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OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
 > Explicar a disponibilização espacial do território.
 > Descrever os domínios socionaturais brasileiros.
 > Reconhecer a economia política do espaço.
Introdução
Neste capítulo, você vai estudar a formação do Brasil a partir da chegada dos 
colonizadores portugueses, com foco na questão das terras e na ação política 
e administrativa. Você vai ler sobre o papel dos colonizadores, bandeirantes e 
jesuítas, bem como sobre impactos e formas de exploração de indígenas e negros. 
Além disso, vai conhecer a organização administrativa do território via capitanias 
hereditárias e sesmarias, a organização produtiva, social e de trabalho no período 
dos ciclos econômicos (açúcar, ouro, café e borracha) e a organização relativa a 
elementos naturais (relevo, clima, vegetação e hidrografia).
Ao longo do capítulo, você ainda vai estudar os domínios geobotânicos (tropical, 
campestre e equatorial) e os domínios morfoclimáticos (amazônico, cerrado, mares 
de morros, caatinga, araucária e pradarias). Ademais, vai ler sobre a questão da 
renda da terra diferencial como fator determinante das formas de utilização e 
ocupação do território nacional.
Formação territorial 
do Brasil
Francielly Naves Fagundes
Uso e ocupação do território brasileiro
Quando os portugueses chegaram ao Brasil, em 1500, grupos étnicos indígenas 
já ocupavam o território do País. Por séculos, as terras brasileiras foram uti-
lizadas pelos indígenas, o que se modificou com a chegada dos portugueses, 
que tomaram posse do território.
A coroa portuguesa e os portugueses enviados para colonizar o Brasil 
adotaram um modelo de colonização de exploração (de terras, recursos 
naturais e mão de obra), visando a direcionar produtos para a metrópole. Ao 
chegar aqui, os colonos portugueses encontraram um território “[...] povoado 
por uma diversidade de tribos indígenas cuja soma chega a uma população 
de mais de cinco milhões de habitantes. Espaço e força de trabalho aí estão 
reunidos [...]” (MOREIRA, 2011, p. 11).
Os portugueses, os bandeirantes (homens que exploravam e penetra-
vam as terras) e os religiosos jesuítas foram agentes que por cerca de três 
séculos interviram no País e alteraram as formas de uso e ocupação do 
território brasileiro, bem como a vida dos indígenas que já residiam nesse 
território. Veja:
Os três primeiros séculos serão dedicados a essa tarefa de disponibilização, re-
alizada por intermédio de uma ação simultânea de expropriação e realocação 
territorial das tribos indígenas. A expropriação será a tarefa dos bandeirantes. A 
realocação, dos jesuítas. Disponibilizado, o espaço pode agora ser ocupado pelo 
colono. E a população indígena dele despojada, usada como força de trabalho 
(MOREIRA, 2011, p. 11–12).
A organização do território brasileiro ocorreu inicialmente por meio das 
capitanias hereditárias. As capitanias eram uma forma de distribuição de 
terras imposta pelos colonizadores. As faixas de terra eram destinadas aos 
donatários e repassadas por hereditariedade (na família, de pais para filhos). 
Cada donatário deveria administrar e proteger as terras recebidas e responder 
às imposições do rei de Portugal. Atente ao seguinte:
As capitanias hereditárias foram a primeira medida real de colonização tomada 
pelos portugueses em relação ao Brasil. Com as capitanias, foi implantado um 
sistema de divisão administrativa por ordem do rei português D. João III, em 1534. 
A América Portuguesa foi dividida em 15 faixas de terra, e a administração dessas 
terras foi entregue aos donatários. As capitanias existiram no Brasil durante 
séculos, mas, a partir de 1548, uma nova forma de administrar o Brasil foi criada 
(SILVA, 2020, documento on-line).
Formação territorial do Brasil2
Na Figura 1, a seguir, veja as capitanias hereditárias e os seus respec-
tivos donatários, isto é, os europeus que receberam faixas de terra para 
administrar.
Figura 1. Capitanias hereditárias do Brasil Colônia.
Fonte: Albuquerque, Reis e Carvalho (1996 apud PERON, 2020, documento on-line).
Outra forma de organização do espaço geográfico do País — nesse caso, 
de distribuição das terras brasileiras — foram as sesmarias. As sesmarias 
foram criadas como um meio de implantar práticas de agricultura e povoar 
as novas terras da coroa portuguesa. Veja a definição de sesmaria:
Sesmaria era um lote de terras distribuído a um beneficiário, em nome do rei de Portu-
gal, com o objetivo de cultivar terras virgens. Originada como medida administrativa nos 
períodos finais da Idade Média em Portugal, a concessão de sesmarias foi largamente 
Formação territorial do Brasil 3
utilizada no período colonial brasileiro. Iniciada com a constituição das capitanias 
hereditárias em 1534, a concessão de sesmarias foi abolida apenas quando houve 
o processo de independência, em 1822. A origem das sesmarias esteve relacionada 
com as terras comunais existentes no reino português e com a forma de distribuição 
delas entre os habitantes das comunidades rurais (PINTO, 2020, documento on-line).
De acordo com Théry e Mello-Théry (2005), os ciclos econômicos do 
Brasil permitiram o povoamento do território. Para os autores, o processo 
de interiorização do País (a colonização ficou muito tempo restrita às 
faixas litorâneas) deu-se por meio dos diferentes ciclos econômicos. 
Afinal, tais ciclos desencadearam a exploração de regiões até então 
não ocupadas.
Iniciava-se, assim, a formação de um Brasil “arquipélago”, com uma 
espécie de mosaico de regiões autônomas. Formava-se um país de di-
ferenças regionais, com uma série de ciclos econômicos em regiões 
distintas. Cada tipo de produção afetou uma região diferente do País, 
permitindo novos povoamentos (chamados de “interiorização”) (THÉRY; 
MELLO-THÉRY, 2005).
Até o século XVII, predominou o ciclo econômico do açúcar, restrito às áreas 
territoriais do litoral onde se cultivava a cana-de-açúcar e se produzia o açúcar 
em engenhos. Depois, iniciou-se um processo de interiorização, povoamento 
e expansão para Minas Gerais, com a descoberta de ouro. O ciclo econômico 
do ouro começou no final do século XVII (THÉRY; MELLO-THÉRY, 2005).
A mineração em Minas Gerais impulsionou a mudança da capital do Brasil 
Colônia. A capital, que antes era Salvador, passou a ser o Rio de Janeiro. Com 
essa mudança, o centro econômico, que era restrito ao litoral nordestino, 
deslocou-se para o centro-sul brasileiro. Isso intensificou o processo de 
interiorização do Brasil; formaram-se vilas e, consequentemente, cidades 
polos de mineração.
Em seguida, teve início o ciclo econômico do café, nos séculos XIX e XX. 
Nesse ciclo, São Paulo ganha destaque. No estado, o café desenvolveu-se 
magnificamente sobretudo no Vale do Paraíba Paulista, adaptando-se 
bem à terra roxa. Nesse período, o cultivo do café utilizava mão de obra 
assalariada (não mais servil e pouco qualificada), constituída no início prin-
cipalmente de imigrantes custeados pelos fazendeiros paulistas (THÉRY; 
MELLO-THÉRY, 2005).
Outro ciclo econômico e produtivo que contribuiu para modelar o território 
brasileiro foi o da borracha, no início do século XX, na região da Amazônia. 
Ademais, destaca-se a pecuária, que contribuiu mais do que o ouro para 
Formação territorial do Brasil4
dilatar o espaço brasileiro. A produção pecuária se estendeu até depois do 
período do ouro, criando estradas e pontos de apoio estáveis.
Destacam-se ainda a atuação dos bandeirantes (bandeirantismo) e dos 
missionários jesuítas (aldeamentos) e a expansão da agropecuária no pro-
cesso de interiorização do País. No entanto, esses processos acarretaram 
impactos sociais e ameaças aos povos originários indígenas, bem como aos 
povos e comunidades afrodescendentes. Devido aos modelos econômicos 
e de trabalho vigentes, esses povos foram capturados, escravizados e em 
alguns casos mortos e extintos.
Portanto, a distribuição de terras por capitanias hereditárias e sesmarias 
e os ciclos econômicos influenciaram a formação territorial do país. Entreas consequências desses processos, destacam-se a economia e a política 
latifundiárias (em que prevalecem as grandes propriedades rurais), a con-
centração fundiária e a desigualdade social rural.
Quer aprender mais sobre as expedições dos bandeirantes pelo 
interior do Brasil? Assista ao quarto episódio de Entradas e Bandeiras, 
da TV Brasil. Esse episódio está disponível on-line; para encontrá-lo, utilize o 
seu site de buscas favorito.
Ocupação do território socionatural 
brasileiro
Nos períodos colonial e monárquico, a matriz espacial de organização do 
território brasileiro considerou formas de utilização e ocupação baseadas nos 
recursos da natureza. Segundo Moreira (2011), a priori os colonos portugueses 
organizaram o território a partir de características socionaturais denominadas 
“faixas geobotânicas”. A seguir, veja quais são essas faixas.
 � Costeira (litoral): vegetação de mata tropical.
 � Interiorana (interior): vegetação de mata campestre.
 � Setentrional (Região Norte): vegetação de mata equatorial.
Na Figura 2, veja os domínios geobotânicos brasileiros e a sua represen-
tação cartográfica.
Formação territorial do Brasil 5
Figura 2. Domínios geobotânicos do Brasil.
Fonte: Becker e Egler (2006 apud MOREIRA, 2011, p. 9).
Nos domínios geobotânicos, instalam-se as formas de produção do setor 
primário da economia (agricultura, pecuária e extrativismo). Os colonizadores 
portugueses tinham como objetivo implantar práticas de uma agricultura de 
monocultura baseada no sistema de plantation, com o objetivo de comercia-
lizar essa produção agrícola e direcioná-la à metrópole portuguesa (relação 
colônia–metrópole). A lavoura se instala em áreas de mata tropical litorânea. 
Por sua vez, a pecuária se instala em áreas de mata campestre do interior. 
Já o extrativismo se instala em áreas de mata equatorial ao norte do País 
(MOREIRA, 2011). Considere o seguinte:
A entrada do colono português com seu modo de vida de monocultor e mercantil-
-exportador por essas três faixas, embora quase numa reprodução do modo 
de ocupação indígena, com a lavoura ocupando as áreas de mata do litoral e a 
pecuária, as de formação aberta campestre da hinterlândia, além do extrativis-
mo, as da mata equatorial, gera um novo tipo de enraizamento, movimentando 
socioambientalmente o quadro de integração da natureza sob novos modos de 
interligação e arranjo (MOREIRA, 2011, p. 19).
Formação territorial do Brasil6
No Quadro 1, veja uma síntese das principais características físicas e 
naturais das três faixas geobotânicas.
Quadro 1. Principais características físicas e naturais das faixas geobotânicas
Domínio 
geobotânico Características
Mata tropical � Floresta latifoliada, úmida, densa e fechada
 � Árvores de grande porte (20 a 30 metros de altura), caules 
grossos e poucos galhos
 � Árvores de porte médio e arbustos, como palmeiras, cipós e 
lianas
 � Plantas herbáceas, gramíneas e vegetais de pequeno porte
 � Terreno montanhoso, acidentado, encostas inclinadas
 � Ventos quentes e úmidos, elevada incidência de chuvas
 � Mata perene das encostas litorâneas — mata semidecídua 
das áreas planálticas — mata decídua da Bacia Paranaica
Mata 
campestre
 � Caatinga: planalto nordestino. Semiaridez, matas secas com 
vegetação de aspecto diferenciado (por exemplo: cactáceas, 
bromeliáceas, herbáceas, arbustos e árvores baixas). Solo 
pedregoso.
 � Cerrado: planalto central. Campo cerrado com vegetação 
aberta. Relevo com topo plano e extenso das chapadas. Área 
central da faixa interiorana nas regiões de Minas Gerais, 
Goiás e Mato Grosso.
 � Campos limpos: planalto e coxilhas do Sul. Áreas baixas da 
campanha gaúcha. Mata de araucária (por exemplo, pinheiros). 
Área do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina e do Paraná.
Mata 
equatorial
 � Floresta latifoliada, típica da latitude equatorial (próxima à 
linha do Equador), densa e fechada
 � Árvores de grande porte (até 40 metros de altura); arbustos 
e subarbustos, como cipó, liana, epífita, sapopemba, igapó
 � Solo raso e pobre, com camada de húmus frágil e pouco 
espessa, proveniente da decomposição dos restos da 
própria floresta, entre 20 cm e 2 metros de profundidade, 
com areia e argila
 � Solos mais férteis em áreas de mata de várzea (às margens 
de rios e alagadas na época das cheias)
 � Área da Amazônia
Fonte: Adaptado de Moreira (2011).
Segundo Gomes (1988), o arranjo e a organização espacial se dão em decorrên-
cia do modo de vida e copertencimento de grupos étnicos indígenas como o tupi 
(agricultura, lavoura de mandioca), os gês (coleta e caça), o caribe e o aruaque. Na 
faixa da mata atlântica, habitam as tribos indígenas tupis; na faixa da vegetação 
Formação territorial do Brasil 7
campestre, habitam as tribos indígenas gê; já na faixa da mata equatorial, habitam 
as outras tribos indígenas, como caribe e aruaque (GOMES, 1988).
Posteriormente, uma nova forma de organização do território se inicia, conside-
rando não apenas a distribuição espacial das tribos indígenas e as faixas geobotâ-
nicas, mas também questões de clima (tipos de clima, massas de ar, temperatura, 
regime de chuvas), relevo e bacias hidrográficas. Os novos ocupantes atuam
[...] substituindo pelo seu modo mercantil de ocupação espaços cultural e ambien-
talmente enraizados nos modos de vida comunitários das tribos indígenas, numa 
modalidade de relação que mantenha a complexidade de integração morfoestrutu-
ral e edafomorfoclimática que cada faixa geobotânica envolve (MOREIRA, 2011, p. 17).
Para definir os domínios morfoclimáticos do Brasil, Ab’Sáber (2003) con-
siderou elementos naturais (relevo, clima, vegetação e hidrografia) e suas 
relações e interações nas paisagens. Veja:
[...] domínio morfoclimático e fitogeográfico [é] um conjunto espacial de certa or-
dem de grandeza territorial — de centenas de milhares a milhares de quilômetros 
quadrados de área — onde haja um esquema coerente de feições de relevo, tipos 
de solos, formas de vegetação e condições climático-hidrológicas. Tais domínios 
espaciais, de feições paisagísticas, de certa dimensão e arranjo, em que as condições 
fisiográficas e biogeográficas formam um complexo relativamente homogêneo e 
extensivo (AB’SÁBER, 2003, p. 11–12).
Na Figura 3, veja os domínios morfoclimáticos do País. São eles: amazônico, 
cerrado, mares de morros, caatinga, araucária e pradarias. Além disso, há 
faixas de transição não diferenciadas em suas características.
Figura 3. Domínios morfoclimáticos do Brasil.
Fonte: Ab’Sáber (2003 apud RICO, 2017, documento on-line).
Formação territorial do Brasil8
Moreira (2011) destaca que a organização no território e o arranjo espacial 
dos indígenas e dos colonos apresentam relação de correspondência com os 
domínios morfoclimáticos. O autor ainda afirma que a faixa de mata atlântica 
de ocupação tupi e de prática da lavoura agrícola no Brasil Colônia corresponde 
ao domínio de mares de morros. Por sua vez, a faixa de mata campestre de 
ocupação tapuia e prática pastoril corresponde aos domínios da caatinga, 
do cerrado, de araucárias e de pradarias. Por fim, a mata equatorial, ocupada 
por várias tribos e marcada pela prática do extrativismo, corresponde ao 
domínio amazônico. Veja:
E que em si embutem tanto o modo indígena quanto o colonial de arranjo espa-
cial numa relação de correspondência em que o domínio dos “mares de morros” 
florestados da faixa atlântica é o da área de ocupação tupi e da lavoura colonial; 
os domínios das depressões interplanálticas e semiáridas das caatingas do Nor-
deste, dos chapadões centrais recobertos dos cerrados, cerradões e campestres 
e das coxilhas subtropicais com formação mista das pradarias são os da ocupação 
tapuia e pastoril; e o domínio das terras florestadas da Amazônia, o da ocupação 
das múltiplas tribos e extrativismo (MOREIRA, 2011, p. 17).
Portanto, a formação territorial do País se deu a partir de formas de uso 
e ocupação que consideraram questões socionaturais.
Para conhecer melhor os domínios morfoclimáticosdo Brasil, confira 
o oitavo episódio do programa Intérpretes do Brasil, da TV Brasil, 
com o renomado geógrafo brasileiro Aziz Ab’Sáber. Esse episódio está disponível 
on-line; para encontrá-lo, utilize o seu site de buscas favorito.
Questões econômicas e políticas na 
formação territorial do Brasil
A lei do arranjo espacial é aquela que melhor contemple fatores como locali-
zação e fertilidade do solo. Essa é uma combinação perfeita (solo e localiza-
ção), denominada “renda diferencial”. Há locais em que se busca compensar 
a pobreza edáfica (referente aos solos) com uma excelente e privilegiada 
localização geográfica, como a litorânea (área portuária e estratégica para 
o escoamento da produção) (MOREIRA, 2011).
A renda diferencial, segundo Oliveira (2007), é aquela que independe da 
aplicação de capital. Ela decorre do tipo de solo e da fertilidade natural dos 
Formação territorial do Brasil 9
solos, que acarreta maior produtividade. Nesse contexto, a fertilidade natural 
dos solos, a localização das terras (devido à valorização das terras pelo mercado 
naquela localidade) e o transporte (devido a despesas com frete) são conside-
rados fatores territoriais importantes. (OLIVEIRA 2007). Considere o seguinte:
A renda diferencial I causada pela diferença da fertilidade natural dos solos exis-
tentes no país é, portanto, resultado da posse de uma força natural que foi mono-
polizada. [...] Assim a desigualdade natural dos diferentes tipos de solos permite 
a aqueles que detêm os solos mais férteis a possibilidade de auferirem renda da 
terra diferencial I de forma permanente, evidentemente, desde que este solo esteja 
produzindo (OLIVEIRA, 2007, p. 45).
Atente também ao seguinte:
A localização das terras como fonte formadora da renda da terra diferencial I 
também será analisada a partir da premissa de que iguais quantidades de capital 
aplicadas em terras diferentes, mas com áreas iguais, produzem resultados desi-
guais. [...] [Isso] quando não ocorre a alta dos preços de mercado, mas aparece um 
aumento na eficiência dos meios de transportes (OLIVEIRA, 2007, p. 48).
A ocupação do território no Brasil Colônia ocorreu inicialmente nas se-
guintes capitanias da Região Nordeste: São Vicente, Bahia e Pernambuco. Tal 
ocupação envolveu a instalação de canaviais (lavouras de cana-de-açúcar) e 
engenhos de cana-de-açúcar em áreas de várzeas de rio (onde os solos são 
férteis para a prática da agricultura) e áreas próximas de zonas portuárias 
(para escoamento da produção e do extrativismo e exploração das riquezas 
das terras) (MOREIRA, 2011). Veja:
Na Bahia e em Pernambuco, onde com o tempo a economia canavieira se concen-
tra, frente o fracasso da experiência vicentina, a altíssima fertilidade do massapê 
compensa o problema da localização, cada vez mais interiorizada, resolvendo-se o 
problema com a abertura de portos à beira do rio e chamando para aí a localização 
do canavial e do engenho. O tempo foi afastando, todavia, os centros de produção 
dessa combinação solo–localização apropriada, num adentramento vale acima, 
rio adentro, de custos crescentes (MOREIRA, 2011, p. 41).
Com a migração da Região Nordeste para a Região Sudeste, a relação entre 
localização e fertilidade dos solos também influenciou a lavoura de café:
Com o tempo, assim como na área canavieira dos solos de massapê da zona da mata 
nordestina, a renda diferencial puxa a monocultura para localizações distantes e 
solos menos férteis, a lei do rendimento decrescente empurrando a cafeicultura 
para localizações e solos cada vez mais distantes da costa e custos cada vez mais 
altos (MOREIRA, 2011, p. 41).
Formação territorial do Brasil10
Portanto, o processo de formação, ocupação e uso do território brasileiro 
perpassou ciclos produtivos e econômicos. Nesse processo, a localização 
das atividades produtivas se deu a partir de interesses dos colonizadores na 
extração de recursos da natureza e na exploração de sujeitos sociais (como os 
indígenas e os negros). Além disso, ela foi influenciada por leis espaciais de 
localização de atividades produtivas (considerando fatores como qualidade 
e fertilidades das terras, deslocamento dos produtos e distância de centros 
consumidores) e pela lógica do valor e da reprodução social, que gerou im-
pactos duradouros na sociedade e nos territórios.
Referências
AB’SÁBER, A. N. Os domínios de natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas. São 
Paulo: Ateliê Editorial, 2003.
GOMES, M. P. Os índios e o Brasil. Petrópolis: Vozes, 1988.
MOREIRA, R. Sociedade e espaço geográfico no Brasil: constituição e problemas de 
relação. São Paulo: Contexto, 2011.
OLIVEIRA, A. U. Renda da terra. In: OLIVEIRA, A. U. Modo capitalista de produção, agri-
cultura e reforma agrária. São Paulo: FFLCH, 2007. cap. 6. Disponível em: http://gesp.
fflch.usp.br/sites/gesp.fflch.usp.br/files/modo_capitalista.pdf. Acesso em: 17 jan. 2021.
PERON, A. C. As capitanias hereditárias e o governo-geral no Brasil colonial. [2020]. 
Disponível em: https://cursoenemgratuito.com.br/capitanias-hereditarias-e-governo-
-geral/. Acesso em: 20 jan. 2021.
PINTO, T. S. O que é sesmaria? [2020]. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.
br/o-que-e/historia/o-que-e-sesmaria.htm. Acesso em: 17 jan. 2021.
RICO, N. F. Domínios morfoclimáticos e as formações vegetais do Brasil. 2017. Disponível 
em: https://docplayer.com.br/55283284-Dominios-morfoclimaticos-e-as-formacoes-
-vegetais-do-brasil.html. Acesso em: 20 jan. 2021.
SILVA, D. N. Capitanias hereditárias. [2020]. Disponível em: https://brasilescola.uol.
com.br/historiab/capitanias-hereditarias.htm. Acesso em: 17 jan. 2021.
THÉRY, H.; MELLO-THÉRY, N. A. Gênese e malhas do território. In: THÉRY, H.; MELLO-THÉRY, 
N. A. Atlas do Brasil: disparidades e dinâmicas do território. São Paulo: EdUSP, 2005. 
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testados, e seu funcionamento foi comprovado no momento da 
publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas 
páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores 
declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou 
integralidade das informações referidas em tais links.
Formação territorial do Brasil 11
A construção imaginária 
das identidades nacionais
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
 n Defi nir o conceito de identidade nacional.
 n Analisar como esse conceito se manifesta na história da literatura 
brasileira.
 n Contrastar diferentes discussões sobre a identidade em obras literárias 
distintas.
Introdução
Quando conversa com alguém sobre sua nacionalidade, você auto-
maticamente oferece informações acerca de seu país de origem. Essas 
informações criam sentidos sobre quem você é. A ideia de nacionalidade 
retoma uma outra muito importante para o que você vai estudar neste 
texto, a de nação. É a partir das culturas das nações que as identidades 
nacionais são construídas. Nesse sentido, se as identidades nacionais 
são construções que surgem do imaginário das pessoas, não podem 
ser entendidas como um todo unificado e estável. Neste texto, você vai 
entender como funcionam as identidades nacionais e analisar como a 
literatura brasileira contribui para essa discussão.
Identidade, nação e narração
Você já deve ter ouvido falar que os ingleses são pontuais, que os alemães 
são disciplinados e que os brasileiros são alegres e festivos. Isso ocorre por-
que estamos habituados a relacionar características de personalidade aos 
países a que as pessoas pertencem. No entanto, as identidades nacionais não 
são herdadas como parte de nossa genética, não nascem conosco, conforme 
explica o sociólogo Stuart Hall. Da mesma forma, não podem ser tidas como 
Textos Fundamentais de Ficção em Língua Portuguesa_U2_C04.indd 53 09/06/2017 15:01:43
uma essência, ou seja, como traços defi nitivos. As identidades nacionais são 
narrativas constituídas por outras tantasnarrativas sobre uma nação. Essas 
narrativas contam histórias reais ou fi ctícias, idealizadas ou críticas, sobre 
o passado, o presente ou o futuro da nação, assim emprestando sentidos à 
sua defi nição. Elas percorrem os mais variados meios: mitologia, literatura, 
artes visuais, música, cinema, anedotas, histórias populares, etc. Mas, afi nal, 
o que é uma nação?
Um estudioso chamado Ernest Renan propôs pensar justamente sobre esse 
questionamento em uma conferência proferida em 1882. Ele, já nessa época, 
apresentou a ideia de nação como uma construção que está sujeita à vontade 
do homem (RENAN, 1999). A nação envolve sacrifícios que os indivíduos 
fazem ou estão dispostos a fazer por consentimento. A maioria das nações 
passou a ser unificada depois de um violento processo de conquistas. Por isso, 
de acordo com Renan, é necessário esquecer a violência que envolve essas 
origens para criar um sentimento de lealdade em relação à nação a fim de 
que os sujeitos queiram se sentir parte dela. Nesse sentido, você pode pensar 
que a nação, de uma forma mais ampla, é um grande sistema de represen-
tação de uma cultura, isto é, é o que é narrado sobre determinados povos, 
são os sentidos construídos acerca do que é ser inglês, alemão e brasileiro, 
por exemplo.
Você pode entender as culturas nacionais, então, como discursos que, 
criando sentidos sobre a nação, constroem também identidades com as quais 
você é capaz de se identificar. Nesse âmbito, as identidades nacionais consti-
tuem “comunidades imaginadas”, como destaca Benedict Anderson (2008). 
Sendo assim, o que há de diferente entre as nações seria a forma como elas 
são imaginadas. 
Você conhece o conceito de discurso? Um importante teórico que tratou desse 
conceito é Michel Foucault (2010). Ele explica que o discurso não é só o que 
manifesta o desejo, mas também o que é objeto desse desejo. Sendo assim, ele 
envolve poder. As culturas nacionais são entendidas como discursos não porque 
elas determinam o que uma identidade ou uma nação realmente é, mas o que se 
deseja contar sobre determinada identidade ou nação. Nesse sentido, os discursos 
sempre vão evidenciar uma perspectiva que, é claro, serve a interesses de quem 
os detém.
Textos fundamentais de ficção em língua portuguesa54
Textos Fundamentais de Ficção em Língua Portuguesa_U2_C04.indd 54 09/06/2017 15:01:43
A repetição de narrações sobre o passado de uma nação cria a ideia do 
que se chama tradição. A partir de um mito de origem, isto é, uma narrativa 
sobre como começou a nação, uma série de atributos é idealizada como 
pertencendo a todos os cidadãos do lugar, desde os heróis desse passado 
idealizado até os cidadãos do presente. Dessa forma, a tradição pretende 
conectar nossas vidas a um passado comum, criando a sensação de que 
todos os indivíduos de uma nação descendem de uma mesma origem. 
Temos a tendência a pensar nessas tradições como muito antigas, porque as 
narrativas mitológicas as colocam como pertencendo a um passado remoto 
e original. Contudo, toda narração de um passado é composta a partir do 
presente. Assim, muitas das tradições são recentes e obedecem a diversos 
interesses contemporâneos. Por isso, os historiadores Eric Hobsbawm e 
Terence Ranger (1984) se referiram a esse tema com a expressão “a invenção 
das tradições”. 
Você deve ter em mente, portanto, que as identidades nacionais são 
construções culturais. Sustentadas por narrativas que criam tradições, elas 
pertencem ao âmbito do discurso e estão sujeitas às mutações da história. 
É preciso, no entanto, tomar cuidado, pois isso não significa afirmar que 
elas não são reais. Como produtos da cultura do homem, são, sim, reais. 
O que você deve perceber é que elas não existem desde sempre ou estão 
impressas nos nossos genes. Como construção, elas são criadas e trans-
formadas na sociedade.
Identidade nacional: o caso da literatura 
brasileira
A literatura é um dos meios pelos quais circulam as narrativas que formam 
a ideia da identidade de uma nação. Como você percebeu na discussão 
anterior, não há uma essência que predefi na o que signifi que ser inglês, 
alemão ou brasileiro. Como fenômeno da modernidade ocidental, a identi-
dade nacional é uma construção histórica, o que signifi ca dizer que ela é 
mutável ao longo do tempo. Dessa forma, “O que é ser brasileiro?” é uma 
pergunta para a qual não há uma resposta defi nitiva. Ao longo da história 
da literatura brasileira, diversas obras formularam (de forma mais ou menos 
direta) respostas para ela. Como bem destaca a teórica comparatista Tania 
Franco Carvalhal (1997), nenhuma dessas respostas é mais verdadeira que 
a outra. Todas elas são verdadeiras no sentido de serem construções que 
determinado autor ou autora, pertencente a seu tempo e a sua cultura, ela-
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borou. Nesse sentido, para Carvalhal (1997), o que importa é a comparação 
dessas versões para que se possa perceber a heterogeneidade escondida na 
pretensa homogeneidade da nação. Para fazer esse exercício de refl exão, 
você conhecerá alguns dos diversos textos signifi cativos sobre a literatura 
brasileira e a identidade nacional. 
O brasileiro como o bom selvagem
Começamos por um dos textos mais importantes da história do Brasil: a carta 
escrita pelo escrivão ofi cial da embarcação de Pedro Álvarez Cabral, Pero 
Vaz de Caminha (1500). A função de Caminha era redigir ao rei de Portugal, 
D. Manuel I, um documento compartilhando as principais descobertas dos 
navegantes na então chamada Terra de Vera Cruz. Imagine você o desafi o do 
escritor português. Em 1500, sem os recursos tecnológicos de que dispomos 
hoje (internet, fi lmagem, fotografi a, etc), ele teria que explicar como era um 
local completamente desconhecido aos olhos portugueses: seus habitantes, seus 
hábitos, sua vegetação, seus animais. Dessa maneira, para dar uma forma ao 
desconhecido, Caminha recorreu ao imaginário europeu do paraíso perdido. 
Desde o período medieval, os europeus imaginavam existir locais ideais, de 
clima ameno, natureza exuberante e alimentação abundante para além de onde 
seus mapas poderiam defi nir. Portanto, quando o português tenta descrever o 
completo desconhecido, ele precisa se apegar a algo conhecido para formular 
sua compreensão. O mito do paraíso perdido surge então como moldura que 
dá forma ao que Caminha descreve.
Dessa forma, a carta é marcada pelo tom de espanto com a exuberância 
natural do território encontrado. É como se Caminha descrevesse um paraíso 
que os portugueses acharam por recompensa de suas aventuras marítimas. 
Como consequência, os habitantes locais também são descritos como parte 
desse paraíso a que os portugueses teriam direito. Os índios são vistos como 
extremamente ingênuos, bons e gentis – sobretudo a partir do momento em 
que presenteiam os portugueses com um carregamento de madeira. As índias, 
por sua vez, descritas a partir do maravilhamento do olhar masculino euro-
peu, são vistas como corpos à disposição dos navegantes. Como conclusão, 
Caminha recomenda ao rei que salve a alma dessa gente. Ou seja, diante do 
olhar desbravador lusitano, os índios que darão origem ao ser brasileiro são 
descritos como bons selvagens: servis, sem maldade e necessitados do que 
os europeus denominavam civilização (seu próprio sistema de crenças, sejam 
elas religiosas, científicas ou culturais). Criava-se assim o precedente para a 
colonização.
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A carta de Pero Vaz de Caminha (1500) está disponível 
online, em domínio público. Você pode conferir no 
link ou código a seguir:
<https://goo.gl/2M0RyB>
Moacir: o primeiro brasileiro
Uma obra importante que você vai conhecer também e que busca retratar o 
processo de colonização do Brasil é o romance Iracema: lendado Ceará, 
publicado em 1865 por José de Alencar (1991). Pertencente à estética romântica, 
Alencar não se furta das características do romantismo ao constituir em sua 
narrativa um mito fundacional para o País. Dessa forma, o enredo do romance 
está centrado na união amorosa idealizada entre Martin, aventureiro português, 
e Iracema, índia tabajara. Da história de amor vivenciada por ambos, nasce 
Moacir – o primeiro cearense ou, metonimicamente, o primeiro brasileiro. 
Ao afi rmar que toda essa história se passou nessa terra (referência ao Ceará 
de maneira específi ca e ao Brasil de maneira mais ampla), Alencar fecha um 
ciclo mitológico, criando desse modo um passado que dê sentido ao presente 
do brasileiro, pretendendo assim caracterizá-lo como oriundo de um processo 
de hibridação étnica e cultural.
No entanto, se você refletir criticamente sobre a hibridez com a qual Alencar 
responde à pergunta “O que é ser brasileiro?”, pode perceber que essa união não 
se dá de forma igualitária. Ao passo que Martin – homem, branco e português 
– é caracterizado por sua honra, fé, valentia e lealdade (características típicas 
do cavaleiro medieval europeu), Iracema – mulher e indígena – é caracteri-
zada por sua beleza física, frequentemente comparada à beleza exuberante 
e exótica da flora e da fauna brasileiras (ALENCAR, 1991). Assim, é como 
se o homem europeu emprestasse os atributos morais ao brasileiro, ao passo 
que a mulher indígena cede os atributos físicos e representa um mero objeto 
ao dispor do aventureiro (em discurso semelhante ao de Caminha). Se você 
pensar em alguns episódios que compõem o romance, verá que essa assimetria 
fica ainda mais clara: Iracema teve que trair sua tribo e abandonar sua cultura 
para viver junto a Martin. A índia tabajara acaba inclusive morrendo para 
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que Moacir cresça. Dessa forma, simbolicamente, é como se o indígena fosse 
apenas um elemento de origem mítica do brasileiro. No entanto, nessa visão, 
sua cultura não é decisiva para a formação da identidade. Por fim, depois 
de ser educado na Europa, Moacir volta com seu pai ao Ceará para cravar o 
“lenho sagrado” (cruz) e constituir a primeira cidade brasileira. Portanto, já 
em Alencar é sustentado o mito da democracia racial brasileira, tão comum 
em tantas narrativas até hoje, sejam elas tratados sociológicos ou propagandas 
político-partidárias.
Você pode conferir o filme Iracema – uma transa amazônica, sob a direção de Jorge 
Bodanzky e Orlando Senna, e comparar as duas narrativas sobre o Brasil.
Às narrativas que sustentam os grandes mitos das identidades nacio-
nais, como é o caso do mito da democracia racial brasileira, em Alencar 
o teórico indiano Homi Bhabha (2013) chamou de “narrativas da nação”. 
Essas narrativas acabam por idealizar um passado para construir a ideia 
do “muitos em um”. No caso do romance de Alencar, é como se todos os 
brasileiros pudessem ser representados como descendentes de Moacir. No 
entanto, as histórias do cotidiano de pessoas às margens da nação acabam 
por confrontar as grandes histórias que pretendem contar sua origem. Dessa 
forma, mulheres, negros e indígenas, por exemplo, ao relatar seu dia a dia 
mostram que nem todos se encaixam no “muitos em um” que a nação pre-
tende representar. São essas narrativas das minorias que Bhabha chama de 
“contranarrativas da nação”.
Uma sociedade desigual
Um dos escritores mais consagrados da literatura brasileira, Machado de 
Assis, ao representar a condição de sujeitos negros em alguns de seus contos, 
entra na discussão sobre a identidade nacional com algumas “contranarrativas 
da nação”. Em “Pai contra mãe”, conto publicado na obra Relíquias da casa 
velha, de 1906, Machado (ASSIS, 1990) contrapõe sua visão crítica, realista 
e irônica ao romantismo de Alencar. O conto tem como protagonista Cândido 
Neves, sujeito branco e pobre que se casa com Clara (chamam atenção aqui 
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as palavras que remetem à cor branca no nome dos dois personagens). Com 
poucas oportunidades de emprego, Neves acaba trabalhando como caçador 
de recompensas: captura escravos fugidos para receber alguma bonifi cação 
de seus senhores. No entanto, a falta de estabilidade fi nanceira acaba fazendo 
com que seja pressionado por Tia Mônica (responsável pela criação de Clara) 
para que abandone o fi lho recém-nascido do casal na Roda dos Enjeitados. 
Assim, em meio à difi culdade fi nanceira, um quarto membro na família não 
ameaçaria a sobrevivência dos outros três.
A tensão da narrativa se dá quando Neves, inconformado por ter de abrir 
mão de seu filho, encontra Arminda: escrava grávida que havia fugido e pela 
qual se pagaria uma grande recompensa. A narrativa chega a sugerir, inclusive, 
que sua gravidez é consequência de violência sexual por parte do senhor. 
Diante do conflito posto entre salvar seu filho ou o filho da escrava, Neves 
opta pelo primeiro. Ao ser devolvida, Arminda é agredida e acaba abortando. 
“Nem todas as crianças vingam”, desfecha ironicamente o narrador. A frase 
é significativa na representação do Brasil como um país em que, apesar da 
pluralidade étnica e cultural, nem todos têm direitos – inclusive à vida.
O filme Quanto vale ou é por quilo?, de Sérgio Bianchi, toma como inspiração o conto 
de Machado de Assis, retomando elementos dessa narrativa e trazendo-os para a 
atualidade. 
Tendo sido formado por um violento processo de massacre indígena e 
pelas mãos do trabalho forçado dos negros, o Brasil é retratado assim como 
um país em que etnia, gênero e classe social são posições de uma violência 
historicamente constituída. Cândido Neves, enquanto sujeito pobre, é redu-
zido a objeto de coerção das classes dominantes. Ele serve para garantir que 
os sujeitos mais explorados desse sistema, os escravos, não se rebelem. No 
entanto, a manutenção do trabalho escravo é a própria causa do desemprego 
e da consequente objetificação do personagem. Fecha-se assim um ciclo que 
garante a imobilidade social e a manutenção de privilégios. Dessa forma, se 
pode dizer que Machado responde à pergunta “O que é ser brasileiro?” de modo 
oposto a Alencar, mostrando que ser brasileiro é ser produto e produtor de 
uma sociedade extremamente violenta e desigual.
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Macunaíma: o anti-herói
A questão em pauta foi tomada como ponto central de debate entre os modernis-
tas de 22. Buscando se desvencilhar da infl uência da literatura e da gramática 
portuguesas, Oswald de Andrade passa a valorizar a fala dos sujeitos das 
camadas populares do País como representativas de sua identidade e objeto 
de valor poético. O cotidiano passa a ser cada vez mais signifi cativo da nação: 
Tarsila do Amaral pinta obras que retratam operários, pescadores e morros 
de favelas, por exemplo.
Tarsila do Amaral não foi escritora, mas é um importante nome do mo-
dernismo brasileiro. Ela foi pintora, desenhista e tradutora. Entre suas telas 
mais conhecidas estão: A Negra, Abaporu e Operários. A artista e o seu então 
marido Oswald de Andrade foram os fundadores do Movimento Antropo-
fágico, e Abaporu foi o seu grande símbolo. Isso porque o título da tela tem 
como significado “o homem que come carne humana”, justamente a principal 
ideia que queria expressar o movimento: o desejo de engolir, deglutir tanto 
as culturas europeias quanto as culturas locais e transformá-las em algo que 
fosse representativo da identidade nacional.
Nesse contexto, a obra que mais se destaca na representação da identidade 
nacional é Macunaíma: o herói sem nenhum caráter, publicada por Mário 
de Andrade em 1928. Essa obra (ANDRADE, 2008), misto de romancee 
rapsódia, apresenta como protagonista o índio Macunaíma. Sem nenhum 
caráter, ele retoma do romance Memórias de um sargento de milícias (1852-
3), de Manuel Antônio de Almeida (1959), a ideia do anti-herói, típica na 
caracterização do brasileiro simples com traços de malandragem. Assim, 
Macunaíma, “o filho da mata virgem”, é descrito na obra como feio, sapeca 
e preguiçoso.
Ao se relacionar com Ci, a mãe do mato, Macunaíma recebe a mui-
raquitã, espécie de pedra-amuleto, como presente. Esta é roubada por 
Venceslau Pietro Pietra, o gigante Piaimã. Dá-se início então a uma longa 
peregrinação a partir da perseguição ao gigante. Essa perseguição servirá 
de mote para que o protagonista percorra os mais variados cantos do País: 
indo do norte ao sul do Brasil, e passando por São Paulo – importantíssima 
na obra para a representação de um Brasil urbano, moderno e burocrático. 
Ao longo dessa jornada, o anti-herói muda de etnia, sendo índio, negro e 
branco e fazendo referência a muitos mitos indígenas e afro-brasileiros 
(ANDRADE, 2008).
Dessa forma, Mário de Andrade, para responder à pergunta proposta, 
retoma a questão da hibridação como elemento fundamental à constituição 
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identitária brasileira. No entanto, o escritor modernista o faz deixando de lado 
o idealismo romântico do século XIX. A relação entre as culturas europeias, 
africanas e indígenas na composição nacional é vista de maneira mais crítica. 
Isso ocorre, por exemplo, na passagem em que os irmãos do anti-herói, que 
são indígenas, o criticam por tê-los esquecido depois que este vira branco. 
Também o desenvolvimento urbano associado ao progresso do País é criticado, 
como na figura burocrática de Venceslau Pietro Pietra. Ele é o grande vilão 
da obra e simboliza o homem burguês médio.
O Brasil que tem fome
Por fi m, você vai conhecer outra típica “contranarrativa” da nação. Trata-se 
de Quarto de despejo: diário de uma favelada, publicado por Carolina Maria 
de Jesus em 1960 (Figura 1).
Figura 1. Carolina Maria de Jesus autografando seu livro.
Fonte: Valek (2016).
Carolina vivia na hoje extinta Favela do Canindé, em São Paulo. Mãe 
solteira, ela coletava lixo para posteriormente vender à reciclagem. Quarto 
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de despejo (JESUS, 2007) é o conjunto de diários que a catadora manteve 
de 1955 até 1960, relatando o difícil cotidiano de uma mulher negra, fa-
velada, mãe solteira, lutando incessantemente contra a fome de seus três 
filhos. A riqueza de referências literárias e de recursos de linguagem fez 
com que os diários passassem a ser lidos como obra literária, configurando 
uma das mais comentadas obras de ficção brasileiras do século XX. No 
dia 13 de maio, data da abolição da escravatura, Carolina (JESUS, 2007, 
p. 31-32) comenta: 
Hoje amanheceu chovendo. É um dia simpático para mim. É o dia da 
Abolição. Dia que comemoramos a libertação dos escravos. [...] Que Deus 
ilumine os brancos para que os pretos sejam feliz. Continua chovendo. 
E eu tenho só feijão e sal. A chuva está forte. Mesmo assim, mandei os 
meninos para a escola. Estou escrevendo até passar a chuva, para eu ir 
lá no senhor Manuel vender os ferros. Com o dinheiro dos ferros vou 
comprar arroz e linguiça [...]. Eu tenho tanto dó dos meus filhos. Quando 
eles vê as coisas de comer eles brada: – Viva a mamãe! A manifestação 
agrada-me. Mas eu já perdi o hábito de sorrir. Dez minutos depois eles 
querem mais comida. [...] E assim no dia 13 de maio de 1958 eu lutava 
contra a escravatura atual – a fome!
Dessa forma, Quarto de despejo traz à tona um outro brasileiro que 
não teve espaço nas grandes narrativas da nação: o brasileiro que tem fome. 
Em um dos países que mais produz alimentos, Carolina relembra daqueles 
que não têm o que comer. Em uma literatura bastante marcada por autores e 
personagens brancos e de classe média, ela faz com que sujeitos periféricos 
também possam se enxergar como autores e personagens. Sua linguagem, 
incorreta do ponto de vista gramatical para muitos, passa então a ser vista 
como mais uma forma possível de expressão literária (como idealizara 
Oswald de Andrade).
Em uma literatura predominantemente masculina (seja no número de autores 
ou de protagonistas), Carolina mostra o ponto de vista da mulher sobre a 
nação. E ela tem o ponto de vista crítico de quem escolheu não casar para não 
sofrer os abusos de um casamento predominantemente masculino – em que, 
como Iracema (ALENCAR, 1991), as mulheres acabam tendo de abrir mão de 
si enquanto sujeitos para constituir a tradicional família brasileira. Trata-se, 
portanto, de uma resposta bastante crítica sobre “O que é ser brasileiro?”, pois 
produzida pelos sujeitos que geralmente têm a voz e a cidadania negadas na 
tão frágil democracia nacional.
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A pluralidade: os brasileiros são muitos
Para compreender a importância da literatura como meio de propagação das 
narrativas que formam a identidade de uma nação, você conheceu melhor a 
história da literatura brasileira. Você fez essa refl exão por meio de cinco obras: 
A carta de achamento do Brasil, Iracema: lenda do Ceará, “Pai contra mãe”, 
Macunaíma: o herói sem nenhum caráter e Quarto de despejo: diário de uma 
favelada. Cada uma das cinco responde de modo diferente à pergunta central 
que guiou este texto: “O que é ser brasileiro?”. Além delas, uma variedade 
muito grande de obras literárias se debruçaram sobre essa questão, trazendo 
à tona novas respostas para o questionamento.
Desse modo, você deve ter percebido que o brasileiro, assim como qual-
quer cidadão de qualquer outra nacionalidade, não possui uma essência 
que torne sua identidade fixa e estável. Pelo contrário, como defendem os 
teóricos que refletiram sobre o tema, as identidades nacionais são móveis 
e fragmentadas. Por isso, mais importante que uma versão particular sobre 
a identidade nacional é a pluralidade de versões. A riqueza do Brasil, assim 
como a de outras nações, está justamente nesse diálogo estabelecido ao longo 
da história e para o qual as literaturas foram fundamentais. Esse diálogo é 
formado por muitas vozes, sejam elas nacionais ou estrangeiras, masculinas 
ou femininas, heterossexuais ou homossexuais, brancas, negras ou indígenas. 
Todas elas são importantes para constituir o coro plural e positivamente 
contraditório da nação. Afinal, como defendeu Arnaldo Antunes (1996) na 
canção “Inclassificáveis”, “[...] aqui somos mestiços mulatos cafuzos pardos 
mamelucos sararás crilouros guaranisseis e judárabes [...]”.
