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HISTÓRIA MODERNA
A CIÊNCIA ANTIGA E A CIÊNCIA MODERNA
Filosofia Medieval Cristã constituiu-se do pensamento cristão e da ciência antiga. A
ciência antiga tinha como base o dogmatismo: era especulativa e partia de interpretações
da Bíblia. A ciência antiga era baseada na lógica e na demonstração de verdade, sem
considerar a observação e a experiência. É o caso da teoria geocêntrica, ou seja, a
teoria que postulava que a terra é o centro do universo, vigorava há quase vinte
séculos e constituía a maneira pela qual o homem antigo e medieval via a si mesmo e ao
mundo.
A concepção medieval cristã via o homem como é o ser supremo da criação divina e
a terra era o centro do universo. A teoria de que a terra era o centro do mundo,
geocentrismo, era uma explicação que justificava tal visão. A ciência antiga era um corpo
de verdades teóricas universais, de certezas definitivas, que não admitiam erros,
mudanças ou crítica.
O novo período – Idade Moderna - vai significar uma ruptura com essa concepção
de mundo dogmática, que não permitia a reflexão e a crítica, por isso, mais uma vez
vamos abordar sobre a filosofia moderna, enfatizando sobre a sua importância para o
desenvolvimento do conhecimento humano.
IDADE MODERNA: SEC. XVII E XVIII
Após a Idade Média, há um período de transição entre o século XV e XVI para a
Idade Moderna, que significou ruptura com a tradição anterior cristã, fundamentada em
Deus, e passou-se a valorizar o homem. É o período chamado Humanismo
Renascentista: artes plásticas, valorização do homem - liberdade e criatividade. É o
momento em que se rompe com a visão sagrada e teológica na arte, no pensamento, na
política, na literatura. Os pensadores desse período passam a valorizar o saber dos gregos
antigos. Valoriza-se o homem e rompe-se com o pensamento teocêntrico, que considera
Deus como o centro de tudo, e a Ciência Antiga.
A Idade Moderna traz a proposta de uma nova ordem e visão de mundo, rejeitando
a autoridade imposta pelos costumes e pela hierarquia da nobreza e Igreja, em favor da
recuperação do que há de virtuoso, intuitivo e espontâneo na natureza humana. Surge um
novo estilo com nova temática.
Valoriza-se o corpo humano, artes, pensamento, política, ciência. É o momento de
novos pensadores e artistas, tais como Leonardo da Vince, William Shakespeare, Rafael,
Maquiavel, Michelangelo, Montaigne.
AS CONDIÇÕES HISTÓRICAS
Surge uma nova maneira de pensar e ver o mundo, resultado das transformações
históricas que ocorreram na Europa. Entre os fatores históricos, pode-se destacar:
O humanismo renascentista do sec. XV
A descoberta do Novo Mundo (sec. XV)
A Reforma Protestante do sec. XVI
A revolução científica do sec. XVII
Desenvolvimento do mercantilismo e ruptura da economia feudal
Grandes núcleos urbanos e a invenção da imprensa.
O HUMANISMO RENASCENTISTA DO SEC. XV
Nasceu na península itálica, sendo um período de transição entre a Idade Média e a
Moderna. Rompeu com a filosofia cristã da escolástica medieval e, valoriza o saber dos
gregos antigos, retomando a concepção do humanismo. O período medieval, anterior, foi
marcado por uma forte visão hierárquica e religiosa de mundo, em que a arte está voltada
para o sagrado, filosofia está vinculada à teologia e à problemática religiosa.
O homem e seus atributos de liberdade e razão passam a ser importantes
novamente, e não apenas as o mundo divino. Nas artes predomina os temas pagãos,
afastados da temática religiosa. É a arte voltada para o homem comum, não mais reis e
santos. Valoriza-se o corpo e a dignidade humana.
Thomas Morus, em a A Utopia, defende a tolerância religiosa, critica o autoritarismo
dos reis e da Igreja, favorecendo a razão e a virtude natural. Maquiavel, autor escreveu O
Príncipe, inaugurou o pensamento moderno da política, em que faz uma análise do poder
como fato político, independente das questões morais..
A DESCOBERTA DO NOVO MUNDO
Outro fator importante que levou a mudança do pensamento moderno foi a
descoberta do Novo Mundo, pois revelou a falsidade e fragilidade da geografia antiga, o
desconhecimento da flora e fauna encontradas. Revelou também a falta de conhecimento
de outros povos e culturas. Muita coisa precisava ser reformulada.
A ciência antiga perde a autoridade é questionada, pois nada explica sobre a nova
realidade e suas narrativas. Acreditava que a “terra era plana”, desconhecem os novos
habitantes dessas terras descobertas, sua natureza, sua origem, sua cultura, tão distintas
da européia.
A Reforma Protestante
Martin Lutero contesta a autoridade da Igreja marcada pela corrupção e passa a
valorizar a consciência individual de buscar a própria fé, sem ser pela imposição das
verdades dogmáticas. Rompe com Igreja Católica e funda a Igreja protestante.
Essa nova igreja propõe e representa, assim, a defesa da liberdade individual e da
consciência em lugar da certeza, valorizando a ideia de que o indivíduo é capaz de
encontrar sua própria verdade religiosa.
A revolução científica moderna
Outro fator essencial desse processo de transformação é a revolução científica que
significou o ponto de partida para a ciência nos moldes que conhecemos hoje. Nicolau
Copérnico no século XVI vai defender matematicamente que a Terra gira em torno do Sol,
rompendo com o sistema geocêntrico de Ptolomeu (sec.II) e inspirado em Aristóteles.
A teoria do geocentrismo vigorava há quase vinte séculos e era maneira pela
qual o homem antigo e medieval via a si mesmo e ao mundo. A ciência moderna surge
quando se torna mais importante observar e experimentar, ao contrário da visão antiga que
partia de princípios estabelecidos e dogmáticos.
É um processo de transição e não uma ruptura radical. Ao longo
desse processo surgem Galileu e Isaac Newton, entre outros, que vão
transformar a visão científica do século XVII seguinte.
O rompimento com a ciência antiga revelou uma concepção de
distinto do universo antigo, que é fechado, finito e geocêntrico. A nova
ciência propõe o modelo
heliocêntrico e o universo é infinito. A ciência é ativa valoriza a observação e
o método experimental, une ciência e técnica. A ciência antiga é
contemplativa, separa ciência e técnica.
