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Cristian F. Martins – cristianmartins80@gmail.com ENSAIO SOBRE A IDEIA DE “DIGNIDADE DA DIFERENÇA” EM ALGUNS DISCURSOS RELIGIOSOS CONTEMPORÂNEOS Aqui está um livro de boa-fé, Leitor. Ele te adverte, desde o início, que não me propus outro fim além do doméstico e privado. Nele não tive nenhuma consideração por servir-te nem por minha glória: minhas forças não são capazes de tal desígnio. Dediquei-o ao uso particular de meus parentes e amigos, a fim de que, tendo-me perdido (o que breve terão de fazer), possam aqui encontrar alguns traços de minhas atitudes e humores, e que por esse meio nutram, mais completo e mais vivo, o conhecimento que têm de mim. Se fosse para buscar os favores do mundo, teria me enfeitado de belezas emprestadas. Quero que me vejam aqui em meu modo simples, natural e corrente, sem pose nem artifício: pois é a mim que retrato. Meus defeitos, minhas imperfeições e minha forma natural de ser hão de se ler ao vivo, tanto quanto a decência pública me permitiu. (Montaigne, 2010, p.35) 1 Assim começa Michel de Montaigne a sua obra “Ensaios”. Amado por alguns, não amado por outros, o fato concreto é que, mais de cinco séculos depois de publicadas, as reflexões do referido autor continuam a nos instigar a buscar novos referenciais para pensar essa entidade complexa chamada humanidade. 1 Assim como Montaigne, especificamente neste ensaio, não proponho criar teorias científicas que expliquem a razão de sermos o que somos, ou de prever o que seremos daqui a dezenas de anos.2 O que temos aqui são apenas reflexões privadas, compartilhadas com o leitor, que tem a intenção de diminuir o grau da minha perplexidade em relação ao Absoluto. O risco desse empreendimento, alerta Paviani(2009, p.06), é que os leitores considerem o ensaísta um “indivíduo principiante, daqueles que nem sempre têm o domínio técnico dos gêneros científicos”, ou que, na melhor das hipóteses, o considerem um sujeito experiente, denso, original, profundo, e até mesmo lúcido. A ideia de “dignidade da diferença” no discurso de Jonathan Sacks 1 Agradeço ao professor Leonardo Cavalcanti por me orientar no pós- doutorado no Obriga-Laemi-UnB, possibilitando a existência desta publicação; ao professor Cristhian Teófilo da Silva (Ceppac-UnB) pelo incentivo a continuar trabalhando com a temática do diálogo inter-religioso a partir da escrita ensaística; à Universidade Federal do Amazonas, pela concessão deste período de licença sabática; a toda a equipe do Obmigra- Laemi-UnB e do Pimic/UnB (coordenado pela professora Raquel Roersting), as quais foram pacientes e generosas fontes de interlocução acadêmica; e, à toda a minha família consanguínea e espiritual, a qual tem me ajudado a curar as feridas existenciais desta vida. Que o Deus de todos os povos, criaturas, etnias, raças, nações, gêneros, e diversidades sócio-culturais lhes abençoe, Sempre! 2 Para uma caracterização das diferenças e semelhanças entre os gêneros textuais ensaístico e científico, Ver: Adorno(1994), Paviani(2009) e Sena(2000), dentre outros autores. 2 O rabino Jonathan Sacks3 afirma que estamos diante de uma globalização que, por um lado, entrelaça os povos em complexas e intrincadas relações de cooperação, aproximando-nos identitariamente, mas que, também, aviva um “novo tribalismo”, definido como um retorno a vínculos “mais antigos e sectários” que nos afastam sempre com mais violência. (Sacks, 2013, p.23) Nesse processo, os discursos religiosos teriam o potencial de conduzir a humanidade tanto à paz quanto à guerra. Sendo que defender a primeira é sempre mais arriscado do que defender a segunda: […] enquanto nas guerras as pessoas comuns podem se tornar heróis, na busca pela paz até os heróis temem se arriscar. […] No calor da batalha os corajosos são venerados e os que se arriscam pela paz são, com alguma frequência, assassinados.” (Sacks, 2013, p.23) Martin Luther King, Gandhi, Lincoln, Anwar El-Sadat e Yitzhak Rabin seriam exemplos de homens que ao tentarem negociar a paz, foram tidos como traidores pelos seus compatriotas e por eles mortos.4 (Sacks, 2013) No final das contas, Jonathan Sacks busca construir um projeto de confraternidade que se contraponha às previsões apocalípticas do cientista político Samuel P. Huntington, na obra “O choque de civilizações e a recomposição da Ordem Mundial”5. 3 SACKS, Lord Jonathan. A dignidade da diferença: Como evitar o choque de civilizações. São Paulo: Editora e Livraria Sefer, 2013. 4 Citando Henry Maine, Sacks(2013,p.24) diz que “A guerra parece ser tão antiga como a humanidade, mas a paz é uma invenção moderna”. 5 Huntington (1998, p.18-19) defende a hipótese de que “a cultura e as identidades culturais – que , em nível mais amplo, são as identidades das civilizações – estão moldando os padrões de coesão, desintegração e conflito, no mundo pós-Guerra Fria”. 3 Este é um livro a respeito de globalização, dos desafios que provoca, do bem que realiza, dos sofrimentos que causa e das resistências e ressentimentos que cria. Muitos livros têm sido escritos a respeito do panorama global emergente, mas apenas alguns poucos tratam das questões morais e espirituais envolvidas. No entanto, estas são as mais importantes que devemos enfrentar se quisermos dar valor à dignidade humana, favorecer as oportunidades de paz e rejeitar as previsões de Samuel Huntington de um choque de civilizações. (Sacks, 2013, p.17- 18) Se perdemos a capacidade de compreender o mundo em que vivemos, correremos o risco de sentir “a perda de controle sobre nossas vidas”, que nos gerará a ansiedade - continua Sacks(2013). Esta causará medo, que nos levará à raiva, que semeará a violência, que, combinada com armas de destruição em massa, transformará o mundo numa “realidade mortal”. (Ibidem) Um quadro social que seria agravado pela proliferação de canais de comunicação midiáticos que são incentivadores da “emissão de opiniões na forma violenta ou de protesto” ao invés do “diálogo racional e sério” que, por sua vez, pressupõe a convivência pacífica com pontos de vista contrários. (Ibidem) Nesse cenário, ao contrário do que pensou Huntington, a função moral e espiritual das tradições religiosas seria justamente ser uma “rica fonte de sabedoria para os homens”, levando-os a paz: Uma voz religiosa, ou melhor, muitas vozes religiosas, podem ser úteis para o diálogo coletivo que mantemos ou deveríamos manter. Diante de decisões graves, a humanidade necessita de sabedoria e as tradições religiosas combinadas com as grandes filosofias são a nossa mais rica fonte de sabedoria. São reflexões a respeito do lugar da humanidade na natureza e dos objetivos próprios da sociedade e da vida de cada indivíduo. (Sacks, 2013, p.27-28) 4 Tomando o ensaio produzido por Sacks(2013) enquanto “gênero discursivo” (Bakhtin, 1997) - que expressa as visões de mundo (e projetos de vida) tanto do ator que as enuncia quanto dos grupos e redes sociais aos quais ele pertence e transita-, percebemos o valor dessa narrativa enquanto projeto que visa gerar o diálogo, a tolerância (e a coexistência pacífica) entre os povos e culturas no