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FISIOTERAPIA NEUROFUNCIONAL OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Identificar os pontos físicos do exame neurológico e sua aplicabilidade. > Descrever a rotina de avaliação fisioterapêutica. > Formular o diagnóstico fisioterapêutico neurofuncional voltado para a pediatria. Introdução A avaliação fisioterapêutica neurofuncional de crianças deve ser conduzida de forma muito peculiar, visto que tal população tem características anatômicas e fisiológicas bastante específicas. Ademais, uma atenção especial deve ser dada às crianças que apresentem alguma alteração com potencial para influenciar seu desenvolvimento neuropsicomotor. Como a criança está em fase de desen- volvimento cerebral, tem grande capacidade de adaptação (neuroplasticidade); logo, os tratamentos devem ser iniciados o mais cedo possível para que sejam evitadas complicações ou sequelas. Na avaliação, vários critérios devem ser levados em consideração para verificar se o desenvolvimento neuropsicomotor está dentro do esperado: a funcionalidade, os valores de Apgar, a qualidade de vida, as atividades e a par- Avaliação fisioterapêutica aplicada à neuropediatria Maria Cecília Ribeiro Bruning ticipação, além de alterações que podem estar presentes desde o nascimento. Considerar todos esses critérios é essencial para que se tenha o prognóstico e se previnam sequelas. Neste capítulo, você vai explorar os pontos físicos que devem ser avaliados na realização do exame neurológico em uma criança. Além disso, vai ver como essa avaliação deve ser realizada no contexto da fisioterapia e como o diagnóstico deve ser formulado. Avaliação fisioterapêutica em neuropediatria: pontos-chave no exame físico Quando pensamos na avaliação fisioterapêutica em neuropediatria, preci- samos levar em conta os marcos de desenvolvimento motor de cada faixa etária. Por exemplo, com um mês, a criança reage a sons e produz flexão de mãos e braços; já com três meses, balbucia e segue objetos com os olhos. Assim, progressivamente, a criança vai se desenvolvendo. Sabe-se que os marcos de desenvolvimento surgem em sequência – gradualmente – e são contínuos, ainda que uma etapa possa vir em conjunto com outra, ou seja, elas podem se sobrepor (Tudella; Formiga, 2021). Uma avaliação adequada permite que seja feita uma abordagem global do paciente, potencializando os resultados das intervenções e auxiliando nas tomadas de decisão sobre quais terapêuticas empregar. Alguns elementos são básicos nesse contexto: o exame, a avaliação, o diagnóstico, o prognóstico e a intervenção (Tecklin, 2019). Na avaliação, é preciso levar em conta a aquisição da habilidade de executar atos motores, ou seja, o desenvolvimento da motricidade, que está ligado à maturação do sistema nervoso nos anos iniciais de vida. Ocorre mielinização e são formadas as sinapses a partir da 18ª semana, havendo desenvolvimento até o sexto ano de vida. Na criança e no adulto, as habilidades que foram adquiridas anteriormente são necessárias para que novas competências sejam desenvolvidas; no caso da criança, o ambiente e a forma como ela é manuseada também influenciam o seu desenvolvimento (Shepherd, 1995). Alguns fatores devem ser levados em conta na avaliação, como a presença de hipertonia (aumento do tônus) flexora quando a criança está em posição supina no primeiro trimestre de vida. Nesse caso, a cabeça fica rodada para um dos lados e a coluna permanece com posição intrauterina, flexionada, Avaliação fisioterapêutica aplicada à neuropediatria2 já que ainda não há atividade da musculatura paravertebral (Figura 1). No membro inferior, a pelve fica em retroversão e adução, e há flexão de quadril e de joelhos, além de dorsiflexão. A partir do segundo mês, começa a haver redução do padrão flexor fisiológico e aumento do padrão extensor assimé- trico; a postura é assimétrica devido ao reflexo tônico cervical assimétrico (Tudella; Formiga, 2021). Figura 1. Recém-nascido em padrão flexor e posição assimétrica; cabeça não permanece na linha média. Fonte: dayanacerizola0/pixabay.com. Se houver alguma alteração no sistema nervoso, pode haver mudanças nesses marcos. Nesse contexto, podem estar presentes alguns sinais, como fraqueza muscular, perda de destreza, anomalias na postura e aumento de reflexos proprioceptivos. Em uma avaliação neuropediátrica, é importante