No século XVII a Filosofia e a Ciência se separam. Galileu, usando
um telescópio, demonstra o modelo de desenvolvido por Copérnico. Vai ser
interpelado pela Igreja. Entre os principais pensadores daquele momento,
destacam-se:
_ Copérnico, um sacerdote polonês, propôs a teoria heliocêntrica que atingia
a concepção medieval cristã de que o homem é ser supremo da criação
divina e que
por isso a terra é o centro do universo.
_ Giordano Bruno leva adiante a ideia de Copérnico e desenvolve a
concepção de universo infinito. É condenado e morre queimado vivo na
fogueira.
_ Galileu Galilei contribuiu com descobertas científicas, como o
aperfeiçoamento do telescópio, e com uma nova postura metodológica de
investigação científica: observação, experimentação, uso da linguagem
matemática. Por condenar os dogmas tradicionais da Igreja, também foi
condenado pela Inquisição, mas optou por viver e seguiu fazendo suas
pesquisas clandestinamente.
A revolução científica pode ser considerada uma grande realização
do espírito crítico humano, e acaba concentrando sua atenção na natureza
do universo, na ciência da natureza.
Desenvolvimento do mercantilismo e ruptura da economia feudal
O mercantilismo antecede ao desenvolvimento da indústria e trouxe
novas necessidades com o surgimento da burguesia, diferentes dos
interesses da nobreza.
Grandes núcleos urbanos e a invenção da imprensa
Surgimento dos grandes centros urbanos leva a novos valores e
necessidades. E a invenção da Imprensa permite que as ideias possam ser
publicadas edifundidas.
A PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO
A Idade Moderna é um período é marcado por grandes
transformações. Estas transformações e o desenvolvimento da ciência
moderna levaram o homem a questionar os critérios e os métodos usados
para aquisição do conhecimento verdadeiro da realidade.
Como podemos conhecer? Quais os fundamentos do conhecimento?
O que é conhecer? Essas questões são essenciais pra a ciência, a ética e
epistemologia. A Filosofia Moderna vai enfrentar o prestígio que o
pensamento de Aristóteles tinha e a supremacia da doutrina da Igreja, na
Idade Média, e inaugurou um modo novo de conceber e compreender o
conhecimento. O século XVII viu nascer o método experimental e a
possibilidade de explicação mecânica e matemática do Universo, que deu
origem à ciência moderna.
A partir desses questionamentos, duas novas perspectivas para o
saber, às vezes complementares, às vezes antagônica. Surgem o
racionalismo e o empirismo. O racionalismo e o empirismo constituem
novos paradigmas da filosofia moderna para conhecer a realidade.
O que é a razão? Existem vários sentidos de razão no nosso dia a
dia. A Filosofia se define como conhecimento racional da realidade natural
e cultural, das coisas e dos seres humanos. A razão é a organização e
ordenação de ideias, para assim poder sistematizá-las.
A razão é atividade intelectual de conhecimento da realidade natural,
social, psicológica, histórica. Possui um ideal de clareza, de ordenação e de
rigor e precisão dos pensamentos e de palavras.
A razão, em sua origem, é a capacidade intelectual de pensar e
exprimir-se correta e claramente, de modo a organizar e ordenar a realidade,
os seres, os fatos e as ideias.
Desde o começo da Filosofia, a origem da palavra razão fez com que
ela fosse considerada oposta a quatro outras atitudes mentais:
Ao conhecimento ilusório
Às emoções, aos sentimentos, às paixões,
À crença religiosa, em que a verdade nos é dada pela fé numa
revelação divina Ao êxtase místico
A Filosofia Moderna foi o período em que mais se confiou nos
poderes da razão para conhecer e conquistar a realidade e o homem – por
isso foi chamado de Grande Racionalismo Clássico. O marco dessa forma
de pensamento é René Descarte, matemático e filósofo, inventor da
geometria analítica. O método escolhido é o matemático, por ser o exemplo
de conhecimento integral racional.
RACIONALISMO
O racionalismo sustenta que há um tipo de conhecimento que surge
diretamente da razão. É baseado nos princípios da busca da certeza e da
demonstração, sustentados por um conhecimento que não vêm da
experiência e são elaborados somente pela razão.
O racionalismo considera que o homem tem ideias inatas, ou seja,
que não são derivadas da experiência, mas se encontram no indivíduo
desde seu nascimento e desconfia
das percepções sensoriais. Enquanto a ciência cristã e antiga constituía um
corpo de verdades teóricas universais, de certezas definitivas, não admitindo
erros, mudanças ou crítica, a ciência moderna e racional vai propor formular
leis e princípios que expliquem o funcionamento da realidade.
O pensamento racional ao introduzir a dúvida no processo do
pensamento, introduz a crítica como parte do desenvolvimento do
conhecimento científico. São esses princípios da ciência moderna que
encontramos hoje.
Principais pensadores: René Descartes (1596-1650), Pascal (1623-
1662), Spinoza (1632-1677) e Leibniz (1646-1716), Friedrich Hegel (1770-
1831).
EMPIRISMO
O Empirismo defende que o conhecimento humano provém da nossa
percepção do mundo externo e da nossa capacidade mental, valorizando a
experiência sensível e concreta como fonte do conhecimento e da
investigação. Segundo os empiristas, o conhecimento da razão, da verdade
e das ideias racionais é importante, mas desde que estejam ligados à
experiência, pois as ideias são adquiridas ao longo da vida e mediante o
exercício da experiência sensorial e da reflexão.
O método empirista baseia-se na formulação de hipóteses, na
observação, na verificação de hipóteses com base nos experimentos. O
empirismo provoca uma revolução para a ciência. A partir da valorização da
experiência, o conhecimento científico, que antes se contentava em
contemplar a natureza, passa a querer dominá-la, buscando resultados
práticos.
Principais filósofos: Francis Bacon, John Locke, David Hume,
Thomas Hobbes e Hohn Stuart Mill.
Francis Bacon
Nasceu na Inglaterra criou o lema saber é poder, pois compreende
que o desenvolvimento da pesquisa experimental aumenta o poder dos
homens sobre a natureza.
John Locke
Médico inglês, dizia que o mente humana é uma tábula rasa, um
papel em branco sem nenhuma ideia previamente escrita e que todas as
ideias são adquiridas ao longo da vida mediante o exercício da experiência
sensorial e da reflexão. Defendeu que a experiência é a fonte das ideias.
Desenvolveu uma corrente denominada Tabula Rasa, onde afirmou que as
pessoas desconhecem tudo, mas que através de tentativas e erros
aprendem e conquistam experiência.
PARA LEMBRAR: O racionalismo e o empirismo
são pensamentos distintos, embora exista um
elemento em comum: a preocupação com o
entendimento humano.
