciplinar adotada em Núcleos de Fisiologia do Exercício de 
Clínicas/Institutos de Medicina Integrativa e Academias de SP. 
6.6. Tratamento da obesidade infantil - o papel do profissional de educação física
O tratamento da criança com sobrepeso e/ou obesa deve ser individualizado, 
personalizado e de abordagem/metodologia organizada e multidisciplinar. Inúmeros 
grupos de pesquisa e organizações de saúde têm proposto uma estruturação sistema-
tizada do tratamento da obesidade em etapas ou estágios. Anderson KL (2017) aborda 
em seu artigo de revisão um modelo de 4 estágios para a gestão da obesidade infantil 
baseadonas recomendações do Expert Commiitte on the Assessment, Prevention, and 
Treatment of Child and Adolescent Overweigth and Obesity.5 Resumidamente, e de 
acordo com as metas atingidas, temos: 
Estágio 1: recomendação de dieta; indicação de atividade física (1 hora/dia); e 
limitação de atividades sedentárias (redução do tempo de tela, por exemplo);
Estágio 2: recomendação de dieta balanceada; indicação de atividade física su-
pervisionada (1 hora/dia); sugestão de 1 hora ou menos do tempo de tela; e registro 
alimentar e de atividade física diário;
Estágio 3: recomendações do estágio 2; implantação de equipe multidisciplinar; 
maior contato do paciente na clínica (semanal ou mensal); maior efetividade de es-
tratégias comportamentais e cognitivas; e maior envolvimento dos pais para crianças 
menores de 12 anos;
Estágio 4: recomendações do estágio 3; troca do local das refeições; dietas hi-
pocalóricas; prescrição de medicamentos; e intervenções cirúrgicas.
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
127
 A equipe multidisciplinar abrange pediatra, psicólogo, nutricionista, profissio-
nal de Educação Física e um coordenador do tratamento. Particularmente, nesse mo-
delo, as recomendações de intervenções com exercícios físicos entram nos 4 estágios 
do tratamento. Nos estágios 1 e 2, as recomendações são mais gerais, com duração 
das sessões de 60 minutos/dia e sem planejamento sistematizado. Já nos estágios 3 e 
4, sugere um planejamento de exercícios, ou seja, um programa de treinamento mais 
específico e organizado que proporcione melhor controle das variáveis do treinamento 
e proporcione um balanço calórico negativo efetivo.
 Na prática profissional, podemos criar e adotar uma metodologia particular, ou 
modelo de gestão semelhante no tratamento da obesidade, desde que minimamente 
baseado na ciência e que mostre resultados práticos efetivos na saúde e qualidade de 
vida da criança. De modo geral, acreditamos que estratégias comportamentais que 
visem: 1) nutrição saudável, 2) redução do tempo de sedentarismo, 3) padrões do sono 
saudáveis e 4) aumento no tempo de atividade física serão os pilares de sucesso na 
gestão do tratamento da criança obesa.
 Portanto, metodologias adotadas por profissionais de Educação Física que 
compreendam sua participação em uma equipe multiprofissional, a estruturação do 
tratamento da doença/distúrbio em etapas/estágios, e o planejamento individualiza-
do e personalizado das prescrições de exercícios, é no mínimo, científica, organizada 
e diferenciada. A Figura 3 exemplifica recomendações de etapas que adotamos no 
tratamento de crianças com sobrepeso e obesas. Acreditamos que a base dessa me-
todologia possa ser utilizada para o manuseio e tratamento de qualquer patologia ou 
utilizada por qualquer profissional da saúde.
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
128
Figura 3. Etapas do tratamento de crianças com sobrepeso e obesas. Adotadas em 
Núcleos de Fisiologia do Exercício de Clínicas/Institutos de Medicina Integrativa e Aca-
demias de SP. 
6.7. Tratamento da obesidade infantil - da anamnese à prescrição de exercícios
 Baseado na Figura 3, abordaremos a atuação prática do profissional de Educação 
Física (papel de gestor, treinador e fisiologista do exercício) na gestão do tratamento 
da obesidade infantil.
 ETAPA 1 - Anamnese/Questionário
 Consideramos uma das etapas mais importantes na gestão do tratamento da 
obesidade infantil. Nela, devemos destinar o maior tempo do atendimento/consulta 
para conhecer e mapear o perfil clínico do paciente na sua totalidade; bem como con-
quistar e cativar a criança e seus familiares. Juntamente com os pais e/ou outros fami-
liares, e equipe multidisciplinar, devemos compreender: 1) seus principais objetivos, 
2) seu perfil clínico geral, como o grau da obesidade ou a periodicidade de consultas 
médicas, etc., 3) seu perfil nutricional, 4) seu perfil de sedentarismo e 5) seu perfil de 
atividade física, como o tempo diário ou semanal dedicado ao exercício físico, ou a 
algum esporte (natação, futebol, luta, ginástica, ballet, etc.), se faz Educação Física 
na escola, quantas horas/dia, quantas vezes/semana, se sente dor ao fazer exercício e 
etc. Enfim, baseado em inúmeros questionários disponíveis na web ou na utilização de 
softwares de avaliação física/nutricional que já possuem questionários prontos, cabe 
ao profissional desenvolver o seu próprio questionário, o mais completo possível e per-
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
129
sonalizado. No caso de crianças, vale ressaltar que nem sempre conseguimos aplicar o 
questionário na sequência exata. Podemos aproveitar para desenvolver as perguntas 
quando elas nos fazem comentários ou perguntas espontâneas de forma a conquistar 
sua confiança e a de seus familiares. 
 ETAPA 2 - Avaliação e Diagnóstico
 A etapa de avaliação e diagnóstico permitirá: 1) o mapeamento completo da 
criança necessário para desenvolvermos estratégias junto a equipe multidisciplinar, 2) 
organizar dados e parâmetros e 3) sistematizar o planejamento da estruturação do 
programa de treinamento e da prescrição de exercícios. Além de exames clínicos la-
boratoriais (sangue, fezes, urina); laudos de exames médicos (eletrocardiograma, po-
lissonografia, espirometria, ressonância magnética, etc.), podemos utilizar ferramentas 
da Fisiologia do Exercício para complementar os parâmetros (Figura 4). A seguir, des-
crevemos alguns serviços que adotamos dentro da nossa metodologia, bem como as 
considerações mais relevantes:
 Exame de Bioimpedância
 A bioimpedância é um dos exames mais utilizado em clínicas/institutos de saú-
de (custo e praticidade). Através de eletrodos acoplados a uma balança específica, o 
sistema permite avaliar a composição corporal, a quantidade e distribuição de água 
corporal, e a Taxa Metabólica de Repouso calculada (TMR) do paciente. O método de 
coleta de dados e análise dos resultados é extremamente rápido, o que permite acom-
panharmos a evolução do tratamento em períodos de tempo mais curtos (semanal, 
quinzenal, mensal, por exemplo). Entretanto, o preparo do exame deve ser bastante 
rigoroso para evitar variações nos resultados (e varia bastante). Outro indicativo da utli-
zação dessa ferramenta, é quando a criança obesa possui dobras cutâneas elevadas, as 
quais não permitem a utilização do compasso de dobras cutâneas.
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
130
Figura 4. Modelos de serviços realizados em Núcleos de Fisiologia do Exercício de 
Clínicas/Institutos de Medicina Integrativa e Academias de SP.
 Exame Esportivo
 O exame esportivo é uma ferramenta desenvolvida pela nossa equipe multi-
disciplinar e avalia os seguintes parâmetros: 1) medidas antropométricas, 2) perfil cor-
poral, 3) composição corporal, 4) índices corporais, 5) teste de flexibilidade, 6) análise 
postural com fotos e 7) laudos com recomendações. Brevemente, a partir da cole-
ta das medidas antropométricas da criança (peso corporal, altura, dobras cutâneas, 
perímetros corporais e diâmetros ósseos), obtemos os demais parâmetros através de 
um software de avaliação física (Inforsob/Inforfisic). Para traçarmos o perfil corporal da 
criança, extraímos sua somatotipia, ou seja, as características do seu perfil morfológico 
(ectomorfo, mesomorfo ou endomorfo) e comparamos a valores previstos para sexo e 
idade da criança. Geralmente, crianças com sobrepeso e obesas avaliadas pela nossa 
equipe se enquadram num perfil bastante endomorfo e abaixo da referência para o 
perfil mesomorfo, ou seja, crianças com alto % de massa de gordura e baixo % de mas-
sa muscular, sugerindo baixos níveis de atividade física. Para análise da composição 
corporal, obtemos os valores do % da massa de gordura e % da massa magra; valores 
do peso (em Kg)da massa de gordura e da massa magra; e propomos a composição 
corporal a ser atingida de acordo com os valores previstos para sexo e idade da crian-
ça. Já para os índices corporais (preditores de risco cardiovascular) obtemos: 1) o índice 
de massa corporal (IMC), percentis e escore z IMC, 2) a relação cintura-quadril (RCQ), 3) 
o índice de conicidade, 4) a estimativa de gordura corporal, e classificamos em relação 
ao previsto para sexo e idade da criança.
