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AULA 5 ALFABETIZAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS Profª Cristina Rolim Chyczy Bruno 2 INTRODUÇÃO Os estudos ora apresentados trazem as relevantes contribuições de Paulo Freire para a educação, em especial a alfabetização de adultos(as). Explicitamos de forma ampla e abrangente uma breve história do patrono da educação brasileira, destacando sua intensa preocupação com a educação de adultos. Quando nos referimos aos adultos nas ideias de Freire, estamos falando das pessoas do povo, aquelas excluídas e marginalizadas, que foram a essência e a principal preocupação do educador. Esclarecemos sobre a essência do método Paulo Freire, e em vários momentos você vai ler a palavra método escrita em itálico. Isso ocorre porque o próprio educador era contrário à definição de sua proposta como método. Ele desenvolveu sua teoria com um objetivo muito mais amplo: ensinar adultos iletrados a ler e escrever para que tivessem mais oportunidades na sociedade. A questão é que Paulo Freire não propôs um método entre outros. Um método psicopedagogicamente diferente e, quem sabe?, melhor. Antes de fazer isso ele investiu aos brados com uma educação, contra outras. Por isso, depois de falar contra que a educação a sua se apresenta e como é a educação em que ele crê, é preciso dizer contra que tipo de Mundo ele acredita em um outro, e por que crê que a educação que reinventa pode ser um instrumento a mais no trabalho de os homens o criarem, transformando este que aí está. (Brandão, 2005, p. 15,16; grifo do original) A proposta de Freire foi construída sustentada nos alicerces do diálogo e do respeito à cultura dos menos favorecidos. Então, definida por muitos educadores como método de alfabetização, ela englobava entrevistas para investigar o universo temático dos(das) educandos(das), questionando essas pessoas acerca da forma peculiar com a qual concebiam o mundo. Nessas entrevistas, o(a) professor(a) antes mesmo de iniciar o trabalho, já criava vínculos com seus estudantes. A partir do levantamento das palavras, seguia todo o encaminhamento do processo da alfabetização. Enfim, da palavra, que representava o modo de viver, nascia também o desejo de aprender. Na perspectiva destes estudos, em todo momento procurou-se evidenciar a relevância da teoria e da prática alfabetizadora de Paulo Freire, cientes de que suas ideias não podem ser interpretadas longe do contexto em que se encontrava, assim como de seu projeto social e político. Expressamos o rigoroso entendimento de que não se pode ser freireano “apenas cultivando suas ideias. Isso exige sobretudo, comprometer-se com a 3 construção de um outro mundo possível. Sua pedagogia sem fronteiras é um convite para transformar o mundo” (Gadotti, 2008, p. 98). Adentrar na epistemologia de Freire não é um exercício fácil, afinal, o autor exige uma leitura aprofundada e rigorosa, e suas ideias estão em constante reinvenção. TEMA 1 – PAULO FREIRE: MESTRE QUE TRANSFORMOU A HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS No intuito de conhecer com maior rigor as ideias de Paulo Freire para educação de adultos, vamos apresentar um pouco da história de quem foi o patrono da educação brasileira. O mestre nasceu no dia 19 de setembro de 1921 na cidade de Recife. Em 1943, cursou direito, todavia atuou como docente – não na área do direito, e sim de língua portuguesa. A preocupação com a educação dos adultos foi uma constante na vida do educador, mais especificamente adultos homens e mulheres do “povo”, aqueles expostos à pobreza e à marginalização. Essa preocupação foi uma das motivações para a produção de um saber voltado à cultura popular. Quando se definia como professor, Freire sempre destacava que não havia nascido professor, embora na infância e na adolescência estivesse sempre em estado de sonhos voltados à docência. Morreu aos 75 anos de idade, deixou publicados mais de 40 livros, em que os produziu sozinho. Um homem sempre aberto a rever seus conceitos e suas práticas. A mostrar-se inteiro, como pessoa, como homem real que era, com suas fraquezas, defeitos e limitações. A sua grandeza enquanto