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L A W C A S E DIREITO PROCESSUAL CIVIL APLICADO QUESTÕES AVANÇADAS SOBRE A PENHORA DE SALÁRIOS E O AGRAVO DE INSTRUMENTO I. INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................................................................... 2 II. PENHORABILIDADE DE SALÁRIOS ..............................................................................................................................3 III. ADMISSIBILIDADE DO AGRAVO DE INSTRUMENTO: TEMA 988 DO STJ ................... 8 IV. LEGISLAÇÃO APLICADA ...................................................................................................................................................... 16 V. INDICAÇÃO DE LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................... 22 S U M Á R I O 2 I. INTRODUÇÃO A disputa em torno da (im)possibilidade de penhorar salários e das hipóteses de cabimento do recurso de agravo de instrumento coloca muitos desafios práticos e teóricos na mesa de discussão. O Law Case da Pós-Graduação em Direito Processual Civil Aplicado da Escola Brasileira de Direito (EBRADI), dentro de um ambiente que foge da liturgia da sala de aula e possibilita um espaço aberto de discussão de ideias, descortina parte da forma de pensar e praticar o direito, nessas temáticas, nos Tribunais brasileiros. Para enfrentar os desafios que as temáticas representam, este Law Case conta com a participação do professor Paulo Henrique dos Santos Lucon, professor livre-docente do Departamento de Direito Processual Civil da USP, vice-Presidente do Conselho do IBDP e patrono regente da pós-graduação em Direito Processual Aplicado da EBRADI. Para aumentar a qualidade do debate, o professor Paulo Lucon convidou o professor Luiz Guilherme Costa Wagner, desembargador do TJSP, pós-doutor pela Facultad de Derecho da Universidad de Salamanca e membro titular da academia Mackenzista de Letras, do Instituto Brasileiro de Direito Processual e do Instituto Ibero-americano de Direito Processual. Com uma rica bagagem prática, os professores Paulo Lucon e Luiz Guilherme estimulam importantes discussões acerca do Direito Processual Civil no que diz respeito à penhorabilidade de salários e às hipóteses de cabimento do agravo de instrumento a partir do Código de Processo Civil de 2015. 3 II. PENHORABILIDADE DE SALÁRIOS No que diz respeito à (im)possibilidade penhorabilidade de salários, temos que o artigo 833, inc. IV, do Código de Processo Civil, estabelece que são impenhoráveis: “os vencimentos, os subsídios, os soldos, os salários, as remunerações, os proventos de aposentadorias, as pensões, os pecúlios e os montepios, bem como as quantias recebidas por liberalidade de terceiro e destinadas ao sustento do devedor e de sua família, os ganhos do trabalhador autônomo e os honorários de profissional liberal, ressalvado o §2º” O referido § 2º, do artigo 833, do Código de Processo Civil, por sua vez, estabelece exceções legais à impenhorabilidade, fixando que o salário poderá ser penhorado: “para pagamento de prestação alimentícia, independentemente de sua origem, bem como às importâncias excedentes a 50 (cinquenta) salários-mínimos mensais [...]”. Nota-se, portanto, que existem apenas duas exceções a impenhorabilidade e, considerando a realidade da população brasileira, a incidência de penhora de importâncias excedentes a 50 (cinquenta) salários-mínimos mensais se mostra extremamente rara. Ou seja, há relevantes limitações legais para a execução no processo civil brasileiro. No entanto, tem se percebido que a fase de execução carece de efetividade em nosso País, de modo que muitos processos acabam sendo arquivados nessa fase, ante a inexistência de bens penhoráveis para satisfação do crédito. Diante desse cenário paradoxal, propõe-se uma discussão a respeito da seguinte questão: seria possível a penhora de valores oriundos das hipóteses previstas no inciso IV do art. 833, do Código de Processo Civil, ainda que o devedor receba menos de cinquenta salários-mínimos mensais? A intenção do legislador, com referidas limitações impostas ao procedimento de execução, seria proteger o devedor enquanto sujeito de maior vulnerabilidade socioeconômica em relação ao credor, partindo-se da premissa de que, na maioria dos casos a serem apreciados pelo Poder Judiciário, o credor seria uma instituição financeira ou entidade empresarial. No entanto, essa vulnerabilidade do devedor em relação ao credor pode não ser verificada em muitos casos. Veja-se, por exemplo, o caso de pessoas que dependem da renda do aluguel de um único imóvel para a sua subsistência e não conseguem satisfazer a execução do seu crédito em face de locatários inadimplentes – ainda que esses locatários recebam mais de 40 salários-mínimos mensais. 