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A PERSPECTIVA DA
CRIANÇA SOBRE A
VIDA E A HISTÓRIA
INDICAÇÃO DE
LEITURA
OUT 2024
AURORA
L I T E R Á R I A 
PÁGINA UM
CONTRIBUIÇÕES
RESENHA LITERÁRIA 
Bruno Magalhães
Vitória Edla
POEMAS E CONTOS
Clarice Moura
Daniel Damazio 
Letícia Farias
 
EDITORAÇÃO E DIAGRAMAÇÃO
CLARICE MOURA
LETÍCIA FARIAS
VITÓRIA EDLA
AUTORES SELECIONADOS
Clarice Lispector
Rachel de Queiroz
Mário Quintana
Cecília Meireles
AURORA
L I T E R Á R I A 
SELEÇÃO DAS IMAGENS 
Daniel Damazio 
Letícia Farias
Vitória Edla
TABELA DE CONTEÚDOS 
PÁGINA DOIS
CRÔNICAS
POEMAS
INDICAÇÃO DE OBRAS
03
07
16
05
14
17
CONTOS
RESENHA
IMAGENS
CRÔNICAS 
"Não, nunca me acontecem milagres. Ouço
falar, e às vezes isso me basta como
esperança. Mas também me revolta: por que
não a mim? Por que só de ouvir falar? Pois já
cheguei a ouvir conversas assim, sobre
milagres: “Avisou-me que, ao ser dita
determinada palavra, um objeto de estimação
se quebraria.” Meus objetos se quebram
banalmente e pelas mãos das empregadas.
Até que fui obrigada a chegar à conclusão de
que sou daqueles que rolam pedras durante
séculos, e não daqueles para os quais os
seixos já vêm prontos, polidos e brancos. Bem
que tenho visões fugitivas antes de
adormecer – seria milagre? Mas já me foi
tranquilamente explicado que isso até nome
tem: cidetismo, capacidade de projetar no
campo alucinatório as imagens inconscientes.
Milagre, não. Mas as coincidências. Vivo de
coincidências, vivo de linhas que incidem
uma na outra e se cruzam e no cruzamento
formam um leve e instantâneo ponto, tão leve
e instantâneo que mais é feito de pudor e
segredo: mal eu falasse nele, já estaria
falando em nada.
Mas tenho um milagre, sim. O milagre das
folhas. Estou andando pela rua e do vento me
cai uma folha exatamente nos cabelos. A
incidência da linha de milhões de folhas
transformadas em uma única, e de milhões de
pessoas a incidência de reduzi-las a mim. Isso
me acontece tantas vezes que passei a me
considerar modestamente a escolhida das
folhas. Com gestos furtivos tiro a folha dos
cabelos e guardo-a na bolsa, como o mais
diminuto diamante. Até que um dia, abrindo a
bolsa, encontro entre os objetos a folha seca,
engelhada, morta. Jogo-a fora: não me
interessa fetiche morto como lembrança. E
também porque sei que novas folhas
coincidirão comigo.
Um dia uma folha me bateu nos cílios. Achei
Deus de uma grande delicadeza."
C R Ô N I C A S | P Á G I N A T R Ê S 
O M I L A G R E D A S F O L H A S
Clarice Lispector
Seleção: Letícia Farias
Conversávamos sobre saudade. E de repente me apercebi de que não tenho saudade de nada. Isso
independente de qualquer recordação de felicidade ou de tristeza, de tempo mais feliz, menos feliz. Saudades
de nada. Nem da infância querida, nem sequer das borboletas azuis, Casimiro. Nem mesmo de quem morreu.
De quem morreu sinto é a falta, o prejuízo da perda, a ausência. A vontade da presença, mas não no passado,
e sim a presença atual. Saudade será isso? Queria tê-los aqui, agora. Voltar atrás? Acho que não, nem com
eles.
A vida é uma coisa que tem que passar, uma obrigação de que é preciso dar conta. Uma dívida que se vai
pagando todos os meses, todos os dias. Parece loucura lamentar o tempo em que se devia muito mais.