gente residia em [...] Sua grandeza enquanto estudioso, enquanto pensador do povo brasileiro, residia em sua disposição de aprender sempre com os erros e na troca de experiências com seus colegas, com os grupos populares com os quais trabalhava, sempre por meio do diálogo, numa clara opção política. Sempre defendeu e realizou um trabalho em íntima ligação com o povo, nunca acima ou para ele. Nunca se propôs a falar em nome do povo, mas construir as alternativas junto com ele. (Souza, 2010, p. 53) Importante destacar que Freire não ficou apenas nas denúncias, mas anunciou a possibilidade de “uma educação como prática de liberdade”. Na obra Educação como prática da liberdade (2011), ressalta que a compreensão de algo, cedo ou tarde, corresponde a uma ação integrada ao tempo e ao espaço. O autor é contundente em sua crítica acerca de nossos modelos de educação de adultos, que têm a tendência em reduzir os meios de aprendizagem a formas meramente nocionais, caracterizando assim formas ingênuas de educar. Ele sintetiza que a educação “é um ato de coragem. Não pode temer o debate. A análise da realidade 4 não pode fugir à discussão criadora, sob pena de ser uma farsa” (Freire, 2011, p. 127). TEMA 2 – A HISTÓRIA DO MÉTODO DE ALFABETIZAÇÃO DE PAULO FREIRE Quando nos propomos a estudar a educação de jovens, adultos e idosos, é mister repensar a alfabetização necessariamente com um olhar para a teoria freireana de educação e para o método Paulo Freire. Tal método, de acordo com Brandão (2005, p. 17), foi estabelecido pelo intelectual para o “Movimento de Cultura Popular do Recife, na aurora dos anos 60. Na aurora do tempo em que, coletivamente, a educação no Brasil foi criativa e sonhou que poderia servir para libertar o homem”. O sonho é ainda necessário! Trazer à baila a teoria freireana, no presente estudo, em especial o método de Paulo Freire, não significa apenas pensar em algo voltado à alfabetização, mas em um projeto muito mais amplo, como o educador o fez: pensar um projeto de conscientização desse jovem e desse adulto que não tiveram acesso à escolarização em idade adequada. O estudo do método responde à necessidade do entendimento de que alfabetizar envolve “antes de mais nada, aprender a ler o mundo, compreender o seu contexto, não numa manipulação mecânica de palavras, mas numa relação dinâmica que vincula linguagem e realidade” (Freire, 2011, p. 14). Sob uma abordagem histórica, verifica-se que o movimento de Freire começou em “1962, no Nordeste, a região mais pobre do Brasil – 15 milhões de analfabetos sobre 25 milhões de habitantes [...] a experiência realizada em Angicos, Rio Grande do Norte – os resultados obtidos – 300 trabalhadores alfabetizados em 45 dias” (Freire, 2005a, p. 20). Segundo Paiva (1987), o grupo ligado a Paulo Freire revelava uma preocupação humanista com o processo educativo, atribuindo à cultura e à educação relevante papel com vistas às transformações sociais. Outra preocupação do grupo estava na qualidade do ensino: era preciso que o acesso à educação favorecesse a consciência das condições às quais homens e mulheres estavam submetidos. Assim, educação viria em primeiro plano; para tanto era necessário um método adequado. Paulo Freire, então, é o principal teórico, responsável pela criação do método destinado à educação libertadora. O princípio da educação libertadora está assentado na consciência da educação como um ato político, como o próprio autor descreve: 5 Sempre vi a alfabetização de adultos como um ato político e um ato de conhecimento, por isso mesmo, como um ato criador. Para mim seria possível engajar-me num trabalho de memorização mecânicados ba- be-bi-bo-bu, dos la-le-li-lo-lu. Daí que não pudesse reduzir a alfabetização ao ensino puro da palavra, da sílaba ou das letras... o processo de alfabetização tem, no alfabetizando, o seu sujeito. O fato de ele necessitar da ajuda do educador, como ocorre em qualquer relação pedagógica, não significa dever a ajuda do educador anular a sua criatividade e a sua responsabilidade na construção de sua linguagem. (Freire, 2011, p. 28) Dessa maneira, surge a crença do quanto os princípios e a teoria que embasam