4 Para além dessa relativização da vulnerabilidade dos devedores, também deve-se ter em mente que a baixa efetividade da execução coloca em xeque a própria confiança dos cidadãos no Poder Judiciário, o que é prejudicial à pacificação dos conflitos sociais e pode até representar um incentivo à inadimplência. Ou seja, a busca por uma maior efetividade do processo poderia ter caráter pedagógico, orientando comportamentos da população. Assim, tendo em vista a relevância da efetividade da execução para todo o sistema jurídico, seria possível mitigar a impenhorabilidade de salários, dentro de critérios de razoabilidade, a fim de que se atenda ao interesse do credor, sem que se onere excessivamente o executado. Caberia ao Poder Judiciário buscar esse equilíbrio, mediante análise dos casos concretos. II.I Requisitos para a Penhora de Salários Conforme já indicado, a análise da possibilidade de penhora de valores oriundos das hipóteses previstas no inciso IV do art. 833, do Código de Processo Civil, em montante inferior a 50 (cinquenta) salários-mínimos, dependeria da casuística, ou seja, de verificação dos elementos fáticos do caso concreto. Isso, a priori, poderia afastar o debate a respeito desse tema dos Tribunais Superiores, uma vez que eles, à luz da Súmula 7 do Superior Tribunal de Justiça, não podem reexaminar fatos e provas. No entanto, a verificação da tese jurídica da possibilidade de mitigação das limitações indicadas no artigo 833, §2º, do Código de Processo Civil, enquanto interpretação do texto legal, não representa violação a esse óbice. Tanto é assim que o Superior Tribunal de Justiça, no julgamento dos Embargos de Divergência EREsp 1874222/DF, autorizou, em caráter excepcional, a penhora de salário para pagamento de dívida não alimentar, desde que fique demonstrado que essa penhora não comprometerá a subsistência do devedor e de sua família. De acordo com os fundamentos dessa decisão, essa medida pode ser tomada, quando demonstrado que todas as outras tentativas possíveis de satisfação do crédito foram infrutíferas. Esses embargos de divergência foram interpostos contra o acórdão da 4ª Turma do STJ que indeferiu penhora de 30% do salário do executado, sob o argumento de que a penhora dessa verba só poderia ocorrer para pagamento de prestação alimentícia ou caso o executado receba mais de 50 (cinquenta) salários-mínimos. Indicou-se a divergência dessa decisão com precedentes da Corte Especial e da Terceira Turma que autorizavam a penhora de salário do devedor que recebe menos de 50 5 (cinquenta) salários-mínimos se demonstrado que isso não compromete a sua subsistência. Para o relator desses Embargos de Divergência, Ministro João Otávio de Noronha, como o art. 833, do Código de Processo Civil não utiliza a expressão “absolutamente”, tal como constava do Código de Processo Civil anterior, a impenhorabilidade de salários se tornou relativa, permitindo a ponderação entre os princípios da menor onerosidade para o devedor e da efetividade da execução para o credor, de modo que é possível que o juiz - a partir daanálise do caso concreto - defira a penhora de quem recebe menos de 50 (cinquenta) salários-mínimos, se demonstrado que já foram frustradas outras tentativas de satisfação do crédito e que a penhora desse valor não compromete a subsistência do credor. Veja-se, nesse sentido, a ementa do acórdão que julgou esses Embargos, in verbis: PROCESSUAL CIVIL. EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA EM RECURSO ESPECIAL. EXECUÇÃO DE TÍTULO EXTRAJUDICIAL. PENHORA. PERCENTUAL DE VERBA SALARIAL. IMPENHORABILIDADE (ART. 833, IV e § 2º, CPC/2015). RELATIVIZAÇÃO. POSSIBILIDADE. CARÁTER EXCEPCIONAL. 1. O CPC de 2015 trata a impenhorabilidade como relativa, podendo ser mitigada à luz de um julgamento princípio lógico, mediante a ponderação dos princípios da menor onerosidade para o devedor e da efetividade da execução para o credor, ambos informados pela dignidade da pessoa humana. 2. Admite-se a relativização da regra da impenhorabilidade das verbas de natureza salarial, independentemente da natureza da dívida a ser paga e do valor recebido pelo devedor, condicionada, apenas, a que a medida constritiva não comprometa a subsistência digna do devedor e de sua família. 3. Essa relativização reveste-se de caráter excepcional e só deve ser feita quando restarem inviabilizados outros meios executórios que possam garantir a efetividade da execução e desde que avaliado concretamente o impacto da constrição na subsistência digna do devedor e de seus familiares. 4. Ao permitir, como regra geral, a mitigação da impenhorabilidade quando o devedor receber valores que excedam a 50 salários- mínimos, o § 2º do art. 833 do CPC não proíbe que haja ponderação da regra nas hipóteses de não excederem (EDcl nos EREsp n. 1.518.169/DF, relatora Ministra Nancy Andrighi, Corte Especial, DJe de 24.5.2019). 5. Embargos de divergência conhecidos e providos. (EREsp n. 1.874.222/DF, relator Ministro João Otávio de Noronha, Corte Especial, julgado em 19/4/2023, DJe de 24/5/2023.) (g.n) 6 No âmbito do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, esse entendimento também é aplicado, conforme se constata do julgamento do Agravo de Instrumento n. 2187599- 24.2018.8.26.0000, de relatoria do Desembargador Luiz Guilherme da Costa Wagner, conforme se extrai da ementa e da fundamentação empregada no seu acórdão, a seguir transcrito: “Agravo de Instrumento. Indenização. Acidente de trânsito. Cumprimento da sentença. Penhora de 30% dos proventos do executado. Possibilidade. Necessidade de se atingir um ponto de real equilíbrio entre a satisfação do crédito e a subsistência do devedor. Se é verdade que o legislador ordinário quis prestigiar a impenhorabilidade do salário, como forma de manutenção e sobrevivência do devedor, não é menos verdade que também pretendeu garantir aos jurisdicionados a eficiência das decisões judiciais condenatórias, de forma a tornar efetivo o cumprimento de sentença. Fenômeno da ‘Constitucionalização do Processo’ que exige que se faça a interpretação do artigo 833 do CPC a partir dos princípios constitucionais que balizam o processo civil moderno, entre os quais o da dignidade da pessoa humana do credor e a efetividade