Queria ter palavras boas, eficientes, para explicar como é isso de não ter saudades; fazer sentir que estou
exprimindo um sentimento real, a humilde, a nua verdade. Você insinua a suspeita de que talvez seja isso uma
atitude. Meu Deus, acha- me capaz de atitudes, pensa que eu me rebaixaria a isso? Pois então eu lhe digo que
essa capacidade de morrer de saudades, creio que ela só afeta a quem não cresceu direito; feito uma cobra
que se sentisse melhor na pele antiga, não se acomodasse nunca à pele nova. Mas nós, como é que vamos ter
saudades de um trapo velho que não nos cabe mais?
Fala que saudade é sensação de perda. Pois é. E eu lhe digo que, pessoalmente, não sinto que perdi nada.
Gastei, gastei tempo, emoções, corpo e alma. E gastar não é perder, é usar até consumir.
E não pense que estou a lhe sugerir tragédias. Tirando a média, não tive quinhão por demais pior que o dos
outros. Houve muito pedaço duro, mas a vida é assim mesmo, a uns traz os seus golpes mais cedo e a outros
mais tarde; no fim, iguala a todos.
Infância sem lágrimas, amada, protegida. Mocidade, mas a mocidade já é de si uma etapa infeliz. Coração
inquieto que não sabe o que quer, ou quer demais. Qual será, nesta vida, o jovem satisfeito? Um jovem pode
nos fazer confidências de exaltação, de embriaguez; de felicidade, nunca. Mocidade é a quadra dramática por
excelência, o período dos conflitos, dos ajustamentos penosos, dos desajustamentos trágicos. A idade dos
suicídios, dos desenganos e por isso mesmo dos grandes heroísmos. É o tempo em que a gente quer ser dono
do mundo, e ao mesmo tempo sente que sobra nesse mesmo mundo. A idade em que se descobre a solidão
irremediável de todos os viventes. Em que se pesam os valores do mundo por uma balança emocional, com
medidas baralhadas; um quilo às vezes vale menos do que uma grama; e por essas medidas pode-se descobrir
a diferença metafísica que há entre uma arroba de chumbo e uma arroba de plumas.
Nem sei mesmo como, entre as inúmeras mentiras do mundo, se consegue manter essa mentira maior de
todas: a suposta felicidade dos moços. Por mim, sempre tive pena deles, da sua angústia e do seu desamparo.
Enquanto esta idade madura a que chegamos você e eu, é o tempo da estabilidade e das batalhas ganhas. Já
pouco se exige, já pouco se espera. E mesmo quando se exige muito, só se espera o possível. Se as surpresas
são poucas, poucos também os desenganos. A gente vai se aferrando a hábitos, a pessoas e objetos. Aí, um
dos piores tormentos dos jovens é justamente o desapego das coisas, essa instabilidade do querer, a sede do
que é novo, o tédio do possuído.
E depois há o capítulo da morte, sempre presente em todas as idades. Com a diferença de que a morte é a
amante dos moços e a companheira dos velhos. Para os jovens ela é abismo e paixão. Para nós, foi se
tornando pouco a pouco uma velha amiga, a se anunciar devagarinho: o cabelo branco, a preguiça, a ruga no
rosto, a vista fraca, os achaques. Velha amiga que vem de viagem e de cada porto nos manda um postal, para
indicar que já embarcou.
* * *
Não, meu bem, não tenho saudades. Nem sequer do primeiro dia em que nos vimos, daqueles primeiros e
atormentados dias de insegurança e deslumbramento. Considero uma benção e um privilégio esse passado
que ficou para atrás de nós, vencido. Afinal, já andamos bastante caminho, temos direito ao sossego, a esta
desambição, esta paz. Vivemos, não foi? Fizemos muito. E nem por isso deixamos de ainda ter muito o que
fazer. A velhice que vai chegar com as suas doenças e trabalhos. E ainda virá a grande crise da morte em que
um de nós, necessariamente, terá que ajudar o outro. Espero que aquele que ficar só, embora triste, se sinta
tranquilo, na segurança de que a sua vez não tarda. Que aí, só lhe resta a pagar a última prestação.
