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HOSPITAL DAS CLÍNICAS FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO MATHEUS PELAEZ FERREIRA DESREGULAÇÃO EMOCIONAL EM PACIENTES COM TRANSTORNO DE DÉFICIT DE ATENÇÃO E HIPERATIVIDADE NA VIDA ADULTA. SÃO PAULO - SP 2024 MATHEUS PELAEZ FERREIRA DESREGULAÇÃO EMOCIONAL EM PACIENTES COM TRANSTORNO DE DÉFICIT DE ATENÇÃO E HIPERATIVIDADE NA VIDA ADULTA. Monografia apresentada à Escola de Educação Permanente do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, como parte das exigências do Programa de Pós-Graduação Lato-Sensu em Neuropsicologia para obtenção do título Especialista em Neuropsicologia. Orientador: Samuel SÃO PAULO - SP 2024 RESUMO Este estudo tem como objetivo explorar o perfil neuropsicológico da desregulação emocional (DE) em adultos diagnosticados com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Por meio de uma revisão abrangente da literatura recente, investigamos a manifestação do DE como um sintoma central do TDAH na idade adulta, examinando seu impacto no funcionamento emocional e cognitivo. A revisão sintetiza descobertas de vários estudos que destacam a prevalência de labilidade emocional, impulsividade e instabilidade de humor entre adultos com TDAH, juntamente com déficits associados em funções executivas, como memória de trabalho e inibição de resposta. Além disso, o estudo explora a relação de comorbidades, como: ansiedade e depressão, que exacerbam ainda mais os desafios enfrentados por essa população. As descobertas ressaltam a importância de considerar a DE na avaliação clínica e no tratamento de adultos com TDAH, defendendo abordagens terapêuticas integradas que abordem os sintomas emocionais e de atenção. Esta pesquisa contribui para uma compreensão mais profunda das complexidades do TDAH na idade adulta e fornece uma base para estudos futuros que visem melhorar as estratégias de intervenção. Palavras-chave: TDAH, desregulação emocional, vida adulta, funções executivas, comorbidade, perfil neuropsicológico. Palavras-chaves: Desregulação, regulação, emocional, emoção, transtorno, déficit, atenção, hiperatividade, TDAH. SUMÁRIO INTRODUÇÃO 6 OBJETIVO 1 MÉTODO 1 CONCLUSÃO 2 REFERÊNCIAS INTRODUÇÃO Segundo Faraone e Biederman (2005), o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é um transtorno neurobiológico que se manifesta na infância e pode persistir na vida adulta. Caracteriza-se por sintomas de desatenção, hiperatividade e impulsividade que são mais severos e frequentes do que os observados em indivíduos de desenvolvimento típico (FARAONE; BIEDERMAN, 2005). O quadro de (TDAH) tem suas raízes históricas profundamente fixadas na literatura médica, remontando a observações clínicas realizadas no final do século XIX e início do século XX. De forma notável, Sir George Still é frequentemente citado como uma figura central na caracterização inicial de comportamentos que hoje seriam identificados como TDAH, ao descrever crianças que apresentavam dificuldades significativas em controlar seus impulsos e níveis elevados de hiperatividade, apesar de demonstrarem um desenvolvimento cognitivo normal. Essas descrições foram fundamentais para a construção do conceito moderno que temos hoje desse quatro, o que destaca a importância das contribuições históricas para a compreensão atual do transtorno. A evolução da conceituação do termo utilizado até hoje, reflete uma maior conscientização sobre a natureza diversa do transtorno, continuam a guiar a pesquisa e a prática clínica. A continuidade da exploração do TDAH ao longo do século XX revela como o transtorno passou de uma condição observada em crianças para uma compreensão mais ampla que abrange todas as faixas etárias. Após as descrições iniciais de (Sir George Still 1902), a evolução do conceito de TDAH foi marcada por uma crescente sofisticação no diagnóstico e tratamento, refletindo avanços nas ciências comportamentais. Foi apenas na década de 1960 que a condição começou a ser reconhecida como um distúrbio distinto, inicialmente chamada