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Neoconstitucionalismo Licensed to Bruno Brum Sette - brunobrum7@yahoo.com.br - 088.076.327-21 SST Azevedo, Simone Neoconstitucionalismo / Simone Azevedo Ano: 2020 nº de p.: 11 Copyright © 2020. Delinea Tecnologia Educacional. Todos os direitos reservados. Licensed to Bruno Brum Sette - brunobrum7@yahoo.com.br - 088.076.327-21 3 Neoconstitucionalismo APRESENTAÇÃO Nesta unidade, aprenderemos que a doutrina constitucionalista, a partir do século XX, passou a desenvolver uma nova perspectiva do constitucionalismo. Veremos que o chamado pós-positivismo busca, para além da ideia de limitação do poder estatal, a eficácia da constituição; que o texto maior deixou de ter um caráter meramente teórico para ser mais efetivo e uma observação direcionada à perspectiva de concretização dos direitos fundamentais. Perceberemos que a Constituição passará a ocupar a posição de dentro do ordenamento jurídico, sendo dotada de imperatividade e superioridade. Por fim, veremos que esse nova fase do constitucionalismo buscará, sobretudo,a proteção da proteção da dignidade humana. Construção histórica A compreensão constitucionalismo pode estabelecida a partir do momento histórico em que o movimento ocorreu. A figura a seguir apresenta alguns desses momentos. Momentos históricos Constitucionalismo Moderno Futuro Norte americano Constituição dos EUA, de 1781 Constituição Francesa, de 1791 Direitos Fundamentais de 1ª, 2ª e 3ª dimensão Consolidação de valores como solidariedade Contemporâneo Fonte: Elaborada pela autora (2020). A denominação do movimento moderno constitucional de Neoconstitucionalismo gera discussão e controvérsia entre os estudiosos da matéria. Alguns doutrinadores brasileiros, a exemplo de Ferreira Filho (2011), fazem críticas a esse neologismo, Licensed to Bruno Brum Sette - brunobrum7@yahoo.com.br - 088.076.327-21 4 entendendo que o que se chama de Neoconstitucionalismo, na verdade já se observava desde os primórdios do Constitucionalismo no século XVIII. Em sua obra sobre o Neoconstitucionalismo, Cunha Júnior (2012), assevera: O Neoconstitucionalismo representa o constitucionalismo atual, contemporâneo, que emergiu como uma reação às atrocidades cometidas na segunda guerra mundial, e tem ensejado um conjunto de transformações responsável pela definição de um novo direito constitucional, fundado na dignidade da pessoa humana. O Neoconstitucionalismo destaca-se, nesse contexto, como uma nova teoria jurídica a justificar a mudança de paradigma, de Estado Legislativo de Direito, para Estado Constitucional de Direito, consolidando a passagem da Lei e do Princípio da Legalidade para a periferia do sistema jurídico e o trânsito da Constituição e do Princípio da Constitucionalidade para o centro de todo o sistema, em face do reconhecimento da força normativa da Constituição, com eficácia jurídica vinculante e obrigatória dotada de supremacia material e intensa carga valorativa. (CUNHA JÚNIOR, 2012, p. 29) Esse novo movimento constitucional, que surgiu em meados do século XX, na Europa, visou reconhecer a supremacia material e axiológica da Constituição, cujo conteúdo [da Constituição] passou a ser dotado de força normativa. Assim, a próxima figura traz a representação da piramidal do ordenamento jurídico. Forma piramidal Constituição Emendas constitucionais sobre direitos humanos Leis infraconstitucionais Leis estaduais Leis municipais Fonte: Elaborada pela autora (2020). Verifica-se, nesse contexto, que a Constituição se tornou o centro do sistema jurídico, devendo ser feita toda interpretação jurídica em consonância com os valores e princípios constitucionais. Licensed to Bruno Brum Sette - brunobrum7@yahoo.com.br - 088.076.327-21 5 Observou-se, até a Segunda Guerra Mundial, que a teoria jurídica se centrava na influência do Estado Legislativo de Direito, tendo por únicas fontes do Direito, a lei. Dessa forma, uma norma jurídica