mundo contemporâneo. Discurso esse que, conforme dito anteriormente, se contrapõe àqueles que afirmam a ideia de que vivemos num período de “choque de civilizações”. A ideia de “dignidade da diferença” é central às reflexões de Jonathan Sacks, um sujeito histórico que se autodefine como judeu ortodoxo, habituado a ouvir seus colegas “liberais” chamarem-no de “fundamentalista”6, mas que se preocupa em produzir uma narrativa acerca do problema da busca pela tolerância e coexistência pacífica entre membros de diferentes religiões no mundo contemporâneo. Um teólogo judaico para o qual “paz significa viver com pessoas e textos diferentes” dos meus/seus (Sacks, 2013, p.25), e a sociedadeé um “ecossistema complexo e interativo no qual a diversidade (biológica, pessoal, cultural e religiosa) é parte da essência [dela]”. (Idem, p.37) Ao longo da história, e até recentemente, a maioria das pessoas vivia a maior parte da vida cercada de gente que partilhava sua religião, tradição, modo de vida e um conjunto de rituais e narrativas de memória e esperança de modo a que era possível acreditar que a nossa era a única verdade e a nossa maneira de pensar, inigualável. Havia poucos marginais e ainda menos dissidentes. Hoje,não. Vivemos na presença constante da diferença. (Sacks, 2013, p.25, grifos nossos) 6 A palavra “fundamentalista” vem de “fundamental”, no sentido de obediência rigorosa e literal a determinados conjuntos de princípios. É esse o sentido desta palavra no texto. 5 A globalização, continua ele, nos transformou numa “sociedade de estrangeiros”, na qual a convivência com a diversidade cultural é cotidiana. Nesse processo, ao invés de ver nossas identidades tradicionais ameaçadas, ao contrário, deveríamos “apelar a uma generosidade moral e espiritual mais exigente do que poderíamos supor”.(Sacks, 2013, p.32-33)7 Outro componente importante da fala de Sacks(2013) diz respeito a crítica que ele faz tanto do “universalismo platônico” quanto do “relativismo cultural”. A primeira ideia afirma que: […] a nossa busca incessante pela verdade ou realidade última se avança do particular para o universal. De acordo com essa ideia, as particularidades são imperfeições, fonte de erros, de chauvinismo e de preconceitos. Ao contrário, a verdade é abstrata, atemporal, universal, igual para todos em todos os lugares. (Sacks, 2013, p.34) O universalismo platônico seria muito atraente – continua Sacks - se não fosse o seu “resultado trágico e inevitável” que é o etnocentrismo: Se toda a verdade – religiosa ou científica – é a mesma para todos em todos os tempos, então se eu estou certo, você está errado. Se me preocupo com a verdade devo te converter ao meu ponto de vista e se você se recusa, cuidado. (Sacks, 2013, p.34) Por isso, o referido autor propõe que contrabalancemos o universalismo de Platão com o reconhecimento dos particularismos culturais, daí derivando a ideia de “dignidade da diferença”. O esplendor da criação do mundo é sua extraordinária multiplicidade: as milhares de línguas faladas pela humanidade, a proliferação das 7 No campo religioso, a questão central que se coloca é como “reconhecer a imagem de Deus em alguém que não é a minha imagem”, diz Sacks(2013). 6 culturas, a imensa variedade das expressões imaginativas do espírito humano, a maioria das quais, se as escutarmos atentamente, ouviremos a voz da sabedoria nos dizer algo de que precisamos saber. É o que quero dizer com a dignidade da diferença. (Sacks, 2013, p.35- 36, grifos do autor) Fica claro, portanto, que embora Sacks fale que é preciso “exorcizar de modo claro e inequívoco o fantasma de Platão”(Idem, p.35), que ele prega um equilíbrio entre a busca de valores universalistas e de respeito aos particularismos sócio- culturais no mundo contemporâneo8. Em outras palavras, precisamos tanto de uma teologia do comum dos universos do gênero humano quanto de uma teologia da diferença: porque nenhuma civilização tem o direito de se impor às outras pela força; porque Deus nos pede que respeitemos a liberdade e a dignidade dos que não são como nós. (Sacks, 2013, p.36) A “dignidade da diferença” seria, desse modo, um antídoto ao extremismo identitário, já que quando aprendemos a dialogar - a escutar atentamente o diferente-, evitamos que o mundo em que vivemos se torne o cenário de guerras intermitentes. Precisamos aprender a arte de dialogar da qual emerge a verdade, não como, nos diálogos socráticos, desmentindo a falsidade, mas, por meio do modo bem diferente, de permitir ao nosso mundo ser enriquecido pela presença de outros que pensam, agem e interpretam a realidade de maneira radicalmente oposta à nossa. (Sacks, 2013, p.38) As críticas de Sacks(2013) ao universalismo extremo são melhor trabalhadas no capítulo 3, sugestivamente chamado de 8 Sacks(2013) acredita no universalismo de certos mandamentos humanitários que, segundo ele, transcendem as diferenças religiosas. Tanto que ele cita a figura dos “sábios das nações”, que são homens que, mesmo não sendo judeus, servem a Deus nas suas culturas particulares. 7 “Exorcizar o espírito de Platão”. Nele afirma-se categoricamente que “a ética bíblica tem um caráter diferente da ética filosófica” (Sacks, 2013,p.69), já que a primeira afirma aquilo que temos em comum enquanto humanidade: racionalidade (Kant), sensação(Hume), ou o desejo de prazer e a aversão à dor (Bentham). A moral bíblica, ao contrário, é “muito mais complexa”: Ela enfatiza a natureza dual da nossa situação moral. Por um lado, fazemos parte da família humana universal, portanto, da aliança de Noé com toda a humanidade. Existem, realmente, regras morais universais – a santidade da vida, a dignidade da pessoa humana, o direito à liberdade, de não ser escravo de ninguém e nem se tornar objeto da violência de quem quer que seja. As três ações de Moisés, antes de se tornar chefe dos israelitas, ilustram perfeitamente isso. Primeiro, intervém, para salvar um israelita de um egípcio; depois um israelita de outro israelita; e, finalmente, as filhas(não israelitas) de Jetró dos pastores (não israelitas) que as impedem de dar de beber ao rebanho. Moisés reconhece o caráter universal da injustiça e luta contra ela, independentemente de quem a pratica ou de quem é a sua vítima. De outra forma, fazemos parte de uma família particular com história e memória específicas. E também de uma moralidade “densa” ou dependente do contexto (representada, no judaísmo, pelas alianças abrahâmica e mosaica) que nos impõe lealdades e obrigações em relação aos membros da nossa comunidade para além da simples justiça. Temos obrigações com os nossos pais e filhos, amigos e vizinhos, e com os membros da sociedade considerada como uma família ampliada (“Quando o teu irmão fica pobre...”). A palavra para essas obrigações é “chessed”, geralmente traduzida por “bondade”, mas que significa o dever de amar aqueles a quem estamos ligados por uma aliança. É precisamente essa intimidade moral que dá vida às famílias e às comunidades nas quais aprendemos a gramática e a sintaxe da reciprocidade e do altruísmo. (Sacks, 2013,p.70, grifos do autor) No contraponto entre os discursos