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AULA 6 ESTRATÉGIA DE RUPTURA E TRANSIÇÃO SOCIOTÉCNICA Prof. Rony Ahlfeldt 2 TEMA 1 – PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO E INOVAÇÃO Planejamento de longo prazo não lida com decisões futuras, mas com um futuro de decisões presentes. (Peter Drucker, o pai da Administração Moderna) Ao longo das aulas anteriores, fizemos uma jornada pela mudança e pela ruptura organizacional, pelas tendências sociais, regulatórias, econômicas e tecnológicas, compreendemos o alcance e impacto da Inteligência Artificial nos negócios, olhamos para o futuro por meio da construção de cenários prospectivos, avançamos no entendimento sobre inovação e como ela pode ser empregada de forma estratégica pelas organizações, e fizemos uma imersão nos modelos de negócios, especialmente aqueles que constituem ecossistemas, configurando-se por redes organizações inteligentes (smart business). Por que você estudou tão variada gama de assuntos (ruptura, mudança, inovação, sustentabilidade, tecnologias, empreendedorismo, modelo de negócios e negócios inteligentes)? Para que possa utilizar esses conceitos e ferramentas de modo a desenvolver processos de planejamento estratégico que levem a sua organização, seja ela uma startup ou um empreendimento em um mercado maduro, a manter uma proposta de valor inovadora, capaz de atender às necessidades dos consumidores e da sociedade por um longo prazo. Assim, chegamos a esta aula com elementos para que possamos não apenas utilizar as ferramentas ou etapas do planejamento estratégico, mas de fato caminhar de forma estratégica, ou seja, trabalhamos conteúdos, reflexões e análises sobre o desenvolvimento da estratégia capazes de levar o seu empreendimento para o futuro. Não se trata apenas de preencher planilhas ou utilizar ferramentas, pois a estratégia para a inovação precisa de uma visão sobre o futuro. Por isto, nesta aula, retornamos ao que chamamos anteriormente de atitude prospectiva para a estratégia. Seguiremos cinco questões para entender o desenvolvimento do planejamento estratégico, agregando inovação ao futuro da organização: • Q0: Quem sou eu? – Qual o propósito da organização? • Q1: O que pode acontecer no futuro? – Como é/será o ambiente de operação? Quais cenários se configuram? Quais os condicionantes? • Q2: Que posso fazer? e Q3: Que vou fazer? – Qual será a abordagem estratégica diante dos múltiplos cenários? 3 • Q4: Como vou fazê-lo? – Como manter a organização inovadora? 1.1 Propósito organizacional Vamos começar pelo propósito? Para se desenvolver, para pensar sobre o futuro e para tomar decisões de longo prazo, uma organização precisa ter ciência de sua razão de existir. Montgomery (2012, p. 72) define propósito como a “forma como as empresas descrevem a si próprias nos termos mais simples possíveis – porque elas existem, o que oferecem de singular ao mundo, o que as diferencia e a quem interessam”. Segundo a autora, o cerne da estratégia organizacional não é simplesmente vencer a concorrência. “Estratégia tem a ver com atender uma necessidade que está em aberto, fazer algo original ou algo excepcionalmente bem de modo a servir um conjunto de partes interessadas” (Montgomery, 2012, p. 74). Assim, para fazer algo original ou excepcionalmente bom, a organização deve ser inovadora, em produtos, processo e/ou no modelo de negócios. Planejar a inovação é caminhar em direção ao seu propósito. Uma organização que não inova em pouco tempo deixará de atender necessidades da forma como se propôs inicialmente. Para compreender o propósito organizacional, Montgomery (2012) propõe algumas questões. Daqui para frente, utilize os espaços em branco dos quadros para simular o desenvolvimento do planejamento estratégico inovador de uma organização qualquer. Assim, fará uma revisão prática de toda a disciplina. Quadro 1 – Análise do propósito organizacional O que minha empresa faz pelo mundo? Essa atividade realmente importa? Há algo nela que seja raro ou difícil de imitar? Estamos fazendo hoje o necessário para sermos importantes amanhã? Fonte: Elaborado com base em Montgomery, 2012. 