verificar, por exemplo: se há diminuição do tônus, quadro conhecido como Avaliação fisioterapêutica aplicada à neuropediatria 3 “hipotonia”; se há indicativo de lesão no sistema nervoso central; ou ainda se há hipertonia (às vezes chamada de “espasticidade”), que também denota algum comprometimento do sistema nervoso (Shepherd, 1995). Em relação ao controle motor, existem diferentes sistemas de controle, que permitem os variados movimentos realizados pelo ser humano. Para que esses movimentos ocorram, são necessárias informações sensitivas captadas pelos diferentes receptores que convertem a energia física em sinais nervosos, os quais chegam aos centros de processamento neurológico e são traduzidos em sinais de força contrátil (para produzir movimento, por exemplo). O movimento normal depende do sistema neuromuscular, que percebe, integra e responde de forma adequada aos estímulos intrínsecos ou extrínsecos, sejam eles vindos do próprio corpo ou do ambiente externo. Para a avaliação da função motora, existem diversas escalas, tais como o Teste de Desempenho Motor Infantil (Test of Infant Motor Performance – Timp), que permite avaliar a postura e o movimento de bebês entre 34 semanas e quatro meses de idade corrigida (que corresponde à idade que o bebê teria se nascesse com 40 semanas de gestação). Nessa escala, são verificadas as crianças que se beneficiam da intervenção precoce, e avalia-se: o controle e o alinhamento postural, que são a base para a execução de atividades funcionais; as posições e os movimentos contra a gravidade; a orientação da cabeça e do corpo; e a interação com cuidadores. Já a Escala Motora Infantil de Alberta (Alberta Infant Motor Scale – Aims) verifica a maturação motora grossa, em que a criança inicia o desenvolvimento dos grandes grupos de músculos, que depois irão atuar na deambulação, na postura, etc. Ela abrange bebês do nascimento até a fase de marcha independente, identificando aqueles com desenvolvimento motor atrasado (Tecklin, 2019). Outra avaliação que pode ser feita é a análise da marcha nas crianças para verificar qualquer alteração que possa ser um sinal de alerta. Ela serve para a avaliação de problemas mais graves nas crianças que já deambulam, ou seja, que já caminham em posição ortostática. Essa análise deve ser individual, permitindo verificar anormalidades para que, de acordo com a etiologia, sejam delineadas recomendações de tratamento. A análise pode ser feita por meio de gravação em vídeo; o importante é haver observação visual. A condição clínica mais referida na análise da marcha é a paralisia cerebral. As crianças com essa condição apresentam desvio nos três planos de movi- mento. A marcha se define como uma sequência de movimentos dos membros inferiores para avançar o corpo de forma segura e com baixo gasto de energia. Avaliação fisioterapêutica aplicada à neuropediatria4 Ela é cíclica, sendo o ciclo dividido em períodos de apoio e balanço; o apoio é dividido em cinco subfases, e o balanço, em três subfases (Pountney, 2008). As crianças apresentam vários marcos de desenvolvimento, associa- dos à sua idade cronológica (no caso de crianças prematuras, deve-se considerar a idade cronológica corrigida). Um desses marcos é o desenvolvimento motor, que é constante e dinâmico, sendo aprimorado ao longo da vida de acordo com as influências que a criança sofre (fatores biológicos e ambientais, por exemplo) e com a atividade realizada. Em suma, as posturas, movimentos e atividades vão sendo refinados conforme a criança vai crescendo, porém não dependem somente dela, mas também de fatores genéticos edo contexto em que está inserida. Os marcos motores podem ser utilizados para a análise do desenvolvimento típico. Eles podem ser avaliados por meio de escalas e de acordo com várias abordagens teóricas. Esses fatores são relevantes na avaliação fisioterapêutica em neuropediatria para determinar as formas de intervenção mais adequadas para cada caso (Tudella; Formiga, 2021). Nesta seção, você conheceu algumas escalas usadas para avaliar o de- senvolvimento de uma criança. Além disso, explorou mudanças que podem estar presentes em pessoas dessa faixa etária e que podem ser evidenciadas pela avaliação fisioterapêutica em neuropediatria. Como veremos na próxima seção, é muito importante que a fase inicial dessa avaliação seja composta pela anamnese. Rotina da avaliação fisioterapêutica