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SP 1.2 : Nem existe mais? TUTORIA Membro fantasma Definição A dor fantasma no membro (PLP, do inglês phantom limb pain) é uma dor neuropática que geralmente ocorre em pacientes vítimas de grandes amputações de extremidades superiores ou inferiores. Essa dor crônica é física e mentalmente debilitante, bem como aumenta o risco de obesidade, doenças cardiovasculares, desordens do sono, dores articulares e lombares. ● Pode ser grave e debilitante ● Envolve a sensibilização central, por conta da lesão do nervo periférico Fisiopatologia Ainda não é bem esclarecida, mas há quatro teorias principais: Alterações de nervos periféricos: ● Os traumas nos nervos e tecidos causados pela amputação levam à interrupção dos sinais aferentes e eferentes ● Nos nervos ocorre o brotamento de neuromas, deixando essas estruturas hiperexcitáveis e, com o aumento dos canais de sódio, há várias descargas elétricas. Alterações na medula espinhal ● Ocorre uma sensibilização central: aumento da atividade dos receptores nociceptivos - os nervos ficam hipersensíveis ● Atividade do N-metil-aspartato (NMDA) no corno dorsal da medula → os neurônios ficam suscetíveis a ativação pela substância P, taquicininas ou neurocininas, seguidos por regulação positiva dos receptores. Teoria das mudanças cerebrais ● As áreas do córtex que representam a região amputada são ocupadas por novas redes de transmissão (no córtex somatossensorial primário e no motor), contribuindo para a dor. Teoria dos fatores psicogênicos ● O medo de sentir dor: o ato de evitar o movimento por conta da dor (ou de achar que vai sentir dor) pode favorecer a cronicidade da dor. Fisiopatologia da dor neuropática Dor neuropática A dor neuropática é aquela decorrente de lesões do sistema somatossensorial, que podem ocorrer tanto em um nervo periférico como em estruturas centrais. Manifesta-se como dor espontânea com episódios dolorosos semelhantes a choques, hiperalgesia (dor grave produzida por estímulos nociceptivos leves) e alodínia (dor produzida por um estímulo não doloroso ou inócuo). Fisiopatologia Sensibilização periférica: resulta do aumento da frequência de disparo de potenciais de ação de neurônios de primeira ordem, em decorrência da ação dos produtos liberados pela lesão. ENVOLVE OS NOCICEPTORES ● Sensibilização dos nociceptores: os nociceptores são estimulados repetidamente por conta da lesão ● Diminuição do limiar dos nociceptores: os nociceptores sensibilizados passam a responder a estímulos leves ● Aumento dos mediadores inflamatórios no local - em decorrência da lesão: substância P, prostaglandinas, serotonina, histamina e bradicinina. Sensibilização central: está relacionada com os neurônios de segunda ordem ou com a transmissão no corno dorsal da medula ● Inicia a partir da estimulação periférica intensa - envolvendo as fibras C. Essa estimulação ativa os receptores N-metil-D aspartato (NMDA), presentes nas fibras de segunda ordem. Na nocicepção aguda normal a transmissão sináptica ocorre pela ligação do glutamato ao seu receptor AMPA pós-sináptico e os receptores NMDA estão adormecidos, com sua atividade bloqueada pelo magnésio. ● Muitos estímulos transmitidos pela fibra C → liberação de grandes quantidades de glutamato no corno posterior da medula espinal → remove a molécula de magnésio bloqueadora do NMDA → ATIVAÇÃO DO NMDA ● WIND-UP: ativação do NMDA ● A ativação provoca a transmissão amplificada dos estímulos nociceptivos ● O NMDA permite o influxo de cálcio, aumentando as quinases cálcio-dependentes. Elas são responsáveis pelo aumento intracelular do óxido nítrico (↑ sensibilização) e pela degradação do ácido aracdônico → liberação de prostaglandinas, potencializando o processo inflamatório ● NEUROPLASTICIDADE: ocorre pela intensa ativação de receptores e pela liberação de neurotransmissores. As fibras nervosas (como a A beta) que estavam adormecidas passam a participar do processo nociceptivo → amplificação da área dolorosa Fisiopatologia da dor psicogênica Mecanismo de ação do gabapentina e efeitos adversos O mecanismo de ação dos anti-hiperálgicos, como a