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Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico Unidade 1 Avaliação psicológica: definição, histórico e formação Diretor Executivo DAVID LIRA STEPHEN BARROS Gerente Editorial CRISTIANE SILVEIRA CESAR DE OLIVEIRA Projeto Gráfico TIAGO DA ROCHA Autoria JÉSSICA DE ASSIS SILVA SHEILA MARIA PRADO SOMA FÁBIO PEREIRA SOMA AUTORIA Jéssica de Assis Silva Sou formada em Psicologia pela Universidade Federal do Pará, com Mestrado em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos e Doutorado em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo. Adicionalmente, sou especialista em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP sendo docente em cursos de graduação e especialização e gostaria de dividir um pouco dessa experiência com você! A Editora Telesapiens e eu estamos empenhados em te acompanhar nessa jornada! Conte conosco! Sheila Maria Prado Soma Sou Psicóloga há 22 anos, com mestrado e doutorado pela Universidade Federal de São Carlos. Tenho experiência em Psicologia Clínica e docência no ensino superior, pois trabalhei todo esse tempo com a formação de profissionais nessa área e produção de conteúdos e pesquisas. Psicologia é a minha paixão e, transmitir minha experiência profissional e de vida àqueles que estão em formação é um dos focos do meu trabalho. Por esse motivo fui convidada pela Editora Telesapiens a integrar seu elenco de autores independentes. Fábio Pereira Soma Tenho formação em Filosofia, Pedagogia e sou Mestre em Filosofia pela Unesp, com experiência técnico-profissional na área de educação de mais de 12 anos. Sou apaixonado pelo que faço e adoro transmitir minha experiência de vida àqueles que estão iniciando em suas profissões. Por isso fui convidado pela Editora Telesapiens a integrar seu elenco de autores independentes. Estamos muito felizes em ajudar você nesta fase de muito estudo e trabalho. Conte conosco! ICONOGRÁFICOS Olá. Esses ícones irão aparecer em sua trilha de aprendizagem toda vez que: OBJETIVO: para o início do desenvolvimento de uma nova compe- tência; DEFINIÇÃO: houver necessidade de se apresentar um novo conceito; NOTA: quando forem necessários obser- vações ou comple- mentações para o seu conhecimento; IMPORTANTE: as observações escritas tiveram que ser priorizadas para você; EXPLICANDO MELHOR: algo precisa ser melhor explicado ou detalhado; VOCÊ SABIA? curiosidades e indagações lúdicas sobre o tema em estudo, se forem necessárias; SAIBA MAIS: textos, referências bibliográficas e links para aprofundamen- to do seu conheci- mento; REFLITA: se houver a neces- sidade de chamar a atenção sobre algo a ser refletido ou dis- cutido sobre; ACESSE: se for preciso aces- sar um ou mais sites para fazer download, assistir vídeos, ler textos, ouvir podcast; RESUMINDO: quando for preciso se fazer um resumo acumulativo das últi- mas abordagens; ATIVIDADES: quando alguma atividade de au- toaprendizagem for aplicada; TESTANDO: quando o desen- volvimento de uma competência for concluído e questões forem explicadas; SUMÁRIO Conceito e histórico de avaliação psicológica ............................... 10 Conceito de Avaliação Psicológica .................................................................................... 10 Histórico da Avaliação Psicológica ..................................................................................... 15 Ética e legislação em Avaliação Psicológica...................................22 Aspectos éticos ................................................................................................................................22 Legislação em Avaliação Psicológica ..............................................................................26 Ética e formação em Avaliação Psicológica ................................................................28 Elaboração de documentos em avaliação psicológica .............. 32 Normas para a elaboração de documentos decorrentes de Avaliação Psicológica ...........................................................................................................................................32 Tipos de documentos psicológicos ................................................................................. 36 Declaração ....................................................................................................................... 36 Atestado psicológico ................................................................................................ 36 Relatório psicológico ................................................................................................ 38 Relatório multiprofissional .................................................................................... 39 Laudo psicológico ...................................................................................................... 40 Parecer psicológico .................................................................................................... 41 Guarda de documentos decorrentes de Avaliação Psicológica .................. 41 Devolutiva de Avaliação Psicológica ..................................................44 Etapas do processo de Avaliação Psicológica ..........................................................44 Entrevista devolutiva .....................................................................................................................45 Entrevista devolutiva e normatização atual ................................................................ 50 Entrevista devolutiva e pesquisa em Avaliação Psicológica ...........................52 7 UNIDADE 01 Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico 8 INTRODUÇÃO Você sabia que a área de Avaliação Psicológica é uma das mais tradicionais no campo da Psicologia e está em constante crescimento? Nesta unidade você terá a oportunidade de conhecer mais de perto essa área a começar pelo capítulo 1, em que abordaremos o conceito e os principais marcos históricos desse campo. Já no capítulo 2 você terá a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre os aspectos éticos e a legislação que permeia o trabalho do profissional no campo de avaliação. Adicionalmente, o capítulo 3 descreve os principais documentos envolvidos em uma avaliação psicológica, as normas vigentes e discute acerca da guarda desses documentos. Por fim, a devolutiva da avaliação é importante e discutida no capítulo 4 para orientar sobre a importância e responsabilidade que envolve um dos últimos passos que compreende essa avaliação. Curioso para aprender mais sobre essa área tão importante no campo da Psicologia? Ao longo desta unidade letiva você mergulhará neste universo! Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico 9 OBJETIVOS Olá. Seja muito bem-vindo à Unidade 1. Nosso objetivo é auxiliá- lo no desenvolvimento das seguintes competências profissionais até o término desta etapa de estudos: 1. Conhecer o desdobramento histórico da Avaliação Psicológica. 2. Discutir princípios éticos e legislação em Avaliação Psicológica. 3. Descrever e diferenciar os principais documentos pertinentes ao campo de Avaliação Psicológica. 4. Debater sobre formas de devolutiva da Avaliação Psicológica. Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico 10 Conceito e histórico de avaliação psicológica OBJETIVO: Ao término deste capítulo você conseguirá entender como funciona o processo histórico da Avaliação Psicológica. Isto será fundamental para o exercício de sua profissão e para a compreensão do que se entende hoje por esse campo de atuação. Então? Motivado para desenvolver essa competência e ter um diferencial no mercado de trabalho? Vamos juntos cumprir essa meta! Conceito de Avaliação Psicológica A Avaliação Psicológica (AP) é a única atividade reconhecidamente privativa do profissional de Psicologia, cuja compreensão de determinado fenômeno se dá a partir de uma base científica que envolve desde conceitos importantes a teoriascompor o mesmo. Na seção VII da Resolução 06/2019 é essencial a entrega de relatório, laudo a realização da entrevista devolutiva. Essa entrevista pode ser realizada com uma diversidade de atores, a exemplo do que pode ser visto na figura. Figura 23 - Possibilidades de realização de entrevista devolutiva segundo Resolução nº 06/2019 do CFP Fonte: Elaborado pelos autores (2021). Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico https://e-psi.cfp.org.br/wp-content/uploads/2018/11/Resolu%C3%A7%C3%A3o-Comentada-Documento-Final.pdf#:~:text=%C3%89%20importante%20salientar%20que%20a%20Resolu%C3%A7%C3%A3o%20CFP%20n%C2%BA,a%20presta%C3%A7%C3%A3o%20de%20todos%20os%20servi%C3%A7os%20de%20Psicologia. 52 ACESSE: Para saber mais sobre a legislação atual que trata sobre a elaboração de documentos psicológicos e o componente final da Entrevista Devolutiva, é necessário consultar a última seção do documento, Clique aqui. Entrevista devolutiva e pesquisa em Avaliação Psicológica É sempre importante ao final do processo avaliativo explicitar as razões do que está escrito no documento. Além disso, o profissional deve realizar a entrevista sempre que essa for solicitada, seja pelo indivíduo, instituição ou responsáveis. Nunes et al. (2012) aponta que apesar de ser um direito do participante, poucas pesquisas envolvendo o campo de Avaliação Psicológica abordam esse tema. A entrevista devolutiva é uma etapa essencial para a conclusão do estudo, além de reforçar o direito e a consideração quanto aos participantes. A entrevista pode ser utilizada tanto no início da coleta de dados como ao final, numa perspectiva de fornecer uma devolutiva sobre o trabalho realizado, além de ser uma forma também de integração de dados a respeito do que foi avaliado/observado. SAIBA MAIS: O artigo de Cassep-Borges (2009) é um dos poucos que abordam a devolutiva de dados de pesquisa e fornece dados importantes inclusive sobre a percepção dos participantes quanto a essa prática. Confira! CASSEP-BORGES, V. Devoluçăo de dados por correio eletrônico: uma alternativa para pesquisas quantitativas. Avaliaçăo Psicológica, v. 8, n.1, p. 149-152, 2009. Clique aqui. Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2019/09/Resolu%C3%A7%C3%A3o-CFP-n-06-2019-comentada.pdf 53 RESUMINDO: E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo, tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que o processo de avaliação psicológico é composto por várias etapas. Essas etapas podem ser desde a entrevista inicial, de maneira a coletar dados e compreensão da demanda, a seleção de instrumentos e técnicas até a sua aplicação e discussão de resultados. Outras etapas, como a integralização das informações obtidas no processo de avaliação, bem como, a produção de documentos nesse contexto, é o que vai fornecer bases para a realização de uma última etapa, a devolutiva. A entrevista devolutiva é fruto do processo de avaliação e deve conter as principais informações pertinentes ao processo, seja os objetivos do trabalho realizado, seja as discussões quanto a encaminhamentos ou adequação ao contexto do qual a avaliação faz parte. É válido frisar que é um direito ao indivíduo a devolutiva e deve ser embasada tecnicamente e cientificamente. A linguagem adotada varia de acordo com quem participa da devolutiva, sempre devendo manter o sigilo das informações. A normatização 06/2019 do CFP, além de discutir sobre a elaboração de documentos psicológicos, também fornece as diretrizes para a elaboração da entrevista devolutiva. Sempre que essa devolutiva for solicitada, o profissional deve realizá-la, independente de um contexto presencial ou à distância. Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico 54 REFERÊNCIAS ANACHE, A. A.; REPPOLD, C. T. Avaliação psicológica: Implicações éticas. In SANTOS, A. A. et al. (orgs.). Avaliação psicológica: Diretrizes para a regulamentação da profissão, pp. 57-86. Brasília, DF: Conselho Federal de Psicologia, 2010. AMBIEL, R. A. M.; PACANARO, S. V. Da testagem à Avaliação Psicológica: aspectos históricos e perspectivas futuras. In: AMBIEL, R. A. M. et al. Avaliação Psicológica: guia de consulta para estudantes e profissionais da Psicologia, p. 10-27. São Paulo: Casa do Psicológo, 2011. BANDEIRA, D. 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Disponível em: https://bit.ly/2VJziCA. Acesso em: 3 ago. 2021. CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Resolução CFP nº 06/2019 comentada: Orientações sobre a elaboração de documentos escritos produzidos pela (o) psicóloga (o) no exercício profissional. Brasília: CFP. Disponível em: https://bit.ly/3fRUmO4. Acesso em: 3 ago. 2021. Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico 55 CUNHA, J. A. Psicodiagnóstico-V. 5. ed. rev. Porto Alegre: Artes Médicas, 2000. FONSECA, C. M. S. M. Avaliação Psicológica e suas vicissitudes: a formação do psicólogo como foco. In: Grupo de Trabalho do Ano da Avaliação Psicológica. Ano da Avaliação Psicológica: Textos geradores. Brasília: Conselho Federal de Psicologia, p. 133-138, 2011. FRIZZO, N. P. Infrações éticas, formação e exercício profissional em Psicologia. (Dissertação) - Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC, 2004. HUTZ, C. S. Questões éticas na avaliação psicológica. In: HUTZ, C. S.; BANDEIRA, D. R.; TRENTINI, C. M. (orgs.), Psicometria. 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Psicologia: Ciência e Profissão, v. 38, n.1, p. 8-21, 2018. Avaliação Psicológica e Psicodiagnósticoe noções que subsidiam as interpretações acerca desse fenômeno (MÄDER, 2016). No caminho compreendido entre a demanda e a devolutiva de uma Avaliação Psicológica, segundo Mäder (2016), “há aspectos tanto técnicos quanto éticos que devem ser considerados”. Há muitos profissionais míopes quanto ao verdadeiro formato de uma avaliação psicológica, a qual jamais deve ser reduzida a aplicação de testes (MÄDER, 2016). A Figura 1, a seguir, contempla as dimensões a serem consideradas na Avaliação Psicológicacomo aponta Cohen et al. (2014): Figura 1 - Dimensões da Avaliação Psicológica conforme Cohen (2014) Técnica Ética e Legal Relacional Social Profissional Fonte: Elaborado pelos autores (2021). Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico 11 Trata-se de uma prática processual não restrita, cujo método de avaliação escolhido depende desde a demanda atendida ao foco da observação (se criança, adulto, idoso etc.) sendo tal prática por vezes fornecedora das bases da atuação do psicólogo (MÄDER, 2016). A dimensão técnica refere-se à confiabilidade e ao valor dessa avaliação que envolve a responsabilidade do profissional, o conhecimento e suas habilidades, além de sua própria experiência nessa prática. Tal confiabilidade pode também ser discutida a partir dos tipos de recursos utilizados, se entrevistas, testes ou mesmo observação e esses analisados a partir de sua articulação as variáveis estudadas e os diferentes contextos (MÄDER, 2016). Há uma distinção, necessária entre testagem psicológica e avaliação psicológica, e essa diferença será descrito no Quadro 1 a seguir: Testagem refere-se ao uso de testes psicológicos para a avaliação. Quadro 1 – Comparativo entre testagem psicológica e avaliação psicológica Tópico Testagem Psicológica Avaliação Psicológica Objetivo Obtenção de medidas Resposta a um encaminhamento, resolução de problema ou tomada de decisão. Processo Individual ou em grupo; envolve o uso de testes Descrever o “como”, não é limitado a resultados. Avaliador Não é essencial Essencial desde o planejamento até as conclusões. Habilidade do avaliador Habilidades técnicas envolvendo a aplicação, correção e interpretação de testes Habilidades para a seleção, avaliação, sistematização, integração e leitura, conceitualização da demanda. Resultados Escores Responder à solicitação a partir da mobilização de diversas fontes de dados para esclarescimento de uma demanda. Fonte: Elaborado pelos autores com base em Mäder (2016, pp. 18-19). Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico 12 Na literatura, há aqueles autores que criticam o uso de testes, uma vez que tal prática seria excludente e um trabalho de cunho tecnicista, enquanto há outros profissionais que destacam a sua legitimidade como ferramenta para o estabelecimento de rigor científico a avaliação sendo um importante instrumento de diagnóstico (CESCON, 2013). O ideal seria a busca por um meio-termo nessa prática, visto que há de se resguardar o próprio indivíduo em sua relação com a sociedade na avaliação, a partir do reconhecimento do próprio Código de Ética Profissional do Psicólogo (2005), ser pautado também na Declaração Universal dos Direitos Humanos, o que corrobora com a importância de trabalhar para além do indivíduo, mas o considerando em seu contexto social e histórico (CESCON, 2013). Além dos testes, a avaliação psicológica pode conter outros recursos comuns e fundamentais, tais como a entrevista ou a observação. Adicionalmente, outras estratégias podem ser utilizadas de forma complementar a avaliação, como a dinâmica de grupo, estratégias lúdicas ou mesmo uma pesquisa de cunho documental (MÄDER, 2016). Conforme destacado por Mäder (2016), “um processo de AP envolve diversas etapas”, conforme descrito a seguir: Figura 2 - Exemplo de etapas envolvendo a Avaliação Psicológica Identificação do fenômeno Hipótese Contrato Levantamento de dados Técnicas Instrumentos Racioncínio clínico Elaboração de documento Devolutiva Fonte: Elaborado pelos autores (2021). Alguns autores aproximam esse processo à ideia de psicodiagnóstico, em que há a aquisição de informações relativas à queixa, ao levantamento dos sintomas presentes, à coleta de dados pertinentes à história clínica do Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico 13 cliente, à observação de seu comportamento e, em adição, à discussão de resultados frutos da aplicação de testes, sejam estes psicométricos ou projetivos. Dessa forma, tal prática permite estabelecer classificações e predições quanto ao comportamento do indivíduo além de favorecer o planejamento de uma intervenção adequada (CUNHA, 2000). Ainda sobre as dimensões da AP, a dimensão ética e legal envolve atentar-se ao nível de complexidade do fenômeno estudado além do próprio tipo de intervenção utilizada. Cabe ao profissional destacar alguns pontos presentes na figura a seguir, sobre essa dimensão da avaliação: Figura 3 - Exemplo do que deve ser avaliado quanto a dimensão ética e legal da Avaliação Psicológica Dimensão técnica Capacitação técnica Redução de danos Demanda Sofrimento envolvido Questões emocionais Fonte: Elaborado pelos autores (2021). Nesse quesito, embora variáveis do contexto estejam presentes e por vezes façam parte de uma avaliação, essas devem ser ponderadas na avaliação (MÄDER, 2016). Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico 14 Cabe ao profissional, nesse caso, lembrar-se do caráter técnico, científico e ético a que deve se referir à avaliação (MÄDER, 2016). A conduta ética pode ser avaliada desde antes de uma avaliação, na escolha do método, por exemplo, até a elaboração e guarda de documentos decorrentes da avaliação. IMPORTANTE: O Código de Ética Profissional e a normatização estabelecidapelo Conselho Federal de Psicologia (CFP) devem ser revistas e atualizadas por parte do avaliador no exercer de sua profissão (MÄDER, 2016). Outra dimensão deve ser discutida na AP, essa dimensão é a relacional. Para tanto, é imprescindível que o profissional busque sempre a postura de neutralidade e imparcialidade mesmo diante de conflito ou em meio a pressões externas. A fragilidade do objeto de análise fica exposta e nesse momento é importante compreender que há uma análise dos fenômenos psicológicos e a funcionalidade dos mesmos (MÄDER, 2016). A própria avaliação pode ter um efeito terapêutico e a busca de um vínculo salutar entre o profissional e o observado é fundamental (MÄDER, 2016). Para Mäder (2016), dimensão social refere-se à atenção aos possíveis desdobramentos de uma AP à pessoa parte dessa avaliação, sobretudo a maneira com a qual repercute socialmente os resultados oriundos de uma avaliação. Segundo Tavares (2010), a AP pode tanto ser instrumento de auxílio como de exclusão ao avaliado. Nesse sentido, deve-se sempre ponderar as consequências positivas ou negativas e as motivações envolvendo essa avaliação. Adicionalmente e de maneira geral, atenção aos direitos humanos torna-se imperativa nesse contexto. Por último, a dimensão profissional implica que o profissional fique atento a aspectos teórico práticos de sua intervenção. A capacitação ou o domínio do seu exercer profissional reflete no conhecimento desse profissional quanto à legislação vigente (normas do CFP e código de ética profissional), o domínio no campo da psicopatologia e da psicometria, Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico 15 além das habilidades envolvendo o planejamento e execução da AP ou mesmo a integração das informações obtidas. Para tal, é fundamental a formação e atualização continuada do profissional (MÄDER, 2016). DEFINIÇÃO: Segundo a Resolução do CFP nº 007/2003, a AP é um processo que envolve desde a coleta de dados e estudos acerca de um fenômeno, mas também envolve o interpretar de dados a respeito desse fenômeno psicológico, devendo contemplar, pois, a relação tambémdesse com o indivíduo e com a sociedade num contexto mais amplo (CESCON, 2013). Histórico da Avaliação Psicológica Conhecer o processo histórico de AP é fundamental pois ao longo do tempo, a demanda de estudo envolvendo diferentes fenômenos apresenta diferentes configurações também desse exercer profissional (MÄDER, 2016). Inclusive Cunha (2000) cita que a confusão de que a AP seja o sinônimo de testagem implica no fator histórico que permeia o início do século XX, no qual o profissional de fato tinha essa função como seu principal atributo profissional. Tal prática, por vezes, implicava na classificação do indivíduo em aspectos de normalidade e adequação à sociedade. Desde o início do século XIX, na Alemanha e França, começou a haver a preocupação quanto a avaliação do grau de funcionamento cognitivo do indivíduo que tivesse danos no cérebro, bem como o diagnóstico de algum transtorno (MCREYNOLDS, 1986 apud AMBIEL; PACARANO, 2011). A Alemanha também foi o local de criação do primeiro laboratório voltado à pesquisa psicológica em Leipzig na Alemanha, pelo teórico Wilhelm Wundt. Como desdobramento, muitos pesquisadores começaram a ser treinados tanto na Europa quanto nos Estados Unidos (AMBIEL; PACARANO, 2011). Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico 16 Figura 4 - Wilhelm Wundt Fonte: Wikimedia Commons Francis Galton começou o estudo envolvendo a mensuração de funções psicológicas em seu laboratório antropométrico, com estudos voltados á discriminação sensorial, por exemplo. Posterior a esse teórico, temos o americano James M. Catell, cujo foco de estudo seria o funcionamento da mente em seus processos elementares (AMBIEL; PACARANO, 2011). Em 1900, na França, Binet e Simon foram os responsáveis pela preocupação com uma maior precisão de medidas de avaliação e também com o estudo de funções mais amplas, tais como a memória entre outras. Dessa forma, foi criada a Escala Binet-Simon que consistia num instrumento envolvendo 30 itens classificados em ordem crescente, conforme a dificuldade apresentada (AMBIEL; PACARANO, 2011). Em tal teste, sob encomenda do governo francês, havia a avaliação de funções que convergiam para a avaliação do nível de inteligência de crianças na cidade de Paris para que fosse possível o direcionamento dessas crianças a um sistema que contemplasse possíveis dificuldades (AMBIEL; PACARANO, 2011). Segundo Ambiel e Pacarano (2011), foi Wilhelm Stern a estabelecer o quoeficiente intelectual posteriormente aprimorado por Terman na Universidade de Stanford nos Estados Unidos em 1916. Com a adaptação da Escala Binet Simon para os EUA, foi estabelecida a Escala Stanford- Binet. Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico 17 VOCÊ SABIA? Para o teste de QI era realizada uma avaliação da capacidade intelectual, sugerida por Stern e Terman, a partir da divisão do índice estabelecido a partir da idade mental (IM) pela idade cronológica (IC) e posteriormente era realizada a multiplicação desse valor por 100. Se a idade mental ultrapassasse a idade cronológica, o escore correspondente seria acima de 100, ao passo que se a idade cronológica ultrapassasse a idade mental, o escore seria abaixo de 100. Dubois (1970 apud AMBIEL e PACARANO, 2011) destaca que após o estabelecimento e disseminação da escala Stanford Binet outros instrumentos foram construídos, principalmente no contexto da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Nesse contexto, eram apreciados testes que tinham como características a simplicidade e rapidez em sua aplicação, bem como formas de avaliação que pudessem ser aplicados de maneira coletiva, a exemplo dos instrumentos Army Alpha e Army Beta, instrumentos não-verbais voltados a avaliação de inteligência. No pós-guerra, por exemplo, esses instrumentos foram liberados para uso civil após revisão, estudos em diferentes contextos e com indivíduos de diferentes faixas etárias (AMBIEL; PACARANO, 2011). Segundo Ambiel e Pacarano (2011), o contexto da Primeira Guerra Mundial foi fundamental para a construção e aprimoramento do uso de testes, favorecendo tanto a sua qualidade quanto a sistematização de sua administração ou mesmo correção. Além do mais, os mesmos autores apontam que a partir de 1920 houve o desenvolvimento de testes nos mais variados contextos e demandas, como o escolar, a exemplo do surgimento do School Aptitude Test (SAT). Charles Spearman foi um dos nomes expressivos na fase inicial da Psicometria com o estudo de modelos matemáticos associados tanto à discussão quanto ao funcionamento mental, sendo o responsável pelo refinamento do método de correlação de Karl Pearson. Houve, nesse período, a sugestão de que as habilidades cognitivas eram convergentes a uma capacidade mais ampla, o nomeado “fator g”. Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico 18 Ambiel e Pacarano (2011) reforçam o papel de Thurstone em 1938 em contraponto a essa capacidade geral, sugerindo que houvesse habilidades específicas e independentes sem a articulação para uma habilidade geral. Foi Carroll, em 1993 a propor uma integração das teorias de inteligência que envolvesse um modelo hierárquico a respeito das habilidades estudadas. Figura 5 - Karl Pearson, biometricista, um dos responsáveis pelo método de correlação Fonte: Wikimedia Commons A discussão e o desenvolvimento acerca dos testes foram de extrema importância para a Psicologia, uma vez que, permitiram que a teoria fosse também testada num contexto real, auxiliando nos avanços científicos dessa ciência (AMBIEL; PACARANO, 2011). Ao longo da história e durante o surgimento de várias abordagens psicológicas o objetivo em comum era a compreensão do homem sob uma perspectiva individual, ou seja, o papel do profissional na Psicologia ainda era uma forma de avaliação (BOCK, 2001). Essa forma de avaliar o sujeito no âmbito individual foi se modificando, principalmente com o surgimento da Psicologia Sócio-Histórica, no qual se passou a contemplar o indivíduo como um ser também ativo no processo e arraigado de aspectos sociais, histórico e culturais, sendo impossível dissociá-lo de sua realidade social (CESCON, 2013). Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico 19 Ao refletir sobre o histórico brasileiro no âmbito da Avaliação Psicológica, o uso de testes, inicialmente refletiu num período de empolgação em seu uso, posteriormente surgiram críticas quanto a esse método restrito de avaliação e a habilidade de avaliadores, o que levou a prática para uma etapa de organização e regulamentação da mesma, sempre em constante atualização (PASQUALI; ALCHIERI, 2001). Figura 6 - Fases no Histórico de Avaliação Psicológica no Brasil segundo Pasquali e Alchieri (2001) 1836-1930 Produção médico- científica acadêmica 1930-1962 Psicologia no ensino na universidade 1962-1970 Cursos de graduação em Psicologia 1970-1987 Cursos de pós- graduação 1987 em diante Laboratórios de pesquisa Fonte: Elaborado pelos autores (2021). A Figura 6 aponta que uma das fases iniciais na discussão do desenvolvimento da AP no Brasil, envolve a Psicologia como sendo parte da grade curricular de cursos de Medicina, sobretudo envolvendo a discussão de processos psicológicos básicos. A partir de 1930 houve a presença da Psicologia em outros cursos na área aplicada, tais como o jornalismo e administração, por exemplo, e uma maior disseminação e construção de saberes dentro desse campo. Os autores apontam ainda, que o próprio estabelecimento da Psicologia enquanto profissão, a partir da Lei nº 4.119, de 27 de agosto de 1962, contribuiu para a criação de cursos de graduação e que, posteriormente, a criação do Conselho Federal de Psicologia e os Conselhos regionais na década de 1970 auxiliaram a reflexão acerca de currículos mínimos e nos conteúdos básicos para a formação profissional. Ambiel e Pacarano (2011) destacam que essa nova configuraçãocontribuiu ao debate quanto ao uso de testes em Psicologia, uma discussão de cunho científico e político com destaque para a baixa qualidade de formação dos profissionais no âmbito da avaliação. Após críticas quanto a práticas abusivas no uso da testagem psicológica nas décadas de 80 e 90, houve o investimento em formação. A Fundação do Instituto Brasileiro de Avaliação Psicológica favoreceu não só a construção de testes, mas também o debate quanto a adaptação e a validação de testes psicológicos no Brasil. Uma das ações Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico 20 foi a criação da Revista de Avaliação Psicológica, além disso a promoção de eventos científicos na área. Com o tempo, cursos de pós-graduação nessa área também foram possíveis e contribuíram para os alicerces da prática realizada atualmente no Brasil (AMBIEL; PACARANO, 2011). A Resolução nº 02/2003 contribuiu para o estabelecimento de critérios mínimos de qualidade para o uso de testes, favorecendo a adaptação dos mesmos ao contexto brasileiro e também o aumento de pesquisas na área (AMBIEL; PACARANO, 2011; CFP, 2003). Em 2003, foi estabelecido o Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos (SATEPsi) em que há avaliação de instrumentos psicológicos conforme a sua adequação a realidade brasileira e ao seu alcance quanto ao fenômeno a ser observado e avaliado, o que contribuiu para o aprimoramento da AP (AMBIEL; PACARANO, 2011; CFP, 2003). ACESSE: Acesso o site do SATEPSI para a verificação de testes validados e de uso autorizado em atividades de avaliação. Clique aqui. Adicionalmente, no ano de 2011 foi estabelecido em uma ação do CFP como um ano temático da Avaliação Psicológica em que houve discussões em três eixos: formação, relações institucionais e participação da psicologia em outros contextos e áreas e um terceiro eixo que articulasse os dois primeiros (AMBIEL; PACARANO, 2011). SAIBA MAIS: Para saber mais sobre o ano de 2011, uma boa dica é acessar o material do CFP que conta com textos sobre os três eixos debatidos naquele ano elaborado pelo Grupo de Trabalho responsável. Grupo de Trabalho do Ano Temático da Avaliação Psicológica. Ano da Avaliação Psicológica: Textos geradores. Brasiília: Conselho Federal de Psicologia, 2011. Clique aqui. Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico https://satepsi.cfp.org.br/ https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2013/04/anodaavaliacaopsicologica_prop8.pdf 21 RESUMINDO: E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo, tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo desse capítulo, vamos resumir tudo o que o que foi proposto. Você deve ter aprendido que a Avaliação Psicológica é uma prática privativa do psicólogo e daí a importância para o seu conhecimento e devida realização. Para uma avaliação bem sucedida, o profissional deve se atentar não só a teoria, mas a diretrizes técnicas e éticas no exercício de sua profissão. A Avaliação Psicológica pode ser entendida em pelo menos cinco dimensões, sendo elas: a)técnica; b) ética e legal; c) relacional; d) social; e e) profissional.Essa prática não deve ser confundida com testagem psicológica, embora o uso de testes tenha uma importância significativa, tanto historicamente quanto no período atual para a prática de avaliação. A Avaliação Psicológica não é restrita ao uso de testes e diferencia-se da testagem psicológica desde os objetivos de seu trabalho até os resultados provenientes dessas práticas. Embora por vezes ter recebido críticas, o uso de testes foram fundamentais para o aprimoramento da Psicologia enquanto ciência, e mesmo para o estabelecimento do campo de Avaliação Psicológica no Brasil e no mundo. Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico 22 Ética e legislação em Avaliação Psicológica OBJETIVO: Ao término deste capítulo você entenderá como funcionam os aspectos éticos e a legislação no exercício da Avaliação Psicológica. Isso será fundamental para entender a responsabilidade técnica e a normatização que envolve esse campo de atuação. Adicionalmente, para a compreensão completa da ética é fundamental o entendimento de que essa também deve passar pela reflexão da formação profissional. E então? Motivado para levar uma prática segura e responsável, contemplando o papel de um verdadeiro profissional na área de Avaliação Psicológica?Vamos juntos conhecer um pouco mais desses aspectos fundamentais para uma formação completa nesse campo! Aspectos éticos Muniz (2018) destaca que 2011, o ano temático da Avaliação Psicológica no Brasil, estabelecido pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP), foi fundamental na articulação dessa área com aspectos não só técnicos, éticos, mas também em diálogo constante com os Direitos Humanos. Ética profissional implica tanto na reflexão quanto na normatização estabelecida sobre a conduta do profissional no exercício de sua profissão e que deve ser colocada em prática (MUNIZ, 2018). Tanto o Código de ética Profissional quanto as normas disponibilizadas pelo Sistema Conselhos (Conselho Federal e Conselhos Regionais) são importantes para nortear a reflexão quanto a prática. Segundo Hutz (2015), a primeira atitude ética do profissional em Avaliação Psicológica é concernente ao se afirmar como apto ou não a realizar esse tipo de trabalho, questionando o nível de domínio teórico prático para a sua execução. Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico 23 Figura 7 - Tópicos importantes para a conduta ética profissional Conduta ética Legislação Atualização/ formação Contexto adequado de avaliação Sigilo Técnicas, métodos e instrumentos de base científica Fonte: Elaborado pelos autores (2021). ACESSE: A Resolução nº 010/2005 é relativa ao Código de Ética Profissional que versa sobre os princípios fundamentais e conta com 72 condutas orientativas ao profissional, baseado nos direitos humanos universais com ideias envolvendo princípios de justiça social, bem comum, reforçando aspectos de dignidade, envolvendo a prática profissional e seu elo com a comunidade atendida. Clique aqui. Particularmente, o conhecimento acerca do Código de Ética Profissional é imprescindível, pois viabiliza a consciência do profissional quanto a sua responsabilidade e também para que esse esteja ciente de que há consequências no exercer de sua profissão (MUNIZ, 2018). Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2012/07/codigo-de-etica-psicologia.pdf 24 Figura 8 - Resumo estrutural do Código de Ética Profissional Direitos Humanos Universais Código de ética Profissional 7 princípios fundamentais 7 princípios fundamentais Fonte: Elaborado pelos autores (2021). É importante pensar que, o primeiro código de ética remete ao ano de 1975 e que, a partir do que foi discutido ao longo do tempo em articulação com a categoria profissional e demandas da sociedade, foi feita uma reformulação para um novo documento em 2005. Dessa forma, é necessário frisar que se trata de um processo dinâmico e articulado com as alterações tanto de direitos como de deveres do indivíduo ao longo do tempo (MUNIZ, 2018). Apesar de uma estrutura ampla, algumas condutas presentes, sobretudo nos artigos 1º e 2º do Código de Ética profissional, que envolvem respectivamente deveres fundamentais. Assim, o que é vedado ao profissional de Psicologia no exercer de sua profissão, aproxima-se ao que é esperado no contexto de avaliação (MUNIZ, 2018), verifica-se essa informação conforme o Quadro 2, a seguir: Quadro 2 – Condutas esperadas e vedadas ao profissional de Psicologia segundo os artigos 1º e 2º do código de ética profissional (Resolução nº 010/2005) em consonância com a área de Avaliação Psicológica É dever do profi ssional (artigo 1º) É vedado ao profi ssional (artigo 2º) Ter o domínio teórico e técnico sobre a execução de seu trabalho. Emitir documento sem a devida qualidadeteórica, técnica ou científi ca. Informar sobre os objetivos e procedimentos do trabalho realizado. Interferência quanto a validação das informações ou fi dedignidade dos resultados de instrumentos e técnicas psicológicas. Fornecer informações necessárias a quem de direito a respeito dos resultados obtidos por meio de avaliação. Ser avaliador em situações cujo vínculo profi ssional ou pessoal estão presentes. Cuidados sob a guarda, empréstimo, comercialização etc. de materiais privativos. Realizar diagnósticos ou mesmo realizar a divulgação de procedimentos bem como de resultados pertinentes a prática, pecando na manutenção do sigilo. Fonte: Elaborado pelos autores com base em Muniz (2018). Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico 25 Adicionalmente, Muniz (2018) aponta que o artigo 18 do código de ética também contempla a área de avaliação, visto que discorre sobre a viabilidade de empréstimo, venda, divulgação ou mesmo ensino de instrumentos psicológicos de maneira a impedir o exercício ilegal da profissão. É válido frisar que o Código de ética é de cunho transversal (Figura 9) e implica a articulação entre sociedade, profissão, entidades e a própria ciência. Figura 9 - Transversalidade do código de ética profissional Código de ética Profissional Sociedade Profissão Entidades Ciência Fonte: Elaborado pelos autores (2021). Primi (2011) destaca que o processo de avaliação psicológica deve favorecer condições e igualdade de direitos, compreendendo que as pessoas têm diferenças e que o profissional lida com situações que envolvem decisões de impacto direto a esses indivíduos, lidando não só com interesses individuais, mas também sociais, devendo prezar pelo bem-estar de ambos, ou seja, indivíduo e o meio social em que vive. Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico 26 O autor supracitado sugere que a prática psicológica no âmbito de avaliação deve ter como base evidências científicas e a reflexão acerca dos limites que envolvem o exercer profissional, sempre respeitando o que é preconizado pelos órgãos e as comunidades tanto no campo científico como profissional; limites do que deve ou não ser feito, considerando o grau de influência de suas decisões sob os direitos das pessoas (PRIMI, 2011). Legislação em Avaliação Psicológica Além do Código de ética profissional, outras legislações estabelecidas pelo Sistema Conselhos são essenciais para a reflexão e norteamento de condutas profissionais envolvendo a avaliação. Quadro 3 – Alguns marcos de legislação na área de Avaliação Psicológica no Brasil Tipo de Documento Número Resolução 002/2001 Resolução 002/2003 Resolução/Código de ética 010/2005 Resolução 005/2012 Nota Técnica 01/2017 Nota Técnica 02/2017 Resolução 009/2018 Fonte: Elaborado pelos autores (2021). Em termos históricos, a Resolução nº 003/2003 em aprimoramento da Resolução nº 025/2001 pode ser considerada um marco, porque contribuiu para o campo dos testes, tanto com a regulamentação quanto com a comercialização e elaboração dos mesmos. Adicionalmente enfatizou a preocupação quanto à qualidade dos instrumentos, sendo esses necessariamente munidos de evidências para a sua consideração enquanto válidos, precisos e consequente normatização. Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico 27 Para Muniz (2018), a Resolução nº 003/2003 favoreceu ainda um aumento no número de testes e de pesquisas relativas a sua aplicabilidade, além de reforçar o princípio fundamental IV do código de ética relativo à responsabilidade na atuação profissional. A Resolução nº 009/2018 forneceu diretrizes básicas para a área de Avaliação em Psicologia, refletindo não só sobre os instrumentos, mas também sobre métodos, técnicas e critérios para que os testes utilizados fossem considerados aptos ao seu uso. Essa resolução revogou as Resoluções nº 002/2003 e nº 005/2012 e as Notas Técnicas nº 01/2017 e nº 02/2017. Figura 10 - Martelo de juiz Fonte: Freeimages Outras resoluções são importantes e podem ser revisadas pelo profissional que deseja atuar no campo de avaliação. Um exemplo seria a Resolução nº 002/2016 que versa a respeito do contexto envolvendo concursos públicos e processos seletivos, em que é comum a participação de um profissional de psicologia exercendo atividades de avaliação. A Resolução nº 011/2018 contempla a Avaliação Psicológica e a prestação de serviços nesse campo por meios tecnológicos. Nesse caso, cabe não só a reflexão do profissional para além da resolução, mas também para refletir sobre questões que envolvam o acesso restrito a esses meios por parte da população, que apresenta a demanda por avaliação ou mesmo o debate quanto à manutenção da qualidade e ética do serviço (MUNIZ, 2018). Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico 28 Figura 11 – Pessoa em atendimento remoto Fonte: Freepik Pellini e Leme (2011) enfatizam que nem avaliações, nem mesmo decisões sob resultados que envolvam medidas desatualizadas e sem verificação sobre a validade devem ser consideradas. Adicionalmente, o próprio contexto em que ocorre a avaliação deve ser um ambiente próprio para tal. Os Princípios Éticos e Código de Conduta da Associação Americana de Psicologia, embora mais antigos que as resoluções atuais brasileiras, já versavam sobre isso (1992, apud PELLINI; LEME, 2011). Ética e formação em Avaliação Psicológica De acordo com Bandeira (2011), a formação em Avaliação Psicológica no Brasil passou por transformações ao longo do tempo, principalmente após a década de 1990. A autora enfatiza que inicialmente essa formação era voltada apenas para o campo dos testes, restringindo essa formação a sua aplicação e correção, sem o investimento acerca da reflexão de sua prática ou mesmo da própria utilização desses testes. Com os diversos grupos de trabalho envolvendo as associações de profissionais como avaliadores, professores, pesquisadores, foi necessária a criação de debates ao longo do tempo, para tanto, isso favoreceu alguns avanços nesse sentido. EXEMPLO: Alguns exemplos de entidades de cunho técnico e científico, cujos profissionais contribuíram para o desenvolvimento e melhor formação da Avaliação Psicológica no país, foram a Associação Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico 29 Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia (ANPEPP), o Instituto Brasileiro de Avaliação Psicológica (IBAP) (BANDEIRA, 2011). Para Fonseca (2011), a prática, por si só, exclusiva do profissional psicólogo, deveria ser a principal motivação para o investimento na formação adequada e crítica desses profissionais. A autora destaca que o que acontece recorrentemente é uma prática inadequada e por vezes distante da formação e, quando essa ocorre, por vezes envolvem estágios sem a devida supervisão e formação. Embora haja uma diversidade de campos e abordagens, Löhr (2011) aponta ser necessário o conhecimento acerca de comportamento humano, epistemologia e compreensão quanto a instrumentos e técnicas que envolvem o exame psicológico (LÖHR, 2011). Figura 12 - Estudantes em formação Fonte: Freeimages Verifica-se que a competência profissional é consonante também com o quanto esse profissional é hábil em extrair uma maior quantidade de informações dos métodos e instrumentos empregados. Por esse motivo e pelo fato de ser uma área em constante diálogo com outras (Medicina, Direito, Administração) e também atuante em uma amplitude de contextos (saúde, jurídica, escolar, trânsito etc.) a formação é uma maior garantia de um trabalho responsável e ético (FONSECA, 2011). Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico 30 Em um estudo realizado por Jesus Jr (2007), de maneira a verificar a percepção de alunos de Psicologia sobre ética, foi constatado que estudantes do último ano do curso tiveram pior desempenho do que os do primeiro ciclo, o que demonstra a necessidade de uma formação continuada para a garantia daconduta ética para além da academia e em contextos aplicados da profissão. Outros estudos tais como o de Frizzo (2004) ou de Muniz (2018) analisam algumas infrações cometidas por profissionais em que há destaques quanto a infrações envolvendo aspectos de perícia, avaliação e aplicação de procedimentos ou o julgamento quanto ao comportamento envolvendo aspectos técnicos. SAIBA MAIS: O texto de Amêndola (2014) traça um perfil histórico envolvendo a formação em psicologia e sua articulação com aspectos éticos e demandas sociais. É uma excelente fonte de conhecimento sobre esse tema. Amendola, M. F. Formação em Psicologia, Demandas Sociais Contemporâneas e Ética: uma Perspectiva. Psicologia: Ciência e Profissão, 2014, v. 34, n. 4, pp. 971-983, Brasília, 2014. Clique aqui. É válido frisar que a formação tem sido apontada na literatura como uma das vias para a garantia de uma conduta ética (ANACHE; REPPOLD, 2010; FRIZZO, 2004; JESUS JR. et al., 2007; MUNIZ, 2018) e que o profissional deve ser treinado inclusive quanto a uma consciência social do seu trabalho. Uma formação continuada nos diversos níveis de formação (graduação e pós-graduação stricto e latu sensu) viabilizam uma avaliação a ser realizada de tanto de forma ética e de qualidade quanto técnico- científica (ZAIA et al., 2018). A conduta ética em avaliação psicológica por vezes destaca aspectos técnicos que refletem a ética. Todavia, conforme aponta Pellini e Leme (2011), além de aspectos técnicos, uma conduta ética e crítica, sendo o exercer profissional em avaliação psicológica também uma ação Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico https://www.scielo.br/j/pcp/a/mfHF7YnWzBckW8JQZWsfS5t/?lang=pt 31 ético-política. Para Bicalho (2011) o reconhecimento quanto a necessidade de um trabalho político engloba a aceitação de que o profissional, nesse caso, não é isento ou neutro. A prática psicológica abarca a discussão sobre concepções relativas ao mundo, o homem e a sociedade em contexto mais amplo. Compreendendo que o trabalho envolve tomada de decisão e consequências diretas ao indivíduo e o seu ser social, é importante assumir posições quais sejam arraigadas de princípios éticos (BICALHO, 2011). RESUMINDO: E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo, tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo desse capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que a conduta ética profissional em Avaliação Psicológica é permeada por vários quesitos, como a legislação vigente, a constante informação e atualização profissional, os contextos em que ocorrem a avaliação,sendo necessário haver ainda uma preocupação com relação ao sigilo das informações oriundas dessa prática, bem como uma preocupação não só teórica mas também técnica, o que é característico de um exercer profissional de qualidade. Você deve ter visto ainda, que para a consulta de questões envolvendo a ética pode ser feita a partir do Código de Ética Profissional e as normas disponíveis no Sistema Conselhos (Conselho Federal de Psicologia e Conselhos Regionais de Psicologia). É importante destacar que a formação ética foi modificada ao longo da história pensando também nas transformações da concepção do indivíduo e sociedade, seus direitos e deveres. Adicionalmente, por ser uma área atuante em diversos contextos e demandas é imprescindível considerar a formação em avaliação psicológica como uma formação política e social com desdobramentos ao indivíduo e suas relações a curto, médio e longo prazo. Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico 32 Elaboração de documentos em avaliação psicológica OBJETIVO: Ao término desse capítulo você compreenderá os principais pontos pertinentes a elaboração de documentos psicológicos e aqueles específicos oriundos de uma Avaliação Psicológica. Você conhecerá sobre a normatização vigente quanto a sua elaboração e a importância da guarda de documentos. Isto será essencial para dar prosseguimento ao seu trabalho, uma vez que é parte do atendimento às demandas apresentadas nesse processo. E então? Engajado para aprender os principais pontos e diferenciar os tipos de documentos que permeiam essa prática? Conte conosco para conhecer um pouco mais e se capacitar quanto a essa habilidade tão importante para a sua prática! Normas para a elaboração de documentos decorrentes de Avaliação Psicológica É interessante, além da elaboração de um contrato descritivo quanto a prestação dos serviços a serem realizados durante a Avaliação Psicológica, a emissão de documentos consonantes às normas estabelecidas, e que isso ocorra de maneira estruturada seguindo aspectos também formais (MÄDER, 2016). Segundo Mäder (2016), o documento produzido é uma forma de materialização do trabalho realizado e acaba por demonstrar, dentre outros aspectos, a competência teórico-técnica do avaliador, e cabe a esse profissional, a partir do momento em que é disponibilizado esse documento, responder pelos procedimentos realizados e por todo o conteúdo alí indicado. O norte para essa elaboração deve ser o Código de ética profissional e a legislação vigente. Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico 33 Entende-se por documento psicológico uma ferramenta de comunicação por escrito sendo esse resultado de uma prestação de serviço a pessoas ou grupos, bem como a instituições. Tal documento pode ser solicitado pelo usuário do serviço ou por equipes profissionais, por exemplo, devendo ser mantidos os princípios éticos, técnicos e científicos, além de uma linguagem profissional formal (CFP, 2019). O ano de 2001 é um dos marcos para o âmbito de elaboração de documentos psicológicos decorrentes de avaliação, a partir do fornecimento de orientações concernentes a elaboração de documentos psicológicos. Dessa forma, é facilitada a padronização e regularidade dos materiais produzidos tanto pela sua forma como qualidade (CFP, 2019). A Figura 13 mostra alguns dos marcos históricos na elaboração de documentos em psicologia. Figura 13 - Resoluções do CFP importantes para a compreensão acerca da Elaboração de Documentos Psicológicos 30/2001 17/2002 07/2003 06/2019 Fonte: Elaborado pelos autores (2021). Em dezembro de 2000 ocorreu o I Fórum Nacional de Avaliação Psicológica que subsidiou a construção da Resolução nº 30/2001 do CFP, oriunda também de outras ações importantes no campo de avaliação, tal como a Assembleia das Políticas Administrativas e Financeiras datada de maio de 2001. Refletindo-se sobre os princípios éticos e norteando quanto a uma postura técnica profissional, o Conselho Federal de Psicologia estabeleceu o Manual de Elaboração de Documentos Psicológicos decorrentes da Avaliação (CFP, 2001). Essa resolução foi revisada na Resolução nº 17/2002. A Resolução nº 17/2002 destaca, mediante queixas de representatividade ética e a necessidade de uma produção que seja qualificada desses documentos, que haja uma linguagem profissional, contemplando clareza e concisão, além de reconhecer a avaliação enquanto um processo dinâmico cuja determinação também engloba fatores históricos, sociais e mesmo econômicos. Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico 34 A Resolução nº 07/2003 discute sobre o Manual de Elaboração de Documentos escritos, mas sob o enfoque daqueles envolvidos na prestação de serviços em Psicologia, sobretudo aqueles frutos de avaliação psicológica. A Figura 14 resume os principais quesitos para essa elaboração, segundo tal resolução: Figura 14 - Tópicos de destaque para a elaboração de documentos escritos segundo a Resolução nº 07/2003 Princípios norteadores Modalidades de documentos Conceito/Finalidade/Estrutura Validade/Guarda de documentos Fonte: Elaborado pelos autores (2021). Dentre as resoluções destacadas, a mais recente envolvendo a elaboração de documentos psicológicos se trata da Resolução nº 06/2019. Talresolução revoga a Resolução nº 07/2003 e contempla além dos campos de atuação profissional da Psicologia, também a inclusão de orientações acerca do Relatório Multiprofissional. Outro destaque dessa resolução é o destino e envio de documentos e as discussões que permeiam a entrevista devolutiva, bem como, a ênfase na responsabilidade do profissional ao elaborar os documentos se capacitando eticamente e tecnicamente para essa ação. Tal resolução também aponta a necessidade de prezar pela estrutura própia de cada um dos documentos, sendo essa relacionada, sobretudo a sua finalidade. Como princípios fundamentais na elaboração de documentos psicológicos, é importante destacar: a) princípios técnicos; b) princípios de linguagem técnica; c) princípios éticos. Os envolvidos na avaliação têm o direito de saber tanto sobre os objetivos como dos resultados do serviço prestado, podendo inclusive ter acesso a esses documentos escritos. Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico 35 A Figura 15 elenca os diferentes tipos de documentos a serem produzidos pelos profissionais, segundo a Resolução nº 06/2019 do Conselho Federal de Psicologia. O detalhamento dos documentos segundo essa norma será descrito no subtópico a seguir “Tipos de documentos psicológicos”. Figura 15 - Documentos elaborados pelo profissional de psicologia no exercer de sua profissão detalhados na Resolução nº 06/2019 do CFP Atestado Psicológico Declaração Relatório Multiprofissional Relatório Psicológico Parecer Psicológico Laudo Psicológico Fonte: Elaborado pelos autores (2021). ACESSE: Para saber mais sobre a elaboração de documentos psicológicos contemplando as mudanças ocorridas a partir da Resolução do CFP nº 06/2019, que tal acessar o vídeo do Conselho Regional de Psicologia do Rio Grande do Sul, no qual são abordadas detalhadamente essas mudanças e fornecidas orientações quanto as novas diretrizes? CRP RS, 2020. Orientação e Elaboração de Documentos Psicológicos. Clique aqui. Cabe destacar que quaisquer dúvidas acerca da elaboração de documentos psicológicos, há a jurisprudência dos conselhos regionais e mesmo, se cabível, a orientação do Conselho Federal. É importante destacar que o não cumprimento das disposições estabelecidas na norma vigente incorre em falta ético-disciplinar (CFP, 2019). Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico www.youtube.com/watch?v=AMVkI0E3wC0 36 Tipos de documentos psicológicos Declaração Dentre os documentos a serem elaborados pelo profissional, a declaração é o mais objetivo, pois é um documento breve e sucinto, cujo objetivo principal é de prestar informações sobre o serviço.Tal documento aborda pontos como o comparecimento da pessoa ao atendimento ou o acompanhamento psicológico prestado. Pode-se, nesse documento, inserir informações quanto ao tempo de atendimento, dias e horários relativos à prestação desse serviço. Segundo a Resolução nº 06/2019, a declaração segue a seguinte estrutura: • Título: “Declaração”. • Identificação, com nome completo do usuário. • Finalidade, que é o que resguarda o profissional no que se concerne ao uso do dado. • Informações sobre local, dias, horários. • Encerrar incluindo, local, data e carimbo com assinatura do profissional. É válido lembrar que, na declaração, não é permitido que o profissional descreva sobre os sintomas, situações ou mesmo estados psicológicos, incorrendo em infração ética caso isso aconteça. Atestado psicológico O atestado psicológico, diferentemente da declaração, é resultante de um processo de avaliação psicológica e deve ser realizado à medida que é contemplada a competência profissional para tal elaboração. Tal documento visa informar sobre o estado psicológico de um indivíduo ou uma situação específica sobre o mesmo. Deve seguir a estrutura abaixo: • Título. • Identificação, nome completo e quando necessário incluir alguma informação sociodemográfica. Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico 37 • Solicitante, especificando detalhadamente quem fez a solicitação do referido documento. • Finalidade, ou seja, o motivo do pedido. • Descrição das condições emocionais/psicológicas, fruto do raciocínio psicológico ou avaliação. É facultado o uso de classificações diagnósticas. • Encerrar incluindo, local, data e carimbo com assinatura do profissional e rubrica em todas as páginas. IMPORTANTE: O atestado psicológico é útil no que se concerne à comunicação de justificativa de faltas e/ou impedimentos, além disso, se o indivíduo está apto ou não para a realização de alguma atividade. O profissional também pode atestar sobre motivos de afastamento ou dispensa de alguma atividade. É importante frisar que não se trata de um diagnóstico nosológico. É facultado ao profissional destacar, ao fim do atestado, que não está autorizada a utilização do documento para outros fins que não aquele requerido. Cabe ao profissional realizar a guarda da cópia do atestado junto ao material utilizado para a avaliação, podendo ser solicitado pelo órgão regulamentador. Figura 16 - Assinatura de documento Fonte: Freeimages Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico 38 Relatório psicológico O relatório Psicológico pode ter caráter informativo e deve contemplar variáveis também históricas e sociais. Trata-se de um documento repleto de detalhes cujo objetivo é comunicar sobre a atuação profissional, compondo recomendações, intervenções e encaminhamentos do caso em atendimento. Tal documento possui tanto valor técnico como científico, e é imperativo que seja composto por uma narrativa detalhada embasada no Código de Ética profissional. É diferente de um relatório de atividades instucional. Esse documento deve ser estruturado da seguinte forma: • Identificação, contendo o título do documento, o nome da pessoa ou instituição foco, solicitante, finalidade e autor (Detalhes do profissional, inscrição no conselho). • Descrição da demanda, na qual deve descrever com detalhes acerca do que motivou a busca pelo serviço, quem forneceu as informações etc. • Procedimento, que deve detalhar todos os passos sustentados de maneira técnico-cientpifica, enfatizando o referencial teórico adotado. Deve-se, nesse tópico, citar todos os envolvidos no processo de avaliação de maneira detalhada, fornecendo informações como o número de encontros realizados, a sua duração e relatos de maneira objetiva. Os procedimentos adotados devem respeitar a complexidade do que é avaliado. • Análise, na qual deve-se apresentar toda a evolução do trabalho de maneira sistêmica e com fundamentação tanto técnica quanto teórica, consonante com a demanda apresentada. Tudo o que for citado nesse tópico deve ser sustentado cientificamente. Deve-se prezar pela linguagem objetiva e precisa, mesmo com informações de cunho subjetivo. • Conclusão, que deve abarcar a natureza dinâmica do evento observado, bem como trazer conclusões a partir da análise Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico 39 realizada. É nas conclusões que, caso necessário, devem constar possíveis encaminhamentos, orientações ou mesmo a sugestão de continuidade do serviço. • Encerrar incluindo, local, data e carimbo com assinatura do profissional e rubrica em todas as páginas. Ao profissional é facultado enfatizar que o relatório não pode ser utilizado para outros fins que não aqueles descritos na identificação do documento, reforçar o sigilo das informações ali descritas ou mesmo a sua responsabilidade sob o que é feito com o documento após a devolutiva da avaliação. Relatório multiprofissional Figura 17 - Reunião Profissional Fonte: Freeimages O relatório multiprofissional é um documento com orientações semelhantes aquelas descritas no item anterior, “Relatório Psicológico”, com a diferença de que se trata de um relatório produzido em contexto multiprofissional e com a possibilidade de elaboraçãoem conjunto com os demais profissionais envolvidos na equipe, ainda que preservado os princípios éticos e a autonomia desses profissionais. Tem a seguinte estrutura: • Identificação. • Descrição da Demanda. Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico 40 • Procedimentos. • Análises. • Conclusão. • Encerramento é realizado com o nome completo ou social tembém completo, o número de inscrição profissional do responsável ou responsáveis, com as laudas numeradas, rubricadas e com assinatura e carimbo ao final da última página. Embora seja um relatório multiprofissional, as informações contidas que sejam pertinentes a métodos e técnicas privativas do psicólogo devem constar em tópico separado dos demais, mantendo a responsabilidade e sigilo por parte daquilo que lhe cabe enquanto profissional. Laudo psicológico O laudo psicológico trata-se de um documento fruto de uma avaliação psicológica, de maneira a embasar decisões em relação a demandas específicas. Tal documento é constituído por informações técnicas sobre procedimentos, devendo ser fundamentado com referências sobre o tema e baseado no código de Ética profissional. Sua estrutura é: • Identificação. • Descrição da demanda. • Procedimento. • Análise. • Conclusão. • Referências. • Encerrar incluindo, local, data e carimbo com assinatura do profissional e rubrica em todas as páginas. No laudo é obrigatória a inserção das referências utilizadas como fonte científicas e referências bibliográficas do que foi utilizado. No procedimento, a descrição tanto de fontes fundamentais, como fontes complementares de informação devem estar detalhadas. Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico 41 Parecer psicológico O parecer psicológico é um documento que visa à apresentação de uma análise técnica a respeito de uma demanda específica, com a finalidade de diminuir as dúvidas sobre questões-problema tanto no campo documental, como no campo de avaliação. Esse documento não é resultante de uma avaliação psicológica ou intervenção psicológica. Assim como no laudo, é importante citar as fontes científicas utilizadas, preferencialmente nas notas de rodapé. Esse documento tem a seguinte estrutura: • Identificação. • Descrição da demanda. • Análise. • Conclusão. • Referências. • Encerrar incluindo, local, data e carimbo com assinatura do profissional e rubrica em todas as páginas. SAIBA MAIS: O documento do Conselho Federal de Psicologia reflete sobre os tipos de documentos e suas finalidades e orienta sobre sua elaboração.Conselho Federal de Psicologia (2019). Resolução CFP 06/2019 comentada: Orientações sobre a elaboração de documentos escritos produzidos pela(o) psicóloga(o) no exercício profissional. Brasília: CFP. Clique aqui. Guarda de documentos decorrentes de Avaliação Psicológica No sigilo das informações, fruto da avaliação psicológica, é essencial refletir sobre a guarda desses documentos, pois isso é uma postura ética esperada como conduta profissional (MÄDER, 2016). Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2019/09/Resolu%C3%A7%C3%A3o-CFP-n-06-2019-comentada.pdf 42 Figura 18 - Gavetas para guardar documentos Fonte: Freepik A guarda de materiais, sobretudo aquela dos instrumentos que são restritos à prática psicológica é imperativa: todos os instrumentos e quaisquer formas de registro devem ser mantidos em sigilo, em armários com chave. É válido ressaltar que a depender da instituição em que ocorra o trabalho, essa informação pode erroneamente estar de fácil acesso a outras pessoas e profissionais, o que pode comprometer o sigilo do trabalho realizado, por isso reforça-se a necessidade do cumprimento dessa orientação (MÄDER, 2016). Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico 43 RESUMINDO: E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo, tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo desse capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você aprendeu que há diferentes documentos psicológicos e a preocupação e formatação dos mesmos depende de uma norma vigente. A normatização quanto à elaboração de documentos psicológicos mudou ao longo do tempo, acompanhando não só as mudanças na profissão, mas também uma demanda de garantia ética e técnica por parte dos profissionais. A elaboração de documentos implica numa responsabilidade profissional técnico-científica e ética, contemplando as orientações do Código de Ética Profissional e daquilo que é estabelecido pelo Sistema Conselhos. Para cada tipo de documento há uma estrutura pertinente e a finalidade de cada tipo também é norteadora das informações que devem ser ali contidas. Embora, por vezes, haja a articulação com outros profissionais, é importante o psicólogo manter o que é privativo de sua função mesmo na confecção desses documentos. Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico 44 Devolutiva de Avaliação Psicológica OBJETIVO: Ao término deste capítulo você será capaz de entender como é realizada uma devolutiva de Avaliação Psicológica, bem como seus principais fatores a serem considerados, seja o contexto em que ocorre essa avaliação seja as normativas vigentes. Isto será fundamental para a completude do seu trabalho de avaliação e importante para o objeto a ser avaliado. E então? Encorajado a compreender e capacitar-se para uma finalização adequada do processo desse trabalho? Vamos juntos conhecer um pouco mais da devolutiva nessa área! Etapas do processo de Avaliação Psicológica O processo de Avaliação Psicológica é composto por seis etapas, a exemplo do que o Conselho Federal de Psicologia estabelece (CFP, 2018): 1. Entrevista clínica – é nessa primeira etapa que o profissional psicólogo realiza uma entrevista a partir da utilização de roteiros, cuja finalidade seja compreender qual o motivo da demanda por avaliação, além disso é um momento importante para a obtenção de informações fundamentais para a aplicação da bateria de testes a serem selecionados para compor a avaliação. 2. Bateria de testes – é nesse momento que o psicólogo, a partir das informações obtidas por meio da entrevista inicial, definirá os testes a serem utilizados, respeitando a demanda apresentada e verificando a compatibilidade com o objeto analisado. 