ALGUNS IMPORTANTES PENSADORES E
CIENTISTAS MODERNOS
Esses filósofos com seus pensamentos contribuíram para que a
humanidade construísse novos conhecimentos.
Galileu Galilei
Nasceu na Itália e é considerado o fundador da física moderna.
Defendeu as explicações do universo a partir da teoria heliocêntrica e
rejeitava a física de Aristóteles, adotadas como verdade absoluta pelo
cristianismo. Por contrariar essa visão tradicional foi considerado herege.
Questionava a Bíblia, sendo julgado pelo Tribunal da Inquisição e
condenado a fogueira ou a renegar suas concepções científicas. Optou por
se retratar, mas continuou fiel às ideias e publicou clandestinamente uma
obra que contrariava os dogmas cristãos.
Isaac Newton
Nasceu na Inglaterra, físico e matemático, continuou à revolução
científica que deu origem à física clássica. Fala de um universo ordenado,
como uma grande máquina. Além de física, matemática, filosofia e
astronomia, estudou também alquimia, astrologia, cabala, magia e teologia,
e era um grande conhecedor da Bíblia. Considerava que todos esses
campos do saber poderiam contribuir para o estudo dos fenômenos naturais.
Suas investigações experimentais, acompanhadas de rigorosa
descrição matemática, constituíram-se modelo de uma metodologia de
investigação para as ciências nos séculos seguintes.
A IDADE CONTEMPORÂNEA
A Idade contemporânea (ou pós-
moderna) é o periodo que se encontra
no final do século XIX até os dias de
hoje. Caracteriza-se por uma visão
crítica frente a moral, à religião e a
ciência. Assim, os filósofos pós-
modernos procuram criticar as bases
morais da sociedade ocidental,
questionar o cristianismo e os abusos
da Ciência. Há, também, uma crítica
especialmente forte quanto à Política,
que sofreu tantas reviravoltas nesse
período no Ocidente.
Uma das correntes filosóficas
dessa época é o Idealismo.
Explicaremos sobre essa abaixo:
IDEALISMO
O Idealismo é uma corrente filosófica que emergiu apenas com o
advento da modernidade, uma vez que a posição central da subjetividade é
fundamental na modernidade. Seu oposto é o materialismo.
Tendo suas origens a partir da revolução filosófica iniciada por
Descartes, associada a Kant até Hegel, que seria talvez o último grande
idealista da modernidade. Muitos, ainda, acreditam que a teoria das ideias
de Platão é historicamente a primeira dos idealismos, em que a verdadeira
realidade está no mundo das ideias, dasformas inteligíveis, acessíveis
apenas à razão.
Definição de idealismo
É muito difícil resumir o pensamento idealista, uma vez que há
divergências de perspectivas teóricas entre os filósofos idealistas. De todo
modo, podemos considerar o primado do Eu subjetivo como central em todo
idealismo, o que não significa necessariamente reduzir a realidade ao
pensamento. Assim, na filosofia idealista, o postulado básico é que Eu sou
Eu, no sentido de que o Eu é objeto para mim (Eu). Ou seja, a velha
oposição entre sujeito e objeto se revela no idealismo como incidente no
interior do próprio eu, uma vez que o próprio Eu é o objeto para o sujeito
(Eu).
Ideias básicas do Idealismo
1. Qualquer teoria filosófica em que o mundo material, objetivo, exterior só
pode ser compreendido plenamente a partir de sua verdade espiritual,
mental ou subjetiva. Seus opostos seriam representados pelo realismo ('na
filosofia moderna') e materialismo;
1.1 No sentido ontológico, doutrina filosófica, cujo exemplo mais conhecido é
o platonismo, segundo a qual a realidade apresenta uma natureza
essencialmente espiritual, sendo a matéria uma manifestação ilusória,
aparente, incompleta, ou mera imitação imperfeita de uma matriz original
constituída de formas ideais inteligíveis e intangíveis;
1.2. No sentido epistemológico, tal como ocorre no kantismo, teoria que
considera o sentido e a inteligibilidade de um objeto de conhecimento
dependente do sujeito que o compreende, o que torna a realidade
cognoscível heterônoma, carente de autossuficiência, e necessariamente
redutível aos termos ou formas ideais que caracterizam a subjetividade
humana;
1.3 No âmbito prático, cujo exemplo mais notório é o da ética kantiana,
doutrina que supõe o caráter fundamental dos ideais de conduta como guias
da ação humana, a despeito de uma possível ausência de exeqüibilidade
integral ou verificabilidade empírica em tais prescrições morais.
2 Propensão a idealizar a realidade ou a deixar-se guiar mais por ideais do
que por considerações práticas;
3 Teoria ou prática que valoriza mais a imaginação do que a cópia fiel da
natureza. Seu oposto seria o realismo.
Idealismo absoluto: Doutrina idealista inerente ao hegelianismo,
caracterizada pela suposição de que a única realidade plena e concreta é de
natureza espiritual, sendo a compreensão materialística ou sensível dos
objetos um estágio pouco evoluído e superável no paulatino
desenvolvimento cognitivo da subjetividade humana.
Idealismo dogmático: Idealismo, especialmente o berkelianismo, que se
caracteriza por negar a existência dos objetos exteriores à subjetividade
humana [Termo cunhado pelo filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804)
para designar uma orientação idealista com a qual não concorda.]. Seu
oposto seria o idealismo transcendental.
Idealismo imaterialista: Idealismo defendido por Berkeley (1685-1753) que,
partindo de uma perspectiva empirista, na qual a realidade se confunde com
aquilo que dela se percebe, conclui que os objetos materiais reduzem-se a
ideias na mente de Deus e dos seres humanos; berkelianismo,
imaterialismo.
Idealismo transcendental (também chamado formal ou crítico): Doutrina
kantiana, segundo a qual os fenômenos da realidade objetiva, por serem
incapazes de se mostrar aos homens exatamente tais como são, não
aparecem como coisas-em-si, mas como representações subjetivas
construídas pelas faculdades humanas de cognição. Seu oposto seria o
idealismo dogmático.
RENÉ DESCARTES: UMA BREVE BIOGRAFIA
Uma personalidade dominante da história intelectual ocidental, René
Descartes foi um filósofo, fisiologista e matemático francês, nascido em 31
de março de 1596, em La Haye, na província de Touraine. Ele foi um
contemporâneo de Galileu e Pascal e, portanto trabalhou sob as mesmas
influências religiosas repressoras da Inquisição.