4 TEMA 2 – ANALISANDO TENDÊNCIAS E RUPTURAS A análise de tendências, conforme estudamos anteriormente, procura identificar, a partir do desdobramento das variáveis sociais, políticas e regulatórias, econômicas e tecnológicas, oportunidades ou ameaças que possam impactar o futuro da organização. Assim, as decisões tomadas no presente devem levar em consideração que o futuro não será necessariamente como o passado. Além disso, podem surgir mudanças mais agudas, e até mesmo incertas (rupturas), capazes de alterar o rumo de uma sociedade ou um setor de atividades. Quando falamos em ambiente organizacional, podemos analisá-lo, conforme ilustra a Figura 1, em três níveis – o ambiente geral (variáveis), o segmento ou setor (onde a organização de fato atua como parte de uma cadeia produtiva), e a própria organização (análise interna de suas potencialidades e debilidades, necessidades dos acionistas e perfil dos colaboradores). Figura 1 – Níveis do ambiente organizacional Fonte: Elaborado com base em Johnson et al., 2007, p. 104. 2.1 Como é/será o ambiente em que operamos? Os próximos quadros (2 a 5), servirão como guia de levantamento dos principais dados sobre o ambiente organizacional. Não se trata apenas de exposição de dados, mas sim de uma análise sobre como é e o que poderá vir a ocorrer no setor de atuação de determinada organização. Iniciamos com o Quadro 2, analisando a rapidez ou a lentidão das mudanças no setor; se o setor se 5 encontra em estágio de maturidade ou se está em estágio inicial (se for necessário, retome os conceitos de setor maduro e emergente); como atuam os concorrentes diretos (características dos concorrentes e de suas decisões estratégicas); e o que leva os consumidores a comprarem do setor. Quadro 2 – Análise atual do ambiente de atuação Qual o ritmo das mudanças no setor? As mudanças ocorrem de forma lenta e gradual ou de forma abrangente e veloz? O segmento é considerado maduro ou emergente? O setor está em crescimento; novos produtos são introduzidos; as margens de lucro são altas? Como são os principais concorrentes? Como reagem às mudanças, competem por preço, investem em publicidade e marketing, têm marcas conhecidas, estão presentes muitas localidades, qual o porte? Quais as principais necessidades dos clientes? Preço, nível de serviço, experiência, prazo de entrega, confiabilidade técnica, status, durabilidade, conveniência? Segundo Certo et al. (2005, p. 38), os gestores devem “assegurar que a informação recebida do exame ambiental seja resumida e analisada para determinar o que caracteriza oportunidades e riscos”. Assim, analisar tendências é o caminho para identificar as possíveis oportunidades e ameaças com as quais a organização terá que lidar no futuro. No Quadro 3, com base nas variáveis que compõem cada tendência, são identificadas as principais (duas ou três no máximo) tendências de cada área (social, regulatória, econômica e tecnológica). Em alguns casos, uma tendência se enquadra como social ou como econômica – não se preocupe, liste-a em apenas uma das tendências. 