gabapentina, consiste na redução da hiperexcitabilidade dos neurônios do corno dorsal da medula espinhal. Tratamento da dor neuropática ● A gabapentina faz ligação pós sináptica com os canais de cálcio, diminuindo a entrada de cálcio nas terminações nervosas e reduzindo a liberação de neurotransmissores Efeitos adversos: ● Sonolência ● Cefaleias ● Fadiga ● Vertigem ● Ganho de peso Cronificação da dor: papel do sist. nervoso autônomo A cronificação da dor pode surgir como resultado de alterações nas propriedades dos neurônios no sistema nervoso central pelo fenômeno da sensibilização central A neuroplasticidade altera profundamente a sensação dolorosa, contribuindo para muitas síndromes clínicas da dor e pode representar um importante alvo para intervenção terapêutica. Alterações no SNA podem afetar a percepção e a experiência da dor crônica. Profissionais no tratamento da dor fantasma A reabilitação deverá contar com uma equipe multiprofissional que pode ser composta, por exemplo, por médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e psicólogos. O projeto terapêutico do paciente deve ser pactuado dentro da equipe multiprofissional, objetivando garantir uma atenção integral e evitando a existência de condutas conflituosas. Anestesia X analgesia Anestesia: Anestesia é o processo pelo qual se interrompe a sensação de dor, como a causada por um trauma cirúrgico (operação). Há 3 tipos de anestesia - local (dar ponto no pé/tratar cárie dentária), geral (cirurgia) e bloqueio (raquianestesia) Analgesia: s provocam a ausência ou o amortecimento da dor sem perda de consciência. Critérios para amputação Critério de elegibilidade: em situações de isquemia, infecções, tumores malignos e traumas. É imprescindível considerar se há realmente a necessidade de urgência da amputação, como nos casos de trauma e infecções, para que seja possível realizar um pré-operatório com o paciente e, assim, otimizar o resultado pós-cirúrgico. LAB. MORFO Medula espinal Plexo lombossacral ● L1: nervo ílio-hipogástrico e nervo ilioinguinal. ● L1 + L2: nervo: gênito femoral ● L2+L3: nervo: cutâneo femoral lateral. ● L2+L3+L4 (parte posterior): nervo: femoral. ● L2+L3+L4 (parte anterior): nervo obturatório. ● L4+L5: tronco lombossacral. ● Tronco lombossacral + S1+S2+S3: nervo cutâneo femoral posterior. ● S1+S2+S3: nervo cutâneo posterior da coxa. ● S2+S3+S4: nervo pudendo. ● L4+L5+S1: nervo glúteo superior. ● L5+S1+S2: nervo glúteo inferior MED. LAB. Gabapentina - aspectos farmacológicos ● Gaba: neurotransmissor inibitório; ● Receptores difundidos por todo o SNC: ● GABAA; ● GABAB. ● Impedem a propagação do sinal: Promovendo hiperpolarização. ● Impedem a liberação de neurotransmissores: Bloqueando canais de cálcio dependentes de voltagem Receptores GABAA ● Receptores ionotrópicos; ● Permitem o influxo de íons de cloreto; ● Promovem hiperpolarização. ● Metabotrópico (acoplado à proteína G): ● O neurotransmissor GABA se liga ao receptor GABAB; ● Proteína G é ativada: Bloqueio dos canais de cálcio dependentes de voltagem-Impedimento da liberação de neurotransmissores. ● Abertura de canais de potássio: ● Hiperpolarização. ● Inibição da adenilato ciclase Gabapentina ● Fármaco antiepiléptico: Utilizado para o tratamento de crises parciais ● Utilizado também para o tratamento de dor neuropática; Farmacocinética ● Administração por via oral ● Absorção intestinal: ○ Sistema transportador de aminoácidos; ○ Propriedade de saturabilidade: ■ Aumentar a dose não aumenta proporcionalmente a quantidade absorvida; ■ Gabapentina não apresenta efeitos adversos associados à superdosagem. ● Meia-vida plasmática de 6 horas; ● Posologia: 2 -3 vezesao dia; ● Livre de interações com outros fármacos. Farmacodinâmica ● Apesar de ser análogo simples do gaba e conseguir atravessar a barreira hematoencefálica por ser lipossolúvel, deve seu efeito principalmente: ● Por sua ação (bloqueio) nos canais de cálcio: IMPORTANTE Mecanismo de anticonvulsivantes ● bloqueio de canais de iônicos (ex. canais de sódio e cálcio) e de receptores de neurotransmissores (ex. o ácido gama-aminobutírico-GABA e os receptores de glutamato). ● Os