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CENTRO UNIVERSITÁRIO UNICARIOCA O ATO DE CONTAR HISTÓRIAS E A ESTIMULAÇÃO DAS COMPETÊNCIAS COGNITIVAS E SOCIOEMOCIONAIS NAS SÉRIES INICIAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL DÉBORA CRISTINA OLIVEIRA VASCONCELOS Rio de Janeiro 2019 1 DÉBORA CRISTINA OLIVEIRA VASCONCELOS O ATO DE CONTAR HISTÓRIAS E A ESTIMULAÇÃO DAS COMPETÊNCIAS COGNITIVAS E SOCIOEMOCIONAIS NAS SÉRIES INICIAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL Orientadora: Carolina Chaves Ferro Rio de Janeiro 2019 Trabalho de conclusão de curso apresentado ao Centro Universitário Carioca, como requisito parcial pra obtenção do grau de Licenciado em Pedagogia. 2 DEDICATÓRIA Dedico aos meus pais Bárbara e Marcel, pelo amor incondicional e por acreditarem em mim desde sempre. 3 AGRADECIMENTOS Agradeço este trabalho primeiramente a Deus, por me permitir chegar até aqui, apesar dos obstáculos, Ele me sustentou em cada segundo e me deu a vitória. Para mim era algo tão distante e inalcançável e hoje sei que se estou onde estou pela permissão do meu Senhor, que é luz para o meu caminho. A minha imensa gratidão aos meus pais, Bárbara e Marcel, por sempre investirem em mim me oferecendo a oportunidade de estudar, uma vida inteira agradecendo seria pouco, pois o amor, a força, o incentivo e as palavras de conforto de vocês fizeram e fazem a diferença em cada passo da minha caminhada. A minha filha Isabella por ser minha inspiração em vários momentos e por me ensinar tanto e ao meu amado e saudoso avô João, que não está mais presente comigo fisicamente, o levarei eternamente em meu coração. Essas cinco pessoas são os amores da minha vida. Eu nada seria e teria alcançado sem vocês. Extrema gratidão às pessoas que contribuíram para que esse trabalho se tornasse real. Fica o meu agradecimento aos colegas que fizeram parte dessa caminhada, aos que chegaram até o final junto comigo e aos que por algum motivo seguiram rumos diferentes. Em especial ao Marcos Ribeiro, que me proporcionou a incrível experiência de entrevistar a escritora de literatura infantil Ruth Rocha, a própria Ruth Rocha por ter disponibilizado um tempo para contribuir ricamente com suas experiências e conhecimento para este trabalho e por carinhosamente ter me enviado um livro autografado e a minha inteligentíssima orientadora e professora Carolina Chaves Ferro, que me ensinou tanto com a sua doçura e afeto em apenas um semestre. 4 RESUMO Este trabalho teve como objeto de estudo levar informação, construção do conhecimento e sugestões a pais e docentes sobre a importância da contação de histórias para o desenvolvimento cognitivo e socioemocional das crianças nas séries iniciais do Ensino Fundamental e como ela pode ser utilizada como prática docente. O objetivo principal é promover a mudança comportamental primeiramente dos adultos para que possam colocar em prática a contação no dia a dia da criança, tornando um hábito, levando-a a desenvolver suas competências, a auxiliá-la a compreender suas emoções e a ter um bom convívio com o outro e o meio em que se encontra inserida. Pretende-se, também, demonstrar a promoção da mudança comportamental da criança por meio do ato de contar histórias. A partir das informações coletadas, foram analisados e discutidos aspectos como ter um olhar diferenciado ao outro, oportunizando a sua evolução no ambiente escolar e não escolar e concluiu-se que a parceria dos pais e professores é significativa, uma vez que se faz necessário programar projetos educacionais pretendendo favorecer os alunos tanto nas disciplinas curriculares quanto nas suas relações, abrangendo o conjunto de questões afetivas, que são os sentimentos. Palavras–chave: Contação de histórias. Competências cognitivas e socioemocionais. Séries iniciais do Ensino Fundamental. 5 SUMÁRIO Nº da página 1 – INTRODUÇÃO 6 2 – REFERENCIAL TEÓRICO 10 3 – RESULTADOS E DISCUSSÕES 21 4 - CONCLUSÃO 29 5 - REFERÊNCIAS 31 6 1 INTRODUÇÃO O ato de contar histórias é uma ação praticada desde a antiguidade. Esta prática traz benefícios não só para as crianças, mas a todos em todas as fases da vida, permitindo aos contadores desenvolver no outro as competências cognitivas e socioemocionais1. A leitura é uma prática pedagógica tão rica que os docentes deveriam, ao longo do ano letivo, desenvolver diversos projetos literários com a inclusão dos pais, podendo ser trabalhado a curto, médio ou longo prazo. Muitas vezes os pais têm questões que os impedem de realizar com seus filhos a contação de histórias, então a escola se torna responsável por informar e levar instruções a esses pais, ressaltando a importância para a formação do ser integral da criança. Sendo assim, eles saberão como e porque é essencial pôr a contação de histórias em prática. O professor deve traçar todos os objetivos que ele deseja alcançar com aquela turma e qual caminho ele vai seguir, mas, para que seja um projeto de excelência, ele também requer um planejamento, analisando particularidades e propondo atividades relacionadas a abordagem da contação. Existem docentes que não valorizam a contação de histórias, então é necessário levar os demais professores a conhecerem e experimentarem as maravilhas oferecidas pelas histórias. Além dos alunos, os professores precisam estar conectados com o universo da leitura e buscar uma dedicação para que possam ver os resultados que são valiosos. É uma prática onde todos os envolvidos saem beneficiados com a experiência. Quando os docentes possuem um olhar diferenciado, mais afetuoso para a sua turma, eles conseguem identificar quais as necessidades daquelas crianças que precisam ser supridas. Logo a contação de histórias é uma das práticas pedagógicas que podem auxiliar na aprendizagem e nas emoções. Para apontar a importância da contação de história para nossas crianças, este trabalho foi dividido em duas partes, uma teórica e uma analítica. A parte teórica discutirá os impactos pedagógicos que a contação de história acarreta na vida das crianças, demonstrando que a aprendizagem através da leitura é mais 1 Refere-se ao convívio com o social e as emoções. 7 prazerosa e eficiente; a apresentação das temáticas a serem abordadas na contação de histórias, pois não há questão que não possa ser trabalhada com as crianças, desde que ela seja adaptada ao seu contexto; e os critérios e estratégias na prática da contação de histórias baseados nas competências cognitivas e socioemocionais, entendo que a leitura conjunta pode desenvolver as crianças de forma plena, tornando-as seres humanos mais conscientes e que lidam melhor com a diferença, com suas emoções, desenvolvendo plenamente sua cognição. Já a parte analítica discute o papel dos docentes na contação de histórias, como eles são importantes nesse processo e como podem ajudar os responsáveis a entenderem a relevância dos livros na vida das crianças; logo após, será discutida a permanência da contação de histórias para as crianças do ensino fundamental, entendendo que essa prática deve permanecer e não ser excluída para crianças que já estão na fase do aprendizado da leitura; e, por último, serão avaliadas as respostas da renomada escritora brasileira Ruth Rocha, acerca da importância da literatura infantil. 