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A PERSPECTIVA DA CRIANÇA SOBRE A VIDA E A HISTÓRIA INDICAÇÃO DE LEITURA OUT 2024 AURORA L I T E R Á R I A PÁGINA UM CONTRIBUIÇÕES RESENHA LITERÁRIA Bruno Magalhães Vitória Edla POEMAS E CONTOS Clarice Moura Daniel Damazio Letícia Farias EDITORAÇÃO E DIAGRAMAÇÃO CLARICE MOURA LETÍCIA FARIAS VITÓRIA EDLA AUTORES SELECIONADOS Clarice Lispector Rachel de Queiroz Mário Quintana Cecília Meireles AURORA L I T E R Á R I A SELEÇÃO DAS IMAGENS Daniel Damazio Letícia Farias Vitória Edla TABELA DE CONTEÚDOS PÁGINA DOIS CRÔNICAS POEMAS INDICAÇÃO DE OBRAS 03 07 16 05 14 17 CONTOS RESENHA IMAGENS CRÔNICAS "Não, nunca me acontecem milagres. Ouço falar, e às vezes isso me basta como esperança. Mas também me revolta: por que não a mim? Por que só de ouvir falar? Pois já cheguei a ouvir conversas assim, sobre milagres: “Avisou-me que, ao ser dita determinada palavra, um objeto de estimação se quebraria.” Meus objetos se quebram banalmente e pelas mãos das empregadas. Até que fui obrigada a chegar à conclusão de que sou daqueles que rolam pedras durante séculos, e não daqueles para os quais os seixos já vêm prontos, polidos e brancos. Bem que tenho visões fugitivas antes de adormecer – seria milagre? Mas já me foi tranquilamente explicado que isso até nome tem: cidetismo, capacidade de projetar no campo alucinatório as imagens inconscientes. Milagre, não. Mas as coincidências. Vivo de coincidências, vivo de linhas que incidem uma na outra e se cruzam e no cruzamento formam um leve e instantâneo ponto, tão leve e instantâneo que mais é feito de pudor e segredo: mal eu falasse nele, já estaria falando em nada. Mas tenho um milagre, sim. O milagre das folhas. Estou andando pela rua e do vento me cai uma folha exatamente nos cabelos. A incidência da linha de milhões de folhas transformadas em uma única, e de milhões de pessoas a incidência de reduzi-las a mim. Isso me acontece tantas vezes que passei a me considerar modestamente a escolhida das folhas. Com gestos furtivos tiro a folha dos cabelos e guardo-a na bolsa, como o mais diminuto diamante. Até que um dia, abrindo a bolsa, encontro entre os objetos a folha seca, engelhada, morta. Jogo-a fora: não me interessa fetiche morto como lembrança. E também porque sei que novas folhas coincidirão comigo. Um dia uma folha me bateu nos cílios. Achei Deus de uma grande delicadeza." C R Ô N I C A S | P Á G I N A T R Ê S O M I L A G R E D A S F O L H A S Clarice Lispector Seleção: Letícia Farias Conversávamos sobre saudade. E de repente me apercebi de que não tenho saudade de nada. Isso independente de qualquer recordação de felicidade ou de tristeza, de tempo mais feliz, menos feliz. Saudades de nada. Nem da infância querida, nem sequer das borboletas azuis, Casimiro. Nem mesmo de quem morreu. De quem morreu sinto é a falta, o prejuízo da perda, a ausência. A vontade da presença, mas não no passado, e sim a presença atual. Saudade será isso? Queria tê-los aqui, agora. Voltar atrás? Acho que não, nem com eles. A vida é uma coisa que tem que passar, uma obrigação de que é preciso dar conta. Uma dívida que se vai pagando todos os meses, todos os dias. Parece loucura lamentar o tempo em que se devia muito mais. Queria ter palavras boas, eficientes, para explicar como é isso de não ter saudades; fazer sentir que estou exprimindo um sentimento real, a humilde, a nua verdade. Você insinua a suspeita de que talvez seja isso uma atitude. Meu Deus, acha- me capaz de atitudes, pensa que eu me rebaixaria a isso? Pois então eu lhe digo que essa capacidade de morrer de saudades, creio que ela só afeta a quem não cresceu direito; feito uma cobra que se sentisse melhor na pele antiga, não se acomodasse nunca à pele nova. Mas nós, como é