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Enfrentamento às manifestações de violências Apresentação Os espaços que se formam nas sociedades, em decorrência do mundo capitalista, são comumente identificados como locais em que emergem os mais variados tipos de violência que colocam em risco a ordem social, favorecem a marginalização dos seus habitantes e negligenciam direitos humanos fundamentais. A legislação brasileira tem buscado enfrentar as situações de violação de direitos que surgem na sociedade por meio de políticas públicas e de legislações específicas. Como manifestação da questão social, a violência assume uma multiplicidade de manifestações. Nesta Unidade de Aprendizagem, você vai analisar o fenômeno da violência, compreendendo-o como expressão da questão social. Vai também identificar as políticas públicas para o enfrentamento dessas situações. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Definir o fenômeno da violência e as transformações societárias no Brasil. • Reconhecer as políticas públicas e a legislação brasileira de enfrentamento às diversas manifestações de violência. • Identificar a violência como manifestação da questão social.• Desafio O Estatuto da Criança e do Adolescente estabelece que os profissionais da saúde e da educação têm o dever de comunicar os casos envolvendo suspeita ou confirmação de maus-tratos contra crianças e adolescentes. Diante disso, coloque-se no papel de assistente social de uma Unidade Básica de Saúde e considere a seguinte situação: Mediante o exposto e considerando a importância da notificação e da responsabilidade por parte da equipe de saúde, seu Desafio é elaborar uma proposta para sensibilizar a referida equipe sobre a importância da notificação e da conduta de cada profissional. Infográfico O Brasil vivencia manifestações de violência de diversas formas, e muitas delas têm aumentado ao longo dos anos, segundo dados do Instituto de Pesquisas Aplicadas (IPEA), no Atlas da Violência. Entre os fatores que contribuem para a violência no país, pode-se citar a desigualdade social, as leis e o sistema judiciário falhos, o uso de drogas, o desemprego, entre outros. A seguir, no Infográfico, veja alguns dados que evidenciam essa realidade no país. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/99d1a1ae-4d74-49ba-8647-edf8c06465a4/3becfa20-564b-445a-9a82-bb6ec7c3e1ff.png Conteúdo do livro A sociedade atual tem vivenciado cada vez mais situações de violações de direitos, que são resultado das desigualdades produzidas ao longo dos anos, consequências da contradição existente entre capital e trabalho. Aos poucos, o Brasil foi se adequando para responder às demandas trazidas por esse complexo fenômeno, estruturando-se por meio de legislações e políticas públicas. No capítulo Enfrentamento às manifestações de violências, da obra Serviço Social no Poder Judiciário, você vai estudar o fenômeno da violência e as transformações societárias no Brasil, bem como as políticas públicas e a legislação brasileira de enfrentamento às diversas manifestações de violência. Ainda, verá sobre a relação entre a violência e a questão social. Boa leitura. SERVIÇO SOCIAL NO PODER JUDICIÁRIO Daniella Tech Doreto Enfrentamento às manifestações de violência Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Definir o fenômeno da violência e as transformações societárias no Brasil. Reconhecer as políticas públicas e a legislação brasileira de enfrenta- mento às diversas manifestações de violência. Identificar a violência enquanto manifestação da Questão Social. Introdução Situações de violência são muito frequentes na sociedade contemporâ- nea. Considera-se que elas resultam das desigualdades decorrentes da relação entre capital e trabalho e das contradições do próprio sistema capitalista. Nesse contexto, o Brasil foi se estruturando ao longo dos anos para atender às demandas cotidianas relacionadas com a violência. No entanto, os esforços ainda são insuficientes e as políticas existentes carecem de aplicabilidade prática. Neste capítulo, você vai estudar o fenômeno da violência e conhecer as políticas públicas para o seu enfrentamento no Brasil. Além disso, você vai ver por que a violência deve ser compreendida enquanto expressão da Questão Social. As transformações societárias e a violência Para refl etir sobre o fenômeno da violência, você deve considerar um contexto amplo, ultrapassando as discussões sobre possíveis causas e efeitos e até mesmo as