 No teste de flexibilidade utilizamos o banco de Wells, uma ferramenta sim-
ples e barata, mas extremamente eficaz na avaliação da flexibidade geral da criança. 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
131
Através da coleta de dados, classificamos como está seu nível de flexibilidade (fraco, 
regular, bom, ótimo e excelente) em relação ao previsto para sexo e idade. Para a aná-
lise postural com fotos, tiramos 4 fotos da criança (perfis: frente, lado direito, costas e 
lado esquerdo) posicionada à frente de um simetrógrafo (equipamento quadriculado 
para avaliar alinhamentos posturais). Solicitamos que as crianças fiquem de shorts ou 
bermuda (meninos e meninas) e top (meninas), na presença dos pais. Após análise com 
o auxílio do simetrógrafo e do software de análise, conseguimos detectar os princi-
pais desvios posturais (escoliose, hipercifose, joelho genovalgo, protusão abdominal, 
etc.). Além disso, utilizamos as fotos para controle comparativo da evolução do perfil 
corporal da criança nas reavaliações periódicas. Por fim, criamos um laudo (colorido e 
personalizado) sugerindo recomendações de exercícios para atender a todos os parâ-
metros avaliados e analisados. O laudo deve ser apresentado e discutido com os pais 
da criança ou responsáveis, bem como ao seu professor de Educação Física ou perso-
nal trainer.
 Exame Metabólico
 O exame metabólico, apesar de seu alto custo, é o exame mais indicado no 
controle do tratamento da obesidade em crianças, pois mede, de forma bastante efi-
caz, a taxa metabólica de repouso (TMR) e o Quociente Respiratório (QR). Através de 
um sistema de análise de gases e máscara acoplada ao rosto da criança (acima de 5 
anos), o método permite medir diretamente o VO
2
 e a produção de gás carbônico 
(VCO
2
) e quantificarmos/compararmos a TMR medida em relação a TMR prevista para 
sexo e idade. Do ponto de vista prático, o método é um excelente indicador do meta-
bolismo basal da criança, o qual podemos acompanhar sua evolução periodicamente 
e interferir junto a equipe multidisciplinar quando necessário. 
 O QR é um marcador indireto do substrato energético celular. A partir dos gases 
respiratórios, calculamos o QR não protéico da criança. Para valores de QR entre 0,7 
e 0,85, o metabolismo é predominantemente oxidativo, ou seja, a célula utiliza mais 
gordura que carboidrato. Já para valores de QR entre 0,85 e 1, o metabolismo é pre-
dominantemente glicolítico, ou seja, oxida mais carboidrato (glicose) que gordura. Do 
ponto de vista prático, o QR reflete se a criança está consumindo carboidrato em ex-
cesso (caso o QR seja maior que 0,85) em qualquer etapa do tratamento, pois os valo-
res basais do QR devem ficar entre 0,7 e 0,85 (metabolismo eficiente). Portanto, para 
otimizar o emagrecimento devemos acelerar o metabolismo da criança (TMR) com a 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
132
prática de exercícios físicos (ou alimentos termogênicos) e monitorar o QR, periodica-
mente, juntamente a equipe multidisciplinar. 
 Exame Cardiopulmonar
 O exame cardiopulmonar é um teste de esforço progressivo, o qual avalia a 
capacidade cardiorespiratória da criança, ou seja, avalia a eficiência dos sistemas respi-
ratório, cardiovascular e muscular esquelético em resposta ao esforço submáximo do 
exercício. Também denominado teste ergoespirométrico, o princípio da metodologia 
se baseia na análise simultânea de parâmetros ventilatórios e cardiovasculares durante 
um teste de esforço progressivo, realizado em esteira rolante (geralmente com cami-
nhada e inclinações progressivas até a exaustão para crianças obesas acima de 6 anos). 
Dentre os parâmetros obtidos nesse exame, destacamos o consumo máximo de O
2 
(VO
2
máx.) ou consumo pico de O
2
 (VO
2
pico), que reflete a capacidade cardiopulmonar 
máxima da criança; e os LVI e LVII, já descritos acima no capítulo, os quais são impor-
tantes parâmetros na prescrição do exercício aeróbio, como veremos adiante. 
 Outra possibilidade de análise cardiopulmonar é o sistema de ventilometria, que 
além de ser bem mais barato, permite identificar fluxos ventilarórios e o LAVII. Por fim, 
podemos adotar o Teste de Conconi para controle do treinamento aeróbio, que apesar 
de indireto, os parâmetros de FC em resposta ao teste de esforço são mais fidedignos 
que utilizar % de FC máxima para prescrições de exercício aeróbio.
 Exame de Termografia
 O exame de termografia ou termometria cutânea por infravermelho é um exa-
me fisiológico que capta, registra e analisa a radiação natural emitida a partir da der-
me, na faixa espectral do infravermelho longo 7,5 a 13μm (calor). O exame é indolor, 
sem contraste ou radiação, sem contato, e avalia em tempo real, e de forma objetiva 
e quantitativa, padrões térmicos sugestivos de anormalidades. Anormalidades estru-
turais e funcionais são refletidas na pele, através de reflexos neurovegetativos, con-
trolados pelo sistema nervoso simpático, influenciado por fatores locais e sistêmicos, 
formando padrões térmicos diversos na pele, que permitem a identificação e quanti-
ficação da anormalidade. O organismo saudável apresenta padrão térmico estável e 
simétrico ao longo do tempo. Avaliamos simetria entre os lados direito e esquerdo do 
corpo (dimídios). A perda da simetria térmica indica a presença de disfunção ou pato-
logia. Valores Normais: Padrões térmicos simétricos entre os dimídios. Basicamente, a 
criança fica termalizada por 15 minutos em sala com temperatura controlada a 23ºC. A 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
133
análise ocorre bilateralmente em 90 regiões neurovasculares e permite avaliar: 1) áreas 
de risco para lesões futuras, 2) postura, 3) desordens músculo-esquelética, 4) desor-
dens neurológicas, 5) desordens vasculares e gastrointestinais e 6) o perfil metabólico 
através da análise da temperatura de regióes corporais específicas da criança.
 Exame da Pisada (Baropodometria) e Confecção de Palmilhas
 Brevemente, toda a ação da gravidade incide nos pés. A baropodometria, ou 
mais comumente chamado “exame da pisada”, consiste em avaliar sobrecargas me-
cânicas nos diferentes tipos de pé, tipos de pisada, bem como analisar o alinhamento 
postural e a estabilidade corporal, através de plataforma sensorizada extremamente 
sensível a variações mecânicas. Regiões de maiores pontos de pressão mecânica em 
análise estática e dinâmica (facilmente observadas pelas cores avermelhadas no sof-
tware de análise), permite identificar as alterações específicas e, através da confecção 
de palmilhas personalizadas, reduzir ou anular tais alterações mecânicas. Do ponto de 
vista prático, a baropodometria é uma excelente ferramenta para crianças obesas que 
estão inseridas no programa de treinamento, a qual, através da utilização de palmilhas, 
minimiza sobrecargas mecânicas e previne possíveis lesões ortopédicas durante a prá-
tica do exercício.
 Teste de Perfil Genético
 A análise do perfil genético da criança é um dos exames mais refinados que 
executamos. Através de swab bucal, coletamos material genético da saliva e mucosa 
da parte interna da bochecha. A seguir, utilizamos técnicas em biologia molecular es-
pecíficas para analisarmos polimorfismos do gene ACTN3, o qual expressa a proteína 
α-actinina-3 (actn3). Essa proteína está bastante expressa em fibras musculares do tipo 
IIx (fibras de contraçãorápida), característica de modalidades esportivas que priorizam 
força, potência e velocidade. As fibras de contração lenta (Tipo I), característica de mo-
dalidades esportivas que priorizam resistência cardiopulmonar, não expressam actn3.21 
Portanto, se a criança possui polimorfismo no gene ACTN3 (não expressa a proteína 
actn3) significa que ela provavelmente não terá uma boa performance em atividades 
que exijam força, potência e velocidade, comparadas a crianças que expressam actn3. 