tinha sua validade, eficácia e vigência vinculadas à autoridade que a editou, e não ao seu valor de justiça. Sob o fundamento de observância da lei, barbáries foram cometidas no mundo, a exemplo do genocídio cometido pelo governo nacional socialista alemão, quando judeus foram exterminados pelos nazistas no período de 1939 a 1945. Esse acontecimento fez o mundo repensar esse Estado Legislativo de Direito, formulando um sistema jurídico que tivesse seus fundamentos no respeito aos direitos fundamentais. Instalou-se, então, a constitucionalização do Direito, evidenciando, a supremacia da Carta Magna.Essa constitucionalização do Direito é um processo de transformação de um ordenamento jurídico, ao fim do qual a ordem jurídica em questão resulta totalmente impregnada pelas normas constitucionais, que passam a condicionar tanto a legislação como a jurisprudência, a doutrina, as ações dos atores políticos e as relações sociais. (GUASTINI, 2009) Documentário: Os bastidores da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1945. Sinopse: o enredo busca narrar as articulações e os trabalhos para a construção da Declaração. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=SJy1M4iYiMo. Saiba mais A supremacia da Constituição impõe deveres negativos e positivos ao legislador, quando da elaboração de leis; e impõe ao julgador, quando este decide casos resultantes de conflitos de interesses decorrentes de lei, respeitar e observar os fins estabelecidos pela Constituição. Essa constitucionalização é uma característica essencial da própria jurisdição constitucional, que permite possibilidades interpretativas fundamentadas nessa supremacia, como o controle de constitucionalidade, possibilitando a revogação de leis inconstitucionais e a interpretação conforme a Constituição.Essa reconstitucionalização, observada após a Segunda Guerra Mundial, também fez surgir um patriotismo constitucional, o qual, segundo Habermas (1998): Licensed to Bruno Brum Sette - brunobrum7@yahoo.com.br - 088.076.327-21 https://www.youtube.com/watch?v=SJy1M4iYiMo https://www.youtube.com/watch?v=D4p3aJvFq3A&t=350s. 6 [...] produziu de forma reflexiva uma identidade política coletiva conciliada com uma perspectiva universalista comprometida com os princípios do Estado Democrático de Direito. Isto é, o patriotismo constitucional foi defendido como uma maneira de conformação de uma identidade coletiva baseada em compromissos com princípios constitucionais democráticos e liberais capazes de garantir a integração e assegurar a solidariedade, com o fim de superar o conhecido problema do nacionalismo étnico, que por muito tempo opôs culturas e povos. (HABERMAS, 1998, p. 55) Princípio da dignidade humana O princípio da dignidade da pessoa humana funciona como fonte do direito e sua aplicação é feita para solucionar os mais diversos casos. Ainda que tenha um conteúdo aberto, faz-se necessário apresentar um conteúdo mínimo quando da sua aplicação jurídica. Immanuel Kant traz grandes contribuições para a delimitação do conceito de dignidade humana nas suas obras “A Crítica da Razão Pura” e a “Crítica da Razão Prática”. Saiba mais No plano filosófico, valor intrínseco é o elemento ontológico da dignidade, ligado à natureza do ser. Trata-se da afirmação da posição especial da pessoa humana no mundo, que a distingue dos outros seres vivos e das coisas. As coisas têm preço, mas as pessoas têm dignidade, um valor que não tem preço (KANT, 1998). Além disso, apresenta um valor social, visto que se preocupa com os impactos das escolhas individuais na sociedade. A inteligência, a sensibilidade e a capacidade de comunicação (pela palavra, pela arte, por gestos, pelo olhar ou por expressões fisionômicas) são atributos únicos que servem para dar-lhes essa condição singular. No plano jurídico, o valor intrínseco está na origem de uma série de direitos fundamentais, que incluem: direito à vida, direito à igualdade, direito à