estatísticas. É essencial considerar a violência brasileira a partir da organização e da constituição social do País. Afi nal, a violência é um fenômeno social que esteve presente no Brasil desde o processo de coloniza- ção. Ela perpassa o extermínio de indígenas, o racismo (instituído durante o período da escravidão) e a condição de inferioridade atribuída às mulheres. No século XIX, por exemplo, a violência se manifestou por meio de revoltas e rebeliões como a Balaiada, a Cabanagem, a Sabinada e a Guerra dos Farrapos (ANDRADE, 2018). Na República Velha, período marcado pela industrialização e pela urbani- zação, ganha força o poder dos coronéis, que o utilizam especialmente contra as populações do campo, aumentando a pobreza e a desigualdade social, o que acaba intensificando a violência nos centros urbanos. A violência também aparece no governo de Getúlio Vargas e, posteriormente, no período da Dita- dura Militar (1964 a 1985), “[...] marcado pela potencialização e legitimação da violência do Estado (perseguições e prisões políticas, fim das liberdades individuais, cassação de mandatos, tortura, exílio, fim de partidos políticos) [...]”, bem como pela resistência por meio da luta armada (ANDRADE, 2018, documento on-line). Mais adiante, no período próximo à promulgação da Constituição Federal de 1988, a violência não aparece legitimada pelo Estado, mas como consequência do neoliberalismo e das privatizações, que geram protestos e repressão violenta por parte da polícia (ANDRADE, 2018). Assim, refletir sobre as transformações societárias e a questão da violência implica pensar sobre o modo como a sociedade foi se alterando ao longo dos anos, especialmente a partir do modelo capitalista e neoliberal. Rosa (2018) pontua que aproximadamente desde o século XX o mundo tem vivenciado mudanças intensas em setores econômicos, tecnológicos e da própria vida social, o que produz modificações nas relações sociais, políticas e culturais. Ainda segundo o autor, as sociedades contemporâneas são fundamentadas: [...] no modelo capitalista de produção e reprodução social cada vez mais globalizada, [de modo que] os países em desenvolvimento vêm apresentando um conjunto de contradições que comprometem a consolidação dos avanços conquistados na área dos direitos sociais e de cidadania [...] (ROSA, 2018, p. 13). Além disso, a globalização da economia transforma alguns centros urbanos em exportadores de capital enquanto surgem novos centros de reprodução do capital a nível mundial (MARICATO, 2015). Segundo Maricato (2015), as condições vivenciadas por parte da população nesses centros urbanos agravam as desigualdades sociais ao mesmo tempo em que se apresentam como novas oportunidades e também como “espaços de negação da vida”. Com isso, evidencia-se um mundo repleto de contradições: embora haja oportunidades de realização social, dadas as possibilidades Enfrentamento às manifestações de violência2 de trabalho, não existem políticas sociais direcionadas ao planejamento e à organização do espaço urbano. Em outras palavras, a globalização do capital intensifica a desigualdade entre os povos e amplia as formas de violação de direitos, que se agravam com o aumento da exploração e da expropriação do trabalho no mundo capitalista. Rosa (2018) destaca aindaque o capitalismo carrega em si a ideia de que os homens devem ser livres para vender a sua força de trabalho a qualquer um que esteja interessado em comprá-la. Na visão do autor, [...] numa relação de assalariamento estabelecido na ‘livre’ troca entre o capital e o trabalho, muitas vezes o valor da força de trabalho pago mal dá para suprir as necessidades básicas da vida social. Entretanto, essa relação desigual se configura como natural [...] (ROSA, 2018, p. 28). O autor destaca ainda que, na perspectiva crítica, essa relação não é justa, uma vez que há exploração direta do trabalhador. Na maioria das sociedades (escravista, industrial, capitalista atual e outras que foram se desenvolvendo ao longo do tempo), a situação do trabalho sempre envolveu contradições que favoreciam a exploração, o aumento de desigualdades e o surgimento de várias formas de violação de direitos. Os espaços que se formam nas sociedades capitalistas são comumente identificados como locais em que emergem os mais variados tipos de violên- cia, que colocam em risco a ordem social, favorecem a marginalização dos habitantes e negligenciam direitos humanos fundamentais (ROSA, 2018). Considere o seguinte: As violências ou a violência podem ser definidas como fenômeno histórico e socialmente construído. Resultam do uso da força e da coerção do homem a outrem, podem gerar agravos à saúde, danos físicos, morais, psicológicos e materiais às vítimas, bem como originar alienação ideológica e cultural de uma nação. Além disso, apreendemos que as causas das violências são complexas, multifatoriais e provenientes de relações desiguais de dominação e/ou submissão em sociedades capitalistas (ROSA, 2018, p. 14). 