que vamos ter saudades de um trapo velho que não nos cabe mais? Fala que saudade é sensação de perda. Pois é. E eu lhe digo que, pessoalmente, não sinto que perdi nada. Gastei, gastei tempo, emoções, corpo e alma. E gastar não é perder, é usar até consumir. E não pense que estou a lhe sugerir tragédias. Tirando a média, não tive quinhão por demais pior que o dos outros. Houve muito pedaço duro, mas a vida é assim mesmo, a uns traz os seus golpes mais cedo e a outros mais tarde; no fim, iguala a todos. Infância sem lágrimas, amada, protegida. Mocidade, mas a mocidade já é de si uma etapa infeliz. Coração inquieto que não sabe o que quer, ou quer demais. Qual será, nesta vida, o jovem satisfeito? Um jovem pode nos fazer confidências de exaltação, de embriaguez; de felicidade, nunca. Mocidade é a quadra dramática por excelência, o período dos conflitos, dos ajustamentos penosos, dos desajustamentos trágicos. A idade dos suicídios, dos desenganos e por isso mesmo dos grandes heroísmos. É o tempo em que a gente quer ser dono do mundo, e ao mesmo tempo sente que sobra nesse mesmo mundo. A idade em que se descobre a solidão irremediável de todos os viventes. Em que se pesam os valores do mundo por uma balança emocional, com medidas baralhadas; um quilo às vezes vale menos do que uma grama; e por essas medidas pode-se descobrir a diferença metafísica que há entre uma arroba de chumbo e uma arroba de plumas. Nem sei mesmo como, entre as inúmeras mentiras do mundo, se consegue manter essa mentira maior de todas: a suposta felicidade dos moços. Por mim, sempre tive pena deles, da sua angústia e do seu desamparo. Enquanto esta idade madura a que chegamos você e eu, é o tempo da estabilidade e das batalhas ganhas. Já pouco se exige, já pouco se espera. E mesmo quando se exige muito, só se espera o possível. Se as surpresas são poucas, poucos também os desenganos. A gente vai se aferrando a hábitos, a pessoas e objetos. Aí, um dos piores tormentos dos jovens é justamente o desapego das coisas, essa instabilidade do querer, a sede do que é novo, o tédio do possuído. E depois há o capítulo da morte, sempre presente em todas as idades. Com a diferença de que a morte é a amante dos moços e a companheira dos velhos. Para os jovens ela é abismo e paixão. Para nós, foi se tornando pouco a pouco uma velha amiga, a se anunciar devagarinho: o cabelo branco, a preguiça, a ruga no rosto, a vista fraca, os achaques. Velha amiga que vem de viagem e de cada porto nos manda um postal, para indicar que já embarcou. * * * Não, meu bem, não tenho saudades. Nem sequer do primeiro dia em que nos vimos, daqueles primeiros e atormentados dias de insegurança e deslumbramento. Considero uma benção e um privilégio esse passado que ficou para atrás de nós, vencido. Afinal, já andamos bastante caminho, temos direito ao sossego, a esta desambição, esta paz. Vivemos, não foi? Fizemos muito. E nem por isso deixamos de ainda ter muito o que fazer. A velhice que vai chegar com as suas doenças e trabalhos. E ainda virá a grande crise da morte em que um de nós, necessariamente, terá que ajudar o outro. Espero que aquele que ficar só, embora triste, se sinta tranquilo, na segurança de que a sua vez não tarda. Que aí, só lhe resta a pagar a última prestação. C R Ô N I C A S | P Á G I N A Q U A T R O S A U D A D E Rachel de Queiroz Seleção: Bruno Magalhães CONTOS Sentado na praça, banco caiado sob a sombra da mangueira. Mochila de cartas no colo, suor pela testa, picolé derretia entre os dedos e pela boca. Frescor no mínimo descanso. Gelo na garganta, bolhas no pé. Cabeça nas nuvens, via sua filha brincar. Olhando para baixo, os instantes voando, viu a cidade passar. Todo tipo de gente, todo tipo de carro. Tempos mudados, tudo apressado, inquietação