Cedo em sua vida, pouco após ter se alistado no exército, em 1617,
Descartes descobriu que tinha talento para matemática, de modo que ele
passou a maior parte de seus anos militares e subsequentes (ele pediu
demissão quatro anos mais tarde) estudando matemática pura,
especialmente geometria analítica, que se tornou o campo ao qual fez suas
maiores contribuições. Em 1626 ele se estabeleceu em Paris, mas foi
persuadido a mudar-se para a Holanda em 1628, país que estava, então, no
auge do seu poder. Ali ele morou e trabalhou pelos próximos 20 anos,
devotando seu tempo e esforços ao estudo da matemática e filosofia, na
perseguição da verdade. Em 1649, foi convidado para ser professor da
Rainha Cristina da Suécia, mudando-se para Estocolmo, mas morreu
poucos meses após chegar, de pneumonia aguda, em 11 de fevereiro de
1650.
Os trabalhos de Descartes em filosofia e ciência foram publicados em
cinco livros: Le Monde (O Mundo), uma tentativa de descrever o universo
físico, o Discours de la Méthode Pour Bien Conduire Sa Raison et Chercher
La Vérité Dans Les Sciences (Discurso sobre o Método de Bem Conduzir
sua Razão e Procurar a Verdade nas Ciências), seu trabalho mais
importante; Meditationes, um sumário de suas ideias filosóficas em
epistemologia, Principia Philosophiae (Princípios da Filosofia), cuja maior
parte foi devotada à física, especialmente as leis do movimento, e Les
Passions de L'ame (As Paixões da Alma), sua mais importante contribuição
à fisiologia e à psicologia. As contribuições de Descartes à física foram feitas
principalmente na óptica, mas ele escreveu extensamente sobre muitos
outros temas, incluindo biologia, cérebro e mente. Ele não foi um
experimentalista, no entanto.
O esteio da filosofia de Descartes pode ser resumida por sua famosa
frase em latim: Cogito, ergo sum (penso, logo existo). Ele foi o primeiro a
levantar a doutrina do dualismo corpo/mente, a propor uma sede física para
a mente, e a maneira como ela se inter- relaciona com o corpo. Portanto, ele
discutiu temas importantes para as neurociências, que vieram a dominar os
quatro séculos seguintes, tais como a ação voluntária e involuntária, os
reflexos, consciência, pensamento, emoções, e assim por diante.
DEUS, A CIÊNCIA E O LIVRE-ARBÍTRIO
Para Descartes, o Deus criador transcende radicalmente a natureza.
Deus Foi "inteiramente indiferente ao criar as coisas que criou". Não se
submeteu a nenhuma verdade prévia. Em virtude do poder de seu livre-
arbítrio, criou as verdades. Eis por que Deus quer que a soma dos ângulos
de um triângulo seja igual a dois ângulos retos.
Acrescentemos que, para Descartes, Deus criou o mundo instante por
instante (é a "criação contínua"). O tempo é descontínuo e a natureza não
tem nenhum poder próprio. As leis da natureza só são o que são a cada
momento, em virtude da vontade do criador. É
importante compreender que essa transcendência radical de Deus possui
duas consequências fundamentais. O livre-arbítrio humano e a
independência da ciência.
1. O homem não é uma parte de Deus. A transcendência do criador afasta
qualquer panteísmo. O homem, simples criatura ultrapassada por seu
criador (concebo Deus porque descubro em mim a marca de sua infinitude,
mas não o compreendo), recebo, assim, uma autonomia que será perdida
no sistema panteísta de Spinoza. O homem é livre, pode dizer sim ou não às
ordens de Deus. É certo que, na Quarta Meditação, Descartes fala da
liberdade esclarecida, dessa liberdade que não pode tratar da verdade ou do
bem, dessa liberdade que é antes um estado de libertação do que uma
decisão pura, situada além de todas as razões. Mas nos Princípios e
sobretudo nas cartas ao Pe. Mesland, de 2 de maio de 1644 e 9 de fevereiro
de 1645, Descartes afirma radicalmente olivre-arbítrio, o poder de recusar a
Verdade e o Bem até mesmo na presença da evidência que se manifesta.
Esses textos esclarecem a teoria do juízo presente na Quarta meditação. O
entendimento concebe a verdade e é a vontade que dá as costas a ou
afirma essa verdade. Deus propõe e o homem, por intermédio de seu livre-
arbítrio, dispõe. Desse modo, Deus não é o culpado dos meus erros nem
dos meus pecados. Sou eu que me engano, sou eu que peco. Meu livre-
arbítrio me faz merecedor ou culpado.
2. Do mesmo modo, a transcendência de Deus vai tornar possível uma
ciência puramente racional e mecanicista da natureza.
a) A natureza, segundo Descartes, não possui dinamismo próprio. Todo
dinamismo pertence ao criador. Na medida em que a natureza é
despojada de toda profundidade
metafísica, Descartes pode eliminar as noções aristotélicas e medievais de
forma, alma, ato e potência. Toda finalidade desaparece e a natureza é
reduzida a um mecanicismo inteiramente transparente para a linguagem
matemática. A natureza nada tem de divino, é um objeto criado, situado no
mesmo plano da inteligência humana, e, por conseguinte, inteiramente
entregue à sua exploração. Isto consiste, ao mesmo tempo, na rejeição de
todo naturalismo pagão (a natureza não é uma deusa) e na fundamentação
metafísica do racionalismo científico.
b) Nem tudo tem o mesmo valor na obra científica de Descartes. Se sua
ótica e suas considerações sobre a expressão algébrica das curvas (ele é,
juntamente com Fermat, o inventor da geometria analítica) constituem
incontestável contribuição científica, sua física (dada, aliás, mais como uma
possibilidade racional do que como a verdade certa) não passa de um
romance. Mas o espírito dessa física e da fisiologia cartesiana - que não
passa de um capítulo da física - nada mais é do que o espírito do
mecanicismo. Quando Descartes declara que os animais são máquinas, ele
coloca, em princípio, que é possível explicar as funções fisiológicas por
intermédio de mecanismos semelhantes àqueles que fazem mover os
autômatos que vemos "nos jardins de nossos reis". O detalhe das
explicações não passa de um sonho. Mas a direção tomada é a ciência
moderna. Para Descartes, o mundo físico não possui mistérios. As coisas se
determinam reciprocamente (leis do choque), por contato direto, num espaço
em que não existe o vazio.
O PROBLEMA DO HOMEM: A MORAL
1. - No Discurso sobre o Método, Descartes adota uma moral provisória -
pois a ação não pode esperar que a filosofia cartesiana engendrasse uma
nova moral. Recordemos seus três preceitos:
a) Submeter-se aos usos e costumes de seu país.
b) Antes mudar os próprios desejos que a ordem do mundo e vencer-se a si
próprio do que à fortuna.
c) Ser sempre firme e resoluto em suas ações; saber decidir-se mesmo na
ausência de toda evidência, à semelhança do viajante perdido na floresta
que, ao invés de ficar fazendo voltas, adota uma direção qualquer e nela se
mantém! (O cartesianismo, antes de ser uma filosofia da inteligência, é uma
filosofia da vontade).