Entretanto, essas crianças possuem maior vantagem em atividades com características 
aeróbias em relação a crianças que expressam a actn3. Do ponto de vista prático, sig-
nifica que podemos prescrever o exercício de forma personalizada e criar estratégias 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
134
esportivas para que elas se beneficiem ao máximo do seu perfil genético específico. 
Esse teste é realizado uma única vez.
 Por fim, apesar dessas ferramentas da Fisiologia do Exercício serem poten-
cialmente eficazes na avaliação e diagnóstico de inúmeros parâmetros associados a 
gestão do tratamento da obesidade, nem todo profissional da saúde ou criança obesa, 
tem acesso a elas, seja pelo custo elevado dos equipamentos, seja pela falta de infor-
mação e conhecimento dos gestores de clínicas de saúde particulares, seja por sérios 
problemas de gestão na saúde pública.
 ETAPA 3 - Estratégias, Organização e Planejamento
 A etapa 3 é o momento de agirmos. Nela devemos: 1) organizar todos os da-
dos e parâmetros do paciente e criar seu “prontuário”, 2) criar estratégias para otimi-
zar seu tratamento junto a equipe multidisciplinar e 3) desenvolver o planejamento 
dos profissionais, o qual aqui, seria o planejamento do programa de treinamento, ou 
simplesmente, a periodização de treinamento. A periodização do treinamento é uma 
forma de planejar e estruturar o treinamento a ser desenvolvido, por um determinado 
período, para um indivíduo ou um grupo esportivo. Especificamente, organizamos o 
programa de treino de uma criança obesa a cada 3 meses (macrociclo), divididos pelos 
respectivos meses (mesociclos) e subdivididos pelas respectivas semanas (microciclos). 
Dentro dos microciclos semanais, podemos organizar basicamente: 1) quais exames 
ou avaliações a criança irá realizar (médico, nutricional, psicológico, termografia, perfil 
genético e etc.), 2) quais capacidades físicas serão priorizadas, 3) a evolução dos % 
de cargas de treino e 4) os períodos de reavaliação ao final do macrociclo. Ao final 
do macrociclo, realizamos as reavaliações (etapa 5) e elaboramos outro macrociclo de 
mais 3 meses, até atingirmos o objetivo principal. A seguir, entramos no período de 
manutenção do peso corporal e assim sucessivamente. É importante ressaltar que a or-
ganização dos microciclos semanais deve levar em conta os princípios do treinamento 
(individualidade biológica, adaptação, sobrecarga, continuidade, etc.), os quais devem 
ser seguidos à risca no tratamento da obesidade infantil de forma a otimizar seus resul-
tados e minimizar os riscos de lesões nas crianças.
 ETAPA 4 - Prescrição de Exercícios
 A organização das capacidades físicas a serem desenvolvidas nos microciclos 
semanais determinará a prescrição de exercícios. Por exemplo, se no microciclo 1 do 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
135
treinamento (semana 1) priorizarmos treinar a resistência cardiopulmonar, a força mus-
cular e a flexibilidade da criança (consideradas capacidades físicas gerais), devemos 
prescrever exercícios aeróbios, resistidos e de alongamento, respectivamente. Tais ca-
pacidades físicas podem ser trabalhadas individualmente na sessão de treino (somente 
exercícios aeróbios para estimular a resistência cardiopulmonar); ou conjuntamente, 
para estimular 2 ou mais capacidade físicas. Particularmente, crianças entre 2 e 10 anos, 
independentemente do sexo, acham monótono fazer uma sessão de exercício com 
poucas atividades ou um mesmo tipo de exercício a sessão toda (caminhada na estei-
ra, por exemplo). Obviamente, elas preferem sessões de exercícios mais lúdicas, que 
envolvam brincadeiras mais dinâmicas ou desafios (pega-pega, esconde-esconde, po-
lícia-ladrão, etc.); ou jogos recreativos e esportivos que auxiliem no aprendizado mo-
tor (queimada, futebol, natação, ballet, tênis, basquete, vôlei, handebol, entre outros). 
Além disso, aulas em grupo motivam mais que aulas individuais.6
 A prescrição de exercícios para crianças com sobrepeso e obesas deve considerar a 
idade, o sexo, a presença de comorbidades, e limitações fisiológicas e/ou ortopédicas 
(etapas 1 e 2) que possam comprometer uma boa execução dos movimentos corporais 
ou até mesmo acarretar em lesões mais sérias. A intensidade das sessões de treino 
deve ser de leve a moderada nos 4 primeiros microciclos (sugestão) para promover 
adaptações fisiológicas e ortopédicas; e em seguida, ajustar a intensidade de modera-
da a intensa nos próximos microciclos. Exercícios mais intensos são mais eficientes na 
redução da gordura corporal em crianças.22 A recomendação de duração das sessões 
é de 60 minutos (média) e a frequência semanal de 3 a 5x/semana para melhores resul-
tados de emagrecimento corporal.6
 Prescrição de Exercício Aeróbio
 O exercício aeróbio é a base do tratamento da obesidade infantil no programa 
de treinamento. Como crianças nessa faixa etária são pouco toleráveis a prática de ati-
vidades físicas em ambientes fechados (academias), e a alguns equipamentos (esteira 
rolante, bicicleta ergométrica ou transport), devemos criar estratégias de sessões de 
exercícios, com essa característica, que promovam maiores taxas de adesão e resultem 
num alto gasto calórico total. Particularmente, utilizamos uma metodologia específi-
ca para prescrição de exercícios aeróbios. A partir das FC dos LVI e LVII (obtidas no 
exame cardiopulmonar), criamos as zonas metabólicas de treinamento (tabela 1). Para 
exemplificarmos a metodologia, se a FC de repouso da criança foi de 90 batimentos/
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
136
minuto (bpm) no dia do exame; atingiu FC do LVI = 135 bpm; FC do LVII = 165 bpm, e 
chegou a uma FC = 185 bpm na exaustão (final do teste), podemos organizar os níveis 
de intensidade em zonas de treino, como ilustrada na Tabela 1 abaixo:
Tabela 1. Zonas de treino metabólicas.
 Para otimizar o emagrecimento corporal, utilizamos a zona 2 (tabela 1), ou seja, 
na faixa de FC entre 135 e 165 bpm do nosso exemplo, a qual é a zona metabólica mais 
eficiente na oxidação da gordura corporal, apesar de ser uma zona de metabolismo 
misto. A zona 1 é interessante no início da sessão de treino para aquecimento e ao 
final da sessão para restabelecer o organismo ao repouso, mas mobiliza pouca gordura 
corporal durante o exercício, apesar de ser uma zona lipolítica. Já na zona 3, as fibras 
musculares esqueléticas ativas priorizam a utilização de glicose como substrato ener-
gético para a ressíntese de ATP. Embora, inevitavelmente a FC da criança atinja a zona 
3 no decorrer da sessão, a FC média ao final da sessão de treino certamente estará 
dentro da zona 2. Baseado nisso, a metodologia do Treinamento Intervalado de Alta In-
tensidade (HIIT), comparado ao método contínuo, tem sido bastante empregada para 
redução de gordura corporal em crianças e adolescentes.23 Entretanto, para crianças 
nessa faixa etária, podemos adaptar tal metodologia a atividades mais lúdicas e menos 
sistematizadas, como os exercícios funcionais, por exemplo. 
 Prescrição de Exercício Resistido
 Embora a musculação seja o método mais conhecido, existem outros métodos 
eficientes que utilizam o exercício resistido como ferramenta para o ganho de massa 
muscular (treinamento funcional, por exemplo). Aumentar a massa muscular significa 
otimizar a TMR e o controle do perfilmetabólico da criança. A prescrição de muscula-
ção para crianças obesas pode e deve ser indicada para crianças a partir de 6 ou 7 anos 
de idade, dependendo da maturação biológica e sempre com supervisão do profissio-
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
137
nal de Educação Física. A evolução das cargas de treino (nº de séries, nº de repetições, 
ajustes do peso, tempo entre séries e exercícios, etc.) deve ser crescente, de acordo 
com os microciclos do programa de treinamento. A recomendação é priorizar grandes 
grupos musculares (quadríceps, glúteos, peitoral, costas e abdome) para aumentar o 
gasto energético total e favorecer o emagrecimento. Já a frequência semanal pode ser 
de 2 a 3x/semana. Entretanto, devemos nos atentar ao controle da carga para não acar-
retar possíveis lesões ortopédicas na criança. Por fim, o exercício resistido associado ao 
exercício aeróbio (treinamento concorrente), também favorece a redução e o controle 
do peso corporal por aumentar a massa muscular e estimular a lipólise.24
 Prescrição de Exercício Funcional
 Os exercícios funcionais são extremamente eficazes no tratamento da obesi-
dade infantil. Seus movimentos dinâmicos mobilizam grandes grupos musculares ao 
mesmo tempo, favorecendo um maior gasto calórico total e a redução da gordura cor-
poral. Exercícios funcionais (pranchas, pontes, afundo, burpee, saltos ou saltos em pla-
taformas elásticas) e elementos coloridos e desafiadores (cordas, bolas, discos, elásti-
cos, TRX, bambolês, e etc.), tornam a atividade física mais lúdica e alegre promovendo 
melhor taxa de adesão da criança. Temos melhores resultados quando realizados em 
grupo e devemos levar em conta a escolha do nível dos exercícios para não provocar 
constrangimento na criança.