integridade física, direito à integridade moral ou psíquica (BARROSO, 2017). Sobre o referidoprincípio, Ferreira Filho (2011) assevera que: Licensed to Bruno Brum Sette - brunobrum7@yahoo.com.br - 088.076.327-21 7 A dignidade é o fundamento dos direitos humanos. O problema é que essa dignidade é concebida de modo diferente pelas filosofias, religiões e culturas, o que põe em risco a objetividade da interpretação. Muitas vezes já tem servido abusivamente de “chave falsa” (perdoe-me a imagem) para que o intérprete arbitrariamente faça prevalecer a sua concepção ideológica contra legem ou praeterlegem. Isto “sem uma justificação política substantiva”, como reclama Sunstein. (FERREIRA FILHO, 2011, p. 231) Documentário: 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948. Sinopse: oenredo ressalta a importância da Declaração ao longo dos anos. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=SJy1M4iYiMo. Saiba mais Nova interpretação da constituição Conforme explica Barroso (2010), onde havia unidade, passou a existir uma pluralidade. A recente interpretação incorporou um conjunto de novas categorias, destinadas a lidar com as situações mais complexas e plurais referidas anteriormente. Dentre elas, a normatividade dos princípios (como dignidade da pessoa humana, solidariedade e segurança jurídica), as colisões de normas constitucionais, a ponderação e a argumentação jurídica. Barroso (2010) comenta, ainda, que passa, [...] por fim, a ideia de casos difíceis. Casos fáceis são aqueles para os quais existe uma solução pré-pronta no direito positivo. Por exemplo: a) a Constituição prevê que aos 70 anos o servidor público deve passar para a inatividade. Se um juiz, ao completar a idade limite, ajuizar uma ação pretendendo permanecer em atividade, a solução será dada de maneira relativamente singela: pela mera subsunção do fato relevante – implementação da idade – na norma expressa, que determina a aposentadoria; b) a Constituição estabelece que o Presidente da República somente possa se candidatar a uma reeleição. Se o Presidente Lula, por exemplo, tivesse pretendido concorrer a um terceiro mandato, a Justiça Licensed to Bruno Brum Sette - brunobrum7@yahoo.com.br - 088.076.327-21 https://www.youtube.com/watch?v=SJy1M4iYiMo 8 Eleitoral teria indeferido o registro de sua candidatura, por simples e singela aplicação de uma norma expressa. A verdade, porém, é que para bem e para mal, a vida nem sempre é fácil assim. Há muitas situações em que não existe uma solução pré-pronta no Direito. A solução terá de ser construída argumentativamente, à luz dos elementos do caso concreto, dos parâmetros fixados na norma e de elementos externos ao Direito. (BARROSO, 2010, p. 13) A figura a seguir mostraas consequências do Neoconstitucionalismo para a intepretação da Constituição. Interpretação constitucional Hierarquia normativa formal e material Concretização dos direitos fundamentais Fonte: Elaborada pela autora (2020). Lênio Streck (2011), por seu turno, faz críticas ao que chama positivismo normativista pós-kelseniano,ou seja, ao positivismo que admite discricionariedades (ou decisionismos e protagonismos judiciais). Para o jurista, esse ativismo possui uma origem solipsista; passando, dessa forma, a democracia e os avanços adependerem de posições individuais da Suprema Corte. O autor considera, que no âmbito destas reflexões, estásuperado [...] o velho positivismo exegético. Ou seja, não é (mais) necessário dizer que o “juiz não é a boca da lei” etc.; enfim, podemos ser poupados, nessa quadra da história, dessas “descobertas polvolares”. Essa “descoberta” não pode implicar um império de decisões solipsistas, das quais são exemplos as posturas caudatárias da Jurisprudência dos Valores (que foi “importada” de forma equivocada da Alemanha), os diversos axiologismos, o realismo jurídico (que não passa de um “positivismo fático”), a ponderação de valores (pela qual o juiz literalmente