1.1 Objetivos Conscientizar2 pais e docentes sobre a importância da contação de histórias em ambientes escolares e não-escolares, uma vez que a contação não é maisinterpretada como um meio de entreter crianças sem que haja um objetivo. É necessária a elaboração de um planejamento e que se realize uma preparação prévia do contador até que a contação aconteça. Quando os pais praticam a contação de histórias, eles conseguem que os vínculos afetivos sejam fortalecidos com seus filhos, auxiliando-os na canalização de suas emoções e na construção do conhecimento para a aprendizagem das disciplinas escolares. O objetivo principal foi desmembrado em alguns objetivos específicos que são explorar os impactos pedagógicos da contação de histórias na aprendizagem e nas vivências das crianças; detectar as principais temáticas a serem abordadas com as crianças, definir os critérios e as estratégias na prática 2 O ato de conscientizar trata-se de levar informação gerando a construção do conhecimento e tendo como consequência a mudança de comportamento, caso a conscientização ocorra. 8 da contação de histórias, pois eles são o caminho a ser percorrido em que o contador, sendo os pais ou os docentes, escolhe os recursos para utilizar durante a contação, visando alcançar os objetivos traçados para aquela determinada situação de forma lúdica. 1.2 Justificativa Justifica-se esse trabalho, pois a prática de contar histórias contribui para o desenvolvimento social, emocional e cognitivo da criança, por isso deve ser praticada na escola e em casa com o objetivo de estreitar e fortalecer vínculos afetivos, pois quando os pais e os docentes têm um olhar diferenciado a fim de detectar as competências cognitivas e socioemocionais que precisam ser desenvolvidas juntas, conseguem um resultado positivo. Geralmente os docentes detectam previamente quando o aluno está passando por algum conflito, podendo ser interno ou externo. Deste modo, cabe ao professor desenvolver um trabalho paralelo com a família em busca da resolução do problema observado. Assim, as crianças conseguem desenvolver a aprendizagem e compreender suas emoções de forma lúdica, como é o papel da contação de histórias. 1.3 Metodologia Trata-se de uma pesquisa bibliográfica e qualitativa, baseada no estudo da contribuição e auxílio que a contação de histórias promove no âmbito escolar, social e emocional da criança, demonstrando as possíveis mudanças comportamentais, e a aplicabilidade da Lei de Diretrizes e Bases, com os Temas Transversais, que são constituídos pelos Parâmetros Curriculares Nacionais, para que nós, profissionais de educação, possamos promover a aprendizagem do aluno. Esses materiais foram utilizados como fontes primárias. Também foi realizada uma entrevista com a escritora de livros infanto-juvenil Ruth Rocha, na qual ela ressalta a importância da leitura e da contação de histórias para o 9 desenvolvimento integral do ser e a construção do conhecimento fazendo uma ligação com as vivências da criança. Como fontes secundária foram utilizados cinco materiais que mostram que as histórias contadas e as leituras realizadas funcionam como um meio de comunicação que proporciona ao outro o ato de aprender de forma lúdica, mantendo a criança motivada e interessada durante todo o processo, no desenvolvimento de valores e na formação de cidadãos plenos que tenham consciência dos seus direitos e deveres tornando-os seres pensantes e críticos para a formação da sociedade. 1.4 Organização do Trabalho Esse trabalho foi dividido em introdução, que caracteriza a primeira parte salientando a sua importância, os objetivos, justificativa e a metodologia; nos pressupostos teóricos, que foi desmembrado em três tópicos, desenvolvendo os impactos pedagógicos gerados através contação na aprendizagem e nas experiências de vida, as temáticas que podem ser abordadas por meio das histórias e os critérios e estratégias que podem ser abordados nas histórias com o enfoque nas competências cognitivas e socioemocionais. Dando continuidade, nos resultados e discussões, igualmente separados em três tópicos tratam o desfecho do que foi coletado, apontando a importância do papel do professor e da continuidade da contação de histórias no ensino fundamental, finalizando com uma entrevista realizada com a escritora Ruth Rocha, referência na temática há cinco décadas. Por último, a conclusão na qual o trabalho é finalizado e as referências bibliográficas onde menciona as fontes que auxiliaram na construção do mesmo. 10 2 REFERENCIAL TEÓRICO As discussões teóricas que envolvem a contação de histórias foram divididas em três partes. Num primeiro momento, serão discutidos os impactos pedagógicos que a contação gera na aprendizagem e nas experiências de vida. Entende-se, aqui, que o ato de contar histórias não é mera atividade lúdica. Ao contrário, promove um real aprendizado no aluno. Num segundo momento, procurou-se destacar as temáticas que podem ser abordadas com as crianças através da leitura. Ao contrário do que muitos acreditam, podemos trabalhar, inclusive, temas complexos com as crianças, desde que com uma linguagem adequada para a faixa etária em questão. Por último, nesta parte, refletiremos sobre as estratégias e critérios da prática docente que podem ser utilizadas na contação para o desenvolvimento socioemocional e cognitivo da criança. 2.1 Impactos pedagógicos que a contação de histórias gera na aprendizagem e nas experiências de vida Como descrito por Solimar Silva (2015), a estimulação da contação de histórias nas séries iniciais é muito presente, visando trabalhar a leitura e auxiliar a aprendizagem em variados aspectos, como o conhecimento de novas palavras, o uso de letras maiúsculas, quando necessário, identificação de elementos (“ç”, encontros vocálicos, palavras com um específico número de sílabas, dentre outros). No entanto, depois dessa fase, essa prática é exercida esporadicamente e, por consequência, perdemos a chance de utilizar esta ferramenta que é muito útil e rica em diversos aspectos. Os educadores vão muito além de ensinar conteúdos curriculares a seus educandos, dá-se ao aluno o incentivo, motivação, orientação, diálogo e apoio, tendo como finalidade desenvolver o indivíduo como pessoa e o relacionamento social. Para que esse objetivo seja alcançado, é necessário um trabalho diário, incansável e responsável. Pode-se abordar diversos assuntos com apenas uma história e alcançar vários públicos, tendo como foco a análise crítica do ouvinte. Os professores contribuem diariamente para a construção dos alunos como cidadãos, 11 primeiramente servindo de exemplo a ser seguido por meio do seu comportamento e suas atitudes. Ao escolher uma história com a temática de amizade e solidariedade, se auxilia a criança a estreitar laços com quem se relaciona e a respeitar um posicionamento oposto ao seu. Os educadores estão constantemente estimulando dentro do ambiente escolar a criatividade e autonomia. Deste modo, a contação de histórias pode ser trabalhada com a função de despertar e estimular esse aluno. Controlar a si especificamente e o cuidado no que diz respeito ao próximo são temáticas que se consegue abordar na narrativa, assim como controlar seus impulsos na fala e ou ações, fazendo o indivíduo pensar antes de agir, logo, o mesmo consegue se controlar socioemocionalmente. Não há momento apropriado para contar uma história que trate este assunto visto que estamos expostos a