C R Ô N I C A S | P Á G I N A Q U A T R O
S A U D A D E
Rachel de Queiroz
Seleção: Bruno Magalhães
CONTOS
Sentado na praça, banco caiado sob a sombra
da mangueira. Mochila de cartas no colo, suor
pela testa, picolé derretia entre os dedos e
pela boca. Frescor no mínimo descanso. Gelo
na garganta, bolhas no pé. 
Cabeça nas nuvens, via sua filha brincar.
Olhando para baixo, os instantes voando, viu a
cidade passar.
Todo tipo de gente, todo tipo de carro.
Tempos mudados, tudo apressado,
inquietação geral. Algo mais por trás de cada
expressão de falsa paz. 
Vento nas árvores, jornais pela rua, o calor era
aroma de verão. 
Um, dois, três, quatro conhecidos. Ele ia
dizendo:
- Opa! Bom dia!
- As novidades?
- Já me ponho no passo!
- É muita andada!
- Como vai o seu Manoel?
- Pipocos? 
- Depois passo lá!
- Tô melhor.
- Muita correspondência.
- Tô sabendo não...
- Tão bem, tão bem!
- E esses fogos?
Foi então que pegou o tom dos tempos: 
conversas,sussurros, histórias de insegurança
no ar. Pôs-se no caminho, para frente sempre
ia. Leve tensão, passos mais largos pelos
asfaltos e ruas de barros. Teria visto a
mensagem se tivesse trazido seu celular, teria
ouvido a voz da esposa durante a ligação.
Porém, um perigo nesses dias, por esses
cantos. 
Abraçava a mochila na frente do torso. Destino
de vidas, mensagens públicas e escondidas.
Assim ele foi... acompanhando os carros,
acompanhando o vento. 
O tempo corria, ele também. Vontade de casa,
planos de ver sua menina correndo de
bicicleta. 
Pois ele teria, ele teria visto o que na mente
via...
Só que...
Uma rua errada e tudo se quebrou. Nem
importa se por ali todos o conheciam, pois não
viu o raio que o atingiu, o soco minúsculo de
metal que viajava com ódio, um desastre
perdido. 
Não viu seu sangue que escorria pelo chão,
nem a multidão que gritava. E a partir daquele
dia, nunca mais pode ver sua família. Num
piscar de olhos e já não era mais. 
C O N T O S | P Á G I N A C I N C O
C A R T E I R O
Daniel Damazio 
Ilustração: O correio no Rosenthal, por Carl Spitzweg, 1858 
Na brisa eu sussurro o teu nome, tal como uma prece. 
Meus pés pinicam na grama já fria, contato agridoce, seu calor furtado por mim e pelo dia
que se vai. 
Mão no peito, olhar na linha etérea que divide o céu da terra; o fogo que queima nas
nuvens é o mesmo que pulsa, ansioso, eufórico, aqui dentro. 
Minhas memórias são tuas. Fecho os olhos, no escuro eu sonho acordado, vendo os ecos
do teu reflexo, vislumbre de um brilho lampejando sobre as águas, um fantasma em sua
magnificência. Pelas ondas, enseadas, estão nossos vultos entrelaçados, dançando como
o mar de árvore que ainda vejo na penumbra. 
Um sorriso é o raio que me estremece, os fios de lágrimas são trovões que me
despertam. Um gemido, um pedido instintivo. Agulha nos átrios. Aperto a grama, quase as
arranco, puxando o abraço que agora sinto falta. Meus olhos estão tão condensados
quanto as nuvens violetas. Que consolo melhor que te emular em meus miolos? A
cadência da tua voz em repeteco é o som do meu conforto e da minha ruína. 
Borbulhar de saudades e tristezas, o céu se pinta de casmurro, inconsolado em tons mais
azuis, engolindo a lava do sol, empurrando-o para terras douradas, mais dignas de calor
neste momento. Quase o laço de volta, puxando pra mim a energia de te trazer de volta. 
Melancolia na noite que chega, laço anil atado a mim. Seus ventos bebem meu pranto, o
levam pra longe. Me abraço com a solidão e ela me acalenta de volta, espelhando você,
devaneio morno, insuperável, irrepetível. 
Quando minhas narinas se entopem de sereno, tenho o remédio, um frasco do teu
perfume queima gostoso, me delira, arranca outro sorriso; vale a pena meu vício de te
gravar na minha existência, meu dever ainda é manter neste mundo fragmentos da tua
preciosa essência. 
