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R ep ro du çã o pr oi bi da .A rt .1 84 do C ód ig o P en al e Le i9 .6 10 de 19 de fe ve re iro de 19 98 . 2 1 DISPERSÕES 1.1. Introdução Ao se misturarem duas substâncias, pode resultar ou em uma mistura homogênea ou em uma mistura heterogênea. Por exemplo: Dizemos que o sal se dissolveu, enquanto a areia não se dissolveu na água. No entanto, entre o caso extremo de dissolução perfeita (como a do sal na água) e o de separação total (como a areia da água), existem casos intermediários importantes. Imagine que você recolha um pouco de água de enxurrada em um copo e deixe esse sistema em repouso por um certo tempo. O que irá ocorrer? Água e sal comum (mistura homogênea) Água e areia (mistura heterogênea) Lentamente, as partículas de terra vão se depositando no fundo do copo; sedimentam primeiro as partículas maiores e, em seguida, as partículas de tamanhos gradativamente menores; mesmo assim, a água poderá ficar turva durante vários dias — indicando, nesse caso, que partículas ainda menores permanecem em suspensão nessa água. Desse fato resulta a seguinte definição: Dispersões são sistemas nos quais uma substância está disseminada, sob a forma de pequenas partículas, em uma segunda substância. A primeira substância chama-se disperso ou fase dispersa; e a segunda, dispersante, dispergente ou fase de dispersão. 1.2. Classificação das dispersões É feita de acordo com o diâmetro médio das partículas dispersas: Água bastante turva Tempo Água pouco turva Partículas pequenas Partículas grandes Nome da dispersão Diâmetro médio das partículas dispersas Soluções verdadeiras Entre 0 e 1 nm (nanometro) Soluções coloidais Entre 1 e 1.000 nm Suspensões Acima de 1.000 nm Lembramos que, no Sistema Internacional de Unidades (SI), o prefixo nano (n) significa 10#9. Assim: 1 nm (nanometro) % 10#9 m (metro) Capitulo 01A-QF2-PNLEM 4/6/05, 14:282 R ep ro du çã o pr oi bi da .A rt .1 84 do C ód ig o P en al e Le i 9 .6 10 de 19 de fe ve re iro de 19 98 . 3Capítulo 1 • SOLUÇÕES Esquematicamente, temos: Os sistemas dispersos são muito comuns em nosso cotidiano: 0 1 nm 1.000 nm Diâmetro das partículas Soluções coloidais SuspensõesSoluções verdadeiras 1.3. Principais características dos sistemas dispersos Exemplos Natureza das partículas dis- persas Tamanho médio das partí- culas Visibilidade das partículas (homogeneidade do siste- ma) Sedimentação das partículas Separação por filtração Comportamento no campo elétrico Soluções coloidais Gelatina na água Aglomerados de átomos, íons ou moléculas ou mesmo molé- culas gigantes ou íons gigantes De 1 a 1.000 nm As partículas são visíveis ao ultramicroscópio (sistema he- terogêneo) As partículas sedimentam-se por meio de ultracentrífugas As partículas são separadas por meio de ultrafiltros As partículas de um determi- nado colóide têm carga elétri- ca de mesmo sinal; por isso todas elas migram para o mes- mo pólo elétrico Soluções verdadeiras Açúcar na água Átomos, íons ou moléculas De 0 a 1 nm As partículas não são visíveis com nenhum aparelho (siste- ma homogêneo) As partículas não se sedi- mentam de modo algum A separação não é possível por nenhum tipo de filtro Quando a solução é molecular, ela não permite a passagem da corrente elétrica. Quando a solução é iônica, os cátions vão para o pólo nega- tivo, e os ânions para o pólo positivo, resultando uma rea- ção qu ímica denominada eletrólise Suspensões Terra suspensa em água Grandes aglomerados de áto- mos, íons ou moléculas Acima de 1.000 nm As partículas são visíveis ao mi- croscópio comum (sistema heterogêneo) Há sedimentação espontânea ou por meio de centrífugas comuns As partículas são separadas por meio de filtros comuns (em la- boratório, com papel de filtro) As partículas não se movimen- tam pela ação do campo elé- trico O ar sempre contém umidade (vapor de água), que não é vista à luz do farol de um carro porque forma, com o ar, uma solução verdadeira. A queima incompleta do óleo diesel, no motor de ônibus e caminhões, produz partículas de carvão que ficam em suspensão no ar, formando a fumaça negra. A neblina, porém, pode ser vista sob a ação da luz, porque as gotículas de água, no ar, constituem uma solução coloidal. K IN O M AT TO N .B IL D ,S .L . / C ID E P IT Á C IO P E S S O A /A E Capitulo 01A-QF2-PNLEM 4/6/05, 14:293 R ep ro du çã o pr oi bi da .A rt .1 84 do C ód ig o P en al e Le i9 .6 10 de 19 de fe ve re iro de 19 98 . 4 2 SOLUÇÕES 2.1. Introdução De acordo com o que foi visto no item anterior, as soluções verdadeiras (que de agora em diante chamaremos simplesmente de soluções) podem ser assim definidas: Soluções são misturas homogêneas de duas ou mais substâncias. Nas soluções, o componente que está presente em menor quantidade recebe o nome de soluto (é o disperso), enquanto o componente predominante é chamado de solvente (é o dispersante). Por exemplo, quando dissolvemos açúcar em água, o açúcar é o soluto, e a água, o solvente. As soluções são muito importantes em nosso dia-a-dia: o ar que respiramos é uma solução (mistura) de gases; a água do mar (que cobre 3 4 da superfície terrestre) é uma solução que contém vários sais; muitos produtos, como bebidas, materiais de limpeza, remédios, etc. são soluções; muitas reações químicas, feitas em laboratórios e em indústrias, são realizadas em solução; em nosso corpo (que con- tém cerca de 65% em massa de água), o sangue, o suco gástrico, a urina são líquidos que contêm em solução um número enorme de substâncias que participam de nosso metabolismo. As soluções, enfim, têm grande importância científica, industrial e biológica. 2.2. Classificações das soluções Há várias classificações para as soluções. Por exemplo, algumas soluções podem ser eletrolíticas e não- eletrolíticas, conforme conduzam ou não a corrente elétrica. No momento, o que mais nos interessa é classificar as soluções segundo o seu estado físico. Fala-se então em soluções sólidas, líquidas e gasosas. Açúcar (soluto) Água (solvente) Solução de açúcar em água Muitas ligas metálicas são soluções sólidas. É o caso do ouro comum, que é uma liga de ouro e cobre. Os gases sempre se misturam perfeitamente entre si, resultando uma solução (ou mistura) gasosa. O ar é uma mistura em que predominam N2 e O2. As soluções líquidas são muito comuns. O vinagre, por exemplo, é uma solução de ácido acético em água. Das soluções líquidas, estudaremos neste capítulo as que são mais importantes para a Química, a saber: soluções de sólidos em líquidos e soluções de gases em líquidos. 2.3. Mecanismo da dissolução Por que certas substâncias se misturam tão intimamente, a ponto de formar soluções, enquanto outras não se misturam? Exemplo: por que a água se mistura com o álcool comum, e não com a gasolina? Isso ocorre devido às forças intermoleculares que unem as partículas formadoras de cada substância. Acompanhe a problemática da dissolução nos três exemplos importantes dados a seguir. C ID IS A C O D IN A D E P E D R O / C ID JU A N D E D IO S LE B R Ó N /C ID Capitulo 01A-QF2-PNLEM 4/6/05, 14:294 R ep ro du çã o pr oi bi da . A rt .1 84 do C ód ig o P en al e Le i 9 .6 10 de 19 de fe ve re iro de 19 98 . 