escolhe um dos princípios que ele mesmo elege prima facie) etc. (STRECK, 2011, p. 31) Não restam dúvidas de que o Neoconstitucionalismo trouxe uma mudança de postura na elaboração das Constituições contemporâneas. Se, no surgimento do movimento constitucionalista, no final do século XVIII, as Constituições limitavam- se a estabelecer regras atinentes à organização do Estado e do Poder, após a Segunda Guerra Mundial as Constituições inovaram com a inserção em seus textos de valores (dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais). Licensed to Bruno Brum Sette - brunobrum7@yahoo.com.br - 088.076.327-21 9 Esse fenômeno aprofundou a forma de se realizar a interpretação constitucional, fundamental para soluções de casos jurídicos decorrentes da complexidade da vida contemporânea, especialmente os já mencionados casos difíceis (situações para as quais não há soluções pré-prontas no ordenamento jurídico, exigindo a atuação criativa de juízes e tribunais). Portanto, percebe-se que o ativismo judicial tem se manifestado como forma para atender as questões sociais não enfrentadas pelo processo legislativo, sobretudo as que envolvem assuntos de forte impacto religioso e moral. Licensed to Bruno Brum Sette - brunobrum7@yahoo.com.br - 088.076.327-21 10 FECHAMENTO Nesta unidade, compreendemos que o movimento constitucionalista pode ser dividido em várias etapas, de acordo com sua origem e fases e que o chamado Neoconstitucionalismo é um movimento que tem origem na Europa, no contexto de pós-Segunda Guerra Mundial. Vimos ainda que esse movimento busca concretizar a supremacia material e formal da Constituição, a partir da observação do princípio da dignidade humana e percebemos que, além do critério hierárquico, esse movimento estabelece a concretização material dos direitos fundamentais. Compreendemos que parcela da doutrina constitucionalista faz uma crítica a essa nomenclatura – Neoconstitucionalismo, afirmando que pode ser chamado, entre outros, de pós-positivismo. Por fim, refletimos sobre a forma desregulada da utilização do princípio da dignidade humana para justificar a ampliação de direitos e o exercício de interpretação do judiciário. Licensed to Bruno Brum Sette - brunobrum7@yahoo.com.br - 088.076.327-21 11 Referências http://www.luisrobertobarroso.com.br/wp-content/uploads/2012/12/O- constitucionalismo-democratico-no-Brasil.pdf BARROSO, L. R.Curso de direito constitucional contemporâneo.2. ed. São Paulo: Editora Saraiva, 2010. ______. O Constitucionalismo democrático no Brasil: crônica de um sucesso imprevisto. [2017]. Disponível em: http://www.luisrobertobarroso.com.br/wp- content/uploads/2013/05/O-constitucionalismo-democratico-no-Brasil.pdf. Acesso em: 27 set. 2020. CUNHA JÚNIOR, d. Curso de direito positivo constitucional. 6. ed. Salvador: Juspodivm, 2012. FERREIRA FILHO, M. G. Aspectos de direito constitucional contemporâneo. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2011. GUASTINI, R. La “Constitucionalización”’ dei ordenamiento jurídico:el caso Italiano. In: CARBONEL, M. (Org.). Neoconstitucionalismo(s). 4.ed. Madrid: Trotta, 2009. HABERMAS, J. Identidades nacionalesy postnacionales.Madrid:Tecnos, 1998. KANT, I. Groundwork of the Metaphysics of Morals.Cambridge: Cambridge University Press, 1998. STRECK, L. L. Verdade e consenso: constituição, hermenêutica e teorias discursivas. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 2011. Licensed to Bruno Brum Sette - brunobrum7@yahoo.com.br - 088.076.327-21 http://www.luisrobertobarroso.com.br/wp-content/uploads/2012/12/O-constitucionalismo-democratico-no-Brasil.pdf http://www.luisrobertobarroso.com.br/wp-content/uploads/2012/12/O-constitucionalismo-democratico-no-Brasil.pdf http://www.luisrobertobarroso.com.br/wp-content/uploads/2013/05/O-constitucionalismo-democratico-no-Brasil.pdf http://www.luisrobertobarroso.com.br/wp-content/uploads/2013/05/O-constitucionalismo-democratico-no-Brasil.pdf