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ALENCAR, J. Iracema. 24. ed. São Paulo: Ática, 1991. (Bom Livro). Disponível em: <https://
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Culturas afro-brasileira 
e indígena na sociedade 
brasileira contemporânea
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
  Reconhecer as influências africanas e indígenas na constituição da 
cultura brasileira.
  Analisar as representações dos africanos e indígenas na literatura 
brasileira.
  Discutir sobre estratégias de desconstrução de estereótipos e precon-
ceitos em relação a africanos e indígenas no Brasil contemporâneo.
Introdução
Neste capítulo, você vai ver como se deu o processo de conquista do 
território brasileiro. Antes da chegada dos portugueses, em 1500, esta 
terra não era isolada nem desabitada; muito pelo contrário, era dispu-
tada por diversos povos nativos, que foram denominados “índios” pelos 
portugueses.
O século XVI foi marcado por um choque cultural sem proporções na 
história da humanidade, pois colocou em lados opostos grupos com cul-
turas e visões de mundo antagônicas. Portugueses e indígenas possuíam 
entendimentos distintos em relação à riqueza, à utilização da terra, ao 
trabalho, às relações pessoais, à organização social, etc. Esse caldo cultural 
“engrossa” mais quando um novo elemento entra em cena, o africano.
Como você vai ver, aspectos culturais de origem africana e indígena 
contribuíram para a formação do Brasil. Apesar da violência à qual os 
indígenas e africanos foram historicamente submetidos, eles consegui-
ram burlar as regras estabelecidas e sobreviver, mesclando sua cultura à 
cultura dominante e tornando o Brasil, ao contrário do que pretendiam 
os colonizadores portugueses, um país plural.
Colonização do Brasil:
táticas de resistência cultural
O processo de conquista e colonização das terras brasileiras pelos portugueses 
se inseriu na lógica da expansão ultramarina europeia, iniciada no século XV 
pelos reinos ibéricos de Portugal e Espanha e difundido, posteriormente, para 
as demais nações daquele continente. De maneira geral, esses reinos busca-
ram expandir o seu território conquistando novos mercados consumidores, 
obtendo recursos naturais e eliminando outros povos que se opuseram aos 
seus objetivos. Esse empreendimento colocou em contato visões de mundo 
antagônicas que difi cilmente poderiam conviver de maneira pacífi ca, uma 
vez que o modelo colonizador utilizado pelos europeus determinava apenas 
um padrão de comportamento, o proposto pelos próprios colonizadores, que 
deveria ser seguido à risca pelos colonizados. Isso traz à tona a violência que 
todo processo de colonização possui em sua essência: a eliminação do outro, 
seja física, simbólica ou culturalmente.
Certeau (2009), em A Invenção do Cotidiano, analisou como o ser humano 
consegue criar um modelo de comportamento denominado por ele de “arte 
de fazer”. Fugindo dos padrões e regras impostos pelo modelo dominante, 
os indivíduos inventam o seu cotidiano criando, de maneira sutil, diversas 
“táticas” de resistência e sobrevivência, de modo que códigos e objetos são 
alterados em seu benefício. Essa noção é de suma importância para que você 
possa compreender como se deu a permanência de características culturais 
de africanos e indígenas na cultura brasileira.
Michel de Certeau foi um erudito francês que nasceu em Chambéry em 1925. Sua 
formação abrengeu os campos da filosofia, das letras clássicas, da história e da teologia. 
Nas suas pesquisas, ele utilizou métodos da antropologia, da linguística e da psicanálise. 
Na obra A Invenção do Cotidiano, Certeau (2009) desenvolve duas noções para analisar 
a sociedade. A primeira delas é denominada “estratégia”, que é o modelo dominante, 
criado pelos grupos sociais que ocupam o topo da sociedade; esse modelo serve 
como padrão. Do outro lado, existem as táticas, ações criadas intencionalmente pelos 
grupos dominados para burlar a ordem existente. São modelos próprios de ações que, 
de maneira astuciosa, enfrentam o padrão vigente sem, no entanto, comprometer ou 
destruir a sua existência.
Culturas afro-brasileira e indígena na sociedade brasileira contemporânea2
Essa questão evidencia as condições nas quais a nação brasileira foi for-
jada. Estava em jogo um projeto político criado pela coroa portuguesa, que 
deveria ser levado a cabo por indivíduos que vinham para a terra brasilis 
em busca de fama e riqueza, incentivados pela notícia de que ouro e prata 
haviam sido encontrados pela coroa espanhola no mesmo continente. Apesar 
de ser pioneiro no processo das grandes navegações, o reino de Portugal não 
possuía condições materiais suficientes para efetivar a conquista e a posse 
do território. Além disso, havia total desconhecimento da fauna e da flora da 
região, uma vez que o litoral brasileiro é formado por aproximadamente 7.300 
km de extensão, habitados então por povos distintos.
Os indígenas sob o olhar europeu:
entre o bom e o mau selvagem
A expansão ultramarina levou os europeus ao encontro de um continente 
até então desconhecido por eles: a América. Da mesma maneira, houve um 
conhecimento das populações nativas dessa região, que, apesar de possuírem 
características heterogêneas entre si, se assemelhavam por se diferenciarem 
física e culturalmente dos europeus. No aspecto cultural, é emblemática a 
percepção das diferenças na organização social, a qual diferia bastante dos 
modelos preconizados pelas sociedades europeias.
Pero de Magalhães de Gândavo foi um historiador, gramático e cronista português 
que esteve no Brasil no início do século XVI. Ao escrever História da Província de Santa 
Cruz que vulgarmente chamamos Brasil, em 1576, ele deixa claro que os portugueses, 
e europeus de maneira geral, percebiam as suas diferenças em relação à população 
indígena. Leia o trecho a seguir e reflita sobre a impossibilidade da compreensão do 
outro por parte dos portugueses: “A língua de que usam toda pela costa é uma [...] 
Carece de três letras, convém a saber, não se acha nela F, nem L, nem R, coisa digna 
de espanto, porque assim não tem Fé, nem Lei, nem Rei: e desta maneira vivem 
desordenadamente [...]” (GÂNDAVO, 1576, fl. 33v).
3Culturas afro-brasileira e indígena na sociedade brasileira contemporânea
A percepção das diferenças entre indígenas e europeus suscita um debate 
acerca da humanidade daqueles. Os portugueses se questionavam sobre a 
existência da alma indígena e sobre a possível conversão dos índios. Sobre 
essa questão, veja o que afirma Laplantine (2007, p. 37–38):
A grande questão que é então colocada, e que nasce desse primeiro confronto 
visual com a alteridade, é a seguinte: aqueles que acabaram de ser descobertos 
pertencem à humanidade? O critério essencial para saber se convém atribuir-
-lhes um estatuto humano é, nessa época, religioso: o selvagem tem uma alma? 
O pecado original também lhes diz respeito?
O olhar europeu sobre a população nativa cria dois modelos que servem 
de explicação para a percepção a respeito dos indígenas durante o processo 
de colonização. Esses arquétipos inserem grupos inteiros sob uma mesma 
denominação, estabelecendo modelos de ação perante a população nativa. 
São eles: o “bom selvagem”e o “mau selvagem”. A definição de mau 
selvagem recai sobre aqueles indivíduos que possuem estas três caracterís-
ticas: “estar nu ou vestido de peles de animais” (aparência física); “comer 
carne crua/canibalismo” (comportamentos alimentares); “falar uma língua 
ininteligível” (inteligência, a partir da linguagem) (LAPLANTINE, 2007).
Na Figura 1, a seguir, você pode observar dois quadros pintados pelo 
holandês Albert Eckhout, que esteve no Brasil entre os anos de 1637 e 
1644. Neles, é possível identificar a oposição entre o “bom” e o “mau” 
selvagem. A mulher tupi é representada sob o viés maternal. Ela carrega 
a vida ao segurar seu filho no colo, eliminando qualquer possibilidade 
de ameaça. Além disso, transporta um recipiente com água e uma cesta 
com produtos manufaturados e veste uma saia branca (inserida no seu 
vestuário pelos colonizadores). Na paisagem, é possível identificar três 
características que fazem menção à colonização europeia nos trópicos: 
a bananeira, planta introduzida no Brasil pelos portugueses; a paisagem 
colonial, com a plantação de cana-de-açúcar; e a casa-grande no engenho.
Em contrapartida, a mulher tapuia carrega a morte, um cesto com uma 
perna decepada. Na sua mão direita, ela segura a mão de outro indivíduo, 
remetendo à prática do canibalismo. Está nua, mesmo que parcilamente 
coberta por folhas, e calça sandálias de fibras vegetais. Já a paisagem re-
presenta a cena de guerreiros armados, ao fundo, demonstrando a condição 
natural dessa sociedade sem contato com os “civilizadores” europeus.
Culturas afro-brasileira e indígena na sociedade brasileira contemporânea4
Figura 1. (a) Mulher Tupi e (b) Mulher Tapuia, óleo sobre tela, de Albert Eckhout, 1641.
Fonte: Fonte: Chicangana-Bayona (2008, p. 606–607). 
Esses olhares criados sobre a população nativa demonstram tanto o po-
sicionamento dos nativos em relação aos europeus quanto o modo como 
estes últimos perceberam as trocas culturais entre os povos. De um lado, 
posicionam-se aqueles que lutaram contra o invasor, mantendo suas práticas 
religiosas e culturais e abertamente inimigos do europeu (maus selvagens). Do 
outro lado, figuram aqueles grupos que aceitaram determinados aspectos da 
colonização, como roupas, língua e religião, submetendo-se ao poder colonial, 
mas, apesar disso, não conseguindo tratamento igualitário (bons selvagens).
Índios e negros na literatura brasileira
Na literatura brasileira, há representações de índios e negros que expõem muito 
mais a visão do autor do que necessariamente aquilo que ele deseja representar. 
Tais obras ganham notoriedade por dois aspectos que se relacionam entre si.
5Culturas afro-brasileira e indígena na sociedade brasileira contemporânea
O primeiro deles é a amplitude de leitores que são capturados pelas páginas dos 
romances, sendo mais fácil um leitor conhecer uma obra de fi cção do que um 
livro acadêmico. Já o segundo é o fato de que, embora sejam obras de fi cção, 
elas possuem em comum a semelhança com a realidade, o que traz à tona a 
possibilidade de serem analisadas sob a óptica da verossimilhança. Afi nal, 
em determinada medida, tais obras lançam uma luz sobre a sociedade na qual 
estão inseridas, demonstrando os medos, anseios e pensamentos de uma época.
Conforme destaca Chartier (2010, p. 21), “As obras de ficção, ao menos 
alguma delas, e a memória, seja ela coletiva ou individual, também conferem 
uma presença ao passado, às vezes ou amiúde mais poderosa do que a que 
estabelecem os livros de história [...]”. Tendo como base esse pressuposto, a 
seguir você vai ver como a ficção criou representações e perfis para africanos 
escravizados e índios na sociedade brasileira. Você também vai verificar 
como esses lugares comuns foram sendo considerados pela sociedade como 
definidores de comportamento da população afrodescendente e indígena no 
Brasil, sendo retroalimentados por outras mídias, como novelas e filmes.
Coragem, nobreza e solidariedade: a poesia indianista
Gonçalves Dias foi o poeta que deu início à idealização do indígena na litera-
tura brasileira. Na corrente do Romantismo, o nativo é associado à coragem, 
à compaixão, à bondade, à nobreza e à solidariedade, da mesma forma que 
os cavaleiros medievais no imaginário europeu. Autor de diversos poemas 
indianistas, como I-Juca-Pirama, Marabá e Canção do Tamoio, Gonçalves 
Dias refl ete a percepção sobre os indígenas no Brasil enquanto um ideal 
distante, que não pode mais ser alcançado.
I-Juca-Pirama (“aquele que deve morrer”), escrito em 1851, é considerado 
a obra máxima do autor. Ela conta a história de um nobre índio tupi que, após 
ser derrotado, torna-se prisioneiro de outra tribo, os timbira. O guerreiro tupi 
encontra o seu pai com saúde debilitada, pois está velho e doente, então toma 
uma decisão inusitada, pedindo ao chefe timbira que o deixe voltar para a 
sua tribo para cuidar do progenitor. Porém, na cultura indígena, esse ato é 
interpretado como covardia. É isso o que pensa o seu pai quando o guerreiro 
retorna à tribo para informar a sua decisão. O pai recebe o filho com desprezo 
e indignação, afinal este humilhou não só a si, mas a toda a sua geração. 
Então, para provar o seu valor e recuperar a sua honra, o guerreiro decide ir 
lutar sozinho contra os inimigos. Após vários combates, a vitória é obtida e o 
chefe da tribo timbira encerra a luta. O pai reconhece o valor do filho, digno 
de ser chamado novamente de tupi.
Culturas afro-brasileira e indígena na sociedade brasileira contemporânea6
Veja os trechos a seguir, retirados de I-Juca-Pirama, de Gonçalves Dias. No Canto IV, é 
possível perceber a identificação do personagem:
Meu canto de morte, Guerreiros ouvi: sou filho das selvas, nas selvas cresci; 
Guerreiros, descendo da tribo Tupi. Da tribo pujante, que agora anda errante 
por fado inconstante, guerreiros, nasci: sou bravo, sou forte, sou filho do 
Norte; meu canto de morte, Guerreiros, ouvi (DIAS, 1851, canto IV).
No Canto VIII, há a reação do pai ao descobrir que, após o seu filho ser preso, chorou 
pedindo para não morrer:
Tu choraste na presença da morte? Na presença de estranhos choraste? 
Não descende o cobarde do forte, pois choraste, meu filho não és! Possas 
tu, descendente maldito de uma tribo de nobres guerreiros, implorando 
cruéis forasteiros, seres presa de vis Aimorés (DIAS, 1851, canto VIII).
Por fim, no Canto X, há a redenção do indígena, que é rememorada por um velho 
timbira que relata o heroísmo dele, servindo de modelo para os mais jovens: “Um 
velho Timbira coberto de glória, guardou a memória do moço guerreiro, do velho 
Tupi! E à noite, nas tabas, se alguém duvidava do que ele contava, dizia prudente: 
‘meninos, eu vi!’”.
Em outro poema, Canção do Tamoio, um guerreiro da tribo tamoio explica ao 
seu filho recém-nascido qual é o seu papel no mundo, como ele deve se comportar 
frente aos perigos da vida. Ou seja, o pai informa ao filho que tipo de comporta-
mento é esperado que ele exerça, não só pelo seu pai, mas por todos os membros 
da tribo tamoio e dos outros povos que vierem a ter contato com eles. Veja:
I. Não chores meu filho; não chores, que a vida é luta renhida: viver é lutar. A 
vida é combate, que os fracos abate, que os fortes, os bravos só pode exaltar.
II. Um dia vivemos! O homem que é forte não tema da morte; só teme fugir; 
no arco que entesa tem certa uma presa, quer seja tapuia, condor ou tapir.
III. O forte, o cobarde, seus feitos inveja de o ver na peleja garboso e feroz; e os 
tímidos velhos nos graves conselhos, curvadas as frontes, escutam-lhe a voz!
IV. Domina, se vive. Se morre, descansa dos seus na lembrança, na voz do porvir. 
Não cures da vida! Sê bravo, sê forte! Não fujas da morte, que a morte há de vir! [...]
XI. E cai como o tronco do raio tocado, partido, rojado por larga extensão; assim 
morre o forte! No passo da morte triunfa, conquista mais alto brasão (DIAS, 1852).
7Culturas afro-brasileira e indígena na sociedade brasileira contemporânea
Veja outras obras que abordama população indígena:
  José de Alencar: O Guarani, Iracema e Ubirajara
  Gonçalves de Magalhães: A Confederação dos Tamoios
  Gonçalves Dias: I-Juca-Pirama, Canção do Tamoio, Marabá, Leito de Folhas Verdes, 
Canto do Piaga
Outro exemplo das obras indianistas de Gonçalves Dias é Marabá. O termo 
que dá título à obra é de origem tupi e significa “de mistura”. Nesse poema, 
Gonçalves Dias expõe o dilema de uma índia mestiça que é recusada pelos 
índios guerreiros justamente por sua condição. A personagem Marabá possui 
olhos com “cor das safiras”, rosto “da alvura dos lírios” e “loiros cabelos”, 
porém não consegue encontrar um guerreiro que a deseje, terminando por viver 
“[...] sozinha, chorando mesquinha, que sou Marabá!” (DIAS, 1968, p. 325).
Essas representações da população indígena presentes nas obras literárias 
criam um ideal que se encaixa em um perfil de guerreiros honrados. Assim, 
impossibilita-se outra manifestação cultural e psicológica. Além disso, entra 
em cena a crença em um tipo indígena preso no passado, que não conseguiu 
acompanhar o desenvolvimento da civilização brasileira.
A escravidão no Brasil: denúncias e crueldade
No ano de 1869, Joaquim Manuel Macedo publica um romance intitulado As 
Vítimas-Algozes: Quadros da Escravidão, uma obra de literatura que propõe 
uma espécie de denúncia contra a escravidão praticada no Brasil. Seu autor 
era um emancipacionista convicto e defende, utilizando diversos argumentos, 
o fi m da escravidão, pois para ele “A escravidão gasta, caleja, petrifi ca, mata 
o coração do homem escravo [...]” (MACEDO, 1869, p. 53).
O romance narra a história de três escravizados, todos com características 
que têm o objetivo de demonstrar como a sociedade era afetada pela escravi-
dão. São eles: Simeão, o crioulo; Pai-Raiol, o feiticeiro; e Lucinda, a mucama. 
Apesar de ser uma obra de ficção, o autor deixa claro o seu papel de denúncia, 
na medida em que os textos escritos são “[...] romances sem atavios, contos 
sem fantasias poéticas, tristes histórias passadas aos nossos olhos, e a que não 
poderá negar-se o vosso testemunho [...]” (MACEDO, 1869, p. 1).
Culturas afro-brasileira e indígena na sociedade brasileira contemporânea8
A construção da argumentação de Macedo (1869) é baseada na ideia de 
que a escravidão era um atraso econômico, uma ideia inaceitável em um país 
que deveria passar por um processo de modernização, deixando de ser agrí-
cola. Além disso, o autor defende uma linha de pensamento que demonstra a 
crueldade desse sistema: a escravidão era um veneno e criava inimigos dentro 
de casa. Isso mostra que Macedo (1869) entende o escravo como o verda-
deiro inimigo, pois é corrompido pelo sistema e simultaneamente corrompe 
a sociedade. Para o autor, o Brasil deveria acabar com a escravidão, não por 
humanidade, mas para se livrar dos incômodos desse sistema, incluindo aí a 
população afrodescendente.
Uma das personagens principais da obra de Macedo (1869, p. 157) é a 
mucama Lucinda, “Uma escrava mucama da menina que em breve ia ser 
moça!”. A menina chama-se Cândida e acaba de completar 11 anos de idade, 
ganhando como presente, uma prática comum do Brasil oitocentista, uma 
jovem mucama, Lucinda. No desenrolar da trama, o problema surge a partir 
do momento em que a mucama Lucinda, corrupta e imoral, começa a fazer 
parte do cotidiano da doce e angelical Cândida.
O uso de adjetivos para definir os comportamentos da mucama e da menina 
é intencional por parte do autor; de um lado, há uma pessoa corrupta e imoral; 
do outro, alguém doce e angelical. O contato entre elas cria uma rachadura no 
comportamento que era esperado para uma moça que faria parte da sociedade. 
Após várias conversas, a mucama percebe que a menina é ingênua e começa 
a questionar seus conhecimentos sobre “ser moça” e “casamento”, maculando 
assim sua pureza inicial. Segundo o autor, a escrava Lucinda, que em momento 
algum demonstra inocência em suas atitudes, envenena a alma de Cândida 
com as “explicações necessariamente imorais” (MACEDO, 1869).
Com essa narrativa, o autor tem por objetivo criar uma dicotomia entre as 
protagonistas, Cândida e Lucinda. A primeira é uma menina branca, ingênua 
e pura que é corrompida pela segunda, uma escrava negra e promíscua. Essa 
dinâmica torna a sinhazinha “escrava da sua escrava” (MACEDO, 1869), 
uma vez que desperta nela um desejo que não poderia ser conhecido naquele 
momento e que só foi possível graças à convivência degenerante.
Para o autor emancipacionista, um dos piores males que a escravidão gerava 
era o da convivência entre inimigos naturais, ou seja, senhores e escravos. 
Segundo ele, “O escravo é necessariamente mau e inimigo do seu senhor. A 
madre-fera escravidão faz perversa, e vos cerca de inimigos [...]” (MACEDO, 
1869, p. 29). Essa ideia é percebida quando, ao explicar a transgressão do 
caráter de Cândida por Lucinda, o autor afirma que “[...] a ideia do casamento 
9Culturas afro-brasileira e indígena na sociedade brasileira contemporânea
atirada ali de mistura com a de moça feita confundiu ainda mais a pobre e 
curiosa menina abandonada à companhia da mulher escrava [...]” (MACEDO, 
1869, p. 172). Novamente, percebe-se a suposta depravação que a escravidão 
trazia para os brancos. Era por meio do “abandono à companhia da mulher 
escrava” que as sinhazinhas e a sociedade branca em geral eram corrompidas 
aos poucos pelos negros escravizados.
Devido a relatos de viajantes estrangeiros e às condições precárias e desumanas 
da escravidão, imaginou-se que era impossível a formação de núcleos familiares 
por pessoas escravizadas. Entretanto, esse posicionamento está sendo revisto pela 
historiografia. Obras como Na senzala, uma flor, do historiador norte-americano Robert 
W. Slenes, buscam trazer à luz histórias de vidas de pessoas escravizadas que, lutando 
contra todas as condições da época, conseguiram formar famílias e buscar auxílio para 
sobreviver em uma sociedade que agia de forma violenta e arbitrária.
Essa percepção negativa sobre as consequências que a presença dos escra-
vizados tinha no cotidiano da população não se resumiu às escravas mucamas, 
estendendo-se a outro personagem de As Vítimas Algozes, Simeão, um crioulo, 
o qual também é afetado psicologicamente pela ação degenerativa da escravi-
dão. O fato de o indivíduo ser um escravo alterava a sua percepção emocional: 
Simeão não possuía a capacidade de amar, já que a escravidão o degradava e 
arrancava toda e qualquer forma de sentimento puro. Veja:
O escravo não amava, não amou Florinda; mas em sua mente audaz, em seus 
instintos escandalosos, revoltantemente ultrajadores e licenciosos, lembrou, 
contemplando a senhora-moça, o que lembrava aproximando-se da negra 
fácil, da escrava desmoralizada que lhe agradava e não fugia a seus ignóbios 
afagos (MACEDO, 1869, p. 51).
As denúncias da escravidão presentes na obra de Macedo (1869) também 
são estendidas aos escravizados, daí o título da obra, Vítimas Algozes. A ideia 
é que aqueles que sofrem a violência da escravidão reproduzem essa mesma 
Culturas afro-brasileira e indígena na sociedade brasileira contemporânea10
violência na sociedade, tornando-se também algozes. Esse pensamento deve 
ser dimensionado, pois cria uma espécie de amenização da escravidão desen-
volvida no Brasil, uma vez que retira parte da culpa dos próprios senhores de 
escravos, já que estes também se tornam vítimas do processo.
Em uma perspectiva diferente, outro autor que também contesta a escravidão 
desenvolvida no Brasil é Machado de Assis. Ao contrário do que acontece 
no caso de outros autores da sua época, como o próprio Macedo (1869), as 
denúncias de Machado de Assis são explícitas e o caráter cruel e violento da 
escravidão é denunciado em suas páginas.
Após 18 anos da abolição da escravidão, que ocorreu em 13 de maio de 1888, Machado 
de Assis publica o conto “Pai contra Mãe”, presente na obra Relíquias da Casa Velha, de 
1906. No conto, a violência da escravidão é mostrada quando umcaçador de escravos, 
chamado Cândido Neves, passa por um dilema ético e moral: para conseguir dinheiro 
para cuidar da sua família, deve ir atrás de uma escrava que está grávida, correndo o 
risco de fazê-la abortar o bebê. Acesse o link a seguir para ler o conto.
https://qrgo.page.link/sa6tv
As várias faces da escravidão são mostradas por Machado de Assis nas 
suas obras. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, de 1881, Prudêncio, um 
antigo escravo do protagonista, é visto no cais do Valongo impondo sua fúria 
a outro indivíduo, também negro, porém seu escravo. Essa violência era uma 
reação à condição de vida imposta ao indivíduo escravizado:
Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas recebidas 
— transmitindo-as a outro. Eu, em criança, montava-o, punha-lhe um freio 
na boca, e desancava-o sem compaixão; ele gemia e sofria. Agora, porém, 
que era livre, dispunha de si mesmo, dos braços, das pernas, podia trabalhar, 
folgar, dormir, desagrilhoado da antiga condição, agora é que ele se desban-
cava: comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que 
de mim recebera (ASSIS, 1881, p. 76).
11Culturas afro-brasileira e indígena na sociedade brasileira contemporânea
Outro autor que também viveu e escreveu sobre o século XIX no Brasil, 
enfocando o tema da escravidão, foi Castro Alves, conhecido como “o 
poeta dos escravos”. Ele faleceu com apenas 24 anos, sem ver a abolição 
da escravidão nem a publicação da sua obra máxima, Navio negreiro, de 
1880. Nessa obra, ficam evidentes os horrores da escravidão e as condições 
desumanas do transporte marítimo dos “tumbeiros”, termo que designava 
popularmente os navios que transportavam os escravizados na travessia 
transatlântica. Como o índice de mortandade era elevado, a comparação 
com tumbas era evidente.
A obra é dividida em partes (cantos): (1) a descrição do belo natural, 
a exuberância da natureza brasileira; (2) a descrição do belo humano, a 
valorização dos marinheiros dos diferentes países; (3) a indignação ao ver 
o que se passa no interior do navio, a estupefação; (4) a descrição dos hor-
rores cometidos contra os escravos; (5) a comparação da vida pregressa dos 
negros com o horror do momento; e (6) a crítica ao Brasil, por se beneficiar 
da infame escravidão.
Por uma educação antirracista
Uma educação antirracista nas escolas deve contemplar a identidade e a história 
dos indivíduos e dos respectivos grupos que frequentam o ambiente escolar. 
Para que esse processo seja de fato efetivado, a escola deve repensar a sua 
estrutura, ampliando a defi nição de currículo, avaliação e material didático e 
as formas de ação entre corpo docente e corpo discente.
Geralmente, o debate sobre o racismo e as formas de combatê-lo vêm à tona 
apenas nas datas de 19 de abril, para a população indígena, e 13 de maio e 20 
de novembro, para os afrodescendentes. Esses marcos simbólicos, caso não 
sejam devidamente problematizados, podem servir para reproduzir estereótipos 
e reforçar visões negativas sobre as populações, transformando a escola em um 
ambiente hostil para determinados grupos e anulando a sua função social de 
aparelho que possibilita o acesso à cidadania e a emancipação dos indivíduos.
Ao analisar as ações dos movimentos sociais na busca por uma sociedade 
mais justa e igualitária, percebe-se que a legislação avançou, possibilitando a 
materialização de um aparato legal que diminua e iniba a prática de racismo 
em território nacional. Sobre essa questão, Sousa (2005, p. 110–111) destaca 
o seguinte:
Culturas afro-brasileira e indígena na sociedade brasileira contemporânea12
Dizem até que falar de racismo é invenção do negro complexado, que tem ver-
gonha da própria origem. Felizmente esta cultura do silenciamento está sendo 
superada, um resultado de décadas de lutas do movimento negro organizado 
por todo este país e que vem obtendo importantes conquistas, inclusive no 
campo legal, como, por exemplo: o art. 5º da Constituição Federal de 1988, 
que torna “a prática do racismo crime inafiançável e imprescritível”; a lei 
3.198/2000, que institui o “Estatuto da Igualdade Racial”; a lei 10.639/2003, 
que torna obrigatório incluir nos currículos escolares a “história e cultura 
afro-brasileira”. Isso demonstra que avanços estão sendo conquistados, apesar 
de ainda termos muito a buscar.
Soma-se a essa trajetória de luta antirracista a promulgação da Lei nº 11.645, 
de 10 de março de 2008. Ela modifica a Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003, 
e amplia a obrigatoriedade do ensino da história e da cultura afro-brasileira e 
indígena na educação básica do País.
No link a seguir, confira o aparato legal que tornou possível o ensino da história e da 
cultura indígena e afro-brasileira nas escolas do País.
https://qrgo.page.link/zuKnW
Racismo: identificar e combater
Gilberto Freyre, na sua obra máxima Casa-Grande & Senzala, de 1933, foi 
o responsável por criar um mito que até hoje ecoa na sociedade brasileira, a 
ideia de democracia racial. De acordo com esse autor, que era pernambucano 
e descendente de antigos senhores de engenho da região, o Brasil seria a 
“mais perfeita democracia racial do mundo”, pois o português teria criado 
nos trópicos uma sociedade em que os preconceitos de raça ou cor teriam sido 
diluídos na mistura entre brancos, negros e índios. Assim, teria forjado um 
ambiente propício para o desenvolvimento de uma sociedade em que a prática 
de racismo era inexistente, modelo bem diferente do de outras sociedades, como 
os Estados Unidos da América, onde houve luta por direitos civis, segregação 
e ação de grupos racistas como a Ku Klux Klan.
13Culturas afro-brasileira e indígena na sociedade brasileira contemporânea
Esse mito começou a ser combatido nos anos 1950, pela chamada “escola 
de sociologia paulista”. Autores como Florestan Fernandes e Fernando Hen-
rique Cardoso questionaram a existência de uma democracia racial no Brasil 
e passaram a denunciar as condições nas quais a população negra brasileira 
estava inserida, configurando, portanto, a primeira crítica contudente a Freyre 
e revelando o racismo na sociedade brasileira após a abolição da escravidão.
O Geledés (Instituto da Mulher Negra) explica como o mito da democracia racial está 
presente na sociedade brasileira. Confira no link a seguir.
https://qrgo.page.link/AHgV6
A negação do racismo no Brasil reforça a ideia de que no País as condições 
de vida e as oportunidades são iguais para todos, independentemente da cor de 
pele, visão que não reflete a realidade. Em uma análise sobre o perfil étnico 
do Brasil e o seu reflexo nas condições econômicas, o Instituto Brasileiro de 
Geografia e Estatística (IBGE, 2018) constatou que, em média, os brasileiros 
brancos possuem salários maiores, sofrem menos com desemprego e possuem 
maior acesso ao nível superior. Essa situação reflete o processo histórico 
iniciado pela colonização portuguesa e atinge principalmente os grupos que 
foram historicamente afastados das classes dominantes.
Negros e indígenas no Brasil hoje
Ao combater o racismo no ambiente escolar, a escola cumpre a sua função so-
cial. Nesse processo, os professores são peças fundamentais dessa engrenagem. 
Identifi car o racismo, compreender as suas consequências para a formação do 
alunado e o seu consequente exercício de cidadania, reconhecer a presença 
de estereótipos, bem como a ausência de embasamento durante a formação 
inicial e continuada dos professores, é o caminho a ser seguido para, enfi m, 
ter uma educação antirracista.
Sobre essa questão, Gomes (2009, p. 57) afirma o seguinte: “[...] somos 
desafiados a realizar uma mudança epistemológica, no campo da formação de 
professores(as) no Brasil, que vá além das velhas dicotomias entre o escolar e 
Culturas afro-brasileira e indígena na sociedade brasileira contemporânea14
o não escolar, o político e o cultural, o instituído e o instituinte, ainda presente 
em vários currículos e práticas de formação de professores [...]”.
Ao longoda história do Brasil, os grupos de indivíduos não brancos, como 
negros e indígenas, criaram diversas táticas para burlar a ordem vigente e 
realizar suas práticas culturais sem que fossem punidos pelo poder colonial 
estabelecido. Essas astúcias foram materializadas em diversos aspectos da 
vida cotidiana desses indivíduos, inclusive na esfera religiosa, com a criação 
de irmandades religiosas de negros e pardos, em que as divindades e os orixás 
africanos foram assimilados ao culto aos santos católicos. No campo cultural, 
destaca-se a prática da capoeira, uma mistura de luta com dança, inicialmente 
proibida e, posteriormente, alçada à condição de patrimônio histórico e cultural 
nacional. Aspectos linguísticos também foram afetados, como o vocabulário, 
que amenizou o português europeu, desenvolvendo uma nova linguagem mais 
branda, com a repetição de sílabas.
Os aspectos da cultura africana foram ressignificados no Brasil, adqui-
rindo outras roupagens, repletas de herança, memória e resistência étnica 
e cultural. No campo do sagrado, as religiões afro-brasileiras se materia-
lizaram como práticas de fé. Nesse contexto, destacam-se as irmandades 
negras, associadas ao catolicismo; a umbanda, associada ao espiritismo; 
o candomblé; o culto dos orixás; o tambor de mina (Maranhão); e o culto 
congo-angolano (Rio de Janeiro e Bahia). A interação étnica e cultural no 
Brasil foi tão intensa que surgiram também cultos afro-indígenas, como os 
candomblés de caboclo (Bahia), jurema (Paraíba e Pernambuco), barba-soeira 
(Amazônia e Pará) e terecô (Maranhão), popularmente denominados de 
catimbó, macumba e canjerê.
Os folguedos dos reis negros, também conhecidos como festas do rosário, 
são manifestações culturais que demonstram a forte presença da cultura 
africana no Brasil. Essas manifestações culturais têm origem nas irmandades 
religiosas de escravizados, quando os irmãos em um ato de fé elegiam um 
rei que era conhecido pelos membros da irmandade e tinha sua autoridade 
validada inclusive pelos colonizadores, mostrando como a vida social durante 
a escravidão era complexa. No Brasil, essas denominações mudaram, depen-
dendo do local de origem, entretanto guardam semelhanças entre si.
Lutas por posse e manutenção das terras, seja por comunidades tradicionais 
indígenas ou comunidades remanescentes de quilombos, refletem a disputa 
pelo acesso à terra no Brasil, que ficou restrito a pequenos grupos com capital 
necessário e que herdaram a posse da terra dos antigos senhores da região. 
Todas essas questões evidenciam a luta pela sobrevivência de negros e indí-
genas no Brasil de hoje.
15Culturas afro-brasileira e indígena na sociedade brasileira contemporânea
Assim, a resistência de índios e negros não terminou; ela não ficou restrita 
ao passado, mas continua viva, existindo no Brasil contemporâneo. Enquanto 
houver uma sociedade racista, que busca eliminar os indivíduos que agem de 
modo diferente da classe dominante, a luta antirracista é necessária.
As histórias em quadrinhos são uma forma de literatura que pode contribuir para 
aproximar os alunos da cultura afro-brasileira. A seguir, confira uma seleção de obras.
  André Diniz: Chico Rei (2007) e O Quilombo Orum Aiê (2010)
  Marcelo D’Salete: Cumbe (2013) e Angola Janga (2016)
  Amaro Braga, Danielle Jaimes e Roberta Cirne: AfroHQ: História e Cultura Afro-Brasileira 
e Africana em Quadrinhos (2010)
  Alexandre Miranda Silva: Orixá: Do Orum ao Ayê (2011)
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Leituras recomendadas
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PROUS, A. O Brasil antes dos brasileiros: a pré-história do nosso país. Rio de Janeiro: 
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17Culturas afro-brasileira e indígena na sociedade brasileira contemporânea
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
• Reconhecer a realidade social e cultural do Brasil.
• Explicar os efeitos da ocupação e colonização brasileira.
• Valorizar as diferentes manifestações culturais de etnias e raças.
Introdução
Neste capítulo, você vai compreender quais foram as origens da formação da 
sociedade brasileira contemporânea, retomando a premissa da organização 
colonial e as dinâmicas estabelecidas entre os povos colonizadores, os povos 
e sociedades que já existiam no território brasileiro e os povos que mais tarde 
foram trazidos — forçados ou de forma livre.
Vai compreender também que as relações sociais foram determinadas pelo 
tipo de organização econômica estabelecida, e, por isso, a utilização de mão de 
obra escravizada teve grande influência nas manifestações simbólicas e culturais 
da sociedade em formação, especialmente nas relações familiares afetivas que 
se constituam entre cuidadores negros e as crianças brancas.
Por fim, verá que houve e há resistência de diferentes composições étnicas, 
especialmente negra e indígena, ao longo de todo o processo de constituição da 
sociedade brasileira contemporânea, identificando a importância de reconhecer 
Formação 
sociocultural 
do Brasil I
Aline Michele Nascimento Augustinho
as dinâmicas de poder e de classena manutenção de privilégios que afastam as 
elites das bases das pirâmides sociais.
Origens socioculturais do Brasil
O Brasil republicano foi simbolicamente desenhado como uma nação miscige-
nada, formada por várias culturas que não apenas conviveriam pacificamente, 
mas que também contribuíram para a formação de uma cultura e de uma 
identidade nacionais exclusivas do Brasil. Porém, nas reflexões acadêmicas 
e sociais que se realizam, ao olhar para as culturas que formam a identidade 
brasileira é possível identificar as falácias no discurso da miscigenação pacífica 
e integradora. Muito embora seja verdade que a identidade nacional e os 
elementos culturais que a permeiam — como a música, as artes, o idioma, a 
culinária, as tradições, religiões, costumes e comportamentos sociais — sejam 
de fato produto da interação de culturas de diferentes origens, especialmente 
de povos indígenas, povos negros e povos europeus, não é mais possível que 
no século XXI se reproduza a ideia da miscigenação sem a reflexão da violência 
estrutural resultante das relações de poder entre esses povos.
A reflexão sobre essas relações de poder, além de oferecer melhor compre-
ensão sobre a história do país, pode ainda contribuir para políticas públicas 
de reparação de violências e injustiças, reorganizando as dinâmicas sociais 
contemporâneas e ajustando os espaços e acessos de povos de diferentes 
origens aos itens de bem-estar social e à efetivação da cidadania, como assim 
define a Constituição Federal de 1988.
Para compreender como se constitui a realidade social e cultural do Bra-
sil contemporâneo, com suas possibilidades, desafios e a necessidade de 
resgates históricos, é necessário antes retomar as origens dessa sociedade. 
Retomar o processo de colonização é fundamental, mas, para compreender 
a formação de nossa identidade brasileira contemporânea, é preciso retomar 
o contexto de formação da república brasileira.
É na formação do Estado-nação republicano, no final do século XIX, que 
surgiu a necessidade de criação de um elemento simbólico que levasse os 
sujeitos à validar a noção de pertencimento à nação. A noção de pertenci-
mento é um dado simbólico que influencia a formação da identidade dos 
sujeitos, associando tais identidades aos laços sociais constituídos em sua 
formação como um sujeito que pertence a determinada cultura, que pertence 
a determinado país. 
A noção de pertencimento foi intencionalmente desenvolvida no Brasil 
republicano especialmente por meio da educação pública, a fim de difundir 
Formação sociocultural do Brasil I2
o conceito de identidade nacional — e esse pressuposto tinha um objetivo 
político: o fim do Império. Nesse sentido, o exílio do imperador Dom Pedro 
II não foi um ato de ruptura popular com o absolutismo, como aconteceu na 
Europa dos séculos XVIII e XIX. Pelo contrário, o imperador Dom Pedro II era 
benquisto pelos brasileiros de classes mais baixas, que não participaram do 
movimento golpista que levou à constituição da República.
Assim, a construção da sensação de pertencimento ajudava a formar e 
legitimar a identidade nacional, e essa identidade, por sua vez, estreitaria 
os laços do povo com o novo Estado e sua forma de organização e governo, 
prevenindo movimentos separatistas, mantendo unido o território vasto do 
antigo Império e salientando a unidade nacional frente a possíveis ameaças 
externas.
Naquele momento, no final do século XIX, a constituição da República 
buscava criar a imagem de um país moderno e economicamente alinhado às 
principais potências capitalistas mundiais — Estados Unidos e França. Para 
isso, os ideais de liberdade, igualdade e participação que permearam as 
revoluções burguesas nesses dois países precisavam ser aqui reproduzidas, 
com a transição da forma do Estado monárquico para o republicano. 
Assim, buscou-se criar elementos simbólicos que afastassem a memória 
social dos contextos de colonização e da égide da monarquia portuguesa 
como expressões de dominação europeia — muito embora o país fosse inde-
pendente desde 1822, os laços com a coroa portuguesa não foram cortados, 
mesmo que a monarquia brasileira se mostrasse mais conectada ao Brasil 
que às memórias das cortes europeias.
Na busca pela criação de uma identidade nacional que se descolasse das 
memórias coloniais e do impacto da dominação cultural, política e econômica, 
as dinâmicas de poder entre as culturas que formariam o povo e a identidade 
culturais brasileiras foram moldadas para salientar uma espécie de simbiose 
entre diferentes culturas, apagando um histórico de dominação e violência.
Assim, surgiu a noção de que povo brasileiro, miscigenado entre povos 
negros, brancos e indígenas, convivia em paz com as diferentes origens 
que formariam uma só cultura, diversificada, única e sobretudo pacífica e 
integrada.
Desse modo, a identidade nacional e a noção de pertencimento foram 
estabelecidas no início do século XX, resultando na manutenção de violências 
estruturais e simbólicas de povos durante a colonização, com a valorização da 
influência dos povos europeus, sem, no entanto, que se admitisse a existência 
do racismo, levando à formação do mito da igualdade racial.
Formação sociocultural do Brasil I 3
De acordo com o sociólogo brasileiro Florestan Fernandes (1978), a socie-
dade brasileira do século XX foi pautada no mito da igualdade entre todos seus 
componentes étnicos, o que, segundo sua perspectiva, seria uma inverdade, 
já que as relações raciais coloniais mantiveram os traços de segregação e 
violência na constituição da divisão social do trabalho capitalista no Brasil 
do século XX. Nesse âmbito, os negros seguiram marginalizados nas dinâ-
micas sociais com as elites, tendo acesso restrito ao trabalho e à educação 
e reproduzindo dispositivos que impediam sua autonomia.
No próximo tópico, você verá como se deu o reconhecimento dos povos 
nativos e das sociedades já estabelecidas no território que se tornaria o 
Brasil no contexto da colonização.
Ocupação e colonização brasileira
Consideradas as interações múltiplas e a intenção sociopolítica na criação do 
conceito de identidade nacional e da noção de pertencimento para o fortale-
cimento e legitimação da República, chega o momento de uma reflexão que 
retoma pontos históricos ainda mais longínquos: o processo de colonização.
Afinal, é a partir desse processo que o Brasil se torna um Estado, com 
uma sociedade que submete às regras legais e de conduta centrais. Isso, 
porém, não significa que uma sociedade com cultura, condutas e hábitos 
particulares se estabelece apenas com a colonização. Antes da ocupação do 
território brasileiro pelos portugueses, a região era habitada por diferentes 
povos indígenas, que mantinham dinâmicas internas específicas de auxílio 
mútuo ou de belicosidade, de trocas comerciais e disputas territoriais. 
Assim, é preciso ressaltar que sociedades nativas, indígenas, ocupavam 
o território brasileiro antes da chegada e da posterior ocupação forçada 
dos portugueses. Aliás, esses povos nativos mantinham contato e trocas 
comerciais e culturais por toda a América do Sul, estabelecendo diálogos 
com grandes impérios nativos como os Incas, na região do Peru, até os Maias, 
na América Central. 
Uma das provas dessas dinâmicas é o Caminho de Peabiru, uma trilha de 
cerca de 3 mil quilômetros de extensão, em muitas partes pavimentada com 
pedras, que ligava o litoral de São Paulo, na região de São Vicente, à região 
de Cuzco, no Peru, coração do Império Inca antes da invasão e colonização 
espanhola naquela região (Figura 1). 
Formação sociocultural do Brasil I4
Figura 1. Trajetória pré-colombiana do Caminho de Peabiru, do litoral de São Paulo até a 
região de Cuzco, capital do antigo Império Inca, no Peru.
Fonte: Colavite e Barros (2009, p. 89).
A trilha apresentava centenas de “ramais”, pequenas trilhas anexas que 
ligavam a trilha central a aldeias e comunidades, de modo que o Caminho de 
Peabiru se configurava como instrumento de comunicaçãoe troca comercial 
local e intercontinental, mesmo considerando a multiplicidade de etnias, 
idiomas e culturas indígenas nativas ao longo do trajeto.
Apenas com o reconhecimento do Caminho de Peabiru já é possível refletir 
sobre pontos importantes do processo de formação cultural da sociedade 
brasileira: em primeiro plano, havia sociedades plenamente estabelecidas 
num território que foi invadido por um povo colonizador, que tomou para si 
as terras e suas riquezas. 
Nesse contexto, houve um processo de imposição pela força, de modo 
que o povo colonizador, os portugueses, pudesse subjugar os povos nativos, 
Formação sociocultural do Brasil I 5
forçando-os ao trabalho segundo sua definição, invadindo e destruindo 
vilarejos, raptando crianças para a formação católica forçada — desse modo 
aprenderiam o idioma do colonizador, seus valores morais por meio da religião, 
e poderiam ser mais facilmente controlados, afastados de sua cultura nativa.
Os primeiros 60 anos de colonização, concentrados nas regiões de São 
Vicente, sul da Bahia e Recife, foram orientados à exploração de bens já 
disponíveis, como o pau-brasil, enquanto testes de adaptabilidade do solo 
para o plantio de cana-de-açúcar e cacau eram realizados. Nesse contexto, a 
mão de obra indígena, também escravizada, era a utilizada. Os portugueses 
estabeleceram-se como senhores da terra ocupada, legalizando a ocupação 
com outros europeus, os espanhóis, com os quais dividiram as porções con-
tinentais a serem exploradas. 
De modos diversos, os dois povos colonizadores buscaram anular as or-
ganizações sociais já estabelecidas no período pré-ocupação, e isso significa 
não apenas a imposição de violência e exploração de mão de obra escravizada, 
mas o apagamento de itens simbólicos, como fortificações, estruturas urbanas, 
templos e totens religiosos, além do impedimento da comunicação entre as 
comunidades, o que dificultava — mas não impedia — a resistência nativa.