situações de conflitos sempre, logo, estaria sendo feito um trabalho de prevenção a uma determinada situação. Quando o contador não age de forma preventiva, terá que agir para solucionar o problema. Se usarmos como exemplo uma turma na qual as crianças estejam se portando ao outro de modo agressivo por meio de palavras e atitudes ou fazendo julgamentos, contar uma história que fale sobre o assunto fará mais efeito do que umarepreensão ou castigos que podem gerar uma revolta no indivíduo. As histórias têm o poder de marcar a vida das pessoas e é muito certo que quando alguém da turma for agir de forma indevida, se lembrarão do que lhes foi contado, fazendo associação entre a história e o que aconteceu. A maturidade faz as pessoas perceberem que são necessários dois elementos: o poder de escolha e a responsabilidade que vem atrelada à mesma. Normalmente ocorre com crianças do Ensino fundamental I transferir para os seus responsáveis a culpabilidade de algo que deveria ter sido feito e não foi, isto referente a um ambiente escolar, consequentemente os pais em alguns momentos aceitam carregar a culpa e deixam passar despercebidos a oportunidade de agirem de uma maneira diferenciada, permitindo que a criança se frustre para que entenda que nem tudo é da maneira que queremos, porque se escolhemos fazer ou deixar de fazer algo referente a uma determinada situação, logo, esta decisão terá consequências e assumir esta consequência chama-se responsabilidade, independente dela ser boa ou ruim. Isso traz um 12 peso que ninguém gosta de levar. Junto ao entendimento do que é ter responsabilidade e do peso que ela acarreta é saber, também, que existem obrigatoriedades. Histórias com essa temática mostram que temos que colocar como prioridade o que faz parte das obrigações do cotidiano, que os erros nos levam ao acerto. Estão presentes em nossa vida as diferenças culturais e religiosas, e individualidades. Conviver com pessoas diariamente tem as suas dificuldades. É indispensável tratar e praticar no meio escolar que tudo se inicia pelo respeito ao próximo, mesmo que ele tenha pensamentos e ações opostas às nossas. A escola só consegue efetivar com excelência a sua função se os pais estiverem em parceria com ela. A contação de histórias, além de estar presente nas salas de aula e em casa, pode ser usada em reuniões de responsáveis, conselhos de classe e para os docentes, promovendo a reflexão esperando sempre que ocorra uma mudança comportamental. As histórias não atingem apenas as crianças, elas também alcançam os adultos e os tocam podendo servir como um despertar para uma determinada situação antes não notada. Um dos pontos em que se pode ressaltar o fracasso escolar é que os alunos mal sabem interpretar e produzir um texto. Uma grande parcela dos discentes não tem o hábito de ler e isso faz com que a leitura se torne algo com pouca seriedade e completamente fora do meio do aluno e ouvir uma história acaba sendo rotulado como uma prática somente para crianças de 0 a 6 anos. A contação é uma ferramenta muito rica usada por poucos educadores que permite facilitar a aprendizagem também de conteúdos disciplinares, como Português, Matemática, História, Geografia, Ciências, produção textual, Filosofia e Sociologia. Em conformidade com Elisa Ribeiro (2010), a contação de histórias para crianças incentiva a curiosidade, traçando um caminho até a descoberta, desenvolvendo a imaginação e organizando seus pensamentos. Amplia seus conhecimentos nas áreas emocionais, sociais e cognitivas, proporcionando a experimentação de diversos sentimentos como o medo, surpresa, afeto, tristeza, alegria, auxiliando na resolução dos conflitos internos (as emoções) e nos externos (o lidar com o outro e com o meio). 13 A contação traz à tona o lúdico que oferece um novo trajeto na aprendizagem, de uma forma mais leve e que cause efeitos positivos. Esta prática pode fazer da criança amanhã um leitor ativo, com um vasto vocabulário, que permite observar no decorrer do processo o desenvolvimento do aluno ao relacionar as histórias às realidades do dia a dia, como frustrações, anseios, idealizações para o futuro, entre outros. É importante ressaltar que há vários jeitos de narrar histórias e há de se considerar os objetivos que são ensinar, instruir, transformar, educar e divertir. A ação de contar histórias interliga o leitor e o livro, e assim proporciona a adesão da fala e a ação da história e o livro como fontes informativas. 2.2 Temáticas a serem abordadas através da contação de histórias De acordo com Ana Luísa Lacombe (2015), as narrativas orais ultimamente têm passado por transições, visto que anteriormente a prática dessa atividade era limitada a poucos especialistas, mas na época atual é vista como um campo com incontáveis profissionais atuando como contadores de histórias. Com o acesso facilitado a essa prática, obteve-se o acréscimo de indivíduos habilitados nessa área, fazendo assim com que surgissem os conflitos. A título de exemplo, a qualificação breve e superficial ofertada por cursos, a insuficiente importância e valorização cedida à execução do ofício vinda por meio das organizações relacionadas ao âmbito cultural e educativo, entre outros. Lacombe mostra-nos vivências e análises próprias e de demais autores defensores de que é necessário fazer as devidas divisões referentes a cada gênero literário, sendo eles o gênero épico que é a mescla de elementos reais, fictícios e simbólicos, gênero dramático em que as histórias são abordadas em dramas e comédias, o gênero lírico que abrange as poesias, gênero teatral que são ricos em diálogos e próprios para atuação, gênero narrativo que envolve o narrador, o local, o tempo em que se passa a história, os personagens e a trama, e a fábula que oferece um ensinamento ao seu final, contendo objetos e animais que dentro da vida real não possuem vida. A atividade de narrar histórias teve início outrora por intermédio de avós, pais e educadores. 14 Hoje se tem um olhar mais organizado e amplo para a realização da contação, através de assuntos que sejam significativos para serem debatidos, que levem o outro à reflexão e à mudança comportamental. É válido lembrar que a contação de histórias não se restringe apenas às crianças, mas também se estende a jovens, adultos e idosos, pois foi notado que o ato de contar histórias é valoroso independente da fase da vida em que se encontra, seja qual for a condição de vida em que uma pessoa esteja, permitindo-nos compreender todo o universo que nos envolve e todo os universo que somos. No momento em que ouvimos uma história ser contada, é permitido entrar no mundo da narrativa, que, consequentemente, nos dá rumo para que aconteça a aprendizagem da leitura e dos demais conteúdos curriculares. As narrações inserem o sujeito no cenário, seguindo para a interpretação, evidenciando a subsistência de cada um, oferecendo um significado para existirmos. Contribuem para a área emocional do ser. Os estudos mostram que esta prática dispõe de grande ressalto da psique infantil. Quando se fala de contos de fada, esse conjunto de assuntos e ideias, que muitas vezes são repletos de crueldade e agressividade, têm propriedades medicinais e curativas. Existem comprovações em estudos que o comportamento da criança, com diferentes tipos de experiência, pode ser modificado positivamente. Ela elabora suas particularidades como amedrontamentos, conflitos, inquietudes, sofrimentos, carências afetivas e dependência emocional que são causadas pela falta de comunicação familiar, as relações desenvolvidas ou a falta delas ao longo da vida, o ambiente escolar, no trabalho e em todas as situações externas, bloqueios e obstáculos. As temáticas são selecionadas de acordo com as atitudes comportamentais, a análise da criança ou do perfil da turma, consequentemente o contador escolhe a história apropriada para ser contada naquele momento. Na visão de Vânia Dohme (2010), o ato de narrar histórias pode ser um excelente recurso pedagógico, pois através desta ação podem-se abordar questões relevantes no dia a dia da criança com uma linguagem de fácil compreensão e pode ser, também, adaptada à idade do indivíduo. Deste modo, as palavras trazemsignificados para o mesmo, fazendo com que ele entenda e se posicione em relação ao que foi trabalhado. 