2. - É certo que a moral definitiva de Descartes não apresenta uma unidade
perfeita. Influências estoicas, epicuristas e cristãs estão presentes nela.
Mas, na realidade, essa complexidade reflete a própria complexidade da
condição humana. No plano das ideias claras e distintas, Descartes separa
claramente as duas substâncias, alma e corpo: a essência da alma é
pensar; a do corpo é ser um objeto no espaço. E no entanto, o pensamento
está preso a esse fragmento de extensão. A alma age sobre o corpo e este
age sobre ela. (Para Descartes, o ponto de aplicação da alma ao corpo é a
glândula pineal, isto é, a epífise.) Mas isso não esclarece a união da alma e
do corpo, que é um fato de experiência, puramente vivido e ininteligível.
Na medida em que Descartes considera o homem no que ele tem de
essencial, enquanto espírito, ou quando se ocupa do composto humano, sua
moral assume aspectos diferentes:
a) Consideremos o homem enquanto espírito, enquanto liberdade: o valor
supremo é a generosidade. "A verdadeira generosidade que faz com que um
homem se estime, no ponto máximo em que ele pode legitimamente
estimar-se, consiste, em parte, na consciência de que nada lhe pertence
verdadeiramente, exceto essa livre disposição de suas vontades... e em
parte no sentimento de uma firme e constante resolução de bem usá-la, isto
é, de nunca lhe faltar vontade para empreender e executar todas as coisas
que julgar melhores, o que é seguir a virtude perfeitamente".
b) Se considerarmos o homem enquanto espírito unido a um corpo, somos
obrigados a levar em conta as paixões, isto é, a afetividade em sentido
amplo. Paixão é, para Descartes, tudo o que o corpo determina na alma. E
Ele, que nada tem de asceta, acha que devemos antes dominá-las do que
desenvolvê-las. Isso porque ele se coloca do ponto de vista da felicidade. O
bom funcionamento do corpo, as ligações harmoniosas entre os
espíritos animais e os pensamentos humanos são altamente desejáveis. A
moral surge, então, como uma técnica de felicidade e, nessa técnica, a
medicina desempenha importante papel. A moral surge aqui como uma
aplicação direta ao mecanicismo cartesiano.
UTILITARISMO
Em Filosofia, o utilitarismo é uma
doutrina ética que prescreve a ação (ou
inação) de forma a aperfeiçoar o bem- estar do
conjunto dos seres envolvidos. O utilitarismo é
então uma forma de consequencialismo, ou
seja, ele avalia uma ação (ou regra)
unicamente em função de suas
consequências.
Filosoficamente, pode-se resumir a
doutrina utilitarista pela frase: Agir sempre de
forma a produzir a maior quantidade de bem-
estar (Princípio do bem-estar máximo).
Trata-se então de uma moral eudemonista, mas que, ao contrário do
egoísmo, insiste no fato de que devemos considerar o bem-estar de todos e
não o de uma única pessoa.
Antes de quaisquer outros, foram Jeremy Bentham (1748-1832) e
John Stuart Mill (1806-1873) que sistematizaram o princípio da utilidade e
o aplicaram a questões concretas – sistema político, legislação, justiça,
política econômica, liberdade sexual, emancipação feminina, etc.
Em Economia, o utilitarismo pode ser entendido como um princípio
ético no qual o que determina se uma decisão ou ação é correta, é o
benefício intrínseco exercido à coletividade, ou seja, quanto maior o
benefício coletivo, tanto melhor a decisão ou ação.
Princípio da Utilidade
John Stuart Mill foi um dos filósofos que se debruçaram sobre o
princípio da utilidade Bentham expõe o conceito central da utilidade no
primeiro capítulo do livro Introduction to the Principles of Morals and
Legislation (―Introdução aos princípios da moral e legislação‖), da seguinte
forma:
― Por princípio da utilidade, entendemos o princípio segundo o qual toda
ação, qualquer que seja, deve ser aprovada ou rejeitada em função de sua
tendência de aumentar ou reduzir o bem-estar das partes afetadas pela
ação. (...) Designamos por utilidade a tendência de alguma coisa em
alcançar o bem-estar, o bem, o belo, a felicidade, as vantagens, etc. “O
conceito de utilidade não deve ser reduzido ao sentido corrente de modo de
vida com um fim imediato".
Perspectiva moral e política: Características gerais
O utilitarismo, concebido como um critério geral de moralidade pode
e deve ser aplicado tanto às ações individuais quanto às decisões políticas,
tanto no domínio econômico quanto nos domínios sociais ou judiciários. O
Utilitarismo é um tipo de ética normativa -- com origem nas obras dos
filósofos e economistas ingleses do século XVIII e XIX, Jeremy Bentham e
John Stuart Mill, -- segundo a qual uma ação é moralmente correta se tende
a promover a felicidade e condenávelse tende a produzir a infelicidade,
considerada não apenas a felicidade do agente da ação, mas também a de
todos os afetados por ela.
O utilitarismo rejeita o egoísmo, opondo-se a ideia de que o indivíduo
deva perseguir seus próprios interesses, mesmo à custa dos outros, e se
opõe também a qualquer teoria ética que considere ações ou tipos de atos
como certos ou errados independentemente das consequências que eles
possam ter.
O utilitarismo assim difere radicalmente das teorias éticas que fazem
o caráter de bom ou mal de uma ação depender do motivo do agente
porque, de acordo com o Utilitarismo, é possível que uma coisa boa venha a
resultar de uma motivação ruim no indivíduo.
Antes, porém, desses dois autores darem forma ao Utilitarismo, o
pensamento utilitarista já existia, inclusive na filosofia antiga, principalmente
no de Epicuro e seus seguidores na Grécia antiga. E na Inglaterra, alguns
historiadores indicam o Bispo Richard Cumberland, um filósofo moralista do
século XVII, como o primeiro a apresentar uma filosofia utilitarista. Uma
geração depois, Francis Hutcheson, com sua teoria do "sentido interior da
moralidade" ("moral sense") manteve uma posição utilitarista mais clara. Ele
cunhou a frase utilitarista de que "a melhor ação é a que busca a maior
felicidade para o maior número de indivíduos". Também propôs uma forma
de "aritmética moral" para cálculo da melhor consequência possível. David
Hume tentou analisar a origem das virtudes em termos de sua contribuição
útil.