em neuropediatria A criança passa constantemente por mudanças, sejam elas no organismo ou mesmo no comportamento, e uma etapa de desenvolvimento vem após a outra (às vezes havendo sobreposição de etapas, como vimos). Entre os marcos do crescimento, está o desenvolvimento motor, que incrementa e atualiza as capacidades de realização de tarefas diárias. Nesse contexto, o fisioterapeuta deve avaliar a criança para verificar se existe qualquer alteração ou comprometimento em seu desenvolvimento motor. Para fazer isso, ele deve utilizar a escala avaliativa adequada ao quadro clínico apresentado, buscando determinar a melhor intervenção. A avaliação fisioterapêutica em neuropediatria deve ser dividida em etapas. Ela começa pela anamnese, que consiste em uma entrevista para que sejam Avaliação fisioterapêutica aplicada à neuropediatria 5 levantadas as informações sobre a história do paciente, o início e a evolução de uma doença ou distúrbio, abrangendo até o momento da avaliação. Na anamnese, são feitas perguntas sobre: o quadro atual; a evolução; os antece- dentes pessoais; a história da gestação, do parto e do nascimento; os hábitos alimentares; as vacinações; a evolução do crescimento e do desenvolvimento neuropsicomotor; e a história familiar e psicossocial (Fogaça; Zimmermann; Morelli, 2015). Com base na anamnese e no exame físico, é possível definir quais aspectos do quadro clínico devem ser priorizados na conduta terapêutica. Além disso, os dados obtidos serão armazenados e permitirão acompanhar a evolução do paciente durante o tratamento fisioterapêutico. A anamnese começa com a identificação do paciente (nome, sexo, idade, data de nascimento, nome dos pais ou responsáveis, motivo da consulta, etc.). Depois da narrativa feita pelo responsável, devem ser verificados os sintomas e sua cronologia, bem como fatores que melhoram ou pioram ao longo do tempo. Também é preciso conferir se já foram realizados tratamentos, se o paciente faz uso de algum medicamento (especificando tempo, dose, etc.) e como a patologia repercute no dia a dia da criança. Esses dados oferecerão uma síntese cronológica da história do paciente, o que é essencial para determinar posteriormente a conduta mais adequada de tratamento. Uma anamnese sobre os sistemas permite que fatos importantes da clínica do paciente não passem despercebidos e que diagnósticos secun- dários sejam determinados. Fatores como febre, emagrecimento, alterações de humor e disposição, alergias, tosse, expectoração e diurese, entre muitos outros, são importantes para o diagnóstico fisioterapêutico final (Martins et al., 2010). O exame neurológico em fisioterapia permite: identificar sinais que possam direcionar a doença-base; avaliar a presença de comprometimento motor ou sensorial; verificar alterações no tônus e a presença de deformidades; analisar como está a maturação e a integridade do sistema nervoso central e do periférico; e determinar as estratégias e os objetivos de tratamento, modificando-os quando necessário. Na sequência, é muito importante realizar uma inspeção detalhada da criança em relação aos padrões posturais que ela adota em diferentes posi- ções, visualizando como se dispõem os membros superiores e inferiores, o tronco, a cabeça e o pescoço. De acordo com a idade da criança, são avaliadas as posições sentada, em pé e deitada em prono e em supino, devendo ser registrados sinais como inclinação lateral da cabeça, rotação, pronação ou supinação de cotovelo e flexão de dedos. Avaliação fisioterapêutica aplicada à neuropediatria6 Por meio do exame físico, é possível verificar as estruturas e funções do corpo do recém-nascido, do lactente ou da criança, e os resultados são associados aos achados da anamnese e ao exame neurológico, em que se verifica o desenvolvimento motor, os reflexos, as posturas e o tônus muscular. Assim, é possível realizar um diagnóstico fisioterapêutico. Nessa avaliação, se utilizam instrumentos auxiliares como: régua antropométrica, fita métrica, balança eletrônica, estesiômetro, termômetro e esfigmomanômetro infantis, goniômetro, martelo de reflexo, brinquedos audiovisuais e texturas variadas (de acordo com a idade do paciente). Além disso, é importante conhecer o escore de Apgar da criança ao nascer (Tudella; Formiga, 2021). Além da avaliação visual, outra forma importante de confirmação do diagnóstico é a palpação, verificando