Na fragrância do ocaso, eu danço na névoa, escrevo teu nome no céu nu de azul profundo,
onde afundo na escuridão cristalina dos teus mistérios persistentes. Ainda tenho a âncora
que aperta, me flagela e me tortura a cada segundo que não estás aqui. Foi o espinho de
escolher amar um cometa esplêndido; desfrutei das pétalas, a recompensa precoce de vê-
lo luzindo e resplandecendo de perto.
Agora as estrelas despontam, pedrinhas no tecido, luzes teimosas, sempre com a
esperança de que apareças por lá ou que venha no azul e me pesque até teus oceanos.
E assim, tua alma me segura entre lá e aqui, entre o corpo na estratosfera e a mente nos
abismos, os baldes de choro e as gotas de sorrisos, vazio que não se preenche, a falta do
universo que custei conhecer. Sabor agridoce de ansiar, desejar o que já se teve, o quero
mais que toda a gula não resolve. 
Semente de ti, frutos em mim, tuas palavras reverberam, criam raízes, as ideias me
movem, conversam com as minhas, me motivam a seguir em frente. 
O escuro envolve tudo, me cobre como lençol. Ai, como me estendo nas elegias,
mantendo a poesia de ti, tua vida em mim, superstição de pensar até encontrar-te em
sonhos toda noite, observando cada pôr do sol, neste morro onde estivemos, assim como
cantarolar tuas melodias em todo lugar e durante o dia, sussurrar teu nome, lembrar dos
atos nobres e ordinários, e assim sentir-te, reproduzir teu existir, para que ainda vivas em
mim, até eu morrer, até nos encontrarmos de novo aonde se vai o último dos últimos dos
pôr de sol. 
C O N T O S | P Á G I N A S E I S
P Ô R D O S O L
Daniel Damazio 
Ilustração: Calme de
Soir, Cote d'Azur -
Ivan Fedorovich
Choultse
Congelados naquele momento,
Nada no mundo, nada de tempo,
Apenas as faíscas do brilho no olhar,
Vislumbre de algo que permite sonhar;
A vontade é de capturar o instante,
Transformar numa cena de clássico romance
Com o roteiro perfeitamente ensaiado;
Porém, a realidade se mostra apressada,
O rosto se perde, continuamos na estrada,
O que resta é o caco que se finca na mente,
Devaneio atrevido, indo e vindo para sempre.
IN
S
T
A
N
T
E
P O E M A S | P Á G I N A S E T E
POEMAS
D
an
ie
l D
am
az
io
 
Ilustração: Calor ao meio-dia, por Henry Scott Tuke, 1902
rosa roxo rojo magenta
matte rútila rindo rente
metabolismo momento marca rica
da terça parte do ano
aos pés do jambeiro
campo seco leve denso
anjos em neve pink
boom bloom braggart
a flor de prata, 
projeto de cercas em botão, 
fora do casulo lilás 
show-off season
D O I S M E S E S
D E C O R E S
Leticia Farias
P O E M A S | P Á G I N A O I T O
Uma bela flor sortida
Escolhida por sua beleza,
Por lampejos é iludida
E do mundo descobre a dureza.
Seus desejos são reprimidos
E as asas cortadas,
Seu futuro é comprimido 
E suas pétalas arrancadas.
Que desgraça de uma escória
Causaria um sujeito maldito 
E as cordas de sua viola!
Derrubou a menina dos anjos
E, sem remorsos, foi-se embora...
F L O R 
S O R T I D A
Daniel Damazio 
P O E M A S | P Á G I N A N O V EIlustração: Beija-flor empoleirado em
uma planta de orquídea, 1901 -
Martin Johnson Heade
Oi, passarinho 
Te vi voando sem um ninho 
Saudade desse teu carinho gosto de amor voante 
Guarda meu cantinho 
Porque sei que, mesmo distante, 
Terei sempre um lugarzinho nesse teu coração de gente viajante. 
P A S S A R I N H O
S A G I T Á R I O
Clarice Moura 
P O E M A S | P Á G I N A D E Z
Ilustração: Gaivota de prata, em Wildlife of the World por Frederick Warne & Co, c.1900
Fim de tarde,
Lá na várzea,
Grilos e sapos,
Muitos mosquitos
Sugando o frio
Do breu que crescia.