Há dois fatores nesse processo que levaram os portugueses a inserirem 
a mão de obra de povos negros escravizados no Brasil: em primeiro lugar, 
a adaptação da cana-de-açúcar ao clima e ao solo do nordeste brasileiro. A 
criação de engenhos exigia conhecimento técnico que os nativos indígenas 
não possuíam e relutavam em aplicar. No entanto, tanto Portugal quanto 
Espanha, Holanda, Inglaterra e França já haviam utilizado mão de obra de 
povos africanos escravizados em plantios na América Central. 
A experiência anterior de escravização levou os colonizadores a iniciarem 
a forçada diáspora africana para o Brasil, cumprindo a necessidade de criar, 
expandir e movimentar os engenhos de cana-de-açúcar. Essa ação teve ainda 
cunho político: com o território do nordeste tendo sua população ampliada e 
atividades comerciais mais ativas, mantinha-se afastada a ameaça de invasão 
holandesa, intenção que permaneceu ativa até o século XVIII.
O segundo fator foi a necessidade de ocupação territorial continental, ou 
seja, a expansão das atividades para além da faixa costeira. Essa necessidade 
surgiu já no século XVII, quando o sucesso na exploração de ouro e minerais 
preciosos na porção continental ocupada pela Espanha levou os portugueses 
a temerem que a exploração espanhola ultrapassasse os limites acordados, 
além da perspectiva de encontrar ouro em abundância mais ao interior do 
continente.
Formação sociocultural do Brasil I6
Assim, em busca de minas e veios de ouro iniciou-se a expansão territorial 
e a ocupação por meio da composição de vilarejos e cidades em torno de 
regiões com veios e minas de ouro na região sudeste. Como as incursões 
exploratórias não permitiam lutar com indígenas, ocupar espaços e formar 
vilarejos sem os retornos financeiros esperados, a mão de obra de povos 
negros foi inserida já no processo de exploração do território.
Com a paulatina ocupação do litoral brasileiro principalmente pelos colonizadores 
portugueses, para além de tentativas de ocupação francesa e holandesa, acarre-
taram-se imensos prejuízos para os inúmeros grupos étnicos, que se destacavam 
por sua diversidade linguística, religiosa e cultural, e que foram progressivamente 
reduzidos ou, em muitos casos, até mesmo dizimados. Com o tempo, os atos de 
violência perpetrados pelos invasores de Pindorama também passaram a ter 
como alvo diversas etnias africanas que foram sequestradas de seus respectivos 
territórios de origem, para serem então comercializadas e exploradas no Brasil 
Colônia de forma inumana (ROMÃO, 2018, documento on-line).
Ao longo do tempo, com a expansão territorial e a consolidação dos vilare-
jos e expansão da população portuguesa chegada para explorar o território, 
crescia também a presença de escravizados negros, ao passo que diminuía 
a de povos nativos, mortos pela recusa a ceder território ou pela recusa à 
escravização.
A ocupação inicial do território brasileiro oferece então a composição social 
da nova colônia: no topo da pirâmide social, nobres e ricos comerciantes. Na 
base, os povos explorados: povos negros e indígenas escravizados. Havia 
também pessoas brancas não nobres, que partiam de Portugal em busca 
de oportunidades no Novo Mundo, mas que viam-se sem lócus, sem espaço 
social a ser ocupado na ausência de titulação aristocrática, grandes posses ou 
carreira militar. Essas pessoas, no entanto, foram importantes para estruturar 
os vilarejos e o processo de ocupação territorial.
Se por um lado observaram-se formas de controle e imposição do poderio 
do colonizador, por meio da violência e da catequese (imposição religiosa, 
fonte do apagamento cultural nativo), observou-se no Brasil Colônia também o 
processo de resistência que levaria a importantes núcleos da cultura nacional: 
a formação dos quilombos.
Os quilombos eram territórios social, política, econômica e militarmente 
organizados, que recebiam povos negros e também indígenas que fugiam da 
condição de escravidão. Tais territórios promoviam a autossustentabilidade, já 
que não podiam expor sua localização, sobretudo quando especializavam-se 
na insurgência e no enfrentamento do poder dos colonizadores. Havia, porém, 
Formação sociocultural do Brasil I 7
aqueles que atuavam também no comércio, com os excedentes produzidos 
e artesanatos.
Tereza de Benguela é um exemplo de líder quilombola que orientava sua 
microssociedade, o Quilombo de Cariterê, ao comércio, mas também à ativi-
dade bélica. Segundo Anal de Vila Bela do ano de 1770, no atual Mato Grosso:
Governava esse quilombo a modo de parlamento, tendo para o conselho uma 
casa destinada, para a qual, em dias assinalados de todas as semanas, entrava os 
deputados, sendo o de maior autoridade, tipo por conselheiro, José Piolho, escravo 
da herança do defunto Antônio Pacheco de Morais, Isso faziam, tanto que eram 
chamados pela rainha, que era a que presidia e que naquele negral Senado se 
assentava, e se executava à risca, sem apelação nem agravo (FUNDAÇÃO CULTURAL 
PALMARES, 2017, documento on-line).
Uma das táticas de apagamento da cultura nativa indígena e so-
breposição forçada da cultura colonizadora era a disseminação 
da ideia de inferioridade artística ou intelectual e de inverdade associada às 
religiões indígenas. Assim, ao mesmo tempo em que se disseminava a noção 
de superioridade cultural das sociedades europeias, atribuía-se as ações de 
violência e até extermínio à ideia de auxílio no desenvolvimento, ou seja, de que 
os europeus estariam ajudando os nativos a conhecerem culturas mais eficien-
tes, mais desenvolvidas e superiores. Essa ideia parte da violência simbólica, 
mas concretiza-se em violência real, e fez parte do itinerário do desenrolar da 
sociedade brasileira republicana, com a noção de marginalização atribuída às 
expressões culturais e religiosas de matrizes indígenas e africanas (CARNEIRO, 
2020). 
Colonização e relações de poder
O processo de colonização determinou um padrão de relacionamentos sociais 
em que havia dinâmicas de poder estabelecidas entre dominadores e domina-dos: colonizadores, brancos europeus, determinaram a língua, a religião e as 
formas de organização social que regrariam as condutas coletivas, como na 
formação de famílias ou exercício do trabalho. O que surgiu, com isso, segundo 
Darcy Ribeiro (2016, p. 19–20), foi um povo ao mesmo tempo novo e velho:
Novo porque surge como uma etnia nacional, diferenciada culturalmente de suas 
matrizes formadoras, fortemente mestiçada, dinamizada por uma cultura sincrética 
e singularizada pela redefinição de traços culturais delas oriundos. Também novo 
porque se vê a si mesmo e é visto como uma gente nova, um novo gênero humano 
Formação sociocultural do Brasil I8
diferente de quantos existam. Povo novo, ainda, porque é um novo modelo de 
estruturação societária, que inaugura uma forma singular de organização socioe-
conômica, fundada num tipo renovado de escravismo e numa servidão continuada 
ao mercado mundial. Novo, inclusive, pela inverossímil alegria e espantosa vontade 
de felicidade, num povo tão sacrificado, que alenta e comove a todos os brasileiros. 
Velho, porém, porque se viabiliza como um proletariado externo. Quer dizer, como 
um implante ultramarino da expansão europeia que não existe para si mesmo, 
mas para gerar lucros exportáveis pelo exercício da função de provedor colonial 
de bens para o mercado mundial, através do desgaste da população que recruta 
no país ou importa. 
A sociedade e a cultura brasileiras são conformadas como variantes da versão 
lusitana da tradição civilizatória europeia ocidental, diferenciadas por coloridos 
herdados dos índios americanos e dos negros africanos. O Brasil emerge, assim, 
como um renovo mutante, remarcado de características próprias, mas atado 
genesicamente à matriz portuguesa, cujas potencialidades insuspeitadas de ser 
e de crescer só aqui se realizariam plenamente.
Tais dinâmicas de poder influenciariam também a formação das iden-
tidades dos diferentes povos que compunham a sociedade brasileira nos 
contextos da colonização e também dos dois períodos imperiais, até 1889. Isso 
porque “[...] a identidade é uma categoria social discursivamente construída, 
expressa e percebida por diferentes linguagens: escritas, corporais, gestu-
ais, imagéticas, midiáticas” (MORENO, 2014, documento on-line), ou seja, a 
identidade é construída e percebida pelos sujeitos à medida que as práticas 
e comportamentos a ela associados são reproduzidos. 
Mais incisivamente do que a noção de cultura, a identidade implica a produção 
de discursos portadores de signos de identificação. Nem sempre um grupo com 
uma cultura em comum percebe-se, denomina-se, reconhece-se ou é objeto de 
discursos identitários. A identidade estaria ligada, desta forma, à representação 
da cultura de um ou mais grupos humanos (MORENO, 2014, documento on-line).
Por isso, as dinâmicas das relações de poder são tão relevantes na for-
mação das identidades: ao reafirmar e reproduzir lugares e condutas onde 
há privilegiados e oprimidos, cria-se a referência do pertencimento, o que 
pode dificultar ações de resistência. 
No Brasil, foi especialmente no trabalho doméstico e na relação estreita 
entre trabalhadoras negras e as famílias brancas que se operou a reprodução 
do lócus social pautado nas relações de poder coloniais. De acordo com Eneida 
Gaspar (2008), na língua e nos laços, as dinâmicas entre culturas que formam 
costumes novos e desenvolvem novas formações culturais podem ser vistas 
nas relações coloniais e pós-coloniais entre mulheres negras cuidadoras de 
crianças brancas, como você pode ver na cantiga “Neném bagunceiro”:
Formação sociocultural do Brasil I 9
Neném faz lambança comendo canjica.
Babá se enquizila e dá um chilique:
— Moleque sapeca! Não faça bagunça!
Nenê, encabulado, funga, faz dendo...
Babá engambela, faz um cafuné:
— Nana, nenê, que a Cuca já vem...
Nenê esquece a fuzarca... bambeia... e cochila... (GASPAR, 2008, p. 21).
Tais relações, repetidas em diversas unidades familiares por reproduzirem 
um padrão de dominação social, terminam exacerbando as unidades fami-
liares e reproduzidas, fazendo parte do contexto cultural. No poema acima, 
para além das relações de cuidado entre a mulher e a criança cuidada, há a 
reprodução de palavras de origem banto, como “neném”, “cafuné”, “lambança”, 
que terminaram como parte da língua falada, o português do Brasil.
Cultura imaterial 
A diáspora africana no Brasil causada pela escravização de povos negros 
influencia a formação da cultura brasileira, imprimindo impactos na cultura 
imaterial, incluindo o idioma, as religiões, a culinária, a música, mas também 
influencia os sentidos dados à essas expressões imateriais.
Esses povos não aceitavam a condição da escravidão, e a partir do sé-
culo XVI, fugindo dos engenhos e das fazendas escravistas, desenvolveram 
comunidades específicas onde pudessem viver em liberdade e onde suas 
tradições e saberes ancestrais pudessem ser protegidos e transmitidos aos 
descendentes. Observe o poema a seguir:
Batuca o bumbo,
sacoleja o caxixi,
cutuca a cuíca,
toca marimba e ganzá.
Desencabula,
saçarica na catira,
ginga no samba,
no fandango e carimbo (GASPAR, 2008, p. 21).
Esse texto utiliza palavras de origem africana, trazidas ao Brasil por meio 
dos povos escravizados, que terminaram se tornando parte integrante do 
idioma, mas não apenas suas palavras e sentidos, como também aquilo que 
descrevem: a música, o ritmo e as manifestações culturais, provas da influência 
dos povos escravizados na formação da cultura imaterial nacional, como nos 
ritmos da catira, do samba, do carimbó e do fandango. Perceba que cada uma 
Formação sociocultural do Brasil I10
dessas expressões musicais se atrela a uma região específica do Brasil (o 
samba ao Sudeste, o fandango ao Sul, a catira ao Centro-Oeste e o carimbó 
ao Norte e Nordeste), mas são todas influenciadas pela perspectiva cultural, 
simbólica e linguística banto, povo africano escravizado e concentrado no 
Brasil especialmente na região do Rio de Janeiro.
A sociedade brasileira multiétnica projeta nas expressões culturais tanto 
as origens dos povos quanto o produto das dinâmicas entre eles: dinâmicas 
de poder, de assimilação ou de confluência. O território do país era ocupado 
por nativos de diferentes etnias, formando milhares de microssociedades, 
mas que podem ser identificados por meio de quatro troncos linguísticos, que 
denotam coesão sociocultural entre si: nas faixas litorâneas, tupis-guaranis; 
na porção centro-oeste e do Planalto Central, macro-jê/tapuias; na região 
amazônica, dois troncos, aruaques e caraíbas (karib).
Entre os povos negros escravizados, houve maior diversidade étnica 
entre o sudeste e o nordeste, sendo trazidos forçadamente povos bantos 
do Congo, Angola e Moçambique, para o Rio de Janeiro, Minas e São Paulo, 
enquanto povos sudaneses originários de Costa de Marfim e Nigéria foram 
levados às lavouras do nordeste, especialmente à Bahia. Foram trazidos ao 
Brasil aproximadamente 4 milhões de pessoas africanas até o século XIX 
(FLORENTINO, 1995).
Você sabia que as comunidades e sociedades indígenas pré-colom-
bianas, ou seja, que antecederam a ocupação colonial pela invasão 
de povos europeus no território, eram organizadas e possuíam delimitações 
específicas para centros comerciais, centros militares e centros religiosos? O 
processo de colonização buscou apagar as marcas dessas populações, atri-
buindo-lhes uma imagem de desorganização e ausência de desenvolvimento 
artístico e cultural, o que os primeiros antropólogos chamavam de “primitivas”. 
Hoje, sabe-se que o conceito de primitivo é etnocêntrico, ou seja, considera uma 
cultura como centralizadora para análises comparativas. Saiba mais sobre essa 
reflexão no artigo “Urbanismo mesoamericano pré-colombiano: Teotihuacán” 
(BERNARDES, 2008). 
Formação sociocultural do Brasil I 11
Diferentes manifestações culturais: 
identidades coletivas e identidades 
ancestrais
Os diferentes povos que formaram a sociedade brasileira não dispunhamdos 
mesmos privilégios e acessos a itens de conforto, bem-estar e segurança, e 
tampouco a um processo de legitimação, configuração reforçada e continua-
mente reproduzida principalmente por meio das relações trabalhistas, que 
marginalizavam os povos negros e anulavam os povos indígenas. 
Com a intensificação do processo de industrialização e expansão da 
urbanização no século XX, especialmente em capitais como São Paulo e Rio 
de Janeiro, a configuração espacial das cidades passou também a reproduzir 
as dinâmicas e relações de poder que centralizam os brancos e marginalizam 
os não brancos. Vejamos o trecho a seguir sobre o espaço urbano da cidade 
de São Paulo na metade do século XIX:
[...] as ruas, alamedas e praças da cidade, todas as suas áreas de circulação e 
reunião pública, estavam de posse dos escravos (que constituíam mais de 1/4 
da população) e de homens livres humildes: tropeiros, vendeiros, lavradores. As 
famílias patriarcais viviam retiradas em seus sobrados. Não tinham pontos diários 
de reunião em público, nem passeios, nem centros de lojas, nem restaurantes 
elegantes (MORSE, 1970, p. 62).
Essa reflexão percebe a ocupação dos espaços públicos pela população 
racial e economicamente marginalizada, o que, em tese, impedia a ocupação 
desses espaços pelas famílias patriarcais, pelas representantes das elites 
e do statu quo vigente.
Essa percepção levou às reformas higienistas nos espaços urbanos em 
São Paulo e no Rio de Janeiro, que construíram praças, alamedas e passeios 
públicos a serem ocupados pelas elites em seu trânsito e lazer, numa tentativa 
de assemelhar as capitais brasileiras às capitais europeias, especialmente à 
Paris, símbolo da modernidade e da elegância associadas à riqueza capitalista 
emergente.
Como um Estado que procurava modernizar-se e criar uma nova identi-
dade nacional, a remodelação do espaço público fazia parte do processo. No 
entanto, a sociedade não foi interpretada como miscigenada e plural, embora 
única, como a premissa nacionalista divulgava: trabalhadores, escravizados 
e ex-escravizados eram retirados à força dos espaços públicos e até presos 
quando não cumpriam a ordem de abandonar os espaços destinados às 
“famílias tradicionais”. 
Formação sociocultural do Brasil I12
O entorno das praças e passeios públicos também foi afetado pelo projeto 
higienista urbano, demolindo moradias simples e levando à formação das 
favelas e cortiços às margens das cidades. As músicas e expressões artísticas 
de origem negra, como a capoeira e o samba, foram por décadas proibidas 
em espaços públicos e associados à “vadiagem”, punidos com prisão.
Do período higienista até a década de 1930, o samba, ritmo criado 
por povos negros e associado à cultura brasileira como característica 
nacional, foi considerado vadiagem e punido com até 30 dias de prisão. Você 
pode saber mais sobre esse contexto na matéria “Carnaval 2020: quando tocar 
samba dava cadeia no Brasil” (CARNAVAL..., 2020). 
O samba continuou sendo tocado e vivido para além das áreas centrais das 
cidades remodeladas, como uma forma de resistência cultural que salientava 
a formação de microssociedades com identidades particulares e conectadas 
à ancestralidade. Assim, a ideia de possível homogeneidade que criou uma 
só cultura com o processo de miscigenação não existia de fato.
Assim como a música, o sincretismo religioso pode ser visto como uma 
forma de resistência e sobrevivência à marginalização e à violência com que 
as manifestações religiosas de matriz africana, especialmente, mas também 
indígena, foram reprimidas. Roger Bastide (2001) pontua sobre as diferentes 
nações, ou etnias, de povos negros que formaram novas comunidades no Brasil 
a partir dos sujeitos escravizados, mesclando crenças e ritos já praticados, mas 
associando suas divindades às divindades católicas, aceitas pela elite branca:
Os candomblés pertencem a ‘nações’ diversas e perpetuam, portanto, tradições 
diferentes: angola, congo, jeje (isto é, euê), nagô (termo com que os franceses 
designavam todos os negros de fala ioruba), da Costa dos Escravos), queto, ijexá. É 
possível distinguir essas ‘nações’ umas das outras pela maneira de tocar o tambor 
(seja com a mão, seja com as varetas), pela música, pelo idioma dos cânticos, pelas 
vestes litúrgicas, algumas vezes pelos nomes das divindades, e enfim por certos 
traços do ritual. Todavia, a influência dos iorubás domina sem contestação o con-
junto das seitas africanas, impondo seus deuses, a estrutura de suas cerimônias 
e sua metafísica aos daomeanos, aos bantos (BASTIDE, 2001, p. 29).
O sincretismo resultou em diferentes expressões religiosas, sendo o can-
domblé uma das mais proeminentes e que mais tarde terminou ganhando fiéis 
brancos e partícipes da elite. Não se trata de assimilação ou de aculturação; 
nesse caso, quando uma cultura dominante (por questões políticas ou eco-
nômicas) é pouco a pouco absorvida por outra, passando a ter novos valores 
Formação sociocultural do Brasil I 13
e expressões da cultura assimilante, o sincretismo foi na verdade um projeto 
de resistência para a manutenção do culto a divindades de matriz africana.
E essa escolha pode ter sido também reflexo da violência com que os colo-
nizadores portugueses impuseram o catolicismo aos indígenas, especialmente 
por meio das missões jesuítas nas regiões sul, sudeste e amazônica, quando 
não apenas as crenças religiosas eram forçadamente trocadas por aquelas 
ditas como “verdadeiras”, mas para professá-las, era necessário adotar o 
idioma, as vestimentas, os hábitos alimentares e sociais dos colonizadores, 
despindo os povos indígenas de suas características socioculturais.
De acordo com Darcy Ribeiro (2016), para além da formação triplo-étnica 
da sociedade brasileira entre brancos, negros e indígenas, que por si só con-
tribui para a heterogeneidade cultural, há ainda as diferenças internas entre 
cada um desses povos, dadas as múltiplas sociedades indígenas, diferentes 
nacionalidades e etnias de povos negros e diferentes nacionalidades de povos 
brancos que, chegando após a colonização, puderam atrelar-se aos privilégios 
sociais e econômicos associados à elite dominante, como os italianos que 
chegaram ao Brasil durante o ciclo do café. Por isso, Ribeiro (2016) sustenta 
que até há uma unidade cultural e simbólica que forma a cultura e a ideia de 
nacionalidade brasileiras, mas nela não há uniformidade, sendo as diferenças 
influenciadas por três elementos principais.
O primeiro deles, segundo Ribeiro (2016), é a ecologia (ambiente). De fato, 
os fatores ambientais geoclimáticos afetaram, em conjunto com as culturas 
ancestrais dos povos que chegaram durante a colonização, a formação de 
culturas locais, que se ligavam com expressões mais amplas e gerais, mas 
revelavam peculiaridades advindas dos diálogos diretos dos sujeitos com 
seus ambientes.
O segundo elemento é a economia — nesse caso, o autor pondera sobre 
dois níveis: quais tipos de vínculo os povos tinham com a economia (escravi-
zados, assalariados, nobres, mercadores) e a condição brasileira de colônia 
de exploração e em transição para uma economia capitalista autônoma, mas 
periférica. A construção do país como Estado capitalista a partir do século 
XIX tem impacto direto na formação sociocultural, derivada das formas de 
organização social do trabalho. Um exemplo é a escolha de trazer imigrantes 
europeus como trabalhadores assalariados para as lavouras paulistas, sem 
a integração econômica dos povos negros após a abolição da escravatura.
Por fim, o terceiro elemento a influenciar diferenças é a imigração não 
negra, que especialmente a partir do século XVIII trouxe ao Brasil grandes 
contingentes de povos europeus, árabes e asiáticos, concentrados em regiões 
específicas do país. Assim, essas novas imigrações associadas a fatores 
Formação sociocultural do Brasil I14
como a economia (e suas relações de trabalho) e a influência geoclimática 
terminaram por criar expressões socioculturais, naspalavras de Ribeiro 
(2016), “abrasileiradas”. Isso significa que não houve aculturação, mas um 
processo de assimilação que nem absorveu a nova cultura por completo e 
nem a apagou, criando uma composição híbrida. 
Esses três fatores viriam a formar as expressões tipicamente brasileiras 
influenciadas por povos não nativos, “[...] como sertanejos do Nordeste, ca-
boclos da Amazônia, crioulos do litoral, caipiras do Sudeste e centro do país, 
gaúchos das campanhas sulinas, além de ítalo-brasileiros, teuto-brasileiros, 
nipo-brasileiros” (RIBEIRO, 2016, p. 20). 
A unicidade não homogênea da composição sociocultural brasileira seria 
marcada, portanto, tanto pelo que os brasileiros têm em comum quanto 
pelas suas diferenças advindas de “[...] adaptações regionais ou funcionais, 
ou de miscigenação e aculturação que emprestam fisionomia própria a uma 
ou outra parcela da população” (RIBEIRO, 2016, p. 20). 
A partir da promulgação da Constituição de 1988, diversas formas 
de organização para horizontalização do diálogo e participação 
democrática entre Estado e sociedade civil foram determinadas, incluindo 
processos de descentralização administrativa, como conselhos de justiça e 
fóruns. Dois exemplos de organizações importantes na luta pela equidade social 
na sociedade brasileira contemporânea são o Fórum Nacional de Lideranças 
Indígenas e o Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena (FNEEI). Por sua 
vez, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) mantém Comissões para Igualdade 
Racial em cada unidade federativa, promovendo o cumprimento das práticas 
de equidade descritas na Constituição nos processos legislativos. 
No Brasil, segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicí-
lios (PNAD) de 2019 (IBGE, 2019), 42,7% dos brasileiros se declararam brancos, 
46,8% pardos, 9,4% pretos e 1,1% amarelo ou indígena. Dessa forma, 57,3%, a 
maioria dos brasileiros, entende-se como não branca, colocando em xeque 
a noção de minoria étnica não branca criada pela centralização colonizadora 
europeia, que manteve a população branca nas elites, com o passar do tempo 
e as diferentes formas de Estado e movimentações do tecido social. Mesmo 
que não pertençam às elites econômicas, no Brasil as populações brancas 
terminam por sentir com menor intensidade a exclusão capitalista e têm 
maior acessos a itens de bem-estar social, mobilidade social e efetividade 
da cidadania (Figura 2).
Formação sociocultural do Brasil I 15
Figura 2. Composição social brasileira segundo a raça.
Fonte: IBGE (2019, documento on-line).
Esse reconhecimento é necessário para que se compreenda como o pas-
sado e as relações de dominação e poder influenciam as dinâmicas sociais 
contemporâneas, especialmente aquelas nos espaços educacionais e de 
trabalho. No entanto, isso não elimina as facetas reais de integração entre 
as culturas que modelam a sociedade brasileira contemporânea, sobretudo 
por meio do idioma, da culinária e da música. 
A confluência de tantas e tão variadas matrizes formadoras poderia ter resultado 
numa sociedade multiétnica, dilacerada pela oposição de componentes dife-
renciados e imiscíveis. Ocorreu justamente o contrário, uma vez que, apesar de 
sobreviverem na fisionomia somática e no espírito dos brasileiros os signos de sua 
múltipla ancestralidade, não se diferenciaram em antagônicas minorias raciais, 
culturais ou regionais, vinculadas a lealdades étnicas próprias e disputantes de 
autonomia frente à nação. As únicas exceções são algumas microetnias tribais que 
sobreviveram como ilhas, cercadas pela população brasileira. Ou que, vivendo para 
além das fronteiras da civilização, conservam sua identidade étnica. São tão peque-
nas, porém, que qualquer que seja seu destino já não podem afetar à macroetnia 
em que estão contidas. O que tenham os brasileiros de singular em relação aos 
portugueses decorre das qualidades diferenciadoras oriundas de suas matrizes 
indígenas e africanas; da proporção particular em que elas se congregaram no 
Brasil; das condições ambientais que enfrentaram aqui e, ainda, da natureza dos 
objetivos de produção que as engajou e reuniu (RIBEIRO, 2016, p. 21).
A sociedade multiétnica não homogênea, mas em unicidade, como pontua 
Ribeiro, exprime suas relações sociais e a interpretação das manifestações 
culturais e simbólicas na contemporaneidade por meio das dinâmicas de 
classe e poder orientadas pelo capitalismo periférico, dependente e neo-
liberal. De acordo com Florestan Fernandes (1978), portanto, a sociedade 
Formação sociocultural do Brasil I16
brasileira organiza suas relações sociais por meio das relações de poder 
advindas da estratificação social, das associações entre classe e poder, já que 
os trabalhadores estariam sujeitos à lógica e ao projeto político das elites. 
Porém, as relações de poder entre as classes no Brasil seriam, segundo esse 
sociólogo, produto direto das relações raciais determinadas pelo processo 
de colonização. 
A luta dos povos indígenas na resistência à ditadura militar ocor-
rida entre 1964 e 1985 se deu em um contexto em que a cultura, a 
identidade e as religiões indígenas foram ameaçadas de forma violenta por um 
modo de organização social em que a elite estruturalmente branca impunha, 
dessa vez segundo intenções e valores políticos, a sua própria visão de mundo. 
Para saber mais, acesse o site Memórias da Ditadura, verbete “Repressão e 
resistência”, subverbete “Indígenas”.
Assim, compreender as dinâmicas socioculturais no Brasil é um trabalho 
em dois níveis, que têm características próprias, mas que nesse contexto não 
se separam, porque foram forjados segundo a mesma lógica: as relações de 
classe e as relações raciais exprimem um modelo capitalista de exploração 
racista.
A noção de pertencimento e a identidade nacional foram legitimadas com 
o passar do tempo no país. No entanto, é preciso ter em mente a inexistência 
da homogeneidade cultural que seria produto da pretensa igualdade racial, 
comprovadamente uma falácia no Brasil, ainda que atualmente haja muito 
trabalho de grupos transversais na defesa de plataformas e políticas públicas 
que assegurem a equidade social.
As marcas do racismo estrutural permanecem reproduzidas na so-
ciedade contemporânea brasileira, uma vez que as contribuições dos 
povos negros parecem validadas pelas elites somente — e momentaneamente 
— quando sobressaem-se em manifestações artísticas ou esportivas, relegando 
à população preta brasileira os maiores índices de encarceramento, os maiores 
índices de violência obstétrica e os menores índices de acesso à educação 
superior. Reconhecer a violência escravocrata e, a partir de tal reconhecimento, 
desenvolver políticas públicas de reparação pode ser um caminho para que se 
alcance a equidade étnica na sociedade brasileira. 
Na letra da canção “Identidade”, de autoria do sambista Jorge Aragão, você 
pode observar um reflexo claro da segregação, do racismo estrutural e da 
violência simbólica expressas na marginalização de pessoas negras quando têm 
Formação sociocultural do Brasil I 17
de utilizar elevadores de serviço ao invés do social, uma separação tipicamente 
brasileira:
Se preto de alma branca pra você 
É o exemplo da dignidade 
Não nos ajuda, só nos faz sofrer 
Nem resgata nossa identidade 
Elevador é quase um templo 
Exemplo pra minar teu sono 
Sai desse compromisso 
Não vai no de serviço 
Se o social tem dono, não vai 
Quem cede a vez não quer vitória 
Somos herança da memória 
Temos a cor da noite 
Filhos de todo açoite 
Fato real de nossa história (ARAGÃO, 2021, documento on-line).
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Formação sociocultural do Brasil I20
A DINÂMICA DA ESCRAVIDÃO NO BRASIL
Resistência, tráfico negreiro e alforrias, séculos XVII a XIX 1
Rafael de Bivar Marquese
RESUMO 
O artigo examina as relações entre o tráfico negreiro transatlân-
tico para o Brasil, os padrões de alforria e a criação de oportunidades para a resistência escrava coletiva (formação de
quilombos e revoltas em larga escala), do final do século XVII à primeira metade do século XIX. Valendo-se das propo-
sições teóricas de Patterson e Kopytoff, sugere uma interpretação para o sentido sistêmico do escravismo brasileiro na
longa duração, sem dissociar a condição escrava da condição liberta, nem o tráfico das manumissões.
PALAVRAS-CHAVE: escravidão; história do Brasil; tráfico negreiro;
alforrias; resistência escrava.
SUMMARY 
The article examines the relationships between the transa-
tlantic slave trade for Brazil, manumissions patterns and the creation of opportunities for collective slave resistance
(formation of maroons communities and large revolts), from the end of the XVIIth century to the first half of the XIXth
century. Based on the theoretical propositions of Patterson and Kopytoff, it suggests an interpretation for the Brazilian
slave system in the long duration without dissociating the slave condition from the freedman one and the slave trade
from the manumissions.
KEYWORDS: slavery; Brazilian history; transatlantic slave trade;
manumissions; slave resistance.
NOVOS ESTUDOS 74 ❙❙ MARÇO 2006 107
[1] Texto originalmente apresen-
tado ao I Encontro entre Historiado-
res Colombianos e Brasileiros, pro-
movido pelo Ibraco em Bogotá,
Colômbia, em agosto de 2005.
O ENIGMA DE PALMARES
A Guerra dos Palmares foi um dos episódios de resistên-
cia escrava mais notáveis na história da escravidão do Novo Mundo.
Ainda que as estimativas das fontes coevas e dos historiadores sobre o
número total de habitantes divirjam bastante — de um mínimo de 6 mil
a um máximo de 30 mil pessoas –,não há como negar que as comunida-
des palmarinas, dada a extensão territorial e a quantidade de escravos
fugitivos que acolheram, tornaram-se o maior quilombo na história da
América portuguesa. Suas origens datam do início do século XVII, mas
sua formação como grande núcleo quilombola se deu apenas no con-
texto da invasão holandesa de Pernambuco,quando diversos escravos se
aproveitaram das desordens militares e fugiram para o sul da capitania.
08_Marquese.qxd 4/6/06 7:32 AM Page 107
[2] Sobre Palmares, ver, de Décio
Freitas:Palmares, a guerra dos escravos.
Rio de Janeiro: Graal, 1990 (1a ed.
1971) e República de Palmares. Pesquisae comentários em documentos históricos
do século XVII. Maceió: Editora da
Ufal, 2004. Sobre a resistência
escrava no Caribe inglês e francês e no
Suriname, ver Patterson, Orlando.
“Slavery and slave revolts: a socio-
historical analysis of the First
Maroon War, 1655-1740”. Social and
Economic Studies, vol. 19, no 3, set.
1970; Craton, Michael. Testing the
chains. Resistance to slavery in the Bri-
tish West Indies. Ithaca: Cornell Uni-
versity Press, 1982; Price, Richard.
First-Time. The historical vision of an
Afro-American people. Baltimore: The
Johns Hopkins University Press,
1983; Dubois, Laurent. Avengers of the
New World. The story of the Haitian
revolution. Cambridge, MA: Belknap
Press, 2004.
[3] Sobre a atividade quilombola em
Minas Gerais, ver Guimarães, Carlos
Magno. Uma negação da ordem escra-
vista. Quilombos em Minas Gerais no
século XVIII. São Paulo: Ícone, 1988;
sobre o ciclo de revoltas na Bahia, ver
Reis, João José. Rebelião escrava no
brasil. A história do levante dos malês em
1835. Ed. revista. São Paulo: Compa-
nhia das Letras, 2003.
[4] Essa é a explicação proposta por
Stuart Schwartz,que encontrou largo
desenvolvimento no trabalho de Sil-
via Lara. Ver, respectivamente desses
dois historiadores, os ensaios “Re-
pensando Palmares: resistência es-
crava na Colônia”. In: Escravos, rocei-
As comunidades rebeldes que então se organizaram resistiram a diver-
sas incursões da Companhia das Índias Ocidentais e, após a expulsão
dos holandeses, a ataques das tropas luso-brasileiras.
Nas décadas de 1670 e 1680, os africanos, crioulos e descendentes
alojados em Palmares eram vistos pelas autoridades metropolitanas
como “holandeses de outra cor”, por conta da ameaça que representa-
vam à ordem colonial portuguesa na América.Sua derrota pela força das
armas só ocorreu em meados da década seguinte,após um conflito secu-
lar com dois dos maiores poderes coloniais europeus do mundo
moderno. Antes da revolução escrava de São Domingos (1791-1804) e
das grandes revoltas abolicionistas do Caribe inglês no primeiro terço
do século XIX, o episódio de Palmares só teve equivalente na I Guerra
Maroon da Jamaica (1655-1739) e na Guerra dos Saramaca no Suriname
(1685-1762). Nesses dois casos, entretanto, os quilombolas consegui-
ram vencer as tropas repressoras, forçando autoridades e senhores a
reconhecerem a liberdade dos grupos revoltosos2.
A história da derrota do grande quilombo palmarino deu origem a
um enigma que há certo tempo chama a atenção dos especialistas em
escravidão brasileira: por que não houve outros Palmares na história do
Brasil? O ponto é importante,pois a atividade quilombola se ampliou no
século XVIII, com o aumento do volume do tráfico negreiro transatlân-
tico e a formação dos núcleos mineratórios no interior do território,
assumindo diferentes modalidades de norte a sul da América portu-
guesa. Afora as numerosas comunidades quilombolas, de dimensões e
duração variáveis, o Brasil viu aparecer no início do século XIX outra
forma de resistência escrava coletiva, presente no Caribe inglês havia
bom tempo:o ciclo de revoltas africanas que agitou o Recôncavo Baiano
entre 1807 e 18353.
A resposta que os historiadores forneceram ao enigma aponta para a
mudança na legislação escravista portuguesa. Após Palmares, dizem
eles, houve uma progressiva especificação das funções do capitão-do-
mato — responsável legal nas diferentes localidades da América portu-
guesa pela captura de escravos fugitivos — e delimitação, nas letras da
lei, do que seria uma comunidade quilombola. A institucionalização da
figura do capitão-do-mato e a definição de quilombo como qualquer
ajuntamento composto de alguns poucos escravos fugitivos teriam
tolhido, já no nascedouro, a formação de comunidades rebeldes com as
proporções de Palmares4. Creio, no entanto, ser possível avançar outra
explicação, que — sem negar a fornecida pelos historiadores que trata-
ram do assunto — recorre à configuração que o escravismo brasileiro
adquiriu a partir do final do século XVII.
O objetivo deste ensaio é justamente entender por que não houve
outros Palmares na história do Brasil. Para tanto, concentrarei minha
atenção nas relações entre tráfico negreiro transatlântico, alforrias e
criação de oportunidades para a resistência escrava coletiva (como a
formação de quilombos e as revoltas em larga escala),do final do século
108 A DINÂMICA DA ESCRAVIDÃO NO BRASIL ❙❙ Rafael de Bivar Marquese
08_Marquese.qxd 4/6/06 7:32 AM Page 108
ros e rebeldes. Bauru: Edusc, 2001, e
“Do singular ao plural: Palmares,
capitães-do-mato e o governo dos
escravos”. In: Reis, João José & Go-
mes, Flávio dos Santos (orgs.). Liber-
dade por um fio. História dos quilombos
no Brasil. São Paulo: Companhia das
Letras, 1996.
[5] A idéia que subjaz a essa diferen-
ciação deriva em parte da proposta de
Robin Blackburn para a contraposição
entre “escravidão barroca” e “escravi-
dão moderna”. Ver The making of New
World slavery. From the Baroque to the
Modern, 1492-1800. Londres: Verso,
1997.Blackburn,no entanto,não levou
em devida conta a inserção das regiões
de “escravismo barroco” na moderni-
dade, dentro da lógica do mercado
mundial.Ver,a respeito,as críticas per-
tinentes de Stuart Schwartz em “-
Review of the Making of New World Sla-
very: From the Baroque to the Modern,
1492-1800, by Robin Blackburn”. In:
William and Mary Quarterly, série 3,vol.
LV,no 3, jul.1998.
[6] Ver, a respeito, os seguintes tra-
balhos:Schwartz,Stuart.“Alforria na
Bahia, 1684-1745”. In: Escravos, rocei-
ros e rebeldes, pp. 165-212; Slenes,
Robert.The demography and economics
of Brazilian slavery: 1850-1888. Tese de
doutorado em História. Stanford:
Stanford University, 1976; Alencas-
tro, Luiz Felipe de. “La traite négrière
et l’unité nationale brésilienne”.
XVII à primeira metade do século XIX. A idéia é de que eventos como
Palmares, a Guerra Maroon jamaicana ou a campanha dos Saramaca
estiveram diretamente ligados à configuração de determinado tipo de
sistema escravista,que denominarei “escravismo de plantation”.Nesse
sistema, a produção econômica se concentrava em um único produto e
o quadro social era marcado por desbalanço demográfico entre brancos
livres e escravos negros, amplo predomínio de africanos nas escrava-
rias, poucas oportunidades para a obtenção de alforria e altas taxas de
absenteísmo senhorial.
Um sistema escravista dessa natureza, típico das colônias caribe-
nhas inglesas e francesas do século XVIII,e cujas características básicas
tiveram desenvolvimento apenas parcial na América portuguesa da pri-
meira metade do século XVII, não mais encontrou espaço nos dois
séculos subseqüentes da história do Brasil. Com a mineração, essa
mudança de fundo no caráter do escravismo brasileiro apenas se acen-
tuou. A instituição se difundiu social e espacialmente, com a dissemi-
nação da posse de escravos pelo tecido social e a criação de hierarquias
étnicas e culturais bastante complexas. Antigas áreas de plantation,
como a Zona da Mata pernambucana e o Recôncavo Baiano, mesmo
mantendo a produção escravista açucareira, verificaram igualmente
essas transformações5.
A partir de fim do século XVII, o sistema escravista brasileiro pas-
sou a escorar-se em uma estreita articulação entre tráfico transatlân-
tico de escravos bastante volumoso e número constante de alforrias.
Nessa equação, era possível aumentar a intensidade do tráfico, com a
introdução de grandes quantidades de africanos escravizados, sem
colocar em risco a ordem social escravista. Logo após a derrota de Pal-
mares, reduziram-se substancialmente as oportunidades de sucesso
para as revoltas escravas e os grandes quilombos no Brasil. Não por
acaso, com exceção de uma breve ocasião na década de 1670, ainda no
curso da Guerra dos Palmares, as autoridades coloniais portuguesas e
os representantes imperiais brasileiros sempre se recusaram a nego-
ciar com revoltosos e quilombolas. Essa posição política, que traduzia
o quadro das relações de força entre senhores e escravos no Brasil, teve
como contrapontoa atitude de ingleses e holandeses, forçados a reco-
nhecer em tratados de paz as conquistas que Maroon e Saramaca obti-
veram em campo de batalha.
É importante salientar que faz pelo menos três décadas os historia-
dores têm anotado a relação estreita que houve na história do Brasil entre
o volume do tráfico negreiro transatlântico e as altas taxas de alforrias6.
O que falta, acredito, é fornecer um enquadramento teórico mais subs-
tantivo para essa articulação,relacionando-a ao limitado campo de pos-
sibilidades de sucesso para a resistência escrava coletiva no Brasil.
Valendo-me dos estudos disponíveis, procurarei ler os resultados à
luz das proposições teóricas de Orlando Patterson e Igor Kopytoff, que
não secionam a experiência do escravo da experiência do forro; ambos
109NOVOS ESTUDOS 74 ❙❙ MARÇO 2006 
08_Marquese.qxd 4/6/06 7:32 AM Page 109
Revue Française d’Histoire d’Outre-
Mer, nos 244-245, 1979; Eisenberg,
Peter. “Ficando livre: as alforrias em
Campinas no século XIX”. In: Ho-
mens esquecidos. Escravos e trabalhado-
res livres no Brasil, séculos XVIII e XIX.
Campinas: Editora da Unicamp,
1989; Karash, Mary. A vida dos escra-
vos no Rio de Janeiro, 1808-1850. São
Paulo: Companhia das Letras, 2000;
Mattos, Hebe Maria. “A escravidão
moderna nos quadros do Império
português: o Antigo Regime em pers-
pectiva atlântica”. In: Bicalho, M. F.;
Gouvêa, M. de F. & Fragoso, João
(orgs.) Antigo Regime nos Trópicos. A
dinâmica imperial portuguesa (séculos
XVI-XVIII). Rio de Janeiro: Civiliza-
ção Brasileira, 2001; Florentino, Ma-
nolo. “De escravos, forros e fujões no
Rio de Janeiro Imperial”. Revista USP.
Dossiê Brasil Imperial, no 58, jul.-
ago. 2003.
[7] Kopytoff, Igor. “Slavery”. Annual
Review of Anthropology, vol.11, 1982,
pp. 221-22. Ver também Patterson,
Orlando. Slavery and social death. A
comparative study. Cambridge, Mass.:
Harvard University Press, 1982.
[8] Cf.Miller,Joseph C.“O Atlântico
escravista: açúcar, escravos e enge-
nhos”. Afro-Ásia, nos 19-20, 1997.
encaram a escravização, a situação de escravidão e a manumissão como
partes de um mesmo processo institucional. De acordo com a sugestiva
formulação de Kopytoff,
a escravidão não deve ser definida como um status,mas sim como um processo
de transformação de status que pode prolongar-se uma vida inteira e inclusive
estender-se para as gerações seguintes.O escravo começa como um estrangeiro
[outsider] social e passa por um processo para se tornar um membro [insi-
der].Um indivíduo,despido de sua identidade social prévia,é colocado à mar-
gem de um novo grupo social que lhe dá uma nova identidade social. A estra-
neidade [outsidedness], então,é sociológica e não étnica7.
Com base nessa proposição, tentarei sugerir um esquema interpre-
tativo para o sentido sistêmico do escravismo brasileiro na longa dura-
ção, sem dissociar a condição escrava da condição liberta e o tráfico
negreiro das alforrias.Como em todo ensaio,há sempre o risco derivado
do alto grau de generalização, afora o fato de esse sentido sistêmico não
ter sido de todo claro aos contemporâneos. A tomada de consciência do
processo institucional do escravismo brasileiro ocorreu apenas no início
do século XIX, mais especificamente no contexto da independência,
tanto pelos viajantes estrangeiros que então percorriam o território bra-
sileiro como, sobretudo, pelos construtores do Império do Brasil. Tal é
meu ponto de chegada.Noutros termos,pretendo demonstrar que a per-
cepção da experiência histórica colonial,que combinava tráfico negreiro
e alforrias, teve papel importante para definir o porvir da escravidão nos
quadros do Estado nacional brasileiro.
ESCRAVISMO DE PLANTATION
Nos séculos que se seguiram ao colapso do Império romano,a escra-
vidão não desapareceu por completo na Europa ocidental e mediterrâ-
nea. No entanto, no decorrer da Baixa Idade Média, a escravidão como
sistema de trabalho deixou de existir no Ocidente europeu,excetuando-
se os países do Mediterrâneo, isto é, das penínsulas Ibérica e Itálica.
Mesmo aí, ela foi, nos séculos XIV e XV, tão-somente uma instituição
urbana,com importância limitada no conjunto da economia;o emprego
em larga escala de cativos na produção agrícola havia se tornado residual
nestas últimas regiões. A recriação do escravismo, com o emprego mas-
sivo de escravos nas tarefas agrícolas, seria realizada por portugueses e
espanhóis só após a segunda metade do século XV, com a introdução da
produção açucareira nas ilhas atlânticas orientais (Canárias, Madeira,
São Tomé), e, no século XVI, com a colonização da América8.
Baseada na experiência acumulada com o fabrico do produto nas
ilhas da Madeira e de São Tomé,a Coroa portuguesa procurou estimular
a construção de unidades açucareiras no Brasil desde a década de 1530.
Mas, até os anos 1570, os colonos encontraram grandes dificuldades
110 A DINÂMICA DA ESCRAVIDÃO NO BRASIL ❙❙ Rafael de Bivar Marquese
08_Marquese.qxd 4/6/06 7:32 AM Page 110
[9] Cf. Schwartz, Stuart. Segredos in-
ternos. Engenhos e escravos na sociedade
colonial, 1550-1835. São Paulo: Com-
panhia das Letras, 1988, pp. 22-73;
Alencastro, Luiz Felipe de. O trato dos
viventes. Formação do Brasil no Atlân-
tico Sul, séculos XVI e XVII. São Paulo:
Companhia das Letras, 2000, p. 69.
Todos os dados sobre o tráfico transa-
tlântico de africanos para o Brasil
doravante citados foram retirados
dessa fonte.
para fundar em bases sólidas uma rede de engenhos no litoral,como pro-
blemas com o recrutamento da mão-de-obra e falta de capitais para
financiar a montagem dos engenhos.Ao serem superadas tais dificulda-
des, com atrelamento da produção brasileira aos centros mercantis do
Norte da Europa e articulação do tráfico de escravos entre África e Brasil,
tornou-se viável o arranque definitivo da indústria de açúcar escravista
da América portuguesa,o que ocorreu entre 1580 e 1620,quando o cres-
cimento acelerado da produção brasileira ultrapassou todas as outras
regiões abastecedoras do mercado europeu.