músculos para identificar tensão normal, diminuída ou aumentada. Sinais percebidos na inspeção ou sintomas que foram relatados na anamnese podem ser confirmados por meio da palpação. O tônus muscular deve ser classificado tendo como referência, entre outras, a Escala de Ashworth Modificada (EAM). Nessa escala, 0 indica nenhuma alteração no tônus e 4 evidencia uma parte afetada rígida em padrão postu- ral, devendo ser testados os grupos musculares (Limeira Júnior et al., 2024). A mobilidade deve ser verificada por meio da movimentação espontânea e passiva da criança – de suas articulações e de seu corpo de maneira global. Isso serve para avaliar parâmetros como a amplitude de movimento das arti- culações de forma passiva e, se possível, ativa (nos principais movimentos de cada uma). Nesse contexto, pode-se avaliar a postura dinâmica e a estática movimentando a criança (para diagnóstico motor) e testando as reações de proteção anterior, lateral e posterior. As reações de equilíbrio podem ser verificadas por meio da oscilação corporal da criança, modificando seu centro de gravidade e promovendo desequilíbrio em sua postura, de modo a verificar a presença de movimentos espontâneos, funcionais e induzidos. As medidas de avaliação antropométrica nos recém-nascidos – como comprimento, peso e formato da cabeça – ajudam a verificar a presença de plagiocefalia (abaulamento de um dos lados na face posterior da cabeça) ou outras alterações. Palpar o crânio serve para verificar presença de cicatriz, válvula para tratamento de hidrocefalia e ossos em posição inadequada. Também é necessário avaliar as medidas do crânio com fita métrica até os dois anos a fim de verificar quadros de microcefalia, macrocefalia ou hidro- cefalia. No tronco, deve-se analisar o formato e o perímetro torácico durante o repouso, a inspiração e a expiração (Tudella; Formiga, 2021). Quando possível, deve-se verificar a força muscular em crianças maiores que já conseguem realizar movimentos contra uma resistência, conferindo Avaliação fisioterapêutica aplicada à neuropediatria 7 também os reflexos e as reações. Os reflexos podem estar normais (normor- reflexia), aumentados (hiper-reflexia) ou diminuídos (hiporreflexia); outra possibilidade é não haver reflexo (arreflexia). Os principais reflexos a serem testados são: � reflexo dos pontos cardeais; � reflexo dos olhos de boneca; � reflexo glabelar; � reflexo magnético; � reflexo de Galant; � reflexo de marcha; � reação de colocação dos pés; � reação de colocação das mãos; � reação de apoio positiva; � reflexo de sucção; � manobra de propulsão; � reflexo tônico lateral; � reflexo de preensão palmar; � reflexo de extensão cruzada; � reflexo tônico-cervical assimétrico; � reflexo tônico-cervicalsimétrico; � reflexo de Moro; � reflexo de preensão plantar; � reflexo cutâneo-plantar; � reflexo de defesa; � reflexo de Landau; � reação de paraquedismo; � reação de anfíbio. São testados os reflexos profundos – bicipital, tricipital, patelar e aqui- leu – e os superficiais – de Babinski e cutâneo-abdominal (Shepherd, 1995). Depois dessas avaliações, é necessário realizar o exame neurológico para verificar como está a integridade e a maturação do sistema nervoso central e sua relação com as estruturas e funções. Primeiramente, deve-se avaliar: como está a movimentação espontânea da criança; como é sua coordenação sensório-motora; se apresenta deficiências, sejam elas primárias, secundárias ou globais; as limitações presentes em suas atividades; e as suas restrições. Isso irá indicar a melhor forma de intervenção. Avaliação fisioterapêutica aplicada à neuropediatria8 No âmbito neurológico, deve-se verificar, entre outros fatores: reflexos normais ou alterados; tônus muscular (podendo haver hipertonia plástica, isto é, rigidez, ou hipotonia); coreia (movimentos anormais explosivos); atetose (movimentos hipercinéticos lentos); e ataxia (hipotonia e tremor intencional). A cada fase, deve-se verificar os reflexos, já que eles vão desaparecendo gradativamente; por exemplo, o da marcha desaparece no primeiro mês de idade. Em cada fase, portanto, certos reflexos permanecem ou cessam, de acordo com o desenvolvimento do sistema nervoso (Tudella; Formiga, 2021). Após toda essa análise, o fisioterapeuta fará o diagnóstico e elencará as intervenções mais adequadas a cada caso clínico. A intenção é detectar qualquer mudança para