da justiça, um dos corolários da inafastabilidade de jurisdição. Impenhorabilidade absoluta do salário e de outros rendimentos que depõe contra a efetividade da justiça. Ausência de demonstração de que a penhora realizada inviabiliza a vida financeira do devedor ou impede a sua subsistência. Precedentes recentes do Superior Tribunal de Justiça autorizando a penhora de percentual do salário em casos como o presente. Decisão mantida. Recurso DESPROVIDO.” […] “De fato, é preciso que se atinja um ponto de real equilíbrio entre a satisfação do crédito e a subsistência do devedor. Se é verdade que o legislador ordinário quis prestigiara impenhorabilidade do salário, como forma de manutenção e sobrevivência do devedor, não é menos verdade que também pretendeu garantir aos jurisdicionados a eficiência das decisões judiciais condenatórias, de forma a tornar efetivo o cumprimento de sentença.” […] “A impenhorabilidade absoluta proclamada pela legislação brasileira está verdadeiramente na contramão da história e destoa da prática da maioria dos modernos ordenamentos jurídicos do mundo.” […] “No caso vertente, o agravante não se desincumbiu de demonstrar que a penhora sobre 30% (trinta por cento) de seus vencimentos o impediria de arcar com as suas despesas rotineiras, se valendo apenas de sua idade avançada e de afirmações a respeito de 7 gastos, cuja penhora, se mantida, prejudicaria sua subsistência, sem quaisquer comprovações. Assim, a constrição deve ser mantida até o percentual de 30% (trinta por cento) dos proventos do executado, como forma de se obter o equilíbrio ente os interesses do credor e as necessidades do devedor.” Nota-se, portanto, que está consolidada na jurisprudência a possibilidade de se penhorar valores oriundos das hipóteses previstas no inciso IV do art. 833, do Código de Processo Civil, como forma de se aumentar a efetividade do procedimento de execução. Por fim, todavia, cabe a observação de que essa mera mitigação das limitações indicadas no artigo 833, §2º, do Código de Processo Civil, não é suficiente, por si só, para resolver o problema da eficácia do processo. Há ainda uma série de outras reflexões a serem feitas para impulsionar a eficiência da execução, especialmente em relação às ferramentas de busca e localização de patrimônio dos devedores, que antecedem a própria penhora. A busca pelo aprimoramento do procedimento de execução, de forma ampla e global, está no centro do debate a respeito da eficiência do nosso sistema jurídico e deve ser continuamente realizada, tendo como horizonte não apenas o avanço da doutrina jurídica sobre o tema, mas também todas as tecnologias que são fundamentais para a satisfação de créditos. 8 III. ADMISSIBILIDADE DO AGRAVO DE INSTRUMENTO: TEMA 988 DO STJ Nos termos do art. 1.015, do Código de Processo Civil, o agravo de instrumento será cabível contra decisões interlocutórias que versarem sobre: I) tutelas provisórias; II) mérito do processo; III) rejeição da alegação de convenção de arbitragem; IV) incidente de desconsideração da personalidade jurídica; V) a gratuidade de justiça; VI) exibição ou posse de documento ou coisa; VII) exclusão de litisconsorte; VIII) a limitação de litisconsórcio; IX) a admissão ou inadmissão de intervenção de terceiros; X) concessão, modificação ou revogação do efeito suspensivo aos embargos à execução e; XI) redistribuição do ônus da prova. O legislador reformista optou por enumerar as hipóteses de cabimento do recurso em detrimento da expressão aberta empregada pela codificação de 1973: lesão grave e de difícil reparação. Assim, inicialmente, interpretou-se esse dispositivo como um rol taxativo, de modo que não seriam admissíveis recursos interpostos contra decisões que não se enquadrariam nessas hipóteses. O Superior Tribunal de Justiça, no entanto, alterou essa perspectiva, no julgamento do REsp n. 1.696.396/MT, ao estabelecer a tese da taxatividade mitigada desse rol: RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. DIREITO PROCESSUAL CIVIL. NATUREZA JURÍDICA DO ROL DO ART. 1.015 DO CPC/2015. IMPUGNAÇÃO IMEDIATA DE DECISÕES INTERLOCUTÓRIAS NÃO PREVISTAS NOS INCISOS DO REFERIDO DISPOSITIVO LEGAL. POSSIBILIDADE. TAXATIVIDADE MITIGADA. EXCEPCIONALIDADE DA IMPUGNAÇÃO FORA DAS HIPÓTESES PREVISTAS EM LEI. REQUISITOS. 1- O propósito do presente recurso especial, processado e julgado sob o rito dos recursos repetitivos, é definir a natureza jurídica do rol do art. 1.015 do CPC/15 e verificar a possibilidade de sua interpretação extensiva, analógica ou exemplificativa, a fim de admitir a interposição de agravo de instrumento contra decisão interlocutória que verse sobre hipóteses não expressamente previstas nos incisos do referido dispositivo legal. 2- Ao restringir a recorribilidade das decisões interlocutórias proferidasna fase de conhecimento do procedimento comum e dos procedimentos especiais, exceção feita ao inventário, pretendeu o legislador salvaguardar apenas as “situações que, realmente, 9 não podem aguardar rediscussão futura em eventual recurso de apelação”. 3- A enunciação, em rol pretensamente exaustivo, das hipóteses em que o agravo de instrumento seria cabível revela-se, na esteira da majoritária doutrina e jurisprudência, insuficiente e em desconformidade com as normas fundamentais do processo civil, na medida em que sobrevivem questões urgentes fora da lista do art. 1.015 do CPC e que tornam inviável a interpretação de que o referido rol seria absolutamente taxativo e que deveria ser lido de modo restritivo. 