Tardio orvalho
Ainda no mato, 
Cheiro enlameado 
No nariz agarrado
E as cigarras cantando
À luz dos pirilampos.
V Á R Z E A 
P O E M A S | P Á G I N A O N Z E
Daniel Damazio 
Vale da Serra do Mar - ilustração da
‘'Voyage Pittoresque et Historique
au Bresil - de Jean-Baptiste Debret,
Paris, 1839
P O E M A S | P Á G I N A D O Z E
M á r i o Q u i n t a n a
S e l e ç ã o : V i t ó r i a E d l a 
EMERGÊNCIA
Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo –
para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.
P O E M A S | P Á G I N A T R E Z E
C e c í l i a M e i r e l e s
S e l e ç ã o : V i t ó r i a E d l a 
RETRATO
Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra. Eu não dei por esta
mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?
P O E M A S | P Á G I N A Q U A T O R Z E
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Certos estranhos
pedaços de ruas
habitaram meu olhar
a solidão sentada
no colo das vovós
novelo de linha
traçando o tempo
veloz das esquinas
um dia eu fui menino
“e muito louco”
levei trinta e três palmadas
porsoletrar sol
em vez de sal
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ac
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R E S E N HA
Bruno Magalhães 
Vitória Edla
N O S E N G E N H O S D A M E M Ó R I A : O O L H A R
I N F A N T I L D O N O R D E S T E C A N A V I E I R O
P Ó S - A B O L I Ç Ã O , E M O M E N I N O D E
E N G E N H O , D E J O S É L I N S D O R Ê G O
R E S E N H A | P Á G I N A Q U I N Z E
Celebrado como uma das principais obras do
Romance Regionalista de 30, Menino de Engenho,
do escritor paraibano José Lins do Rêgo, reconstrói
cenas do mundo rural do Nordeste canavieiro do
começo do século XX a partir das lembranças de
infância de Carlinhos, filho e neto de coronéis da
zona da mata paraibana.
Apesar de ambientado num contexto pós-abolição,
as condições sociais do Nordeste Rural do período
ainda eram marcadas pela permanência do antigo
universo escravocrata, em especial pela
continuidade da marginalização e exploração dos
trabalhadores negros e permanência de uma lógica
senhor x escravo, agora materializada na relação
entre coronéis e trabalhadores rurais.
A sociologia freyriana, uma das maiores influências
intelectuais de José Lins do Rêgo, atravessa a obra,
sobretudo por resgatar o mundo social de Casa
Grande e Senzala, agora, sob o olhar infantil de
Carlinhos ao ambiente rural e familiar do Engenho do
avô, o Coronel José Paulino. O sadismo dos donos
de engenho, a religiosidade, sexualidade e o lugar do
negro e da mulher negra no mundo canavieiro se
fazem presentes ao longo do livro, nos oferecendo
um retrato muito amplo do contexto rural nordestino
nas primeiras décadas pós-abolição.
Segundo Alfredo Bosi, acerca da obra de José Lins
do Rêgo, afirma que o autor 
“[...] soube fundir numa linguagem de forte e poética
oralidade, as recordações da infância e da
adolescência com o registro intenso da vida
nordestina colhida por dentro, através dos
processos mentais de homens e mulheres que
representam a gama étnica e social da região”
(BOSI, s/d, 448 – 449).
Após o assassinato da mãe, Dona Clarisse, pelo
seu pai, Carlinhos é enviado para fazenda do
avô, o velho Coronel José Paulino, um dos
principais donos de engenho da região.
Na fazenda do avô, Carlinhos vive os primeiros
anos de sua infância marcada entre vivências na
família materna, seu avô, José Paulino, sua tia
Maria, que lhe ofereceu cuidados de mãe,
Sinhazinha, sua tia avó, descrita como rabugenta,
e seu Tio Juca, que o divertia com passeios e
banhos no riacho da fazenda, além de ser sua
referência masculina, por seu comportamento
mulherengo, com várias amantes e filhos não
registrados.