encaminhar o paciente ao tratamento mais adequado. Vamos explorar esse assunto em mais detalhes na seção a seguir. Diagnóstico fisioterapêutico em neuropediatria A fisioterapia tem como principal objetivo em suas intervenções a promoção ou a restauração da funcionalidade. Por meio do diagnóstico, o fisioterapeuta identifica alterações cinético-funcionais prevalentes para definir os objetivos fisioterapêuticos e monitorar a trajetória em direção a eles, escolhendo os melhores recursos e técnicas para uma evolução clínica adequada. Nesse contexto, o fisioterapeuta precisa conhecer os fatores determinantes para a saúde, especialmente em recém-nascidos prematuros e crianças (Castilho- -Weinert; Forti-Bellani, 2011). A avaliação é um processo multidirecional, englobando o que é analisado pelo fisioterapeuta e as informações repassadas pelos responsáveis, de modo que o cuidado com a criança seja ideal. Na avaliação, leva-se em consideração as informações do paciente (local onde vive, atividades, etc.) na definição dos objetivos do tratamento, bem como do plano de ação terapêutico, sendo esse atendimento chamado de “prática baseada em evidências”. Todo o processo começa com a avaliação terapêutica e uma abrangência funcional da avalia- ção inicial. O intuito do processo é manter ou recuperar a funcionalidade em atividades da vida diária, com o máximo de independência e qualidade de vida (Tudella; Formiga, 2021). O diagnóstico pode estar centrado na Classificação Internacional de Fun- cionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF), em que são consideradas as condi- ções de saúde e funcionalidade do indivíduo, levando-se em conta fatores contextuais, ambientais e pessoais (Farias; Buchalla, 2005). Avaliação fisioterapêutica aplicada à neuropediatria 9 A avaliação da criança com alteração neuromotora deve verificar como essa condição influencia os domínios de saúde e como tem impacto em sua participação na sociedade, analisando os ambientes familiar, social e escolar. Além disso, é preciso verificar como os fatores em si atuam sobre a saúde do indivíduo. Junto a uma equipe multiprofissional, o fisioterapeuta avalia a neces- sidade de usar recursos como tecnologia assistiva para melhorar o desempenho do paciente na realização de atividades do dia a dia (Tudella; Formiga, 2021). Nessa avaliação, quando se identifica assimetria persistente na postura ou quando estão presentes movimentos estereotipados, é necessária uma atenção maior. Veja alguns sinais que indicam anomalias: membros inferiores em extensão e adução; pés em flexão plantar; esperneios em extensão e adução; assimetria de postura; movimentos intensos com um membro supe- rior ou um membro inferior; incapacidade de abrir uma das mãos; adução de polegar; reflexo de Moro depois dos quatro meses; opistótono; incapacidade de firmar a cabeça; clônus dos pés; e ausência de movimentos. Esses são alguns dos sinais que se manifestam em decúbito dorsal e que denotam alguma alteração na criança. Também devem ser avaliadas outras posições (decúbito ventral, sentada, em pé) para verificar qualquer alteração ou distúrbio em seu desenvolvimento neuropsicomotor (Shepherd, 1995). Em relação à avaliação do tônus, o fisioterapeuta deve verificá-lo e clas- sificá-lo. A espasticidade indica lesão em neurônios da via córtico-espinhal, provocando aumento do tônus e hiper-reflexia; nesse caso, o paciente apre- senta resistência na realização de movimentos passivos (de acordo com o grau). A hipotonia é evidenciada quando não é possível manter posturas contra a gravidade e não há alinhamento, podendo ser sinal de atraso cognitivo, flutuações e atetoses. Nesse quadro, o tônus é variável, caracterizando lesão nos núcleos da base ou nas suas vias eferentes e aferentes. A ataxia, por sua vez, se relaciona com lesão cerebelar, tônus postural baixo, incapacidade de manter posturas e instabilidade nos movimentos (Castilho-Weinert; Forti- -Bellani, 2011). A seguir, veja a avaliação do tônus muscular em crianças e lactentes (Tu- della; Formiga, 2021). � Hipertonia plástica: rigidez; resistência em todo o arco de movimento. � Hipotonia: diminuição do tônus muscular. � Coreia: movimentos anormais explosivos e abruptos em intervalos irregulares. � Atetose: movimentos lentos e hipercinéticos de contorção e retorção no pescoço e nas extremidades. Avaliação fisioterapêutica aplicada à neuropediatria10 � Ataxia: hipotonia e tremor intencional. � Quadro misto: coreia e atetose associadas. � Hipertonia flexora fisiológica: apresentada por recém-nascido a termo; tônus é idade-dependente. Na avaliação motora, os principais sinais são a flexão simétrica e a hi- pertonia fisiológica, que correspondem à postura em flexão natural que a criança assume por aumento do tônus dos músculos flexores, especialmente em membros superiores. No primeiro mês, a cabeça começa a ser controlada de forma voluntária, o que evolui até o terceiro mês. A partir do sexto mês, inicia-se a extensão completa e sustentada de membros superiores, a ele- vação do tronco e a rotação controlada da cabeça. A posição sentada já é observada, há mobilidade da cabeça e exploração visual do ambiente. Então, iniciam-se controles posturais mais refinados, culminando na postura em pé e na marcha (por volta de um ano de vida). Entre 1 e 2 anos, atividades motoras grossas e refinadas se iniciam, como subir e descer degraus, pular e correr. Também há reações de proteção e equilíbrio, ganho de força, resistência muscular e agilidade. Na avaliação, mudanças na performance sensório-motora mostram ausência de habilidades sensório-motoras ou alterações nelas, o que pode ser indicativo de disfunções no desenvolvimento infantil (Prado; Vale, 2012). Como estamos vendo, a avaliação fisioterapêutica é composta por vários itens que permitem uma análise detalhada do quadro clínico do paciente. Ela é essencial para que a escolha da intervenção seja adequada e para que os objetivos de tratamento e as abordagens sejam ideais e satisfatórios (Melo et al., 2020). Se você receber em sua clínica uma criança com encefalopatias (paralisia cerebral), ela irá demonstrar vários sinais e sintomas que devem ser avaliados para verificar a sua funcionalidade e a presença de alterações nas fases de desenvol- vimento motor. Quando há uma lesãocerebral, a criança se desenvolve de forma mais lenta e, se não houver uma intervenção adequada, o seu desenvolvimento pode ser atrasado e desordenado por ação de fatores de risco (Melo et al., 2020). Uma criança que tem hipotonia e atraso no desenvolvimento motor não deambula. Assim, ela depende da fisioterapia para a recuperação e a reabilitação da funcionalidade, a melhora da qualidade de vida e o auxílio na manutenção do desenvolvimento neuropsicomotor (levando em conta o que se considera normal em cada faixa etária). Nesse contexto, deve-se realizar uma avaliação detalhada e um tratamento adequado ao seu quadro clínico (que pode envolver, por exemplo, paralisia cerebral, lesão cerebral e lesões de plexo braquial) (Melo et al., 2020). Avaliação fisioterapêutica aplicada à neuropediatria 11 Na área de fisioterapia em neuropediatria, é realizada a avaliação do desenvolvimento da criança desde o nascimento até a infância, seja essa criança prematura ou a termo (40 semanas). Essa análise permite escolher intervenções adequadas a cada quadro clínico que se apresenta na avaliação (alterações motoras, alterações musculares ou alterações posturais da marcha, por exemplo). As intervenções buscam melhorar o quadro de desenvolvimento e oferecer mais independência funcional ao paciente. Como vimos neste capítulo, a avaliação se inicia com a anamnese adequada e completa, envolvendo ainda o exame físico, a palpação e a inspeção. Também são realizados testes neurológicos especiais que irão demonstrar o nível de comprometimento e a gravidade do quadro clínico. O diagnóstico fisioterapêutico avalia: tônus muscular, postura, força mus- cular e reflexos normais e patológicos presentes em casos de encefalopatias e lesões neurológicas. Junto ao diagnóstico médico, o diagnóstico fisioterapêu- tico permite a determinação da evolução clínica da criança. Nesse contexto, existem escalas especiais, como Timp e Aims, que ajudam o profissional a identificar comprometimentos na independência e na funcionalidade. Por sua vez, a CIF demonstra as barreiras e facilidades nas atividades da criança. Por fim, é importante pontuar que, além da avaliação, do diagnóstico e do tratamento adequados, sempre é importante a parceria entre família e profissional – além do trabalho de uma equipe multiprofissional – para que os resultados esperados nas terapias sejam alcançados. Referências CASTILHO-WEINERT, C. D.; FORTI-BELLANI, L. V. 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