da ética bíblico-judaica e da ética filosófica, Sacks(2013) percebe as limitações tanto do 8 universalismo platônico quanto do relativismo cultural para lidar com o problema da convivência entre diferentes visões de mundo na sociedade contemporânea. Daí a importância que esse discurso religioso tem para a realização de uma discussão sobre as implicações concretas do ideal da convivência com a multiculturalidade na nossa sociedade.9 Com relação aos limites do relativismo cultural, Sacks(2013) mostra que em situações-limite10 de exposição à alteridade, é muito difícil relativizarmos determinados valores. Por exemplo, como pensar na relatividade da vida humana ao lidarmos com a possibilidade (concreta) de que atentados suicidas atinjam pessoas próximas ao nosso círculo de relações familiares? - se pergunta o referido autor.11 A resposta à essa questão pode variar conforme a particularidade psicológica e cultural de cada indivíduo. Mas, sublinha Sacks(2013), nem tudo no mundo pode ser relativizado. Por isso, “o relativismo é muito frágil para resistir aos ventos tempestuosos do fervor religioso”. (Sacks, 2013,p.34) 9Tema que deverá discutido num próximo ensaio, a partir da análise dos discursos religiosos contrários ao ideal do multiculturalismo, assim espero. 10 Martins (2010; 2015) sublinha que nas “situações-limite” estamos sujeitos a aplicação (conscientee inconsciente) de nossos valores morais/culturais mais arraigados, não importando muito nossas ideologias mais “politicamente corretas”. Ações essas que estão no raio de ação do que Carl Gustav Jung chamou de “inconsciente”, definido como um “reservatório de imagens latentes, em geral denominadas imagens primordiais, as quais dizem respeito ao desenvolvimento mais primitivo da psique” (Hall e Norbdy, 2005: p.33), que herdamos dos nossos antepassados e da nossa rede de socialização como um todo. 11 Aqui o autor se refere diretamente às vítimas dos atentados terroristas ocorridos em Nova Iorque, no dia 11 de setembro de 2001. 9 Somente um fervor igual e contrário será capaz de suportar. Não creio que o caráter sagrado da vida humana e as liberdades inalienáveis de uma sociedade justa sejam valores relativos. São valores religiosos absolutos diretamente decorrentes da afirmação de que não fomos nós que criamos Deus à nossa imagem, mas, sim, Deus que nos criou à Sua. Pertencem a uma tradição partilhada por judeus, cristãos e muçulmanos – que passaram grande parte de sua história em mútua hostilidade. A cura deve surgir das experiências religiosas para aqueles cujas vidas são governadas por essas experiências. Se vier de algum lugar, deve ser do próprio vendaval, e isso significa que cada um deve lutar contra as forças do extremismo nas nossas religiões. (Sacks, 2013, p.34) Portanto, Sacks defende que mais do que posicionamentos universalistas ou relativistas, o importante é tomarmos cuidado com as posições extremistas que se formam no seio dos grupos sociais. Daí, compreende-se a sua definição de “extremismo religioso” como uma reação aos “efeitos do capitalismo global”, um movimento contra um modo de vida que gera injustiças, consumismo, exploração, incapacidade de enfrentar a proliferação da pobreza e das doenças e, uma “monstruosa insensibilidade às tradições e culturas locais” que anda de mãos dadas com a “pobreza espiritual” e a “riqueza material”. (Sacks, 2013, p.33) As consequências das posições extremadas são “geralmente trágicas e constituem sempre uma afronta à dignidade humana”. (Idem,p.73) Sendo que, a alternativa à essa maneira de pensar e viver as relações cotidianas, seria considerar da possibilidade de convivência pacífica e dialógica entre os seres humanos na sua diversidade. Da perspectiva fundamental do judaísmo afirma-se, por exemplo, “a unicidade de Deus e a pluralidade do homem”, a qual “vai além do tribalismo e de sua antítese, o universalismo”. O tribalismo recusa dar direitos ao estrangeiro. O universalismo lhe concede direitos, mas na condição de ele se converter, se conformar, se assimilar e, assim, deixar de ser um estrangeiro. O tribalismo 10 transforma o conceito de povo eleito no de raça superior. O universalismo transforma a verdade de uma cultura na medida da humanidade. (Sacks, 2013, p.73) Agindo assim, finaliza Sacks(2013), podemos vivenciar momentos de diálogo que quebrem algumas das nossas auto- imagens narcisísticas e contribuam para a dissipação dos sofrimentos, humilhações e ressentimentos alheios.12 Por isso, aceitar a existência da dignidade da diferença é uma alternativa à guerra das civilizações prevista por Samuel Huntington, defende Jonathan Sacks. A Dignidade da Diferença em outros Discursos Religiosos Contemporâneos Sobre essa relação entre universalismo e particularismo cultural, Tenzin Gyatso, o XIV Dalai Lama, assim descreve a sua experiência: Enquanto eu crescia no Tibete, e especialmente depois que comecei a me dedicar seriamente aos estudos do pensamento e à prática budista clássica a partir de meus quinze anos, costumava achar que minha própria religião budista era a melhor de todas. Eu achava que simplesmente não poderia existir outra tradição de fé que rivalizasse com a profundidade, a sofisticação e o poder inspirador do budismo. 12 A respeito da sociedade global e das possibilidades de paz no mundo de “guerra às drogas”, escreve Escobar(2017, p.222-223): “Assim, teve início nosso lento processo de reinserção na sociedade global: cada vez mais pessoas nos reconheciam como uma família que também precisou levar nas costas o peso de uma guerra, com parentes mortos e desaparecidos, sequelas físicas e psicológicas, cicatrizes e a necessidade de seguir construindo um ambiente de tolerância, respeito e humildade suficientes para reconhecer que nosso sobrenome era sinônimo de dor.” (grifos nossos) Nessa fala, o autor se refere ao legado deixado pelo seu pai, o mundialmente conhecido traficante colombiano Pablo Escobar. 11 As outras religiões deveriam ser, na melhor das hipóteses, “mais ou menos”. Agora, em retrospectiva, sinto-me envergonhado de minha ingenuidade, por mais que fosse a ideia de um adolescente imerso em sua própria tradição religiosa herdada. Sim, eu tinha uma vaga consciência da existência de uma grande religião chamada cristianismo, que propunha o caminho da salvação por meio da vida de seu salvador, Jesus Cristo. […] É desnecessário dizer que tal ingenuidade só pôde ser mantida enquanto permaneci isolado de qualquer contato real com as outras religiões do mundo. (Dalai Lama, 2014:13-14) No decorrer dessa narrativa de encontro inter-cultural, Dalai Lama afirma que passou a encontrar praticantes de outras religiões, cristãs e não-cristãs. Um desses interlocutores foi Rajendra Prasad13, cuja “humildade e profunda humanidade fizeram-me sentir que, em sua companhia, eu estava na presença de um homem verdadeiramente espiritualizado, um ser dedicado ao ideal de uma vida de serviço autenticamente altruísta14”. (Dalai Lama, 2014, p.15) Em relação aos cristãos, Dalai Lama narra o encontro com o monge trapista Thomas Merton enquanto um momento que “abriu meus olhos para a riqueza e profundidade da fé cristã”. (Idem, p.23) Vi em Merton um monge que se preocupava profundamente com o mundo, que acreditava apaixonadamente no poder da espiritualidade para curar as feridas da humanidade e mantinha uma intensa busca espiritual. Como defensor do diálogo inter-religioso, ele se interessava em conhecer a fundo os domínios de outras tradições de fé – o 13 Trata-se de um político e educador hinduísta, que foi o primeiro presidente da Índia. 