Outros personagens marcantes na formação de
Carlinhos são seus professores, como Dr.
Figueiredo, responsável por lhe ensinar as
primeiras letras, e sua esposa D. Judite, cujo
carinho e afeição despertaram sua primeira
paixão. Figueiredo e Judite, no entanto, viviam um
relacionamento abusivo, sobretudo pelas
agressões que Judite sofria do seu marido. A
violência contra a mulher é retratada na obra um
aspecto muito marcante da mentalidade
patriarcal e machista ainda enraizados na
sociedade canavieira (e brasileira) da época.
Entre os episódios marcantes das vivências de Carlinhos na fazenda do avô podemos destacar alguns eventos
climáticos, como as enchentes do rio Paraíba, causadoras de alagamentos nos engenhos e nas casas dos
trabalhadores e incêndios nos arredores do engenho. A continuidade de castigos físicos contra trabalhadores, como
na punição dada por Zé Paulino contra Chico Pereira, trabalhador falsamente acusado de ter engravidado a mulata
Maria Pia, que posteriormente confessa estar grávida de Juca, filho de Zé Paulino, além de outros eventos violentos,
como o assassinato do negro José Gonçalo por Mané Sabino após uma briga.
A vida religiosa no Engenho também é descrita pela forte presença de um catolicismo popular e sincrético, além de
um relaxamento com as obrigações sacramentais, manifestada pela baixa catequização e frequências raras às missas.
A questão racial e da escravidão também é constantemente retomada ao longo da obra, em episódios no qual José
Paulino conta com orgulho a história de seus antepassados brancos e que aumentaram a presença branca pelo
interior da Paraíba. Além disso, observa-se um cenário de atraso social e econômico no pós-abolição, com a
conservação dos latifúndios e poder político nas mãos dos coronéis e servidão dos trabalhadores rurais, grande
maioria composta por ex-escravizados e seus descendentes.
O declínio dessa estrutura rural, por outro lado, também é descrito pela presença de engenhos falidos, como o
engenho do Seu Lula de Holanda, além da ascensão do cangaço e sua relação ambígua com o coronelismo. O
Capitão Antônio Silvino, o mais temido cangaceiro da época, embora afamado por combater os coronéis, mantém, no
entanto, uma relação próxima com o Coronel José Paulino, sendo um dos seus principais aliados e protetores da
região. As volantes, forças de pública de combate ao cangaço, por sua vez, acabam também agindo com violência e
truculência contra a população mais pobre.
Os negros também merecem um especial destaque na obra, em especial pela condição da mulher negra em uma
sociedade pós-abolição mas que ainda conservava imaginários e práticas escravocratas. As empregadas negras do
engenho, sobretudo, marcam a formação de Carlinhos, ora ocupando um papel maternal, sob os cuidados das velhas
Galdina e Generosa, cozinheiras e ex-escravas da família, além da velha Totonha, contadora de histórias e causos, ora
sexual, com a influência de Luíza e Zefa Cajá que realizam as primeiras iniciações sexuais do garoto, o que figura uma
marca da objetificação da mulher negra, que mesmo após a escravidão, continua vista para além de um objeto de
trabalho, um objeto de prazer e domínio dos patrões brancos.
A precocidade sexual de Carlinhos também se manifesta no beijo roubado em sua prima Maria Clara, no contato com
as fotos pornográficas escondidas no quarto de Tio Juca, nas doenças sexuais adquiridas com as mulheres do
engenho e até no assédio a animais e até contra outras crianças menores da Fazenda do avô. Diante da malcriação do
menino, já entrando na puberdade, José Paulino decide enviar o neto para um colégio interno, visando disciplinar o
menino e lhe dar instrução para futuramente ocupar uma profissão e administrar os bens da família, marcando assim o
fim da infância de Carlinhos no Engenho do avô.