15 Após a contação, é pertinente aplicar atividades lúdicas, como desenhar o que mais gostou e o que menos gostou na história, tendo como objetivo desenvolver a capacidade de imaginar cenário com todos os elementos existentes agregados, roda de conversa abrindo espaço para que todos se expressem dizendo como se sentiram ao ouvir a história, solicitar que produzam um texto com o seu ponto de vista, modificar parte da história que o ouvinte considera relevante, deixando marcado sua característica e opinião, responder questões voltadas para o entendimento das suas emoções partindo da história que ouviram, dentre uma infinidade de atividades que contam com a criatividade do contador e com o que ele observa do indivíduo. Todas essas atividades podem ser trabalhadas com diferentes públicos, mas cabe ao aplicador da atividade adaptá-la de acordo com a faixa etária e é através destas que o indivíduo acaba fazendo ligações com algumas de suas vivências. A contação de histórias requer de seus contadores uma postura diferenciada, sendo ela corporal, de entonação da voz, alternando em tons altos e baixos, gesticulação das mãos e toda a movimentação corporal, uma conversa com o público antes de dar início a história para que haja uma descontração para iniciar o trabalho de prender a atenção do outro. Antecipadamente, o contador deve saber qual comunicado quer apresentar a quem vai ouvir a história, que atitudes consequentemente pode-se incentivar ou coibir e quem ouve acaba se identificando com um determinado personagem, para por fim, poder tomar para si a conduta do mesmo analisando se é apropriada ou não a inserir em sua vida. O ouvinte também pode se identificar com o cenário onde se passa a história e tempo, podendo trazer à tona sentimentos e as sensações boas ou ruins. Numerosas vezes conseguimos perceber nos desenhos, filmes e vídeos assistidos pelas crianças algumas atitudes inadequadas que às vezes sequer é a mensagem que deseja ser passada, mas mesmo assim a criança absorve a prática mencionada. Deste modo, os responsáveis precisam estar alertas quanto ao conteúdo que a criança recebe e, caso ache conveniente, remover o conteúdo do acesso das mesmas atrelado ao diálogo, que sempre se fez necessário independente do aspecto gerador de um conflito. O diálogo sempre se fez necessário sobre os assuntos do cotidiano, e, em certas vezes, o tema a ser abordado com a criança precisa de cuidados, então contar uma história acaba 16 auxiliando na passagem da informação de uma forma mais tranquila, sutil e apropriada. Esta prática, além de abordar os assuntos necessários para o momento acaba aproximando mais ainda os pais de seus filhos, pois é um tempo que se dedica à criança, de maneira a produzir e proporcionar algo direcionado a ela. Em vários momentos nota-se a criança interrompendo a fala do contador, explicando e interagindo sobre o que até o momento não lhe foi passado. Quando o lúdico é usado como ferramenta para ensinar, torna a aprendizagem mais atrativa, desenvolvendo aspectos consideráveis que são a atenção, concentração, o raciocínio, a memória, senso crítico, formação do caráter, ética, imaginação e criatividade para que a criança possa ter a capacidade de ter um bom relacionamento interpessoal3 e intrapessoal4, que é fundamental para seu desenvolvimento. Todas essas questões sendo trabalhadas a partir da contação de histórias, os pontos citados são trabalhados de uma forma criativa e mais leve para o entendimento da criança, levando em conta a sua maturidade. 2.3 Critérios e estratégias na prática da contação de histórias baseados nas competências cognitivas e socioemocionais Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN’s) do Ensino Fundamental I têm o objetivo de oferecer aos discentes qualidade no ensino, partindo da formação do professor, ressaltando a importância da educação continuada para que o docente siga construindo novos conhecimentos, aprendendo e desenvolvendo novas práticas e materiais pedagógicos para trabalhar com seus alunos, pois sabe-se que a aprendizagem do aluno, na escola, começa pelo docente, o modo como ele define os métodos para usar com a turma, a dedicação, o modo como ele se relaciona com seus educandos e como ele insere o lúdico para promover a construção do conhecimento dos seus alunos. O lúdico torna os conteúdos mais atrativos, mantendo a motivação desses alunos, fazendo com que não ocorra a evasão escolar. Deste modo, também é 3 Está relacionado a comunicação dois ou mais indivíduos. 4 Está relacionado a comunicação que o indivíduo tem com ele mesmo. 17 extremamente relevante a participação ativa da família proporcionando aos alunos um suporte dentro e fora do ambiente escolar. Quando a família caminha juntamente com a escola, a possibilidade de atingir o objetivo é maior, pois a finalidade é desenvolver o indivíduo como um todo, oferecendo diversas possibilidades da aprendizagem acontecer em qual âmbito for. Os critérios e estratégias são o caminho a ser percorrido em que o professor escolhe os recursos a serem utilizados durante o processo da contação de histórias, visando alcançar os objetivos traçados para aquela determinada situação de forma lúdica. A Lei de Diretrizes e Bases (LDB) nº 9.394 de 20 de Dezembro de 1996 ressalta no art. 32 as circunstâncias para que ocorra a aprendizagem do aluno visando: I - o desenvolvimento da capacidade de aprender, tendo como meios básicos o pleno domínio da leitura, da escrita e do cálculo; II - a compreensão do ambiente natural e social, do sistema político, da tecnologia, das artes e dos valores em que se fundamenta a sociedade; III - o desenvolvimento da capacidade de aprendizagem, tendo em vista a aquisição de conhecimentos e habilidades e a formação de atitudes e valores; IV - o fortalecimento dos vínculos de família, dos laços de solidariedade humana e de tolerância recíproca em que se assenta a vida social. A contação de histórias também deve estar fundamentada nos Temas Transversais5 que aborda assuntos como Meio ambiente, Pluralidade Cultural, Ética, Saúde e Orientação Sexual, pois o objetivo é formar cidadãos integralmente, tornando o indivíduo um ser reflexivo e crítico. Cabe aos docentes e à escola perceber quais aspectos tem-se necessidade de abordar com os alunos, pois o principal é levar o aluno a construir conhecimento em diversas áreas. Ao escolher um assunto para ser abordado por