Cabem aqui algumas palavras sobre o papel que o tráfico transatlân-
tico de africanos desempenhou no deslanche da produção açucareira
brasileira. A mão-de-obra empregada na montagem dos engenhos de
açúcar no Brasil foi predominantemente indígena.Uma parte dos índios
(recrutados em aldeamentos jesuíticos no litoral) trabalhava sob regime
de assalariamento,mas a maioria era submetida à escravidão.Os primei-
ros escravos africanos começaram a ser importados em meados do
século XVI; seu emprego nos engenhos brasileiros, contudo, ocorria
basicamente nas atividades especializadas. Por esse motivo, eram bem
mais caros que os indígenas: um escravo africano custava, na segunda
metade do século XVI, cerca de três vezes mais que um escravo índio.
Após 1560, com a ocorrência de várias epidemias no litoral brasileiro
(como sarampo e varíola),os escravos índios passaram a morrer em pro-
porções alarmantes, o que exigia reposição constante da força de traba-
lho nos engenhos. Na década seguinte, em resposta à pressão dos jesuí-
tas, a Coroa portuguesa promulgou leis que coibiam de forma parcial a
escravização de índios. Ao mesmo tempo, os portugueses aprimoravam
o funcionamento do tráfico negreiro transatlântico, sobretudo após a
conquista definitiva de Angola em fins do século XVI. Os números do
tráfico bem o demonstram: entre 1576 e 1600, desembarcaram em por-
tos brasileiros cerca de 40 mil africanos escravizados; no quarto de
século seguinte (1601-1625), esse volume mais que triplicou, passando
para cerca de 150 mil os africanos aportados como escravos na América
portuguesa, a maior parte deles destinada a trabalhos em canaviais e
engenhos de açúcar9.
O sucesso da produção escravista de açúcar da América portuguesa
logo atraiu a atenção dos demais poderes coloniais europeus. Já em fim
do século XVI, era crescente o envolvimento de negociantes ingleses e
holandeses no comércio açucareiro entre Brasil e Europa. As invasões
holandesas da Bahia (1624) e Pernambuco (1630) foram em grande
parte motivadas pelo dinamismo da economiaaçucareira dessas capita-
nias. Os membros e acionistas da Companhia das Índias Ocidentais
holandesa (WIC),contudo,na época em que comandaram a invasão das
regiões produtoras de açúcar no Brasil, desconheciam por completo os
segredos da produção do artigo, que se resumiam basicamente a três
aspectos:as técnicas de processamento da cana-de-açúcar,as técnicas de
administração dos escravos e a organização do tráfico negreiro transa-
111NOVOS ESTUDOS 74 ❙❙ MARÇO 2006 
08_Marquese.qxd 4/6/06 7:32 AM Page 111
[10] Cf. Alencastro, O trato dos viven-
tes, pp.188-246; Marquese, Rafael de
Bivar. Administração & escravidão.
Idéias sobre a gestão da agricultura
escravista brasileira. São Paulo: Huci-
tec, 1999, pp. 42-49; Puntoni, Pedro.
A mísera sorte. A escravidão africana no
Brasil holandês e as guerras do tráfico no
Atlântico Sul, 1621-1648. São Paulo:
Hucitec, 1999.
[11] Cf. Emmer, P. C. “The Dutch and
the making of the second atlantic
system”. In: Solow, B. (org.). Slavery
and the rise of the Atlantic System.
Cambridge: Cambridge University
Press, 1991.
[12] Cf. Schwartz, “Repensando Pal-
mares”, pp. 244-55.
tlântico. Cedo os invasores perceberam a estreita relação geoeconômica
que havia entre a África e as regiões de plantation escravista na América.
De nada valeriam as possessões brasileiras se não se conquistassem os
pontos que forneciam escravos do outro lado do Atlântico. Por esse
motivo, sob o comando de Maurício de Nassau, a WIC promoveu em
1638 a conquista do entreposto português de São Jorge da Mina e em
1641 a invasão de Angola10.
O domínio holandês em Pernambuco durou pouco. Em 1645, eclo-
diu a revolta dos colonos luso-brasileiros, que levaria à expulsão defini-
tiva dos holandeses da América portuguesa em 1654; antes disso, em
1648, os colonos luso-brasileiros do Rio de Janeiro se responsabiliza-
ram diretamente pela expulsão dos holandeses de Angola. Com o fra-
casso da experiência brasileira e angolana, a WIC deixou de priorizar a
produção de açúcar e passou a direcionar-se para a compra do produto
obtido em regiões que não estavam sob seu comando direto.Nesse sen-
tido, os comerciantes holandeses procuraram estimular os colonos
ingleses e franceses do Caribe a produzir açúcar.Ainda durante a ocupa-
ção do Brasil, na segunda metade da década de 1640, os mercadores
holandeses transmitiram as técnicas dos engenhos brasileiros aos colo-
nos ingleses de Barbados e aos franceses da Martinica e Guadalupe,além
de abastecê-los com escravos trazidos dos entrepostos da WIC no golfo
da Guiné.A partir da década de 1660,a produção de açúcar com mão-de-
obra escrava nas ilhas inglesas e francesas verificou crescimento notável,
além de os mercadores desses dois países passarem a envolver-se direta-
mente no tráfico negreiro transatlântico. No começo do século XVIII, a
paisagem física e humana do Caribe havia se modificado completa-
mente:as ilhas converteram-se em imensos canaviais e a população tor-
nou-se esmagadoramente negra, quase toda ela escravizada11.
No curso das guerras contra os holandeses no Atlântico Sul, o abas-
tecimento de escravos aos engenhos brasileiros diminuiu de forma sen-
sível. Se, entre 1601 e 1625, haviam sido introduzidos cerca de 150 mil
africanos escravizados na América portuguesa, no quarto de século
seguinte esse volume se reduziu para apenas 50 mil. De todo modo, a
invasão holandesa de Pernambuco e os conflitos que se seguiram contra
os colonos luso-brasileiros abriram boas oportunidades de resistência
aos escravos que haviam desembarcado em grande número no primeiro
quarto do século XVII. Não por acaso, o aporte cultural decisivo para a
configuração política do reino “neoafricano” de Palmares foi fornecido
pelos grupos humanos originários do Centro-Sul da África,exatamente
a zona em que os traficantes portugueses mais operaram a partir de fim
do século XVI12.
A dimensão e a força do quilombo de Palmares se explicam não ape-
nas pela conjuntura do conflito imperial entre portugueses e holande-
ses, mas pela própria demografia da região das plantations açucareiras
pernambucanas. Qualquer assertiva categórica sobre a composição da
população colonial antes do século XVIII é perigosa, mas creio que não
112 A DINÂMICA DA ESCRAVIDÃO NO BRASIL ❙❙ Rafael de Bivar Marquese
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há riscos em afirmar que quando os holandeses invadiram a capitania de
Pernambuco, os escravos negros predominavam em termos numéricos
sobre a população branca — e mesmo sobre os indígenas “domestica-
dos”.Pode-se afirmar também,com base nos poucos dados disponíveis,
que a população negra livre era relativamente diminuta. Tratava-se,
enfim, de um quadro demográfico bastante propício à eclosão de movi-
mentos coletivos de resistência escrava,como a experiência posterior do
Caribe inglês bem o demonstraria.
Após a expulsão dos holandeses, as tropas luso-brasileiras se
encarregaram do combate sem trégua aos palmarinos. O grande pro-
blema a ser enfrentado pelos colonos, no entanto, encontrava-se na
esfera econômica. A rápida montagem do complexo açucareiro escra-
vista nas Antilhas a partir da década de 1650 logo trouxe forte impacto
negativo para a economia açucareira na América portuguesa. O cresci-
mento das produções inglesa e francesa no Caribe derrubou o preço do
açúcar nos mercados europeus, ao mesmo tempo que a demanda por
trabalhadores negros nas plantations antilhanas aumentou os preços
dos escravos no litoral africano. Além disso, os senhores de engenho
luso-brasileiros tiveram que enfrentar outros dois problemas. Em pri-
meiro lugar,devido às políticas mercantilistas adotadas pela Inglaterra
e pela França na segunda metade do século XVII, que procuravam esti-
mular a produção antilhana garantindo-lhe proteções monopolistas, o
açúcar brasileiro foi praticamente excluído desses dois mercados euro-
peus. Em segundo lugar, entre 1640 e 1668, Portugal travou uma dura
guerra contra a Espanha em prol da independência, no exato momento
em que o “Império da Pimenta” oriental entrava em colapso. Na
segunda metade do século XVII, as possessões do Novo Mundo se tor-
naram o sustentáculo econômico de Portugal. Uma tributação pesada
sobre o açúcar brasileiro foi criada então para dar conta dos gastos com
a diplomacia e a defesa do Reino.
Tais atribulações não impediram a sobrevivência da economia açu-
careira na América portuguesa. Em que pesem a desorganização trazida
pelas guerras do Atlântico Sul entre as décadas de 1620 e 1650,a elevada
taxação pós-1650,a concorrência antilhana e a restrição do acesso a cer-
tos mercados europeus,os senhores de engenho luso-brasileiros conse-
guiram manter a produção de açúcar em patamares estáveis. Para tanto,
foi vital a consolidação do sistema atlântico bipolar unindo a África aos
portos brasileiros, assegurada pela reconquista de Angola em 1648. Na
segunda metade do século XVII, foram introduzidos cerca de 360 mil
africanos escravizados no Brasil.Tal sistema,ao garantir um fluxo contí-
nuo de escravos a baixo custo para os engenhos brasileiros, viabilizou a
atividade econômica açucareira da Colônia em uma conjuntura interna-
cional bastante adversa.
Algumas evidências sugerem que, naquele período conturbado da
economia açucareira, as alforrias ganharam impulso. É certo que a
manumissão de escravos se fez presente na Colônia desde os primeiros
113NOVOS ESTUDOS 74 ❙❙ MARÇO 2006 
08_Marquese.qxd 4/6/06 7:32 AM Page 113
[13] Cf. Schwartz, “Alforria na Bahia,
1684-1745”, pp. 165-212.
[14] Marcílio, Maria Luiza. “A popu-
lação do Brasil colonial”. In: Bethell,
Leslie (org.). História da América
Latina. Vol. 2: América Latina Colo-
nial. São Paulo: Edusp/Funag, 1999,
p. 321.
anos. No entanto, a existência de documentação seriada da prática ape-
nas na segunda metade do século XVII talvez indique que ela tenha se
disseminado só após essa época. Na historiografia da escravidão brasi-
leira,um dos primeiros estudos feitos sobre o tema tratou exatamente da
Bahia — ao lado de Pernambuco, o centro da economiaaçucareira colo-
nial — entre 1684 e 1745. O pesquisador Stuart Schwartz registrou e
analisou uma série de práticas relacionadas à manumissão, as quais
depois se repetiriam em diferentes tempos e espaços na América portu-
guesa e no Império do Brasil. Dentre as mais de mil cartas de alforrias
examinadas pelo autor,houve uma proporção constante de duas mulhe-
res libertadas para cada homem.Dado o amplo predomínio numérico de
homens no tráfico transatlântico e na própria composição das escrava-
rias, escreve Schwartz, “as mulheres obtinham liberdade numa propor-
ção muito maior do que as expectativas estatísticas”. Igualmente privi-
legiados do ponto de vista estatístico foram os escravos nascidos no
Brasil, isto é, os crioulos e, sobretudo, os pardos: este grupo constituiu
69% do universo das alforrias, contra apenas 31% de africanos liberta-
dos.Houve,por fim,grande proporção de crianças e adolescentes meno-
res de 14 anos entre os alforriados. A tendência predominante de alfor-
riar mulheres escravas em idade fértil, conclui Schwartz, comprometeu
as possibilidades de reprodução demográfica auto-sustentável da escra-
vidão brasileira, o que acabou por acentuar o papel estrutural do tráfico
negreiro transatlântico para repor a força de trabalho escrava13.
MINERAÇÃO
Esse padrão demográfico se consolidou com as descobertas aurífe-
ras na virada do século XVII para o XVIII, ampliando-se geografica-
mente. A atração que a possibilidade de enriquecimento rápido exerceu
sobre a população metropolitana e colonial foi imensa, levando grandes
contingentes humanos a se transferirem para a nova região das minas.
Esse afluxo constituiu, nos termos de uma especialista, “a primeira
grande migração maciça na história demográfica brasileira”14. Afora o
deslocamento interno na Colônia, as minas atraíram para o Brasil um
quantidade ainda maior de imigrantes portugueses, calculada em cerca
de 400 mil indivíduos durante todo o século XVIII. A grande onda
migratória para a região, contudo, foi compulsória. O volume do tráfico
transatlântico de escravos para a América portuguesa,que já era o maior
do Novo Mundo, duplicou na primeira metade do Setecentos. Entre
1701 e 1720,desembarcaram nos portos brasileiros cerca de 292 mil afri-
canos escravizados, em sua maioria destinados às minas de ouro. Entre
1720 e 1741, novo aumento: 312,4 mil indivíduos. Nas duas décadas
seguintes, o tráfico atingiu seu pico máximo: 354 mil africanos escravi-
zados foram introduzidos na América portuguesa entre 1741 e 1760.
O enorme avanço territorial e demográfico da colonização portu-
guesa na América ocorrido no século XVIII se fez acompanhar por um
114 A DINÂMICA DA ESCRAVIDÃO NO BRASIL ❙❙ Rafael de Bivar Marquese
08_Marquese.qxd 4/6/06 7:32 AM Page 114
[15] Para uma visão de conjunto,ver o
trabalho de síntese de Souza, Laura
de Mello & Bicalho, Maria Fernanda.
1680-1720. O império deste mundo. São
Paulo: Companhia das Letras, 2000.
[16] Dentre esses estudos, veja-se
com proveito Vallejos, Julio Pinto.
“Slave control and slave resistance in
colonial Minas Gerais, 1700-1750”.
Journal of Latin American Studies,
vol.17, no 1, maio 1985.
[17] Reis, João José. “Quilombos e
revoltas escravas no Brasil”. Revista
USP. Dossiê Povo Negro — 300 anos.
no 28, dez. 1995-fev. 1996, p.18.
aumento correspondente das tensões econômicas, sociais e políticas.
No caso específico de Minas Gerais, capitania criada em 1720, o pro-
cesso tumultuário de ocupação de seu território se traduziu no aguça-
mento dos conflitos: carência alimentar, que provocou fomes terríveis
nos primeiros anos e a que se sucederam ações especulativas no abaste-
cimento de gêneros de primeira necessidade para a região;embates entre
os primeiros descobridores-povoadores (paulistas) e os adventícios,
tanto da Colônia como do Reino,que explodiram na Guerra dos Emboa-
bas; esforços da Coroa para impor seu poder na região, com a criação de
vilas e a instalação de um aparato burocrático, acompanhados em con-
trapartida por resistência aguda dos colonos a tal política de normatiza-
ção15.Para nossos fins,no entanto, interessa ressaltar outro tipo de con-
flito social, expresso nas fugas, na formação de quilombos e em planos
mais amplos de levante escravo.
Com efeito, diversos autores apontam que, dadas as condições par-
ticulares da atividade mineratória, os escravos tiveram aí maiores opor-
tunidades para exercer sua autonomia e resistir ao controle senhorial. A
dispersão espacial das lavras auríferas,a possibilidade de os trabalhado-
res se apropriarem de parte dos resultados da extração ou o próprio con-
trole que detinham sobre o processo de trabalho (como no caso notório
dos pretos-minas, reputados como grande mineradores no período)
ampliaram sobremaneira a autonomia escrava. Por essas razões, os
senhores recorreram com freqüência a meios não coercitivos para garan-
tir a regularidade da extração, o que, por sua vez, facilitou o acúmulo de
numerário e a compra da alforria pelos cativos16.
A existência de canais para o exercício da autonomia escrava não sig-
nificou tão somente acomodação com os poderes senhoriais, mas tam-
bém maiores possibilidades para a resistência.Quanto ao último ponto,
os historiadores registram a presença de um grande número de quilom-
bos em Minas Gerais, os quais, repetidas vezes, mantiveram intensas
trocas econômicas com a sociedade que os circundava. João José Reis
indica que essa multiplicação da atividade quilombola pode ter sido
decorrência da própria sanha repressora da metrópole,pois a “definição
mesquinha” de quilombo 
como o ajuntamento de cinco ou mais negros fugidos arranchados em sítios des-
povoados [...],concebida para melhor controlar as fugas,terminou por agigan-
tar o fenômeno aos olhos de seus contemporâneos e de estudiosos posteriores17.
Correta ou não a avaliação, o certo é que, dentre a miríade de peque-
nos ajuntamentos de fugitivos,houve pelo menos dois grandes quilom-
bos em Minas Gerais, cuja população atingiu a casa do milhar: o Qui-
lombo do Ambrósio,derrotado em 1746,e o Quilombo Grande,vencido
em 1759. Afora esses dois exemplos, os pesquisadores identificaram
ainda três planos de levante escravos (1711, 1719 e 1756), todos desbara-
tados antes que eclodissem.
115NOVOS ESTUDOS 74 ❙❙ MARÇO 2006 
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[18] Apud Lara, Silvia. “Do singular
ao plural: Palmares, capitães-do-
mato e o governo dos escravos”,p.90.
[19] Cf. Ramos, Donald. “O quilom-
bo e o sistema escravista em Minas
Gerais do século XVIII”.In:Reis,João
José & Gomes, Flávio dos Santos
(orgs.). Liberdade por um fio. História
dos quilombos no Brasil. São Paulo:
Companhia das Letras, 1996.
[20] Russell-Wood, A. J. R. Escravos e
libertos no Brasil colonial. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira,2005,p.315.
A questão formulada no início do ensaio volta aqui: diante desse
quadro social explosivo, com amplo predomínio numérico da popula-
ção negra sobre a população branca, por que não houve nada similar a
Palmares em Minas Gerais? A pergunta é ainda mais intrigante se lem-
brarmos que o exemplo dos palmarinos rondou a cabeça das autorida-
des públicas mineiras por toda a primeira metade do século XVIII. As
advertências feitas em 1718 pelo conde de Assumar ao rei d. João V são
famosas:segundo o governador da então capitania de São Paulo e Minas
do Ouro, o combate aos quilombolas era assunto de fundamental rele-
vância, pois dele poderia “depender a conservação ou ruína deste país
[...] porque vejo mui inclinada a negraria deste governo a termos aqui
algo semelhante aos Palmares de Pernambuco”18.
Como já vimos, a resposta corrente é de que uma dura legislação
repressiva, somada à institucionalização da figura do capitão-do-mato,
impediu a eclosão de novos Palmares na América portuguesa. Alguns
historiadores, no entanto, apresentam explicação alternativa. Donald
Ramos, por exemplo, sugere que a própria proliferação de pequenas
comunidades fugitivas em Minas Gerais serviu para esvaziar o poder de
contestação ao sistemaescravista. O comércio ativo que muitos desses
pequenos quilombos estabeleceram com a sociedade mineratória indi-
caria que eles representaram antes uma “válvula de escape” do que uma
oposição frontal ao sistema escravista19. O que mais nos interessa na
argumentação de Ramos, contudo, é sua lembrança de que as alforrias
desempenharam papel análogo como esteio da ordem social escravista.
De fato, a prática da manumissão encontrou enorme difusão na
América portuguesa a partir do século XVIII.Não por acaso,uma parcela
substantiva dos estudos sobre o assunto tratam de Minas Gerais nesse
período.Diante da impossibilidade de passar em revista todos os traba-
lhos disponíveis ou mesmo os mais relevantes,o sumário dos resultados
apresentado recentemente por John Russell-Wood é bastante útil. Dois
pontos particularizaram a experiência mineira no conjunto da América
portuguesa:em primeiro lugar,a tendência a libertar-se mais no período
de apogeu (primeira metade do século XVIII) do que no período de retra-
ção da atividade aurífera;em segundo lugar,a presença mais freqüente da
coartação como mecanismo de libertação dos escravos, isto é, do paga-
mento da carta de alforria pelo escravo em parcelas periódicas. Em tudo
o mais que diz respeito à prática da manumissão,resume Russell-Wood,
os estudos sobre as minas setecentistas 
concordam que as mulheres eram preferidas aos homens,os mulatos aos negros,
os nascidos no Brasil aos nascidos na África,os escravos urbanos aos das regiões
rurais e que muitos senhores preferiam alforriar bebês em vez de adultos20.
As alforrias em Minas Gerais, enfim, em linhas gerais reiteraram o
modelo que Stuart Schwartz encontrou para a Bahia já em fim do século
XVII.Esse padrão obedeceu a uma norma básica:quanto mais afastados
116 A DINÂMICA DA ESCRAVIDÃO NO BRASIL ❙❙ Rafael de Bivar Marquese
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[21] Cf. Watts, David. Las Indias Occi-
dentales. Modalidades de desarrollo,
cultura y cambio medioambiental desde
1492. Madri: Alianza Editoral, 1992,
pp. 355-70.
[22] Sobre a escravidão na América
inglesa continental e na América
espanhola,ver Blackburn,The making
of New World slavery, pp. 457-508.
da experiência do tráfico negreiro transatlântico,maiores seriam as pos-
sibilidades de os escravos e as escravas ganharem alforria;o homem afri-
cano, predominante nos tumbeiros, dificilmente a obteria, mas seus
descendentes, em uma ou mais gerações, sim.
O SISTEMA BRASILEIRO
No fim do século XVIII e início do XIX, a América portuguesa con-
tava com uma configuração demográfica ímpar no quadro das socieda-
des coloniais do Novo Mundo. Para compreendê-la devidamente, vale
dar uma olhada a vôo de pássaro nas demais colônias européias de então.
As diversas ilhas açucareiras do Caribe inglês e francês, em que
pesem as variações, apresentaram durante todo o século XVIII desba-
lanço enorme entre a quantidade de brancos e escravos negros.O predo-
mínio numérico dos últimos foi esmagador, mesmo em colônias com
maior número relativo de colonos de origem européia.Esse foi o caso de
Barbados, que, durante o Setecentos, teve sempre cerca de quatro escra-
vos negros para cada branco.Já em colônias como São Domingos,às vés-
peras da revolução a proporção era de quinze escravos para cada branco.
Tampouco o número de negros e mulatos livres chegou a equipar-se com
o de escravos. Em São Domingos, esses grupos — que seriam decisivos
para o início da revolução que acabou por levar ao término da escravidão
e do domínio francês — não somavam mais do que 30 mil indivíduos,
número equivalente ao da população branca. Na Jamaica, a proporção
era ainda menor21.
As colônias do Sul da América inglesa continental e,posteriomente,
os estados do Sul da República norte-americana, constituíram a outra
sociedade escravista do Novo Mundo que teve caráter birracial. Se lá a
quantidade de negros e mulatos livres era tão reduzida em termos rela-
tivos como no Caribe inglês e francês, havia porém equilíbrio demográ-
fico entre a comunidade branca e a comunidade negra escravizada.
Por fim, a América espanhola exibia a maior variedade demográfica
entre as colônias européias,contando no entanto com o aporte decisivo,
nas colônias continentais, do elemento indígena. A concentração da
escravidão negra em cidades ou enclaves (como a região de Caracas, a
região de Chocó, a costa de Lima) não permite caracterizar a sociedade
colonial espanhola como genuinamente escravista22.
A América portuguesa, pelo contrário, constituía uma sociedade
desse tipo,mas algo distinta do que se observava no Caribe inglês e fran-
cês e no Sul dos Estados Unidos. O que a diferenciava era justamente
uma considerável população livre negra ou mestiça descendente de afri-
canos,a qual vivia lado a lado com uma quantidade substantiva de bran-
cos, e uma maioria escravizada, composta em sua maioria de africanos e
um número menor de crioulos e pardos nascidos na América. Em que
pesem as variações de capitania a capitania (no extremo norte e no
extremo sul, por exemplo, havia predomínio indígena) e as imprecisões
117NOVOS ESTUDOS 74 ❙❙ MARÇO 2006 
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[23] Cf. Marcílio, “A população do
Brasil colonial”.
[24] Alencastro, O trato dos viventes,
p. 353.
dos dados demográficos disponíveis, a população colonial brasileira no
início do século XIX guardava as seguintes proporções:28% de brancos,
27,8% de negros e mulatos livres, 38,5% de negros e mulatos escraviza-
dos, 5,7% de índios23.
A gênese dessa grande população livre negra e mulata se deu, funda-
mentalmente, pela dinâmica do tráfico transatlântico de escravos aco-
plada à dinâmica da alforria.A escravização dos africanos,seu transporte
para o Brasil,as atividades que aqui desempenharam como escravos (em
geral, nas tarefas rurais e urbanas que não exigiam qualificação), a
recomposição dos laços familiares e culturais,a produção de descenden-
tes, que, em uma ou mais geração, certamente obteriam a liberdade via
manumissão: todos esses movimentos e outros mais podem ser tidos
como parte de um processo institucional em larga escala de transforma-
ção de status, tal como propuseram Patterson e Kopytoff.
Luiz Felipe de Alencastro percebeu com rara felicidade esse movi-
mento na conclusão de seu O trato dos viventes, ao examinar o que deno-
mina de a “invenção do mulato”. Segundo ele, as práticas de favoreci-
mento dos mulatos na América portuguesa podem ser observadas em
medidas como:emprego mais freqüente desse grupo em trabalhos qua-
lificados, uso militar em tropas auxiliares, e sobretudo, privilegiamento
no ato da manumissão. A esse quadro, Alencastro contrapõe a situação
na África portuguesa, onde os mulatos foram desde cedo equiparados
aos negros. Em seus termos,
houve no Brasil um processo específico que transformou a miscigenação —
simples resultado demográfico de uma relação de dominação e de exploração
— na mestiçagem,processo social complexo dando lugar a uma sociedade plu-
rirracial. O fato de esse processo ter se estratificado e, eventualmente, ter sido
ideologizado, e até sensualizado, não se resolve na ocultação de sua violência
intrínseca, parte consubstancial da sociedade brasileira: em última instância,
há mulatos no Brasil e não há mulatos em Angola porque aqui havia a opres-
são sistêmica do escravismo colonial,e lá não24.
Resumindo: para garantir a reprodução da sociedade escravista bra-
sileira no tempo, fundada na introdução incessante de estrangeiros, era
fundamental criar mecanismos de segurança que pudessem evitar um
quadro social tenso como o do Caribe inglês e francês ou mesmo o de
Pernambuco no século XVII. A libertação gradativa dos descendentes
dos africanos escravizados — não mais estrangeiros, mas sim brasilei-
ros — constituiu o principal desses meios.A prova definitiva da validade
dessa equação é a associação de negros e mulatos libertos e livres com o
sistema escravista:o grande anseio econômico e social desses grupos era
exatamente a aquisição de escravos, ou seja, tornar-sesenhor.
Diversos trabalhos recentes documentam a prática bastante
comum de negros e mulatos livres, libertos e mesmos escravos serem
donos de escravos.Por conta da dinâmica do tráfico para o Brasil,o mais
118 A DINÂMICA DA ESCRAVIDÃO NO BRASIL ❙❙ Rafael de Bivar Marquese
08_Marquese.qxd 4/6/06 7:32 AM Page 118
[25] Cf. Florentino, Manolo. Em cos-
tas negras. Uma história do tráfico
atlântico de escravos entre a África e o
Rio de Janeiro (séculos XVII e XIX). Rio
de Janeiro: Arquivo Nacional, 1995.
volumoso na história do comércio negreiro transatlântico, o africano
escravizado era uma mercadoria socialmente barata25.Foi isso que per-
mitiu odisseminar da escravidão pelo tecido social brasileiro, mar-
cando a particularidade desse sistema escravista. Essa mecânica, por
sua vez, teve peso decisivo para a configuração econômica igualmente
ímpar da América portuguesa.
Como há muito é consenso na historiografia brasileira, a partir do
século XVIII,com o impacto da mineração,houve grande diversificação
na economia colonial. Antes de mais nada, pelo aparecimento de uma
produção ativa voltada ao abastecimento do mercado interno, como a
pecuária no Rio Grande do Sul e no vale do São Francisco, ou a produ-
ção de mantimentos na própria capitania de Minas, em São Paulo e no
Rio de Janeiro. O surgimento de vários núcleos urbanos em Minas
Gerais, e mesmo o crescimento de antigas cidades como Rio de Janeiro
e Salvador, também ativaram a economia interna. A produção de
tabaco, no Recôncavo Baiano, foi outra atividade que recebeu impulso,
pois se tratava de uma mercadoria central para a aquisição de cativos na
Costa da Mina, especialmente valorizados nas zonas mineradoras. E,
por último, não se pode esquecer que os enclaves de plantations açuca-
reiras no Recôncavo Baiano, na Zona da Mata pernambucana e em
Campos dos Goitacazes mantiveram sua vitalidade ao longo do século,
a despeito da competição antilhana, que havia excluído seus produto-
res dos mercados inglês e francês.
O que importa para esta análise é o fato de todas essas atividades
— rurais e urbanas — terem se baseado na escravidão,com uma estru-
tura de posse dos escravos que os distribuía por diferentes faixas de
riqueza, sem concentrá-los apenas nas mãos dos senhores mais capi-
talizados ou mesmo dos proprietários brancos. A América portu-
guesa, portanto, combinava com essas diferentes operações econômi-
cas o leque das formas de exploração do trabalho escravo presentes no
Novo Mundo: a mineração e a escravidão urbana da América espa-
nhola, as plantations escravistas do Caribe, a produção de mantimen-
tos da região de Chesapeake.
Poder-se-ia argumentar que era igualmente essa a configuração
econômica da América espanhola, que tinha na região de Caracas, por
exemplo, um escravismo de plantation. Há que se lembrar, contudo,
três diferenças básicas entre uma e outra.Em primeiro lugar,o peso eco-
nômico decisivo da população indígena nas áreas centrais da América
espanhola,contraposto à generalização do trabalho escravo na América
portuguesa. Em segundo lugar, a ausência de integração econômica
entre as colônias da América espanhola: a despeito da profunda cisão
entre o vale Amazônico e o restante da Colônia, a mineração permitiu,
na América portuguesa,uma integração econômica nada desprezível —
ante os meios de transporte do período –, do Rio Grande do Sul a Per-
nambuco. Terceiro, e mais importante, para a reprodução ampliada da
economia, o tráfico negreiro transatlântico teve papel crucial na Amé-
119NOVOS ESTUDOS 74 ❙❙ MARÇO 2006 
08_Marquese.qxd 4/6/06 7:32 AM Page 119
[26] Cf.Barickman,B.J.Um contrapon-
to baiano. Açúcar, fumo, mandioca e
escravidão no Recôncavo, 1780-1860. Rio
de Janeiro:Civilização Brasileira,2003.
rica portuguesa.Há,neste ponto,uma distinção substantiva em relação
às colônias inglesas e francesas: lá,o tráfico negreiro sempre foi contro-
lado a partir das respectivas metrópoles; na América portuguesa, pelo
contrário, desde o século XVII, o tráfico foi gerido diretamente a partir
dos portos brasileiros, isto é, os grandes traficantes que garantiam a
reprodução do sistema escravista estavam sediados em Recife, Salva-
dor e Rio de Janeiro, e não em Lisboa.
A crise da mineração e a expansão da agroexportação escravista na
passagem do século XVIII para o XIX — com o surgimento de novas áreas
produtoras,como Maranhão (com o algodão) e o oeste de São Paulo (com
o açúcar) — e a recuperação de antigas áreas produtoras, como Pernam-
buco,Bahia e Rio de Janeiro,não romperam com o sentido sistêmico que
o escravismo brasileiro adquirira no século precedente. Muito pelo con-
trário, pois foi exatamente aquela configuração social e econômica que
forneceu as bases para a pronta resposta dos produtores escravistas da
América portuguesa às novas condições favoráveis do mercado mundial.
Para os fins deste ensaio, interessa examinar o caso da resposta dos
baianos, de grande relevo para a linha central de sua argumentação. A
revolução escrava de São Domingos na década de 1790 trouxe modifica-
ções profundas nos quadros da produção de açúcar nas Américas.Antes
dessa data, a colônia francesa respondia por cerca de 30% da produção
mundial total de açúcar e era a maior produtora mundial de café. Com o
levante dos escravos, a partir de 1791, a produção açucareira e cafeeira de
São Domingos entrou em colapso, abrindo enormes possibilidades
para a produção desses gêneros em outras colônias nas Américas, a que
se deve somar o aumento da demanda por gêneros tropicais nos países
em processo de industrialização. Em vista dessa nova conjuntura, o trá-
fico negreiro transatlântico para a Bahia se acelerou para atender à
demanda do setor açucareiro por novos trabalhadores. A reativação da
agroexportação no Recôncavo Baiano se fez acompanhar pela ampliação
do cultivo de mantimentos nas paróquias que não eram adequadas ao
plantio da cana e que também empregavam em larga escala a mão-de-
obra escrava. A própria cidade de Salvador viu sua população ampliar,
com o conseqüente aumento no número de cativos26.
Desde fim do século XVII,a zona de eleição do tráfico transatlântico
de escravos para Bahia era a Costa da Mina,ainda que parte dos trafican-
tes operasse também em Angola. Na virada do século XVIII para o XIX,
aumentou muito a oferta de cativos na Costa da Mina aos comerciantes
baianos, por duas razões: primeiro, os traficantes ingleses e franceses
deixaram de operar na área, devido ao fim do tráfico para suas colônias;
segundo, as guerras intestinas na região, derivadas da jihad promovida
por Usman dan Fodio, produziram grande quantidade de cativos, dos
quais parte substancial foi direcionada à Bahia.
Esses grupos egressos da Costa da Mina,sob diferentes identidades
(Nagô, Hauçá, Jeje, Tapa), promoveram o maior ciclo de revoltas escra-
vas africanas de que se tem notícia na história do Brasil. O caráter de
120 A DINÂMICA DA ESCRAVIDÃO NO BRASIL ❙❙ Rafael de Bivar Marquese
08_Marquese.qxd 4/6/06 7:32 AM Page 120
[27] Reis, João José. Rebelião escrava
no Brasil, p. 9.
[28] Reis, op cit., p. 322.
resistência sistêmica à escravidão só teve equivalente, antes, na Guerra
dos Palmares e,depois,no movimento abolicionista da década de 1880.
Com efeito,entre 1807 e 1835,a Bahia viveu um período de rebeliões con-
tínuas dos escravos africanos, cujo ápice foi a Revolta dos Malês, “le-
vante de escravos urbanos mais sério ocorrido nas Américas”27.
No que resultou todo esse movimento de resistência? O ciclo de
revoltas africanas que a Bahia vivenciou entre 1807 e 1835 não teve
nenhum efeito cumulativo para colocar em xeque a ordem escravista
brasileira; ao contrário, portanto, do ciclo de levantes escravos ocorrido
no mesmo período no Caribe inglês. O contexto atlântico mais amplo
ajuda a compreender a dimensão real dos levantes baianos. As revoltas
de 1816 (Barbados), 1823 (Demerara) e 1831 (Jamaica) foram decisivas
para impulsionar a campanha contra a escravidão negra no Império
inglês. Por sua vez, a resistência escrava na décadade 1880, fundamen-
tal para o processo de abolição do cativeiro no Império do Brasil, não se
valeu da experiência histórica da onda de levantes africanos que a Bahia
vivenciou entre 1807 e 1835. Em uma frase: essas revoltas, apesar de
sérias e violentas, não abalaram a ordem escravista brasileira.
A chave para compreender esse fracasso reside exatamente nas cliva-
gens que separavam de forma radical os africanos escravizados de seus des-
cendentes — negros e mulatos — nascidos no Brasil. Não houve partici-
pação destes últimos grupos nos levantes comandados pelos africanos
escravizados na Bahia.Muito pelo contrário,como esclarece João José Reis:
mulatos, cabras e crioulos forneciam o grosso dos homens empregados no con-
trole e repressão aos africanos.Eram eles que faziam o trabalho sujo dos bran-
cos de manter a ordem nas fontes, praças e ruas de Salvador, invadir e destruir
terreiros religiosos nos subúrbios, perseguir escravos fugitivos através da pro-
víncia e debelar rebeliões escravas onde quer que aparecessem28.
O comprometimento social dos crioulos e mulatos — sobretudo
quando livres e libertos — com a instituição da escravidão,e não apenas
o comprometimento dos senhores brancos, foi o elemento decisivo que
garantiu a segurança do sistema escravista brasileiro.
IDEOLOGIA E ESTADO NACIONAL
A blindagem criada por tal configuração sistêmica impediu não só a
repetição de Palmares, mas, acima de tudo, qualquer chance de uma
revolução escrava como a de São Domingos vir a ocorrer no Brasil. No
século XIX, já no período do Estado nacional, esse quadro social escra-
vista interno altamente estável permitiu a expansão inaudita do tráfico
negreiro transatlântico — nas letras da lei, proibido desde 1831 — e do
próprio escravismo brasileiro. No período de quarenta anos compreen-
dido entre a vinda da família real para o Brasil (1808) e o fim definitivo
do tráfico, em 1850, foi introduzido mais de 1,4 milhão de cativos no
121NOVOS ESTUDOS 74 ❙❙ MARÇO 2006 
08_Marquese.qxd 4/6/06 7:32 AM Page 121
[29] Cf. Needell, Jeffrey. “The aboli-
tion of the Brazilian slave trade in
1850: historiography, slave agency
and statesmanship”. Journal of Latin
American Studies, vol. 33, no 4, nov.
2001.
[30] Para esta visão ideológica, ver os
trabalhos de Sousa, Laura de Mello.
Desclassificados do ouro. A pobreza
mineira no século XVIII. Rio de Janeiro:
Graal,1983,e Lara,Silvia H.Fragmen-
tos setecentistas. Escravidão, cultura e
poder na América portuguesa. Tese de
livre-docência. Campinas: IFCH/
Unicamp, 2004.
[31] Cf.Koster,Henry.Viagens ao Nor-
deste do Brasil. Recife: Fundação Joa-
quim Nabuco/Editora Massangana,
2002, capítulos XVIII e XIX, 2 vols.
(1a ed. 1816).
[32] Apud Berbel, Márcia Regina &
Marquese, Rafael de Bivar. “A escravi-
dão nas experiências constitucionais
ibéricas, 1810-1824”. Texto apresen-
tado ao Seminário Internacional Bra-
sil, de um Império a Outro (1750-
1850) (Departamento de História,
USP, set. 2005). Disponível em
www.estadonacional.usp.br.
Império, ou seja, cerca de 40% de todos os africanos desembarcados
como escravos em três séculos da história do Brasil. Nesse sentido, as
mudanças que se operaram no escravismo brasileiro oitocentista, em
especial o incrível arranque da cafeicultura no vale do Paraíba, que rapi-
damente converteu o Brasil no maior produtor mundial do artigo, con-
tou com práticas arraigadas de longa duração,que possibilitavam intro-
duzir enormes massas de estrangeiros escravizados sem colocar em
risco a segurança interna dessa sociedade.
No século XIX,a maior ameaça ao escravismo brasileiro veio de fora,
ou seja, da pressão antiescravista inglesa29. Não por acaso, a resposta
ideológica que os senhores e políticos brasileiros deram à ação diplomá-
tica e militar inglesa recorreu, entre outros pontos, à própria lógica de
funcionamento sistêmico da escravidão brasileira. Ao fazê-lo, inverte-
ram a visão ideológica que foi predominante na Colônia. Com efeito,
salvo um ou outro caso, as autoridades metropolitanas sediadas na
América portuguesa sempre entenderam que o setor de homens negros
e mulatos livres representava mais risco do que segurança à ordem colo-
nial30.Em outras palavras,a maioria dos dirigentes metropolitanos não
tinha consciência do processo institucional do escravismo brasileiro.
Essa visão começou a modificar-se no início do século XIX,de início
pela pena dos viajantes europeus que então passaram a percorrer ou
morar no Brasil.O inglês Henry Koster,por exemplo,senhor de escravos
em Pernambuco na segunda década do Oitocentos,não deixou de obser-
var a facilidade com que escravos crioulos e mulatos obtinham a alforria
no Brasil, contrastando-a com as dificuldades encontradas pelos escra-
vos do Caribe inglês31.Reside aí,nos relatos de viajantes europeus,a ori-
gem da imagem da escravidão brasileira — e mesmo ibérica — como
mais “benigna” do que a escravidão anglo-saxônica.
Rapidamente o tema foi instrumentalizado pelos construtores do
Estado nacional brasileiro. A visão de que os libertos e seus descenden-
tes eram aliados, e não inimigos dos senhores de escravos brasileiros,
apareceu em 1822, nos debates das Cortes de Lisboa, quando se definiu
o caminho da independência do Brasil.Naquela ocasião,ao discutir com
parlamentares portugueses os critérios de cidadania e participação polí-
tica a serem adotados pela futura Constituição, o deputado pelo Rio de
Janeiro Custódio Gonçalves Ledo afirmou:
não há razão alguma para privar os libertos deste direito [de voto]. Há mui-
tos libertos no Brasil, que hoje interessam muito à sociedade, e têm grandes
ramos de indústria; muitos têm famílias; por isso seria a maior injustiça pri-
var estes cidadãos de poderem votar,e até poderia dizer que é agravar muito o
mal da escravidão32.
A definição de cidadania defendida por Custódio Ledo em Portugal
cristalizou-se na Constituição Política do Império do Brasil.Conforme o
artigo 6, parágrafo 1 da Constituição de 1824, os libertos, desde que nas-
122 A DINÂMICA DA ESCRAVIDÃO NO BRASIL ❙❙ Rafael de Bivar Marquese
08_Marquese.qxd 4/6/06 7:32 AM Page 122
[33] Cf. Marquese, Rafael de Bivar &
Parron, Tâmis Peixoto. “Azeredo
Coutinho, Visconde de Araruama e a
Memória sobre o comércio dos escravos
de 1838”. Revista de História, vol.152,
1o semestre 2005, p. 122.
cidos no Brasil,eram considerados cidadãos brasileiros.Portanto,apenas
os libertos africanos eram excluídos do corpo social da nação.Essa norma
constitucional,por sua vez, franqueava aos libertos brasileiros a participa-
ção no processo eleitoral: de acordo com os artigos 90 a 95, desde que
possuíssem renda líquida anual de cem mil-réis,esses ex-escravos pode-
riam votar nas eleições primárias, que escolhiam os membros dos colé-
gios eleitorais provinciais,mas não poderiam participar destes últimos;já
os ingênuos, isto é, os filhos dos libertos (tanto dos africanos como dos
brasileiros), poderiam igualmente votar e ser votados nos colégios eleito-
rais provinciais,desde que cumprissem os critérios censitários.
Tratava-se,enfim,de uma definição de cidadania bastante inclusiva.
O parágrafo constitucional acabou virando peça da propaganda de
defesa do tráfico negreiro transatlântico para o Brasil, no contexto do
acirramento das pressões inglesas. Em 1838, José Carneiro da Silva,
futuro visconde de Araruama,destacado político conservador,defendeu
a anulação da lei de 1831 e a legalização do tráfico negreiro com base jus-
tamente na experiência histórica do escravismo brasileiro:
Tenho visto escravos senhores de escravos, com plantações, criações de gado
vacum e cavalar,e finalmente com um pecúlio vasto e rendoso.Tenho visto mui-
tos escravos libertarem-se,tornarem-se grandes proprietários,serem soldados,
chegarem a oficiais de patente,e servirem outros empregos públicos que são tão
úteis ao Estado.
Quantos e quantos oficiais de ofícios e mesmo de outras ordens mais superiores
que, noutro tempo, foram escravos e hoje vivem com suas famílias, cooperando
para o bem do Estado nas obras e empregosem que são ocupados,aumentando
a população e o esplendor da nação,que os tem naturalizado! 33
No século XX, essa experiência se tornou tema caro à historiografia.
Basta lembrar as teses de Gilberto Freyre e Frank Tannenbaum sobre o
caráter supostamente benigno da escravidão brasileira,que logo se con-
verteram em ideologia da democracia racial. Não cabe aqui jogar mais
terra sobre esse caixão. O que não se pode nunca esquecer, entretanto, é
que toda essa equação deitou raízes na maior migração compulsória do
mundo moderno — um verdadeiro crime contra a humanidade, apesar
das reticências atuais de países como Portugal, Inglaterra e Holanda em
classificá-la como tal.
Rafael de Bivar Marquese é professor no Departamento de História da USP.
123NOVOS ESTUDOS 74 ❙❙ MARÇO 2006 
Recebido para publicação 
em 17 de janeiro de 2006.
NOVOS ESTUDOS
CEBRAP
74, março 2006
pp. 107-123
08_Marquese.qxd 4/6/06 7:32 AM Page 123
Patriarcado é um dos conceitos que vem despertando grande produção
na literatura intelectual feminista recente e que também tem ocupado
um lugar central no pensamento social brasileiro. Os debates
intelectuais sobre esse tema, em cada uma dessas tradições analíticas,
pouco se cruzam, dada a marginalidade conferida ao pensa-
mento feminista nas Ciências Sociais no Brasil e a negligência do
pensamento feminista local em esmiuçar os pressupostos teóricos
clássicos ou aplicados à situação local para o estudo das relações
entre homens e mulheres. Esse descaso impede que se examine em
PATRIARCADO, SOCIEDADE
E PATRIMONIALISMO
Neuma Aguiar
_____________________
Neuma Aguiar é professora da Universidade Federal de Minas Gerais.
Resumo. Neste texto pesquisamos o significado do conceito de
patriarcado no Pensamento Social Brasileiro. Observamos como
o sistema de dominação é concebido de forma ampla e que
incorpora as dimensões da sexualidade, da reprodução e da
relação entre homens e mulheres no contexto de um sistema
escravista. Nas sociedades onde o público se destaca do privado,
sustentamos que as relações de gênero continuam patriarcais;
no âmbito das sociedades patrimoniais, a intimidade entre público
e privado também não resultou em uma maior participação
política ou econômica das mulheres nessa esfera pela própria
origem patriarcal do estamento burocrático no contexto de um
patrimonialismo patriarcal.