geral. Algo mais por trás de cada expressão de falsa paz. Vento nas árvores, jornais pela rua, o calor era aroma de verão. Um, dois, três, quatro conhecidos. Ele ia dizendo: - Opa! Bom dia! - As novidades? - Já me ponho no passo! - É muita andada! - Como vai o seu Manoel? - Pipocos? - Depois passo lá! - Tô melhor. - Muita correspondência. - Tô sabendo não... - Tão bem, tão bem! - E esses fogos? Foi então que pegou o tom dos tempos: conversas,sussurros, histórias de insegurança no ar. Pôs-se no caminho, para frente sempre ia. Leve tensão, passos mais largos pelos asfaltos e ruas de barros. Teria visto a mensagem se tivesse trazido seu celular, teria ouvido a voz da esposa durante a ligação. Porém, um perigo nesses dias, por esses cantos. Abraçava a mochila na frente do torso. Destino de vidas, mensagens públicas e escondidas. Assim ele foi... acompanhando os carros, acompanhando o vento. O tempo corria, ele também. Vontade de casa, planos de ver sua menina correndo de bicicleta. Pois ele teria, ele teria visto o que na mente via... Só que... Uma rua errada e tudo se quebrou. Nem importa se por ali todos o conheciam, pois não viu o raio que o atingiu, o soco minúsculo de metal que viajava com ódio, um desastre perdido. Não viu seu sangue que escorria pelo chão, nem a multidão que gritava. E a partir daquele dia, nunca mais pode ver sua família. Num piscar de olhos e já não era mais. C O N T O S | P Á G I N A C I N C O C A R T E I R O Daniel Damazio Ilustração: O correio no Rosenthal, por Carl Spitzweg, 1858 Na brisa eu sussurro o teu nome, tal como uma prece. Meus pés pinicam na grama já fria, contato agridoce, seu calor furtado por mim e pelo dia que se vai. Mão no peito, olhar na linha etérea que divide o céu da terra; o fogo que queima nas nuvens é o mesmo que pulsa, ansioso, eufórico, aqui dentro. Minhas memórias são tuas. Fecho os olhos, no escuro eu sonho acordado, vendo os ecos do teu reflexo, vislumbre de um brilho lampejando sobre as águas, um fantasma em sua magnificência. Pelas ondas, enseadas, estão nossos vultos entrelaçados, dançando como o mar de árvore que ainda vejo na penumbra. Um sorriso é o raio que me estremece, os fios de lágrimas são trovões que me despertam. Um gemido, um pedido instintivo. Agulha nos átrios. Aperto a grama, quase as arranco, puxando o abraço que agora sinto falta. Meus olhos estão tão condensados quanto as nuvens violetas. Que consolo melhor que te emular em meus miolos? A cadência da tua voz em repeteco é o som do meu conforto e da minha ruína. Borbulhar de saudades e tristezas, o céu se pinta de casmurro, inconsolado em tons mais azuis, engolindo a lava do sol, empurrando-o para terras douradas, mais dignas de calor neste momento. Quase o laço de volta, puxando pra mim a energia de te trazer de volta. Melancolia na noite que chega, laço anil atado a mim. Seus ventos bebem meu pranto, o levam pra longe. Me abraço com a solidão e ela me acalenta de volta, espelhando você, devaneio morno, insuperável, irrepetível. Quando minhas narinas se entopem de sereno, tenho o remédio, um frasco do teu perfume queima gostoso, me delira, arranca outro sorriso; vale a pena meu vício de te gravar na minha existência, meu dever ainda é manter neste mundo fragmentos da tua preciosa essência. Na fragrância do ocaso, eu danço na névoa, escrevo teu nome no céu nu de azul profundo, onde afundo na escuridão cristalina dos teus mistérios persistentes. Ainda tenho a âncora que aperta, me flagela e me tortura a cada segundo que não estás aqui. Foi o espinho de escolher amar um cometa esplêndido; desfrutei das pétalas, a recompensa precoce de vê- lo luzindo e resplandecendo de perto. Agora as estrelas despontam, pedrinhas no tecido, luzes teimosas, sempre com a esperança de que