meio de textos ou da contação de histórias, além de saber e analisar qual informação se pretende passar, deve-se atentar para como isso vai ser feito e o cuidado para a abordagem. Essa análise se dá para identificar se o texto está apropriado para a aprendizagem acontecer. O professor deve ser visto como um padrão a ser seguido pelos alunos, mas não de maneira que os limite. Ele está muito além do que aquele que apenas detém todo saber e que os alunos precisam reproduzir, mas estão ali para formar 5 São compostos pelos Parâmetros Curriculares Nacionais. https://www.jusbrasil.com.br/legislacao/109224/LDBE-Lei-no-9394-de-20-de-Dezembro-de-1996#art-32 18 seres pensantes e críticos, que conseguem se comunicar com os textos e através deles, aprendendo com seus próprios alunos que já chegam na escola com uma bagagem. Frequentemente encontramos crianças que não possuem contato com a leitura em casa, logo a escola deve fornecer esse contato aos alunos e é através do professor que esse contato pode ser proporcionado ou não. Se o professor mostra aos seus alunos que ler ou ouvir uma história é importante para o seu desenvolvimento como um ser integral e que essa prática tem valor, logo os alunos irão começar a imergir nesse universo transformador, pois em muitas vezesé o professor quem acaba sendo o parâmetro para esse aluno. É importante ressaltar que não é uma regra que quem é um leitor ativo seja um excelente escritor e que não cometa erros em sua escrita, porém a probabilidade é aumentada de que o leitor ativo tenha um vasto vocabulário e uma boa escrita. As escolas devem ter como objetivo formar bons leitores que estejam preparados para elaborarem textos que possuam coesão e coerência e que a ortografia seja bem desenvolvida. Quando expomos uma criança a um texto, espera-se que ela dê significado a ele, visto que realizar a prática da leitura não é apenas um decifrar de códigos, a criança deve entender o texto plenamente e a mensagem que ele tem, a intenção de passar, embora cada criança que leia ou que ouça uma história possa interpretá-la de um modo, pois não existe apenas uma verdade absoluta. Tudo o que se oferece a uma criança é pensando plenamente em como irá auxiliá-la na aprendizagem, na sua mudança de comportamento e na percepção de determinados aspectos. A leitura possui diversas finalidades, como ensinar, informar, oferecer conhecimento de mundo, possibilitando o contato com diversas culturas, expansão de conhecimentos, estimulação da imaginação e da criatividade, o auxílio na melhora da escrita e da fala, já que o alvo escolar é formar indivíduos habilitados para compreender todos os tipos de gêneros textuais, integrando aos sentimentos, emoções e afetos. Quando se é usada a leitura como prática pedagógica, ela só se torna eficiente quando os resultados chegam mostrando que a criança tem se interessado em ler e tornou essa prática um hábito. Ribeiro (2019) relata que o contador de histórias precisa de planejamento desde o momento em que decide 19 narrar uma história independente do público alvo. É necessário ligar o ouvinte à história. São necessários alguns princípios como surpreender o ouvinte, ter expressões corporais e faciais, conhecer previamente o que vai ser contado, é necessário que o contador e o ouvinte estejam envolvidos com a história para que o objetivo seja alcançado, a escolha das histórias deve estar de acordo com a maturação das crianças e com uma linguagem que elas consigam entender, além da atenção à voz. Além do livro, o contador pode usar outros elementos para contar sua história, sendo eles, teatro de sombras, sucatas, marionetes, máscaras, imagens, retroprojetor, fantasias, fantoches feitos de materiais variados (colher de pau, meia, saco de papel, copo plástico, caixas e embalagens, e.v.a, dedoches, palitos e garrafas plásticas), vídeos, violão, chocalho etc. Antes do momento da contação, a preparação do ambiente contribui criando um clima para deixar a criança à vontade e confortável sem que haja interferências externas para que a criança se distraia o mínimo possível, trabalhar o vocabulário antes para construir o conhecimento de palavras novas e depois para fixa-las. Ao encerrar uma história, é interessante que o contador direcione algumas perguntas aos ouvintes, abrindo um espaço para que eles se expressem e questionem pontos da história. Após esse momento, cabe inserir atividades lúdicas para a culminância do processo de contação. O professor deve sempre anotar observações feitas mediante as atividades que propõem aos alunos (se elas deram certo ou não), como as crianças respondem a atividade proposta, se houve aprendizagem e se é necessário promover outra atividade para que se atinja o objetivo. Segundo Antoni Zabala e Laia Arnau (2010), os alunos acreditam que alguns ensinamentos voltados para os conteúdos sejam irrelevantes, porque não conseguem ver a sua importância devido aos professores não se preocuparem em aplicar toda a teoria no cotidiano deles. Os docentes precisam modificar o seu pensamento e olhar tradicional, as situações e o tempo são outros, embora tenhamos situações bem parecidas com as de anos atrás, só que hoje de uma forma mais diferenciada. 20 Se com o passar dos anos só continuarmos a reproduzir o que já foi feito e não se falar em inovação, o aprender vai ser cada vez mais visto como algo maçante e pouco valorizado, tendo como importância apenas ser aprovado ao final do ano letivo, sem levar em conta um aprendizado para a vida. As competências vêm a ser uma oposição ao método tradicional de ensino porque se referem a uma aprendizagem voltada para a realidade em que o aluno vive, tendo como objetivo o desenvolvimento pleno do ser, que são os elementos profissionais (a formação), sociais (como o ser se relaciona com os indivíduos e os ambientes a sua volta), emocional (como o ser lida com suas emoções) e a cognição (como funciona o caminho na cabeça da criança para que se possa chegar a aquisição do conhecimento e como corre a aprendizagem). O profissional e a escola precisam estar alertas em como essas questões podem influenciar positiva e negativamente o aluno no decorrer do processo. O tradicionalismo é conceituado por uma parcela de pessoas como uma área limitadora, pois, com base nele, o aluno deve memorizar e reproduzir, logo não permite aos educandos que transfiram os conhecimentos disponibilizados em aula para a aplicação no dia a dia. Assim como avaliar um aluno deve ir além da reprodução, propondo que ele registre a sua maneira de ver o mundo. Sabe- se que não existe uma metodologia correta, mas aquela a qual o aluno se adapta melhor e consegue alcançar o seu progresso. Então, cabe ao docente realizar ajustes e desenvolver estratégias para que consiga atender a todos que compõem a sua turma. 21 3 RESULTADOS E DISCUSSÕES Para discussão, após o referencial teórico, trouxemos questões consideradas relevantes para a temática apresentada. A primeira delas é o papel do professor no desenvolvimento e na propagação da contação de histórias. A segunda é a permanência da contação nos anos do Ensino Fundamental I, momento em que muitos professores parecem esquecer que continuam lidando com crianças, e que o lúdico e o ato de contar histórias permanece relevante para a aprendizagem. Por último, analisaremos a entrevista feita com a escritora Ruth Rocha, para que ela nos explique a porque a literatura infanto-juvenil é tão importante para o desenvolvimento socioemocional e cognitivo. 