Palavras-chave: Brasil, patriarcado, patrimonialismo, femi-
nismo, teoria.
304 Neuma Aguiar
que medida as análises efetuadas por autores brasileiros possibilitam
interpretar a condição social das mulheres, da mesma forma como
eles são adequados a interpretar a situação dos homens. O presente
texto busca comunicar essas duas vertentes de pensamento, possibi-
litando efetuar esse intercurso.
Raimundo Faoro, figura central nesse debate, vem argumentando
que o patriarcado brasileiro cedeu lugar a um Estado Patrimonialista,
observando que, ao contrário de vários países de origem anglo-saxã
e sistema liberal de governo, o modelo de organização política, seguido
pelo Brasil, se pauta pela dominação do público sobre o privado. Com
isto Faoro se rebela contra o argumento de que uma das principais
instituições sociais brasileiras, independentes do Estado, é a família,
conforme as interpretações de Silvio Romero, Nísia Floresta, Oliveira
Vianna, Gilberto Freyre, Joaquim Nabuco, Sérgio Buarque de Holanda
e Antônio Cândido, entre outros. Esses últimos vêm analisando o
patriarcado como uma herança do sistema escravista. Na literatura
liberal anglo-saxã, o rompimento com a analogia entre sistema familiar
e sistema de governo, em moldes patriarcais, ocorre com a proposta
de uma nova interpretação do sistema político, baseada na capacidade
de uso da razão dos cidadãos adultos que se organizam e negociam
suas demandas públicas. Essa nova teoria política recusa os princípios
absolutistas de poder das monarquias tradicionais, construindo,
alternativamente, a idéia de uma sociedade civil que se governa a si
própria, sem a tutela de um patriarca. Com essa recusa da analogia
entre família e poder político, a esfera pública se distingue da privada.
Como Faoro parte do princípio que herdamos uma tradição onde o
público predomina sobre o privado, ele critica a noção de patriarcado
como forma de organização privada que se apropriaria do domínio
público. Uma sociedade baseada em uma instituição extremamente
poderosa como a família contrariaria a visão dessa predominância do
público sobre o privado, pois dessa forma o privado teria prioridade
sobre o público.
O argumento de Faoro é extremamente persuasivo no que se
refere à preponderância do Estado sobre a Economia. Porém, encontro
dificuldades na subsunção da família no âmbito do Estado, um
argumento que foi pouco desenvolvido pelo autor. Olhando para a
produção que discute a dominação do âmbito doméstico pelo Estado,
observamos que essa subserviência da família à instância pública
 Patriarcado, sociedade e patrimonialismo 305
é por vezes lembrada na literatura sobre totalitarismo. Quando a
dominação do Estado sobre a ordem privada não é total, como no
caso do Brasil, falta ampliar a linha de argumentação, apresentando
de forma persuasiva a relação entre família e sistema patrimonial.
Dentre os estudos de patrimonialismo que constroem essa relação,
destacamos apenas o que ressalta a política de alianças da realeza por
intermédio de casamentos (Adams, 1994), tema este que não foi
desenvolvido pela literatura nacional.
Na literatura feminista internacional, a discussão sobre o patriar-
cado tem indicado a existência desse fenômeno quando existe uma
ausência de regulação da esfera privada em situações onde há um
notável desequilíbrio de poder dentro dessa instância. A presença de
violência doméstica, por exemplo, evidencia que a separação entre
público e privado se deu de forma tão ampla que ocorrem situações
de dependência no interior do espaço familiar, particularmente das
mulheres com relação aos homens. Nesse caso, as instituições políticas
ignoram essa situação que permanece à margem do sistema normativo.
O patriarcado é um sistema de poder análogo ao escravismo, observa
Carole Pateman (1988). Esse diagnóstico gera uma série de demandas
normativas críticas de correção das situações de arbítrio de poder
dentro do espaço familiar e para além do mesmo.
No caso brasileiro, Faoro argumenta que o estamento burocrático
gera uma legislação sobre a esfera privada. Porém, essa perspectiva
não explica os casos de dominação arbitrária no interior da esfera
familiar, como a obrigatoriedade, da parte das mulheres, de manter
relações sexuais com os maridos, decorrentes de uma obrigação de
atender aos desejos masculinos, independentemente das circunstâncias,
e de sua própria vontade. A violência contra mulheres e a impunidade,
como legítima defesa da honra masculina, consiste em outra indicação
de relações patriarcais. Essas situações de arbítrio de poder na família
foram amplamente documentadas pelo pensamento social brasileiro.
Recupero em seguida as perspectivas sobre o patriarcado que foram
desenvolvidas pelo pensamento social brasileiro, procurando observar
como os teóricos identificam o fenômeno, uma vez que essa discussão
contribui para a análise de relações de poder que ficaram fora do
alcance do Estado.
Curiosamente, muitas teóricas feministas brasileiras e latino-
americanas rejeitam o conceito de patriarcado, o que examino mais
306 Neuma Aguiar
adiante. Sugere-se, no final do texto, que uma dupla linha de investigação
que analise simultaneamente o patrimonialismo e o patriarcado, a
exemplo do que foi efetuado pela Escola Paulista de Sociologia, possa
dar conta da importância que o patriarcado possui para a análise das
relações familiares no Brasil. Em outras palavras, a relação entre Eco-
nomia e Estado é pouco adequada para expressar a relação entre
Família e Estado. A visão de Faoro, a priori, não concede espaço
para a análise da sociedade, sua dinâmica, assimetrias e desigualdades.
Antecedentes
Encontro em Silvio Romeroo primeiro autor a discorrer sobre o
patriarcalismo no pensamento social brasileiro. Utilizando uma
perspectiva da Escola de Le Play, Romero estabelece uma tipologia
para classificar as famílias brasileiras em quatro categorias analíticas:
patriarcal, quasi-patriarcal, tronco e instável. A primeira é composta
pelo pai com sua família e as famílias de seus filhos que coabitam em
uma extensão ilimitada de terras; a segunda é uma família patriarcal
de menor porte, o que decorre da limitação de terras, tendo a família
que se subdividir, procurando novos recursos para a sua manutenção
econômica; a terceira equivaleria à classificação atual de família
nuclear, pois seus membros são mais individualistas, e os filhos procuram
construir o próprio espaço de habitação, destacando-se dos pais; o
último tipo é uma negação da família. Romero procura, então, relacionar
as características ecológico-regionais do país com os tipos de socia-
bilidade familiar preponderantes em cada contexto, buscando elucidar
as formas de subsistência empreendidas por cada modalidade de
organização social, ensejando esclarecer, no enunciado de Antônio
Cândido, a adaptabilidade do povo brasileiro ao meio, situando, no
processo, a questão da mestiçagem no Brasil. Não entrarei na questão
racial tal como desenvolvida por Romero, tema que por si só mereceria
um texto. Indico apenas que a questão é posteriormente retomada e
modificada por Gilberto Freyre em sua análise do patriarcado brasileiro.
O empreendimento de Romero é por ele defendido como sendo uma
alternativa às visões românticas de sociedade então dominantes na
literatura brasileira, pois o autor propõe que as formas de expressão
literária se vinculem às variedades de experiências sociais existentes
no Brasil. O método tem parentesco com o positivismo. Todavia,
 Patriarcado, sociedade e patrimonialismo 307
o autor preconiza um tipo de apreensão da sociedade brasileira por
meio de outra corrente sociológica francesa, evitando assim qualquer
aproximação de sua proposta com o enfoque de Comte ou de seus
discípulos. Embora proveniente do campo literário, Romero, na
observação de Antônio Cândido, procura oferecer uma base sócio-
científica à cultura brasileira. A influência de Sílvio Romero, segundo
uma observação de Antônio Paim, é passível de apreensão pelas
referências bibliográficas efetuadas por Oliveira Vianna, uma vez que
sua proposta de trabalho foi totalmente cumprida por este último autor.
Usando as mesmas perspectivas teóricas da escola de Le Play, Oliveira
Vianna analisa os clãs patriarcais como sendo constituídos por uma
família estendida (incluindo parentes consangüíneos, por afinidade civil,
religiosa e por adoção) chefiada por um patriarca – um grande
proprietário de terras – circundado por uma massa de aparentados, e/
ou de outros dependentes sem laços de parentesco. Essa população é
composta por pequenos proprietários e camponeses, com seus
familiares, que encontram proteção no clã, formando com ele uma
comunidade de sentimentos. Essas localidades são, basicamente, ilhas
autônomas de prosperidade que tudo fabricam, atraindo os despossuídos
em busca de apoio político e de recursos.
Nísia Floresta aponta para a falta de acesso das mulheres à
educação, a postos de trabalho e aos cargos públicos como indicações
de uma injustiça dos homens, como denominou o sistema patriarcal.
Já a análise de Oliveira Vianna diz respeito ao alto sentimento
de comunidade, interno ao clã patriarcal, e à ausência de laços de
solidariedade entre clãs. As redes assim criadas, organizadas com
base em imensa distância social entre patriarca e dependentes, são
o resultado da ausência de alternativas políticas ao sistema familiar
predominante na sociedade agrária. Para obter garantias o povo-
massa adere ao senhor, em busca de proteção social. No caso, ine-
xistem instituições democráticas e predominam demandas de
tratamento especial pelos chefes políticos que competem por favores.
Oliveira Vianna critica a proposta liberal de descentralização política
ao argumentar que, nas condições institucionais brasileiras, o
liberalismo político representaria exatamente a preponderância do
poder local, sem garantias ao povo-massa que permaneceria
vulnerável ao poder dos clãs patriarcais. As mulheres seriam parte
dessa massa popular que aderiria ao poder, no vazio decorrente da
308 Neuma Aguiar
inexistência de instituições políticas. Vianna é criticado por Faoro ao
conceder demasiada ênfase à autonomia e à prosperidade da ordem
privada do latifúndio, em detrimento de um exame do papel do Estado
Nacional no sistema de poder. Porém, é injusto com o conjunto da
obra de Vianna ao negligenciar a discussão que este último entabula
sobre o lugar da monarquia no jogo político dos clãs patriarcais e das
propostas normativas subseqüentes que desenvolve sobre o corpo-
rativismo. Os dois autores divergem exatamente quanto ao lugar do
Estado centralizador no desenvolvimento nacional.
Os princípios comunitários da ordem patriarcal, endossados por
Vianna, não são enfatizados apenas pela escola de sociologia
francesa. Eles são também objeto de interesse pela sociologia alemã.
Tönnies os destaca quando contrasta os princípios hierárquicos,
afetivos e arbitrários que regem as comunidades, com os princípios
societários, impessoais e contratuais que predominam no meio
urbano-industrial. Vianna, contudo, estava, mais atento em sua obra
para as contribuições francesas.
Um dos autores que mais se detém na análise do patriarcado é
Gilberto Freyre. Independentemente das relações entre a organização
do grupo doméstico e a forma de dominação estatal, o autor mostra que
o patriarcalismo estabeleceu-se no Brasil como uma estratégia da
colonização portuguesa. As bases institucionais dessa dominação são o
grupo doméstico rural e o regime da escravidão. A estratégia patriarcal
consiste em uma política de população de um espaço territorial de grandes
dimensões, com carência de povoadores e de mão-de-obra para gerar
riquezas. A dominação se exerce com homens utilizando sua sexuali-
dade como recurso para aumentar a população escrava. A relação entre
homens e mulheres ocorre pelo arbítrio masculino no uso do sexo. Apesar
do emprego que Gilberto Freyre faz da religião em sua análise da ordem
na casa-grande e nos sobrados, o patriarcado não se efetua pela
dominação religiosa, a não ser pela influência que esta exerce nas
relações familiares dentro do grupo doméstico. O poder da religiosidade
aparece limitado para conter a liberdade sexual masculina e o abuso
sexual da mão-de-obra escrava. Para Freyre, portanto, esse abuso
consiste na própria essência do patriarcado. Padres portugueses por
vezes abandonam o ascetismo religioso e aderem ao patriarcado, observa
Freyre (1973, p. 447), que deixa de ser, assim, em contraste com a
perspectiva weberiana, uma forma de racionalidade instituída pelo
 Patriarcado, sociedade e patrimonialismo 309
sistema religioso, para ser uma forma de racionalidade econômica e
demográfica, estratégia de povoamento e aliciamento de mão-de-obra,
estabelecida no processo de colonização portuguesa. Já dois outros
autores, que se inspiraram em Freyre, destacam a importância da religião
na contenção dos costumes (Azevedo, 1949, p. 69-71; Duarte, 1966, p.
76-77), o que para Freyre viria apenas subseqüentemente com o processo
de urbanização.
A originalidade da concepção de Freyre pode ser compreendida
tomando as análises elaboradas por Weber (1964, p. 223-245) sobre
patriarcalismo e religião como base de comparação. Nesse momento
do texto, faço um pequeno desvio da exposição sobre o conceito de
patriarcado no pensamento social brasileiro apenas para destacar a
análise de Freyre das teses weberianas sobre esse tipo ideal de forma
de dominação. Weber ressalta que os sistemas religiosos estabelecem
uma relação íntima entre sociedade, sexualidade e erotismo, porquanto
eles são também sistemas de controle da sexualidade e da reprodução.
Associando sexualidade com práticas mágicas ecom o comportamento
religioso comunal, Weber observa, ainda, que tanto as religiões místicas,
quanto as ascéticas, são hostis à sexualidade, apresentando-lhe satis-
fações substitutivas. A castidade é religiosamente vista como um tipo
de comportamento que possibilita o desenvolvimento de qualidades
carismáticas, dificultando que os sacerdotes tenham filhos e impedindo
que os bens acumulados pela Igreja sejam transferidos por herança.
A religião, portanto, procura eliminar o lado erótico da natureza humana,
vetando socialmente tudo o que considera como sendo orgia sexual,
quando enfatiza a abstinência como forma mística de alcançar a salva-
ção, propondo, também, a evitação das emoções características do
ato sexual e recomendando sua substituição pelo ascetismo vigilante,
autocontrole e planejamento metódico da vida. A religião, portanto,
enquanto substituta da magia, racionaliza o comportamento social pela
regulação da sexualidade. Sistemas de crenças de natureza religiosa
que não enfatizam a salvação por estarem mais vinculadas à vida
neste mundo também se endereçam à sexualidade, podendo ser hostis
às mulheres como nos casos do budismo e do confucionismo (Weber,
1964, p. 264).
A religião elimina as relações sexuais livres no interesse da
regulação e legitimação do casamento (Weber, 1964, p. 237-238). Para
que este controle social se efetue as mulheres são assemelhadas, pelos
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sistemas religiosos, às criaturas irracionais (ou de difícil autocontrole,
isto é, com grande capacidade de ocasionar o descontrole, ou como
seres capazes de causar emoção em quem as circunda, inclusive pelos
desejos que podem despertar (Weber, 1964, p. 238). A contenção
desses sentimentos muitas vezes se estabelece pela instituição de regras
sobre as vestimentas, normatizando que sejam cobertas as partes do
corpo feminino que podem suscitar desejos nos homens. Além disso,
se por um lado a religião enfatiza o exercício da sexualidade dentro do
casamento para o conjunto da população, ela prescreve, também, o
ascetismo religioso com abstenção sexual pelos sacerdotes. O sistema
religioso, portanto, é dominado por homens que estabelecem práticas
de controle da sexualidade voltadas para a interdição do acesso e até
mesmo da visão do corpo feminino. Portanto, os sacerdotes no Brasil,
que, segundo Freyre, caem no patriarcado, distanciam-se das formas
de racionalidade religiosa que controlam o comportamento sexual dos
sacerdotes ou do conjunto da população. Antônio Cândido, que segue
a análise de Freyre neste ponto, excetua dessas práticas libidinosas
apenas os jesuítas que se esforçam por regularizar as uniões e conter
a licenciosidade.
Na análise de Freyre sobre os sistemas de dominação, não há
brechas para rebeliões, porém o exame de arquivos históricos
documenta recusas da mão-de-obra escrava em dar a luz aos filhos
do estupro. Estes arquivos mereceriam uma atenção cuidadosa na
análise crítica do patriarcado. O caráter dessa resistência é indicado
por Joaquim Nabuco (1988), cabendo aqui introduzir algumas das
questões levantadas por este outro pernambucano na análise do
patriarcado brasileiro.
A Igreja, por intermédio dos conventos, é a principal proprietária
de escravos. Em função disso, Nabuco demonstra como nos EE.UU.
a religião se torna a campeã dos direitos civis, lugar institucional em
que se refugia a população negra. No caso do Brasil, esta nega os
sacramentos aos escravos. Na ausência de racionalização das relações
sociais pelo caminho religioso, os escravos se vêem lançados à
promiscuidade e à magia, aponta o autor. O que Nabuco caracteriza
como uma forma de primitivismo pode ser compreendida como uma
resistência das mulheres à escravidão, rejeitando serem usadas como
aparelho reprodutivo pelos senhores de terra. As mulheres (Nabuco,
1988, p.38) usam ervas daninhas e venenos, matando o feto no ventre,
 Patriarcado, sociedade e patrimonialismo 311
enterrando-o no mato. O autor interpreta o fato como uma ausência
de sentimentos religiosos e atribui tal prática à falta de instrução e não
como uma forma de resistência à dominação. Observa também que o
feto era de propriedade do senhor, estando condenado à escravidão.
O estado de gravidez, todavia, não isenta a escrava de prestar serviços
forçados. A paternidade inexiste, observa Nabuco, pois a família é
negada, e a escrava está sujeita à luxúria dos brancos. A amamentação
realiza-se conjuntamente com os trabalhos cativos. Aos cinco anos a
criança já começa a trabalhar para obter hábitos servis (Nabuco, 1988,
p.50), sendo recebida como alguém que aumenta o patrimônio do
senhor. A escrava jovem, diz ele, é tornada pública, isto é, um joguete
de instintos (Nabuco, 1988, p.51). Castigos, açoites, marcas com ferros
denotam a violência das relações sociais predominantes, além do abuso
sexual contra as escravas. Com a descrição destas práticas, o autor
destaca a questão moral da corrosão dos costumes pelo ataque ao
direito familiar, destituindo a dignidade da mãe pela violação de sua
honra e separação de seus filhos, pela negação da paternidade e pela
predominância do concubinato.
Formas de exercício da dominação doméstica são transformadas
durante o processo de urbanização (Freyre, 1951 e 1973; Araújo, 1994).
Esta questão é trabalhada por Holanda (1971, p.113-125) quando propõe
que o crescimento urbano suplanta o patriarcalismo agrário, dando
margem ao aparecimento de um sistema peculiar de serviço público,
efetuando uma confusão dos domínios público e privado.
Antônio Cândido, um estudioso da obra de Silvio Romero, analisa
a composição e as transformações da família patriarcal no Brasil.
Esta compreende, de início, um núcleo central composto por um casal
com seus filhos legítimos. Na periferia, encontram-se as concubinas,
filhos ilegítimos, escravos e agregados. A autoridade paterna é quase
ilimitada, incluindo o direito sobre a vida dos filhos que vivem na casa
dos pais, ou em casas por ele concedidas. O autor (Cândido, 1951,
p.293-294) analisa a presença de filhos ilegítimos desde o início da
colonização portuguesa, quando há grave desequilíbrio entre os sexos.
Os portugueses mesclam-se com as filhas de chefes indígenas em
uma política de alianças destinada a manter a paz social. Por outro
lado, a mistura étnica e a baixa densidade da população contribuem
para que a bastardia seja comum, mantendo-se ao lado do núcleo
312 Neuma Aguiar
familiar. Mesmo depois que as proporções de homens e mulheres
tornam-se mais paritárias, os concubinatos continuam a ocorrer.
Antônio Cândido retrata os papéis familiares como comple-
mentares, embora indicando a presença latente de conflitos, pois os
casamentos são arranjados e a satisfação sexual é procurada fora da
instituição. Filhos bastardos, dependendo do arbítrio dos pais, são
legitimamente reconhecidos e dotados de herança. Isto é aceito pela
esposa quando os filhos do marido nascem antes do seu casamento
(situação que se contrasta com a apontada por Weber, que observou
como as mulheres, para além da tese de Engels, investiram no casa-
mento monogâmico como estratégia de defesa do patrimônio de seus
filhos). Nas cidades, algumas características do sistema patriarcal são
preservadas, embora, com as separações e maior liberdade sexual
para as mulheres, o domínio patriarcal se atenue. Um duplo padrão de
moralidade passa a existir, com permissividade para a poliginia e
interdições para a poliandria.
O Debate de Faoro com Antônio Cândido
e Sérgio Buarque de Holanda
Para Raimundo Faoro, a principal característica da colonização portu-
guesa consiste na forma de dominação estabelecida pelo governo central
na condução das iniciativas empresariais, inibindo qualquer tentativa de
desenvolvimento autônomo pelas unidades econômicas. Isso, aponta
Faoro, representa um contraste com a organização econômica do
feudalismo, cuja característica primordial é a da descentralização. Na
Inglaterra, uma ilha mais afastada das ameaças de invasão pelos povos
vizinhos, predomina um sistema econômico descentralizado.Tal não é o
caso de Portugal em que o Estado absolutista é também um Estado
patrimonial. As atividades empresariais, independentes do governo
central, aponta o autor, são pesadamente taxadas.
Como o império português se organiza com base em instituições
militares que iniciam guerras para a ampliação do domínio, o rei de
Portugal procura obter fundos para remunerar seus soldados, vencer
batalhas e conquistar novos territórios. O soberano, portanto, não é
apenas o chefe administrativo, mas, também, o principal empreendedor
econômico. Para manter a posição, o soberano necessita fundar
 Patriarcado, sociedade e patrimonialismo 313
cidades e oferecer incentivos aos que lá vão residir, estabelecendo
tarifas protecionistas.
A economia independente que se desenvolve em plantações
de finalidades comerciais, com base escravista, objeto das análises de
Gilberto Freyre, é a forma que se adequa ao tipo de estratégia admi-
nistrativa empregada no processo de colonização. A transferência da
coroa portuguesa para o Brasil acentua a tendência centralizadora e,
embora até possam ocorrer iniciativas de caráter liberal, a ordem
patrimonial é predominante.
Em texto da revista da USP (Faoro, 1993) dedicado à discussão do
liberalismo no Brasil, Raimundo Faoro se insurge contra um comentário
de Antônio Cândido que atribui ao autor de Raízes do Brasil, em prefácio
à segunda edição desse livro, o primeiro emprego dos conceitos de
patrimonialismo e de burocracia, segundo uma acepção weberiana.
Dessa maneira, delineia-se, com o comentário, uma possível convergência
entre as análises do próprio Faoro e as de Holanda, ao apontar que
ambos empregam o mesmo tipo de conceito, tendo sofrido a mesma
influência teórica. Faoro, todavia, advoga para si o mais autêntico uso
do conceito de patrimonialismo, apontando para duas interpretações que
preponderavam na análise da formação do Estado Nacional, até o
aparecimento de seu texto Os Donos do Poder, que mudaria o rumo
das interpretações sociopolíticas do Brasil. Faoro aponta que a perspectiva
de Holanda está bem mais próxima da de Gilberto Freyre e de Oliveira
Vianna sobre o patriarcado do que da sua própria que originara a
interpretação do Estado brasileiro como um Estado Patrimonial. Isto
porque, justifica Faoro, as relações patrimoniais desintegram o patriar-
calismo puro, pois a organização doméstica que se reproduz na ordem
política o faz dentro de um quadro burocrático-administrativo. Como
derivação da organização doméstica, enfatiza o autor, o patrimonialismo
se aproxima do patriarcado, se destacando também, por outro lado, da
burocracia impessoal, produto da transformação do feudalismo em
capitalismo, uma vez que o funcionário burocrático-patrimonial considera
o cargo como direito pessoal e não como posição associada a normas
objetivas e impessoais. De fato, o poder patriarcal é caracterizado por
Max Weber (1947, p. 346) como sendo um sistema de normas baseado
na tradição. Assim, as decisões são tomadas sempre de um mesmo
modo. Outro elemento básico da autoridade patriarcal é a obediência ao
senhor, além da que é devotada à tradição. A modalidade, por excelência,
314 Neuma Aguiar
da relação de dominação inquestionável é a do poder patriarcal, uma
vez que não há possibilidade de que a autoridade paterna seja
questionada por intermédio da justiça. Todavia, o sistema patriarcal
pode constranger o senhor a tratar seus súditos de forma protetora, o
que o distingue das relações que ocorrem com a exploração racional
da força de trabalho sob o sistema capitalista. Faoro contrasta sua
interpretação da autoridade no sistema patrimonial, ao observar que o
cargo burocrático não é visto como um direito pessoal do burocrata,
e sim como direito pessoal do senhor.
As relações de poder na dominação patriarcal fundamentam-
se na autoridade pessoal. Weber (1947, p. 396) contrasta esta forma
de poder com a que ocorre nas sociedades capitalistas, quando o
processo de racionalização, resultante do desenvolvimento da ciência
e da tecnologia, dá origem a um sistema de normas abstratas e
impessoais, sob as quais os funcionários das burocracias se organi-
zam. Essas normas estabelecem que a pessoa no poder possui auto-
ridade legítima para acionar regras em circunstâncias determinadas
(Weber, 1978, p. 1006). Já no sistema patriarcal, a autoridade é
garantida pela sujeição pessoal.
A análise de Holanda, adverte Faoro, estaria mais próxima do
conceito de patriarcado do que de patrimonialismo, porque o que
o primeiro produz na esfera política é a noção de que o quadro
administrativo é um prolongamento da família. Nesse ponto, Faoro
lembra que essa é a mesma análise elaborada por Oliveira Vianna
quando este último cunhou o conceito de clã patriarcal em Populações
Meridionais no Brasil, obra também amplamente usada por Gilberto
Freyre em Casa-Grande e Senzala. Tudo o que se avança com esta
visão da dominação patriarcal no contexto doméstico, critica Faoro, é
a perspectiva política de um mandonismo, de um sultanismo, ou de
uma oligarquia cujo poder não pode ser limitado. Já o liberalismo,
observa o mesmo autor, se expressa constitucionalmente, enquanto
no patrimonialismo estamental a oposição ao poder central só é possível
porque os corpos intermediários entre governantes e governados lhe
fazem resistência, ainda que por meios não constitucionais, podendo,
ainda, se desenvolver um sistema de justiça, ainda que incipiente. Resta,
no entanto, desenvolver a noção desse sistema normativo incipiente,
uma vez que a impunidade por ocasião da violência doméstica é de
fácil contastação na sociedade brasileira.
 Patriarcado, sociedade e patrimonialismo 315
Uma crítica parecida com essa é expressa por Florestan Fernandes
quando aponta que aqueles mesmos autores não situam a dominação
patriarcal em um contexto sócio-histórico mais amplo, por um processo
de redução do macro ao micro, ponto ao qual retornarei mais adiante.
Aponto, neste momento, apenas, que Faoro também contrapõe sua
tese sobre o patrimonialismo com a da emergência da sociedade de
classes pelo advento do capitalismo, adotada por alguns autores
marxistas. Exemplo desta perspectiva se apresentaria pelas teses de
Caio Prado Jr. que enfatizam no processo de colonização portuguesa
a presença de um capitalismo mercantil, originando a burguesia na
sociedade de classes. Faoro, no entanto, observa como Caio Prado Jr.
aos poucos vai se rendendo à evidência de que o capitalismo brasileiro
possui características peculiares, consistindo, muito mais em uma forma
de capitalismo político. Neste, as empresas capitalistas são dependentes
do setor público, em contraste com um capitalismo destacado do
Estado, o que ocorre na situação clássica. O autor ressalta, com esta
observação, que no patrimonialismo o poder público comanda o aparato
burocrático, as forças militares e a economia.
A sociedade civil é tutelada pelo Estado. Os elementos que
compreendem o setor privado (família e economia) são comandados
pelo setor público, reafirma Faoro, ao contrário das teses de Freyre,
Holanda ou Vianna, em que são as instituições privadas as que
comandam o setor público. Embora as duas visões enunciem a
perspectiva de que o público e o privado se imiscuam, as teses são
discordantes quanto ao elemento dominante na relação entre os dois
setores. O contraste entre estas teses é retomado recentemente por
Ângela Alonso (1996). Ela observa que, para Faoro, durante o
processo de colonização (ao qual acrescentamos que até mesmo
antes deste processo, e, acentuadamente, depois da vinda da coroa
para o Brasil), um estamento teria se apropriado do Estado,
provocando o seu crescimento descomunal, o que teria vitimado o
país, quando uma parte desta sociedade passa a dominá-la com o
predomínio do público sobre o privado.
Ângela Alonso (1996) também destaca que o raciocínio de Sérgio
Buarque de Holanda é o inverso daquele efetuado por Faoro. O
patriarcalismo aparece como herança rural e o Estado patrimonial
paulatinamente se edifica aprisionado nasteias familiares, isto é, o
público permanece prisioneiro do âmbito privado.
316 Neuma Aguiar
A meu ver, tanto Holanda quanto Faoro efetuam leituras
adequadas de Weber, não existindo, portanto, uma versão mais correta
do que a outra. Quando ambos procuram aplicar as teses weberianas
ao Brasil, cada qual destaca elementos particulares de sua vasta obra.
Naturalmente nenhuma teoria incorpora a totalidade do contexto social
que o analista deseja explicar. Há sempre dimensões que escapam à
visão teórica, particularmente quando se trata de tipos ideais. Este é o
lado profícuo da aventura científica, deparar-se com o que não se
encaixa nas interpretações dominantes, fazendo a Sociologia avançar.
Faoro, por exemplo, ao observar que o estamento burocrático se
apropria do Estado, não elabora a teia de vínculos particularistas que
reúnem soberano e funcionários estamentais, uma perspectiva
amplamente desenvolvida por Weber. Isto porque, sendo o patrimo-
nialismo baseado em privilégios, as alianças familiares que se
constituem por meio de casamentos e uniões, fazem parte do processo
político de manutenção desses benefícios (Adams, 1994).
O patrimonialismo é uma transformação do patriarcado pelo
processo de diferenciação, que se constrói a partir das relações de
dependência entre o senhor e seus familiares, ou entre o soberano e
os funcionários burocrático-estamentais. Isto ocorre em contraste
com o feudalismo, que se organiza a partir de uma associação entre
iguais. O patrimonialismo se caracteriza pela subordinação dos
funcionários despossuídos ao senhor. A relação é semelhante à de
escravidão, também assemelhada por Weber à devoção familiar. Foi
a associação entre patrimonialismo e escravidão que levou Buarque
de Holanda a aplicar o conceito com relação ao Brasil e a destacar
a abolição da escravatura como um dos principais fatores explicativos
do processo de mudança na sociedade brasileira. O autor também
enumera que o ingresso em uma nova ordem urbana dilui a formação
rural que lhe antecede. Holanda adota assim a postura de que o
processo de diferenciação segundo o eixo urbano/rural explica a
transformação do patriarcado. Porém, cabe apontar nesse ponto que
Faoro usa as passagens patriarcado/patrimonialismo/capitalismo
do Estado dentro de uma perspectiva histórico-evolucionista, esque-
cendo-se de que o conceito de patriarcado é empregado por Weber
para analisar diferentes sociedades em distintos momentos históricos.
Este é o caso, por exemplo, de sua análise sobre as relações patriar-
cais a leste de Elba, na Alemanha, referindo-se às condições locais
 Patriarcado, sociedade e patrimonialismo 317
para a mudança do sistema capitalista. A análise de Weber evoca em
muitos momentos as acepções de Oliveira Vianna, Freyre e Holanda,
quando o autor observa a presença de relações comunais nas ações
econômicas tradicionais, orientadas pelos senhores de terra para a
manutenção de sua posição social. Estas ações, portanto, não estão
primordialmente voltadas para a acumulação capitalista. O interesse,
contudo, paulatinamente se sobrepõe à comunidade, e o rompimento
da estabilidade nas relações sociais acaba provocando a miséria e a
migração. Isto é possível enunciar no contexto de sua obra, porque o
conceito de patriarcado não se encontra no mesmo nível que os demais,
como os de feudalismo ou patrimonialismo. Por outro lado, a cons-
tituição do Estado ou do sistema capitalista não representa a derrocada
da família. As teses weberianas não advogam esta situação e sim o
estabelecimento paulatino de normas, regulamentos e relações que se
apresentam no espaço societário de forma distinta das que predominam
no contexto familiar.
Como na visão weberiana o sistema jurídico vai se destacando e
diferenciando do arbítrio do pai-de-família, resta uma questão não
discutida por Faoro. Com a nova ordem patrimonial, como o conjunto
de normas jurídicas repercute no interior do espaço doméstico, quem
julga os conflitos: o pai ou o juiz patrimonialmente designado? Como
se dá a interação entre esses corpos intermediários de poder e a
família? Que tipos de casos jurídicos emergem? Como são avaliados
e implementados? Pela análise de Faoro, uma vez que o patrimonialismo
se estabelece parece que não apenas a sociedade civil se lhe atrela,
mas a sociedade dele, também, fica cativa. Pela equação sociedade
civil/sociedade, esta última deixa de ser objeto de interesse analítico e
as formas de organização da vida social desaparecem, obscurecidas
pelo único interesse analítico no âmbito do Estado. O problema teórico
refere-se a como essa dependência do contexto doméstico do Estado
afeta o grau de arbítrio do chefe-do-domicílio, até então preponderante
na família. Como as regras codificadas a partir da tradição se impõem
na vida cotidiana, regulando, por exemplo, a violência doméstica. Sabe-
se que no patriarcado, o pai-de-família detém prerrogativas de vida e
morte sobre os familiares. Como fica esse poder ante o patrimo-
nialismo? Como o poder público patrimonial, enunciando uma questão
exemplar, se debruça sobre a escravidão?
318 Neuma Aguiar
Um segundo ponto refere-se ao fato de que a relação entre família
e Estado faz parte da teoria sobre a democracia liberal. No caso
brasileiro, a teoria do patriarcado tem servido para a análise das
relações de dominação que antecederam a emergência do sistema
capitalista. Como relação de poder, teóricos do liberalismo desenvolvem
esta perspectiva para discutir formas alternativas de resolução de
conflitos e de desenvolvimento do processo decisório na relação entre
Estado e Sociedade Civil. A família patriarcal e o modelo de relações
políticas derivado da família estão no cerne dessa questão. Ao poder
absoluto do rei, argumentam os adversários do patriarcado que todo
sujeito adulto não mais necessita ser governado por uma autoridade
que se assemelha à do pai de família. Se mesmo nas sociedades que
separam o contexto privado do sistema de governo, e o primeiro se
sobrepõe ao último, discute-se a noção das relações arbitrárias, como
se dá, no contexto privado, a relação entre família e burocracia estatal
quando o governo prepondera sobre o privado e o sistema jurídico não
está constitucionalmente instituído?
Para Faoro parece que o contraste entre a família como institui-
ção privada e o poder estatal exercido pelo soberano apenas se coloca
a partir da transformação do feudalismo em capitalismo. Porém, se o
patriarcado é o princípio sob o qual o patrimonialismo se forma, é
necessário incluir na análise a relação do patrimonialismo com a família,
a não ser que a centralização governamental seja de tal forma idealizada
que nada existe fora do domínio público. Nesse caso, as instituições
externas ao governo centralizador deixam de ser objeto de interesse
analítico e desaparecem.
Uma Outra Leitura sobre Patriarcado e Estado
Patrimonial: Florestan Fernandes e a Escola Paulista
Florestan Fernandes adota um modelo interpretativo assentado em
duas tradições analíticas quando estuda os processos de transformação
da sociedade patriarcal no Brasil, elaborando uma fusão dos enfoques
marxista e weberiano, o que lhe valeria a caracterização por Barbara
Freitag de adepto da teoria crítica, a exemplo dos protagonistas da
escola de Frankfurt. Assim, Fernandes discute a colonização portu-
guesa no contexto do desenvolvimento de um complexo Estado
 Patriarcado, sociedade e patrimonialismo 319
Patrimonial. A dominação se exerce no Brasil mediante as concessões
de sesmarias, o que se traduziria nas doações efetuadas pela coroa a
um estamento administrativo. Isto representa a concentração da
propriedade ou posse da terra nas mãos de alguns, e a exclusão
da massa da população que não tinha acesso aos postos burocráticos.
A escravidão representa o esteio dessa sociedade, pois ela é a
semente da acumulação capitalista. A sociedade senhorial não se per-
petua nem sufoca as atividades privadas, pois o excedente econômico
é extraído pela coroa, permanecendo, assim, com a partedo leão.
Florestan Fernandes concorda com a tese de Faoro segundo a
qual Vianna, Freyre e Holanda vêem o setor doméstico como domi-
nante, porém, em lugar de atribuir-lhes uma concepção de feudalismo,
mais claramente enunciada por Vianna, aponta que as análises
elaboradas por aqueles autores da organização patriarcal da sociedade
carecem de um contexto sócio-histórico. Florestan Fernandes,
Fernando Henrique Cardoso, Otávio Ianni e Heleieth Saffiotti, traçam,
então, um eixo de interpretação da sociedade brasileira com grande
impacto, tomando a sociedade escravista do tempo do Império, como
ponto de partida histórico, classificando-a simultaneamente como
escravocrata e senhorial. Eles não cometem o mesmo equívoco de
Faoro que consiste em considerar a sociedade civil como estando a
reboque do Estado, embora advirtam que isto até ocorre para uma das
parcelas da burguesia nascente que se diferencia da camada senhorial.
Por outro lado, eles observam que o Estamento burocrático no estado
Patrimonial possui uma relação distinta da escravidão clássica para
com a coroa. Algumas das funções estamentais são efetuadas pela
escravidão que se superpõe, na visão de Fernandes, à sociedade
senhorial. A escravidão é distinta da que serviu de base para que
Weber analisasse as suas bases jurídicas. Os escravos não são um
botim de guerra, mas constituem uma mercadoria. Portanto, ao Estado
Patrimonial se sobrepõe a sociedade de classes.
Florestan utiliza, então, três conceitos de estratificação: classe,
estamento e casta, pois os negros na sociedade brasileira, para o autor,
constituem uma casta. Os escravos, segundo Fernandes, não são uma
classe, mas os agentes sociais responsáveis pela produção
e acumulação primitivas, sob o capitalismo mercantil. Por outro lado,
eles assumem funções que deveriam ser exercidas pela esfera
320 Neuma Aguiar
estamental, sob o Estado Patrimonial. Os escravos, todavia, são alie-
nados do sistema de benefícios patrimoniais, como seriam subseqüente-
mente marginalizados pela ordem competitiva da sociedade de classes.
Florestan utiliza aqui o conceito weberiano de casta, transplantando-o
culturalmente, para indicar a condição dos negros, diferenciando-a do
estamento ou da classe. Saffioti adota esse mesmo conceito, não sem
uma certa desconfiança, pois a autora aponta que o processo de
miscigenação racial indica a existência de um intercurso social entre
brancos e negros, o que seria interditado numa sociedade de castas.
A miscigenação consiste em uma possibilidade de ascensão social,
afirma Saffioti seguindo os passos de Antônio Cândido, na medida em
que o arbítrio da camada senhorial o viabilize, indiferenciando filhos e
filhas legítimos dos ilegítimos. Essa capacidade de arbítrio nas relações
de poder é objeto do interesse de Fernando Henrique Cardoso que
retrata a violência no sistema de mando do Rio Grande do Sul (Cardoso,
1962, p.83-84; 102-119). O arbítrio ocorre pelo processo de regressão
do patrimonialismo estatal ao patrimonialismo patriarcal. Cardoso
observa que os cargos são distribuídos como prebendas típicas, porém
como os direitos e deveres dos cargos numa sociedade em formação
ainda não tinham sido estabelecidos, preponderam os costumes
patriarcais sem os limites estipulados pela tradição. Isto porque,
questiona Cardoso, como é possível falar-se em tradição em um país
novo como o Brasil? Portanto, em lugar de regras codificadas na
punição de crimes, no âmbito jurídico, predomina a impunidade. Heleith
Saffioti endossa a visão de Cardoso ao observar que a vastidão da
colônia e as dificuldades de comunicação dificultam a fiscalização dos
funcionários patrimoniais que esbarram na existência de uma
dominação patriarcal de origem local. A partir do século XIX, indica
Saffioti, estaria consolidado o poder dos chefes de parentela, levando
o Estado patrimonial a se assentar muito mais num tipo de
patrimonialismo patriarcal do que em um patrimonialismo estamental.
Essa forma de organização de poder, em visão totalmente oposta à de
Faoro, se apresenta com alto grau de compatibilidade com o
desenvolvimento do capitalismo, uma vez que a exploração lucrativa
da propriedade territorial levaria a um processo de acumulação que se
tornaria incompatível com a estrutura da sociedade colonial de caráter
estamental. Florestan todavia aponta que as várias burguesias que se
formam em torno da plantação e das cidades já nascem débeis. Em
 Patriarcado, sociedade e patrimonialismo 321
lugar de forjarem instituições próprias, elas procuram exercer pressão
e influência sobre o Estado, formando o que o autor denomina de
consolidação conservadora. Esta é o resultado da moldagem da
mentalidade burguesa pelas oligarquias tradicionais. Dessa forma, as
velhas estruturas se vêem restauradas.
Saffioti ao desenvolver o tema do patrimonialismo patriarcal, toma
dois eixos de análise: (1) a situação das mulheres brancas e das negras,
no sistema senhorial, bem como a transformação que ocorre em sua
posição decorrente da abolição da escravatura; (2) o processo de
diferenciação, segundo os eixos: urbano/industrial e nordeste/sul,
quando aquela autora atenta para o lugar que o sistema de educação
nele detém. A reclusão doméstica se abranda com o ambiente das
cidades, embora as mulheres brancas fiquem à margem do movimento
abolicionista. No meio rural, persistem os códigos de comportamento da
sociedade patriarcal com a reclusão das mulheres no âmbito doméstico.
Porém, entre a desorganização da família estendida e o predomínio da
família nuclear encontra-se ampla gama de experiências. A prepotência
do pai-de-família vai dando lugar à função econômica de provedor.
Saffioti mais recentemente aponta para um grande conjunto de
contribuições na literatura feminista internacional que retoma a relação
entre capitalismo e patriarcado, quando reafirma sua visão, tal como a
defendida por Florestan Fernandes, que existe uma simbiose entre
patriarcado, racismo e capitalismo (Saffioti, 1992, p.194-195). A autora
advoga a importância de se lidar simultaneamente com as noções de
dominação e exploração, na análise da dimensão de gênero nos
fenômenos sociais. As questões debatidas na análise de Saffioti, no
entanto, remetem-se bem mais à exploração do que à dominação. Várias
discussões sobre este ponto foram detalhadas na literatura, dizendo
respeito à associação entre a situação doméstica (no casamento ou
derivada de emprego neste âmbito) e a de exército industrial de reserva.
Em lugar de situar as mulheres casadas como uma reserva para o sistema
capitalista, caberia observar como no espaço doméstico, pela domi-
nação patriarcal, as mulheres prestam serviços aos homens, pois o
ingresso em atividades capitalistas não elimina o trabalho doméstico.
Os dois âmbitos, portanto, se condicionam. Outras discussões do
trabalho de Saffioti, bastante revistas na literatura, dizem respeito ao
impacto das crises econômicas na condição de trabalho das mulheres
e à marginalização das mulheres pela introdução de tecnologias
322 Neuma Aguiar
avançadas no processo de desenvolvimento socioeconômico, questões
às quais não retornarei, restringindo-me à discussão do patriarcado.
Embora Saffioti reafirme a importância do processo de urbanização
na diluição do patriarcado, sua análise apresenta uma grande novidade.
A industrialização que emerge com a ordem capitalista resulta no
aumento das disparidades sociais entre homens e mulheres. Maria
Valéria Junho Pena aponta que Saffioti neste caso sofre a influência
de Engels. Quando a propriedade privada se sobrepõe, a monogamia
e o direito paterno também passam a predominar, aumentando as
disparidades sociais entre homens e mulheres.
Castro e Lavinas (1992, p.236-238) colocam o conceito de patriar-
cado como paradigmático nos estudos sobre mulheres e trabalho, porém
não indicam outras contribuições brasileiras além das efetuadas por
Saffioti. Em textos mais recentes, esta última autora passa a apontar
a importância da dimensão de gênero como nova proposta teórica
para os estudos demulheres e, em seu trabalho sobre violência contra
as mulheres, a autora nesse particular estudo não faz referência à
matriz do patriarcado, embora seja essa uma das perspectivas que
constituem palco das discussões feministas sobre a questão da violência
(Walby, 1990). Recentemente, todavia, Saffioti retorna ao tema. A
escola de Florestan Fernandes, na qual incluímos Heleieth Saffioti, faz
uso de uma combinação da teoria do patriarcado com a de classes
sociais. A fusão dessas duas vertentes analíticas, no entanto, é revista
pela literatura feminista internacional. Quando o patriarcado é
compreendido como uma dimensão do sistema capitalista, diz-se que
o enfoque é dual. Saffioti, da mesma forma que Fernandes, situa o
patriarcado como um antecedente do capitalismo, procurando efetuar
um enfoque histórico e assim evitar o dualismo. Fernandes, no entanto,
aponta para o caráter dúbio do desenrolar histórico do processo
brasileiro, quando a burguesia nacional apresenta um desenvolvimento
limitado pelo capitalismo global, agindo freqüentemente como estamento
e não como classe. O conceito de patriarcado tem sido usado na
literatura feminista internacional para significar as relações de poder
entre homens e mulheres. As mulheres são subordinadas aos homens
no sistema patriarcal. A combinação com a teoria marxista ocorre
para construir uma base material para essas relações de poder. Nesse
ponto, Hartmann (1981, p.1-42) fala da parceria entre o sistema
capitalista e o patriarcado, observando, no entanto, que a incorporação
 Patriarcado, sociedade e patrimonialismo 323
das relações de dominação patriarcais no sistema capitalista tem
resultado em um casamento infeliz entre feminismo e marxismo, pois
as relações econômicas sempre constituem o fator principal de
explicação. O objetivo da autora, contudo, é o de explicar as diferenças
salariais entre homens e mulheres, observando que os salários
masculinos são maiores do que os femininos porque incorporam a
subsistência familiar, isto é, a manutenção dos filhos, inclusive a das
esposas. Já dos salários femininos são subtraídos esses recursos.
