Prévia do material em texto
19 Lição 2 - Direito Empresarial Olá, estudante! Você já sabe qual é a importância das empresas na sociedade em que vivemos atualmente? Desde os tempos remotos, a prática comercial sempre se mostrou bastante protetiva às partes envolvidas nos atos de comércio. Ocorre, porém, que o tratamento jurídico dispensado às empresas empreendedoras a partir do direito societário sofreu uma enorme evolução. Nesta lição, serão abordadas as características da citada evolução da prática comercial, as particularidades das organizações empresarias, bem como os direitos e deveres dos sujeitos nela intervenientes. Você irá constatar que a organização no exercício de uma atividade econô- mica permite a percepção de benefícios em toda a sociedade e não apenas o lucro à sociedade empresarial. Ora, a integração da comunidade no desenvolvimento das atividades meio e fim de uma companhia possibilita a empregabilidade de muitas pessoas e o giro de capital em outras áreas. A realização da atividade empresarial depende da presença de certos elementos a serem estudados nesta lição. Vamos começar? O objetivo desses estudos é contribuir para que você se sinta preparado para: • compreender a evolução normativa do Direito Comercial brasileiro; • estudar o surgimento da Teoria da Empresa e suas fontes; • identificar os requisitos caracterizadores da atividade empresarial; • entender acerca da necessidade de inscrição e da capacidade do empresário; • conhecer a extensão da importância do registro; • analisar a Teoria da Empresa como novo paradigma do Direito Comercial; • identificar as fontes do Direito Empresarial; • analisar os conceitos de empresa, empresário e sociedade empresária, bem como as características distintivas entre eles. 20 Vamos iniciar o nosso estudo compreendendo as noções gerais do Direito Empresarial, como ele se define e quais são as suas principais características. 1. Noções Gerais do Direito Empresarial O Direito Empresarial é o regime jurídico especial do Direito Privado desti- nado à regulação das atividades econômicas e dos seus agentes produtivos, organizados com fins de produção e circulação de bens e serviços. Em ou- tras palavras, o Direito Empresarial realiza a tutela das atividades que te- nham os requisitos da companhia baseado na autonomia privada daqueles que realizam as relações jurídicas. 2. Origem e Evolução Histórica O Direito Empresarial originou-se na Idade Média diante da necessidade de normas que regulassem as transações realizadas pelos comerciantes da épo- ca. Criado pelos próprios comerciantes, os quais ditavam as normas a serem aplicadas às suas relações, ele permaneceu assim vigendo por um longo pe- ríodo. No século XIX, com as monarquias e a criação do Código Napoleônico, surgiu a Teoria dos Atos do Comércio. 3. Teoria dos Atos do Comércio e Teoria da Empresa Segundo a teoria dos atos do comércio, todos que praticassem uma ativida- de econômica que o Direito compreendesse como um ato de comércio eram considerados comerciantes e, por isso, submeter-se-iam às obrigações do Código Comercial. O regime do Direito Comercial garantia aos comerciantes uma série de privilégios, entre os quais a concordata e a celebração de contra- tos mercantis. Para tal caracterização, havia uma lista de atividades definidas como atividades comerciais. Contudo, em certo momento, tal teoria tornou- -se inaplicável, uma vez que muitas atividades importantes, como a prestação de serviços e as atividades rurais, não se encontravam na lista. A partir da Segunda Guerra Mundial, na Itália, surge a teoria da empresa. Conforme ela, a atividade em si não importa mais, mas, sim, o modo como se exerce tal atividade. Dessa forma, o Direito Empresarial deixou de regular a atividade de setores específicos e passou a regular o modo como os sujeitos organizavam o seu trabalho, de tal forma que, todo aquele que organizasse seu negócio profissionalmente, para produzir ou circular bens ou serviços, teria o amparo jurídico do Direito Empresarial. O Código Civil de 2002 implantou no Direito brasileiro a chamada teoria da empresa ao estabelecer em seu artigo 966, disposto a seguir, in verbis: “(...) con- sidera-se empresário quem exerce profissionalmente a atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens e serviços”. 