3.1 Os docentes na contação de histórias Os professores têm um papel fundamental na vida dos alunos. Os educadores possuem o poder de marcar vidas tanto de forma positiva quanto de forma negativa. Quando o docente encontra-se disposto a ensinar e desenvolver o aluno em sua plenitude, ele passa a ter um olhar afetuoso e identificador, a fim de acrescentar em suas aulas mecanismos que estimulem a construção do conhecimento, levando-os a aprendizagem. Um desses mecanismos que o professor pode incluir nas suas práticas docentes é a contação de histórias, que possui uma infinidade de possibilidades e temáticas que podem ser abordadas para ensinar os conteúdos das disciplinas curriculares, assim como as soluções para os conflitos do dia a dia que interferem diretamente no comportamento e no desempenho escolar da criança e na sua relação com os ambientes em que frequenta e com as pessoas que fazem parte deles. O docente é uma das pessoas que mais passa tempo com a criança. Logo, com o decorrer do tempo, começa a conhecer o seu aluno e consegue perceber quando algo não vai bem com ele e em que ponto começa afeta-lo negativamente, fazendo cair o seu rendimento escolar, tendo um comportamento oposto ao de costume. É a partir dessa percepção que o professor deve começar a agir. Primeiramente ele identifica o problema, seleciona o gênero literário que 22 o permite abordar a temática desejada, traça os objetivos que pretende alcançar e põe em prática. O professor deve passar confiança aos seus alunos para que elesnão o vejam apenas como alguém que está em uma sala de aula por um tempo determinando, ensinando conteúdos sem se importar com o que eles sentem e pensam, mas como um mediador que tem o afeto como base para ensinar e ajudar seus alunos. Para trabalhar uma história, ela não precisa selecionar uma já existente. O professor possui a liberdade de poder criar uma de acordo com as necessidades detectadas ou produzir uma com o auxílio da própria criança e/ou da turma, possibilitando uma maneira diferente do outro se expressar, pois é importante para quem ouve a história se identificar com ela e manter-se interessado permitindo-os interpretar as histórias de diversas maneiras. Isso se torna uma arte, pois não há uma regra, cada um tem visões e opiniões diferentes sobre uma situação que nos permite criar e olhar por outras perspectivas. Assim, o indivíduo aprende também a respeitar o posicionamento que seja oposto ao seu e o professor vai orientando para que os alunos compreendam que ouvir o outro é importante mesmo que não estejamos de acordo. Quando é proposto pelo professor uma atividade de produção textual que promove ao aluno a exposição dos seus pensamentos e emoções através da escrita, esse método pode auxiliar a criança que tem dificuldade de expor seus sentimentos por meio da fala. Dessa forma, ela pode se sentir mais confortável do que falar diretamente com outra pessoa. Os professores são grandes incentivadores e demonstradores. Através da contação de histórias, é possível fazer com que os alunos tomem gosto pela leitura, já que a contação demonstra a criança o quanto é importante ser minucioso por meio das palavras para que seja possível criar no indivíduo que ouve a curiosidade necessária para despertar o gosto pela leitura. A leitura, por sua vez, aprimora e amplia o vocabulário facilitando a comunicação entre os indivíduos. É imprescindível que os professores estejam sempre pensando na formação continuada6, buscando o aprimoramento dos saberes para estarem 6 É uma formação complementar com o objetivo de manter-se buscando conhecimentos, pois a todo momento aparecem novidades a serem aprendidas para quem é educador. 23 sempre atualizados. É oportuno que os docentes realizem cursos após a sua formação, mas um que se faz importante é o de contação de histórias, para que aprendam como devem atuar e se portar neste momento importante de troca de experiências e ensinamentos, pois o ato de contar histórias é visto como elemento interdisciplinar. 3.2 A manutenção da contação de histórias no Ensino Fundamental As Diretrizes Curriculares Nacionais do Ensino Fundamental (DCN) salientam sobre o acesso escolar oferecido a crianças de seis aos quatorze anos de idade, tendo como objetivo a igualdade moral, civil e política pelo Estado, ressaltando os princípios éticos onde opõem quaisquer tipos de estabelecimento de diferenças referentes a raça, cor, idade, sexo, entre outros aspectos, princípios políticos, no qual se deve exercer a cidadania e fornecer as mesmas possibilidades a todos, mesmo aos que apresentem seja qual for o tipo de necessidade, ainda que se utilize outros meios. E os princípios estéticos, que discorre sobre a pluralidade cultural, a criatividade a racionalidade. Faz-se necessário instruir sobre as numerosas realidades. As áreas de conhecimento que devem constar de forma obrigatória no currículo, também citado na Lei de Diretrizes e Bases, são o ensino de linguagens (língua portuguesa e estrangeira atual e a língua nativa dos indígenas), arte (incluindo a musicalização), educação física, matemática, ciências da natureza e humanas (história e geografia) e o ensino religioso, que é facultativo. As temáticas que devem ser discutidas com os educandos são gênero, sexualidade e saúde, pois interferem diretamente na atualidade, além de acentuar os direitos da criança e do adolescente previstos no Estatuto da Criança e do adolescente (ECA), que tem como objetivo proteger as crianças e os adolescentes. As temáticas citadas no DCN e no ECA podem ser trabalhadas em sala de aula por meio da contação, desta forma os assuntos podem ser tratados com a seriedade que precisam, mas lembrando que estão sendo tratados para crianças que muitas vezes não possuem maturidade suficiente, então se faz 24 necessário que, em dados momentos, os textos sejam adaptados para a idade e/ou nível de maturidade que o aluno atinge. É de grande valia que a escola promova a informação dos pais e dos professores sobre os assuntos previstos nas leis. A maioria dos profissionais e responsáveis não têm conhecimentos sobre os assuntos, logo ficam impossibilitados de caminharem juntamente com a escola e com as propostas feitas pelo professor. Como sabemos, é comum que a prática da contação de histórias nas séries iniciais do Ensino Fundamental fique esquecida devido à forma com que ela geralmente é tratada na Educação Infantil, como uma atividade para preencher o tempo ou para tentar manter as crianças quietas. A contação precisar ser pensada cuidadosamente, uma vez que sabemos que, para colocarmos em prática, precisa-se de um planejamento já que ela é um método de ensino onde se trabalha a ludicidade. O ato de contar histórias auxilia na alfabetização e letramento tornando esta fase mais prazerosa. Nos anos seguintes, ela favorece o enriquecimento do vocabulário. Não é válido ter nas escolas uma biblioteca se a criança, durante o decorrer do ano letivo, não possui acesso a ela ou se os livros dispostos são muito antigos. A escola precisa realizar um levantamento referente aos gostos, o que desperta atenção de seus alunos, para que, assim, possa buscar materiais baseados no interesse da criança, objetivando o seu despertar para o