de “reação hipercinética da infância”. Somente após 10 anos, em 1970, o termo “Déficit de Atenção com Hiperatividade” foi introduzido e com a publicação do DSM-III (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) em 1980, o TDAH começou a ser oficialmente reconhecido com critérios diagnósticos mais claros. Desde então, a definição e os critérios diagnósticos foram refinados em edições subsequentes do DSM. As mudanças nos critérios diagnósticos ao longo do tempo, especialmente com as edições sucessivas do DSM, foram fundamentais para a consolidação do TDAH como um transtorno amplamente reconhecido e tratado clinicamente. Este desenvolvimento incluiu a incorporação de achados que ligam o transtorno a disfunções executivas, dificuldades de regulação emocional e alterações neurofisiológicas. A importância de uma abordagem multidisciplinar para o tratamento, combinando intervenções farmacológicas e psicossociais, tornou-se cada vez mais evidente, enfatizando a necessidade de tratamentos personalizados que considerem a complexidade do transtorno em diferentes contextos e fases da vida (LANGE et al., 2010). O quadro neuropsicológico de pacientes que possuem essa condição é caracterizado por três principais sintomas: desatenção, hiperatividade e impulsividade. Ao descrever-se o sintoma da desatenção, observa-se a manifestação na dificuldade em manter o foco, sendo facilmente distraído, esquecendo-se de atividades diárias e tendo dificuldade em seguir instruções e finalizar tarefas. A hiperatividade por sua vez, inclui uma inquietação ou incapacidade de permanecer sentado, movimentação excessiva em situações inapropriadas e falar excessivamente, culminando num acréscimo para uma perda substancial das informados presente no ambiente. Por fim, a impulsividade, que acaba por envolver uma resistência em esperar a sua vez, manifestando-se em interrupções frequentes nas conversas ou atividades dos outros. Bem como tomar decisões precipitadas sem considerar as consequências. Associado a essas comorbidades, a desregulação emocional surge como fator que pode ser compreendido como a dificuldade em gerenciar e responder adequadamente a experiências emocionais, tendo suas raízes teóricas profundamente ligadas às contribuições de figuras históricas como Charles Darwin, William James e Sigmund Freud. Conforme explorado no artigo “Emotion Studies: Darwin, James, and Freud” (de Silva, 2017). Darwin foi pioneiro ao investigar a expressão das emoções em humanos e animais, argumentando que as emoções possuem uma base biológica e evolutiva, o que estabelece uma ligação direta com a neurobiologia moderna da desregulação emocional. Pesquisadores e teóricos como William James e Freud, aprofundaram a compreensão da relação entre emoção e fisiologia, sugerindo que as emoções resultam de mudanças corporais, fornecendo uma base teórica para a maneira de como a desregulação emocional pode ser compreendida em termos de respostas fisiológicas inadequadas ou excessivas a estímulos. Ambos autores apontam para a importância das emoções e suas complexidades no processo de análise, como interferem em aspectos centrais da compreensão de como a falha nessa capacidade de regulação pode levar a distúrbios emocionais (SILVA, 2017). Ao dar-se continuidade à discussão histórica sobre o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e seus componentes associados, é fundamental compreender como este conceito foi incorporado à prática clínica moderna. Conforme discutido por Faraone et al. (2019), essa característica presente no transtorno é agora reconhecida como um componente central de análise, especialmente em adultos, marcando uma evolução significativa na caracterização do tratamento. Uma vez que, historicamente, o foco do diagnóstico esteve por muito tempo, restrito aos sintomas vistos como clássicos na literatura. Em pesquisas mais recentes, a desregulação emocional é caracterizada por dificuldades em adequarrespostas emocionais, resultando em reações intensas e inadequadas a estímulos cotidianos, sendo essa uma