21 3.1 Empresa Empresa é a atividade econômica, profissional e organizada para a produção de bens e/ou serviços. A empresa é a própria atividade exercida, ou seja, é a produção de bens e serviços, ou, ainda, é o comércio de bens e serviços. ► 3.1.1 Atividade Econômica Para se configurar em atividade econômica, há a necessidade de buscar o lu- cro, ou seja, visar o lucro por intermédio da produção ou comercialização de bens ou serviços, ainda que não se alcance o lucro propriamente dito. ► 3.1.2 Atividade Profissional Para se configurar em atividade profissional, é imprescindível restar evi- denciada a pessoalidade por meio da assunção pessoal de responsabilidade pela atividade praticada e a habitualidade a partir da frequência na ativida- de empresarial praticada de forma reiterada e em nome próprio. ► 3.1.3 Atividade Organizada Para se configurar em atividade organizada, é necessária a expertise para a boa aplicação do capital, desde a aquisição de insumos, o comando dos trabalhadores até a entrega dos bens e serviços aos seus destinatários. 3.2 Empresário Ultrapassada a teoria dos atos de comércio, a qual considerava comerciantes so- mente aqueles que estivessem registrados nas corporações de comércio, com a vi- gência e adoção da teoria da empresa, empresário não é aquele que exerce a ativi- dade previamente descrita em uma lista de atividades consideradas empresariais, mas, sim, “aquele que exerce uma atividade econômica profissionalmente organi- zada para a produção e/ou circulação de bens e serviços”. Ou seja, “empresário é a pessoa física ou jurídica que exerce uma atividade econômica profissionalmente organizada para a produção e/ou circulação de bens e serviços”. ► 3.2.1 Registro Público de Empresas Mercantis Todos os empresários precisam obrigatoriamente estar inscritos no Registro Público de Empresas Mercantis da respectiva sede, antes do início de sua ativi- dade, para que possam exercer profissionalmente a atividade econômica, além do que não ter impedimentos e observar alguns requisitos para o exercício de atividade empresarial. 22 ► 3.2.2 Requisitos para o Exercício de Atividade Empresarial Deve o empresário atender cumulativamente dois requisitos: • não ser impedido; • estar no pleno gozo da capacidade civil. 3.2.2.1 Ausência de Impedimentos Algumas pessoas, apesar de terem capacidade civil plena, são impedidas de exer- cer atividade empresarial. Há aquelas impedidas legalmente de exercer ativida- de empresarial, conforme reza o artigo 972 do Código Civil, a seguir transcrito in verbis: “Art. 972º Podem exercer a atividade de empresário os que estiverem em pleno gozo da capacidade civil e não forem legalmente impedidos”. O artigo 2º do Código Comercial considerava impedidos de serem empresá- rios os funcionários públicos. Atualmente, em regra, os funcionários públicos ainda são impedidos de serem empresários, bem como, por exemplo, os se- nadores, os deputados e os presidentes, observada a parcial vedação. É veda- do também aos cônsules, nos seus distritos, exceto os não remunerados, de acordo com o Decreto nº 3.259, de 1889. Estão impedidos também os militares ativos das três armas, vide Estatuto e Código Militar. Os Magistrados são impedidos pela Lei Orgânica da Magistratura e os mem- bros do Ministério Público pela Lei Orgânica do Ministério Público. Tam- bém persiste o impedimento aos leiloeiros, conforme estabelece o Decreto nº 21.981, de 1932. Os médicos, por sua vez, sofrem tal impedimento apenas para o exercício em conjunto com o ramo farmacêutico nos exatos termos estipulados pelo Decreto nº 20.377, de 1931. Além desses, estão impedidos deexercer atividade empresarial todos os devedores do INSS, em face de dis- posição legal, conforme estabelece a Lei nº 8.212/91, Art. 95, § 2º, alínea “d”. Excepcionalmente, não podem exercer atividade empresarial as sociedades não constituídas segundo a legislação pátria que tenham sede fora do Brasil. 3.2.2.2 Capacidade Civil A regra é o pleno gozo da capacidade civil. Porém, existem casos em que o inca- paz poderá continuar a atividade empresarial, adquirindo status de empresário. São as seguintes situações: • incapacidade superveniente: quando a pessoa era capaz e se torna incapaz para os atos da vida civil; • falecimento ou ausência dos pais. Em ambos os casos é demandada autorização judicial, além do que se exige que o incapaz seja representado ou assistido, conforme seja absoluta ou rela- tiva a incapacidade. O Código Civil regulamenta assim: 23 “Art. 974º Poderá o incapaz, por meio de representante ou devidamente assistido, continuar a empresa antes exercida por ele enquanto capaz, por seus pais ou pelo autor de herança. § 1º Nos casos deste artigo, precederá autorização judicial, após exame das circunstâncias e dos riscos da empresa, bem como da conveniência em continuá-la, podendo a autorização ser revogada pelo juiz, ouvidos os pais, tutores ou representantes legais do menor ou do interdito, sem prejuízo dos direitos adquiridos por terceiros.”