14 O cultivo da generosidade e da paciência são algumas das práticas que, segundo o budismo tibetano, levam o homem ao Despertar do sono da ignorância ou Iluminação. Para maiores informações ver: Kalu Rinpoche (1999). 12 budismo, no caso de suas conversas comigo – para poder, por assim dizer, sentir o gosto real dos ensinamentos representados pelas outras tradições. Para mim, o interesse de Merton pelo budismo foi uma verdadeira inspiração, no sentido de que isso refletia uma grande coragem da parte dele para explorar tradições diferentes da sua. Em nossas discussões, de tempos em tempos ele me lançava um olhar profundo e penetrante, indicando sua plena atenção à conversa. (Dalai Lama, 2014, p.22-23) Nesse encontro, entre o monge católico e o monge budista, os interlocutores descobriram similaridades profundas nos seus modos de ser e viver. De que, sob a aparência das diferenças das tradições religiosas, havia uma essência que os tornava parte única da Humanidade. Ao mesmo tempo, Merton continuou a ser católico e Dalai Lama budista. Nenhum deles teve que abrir mão da própria identidade religiosa durante esse encontro: apenas os limites de Humanidade se alargaram. Conforme assinala Teixeira(2012a, p.58, nota de rodapé 171), Thomas Merton busca uma experiência religiosa de “realização tradicional e interior”, sem deixar de estar disponível “a sua ultrapassagem”, na medida em que esse experimento (religioso) é marcado “pela abertura sempre renovada ao aprendizado de novas experiências e linguagens”. Dialogar com o “outro”, desapossando-se das pretensões de superioridade cultural, entretanto, é um empreendimentopara poucos, alerta o teólogo Faustino Teixeira.15 Isso porque: Para se adentrar de fato no mundo da conversação com o outro, em âmbito existencial, requer-se atitude e também vontade de assumir o 15 Faustino Teixeira tem doutorado e pós-doutorado em teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, e é professor associado do Programa de Pós-graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora. Para maiores informações ver: . [Acessado em abril de 2017.] http://www.nhanduti.com/NH_2012/Teixeira.PT/Faustino%20Teixeira.Biografia.html http://www.nhanduti.com/NH_2012/Teixeira.PT/Faustino%20Teixeira.Biografia.html 13 risco de se envolver no solo sagrado da alteridade. Trata-se de uma aventura exigente, pois o diálogo verdadeiro implica despojamento e abertura sincera. (Teixeira, 2012b:182)16 Desse modo, nas situações de contato inter-cultural coloca- se o risco de perda da própria identidade, o que causa certo horror a alguns atores históricos, especialmente àqueles que são defensores mais sinceros e fervorosos das suas próprias tradições religiosas. O padre jesuíta Aloysius Pieris17,, por exemplo, teve acesso a histórias de cristãos e budistas, no Sri Lanka, nas quais não houve reciprocidade nas tentativas de diálogo inter-religioso18 e, em alguma medida, o tratamento indigno entre os grupos em questão. Conta Pieris(2008), que foi mandado pelos seus superiores hierárquicos para esse país asiático, com o objetivo de estudar o budismo valendo-se da realização de um doutorado em filosofia budista. O tratamento cordial dado a ele pelos líderes budistas, entretanto, não escondeu as suspeitas em relação às suas “verdadeiras intenções”. -Naquele tempo, eu vivia numa feliz ignorância acerca de uma razão justificável para sua suspeita. - relata Pieris(2008, p.26) O que ele descobriu, posteriormente, é que essa desconfiança estava alicerçada numa constrangedora história de 16 Teixeira, Faustino. “O imprescindível desafio da diferença religiosa”, In.: Revista REMH. Brasília, Ano XX, No 38, pp.181-194, jan./jun,2012b. 17 Aloysius Pieris nasceu em Ampitya, Sri Lanka.Entretanto, ele teve uma educação católica que criou uma fronteira identitária dele em relação aos praticantes do budismo naquele país. Reconhecemos, no entanto, que nos faltam maiores informações biográficas do autor para compreender esse processo. 18 Ver Pieris (2008). 14 “agressão anti-budista” cometida pelos europeus que lá estiveram desde o século XVIII. Histórias relatadas pelos budistas a Pieris (2008) davam conta que inicialmente houve auxílio aos missionários cristãos nas suas atividades evangelizadoras, já que para os budistas seria possível uma convivência fraterna entre indivíduos de diferentes religiões. Mas, que as iniciativas anti-budistas por parte do Governo Colonial Britânico e dos grupos cristãos abalaram fortemente a confiança entre esses grupos religiosos. A criação de escolas profissionais dirigidas pela minoria cristã, a publicação de propaganda anti-budista na Imprensa e a incentivo a Debates Públicos que visavam mostrar a pretensa “inferioridade” das crenças budistas em relação às cristãs, foram algumas das ações que apagaram as possibilidades de diálogo inter-religioso. (Pieris, 2008, p.26-27) Nessa época, os budistas davam transporte gratuito aos missionários cristãos (nos seus carros de boi) quando estes se dirigiam a áreas distantes das cidades. Ocorreu que, certa vez, numa localidade chamada Colombo, religiosos budistas pediram aos missionários a cessão de um salão no qual realizariam algumas de suas festividades. A resposta (nada recíproca) dada pelos cristãos foi que, eles não poderiam emprestar seu salão, uma vez que tal ação equivaleria a “cooperar com o erro!”. (Pieris, 2008, p.28) A palavra “erro”, nesse caso, equivalia a afirmar que, quaisquer doutrinas religiosas não-cristãs seriam heresias. De modo que, esses episódios deixaram claro, para os budistas, que um dos objetivos principais dos cristãos era eliminar qualquer outra religião que eles considerassem um “erro”. A confirmação dessa hipótese ocorreu algum tempo depois do incidente acima narrado. Segundo essa história, que ouvi do Rev. Dr. W. Rahula Thera, as visitas dos missionários cristãos a um templo para pregar eram bem- 15 vindas por parte do clero budista, mas os missionários estavam decepcionados, pois estes monges, embora impressionados com a pessoa de Cristo, não demonstravam nenhum sinal de “conversão”. Os mesmos missionários sofreram outro choque quando os monges lhes estenderam um convite para participar de uma de suas cerimônias budistas, obviamente como prova da apreciação recíproca das iniciativas cristãs que compartilharam sua fé com os budistas. Compreendendo esse gesto dos monges como uma rejeição obstinada da luz da verdade, e esperando apressar a hora da graça sobre os “pagãos envoltos na escuridão do erro”, aqueles missionários chegaram no dia combinado, não com presentes que agradariam aos monges, mas com escritos depreciativos sobre a pessoa e a doutrina do Buda que eles distribuíram no Templo no momento exato de receberem as boas-vindas! A insensibilidade rude demonstrada pelos evangelizadores levou os budistas a uma percepção clara da verdadeira natureza da agenda cristã. (Pieris, 2008, p.28, grifos do autor) A ideia de que o cristianismo é a “religião absoluta” ou a “religião da superioridade última”19 (Teixeira, 2012a), tem provocado frequentemente encontros conflituosos entre cristãos e não-cristãos, embora devamos ressalvar que esta não pode ser considerada a causa necessária e suficiente do fênomeno da intolerância religiosa no mundo contemporâneo. 