4- A tese de que o rol do art. 1.015 do CPC seria taxativo, mas admitiria interpretações extensivas ou analógicas, mostra-se igualmente ineficaz para a conferir ao referido dispositivo uma interpretação em sintonia com as normas fundamentais do processo civil, seja porque ainda remanescerão hipóteses em que não será possível extrair o cabimento do agravo das situações enunciadas no rol, seja porque o uso da interpretação extensiva ou da analogia pode desnaturar a essência de institutos jurídicos ontologicamente distintos. 5- A tese de que o rol do art. 1.015 do CPC seria meramente exemplificativo, por sua vez, resultaria na repristinação do regime recursal das interlocutórias que vigorava no CPC/73 e que fora conscientemente modificado pelo legislador do novo CPC, de modo que estaria o Poder Judiciário, nessa hipótese, substituindo a atividade e a vontade expressamente externada pelo Poder Legislativo. 6- Assim, nos termos do art. 1.036 e seguintes do CPC/2015, fixa-se a seguinte tese jurídica: O rol do art. 1.015 do CPC é de taxatividade mitigada, por isso admite a interposição de agravo de instrumento quando verificada a urgência decorrente da inutilidade do julgamento da questão no recurso de apelação. 7- Embora não haja risco de as partes que confiaram na absoluta taxatividade serem surpreendidas pela tese jurídica firmada neste recurso especial repetitivo, pois somente haverá preclusão quando o recurso eventualmente interposto pela parte venha a ser admitido pelo Tribunal, modulam-se os efeitos da presente decisão, a fim de que a tese jurídica apenas seja aplicável às decisões interlocutórias proferidas após a publicação do presente acórdão. 8- Na hipótese, dá-se provimento em parte ao recurso especial para determinar ao TJ/MT que, observados os demais pressupostos de admissibilidade, conheça e dê regular prosseguimento ao agravo de instrumento no que se refere à competência, reconhecendo-se, todavia, o acerto do acórdão recorrido em não examinar à questão do valor atribuído à causa que não se reveste, no particular, de urgência que justifique o seu reexame imediato. 10 9- Recurso especial conhecido e parcialmente provido. (REsp n. 1.696.396/MT, relatora Ministra Nancy Andrighi, Corte Especial, julgado em 5/12/2018, DJe de 19/12/2018.) A partir disso, fixou-se o Tema 988/STJ que contém o seguinte enunciado: “o rol do art. 1.015 do CPC é de taxatividade mitigada, por isso admite a interposição de agravo de instrumento quando verificada a urgência decorrente da inutilidade do julgamento da questão no recurso de apelação”. Não obstante a fixação dessa tese, sua aplicação ainda enseja questionamentos e divergências de entendimento na jurisprudência, o que traz insegurança jurídica e pode deixar os jurisdicionados sujeitos a uma “jurisprudência lotérica”. Deve-se ressaltar que o debate é complexo e que existem princípios a serem sopesados. No entanto, muitas vezes parece haver uma vantagem em se admitir o agravo de instrumento e solucionar controvérsias com maior brevidade, pois esses temas objeto do agravo de instrumento também poderão ser objeto de preliminar de apelação. Ou seja, a não admissibilidade do agravo pode postergar o reconhecimento de uma nulidade e trazer ainda mais morosidade para o processo. Vejamos, a seguir, os casos em que se verifica a ocorrência de decisões divergentes nos Tribunais a respeito da admissibilidade ou não de recursos de agravo de instrumento. III.I Decisão Interlocutória sobre o Valor da Causa a) Agravo de instrumento não admitido: Prestação de serviços. Ação de indenização. Determinação de emenda da petição inicial para atribuição de correto valor à causa. Hipótese que não se subsume ao rol de decisões agraváveis. Recurso incabível. Precedentes. A questão trazida ao Tribunal por meio deste recurso não se subsume às hipóteses previstas no art. 1015 do CPC. Embora o STJ venha entendendo que a taxatividade do rol daquele dispositivo legal deva ser mitigada, se demonstrada a urgência que decorre da inutilidade futura do julgamento do recurso da apelação, não se verifica tal urgência no caso concreto. Agravo não conhecido. (TJSP; Agravo de Instrumento 2141719-67.2022.8.26.0000; 12ª Câmara de Direito Privado; Rel. Des. Sandra Galhardo Esteves; Data do Julgamento: 21/07/2022) 11 b) Agravo de Instrumento admitido: AGRAVO DE INSTRUMENTO. AÇÃO DE COBRANÇA DE HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS. ACOLHIMENTO DE IMPUGNAÇÃO AO VALOR DA CAUSA, COM DETERMINAÇÃO DE COMPLEMENTAÇÃO DAS CUSTAS INICIAIS SOB PENA DE EXTINÇÃO. INSURGÊNCIA DO AUTOR Impossibilidade de aferir imediatamente o valor do proveito econômico pretendido Possibilidade de a parte autora atribuir livremente valor à causa, vedado o abuso no exercício desse direito. Hipótese em que, observados os princípios da razoabilidade e proporcionalidade, o valor dado pelo autor deve ser mantido Decisão reformada Recurso provido. (TSJP, Agravo de Instrumento nº 2187815-43.2022.8.26.0000, 29ª Câmara de Direito Privado, rel. Des. José Augusto Genofre Martins, j. 19.10.22) III.II Decisão de Deferimento de Gratuidade de Justiça a) Agravo de Instrumento admitido: Agravo de Instrumento. Execução de título extrajudicial. Justiça gratuita. Pessoa física. Taxatividade do rol do art. 1015 do CPC que deve ser flexibilizada em nome do Princípio da Inafastabilidade de Jurisdição e como forma de evitar o manejo de mandado de segurança. Documentos juntados aos autos que corroboram a alegada hipossuficiência financeira. Agravante que