6 Quadro 3 – Tendências que afetam a organização Tendências Sociais Nível educacional e cultural da população, etnia, gênero, preferências, costumes, crenças, pirâmide etária, distribuição geográfica, taxa de natalidade e expectativa de vida, estilo de vida Tendências Regulatórias Leis, impostos e taxas que incidem sobre os produtos/serviços do setor, papel do Estado no fomento ou com barreiras à determinadas atividades econômicas Tendências Econômicas Taxas de juros e de inflação, política cambial, nível de emprego e renda, índices de preços, PIB, despesas e déficit públicos,produtividade dos setores e balança de pagamentos Tendências Tecnológicas Tecnologias que podem impactar o ambiente de negócios e a vida em sociedade, as inovações, uso de robôs para melhoria da eficiência, P&D e avanços tecnológicos em geral Além das tendências, para atuarmos com a análise prospectiva, precisamos identificar possíveis rupturas (ou inovações de valor do oceano azul), ou seja, grandes mudanças no rumo do setor ou segmento de mercado em que a organização atua. A análise estará completa quando desenvolvermos os cenários no Tema 3, a seguir. Quadro 4 – Possíveis rupturas no futuro do setor O que pode ser completamente diferente no futuro? O que pode acontecer que seja completamente diferente do que ocorre atualmente? Ex.: saída ou entrada de um grande concorrente; legislação ou tributação que mude o setor; tecnologia que baixe os custos de produção de forma significativa ou aumente a produtividade Que “sinais fracos” indicam estas mudanças? Mudanças em alguma(s) das variáveis ambientais? Queda ou aumento sutil da demanda? Migração de alguns consumidores para outro segmento? Sociedade está discutindo temas que sejam relativos ao setor? 7 Qual o papel das novas tecnologias nessas mudanças? Aumentos excepcionais de produtividade? Redução drástica de custos? Permitem a gestão de plataforma de negócios? Criam produtos/serviços? Reduzem a necessidade de mão de obra? Por fim, o Quadro 5, tendo como base a análise de tendências (Quadro 3) e possíveis rupturas (Quadro 4), serve para dar destaque a elementos importantes que foram identificados, relativos a consumidores, concorrência, ciclo de vida do negócio e mudanças estruturais do setor. Quadro 5 – Análise futura do ambiente de atuação Que hábitos estão mudando entre os consumidores? Novas formas de adquirir os produtos? Novos usos para os produtos? Estão migrando para produtos substitutos? Estão apresentando novas necessidades ou exigências? Quem serão os novos consumidores? Nova geração (faixa etária)? Estilo de vida diferente? Composição familiar diferente? Quais são suas preocupações (tecnologia, meio ambiente, diversão, poupar)? Onde estarão os consumidores? Qual será a demanda para nossos produtos ou serviços? Quantos produtos ou serviços serão consumidos em determinado período? A demanda está crescendo ou em declínio? Existirá demanda em outros lugares? Em que bases se dará a competição entre os principais concorrentes? Por preço? Por diferenciação no serviço? Por conveniência? Baseada em tecnologia? Por ecossistemas (plataformas) de negócios? Em que fase do ciclo de vida do nosso setor, modelo de negócios, produtos ou serviços entraremos? Crescimento, estabilidade ou declínio? Será substituída por outro modelo ou setor? Quais as principais mudanças estruturais do nosso setor ou região que impactarão nos negócios? Na economia? No nível educacional? No modelo de governo? Na pirâmide etária? No acesso às tecnologias da informação e comunicação? Na logística? Na produção? 8 TEMA 3 – DESENVOLVENDO CENÁRIOS Chegou o momento de pensar o que futuro reserva. De acordo com as informações analisadas anteriormente, podemos identificar diferentes cenários e com isso planejar respostas estratégicas da organização. Reforçando o que já discutimos com base em Godet (2003), a ideia é identificar futuros possíveis (cenários) a partir da visão dos atores (metodologia qualitativa de análise). O que diferencia o planejamento estratégico mais tradicional da metodologia prospectiva é que, além de identificar as tendências (o que é certo ou quase certo que vai acontecer), o desenvolvimento de cenários se baseia em incertezas críticas, ou seja, os cenários se diferenciam pelo que é capaz de alterar o futuro completamente. De modo a procurar respostas para a questão Q1: Que pode acontecer no futuro?, seguiremos com a metodologia da Macroplan (Figura 2), apresentada previamente nesta disciplina. Na sequência, abordaremos os cinco passos do método da Macroplan. Figura 2 – Método Macroplan para construção de cenários prospectivos Fonte: Macroplan, 2007, citado por Araújo et al., 2018. 