20 A respeito dos choques de convivência entre cristãos e não- cristãos, narra o monge budista Thich Nhat Hanh: 19 Segundo essa visão de mundo, “O cristianismo não é somente de fato a religião superior a todas as outras existentes, mas representa a autorrevelação de Deus definitiva, essencialmente insuperável, de validade exclusiva e universal para todos os homens de todos os tempos.” (Teixeira, 2012a, p.111) 20 No cenário brasileiro, por exemplo, podemos encontrar cristãos exclusivistas que convivem harmoniosamente com indivíduos de outros grupos religiosos. Pelo menos essa é a experiência de vida do autor deste ensaio. De modo que, o exclusivismo não pode ser considerado a causa necessária e suficiente da intolerância religiosa no mundo contemporâneo. 16 Durante uma conferência sobre paz e religião, um pastor protestante aproximou-se de mim perto do final de uma das refeições que fizemos juntos e disse: -Você é uma pessoa grata? Fiquei surpreso. Eu estava comendo lentamente, e pensei: - Sim, sou uma pessoa grata. O pastor prosseguiu: -Se você é realmente grato, como pode não acreditar em Deus? Deus criou tudo o que desfrutamos, inclusive o alimento que comemos. Como não acredita em Deus, você não é grato por nada. Pensei comigo mesmo: -Sinto-me extremamente grato por tudo. Todas as vezes em que toco a comida, sempre que vejo a flor, quando respiro ar puro, sempre me sinto grato. Por que ele diria que não sou? Foi pensando nesse incidente, muitos anos depois, que propus a alguns amigos em Plum Village21 que celebrássemos todos os anos um Dia de Ação de Graças budista. Nesse dia, praticamos a verdadeira gratidão – agradecendo a nossos pais, mães, ancestrais, amigos e todos os seres por tudo. Se você encontrar aquele pastor protestante, espero que diga a ele que não somos mal-agradecidos. Somos profundamente gratos por todas as pessoas e todas as coisas. (Thich Nhat Hanh, 1997, p.45-46) Nessa cena, percebe-se que houve uma ação desastrada e rude por parte do pastor protestante. Ele simplesmente não percebeu que estar à mesa é um momento sagrado para os budistas;que o silêncio, a mastigação lenta, a atenção plena ao ato de comer, são sinais de respeito e agradecimento pelo alimento e pelas pessoas com as quais se compartilha esse momento. De modo que, uma discussão sobre a existência (ou inexistência) de Deus nesse momento sagrado seria, no mínimo, uma indelicadeza do ponto de vista do monge budista. 21 Centro de prática budista Theravada fundado por Thich Nhat Hanh, em 1982, próximo da cidade francesa de Bordeaux. Para maiores informações acessar o site: https://plumvillage.org/ 17 Nessa cena percebemos, também, a postura um tanto arrogante por parte do líder cristão, a qual não combina com as melhores intenções de diálogo inter-religioso, já que pode nos levar a ações que desrespeitem a dignidade do próximo. Conforme diz Pieris (2008), dialogar significa despir-se do orgulho e do preconceito: é um ato de profunda humildade que nos prepara para “abrir o baú de tesouros” da sabedoria dos nossos interlocutores e transformar a nós mesmos, sem que haja o medo de perder as nossas próprias identidades. A metamorfose de Aloysius Pieris e o projeto de uma “simbiose das religiões” Teixeira (2012a) chama atenção para o fato das teologias que tratam o cristianismo como uma “religião absoluta” serem de dois tipos: “exclusivistas” (que “vinculam a possibilidade de salvação ao conhecimento explícito de Jesus Cristo e a pertença à Igreja”22), e “inclusivistas” (que atribuem um “valor positivo para outras religiões e o seu reconhecimento como mediações salvíticas para seus membros”23). O “paradigma pluralista”, por sua vez, surge como uma reação teológica tanto ao “exclusivismo” quanto ao “inclusivismo”, no sentido de criticar a noção de que o cristianismo é a “religião da superioridade última” (Idem, p.112): Na busca de um “novo ângulo” de compreensão do cristianismo, os teólogos pluralistas propõem uma mudança de paradigma para além do exclusivismo e do inclusivismo, e isto implica “renunciar à visão 22 Teixeira(2012a, p.21). 23 “Mediante o seu Espírito, Cristo se faz presente e ativo no crente não cristão, operando para além dos limites visíveis da Igreja, tanto na vida individual como nas diversas tradições religiosas”. (Teixeira, 2012, p.29) 18 ptolomaica tradicional, segundo a qual todas as religiões giram em torno do Cristo e do cristianismo como seu centro, para adotar uma visão segundo a qual todas as religiões, inclusive o cristianismo, giram em torno do sol, que é o mistério de Deus como Realidade suprema”24. Nesse teocentrismo propugnado pelos teólogos pluralistas, o cristianismo deixa de ser o “único e exclusivo meio de salvação”, e as outras tradições religiosas aparecem como instâncias legítimas e autônomas de salvação, como religiões verdadeiras e não como um cristianismo diminuído. (Teixeira, 2012a, p.112, grifos do autor) É nesse contexto de crítica aos paradigmas “exclusivista” e “inclusivista” que podemos perceber a vivência de Aloysius Pieris enquanto possibilidade de convivência com a pluralidade religiosa no mundo contemporâneo que o leva, num caso particular, a mergulhar em um processo de metamorfose identitária, sobre o qual nos debruçaremos nos parágrafos seguintes. Como foi dito na sessão anterior deste ensaio, havia uma grande desconfiança em relação ao trabalho de Pieris, principalmente de que ele reproduzisse os escritos apologistas cristãos. Certo professor da Universidade do Sri Lanka, por exemplo, apesar de muito prestativo: […] pensava que eu teria uma chance melhor de conseguir um doutorado em budismo numa universidade ocidental! Sua impressão era que a minha cultura(sic!) tinha uma tradição de fazer psicologia no sofá (por exemplo, “Hmm, você tem um problema com o seu pai”), enquanto a cultura dele usava a introspecção como um guia mais seguro. Ele me aturdiu com a observação de que a minha formação (cristão-ocidental) me alienou tanto da cultura budista local, que ela não me ajudaria a compreender as implicações sutis da ético- psicologia budista porque eu era ignorante da experiência que estava por detrás disso…, a não ser, claro, que eu decidisse passar por essa experiência! (Pieris, 2008, p.29, grifos do autor) 24 Esta longa citação é do próprio autor, que na nota de rodapé 399 (página112), se refere a uma séria de teólogos que defendem o paradigma pluralista, dentre eles, Claude Geffré, John Hick e Hans Küng. 19 Experiência intersubjetiva que, nesse caso, significava a iniciação no universo das práticas