Dessa forma, portanto, Lins do Rêgo nos oferece um amplo quadro social, econômico, político e racial do Nordeste
nas primeiras décadas do século XX. Em um romance com alguns aspectos autobiográficos, dado que o autor assim
como Carlinhos, passa sua infância no interior dos engenhos da família na Zona da Mata Paraibana, José Lins do Rego
nos apresenta um retrato social do país, sem deixar de explorar as profundezas subjetivas do seu protagonista,
Carlinhos. Garoto atravessado por uma tragédia familiar, pelo assassinato da mãe pelo pai; Cuidado com zelo pelo
avô, vive com intensidade sua infância no engenho, infância atravessada por experiências muito distintas do universo
infantil urbano e burguês da sua época. Portanto, para além de uma obra de alto valor estético, Menino de Engenho é
também um importante registro do mundo da vida e das vivências afetivas dos engenhos canavieiros partindo do olhar
dos filhos da Casa Grande.
R E S E N H A | P Á G I N A D E Z E S S E I S
Ilustração: Frans Post - Scanned from Itamaraty Safra catalogue (1993)., Domínio público
IND ICAÇÃO DE OBRA
I N D I C A Ç Ã O D E O B R A | P Á G I N A D E Z E S S E T E
Na mesma perspectiva de obras que trazem o olhar
ousado, sincero, admirado e curioso das crianças, a
obra indicada é capaz de despertar nossa criança
interior, junto às memórias da escola, das amizades, do
sentimento de estar descobrindo a verdade do mundo.
O mundo de Sofia relata as aventuras de uma menina
no universo filosófico, a partir de um curso sobre a
história das indagações do ser humano sobre sua 
existência, seu conhecimento, seus valores, sua razão,
sua mente,e sua linguagem. 
Se fosse uma ficção que envolvesse apenas Sofia e
sua família este livro estava fadado ao fracasso, no
entanto, Jostein Gaardner entrelaça os universos de
Sofia, de Hilde, do major, do professor Alberto, numa
viagem pelas indagações e criações registradas do
homem na terra.
A obra se destaca por misturar a forma do romance de
formação com um manual introdutório de filosofia,
quebrando as barreiras entre a ficção e o ensaio, por
isso, a intertextualidade é um elemento marcante, já que
cada capítulo introduz filósofos e conceitos
fundamentais que dialogam com a própria jornada da
protagonista. Gaarder constrói uma obra que, embora
tenha um enredo simples em aparência, desdobra-se
em um mergulho em conceitos complexos de maneira
acessível e envolvente, nesse sentindo, ele utiliza uma
linguagem clara e didática para explicar teorias
filosóficas densas, mantendo um tom leve e envolvente,
e, ao mesmo tempo, criticando implicitamente as
certezas absolutas e os modelos de pensamento que
aprisionam o ser humano. A narrativa é estruturada de
forma não linear, mesclando a vida cotidiana da
protagonista com lições filosóficas, que vão desde a
Grécia Antiga até a modernidade.
Apesar das quinhentas e quarenta e sete páginas, os
artíficios usados pelo autor prendem o leitor,
colocando-o no lugar de Sofia, a fim de ter todas as
suas perguntas respondidas imediatamente. 
A jornada pessoal da protagonista é pauta: sua
relação com a mãe, com o pai, com a melhor amiga,
e até com seu professor - um personagem quase
que onírico; seu processo de descoberta de si e do
mundo, na virada dos quatorze para os quinze anos.
Dessa forma, à medida que Sofia avança em suas
descobertas, ela percebe que a realidade em que
vive pode ser mais complexa e ilusória do que
imaginava, o que cria uma sensação constante de
suspense e descoberta. 
A leitura é extremamente enriquecedora para
qualquer faixa etária, principalmente para
estudantes de letras, já que muito é refletido sobre
aspectos filosóficos da linguagem, assim como
sobre aspectos do desenvolvimento de jovens com
idade para serem nossos alunos. Além disso, a
leitura da obra é transformadora para quem busca
não apenas uma boa história, mas também um
convite ao pensamento crítico e à reflexão
filosófica.
P O R Q U E L E R O
M U N D O D E S O F I A ?
Letícia Farias
Imagens
Autores selecionados
I M A G E N S | P Á G I N A D E Z O I T O
Imagens
A 
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OUT 2024
AURORA
L I T E R Á R I A 
2024.1 METODOLOGIA DE ENSINO DE
LITERATURA
2024.1 METODOLOGIA DE ENSINO DE
LITERATURA
DOCENTE: FLAVIANO MACIEL VIEIRA

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