o método de alfabetização criado por Freire e seu grupo de trabalho podem ser úteis à alfabetização de jovens e adultos, no sentido de considerar o(a) estudante como aprendiz competente e capaz de lançar mão da leitura e da escrita para mudar sua condição de iletrado, favorecendo, assim, o acesso aos conhecimentos. TEMA 3 – O DIÁLOGO: A BASE DO TRABALHO NA PERSPECTIVA FREIREANA Precisamos lembrar que debruçar-se nos estudos sobre o pensamento pedagógico de Paulo Freire implica primeiramente pensar o processo educativo, daí a necessidade de uma “educação corajosa, que enfrentasse a discussão com o homem comum [...] de uma educação que levasse o homem a uma nova postura de seu tempo e espaço” (Freire, 2011, p. 122). Isso porque, afinal, o maior compromisso desse processo educativo está na crença de que é possível a mudança social. A perspectiva de mudanças deve se refletir em uma escola que, em primeiro lugar, promova uma aprendizagem pautada no diálogo. Aqui, entende-se diálogo na perspectiva de Freire, ou seja, como uma relação entre dois sujeitos, conforme mostra a Figura 1. 6 Figura 1 – Diálogo como uma relação entre dois sujeitos O sentido da comunicação expressa por Freire traz o respeito ao outro, volta-se à construção de uma postura pedagógica que não aceita o analfabeto como um ignorante; ao contrário, reconhece esse sujeito em suas singularidades, em sua identidade e com ele estabelece o diálogo esclarecedor, ensina-o a pensar e procura suprimir práticas voltadas à inculcação. Guerrero (2010, p. 56) contribui para essas reflexões quando descreve que o método de alfabetização criado por Paulo Freire […] permitia efetivamente, num prazo mais ou menos curto (48 horas) alfabetizar os adultos, mas esse método tinha como objetivo principal possibilitar que estes aprendessem a ler e escrever sua história a sua cultura, a ler o mundo de exploração, e não somente receberem, de forma passiva, os comunicados que a classe dirigente queria que “aprendessem” para facilitar a sua manipulação. Tal fato depreende-se da crença de que o(a) estudante é realmente um sujeito no processo de construção de uma sociedade democrática; dessa forma, a base do método está nas discussões em torno do conceito de cultura, em que os alunos refletem sobre “seu caráter de seres situados, na medida em que sejam desafiados a atuar. Os homens são porque estão situados. Quanto mais refletirem de maneira crítica sobre sua existência, mais atuarão sobre ela” (Freire, 2005b, p. 38). 7 Com efeito, a reflexão crítica sugerida por Freire se assenta no princípio de que o analfabeto também se situe como produtor da cultura, uma vez que o intelectual concebe cultura como criação humana. Freire (2005b, p. 38) assevera que “pela ausência de uma análise do meio cultural, corre-se o perigo de realizar uma educação pré-fabricada, portanto inoperante”. TEMA 4 – PRESSUPOSTOS DE TRABALHO CONSIDERANDO-SE O MÉTODO DE ALFABETIZAÇÃO EM PAULO FREIRE A promoção do diálogo, uma das bases freireanas, dava sustentação à pesquisa acerca do universo vocabular dos(das) educandos(das). Para tanto, o método previa a promoção de entrevistas, que eram realizadas junto aos estudantes. 4.1 Entrevistas: levantamento do universo vocabular dos estudantes As entrevistas se ancoravam em investigações acerca do universo temático dos educandos e tinham como base perguntas sobre o modo de ver o mundo, a maneira de falar, as expressões mais usuais daquelas pessoas e os “lugares” em que viviam. Elas eram valiosas à medida que deixavam transparecer os usos e costumes das pessoas, seus modos de produção e consumo, assim como agregavam informações a respeito de alimentação, saúde, religiosidade. Nesse sentido, o entrevistador, que também era o professor, se aproximava mais da cultura das pessoas com as quais iria trabalhar. Esse levantamento do universo vocabular realizado nas entrevistas servia de base para a eleição de palavras que Freire denominava palavra geradora. Brandão (2005, p. 30) argumenta destacando que das palavras geradoras é que o método faz o seu miolo. E, para reafirmar o papel dessas palavras, salienta: Quando o solitário criador de uma cartilha