budistas, cuja lógica contemplativa é distinta do paradigma empiricista da ciência ocidental moderna, já que no budismo o conhecimento é apreendido a partir da tríade escuta/estudo/acesso a informação (TÖ), reflexão/exame/análise (SAM) e prática/aplicação/experimentação(GOM).25 De modo que, do ponto de vista budista, existem três critérios que tornam uma afirmação válida: a verificação pela experiência direta, a dedução irrefutável e o testemunho digno de confiança26. (Revel e Ricard, 1998, p.49) Perspectiva essa, que faz com que o budismo não seja uma “análise teórica puramente intelectual”, mas, sobretudo, um “conhecimento contemplativo direto sobre a natureza do espírito, adquirido pela experiência e não apenas pela reflexão analítica”. (Idem, p. 86) Conforme nos esclarece Matthieu Ricard: No domínio científico, a pessoa é constantemente levada a acreditar, pelo que é dito, em incontáveis descobertas, em cálculos matemáticos, sem ter tido a menor experiência direta. Aceita-se a validade dessas descobertas porque se sabe que alguns cientistas respeitáveis verificaram tais hipóteses isoladamente, tendo obtido os mesmos resultados, e que outros cientistas podem verificá-los se quiserem ter esse trabalho. [...] 25 Kalu Rinpoche(1999,p.119) e Lama Trinle (2014). 26 A confiança nos mestres, no budismo tibetano, é dada pela autoridade moral- espiritual deles. Nas palavras do monge Matthieu Ricard, “é avaliando o ser deles em seu conjunto que se chega à conclusão de que esses sábios sabem do que falam quando fornecem indicações que permitem reconhecer um sucessor espiritual. Por que eles desejariam enganar? Na maioria, vivem como eremitas, não procuram convencer quem quer que seja, nem passar à frente de ninguém.” (Revel e Ricard, 1998, p.51) 20 [No plano da ciência contemplativa] é muito difícil julgar as afirmações daqueles que, ao longo de uma vida, desenvolveram qualidades espirituais fora do comum. Para aprender essas qualidades, seria preciso tê-las desenvolvido em si mesmo, o que implica toda uma vida de trabalho ao mesmo tempo analítico e contemplativo sobre o espírito. (Revel e Ricard, 1998, p.45-46) Quando conscientizou-se da peculiaridade contemplativa da forma de conhecimento budista, e que jamais compreenderia o que genericamente chamamos “filosofia budista” sem a prática meditativa, Pieris (2008) viu-se compelido a aceitar o desafio do irônico professor da Universidade do Sri Lanka, tornando-se discípulo de um monge budista. Vários monges foram recomendados como bons mestres de meditação. Perdi duas vezes o momento da graça, por causa do meu orgulho e do meu preconceito. O que poderiam me comunicar aqueles reclusos mastigadores de beetle27, criados em aldeias e nem sequer capazes de falar inglês? De fato, eu andava com os meus pensamentos caprichadamente registrados em fichários, esperando receber deles esclarecimentos que não podia receber porque não conseguia perceber que séculos de sabedoria residiam ocultos nas vidas e mentes desses monges. (Pieris, 2008, p.29-30) Pieris(2008) percebeu que fichar diários, entrevistar interlocutores, nenhum desses métodos comumentemente utilizados pela filosofia e pelas ciências ocidentais o ajudaria a compreender o universo das crenças budistas. Somente mergulhando numa prática meditativa intensa, guiada pelos monges, ele poderia contemplaro universo de vida dos seus interlocutores. Mas, isso significava ter uma postura de “humildade” em relação ao modo de vida dos monges budistas, o 27 “Costume nas classes baixas de mastigar um tipo de pimenta envolta em folha de uma árvore para combater a fome. Funciona como droga”. (Nota do tradutor do livro de Pieris, 2008, p.30) 21 que implicava em abdicar da crença de que o cristianismo é uma “religião absoluta”. Ao quebrar o olhar etnocêntrico, Pieris permitiu transformar-se. Despir-se de tudo que é familiar, para ser livre, foi um desafio. Os meus conceitos recebidos de “Deus”, “Cristo”, “Igreja” não eram mais o que pareciam ser. Precisei renunciar a eles. Liberdade vem por meio da renúncia; a liberdade absoluta vem de uma renúncia total. Entrei no Desconhecido. (Pieris, 2008, p.30) Apropriando-se do filósofo Richard Rorty, Soares (1996, p.19) escreve que a metamorfose é um processo de compaixão e piedade, a realização mais radical da intersubjetividade, na qual “o homem ousa experimentar a paixão de transformar-se e de converter-se em outro, aceitando-o integralmente e pondo-se, imaginária e afetivamente, em seu lugar, assumindo seu ponto de vista.” Acreditamos que esse conceito nos ajude a compreender o processo vivenciado por Pieris(2008), principalmente o momento em que ele “humildemente” aceita tornar-se discípulo de um monge budista mastigador de beetle. A graça aconteceu somente quando comecei a vislumbrar que tinha que juntar presentes (frutas e verduras), prostar-me diante de um monge e humildemente pedir para ser seu discípulo. Esse ato de humildade era a chave que poderia abrir o baú de tesouros, antigo e de aspecto mofado, que continha a sabedoria de gerações de pessoas santas. (Pieris, 2008, p.30) À esse evento, Pieris se refere como um “batismo” que mudou a própria percepção que ele tinha da fé cristã. A minha leitura da narrativa evangélica sobre o batismo de Jesus no Jordão nunca mais foi a mesma, depois daquele acontecimento. Jesus foi suficientemente humilde para procurar o discipulado de um grande 22 Guru asiático dos seus dias28, misturando-se com os simples e os humildes. De fato, foi depois daquele ato de autorebaixamento (é esta conotação que a palavra “batismo” tem na experiência de vida de Jesus) que os céus se abriram e revelaram sua autoridade como de um messias-servo modesto. Sua credibilidade foi revelada em sua humildade. Senti que a igreja colonial e neocolonial estava tentando mais ensinar aos asiáticos do que aprender deles. Como a colher no curry, a igreja permanece densa e insensível demais para ser capaz de provar e digerir a espiritualidade da cultura. Na Ásia, ela não chegou a ter autoridade porque não aprendeu a renunciar ao seu poder. Este se tornou o ponto central na teologia asiática que estava germinando na minha mente e nos meus seminários, anos mais tarde. Isso me levou a outro batismo29.(Pieris, 2008, p.30, grifos do autor) A “teologia asiática” ou os “estudos inter-religiosos comparativos a partir de uma perspectiva asiática”, aos quais Pieris se refere, recebeu o nome de “simbiose das religiões”, definida como a “conversão de pessoas à herança comum de todas as religiões (beatitudes), e também uma conversão à especificidade de sua própria religião, desafiada por crentes de outras religiões no diálogo inter-religioso”. (Pieris, 2008, p.21) Uma perspectiva teológica que, como já foi dito, se contrapõe aos paradigmas “exclusivista” e “inclusivista”. 28 Nessa passagem Pieris se refere ao batismo de Jesus por João Batista, narrado em Mateus 3:13-17; Marcos 1:9-11; Lucas 3:21-22 e João 1:32-34. O guru asiático, esclarece Pieris(2008), é tido como uma pessoa que possui profundo conhecimento de alguma linha filosófica do hinduísmo, budismo ou sikhismo, um indivíduo realizado espiritualmente, um sábio semelhante a João Batista. 