Capitalistas-patriarcas adotam essa norma estabelecendo um sistema
diferencial de remuneração do trabalho para homens e mulheres. Este
sistema de dominação garante o exercício das atividades domésticas
pelas mulheres. Silvia Walby (1990) também procura explicar tanto as
relações domésticas no casamento quanto as de trabalho remunerado
na esfera capitalista com o conceito de patriarcado. Para esta, é o
sistema capitalista que produz a cisão entre a residência e as atividades
remuneradas originando uma nova situação de dependência para as
mulheres. Essa nova forma de arranjo social, aponta Walby (1990),
propicia o surgimento de uma também nova modalidade de patriarcado.
Porém, a tese da criação do patriarcado pelo sistema capitalista é
uma visão que torna obscura as análises desenvolvidas no Brasil sobre
a emergência de um patriarcalismo agrário e escravista. As formas
de dominação patriarcal, no entanto, se alteram no decorrer da história
aponta Walby (1990). Cabe portanto analisar como o patriarcado
agrário e escravista se transforma, resultando em novas formas de
dominação patriarcal ante a presença de um capitalismo privado, em
sua forma econômica clássica, sob a dominância estatal. Em qualquer
dessas modalidades, ocorre um processo de diferenciação que
hipoteticamente resulta na criação de um estamento que se interporia
entre a autoridade do mandatário e a posição dos demais membros da
sociedade. Observe-se, outrossim, que a proposição de que o capita-
lismo gera uma nova forma de patriarcado não deve ser contrastada
apenas com a produção brasileira sobre o tema, analisada mais acima,
e que prevê a erosão do patriarcado com o desenvolvimento urbano-
industrial, ou com a emergência de um estamento burocrático, mas
também com a própria perspectiva de Max Weber, uma vez que este
último observou que um dos efeitos dos processos de racionalização e
burocratização, característicos do sistema capitalista, é o da corrosão
do patriarcado. A análise desenvolvida pela teoria feminista, portanto,
324 Neuma Aguiar
entra em conflito com esta visão, pois os laços de dependência na
esfera doméstica se acentuam com o desenvolvimento do capitalismo
e/ou do Estado e da burocracia estamental.
O duplo enfoque analítico do público e do privado, do âmbito
doméstico e do trabalho remunerado, pode explicar como o desen-
volvimento da racionalidade societária no contexto do Estado ou
das relações de trabalho capitalistas não resulta na superação do
patriarcado. Formas particularistas continuam a rebaixar os salários
femininos, a incluir as mulheres em um número restrito de ocupações
e a negar-lhes acesso a funções de poder, apesar de importantes
mudanças culturais. Talvez por isto, algumas autoras como Elizabeth
Souza-Lobo apresentem objeções ao conceito de patriarcado. Ela cita
a problematização efetuada por Sheyla Rowbotham que rejeita o
conceito de patriarcado como estrutura universal e historicamente
invariante das relações entre homens e mulheres. Ações políticas não
poderiam mudar essa estrutura. Além disso, para o pensamento social
brasileiro, o patriarcado está associado a condições de vida pré-
capitalistas. Souza-Lobo defende, então, o uso do conceito de gênero
como uma categoria analítica, propondo que este deva ser empregado
em lugar de patriarcado, na medida em que o novo conceito comporta
a variabilidade histórica das relações entre homens e mulheres. Embora
essas relações possam ser hierárquicas, em um dado momento histórico,
elas também podem tornar-se igualitárias. Teresita de Barbieri também
segue essa mesma pauta analítica, recusando o conceito de patriarcado
em favor do conceito de gênero. A opção pelo conceito de gênero,
todavia, pode levar à perda do contexto histórico, restringindo-se a
uma atenção exclusiva para com a dimensão microssociológica. Na
retomada recente do conceito de patriarcado na literatura internacional,
postula-se que é perfeitamente possível empregar os dois conceitos,
de gênero e de patriarcado, observando-se, quanto ao primeiro, que
ele possui conotações que não estão presentes no último. Quanto ao
patriarcado e o seu lugar na história, observa-se que a diferentes
momentos históricos corresponderiam distintas formas de organização
patriarcal, sendo este um fenômeno variável. A tarefa acadêmica reside
exatamente em analisar essa variabilidade histórica (Walby, 1990).
Já Carole Pateman (1988) tem uma visão bem distinta dessa. Ela
rejeita gênero em favor de patriarcado, observando que este último
conceito está muito mais ancorado na tradição das ciências humanas.
 Patriarcado, sociedade e patrimonialismo 325
A autora busca, então, examinar em que momento de sua construção
teórica, a discussão do patriarcado não se adequa à análise das
condições de vida das mulheres. Revendo autores como Locke e
Maine, Pateman observa que o patriarcalismo, na teoria política clássica,
se opõe ao contratualismo (Maine, 1970). Qual a conseqüência,
pergunta a autora, de analisar as relações conjugais como um contrato
sexual? Mesmo que preponderem relações contratuais, na vida social,
observa a autora, há situações arbitrárias nas relações conjugais que
permanecem acima das elaborações jurídicas, uma vez que estas foram
separadas pelo código liberal como pertinentes ao âmbito privado. As
mudanças na organização do Estado não representam uma transfor-
mação automática do sistema jurídico ou dos códigos culturais que
regem as relações entre homens e mulheres. Além disso, quando se
estabelece um contrato entre membros de uma sociedade que detinham
anteriormente posições de desigualdade, a relação assimétrica não é
atenuada pelo pacto que as partes constituem entre si. A predominância
de relações contratuais, portanto, é insuficiente para fazer cessar o
patriarcado. A autora confirma as previsões estabelecidas por Zillah
Eisenstein (1981) que anunciara um futuro radical para as feministasliberais quando estas se deparassem com os limites do liberalismo
político para modificar o sistema de dominação patriarcal. Sylvia Walby
(1992) propõe, então, analisar o desenvolvimento de duas formas de
patriarcado: uma privada, baseada nos grupos domésticos, no âmbito
do domicílio, e uma pública, correspondente à emergência do Estado.
A autora propõe que o patriarcado público se endereça a várias
dimensões além das diferenças no trabalho remunerado, incluindo-se
a sexualidade, a violência e o Estado.
Walby (1990, p.19) endossa uma visão de Carole Pateman (1988)
sobre as análises clássicas do patriarcado, observando que essa literatura
tem estado mais voltada para o estudo da relação entre homens de
gerações diferentes do que da relação entre homens e mulheres. Ela
estende esta observação para a teoria weberiana, o que considero
inadequado. Demonstrei acima que em suas tipificações do patriarcado
Weber discute explicitamente a situação das mulheres. Pela pesquisa
com autores clássicos do pensamento social brasileiro empreendida acima
essa crítica também não é pertinente.
Uma importante contribuição para a análise do patriarcado a partir
do contexto brasileiro é oferecida por Jeni Vaitsman (1994). A autora
326 Neuma Aguiar
examina criticamente o sistema de classificação das famílias que as
diferencia entre patriarcal ou extensa e nuclear ou burguesa, apontando
que a família burguesa, de fato, é uma família patriarcal. Com a
separação entre casa e trabalho, inaugura-se a divisão do sexual e do
trabalho, com especialização das funções de provisão da casa e de
cuidados com os filhos. O processo de modernização brasileiro, por-
tanto, inaugura uma nova modalidade de patriarcado. A concepção de
uma família patriarcal burguesa, portanto, permite explicar porque o
desenvolvimento capitalista e a industrialização geram iniqüidades de
gênero. Transformações sociais em ampla escala, incluindo-se nestas
o processo de urbanização, têm sido apontadas como responsáveis
pela criação de novos conceitos de intimidade e de esfera doméstica.
Todavia, a divisão sexual também é recurso de sustentação de
hierarquia no contexto privado. Desde a abolição da escravatura, boa
parte da população negra migrou para as cidades, numa situação
caracterizada por grande desequilíbrio entre os sexos, baixa taxa de
nupcialidade e alta taxa de nascimentos ilegítimos, alta proporção
de solteiros e baixo número de famílias com casamento regularizado,
quando a união consensual sem legitimação jurídica consiste em um
padrão de comportamento comum. Ao lado de famílias nucleares
regularmente constituídas, encontra-se grande proporção de domicílios
com uniões consensuais, isto é, com relações conjugais não contratuais.
Chegamos, portanto a uma nova concepção de patriarcado para a
análise da sociedade brasileira.
Elizabeth Dória Bilac levanta a questão da família patriarcal e do
concubinato remetendo a uma discussão que se iniciara com Antônio
Cândido, tendo continuado com as análises de Florestan Fernandes e
de Heleieth Saffioti, sobre a predominância de relações legítimas
sancionadas pelo casamento para uma parcela da sociedade e de
relações ilegítimas para outra camada social. A autora (Doria Bilac,
1996) examina a situação das uniões consensuais, observando a
crescente procura da justiça comum, em casos de separação,
principalmente quando estas ocorrem no bojo de uniões consensuais.
O direito, afirma a autora, vem se tornando mais difícil de ser burlado,
a tal ponto que os homens nunca foram tão responsáveis pela sua
reprodução biológica. Com o avanço da Ciência e com as possibilidades
de atribuição de paternidade que dantes não existiam, criam-se novas
concepções sobre a relação entre público e privado, em conjunto com
 Patriarcado, sociedade e patrimonialismo 327
outros temas, colocando outros desafios para o sistema jurídico e
deixando antever novas possibilidades de alteração e mudança dos
sistemas patriarcais.
O retorno à literatura clássica possibilitou, à luz da literatura
feminista, observar a construção do conceito de patriarcado pelo
pensamento social brasileiro e as modificações que nele vem sendo
introduzidas em suas conotações. No texto, pesquisamos o significado
do conceito de patriarcado no pensamento social brasileiro, suas
conotações e discussões em torno do tema. Observamos como o
sistema de dominação é concebido de forma ampla e que este incorpora
as dimensões da sexualidade, da reprodução e da relação entre homens
e mulheres no contexto de um sistema escravista. Observamos que
uma atenção orientada exclusivamente para o âmbito da economia ou
do sistema político perde de vista as relações hierárquicas no contexto
doméstico. Se mesmo nas sociedades onde o público se destaca do
privado as relações de gênero continuam patriarcais, no âmbito das
sociedades patrimoniais a intimidade entre público e privado não
resultou em uma maior participação política ou econômica das mulheres
nessa esfera pela própria origem patriarcal do estamento burocrático
no contexto de um patrimonialismo patriarcal. As assimetrias de poder
nas relações entre homens e mulheres com o desenvolvimento da
Ciência e do Sistema Jurídico podem ser transformadas historicamente,
mas a análise do patriarcalismo no Brasil e em outros contextos pode
documentar os obstáculos e avanços no desenvolvimento da sociedade.
328 Neuma Aguiar
Abstract. In this text we search the meaning of the patriarchate
concept in the Brazilian Social Thought. We observe how the
dominance system is conceived in a wide form that incorporates
the dimensions of sexuality, of reproduction and of the relationship
between men and women in the context of a slavery system. We
sustain that, if even in the societies where the public differs from
the private, the gender relations remain patriarchal, in the scope
of the patrimonial societies the involvement between public and
private did not result in a larger political or economic participation
of the women in this sphere for the own patriarchal origin of the
bureaucracy in the context of a patriarchal patrimonialism.
Resumé. L’article examine le concept de patriarcat dans la pensée
social brésiliene. On observe qui le systéme de domination
incorpore les dimensions de la sexualité e des relations entre les
genres dans le contexte de l’ésclavage. On defand qui dans les
societés patriominalistes la indifférenciation entre les ordres
publique e privées ne conduit pas a une plus grande participation
politique ou économique des femmes.
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______________ (1964). Sociology of religion. Boston: Beacon Press.
______________ (1978). Economy and society. Organizada por
Guenther Roth e Claus Wittich. Berkeley: The University
of California Press, 2 vols.
______________ (1961). General economic history. New York:
Collier Books.
WITZ, Ann (1992). Professions and patriarchy. Londres e New
York: Routledge.
Literatura popular e 
identidade cultural
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
 � Apontar os mecanismos envolvidos na formação da identidade
cultural.
 � Demonstrar a importância da literatura popular na formação da
identidade cultural.
 � Identificar, na literatura popular, as marcas da identidade cultural.
Introdução
Quando usamos o termo “popular” associado à literatura, estamos 
nos referindo a um conjunto de produções literárias com característi-
cas bem específicas e com uma ampla significação. O que entende-
mos por “povo” é extremamente importante para estudar a literatura 
popular. No entanto, o fundamental é que a literatura, juntamente 
com outras expressões artísticas populares, faz parte de um imenso 
patrimônio cultural, que representa nossa identidade e evidencia um 
importante senso de pertencimento. Neste texto, você vai conhecer 
um pouco mais sobre a relação entre a literatura popular e a identi-
dade cultural.
Cultura e identidade cultural
Você já sabe que o homem é, por natureza, um ser social, um produto cultural. 
Mas o que isso quer dizer?
Durante muito tempo, a ideia de cultura e identidade esteve associada a 
uma visão nacionalista – cultura brasileira, identidade brasileira, povo brasi-
leiro e, por extensão, uma literatura popular brasileira. Tal abordagem chegou 
até a despertar um senso de patriotismo (valorizar e exaltar o que é nacional). 
Além disso, chamou a atenção para a importância de estudar melhor aquilo 
que pertence ao país, em vez de buscar imitar modelos. Em contrapartida, 
tal enfoque apresenta alguns riscos, em especial o risco de homogeneizar ou 
simplificar conceitos como cultura, identidade e até de nação. Também pode 
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levar a desconsiderar algumas práticas por não se enquadrarem numa defi-
nição restrita de cultura ou povo.
Desde o início do século XIX, quando essas visão nacionalista ganhou 
força, até os dias de hoje, ampliaram-se bastante esses conceitos. Quando 
atualmente tratamos do assunto, devemos considerar uma série de questões, 
como, por exemplo, a diversidade cultural e a importância de haver espaço 
para todo tipo de expressão cultural, sem que alguém ou alguma instituição 
imponha parâmetros ou delimitações a isso.
Quanto à literatura, sabemos que ela é produto do seu meio – mesmo que 
um autor crie uma história que se passe em época diferente da sua ou mesmo 
em outro planeta, ainda assim, aspectos de seu contexto cultural estarão evi-
denciados.
Na literatura popular, porém, esse processo se dá de um modo mais parti-
cularizado. A literatura, assim como a música, a pintura, a escultura, a dança, 
as festas e outros expressões populares, são produzidas e divulgadas a partir 
de um vínculo cultural e identitário bem significativo.
Inicialmente, essas manifestações artísticas tinham vínculo com rituais 
e crenças compartilhados por certos grupos. Aos poucos, modificaram-se e 
ampliaram-se, tornando-se produtos estéticos, com fins de entretenimento. 
Contudo, conservam resquícios dessas práticas.
Figura 1. Festa de São João.
Fonte: Bricolage/Shutterstock.com
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A cultura popular conserva uma relação muito estreita com os hábitos 
de vida, com crenças e valores. Você percebe isso nos contos, nos folhetos 
de cordel, na música, nas festas. Veja, por exemplo, que as comemorações 
juninas celebram a vida do homem sertanejo e suas atividades diárias. A festa 
é recheada de simbologias e significações.
A cultura popular está associada a essas relações de trabalho e vida sim-
ples, a um tempo em que as relações se davam por meio da presença, do con-
tato olho no olho. Os códigos de conduta e os ensinamentos eram transmitidos 
através da palavra, a qual tinha força de lei. 
De certa forma, há um conservadorismo nesse processo. Como práticas 
sagradas, elas tendem a se reproduzir mais ou menos preservando as formas 
originais (daí os resquícios dos rituais). Não significa que essas práticas cultu-
rais não se atualizem e se adaptem às naturais transformações do mundo. Isso 
acontece, sim. Por isso é que a cultura popular é complexa e rica de significa-
ções e ainda hoje tem razão de existir.
E também, por estabelecerem um vínculo cultural, não precisamos temer 
que vão desaparecer diante de novos hábitos e tecnologias. Elas se adaptam 
(ainda que em um processo mais lento). Se não forem mais significativas, 
essas práticas culturais desaparecem ou são substituídas naturalmente.
Para estudar os produtos dessa cultura – como a literatura popular –, é 
preciso reconhecer as várias marcas de tempos passados e modos de vida que 
se transformam. Mais do que isso: qualquer produção literária popular reflete 
os interesses e os valores desse grupo, atende a certa expectativa. 
A aceitação, o reconhecimento e a reprodução dessas produções literárias 
se dão em um processo de identificação cultural, reforçando as marcas de 
uma coletividade, atendendo a uma necessidade de pertencimento, de vín-
culo, tão indispensável em nossas relações sociais.
Diversidade cultural 
Diversidade cultural é um conceito relativamente recente, como são re-
centes as leis que determinam promover e valorizar a diversidade cul-
tural. Com isso, a cultura popular e suas manifestações ganham amparo e in-
centivo, um meio de fazer com que chegue a mais pessoas e seja reconhecida 
como parte da nossa identidade.
Isso tem relevância porque, por muito tempo, o mais valorizado era a cul-
tura “estrangeira”. No século XIX, por exemplo, quando o Brasil ainda era 
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colônia de Portugal, difundia-sea ideia de que a cultura boa e de prestígio 
era a europeia e que a “boa formação” só poderia vir dos livros e do domínio 
da arte erudita – ópera, orquestra, teatro, literatura. Por extensão, a cultura 
popular era desprestigiada, considerada coisa de pobre e iletrado. 
A diversidade cultural sempre existiu, mas, em algumas épocas, essa mes-
tiçagem era vista como algo negativo. Valorizava-se a pureza da raça e a 
fidelidade e processos estéticos padronizados. 
No final do século XIX, houve, no mundo todo, um importante avanço das ciências natu-
rais, com descobertas significativas e uma valorização do olhar cientificista. Teorias como 
o evolucionismo de Charles Darwin e o determinismo de Hippolyte Taine defendiam a 
importância da adaptação do homem ao meio, destacavam as reações instintivas e indi-
cavam que a genética tinha grande interferência nesse processo. Daí interpretações um 
tanto equivocadas que priorizavam a importância de uma pureza de raça
Figura 2. Evolucionismo.
Fonte: williammpark/Shutterstock.com
O brasileiro, sob essa perspectiva, era visto como mais fraco, mas susce-
tível (física e moralmente), porque produto de uma diversidade, diversidade 
essa que ainda contava com a influência africana, também menosprezada.
E a literatura? Bem, a literatura erudita, de alguma forma, submeteu-se a 
essa perspectiva, e isso se deu de duas formas – menosprezando o elemento 
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local e valorizando a imitação de modelos europeus ou olhando para o ele-
mento nacional como algo exótico e frágil. 
A literatura popular, como produto de uma coletividade, fica alheia a tudo 
isso. Porém, são os estudiosos que vão olhar para ela de um modo diferente, 
com consequências importantes. As manifestações literárias populares serão 
classificadas a partir das influências raciais e culturais, o que é uma forma 
bem simplista de análise, ainda que condizente com o pensamento do período.
Como uma influência do Romantismo, que valorizava o saber do povo, 
houve um interesse pelo estudo das produções populares. Mais tarde, no final 
do século XIX, sob o viés cientificista, essas produções continuaram a ser 
estudadas e classificadas.
Sílvio Romero, um pesquisador dessa época, publicou uma recolha de 
contos (Contos populares do Brasil, de 1897), os quais foram divididos em 
três categorias – contos de origem europeia, contos de origem indígena e 
contos de origem africana e mestiça. Essa divisão é condizente com esse 
olhar determinista da época. Ao fazer essa divisão, podemos perceber o que 
o pesquisador considera como elementos constituintes da cultura brasileira. 
Os contos de origem europeia são aqueles que envolvem elementos má-
gicos, reis e príncipes. Os contos de origem indígena são as histórias de ani-
mais (não aparecem indígenas!) e os contos de origem africana e mestiça com-
preendem também histórias de animais (em especial, o macaco) e facécias, 
ou seja, histórias que provocam riso, expondo personagens bobos, pregui-
çosos, ladrões, o que é um indicativo do que se pensava em relação ao povo 
de origem mestiça. Vejamos um exemplo deste último ponto.
O NEGRO PACHOLA
 Havia uma senhora de engenho casada e sem filhos. Adoecen-
do o marido e morrendo, ficou em lugar dele um preto africano, 
chamado Pai José. Assim que Pai José ouviu dizer que ia governar 
o engenho, ficou muito orgulhoso.
 Logo que foi distribuir o serviço com os outros ne-
gros, passou ordem a eles que, de ora em diante, não o 
tratassem mais por Pai José, e sim Sinhô Moço Cazuza. 
 Os negros lhe obedeceram. E, quando o viam, diziam: “A 
bença, Sinhô Moço Cazuza.” O negro, muito concha, respondia: 
“Bênção de Deus.”
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 Não ficou só aí o orgulho do negro. Quando chegou à casa, 
disse para a senhora: “Meu sinhá, quando Sinhô Moço Cazuza 
chegava em casa cansado, meu sinhá não mandava logo botar 
banho para ele? Pois eu também quer.” A senhora, coitada, não 
teve outro remédio senão mandar botar banho para Pai José.
 Não satisfeito ainda, disse o negro: “Meu sinhá, não mandava 
mulatinha esfregar costa de meu sinhô? Pois eu também quer.” A 
senhora mandou a mulatinha esfregar as costas de Pai José. Este 
ainda continuou: “E meu sinhá não dava camisa gomada pra meu 
sinhô vestir? Pai José também quer.” A pobre mulher foi buscar 
uma camisa engomada, deu a Pai José para vestir. E, vendo que 
devia acabar com as pacholices daquele negro, falou com dois 
criados, muniu-se de dois bons chicotes e mandou-os esconde-
rem-se no quarto. Esperou que o negro pedisse mais alguma coi-
sa. E não tardou que ele dissesse: “Meu sinhá, quando meu sinhô 
acabava de tomar banho e de vestir a camisa grosmada, ia para o 
quarto pra meu sinhá catar piolho nele? Pai José também quer.”
A moça não teve dúvida. Mandou-o entrar para o quarto e deu 
ordem aos criados que empurrassem o chicote.
Se ela bem ordenou, melhor executaram os criados. Pai José apa-
nhou tanto que escapou de morrer.
No outro dia, bem cedo, o negro foi para a roça ainda muito ma-
goado das pancadas. E, quando os negros o saudaram: “A ben-
ça, Sinhô Moço Cazuza”, ele muito zangado respondeu: “Cazu-
za, não, eu sou Pai José.” E deu ordem para o tratarem pelo seu 
próprio nome. Os negros muito admirados ficaram sem saber a 
causa daquela mudança.
Nunca mais Pai José pediu banho, nem camisa engomada, nem 
à senhora para catar piolhos. 
(ROMERO, 1985, p. 194)
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O conto mostra as relações sociais de poder e dominação, através da lição 
dada ao “pai José”. Mostra também a vida nos engenhos, a escravidão e al-
gumas práticas cotidianas. Na moral do conto, percebe-se certa visão precon-
ceituosa e a valorização dos brancos, em detrimentos dos negros.
Leia a análise da literatura popular feita pelo próprio Sílvio Romero, à 
época:
As relações da raça superior com as duas inferiores tiveram dois 
aspectos principais: a) relações meramente externas, em que os 
portugueses não poderiam, como civilizados, modificar sua vida 
intelectual que tendia a prevalecer e só poderiam contrair um ou 
outro hábito, e empregar um ou outro utensílio na vida cotidiana 
ordinária; b) relações de sangue, tendentes a modificar as três ra-
ças e a formar o mestiço. 
(ROMERO, 1985, p. 16)
través dela, notamos o reconhecimento de um multiculturalismo brasi-
leiro, representado pelo mestiço, mas, ao mesmo tempo, uma noção que su-
pervaloriza uma cultura em detrimento de outras, consideradas inferiores e 
desprovidas de “civilidade”.
Felizmente, o que era considerado uma fraqueza – a mestiçagem – foi 
sendo percebido como uma riqueza, uma fonte inesgotável de criação, desper-
tando interesses legítimos em termos de estudos, especialmente a partir dos 
anos 1920, com o Modernismo brasileiro.
Atualmente, a diversidade cultural é mais valorizada, porque há um 
maior reconhecimento da complexidade de elementos e inf luências em 
nosso meio. Até mesmo os Parâmetros Curriculares Nacionais, um do-
cumento que normatiza o ensino no Brasil, reforça a importância de co-
nhecer e valorizar a pluralidade do patrimônio sociocultural brasileiro. 
Algumas leis preveem o ensino da cultura afro-brasileira e o contato com 
as culturas indígenas, em uma tentativa de nos reconhecermos como pro-
duto de uma sociedade que valoriza a liberdade de criação e de expressão 
cultural. 
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O contador de histórias – um mediador 
da cultura
Para deixar mais clara a relação entre a cultura e a literatura popular, 
vamos analisar agora um aspecto essencial na literatura – o contador de his-
tórias, ou cantador, ou poeta.
Como dissemos anteriormente, a literatura popular conserva resquí-
cios de rituais, que celebravam momentos importantes da vida em comu-nidade – colheitas, nascimentos, conquistas e até tragédias. Desde tempos 
imemoriais, as comunidades mais primitivas se organizavam em torno 
de líderes, responsáveis pelos ensinamentos e pela ordem. Em geral, esse 
papel era ocupado pelos mais velhos – os sacerdotes, os xamãs. Essas 
figuras estabeleciam uma ligação entre o sagrado e o cotidiano. Eram de-
tentores do poder da palavra.
Como sabemos, a literatura popular tem como suas bases a oralidade, daí 
o impacto da voz, daquilo que é proferido como valor-verdade.
A partir desse conceito, podemos relacionar a função do xamã com a do 
poeta popular, que domina um código social, que conhece o seu grupo, que 
recorre à palavra para divulgar e transmitir os saberes de seu grupo. Ele faz a 
mediação entre a cultura e as pessoas, através da literatura.
É por isso que, nas histórias populares, comumente percebemos o narrador 
se colocar como testemunha dos fatos, para reforçar a importância do que está 
sendo apresentado. Ao contar uma história, faz isso levando em consideração 
seu papel de mediador da cultura, o que exige conhecimento e experiência, 
mas também sensibilidade, para atingir seu interlocutor. Torna-se, de certa 
forma, a memória vida de sua cultura.
Observe os exemplos a seguir, que evidenciam o papel do contador de 
histórias como um transmissor da cultura.
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EXEMPLO 1 – O BOI LEIÇÃO
Informante: José Maria de Melo, Alagoas
E no dia do casamento houve uma festa tão grande que abalou todo o pessoal da 
redondeza. Dançou-se sete dias com sete noites “encastoados”. Naquele tempo eu 
ainda era solteiro, e meti-me no meio e dancei tanto que quase me acabo!… A festa 
só acabou no fim do sétimo dia; assim mesmo porque os dedos do tocador de harmô-
nico, de tão inchados que estavam de tocar, não podiam mais arrastar o fole. 
(CASCUDO, 2003, p. 184)
EXEMPLO 2 – LAMPEÃO ARREPENDIDO DA VIDA DE CANGACEIRO
Autoria: Laurindo Gomes Maciel
Virgolino Lampeão
Se achar meu verso ruim
Deus queira que o Governo
Brevemente dê-lhe fim
Falei somente a verdade
Lampeão por caridade
Não tenha queixa de mim.
Terminei caro leitor
O verso de Lampeão
Descrevi divinamente
O que ele fez no sertão
Nada mais tenho a dizer,
Quando Lampeão morrer
Faço outra narração. 
(PROENÇA, 1986, p. 375)
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EXEMPLO 3 – MINHOCÃO
Entrevistado: Vadô
Outro dia, foi dois dia de festa, dois dia de festa. Dois, três dia que nós ia embora pra 
buscar padre que tinha lá, pra nós fazer essa brincadeira. Não, mas diz que é, eu tô 
falando pro senhor, é realidade! O que eu falo o senhor escreve, eu assino. Então, o 
senhor vê como é. Então tá.
Bandeira ficava quadro, cinco dia. Comia capivara, peixe, o que tiver, né? Ah! Nesse 
tempo, mandioca tinha todo dia na beira do rio aí. Passava aquela lancha aí, a Cabuxio, 
a Panamericana, tudo. No tempo que matava capivara, sabe? Matava jacaré. [...]
Aí, nós tomando umas pinga e tal... Aí o companheiro falou:
– Ah! Rapaz, eu tô cum uma fome muito forte! Eu vou matar uma capivara!
Falei: 
– Vamos, eu vou cum vocês.
Outro falou:
– Eu também vou! Vamos caçar aí, matar umas capivara aí, lontra, qualquer coisa, né? 
E eu tava enjoado dos remédio e bem passado da bebida. Pegamos essa canoa. 
Aaooô rapaz! [...]
E esse rapaz caçava, esse que num quis pegar a bandeira, caçava também. Foi e 
atirou nesse bicho. Mas atirou: pá! [...]
Aí o pessoal me disseram:
– Cê sabe o que que é? Esse é o bicho que ele atirou. Esse é o minhocão. 
(FERNANDES, 2002, p. 168-169)
No Exemplo 1, temos um trecho de um conto coletado por Câmara Cas-
cudo. Trata-se do final da história. Em primeira pessoa, o narrador, para le-
gitimar o teor do narrado, coloca-se como testemunha e descreve detalhes da 
festa em comemoração ao final feliz.
No Exemplo 2, o final de um folheto de cordel. Como é muito comum 
nesse gênero literário, as últimas estrofes fazem referência ao interlocutor, 
motivando-o a comprar o folheto. Neste caso, em particular, o poeta dirige-
-se, primeiramente, a Lampeão, receoso do impacto da narrativa; em seguida, 
dirige-se ao leitor, atestando seu conhecimento sobre o assunto e prometendo 
tornar a versejar sobre o tema.
No Exemplo 3, temos a transcrição de um depoimento de um pantaneiro 
sobre sua vida de vaqueiro. No trecho, fica evidente a preocupação em ga-
rantir a veracidade do narrado (como nos outros dois exemplos) a partir da 
legitimação da própria palavra (“O que eu falo o senhor escreve, eu assino”). 
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Também podemos conhecer mais sobre a vida no Pantanal, os hábitos e o 
imaginário – como o Minhocão, a cobra que, em noites de lua cheia, suga o 
sangue das pessoas.
Nos três casos, há um comprometimento de quem conta com aquilo que 
é contado, evidenciando domínio do contexto onde se desenvolve a história. 
Através de seu relato, temos as explicações e as informações sobre as práticas 
culturais, sobre os modos de relacionar o cotidiano ao discurso literário.
Os textos populares estão repletos de exemplos de modos de ser e de 
pensar. Conhecer a literatura popular, entre muitas vantagens, permite co-
nhecermos expressões culturais e, mais do que isso, estreita nossos vínculos 
identitários, porque nos reconhecemos nessas histórias.
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CASCUDO, L. da C. Contos tradicionais do Brasil. 13. ed. São Paulo: Global, 2003.
FERNANDES, F. A. G. Entre histórias e tererés: o ouvir da literatura pantaneira. São Paulo: 
EDUNESP, 2002.
JOLLES, A. Formas simples: legenda, saga, mito, adivinha, ditado, caso, memorável, con-
to, chiste. São Paulo: Cultrix, 1975.
MEYER, M. (Org.). Autores de cordel: literatura comentada. São Paulo: Abril Educação, 
1980.
PROENÇA, M. C. Literatura popular em verso (antologia). Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/
EDUSP, 1986.
ROMERO, S. Contos populares do Brasil. Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/EDUSP, 1985.
Leituras recomendadas
BERND, Z.; UTÉZA, F. (Orgs.) Produção literária e identidades culturais: estudos de literatura 
comparada. Porto Alegre: Sagra Luzzatto, 1997.
ONG, W. Oralidade e cultura escrita: a tecnologização da palavra. São Paulo: Papirus, 1998.
ZUMTHOR, P. A letra e a voz. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
 > Identificar os elementos históricos que levaram ao processo migratório 
no Brasil.
 > Analisar a influência da migração na dinâmica econômica e política do Brasil.
 > Reconhecer a importância da migração para a formação social e cultural 
do Brasil.
Introdução
Além de ser um país de imigrantes estrangeiros, o Brasil também é um país de 
relevante migração interna. A partir da segunda metade do século XX, o País 
experimentou grandes fluxos migratórios, que ocorreram sobretudo da região 
Nordeste em direção à Sudeste. Esse movimento de grandes contingentes teve 
as suas origens históricas na pobreza das regiões originárias dos migrantes, que 
funcionou como fator de expulsão destes de suas terras natais. Como fator de 
atração ao Sudeste, houve o grande desenvolvimento econômico pelo qual essa 
região passou, com a industrialização e a construção de rodovias, que facilitaram 
a migração.
O processo 
migratório como 
fator social e 
econômico
Eduardo Pacheco Freitas
Desse modo, o País teve diversas esferas de sua sociedade influenciadas 
pelos movimentos de migração. A política, a cultura e a economia brasileiras têm, 
em suas expressões atuais, a marca do trabalho e da presença dos migrantes. 
Portanto, pode-se afirmar que o Brasil, como o conhecemos, não seria o mesmo 
sem os fluxos migratórios que ocorreram no século passado.
Neste capítulo, você estudará sobre as origens históricas da migração no 
Brasil. Além disso, verá uma análise da migração sob o ponto de vista econômico e 
político.Por fim, você conhecerá o papel relevante dos migrantes para a formação 
sociocultural brasileira.
Origens do processo migratório brasileiro
Nos últimos 60 anos, o Brasil experimentou um grande fluxo migratório interno. 
Os movimentos migratórios estão profundamente conectados ao processo 
de urbanização crescente que o País viveu no período e à redistribuição da 
população brasileira no espaço do território nacional. Embora os fluxos mi-
gratórios ocorram no País desde o século XIX, é a partir da segunda metade 
do século XX que eles irão se intensificar e se tornar um fenômeno bastante 
considerável (BAENINGER, 2012).
A cada ciclo econômico verificado nos últimos dois séculos, houve formas 
migratórias diferentes: ao longo do século XIX, a migração esteve vinculada 
à produção cafeeira; da última década do século XIX até 1930, os migrantes 
buscavam inserção em um novo sistema cafeeiro e na industrialização inci-
piente; entre os anos de 1940 e 1950, houve a integração do mercado interno 
e um maior desenvolvimento regional, sobretudo na região Sudeste, que 
passou a atrair cada vez mais migrantes (BAENINGER, 2012).
De 1950 a 2000, ocorreu a internacionalização da economia brasileira, 
somada a um ritmo de urbanização jamais visto no País, sendo esse fenô-
meno diretamente relacionado aos fluxos migratórios da região Nordeste 
em direção à Sudeste. Na década de 1980, esse fluxo migratório diminuiu 
consideravelmente, ganhando novo fôlego apenas no século XXI. Neste ca-
pítulo, trataremos exclusivamente do período considerado mais relevante e 
com maiores impactos na sociedade brasileira, que corresponde justamente 
à segunda metade do século XX (BAENINGER, 2012).
A partir da década de 1950, a principal causa para a migração interna 
foram os desiquilíbrios na distribuição regional da riqueza. As regiões Norte e 
Nordeste apresentaram, historicamente, uma menor participação na riqueza 
do Brasil, além de serem regiões negligenciadas em amplo aspecto pelo poder 
central que se encontrava no sul do País. Além disso, a necessidade cada vez 
O processo migratório como fator social e econômico2
maior de mão de obra não qualificada para a indústria e para a construção 
civil contribuiu sobremaneira para a atração de migrantes das regiões Norte e, 
principalmente, Nordeste em direção às regiões Sudeste e Sul (SINGER, 1980).
Portanto, qualquer abordagem sobre os fenômenos migratórios deve 
ser realizada a partir da perspectiva histórico-estrutural, buscando-se 
compreender os fenômenos e processos que condicionaram as decisões 
dos migrantes de partirem em busca de novas oportunidades. Para melhor 
compreensão, deve-se considerar também a conjuntura internacional, em 
que as massas se deslocam em função do capital. Nesse sentido, Singer 
(1980, p. 80) afirma que:
Como qualquer outro fenômeno social de grande significado na vida das nações, 
as migrações internas são sempre historicamente condicionadas, sendo o resul-
tado de um processo global de mudança, do qual elas não devem ser separadas. 
Encontrar, portanto, os limites da configuração histórica que dão sentido a um 
determinado fluxo migratório é o primeiro passo para o seu estudo.
No caso do Brasil, a origem das migrações está estreitamente relacionada 
com a economia, visto que, enquanto país inserido na periferia do sistema 
capitalista mundial, ele tem suas esferas econômicas, políticas e sociais 
profundamente afetadas pelo contexto internacional. O fenômeno migratório, 
como parte da sociedade, não poderia deixar de ser influenciado também 
pelas movimentações do capital mundial. Quando se inicia um grande fluxo 
de migrantes das regiões mais ao norte do País em direção às regiões ao 
sul, este se dá sobretudo pelas grandes transformações econômicas pelas 
quais o País passava, em um momento em que deixava de ser um país rural 
e passava a ser um país urbano (SINGER, 1980).
Na região Nordeste, a década de 1950 foi marcada por um processo 
constante de crescimento demográfico, que desencadeou graves 
problemas em termos sociais e políticos. Ao mesmo tempo, havia uma espécie 
de insatisfação popular com as condições de vida locais, ao passo que se vis-
lumbrava uma certa opulência (se comparada à vida miserável no Nordeste) 
no Sudeste, região mais desenvolvida do País. Houve tentativas de fixar os 
nordestinos em sua terra, por meio da criação de associações camponesas, 
que lutavam contra os latifúndios e buscavam promover o acesso à terra para 
os pobres. Contudo, a crise não foi solucionada, e políticas que incentivaram 
a migração foram implementadas, contribuindo para os fluxos migratórios em 
direção à região Sudeste e conformando uma situação dual no País, em que o 
campo é atrasado e o espaço urbano é desenvolvido (RUA, 2003).
O processo migratório como fator social e econômico 3
Nesse contexto, o Brasil mudava — embora em dimensão reduzida — a 
sua participação no cenário internacional, tornando-se exportador de pro-
dutos industrializados. Essa nova condição, ligada ao desenvolvimento das 
indústrias, sobretudo no estado de São Paulo, contribuiu de alguma forma 
para as migrações. Entretanto, o grande motor a colocar em marcha os fluxos 
migratórios da região Nordeste, sem sombra de dúvida, foi a criação de um 
mercado interno, no qual surgiram bens de consumo fabricados no próprio 
País, como uma linha variada de eletrodomésticos e, muito importante, um 
parque automobilístico, implantado durante o governo de Juscelino Kubitschek 
(1956–1961). Essa nova matriz industrial instalada no País exigia mão de obra de 
maneira crescente, funcionando como um fator de atração dos migrantes, que, 
em suas regiões de origem, enfrentavam fatores de expulsão (DRAIBE, 1985).
Um dos paradigmas explicativos dos movimentos migratórios é o 
modelo “repulsão/atração”, segundo o qual “no centro dos processos 
migratórios, se encontra a decisão de um agente racional que, na posse de 
informação sobre as características relativas das regiões A e B, e de dados 
contextuais respeitantes à sua situação individual e grupal, decide pela perma-
nência ou pela migração” (PEIXOTO, 2004, p. 5). Em outras palavras, a migração 
só pode ocorrer na convergência de processos complementares: as condições 
adversas na região de origem (dificuldades/repulsão) e o vislumbre de melhores 
condições em outro local (oportunidades/atração).
No entanto, outras transformações da sociedade brasileira serviram 
como atração para os migrantes a partir da década de 1950. Naquele período, 
sobretudo no governo de Juscelino Kubistchek (JK), uma nova doutrina eco-
nômica tomou conta do País: o nacional-desenvolvimentismo. A partir dessa 
doutrina, JK foi eleito, prometendo intervir fortemente na economia, com o 
objetivo de modernizar o País. A sua base foi o conhecido Plano de Metas, 
que propunha soluções para as áreas da indústria, do campo, da energia, da 
educação, entre outras. O slogan de JK foi “50 anos em 5”, afirmando que o 
Brasil experimentaria um avanço rápido como nunca visto em sua história. 
O maior símbolo da administração de JK foi a construção de Brasília, uma 
representação do novo país, industrializado e cosmopolita, que ele pretendia 
inaugurar (BIELSCHOWSKY, 2007).
A construção de Brasília, iniciada em 1956, exerceu uma forte atração 
sobre os migrantes do norte e, principalmente, do Nordeste e do estado de 
Goiás. Os candangos, como ficaram conhecidos os migrantes-operários que 
construíram Brasília, chegaram a somar mais de 60 mil indivíduos no auge das 
O processo migratório como fator social e econômico4
obras. Para acomodar esse enorme contingente de pessoas, as construtoras 
levantaram grandes acampamentos, que, na prática, funcionavam como 
pequenas cidades (REIS JÚNIOR, 2008).
Inicialmente, o maior número de migrantes veio de Goiás, segundo o censo 
realizado em 1957, que apontou como oriundos desse estado 3.152 migrantes. 
Entretanto, a partir de 1958, uma grande seca na região Nordeste promoveu o 
deslocamento de 4 mil flageladosem direção aos canteiros de obras da nova 
capital. Ainda assim, no ano de 1958, os operários goianos compunham 52% 
da população da Cidade Livre (Figura 1), acampamento que reunia a maior 
parte dos candangos. Portanto, tem-se dois fatores principais na formação 
do perfil do migrante que construiu Brasília: a proximidade geográfica (Goiás) 
e as dificuldades econômicos advindas das secas que assolavam a região 
Nordeste (REIS JÚNIOR, 2008).
Figura 1. Cidade Livre (1959), a maior cidade dos candangos, que abrigou dezenas de milhares 
de migrantes-operários durante a construção de Brasília.
Fonte: Núcleo... (2020, documento on-line).
O processo migratório como fator social e econômico 5
Influências da migração sobre a economia e 
a política brasileiras
A partir de 1930, as migrações internas brasileiras passaram a desempenhar um 
papel de destaque na recomposição espacial do Brasil. Como visto, os fluxos 
migratórios tinham relação com as atividades de produção mais expressivas 
de cada época histórica. Nas primeiras décadas do século XX, a atividade 
econômica primária brasileira estava no campo, contudo, ao longo do século, 
houve a transposição do centro da economia, que ficava no campo, para as 
cidades e suas indústrias, comércios e serviços (MATA, 1973).
Portanto, o fenômeno de migração desse período foi caracterizado, muitas 
vezes, como êxodo rural, já que houve um deslocamento massivo de cam-
poneses para as cidades em busca de trabalho e melhores oportunidades. 
Entre 1940 e 1970, por exemplo, enquanto a taxa da população rural crescia a 
1,8%, nas áreas urbanas, o crescimento populacional era de 4,8%. Em suma, 
um dos principais resultados da migração interna brasileira foi o inchaço das 
grandes cidades do País, sobretudo São Paulo e Rio de Janeiro (MATA, 1973).
No século XX, o Brasil modernizou a sua economia e, como não poderia 
deixar de ser, atrelada a essa nova dinâmica, a sociedade e a política se trans-
formaram. Em decorrência da demanda por mão de obra nas indústrias, que 
surgiam em velocidade cada vez mais acelerada, principalmente na década 
de 1950, em função do desenvolvimentismo de Juscelino Kubitschek, houve 
a atração de migrantes da região Nordeste.
Todavia, não foi somente para o trabalho na indústria que essas pessoas se 
deslocaram dentro do Brasil rumo à região Sudeste. À época, o Brasil passou 
a apostar fortemente no modelo de transporte estadunidense, deixando de 
lado as ferrovias e as hidrovias e investindo na construção de milhares de 
quilômetros de estradas, pontes e rodovias por todo o país (FREITAS, 2017). 
Desse modo, dois aspectos que se complementam podem ser destacados: 
primeiro, a transformação econômica nos campos da indústria e dos trans-
portes, que funcionou como elemento de atração para os migrantes; segundo, 
as próprias rodovias e pontes construídas pela mão de obra dos migrantes 
facilitaram ainda mais o deslocamento destes para as regiões Sul e Sudeste. 
Assim, o Brasil se tornava um país em que as distâncias eram diminuídas 
a cada dia, promovendo uma grande transformação social devido à nova 
infraestrutura de transportes (FREITAS, 2017).
Trata-se, pois, de uma relação dialética: à medida que a economia se 
desenvolvia, os migrantes desenvolviam a economia com sua força de tra-
balho. Daí a centralidade dos migrantes da região Nordeste no dinamismo da 
O processo migratório como fator social e econômico6
economia brasileira do século XX. Portanto, não é possível analisar aquele 
período sem que os trabalhadores oriundos de outras regiões do Brasil — e 
suas realizações no Sudeste — sejam levados em consideração.
É evidente que a maior parte dos trabalhadores migrados da região 
Nordeste para a Sudeste encontrou condições de vida tão ou mais 
adversas que aquelas existentes em seus estados de origem. Um importante 
fato econômico envolvendo os migrantes é chamado pela sociologia de cor-
reias transmissoras. Na prática, isso significa que os migrantes fogem de um 
contexto de subemprego/desemprego de suas regiões originárias para, na 
maioria das vezes, encontrar a mesma condição nas metrópoles para as quais 
se transplantaram (FERREIRA, 1986).
O campo político também foi significativamente influenciado pela presença 
dos migrantes. A sobreposição dos ambientes públicos urbanos, onde viviam 
a maior parte dos imigrantes, e o âmbito privado do trabalho forneceram todo 
tipo de combustível para a construção de identidades de classe, consciência 
da condição de migrante, bem como para a formação de movimentos sociais, 
sindicais e políticos característicos da periferia do capitalismo mundial. Aliás, 
os migrantes, como afirma o cientista social Nozaki (2009, p. 305), situam-se 
“nas periferias da periferia do capitalismo”.
No século XX, os migrantes, principalmente os nordestinos, ajudaram a 
criar a classe operária brasileira, que atuou nas indústrias de base, petro-
química, siderúrgica e automobilística. Em virtude de sofrerem com baixas 
remunerações, os trabalhadores se organizaram contra essas condições de 
trabalho, fundando alguns dos maiores sindicatos do País. Essas organizações, 
compostas em maior parte por migrantes ou filhos destes, foram respon-
sáveis por buscar, no campo político, o cumprimento das suas demandas. 
Instrumentos como a greve foram particularmente importantes para que as 
categorias de trabalhadores conseguissem impor a sua vontade e obter mais 
direitos e melhores salários.