apareças por lá ou que venha no azul e me pesque até teus oceanos. E assim, tua alma me segura entre lá e aqui, entre o corpo na estratosfera e a mente nos abismos, os baldes de choro e as gotas de sorrisos, vazio que não se preenche, a falta do universo que custei conhecer. Sabor agridoce de ansiar, desejar o que já se teve, o quero mais que toda a gula não resolve. Semente de ti, frutos em mim, tuas palavras reverberam, criam raízes, as ideias me movem, conversam com as minhas, me motivam a seguir em frente. O escuro envolve tudo, me cobre como lençol. Ai, como me estendo nas elegias, mantendo a poesia de ti, tua vida em mim, superstição de pensar até encontrar-te em sonhos toda noite, observando cada pôr do sol, neste morro onde estivemos, assim como cantarolar tuas melodias em todo lugar e durante o dia, sussurrar teu nome, lembrar dos atos nobres e ordinários, e assim sentir-te, reproduzir teu existir, para que ainda vivas em mim, até eu morrer, até nos encontrarmos de novo aonde se vai o último dos últimos dos pôr de sol. C O N T O S | P Á G I N A S E I S P Ô R D O S O L Daniel Damazio Ilustração: Calme de Soir, Cote d'Azur - Ivan Fedorovich Choultse Congelados naquele momento, Nada no mundo, nada de tempo, Apenas as faíscas do brilho no olhar, Vislumbre de algo que permite sonhar; A vontade é de capturar o instante, Transformar numa cena de clássico romance Com o roteiro perfeitamente ensaiado; Porém, a realidade se mostra apressada, O rosto se perde, continuamos na estrada, O que resta é o caco que se finca na mente, Devaneio atrevido, indo e vindo para sempre. IN S T A N T E P O E M A S | P Á G I N A S E T E POEMAS D an ie l D am az io Ilustração: Calor ao meio-dia, por Henry Scott Tuke, 1902 rosa roxo rojo magenta matte rútila rindo rente metabolismo momento marca rica da terça parte do ano aos pés do jambeiro campo seco leve denso anjos em neve pink boom bloom braggart a flor de prata, projeto de cercas em botão, fora do casulo lilás show-off season D O I S M E S E S D E C O R E S Leticia Farias P O E M A S | P Á G I N A O I T O Uma bela flor sortida Escolhida por sua beleza, Por lampejos é iludida E do mundo descobre a dureza. Seus desejos são reprimidos E as asas cortadas, Seu futuro é comprimido E suas pétalas arrancadas. Que desgraça de uma escória Causaria um sujeito maldito E as cordas de sua viola! Derrubou a menina dos anjos E, sem remorsos, foi-se embora... F L O R S O R T I D A Daniel Damazio P O E M A S | P Á G I N A N O V EIlustração: Beija-flor empoleirado em uma planta de orquídea, 1901 - Martin Johnson Heade Oi, passarinho Te vi voando sem um ninho Saudade desse teu carinho gosto de amor voante Guarda meu cantinho Porque sei que, mesmo distante, Terei sempre um lugarzinho nesse teu coração de gente viajante. P A S S A R I N H O S A G I T Á R I O Clarice Moura P O E M A S | P Á G I N A D E Z Ilustração: Gaivota de prata, em Wildlife of the World por Frederick Warne & Co, c.1900 Fim de tarde, Lá na várzea, Grilos e sapos, Muitos mosquitos Sugando o frio Do breu que crescia. Tardio orvalho Ainda no mato, Cheiro enlameado No nariz agarrado E as cigarras cantando À luz dos pirilampos. V Á R Z E A P O E M A S | P Á G I N A O N Z E Daniel Damazio Vale da Serra do Mar - ilustração da ‘'Voyage Pittoresque et Historique au Bresil - de Jean-Baptiste Debret, Paris, 1839 P O E M A S | P Á G I N A D O Z E M á r i o Q u i n t a n a S e l e ç ã o : V i t ó r i a E d l a EMERGÊNCIA Quem faz um poema abre uma janela. Respira, tu que estás numa cela abafada, esse ar que entra por ela. Por isso é que os poemas têm ritmo – para que possas profundamente respirar. Quem faz um poema salva um afogado. P O E M A S | P Á G I N A T R E Z E C e c í l i a M e i r e l e s S e l e ç ã o : V i t ó r i