anticonvulsivantes podem agir na modulação de neurotransmissores nociceptivos, fornecendo analgesia por intermédio da potencialização das vias inibitórias da dor e/ou limitação da hiperexcitação neuronal. ● Na dor neuropática, após a lesão da fibra nervosa, surgem novos canais de sódio próximos às áreas de regeneração e reparação da lesão. ● Esta proliferação de novos canais de sódio torna a fibra nervosa altamente sensitiva, despolarizando-se a qualquer estímulo ou até de forma espontânea sem a necessidade de estimulação externa. ● Em geral, as dores de origem neuropática apresentam forte potencial de cronificação, pois a geração espontânea de estímulos pode perdurar mesmo após a reparação do tecido lesionado. TBL Questões 1) Sobre dor crônica e transtornos psiquiátricos, assinale a alternativa correta: a. Transtornos psiquiátricos podem modificar o risco para dor crônica, bem como seu surgimento ou agravamento poderia ser influenciado pela dor crônica; b. Há poucas evidências de que a psicoterapia possa auxiliar no tratamento da dor crônica. Desse modo, somente os casos refratários ao tratamento medicamentoso devem ser encaminhados à psicoterapia; c. Dor crônica é menos prevalente em pessoas com transtorno de ansiedade e depressão; d. A prevalência do transtorno de estresse pós-traumático é menor em pacientes com dor crônica; 2) Na tabela 1 do capítulo 7 “Interconsulta do paciente com dor”, há uma informação desatualizada. Assinale qual das alternativas abaixo reproduzidas dessa tabela é essa informação. a. Alodinia: dor com estímulos que normalmente não a provocam (p. ex., leve toque causando dor). b. Disestesia: sensação anormal, espontânea ou provocada, que é considerada desagradável. c. Dor neuropática: causada por transtorno funcional ou alteração patológica em um ou mais nervos. Se associa a alterações sensoriais. d. Hiperalgesia: redução do limiar de dor com resposta dolorosa exagerada a um estímulo provocador. 3) Sobre a dor crônica analise as afirmações abaixo e assinale a alternativa correta: I- A combinação de abordagens psicológicas com farmacológicas é mais eficaz do que somente uma das duas isoladas. II- São terapias não-farmacológicas com evidência científica no controle da dor crônica: meditação, acupuntura, yoga e massagem. III- Serve como um aviso de “agressão tissular”, protegendo o indivíduo contra lesões adicionais. a. Há 2 afirmações corretas b. Todas as afirmações estão corretas. c. Há 1 apenas uma afirmação correta. d. Nenhuma das afirmações está correta. 4) Assinale a alternativa correta: a. A serotonina na periferia é uma substância antinociceptiva. b. A noradrenalina é um dos neurotransmissores presentes na via descendente inibitória da dor. c. Os interneurônios secretam noradrenalina no corno posterior da medula para modular negativamente a sinapse do primeiro para o segundo neurônio. d. As vias descendentes inibitórias da dor estão hiperativadas nos pacientes com dor crônica. 5) Sobre os mecanismos que geram a hiperalgesia e alodinia nos pacientes com dor crônica, assinale a alternativa correta: a. O fenômeno de wind-up ocorre quando o glutamato se liga ao receptor AMPA do segundo neurônio. b. O processo de sensibilização central inicia-se a partir de uma estimulação periférica intensa e crescente proveniente das fibras aferentes C ou de fibras nervosas lesadas diretamente. c. Na desinibição, a atividade gabaérgica é potencializada pelos interneurônios. d. A sensibilização central ocorre apenas nas dores crônicas do tipo neuropáticas. 