 Os exercícios funcionais, por serem dinâmicos, trabalham todas as capacida-
des físicas da criança numa única sessão e podem ser combinados com musculação e 
exercícios aeróbios numa mesma sessão. Podemos criar circuitos de exercícios funcio-
nais em grupo. Por exemplo, criamos 10 estações com diferentes exercícios e elemen-
tos para 10 crianças, onde a cada 30 segundos ou 1 minuto, elas vão se revezando no 
circuito. É extremamente divertido e eficiente essa variação do método. As sessões de 
treino devem durar no máximo 60 minutos para essa faixa etária devido a sua mais alta 
intensidade de execução. Por fim, os exercícios funcionais devem incluir exercícios de 
propriocepção (exercícios com bases instáveis) para estimular o sistema sensório-mo-
tor, e auxiliar na estabilização articular, pois crianças nessa faixa etária, as articulações 
ainda são bastante instáveis; bem como desenvolver a flexibilidade da criança com 
exercícios de alongamento na sessão de treino para auxiliar na prevenção de lesões. 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
138
 ETAPA 5 - Reavaliação
 As reavaliações devem ser realizadas a cada 3 meses, dependendo de cada 
consulta, exame ou teste, após o término de cada macrociclo. Períodos entre 4 e 6 me-
ses são ainda satisfatórios para reavaliarmos. Entretanto, períodos acima de 6 meses 
podem não ser eficaz no controle do tratamento da obesidade infantil. Obviamente, 
o sucesso desta etapa não está atrelado somente aos profissionais da equipe multi-
disciplinar em realizar todas as etapas do tratamento novamente (o que seria ideal), 
mas também, dependerá do perfil econômico dos familiares da criança em investir na 
continuidade do tratamento (se tem plano de saúde ou não, por exemplo). Além disso, 
a disponibilidade e vontade dos familiares, e da criança, devem ser levados em conta 
nesta etapa do tratamento. Devemos sempre lembrar os pais que a saúde da criança 
não tem preço. É muito comum familiares abandonarem o tratamento após a criança 
atingir seus objetivos de saúde e emagrecimento, mesmo com boas condições finan-
ceiras. Uma pena!
6.8. Perspectivas futuras
 Acreditamos em um cenário futuro preocupante no Brasil e no mundo, onde a 
prevalência da obesidade infantil deverá ser ainda maior nos próximos anos. Entretan-
to, os avanços na pesquisa e tecnologia na área da saúde, a implementação e aplica-
ção de melhores modelos de políticas de gestão no combate a obesidade (pública ou 
privada), e a maior atuação e qualificação dos profissionais da saúde, pode e deve fazer 
um contrabalanço nesse cenário atual. 
6.9. Referências bibliográficas
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Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
139
(alimentação saudável e atividade física são algumas recomendações) [acesso em 15 nov 2019]. Dispo-
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-Silva A. Effects of high- and moderate-intensity exercise on central hemodynamic and oxygen uptake 
recovery kinetics in CHF-COPD overlap. Braz J Med Biol Res.o IMC = peso (kg) /estatura2 (metros), 
que apresenta boa correlação com a quantidade da gordura corporal.
O valor do IMC encontrado deverá ser analisado, utilizando-se um referencial in-
ternacional como o da OMS (2006, 2007).26 O diagnóstico do excesso de peso é baseado 
em percentis ou escores-z do IMC/idade, como mostrado na Tabela 1:
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
17
Tabela 1. IMC/IDADE
Fonte: OMS, 2006,2007
Circunferência abdominal 
A circunferência abdominal (CA) é um parâmetro importante a ser avaliado no 
obeso, pois mede indiretamente os depósitos intra-abdominais de gordura. A adiposi-
dade central (abdominal) está relacionada ao maior risco de desenvolvimento de mor-
bidades associadas à obesidade. A medida é realizada com uma fita inextensível, no 
ponto médio entre a borda inferior da última costela e a borda superior da crista ilíaca. 
Valores elevados da circunferência abdominal (a partir do percentil 90) em crianças 
e adolescentes são associados a alterações metabólicas, como resistência insulínica, 
dislipidemias, hipertensão arterial e ao maior risco cardiovascular.27
A Tabela 2, derivada do Bogalusa Heart Study,27 apresenta os valores de circun-
ferência abdominal, segundo idade, sexo e raça, com ponto de corte no percentil 90.
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
18
Tabela 2. Circunferência abdominal em crianças e adolescentes
Fonte: Freedman et al.,1999.27
1.4. Tratamento
A abordagem transdisciplinar, buscando compreender a complexidade desse 
distúrbio nutricional, é considerada a forma mais adequada para o tratamento da obe-
sidade. A equipe de atendimento deve ser formada por pediatra, nutricionista, psicó-
logo, educador físico, entre outros profissionais.
Ao exame físico, possíveis complicações da obesidade, como alterações ortopé-
dicas, dermatológicas e a hipertensão arterial, já podem ser observadas.
Os exames complementares são úteis para o diagnóstico das repercussões me-
tabólicas (dislipidemias, alterações do metabolismo da glicose) e incluem a dosagem do 
colesterol total e das frações (HDL, LDL), de triglicérides, da glicemia e da insulinemia de 
jejum. US para detectar estea¬tose hepática e avaliação da função hepática, por meio da 
atividade das enzimas ALT, AST e gama-GT, também precisam ser realizados.
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
19
O tratamento dietético da obesidade deve ser feito de forma individualizada, 
elaborado em conjunto com o paciente e sua família, levando-se em conta a idade, o 
grau do excesso de peso e a presença ou não de comorbidades.28 
Para que a intervenção nutricional seja efetiva, a rotina diária da criança ou do 
adolescente necessita ser conhecida, avaliando-se cuidadosamente o padrão alimen-
tar (quantitativo e qualitativo), os hábitos e as preferências alimentares, a fim de se 
identificar os fatores que estão contribuindo para o excesso de peso.29 
Dietas rígidas e extremamente restritivas são contraindicadas, pois podem acarretar 
diminuição da velocidade de crescimento e redução da massa muscular.
A dieta deve ser balanceada, com distribuição adequada de macro e micronutrientes, 
e uma orientação alimentar que permita a escolha de alimentos consumidos habitualmente.
O paciente e sua família têm grande responsabilidade para a obtenção do suces-
so no tratamento, sendo necessário contar com determinação, paciência e disciplina. 
A educação nutricional é de extrema importância e tem a finalidade de tornar 
o indivíduo apto para organizar e controlar a alimentação, mantendo sua rotina diária. 
Esse processo deve estimular mudanças no hábito e comportamento alimentar de for-
ma lenta e gradativa, fundamentais para o controle de peso.29 
A pirâmide é um instrumento que costuma ser utilizado para auxiliar o paciente a 
quantificar as porções de alimentos e fazer substituições entre aqueles que pertencem 
a um mesmo grupo e que têm valor energético semelhante. Com esse instrumento é 
possível realizar trabalho educativo com a criança, propondo brincadeiras, jogos, de-
senhos, tanto no atendimento individual como em grupos de educação nutricional.29
Para melhor aderência ao tratamento, as mudanças devem ser propostas gra-
dualmente ao longo do acompanhamento, evitando diminuições drásticas nas quan-
tidades de alimentos, imposição de dietas muito diferentes do hábito do paciente ou 
excesso de orientações na mesma consulta.30
O tratamento dietético deve ser realizado de maneira gradativa, em etapas:30
Conhecimento e esclarecimentos: o profissional deve conhecer detalhadamente 
a alimentação da criança ou do adolescente, para estabelecer as estratégias de atua-
ção. É importante esclarecer conceitos inadequados e bastante difundidos, como o de 
comer apenas alguns tipos de alimentos, como verduras, legumes, frutas. Ressaltar que 
não há alimentos proibidos e mesmo aqueles que apresentam maior densidade ener-
gética podem ser consumidos com moderação e menor frequência. Também é funda-
mental destacar os conceitos sobre alimentação saudável. Quanto mais esclarecidos 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
20
e seguros estiverem o paciente e a sua família, melhor será a adesão ao tratamento.