a E d l a RETRATO Eu não tinha este rosto de hoje, Assim calmo, assim triste, assim magro, Nem estes olhos tão vazios, Nem o lábio amargo. Eu não tinha estas mãos sem força, Tão paradas e frias e mortas; Eu não tinha este coração Que nem se mostra. Eu não dei por esta mudança, Tão simples, tão certa, tão fácil: — Em que espelho ficou perdida a minha face? P O E M A S | P Á G I N A Q U A T O R Z E M ir ó d a M ur ib ec a S el eç ã o: L et íc ia F a ri a s S O L E S A L Certos estranhos pedaços de ruas habitaram meu olhar a solidão sentada no colo das vovós novelo de linha traçando o tempo veloz das esquinas um dia eu fui menino “e muito louco” levei trinta e três palmadas porsoletrar sol em vez de sal O S ol - B ac ar o B or ge s, 2 0 23 R E S E N HA Bruno Magalhães Vitória Edla N O S E N G E N H O S D A M E M Ó R I A : O O L H A R I N F A N T I L D O N O R D E S T E C A N A V I E I R O P Ó S - A B O L I Ç Ã O , E M O M E N I N O D E E N G E N H O , D E J O S É L I N S D O R Ê G O R E S E N H A | P Á G I N A Q U I N Z E Celebrado como uma das principais obras do Romance Regionalista de 30, Menino de Engenho, do escritor paraibano José Lins do Rêgo, reconstrói cenas do mundo rural do Nordeste canavieiro do começo do século XX a partir das lembranças de infância de Carlinhos, filho e neto de coronéis da zona da mata paraibana. Apesar de ambientado num contexto pós-abolição, as condições sociais do Nordeste Rural do período ainda eram marcadas pela permanência do antigo universo escravocrata, em especial pela continuidade da marginalização e exploração dos trabalhadores negros e permanência de uma lógica senhor x escravo, agora materializada na relação entre coronéis e trabalhadores rurais. A sociologia freyriana, uma das maiores influências intelectuais de José Lins do Rêgo, atravessa a obra, sobretudo por resgatar o mundo social de Casa Grande e Senzala, agora, sob o olhar infantil de Carlinhos ao ambiente rural e familiar do Engenho do avô, o Coronel José Paulino. O sadismo dos donos de engenho, a religiosidade, sexualidade e o lugar do negro e da mulher negra no mundo canavieiro se fazem presentes ao longo do livro, nos oferecendo um retrato muito amplo do contexto rural nordestino nas primeiras décadas pós-abolição. Segundo Alfredo Bosi, acerca da obra de José Lins do Rêgo, afirma que o autor “[...] soube fundir numa linguagem de forte e poética oralidade, as recordações da infância e da adolescência com o registro intenso da vida nordestina colhida por dentro, através dos processos mentais de homens e mulheres que representam a gama étnica e social da região” (BOSI, s/d, 448 – 449). Após o assassinato da mãe, Dona Clarisse, pelo seu pai, Carlinhos é enviado para fazenda do avô, o velho Coronel José Paulino, um dos principais donos de engenho da região. Na fazenda do avô, Carlinhos vive os primeiros anos de sua infância marcada entre vivências na família materna, seu avô, José Paulino, sua tia Maria, que lhe ofereceu cuidados de mãe, Sinhazinha, sua tia avó, descrita como rabugenta, e seu Tio Juca, que o divertia com passeios e banhos no riacho da fazenda, além de ser sua referência masculina, por seu comportamento mulherengo, com várias amantes e filhos não registrados. Outros personagens marcantes na formação de Carlinhos são seus professores, como Dr. Figueiredo, responsável por lhe ensinar as primeiras letras, e sua esposa D. Judite, cujo carinho e afeição despertaram sua primeira paixão. Figueiredo e Judite, no entanto, viviam um relacionamento abusivo, sobretudo pelas agressões que Judite sofria do seu marido. A violência contra a mulher é retratada na obra um aspecto muito marcante da mentalidade patriarcal e machista ainda enraizados na sociedade canavieira (e brasileira) da época. Entre