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PATOLOGIA – 2° PERÍODO FONTE: Robbins & Cotran - Patologia - Bases Patológicas das Doenças | Edição: 10|2023 INFLAMÇÃO A inflamação é uma resposta dos tecidos vascularizados, que consiste no recrutamento de leucócitos e de moléculas de defesa do hospedeiro da circulação para os locais de infecção e de lesão celular, com o objetivo de eliminar os agentes agressores. ✓ Não é uma reação prejudicial, mas resposta protetora que é essencial para a sobrevivência. ✓ Função: livrar o hospedeiro tanto da causa inicial da lesão celular (p. ex., microrganismos, toxinas) quanto das consequências dessa lesão (p. ex., células e tecidos necróticos). ✓ Os mediadores da defesa incluem leucócitos fagocíticos, anticorpos e proteínas do complemento. ✓ A maior parte desses mediadores circula em um estado de repouso no sangue, a partir do qual são logo recrutados para qualquer local do corpo. ✓ Algumas das células envolvidas em respostas inflamatórias também residem em tecidos, atuando como sentinelas à procura de ameaças. ✓ O processo de inflamação fornece células circulantes e proteínas aos tecidos e ativa as células recrutadas e residentes, bem como moléculas solúveis, que então agem para eliminar as substâncias indesejadas ou nocivas. ✓ Sem inflamação, as infecções não seriam detectadas, as feridas nunca cicatrizariam e os tecidos lesionados poderiam permanecer com feridas purulentas permanentes. ✓ O sufixo -ite acrescentado a um órgão denota a presença de inflamação nesse local, como apendicite, conjuntivite ou meningite. REAÇÃO INFLAMATÓRIA TÍPICA DESENVOLVE-SE POR MEIO DE UMA SÉRIE DE ETAPAS SEQUENCIAIS: 1. Reconhecimento do agente nocivo que constitui o estímulo desencadeante da inflamação. As células envolvidas na inflamação (células sentinelas residentes em tecidos, fagócitos e outros tipos de células) dispõem de receptores, que reconhecem produtos microbianos e substâncias liberadas de células danificadas. A ocupação dos receptores leva à produção de mediadores da inflamação, que em seguida desencadeiam as etapas subsequentes da resposta inflamatória 2. Recrutamento de leucócitos e proteínas plasmáticas nos tecidos. Como o sangue perfunde todos os tecidos, os leucócitos e as proteínas, como o complemento, podem ser fornecidos em qualquer local de invasão microbiana ou lesão tecidual. Quando microrganismos patogênicos invadem os tecidos, ou quando células teciduais morrem, os leucócitos (sobretudo neutrófilos no início e, posteriormente, monócitos e linfócitos) e as proteínas plasmáticas são logo recrutadas da circulação para o interstício em que se localiza o agente agressor. O extravasamento de células e proteínas plasmáticas a partir do sangue exige alterações coordenadas nos vasos sanguíneos e na secreção de mediadores 3. A remoção do estímulo para a inflamação é efetuada, sobretudo, por células fagocitárias, que ingerem e destroem microrganismos e células mortas 4. A regulação da resposta é importante para a conclusão da reação quando foi alcançado o seu propósito 5. O reparo consiste em uma série de eventos que possibilitam a cicatrização do tecido danificado. Nesse processo, o tecido lesionado é reparado por meio de regeneração das células sobreviventes e preenchimento com tecido conjuntivo dos defeitos residuais (cicatrização) PONTOS PRINCIPAIS DA REAÇÃO INFLAMATÓRIA TÍPICA: 1. Reconhecimento do Agente Nocivo o Células sentinelas (residentes nos tecidos) e fagócitos identificam produtos microbianos e substâncias de células danificadas por meio de receptores. o Esses receptores desencadeiam a produção de mediadores inflamatórios, iniciando a resposta inflamatória. 2. Recrutamento de Leucócitos e Proteínas Plasmáticas o Leucócitos (neutrófilos inicialmente, seguidos de monócitos e linfócitos) e proteínas plasmáticas (como complemento) são direcionados ao local afetado. o O recrutamento depende de alterações nos vasos sanguíneos e da ação de mediadores inflamatórios. 3. Remoção do Estímulo Inflamatório o Fagócitos eliminam microrganismos e células mortas por meio de ingestão e destruição. 