3Enfrentamento às manifestações de violência A Organização Mundial da Saúde (KRUG, E. G. et al., 2002, documento on-line) considera violência o “[...] uso intencional de força física ou poder, ameaçados ou reais, contra si mesmo, contra outra pessoa ou contra um grupo ou comunidade, que resultem ou tenham grande probabilidade de resultar em ferimento, morte, dano psicológico, mal desenvolvimento ou privação [...]”. Modena (2016, p. 9) acrescenta que o termo “violência” tem origem no latim e designa o ato de “[...] violar outrem ou de se violar [...]”. A autora assinala ainda que o termo está relacionado a algo que foge do habitual, ligado ao uso da força e a comportamentos que resultem em danos físicos como ferimen- tos, tortura, morte, humilhações, ofensas. Ela conclui que atos violentos são contrários à liberdade (MODENA, 2016). Ainda de acordo com a OMS (KRUG, E. G. et al., 2002), a violência pode ser agrupada em três categorias: violência dirigida contra si próprio (autoinfligida); violência interpessoal (violência intrafamiliar ou doméstica, entre parcei- ros íntimos ou membros de uma mesma família, e violência comunitária, que ocorre no ambiente social em geral, entre conhecidos ou não); violência coletiva (atos violentos praticados a nível macrossocial, político e econômico). Em relação à natureza, os atos violentos podem ser classificados como abuso físico, psicológico ou social, incluindo abandono, negligência e ausência de cuidados. A violência é um dos grandes desafios enfrentados na sociedade atual. Ela tem se agravado com o passar do tempo, considerando o aumento em termos numéricos (incidência de casos de violência), a multiplicidade de tipos (violência urbana, doméstica, contra mulheres, idosos, crianças, feminicídios, LGBT fobias, entre outros), a multicausalidade, as características dos agres- sores e das vítimas e os custos ao sistema. Lidar com questões relacionadas à violência é, portanto, um desafio, uma vez que as ações existentes ainda não são plenamente eficientes a ponto de eliminar os casos de violência no País. Nesse contexto, é necessário capacitar profissionais de serviços públicos em geral para o atendimento desses casos, bem como desenvolver programas de proteção às vítimas e adotar estratégias que garantam a segurança de toda a população (ROSA, 2018). Enfrentamento às manifestações de violência4 Situações de violência sempre existiram na sociedade brasileira, sendo manifestadas de diversas maneiras. Diretamente relacionada à conjuntura capitalista, a violência se expressa como resultado das contradições existentes na relação entre capital e trabalho. Além disso, está ligada à exploração da mão de obra e a situações em que há uso da força, do poder e da coerção para obtenção de algo. Modena (2016) destaca que há a violência objetiva, resultante do modo de produção capitalista, e também a subjetiva e simbólica, resultado da sociabilidade humana em suas relações de classe. As políticas públicas e a legislação brasileira A violência tem adquirido maior visibilidade nas últimas décadas, processo que vem acompanhado de um reconhecimento dos direitos da população, o que aconteceu especialmente após a promulgação da Constituição Federal de 1988 (MARTINS; CERQUEIRA; MATOS, 2015). Assim, o enfrentamento das situações de violência se estruturou no País por meio do desenvolvimento de políticas públicas e legislações específi cas. Um tipo de violência que tem se tornado muito comum no Brasil e que tem adquirido muita importância do ponto de vista social e político é a violência cometida contra a mulher. Esse tipo de violência vem atingido índices cada vez mais altos, por isso mobiliza grupos de pessoas que, por meio de muito esforço e luta coletiva, buscam assegurar a proteção e os direitos das mulheres. Algumas conquistas efetivaram-se por meio das políticas públicas após muita luta e resistência. Em 2006, houve a aprovação da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), que