de alfabetização escolhe as palavras-guia para o ensino da leitura, ele lança mão de critérios puramente linguísticos que submete aos pedagógicos. Pode até ser que use critérios afetivos, mas sempre eles serão os seus, pessoais e, para os alunos alfabetizandos, arbitrários. [...] No método Paulo Freire entra um critério que, se não é novo, apareceu repensado. Este critério novo ajuda na escolha do repertório das palavras do trabalho criativo de aprender a ler. Ora, as palavras, objetos da leitura, codificam o modo de viver das pessoas e representam seus lugares, com toda uma carga de sentido, e ainda impregnadas de afeto, como bem descreveu Brandão. Outro aspecto significativo é que tais 8 palavras não são “mortas”, impostas pelo professor ou por livros, mas “vivas”, representativas do espaço e dos modos de ser e de viver das pessoas do lugar. Ainda hoje, mais do que nunca, percebemos que o(a) docente precisa estar atento(a) ao trabalho com as palavras “vivas”, pertencentes ao universo vocabular dos estudantes. Como vimos, o estudo do método proposto por Paulo Freire e seu grupo de trabalho remonta às palavras com proximidade da cultura das pessoas. Essa opção pode provocar uma condução do trabalho com a leitura, voltada especificamente ao entendimento do que se lê e do que se escreve, e não uma “memorização visual e mecânica de sentenças, de palavras, de sílabas, desgarradas de um universo existencial” (Freire, 2011, p. 145). 4.2 As palavras geradoras Com base no que já estudamos, cremos que promover a sistematização da leitura, iniciando-se com palavras impregnadas de sentido e com riqueza fonética, pode envolver os(as) estudantes, considerando-os(as) de tal forma agentes ativos e atuantes no processo de alfabetização. Em comunhão com o que foi exposto, Wachowicz (2009, p. 139) ilustra: [...] em um grupo de operários da construção civil, ou de pedreiros, a palavra escolhida era tijolo. As “aulas” se destinavam a separar em famílias fonéticas essa palavra, mediante conversação entre instrutor e as pessoas analfabetas que participavam do grupo. Tínhamos então: tijolo ta-te-ti-to tu ja- je- ji-jo-ju la-le-li-lo-lu Várias palavras novas poderiam formar-se. E unindo a última sílaba à primeira, obtinha-se a palavra “luta”. O método cumpria esse significado: do tijolo à luta. [...] O aluno tinha o desejo de aprender e o método alimentava esse desejo. O exemplo anterior mostra que as palavras geradoras levantadas nas entrevistas eram provocadoras de reflexão e alimentavam o desejo de aprender, conforme argumenta Wachowicz (2009). Além disso, as palavras apresentavam alto teor de riqueza fonêmica, como detalha o professor Jarbas Maciel em entrevista publicada na revista Estudos Universitários, da Universidade Federal de Pernambuco (citado por Beisiegel, 2008, p. 190; grifo do original), a respeito do método em análise: A melhor palavra geradora é aquela que reúne em si a maior percentagem possível dos critérios sintáticos (possibilidade ou riqueza fonêmica, grau de dificuldade fonêmica complexa, de manipulidade dos conjuntos de sinais, as sílabas etc.), semântico(maior ou menor intensidade do vínculo entre a palavra e o ser que se designa, maior ou menor adequação entre a palavra e o ser designado) e pragmático (maior ou menor teor de conscientização que a palavra traz em potencial, 9 ou conjunto de relações socioculturais que a palavra gera na pessoa que a utiliza). O fato é que a palavra geradora constituía uma espécie de “elo” com o mundo, com a realidade do aprendiz. Assim, é possível verificar que o aspecto didático e sistemático do encaminhamento também está presente, pois os fonemas são analisados pensando no sujeito que aprende, levando em consideração que a leitura exige organização e, de certa forma, um planejamento ordenado, começando pelo que pode ser mais compreensível. De acordo com o educador, “desde o começo, na prática democrática e crítica, a leitura do mundo e a leitura da palavra estão dinamicamente juntas. O comando da leitura e da escrita se dá a partir de palavras e de temas significativos” (Freire, 2011, p. 41). Figura 2 – Paulo Freire Crédito: Eliane Ramos. Fica claro na