4. Regulação da Resposta Inflamatória o Essencial para encerrar a reação após atingir seu objetivo, evitando danos ao tecido. 5. Reparo Tecidual o Acontece por regeneração de células sobreviventes e preenchimento de defeitos com tecido conjuntivo (cicatrização). Sequência de eventos em uma reação inflamatória. As células sentinelas nos tecidos (macrófagos, células dendríticas e outros tipos de células) reconhecem os microrganismos e as células danificadas e liberam mediadores, que desencadeiam as respostas vasculares e celulares da inflamação. PROPRIEDADES FUNDAMENTAIS DA RESPOSTA INFLAMATORIA: Componentes da resposta inflamatória. • Os vasos sanguíneos e os leucócitos constituem os principais participantes da reação inflamatória nos tecidos • os vasos sanguíneos respondem a estímulos inflamatórios por meio de sua dilatação e aumento da permeabilidade, possibilitando o extravasamento de proteínas circulantes selecionadas para o local de infecção ou de dano tecidual. Além disso, o endotélio que reveste os vasos sanguíneos também é modificado, de modo que os leucócitos circulantes possam aderir e, em seguida, migrar para os tecidos. • Uma vez recrutados, os leucócitos são ativados e adquirem a capacidade de ingerir e destruir os microrganismos e as células mortas, bem como corpos estranhos e outros materiais indesejados nos tecidos Consequências prejudiciais da inflamação • as reações inflamatórias protetoras contra infecções são acompanhadas de lesão tecidual local e seus sinais e sintomas associados (p. ex., dor e comprometimento funcional). Todavia, com frequência, essas consequências nocivas são autolimitadas e desaparecem à medida que a inflamação regride, deixando pouco ou nenhum dano. • Em contrapartida, existem muitas doenças nas quais a reação inflamatória é direcionada incorretamente (p. ex., contra os próprios tecidos nas doenças autoimunes), ocorre contra substâncias ambientais normalmente inofensivas (p. ex., nas alergias) ou é controlada de maneira inadequada. Nesses casos, a reação inflamatória, que objetiva proteger, torna-se a causa da doença, e o dano que provoca constitui a característica dominante. • As reações inflamatórias representam a base de doenças crônicas comuns, como artrite reumatoide, aterosclerose e fibrose pulmonar, bem como reações de hipersensibilidade com potencial fatal a picadas de insetos, alimentos, medicamentos e toxinas. • A inflamação também pode contribuir para uma variedade de doenças que acreditamos ser, sobretudo, metabólicas, degenerativas ou genéticas, como diabetes melito tipo 2, doença de Alzheimer e câncer. Inflamação local e sistêmica • Grande parte dessa discussão concentra-se na resposta inflamatória a uma infecção ou dano tecidual localizados. Embora até mesmo as reações locais possam ter manifestações sistêmicas (p. ex., febre em caso de faringite bacteriana ou viral), a inflamação é, em grande parte, confinada ao local de infecção ou dano. • Em situações raras, como algumas infecções bacterianas disseminadas, a reação inflamatória é sistêmica e provoca alterações patológicas generalizadas. Essa reação foi denominada sepse, que é uma forma da síndrome da resposta inflamatória sistêmica. Mediadores da inflamação • As reações vasculares e celulares da inflamação, que são desencadeadas por fatores solúveis, que são produzidos por várias células ou derivados de proteínas plasmáticas, e são geradas ou ativadas em resposta ao estímulo inflamatório. • Os microrganismos, as células necróticas (qualquer que seja a causa da morte celular) e até mesmo a hipóxia podem desencadear a produção de mediadores inflamatórios e, assim, provocar inflamação. • Esses mediadores iniciam e amplificam aresposta inflamatória e determinam o seu padrão, gravidade e manifestações clínicas e patológicas Inflamação aguda e crônica. A distinção entre inflamação aguda e crônica foi originalmente baseada na duração da reação, porém sabemos agora que elas diferem em vários aspectos (Tabela 3.2). A inflamação aguda é uma resposta rápida e, com frequência, autolimitada