estabeleceu medidas para prevenir e tentar coibir situações de violência doméstica contra mulheres em todos os contextos e expressões (PONTES; DAMASCENO, 2017). Em 2019, foram realizadas mudanças na Lei Maria da Penha, de forma a faci- litar a aplicação de medidas protetivas para as mulheres e os seus filhos. Contudo, apesar de haver políticas públicas destinadas às mulheres vítimas de violência, na prática, ainda há problemas para a efetivação da referida lei. Afinal, a violência doméstica, em especial contra a mulher, é um assunto bastante complexo para as vítimas. Além disso, os serviços disponíveis ou são insuficientes para atender às demandas, ou não estão preparados para oferecer o respaldo necessário. De qualquer forma, a Lei Maria da Penha não deixa de ser um importante avanço na área, apesar de ainda faltar muito para que ela seja de fato efetiva. 5Enfrentamento às manifestações de violência Além das políticas direcionadas às mulheres, o Brasil possui uma legislação abrangente no que se refere à garantia dos direitos dos idosos. A proteção a essa população é assegurada pelo Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741/2003), que define, entre outros aspectos, que “Nenhum idoso será objeto de qualquer tipo de negligência, discriminação, violência, crueldade ou opressão, e todo atentado aos seus direitos, por ação ou omissão, será punido na forma da lei [...]” (BRASIL, 2003, documento on-line). Em seu art. 19, § 1º, o Estatuto do Idoso afirma o seguinte: “[...] considera-se violência contra o idoso qualquer ação ou omissão praticada em local público ou privado que lhe cause morte, dano ou sofrimento físico ou psicológico [...]” (BRASIL, 2003, documento on-line). Além de estabelecer o direito à proteção do idoso, o Estatuto estabelece a punição àqueles que praticarem crimes contra os idosos, assim como estabelece os órgãos aos quais atos violentos podem ser denunciados: autoridade policial, Ministério Público, Conselho Municipal do Idoso, Conselho Estadual e Conselho Nacional do Idoso. A violência contra crianças e adolescentes também foi alvo de política pública específica, tendo sido detalhada no Estatuto da Criança e do Ado- lescente (ECA, Lei nº 8.069/1990). Em seu art. 5º, o ECA prevê que “[...] nenhuma criança ou adolescenteserá objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais [...]” (BRASIL, 1990, documento on-line). Além dos segmentos citados, outros grupos minoritários têm lutado para conquistar espaço no universo das políticas públicas, especialmente no que se refere a assegurar direitos e criminalizar condutas desfavoráveis. É o caso da população LGBT+ (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e travestis), que recentemente conseguiu que crimes de racismo sejam considerados agressões, oficializando a criminalização da LGBTfobia. Outro elemento a ser destacado é a violência presente no cotidiano das ruas, que exige do Estado medidas efetivas e o compromisso com a transfor- mação social, a fim de conter a criminalidade e a violência. Minayo (2014, p. 250), ao analisara situação da violência no País, aponta que, “[...] de todas as suas expressões, os fenômenos mais preocupantes hoje no Brasil são o elevadíssimo número de homicídios e a violência difusa que alimenta e é ali- mentada por um imaginário de medo e insegurança [...]”. Considere o seguinte: Embora o perfil das mortes violentas no Brasil, sobretudo dos homicídios, siga a tendência mundial, como se verá a seguir, ceifando sobretudo os jovens do sexo masculino, aqui as vítimas preferenciais são os pobres, de baixa escolaridade, com pouca ou nenhuma qualificação profissional, moradores das periferias, Enfrentamento às manifestações de violência6 sendo, em sua maioria, negros e pardos. Esses homicídios, no seu conjunto, não formam uma totalidade homogênea, no entanto os resultados das investigações no país reafirmam fortemente essa tipificação. As pesquisas mostram também que eles estão basicamente relacionados a conflitos com a polícia, desavenças entre grupos de narcotraficantes ou gangues organizadas, desentendimentos interpessoais e familiares, abuso de álcool e outras drogas, nas cidades e nas regiões de fronteira e de conflitos agrários no campo (MINAYO, 2014, p. 253). A violência nas cidades brasileiras aponta para a necessidade de políticas públicas direcionadas a essa situação, articuladas entre os governos federal, municipal e estadual, uma vez que a violência e a