. Referidas regras valem tão somente para o caso do exercício do empresaria- do como empresário individual. De igual forma, um incapaz pode ser sócio de sociedade empresarial, desde que: 1º) não seja administrador da sociedade; 2º) o capital social esteja totalmente integralizado; 3º) haja assistência ou repre- sentação, conforme a incapacidade seja, respectivamente, relativa ou absoluta. 4. Fontes do Direito Empresarial A principal fonte do Direito Empresarial é a lei. Ele é oriundo do comando dado pelo legislador constitucional na Constituição Federal de 1988. Inobstante o texto supramencionado, o Direito Empresarial também se encontra regulado no Código Civil de 2002, no Código Comercial de 1.850 (parte não revogada so- bre comércio marítimo) e em diversas leis esparsas. São fontes secundárias do Direito Comercial os usos e os costumes, a jurisprudência e a doutrina. 5. Aplicação do Direito Empresarial 1º) Suponha que logo após André, 52 anos, Flávio, 44 anos, e José, 29 anos, celebrarem o contrato social para constituição da Sociedade Imobiliária Comércio de Imóveis Ltda., integralizando 100% do capital social, José é interditado e declarado incapaz, mediante sentença judicial transitada em julgado. José poderá permanecer na sociedade mesmo tornando-se incapaz posteriormente à assinatura do Contrato Social, devendo a partir de então ser representado ou assistido, a depender do motivo determinante da sua incapacidade, conforme estabelece o artigo 974, parágrafo terceiro, do Código Civil, a saber: “Art. 974º § 3º O Registro Público de Empresas Mercantis a cargo das Juntas Comerciais deverá registrar contratos ou alterações contratuais de sociedade que envolva sócio incapaz, desde que atendidos, de forma conjunta, os seguintes pressupostos: I – o sócio incapaz não pode exercer a administração da sociedade; II – o capital social deve ser totalmente integralizado; III – o sócio relativamente incapaz deve ser assistido e o absolutamente incapaz deve ser representado por seus representantes legais.”. Considere nessa situação hipotética tratar-se de uma sociedade. Desse modo, a continuidade de José como sócio estará condicionada somente ao artigo 24 974, parágrafo terceiro, independentemente da necessidade de autorização judicial por expressa previsão legal. 2º) Suponha que um psiquiatra trabalhe sozinho e possua todos os elementos para ser um empresário: exploração profissional da atividade, individual, direta, habitual e com fins lucrativos de uma atividade econômica. Mesmo assim, este não será juridicamente considerado empresário. De outro lado, o hospital de grande porte onde esse mesmo psiquiatra traba- lha como plantonista nos outros dias em que não está na sua clínica, constitui elemento da empresa sendo considerado como uma sociedade empresária. Isso porque a atividade é intelectual, mas organizada como uma empresa. Destarte, não se classifica como empresário quem exerce profissão inte- lectual, de natureza científica, literária ou artística, ainda com o concurso de auxiliares ou colaboradores, salvo se o exercício da profissão constituir elemento de empresa. 3º) Imagine agora que um dentista no exercício da sua profissão resolve locar um espaço maior, contratando diversos empregados da atividade- meio (limpeza e segurança) e da atividade-fim (dentistas). A pessoalidade da sua atividade deixa de ser referência, visto que, agora, a referência passou a ser a própria estrutura empresarial, já que transformou o seu consultório em uma clínica de grande porte, de tal forma que a atividade intelectual foi absorvida pela estrutura empresarial organizada. 4º) Da mesma forma, suponha que uma escritora, a qual exerça a sua atividade pessoal literária com a ajuda de uma pessoa para a diagramação e correção ortográfica, em regra, não é considerada uma empresária. Considere, agora, que essa mesma escritora comece a editar livros de outros autores, imprimi-los e vendê-los em busca de lucro. A situação se transformou de tal forma que fez surgir uma atividade intelectual organizada, classificada como atividade empresarial. As atividades intelectuais serão excepcionalmente consideradas empresárias, se houver a organização. Por sua vez, a atividade do advogado naturalmente exercente de atividade intelectual não poderá ser considerada empresária, ainda que o exercício da profissão seja absorvido pela empresa, em razão de expressa proibição objetiva no Estatuto do Advogado, seja a Lei n. 8.906/1994. 25 Figura 1