característica comum e frequentemente debilitante para muitos indivíduos com TDAH. Além disso, o reconhecimento dessa comorbidade pode auxiliar na compreensão do quadro neuropsicológico do indivíduo portador do transtorno, tendo implicações importantes para o paciente. Pois, segundo Faraone et al. (2019), argumentam que a falha em identificar esse sintoma pode levar a um comprometimento significativo da eficácia em intervenções realizadas, que por muitas vezes, concentram-se apenas nos sintomas comportamentais. Essa nova perspectiva tem levado ao desenvolvimento de abordagens terapêuticas mais integradas que visam tanto os aspectos emocionais quanto comportamentais do transtorno. A inclusão de um tratamento multidisciplinar não apenas melhora o manejo dos sintomas, mas também promove uma melhor qualidade de vida para os pacientes, evidenciando a importância de considerar o transtorno de maneira multifatorial para o desenvolvimento de uma perspectiva mias abrangente e personalizada (FARAONE et al., 2019). Essa perspectiva pode ser vista através de um estudo realizado por (FARAONE; BIEDERMAN, 2005), que envolveu a triagem de 966 adultos, em que os resultados observados apontaram que os sintomas de TDAH continuam a ser prevalentes e clinicamente significativos na vida adulta, reforçando a necessidade de estratégias de manejo que vão além da infância e adolescência. A desregulação emocional ainda é um componente presente na vida desses indivíduos, sendo uma condição que pode até mesmo se intensificar com a idade, contribuindo para dificuldades substanciais no funcionamento diário. Esse componente emocional, frequentemente negligenciado nos primeiros modelos de TDAH, agora é reconhecido como uma das principais causas de comprometimento funcional em adultos.Os efeitos podem ser evidenciados, principalmente no ambiente de trabalho, na vida pessoal e nas relações interpessoais. A dificuldade em gerenciar emoções pode resultar em uma menor capacidade de lidar com o estresse, aumentar a propensão a conflitos interpessoais e diminuir a produtividade. Indivíduos com TDAH podem ter dificuldades em manter a estabilidade emocional em situações de alta pressão, levando a reações exageradas ou inadequadas que comprometem seu desempenho profissional e na relações com colegas e superiores de forma geral. Esse cenário frequentemente contribui para uma maior instabilidade nos relacionamentos, uma vez que a impulsividade emocional além de amplificar sentimentos de frustração e baixa autoestima, perpetuando um ciclo de isolamento, muitas vezes ocasionados por situações de mal-entendidos nos círculos sociais do paciente. A medida que as interações sociais se tornam uma fonte de ansiedade e desconforto para o indivíduo, esses efeitos colaterais sublinham a necessidade de uma abordagem terapêutica mais abrangente. As intervenções terapêuticas e farmacológicas para adultos com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) são fundamentais para o manejo eficaz do transtorno, especialmente quando os sintomas persistem além da infância e são acompanhados por desregulação emocional significativa. Conforme discutido por Safren et al. (2004), as abordagens psicossociais desempenham um papel crucial ao complementar o tratamento farmacológico. Sendo este, uma das intervenções mais eficazes para o manejo dos sintomas centrais do TDAH em adultos. Os estimulantes, como: metilfenidato e as anfetaminas, são amplamente utilizados devido à sua capacidade de melhorar a atenção e reduzir a impulsividade. Projetando um suporte valioso aos indivíduos para desenvolverem habilidades práticas para lidar com os desafios associados ao transtorno abordado. Como foi abordado anteriormente, o tratamento multidisciplinar fornece intervenções mais eficazes para os pacientes, que embora possam estar medicados, continuam a apresentar sintomas clinicamente significativos que afetam o funcionamento diário. Criando uma estrutura mais sólida para que os pacientes reavaliem seus padrões de pensamento e comportamento, promovendo