Avaliação e orientação sobre comportamentos relacionados à alimentação: é 
importante identificar algumas atitudes comuns entre crianças e adolescentes obesos, 
como comer rapidamente, com a televisão ligada, não ter horários estabelecidos para 
se alimentar, beliscar entre as refeições e repetir as porções dos alimentos.
Esses comportamentos inadequados devem ser corrigidos paulatinamente, ini-
ciando-se com aqueles que a criança e sua família consideram mais simples e ir progre-
dindo para os de maior grau de dificuldade.
Ao final dessa etapa, o esperado é que a criança ou o adolescente esteja fazen-
do cinco a seis refeições ao dia (café da manhã, almoço, jantar e dois a três lanches), 
em local apropriado (sentado à mesa), de preferência em companhia de algum familiar, 
sem distrações, com TV, computador, tablet, videogame, celular desligados, comendo 
devagar, com mastigação adequada e sem repetições.
Quantidade: nessa fase, as orientações são voltadas para a diminuição gradativa 
do excesso alimentar ingerido, com adequação das porções e redução das repetições. 
É importante perceber os limites de cada paciente para realizar a diminuição da inges-
tão energética, pois uma redução muito acentuada pode deixar o indivíduo com fome 
e atrapalhar a evolução do tratamento. 
Qualidade: nessa etapa, o controle do ganho de peso já foi conseguido, com a 
adequação das quantidades alimentares consumidas e a incorporação das mudanças 
comportamentais. A meta, nesse momento, é melhorar a qualidade da dieta, incentivan-
do o consumo crescente de alimentos que não costumam fazer parte do hábito alimen-
tar da criança e do adolescente obesos (verduras, legumes, frutas, cereais integrais), mas 
que têm grande importância nutricional, sendo fontes de micronutrientes e fibras.
Manutenção: nessa fase, o próprio paciente ou a sua família, utiliza as informa-
ções e os aprendizados adquiridos nas etapas anteriores para se adaptar às diversas 
situações (festas, viagens, passeios da escola, casa de amigos), controlando os exces-
sos e realizando substituições.
Todas as mudanças comportamentais, quantitativas e qualitativas sugeridas de-
vem ser discutidas com a criança ou o adolescente. As negociações são fundamentais 
para se estabelecer um vínculo de confiança com o profissional e o tratamento poder 
fluir com tranquilidade. Limites podem ser colocados, mas sempre respeitando o mo-
mento de cada paciente. Proibir a ingestão de certos alimentos é uma conduta que 
deve ser evitada. 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
21
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Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
141
Diretoria e Conselho Científico e de Administração do ILSI Brasil 
Presidente do Conselho Científico e de 
Administração 
Chair
Franco Lajolo (Fac. de Ciências Farmacêu-
ticas/USP)
Vice-Presidente do Conselho Científico 
e de Administração
Vice-Chair
Paulo Stringheta (Universidade Fed. de Viçosa)
Presidente Executivo
Executive President
Luiz Henrique Fernandes (Pfizer)
Vice-Presidente Executivo
Executive Vice-President
Amanda Poldi (Cargill)
Diretoria Financeira
Executive Finance
Luiz Henrique Fernandes (Pfizer)
Diretoria
Board of Directors
Amanda Poldi (Cargill)
Bernadette Franco (Fac. de Ciências Far-
macêuticas /USP)
Deise Capalbo (Embrapa)
Fernanda Martins (Unilever)
Helio Vannucchi (Fac. de Medicina de Ri-
beirão Preto/USP)
Maria Cecília Toledo (CCFA Brazilian delega-
tion/UNICAMP)
Mariela Berezovsky (Danone)
Taiana Trovão (Mondelez)
Diretoria Executiva 
Executive Director
Flavia Franciscato Cozzolino Goldfinger
Conselho Científico e de Administração
Board of Trustees
Adriana Arisseto (Fac. Eng. Alimentos/UNICAMP)
Amanda Poldi (Cargill)
Bernadette Franco (Fac. de Ciências Farma-
cêuticas/USP)
Carlos Nogueira-de-Almeida (Universidade 
Federal de São Carlos)
Deise M. F. Capalbo (EMBRAPA)
Eduardo Nascimento Silva (Coca-Cola)
Fernanda de Oliveira Martins (Unilever)
Felix Reyes (Fac. Eng. Alimentos/UNICAMP)
Flavio Zambrone (Inst. Brasileiro de Toxicologia)
Franco Lajolo (Fac. de Ciências Farmacêuticas/USP)
Helio Vannucchi (Fac. de Medicina de Ribei-
rão Preto/USP)
João Paulo Fabi (Fac. de Ciências Farmacêu-
ticas/USP)
Luiz Henrique Fernandes (Pfizer)
Maria Cecília Toledo (CCFA Brazilian dele-
gation/UNICAMP)
Mariela Weingarten Berezovsky (Danone)
Mauro Fisberg (Instituto PENSI e Pediatria 
EPM/UNIFESP)
Neuza Hassimotto (Fac. de Ciências Farma-
cêuticas/USP)
Paulo Stringheta (Univ. Federal de Viçosa)
Renata Cassar (Tate & Lyle)
Silvia Maria Franciscato Cozzolino (Fac. de 
Ciências Farmacêuticas /USP)
Taiana Trovão (Mondelez)
Tatiana da Costa Raposo Pires (DSM)
Thaise Mendes – Herbalife
Board of Directors and Board of Trustees - ILSI Brasil 
7. DIRETORIA E CCA 2020
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
142
8. FORÇA-TAREFA NUTRIÇÃO DA CRIANÇA 
Histórico e Justificativa
Com atividades iniciadas, em 2011, como um Grupo de Trabalho ligado a For-
ca-Tarefa Nutrição Clínica, a equipe consolidou seus objetivos e metas ate se tornar 
uma Forca-Tarefa independente, em 2016. Atualmente, sua atuação é direcionada à 
nutrição da gestante e lactente, prosseguindo na Primeira Infância expandida (ate os 5 
anos de vida) e, posteriormente, na faixa etária escolar ate o início da adolescência (10 
anos), considerando as peculiaridades destes grupos na promoção da saúde.
A proposta e estimular a discussão multidisciplinar neste universo, que envolve 
profissionais de diversas especialidades, e contribuir para que a informação isenta e de 
qualidade seja ferramenta importante na atualização científica do profissional atuante na 
saúde, que envolve o acompanhamento do crescimento e desenvolvimento da criança, 
contribuindo, assim, para a saude e qualidade do capital humano na vida adulta.
Objetivos
• Estimular a discussão de assuntos ligados as necessidades nutricionais de 
crianças de 0 a 10 anos, levando conhecimento científico sobre o tema.
• Atuar como facilitador nas trocas de informacoes entre profissionais da area 
de saúde, empresas, academia, orgaos cientificos e governamentais.
• Melhoria da qualidade de vida destes grupos populacionais.
Empresas mantenedoras 2020
Reckitt Benckiser
Danone
Piracanjuba
Abbotté essencial no tratamento de crianças e adolescentes 
obesos, colaborando com a compra e o preparo dos alimentos consumidos em casa e 
com a escolha daqueles consumidos fora. 
Para melhor aderência ao tratamento, as mudanças são estimuladas gradual-
mente ao longo do acompanhamento, evitando sempre mudanças drásticas nas quan-
tidades, imposição de dieta muito diferente do habitual ou excesso de orientações na 
mesma consulta.
O objetivo do tratamento dietético da obesidade é a reeducação alimentar, com 
o consumo variado e adequado de representantes de todos os grupos alimentares, de 
tal forma que a ingestão de macro e micronutrientes seja apropriada para o crescimen-
to e desenvolvimento, de acordo com as diferentes faixas etárias. 