apresentação do método que a seleção de palavras, eleitas a partir do universo vocabular dos(das) educandos(as), “deveria conter todas as possibilidades silábicas da língua, para permitir o estudo das diferentes situações que pudessem vir a ocorrer durante a leitura e a escrita” (Beisiegel, 2008, p. 191). Imerso nesses conhecimentos, a premissa básica do trabalho do professor(a) alfabetizador(a) era a pesquisa do universo temático dos(das) educandos(as), isso, a favor do desvelamento da realidade, envolvendo 10 “situações-limites”. Nesse envolvimento é que nascem as “tarefas”, que no bojo da concepção aqui retratada são as respostas dos homens e mulheres diante de suas ações históricas. A situação em que se assentava todo esse trabalho alfabetizador era a prática do diálogo, entendido por Freire como um ato de criação, um encontro dos homens para o “ser mais”. Assim, jamais era reduzido a um ato de depositar ideias, pois nesse contexto ele nasce da intensa fé nos homens, no pensar verdadeiro, no pensar crítico que percebe a realidade como um processo. No diálogo é que acontecia o “trabalho” com a “palavra geradora”, extraída do universo temático dos(das) estudantes. O essencial, porém, e o que a torna peculiar, é que a ênfase fica depositada na elevação do sujeito leitor, aquele que é capaz de ler a realidade que o rodeia. Aí estão a riqueza e a crença do quanto a compreensão desse sentido poderia fazer a diferença nas classes de alfabetização de jovens e adultos Brasil afora. Em contrapartida, se a educação é efetiva para a conservação, também pode ser uma instância com a possibilidade de servir à mudança. 4.3 Situações existenciais típicas Após a eleição e apresentação das palavras geradoras, o grupo que encaminhava o processo da alfabetização analisava a possibilidade de “situações existenciais típicas”, que eram representadas por imagens (desenho, pintura, fotografia), tendo em vista que “cada palavra geradora tem o seu desenho e é com ele que ela aparece no círculo. Parte do trabalho de construção do método” (Brandão, 2005, p. 52). Essas imagens surgem com teor provocativo ao debate sobre a cultura, o trabalho, a riqueza do contexto que cada palavra representa. Com base nas leituras, percebemos que as imagens deveriam refletir situações existenciais e cada palavra geradora tem uma imagem articulada, destacando os termos de situações existenciais. Manguel (1997, p. 117) relata o relevante papel da leitura de imagens por aqueles que ainda não dominam a leitura do código escrito: “Uma coisa é adorar a imagem, outra é aprender em profundidade. Aqueles que não sabem as letras descobrem que podem, de certo modo ler [...], pois as imagens são equivalentes à leitura”. Beisiegel (2008), em seu estudo acerca do método de Paulo Freire, exemplifica como se concretizava o uso da imagem no processo de alfabetização, 11 descrevendo que estas se diferenciavam de acordo com os grupos de trabalho. Caso uma das palavras escolhidas fosse enxada, a ilustração gráfica em forma de desenho, pintura ou fotografia poderia ser um lavrador capinando a terra ou trabalhos comumente realizados na lavoura. Por outro lado, se a palavra geradora fosse tijolo, as imagens trariam trabalhadores assentando tijolos ou operários atuando na construção civil. Essas representações se constituíam em desafios aos estudantes, uma espécie de “situações-problema”, carregadas de elementos para serem decodificados pelo grupo com a colaboração do coordenador. Com a Figura 3, você pode criar uma concepção acerca dos argumentos apresentados. Figura 3 – Uso da imagem no processo de alfabetização O fato é que a leitura da imagem também propicia aos educandos uma prática da leitura, favorecendo àqueles que ainda não dominaram o processo de decodificação dos códigos, o sentimento de competência de “ler”; e essa leitura pode ser transportada (após investimentos e esforços) para os símbolos: as letras. Na obra A importância do ato de ler, Freire (2011) retrata a riqueza desse encaminhamento na cidade de São Tomé, em uma pequena comunidade 12 chamada Monte Mário. O autor descreve que no trabalho com a comunidade a palavra geradora eleita foi bonito, um peixe representativo da região. Então, após a leitura dela, foi feito um desenho, pelos próprios alfabetizandos, que representava o lugar, com barcos de pesca ao mar, e um pescador com o peixe nas mãos. Freire conta que, em determinado momento, alguns alunos se levantaram e por um bom tempo observaram atentamente o desenho. Então, se dirigiram à janela e com o mesmo olhar curioso disseram: “Monte Mário é assim e não sabíamos...”