aufere rendimentos de acordo com o critério adotado pela Defensoria Pública do Estado de São Paulo para considerar o indivíduo pobre, na acepção do termo jurídico. Concessão dos benefícios da assistência judiciária gratuita que não produz efeitos ex tunc. RECURSO DESPROVIDO, COM OBSERVAÇÃO. (TJSP, Agravo de instrumento nº 2257280-13.2020.8.26.0000, 34ª. Câmara de Direito Privado, rel. Des. LG Costa Wagner, por maioria de votos, j. 25.03.21) Nesse ponto cabe destacar que o deferimento do agravo de instrumento para os casos em que é deferida a gratuidade se mostraria como uma medida de paridade entre as partes no processo, não havendo posição de vantagem diferenciada a depender do sentido da decisão a ser proferida no caso. No entanto, a imensa maioria das decisões é no sentido de que prevaleceria a restrição do art. 1.015 do Código de Processo Civil, sob o fundamento de que o deferimento da gratuidade não representaria dano irreparável à parte. 12 Todavia, há que se ponderar que o não pagamento das custas, no caso em que a gratuidade acabar por ser indeferida, pode ensejar a extinção do processo. Ou seja, a parte pode ser indevidamente submetida por anos a tramitação de um processo que, ao final, será extinto por falta de pagamento de custas ante o reconhecimento do indeferimento da gratuidade. Assim, poderia ser mais vantajoso decidir essa questão no início da tramitação da demanda, por meio do recurso de agravo de instrumento. Além disso, a irrecorribilidade da decisão que defere o benefício da gratuidade pode favorecer aventuras jurídicas, na medida em que a parte que abusa do direito de litigar não tem riscos financeiros com a sua conduta. III.III Decisão Interlocutória sobrea Produção de Prova Se houver risco de perecimento da prova, inconteste o cabimento do agravo, vez que presente “a urgência decorrente da inutilidade do julgamento da questão no recurso de apelação”. Em outros casos, há divergência de entendimentos a respeito da admissibilidade do agravo. a) Agravo de instrumento não admitido AGRAVO DE INSTRUMENTO. Locação comercial. Ação de rescisão contratual c/c cobrança de multa. Indeferimento de produção de prova pericial e documental. Recurso incabível. Decisão agravada que não se enquadra nas hipóteses do rol taxativo do art. 1.015, do Código de Processo Civil. Não há qualquer hipótese de cabimento do agravo em relação ao deferimento ou indeferimento da produção de provas, mas tão somente quanto à redistribuição do ônus da prova (inciso XI, do art. 1015, do CPC). Precedentes deste E. Tribunal. RECURSO NÃO CONHECIDO. (TJSP; Agravo de Instrumento 2146026- 98.2021.8.26.0000; Relator (a): Carmen Lucia da Silva; Órgão Julgador: 25ª Câmara de Direito Privado; Foro Central Cível - 8ª Vara Cível; Data do Julgamento: 19/10/2021; Data de Registro: 19/10/2021). b) Agravo de instrumento admitido AGRAVO DE INSTRUMENTO IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA REALIZAÇÃO DE PROVA ORAL. Decisão a quo que indeferiu a produção de prova testemunhal Pleito dos agravantes pelo deferimento. PRODUÇÃO DE PROVA ORAL Possibilidade Alegações impeditivas, extintivas e modificativas apresentadas pelos agravantes são todas fáticas e, portanto, necessitam de comprovação No caso concreto, a prova testemunhal é meio de prova apto a demonstrar situações fáticas, as quais não podem ser confirmadas por outros meios de prova Pertinência da realização de prova testemunhal, uma 13 vez que tais elementos de provas poderão, inclusive, isenta-los da responsabilidade Também, o deferimento da prova requerida evita eventual anulação de sentença por ocorrência de cerceamento de defesa. Decisão reformada. Recursos providos. (TJSP - Agravo de Instrumento nº 2269109-88.2020.8.26.0000, 8ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça de São Paulo, Des. LEONEL COSTA, j. 15 de fevereiro de 2021). Há, ainda, outros argumentos periféricos, em especial: (i) a possibilidade que o resultado de uma prova traz para a composição das partes; (ii) a plena observância dos princípios constitucionais do contraditório e da ampla defesa. Sobre essa questão, em especial, cabe ressaltar que a admissibilidade do agravo de instrumento parece ser vantajosa. Isso porque a parte prejudicada pela decisão pode seguir recorrendo, em sede de apelação, recurso especial e recurso extraordinário, havendo risco concreto de que seja reconhecida nulidade em momento futuro e os autos retornem à primeira instância para a produção da prova, mesmo após anos de tramitação. III. IV Decisão que Determina a Emenda da Inicial a) Agravo de instrumento admitido: AGRAVO DE INSTRUMENTO. Decisão que determinou à parte autora a emenda da petição inicial, a fim de que instruísse seu pedido com o comprovante de pagamento do valor residual garantido, cuja repetição se pleiteia, bem como de documentação que comprovasse a alienação do veículo objeto do financiamento, pela credora fiduciária. Inconformismo da parte autora. Acolhimento. Relação de consumo. Parte autora que demonstrou, de forma suficiente, a verossimilhança de suas alegações, trazendo elementos suficientes para resposta da parte contrária em contestação. Aplicação do artigo 6º, inciso VIII, do Código de Defesa do Consumidor. Taxatividade mitigada do recurso de agravo de instrumento para o caso concreto, em prestígio aos princípios da economia e celeridade processuais. Decisão reformada. Recurso provido. (TJSP, Agravo de Instrumento nº 2071369-54.2022.8.26.0000, 27ª. Câmara de Direito Priva, rel. Des. Rogério Murilo