A utilização de alimentos diet e de adoçantes é indicada apenas para os obesos 
que apresentam intolerância à glicose ou diabetes mellitus. O uso de alimentos diet 
não está indicado para o manejo da obesidade infantil. Além de não contribuírem para 
a mudança do hábito alimentar, esses produtos podem não apresentar impacto na 
redução da ingestão calórica total. Além disso, contêm adoçantes que não foram sufi-
cientemente estudados para serem usados com segurança, na faixa etária pediátrica, 
em longo prazo.29
A obesidade pode se associar às dislipidemias (aumento de triglicérides, LDL-
-colesterol e/ou redução do HDL-colesterol), alterações do metabolismo da glicose e 
à hipertensão arterial, fatores que elevam o risco para o desenvolvimento das doenças 
cardiovasculares e do diabetes tipo 2. Para a prevenção e o controle dessas comorbi-
dades, mudanças específicas na dieta também devem ser realizadas dentro da propos-
ta de reeducação alimentar.29
As recomendações para prevenção e controle das doenças cardiovasculares 
determinam o consumo diário de 30% do valor energético total (VET) em gorduras 
totais, sendo de 10% e 7% em gorduras saturadas para a prevenção e o tratamento 
das dislipidemias, respectivamente. Também deve ser evitada a ingestão de gorduras 
trans, restringido o consumo de sódio, de alimentos e bebidas ricos em carboidratos 
simples e bebidas alcoólicas. O consumo de aves, carnes magras e peixes (no mínimo, 
duas vezes/semana), frutas e hortaliças (> 5 porções/dia), com o objetivo de aumentar 
a ingestão de gorduras insaturadas, vitaminas antioxidantes e fibra alimentar, deve ser 
estimulado.29 
Em crianças ou adolescentes com aumento da fração LDL-colesterol, maior ên-
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
22
fase precisa ser dada ao controle de alimentos ricos em gorduras saturadas, trans e 
colesterol, presentes em carnes vermelhas, leite e derivados lácteos integrais, embu-
tidos, preparações fritas e produtos industrializados elaborados com gordura vegetal 
hidrogenada.29 
Quando existe aumento de triglicérides, observar a presença de beliscos, re-
petições ou o consumo exagerado de determinados alimentos. Na presença dessa 
alteração, prioriza-se o controle de alimentos ricos em carboidratos simples (açúcar e 
farinha refinada), produtos industrializados ou preparações/bebidas com adição des-
ses ingredientes (balas, sucos, refrigerantes, iogurtes, biscoitos, doces).29
A restrição de alimentos ricos em carboidratos simples também deve ocorrer na 
presença de intolerância à glicose ou de diabetes mellitus. Nesses casos, pode-se dis-
cutir com a família a utilização de produtos dietéticos, avaliando sempre a necessidade 
de sua inclusão e o real benefício, o tipo de adoçante presente e o número de porções 
consumidas por dia, de forma a não ultrapassar o limite tolerável de seu consumo, com 
o uso indiscriminado.29
Nos casos de aumento da pressão arterial sistêmica, avaliar a qualidade dos 
alimentos consumidos dentro e fora de casa, a forma de preparo, os temperos e con-
dimentos utilizados. Restringir o consumo de temperos industrializados, embutidos, 
frios, alimentos em conserva, enlatados, congelados, salgadinhos de pacote e pro-
dutos industrializados de forma geral, pois costumam ser ricos em sódio. Nos obesos 
hipertensos, a redução da quantidade de sódio na dieta é importante para a normali-
zação dos níveis pressóricos. Recomenda-se ingestão máxima de 2,3 g/dia de sódio, 
que corresponde, aproximadamente, a 5g de sal.29
O atendimento de crianças e adolescentes obesos é complexo e os resultados 
são lentos. Dessa forma, sempre que possível manter as consultas em intervalos curtos 
(semanal, quinzenal, mensal, conforme a necessidade do paciente), associar ao aten-
dimento individual grupos educativos, estimular e valorizar constantemente as mudan-
ças observadas e promover o atendimento transdisciplinar.
A manutenção e a redução gradativa do peso esperadas, respectivamente, para 
crianças e adolescentes pós-púberes, e as mudanças do hábito e comportamento ali-
mentar, costumam ocorrer em médio e longo prazo. Quando grupos de educação nu-
tricional são associados ao atendimento individual, os resultados podem ser obtidos 
com maior rapidez.31
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
23
1.5. Prevenção
A obesidade é uma doença de difícil controle, com altos percentuais de in-su-
cesso e recidivas no seu tratamento, podendo acarretar sérias repercussões orgânicas 
e psicossociais, especialmente nas formas mais graves.32 
A obesidade iniciada na infância ou na adolescência pode persistir na fase adulta 
e levar à diminuição da qualidade e da expectativa de vida, devido ao desenvolvimen-
to de morbidades associadas ao excesso de peso, como as doenças cardiovasculares, 
o diabetes tipo 2, entre outras.33,34
Dados derivados de estudos longitudinais, em geral, mostram associação entre 
valores elevados de IMC na infância e obesidade na fase adulta. O estudo de Bogalu-
sa,35 que seguiu uma coorte de 2.124 crianças e adolescentes de 5 a 17 anos até os 42 
anos de idade, verificou obesidade em 66% dos adultos provenientes do grupo de 
crianças e adolescentes com sobrepeso e em 87% daqueles que pertenciam ao grupo 
de crianças e adolescentes obesos. A média do IMC entre os adultos oriundos do gru-
po de crianças e adolescentes com sobrepeso era de 32 kg/m2 e entre os que vieram 
do grupo de crianças e adolescentes obesos, de 38 kg/m2, com 39% dos indivíduos 
apresentando IMC ≥ 40 kg/m2.
O risco de a obesidade na infância continuar na vida adulta está relacio-nado ao 
tempo de duração da doença e a sua gravidade. As taxas de remissão diminuem e o risco 
de persistência aumenta com o avanço da idade e com o aumento do grau de obesidade.36 
O aumento da prevalência de obesidade nas últimas décadas, a gravidade das 
suas repercussões, as dificuldades para o seu controle e o alto custo para a sociedade 
fazem desse distúrbio nutricional relevante problema de saúde pública, que precisa ser 
combatido desde idades bem precoces.37-39
A prevenção da obesidade deve ser iniciada durante o período intrauterino, com 
a adequada nutrição da gestante. Segundo o conceito de programação metabólica, 
um agravo que altera uma estrutura somática ou o ajuste de um sistema fisiológico, 
em fases críticas do desenvolvimento, pode acarretar consequências deletérias para 
a saúde em longo prazo.40 Há evidências científicas mostrando que a quantidade e 
a qualidade dos nutrientes recebidos pelo feto influenciam o seu desenvolvimento e 
o aparecimento futuro de doenças não transmissíveis, como obesidade, hipertensão 
arterial, doenças cardiovasculares.41,42,43 Da mesma forma, fatores nutricionais nos pri-
meiros anos de vida podem modular o risco para essas doenças.44 
O leite materno, exclusivo até os 6 meses de vida e complementado a partir 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
24
dessa idade até os dois anos ou mais, é o alimento ideal para suprir as necessi-dades 
nutricionais do lactente e proporcionar crescimento e desenvolvimento adequados.Além disso, ele também funciona como proteção contra a obesidade, devido a sua 
apropriada composição nutricional e por conter substâncias que participam da home-
ostase energética, como leptina, adiponectina, grelina, resistina e obestatina.45-49 
A prevenção da obesidade infantil pode ser feita a partir dos cuidados primários 
de saúde, tendo o pediatra papel de destaque ao realizar o monitoramento do peso e 
da estatura da criança.50 Quando for verificado aumento excessivo de peso em relação 
à estatura em uma criança, especialmente com pais obesos, deve ser realizada adequa-
da orientação nutricional com o objetivo de evitar o desenvolvimento da obesidade, 
pois, uma vez instalada, fica muito mais difícil a reversão do quadro. Também cabe ao 
pediatra a promoção do aleitamento materno e a introdução correta dos alimentos 
complementares, tanto em relação à idade de introdução, quanto à qualidade dessa 
alimentação.51,52 A introdução precoce da alimentação complementar, especialmente 
dos alimentos sólidos, além de inter-romper o aleitamento materno exclusivo, leva a 
maior ingestão energética. Seach et al.53 encontraram associação entre a idade de in-
trodução dos alimentos sólidos e o IMC na infância mais tardia. Acompanharam 307 
crianças do nascimento até os 10 anos de idade e verificaram que o risco de sobrepe-
so/obesidade era reduzi-do significativamente a cada mês de retardo na introdução de 
alimentos sólidos.