29 O segundo batismo de Pieris foi a opção pelos pobres, motivada pela situação de miséria de alguns estudantes que frequentavam a universidade, e pelos eventos de abril de 1971 no Sri Lanka, quando houve uma insurreição da juventude contra o “sistema econômico injusto orientado pelo Ocidente” naquele país. Identidade que o referido autor tem com a “teologia da libertação” católica. (Pieris, 2008, p.31-33) 23 Para falar do significado mais profundo dessa experiência de simbiose inter-religiosa, Pieris conta uma história ocorrida com ele em Benares, na beira do rio Ganges, na Índia. Certo dia, o referido autor encontrou um grande templo dourado naquela cidade e decidiu nele adentrar, mas foi barrado. Talvez devido a sua aparência humilde, ou por não aparentar ser da casta brâmane, um homem o interpelou: - Que fazes aqui? - Vim buscar Deus. - respondeu Pieris. Foi, então, que o interlocutor fez um gesto rude para que ele fosse embora dali, já que ele não era bem-vindo naquele espaço. Dessa maneira comecei a experimentar o que o Buda sentiu quando condenou certo tipo de religião clerical, uma religião comercializada, uma religião vinculada a castas. Saí com um sentimento de decepção e desânimo. (Pieris, 2008, p.23) Nesse trecho, possivelmente Pieris (2008) está se referindo às divergências entre o Buda histórico e os adeptos do Bramanismo.30 Sobre essa questão - durante palestra e posterior conversa informal com o Lama Drime, do Centro Budista Tibetano Kagyü Pende Gyamtso, no dia 30 de abril de 2017 -, nos foi informado de que Buda fazia questão de mostrar que a Sangha31 não era uma corporação e, nem o próprio Buda, o seu líder: todos eram apenas monges. Portanto, no budismo, ao contrário do 30 Agradeço aos Lama Pelmo e Drime, do Centro Budista Tibetano Kagyü Pende Gyamtso, por revisarem os trechos relativos a doutrina budista neste ensaio. A partir da generosidade deles, creio ter sido possível evitar incorreções ao falar desse importante sistema de crenças religiosas. 31 A Sangha é a comunidade de praticantes dos ensinamentos do Buda, os quais levariam os indivíduos ao Despertar da ignorância. 24 bramanismo, não existiam os “eleitos”, as castas ou grupos privilegiados: todos os seres teriam a mesma possibilidade de alcançar o Despertar da ignorância, segundo os seus próprios méritos.32 Voltando à história de Pieris(2008), apesar de decepcionado com a resposta negativa, ele percebeu que ao lado do templo havia o Ganges, o rio sagrado para os hindus, que era um espaço de acesso livre a qualquer pessoa. Naquele dia, crianças, adultos e, até dois leprosos, se banhavam livremente naquelas águas. Pieris, então, percebeu o contraste entre o templo e o rio. O templo era uma construção de seres humanos, mas o rio foi feito por Deus, água descendo do Himalaia Sagrado, água aberta para qualquer pessoa. Ninguém vigia o rio, e as pessoas entram e saem. (Pieris, 2008,p.24) Percebendo a importância daquele momento, o sacerdote católico sentiu a necessidade de se banhar naquelas águas sagradas, “junto com as outras pessoas, nesse âmbito de liberdade dada por Deus”. (Ibidem) Então, tirei minhas roupas de cima, coloquei-as no chão e entrei. Observei o que as pessoas faziam e fiz exatamente o mesmo, mergulhando na água, mas logo percebi que estava atraindo atenção. Será que fiz algo estranho, perguntei-me. Todos estavam me olhando, e alguns perguntaram: “Você é de onde?” - “Sou do Sri Lanka”, disse. Podia ler hindi, graças ao meu sânscrito, e tinha aprendido palavras suficientes para me comunicar. Todos 32 Para os interessados em se aprofundar nos ensinamentos do budismo tibetano que levam os seres humanos ao Despertar da ignorância, sugerimos a leitura de Gampopa (O Precioso Ornamento da Liberação) e Patrul Rinpoche(As Palavras de meu Perfeito Mestre), ambas disponíveis no site , Acessadoem 01 de maio de 2017. http://http/www.kalu.org.br/index.php/estudos/estudos-selecionados/gampopa-o-precioso-ornamento-da-liberacao http://http/www.kalu.org.br/index.php/estudos/estudos-selecionados/gampopa-o-precioso-ornamento-da-liberacao 25 estavam falando de mim. Então percebi que foi a cruz pendurada no meu peito que tinha atraído o olhar das pessoas. Foi por isso que me perguntavam de onde eu era. Nessa atmosfera de “tolerância absoluta”, senti que eu estava livre para falar, livre para agir e livre para cultuar. De repente me dei conta de que esse banho era o sacramento de Deus, não uma perversidade humana que polui a religião em nome da pureza ritual. Naquela extensão vasta do espaço, com as pessoas comungando com a natureza, com a água e com Deus, senti que realmente toquei algo além da religião e que tinha tocado, portanto, o âmago da verdadeira religião. Qualquer pessoa podia entrar na água, assim como Deus não é o monopólio de ninguém, mas acessível para cada uma e em qualquer lugar. Pode alguém impedir você de entrar em Deus? O Ganges foi o Sacramento da disponibilidade universal Dela. (Pieris, 2008, p.2008, grifos do autor) Se estamos certos, o Ganges, esse espaço de “tolerância absoluta” (e não o templo religioso, no qual ocorreu a segregação), é um lugar de encontro entre o homem e Deus. Daí o fato de Pieris se referir a esse momento como sendo de Sacramento, de encontro com “âmago da verdadeira religião”, lembrando o significado do termo latino “religare”. Um ritual que não se referia a uma crença religiosa particular, mas ao simbólico que liga a humanidade ao Absoluto. Ao sair do rio, Pieris realizou a eucaristia, que é um dos Sacramentos católicos33, o qual celebra essa comunhão com Deus. Preciso professar a minha fé dessa maneira, independentemente do que faz a religião feita pelo ser humano, em termos de regras e regulamentos (como celebrar, onde celebrar, regras que vêm do tipo de religião que acabara de ver naquele templo). A religião de Cristo prescreve uma outra forma de celebração, convida para que a fé seja 33 No catolicismo são celebrados sete Sacramentos: batismo, confirmação (ou crisma), eucaristia (a celebração da memória de Cristo), reconciliação (penitência ou confissão dos pecados), unção dos enfermos, ordem(autoridade para exercer funções e ministérios eclesiásticos) e matrimônio. 