Pereira Cimino, j. 20.10.22) b) Agravo de Instrumento não admitido: Agravo de Instrumento. Alienação Fiduciária. Busca e apreensão. Decisão de primeiro grau que determinou a emenda da inicial para comprovação da constituição do réu em mora. Irresignação da instituição financeira. Por força de lei, a decisão em questão não pode ser impugnada por Agravo de Instrumento. Com efeito, o rol 14 constante do dispositivo contido no art. 1015, do NCPC é taxativo e dele não consta a decisão que determina a emenda da inicial para comprovação da regular constituição do réu em mora, na demanda de busca e apreensão. Só podem ser impugnadas por agravo de instrumento as decisões interlocutórias relacionadas no dispositivo contido no art. 1015, do NCPC. Frise-se que, in casu, não houve indeferimento do pedido de liminar de busca e apreensão. Com efeito, o Juízo a quo simplesmente determinou ao agravante, o aditamento da petição inicial, visando a comprovação da regular constituição do réu em mora, não havendo denegação efetiva da liminar de busca e apreensão. Recurso não conhecido. (TJSP, Agravo de Instrumento nº 2232499-53.2022.8.26.0000, 29ª. Câmara de Direito Privado, rel. Des. NETO BARBOSA FERREIRA, j. 19.10.22) AGRAVO DE INSTRUMENTO. Ação de busca e apreensão de veículo. Alienação fiduciária. Insurgência contra decisão que determinou a emenda à inicial para que o credor fiduciário comprove a constituição em mora do devedor fiduciante. Matéria impugnada que não consta do rol taxativo do art. 1.015 do CPC. Ausente o risco de grave lesão ao recorrente de modo a permitir a interpretação mitigada do referido rol, conforme precedente do C. STJ. Pedido de liminar que ainda não foi efetivamente analisado pelo r. juízo de primeiro grau. Matéria não acobertada pela preclusão que deve ser suscitada por quem de direito em preliminar de eventual apelação ou contrarrazões (§ 1º, art. 1.009 do CPC). RECURSO NÃO CONHECIDO. (TJSP; Agravo de Instrumento 2205117-22.2021.8.26.0000; Relator (a): Carmen Lucia da Silva; Órgão Julgador: 25ª Câmara de Direito Privado; Foro de Cotia - 1ª Vara Cível; Data do Julgamento: 28/09/2021; Data de Registro: 28/09/2021) RECURSO ESPECIAL. PROCESSUAL CIVIL. DECISÃO QUE DETERMINA A EMENDA OU COMPLEMENTAÇÃO DA PETIÇÃO INICIAL. NATUREZA JURÍDICA. DECISÃO INTERLOCUTÓRIA. AGRAVO DE INSTRUMENTO. NÃO CABIMENTO. 1. Recurso especial interposto em 19/1/2022 e concluso ao gabinete em 7/4/2022. 2. O propósito recursal consiste em dizer se é recorrível, de imediato e por meio de agravo de instrumento, a decisão que determina, sob pena de extinção do processo, a emenda ou a complementação da petição inicial. 3. A Corte Especial do STJ, por ocasião do julgamento dos recursos especiais nº 1.696.396/MT e 1.704.520/MT, submetidos ao rito dos repetitivos, fixou o entendimento de que o rol previsto no art. 1.015 do CPC/2015 seria de taxatividade mitigada, admitindo-se a interposição de agravo de instrumento quando verificada a urgência decorrente da inutilidade do julgamento da questão no recurso de apelação. 4. O pronunciamento judicial que determina a emenda ou a complementação da petição inicial enquadre-se no conceito de decisão interlocutória. 5. Sob a égide do CPC/2015, a decisão que determina, sob pena de extinção do processo, a emenda ou a complementação da petição inicial não é recorrível por meio do recurso de agravo de instrumento, motivo pelo qual eventual impugnação deve ocorrer em preliminar de apelação, na forma do 15 art. 331 do referido Diploma. 6. Recurso especial não provido. (STJ, RECURSO ESPECIAL Nº 1.987.884 – MA, rel. Min. Nancy ANDRIGHI, j. 21.06.22) Note-se, portanto, que a incerteza em saber se pode ou não agravar de instrumento é ruim para o advogado e para a sociedade. A admissibilidade do agravo fora das hipóteses do rol cai, muitas vezes, no campo subjetivo, havendo divergência entre as câmaras sobre quais temáticas estão abarcadas pela mitigação. Isso afeta tanto a segurança jurídica quanto à igualdade. Pois, a depender da distribuição, a parte terá ou não seu agravo admitido. 16 IV. LEGISLAÇÃO APLICADA Código de Processo Civil de 2015Art. 831. A penhora deverá recair sobre tantos bens quantos bastem para o pagamento do principal atualizado, dos juros, das custas e dos honorários advocatícios. Art. 832. Não estão sujeitos à execução os bens que a lei considera impenhoráveis ou inalienáveis. Art. 833. São impenhoráveis: I - os bens inalienáveis e os declarados, por ato voluntário, não sujeitos à execução; II - os móveis, os pertences e as utilidades domésticas que guarnecem a residência do executado, salvo os de elevado valor ou os que ultrapassem as necessidades comuns correspondentes a um médio padrão de vida; III - os vestuários, bem como os pertences de uso pessoal do executado, salvo se de elevado valor; IV - os vencimentos, os subsídios, os soldos, os salários, as remunerações, os proventos de aposentadoria, as pensões, os pecúlios e os montepios, bem como as quantias recebidas por liberalidade de terceiro e destinadas ao sustento do devedor e de sua família, os ganhos de trabalhador autônomo e os honorários de profissional liberal, ressalvado o § 2º; V - os livros, as máquinas, as ferramentas, os utensílios, os instrumentos ou outros bens móveis necessários ou úteis ao exercício da profissão do executado; VI - o seguro de vida; VII - os materiais necessários para obras em andamento, salvo se essas forem penhoradas; VIII - a pequena propriedade rural, assim definida em lei, desde que trabalhada