3.1 Primeiro passo: definição do foco e modelagem do objeto O processo inicia pela identificação da questão-chave que moldará os cenários, ou seja, o que a organização quer saber sobre o futuro. O foco pode ser mais genérico, por exemplo, saber qual o futuro do setor de construção civil no Brasil. Também pode ser mais específico, como a decisão sobre internacionalizar ou não as operações da empresa para a Europa. 9 Quadro 6 – Questão-chave dos cenários Foco do Cenário – questão0chave Questão estratégica que motivou a elaboração de cenários. Genérica ou específica? 3.2 Segundo passo: identificação dos condicionantes do futuro Os condicionantes do futuro são os eventos futuros que direcionarão a construção da lógica dos cenários e a hierarquização das incertezas críticas do futuro em análise. De acordo com a questão-chave identificada no primeiro passo, nesta fase são identificados os condicionantes do quadro a seguir. Quadro 7 – Condicionantes do futuro dos cenários Fatores Conjunturais Formados por indicadores dos componentes sociais, econômicos, políticos e tecnológicos Tendências consolidadas (o que é certo ou quase certo) Utilize a análise de tendências do Quadro 3. Diferentemente de apenas informar os indicadores, as tendências são os movimentos que devem ocorrer nestes indicadores no futuro Incertezas Críticas Condicionantes do futuro com alto grau de incerteza, relevância e grande impacto sobre a questão chave. São os elementos base para a construção dos cenários. Trabalhe apenas com duas incertezas críticas 3.3 Terceiro passo: geração de cenários Nesta etapa, é construída uma matriz combinando as duas incertezas críticas identificadas. Das combinações possíveis dessa matriz, surgem quatro cenários, que recebem nomes que auxiliam na identificação rápida do que cada um indica. 10 Figura 3 – Matriz de geração de cenários Incerteza Crítica 1 Alta Baixa In c e rt e z a C rí ti c a 2 Predominantemente Favorável Cenário 1 Cenário 2 Predominantemente Desfavorável Cenário 3 Cenário 4 Fonte: Elaborado com base em Poto; Ventura, 2008, p. 30. 3.4 Quarto passo: desenvolvimento e comparação dos cenários Desenvolver o cenário significa elaborar seu conteúdo a partir da matriz de geração de cenários e das análises de conjuntura e tendências. O conteúdo é a estória lógica que será contada sobre os futuros possíveis que se desenham com essas informações. Não se trata de apresentar dados, mas sim de uma narrativa de como o futuro pode vir a ser. Lembrando que a questão-chave deve sempre nortear o desenvolvimento do cenário. Quadro 8 – Desenvolvimento dos cenários Cenário 1: (nome do cenário) Apresentar a estória e os dados sobre o cenário Cenário 2: (nome do cenário) Apresentar a estória e os dados sobre o cenário Cenário 3: (nome do cenário) Apresentar a estória e os dados sobre o cenário Cenário 4: (nome do cenário) Apresentar a estória e os dados sobre o cenário Após o desenvolvimento do conteúdo de cada cenário, é possível realizar uma comparação entre os principais pontos. Assim, a organização pode ter 11 melhor noção das semelhanças e diferenças entre os cenários, de modo a realizar a análise estratégica (quinto passo). O ideal é realizar uma análise textual e resumi-la em um quadro comparando os elementos. A comparação permitirá avaliar se os cenários podem ocorrer simultaneamente ou se um anula o outro; também permite avaliar as ações que a organização pode tomar, que sirvam para um ou mais cenários. Quadro 9 – Análise comparativa doscenários Variáveis (exemplos) Cenário 1 Cenário 2 Cenário 3 Cenário 4 PIB Taxa de juros Nível de emprego Inflação Natalidade Marco regulatório Legislação Novas tecnologias Fonte: Elaborado com base em Porto; Ventura, 2008, p. 60. 