os episódios marcantes das vivências de Carlinhos na fazenda do avô podemos destacar alguns eventos climáticos, como as enchentes do rio Paraíba, causadoras de alagamentos nos engenhos e nas casas dos trabalhadores e incêndios nos arredores do engenho. A continuidade de castigos físicos contra trabalhadores, como na punição dada por Zé Paulino contra Chico Pereira, trabalhador falsamente acusado de ter engravidado a mulata Maria Pia, que posteriormente confessa estar grávida de Juca, filho de Zé Paulino, além de outros eventos violentos, como o assassinato do negro José Gonçalo por Mané Sabino após uma briga. A vida religiosa no Engenho também é descrita pela forte presença de um catolicismo popular e sincrético, além de um relaxamento com as obrigações sacramentais, manifestada pela baixa catequização e frequências raras às missas. A questão racial e da escravidão também é constantemente retomada ao longo da obra, em episódios no qual José Paulino conta com orgulho a história de seus antepassados brancos e que aumentaram a presença branca pelo interior da Paraíba. Além disso, observa-se um cenário de atraso social e econômico no pós-abolição, com a conservação dos latifúndios e poder político nas mãos dos coronéis e servidão dos trabalhadores rurais, grande maioria composta por ex-escravizados e seus descendentes. O declínio dessa estrutura rural, por outro lado, também é descrito pela presença de engenhos falidos, como o engenho do Seu Lula de Holanda, além da ascensão do cangaço e sua relação ambígua com o coronelismo. O Capitão Antônio Silvino, o mais temido cangaceiro da época, embora afamado por combater os coronéis, mantém, no entanto, uma relação próxima com o Coronel José Paulino, sendo um dos seus principais aliados e protetores da região. As volantes, forças de pública de combate ao cangaço, por sua vez, acabam também agindo com violência e truculência contra a população mais pobre. Os negros também merecem um especial destaque na obra, em especial pela condição da mulher negra em uma sociedade pós-abolição mas que ainda conservava imaginários e práticas escravocratas. As empregadas negras do engenho, sobretudo, marcam a formação de Carlinhos, ora ocupando um papel maternal, sob os cuidados das velhas Galdina e Generosa, cozinheiras e ex-escravas da família, além da velha Totonha, contadora de histórias e causos, ora sexual, com a influência de Luíza e Zefa Cajá que realizam as primeiras iniciações sexuais do garoto, o que figura uma marca da objetificação da mulher negra, que mesmo após a escravidão, continua vista para além de um objeto de trabalho, um objeto de prazer e domínio dos patrões brancos. A precocidade sexual de Carlinhos também se manifesta no beijo roubado em sua prima Maria Clara, no contato com as fotos pornográficas escondidas no quarto de Tio Juca, nas doenças sexuais adquiridas com as mulheres do engenho e até no assédio a animais e até contra outras crianças menores da Fazenda do avô. Diante da malcriação do menino, já entrando na puberdade, José Paulino decide enviar o neto para um colégio interno, visando disciplinar o menino e lhe dar instrução para futuramente ocupar uma profissão e administrar os bens da família, marcando assim o fim da infância de Carlinhos no Engenho do avô. Dessa forma, portanto, Lins do Rêgo nos oferece um amplo quadro social, econômico, político e racial do Nordeste nas primeiras décadas do século XX. Em um romance com alguns aspectos autobiográficos, dado que o autor assim como Carlinhos, passa sua infância no interior dos engenhos da família na Zona da Mata Paraibana, José Lins do Rego nos apresenta um retrato social do país, sem deixar de explorar as profundezas subjetivas do seu protagonista, Carlinhos. Garoto atravessado por uma