pela família; IX - os recursos públicos recebidos por instituições privadas para aplicação compulsória em educação, saúde ou assistência social; X - a quantia depositada em caderneta de poupança, até o limite de 40 (quarenta) 17 salários-mínimos; XI - os recursos públicos do fundo partidário recebidos por partido político, nos termos da lei; XII - os créditos oriundos de alienação de unidades imobiliárias, sob regime de incorporação imobiliária, vinculados à execução da obra. § 1º A impenhorabilidade não é oponível à execução de dívida relativa ao próprio bem, inclusive àquela contraída para sua aquisição. § 2º O disposto nos incisos IV e X do caput não se aplica à hipótese de penhora para pagamento de prestação alimentícia, independentemente de sua origem, bem como às importâncias excedentes a 50 (cinquenta) salários-mínimos mensais, devendo a constrição observar o disposto no art. 528, § 8º, e no art. 529, § 3º. § 3º Incluem-se na impenhorabilidade prevista no inciso V do caput os equipamentos, os implementos e as máquinas agrícolas pertencentes a pessoa física ou a empresa individual produtora rural, exceto quando tais bens tenham sido objeto de financiamento e estejam vinculados em garantia a negócio jurídico ou quando respondam por dívida de natureza alimentar, trabalhista ou previdenciária. Art. 834. Podem ser penhorados, à falta de outros bens, os frutos e os rendimentos dos bens inalienáveis. Art. 835. A penhora observará, preferencialmente, a seguinte ordem: I - dinheiro, em espécie ou em depósito ou aplicação em instituição financeira; II - títulos da dívida pública da União, dos Estados e do Distrito Federal com cotação em mercado; III - títulos e valores mobiliários com cotação em mercado; IV - veículos de via terrestre; V - bens imóveis; VI - bens móveis em geral; VII - semoventes; VIII - navios e aeronaves; 18 IX - ações e quotas de sociedades simples e empresárias; X - percentual do faturamento de empresa devedora; XI - pedras e metais preciosos; XII - direitos aquisitivos derivados de promessa de compra e venda e de alienação fiduciária em garantia; XIII - outros direitos. § 1º É prioritária a penhora em dinheiro, podendo o juiz, nas demais hipóteses, alterar a ordem prevista no caput de acordo com as circunstâncias do caso concreto. § 2º Para fins de substituição da penhora, equiparam-se a dinheiro a fiança bancária e o seguro garantia judicial, desde que em valor não inferior ao do débito constante da inicial, acrescido de trinta por cento. § 3º Na execução de crédito com garantia real, a penhora recairá sobre a coisa dada em garantia, e, se a coisa pertencer a terceiro garantidor, este também será intimado da penhora. Art. 836. Não se levará a efeito a penhora quando ficar evidente que o produto da execução dos bens encontrados será totalmente absorvido pelo pagamento das custas da execução. § 1º Quando não encontrar bens penhoráveis, independentemente de determinação judicial expressa, o oficial de justiça descreverá na certidão os bens que guarnecem a residência ou o estabelecimento do executado, quando este for pessoa jurídica. § 2º Elaborada a lista, o executado ou seu representante legal será nomeado depositário provisório de tais bens até ulterior determinação do juiz. [...] Art. 1.009. Da sentença cabe apelação. § 1º As questões resolvidas na fase de conhecimento, se a decisão a seu respeito não comportar agravo de instrumento, não são cobertas pela preclusão e devem ser suscitadas em preliminar de apelação, eventualmente interposta contra a decisão final, ou nas contrarrazões. § 2º Se as questões referidas no § 1º forem suscitadas em contrarrazões, o recorrente 19 será intimado para, em 15 (quinze) dias, manifestar-se a respeito delas. § 3º O disposto no caput deste artigo aplica-se mesmo quando as questões mencionadas no art. 1.015 integrarem capítulo da sentença. [...] Art. 1.015. Cabe agravo de instrumento contra as decisões interlocutórias que versarem sobre: I - tutelas provisórias; II - mérito do processo; III - rejeição da alegação de convenção de arbitragem; IV - incidente de desconsideração da personalidade jurídica; V - rejeição do pedido de gratuidade da justiça ou acolhimento do pedido de sua revogação; VI - exibição ou posse de documento ou coisa; VII - exclusão de litisconsorte; VIII - rejeição do pedido de limitação do litisconsórcio; IX - admissão ou inadmissão de intervenção de terceiros; X - concessão, modificação ou revogação do efeito suspensivo aos embargos à execução; XI - redistribuição do ônus da prova nos termos do art. 373, § 1º; XII - (VETADO); XIII - outros casos expressamente referidos em lei. Parágrafo único. Também caberá agravo de instrumento contra decisões interlocutórias proferidas na fase de liquidação de sentença ou de cumprimento de sentença, no processo de execução e no processo de inventário. Art. 1.016. O agravo de instrumento será dirigido diretamente ao tribunal competente, 20 por meio de petição com os seguintes requisitos: I - os nomes das partes; II - a exposição do fato e do direito; III - as razões do pedido de reforma ou de invalidação da decisão e o próprio pedido; IV - o nome e o endereço completo dos advogados constantes do processo. Art. 1.017. A petição de agravo de instrumento será instruída: I - obrigatoriamente, com cópias da petição inicial, da contestação, da petição que ensejou a decisão agravada, da própria decisão agravada, da certidão da respectiva intimação ou outro documento oficial que comprove a tempestividade e das