O próprio Bentham disse haver descoberto o "princípio de utilidade"
nos escritos de vários pensadores do século XVIII como Joseph Priestley,
um clérigo dissidente famoso por haver descoberto o oxigênio, e Claude-
Adrien Helvétius, autor de uma filosofia de meras sensações, de Cesare
Beccaria, jurista italiano, e de David Hume. Helvétius foi posterior a Hume e
deve ter conhecido seu pensamento, e Beccária o de Helvétius.
Outro apoio ao Utilitarismo é o de natureza teológica, devido a John
Gay, um filósofo estudioso da Bíblia que argumentava que fazer a vontade
de Deus era o único critério de virtude, mas que, devido à bondade divina,
ele concluía que Deus desejava que o homem promovesse a felicidade
humana.
Bentham, que aparentemente acreditava que o indivíduo, no governo
de seus atos iria sempre buscar maximizar seu próprio prazer e minimizar
seu sofrimento, colocou no prazer e na dor ambos a causa das ações
humanas e as bases de um critério normativo da ação.
À arte de alguém governar suas próprias ações, Bentham chamou
"ética particular". Neste caso a felicidade do agente é o fator determinante; a
felicidade dos outros governa somente até o ponto em que o agente é
motivado por simpatia, benevolência, ou interesse na boa vontade e opinião
favorável dos outros.
Para Bentham, a regra de se buscar a maior felicidade possível para
o maior número possível de pessoas devia ter papel primordial na arte de
legislar, na qual o legislador buscaria maximizar a felicidade da comunidade
inteira criando uma identidade de interesses entre cada indivíduo e seus
companheiros.
PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DO UTILITARISMO
Cinco princípios fundamentais são comuns a todas as versões do
utilitarismo:
Princípio do bem-estar (the greatest happiness principle em inglês) – O
―bem é definido como sendo o bem-estar. Diz-se que o objetivo pesquisado
em toda ação moral se constitui pelo bem-estar (físico, moral, intelectual).
Consequencialismo – As consequências de uma ação são a única base
permanente para julgar a moralidade desta ação. O utilitarismo não se
interessa desta forma pelos agentes morais, mas pelas ações – as
qualidades morais do agente não interferem no
―cálculo‖ da moralidade de uma ação, sendo então indiferente se o agente
é generoso, interessado ou sádico, pois são as consequências do ato que
são morais. Há uma dissociação entre a causa (o agente) e as
consequências do ato. Assim, para o utilitarismo, dentro de circunstâncias
diferentes um mesmo ato pode ser moral ou imoral, dependendo se suas
consequências são boas ou más.
Princípio da agregação – O que é levado em conta no cálculo é o saldo
líquido (de bem-estar, numa ocorrência) de todos os indivíduos afetados
pela ação, independentemente da distribuição deste saldo. O que conta é a
quantidade global de bem-estar produzida, qualquer que seja a repartição
desta quantidade. Sendo assim, é considerado válido sacrificar uma
minoria, cujo bem-estar será diminuído, a fim de aumentar o bem-estar
geral. Esta possibilidade de sacrifício se baseia na ideia de compensação: a
desgraça de uns é compensada pelo bem-estar dos outros. Se o saldo de
compensação for positivo, a ação é julgada moralmente boa. O aspecto dito
sacrificial é um dos mais criticados pelos adversários do utilitarismo.
Princípio de otimização - O utilitarismo exige a maximização do bem-
estar geral, o que não se apresenta como algo facultativo, mas sim como um
dever.
Imparcialidade e universalismo - Os prazeres e sofrimentos são
considerados da mesma importância, quaisquer que sejam os indivíduos
afetados. O bem-estar de cada um tem o mesmo peso dentro do cálculo do
bem-estar geral.
Este princípio é compatível com a possibilidade de sacrifício. A
princípio, todos têm o mesmo peso, e não se privilegia ou se prejudica
ninguém – a felicidade de um rei ou de um cidadão comum são levadas em
conta da mesma maneira.
O aspecto universalista consiste numa atribuição de valores do bem-
estar que é independente das culturas ou das particularidades regionais.
Como o universalismo de Kant, o utilitarismo pretende definir uma moral que
valha universalmente.
O cálculo utilitarista
Um dos traços importantes do utilitarismo é seu racionalismo. A
moralidade de um ato é calculada, ela não é determinada a partir de
princípios diante de um valor intrínseco. Este cálculo leva em conta as
consequências do ato sobre o bem-estar do maior número de pessoas. Ele
supõe então a possibilidade de se calcular as consequências de um ato, e
avaliar seu impacto sobre o bem-estar dos indivíduos.
Para alguns utilitaristas, como o filósofo Peter Singer, o cálculo
utilitarista de prazer e dor deve incluir todos os seres dotados de
sensibilidade, sendo legítimo assim incluir os animais no cálculo da
moralidade de um ato. Singer se refere ao cálculo utilitarista que seja
exclusivo para o ser humano, como uma forma de "especismo", ou seja,
preconceito de espécie.
EXISTENCIALISMO
O existencialismo é uma corrente filosófica e literária que destaca a
liberdade individual, a responsabilidade e a subjetividade do ser humano. O
existencialismo considera cada homem como um ser único que é mestre dos
seus atos e do seu destino.
O existencialismo afirma a prioridade da existência sobre a essência,
segundo a célebre definição do filósofo francês Jean-Paul Sartre: "A
existência precede e governa a essência." Essa definição funda a liberdade
e a responsabilidade do homem, visto que este existe sem que seu ser seja
pré-definido. Durante a existência, à medida que se experimentam novas
vivências redefine-se o próprio pensamento (a sede intelectual, tida como a
alma para os clássicos), adquirindo-se novos conhecimentos a respeito da
própria essência do que é o homem. Esta característica do ser é fruto da
liberdade de eleição. Sartre, após ter feito estudos sobre fenomenologia na
Alemanha, criou o termo utilizando a palavra francesa "existence" como
tradução da expressão alemã "Da sein", termo empregado por Heidegger
em Ser e tempo.
Após a Segunda Guerra Mundial, uma corrente literária existencialista
contou com Albert Camus e Boris Vian, além do próprio Sartre. É importante
notar que Albert Camus, filósofo além de literato,ia contra o existencialismo,
sendo este somente característica de sua obra literária. Vian definia-se
patafísico.