mudanças duradouras que podem melhorar a qualidade de vida e reduzir o impacto dos sintomas presentes e observáveis na execução das atividades cotidianas (Safren et al., 2004). Nesses casos, a combinação de tratamento farmacológico associado a intervenção psicológica, oferece uma abordagem que integra tanto os aspectos neurobiológicos quanto comportamentais do quadro. Combinação esta que é particularmente relevante para adultos, que frequentemente enfrentam desafios complexos em suas vidas. O modelo de tratamento proposto por Safren et al. (2004) enfatiza a necessidade de personalizar as intervenções com base nas necessidades individuais dos pacientes. Para aqueles que continuam a experimentar sintomas significativos apesar da medicação, Essas intervenções, validadas e bem estruturadas é essencial para preencher a lacuna deixada pelo tratamento farmacológico, oferecendo uma linha de trabalho mais abrangente e eficaz. Ao integrar estratégias os profissionais de saúde podem ajudar a reduzir a carga do transtorno, promovendo uma maior qualidade de vida e saúde mental para os pacientes. (Safren et al., 2004). OBJETIVO O objetivo desta monografia é analisar o impacto da desregulação emocional em adultos com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), explorando suas implicações nas esferas profissional, pessoal e social. A pesquisa pretende identificar como a desregulação emocional contribui para o comprometimento funcional nesses indivíduos, além de avaliar as abordagens terapêuticas mais eficazes para o manejo desses sintomas. Adicionalmente, o estudo busca compreender a evolução histórica do conceito de desregulação emocional no contexto do TDAH, considerando sua incorporação nas práticas clínicas contemporâneas. Esse objetivo reflete o propósito de explorar tanto os efeitos da desregulação emocional quanto as estratégias de tratamento, ancorando a discussão em uma perspectiva histórica e clínica. MÉTODO Revisão da literatura existente sobre o tema. Foi coletados e analisados artigos científicos e capítulos de livros que tratam de TDAH em adultos, com ênfase nos aspectos relacionados à desregulação emocional. A busca foi realizada em bases de dados acadêmicas renomadas, como PubMed, SciELO, Google Scholar e SpringerLink, utilizando palavras-chave específicas como “TDAH em adultos”, “desregulação emocional”, “terapia cognitivo-comportamental”, “tratamento farmacológico”, e “abordagens psicossociais”. A revisão abrangerá publicações dos últimos 20 anos para garantir a inclusão das pesquisas mais relevantes e atualizadas. Além do processo de revisão, foi realizada uma análise documental dos estudos selecionados. Este processo envolve a leitura crítica e comparativa dos artigos para identificar as principais intervenções terapêuticas e farmacológicas recomendadas para o manejo do TDAH em adultos. A análise se concentrará na identificação dos efeitos da desregulação emocional sobre a qualidade de vida dos pacientes, bem como na eficácia das abordagens terapêuticas descritas na literatura. Este método foi escolhido para permitir uma compreensão mais abrangente do tema, fornecendo uma base mais sólida para a formulação de recomendações práticas para a intervenção terapêutica em adultos com TDAH e desregulação emocional. REFERÊNCIAS Bodalski EA, Flory K, Meinzer MC. A Scoping Review of Factors Associated With Emotional Dysregulation in Adults With ADHD. J Atten Disord. 2023 Nov;27(13):1540-1558. Doi: 10.1177/10870547231187148. Epub 2023 Jul 20. PMID: 37470198. Faraone SV, Rostain AL, Blader J, et al. Practitioner Review: Emotional dysregulation in attention-deficit/hyperactivity disorder – implications for clinical recognition and intervention. J Child Psychol Psychiatry. 2019;60(2):133-150. Doi:10.1111/jcpp.12899. Faraone SV, Biederman J. What is the prevalence of adult ADHD? Results ofa population screen of 966 adults. J Atten Disord. 2005;9(2):384-391. Doi:10.1177/1087054705281478. Lange, K.W., Reichl, S., Lange, K.M. et al. 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