3. Administração, pontuação e interpretação de testes – nesse momento ocorre a aplicação dos testes e demais instrumentos a serem utilizados, de acordo com o que foi planejado. O psicólogo corrige e verifica os resultados obtidos. Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico 45 4. Integrar e conceituar informações coletadas – é nessa etapa que o profissional de psicologia reúne todas as informações de maneira a articular o que foi observado e avaliado para a elaboração de um documento, a exemplo do relatório psicológico. 5. Relatório de avaliação psicológica – tal relatório deve ser estabelecido de acordo com as diretrizes do Conselho Federal de Psicologia em suas normas vigentes e respeitando o seu caráter técnico e científico, além dos princípios éticos. É de extrema importância ser considerado também o caráter dinâmico da avaliação. 6. Feedback – aqui o psicólogo faz a devolutiva ao cliente sobre os resultados obtidos na avaliação. Uma das formas para que isso seja realizado é por meio da entrevista devolutiva. Figura 19 - Etapas da avaliação psicológica segundo CFP (2018) Bateria de TestesEntrevista clínica Integração / conceitualização Administração Feedback Relatório de Avaliação Fonte: Elaborado pelos autores (2021). Entrevista devolutiva Pellini e Leme (2011) destacam a Resolução nº 01/2002, que discute também o papel da Avaliação Psicológica em concursos públicos e outros processos seletivos e, nesse contexto, enfatizava a importância de uma entrevista devolutiva como sendo direito do indivíduo ser informado sobre os serviços prestados pelo profissionalda Psicologia, além disso, ser um direito ter acesso aos resultados obtidos a partir da avaliação. Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico 46 Figura 20 – Profissional em entrevista devolutiva com o cliente Fonte: Freepik Conforme apontado por Pellini e Leme (2011), o próprio Código de Ética Profissional discute o quesito da devolutiva já no seu artigo 1º, resumidamente, têm-se as seguintes informações: • Transmitir o que é de direito ao usuário para tomada de decisões (alínea g). • Orientar a quem de direito sobre os desdobramentos, como exemplo,encaminhamentos do serviço prestado, fornecendo quando solicitado documentos pertinentes ao trabalho (alínea h). É considerada entrevista devolutiva aquela que é resultante de um processo de avaliação psicológica, a considerar determinantes históricos e sociais, bem como os seus efeitos sob o indivíduo. O profissional deve atuar e se preocupar não só sob o indivíduo mas sob esses condicionantes. A respeito do tipo de linguagem utilizada em uma devolutiva envolvendo outros profissionais, cabe diferenciar a postura do profissional psicólogo nesse contexto, conforme apontado no Quadro 4. Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico 47 Quadro 4 – Linguagem adotada pelo profissional psicólogo em devolutiva, a depender do contexto no qual se insere segundo Pellini e Leme (2011) Tipo de profi ssional Linguagem adotada Entre colegas psicólogos Podem ser utilizados termos técnicos e referenciar as fontes utilizadas. Outros profi ssionais Rever os pontos da avaliação de maneira acessível, mas deve haver a preocupação em resguardar o sigilo. Fonte: Elaborado pelos autores (2021). A devolutiva pode ser realizada como oriunda de solicitação de várias áreas de atuação e, independente da área, é importante esclarecer o trabalho realizado e os motivos envolvendo a atuação, bem como, o profissional deve estar atento aos impactos que essa avaliação pode causar ao cliente e o contexto mais amplo do qual ele participa (PELLINI; LEME, 2011). Para cada área/contexto em que ocorre a devolutiva, faz-se necessário destacar que há de se considerar diferentes formas e ênfases na devolução. Pode ocorrer também casos em que a devolutiva ocorre em contexto escolar. Nesse campo, é sempre importante selecionar o tipo de informação que é transmitida durante a devolutiva, havendo a preocupação em trabalhar questões no campo pedagógico e facilitar a linguagem, realizando o trabalho de maneira acessível aos envolvidos (PELLINI; LEME, 2011). Figura 21 – Contexto escolar Fonte: Freeimages Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico 48 Nas devolutivas realizadas no âmbito jurídico, por exemplo, por vezes a comunicação é feita diretamente para operadores do direito. Nesses casos, é importante avaliar a forma com que as informações chegam e o tipo de informação que deve ser transmitida a esse outro profissional (PELLINI; LEME, 2011). Em alguns casos, é válido destacar que o profissional deve se abster de fornecer e realizar uma devolutiva de maneira direta ao indivíduo avaliado, o que pode também entrar em conflito com os princípios éticos e diretrizes de conduta no seu exercer profissional. No entanto, em situações como essa, o trabalho do psicólogo quando atrelado ao Poder Judiciário deve atentar-se e responder em primeira instância a demanda estabelecida judicialmente (WILLIAMS; CASTRO, 2016). Em contexto de recrutamento e seleção, é sempre importante na devolutiva enfatizar as características do cargo, bem como as técnicas exigidas e empregadas cabíveis a esse contexto. Para tanto, isso deve ser realizado com o cuidado de não expressar ao indivíduo que suas características implicam em um problema para a empresa ou para a vaga em questão, entretanto, deve-se discutir o perfil necessário para essa contratação ou uma indicação positiva para o preenchimento nessa seleção (PELLINI; LEME, 2011). SAIBA MAIS: O livro a seguir discute sobre Avaliação Psicológica, contemplando a atuação profissional no âmbito das organizações e sobre os principais temas pertinentes a esse contexto de avaliação. HUTZ, C. S.; BANDEIRA, D. R.; TRENTINI, C. M. (orgs.). Avaliação Psicológica no contexto organizacional e do trabalho. Porto Alegre: Artmed, 2015. Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico 49 Figura 22 – Contexto de recrutamento e seleção Fonte: Freepik Independente da área em que ocorra a avaliação e o processo de devolutiva, é imprescindível prezar e promover o crescimento do indivíduo. Sempre que solicitado e de acordo com o Código de Ética Profissional (010/2005) a devolutiva deve ser fornecida por escrito quando solicitada (PELLINI; LEME, 2011). Outros contextos também podem fazer parte da avaliação, como em contextos de habilitação para CNH ou na área da clínica e da saúde. O momento de transmissão da informação pode ser feito tanto durante o atendimento, como na situação clínica, ou ao final do processo, como no contexto de trânsito ou de um concurso (PELLINI; LEME, 2011). Sobre as informações e formas de realização dessa devolutiva, é dever profissional avaliar quais as informações serão documentadas, sempre contemplando qual a situação e o contexto envolvido, os objetivos, a fundamentação e atentando-se para os cuidados éticos e técnicos nessa tarefa, afinal deve-se ter preocupação primordial com o sigilo das informações (PELLINI; LEME, 2011). Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico 50 SAIBA MAIS: Vídeo do Conselho Federal de Psicologia sobre Entrevista Devolutiva, o qual discute a entrevista devolutiva a partir da Resolução nº 04/2019, uma das resoluções que debate a prática a partir do que é estabelecido nas diretrizes da norma. Acesse-o clicando aqui. Entrevista devolutiva e normatização atual Segundo a Resolução do Conselho Federal de Psicologia nº 06/2019, no artigo 16 da Seção V que trata do destino e envio de documentos, é importante destacar que essa entrega deve ser realizada de maneira direta a quem de interesse (seja beneficiário, responsável legal ou mesmo o solicitante), mas que isso seja feito por meio de uma entrevista devolutiva. Ainda de acordo com tal resolução, deve-se manter o protocolo quanto a entrega de documentos na entrevista, solicitando a assinatura do solicitante no documento. A entrevista é uma maneira de esclarecer verbalmente o conteúdo do documento. Ainda que seja realizada a entrevista devolutiva e entrega de documentos envolvendo a assinatura do solicitante, como prova de que a recebeu, é de extrema importância a guarda de documentos em função da possibilidade de fiscalização por parte do Conselho ou mesmo em meio a uma solicitação de parte judicial (CFP, 2019). A Resolução nº 11/2018 do CFP versa sobre protocolos envolvendo o ambiente de tecnologia e recursos digitais de informação. Ainda que digital, a importância da assinatura é destacada. Caso seja impossibilitada a assinatura, faz-se necessário um protocolo digital, envolvendo o envio e confirmação do e-mail sobre a devolutiva dos documentos, para tanto o solicitante acusar recebimento. Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico https://www.youtube.com/watch?v=AHSELnoE4wk 51 SAIBA MAIS: A Resolução nº 11/2018 discute sobre a prestação de serviços em Psicologia que são mediados por meio de tecnologia de informação e comunicação, as famosas TICs. Num contexto em que essas práticas têm avançado, é de extrema importância a atualização nesse quesito. Essa é a versão comentada da resolução que discute os principais pontos. Acesse-a clicando aqui. Caso ocorra a tentativa de realizar a entrega de documentos oriundos da avaliação e entrevista devolutiva e isso seja impossibilitado, é recomendado, a partir da mesma resolução, detalhar o registro de tentativas de contato junto ao prontuário do indivíduo. Se for um prontuário digital, é imperativo o escaneamento dos documentos para