3.5 Quinto passo: análise estratégica dos cenários Definição de indicadores para a realização do monitoramento contínuo dos cenários. Os indicadores devem vir da questão chave e observar as variáveis que estão contidas nos cenários. A última etapa é selecionar, estrategicamente e observando as oportunidades e ameaças, o caminho que a organização seguirá em relação aos cenários. A empresa deve decidir por pelo menos uma entre as quatro opções: • apostar no cenário que tenha maior probabilidade de ocorrência; • apostar no melhor cenário para a empresa; • desenvolver uma estratégia que seja eficiente em qualquer cenário; • atuar (influenciar) para que um dos cenários desejáveis pela empresa ocorra. Saiba mais Para aprofundar seu entendimento sobre a elaboração de cenários, acompanhe um exemplo de aplicação da metodologia acessando o trabalho desenvolvido pela equipe da própria Macroplan: 12 PORTO, C.; VENTURA, R. (Org.) Quatro cenários econômicos para o Brasil 2008- 2014. Macroplan, ago. 2008. Disponível em . Acesso em: 19 fev. 2021. TEMA 4 – ABORDAGENS ESTRATÉGICAS PARA A INOVAÇÃO A abordagem aqui proposta diante dos cenários é de inovação. As decisões devem se antecipar aos acontecimentos futuros, procurando gerar mudanças no ambiente por meio da introdução de inovações. Conforme discutimos anteriormente, a inovação pode elevar o nível de diferenciação entre as organizações, gerando vantagens competitivas, além de ser a principal estratégia adotada pelas empresas para enfrentar a concorrência internacional. Como a inovação geralmente traz disrupção, com riscos e altos custos, o desenvolvimento de cenários é uma metodologia que pode ajudar a mitigar os riscos e a identificar da melhor forma as oportunidades de inovação. De acordo com a questão estratégica chave que motivou o desenvolvimento dos cenários, a organização tomará decisões estratégicas buscando se antecipar ao novo contexto. Entre elas, podemos destacar: • trazer saltos de qualidade para seus produtos; • se adequar às novas pressões que o mercado trará; • obter ganhos significativos de produtividade; • se antecipar a novos marcos regulatórios; • eliminar custos criando pressão sobre os concorrentes; • encontrar novos mercados consumidores; • lançar novos produtos; • aproveitar inovações que causem menos impacto ao meio ambiente; • identificar e se antecipar a mudanças nas cadeias de produção e nas relações entre países. Essas alternativas estratégicas podem levar a organização a um novo patamar diante das incertezas críticas. O que muda é a estratégia para chegar à inovação – se aberta/cooperativa ou fechada, se a partir de aquisições, se por meio da identificação de um oceano azul. Vemos retomar o exemplo da Shell International, pioneira no uso da metodologia de cenários. Ao final da década de 1960, início dos anos de 1970, o 13 grupo de analistas da empresa identificou “eventos que pudessem afetar o preço do petróleo, que se mantinha estável desde a Segunda Guerra Mundial apesar da demanda e capacidade de refino, ambas crescentes”. Tanto a demanda quanto a capacidade de refino eram variáveis de comportamento previsível, e, portanto, não preocupavam os analistas da Shell. No entanto, “o que preocupava era a oferta, ou seja, os lugares de onde viria o suprimento. [Pois] quem tomaria as decisões de produção não seriam mais as empresas de refino, mas quem controlava as reservas” (Lourenço Junior, 2010, p. 8). Nesse caso, países produtores se organizaram, formando a (Opep), com poder centralizado e de com pouca afinidade cultural com o ocidente. Com base nesses elementos, foi identificado que era possível que em algum momento tais países elevassem o preço do petróleo (Lourenço Junior, 2010). A Shell, então, como decisão estratégica, preparou seus diretores e suas operações para que