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DESIGUALDADE DE GÊNERO: O QUE VOCÊ PODE FAZER PARA MUDAR ESSA REALIDADE A desigualdade de gênero ocorre quando há privilégio de um gênero em relação ao outro, ou outros. Historicamente, os direitos e vontades do homem cis se sobrepuseram aos das mulheres e pessoas não-binárias. Essa diferença está enraizada em nossa sociedade sob a forma, por exemplo, do machismo, misoginia e violência doméstica muito em função de uma cultura patriarcal ultrapassada. Isso porque no Brasil e em muitos outros países, a estrutura familiar e as relações sociais antigas colocavam o gênero masculino no lugar mais elevado da pirâmide social. Os homens trabalhavam fora, tomavam as decisões e impunham suas vontades a suas esposas e filhos. Desde crianças fomos ensinados a diferenciar as pessoas pelo gênero, o que reforça o preceito de que é preciso rotular as pessoas e, consequentemente, prejulgá-las. Esses são todos aspectos do patriarcado, um sistema social em que homens mantêm o poder primário e predominam em funções de liderança política, autoridade moral, privilégio social e controle das propriedades. Neste e-book discutimos sobre a desigualdade de gênero, suas causas e consequências em nossas relações sociais. Vamos lá? QUAIS AS ORIGENS E CAUSAS DA DESIGUALDADE DE GÊNERO? É necessário reforçar que o gênero, determinado pelos cromossomos em nossa genética, não é um parâmetro para definir nossos direitos e deveres nas relações sociais. No entanto, historicamente, as mulheres receberam um papel de submissão na pirâmide social. Dessa forma, a superioridade financeira masculina foi consolidada e ainda potencializou a dependência da mulher e limitou o seu poder de escolha. Além disso, a falta de representatividade, evidenciada pela predominância de símbolos culturais masculinos — grandes pensadores, figuras históricas e até seres mitológicos que são predominantemente homens —, dificulta a mudança na percepção da sociedade de que essa formação social está errada. Até hoje os meninos ganham brinquedos como foguetes, aviões, kits de ciências ou carros conversíveis, enquanto as meninas, bonecas. Sem perceber, as famílias educam suas filhas mulheres a terem atribuições domésticas (brincando de “casinha”) e serem submissas aos seus companheiros. É indiscutível que essa “superioridade financeira” e as questões culturais sejam fatores que contribuem para a desigualdade de gênero. E essa desigualdade tem consequências em diversos campos da nossa sociedade, como você saberá a seguir. E já deixamos aqui alguns questionamentos: O que justificaria a existência de mulheres que perpetuam o discurso machista? Como explicar que mulheres brancas simpatizam mais por homens brancos do que por mulheres negras? Ou por que mulheres de classes sociais mais altas se solidarizam mais por homens da mesma classe que mulheres de classes inferiores? Por muito tempo, a mulher foi considerada inferior e incapaz. Infelizmente, atualmente elas ainda experimentam o peso de tentar se libertar dessa perpetuação do patriarcado. E é preciso olhar para o passado a fim de estabelecer um parâmetro de mudança. Veja mais neste vídeo: https://youtu.be/iNPO01jCQd4?si=XzAtlBzzitEIGySc QUAIS AS CONSEQUÊNCIAS DESSA DESIGUALDADE PARA A NOSSA SOCIEDADE? A desigualdade de gênero tem consequências graves em nossas relações sociais. Ela é evidenciada na falta de representatividade nos espaços e nas diferenças salariais, além de ser usada como justificativa para a violência. VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER A desigualdade de gênero é um dos principais motivos da banalização de situações atrozes, como o estupro. Desde o Brasil colonial, indígenas, mulheres escravizadas e muitas outras sofreram — e ainda sofrem — com esse tipo de violência. A percepção, herdada do patriarcado, de que as mulheres são inferiores aos homens é justificativa para a violência física, psicológica ou patrimonial. Essas violências se estabelecem pelo silêncio e não são praticadas apenas por estranhos, mas, principalmente, por familiares. A violência contra a mulher pode ser percebida de várias maneiras, desde o prejulgamento por uma forma se vestir até a imposição do isolamento social em favor de um relacionamento amoroso, por exemplo. As mulheres sofrem constantes humilhações, por meio de críticas e ofensas disfarçadas de brincadeiras. FALTA DE REPRESENTATIVIDADE A falta de representatividade nos espaços é mais uma forma de reforçar a ideia da inferioridade feminina e impedir a mudança do contexto discriminatório em função do gênero. Atualmente, ainda vivemos ameaças às conquistas das mulheres. Ora, se acreditamos em uma construção democrática, quais seriam os motivos para não ocuparmos mais lugares na política? Conforme dito anteriormente, a representatividade é essencial para o reconhecimento do verdadeiro papel da mulher na sociedade: fazer o que quiser, com liberdade de escolha. Entretanto, as mulheres ocupam menos de 15% das cadeiras das câmaras do Legislativo em 70 países. No Brasil, mesmo com as cotas partidárias obrigatórias — a lei estabelece que cada partido deve ter no mínimo 30% e no máximo 70% de candidatos por gênero —, a aplicação da proporção fica limitada ao voto público e, com o machismo que predomina