26 professada num culto “sempre e em todo o lugar”. Não há lugares limitados para a eucaristia. […] Realmente, no contraste entre o templo e o rio, entendi novamente como a eucaristia pode ser um sinal de segregação e como também ser um sacramento de libertação para todos nós. Se o templo era o símbolo de uma religião de leis, o rio era o símbolo do Reino de Deus. Depois de vestir minhas roupas, estendi meu xale sobre a beira arenosa, coloquei nele meu pequeno crucifixo que sempre levo no meu rosário, acendi minhas varinhas de incenso de sândalo e sentei de pernas cruzadas. Quando comecei a celebrar a eucaristia, com um pouquinho de pão que ganhei das Irmãzinhas de Jesus (Irmãzinhas de Charles Foucauld), vieram algumas pessoas e sentaram ao meu lado. Elas sentiram que algo santo e divino estava acontecendo. Não pude contar o número de pessoas que se reuniram em torno de mim quando sentei. Você pode imaginar simplesmente os milhares e milhares que estavam naquele lugar, alguns se banhando, outros apenas passando. Alguns permaneciam onde eu estava, e outros foram embora; foi uma atividade muito livre e aberta. (Pieris, 2008, p.24-25) Aparece aqui, novamente, o contraponto entre os ritos institucionalizados dos templos religiosos e o que o autor chama de “religião de Cristo”, que é uma forma de celebrar Deus “sempre e em todo o lugar”, livre dos julgamentos doutrinários, notadamente aqueles que afirmam que o cristianismo é uma “verdade absoluta”. Entretanto, faz-se necessária uma ressalva. Apesar da crítica que Pieris(2008, p.79) faz das obras produzidas por Dalai Lama e Thic Nhat Hahn enquanto “aproximações inclusivistas” - que colocam o budismo no “molde cristão” ou o cristianismo numa “forma budista”-, acreditamos que esses autores convergem, fundamentalmente, no que se refere a importância de considerar a possibilidade de vivermos num mundo que dignifique a existência das diferenças religiosas e culturais, sem que isso seja um obstáculo a convivência fraterna entre os diferentes indivíduos que participam desses grupos religiosos. Nesse sentido, podemos dizer que esses autores compartilham da perspectiva de Sacks(2013) de 27 que é preciso tratar o diferente de modo digno e respeitoso. Assim sendo: Pode-se conhecer Buda e Jesus ao mesmo tempo. Existem pessoas com raízes tanto na tradição budista quanto na cristã. No altar do meu eremitério coloquei diversas estatuetas de Buda, mais ou menos dez ou quinze, muito pequenas, com um centímetro de altura e outras maiores. Também tenho uma imagem de Jesus como meu ancestral. Adotei Jesus como um dos meus ancestrais espirituais. Durante a guerra do Vietnã trabalhei muito para que as mortes cessassem. Quando estive na Europa e nos Estados Unidos, conheci inúmeros cristãos que realmente incorporaram o espírito do amor, da compreensão e da paz de Jesus. Graças àquelas pessoas consegui um estreito contato com Jesus como mestre espiritual, como um ancestral espiritual.” (Thic Nhat Hahn, 2002, p.170-171) Encontros culturais esses que podem levar os indivíduos a constatarem que existe uma ancestralidade comum à diversidade religiosa, que culmina, em alguns casos particulares, na “simbiose das religiões” (Pieris, 2008). A fala desses autores valoriza o ideal de que existe uma dignidade humana que transcende as particularidades culturais dos indivíduos; que o contato entre os diferentes, ao invés de gerar a guerra, pode gerar a paz, a confraternidade e o respeito ao próximo. Estamos vivendo tempos de individualismo, violência, do predomínio da ignorância. As pessoas não conseguem mais qualquer entendimento, conversa ou comunicação umas com as outras. Vivemos em uma época de destruição em todos os lugares e muitos estão à beira do desespero. É por isso que o Buda deveria ser ajudado. É por isso que Buda deveria ser ajudado. Em vez de se discriminarem, Buda e Jesus precisam se reunir todos os dias, todas as manhãs, tardes e noites como verdadeiros irmãos. Este encontro é a esperança para o mundo. Buda e Jesus precisam se reunir em nós todos os momentos. Cada um de nós, na prática diária, precisa tocar o espírito do Buda e de Jesus para que se manifestem. Estas energias são cruciais para envolvermos nosso medo, desespero e ansiedade. É possível, de 28 acordo com Eles, recuperarmos a esperança, a paz e a segurança. (Thic Nhat Hahn, 2002, p.174-175) Considerações Finais O teólogo Faustino Teixeira defende que caminhemos na direção de uma teologia do “pluralismo religioso”, tendo em vista que “a acolhida da diversidade religiosa e o imperativo dialogal são desafios fundamentais que se apresentam no século XXI”. (Teixeira, 2012b:181) Porém, alerta ele: Para se adentrar de fato no mundo da conversação com o outro, em âmbito existencial, requer-se atitude e também vontade de assumir o risco de se envolver no solo sagrado da alteridade. Trata-se de uma aventura exigente, pois o diálogo verdadeiro implica despojamento e abertura sincera. (Teixeira, 2012b:182) Citando Tracy (1997), o referido ator diz que a “conversação dialogal” nos coloca numa posição inquietante, já que o sujeito arrisca toda a sua “auto-compreensão ao levar a sério as posições do outro”, as quais exigem para si “o reconhecimento de sua autenticidade e verdade”. (Teixeira, 2012b, p.182) Por isso, “o pluralismo traz consigo instabilidade, inquietudes e tensões, pois instaura um desequilíbrio no mundo objetivamente construído e conversado”. (Idem, p.184) A convivência com a pluralidade cultural “tendea desestabilizar as auto evidências das ordens de sentido e de valor que orientam as ações e sustentam a identidade” (Berger e Luckmann, 2004 apud Teixeira, 2012b, p.184), gerando a necessidade de uma “contínua explicação ou justificação” das próprias crenças identitárias, quando não, o erguimento de muros protetores que amparem os indivíduos e alivie-os da “necessidade de reinventar o mundo a cada dia.”(Idem, p.183-184) Diante da condição de incerteza que acompanha o pluralismo, muitos tendem a reagir com a busca por “verdade 29 absolutas”, mediante o acirramento identitário e a virulenta defesa da “comunidade”. É assim que se explica a irrupção dos diversos fundamentalismos ou integrismos no mundo atual, que são uma típica reação de defesa cognitiva em face da insegurança de um mundo carregado de possibilidades e interpretações – conclui Teixeira (2012b).34 Se o extremismo religioso tem como causa o exclusivismo religioso, é algo que precisamos melhor investigar, já que até o momento não existem evidências empíricas que possam comprovar tal hipótese.35 O que podemos dizer, por hora, é que os discursos religiosos analisados ao longo deste ensaio trazem consigo um “novo sentido cristológico” para a existência, o qual questiona: […] a centralidade da cultura ocidental, a supremacia de sua perspectiva, ou o cristianismo como a religião superior, ou o Cristo como o centro absoluto em relação ao qual todas as demais mediações históricas são relativas. (Haight, 2003, p. 384-385 apud Teixeira, 2012a, p.183) Reconhecendo que a ideia de “dignidade da diferença” nos traz uma esperança de paz mundial que o discurso do “choque de civilizações” nega ser possível, esperamos que esta reflexão tenha ajudado o leitor a pensar na importância (e nas significações) dos discursos religiosos pluralistas no contexto da “sociedade informacional”36 contemporânea. Resta, no próximo ensaio, a tarefa de visibilizar e refletir sobre os discursos contrários às teses do pluralismo religioso contemporâneo, tentando perceber em que medida eles refletem(ou 34 Para a análise de alguns desses discursos fundamentalistas cristãos, Ver Martins(2010). 36 Castells(1999) 30 não) a ideia de que existe uma dignidade humana transcendente a todos os povos e culturas. Referências Bibliográficas ADORNO, Theodor. O ensaio como forma. São Paulo: Ática, 1994. BERGER, Peter; LUCKMANN, Thomas. Modernidade, pluralismo e crise de sentido. Petrópolis: Editora Vozes, 2004. 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