O período que vai de 1964 até meados da década de 1980 foi muito compli-
cado para os grupos que exigiam direitos e democracia. No entanto, é nesse 
período que grupos políticos e sindicais despontam no cenário político do 
País, como o Partido dos Trabalhadores (PT), criado em 1982, tendo um dos 
seus maiores expoentes o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, um migrante 
pernambucano que chegou a São Paulo vindo em um caminhão pau-de-arara 
(Figura 2). Lula ainda estaria no centro das atenções ao liderar o grande ciclo 
de greves dos metalúrgicos do ABC paulista, ocorrido entre 1978 e 1980 (Figura 
3), já no ocaso da ditadura civil-militar.
O processo migratório como fator social e econômico 7
Outra grande liderança política de origem migrante é Luiza Erundina, 
nascida no estado da Paraíba, que viria a se tornar a primeira prefeita de 
São Paulo, a maior cidade da América Latina. Desde a juventude, Erundina 
foi militante política, atuando na defesa da reforma agrária em seu estado 
Figura 2. O caminhão pau-de-arara é um meio de transporte irregular utilizado durante décadas 
no transporte de migrantes saídos da região Nordeste em direção a São Paulo. Como se vê 
na imagem, é um veículo sem qualquer tipo de conforto ou segurança para os passageiros. 
Fonte: Campanato (2006, documento on-line).
Figura 3. O futuro presidente Lula, migrante e então sindicalista, discursa para uma multidão 
de operários grevistas, em 1979.
Fonte: Piccino (1979, documento on-line).
O processo migratório como fator social e econômico8
natal, no interior de movimentos católicos. Formada em Serviço Social pela 
Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Erundina também se tornaria uma 
das fundadoras do PT, junto a Lula. O PT, no contexto da redemocratização, 
tornou-se um sinal de esperança para a democracia brasileira, que renascia 
(ERUNDINA; JINKINGS; PERICÁS, 2020).
Como visto, a migração no século XX, sobretudo em sua segunda metade, 
moldou a face do Brasil em diversos aspectos. Além da influência dos mi-
grantes sobre a economia, desenvolvida a partir da sua força de trabalho, 
houve o aparecimento de lideranças políticas importantes e que mudaram 
a história do Brasil nas últimas décadas. Desse modo, pode-se concluir que, 
sem o fenômeno migratório – em particular o nordestino –, o Brasil seria um 
país com uma versão bastante diversa da atual.
Migração e formação sociocultural 
brasileira
O Brasil é um país eminentemente urbano, porém essa nem sempre foi a reali-
dade nacional. Foi somente a partir da década de 1950 que ocorreuuma virada na 
composição da população brasileira no que se refere ao binômio rural/urbano. 
Naquele período, as cidades passaram a exercer uma forte atração sobre os 
migrantes, que incharam o uso do espaço urbano e contribuíram para a criação 
das regiões conturbadas e metropolitanas. Segundo o Censo de 2010, 84,35% 
da população brasileira vivia em cidades, e esse número não para de crescer, 
muitas vezes por conta dos fluxos migratórios, que continuam a enviar pessoas 
das regiões mais pobres do País — frequentemente rurais — para os grandes 
núcleos urbanos (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2010).
A migração interna brasileira foi um dos fenômenos mais importantes para 
a transformação do Brasil de um país rural para um país urbano. Portanto, 
esse fato está profundamente conectado à criação não somente de uma 
sociedade urbana, mas também de uma cultura urbana. Conforme Gonçalves 
(2001, p. 174):
De acordo com os censos do IBGE, na década de 1960, 13 milhões de pessoas 
trocaram o campo pela cidade; nos dez anos seguintes, esse número se elevou 
para 15,5 milhões. Tudo indica que desde 1970, quando a população rural passou 
a ser minoritária, até os dias de hoje, mais de 40 milhões de brasileiros migraram 
do campo para a zona urbana. Se levarmos em conta que a região Sudeste con-
centra, sozinha, 72.282.411 habitantes, ou seja, 42,6% da população do país, e tem 
um percentual de urbanização da ordem de 90,52%, fica ainda mais evidente o 
crescimento da cidade em detrimento do campo.
O processo migratório como fator social e econômico 9
Os números mencionados são impressionantes e dão a dimensão do tama-
nho da migração interna que ocorreu no Brasil na segunda metade do século 
XX. Esses movimentos foram tão expressivos, que se tornaram responsáveis 
por modificar amplamente as características socioculturais do País. De uma 
sociedade mais engessada e tradicional, fundada no campo, o Brasil passou 
a ser uma nação mais dinâmica e com acelerado ritmo de transformações 
culturais e sociais, frutos obtidos diretamente da transposição de populações 
inteiras das áreas rurais e do sertão para os perímetros urbanos brasileiros.
O caso do estado de São Paulo é particularmente interessante, pois esse 
estado concentra 1/5 da população brasileira, do qual 1/3 se encontra apenas 
na capital do estado. Ao lado do Rio de Janeiro, São Paulo é a região do País 
que mais recebeu migrantes nas últimas décadas, recebendo, assim, uma 
forte influência das culturas originais dos migrantes. Desde expressões 
linguísticas, passando por pratos típicos que caíram no gosto popular até a 
música, a contribuição dos migrantes se revela significativa, amalgamando 
culturas diferentes, das mais diversas regiões do Brasil (em particular do 
Nordeste), formando um caldeirão cultural na megalópole paulista.
Para abordar corretamente o problema da formação sociocultural 
brasileira a partir das migrações, deve-se pensar sob a perspectiva 
das relações entre território e identidade cultural. Afinal, o território (no qual 
o migrante se estabelece) assume relevância para a formação e a afirmação de 
identidades e pertencimento. Para Jorge (2010, p. 240) a identidade é “resultado 
de um trabalho permanente de renovável construção social e política”, porém 
ela também tem origem “geográfica, que leva em conta a extrema mobilidade 
dos agentes sociais”. Dessa forma, o espaço físico onde o indivíduo vive é o elo 
comum que conduz à identificação dos sujeitos com o ambiente que ocupam. 
Assim, as identidades seriam fixadas no território naquilo que o autor qualifica 
de identidades socioespaciais, isto é, identificações individuais e culturais que 
integram um grupo em um determinado espaço.
Em contrapartida, em vez de influir com a sua própria cultura na nova terra, 
pode ocorrer o processo de desterritorialização do migrante. Esse processo 
pode ser descrito brevemente como uma quebra de vínculos com um território 
originário. Para as classes superiores e abastadas, a desterritorialização não 
costuma ser algo nocivo, tratando-se de uma multiterritorialidade segura 
e opcional. Contudo, para os mais pobres (maior parte dos migrantes), a 
desterritorialização se manifesta frequentemente de maneira coercitiva, 
oriunda de opções exíguas para a sobrevivência individual ou familiar, muito 
comum nos casos dos refugiados. Catástrofes climáticas, guerras, disputas 
O processo migratório como fator social e econômico10
de fronteira e questões étnicas são as causas mais comuns para a produção 
de populações refugiadas, que perdem o vínculo com o território original, 
sendo sempre estrangeiros mesmo onde têm a possibilidade de se assentar 
(HAESBAERT, 1995).
A migração também pode desencadear o processo de desterritorialização 
em dois aspectos principais. Em primeiro lugar, o migrante pode assumir — de 
maneira voluntária, como estratégia de sobrevivência em um novo meio — 
valores e práticas comuns ao novo território que habita. Em segundo lugar, 
a adoção dos novos costumes e o rechaço da sua cultura anterior podem ser 
constituídos por meio de elementos coercitivos, como o constrangimento 
social pela utilização de palavras ou expressões típicas de sua região de 
origem, que soam “exóticas” em sua nova realidade social (HAESBAERT, 1995).
Das produções culturais humanas, o cinema é uma das mais rele-
vantes para a compreensão da vida em sociedade e dos dilemas e 
sonhos dos seres humanos. Diversos filmes brasileiros já trataram da questão 
dos migrantes, mostrando as suas lutas e dificuldades na nova vida longe da 
sua terra natal. O filme O homem que virou suco, de 1981, roteirizado e dirigido 
por João Batista de Andrade, retrata a vida de Deraldo (interpretado por José 
Dumont), um poeta popular e migrante recém-chegado a São Paulo, onde tenta 
se adaptar a uma realidade muito diferente da que estava habituado e, ao 
mesmo tempo, tenta sobreviver da venda de folhetos com suas poesias. Em 
2015, o filme entrou para a lista dos 100 melhores filmes brasileiros de todos 
os tempos (DIB, 2015).
Outro impacto dos migrantes na sociedade, sobretudo nas grandes cidades 
brasileiras, foi o da “favelização”. As periferias das cidades se tornaram o des-
tino de grande parte dos migrantes, em sua grande maioria direcionados para 
trabalhos que exigem pouca escolaridade. Em geral, as mulheres ocuparam 
os empregos domésticos, como faxineiras, diaristas ou babás. Já os homens, 
em sua maioria, foram para a construção civil e para os serviços braçais. 
Portanto, o sonho do migrante de encontrar condições de vida melhores 
nas cidades da região Sudeste, na maioria dos casos, não se concretizou. O 
trabalho se mostrou árduo e mal remunerado, e a habitação se manifestou 
longe das áreas mais nobres das cidades e com falta de saneamento básico 
(GALHARDO, 2007).
Não é à toa que grande parte da cultura desenvolvida pelos migrantes a 
partir dessa realidade — principalmente no cancioneiro popular — manifeste 
a saudade e a intenção de retorno à terra de origem, como pode ser obser-
O processo migratório como fator social e econômico 11
vado na obra do conhecido cantor e compositor Luiz Gonzaga. Conforme o 
pesquisador José Cunha Lima:
Ao analisar a musicografia produzida por Luiz Gonzaga, logo observo que a saudade 
é um tema renitente e presente na vida do migrante e do sertanejo que fica espe-
rando a notícia do parente que se foi em busca de melhores condições de vida, ou 
esperando pelo retorno, mas até o regresso é obra da saudade (LIMA, 2011, p. 47).
Neste capítulo, você viu como o Brasil se formou econômica, política e 
culturalmente a partir da segunda metade do século XX com a presença e o 
trabalho dos migrantes. Os fluxos migratórios, originados principalmente na 
região Nordeste, tendo como destino o Sudeste brasileiro, estão relacionados 
à grande desigualdade entre as regiões. Enquanto o Nordeste, pobre, serviu 
como fator de expulsão de muitos de seus habitantes, o Sudeste, econo-
micamente maisdesenvolvido, atraiu levas e levas de migrantes ao longo 
das décadas. Desse modo, diversos aspectos da sociedade brasileira foram 
moldados a partir desse processo migratório, tanto nas regiões de origem 
quanto nas regiões de chegada.
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Leitura recomendada
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O processo migratório como fator social e econômico14
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
 > Identificar os elementos históricos (da Europa e da América) que fomentaram 
as primeiras manifestações sociais e políticas no Brasil Colônia.
 > Descrever a influência europeia e dos Estados Unidos na fundamentação 
ideológica das manifestações sociaise políticas no Brasil Colônia.
 > Reconhecer o papel das manifestações sociais e políticas no Brasil colonial 
na posterior independência do País.
Introdução
Por muitos anos, foi cultivada a ideia de que o Brasil era um país pacífico, e de que 
suas revoltas e movimentos sociais não causaram grandes distúrbios, como uma 
guerra civil. Contudo, a historiografia passou a enfatizar que os diversos conflitos 
desencadeados ao longo de nossa história e como o governo da época lidou com 
eles deveriam ser analisados como períodos de profunda turbulência política e 
social. A organização da sociedade em prol de um objetivo em comum, seja em 
âmbito local ou federal, demonstram insatisfações e a necessidade de mudança.
Desde a chegada dos portugueses, a sociedade brasileira foi formada a partir 
de conflitos. Houve as guerras contra os nativos, contra os invasores e aquelas 
As primeiras 
manifestações 
sociais e políticas 
no Brasil
Ana Carolina Machado de Souza
contra o sistema estabelecido. As revoltas nativistas e separatistas duraram mais 
de um século, causando um sensível impacto no governo colonial. Assim, neste 
capítulo, vamos tratar das manifestações sociais e políticas do Brasil colonial, 
com ênfase nas mudanças intelectuais causadas pelo Iluminismo. 
O Iluminismo e suas ramificações
O Iluminismo foi um movimento filosófico e intelectual que nasceu na Europa 
no final do século XVIII, mas essa cronologia é debatida. Alguns argumentam 
que os ideais iluministas são oriundos do Renascimento Cultural e da Revo-
lução Científica dos séculos XVI e XVII. O questionamento e o protagonismo 
do pensamento racional revolucionaram a metodologia científica, isto é, 
contribuíram para o surgimento de uma nova forma de enxergar o mundo. O 
Iluminismo é entendido como herdeiro dessa tradição — portanto, definir uma 
origem é tarefa ingrata. Contudo, é comum dizer que essa filosofia começou 
na França, no ano de 1715, quando morreu o Rei Luís XIV (1638–1715), que se 
tornou o símbolo do Absolutismo no País. 
Muito do que se ensina sobre o Absolutismo nas aulas escolares 
de história é proveniente da experiência francesa, principalmente 
sobre Luís XIV. Conhecido como “Rei-Sol”, ele conseguiu pacificar as relações 
diplomáticas com a Espanha, dando espaço para o desenvolvimento do regime 
absolutista. Ele se tornou rei em 1643, mas apenas em 1660 assumiu o trono 
de fato. Em seu reinado, o Estado foi centralizado totalmente, aumentando 
os gastos, modelo administrativo que se mostrou ineficaz (ANDERSON, 2004). 
Características gerais
A França, no século XVIII, vivia um regime centralizador que custava muito aos 
cofres públicos. A Revolução Francesa, em 1789, foi o rompimento político e 
econômico com aquilo que os próprios revolucionários batizaram como “Antigo 
Regime”. Seu nascimento se relaciona com a contestação das desigualdades 
corroboradas pela maneira como o governo era conduzido. A Revolução foi um 
movimento complexo, maior do que as caudas econômicas e políticas óbvias 
que se obtêm ao se analisar seu contexto. O historiador François Furet (1989) 
defende que foi um acontecimento dinâmico, embasado, inclusive, em antigas 
mobilizações contra os governos de épocas anteriores. Porém, o movimento 
As primeiras manifestações sociais e políticas no Brasil2
de 1789 persistiu e definiu a nacionalidade do País. O que interessa aqui, 
contudo, é que a Revolução foi profundamente impactada pelo Iluminismo.
O culto à razão impulsionou os revolucionários franceses. O Terceiro Es-
tado, grupo hierarquicamente marginalizado pela política francesa, era muito 
diverso e compunha mais de 70% da população total. Nele, encontravam-se 
artesãos, profissionais liberais, pobres, miseráveis, bem como intelectuais e 
burgueses. Ou seja, uma parte tinha contato e/ou participava das mudanças 
filosóficas que ocorriam há décadas. 
Alguns nomes como François-Marie Arouet (1694–1778), conhecido pelo 
pseudônimo Voltaire, e Charles-Louis de Secondat (1689–1755), o Barão de 
Montesquieu, criticavam abertamente o governo francês. O primeiro, por 
exemplo, exaltava a tradição política da Inglaterra (notória inimiga da França), 
que, em 1688, viveu a Revolução Gloriosa e adotou a Monarquia Constitucional, 
mudando seu sistema político para o Parlamentarismo. Esse movimento 
inglês os ajudou a se recompor de todas as disputas dinásticas, conseguindo 
financiar desenvolvimentos tecnológicos como a Revolução Industrial de 
1760. Além disso, na Reforma Anglicana de 1534, a Igreja Católica perdeu a 
hegemonia e a Igreja da Inglaterra se tornou subordinada ao Estado. Essa 
característica era exaltada por Voltaire e outros, pois, na França, vivia-se o 
chamado “direito divino dos reis”, segundo o qual os monarcas eram consi-
derados enviados por Deus para ocupar seus cargos. 
Em 1734, Voltaire publicou as Cartas filosóficas, em que discutiu as 
ideias de liberdade política e tolerância religiosa. Devido ao conteúdo, 
foram censuradas pelo Estado francês. Já Montesquieu escreveu Do espírito 
das leis, em 1748, no qual remodelou o sistema político do País, sugerindo 
mudanças na Monarquia. Ficou conhecido por criar a divisão dos três poderes 
(Executivo, Legislativo e Judiciário) para que a política se desenvolvesse de 
forma mais satisfatória. 
Em linhas gerais, pode-se definir o Iluminismo como um movimento que 
possuía alguns conceitos característicos que inspiraram as organizações e os 
intelectuais a repensarem desde pesquisas científicas até os sistemas políticos 
e econômicos. No caso, as ideias recorrentes eram racionalismo, progresso, 
liberdade e igualdade, sendo que os dois últimos merecem nossa atenção.
Antes de tudo, é importante entender que conceitos e ideias também têm 
seus contextos. Quando se argumentava a favor da liberdade no século XVIII, 
fazia-se de acordo com as circunstâncias da época, totalmente diferentes 
das de hoje, século XXI. O primeiro passo para compreender seu significado, 
As primeiras manifestações sociais e políticas no Brasil 3
então, é definir que ele é ramificado. O Iluminismo se relacionava ao fim do 
Absolutismo, a uma maior limitação do poder real e à influência de outras 
classes sociais na política. Ademais, existia a questão da liberdade econô-
mica, que buscava menos intervenção do Estado na economia, a base do 
liberalismo econômico. Porém, ela não atingia a todos pessoalmente, assim 
como a igualdade. 
Com relação à política, a igualdade não se relacionava à imposição de 
um sistema democrático, por exemplo. Na França, parte dos revolucionários 
do Terceiro Estado queriam aumentar sua mobilidade social e acabar com 
os privilégios da nobreza, mas isso não significava que todos alcançariam 
uma melhor posição hierárquica na sociedade. A burguesia procurava repre-
sentação política, mas não queria que pobres e miseráveis estivessem na 
mesma posição. Os filósofos também não apontavam a igualdade universal 
e irrestrita. Porém, foram essas ideias que viajaram dentro da França e entre 
tantos outros países, abrindo espaço para o questionamento do status quo, 
e isso influenciou o cenário português.
Portugal e o Marquês de Pombal
Portugal foi um dos primeiros países europeus a consolidar o Absolutismo. 
Ainda no século XIV, a Dinastia de Avis assumiu o trono, centralizando o 
poder político que, mesmo com a União Ibérica (1580–1640), não sofreu a 
fragmentação de seu território. Diferentemente de como ocorria na França, 
não existia a ideia de “direito divino”, mas o monarca português era muito 
popular perante o povo. Como seu Absolutismo teve início antes do que o 
de muitos países, começou a Expansão Marítima pela circunavegação do 
território africano. A intenção era descobrir novas rotas para as Índias, onde 
eram retiradas as especiarias comercializadas na Europa. Nesse processo, 
a chegada à América e o início da colonização do Brasil foram fundamentais 
para o desenvolvimento do Mercantilismo. 
No século XVIII, o Absolutismo entrou em crise em vários países,mas com 
menor intensidade em Portugal. Apesar disso, o Iluminismo chegara com 
força. Em 1750, quem assumiu o trono foi D. José I (1714–1777), mas seu governo 
foi marcado pelo primeiro-ministro que ele mesmo nomeou. Sebastião José 
de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal (1699–1782), foi embaixador na 
Inglaterra (1739–1743) e na Áustria (1745–1750), e foi essa experiência que o 
ajudou na condução da política internacional e nas mudanças que ocorriam 
internamente. 
As primeiras manifestações sociais e políticas no Brasil4
Desde o Tratado de Methuen (ou Tratado de Pães e Vinhos), de 1703, Portugal 
estabelecera uma relação econômica desfavorável com os ingleses devido 
aos profundos problemas financeiros que o País vivia. A preocupação residia 
na obsolescência da infraestrutura tecnológica portuguesa. Se, no início da 
Era Moderna, os lusitanos eram o mais avançados nas técnicas marítimas 
e cientificas, no século XVIII, estavam em desvantagem se comparados a 
outras nações. 
Esses eram os problemas que Pombal enfrentava logo de início, então 
sua intenção era reestruturar a administração pública, mas sem modificar 
o sistema, que deveria continuar absolutista. O primeiro-ministro se tornou 
um dos principais déspotas esclarecidos da Europa, e o Iluminismo era a 
corrente filosóficas que embasava os novos tempos. 
Ainda que muitos iluministas criticassem o Antigo Regime, a filosofia 
foi utilizada por monarcas que buscavam a modernização racional 
de seus reinos, mas sem mudança estrutural do sistema. Foram os chamados 
déspotas esclarecidos, que queriam reformas na Corte e no próprio governo, 
sobretudo no que dizia respeito à arrecadação de impostos. Alguns nomes 
conhecidos foram Pedro, o Grande (1672–1725) e Catarina II, a Grande (1762–1796), 
da Rússia; Frederico II, o Grande (1740–1786), da Prússia; e próprio Marquês de 
Pombal (FLORENZANO, 1981). 
No meio do processo de reformas, em 1755, Portugal sofreu um dos piores 
terremotos de sua história, devastando a capital, Lisboa. Pombal, então, deu 
início à reconstrução a partir dos ideais iluministas, sobretudo da raciona-
lidade. Tornou-se o símbolo de um país renovado e moderno, mas trouxe 
diversas consequências para o Brasil, já que a reestruturação não foi barata. 
Dessa forma, a cobrança de impostos aumentou consideravelmente, ainda 
mais com o êxito da mineração no Sudeste da colônia. Taxas como o quinto 
e a derrama atingiam os mineradores e foram estopins para o surgimento 
de várias revoltas. A Igreja e a educação foram, da mesma maneira, afetadas 
pelas reformas pombalinas. O ensino era coordenado pelos religiosos que se 
estabeleceram na colônia, e a administração portuguesa decidiu centralizar 
e expulsar os jesuítas de todo o território, o que aconteceu com a Lei de 3 
de setembro de 1759. A partir disso, os bens eclesiásticos foram confiscados 
em nome do Estado, que também aumentou o controle dos governos locais 
com a proibição da escravidão indígena, em 1757, finalizando processos de 
recrutamento de mão de obra, por exemplo. 
As primeiras manifestações sociais e políticas no Brasil 5
Esses movimentos influenciaram diretamente o andamento das relações 
sociais na colônia, o que abordaremos mais adiante neste capítulo. Além das 
reformas de Pombal, o Iluminismo influenciou movimentos revolucionários 
fora da Europa, como nos Estados Unidos. 
A Revolução Americana (1776)
O processo de independência dos Estados Unidos estava diretamente rela-
cionado a sua colonização. As primeiras tentativas de ocupação do território 
americano aconteceram no século XVI, mas foi somente no século XVII que 
os ingleses conseguiram se estabelecer. Eles não foram os únicos, já que os 
franceses também construíram espaços coloniais, mas, ao longo do tempo, 
perderam a hegemonia. Em 1607, foi fundada Jamestown, na Virgínia, consi-
derada a primeira colônia. Após tentativas frustradas, a Virginia Company 
bancou a ida e a permanência de colonos no intuito de explorarem a terra 
em busca de ouro e de pedras preciosas, como aconteceu com a Espanha. 
Observa-se, desde o início, que houve uma grande diferença entre os 
projetos coloniais português e inglês, sendo que este se baseava na iniciativa 
privada com apoio do Estado. Já a proposta lusitana era conduzida pela coroa, 
inclusive as pessoas que migraram para o Brasil foram indicadas e escolhidas 
para assumirem posições estratégicas na administração colonial. No caso 
britânico, a viagem para a América era uma forma de endividados tentarem 
uma nova vida, além de ser o destino de condenados da Justiça, em uma 
forma de punição. O controle estatal sobre a colonização não era tão forte 
quanto no Brasil, permitindo que os colonos americanos conseguissem se 
instalar e construir um aparato governamental comunitário e mais livre das 
amarras da Metrópole. Ainda pagavam impostos e taxas, mas a fiscalização 
era própria. Contudo, essa situação mudou no século XVIII. 
A Inglaterra passara por duas revoluções, a Puritana (1640–1648) e a Glo-
riosa (1688), a partir das quais o sistema político mudou e alcançou maior 
estabilidade interna. Além disso, nessa época, as primeiras elites burguesas 
surgiram e a Revolução Industrial (1760) ajudou a consolidar a busca por 
mercado consumidor. Os olhares da coroa inglesa se voltaram para a América, 
dessa vez em busca de maior controle estatal. 
Foram vários os movimentos políticos que provocaram problemas na 
relação entre colonos e Metrópole. Primeiramente, a Guerra dos Sete Anos 
(1756–1763), entre a Inglaterra e a França, ocorrida em território americano, 
sobre a posse das terras ao Norte das 13 colônias, onde hoje é o Canadá. Os 
gastos foram altos e, para custeá-los, os impostos aumentaram. Em 1764, 
As primeiras manifestações sociais e políticas no Brasil6
foi estabelecida a Lei do Açúcar, que taxava o melaço usado rotineiramente, 
afetando o cotidiano colonial. Em 1765, foi aprovada a Lei do Selo, que obrigava 
a compra de um selo real para outorga de qualquer tipo de documento oficial. 
Ademais, em 1773, a Inglaterra concedeu, à Companhia Inglesa das Índias, o 
monopólio do comércio do chá, prejudicando os americanos que plantavam 
e impostavam o produto.
A reação dos colonos foi se reunir e contestar os movimentos da Metrópole. 
Muitos dos políticos locais, apoiados por parte da população, passaram a 
considerar a necessidade de ficar independente. 
Os americanos passaram a questionar a falta de representatividade 
no Parlamento Inglês. Eles acreditavam que não deveriam seguir 
as leis inglesas se não tinham participação no debate político. Começou, por-
tanto, o movimento No taxation without representation (“nenhum imposto sem 
representação”), a partir do qual pressionavam a Inglaterra, que, para evitar 
uma revolta, revogou a Lei dos Selos. Porém, outros impostos foram criados, 
inclusive sobre o chá (HEALE, 1991). 
Cada vez mais os americanos mostravam seu descontentamento, e o 
Iluminismo foi a filosofia que ajudou a fomentar uma nova visão sobre o 
que deveriam ser. Leandro Karnal (2010) argumenta que uma das maiores 
influências foi de um autor anterior ao século XVIII, John Locke (1632–1704), 
um dos primeiros a criticar a estrutura absolutista inglesa, e suas ideias se 
relacionavam diretamente à Revolução Gloriosa e ao início do Parlamenta-
rismo na Inglaterra. 
Um dos episódios mais conhecidos foi a Festa do Chá de Boston, em 1773, 
quando grupos vestidos de nativos-americanos despejaram a carga de chá 
no mar. A Inglaterra decidiu recrudescer o regime e as punições após o ato e 
estabeleceu, em 1774, as Leis Intoleráveis, a partir das quais passou a substituir 
funcionários públicos (escolhidos por colonos) por ingleses ou por apoiadores 
do governo régio. A elite colonial se reuniu na Filadélfia para discutir esse 
movimento metropolitano, o que ficou conhecido como “Primeiro Congresso 
Continental”, quando as 13 colônias se uniram em prol de uma ideia, de um 
desejo em comum. Os primeiros acordos acerca deuma possível independência 
foram apresentados, mas não foram assinados ali. As reivindicações ao trono 
inglês eram maior liberdade dentro das colônias e o fim dos impostos e da 
repressão por causa da fiscalização, mas não foram atendidas. 
Em 1776 ocorreu o Segundo Congresso Continental, e foi nele que redigiram 
a Declaração Unânime dos Treze Estados Unidos da América, estabelecendo a 
As primeiras manifestações sociais e políticas no Brasil 7
independência a partir do dia 4 de julho daquele ano. A Inglaterra não aceitou 
o movimento e deu início à Guerra de Independência, que os americanos 
nomearam como “Revolução Americana”. Ela durou até 1783, com a derrota 
dos ingleses após a ajuda dos franceses e de alguns nativos, consolidada 
com a assinatura do Tratado de Paris, que era o conhecimento da emanci-
pação. Os conceitos de liberdade e de igualdade permearam a ideologia por 
trás da Revolução. A própria Constituição, aprovada em 1787, estabelecia o 
poder tripartite definido por Montesquieu, e a política era descentralizada. 
Esse movimento influenciou diretamente a Revolução Francesa, de 1789, e o 
restante da América. Como diz Karnal (2010, p. 94–95):
Para o resto da América, os Estados Unidos serviriam como exemplo. Uma inde-
pendência concreta e possível passou a ser o grande modelo para as colônias 
ibéricas que desejavam separar-se das metrópoles. Os princípios iluministas, que 
também influenciavam a América ibérica, demonstraram ser aplicáveis em termos 
concretos. Soberania popular, resistência à tirania, fim do pacto colonial; tudo isso 
os Estados Unidos mostravam às outras colônias com seu feito.
Revoltas nativistas
Manifestações políticas e sociais brasileiras ocorreram durante todo o período 
colonial. A Revolta dos Beckman (1684), a Guerra dos Emboabas (1707–1709), a 
Guerra dos Mascates (1710–1711) e a Revolta Filipe dos Santos, ou Revolta de 
Vila Rica (1720), correspondem às chamadas revoltas nativistas. Apesar do 
nome, elas não buscavam a independência. Cada uma possui sua especifici-
dade, mas a reivindicação em comum era o fim dos impostos, da corrupção 
e da opressão feita nos (e pelos) políticos locais. 
Revolta dos Beckman (1684)
A região do Maranhão e do Grão-Pará teve uma colonização diferenciada em 
comparação às províncias do Nordeste e do Sudeste. Em 1782, foi criada a 
Companhia do Comércio do Maranhão, na tentativa de fortalecer a posição 
dos colonos na região. O monopólio comercial dos produtos explorados ali 
centralizaria os lucros e ajudaria no crescimento da elite local, que tinha o 
apoio da Metrópole. A partir disso, procuraram instalar de vez a mão de obra 
escravizada, que era muito lucrativa para o próprio Estado português. Por-
tanto, a instalação da Companhia mudou a estrutura geral daquela sociedade. 
Os produtores e comerciantes locais, apesar de se beneficiarem de algumas 
medidas da nova instituição, perderam boa parte da autonomia. A proibição 
As primeiras manifestações sociais e políticas no Brasil8
do uso de mão de obra indígena escravizada atingiu diretamente aqueles que 
não podiam pagar pelos negros. Apesar disso, é preciso ter em mente que 
esse período foi bastante instável na colônia como um todo, pois o ciclo do 
açúcar estava em decadência e muitos colonos do litoral se aventuraram pelo 
interior na intenção de conseguirem novas terras e produtos para o comércio. 
Essa realidade atingiu o povo que já residia no estado do Maranhão e do 
Grão Pará. A Companhia de Comércio prometeu que intermediaria na questão 
dos negros escravizados e financiaria uma média de 500 pessoas por ano, 
as distribuindo entre aqueles que necessitavam de trabalhadores. Porém, o 
não cumprimento desse acordo foi o estopim para a Revolta dos Beckman. 
Tomás e Manuel Beckman eram irmãos, produtores locais e se tornaram os 
líderes do movimento contra a Companhia. Os amotinados tomaram a sede 
da instituição, destituíram os diretores e começaram um governo paralelo 
na cidade, a chamada Junta Geral do Governo. Esse governo provisório teve 
a duração de um ano, sempre com muitos conflitos entre os metropolitanos 
e os rebeldes. Para retomar o controle da situação, Portugal enviou reforço 
militar, ocasionando o aprisionamento de alguns líderes. Tomás Beckman foi, 
então, transferido para Lisboa e prometeu lealdade à coroa. Dessa forma, 
estabeleceu-se que o conflito tinha raiz nos problemas locais. Ele ficou preso 
em Pernambuco até sua morte, pois foi proibido de voltar ao Maranhão. Já 
seu irmão foi condenado à forca junto de nomes como Jorge de Sampaio e 
Carvalho, sentença assinada pelo governador. 
Guerra dos Emboabas (1707–1709)
Foi um dos primeiros conflitos motivados pelo ouro encontrado nas Minas 
Gerais (que era parte de São Paulo e do Rio de Janeiro) e ocorreu entre os 
bandeirantes paulistas e os emboabas, os estrangeiros que migravam para 
explorarem a região. 
O bandeirismo começou ao mesmo tempo que o processo de colo-
nização, na tentativa de explorar o território. Algumas bandeiras 
tinham a missão de sequestrar os indígenas para escravizá-los: foram as cha-
madas “bandeiras de apresamento”. Já as “bandeiras de prospecção” tinham a 
função de encontrar metais preciosos. As expedições adentraram pelo território, 
cruzando os limites do Tratado de Tordesilhas, que se tornava obsoleto a cada 
momento (MONTEIRO, 1994). 
As primeiras manifestações sociais e políticas no Brasil 9
Com a possibilidade de exploração da terra, Portugal aumentou o con-
trole, sobretudo com a imposição de novos impostos. Em Minas Gerais, a 
situação ficou cada vez mais insustentável, segundo a população local. Eles 
passaram a enfrentar não só o arrocho econômico, mas também o aumento 
da fiscalização, com mais autoridades políticas sendo enviadas para atuar 
na região. Vale destacar que as Minas Gerais só passaram a existir no século 
XVIII. Até então, havia as províncias de São Paulo e do Rio de Janeiro, sendo 
que os paulistas queriam o controle das minas, mas se tornaram minorias 
pelos emboabas. Em 1707, grupos armados de “estrangeiros” proliferaram, 
deixando a situação ainda mais tensa. 
Um dos líderes dos emboabas foi Bento Coutinho, que conseguiu a hege-
monia na região por mais de um ano. Cada vez mais os paulistas perdiam o 
controle econômico e político. Por exemplo, um dos governadores nomeados 
era um emboaba, Manuel Nunes Viana. Porém, a coroa decidiu intervir antes 
que o movimento crescesse e se tornasse mais perigoso politicamente. Em 
1709, foi criada a Capitania Real das Minas Gerais, independente das jurisdi-
ções paulista e carioca. 
O foco se voltou para o Sudeste, mesmo que a capital da colônia ainda 
fosse Salvador. Com essa nova unidade política e administrativa, Portugal 
conseguiria organizar uma arrecadação de impostos mais eficiente, bem como 
uma fiscalização que funcionasse. Foi nesse momento que foram instituídas 
Vila Rica (atual Ouro Preto), Vila de Nossa Senhora do Carmo (atual Mariana) 
e Vila de Nossa Senhora da Conceição do Sabará, pontos nevrálgicos para a 
exploração dos metais. Com a intervenção política, também foi estabelecida 
a guarda militarizada, que abafou os conflitos entre paulistas e os migrantes, 
que se tornaram residentes na nova capitania. Dessa forma, a guerra foi 
neutralizada, e os bandeirantes de São Paulo, sobretudo, decidiram adentrar 
ainda mais a Oeste, criando aldeias e vilas no que hoje são Mato Grosso, Mato 
Grosso do Sul e Goiás.
Enquanto, no Sudeste, novas possibilidade econômicas eram exploradas, 
o litoral sofria com a queda constante dos preços e da demanda pelo açúcar, 
atingindo todo o ciclo social e urbano.
Guerra dos Mascates (1710–1711)
Pernambuco foi a capitania mais rica da colônia até o século XIX, e essa im-
portância era reconhecida pelos colonos locais, sobretudo pela elite política, 
que utilizava esse prestígio para reivindicar mais autonomia. Além disso, a 
região foi dominada pelos holandeses no século XVII, e, mesmo com todo o 
As primeiras manifestaçõessociais e políticas no Brasil10
processo de guerra e expulsão dos invasores, conseguiu se desenvolver. O 
comércio e a agricultura davam, à capitania, sobretudo Recife, um terreno 
fértil para o surgimento de organizações sociais que queriam mudanças 
políticas que os favorecessem. Ao lado da cidade, ficava Olinda, a “capital do 
açúcar”, que mais se desenvolveu com o cultivo da cana e que, no início do 
século XVIII, passava por uma profunda crise. Segundo Lisboa (2011, p. 25–26):
A luta contra os holandeses havia criado uma série de novos impostos para sus-
tentar a guerra. criou-se o “donativo do açúcar”, imposto que era cobrado sobre 
o comércio e a produção do açúcar, e que constituía o principal recurso nas fi-
nanças da Restauração. [...] Com o fim da guerra, as novas taxações continuaram 
a ser cobradas, já que a Coroa não queria dispensar essa nova receita fiscal [...]. 
Some-se a isso os antigos impostos donatariais que, mesmo com a incorporação 
da capitania à Coroa, eram ainda cobrados gerando insatisfação por parte dos 
moradores de Olinda.
Enquanto era dominante, Olinda controlava a política local, inclusive de 
Recife. Quanto esta prosperou por causa do comércio com outras nações, 
sobretudo Portugal, a elite mercantil queria autonomia. Essa burguesia 
nascente foi chamada de “mascates” pela tradicional cena olindense, que 
não aceitava a busca pela autonomia dos vizinhos. Além disso, Olinda era 
mais beneficiada pela administração política, pois as obras estruturais e o 
peso das decisões políticas eram maiores e constantes ali. 
Já Recife se modernizara com a invasão holandesa, pois eles estimularam 
o comércio com a França, a África, as colônias do Caribe, entre outras na-
ções. Para tentar mudar a situação, os mascates se organizaram e pediram 
a municipalização, que foi atendida em 1709 com a criação da vila de Santo 
Antônio do Recife. Foi o início da revolta armada capitaneada por grupos de 
Olinda, insatisfeitos com a decisão metropolitana. Entre 1710 e 1711, vários 
ataques foram realizados por partidários das duas causas. 
Portugal, novamente, interveio, mantendo a autonomia de Recife e confis-
cando bens da elite olindense que instigou a crise, mas os perdoou três anos 
depois. Pernambuco, durante o século XVIII, não conseguiu se recuperar, e o 
tratamento dado pelos portugueses ajudou a semear o sentimento antilusi-
tano, que será explorado nas revoltas separatistas posteriores.
Revolta Filipe dos Santos, ou Revolta de Vila Rica 
(1720)
Como Portugal dependia cada vez mais da arrecadação de impostos para 
manter os custos do Estado, era fundamental otimizar a coleta dos impostos 
As primeiras manifestações sociais e políticas no Brasil 11
e evitar fraudes. Em 1720, Vila Rica recebeu a primeira Casa de Fundição, local 
onde o ouro era fundido em barras para facilitar o transporte e o comércio 
do metal. Para a população local, esse era mais um entrave português, que 
criava mais obstáculos e diminuía a margem de lucro. 
Eentre as mais variadas taxas, o quinto correspondia à cobrança 
de 20% do ouro extraído na colônia e vigorava desde o século XVI, 
quando se estabeleceram as capitanias hereditárias. Apesar de explorarem a 
terra e minerarem desde 1590, foi no século XVIII que a cobrança do quinto se 
tornou uma prática mais controlada. Para evitar o contrabando, que era alto, 
obrigaram os mineradores a utilizar as Casas de Fundição da coroa, assim 
garantiriam o pagamento da taxa (BOXER, 1969).
Com a maior intervenção da Metrópole, o povo decidiu se amotinar. 
Filipe dos Santos (1680–1720) era um português que se instalara no Brasil 
e que acabou por liderar a desobediência civil. Vale ressaltar que a elite local 
controlava o comportamento contrário aos agentes régios. O governador 
Conde de Assumar (1688–1756) foi nomeado em 1717 na tentativa de se impor 
perante os políticos da terra. Ele atuou nas negociações com os revoltosos, que 
reivindicavam o fim das Casas de Fundição e um maior relaxamento da carga 
tributária. Em contrapartida, os representantes da coroa pediam uma taxa 
extra, de 30 arrobas de ouro anuais, para que as casas fossem inutilizadas.
Outra linha de frente era política. Rezende (2015) descreve que Assumar 
utilizou sua posição para manipular as eleições nas Câmaras Municipais de 
Vila Rica e das adjacências. A ideia era preencher os cargos públicos com 
simpatizantes da coroa. Houve, portanto, um enfrentamento também no 
âmbito político, que ajudou no estabelecimento da repressão à Revolta. O 
acordo não durou, e a instabilidade na região de manteve. Os líderes foram 
presos e Filipe dos Santos foi assassinado em praça pública, prática comum 
pelo governo português. Foi o fim dessa revolta, mas o início de muitas outras. 
Revoltas separatistas
A grande diferença entre os conflitos nativistas e separatistas foi ideológica. 
Estes queriam a independência, o fim do subjugo do estado português ante a 
colônia, e o Iluminismo foi a base teórica fundamental para que os articula-
dores delineassem esse processo. As revoltas mais conhecidas e trabalhados 
pela historiografia foram a Inconfidência Mineira (1789), a Conjuração Baiana 
(1798) e a Revolução Pernambucana (1817), três regiões muito importantes 
As primeiras manifestações sociais e políticas no Brasil12
para o desenvolvimento econômico e social do País. Contudo, assim como 
outras nações, no século XVIII, Portugal passou a ter problemas financeiros. 
A manutenção da máquina pública absolutista custava muito, exigindo o 
aumento exponencial de impostos. Nessa época, o açúcar brasileiro estava em 
decadência, pois enfrentava a concorrência das Antilhas, mas a descoberta 
de ouro e de pedras preciosas nas Minas Gerais foi vista como um bom sinal. 
Apesar disso, os impostos eram considerados abusivos pelos colonos, o que 
ajudou na organização de movimentos contestatórios. 
Inconfidência Mineira (1789)
É considerada um dos movimentos separatistas mais importantes da história 
brasileira. A influência do Iluminismo francês e o exemplo da Revolução 
Americana foram fundamentais para a organização social e as reivindicações 
contra o Estado português.
A Inconfidência Mineira foi utilizada pelos republicanos nos séculos 
XIX e XX como exemplo de revolta contra o sistema monárquico, 
que comandou o País desde 1500. Com dificuldades de consolidar a própria 
República, foram criadas narrativas a partir dos eventos passados para se 
estabelecer a ideia de heroísmo, por exemplo. Foi nesse momento que figuras 
como Tiradentes (1746–1792), Joaquim José da Silva Xavier, até então obscuras 
e pouco estudadas, ganharam notoriedade (CARVALHO, 2017).
A Inconfidência foi, majoritariamente, formada por membros da elite 
mineira, que há décadas entravam em conflito com o poder régio. Membros 
do clero, proprietários rurais, mineiros que enriqueceram com o ouro, poetas 
e literatos, além de militares, concordavam que a dominação portuguesa su-
focava a pauta local, mas não tinham um pensamento unânime. Por exemplo, 
alguns queriam, de fato, a separação, enquanto outros queriam a deposição do 
governador e de políticos leais à coroa. Como argumenta Maxwell (2001, p. 151):
O programa da inconfidência refletia as compulsões imediatas e específicas que 
tinham alienado completamente os magnatas mineiros da coroa, forçando-os no 
rumo da revolução. Também refletia a presença entre eles de hábeis e preparados 
magistrados, advogados e padres obrigados à reavaliação das relações coloniais 
por outros motivos. E que se inspiravam no exemplo da América do Norte, nas 
constituições dos Estados da União Americana e na obra do abade Raynal. Das 
informações fragmentárias que restaram evidencia-se um perfil sumário de seus 
propósitos. A capital da república deveria ser São João d‘El Rey, decisão que es-
pelhava as mudanças demográficas que se verificavam na capitania. Seria criada 
As primeiras manifestações sociais e políticas no Brasil 13
uma casa da moeda e a taxa de câmbio fixada em 1$500 réispor oitava de ouro. 
Esta medida tinha por fim acabar com a escassez crônica de moeda circulante na 
capitania, em parte causada pela alvará de dezembro de 1750 que fixara a taxa 
de 1$200 réis por oitava para Minas, enquanto a taxa vigorante por toda a parte 
era de 1$500 réis.
Desde 1702, a coroa aumentara o controle na região de Vila Rica, sobretudo 
com a criação da Intendência de Minas que, basicamente, fiscalizava e recebia 
os impostos. Em 1720, a Casa de Fundição foi um dos estopins para a Revolta 
de Filipe dos Santos. Para piorar o relacionamento entre colonos, em 1751, 
foi anunciada mais uma taxa, a derrama, que criava um valor mínimo a ser 
pago pelo quinto, ou seja, atingia, principalmente, que não conseguia minerar 
o suficiente para lucrar mesmo pagando o imposto. Seriam cobradas 100 
arrobas anuais ou 1500 quilos de ouro, sendo que o governo tinha a liberdade 
de confiscar bens daqueles que não honrassem o compromisso.
Esse foi um dos principais motivos para essa mobilização em específico. 
Apesar do anúncio, seu estabelecimento não foi imediato, causando mais 
especulação e dando tempo de os locais se agruparem e se organizarem. Em 
1755, após o terremoto de Lisboa, a coroa precisava, urgentemente, de fundos 
e, em 1763, instituiu a derrama. Nesse mesmo período, já ficara constatado 
que a quantidade de ouro no Brasil não era abundante como nas colônias 
espanholas. Mesmo assim, tanto Portugal quanto os políticos locais inves-
tiam na exploração da terra, sendo que estes se encontravam cada vez mais 
endividados. 
Apenas em 1788 o grupo se organizou a ponto de tentar destituir o go-
verno. O ideal era de liberdade, mas que não se ampliava ao nível social, com 
os negros ainda mantidos como escravos, por exemplo. Conforme o dia da 
derrama, no início de 1789, chegava, o clima em Vila Rica ficava mais violento. 
O governador percebia a movimentação e começava a reprimir qualquer ati-
tude suspeita, assim como confiscar livros e panfletos. Além disso, algumas 
medidas foram instituídas. Primeiramente, anistiaram as dívidas, uma das 
principais prerrogativas dos inconfidentes, e cancelaram a cobrança dos 
impostos. Com isso, alguns dos manifestantes decidiram não continuar com 
o plano de tomada de poder e traíram seus companheiros, caso de Joaquim 
Silvério dos Reis (1756–1819). O resultado foi a prisão de mais de 30 líderes, 
sendo alguns exilados e outros mortos em praça pública. Apesar do esforço 
não ter atingido seu objetivo, o imaginário da Inconfidência serviu de exemplo 
para outras manifestações que tiveram espaço nessa época. 