em nossa sociedade, muitas mulheres não são eleitas. https://www.oxfam.org.br/blog/falta-de-representatividade/ DESIGUALDADE NO MERCADO DE TRABALHO No mercado de trabalho, a desigualdade mais uma vez prejudica as mulheres. A situação fica evidente principalmente pela inferioridade salarial — mesmo sendo a maioria no mercado de trabalho com curso superior, as mulheres recebem salários menores que homens que atuam com os mesmos cargos. São elas também quem mais sofre assédio sexual, moral e pressão por parte de colegas de trabalho homens. Além disso, as mulheres ocupam poucos cargos de liderança, são obrigadas a dedicar menos horas ao trabalho para dividir a rotina profissional com a doméstica e encontram dificuldade para atuar em múltiplas jornadas, como conciliar estudos e outras atividades de capacitação . https://www.oxfam.org.br/blog/entrevista-o-trabalho-de-cuidado-e-um-processo-solitario-e-perverso-para-as-mulheres/ O QUE PODEMOS FAZER PARA ENFRENTAR A DESIGUALDADE DE GÊNERO? DIVIDA AS TAREFAS DOMÉSTICAS E CUIDADOS COM OS FILHOS As tarefas domésticas e os cuidados com as crianças e idosos são responsabilidades de todos os adultos. Entretanto, essas funções não remuneradas ainda são realizadas principalmente por mulheres em grande parte do mundo. Segundo a pesquisa “Outras formas de trabalho” realizada em 2019 pelo IBGE, as mulheres gastam 21,4 horas semanais dedicando-se às atividades domésticas e de cuidados com terceiros. Os homens, por sua vez, passam apenas 11 horas do seu tempo realizando esse tipo de atividade. A sobrecarga dos afazeres domésticos pode aumentar as chances de adoecimento mental das mulheres, além de interferir na sua produtividade no trabalho, e, consequentemente, no seu ganho salarial. LUTE POR MAIS ASILOS, CRECHES E INSTITUIÇÕES DE ENSINO PÚBLICAS Mulheres que conseguem pagar pelos serviços de terceiros, instituições de ensino ou creches particulares chegam a diminuir seis horas do trabalho doméstico semanal, segundo os dados apurados pelo IBGE. Entretanto, essa é uma condição para poucas famílias. Infelizmente, boa parte dos grupos familiares precisam contar com a rede pública de ensino para garantir um tempo parcial disponível para a dedicação ao trabalho. O Estado deveria prover mais vagas em asilos e creches, para diminuir a demanda de cuidado cuja responsabilidade, na maioria das vezes, é transferida para as mulheres; e adotar o ensino em período integral para crianças e adolescentes. https://sidra.ibge.gov.br/tabela/7013#resultado https://www.oxfam.org.br/blog/entrevista-o-trabalho-de-cuidado-e-um-processo-solitario-e-perverso-para-as-mulheres/COMBATA A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA Redes de apoio ajudam a criar um ambiente favorável às denúncias de abusos e violência doméstica. Não tenha medo de denunciar qualquer tipo de situação suspeita, ainda que as agressões estejam limitadas a ameaças. A violência psicológica precede o abuso físico, e esse ciclo precisa ser interrompido antes que as consequências se tornem ainda mais sérias. Por isso, tenha tolerância zero ao assédio! DIGA NÃO AOS COMENTÁRIOS CALUNIOSOS E VEXATÓRIOS O machismo e o racismo podem ser disfarçados em “microagressões” disseminadas por meio de piadas e comentários ofensivos feitos sem intenção, mas que magoam as pessoas e geram estresse. Por isso, jamais faça comentários que ridicularizem, rebaixem ou humilhem as mulheres, ou quaisquer outros grupos historicamente marginalizados na sociedade. Além disso, não ache engraçado ou fique em silêncio ao ouvir esses comentários. É preciso combater em todos os âmbitos a disseminação de conteúdo calunioso e vexatório, seja em grupos de conversa por aplicativos, seja no almoço de domingo. Converse com seus familiares e amigos com franqueza e diga-lhes para pararem com os insultos que só reforçam as posturas machistas, racistas e LGBTQIA+fóbicas. GARANTA MAIS MULTIPLICIDADE NOS ESPAÇOS A multiplicidade deve estar prevista em todos os espaços. Por isso, valorize, estimule e contrate equipes e fornecedores diversificados. Um estudo do Boston Consulting Group envolvendo 1.700 empresas atestou que quanto mais diversificada é a equipe em uma empresa, melhor será o desempenho em processos que exigem inovação. FAÇA ECOAR AS VOZES DAS MULHERES As mulheres, sobretudo as mulheres negras, têm trajetórias muito distintas e podem e devem falar por elas mesmas. Um dos principais obstáculos para eliminar o preconceito é o reconhecimento de que ele existe. A sociedade reproduz estereótipos de várias formas, mas é preciso desfazê-los definitivamente. Para isso, você pode tomar ações simples, especialmente se você é um homem cis branco. Conceda às mulheres o lugar de privilégio que você ocupa, dê a elas a oportunidade de falar, preste atenção e esteja atento: ninguém está imune a fazer comentários preconceituosos ou manter atitudes tendenciosas. Quando alguém apontar problemas em seu discurso, ouça, peça desculpas e reflita sobre isso para começar a operar em você essa mudança tão importante. https://www.bcg.com/en-br/capabilities/innovation-strategy-delivery/overview /oxfambrasil Oxfam Brasil Avenida Pedroso de Morais, 272 - 8° andar Pinheiros - São Paulo - SP - Brasil - CEP 05420-000 (11) 3811-0400 www.oxfam.org.br https://www.oxfam.org.br