5Capítulo 1 • SOLUÇÕES 1o exemplo — Caso da água (H2O), do álcool comum (C2H5OH) e da gasolina (C8H18) H H H O O O H H H Na água pura existem moléculas H2O, polares: No álcool comum há moléculas C2H5OH, também polares: Na gasolina há moléculas C8H18, apolares: As moléculas de H2O estão ligadas por fortes pontes de hidrogênio. As moléculas de C2H5OH estão ligadas por pontes de hidrogênio mais fracas que as da água. Entre as moléculas de C8H18 existem ligações de Van der Waals, que são bem mais fracas do que as pontes de hidrogênio. C2H5 H H O O O C2H5 H C2H5 Juntando-se água e álcool, forma-se uma solução; as ligações entre as moléculas de água e as ligações entre as moléculas de álcool se rompem, permitindo,assim, novas ligações, também do tipo pontes de hidrogênio: As moléculas de água e de álcool ficam ligadas por pontes de hidrogênio. Juntando água e gasolina, não se forma uma solução; as moléculas de água não encontram “pontos de polaridade” nas moléculas de gasolina, onde possam se unir; conseqüentemen- te, as moléculas de água continuam reunidas entre si e separadas das de gasolina: A água e a gasolina formam duas camadas, e a água, que é mais densa, fica na camada inferior. H H H O O O C2H5 H H O H C2H5 H H H O O O H H H O H H Água e álcool Gasolina Água Misturando-se água e álcool e água e gasolina, teremos duas situações: 2o exemplo — Dissolução do sal comum em água Colocando-se sal de cozinha na água, a “extremidade negativa” de algumas moléculas de água tende a atrair os íons Na" do reticulado cristalino do sal; e a “extremidade positiva” de outras moléculas Cl–Na+ Na+ Na+ Cl –Cl – Na+ Cl –Cl – Cl –Na+ Na+ O cloreto de sódio é uma substância sólida, formada pelos íons Na" e Cl#. O H H + – A água é uma substância líquida, formada por moléculas de H2O, muito polares. (representação sem escala e com uso de cores-fantasia) Capitulo 01A-QF2-PNLEM 29/6/05, 11:285 R ep ro du çã o pr oi bi da .A rt .1 84 do C ód ig o P en al e Le i 9 .6 10 de 19 de fe ve re iro de 19 98 . 6 de água tende a atrair os íons Cl# do reticulado. Desse modo, a água vai desfazendo o reticulado cristalino do NaCl, e os íons Na" e Cl# entram em solução, cada um deles envolvido por várias molécu- las de água. Esse fenômeno é denominado solvatação dos íons. Note na representação (sem escala e com uso de cores-fantasia) que há um confronto entre as forças de coesão dos íons Na" e Cl# no estado sólido e as forças de dissolução e solvatação dos íons, exercida pela água. Evidentemente, se as forças de coesão predominarem, o sal será menos solúvel; se as forças de dissolução e solvatação forem maiores, o sal será mais solúvel. É interessante notar que muitas soluções são coloridas e isso se deve aos seus íons. Assim, por exemplo, são coloridas as soluções com os cátions: Cu2" (azul), Fe3" (amarelo), Ni2" (verde), etc.; e também as soluções com os ânions: MnO# 4 (violeta), Cr2O 2 7 # (laranja), etc. 3o exemplo — Dissolução do gás clorídrico em água O gás clorídrico é uma substância gasosa formada por moléculas polares (HCl). Ao serem dissolvi- das em água, as moléculas de HCl são atraídas pelas moléculas de água e se rompem, de acordo com o esquema abaixo: Cl–Na+ Na+ Na+ Cl –Cl – Na+ Cl –Cl – Cl –Na+ Na+ O H H O H H Na+ Cl – O HH O H H O H H O H H O H H HO H O H H O HH O H H O H H HO H O H H Isso significa que há uma reação química, pois se formam novas partículas: H3O " e Cl#. Essas partícu- las vão se dispersando pela solução, rodeadas por moléculas de água, como foi explicado no exemplo da dissolução de sal comum em água. Note que também aqui ocorre o fenômeno da solvatação dos íons. Nesse exemplo encontramos também um confronto entre as forças de ligação dentro de cada molécula e as forças de atração entre as moléculas; quanto mais fortes forem estas últimas, maior núme- ro de moléculas do soluto se romperá, o que equivale a dizer que o soluto fica mais ionizado ou também que se trata de um eletrólito mais forte. Note ainda uma diferença importante: • no exemplo da dissolução do NaCl, a água apenas separa os íons Na" e Cl# já existentes; esse fenômeno é chamado de dissociação iônica do NaCl; • no exemplo da dissolução do HCl, a água reage quimicamente com o HCl, provocando a forma- ção dos íons H3O " e Cl#; esse fenômeno recebe o nome de ionização do HCl. " " ##O H H HO Cl#" H H ClH " Capitulo 01A-QF2-PNLEM 29/6/05, 11:326