tragédia familiar, pelo assassinato da mãe pelo pai; Cuidado com zelo pelo avô, vive com intensidade sua infância no engenho, infância atravessada por experiências muito distintas do universo infantil urbano e burguês da sua época. Portanto, para além de uma obra de alto valor estético, Menino de Engenho é também um importante registro do mundo da vida e das vivências afetivas dos engenhos canavieiros partindo do olhar dos filhos da Casa Grande. R E S E N H A | P Á G I N A D E Z E S S E I S Ilustração: Frans Post - Scanned from Itamaraty Safra catalogue (1993)., Domínio público IND ICAÇÃO DE OBRA I N D I C A Ç Ã O D E O B R A | P Á G I N A D E Z E S S E T E Na mesma perspectiva de obras que trazem o olhar ousado, sincero, admirado e curioso das crianças, a obra indicada é capaz de despertar nossa criança interior, junto às memórias da escola, das amizades, do sentimento de estar descobrindo a verdade do mundo. O mundo de Sofia relata as aventuras de uma menina no universo filosófico, a partir de um curso sobre a história das indagações do ser humano sobre sua existência, seu conhecimento, seus valores, sua razão, sua mente,e sua linguagem. Se fosse uma ficção que envolvesse apenas Sofia e sua família este livro estava fadado ao fracasso, no entanto, Jostein Gaardner entrelaça os universos de Sofia, de Hilde, do major, do professor Alberto, numa viagem pelas indagações e criações registradas do homem na terra. A obra se destaca por misturar a forma do romance de formação com um manual introdutório de filosofia, quebrando as barreiras entre a ficção e o ensaio, por isso, a intertextualidade é um elemento marcante, já que cada capítulo introduz filósofos e conceitos fundamentais que dialogam com a própria jornada da protagonista. Gaarder constrói uma obra que, embora tenha um enredo simples em aparência, desdobra-se em um mergulho em conceitos complexos de maneira acessível e envolvente, nesse sentindo, ele utiliza uma linguagem clara e didática para explicar teorias filosóficas densas, mantendo um tom leve e envolvente, e, ao mesmo tempo, criticando implicitamente as certezas absolutas e os modelos de pensamento que aprisionam o ser humano. A narrativa é estruturada de forma não linear, mesclando a vida cotidiana da protagonista com lições filosóficas, que vão desde a Grécia Antiga até a modernidade. Apesar das quinhentas e quarenta e sete páginas, os artíficios usados pelo autor prendem o leitor, colocando-o no lugar de Sofia, a fim de ter todas as suas perguntas respondidas imediatamente. A jornada pessoal da protagonista é pauta: sua relação com a mãe, com o pai, com a melhor amiga, e até com seu professor - um personagem quase que onírico; seu processo de descoberta de si e do mundo, na virada dos quatorze para os quinze anos. Dessa forma, à medida que Sofia avança em suas descobertas, ela percebe que a realidade em que vive pode ser mais complexa e ilusória do que imaginava, o que cria uma sensação constante de suspense e descoberta. A leitura é extremamente enriquecedora para qualquer faixa etária, principalmente para estudantes de letras, já que muito é refletido sobre aspectos filosóficos da linguagem, assim como sobre aspectos do desenvolvimento de jovens com idade para serem nossos alunos. Além disso, a leitura da obra é transformadora para quem busca não apenas uma boa história, mas também um convite ao pensamento crítico e à reflexão filosófica. P O R Q U E L E R O M U N D O D E S O F I A ? Letícia Farias Imagens Autores selecionados I M A G E N S | P Á G I N A D E Z O I T O Imagens A N AT U RE ZA N O C O TI D IA N O Le tíc ia F ar ia s OUT 2024 AURORA L I T E R Á R I A 2024.1 METODOLOGIA DE ENSINO DE LITERATURA 2024.1 METODOLOGIA DE ENSINO DE LITERATURA DOCENTE: FLAVIANO MACIEL VIEIRA