As primeiras manifestações sociais e políticas no Brasil14
Conjuração Baiana (1798)
Diferentemente das Minas Gerais, o movimento baiano ocorreu em um local 
que estava em plena decadência. Em 1763, a capital da colônia foi transferida 
para o Rio de Janeiro, concretizando a ideia de que o Nordeste deixara de 
ser o principal eixo econômico e político do Brasil. A manifestação surgida 
na Bahia foi profundamente influenciada pelos ideais iluministas, sobretudo 
com a queda do Antigo Regime francês, em 1789, mais um exemplo, além da 
Revolução Americana, de 1776, de que a situação política estava mudando. 
Havia, também, a consolidação do impacto da Revolução Industrial, de 1760, 
que obrigou os países a criarem alternativas para o Mercantilismo.
O ponto específico e particular das reivindicações da Conjuração Baiana 
foi a escravidão. Até então, a situação dos negros sequestrados na África e 
transformados em escravos no Brasil havia sido pouco discutida em nível 
institucional. Apesar das revoltas promovidas por eles mesmos, e com o 
surgimento dos quilombos e dos focos de resistência, nada foi feito no âmbito 
político e legislativo para mudar o status dessas pessoas. 
O tráfico era muito lucrativo para a elite colonial, pois movimentava 
o comércio e a venda dos africanos escravizados, muitas vezes o 
principal sustento de famílias inteiras (LARA, 1986).
O Iluminismo auxiliou no questionamento da moral escravista e a indus-
trialização trazia um elemento prático: a necessidade de mercado consumidor. 
Os abolicionistas começaram a se manifestar e embasar suas ideias a partir 
desses elementos. Além disso, outro exemplo revolucionário surgiu nesse 
contexto. A Revolução Haitiana (1791–1804) provocou a independência da 
ilha, que foi tomada pelos negros até então subjugados. Inspiração para 
aqueles que questionavam o sistema colonial, esse evento causou temor nas 
metrópoles europeias e nas elites coloniais que exploravam os trabalhadores 
africanos à exaustão. A primeira medida portuguesa foi, dessa forma, censurar 
a circulação de obras iluministas e das que aludissem aos acontecimentos 
nos Estados Unidos, na França e no Haiti. Contudo, o contrabando se tornou 
prática comum, mostrando que a proibição cultural nunca deu certo em 
nenhum contexto.
A rebelião baiana, ocorrida em Salvador, foi organizada por alguns mem-
bros da elite, mas tinha um caráter notadamente popular, diferentemente da 
Inconfidência. Negros alforriados, abolicionistas, comerciantes e pequenos 
As primeiras manifestações sociais e políticas no Brasil 15
proprietários foram os principais articuladores do movimento, que buscava 
o fim do sistema colonial e, consequentemente, da escravidão. Os líderes 
mais conhecidos foram João de Deus Nascimento (1771–1799), Manuel Faustino 
dos Santos (1775–1799) e Luiz Gonzaga das Virgens (1761-1799), e eles constru-
íram alianças com membros da maçonaria e políticos como Cipriano Barata 
(1762–1838). As reuniões aconteciam na Academia Brasílica dos Acadêmicos 
Renascidos, que foi criada em 1759. Porém, uma similaridade com outras 
revoltas separatistas era a pluralidade de ideais, já que alguns proprietários 
de terras, por exemplo, não queriam o fim da escravidão.
Em 1792, os conjurados começaram a expressar suas insatisfações e a 
divulgar, pela cidade, o movimento, que inclusive debatia a manutenção do 
sistema monárquico. Eles espalhavam folhetos pelas ruas, em uma alusão 
aos revolucionários franceses que arrebatavam apoiadores com a panfleta-
gem. Conforme o clima se acirrava, as divergências internas aumentavam, 
causando o rompimento entre a aula popular e a elite. Dessa forma, em 
1798, os principais líderes do povo foram presos e alguns foram enforcados 
publicamente para servirem de exemplos.
Revolução Pernambucana (1817)
Outra revolta que ocorreu em Pernambuco foi o movimento revolucionário 
do século XIX, um dos mais importantes e impactantes para o processo de 
independência de 1822. Esse movimento ocorreu porque o governo colonial 
percebeu a fragmentação política, e a atuação da elite pernambucana causou 
medo na Coroa. Os oitocentos começaram com a vinda da Família Real e da 
Corte em 1808, fugindo da expansão napoleônica. A Abertura dos portos 
às nações amigas e a assinatura do Tratado de aliança e amizade, em 1810, 
expandiram as opções comerciais da colônia, aumentando os lucros de parte 
da elite mercantil. Contudo, o Sudeste experienciou essa mudança de forma 
mais latente do que o Nordeste, ainda que Pernambuco se mantivesse como a 
capitania mais lucrativa mesmo com a crise do açúcar. Ou seja, o desprestígio 
era mais político do que econômico, acirrando o sentimento antinacional. 
Assim como na Bahia, havia diversidade entre os participantes do movi-
mento pernambucano; porém, eles possuíam um elemento identitário muito 
forte: a busca pela emancipação da província, isto é, não queriam o fim do 
sistema colonial no País todo, mas se tornar uma nação. A região questio-
nava a dominação portuguesa desde a expulsão dos holandeses no século 
XVII, quando Recife se tornou a cidade mercantil mais importante do Brasil. 
Portanto, o movimento foi mais coeso do que os anteriores observados aqui. 
As primeiras manifestações sociais e políticas no Brasil16
Havia alguns grupos hegemônicos, mas vários membros da hierarquia social 
faziam parte do movimento, sendo que os principais líderes foram o religiosoFrei Caneca (1779–1825), o juiz Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e 
Silva (1773–1845), Domingos Teotônio Jorge (?–1817), entre outros. Inclusive, 
o clero passou a discutir os ideais de liberdade e igualdade do Iluminismo, 
demonstrando a influência do pensamento. A grande diferença em relação à 
Inconfidência e à Conjuração Baiana foi a efetividade do movimento. Ele saiu 
da teoria e se expandiu para outros estados. Paraíba, Rio Grande do Norte 
e Alagoas aderiram à causa independentista, causando o receio da Coroa, já 
que o sentimento antilusitano crescia.
Em 6 de março de 1817, os revolucionários mataram o comandante por-
tuguês Manoel Joaquim Barbosa de Castro, que foi designado pelo governo 
régio local para prender os líderes da Revolução. A revolta se generalizou 
e o governo foi deposto, dando início ao Governo Provisório e às Leis Or-
gânicas, o sistema administrativo-legislativo criado pelos revolucionários. 
As principais medidas eram o republicanismo, com a divisão dos poderes à 
la Montesquieu, a liberdade de imprensa e religiosa e a igualdade, menos 
relacionada à escravidão.
A capital não aceitou a contestação, e o governo revolucionário durou 
cerca de 70 dias. A repressão foi muito violenta, e o poder central foi res-
taurado em 19 de maio de 1817. Alguns dos presos políticos foram mortos 
e esquartejados, mas o impacto do movimento foi inegável. As províncias 
questionavam o domínio português a ponto de a Família Real considerar 
proclamar a independência para não perder o controle do Brasil. 
A história brasileira é permeada por momentos de instabilidade política 
e social que foram fundamentais para a nossa formação como sociedade. Do 
século XVI até o século XIX, o País viveu revoltas cujo objetivo era o rearranjo 
da estrutura colonial local e outras que queriam a emancipação ou da colô-
nia ou do Império. Além disso, na base do sistema estava a escravidão, que 
transformou profundamente a noção de hierarquia social, além da cultura. 
Vale destacar que, apesar das diferentes naturezas de cada uma das 
revoltas, o tratamento foi o mesmo: violenta repressão do governo vigente. 
Esse detalhe corrobora a ideia que se tornou frequente nos estudos sobre o 
Brasil, que é classificá-lo como um país belicoso. Na década de 1930, Sérgio 
Buarque de Holanda escreveu o clássico Raízes do Brasil, no qual desen-
volveu o conceito de “homem cordial”, tendo como base a história colonial 
brasileira. A “cordialidade” é um disfarce para as dificuldades sociais vividas 
pelo brasileiro, que não consegue, por consequência, estabelecer um plano 
político democrático, por confundir o limiar entre público e privado. Apesar 
As primeiras manifestações sociais e políticas no Brasil 17
disso, ainda se manteve, no senso comum, a ideia de que o Brasil é um país 
pacífico, o que pode ser contestado pela regularidade dos conflitos discutidos 
neste capítulo.
Referências
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BOXER, C. R. A idade de ouro do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1969.
CARVALHO, J. M. de. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. São 
Paulo: Companhia das Letras, 2017.
FLORENZANO, M. As revoluções burguesas. São Paulo: Brasiliense, 1981.
FURET, F. Pensando a revolução francesa. São Paulo: Paz e Terra, 1989.
HEALE, M.J. A revolução norte-americana. São Paulo: Ática, 1991.
KARNAL, L. (org.). História dos Estados Unidos. São Paulo: Contexto, 2010. 
LARA, S. H. Campos da violência: escravos e senhores da capitania do Rio de Janeiro 
(1750–1808). São Paulo: Paz e Terra, 1988.
LISBOA, B. A. V. Uma elite em crise: a açucarocracia de Pernambuco e a Câmara Municipal 
de Olinda nas primeiras décadas do século XVIII. 2011. 229 f. Dissertação (Mestrado) 
— Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Pernambuco, 
Recife, 2011. 
MAXWELL, K. A devassa da devassa: inconfidência Mineira — Brasil e Portugal (1750–
1808). São Paulo: Paz e Terra, 2001. 
MONTEIRO, J. M. Negros da terra: índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São 
Paulo: Companhia das Letras, 1994.
REZENDE, L. A. O. A Câmara Municipal de Vila Rica e a consolidação das elites locais, 
1711–1736. 2015. 390 f. Dissertação (Mestrado) — Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências 
Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015. 
Leituras recomendadas
CASSIRER, E. A filosofia do iluminismo. Campinas: Editora da Unicamp, 1992. (Coleção 
Repertórios). 
FAUSTO, B. História do Brasil. 10. ed. São Paulo: EDUSP, 2002. (Didática, 1).
ISRAEL, J. “Iluminismo radical”: periférico, substancial ou a face principal do iluminismo 
transatlântico (1650–1850). Diametros, nº 40, p. 73–98, jun. 2014.
MAXWELL, K. Marquês de Pombal: paradoxo do iluminismo. São Paulo: Paz e Terra, 1993. 
MELLO, E. C. de. A fronda dos mazombos: nobres contra mascate, Pernambuco, 1666–1715. 
São Paulo: Editora 34, 2003.
SCHWARCZ, L. M. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
As primeiras manifestações sociais e políticas no Brasil18
SOUZA, L. de M. Cláudio Manoel da Costa: o letrado dividido. São Paulo: Companhia 
das Letras, 2011.
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As primeiras manifestações sociais e políticas no Brasil 19
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
 > Identificar os principais grupos étnicos que foram inseridos no território 
nacional brasileiro por meio de incentivos governamentais e por acordos 
diplomáticos entre os países envolvidos.
 > Avaliar os efeitos da diversidade imigratória na formação da política, da 
economia e da sociedade brasileira.
 > Relacionar os efeitos da imigração de exploração com a relação de trabalho 
que foi constituída pelos brasileiros ao longo da sua história.
Introdução
O processo imigratório brasileiro como política de Estado teve início no século 
XIX. Desde a chegada da Família Real, em 1808, foram tomadas medidas no intuito 
de modernizar a colônia, na qual a escravidão era a principal, mas não única, 
forma de trabalho para a manutenção da economia agroexportadora. Também 
existiam trabalhadores livres e serviços públicos, mas eles não movimentavam 
as contas públicas.
No próprio século XIX, mudanças profundas surgiram como consequência 
dos movimentos revolucionários do final do século XVIII — e no Brasil não foi 
diferente. O questionamento sobre a viabilidade, a longo prazo, da escravidão 
mobilizou a criação dos primeiros projetos imigratórios visando à inserção da 
mão de obra livre no País.
Neste capítulo, você poderá aprender a respeito da história da imigração no 
Brasil, com foco sobre a formação de uma nova classe trabalhadora e a importância 
Classe trabalhadora 
brasileira
Ana Carolina Machado de Souza
disso para a nossa formação política, social e econômica. Ademais, você poderá 
compreender o impacto que a imigração teve sobre o movimento abolicionista, as 
mudanças legislativas e o desenvolvimento do pensamento eugenista no Brasil. 
Os projetos de imigração
Antes de o governo sancionar a vinda de imigrantes para trabalharem nas 
lavouras, grupos de estrangeiros chegavam ao Brasil desde o início do sé-
culo XIX. Quando a corte se estabeleceu no Rio de Janeiro, em 1808, missões 
científicas foram autorizadas para dar seguimento a estudos sobre a fauna, 
a flora e as sociedades brasileiras.
As missões artísticas e científicas tinham como objetivo a coleta de 
informações sobre a natureza e o passado colonial. Em 1816, ocorreu 
a Missão Artística Francesa, muito conhecida pelas imagens feitas pelo francês 
Jean-Baptiste Debret (1768–1848). Em 1817, teve início a Missão Austríaca, cujos 
cientistas faziamparte da comitiva da arquiduquesa Leopoldina (1797–1826), 
que vinha ao Brasil para se casar com D. Pedro I (1798–1834).
A viagem de Jean-Baptiste Debret ao Brasil é retratada no livro J.-B. Debret, 
historiador e pintor. A viagem pitoresca e histórica ao Brasil (1816–1839), de 
Valéria Lima.
Em 1818, D. João VI (1767–1826) assinou uma Carta Régia, na qual aceitava 
a vinda de um grupo de suíços para o estado do Rio de Janeiro. Eles se esta-
beleceram na atual região de Friburgo, assim nomeada em homenagem ao 
cantão de onde vieram. No documento, o rei atestava a boa relação diplomática 
com a Confederação Suíça e garantia às famílias que aqui se instalariam o 
recebimento de terras doadas pelo Estado para cultivarem e se estabele-
cerem. Esse foi um núcleo voltado totalmente para a ocupação territorial e 
para a diplomacia. Tal medida não se sustentou nem foi repetida, e a própria 
instabilidade política do Brasil auxiliou para que esse fosse o resultado.
O século XIX foi muito tumultuoso no Brasil. Além das questões políticas, 
como a Independência, a Regência e os reinados de D. Pedro I e D. Pedro II, 
vários conflitos aconteceram em todas as regiões. Essas instabilidades cau-
saram uma profunda crise política e econômica, que teve como uma de suas 
consequências diretas a dificuldade de se definir uma identidade nacional.
O Primeiro Reinado (1822–1831) manteve o que havia sido feito anterior-
mente, visando ao povoamento de locais estratégicos para o governo. Um bom 
exemplo é o Sul do País, onde as disputas territoriais com os países vizinhos 
Classe trabalhadora brasileira2
— alguns em processo de emancipação — eram um problema crescente. Em 
1825, por exemplo, teve início a Guerra Cisplatina (1825–1827), uma disputa 
contra a Argentina por causa da região uruguaia, chamada Cisplatina. Núcleos 
coloniais como o de São Leopoldo, o de Três Forquilhas e o de São Pedro de 
Alcântara de Torres, todos no Rio Grande do Sul, não tinham o objetivo de 
contribuir para os latifúndios cafeeiros e eram financiados com verba federal. 
Esse direcionamento foi questionado pelos fazendeiros paulistas e cariocas, 
que queriam maior auxílio por parte do governo (HOLANDA, 2004).
Da década de 1830 em diante, o cultivo de café começou a crescer no Su-
deste. A elite agrária, por um lado, reivindicava auxílios econômicos, enquanto, 
por outro, criticava o processo imigratório, que não havia atingido resultados 
expressivos até então. Emília Viotti da Costa (1999) relata como o Império 
decidiu, em 1827, encaminhar alguns estrangeiros para São Paulo, na tentativa 
de expandir o programa; porém, essa medida também não rendeu frutos.
Em 1830, foi aprovada uma nova Lei do Orçamento, que reformulou as 
despesas do Império. Um dos gastos que foram cortados se relacionava 
à imigração outorgada na Carta de 1818. Apesar das mudanças políticas e 
orçamentárias, nessa época o trabalho ainda se mantinha majoritariamente 
escravo. Foi apenas na década de 1840 que as políticas imigratórias foram 
postas em prática. 
Colônia de Parceria
Em 1847, teve início o modelo de Colônia de Parceria, criado a partir do in-
centivo estatal e da iniciativa privada. Nele, eram prometidas terras para 
os estrangeiros, que poderiam quitar o financiamento a partir da venda 
dos produtos cultivados. Essa “parceria” entre latifundiários e imigrantes 
seria o primeiro passo para a expansão do trabalho em massa. Porém, na 
prática, havia muitas exigências para poucos benefícios. Toque de recolher, 
restrição de mobilidade, não acesso à terra própria, além dos custos abusivos 
do deslocamento suscitaram o descontentamento dos europeus. Como diz 
Souza (2012, p. 87):
Embora o sistema de parceria tenha sofrido alterações significativas em seus 
mecanismos ao longo do tempo pode-se dizer que seu cerne permaneceu prati-
camente o mesmo ao longo das mais de três décadas em que foi empregado. Seus 
principais componentes referiam-se ao: (i) endividamento do imigrante por meio de 
pagamento de passagens e de adiantamentos para sua manutenção nos primeiros 
anos; (ii) divisão (meação) dos resultados econômicos entre o fazendeiro e o colono.
Classe trabalhadora brasileira 3
Nesse caso, observa-se um choque cultural entre diferentes formas de 
se entender e praticar o trabalho. Os fazendeiros tratavam os estrangeiros 
com desconfiança e rigor, causando problemas para a efetividade de todo 
o sistema. Até que, em 1856, ocorreu um motim na propriedade do senador 
Nicolau Campos Vergueiro (1778–1859), que, segundo Boris Fausto (2002), foi 
fundamental para o fim do processo de parceria.
Foi somente nos anos 1870 que a imigração se estabeleceu como uma polí-
tica de estado para a substituição da mão de obra escravizada. As mudanças, 
nesse caso, eram profundas. As discussões acerca da abolição se tornaram 
frequentes, e a pressão externa para que o tráfico acabasse aumentava. 
Nesse sentido, aprovou-se em 1831 uma lei proibitiva, mas ela nunca foi 
aplicada de fato.
Os maiores interessados nessa mudança eram os ingleses, que pressio-
navam. No entanto, o número de negros sequestrados e deslocados para 
o Brasil continuava crescendo, acompanhando o ritmo de surgimento das 
fazendas de café. Então, em 1845, o Parlamento Britânico assinou o Slave Trade 
Suppression Act — que conhecemos como Lei Bill Aberdeen —, que autorizava 
a interferência direta em navios negreiros não apenas em mar aberto, mas 
também em águas brasileiras. A medida dos ingleses impactou diretamente 
o Brasil, que, mesmo contestando tal decisão, mudou a própria legislação.
Em 1850, foram assinadas a Lei de Terras e a Lei Eusébio de Queirós, que 
atingiram a política trabalhista brasileira. A última regulava o fim do tráfico, 
e, dessa vez, com um sistema punitivo que ajudou na queda vertiginosa do 
número de africanos trazidos compulsoriamente. Já a primeira regimentava 
a questão da posse de terras, dificultando o acesso da população brasileira 
à terra, o que provocou uma maior concentração fundiária. Esse cenário 
impulsionou a decisão dos fazendeiros de aprovarem a vinda de mão de 
obra estrangeira livre.
Imigração subvencionada
Em 1871, foi aprovada a Lei do Ventre Livre, que promulgava a liberdade a 
todos os filhos de escravos nascidos depois do dia 28 de setembro. Houve 
uma generosa indenização aos proprietários escravistas que alforriaram as 
crianças, os quais, além disso, poderiam, por lei, utilizá-las como mão de obra 
até os seus 21 anos. Dessa forma, havia dinheiro para que os latifundiários 
pudessem financiar parcialmente os imigrantes.
No mesmo ano, São Paulo aprovou a vinda de estrangeiros com verba 
provincial e federal. O estado providenciava o deslocamento até as fazendas 
Classe trabalhadora brasileira4
de café, e os contratantes eram responsáveis pela burocracia e por qualquer 
treinamento necessário. Ainda em 1871, foi criada em São Paulo a Associação 
Auxiliadora da Colonização, um órgão que mediava a relação entre os fazen-
deiros e o Governo. Tendo sido uma das primeiras, essa associação abriu 
espaço para muitas outras do tipo. No caso paulista, hospedarias foram 
criadas para receber os europeus, que passavam por exames e, se preciso, 
eram encaminhados para algum tipo de quarentena. Em 1884, o valor dos 
escravos subiu — pois havia diminuído a quantidade de mão de obra disponível 
—, causando mais interesse por parte da elite. Desse momento em diante, a 
política imigratória se estabeleceu (LIMA, 2017).
É importante destacar que, assim como outras medidas implementadas 
no Brasil, não houve homogeneidade na imigração. A esse respeito, Sílvia 
Lara (1998, p. 28–29), recorrendo a citações de Almada (1984), diz:
Tão importante quanto a cristalização dos termos constituintes da “teoria da 
substituição” foi o fato de que os estudos empíricos a este respeito incidiram 
quase sempre sobre São Paulo, acarretando que a assim entendida “experiência 
paulista das fazendas de café” se configurasse como um paradigma explicativo 
de todo o processo,em todo o Brasil. vários estudos regionais já demonstraram 
claramente como, em outras regiões, a questão se colocava de modo diverso, com 
o aproveitamento do “elemento nacional”. [...] na Zona da Mata mineira, por exem-
plo, os fazendeiros preferiram realizar contratos de parceria com trabalhadores 
residentes, recorrendo ao assalariamento temporário de migrantes sazonais vindos 
de outras regiões do Estado. No Espírito Santo, somente os fazendeiros mais ricos 
recorreram à imigração. A maioria acabou optando por “‘contratados’ por um ano, 
por ‘camaradas’ pagos por mês, ou, mais ainda, por ‘jornaleiros’, pagos por dia”.
Ou seja, não se pode perder de vista que a experiência imigratória foi 
diversa, assim como o processo de abolição. É por isso que se tornam im-
portantes estudos regionais que agreguem mais informações acerca dos 
eventos localizados.
Grupos imigratórios
O Brasil recebeu pessoas de muitas nacionalidades desde a colonização. 
Espanhóis, portugueses, holandeses, franceses circulavam pela colônia muito 
antes da chegada da Família Real. Mesmo com as políticas de imigração, esses 
grupos mantiveram o deslocamento para a América; porém, eles deixaram de 
ser os únicos. No século XIX, o maior contingente de imigrantes era da Itália; 
depois, da Alemanha; e, depois, da Síria e do Líbano. Foram esses os princi-
pais beneficiados com o programa de busca de trabalhadores assalariados e 
Classe trabalhadora brasileira 5
livres. Já no período republicano, em 1908, os japoneses aportaram no Brasil, 
formando a maior comunidade nipônica fora do Japão. Outros grupos, como 
chineses, sul-americanos (bolivianos e venezuelanos) e haitianos também 
se estabeleceram no País, mas em condições diferentes das dos citados 
anteriormente.
Em 1930, após a tomada de poder por parte da Aliança Liberal, Getúlio 
Vargas (1882–1854) assinou o Decreto nº 19.482, que limitava indiretamente 
a entrada de estrangeiros no País. Segundo Endrica Geraldo (2009), a medida 
restringia também a contratação de mão de obra estrangeira por parte dos 
empregadores, que eram obrigados a ter pelo menos 2/3 das vagas preen-
chidas por brasileiros. É a partir desse momento que ocorre uma mudança 
significativa na formação da classe trabalhadora do Brasil, que passa a ob-
servar e enfatizar os domiciliados e natos no País, devido ao fim da entrada 
incessante de imigrantes.
Alemães e italianos
Tanto a Alemanha quanto a Itália só se tornaram países em 1871. Até então, 
havia disputas de poder entre o Império Austro-Húngaro e a Prússia, no caso 
dos alemães, e entre diversos governos que ocupavam a Península Itálica. 
Isso demonstra que ambos passaram por profunda instabilidade política e 
econômica, inclusive após a unificação.
No caso da imigração alemã, os primeiros grupos rumaram para o Brasil 
ainda na década de 1820. Nessa época, a expansão napoleônica e o cresci-
mento da influência comercial e industrial inglesa pressionavam sobretudo 
a Prússia, maior reino da região. Os alemães buscavam, além disso, o desen-
volvimento econômico e a modernização do estado, sendo que a participação 
na colonização da África e da Ásia era uma meta dentro desse processo. A 
maioria dos imigrantes alemães que vieram para o Brasil se estabeleceu 
no Sul, que manteve os incentivos mesmo com a Lei do Orçamento de 1830. 
Segundo Magalhães (1993, p. 14):
Para contornar a oposição que lhe faziam as elites brasileiras, o governo imperial 
transferiu, por meio de um Ato Adicional em 1824, aos poderes provinciais a inicia-
tiva de fomentar a imigração por conta própria. Nas décadas que se sucederiam, 
Santa Catarina e Rio Grande do Sul passariam a contar com um conjunto de leis 
que favoreciam a vinda de trabalhadores estrangeiros para seus territórios, em 
caráter oficial.
Classe trabalhadora brasileira6
A maioria das colônias dos 119.300 alemães que chegaram ao Brasil de 1820 
a 1909 foi construída no atual Rio Grande do Sul (MAGALHÃES, 1993). Desse 
modo, a identidade sulista está intimamente conectada à chegada desses 
grupos, que tinham o objetivo de ocupar o espaço e consolidar a fronteira 
brasileira. Os índios e os brasileiros nativos não eram reconhecidos, assim, 
como parte do projeto de povoamento. Dentro dessa mentalidade cresce a 
ideia de uma política eugenista, que teve seu início marcado pela tentativa 
de “branqueamento” da população brasileira (SANTOS, 2017, p. 236).
Os italianos, por sua vez, chegaram massivamente após 1870. Apesar de 
muitos terem partido para os Estados Unidos, a propaganda promovida pelo 
Império brasileiro, com a ajuda dos fazendeiros de café, chamou a atenção 
principalmente da população camponesa. Entre 1884 e 1923, cerca de 1.331.158 
de italianos migraram para o Brasil, sendo Rio Grande do Sul, Santa Catarina 
e São Paulo os estados que mais os receberam (IBGE, 2000). Na província 
paulista, o crescimento do número de italianos foi exponencial. A maioria 
deles se destinou à lavoura, mas as condições de trabalho não haviam mu-
dado tanto em relação às primeiras experiências. Outros se instalaram em 
cidades maiores, como São Paulo, as quais ainda não tinham se modernizado 
e estruturado, causando, por exemplo, o surgimento de moradias precárias 
(COSTA, 1999).
Em 1889, o governo italiano promoveu sanções temporárias para o projeto 
de imigração brasileiro por causa dos problemas nos trabalhos disponibi-
lizados. A repreensão se tornou medida legislativa com o Decreto Prinetti, 
assinado em 1902, que proibia a imigração subsidiada. Segundo Hutter (1987, 
p. 63):
O Decreto Prinetti, contrariamente ao que se diz, não foi uma medida tomada contra 
o Brasil, nem mesmo contra a emigração italiana para cá. Apenas proibia a vinda 
de emigrantes italianos com passagens gratuitas. Era livre a vinda de cidadãos 
que tivessem meios e se dispusessem a emigrar para o Brasil. O decreto não fazia 
mais do que determinar a suspensão de uma licença especial concedida a algumas 
companhias de navegação para transportar, gratuitamente, emigrantes italianos 
para o Brasil. Proibia, também, que gentes recrutassem, na Itália, emigrantes, 
destinando-os ao Brasil.
Entre 1886 e 1888, o Brasil recebeu mais de 80 mil italianos, que esta-
beleceram aqui suas identidades e particularidades sociais e, desse modo, 
exerceram influência sobre o desenvolvimento cultural tanto da região Sul 
quanto de São Paulo. É importante destacar que muitos dos imigrantes re-
tornaram à sua terra natal: dos 1.895.000 que aportaram em Santos entre 
1892 e 1930, cerca de 1.017.000 deixaram o Brasil. Contudo, o impacto desse 
Classe trabalhadora brasileira 7
deslocamento foi fundamental para se entender a construção da ideia de 
classe trabalhadora, que será discutida mais à frente.
Japoneses e outros grupos
Em 18 de junho de 1908, aportou em Santos o navio Kasato Maru, transpor-
tando cerca de 781 japoneses, que se destinaram às lavouras de café paulistas 
(Figura 1). Porém, essa não foi a primeira vez que japoneses vieram para o 
Brasil. Desde meados do século XIX, um grande número de pessoas emigrou 
do Japão com a intenção de se estabelecer em locais como os Estados Unidos 
— principalmente no Havaí — e em outros países latino-americanos (SILVA, 
2017). Essas iniciativas migrantes eram apoiadas pelo governo japonês, que, 
com isso, objetivava contornar os problemas econômicos enfrentados pelo 
país e o superpovoamento das ilhas. Foi, então, a partir de 1880 que políticos 
japoneses começaram a viajar ao Brasil para inspecionar as condições de 
trabalho oferecidas pelo País. Após concordarem com as medidas estabele-
cidas aqui, a imigração foi liberada. De início, as tentativas individuais foram 
incentivadas, mas tiveram pouco impacto no cenário brasileiro. Apenas em 
1908, com a revalorização do preço do café e a necessidade de suprir a falta 
de mão de obra italiana — decrescente desde o Decreto Prinetti —, a vinda 
dos japoneses se tornou parte da política subvencionada (SUZUKI, 1995).
Classe trabalhadora brasileira8Figura 1. Primeira página da lista de passageiros do Kasato Maru.
Fonte: Pacific Steam Navigation Company (1908, documento on-line).
Classe trabalhadora brasileira 9
A imigração subvencionada foi a realidade brasileira até 1924, mas há 
um fator interessante nesse processo. O privilégio estava, sempre, com os 
europeus, isto é, enquanto italianos, alemães, suíços, etc. decidissem migrar 
para o Brasil, o subsídio iria para eles. No entanto, embora fosse reparável a 
xenofobia contra os orientais, a vinda de japoneses para o Brasil continuou. 
Entre a Primeira Guerra Mundial (1914–1918) e a Segunda Guerra Mundial 
(1939–1945), cerca de 130 mil japoneses se instalaram no País (IBGE, 2000), 
sobretudo no interior de São Paulo e no Paraná.
No século XIX, a questão da eugenia se tornou parte da discussão — e 
da prática — intelectual brasileira e europeia. O “darwinismo social” e 
as intenções civilizatórias embasaram a vinda dos europeus, que foi justificada 
como parte da necessidade de “branquear a população”. Porém, os discursos 
nacionalistas também exerceram influência sobre as políticas proibitivas. Um 
exemplo disso foi Oliveira Vianna (1883–1951), jurista e sociólogo fluminense 
que influenciou diretamente na construção da legislação trabalhista, inclusive 
nos decretos e nas leis que barraram paulatinamente a imigração por motivos 
nacionalistas e xenofóbicos.
Você pode encontrar mais detalhes sobre esse assunto na obra O charme da 
ciência e a sedução da objetividade: Oliveira Vianna entre intérpretes do Brasil 
(2005), de Maria Stella Martins Bresciani.
Durante a Era Vargas, como visto, a subvenção foi cortada, tornando a 
imigração uma iniciativa individual e privada. Porém, a influência japonesa 
se manteve, sobretudo na questão tecnológica. Mesmo com a derrota sofrida 
na Segunda Guerra Mundial e os ataques nucleares às cidades de Hiroshima e 
Nagasaki, o Japão conseguiu se reorganizar economicamente e criou empresas 
de ponta, como a Panasonic, a Toyota, a Honda e a Nissan, que construíram 
sedes no Brasil a partir da década de 1950 (GÓES, ASSUMPÇÃO; SANCHEZ, 
2020). Vale destacar que, a partir do período Vargas, notoriamente naciona-
lista, as primeiras indústrias eletroeletrônicas e automobilísticas passaram 
a se instalar por aqui, mas foi apenas nos anos 1960 que as multinacionais 
receberam incentivos do Estado para escolherem o Brasil.
Outros grupos, como os sírio-libaneses, imigraram para o Brasil na in-
tenção de escapar da instabilidade política, que é contínua na região do 
Oriente Médio. A maioria desses grupos se manteve nas grandes cidades 
brasileiras, dando início a comércios locais, ou, com a mesma finalidade, 
viajaram como mascates para o interior. Embora São Paulo tenha recebido a 
maior parte desse contingente, estudos recentes tentam mapear e rastrear 
a sua interiorização, estabelecendo a sua importância cultural, social e po-
Classe trabalhadora brasileira10
lítica em distintos locais. Diferentemente dos grupos anteriores a eles, os 
sírio-libaneses não foram subsidiados, pois outros tipos de relações foram 
instaurados. De acordo com Truzzi (2019, p. 3):
O papel das redes migratórias formadas tanto por parentes quanto por conterrâneos 
foi muito importante. [...] Aos poucos, na terra de origem formou-se de certo modo 
uma cultura migratória, pelo menos em parte responsável por mobilizar contin-
gentes expressivos em direção à “América”, onde quer que fosse compreendida. 
De fato, a acolhida por redes foi muito comum e bastante importante, pois, desse 
modo, o grosso dos imigrantes não chegava aqui sem nenhuma referência.
Apesar da forte influência cultural no Brasil, a população sírio-libanesa 
imigrou de forma particular, sem incentivo estatal. Isso corrobora a ideia de 
predileção por imigrantes brancos e europeus para ocupar o território bra-
sileiro. O negro, apesar de livre no século XX, sofria sanções sociais só pelo 
fato de ser descendente de escravos. A partir do momento em que o sistema 
escravista foi destituído formalmente, não houve um programa governa-
mental que visasse à inserção dessas pessoas no mercado de trabalho mais 
qualificado. Eles continuaram a exercer funções mal remuneradas e tinham o 
acesso à educação dificultado pelas necessidades de sobrevivência. As taxas 
de analfabetismo eram altas e as condições de moradia não eram as ideais, 
causando um efeito bola de neve na constituição das classes econômicas 
brasileiras. Além disso, o próprio brasileiro nativo foi preterido pelo Estado 
quando se buscaram imigrantes para ocupar territórios com alto risco de 
invasão estrangeira.
Esses pontos de vista foram desenvolvidos durante décadas pela his-
toriografia, que só começou a discutir o papel dos pobres, dos negros e de 
outras minorias a partir da década de 1970. Até então, os grandes modelos 
explicativos privilegiavam as análises macro, silenciando as memórias de 
grupos inteiros. E isso não foi diferente com a análise da classe trabalhadora.
As questões da classe trabalhadora
A formação da classe trabalhadora é um dos temas mais debatidos na histo-
riografia nacional. Uma das características apontadas por esta é que, durante 
muito tempo, se considerou “classe trabalhadora” aqueles que imigraram 
para o Brasil. Brasileiros, índios, negros escravizados (ou libertos) não eram 
conhecidos como parte da mão de obra que havia auxiliado na construção do 
País. Isso se dá porque se estabeleceu que o estudo sobre o trabalho estava 
Classe trabalhadora brasileira 11
relacionado ao operariado, e pouco se discutia as relações construídas na 
lavoura, por exemplo. Como diz Cláudio Batalha (2000, p. 7):
A imagem mais corrente do operariado na Primeira República é a do italiano 
anarquista. Caricata, ela reúne dois componentes fundamentais: por um lado, a 
associação automática entre trabalhador e imigrante — este, por sua vez, reduzi-
do ao italiano; por outro, a atribuição de um ideário único, o anarquismo, àquele 
movimento histórico.
A experiência dos trabalhadores brasileiros é plural, e essa abordagem 
restritiva já foi contestada pelos historiadores. Ela surgiu a partir de ideali-
zações acerca do que era o trabalhador, o imigrante e o cidadão.
A história da historiografia brasileira analisa, entre várias temáticas, 
o surgimento da área de História Social do Trabalho, que aborda a 
macro perspectiva sobre o contexto das políticas relacionadas ao trabalho, 
assim como o ponto de vista micro, de trabalhadores que fizeram parte dessa 
construção.
Para melhor compreender a complexidade desse campo de estudos, leia A 
Justiça do Trabalho e sua história (2013), livro organizado por Ângela de Castro 
Gomes e Fernando Teixeira da Silva, e A história do trabalho: um olhar sobre os 
anos 1990 (2002), de autoria de Claudio H. M. Batalha.
Correntes ideológicas como o Anarquismo, o Socialismo e o Comunismo 
surgiram na Europa, durante o século XIX, a partir da crítica ao Capitalismo. Era 
um momento de crise social intensa, sobretudo por conta das modificações 
causadas pela Revolução Industrial, em 1760, e pelos seus desdobramen-
tos no século seguinte. Pessoas como Saint-Simon (1760–1825) e Proudhon 
(1804–1865) discutiam a exploração do trabalho e criavam suas próprias 
respostas, teóricas e/ou práticas, para que a situação mudasse (BATALHA, 
2000). Porém, o filósofo mais conhecido e influente desse período foi Karl 
Marx (1818–1883), que se aprofundou na análise sobre o Capitalismo e apre-
sentou soluções para superá-lo. Essa tendência, que embasou movimentos 
revolucionários e trabalhistas na Europa, também viajou para o Brasil com os 
europeus. Segundo Batalha (2000, p. 37–38), a organização dos trabalhadores, 
independentemente da ideologia, estava relacionada aos maus tratos e à 
pouca regulamentação das atividades:
Classe trabalhadora brasileira12
A República trouxe inicialmente esperança, que logo deu lugar à decepção, àqueles 
que buscavam obter a regulamentação do trabalho e a garantia de direitos políticose sociais através da organização dos trabalhadores. Mesmo a parca legislação 
aprovada visando à melhoria das condições de trabalho — como o decreto 1.313 
de 1891 regulamentando o trabalho de menores nas fábricas do Distrito Federal — 
ficou só no papel, pela falta de vontade política e de uma estrutura de fiscalização 
para seu cumprimento.
O que a historiografia fez foi marginalizar os trabalhadores brasileiros 
ao transformar as associações de imigrantes em protagonistas nas ações 
afirmativas e contestatórias sobre a realidade trabalhista. Autores da pri-
meira metade do século XX pouco analisavam os eventos do seu presente, 
e um exemplo disso foi a greve geral de 1917, que só ganhou destaque após 
os anos 1970.
A greve geral de 1917 aconteceu na cidade de São Paulo e é conhecida 
como uma das principais mobilizações sociais da Primeira República, 
tendo ocorrido no governo de Venceslau Brás (1914–1918). Nessa época, o trabalho 
no Brasil não era regulamentado, ou seja, eram os contratantes que estipulavam 
as regras. Então, devido à insalubridade e à falta de direitos básicos, operários 
do setor têxtil, entre os quais havia muitas mulheres e crianças, decidiram se 
organizar.
O motim teve início no Cotonifício Crespi, no bairro da Mooca, após os em-
presários terem se recusado a melhorar as condições de trabalho, imposto um 
terceiro turno de produção e não terem aumentado os salários. Em seguida, 
outras indústrias aderiram à greve — que havia começado com 400 pessoas se 
recusando a trabalhar —, causando um dos maiores movimentos organizados 
no Brasil até então.
Para expandir o assunto, você pode ler o artigo “A greve geral de 1917 em 
São Paulo e a imigração italiana: novas perspectivas” (2009), de Luigi Biondi.
Devido à falta de atenção aos movimentos dos trabalhadores, quem contou 
essa história, de início, foram os próprios militantes, que produziam análises 
e interpretações acerca das ações realizadas naquela época. Dessa forma, 
levantaram a sua voz face a uma produção historiográfica que privilegiava 
outras perspectivas. Contudo, foi apenas a partir da década de 1970 que 
ganharam espaço novas abordagens — que incluíram as minorias históricas.
A população negra, por exemplo, era pouco citada até os anos 1930, quando 
estudos clássicos como os de Gilberto Freyre (1900–1987), Sérgio Buarque de 
Holanda (1902–1982) e Caio Prado Júnior (1907–1990) começaram a discutir 
a importância dessa população para a formação da sociedade brasileira. 
Mesmo assim, esses estudos tinham um viés macro, não apontando as par-
Classe trabalhadora brasileira 13
ticularidades do processo de escravidão e das suas consequências para o 
presente. Freyre, aliás, ajudou a cunhar o conceito de democracia racial, que 
até hoje traz problemas para a compreensão do racismo estrutural brasileiro.
A década de 1970 é um marco na historiografia, visto que muitas trans-
formações importantes ocorreram na época. Enquanto a História Cultural 
era delineada a partir do desenvolvimento da Escola dos Annales, surgida 
em 1927, e da inserção de disciplinas como Antropologia e Linguística, a 
História do Trabalho sofria influência dos estudos sociais, da micro-história 
e do questionamento sobre o marxismo ortodoxo. Nos anos 1960, surgiu 
na Inglaterra a New Left Review, revista acadêmica que deu espaço a novas 
formas de pensamento para além da estrutura fixa criada a partir da teoria 
de Marx. Um dos principais representantes dessa mudança foi E. P. Thomp-
son (1924–1993), que ajudou no estabelecimento da ideia “a história vista de 
baixo”, a qual destacava a memória do operário e da cultura de classe a que 
ele pertencia. O foco analítico mudou, e o autor consolidou esse campo de 
estudo em 1963 com a publicação de A formação da classe operária inglesa, 
que marcou os estudos do trabalho no Brasil.
Por meio da leitura de processos judiciais e das memórias passadas, além 
da busca por evidências nos mais variados arquivos, os historiadores passaram 
a escrever sobre os trabalhadores e analisar as suas experiências. Foi a partir 
disso que se instituiu e compreendeu a amplitude da classe trabalhadora 
brasileira, que ia muito além da história imigrante.
É importante apontar que trabalhadores e operários, apesar de serem usa-
dos como sinônimos, conceitualmente são diferentes. Esse paradoxo reside no 
fato de que os operários são os trabalhadores que surgiram com a Revolução 
Industrial, tendo, portanto, qualificações e necessidades específicas. No caso 
do Brasil, essa mudança ocorreu no final do século XIX, pois, embora seja 
um país agrário-exportador por essência — e assim tenha permanecido por 
muito tempo ao longo do século XX —, houve a necessidade de diversificar 
a economia. A centralização econômica ocorreu no Sudeste, principalmente 
em São Paulo e Minas Gerais, região que, com o dinheiro do café, passou a 
se modernizar e industrializar. Alinhada a esse cenário, a classe operária se 
desenvolvia. Muitos imigrantes vieram nas décadas de 1910 e 1920 para suprir 
a necessidade de mão de obra. Contudo, houve muita migração interna, com 
a saída de brasileiros de várias regiões com destino a São Paulo, o que em 10 
anos mudou a situação dos operários, com os europeus se tornando minorias.
Ao longo de toda a sua história, o Brasil experienciou conflitos motivados 
pelos abusos no trabalho. Assim, outra ideia que se coloca é expandir o con-
ceito de trabalhadores para o período colonial, pois boa parte da produção 
Classe trabalhadora brasileira14
historiográfica enfatizava os acontecimentos da Primeira República e da Era 
Vargas. As revoltas nativistas nos séculos XVII e XVIII, por exemplo, reivindica-
vam melhores condições de trabalho para os colonos, que eram explorados 
e não possuíam poder ou representatividade política. Isso também ocorreu 
com as revoltas separatistas do século XVIII, que visavam à emancipação. Já 
no período independente, as revoltas regenciais buscavam a separação de 
algumas regiões, ou contestavam as políticas restritivas em relação ao uso 
de mão de obra, como na Cabanagem. Tanto a escravidão quanto o trabalho 
livre eram políticas de trabalho que se baseavam na exploração, e, até a 
aprovação da Legislação Trabalhista, em 1943, a situação pouco mudou.
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LIMA, Valéria. J.-B. Debret, historiador e pintor. A viagem pitoresca e histórica ao Brasil 
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SILVA, R. R. Imprimindo a resistência: a imprensa anarquista e a repressão política em 
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Classe trabalhadora brasileira 17
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
 > Descrever a política brasileira que estimulou a imigração de europeus.
 > Avaliar os efeitos dessa imigração sobre a política, a economia e a sociedade 
brasileira.
 > Identificar as mudanças sociais decorrentes da chegada de imigrantes no 
século XX.
Introdução
Entre os séculos XIX e XX, o Brasil recebeu um dos maiores fluxos imigratórios 
da história humana. Nesse período, imigrantes vindos de todos os continentes 
chegaram ao País e construíram suas vidas, formando a classe trabalhadora 
moderna brasileira. Contudo, esse processo não foi isento de contradições, já 
que, por um lado, a vinda dos imigrantes contribuiu para o desenvolvimento 
econômico e social do Brasil, mas, por outro, empurrou a população negra para 
uma marginalidade cada vez maior no pós-abolição.
A presença dos 
imigrantes e a 
formação da classe 
trabalhadora 
no Brasil
Eduardo Pacheco Freitas
Estudar a história da imigração brasileira e da formação da força de traba-
lho do País em um momento em que ele se industrializava é fundamental para 
compreender os aspectos do Brasil contemporâneo, tais como a influência das 
diversas culturas estrangeiras, as raízes da desigualdade social e a participação 
de descendentes de imigrantes na construção do Brasil da atualidade.
Neste capítulo, você conhecerá a política brasileira em relação aos imigrantes 
nos séculos XIX e XX. Além disso, conhecerá os efeitos da imigração sobre elementos 
diversos da sociedade brasileira. Por fim, você verá quais transformações sociais 
ocorreram a partir da chegada dos imigrantes.
A imigração europeia no Brasil
A questão da imigração do Brasil remonta ao período colonial, tendo as suas 
origens em 1808, quando D. João VI, manifestando uma grande preocupação 
em ocupar o território brasileiro, permitiu que imigrantes de outros países 
que não Portugal pudessem vir e se estabelecer no Brasil (VIEIRA, 2007). 
Mais adiante, ainda no século XIX, dois discursos principais caracterizaram 
o debate sobre a imigração no Brasil. O primeiro deles girava em torno do 
suposto avanço civilizatório que o Brasil perceberia com a vinda dos imigrantes 
europeus para o País. É importante destacar que a escravidão africana ainda 
vigorava no País, porém as elites proprietárias já elaboravam ideias sobre a 
substituição da mão de obra escrava por trabalhadores livres. Desse modo, o 
imigrante europeu serviria a dois propósitos: ocupar, na cadeia produtiva, o 
espaço que era dos escravos; e promover o embranquecimento da população 
brasileira (MENEZES, 2014).

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