. Freire analisa o fato como se aqueles sujeitos, nesse determinado momento, estivessem “emergindo” de seu mundo, saindo dele para melhor conhecê-lo. Então, constata que “estavam tendo uma experiência diferente: rompiam a sua intimidade estreita com Monte Mário e punham-se diante do pequeno mundo de sua quotidianidade como sujeitos observadores” (Freire, 2011, p. 57). Assim, descreve o valor da exploração das imagens na tão relevante condução da leitura de mundo. Diante do estofo teórico formulado por Paulo Freire, há a constatação de que não existe um material preconcebido, assim como o método de alfabetização não é organizado pautado em receitas passo a passo. Isso se explica pelo fato de que sua essência se alicerça na libertação, e seria contraditório pensá-lo de maneira prescritiva. 13 TEMA 5 - SINTETIZANDO A PROPOSTA FREIREANA Antes de finalizar nossos estudos, apresentamos um esquema elucidativo da alfabetização, a partir dos estudos realizados em Freire. Figura 4 – Esquema elucidativo da alfabetização O esquema reflete, de forma sintética, os momentos da proposta freireana de alfabetização do povo; um pensamento pedagógico que demonstra linhas fundamentais de ação, frisando que o ponto de partida é a realidade cultural social, vislumbrando o ponto de chegada por meio da ação cultural: a conscientização. Por isso, o método educacional – em particular, o método de alfabetização – tem que ser definido como dependência de seu conteúdo 14 (e significado) social, ou seja, o elemento humano ao qual vai ser aplicado, de quem o deve executar, dos recursos econômicos existentes, das condições concretas nas quais será levado à prática. Fora disso, é apenas obra imaginativa (cartilhas, campanhas de alfabetização etc.), é pensamento em abstrato, é projeto no vácuo social. (Pinto, 2010, p. 49) Concluímos este estudo com a crença de que o “analfabeto chega a compreender que a falta de conhecimento é relativa e que ignorância absoluta não existe” (Freire, 2005a, p. 63). Para uma educação voltada à transformação,defendida por Freire, é necessário o desejo de que o estudante que frequenta a educação de jovens e adultos se dê conta de que o fato de não saber ler e escrever é uma condição “temporária” para quem está na escola. Nisso reside a relevância dos estudos e da reflexão do método de Paulo Freire. Afinal, refletir percursos metodológicos na alfabetização de jovens e adultos é fundamental, ainda mais em se tratando de uma trajetória tão bem-sucedida e com sólida sustentação teórica e metodológica. REFERÊNCIAS 15 BEISIEGEL, C. R. Política e educação popular: a teoria e a prática de Paulo Freire no Brasil. 4. ed. Brasília: Liber Livros, 2008. BRANDÃO, C. R. O que é o método Paulo Freire. São Paulo: Brasiliense, 2005. FREIRE, P. Conscientização: teoria e prática da libertação – uma introdução ao pensamento de Freire. 3. ed. São Paulo: Centauro, 2005b. _______. Educação como prática da liberdade. 14. ed. Rio de Janeiro: Paz e terra, 2011. _____. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005a. GADOTTI, M. Reinventando Paulo Freire na escola do século 21. In: TORRES, C. A. (Org.). Reinventando Paulo Freire no século 21. São Paulo: Editora e Livraria Instituto Paulo Freire, 2008. p. 91-108. GUERRERO, M. E. Sonhos e utopias: ler Freire a partir da prática. Brasília: Liber Livros, 2010. MANGUEL, A. Uma história da leitura. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. PAIVA, V. Educação popular e educação de adultos. São Paulo: Loyola, 1987. PINTO, A. V. Sete lições sobre educação de adultos. São Paulo: Cortez, 2010. SOUZA, A. I. Paulo Freire: vida e obra. São Paulo: Expressão Popular, 2010. WACHOWICZ, L. A. Pedagogia mediadora. Petrópolis: Vozes, 2009.