 O pediatra também precisa ficar atento aos distúrbios da relação mãe-filho e da 
dinâmica familiar, os quais, muitas vezes, interferem na esfera alimentar e contribuem 
para a instalação e manutenção da obesidade na infância.8
A participação ativa da família é fundamental no sentido de propiciar hábitos 
alimentares adequados, oferecendo à criança uma alimentação saudável, com maior 
disponibilidade de frutas, legumes e verduras e redução do consumo de alimentos 
com quantidades elevadas de açúcar, sal, gorduras saturadas e trans e de bebidas 
com baixo valor nutricional, como refrigerantes e sucos artificiais.54,55 Fazer as refeições 
com as crianças, ser modelo de consumo de alimentos saudáveis, observar sinais de 
fome e saciedade dos filhos e não realizar trocas afetivas exclusivamente por meio da 
alimentação são importantes recomenda-ções aos pais.56 A família deve modificar o 
comportamento sedentário, estimulan-do a criança para ter estilo de vida mais ativo. A 
troca de atividades sedentárias (tempo gasto com TV, videogame, computador, tablet, 
celular) por brincadeiras ao ar livre, caminhadas, andar de bicicleta, com o envolvi-
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
25
mento dos pais, precisa ser incentivada. O estímulo à prática de exercícios físicos, de 
acordo com a idade, e a restrição de atividades sedentárias devem ser realizados, para 
que a criança adquira estilo de vida mais ativo e saudável.57
 As intervenções em escolas também fazem parte das estratégias para o controle 
da obesidade infantil, com a vantagem de a escola já possuir uma estrutura organizada 
e de ser atingido grande percentual da população a custo baixo.58 O tempo de perma-
nência dos alunos na escola é longo e, nela, eles fazem uma ou duas refeições ao dia 
durante cinco dias da semana. Destaca-se ainda o fato de o escolar ser um potencial 
agente de mudança na família e na comunidade onde está inserido. Os modos de 
intervenção em escolas incluem a introdução no currículo escolar de matérias que for-
neçam informações sobre saúde, alimentação, nutrição, vantagens do exercício físico; 
atuação junto às lanchonetes ou à merenda oferecida pela escola, assegurando maior 
oferta de alimentos saudáveis; promoção de práticas esportivas; participação dos pro-
fessores e demais funcionários. 
Outras intervenções importantes para a prevenção da obesidade podem ser 
destacadas, como a regulação do marketing de alimentos não saudáveis, principal-
mente voltado para o público infantil, melhora da rotulagem dos produtos alimentí-
cios, taxação de alimentos não saudáveis, mudanças na infraestrutura urbana, com a 
finalidade de promover transporte ativo e aumentar espaços para recreação.55
A prevenção do excessivo ganho de peso é mais barata, mais fácil e mais eficiente 
do que o tratamento da obesidade e de suas comorbidades já plenamente desenvolvidas.
As estratégias para o controle da obesidade necessitam da atuação de toda a 
sociedade (família, escola, órgãos governamentais, indústria alimentícia, socie-dades 
científicas, mídia), com o objetivo de modificar o ambiente "obesogênico", que favo-
rece a instalação do excesso de peso em indivíduos geneticamente pre-dispostos.59,60
1.6. Sugestões para a Prevenção da Obesidade
Pediatra – Estimular o aleitamento materno; introduzir adequadamente os ali-
mentos complementares; detectar precocemente aumento excessivo de peso em re-
lação à estatura; orientar a alimentação para evitar o desenvolvimento da obesidade; 
incentivar o aumento da atividade física; envolver a família; observar distúrbios da rela-
ção mãe-filho e da dinâmica familiar.
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
26
Família - Modificar hábitos alimentares inadequados e estilo de vida sedentário.
Escola - Fornecer informações sobre saúde, nutrição, atividade física; aumentar 
a disponibilidade de alimentos saudáveis nas cantinas e na merenda; estimular práticas 
esportivas; envolver toda a comunidade escolar.
Órgãos governamentais – Criar, em áreas urbanas, mais espaços para pedestres, 
ciclovias seguras, centros recreativos e parques, proporcionando aumento da atividade 
física; melhorar a rotulagem dos produtos alimentícios, com informações nutricionais 
claras e de fácil entendimento; regulamentar a propaganda de alimentos não saudá-
veis voltada para crianças e adolescentes. 
Indústria alimentícia – Desenvolver alimentos e bebidas mais saudáveis, consi-
derando a densidade energética e a composição de nutrientes.
Sociedades científicas – Alertar os seus membros sobre o problema e fornecer 
subsídios para o controle e a prevenção da obesidade. 
Mídia – Promover alimentação adequada e estilo de vida saudável.
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Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
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2. ATUAÇÃO DO NUTRICIONISTA
Ana Paula Black Dreux
Rosane Quaranta Lessa
2.1 Definição e diagnóstico
A obesidade infantil é uma epidemia global que afeta todos os países do mundo 
em todos os estágios da vida e classes sociais,1 sendo definida pelo acúmulo excessivo 
de camada de tecido adiposo no organismo.2 
Na população infantil, o diagnóstico de obesidade pode ser realizado pelo índi-
ce de massa corporal ajustado por idade (IMC/I) de acordo com o sexo.3,4 Esse índice, 
apesar de não diferenciar músculo de tecido adiposo, possui boa correlação com a adi-
posidade.5 A caderneta de saúde da criança fornecida pelo Ministério da Saúde dispo-
nibiliza os gráficos de IMC da Organização Mundial de Saúde3,4 que podem auxiliar os 
profissionais de saúde durante a triagem nutricional e acompanhamento evolutivo da 
criança, incluindo ganho ponderal. Também é possível utilizar o software WHO Anthro 
para a aplicação global da referência da OMS 2006 destinado à faixa etária de 0-5 anos 
de idade e WHO AnthroPlus para a aplicação global da referência da OMS 2007 para a 
faixa etária de 5-19 anos, ambos disponíveis no site da Organização Mundial da Saúde. 
Os pontos de corte para diagnóstico serão apresentados no Quadro 1.
Quadro 1. Classificação de sobrepeso e obesidade, segundo o índice de massa corporal 
por idade.
Fonte: WHO 2006 e 2007.
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
34
2.2. Implicações relacionadas à obesidade infantil
O diagnóstico precoce de excesso de adiposidade infantil é de extrema im-
portância por esta ter implicações imediatas na saúde física da criança, e mais tardias, 
aumentando o risco de obesidade na adolescência e vida adulta.1 O desenvolvimento 
desse excesso de adiposidade na infância é fator de risco para doenças crônicas não 
transmissíveis,6 como cardiovasculares (hiperlipidemia, hipertensão arterial), endocri-
nológicas (diabetes mellitus tipo 2, síndrome metabólica), gastrointestinais (doença 
hepática gordurosa não alcoólica), respiratórias (apneia obstrutiva do sono) e musculo 
esqueléticas (geno valgo, geno varo, risco de fraturas nos membros inferiores) o que 
aumenta o risco de morte prematura na vida adulta.7,8,9,10 É importante ressaltar que 
essa adversidade não é limitada à saúde física, mas pode também impactar de maneira 
negativa a saúde mental com aumento da estigmatização e impacto no comporta-
mento resultando em timidez, ansiedade, agressividade, depressão e dificuldades no 
relacionamento social.11 
Os esforços mundiais relacionados à diminuição da incidência de obesidade 
infantil e suas consequências têm sido focados especialmente na prevenção,10 prin-
cipalmente em três momentos críticos para seu desenvolvimento, que são o período 
gestacional, a fase pré-escolar e a adolescência.12
Os conceitos mais novos sobre este tema referem-se ao período que envolve a 
pré-concepção13 e o pré-natal, com foco em diminuir a exposição intrauterina aos fato-
res de risco que possam influenciar negativamente na vida pós-natal.14 Assim, durante 
o período gestacional é importante identificar fatores de risco associados à saúde ma-
terna como pré-eclâmpsia,15 diabetes gestacional,16 doenças cardiovasculares, obesi-
dade,17 estado nutricional da gestante (IMC pré-gestacional e ganho de peso durante 
a gestação),18,19 exposição à xenobióticos20 e padrão alimentar insatisfatório.1,21,22,23
Outras fases que merecem atenção para o desenvolvimento de obesidade são 
a infância e adolescência, uma vez que ocorre a definição do número de células adipo-
sas, que se tornarão relativamente estáveis na vida adulta. De fato, estudos mostram 
que indivíduos adultos que perdem peso mantêm o número dessas células após ema-
grecimento.24,25 Portanto, na fase pré-escolar, caso haja hábitos de vida inadequados, 
poderá ocorrer maior renovação de tecido adiposo associado à sua disfunção12,25,26 o que 
aumenta o risco de manutenção da obesidade na adolescência e na vida adulta.12,25,26,27 
Além dos determinantes biológicos, a forte influência do ambiente no desen-
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
35
volvimento da obesidade infantil também deve ser considerada.22 A urbanização, a 
renda familiar e o fácil acesso a redes de supermercados e fast food comprometem 
a escolha de alimentos com melhor qualidade nutricional.28 Isso leva ao aumento do 
consumo de alimentos ricos em gorduras, principalmente saturada e trans, açúcar e sal, 
ou seja, alimentos densamente energéticos e pouco nutritivos (Tabela 1). Como conse-
quência dessas escolhas ocorre a redução da frequência de refeições elaboradas com 
alimentos in natura ou minimamente processados feitas em família.29,30 Somado a disso, 
mudança no estilo de vida ocasionada pela redução da atividade física e aumento de 
comportamento sedentário tem sido influenciada pelo uso de transporte motorizado 
e pelo maior tempo gasto com tela (computador, celular, televisão, videogame),1 esta 
última, associada também ao maior consumo de alimentos não saudáveis, especial-
mente alimentos ultraprocessados.31 
Tabela 1. Alimentos ricos em sódio, açúcar de adição egordura trans.