6) Analise as afirmações abaixo e assinale a alternativa correta: I- Os antidepressivos duais como a amitriptilina atuam bloqueando a recaptação de serotonina e de noradrenalina, aumentando sua oferta na fenda sináptica. II- Antidepressivos são prescritos para a profilaxia da dor, não para o seu tratamento. III- O efeito benéfico obtido na dor pelo uso de antidepressivos duais ocorre devido ao tratamento da depressão que pode estar associada nesses pacientes. a. Todas estão corretas. b. Apenas duas afirmações estão corretas. c. Apenas uma afirmação está correta. d. Nenhuma das afirmações está correta. Psicológico e dor crônica ● Algumas doenças psiquiátricas favorecem o aparecimento da dor crônica ● A dor crônica favorece o aparecimento de doenças psiquiátricas ● O tratamento da dor crônica é melhor quando há tratamento medicamentos + não medicamentoso ● Pessoas deprimidas ao processar a dor, têm uma hiper-reatividade da amígdala, hipocampo e córtex pré-frontal, o que corresponderia clinicamente a uma reatividade emocional aumentada que dificultaria a habilidade de modular experiência da dor. ● Doenças mentais associam-se a alterações no processamento da dor, enquanto a dor crônica poderia comprometer funções cognitivas e emocionais. Dor neuropática - definição atual Aquela decorrente de uma lesão ou doença que acomete diretamente o sistema somatossensitivo Serotonina e noradrenalina ● Algumas substâncias agem modulando tanto a dor quanto as emoções e o comportamento, como a serotonina e a noradrenalina. ● Têm efeitos pró nociceptivos ou antinociceptivos, dependendo do local ou do receptor em que atuam. ● Sua ação conjunta nas vias inibitórias descendentes é analgésica. ● Já na periferia, a serotonina (via receptor 5HT3) e a noradrenalina (via receptor α2-adrenérgico) seriam pro nociceptivas, aumentando a dor Vias descendentes inibitórias da dor ● Projeções descendentes encefálicas também são capazes de modular a informação nociceptiva que alcança os neurônios de segunda ordem na medula. ● Uma das projeções descendentes têm origem nos neurônios do locus ceruleus, cujos axônios alcançam o corno posterior da medula e ali liberam norepinefrina. ● A norepinefrina inibe a liberação de substância P pelos neurônios aferentes primários antes de eles fazerem sinapse com os neurônios de segunda ordem (inibição pré-sináptica). ● Outra projeção descendente tem origem na substância cinzenta periaquedutal (PAG) no mesencéfalo. ● a PAG faz conexões excitatórias com o núcleo magno da rafe, do qual partem projeções serotoninérgicas que inibem, diretamente ou por meio de interneurônios (endorfinas), os neurônios de segunda ordem no corno posterior da medula espinhal. Modulação da dor Modulações no corno posterior da medula espinhal (CPME) entre 1º e 2º neurônio: Inibição : ● Exemplo: quando os interneurônios secretam GABA ou opioides endógenos; ● (resultado final da via descente inibitória) Amplificação: ● Exemplo: Quando o glutamato liberado pelo 1º neurônio na fenda sináptica se liga aos receptores NMDA; (uma das alterações na sensibilização central) Sensibilizações: ● Hiperalgesia primária: a área de hiperalgesia corresponde À área da lesão, sendo consequência direta da sensibilização periférica ● A hiperalgesia secundária é aquela percebida em área não relacionada à lesão inicial, estando relacionada a sensibilização central. Sensibilização central: wind-up Desinibição (ocorre durante a dor) ● O incremento da atividade nociceptiva, com liberação intensa de prostaglandinas e óxido nítrico e outros mediadores nociceptivos no CPME estimula a apoptose de interneurônios, diminuindo a capacidade inibitória GABAérgica no CPME. ● Menor atuação da via descendente inibitória de modulação dolorosaAntidepressivos ● Os antidepressivos estão entre os medicamentos mais prescritos atualmente para o tratamento da dor, especialmente crônica, neuropática e/ou funcional. ● São utilizados também na profilaxia da enxaqueca, nos estados de depressão, síndromes ansiosas, pânico, fobias, enurese noturna, úlcera péptica, alterações do apetite e lombalgia crônica. ● Alguns exercem ação sedativa, ansiolítica e miorrelaxante. Atuam no sono e estabilizam o humor. ● Os antidepressivos atuam no sistema inibitório descendente da dor, em vias noradrenérgicas e serotoninérgicas, além de inibirem a transmissão nociceptiva entre o primeiro e o segundo neurônio em nível medular e aumentarem a afinidade dos opioides a seus receptores. ● Esses efeitos ocorrem antes mesmo das 2 semanas necessárias para o início do efeito antidepressivo dessas medicações. ● As classes de antidepressivos mais estudadas no tratamento da dor são: os tricíclicos (a amitriptilina e a nortriptilina ) e os duais (venlafaxina e duloxetina).