Origem
O existencialismo foi inspirado nas obras de Arthur Schopenhauer, Søren
Kierkegaard, Fiódor Dostoiévski e nos filósofos alemães Friedrich Nietzsche, Edmund
Husserl e Martin Heidegger, e foi particularmente popularizado em meados do século
XX pelas obras do escritor e filósofo francês Jean-Paul Sartre e de sua companheira,
a escritora e filósofa Simone de Beauvoir. Os mais importantes princípios do
movimento são expostos no livro de Sartre "L'Existentialisme est un humanisme" ("O
existencialismo é um humanismo"). O termo existencialismo foi adotado apesar de
haver o termo: existência filosófica, usado inicialmente por Karl Jaspers, da mesma
tradição.
História do Existencialismo
O existencialismo é um movimento filosófico e literário distinto pertencente aos
séculos XIX e XX, mas os seus elementos podem ser encontrados no pensamento (e
vida) de Sócrates, Aurélio Agostinho e no trabalho de muitos filósofos e escritores pré-
modernos. Culturalmente, podemos identificar pelo menos duas linhas de pensamento
existencialista: Alemã-Dinamarquesa e Anglo-Francesa. As culturas judaica e russa
também contribuíram para esta filosofia. Após ter experienciado vários distúrbios civis,
guerras locais e duas guerras mundiais, algumas pessoas na Europa foram forçadas
a concluir que a vida é inerentemente miserável e irracional. Heidegger e Kierkegaard
foram os pioneiros neste debate sobre a crise da existência humana. Hoje, o
existencialismo não morreu de fato, pelo contrário, continua a produzir, quer na
filosofia, quer na literatura, no cinema, ou até na ideologia de vida.Temáticas
As principais temáticas abordadas sugerem o contexto da sua aparição
(final da Segunda Guerra Mundial), refletindo o absurdo do mundo e da barbárie
injustificada, das situações e das relações quotidianas ("L'enfer, c'est les autres", ["O
inferno são os outros"], Jean-Paul Sartre). Paralelamente, surgem temáticas como o
silêncio e a solidão, corolários óbvios de vidas largadas ao abandono, depois da
"morte de Deus" (Friedrich Nietzsche). A existência humana, em toda a sua natureza,
é questionada: quem somos? O que fazemos? Para onde vamos? Quem nos move?
É esta consciência aguda de abandono e de solidão (voluntária ou não), de
impotência e de injustificabilidade das ações, que se manifesta nas principais obras
desta corrente em que o filosófico e o literário se conjugam.
Relação com a religião
Apesar de muitos, senão a maioria, dos existencialistas terem sido ateístas, os
autores Soren Kierkegaard, Karl Jaspers e Gabriel Marcel propuseram uma versão
mais teológica do existencialismo. O ex-marxista Nikolai Berdyaev desenvolveu uma
filosofia do Cristianismo existencialista na sua terra natal, Rússia, e mais tarde na
França, na véspera da Segunda Guerra Mundial.
Fé e existencialismo
O existencialismo não é uma simples escola de pensamento, livre de qualquer
e toda forma de fé. Ajuda a entender que muitos dos existencialistas eram, de fato,
religiosos. Pascal e Kierkegaard eram cristãos dedicados. Pascal era católico,
Kierkegaard, um protestante radical marcado pelo ríspido antagonismo com a igreja
luterana. Dostoiévski era greco-ortodoxo, a ponto de ser fanático. Kafka era judeu.
Sartre realmente não acreditava em força divina.
Sartre não foi criado sem religião, mas a Segunda Guerra Mundial e o
constante sofrimento no mundo levaram-no para longe da fé, de acordo com várias
biografias, incluindo a de sua companheira, Simone de Beauvoir. Curiosamente,
Sartre passou seus últimos anos de vida explorando assuntos de fé com um judeu
ortodoxo. Apenas podemos imaginar suas conversas, já que Sartre não as registrou.
Para os existencialistas cristãos, a fé defende o indivíduo e guia suas decisões
com um conjunto rigoroso de regras em algumas vertentes cristãs e para outras como
o espiritismo, as decisões são guiadas pelo pensamento, pela alma. Para os ateus, a
"ironia" é a de que não importa o quanto você faça para melhorar a si ou aos outros,
você sempre vai se deteriorar e morrer. Muitos existencialistas acreditam que a
grande vitória do indivíduo é perceber o absurdo da vida e aceitá-la. Resumindo, você
vive uma vida miserável, pela qual você pode ou não ser recompensado por uma
força maior. Se essa força existe, por que os homens sofrem? Se não existe, por que
não cometer suicídio e encurtar seu sofrimento? Essas questões apenas insinuam a
complexidade do pensamento existencialista.
A existência precede e governa a essência.
É um conceito da corrente filosófica existencialista. A frase foi primeiramente
formulada por Jean-Paul Sartre, e é um dos princípios fundamentais do
existencialismo.
O indivíduo, no princípio, somente tem a existência comprovada. Com o passar
do tempo ele incorpora a essência em seu ser. Não existe uma essência pré-
determinada.
Com esta frase, os existencialistas rejeitam a ideia de que há no ser humano
uma alma imutável, desde os primórdios da existência até a morte. Esta essência será
adquirida através da sua existência. O indivíduo por si só define a sua realidade.
Em 1946, no "Club Maintenant" em Paris, Jean Paul Sartre pronuncia uma
conferência, que se tornou um opúsculo com o nome de "O Existencialismo é um
Humanismo". Nele, ele explica a frase, desta forma: "... se Deus não existe, há pelo
menos um ser, no qual a existência precede a essência, um ser que existe antes de
poder ser definido por qualquer conceito, e que este ser é o homem ou, como diz
Heidegger, a realidade humana. Que significa então que a existência precede a
essência? Significa que o homem primeiramente existe, se descobre, surge no
mundo; e que só depois se define. O homem, tal como o concebe o existencialista, se
não é definível, é porque primeiramente é nada. Só depois será, e será tal como a si
próprio se fizer.”.
Liberdade
Com essa afirmação vemos o peso da responsabilidade por sermos totalmente
livres. E, frente a essa liberdade de eleição, o ser humano se angustia, pois a
liberdade implica fazer escolhas, as quais só o próprio indivíduo pode fazer. Muitos de
nós ficamos paralisados e, dessa forma, nos abstemos
de fazer as escolhas necessárias. Porém, a "não ação", o "nada fazer", por si só, já é
uma escolha; a escolha de não agir. A escolha de adiar a existência, evitando os
riscos, a fim de não errar e gerar culpa, é uma tônica na sociedade contemporânea.
Arriscar-se, procurar a autenticidade, é uma tarefa árdua, uma jornada pessoal que o
ser deve empreender em busca de si mesmo.