rapidamente respondessem a esse cenário a partir das seguintes ações: aumentar o controle da empresa em operações locais, formar estoques intermediários e acelerar a prospecção de petróleo em regiões diversas (Gasparetto et al., 2009). Assim, voltando ao tema da inovação disruptiva, Souza e Takahashi (2012) entendem que os cenários prospectivos são uma ferramenta adequada para a antecipação de inovações disruptivas. Tomando como base as definições de Christensen et al. (1997), assim definem esse tipo de inovação: as inovações ou tecnologias disruptivas, que geralmente são incrementais, consistem em proposições de valores muito diferentes do que havia até então, de modo que se revela um novo mercado. Frequentemente, as inovações disruptivas não atendem de imediato aos parâmetros valorizados em um mercado já estabelecido; no entanto elas possuem características que alguns consumidores novos e marginais valorizarão. (Souza; Takahashi, 2012, p. 122) O uso de cenários para definição de estratégias é um exercício de avaliação sobre as incertezas ou mudanças inesperadas que poderão vir a acontecer no contexto organizacional. Esse exercício é favorável à identificação de oportunidades para a inovação disruptiva (Souza; Takahashi, 2012). Sobre essa questão, os autores concluem: O planejamento de cenários é um processo flexível e instigante, capaz de desafiar modelos mentais e estimular uma equipe a agregar valores competitivos a uma organização. Com isso, tal método permite antecipar eventos inesperados, descontinuidades e oportunidades para inovar, a fim de formular um planejamento estratégico e uma visão de futuro 14 resilientes a um contexto incerto e turbulento (Souza; Takahashi, 2012, p. 129) Cuidado com os seguintes termos: inovação disruptiva, radical e incremental. A inovação incremental inclui as melhorias que as organizações realizam em seus produtos ou serviços e em ciclos curtos de tempo. Elas “ajudam as empresas a se manter competitivas a curto prazo” (Hopp, 2018). Inovação radical são as grandes invenções que mudam a sociedade ou a indústria de uma hora para outra, como o advento da internet, por exemplo. Esse tipo de inovação “concentra-se no impacto a longo prazo e pode envolver a substituição de atuais produtos, alterando o relacionamento entre clientes e fornecedores, e criando categorias inteiramente novas de produtos” (Hopp, 2018). A inovação disruptiva, diferentemente do que muitos pensam, se diferencia da radical. Enquanto a radical está mais ligada a produtos, a inovação disruptiva geralmente afeta modelos de negócios. Christensen et al. (2015) definem disrupção da seguinte forma: um processo por meio do qual uma empresa menor com menos recursos é capaz de desafiar com sucesso as empresas estabelecidas. Especificamente, à medida que os operadores históricos se concentram na melhoria de seus produtos e serviços para seus clientes mais exigentes (e geralmente mais lucrativos), eles excedem as necessidades de alguns segmentos e ignoram as necessidades de outros. Ou seja, as empresas maiores e mais tradicionais de um setor começam a deixar alguns segmentos de clientes de fora, por não serem capazes de atender suas necessidades de custos/preços mais baixos, por não serem tão rentáveis quanto outros grupos de clientes. Surgem no setor startups com novos modelos de negócios, capazes de “entregar funcionalidades mais adequadas – frequentemente a um preço mais baixo” (Christensen et al., 2015). Entretanto, à medida que as startups entregam melhores funcionalidades com um preço mais baixo, os demais segmentos de clientes migram para elas. Neste ponto, ocorre a disrupção.A inovação disruptiva, de acordo com Hopp (2018), “não tem a ver com tecnologia somente, mas, na verdade, com a combinação de tecnologia e inovação de modelos de negócios”. Assim, tudo o que estudamos ao longo desta disciplina nos trouxe até