mundo da leitura. Hoje, as crianças possuem um acesso facilitado e rápido a tecnologia o que as afastam, de certa forma, da literatura, debilitando a escrita e a fala, onde crianças já passam a escrever palavras com abreviações da internet e inserir essas abreviações em seu vocabulário. Essa atitude é prejudicial para a evolução da criança. Os docentes das turmas de Ensino Fundamental I têm como função primordial no ensino dos seus alunos a solidificação da base escolar, que consiste em prepara-los para seguir suas próximas etapas, fazê-los entender de fato a importante contribuição da leitura para a sua formação como um todo, para que eles se tornem seres questionadores, críticos e pensantes, trazendo a consciência de que um aluno que não interpreta e lê um texto com clareza é 25 muito provável que possua dificuldades não só na disciplina de Língua Portuguesa, mas também nas demais e isso implica na sua aprendizagem. Propor aos discentes a incluírem em sua rotina o hábito da leitura é um processo lento, referindo-se aos não-leitores, pois é necessário apresentar os diversos tipos de gêneros literários até que descubram qual os agradam mais, para então implementar os livros do gênero desejado. A manutenção da contação de histórias no Ensino Fundamental I se dá através do despertar da curiosidade e da sensação de prazer que a leitura e o seu ouvir causam. Apesar de terem uma idade onde atualmente a contação é escassa, os alunos, ao ouvirem histórias, demonstram curiosidade e interesse em entender o caminho que os personagens irão trilhar e o enredo que tomarão e em diversos momentos fazem correlações com experiências já vivenciadas e também com detalhes da sua personalidade. É uma estratégia educacional pouco valorizada, porém favorece de maneira significativa a prática docente. A contação não finaliza quando a história termina, pois um trabalho envolvendo a ludicidade deve ser desenvolvido após ouvi-la, continuando o processo avaliativo que teve início quando o docente detectou o problema e decidiu utilizar as históriascomo meio de intervenção para assistir a criança. A criatividade das crianças se desperta através do ouvir e aprimora o conhecimento em várias áreas. 3.3 A contação de histórias pela visão de uma grande escritora: o caso de Ruth Rocha Ruth Machado Lousada Rocha, ou mais conhecida pelo público adulto e infantil como Ruth Rocha, a grandiosa e maior escritora de livros da literatura infanto-juvenil ainda hoje é referência para crianças e adultos, pois consegue fascinar a todos os públicos com as suas histórias. Em 2019, completou cinquenta anos dedicados à literatura e tem publicados mais de duzentas obras que foram levadas a diversos países, sendo seus livros traduzidos para vinte e cinco idiomas. 26 Algumas de suas obras são: Ninguém gosta de mim, Sapo Vira Rei Vira Sapo, Meus Lápis de Cor são só Meus, Meu Irmãozinho me Atrapalha, A Menina que não Era Maluquinha, O Menino que Quase Virou Cachorro, Borba, o Gato, Escolinha do Mar, O Que os Olhos Não Vêm, Pra Vencer Certas Pessoas, Historinhas Malcriadas, entre tantos outros trabalhos incríveis, mas destacam- se dentre seus livros mais vendidos, o Marcelo, Marmelo, Martelo que é um best- seller e O Reizinho Mandão. Ruth Rocha contribui ricamente para a literatura infanto-juvenil. A linguagem utilizada em seus livros é atual e de fácil entendimento para seus leitores, proporcionando momentos prazerosos e de grande aprendizado durante a leitura. As ilustrações de seus livros compõem toda a história dando um toque especial e ajudando os leitores a embarcarem na viagem que a leitura proporciona. Conforme os questionamentos direcionados a Ruth Rocha em uma entrevista, referentes a como a literatura infanto-juvenil pode contribuir para o processo de ensino-aprendizagem e nas vivencias dos alunos nas séries iniciais do Ensino Fundamental, obtivemos como resposta que a literatura desenvolve muitas virtudes no ser, tais como a ampliação dos horizontes, tanto geográficos quanto sociais e psicológicos, pois proporciona um vasto vocabulário, a estimulação do conhecimento, não só da língua portuguesa, mas das demais línguas, podendo citar o inglês como exemplo, possibilitando o desenvolvimento da fala, organização do pensamento, reforçando a formação dos estilos da escrita, diferenciando as letras bastão, que são geralmente usadas em livros, e a letra cursiva, utilizada no dia a dia escolar e pessoal. Gera o despertar e incentiva o desenvolvimento da imaginação e da criatividade, dentre inúmeras outras vantagens que se pode ressaltar a inserção do indivíduo na sociedade de modo que ele saiba detectar e pôr em prática os seus direitos e deveres, exercendo a cidadania. Segundo Ruth Rocha, todos os temas e gêneros literários podem ser tratados com as crianças. O que faz um tema ser adequado é a forma com que ele é apresentado. Devemos levar em consideração sempre o ponto de vista da criança sobre o assunto e se ela se sente confortável para falar sobre. Não é interessante quando a história causa desconforto a ponto de contribuir negativamente para a criança, logo perde todo o seu encantamento. 27 As variedades temáticas são fundamentais para o enriquecimento cultural de forma geral, ressaltando os diversos costumes da sociedade, os quais citamos crenças religiosas, vestuário, as histórias transmitidas de geração em geração que se perpetuam até os dias de hoje, a arte e os legados históricos. Além desses aspectos, devemos mencionar o desenvolvimento emocional da criança, que é uma peça imprescindível para que todo o conjunto, emoção e aprendizagem, caminhem juntos funcionando harmonicamente para que nenhum desses pontos venha prejudicar o desenvolvimento e a aprendizagem. Para que os pais compreendam a importância da contação de histórias para o desenvolvimento pleno da criança, é necessário dar voz e espaço a ela, promovendo o diálogo para que seja exposto o modo como ela se sente. Esse momento pode ser reservado juntamente com a realização da contação, pois nessa hora as crianças gostam de conversar com seus pais e de contar situações ocorridas, mas quando percebem que os pais não fornecem essa abertura, a criança se fecha e dá início ao afastamento dos pais, a falta das demonstrações afetivas e a guardar o que sente. Os pais precisam levar o que seus filhos têm a dizer a sério, partindo de um momento de lazer. Para que uma atitude se torne um hábito, é necessário dedicar um tempo diário, não é um processo que acontece de um dia para o outro. Esse hábito deve ser iniciado na primeira infância, sendo que alguns pais inserem a contação de história na vida de seus filhos desde a gestação. A escola tem o poder de transformar a leitura e a contação de história num hábito na vida acadêmica dos alunos, praticando-a desde o maternal, onde auxilia na inicialização da fala. Se essa prática for feita com seriedade, acarreta benefícios aos educandos. Os professores devem também gostar da história que decidirem contar, para que assim a contação aconteça com entusiasmo, pois caso contrário as crianças não se conectarão com o que está sendo contado. As crianças possuem uma sensibilidade muito acentuada e percebem quando o professor está inteiro no que propôs a fazer para eles. Neste caso, os alunos o valorizam, pois o docente está verdadeiramente interessado em promover a troca de