a agentes agressores que são facilmente eliminados, como muitas bactérias, fungos e células mortas. Normalmente, desenvolve-se em poucos minutos ou horas e é de curta duração (várias horas a alguns dias). Caracteriza-se pela exsudação de líquido e proteínas plasmáticas (edema) e pela migração de leucócitos, sobretudo neutrófilos. Se o estímulo agressor for eliminado, a reação diminui, e ocorre reparo da lesão residual. A inflamação crônica pode ocorrer após a inflamação aguda ou pode surgir de novo. Trata-se de uma resposta a agentes de difícil eliminação, como algumas bactérias (p. ex., bacilos da tuberculose) e outros patógenos (como vírus e fungos), bem como autoantígenos e antígenos ambientais. A inflamação crônica é de duração mais longa e está associada a maior destruição tecidual e cicatrização (fibrose). Algumas vezes, a inflamação crônica pode coexistir com inflamação aguda não resolvida, como pode ocorrer nas úlceras pépticas. Causas da inflamação As reações inflamatórias podem ser desencadeadas por uma variedade de estímulos: • As infecções (bacterianas, virais, fúngicas, parasitárias) e as toxinas microbianas estão entre as causas mais comuns e clinicamente importantes da inflamação. Os diferentes patógenos infecciosos provocam respostas inflamatórias variadas, desde inflamação aguda leve, que causa pouco ou nenhum dano duradouro e erradica com sucesso a infecção, até reações sistêmicas graves, que podem ser fatais, e reações crônicas prolongadas que causam lesão tecidual extensa. Os resultados são determinados, em grande parte, pelo tipo de patógeno e pela resposta do hospedeiro e, em certo grau, por outras características pouco definidas do hospedeiro • A necrose tecidual provoca inflamação, independentemente da causa da morte celular. As células podem morrer em consequência de isquemia (fluxo sanguíneo reduzido, que constitui a causa do infarto do miocárdio), trauma e lesões físicas e químicas (lesão térmica, como a que ocorre nas queimaduras ou no congelamento; irradiação; exposição a algumas substâncias químicas ambientais). Sabe-se que várias moléculas liberadas das células necróticas desencadeiam inflamação. • Os corpos estranhos (farpas, sujeira, suturas) podem provocar inflamação por eles próprios ou porque causam lesão traumática do tecido ou transportam microrganismos. Até mesmo substâncias endógenas podem ser prejudiciais se forem depositadas nos tecidos; essas substâncias incluem cristais de urato (na gota), cristais de colesterol (na aterosclerose) e lipídios (na síndrome metabólica associada à obesidade) • As reações imunes (também denominadas reações de hipersensibilidade) são reações nas quais o sistema imune, cujo objetivo é proteger, provoca dano aos próprios tecidos do indivíduo. As respostas imunes lesivas podem ser direcionadas contra antígenos próprios, causando doenças autoimunes, ou podem consistir em reações contra substâncias ambientais exógenas, como nas alergias, ou contra microrganismos. A inflamação constitui uma importante causa de lesão tecidual nessas doenças. Como os estímulos para as respostas inflamatórias (p. ex., autoantígenos e antígenos ambientais) não podem ser eliminados, as reações autoimunes e alérgicas tendem a ser persistentes e difíceis de curar, costumam Destaques Históricos da Inflamação: 1. Papiro Egípcio (~3.000 a.C.) o Primeira descrição das características clínicas da inflamação. 2. Celsus (1º século d.C.) o Identificou os quatro sinais cardinais da inflamação: ▪ Rubor (vermelhidão), tumor (edema), calor (calor) e dolor (dor). 3. Rudolf Virchow (século 19) o Adicionou um quinto sinal: functio laesa (perda de função). 4. John Hunter (1793) o Reconheceu que a inflamação é uma resposta benéfica para o hospedeiro, e não uma doença. 5. Elie Metchnikoff (década de 1880) o Descobriu a fagocitose como um processo em que células fagocíticas ingerem bactérias e debris. o Concluiu que o propósito da inflamação é mobilizar células fagocíticas até a área lesionada para ingerir as bactérias invasoras. 