 Assim, o estabelecimento da obesidade infantil envolve comportamentos individu-
ais associados ao meio ambiente, necessitando dessa forma de uma série de intervenções 
assertivas para reduzir o risco de desenvolvimento da mesma e de diversas outras doenças 
que culminarão em pior qualidade de vida na fase adulta. 
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
36
2.3. Prevenção da obesidade infantil
 Por se tratar de uma doença multifatorial, as estratégias para sua prevenção 
devem englobar ações multivariadas e os profissionais de saúde devem estar treinados 
para orientar crianças, adolescentes, pais e comunidades sobre hábitos alimentares 
saudáveis, prática de atividade física e mudanças comportamentais.10,32 
 Apoiar um ambiente que incentive preferências alimentares saudáveis nos 
primeiros cinco anos de vida é fundamental para estabelecer um padrão alimentar 
adequado.6,10 Isso acontece porque crianças são influenciadas e direcionadas pelo 
comportamento alimentar dos pais/cuidadores e colegas, pela disponibilidade de ali-
mentos dentro e fora de casa, pelo marketing e propaganda voltados para o público 
infantil. Todos esses estímulos interferem no padrão que será adotado por elas, como 
por exemplo, escolha do tamanho das porções e frequência de consumo de determi-
nados alimentos.33 
 Para manter um crescimento e desenvolvimento saudável é imprescindível a 
orientação quanto à ingestão alimentar de energia e nutrientes estabelecidos pela 
DRIs proposta de acordo com a idade, estágio da vida e sexo. 34,35,36,37,38,39,40 
Em alguns casos, como por exemplo, gestação e os primeiros anos de vida, alimentos 
fortificados e suplementos alimentares podem ser necessários para atingir tais reco-
mendações.17,19,41 Adiante serão abordadas medidas preventivas da obesidade em di-
ferentes estágios da vida.
2.4. Gestação
 Para prevenção de obesidade infantil, o profissional de saúde deverá ter uma 
visão mais ampliada quanto aos aspectos diretamente relacionados à saúde materno-
-fetal-infantil antes mesmo da concepção.18 As mulheres, em idade fértil, que estejam 
com magreza ou sobrepeso/obesidade e desejam engravidar devem ser incentivadas 
a mudar seu estilo de vida por meio de mudanças no hábito alimentar e prática de 
atividade física.10,19,21,41 Com o objetivo de se alcançar o adequado crescimento e de-
senvolvimento infantil, a mesma deve ser orientada quanto a importância de uma nu-
trição adequada durante os primeiros 1000 dias, que compreendem o período desde 
a concepção aos 2 primeiros anos de vida.42,43 Em contrapartida, a má nutrição materna 
durante esta “janela de oportunidades” poderá ocasionar danos irreversíveis ao cére-
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
37
bro do bebê, além de aumentar o risco de desenvolvimento de doenças crônicas na 
vida adulta, como obesidade e diabetes.44
 Durante a gestação é de suma importância a manutenção de ações educativas 
para a alimentação saudável visto que a gestante deverá ganhar peso de acordo com 
seu IMC pré-gestacional.19,21,45 Além disso, deve receber tratamento médico e nutri-
cional para comorbidades, caso existam, pois isso pode imprimir melhores caraterísti-
cas de saúde em seus filhos.45,46,47 Gestantes tendem a superestimar sua necessidade 
energética, sendo fundamental informá-las que esse aumento de fato é pequeno (em 
torno de 10%)19 desmitificando que gestante deve “comer por dois” para suprir suas 
necessidades e as do bebê. A ingestão excessiva de energia é prejudicial por aumentar 
o ganho de peso materno e consequentemente do feto.19,43 
 Quanto a distribuição dos macronutrientes, essa deve seguir recomendações 
semelhantes a da população saudável, com exceção da ingestão proteica que deve ser 
discretamente aumentada para atender as demandas desse período.19,21,41 Uma ressalva 
pode ser feita quanto a maior necessidade de ácidos graxos poli-insaturados ômega 3, 
principalmente na proporção ácido docosaexaenoico, o qual deve ser suplementado, 
especialmente em gestantes que não consumam alimentos-fonte.19,21 A ingestão ade-
quada de folato de ser corrigida desde o início da gestação, via suplementação, uma 
vez que é difícil alcançar as necessidades pela dieta. Demais micronutrientes como 
ferro, colina, vitamina B12, B6 e D também serão fundamentais para a diminuição de 
desfechos desfavoráveis ao desenvolvimento fetal e podem ser suplementados levan-
do em consideração história clínica, anamnese, cultura e região geográfica.19,21,34,36,40
 Recomendações adicionais importantes durante a gestação são redução da 
ingestão de cafeína, evitar a ingestão de alimentos crus, malpassados ou mal higieniza-
dos, incentivo ao consumo de alimentos orgânicos e à prática de atividade física. Outro 
fator importante é a redução da exposição à xenobióticos, como metais pesados, ci-
garro/drogas, inseticidas/agrotóxico, bisfenol A (BPA) e bebidas alcoólicas.19,21 
 Concomitante ao que foi exposto é importante focar na qualidade alimentar glo-
bal48 priorizando alimentos in natura ou minimamente processados e preparações culiná-
rias à base desses alimentos, reduzindo ao máximo o consumo de alimentos processados e 
ultraprocessados.19 Para melhor compreensão, a classificação NOVA categoriza os alimen-
tos de acordo com a extensão e o propósito de seu processamento, considerando-se:29
• Alimentos in natura - partes comestíveis de plantas (sementes, frutos, folhas, caules, 
raízes), animais (músculos, vísceras, ovos, leite), cogumelos, algas e água própria para consumo.
Obesidade infantil: uma abordagem prática e transdisciplinar / ILSI Brasil
38
• Alimentos minimamente processados - alimentos in natura submetidos a pro-
cessos como remoção de partes não comestíveis ou não desejadas dos alimentos, 
secagem, desidratação, trituração ou moagem, fracionamento, torra, cocção apenas 
com água, pasteurização, refrigeração ou congelamento, acondicionamento em em-
balagens, empacotamento a vácuo e fermentação não alcoólica (farinha de trigo, man-
dioca ou milho, leite pasteurizado, leite em pó, iogurte natural, café, macarrão). 
• Ingredientes culinários processados - incluem substâncias extraídas direta-
mente de alimentos in natura ou da natureza e consumidas como itens de preparações 
culinárias (sal, açúcar, mel, manteiga, creme de leite, óleo de soja ou oliva). 
• Alimentos processados - incluem produtos fabricados a partir de alimentos in 
natura ou minimente processado com a adição de sal, açúcar, óleo, vinagre ou outro 
ingrediente culinário, sendo em sua maioria produtos com dois ou três ingredientes 
(queijos, pães, compotas e conservas).
• Alimentos ultraprocessados – formulações industriais feitas com cinco ou mais 
ingredientes. Incluem substâncias e aditivos como açúcar, óleos, gorduras e sal, além 
de antioxidantes, estabilizantes, conservantes corantes, aromatizantes, realçadores de 
sabor, produtos à base de petróleo e vários tipos de aditivos usados para adicionar 
aos produtos de propriedades sensoriais atraentes (ex. refrigerante, suco em pó, pão 
de forma, salgadinhos, biscoitos, fórmula infantil, composto lácteo, temperos prontos, 
salsicha, hambúrguer, macarrão instantâneo). 
2.5. Lactente
 No primeiro ano de vida do lactente, o aleitamento materno exclusivo até 6 
meses sob livre demanda e a amamentação continuada até 24 meses ou mais, com in-
trodução adequada de alimentação complementar é de fundamental importância para 
se evitar ganho de peso excessivo e obesidade futura.17,22,32,33,49-53
 Ultimamente tem-se focado na relação entre a composição da microbiota in-
testinal e o desenvolvimento de obesidade.54 Já é consenso de que a escolha do tipo 
de parto (vaginal ou cesariano),55 do tipo de aleitamento (leite materno, fórmula infantil 
ou leite de vaca fluido)56 e do tipo de alimentação complementar irão contribuir para a 
modulação

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