Os existencialistas perguntaram-se se havia um Criador. Se sim, qual é a
relação entre a espécie humana e esse criador? As leis da natureza já foram pré-
definidas e os homens têm que se adaptar a elas? Esses homens estiveram tão
dedicados aos seus estudos que se tornaram antissociais, enquanto se preocupavam
com a humanidade.
Kierkegaard, Nietzsche e Heidegger são alguns dos filósofos que mais
influenciaram o existencialismo. Os dois primeiros se preocupavam com a mesma
questão: o que limita a ação de um indivíduo? Kierkegaard chegou à possibilidade de
que o cristianismo e a fé em geral são irracionais, argumentando que provar a
existência de uma única e suprema entidade é uma atividade inútil.
Nietzsche, frequentemente caracterizado como ateu, foi, sobretudo um crítico
da religião organizada e das doutrinas de seu tempo. Ele acreditou que a religião
organizada, especialmente a Igreja Católica e Protestante, era contra qualquer poder
de ganho ou autoconfiança sem consentimento. Nietzsche usou o termo rebanho para
descrever a população que, de boa vontade, segue a Igreja. Ele argumentou que
provar a existência de um criadornão era possível nem importante.
Na verdade, Nietzsche valorizava e exaltava a vida como única entidade que
merecia louvor. Prova disso é o eterno retorno em que ele afirmava que o homem
deveria viver a vida como se tivesse que vivê-la nova e eternamente. A implicação
disso é uma extrema valorização da vida, imaginemos cada segundo, cada minuto
vivido igual e eternamente? E quanto à Igreja, Nietzsche a condenava, pois ela é um
traço das influências que negavam o valor da vida na sociedade contemporânea; ele
era sim ateu, e para ele, dentre os mais inteligentes, o pior era o padre, pois
conseguia incutir nos pensamentos do rebanho, fundamentos falsos, exteriores e
metafísicos demais, que só contribuíam para o afastamento da vida.
O Indivíduo versus a Sociedade
O existencialismo representa a vida como uma série de lutas. O indivíduo é
forçado a tomar decisões e frequentemente as escolhas são ruins. Nas obras de
alguns pensadores, parece que a liberdade e a escolha pessoal são as sementes da
miséria. A maldição do livre arbítrio foi de particular interesse dos existencialistas
teológicos e cristãos.
As regras sociais são o resultado da tentativa dos
homens de planejar um projeto funcional. Ou seja, quanto mais estruturada a
sociedade, mais funcional ela deveria ser.
Os existencialistas explicam por que algumas pessoas se sentem atraídas à
passividade moral baseando-se no desafio de tomar decisões. Seguir ordens é fácil;
requer pouco esforço emocional e intelectual fazer o que lhe mandam. Se a ordem
não é lógica, não é o soldado que deve questionar. Deste modo, as guerras podem
ser explicadas, genocídios em massa podem ser entendidos.
As pessoas estavam apenas fazendo o que lhes fora mandado fazer. Importantes
Filósofos para o Existencialismo.
Há duas linhas existencialistas famosas, quer de impulsionadores, quer de
existencialistas propriamente ditos.
A primeira, de Kierkegaard, Schopenhauer, Nietzsche e Heidegger é agrupada
intelectualmente. Esses homens são os pais do existencialismo e dedicaram-se a
estudar a condição humana. A segunda, de Sartre, Camus e Beauvoir, era uma linha
marcada pelo
compromisso político. Enquanto outras pessoas entraram e saíram, esses sete
indivíduos definiram o existencialismo.
O filosofar heideggeriano é uma constante interrogação, na procura de revelar
e levar à luz da compreensão o próprio objeto que decide sobre a estrutura dessa
interrogação, e que orienta as cadências do seu movimento: a questão sobre o Ser.
A meta de Heidegger é penetrar na filosofia, demorar nela, submeter seu
comportamento às suas leis. O caminho seguido por ele deve ser, portanto, de tal
modo e com tal direção, que aquilo de que a Filosofia trata atinja nossa
responsabilidade, vise a nós homens, nos toque e, justamente, nos transforme.
O pensamento de Heidegger é um retorno ao fundamento da metafísica num
movimento problematizador, uma meditação sobre a Filosofia no sentido daquilo que
permanece fundamentalmente velado.
A Filosofia sobre a qual ele nos convida a meditar é a grande característica da
inquietação humana em geral, a questão sobre o Ser, ou seja, o que significa ―estar
no mundo ou ―ser no mundo.
BILIOGRAFIA BÁSICA
CHAUÍ, Marilena. Convite á Filosofia. São Paulo: Ática, 1999.
COTRIM, Gilberto. Fundamentos da Filosofia. São Paulo: Saraiva, 2000.
PRADO JUNIOR, C. O que é Filosofia. São Paulo: Brasiliense, 1983.
REALE, M. Introdução a Filosofia. São Paulo: Saraiva, 1988.
SANCHEZ VASQUEZ, Adolfo. Ética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
2000.
ARANHA, M.L ; MARTINS, M.H.P. Filosofando: introdução a filosofia.
São Paulo: moderna, 1993.
BUARQUE, Cristovam. A desordem do progresso. São Paulo: paz e terra,
1993.
CIVITA, Victor. A história da filosofia. Coleção de pensadores. São Paulo:
Nova Cultural, 1999.
A CIÊNCIA ANTIGA E A CIÊNCIA MODERNA
IDADE MODERNA: SEC. XVII E XVIII
AS CONDIÇÕES HISTÓRICAS
O HUMANISMO RENASCENTISTA DO SEC. XV
A DESCOBERTA DO NOVO MUNDO
A Reforma Protestante
A revolução científica moderna
Desenvolvimento do mercantilismo e ruptura da economia feudal
Grandes núcleos urbanos e a invenção da imprensa
A PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO
RACIONALISMO
EMPIRISMO
Francis Bacon
John Locke
PARA LEMBRAR: O racionalismo e o empirismo são pensamentos distintos, embora exista um elemento em comum: a preocupação com o entendimento humano.
Galileu Galilei
Isaac Newton
IDEALISMO
Definição de idealismo
Ideias básicas do Idealismo
RENÉ DESCARTES: UMA BREVE BIOGRAFIA
DEUS, A CIÊNCIA E O LIVRE-ARBÍTRIO
O PROBLEMA DO HOMEM: A MORAL
UTILITARISMO
Princípio da Utilidade
Perspectiva moral e política: Características gerais
PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DO UTILITARISMO
O cálculo utilitarista
EXISTENCIALISMO
Origem
História do Existencialismo
Relação com a religião
Fé e existencialismo
A existência precede e governa a essência.
Liberdade
O Indivíduo versus a Sociedade