procurações outorgadas aos advogados do agravante e do agravado; II - com declaração de inexistência de qualquer dos documentos referidos no inciso I, feita pelo advogado do agravante, sob pena de sua responsabilidade pessoal; III - facultativamente, com outras peças que o agravante reputar úteis. § 1º Acompanhará a petição o comprovante do pagamento das respectivas custas e do porte de retorno, quando devidos, conforme tabela publicada pelos tribunais. § 2º No prazo do recurso, o agravo será interposto por: I - protocolo realizado diretamente no tribunal competente para julgá-lo; II - protocolo realizado na própria comarca, seção ou subseção judiciárias; III - postagem, sob registro, com aviso de recebimento; IV - transmissão de dados tipo fac-símile, nos termos da lei; V - outra forma prevista em lei. § 3º Na falta da cópia de qualquer peça ou no caso de algum outro vício que comprometa a admissibilidade do agravo de instrumento, deve o relator aplicar o disposto no art. 932,parágrafo único. § 4º Se o recurso for interposto por sistema de transmissão de dados tipo fac-símile ou similar, as peças devem ser juntadas no momento de protocolo da petição original. 21 § 5º Sendo eletrônicos os autos do processo, dispensam-se as peças referidas nos incisos I e II do caput, facultando-se ao agravante anexar outros documentos que entender úteis para a compreensão da controvérsia. Art. 1.018. O agravante poderá requerer a juntada, aos autos do processo, de cópia da petição do agravo de instrumento, do comprovante de sua interposição e da relação dos documentos que instruíram o recurso. § 1º Se o juiz comunicar que reformou inteiramente a decisão, o relator considerará prejudicado o agravo de instrumento. § 2º Não sendo eletrônicos os autos, o agravante tomará a providência prevista no caput, no prazo de 3 (três) dias a contar da interposição do agravo de instrumento. § 3º O descumprimento da exigência de que trata o § 2º, desde que arguido e provado pelo agravado, importa inadmissibilidade do agravo de instrumento. Art. 1.019. Recebido o agravo de instrumento no tribunal e distribuído imediatamente, se não for o caso de aplicação do art. 932, incisos III e IV, o relator, no prazo de 5 (cinco) dias: I - poderá atribuir efeito suspensivo ao recurso ou deferir, em antecipação de tutela, total ou parcialmente, a pretensão recursal, comunicando ao juiz sua decisão; II - ordenará a intimação do agravado pessoalmente, por carta com aviso de recebimento, quando não tiver procurador constituído, ou pelo Diário da Justiça ou por carta com aviso de recebimento dirigida ao seu advogado, para que responda no prazo de 15 (quinze) dias, facultando-lhe juntar a documentação que entender necessária ao julgamento do recurso; III - determinará a intimação do Ministério Público, preferencialmente por meio eletrônico, quando for o caso de sua intervenção, para que se manifeste no prazo de 15 (quinze) dias. Art. 1.020. O relator solicitará dia para julgamento em prazo não superior a 1 (um) mês da intimação do agravado. 22 V. INDICAÇÃO DE LEITURA COMPLEMENTAR BOLONHEIZ, Gilmara Gonçalves; CHUEIRI, Miriam Fecchio; CARDOSO, Kelly. Decisão interlocutória declinatória de competência recorrível por agravo de instrumento: análise interpretativa do art. 1.015 do Código de Processo Civil. Research, Society and Development, 2021, 10.4: e6710413920-e6710413920. BUZINARO, Mauri. A hermenêutica abusiva do STJ: Penhora de salários e outros proventos e ampliação das decisões interlocutórias, sujeitas ao recurso de agravo de instrumento. Revista Jurídica-FADAP, 2022, 14. CHRISTALDO, Letícia Brígida De Abreu Lima; HAJJ, Hassan. A impenhorabilidade do salário e da poupança sob a ótica do Superior Tribunal De Justiça: do impedimento ao processo de execução à garantia ao mínimo existencial do devedor. Revista Jurídica Direito, Sociedade E Justiça, 2022, 9.14: 15-47. EID, Elie Pierre. Fundamentos para uma revisão crítica da Teoria Geral dos Recursos. Revista de Processo| vol, 2023, 335.2023: 149-182. FONSECA, Claudia de Oliveira; FERNANDES, Luma Motta. Impenhorabilidade de salários: o STJ e a alteração legislativa. Cadernos de Ciências Sociais Aplicadas, 2021, 192-206. GUIMARÃES, Ana Luisa de figueiredo; D’AVILA, Ester Moraes. Ampliação dos princípios constitucionais processuais no recurso de agravo de instrumento. Virtuajus, 2020, 5.9: 228-237. LIMA, Isabelle Queiroz de, et al. Agravo de instrumento: análise crítica da natureza jurídica de suas hipóteses de cabimento. Revista da Defensoria Pública do Estado do Rio Grande do Sul, 2022, 1.30: 34-52. MENDES, Lucas, et al. O agravo de instrumento previsto no novo Código de Processo Civil: relação com o Jurisprudencialismo de Antonio Castanheira Neves. E-Civitas, 2020, 13.1: 207-221. NETO, Romildo Custódio Azevedo; SALES, Ana Débora Rocha. O agravo de instrumento previsto no artigo 1.015 do Código de Processo Civil brasileiro de 2015. Revista Campo da História, 2022, 7.2: 514-531. 23 NUNES, Julia Gabriela de Melo; JUNIOR, Tarcizio Cleso Neres Nunes. Relativização da Regra da Impenhorabilidade de Salário. Revista Extensão, 2021, 5.3: 69-78. SANTOS, Carlos Eduardo Ferreira dos. Impenhorabilidade de salário nas execuções civis versus direito ao pagamento do credor. Revista do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, 2021, 33.1: 29-46. VON LASPERG, Henrich. Direito Processual Civil: cabimento do Agravo de Instrumento contra decisão que nega efeito suspensivo em embargos à execução. Percurso, 2023, 3.44: 35-60. .