este momento. O desenvolvimento de cenários, em especial, é uma forma de identificar disrupções ou incertezas que possam levar até elas, atuando estrategicamente para se antecipar ao processo, seja uma 15 empresa tradicional que corre o risco de ver seu modelo de negócios sucumbir, ou uma startup que está se preparando para se lançar no mercado dos gigantes. A seguir, abordaremos alguns exemplos de abordagens estratégicas disruptivas. Perceba que elementos conjunturais foram sendo alterados, tendências se confirmando, e questões que antes eram incertezas passaram a moldar o futuro quando se tornou presente. Procure, a partir desses exemplos, identificar como o desenvolvimento de cenários pode contribuir significativamente para a criação de inovações estratégicas: • Netflix (startup) versus Blockbuster (gigante do setor): no início, a locação de filmes por correspondência não era atrativa para grande parcela do público da Blockbuster. No entanto, com a popularização dos filmes via streaming, a Netflix oferece seus serviços de maneira mais barata e funcional a todo o mercado (Hopp, 2018). • Wikipedia (startup) versus enciclopédias tradicionais: por muito tempo, a principal fonte de pesquisa dos estudantes e famílias eram as enciclopédias impressas. Elas eram compostas por diversos livros com capa dura, muitas páginas, de difícil atualização e com preços muito altos (custavam algo em torno de US$ 800). A Wikipedia, mesmo com desconfianças de sua qualidade no início, provocou uma verdadeira disrupção, ao oferecer de graça, on-line e com atualizações constantes, o acesso ao conhecimento que estava restrito às enciclopédias. • WhatsApp (startup) versus SMS (grandes telefônicas): seguindo caminho similar aos demais exemplos, o aplicativo WhatsApp surgiu utilizando um novo modelo de negócios e aproveitando a popularização da internet móvel para oferecer um aplicativo de troca de mensagens sem custo por mensagem enviada. O envio de cada SMS pelo celular era tarifado e acabava sendo caro para os consumidores de renda mais baixa. Saiba mais Para aprofundar seu entendimento sobre a elaboração de cenários, acompanhe um exemplo de aplicação da metodologia acessando o trabalho desenvolvido pela equipe da própria Macroplan: A HISTÓRIA do WhatsApp. TecMundo, 23 jan. 2018. Disponível em . Acesso em: 19 fev. 2021. 16 TEMA 5 – AGINDO COMO UMA STARTUP Chegamos ao último tema de nossa aula. A ideia aqui é fazer um fechamento, refletindo sobre como manter a organização sempre inovadora. Mesmo organizações que passaram da fase inicial e cresceram, precisam, em muitos aspectos, continuar agindo como uma startup. É o que Reis (2018) chama de estilo startup, ou seja, a transformação para ou manutenção da cultura inovadora em qualquer tipo de empreendimento. Anteriormente, apresentamos elementos para a gestão da inovação, como planejamento estratégico tecnológico, investimento em pesquisa e desenvolvimento, parcerias com universidades e centros de pesquisa. Também trabalhamos as competências das organizações inovadoras – liderança e intenção estratégica; meio inovador interno; pessoas; processos de inovação; e resultados; e a cultura voltada para a inovação – tolerância à divergência e à insubordinação, tolerância a erros, equipes heterogêneas, educação continuada, liderança transformadora e comunicação fluída, ambiente físico inspirador e reconhecimento das pessoas. A combinação desses elementos e o acréscimo de outros é essencial para que a organização se mantenha inovadora e atenta às mudanças que ocorrem ou ocorrerão no mercado. O vocabulário de uma organização que age como startup, independentemente de seu porte ou tempo de mercado, deve incorporar alguns termos – lembrando que isso não deve ser feito por modismo, mas sim porque esses conceitos servem para que a cultura empreendedora se propague na organização. Quadro 10 – Análise