segurança pública não são responsabilidade de apenas um ente federado. Nessa perspectiva, a Política Nacional de Segurança Pública estabelece princípios e diretrizes que conduzem a segurança pública a ser estabelecida no País nos três níveis de governo; ela tem como finalidades a preservação da vida e a manutenção da ordem pública. Essa e as outras políticas que você viu constituem formas de enfrentamento às mais diversas manifestações de violência presentes na sociedade brasileira. Você deve ter em mente que a violência não atinge somente os segmentos citados, mas envolve toda a população, especialmente os grupos minoritários. Existem importantes estratégias governamentais que buscam minimizar os índices de violência no País, entretanto ainda há muito que avançar. O controle dessas situações envolve políticas articuladas e integradas, recursos investidos de forma adequada e trabalho preventivo na base da sociedade. Também é importante que a população não deixe de atentar à frequência com que a violência acomete a sociedade brasileira, a fim de que medidas efetivas sejam cobradas dos setores responsáveis. A violência enquanto manifestação da Questão Social A fi m de compreender a relação entre violência e Questão Social, você deve considerar alguns aspectos importantes sobre esta última. A Questão Social é uma categoria que representa a contradição existente entre capital e trabalho, base do modo capitalista de produção. Nessa perspectiva, a Questão Social representa: 7Enfrentamento às manifestações de violência O conjunto das expressões das desigualdades da sociedade capitalista ma- dura, que têm uma raiz comum: a produção social é cada vez mais coletiva, o trabalho torna-se mais amplamente social, enquanto a apropriação dos seus frutos se mantém privada, monopolizada por uma parte da sociedade (IAMAMOTO, 1998, p. 27). Como você pode notar, a Questão Social expressa as contradições da sociedade capitalista. Tais contradições evidenciam que: [...] a sociabilidade capitalista moderna, que é marcada pelas relações de dominação política e apropriação econômica, faz germinar desigualdades sociais, que se intensificam cada vez mais à medida que esta sociedade pro- gride, gerando, por sua vez, diversas expressões de violência [...] A sociedade se estrutura nas relações de acumulação econômica e de poder, nas contradições entre grupos e classes dominantes e dominados bem como por poderes de sexo, gênero, etnias, simbólicos, culturais, institucionais, profissionais e efetivos. A relação de poder, assim, é complexa, por envolver tanto o contexto social mais geral como as relações particulares que devem ser tecidas junto, numa perspectiva histórica e dinâmica. É um processo diversificado em suas manifestações: familiares, individuais, coletivas, no campo e na cidade, entre os diferentes grupos e segmentos, e atinge tanto o corpo como a psique das pessoas. [...] A conflitualidade é fundante da existên- cia social, na esfera da dinâmica social e familiar, e mesmo da existência do sujeito dividido entre o desejo e as normas sociais de proibição da realização do desejo (FALEIROS, 2007, p. 27 apud LIMA; OLIVEIRA; NUNES, 2017, documento on-line). A Questão Social se expressa de muitas formas: violência, desemprego, fome, miséria, etc. (LIMA; OLIVEIRA; NUNES, 2017). A violência é uma importante forma de manifestação e encontra-se, como você viu, diretamente ligada ao sistema capitalista e ao acesso que as pessoas possuem aos bens que produzem. Nessa perspectiva, Baierl (2004, p.52) assinala que “[...] as desigualdades sociais, a pobreza, o meio familiar e intrafamiliar e cultural colocam os espoliados, os desempregados mais vulneráveis, ao envolvi- mento com o mundo da criminalidade [...]”. A autora destaca ainda que esse processo se acentua pois no geral o Estado não tem conseguido cumprir as demandas apresentadas pela população mais vulnerável. Ela exemplifica com o tráfico de drogas: Enfrentamento às manifestações de violência8 [ele] ocupa, de alguma forma, os espaços deixados pela ausência de políticas sociais públicas no campo da assistência social, educação, saúde, habitação, empregabilidade, segurança e lazer. Nessa direção, gera empregos no campo da ilegalidade, admitindo muitas crianças e adolescentes para as mais variadas funções no mundo do tráfico. Assume o papel de garantir a “ordem e a seguran- ça” nos lugares por ele ocupados, apresentando características de uma parte do mercado de trabalho “ilegal e ilícito”, mas tolerado (BAIERL, 2004, p. 136). Devido a toda essa situação, não se pode ter uma visão simplista da reali- dade. A violência é um elemento inserido em uma totalidade que a determina. A desigualdade social e a falta de acesso a direitos básicos (como alimentação, trabalho e renda) e a serviços sociais são alguns dos fatores que favorecem o desenvolvimento da violência em suas várias manifestações. Assim, a violência relaciona-se diretamente com as condições de vida de boa parte da sociedade brasileira, sendo reflexo das condições em que os sujeitos vivem. Além disso, a violência se caracteriza como uma forma de poder e dominação, daí as situações de violência ligadas a gênero, raça e etnia, cultura, etc. Violações de direitos, portanto, são comumente associadas às mais variadas manifestações da Questão Social. A sua ocorrência não se justifica por tal associação, mas esta favorece a compreensão do aumento dos índices e do modo como a sociedade em geral tem sofrido com a intensidade da violência. As manifestações de violência afetam os indivíduos gerando insegurança e influenciando, muitas vezes, a sua rotina diária. Pessoas com medode sofre- rem violência nas ruas vivem presas entre muros. E há também aquelas com receio de sofrer violação por parte de familiares próximos. Enfim, a violência perpassa todo o cotidiano da vida humana na atualidade. Enquanto manifestação da Questão Social, a violência exige que as ações e políticas voltadas para o seu enfrentamento sejam efetivas, articuladas e integradas, envolvendo áreas como educação, assistência social, saúde, habitação e outras. Além disso, exige que os direitos básicos e o acesso a serviços essenciais sejam assegurados. No enfrentamento da violência, o Serviço Social pode contribuir com respostas eficazes e qualificadas, auxi- liando na resolução de situações cotidianas. Além disso, o assistente social pode favorecer a participação popular em conselhos de direitos e espaços de mobilização da sociedade. Por fim, pode trabalhar para inserir essa temática entre as demandas que exigem atenção governamental. 9Enfrentamento às manifestações de violência ANDRADE, R. F. M. A história da violência no Brasil. Revista Senso, mar. 2018. Disponível em: https://revistasenso.com.br/2018/03/22/historia-da-violencia-no-brasil/. Acesso em: 13 ago. 2019. BAIERL, M. F. Medo social: da violência visível ao invisível da violência. São Paulo: Cortez, 2004. BRASIL. Lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Brasília, DF, 1990. Disponível em: http://www. planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm. Acesso em: 13 ago. 2019. BRASIL. Lei n. 10.741, de 1º de outubro de 2003. Dispõe sobre o Estatuto do Idoso e dá outras providências. Brasília, DF, 2003. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/leis/2003/L10.741.htm. Acesso em: 13 ago. 2019. BRASIL. Lei n. 11.340, de 7 de agosto de 2006. Cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher, nos termos do § 8º do art. 226 da Constituição Federal, da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres e da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher; dispõe sobre a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher; altera o Código de Processo Penal, o Código Penal e a Lei de Execução Penal; e dá outras providências. Brasília, DF, 2006. Disponível em: http://www.planalto. gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm. Acesso em: 13 ago. 2019. IAMAMOTO, M. O serviço social na contemporaneidade: trabalho e formação profissional. São Paulo, Cortez, 1998. KRUG, E. G. et al. (ed.). World reportonviolenceandhealth. Genebra: WHO, 2002. Disponível em: https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/42495/9241545615_eng.pdf;jsess ionid=32646C0FED548E269320BDD1DF9AFFBA?sequence=1. Acesso em: 13 ago. 2019. LIMA, A. M.; OLIVEIRA, D. H.; NUNES, G. S. A violência como expressão da questão social: retratos do extermínio da juventude negra de Fortaleza. In: JORNADA INTERNACIONAL DE POLÍTICAS PÚBLICAS, 8., 2017, São Luís. Anais [...]