experiências. Ele deve ler a história várias vezes para conhecer e se familiarizar com o texto, como ele soa. 28 A contação de histórias segue um passo a passo que requer tempo hábil para realiza-la, por isso é importante pensar na duração das histórias e se os ouvintes possuem fôlego para ouvi-las por um longo tempo. O ideal é que sejam selecionadas as histórias mais longas para os alunos um pouco maiores, pois normalmente possuem um tempo maior de concentração do que as crianças mais novas, onde a concentração é mais curta e querem logo trocar de atividade. Um dos objetivos é que as crianças desejem mais do que o professor está oferecendo a elas e não que pareça algo cansativo e maçante. Precisa ser bom para quem conta e para quem ouve. A leitura é uma importante ferramenta para a educação, independente das séries ou da idade, mas é importante ressaltar que a literatura é uma expressão artística praticada desde a antiguidade e veio sendo desenvolvida pelos mais idosos para que os mais novos pudessem ter ciência dos acontecimentos com seus antepassados por contos, lendas, mitos e para passar ensinamentos religiosos, passando seus conhecimentos e experiências de pais para filhos. Ela deve ser apreciada como uma arte, devido ao desejo de segmentar o mundo real e o imaginário. A essência dessa arte encontra-se nas palavras. As mudanças que desejamos observar nas crianças e nos demais envolvidos não ocorrem de maneira imediata, mas permite que o individuo reavalie as suas ações para que assim possa ocorrer a mudança de comportamento. É um processo que leva tempo, ainda mais se contarmos com os contratempos, que podemos usar como exemplo um acontecimento muito comum, que é a falta da participação dos pais, eles se tornam peças inativas durante o processo em que as crianças precisam fortemente do apoio, diálogo e do afeto. Muitas das vezes os alunos acabam transferindo para o professor um papel que cabe aos responsáveis executar. 29 4 CONCLUSÃO Conclui-se este trabalho enfatizando a importância da coparticipação dos pais juntamente com os docentes, tendo como objetivo oferecer aos discentes uma aprendizagem significativa e lúdica despertando e mantendo o interesse dos mesmos almejando leva-los a construção do conhecimento obrigatório das disciplinas do currículo e as competências necessárias para que possam conviver em harmonia com o outro e consigo mesmo. Ressalta-se também a necessidade do docente,mesmo depois de formado, dar continuidade à construção do seu próprio conhecimento, para assim oferecer aos seus alunos metodologias, práticas e abordagens diferentes para favorecê-los no processo de ensino-aprendizagem. O apoio da escola, não somente aos pais e alunos, mas ao professor, é imprescindível, fornecendo os recursos didáticos para que o mesmo possa realizar a contação de histórias de maneira atrativa e diversificada de acordo com cada situação encontrada, pois a contação deve acontecer de maneiras diferentes. Entre a teoria e a prática há uma distância consistente, de modo que nem todos os professores praticam e veem a contação de histórias como uma prática que realmente pode-se obter resultados satisfatórios, por isso a importância de conscientiza-los. Ao contar uma história é importante que o professor use a afetividade, não como se fosse um acessório, mas que de forma sincera dê afeto aos alunos, pois espera-se que a criança se sinta acolhida. Outros aspectos que merecem uma atenção maior é o cuidado no momento de seleção das histórias, analisando se o conteúdo realmente encontra-se adequado e se o texto não possui palavras inapropriadas para a faixa etária. Se faz necessário que o docente tenha o conhecimento prévio da história selecionada verificando se está de acordo com os objetivos que foram traçados. A contação não precisa acontecer exatamente em um dia, ela pode ser dividida e trabalhada por um curto, médio ou longo prazo, mas ressaltando que para a mudança de comportamento acontecer leva um tempo, não há como estimar um prazo, é um processo muita vezes lento, variando de acordo com a temática. 30 As fontes primárias7 utilizadas para a construção desse trabalho, que são os documentos oficiais de educação, devem fazer parte do conhecimento da escola, dos professores, pais e da comunidade, pois assim todos trabalham bem fundamentados e de forma coerente em prol da criança e do seu pleno desenvolvimento. Com base nos dados coletados através da entrevista, deduz-se que se faz necessário que a criança tenha um contato frequente com a leitura, em virtude de formar seres pensantes e críticos já que a leitura favorece a visão de mundo. Assim como a participação efetiva dos pais na vida escolar da criança e na organização das emoções, pois o papel dos mesmos na vida da criança é primordial para que ela cresça de forma saudável, psicologicamente falando e tendo um apoio familiar. Espera-se que os pais tenham ciência da importância da sua colaboração e fiscalização do ambiente escolar dos seus filhos. Quando os pais estão inteirados sobre o que eles vivem e/ou sentem, os permitem agir na identificação de problemas e na busca por soluções, já que esse não é um papel que se restringe à escola, mas inclui a família. 7 Parâmetros Curriculares Nacionais, a Lei de Diretrizes e Bases de 1996, os Temas Transversais, o Estatuto da Criança e do adolescente e as Diretrizes Curriculares Nacionais. 31 5 REFERÊNCIAS Fontes Primárias: BRASIL. Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Básica. Brasília-DF: MEC / SEB / DICEI, 2013. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias =15548-d-c-n-educacao-basica-nova-pdf&Itemid=30192. Acesso em: 12 mar. 2019. BRASIL. Estatuto da Criança e do Adolescente. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm. Acesso em: 15 mar. 2019. BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases (LDB). Lei 9394/96, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da Educação Nacional. Brasília: MEC, 1996. BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). Língua Portuguesa. Ensino Fundamental I. Brasília: MEC/SEF, 1998. Entrevista realizada com Ruth Rocha por e-mail, com intermédio do psicólogo e pedagogo Marcos Ribeiro. Fontes secundárias: LACOMBE, Ana Luísa. Quanta História Numa História. São Paulo: Ed: Realizações, 2015. DOHME, Vania. As histórias como meio de comunicação (Conte uma história para seu filho 1). São Paulo: Ed. Informal, 2013. 32 RIBEIRO, Elisa. A contribuição da contação e histórias para aprendizagem na Educação Infantil. Tcc online, 2010. Disponível em: https://tcconline.utp.br/wp- content/uploads/2012/07/A-CONTRIBUICAO-DA-CONTACAO-DE-HISTORIAS- PARA-A-APRENDIZAGEM-NA-EDUCACAO-INFANTIL.pdf. Acesso em: 24 mar. 2019. SILVA, Solimar. Histórias para encantar e desenvolver valores. Petrópolis - RJ. Ed: Vozes, 2015. ZABALA, Antoni; ARNAU, Laia. Como aprender e ensinar competências. Tradução de Carlos Henrique Lucas Lima Porto Alegre. Ed: Artmed, 2010. https://tcconline.utp.br/wp-content/uploads/2012/07/A-CONTRIBUICAO-DA-CONTACAO-DE-HISTORIAS-PARA-A-APRENDIZAGEM-NA-EDUCACAO-INFANTIL.pdf https://tcconline.utp.br/wp-content/uploads/2012/07/A-CONTRIBUICAO-DA-CONTACAO-DE-HISTORIAS-PARA-A-APRENDIZAGEM-NA-EDUCACAO-INFANTIL.pdf https://tcconline.utp.br/wp-content/uploads/2012/07/A-CONTRIBUICAO-DA-CONTACAO-DE-HISTORIAS-PARA-A-APRENDIZAGEM-NA-EDUCACAO-INFANTIL.pdf