6. Sir Thomas Lewis (século 20) o Demonstrou que substâncias químicas, como a histamina, mediam as alterações vasculares da inflamação. o Fundamentou o desenvolvimento de medicamentos anti-inflamatórios. estar associadas à inflamação crônica e constituem causas importantes de morbidade e mortalidade. A inflamação é induzida, em grande parte, por citocinas produzidas pelos linfócitos T e por outras células do sistema imune. Reconhecimento de microrganismos e células danificadas O reconhecimento de componentes microbianos ou de substâncias liberadas por células danificadas constitui a etapa inicial nas reações inflamatórias. As células e os receptores que realizam essa função evoluíram para proteger os organismos multicelulares de microrganismos no ambiente, e as respostas que desencadeiam são de importância crítica para a sobrevivência dos organismos. Vários receptores celulares e proteínas circulantes são capazes de reconhecer microrganismos e produtos de dano celular e provocar inflamação: • Receptores celulares para microrganismos o As células expressam receptores na membrana plasmática (para microrganismos extracelulares), endossomos (para microrganismos ingeridos) e citosol (para microrganismos intracelulares), que permitem que as células detectem a presença de invasores estranhos em qualquer compartimento celular. o Os mais bem definidos desses receptores pertencem à família dos receptores do tipo Toll (Toll- like) (TLR). o Os receptores são expressos em muitos tipos de células, como células epiteliais (por meio das quais os microrganismos entram a partir do ambiente externo), células dendríticas, macrófagos e outros leucócitos (que podem encontrar microrganismos em vários tecidos). o A ocupação desses receptores desencadeia a produção de moléculas envolvidas na inflamação, como moléculas de adesão nas células endoteliais, citocinas e outros mediadores • Sensores de dano celular o Todas as células dispõem de receptores citosólicos, como os receptores do tipo NOD (NOD-like) (NLR), que reconhecem moléculas diversificadas que são liberadas ou alteradas em consequência do dano celular. Essas moléculas incluem o ácido úrico (um produto da degradação do DNA), trifosfato de adenosina (ATP) (liberado das mitocôndrias danificadas), concentrações intracelulares reduzidas de K+ (refletindo a perda de íons, devido à lesão da membrana plasmática), e até mesmo o DNA quando liberado no citoplasma e não sequestrado em núcleos, como ocorre normalmente, além de muitas outras. o Esses receptores ativam um complexo citosólico multiproteico, denominado inflamassoma, que induz a produção de uma citocina, a interleucina-1 (IL-1), que recruta leucócitos e, assim, induz a inflamação. o As mutações de ganho de função nos genes que codificam alguns dos receptores constituem a causa de doenças raras agrupadas como síndromes autoinflamatórias, que se caracterizam pela produção de IL-1 e inflamação espontâneas; os antagonistas da IL-1 proporcionam tratamentos efetivos para esses distúrbios. o O inflamassoma também foi implicado nas reações inflamatórias a cristais de urato (a causa da gota) a lipídios (na síndrome metabólica e no diabetes melito tipo 2 associada à obesidade), a cristais de colesterol (na aterosclerose) e até mesmo a depósitos amiloides no cérebro (na doença de Alzheimer). • Outros receptores celulares envolvidos na inflamaçãoo Além de reconhecer diretamente os microrganismos, muitos leucócitos expressam receptores para as porções Fc dos anticorpos e para proteínas do complemento. Esses receptores reconhecem microrganismos recobertos por anticorpos e complemento (o processo de revestimento é denominado opsonização) e promovem a ingestão e a destruição dos microrganismos, bem como a inflamação • Proteínas circulantes o O sistema complemento reage contra microrganismos e produz mediadores da inflamação. Uma proteína circulante, denominada lectina de ligação da manose, reconhece açúcares microbianos e promove a ingestão dos microrganismos e a ativação do sistema complemento. o Outras proteínas, denominadas colectinas, também se ligam a microrganismos e os combatem.