comparativa dos cenários Risco Oportunidade Empreendedor Empreender Empreendedorismo Startup e startup enxuta Ciclo construir-medir-aprender Experiência acumulada Testar hipóteses Negócio sustentável Inovação radical Velocidade Produto Mínimo Viável (MVP) Perseverar Pivotar Contato com o cliente Desenvolvimento de clientes Experimentação 17 Métricas adequadas Feedback real e constante Aprendizado validado Errar rápido e barato Valor Business Model Canvas Metodologias ágeis Salto de fé Fonte: Elaborado com base em Ries, 2012. Estamos diante de organizações que atuarão cada vez em condições de extrema incerteza. De acordo com Ahlfeldt (2015, p. 117) irá requerer “conceitos, teorias, ferramentas e práticas de administração diferentes daquelas utilizadas em todos os outros tipos de organização”. A startup, mais do que uma organização, deve ser uma atitude empreendedora, especialmente “projetos organizacionais nos quais não há [...] como utilizar o aprendizado do passado para projetar o futuro” (Ahlfeldt, 2015, p. 117). Ries (2018) propõe três etapas para transformar a cultura de uma organização em cultura de startup enxuta: 1. Preparação: as práticas empreendedoras precisam ocupar espaço na organização, seja realizando eventos ou incutindo uma nova forma de fazer e pensar. 2. Implementação e ganho de escala: após entender o que funcionou, as práticas devem ser espalhadas por toda a organização. 3. Consolidação: o processo não tem uma conclusão, de modo que precisa ser acompanhado continuamente para identificar o que está funcionando e o que é preciso “pivotar”, cuidando com os núcleos de resistência que possam surgir. Concluímos acrescentando que agir como uma startup também significa (Ries, 2012; 2018): • não se estruturar com base em processos burocráticos, pois estrutura e processos devem ter foco no cliente e no mercado; • colaboradores devem ter a oportunidade de serem intraempreendedores; • aproveitar o ciclo virtuoso de colaboração interna e externa para gerar ideias e inovações; • testar hipóteses e validar ideias continuamente: “sair do prédio” e manter a interação e o feedback permanentes com o consumidor; 18 • saber quando é hora de “pivotar”, ou seja, fazer ajustes nas estratégias a partir do feedback dos clientes e de outros indicadores, como taxa de adesão; • startups não fabricam apenas softwares, elas podem fabricar “coisas”; • encurtar o tempo entre o projeto e o mercado; • manter um fluxo contínuo de inovação; • proporcionar um ambiente que estimule a criatividade; • empoderar e responsabilizar as pessoas; • não limitar as relações pela hierarquia. Saiba mais A STARTUP enxuta. Pipelearn, 14 fev. 2017. Disponível em: . Acesso em: 19 fev. 2021. THE STARTUP way. AAA Inovação, 11 maio 2018. Disponível em: . Acesso em: 19 fev. 2021. 19 REFERÊNCIAS AHLFELDT, R. Retórica e lógica institucional: quatro obras difusoras do discurso sobre empreendedorismo no contexto brasileiro. Tese (Doutorado) – Programa de Pós-Graduação em Administração da PUCPR, Curitiba, 2015. ARAUJO, F. O. et al. Proposta metodológica para desenvolvimento de cenários prospectivos para sucessão em empresas familiares de pequeno porte. Sistemas & Gestão, v. 13, n. 2, p. 162-177, 2018. Disponível em: . Acesso em: 19 fev. 2021. CERTO, S. C.et al. Administração estratégica: planejamento e implantação da estratégia. São Paulo: Pearson Education do Brasil, 2005.CHRISTENSEN, C. et al. What is disruptive innovation? Harvard Business Review, dez. 2015. Disponível em . Acesso em: 19 fev. 2021. GASPARETTO, A. S. et al. Planejamento de cenários: estudo de caso da SC Gás. 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SOUZA, I. D. S.; TAKAHASHI, V. P. A visão de futuro por meio de cenários prospectivos: uma ferramenta para a antecipação da inovação disruptiva. Future Studies Research Journal: Trends and Strategies, v. 4, n. 2, p. 102-132, 2012.