. São Luís: UFMA, 2017. Disponível em: http://www.joinpp.ufma.br/jornadas/joinpp2017/pdfs/eixo7/aviolenciacomo- expressaodaquestaosocialretratosdoexterminiodajuventudenegradefortaleza.pdf. Acesso em: 13 ago. 2019. MARICATO, E. Para entender a crise urbana. São Paulo: Expressão Popular, 2015. MARTINS, A. P. A.; CERQUEIRA, D.; MATOS, M. V. M. A institucionalização das políticas públicas de enfrentamento à violência contra as mulheres no Brasil. Nota técnica IPEA, Brasília, n. 13, 2015. Enfrentamento às manifestações de violência10 MINAYO, M. C. S. Violência e educação: impactos e tendências. Revista Pedagógica, n.15, v. 31, 2014. Disponível em: https://bell.unochapeco.edu.br/revistas/index.php/ pedagogica/article/view/2338. Acesso em: 13 ago. 2019. MODENA, M. R. Conceitos e formas de violência. Caixas do Sul: EDUCS, 2016. PONTES, D.; DAMASCENO, P. As políticas públicas para mulheres no Brasil: avanços, conquistas e desafios contemporâneos. In: SEMINÁRIO INTERNACIONAL FAZENDO GÊNERO, 11., 2017, Florianópolis. Anais [...]. Florianópolis: [s. n.], 2017. ROSA, J. F. S. Violência urbana na cidade da Praia/Cabo Verde. 2018. Dissertação (Mestrado em Serviço Social, Direitos Sociais e Movimentos Sociais) – Programa de Pós-Graduação em Serviço Social, Departamento de Serviço Social, Centro de Ciências Sociais Aplicadas, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2018. 11Enfrentamento às manifestações de violência Dica do professor A violência se apresenta na sociedade de forma multifacetada e tem muitas variações. A Lei Maria da Penha (Lei n.o 11.340, de 7 de agosto de 2006) tem como finalidade criar mecanismos para coibir a violação dos direitos das mulheres, estabelecendo os tipos de violência que mais aparecem na sociedade. Sendo assim, nesta Dica do Professor, aproveite para conhecer os principais tipos de violência contra a mulher de acordo com a referida Lei. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Audiodescrição da Dica do Professor: Clique aqui https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/cee29914fad5b594d8f5918df1e801fd/fd5457d590abb0ff35f8cb7b83923edd https://publica.sagah.com.br/publicador/objects/attachment/1820971937/templateroteirodicadoprofatualizado-22676.docx?v=2059611432 Exercícios 1) A Organização Mundial da Saúde (OMS, 2002) considera violência como “uso intencional de força física ou poder, ameaçados ou reais, contra si mesmo, contra outra pessoa ou contra um grupo ou comunidade, que resultem ou tenham grande probabilidade de resultar em ferimento, morte, dano psicológico, desenvolvimento prejudicado ou privação". Nesse contexto, e de acordo com a OMS, quais são as três categorias relacionadas à violência? A) Violência dirigida contra si próprio, violência interpessoal e violência coletiva. B) Violência autodirigida, violência coletiva e violência estrutural. C) Violência autodirigida, violência física e violência interpessoal. D) Violência dirigida contra si próprio, violência interpessoal e violência assistida. E) Violência social, violência estrutural e violência doméstica. 2) A violência tem adquirido maior visibilidade nos últimos tempos, ao mesmo tempo que se registrou no Brasil o maior reconhecimento dos direitos da população. Nesse cenário, como se estruturou o enfrentamento das situações de violência no país? A) Por meio da mobilização popular contra atos violentos. B) Por meio do desenvolvimento de políticas públicas e legislações específicas. C) Por meio de ações comunitárias e coletivas. D) Por meio de lutas e enfrentamentos políticos. E) Por meio de coação e uso da força bruta. Iamamoto (1999, p. 27) define questão social como “o conjunto das expressões das desigualdades da sociedade capitalista madura, que tem uma raiz comum: a produção social é cada vez mais coletiva, o trabalho torna-se mais amplamente social, enquanto a apropriação dos seus frutos se mantém privada, monopolizada por uma parte da sociedade”. 3) Diante disso, das alternativas a seguir, qual corresponde a uma das manifestações da questão social? A) Pleno emprego. B) Saúde e educação universal. C) Violência. D) Alimentação adequada. E) Trabalho e renda acessíveis a todos. 4) As transformações societárias e a questão da violência conduzem a reflexões sobre a forma como a sociedade foi se transformando ao longo dos anos, especialmente a partir do modelo capitalista e neoliberal. Para alguns autores, nas sociedades capitalistas, há a formação de "espaços". Nesse contexto, o que esses "espaços" trazem para a sociedade? A) Favorecem o desenvolvimento da ordem e da justiça social. B) Proporcionam o crescimento da população sem distinção de classe social. C) Proporcionam o crescimento de espaços organizados que favorecem a ordem social. D) Estimulam o livre comércio, base da sociedade capitalista. E) Colocam em risco a ordem social, favorecendo a marginalização de seus habitantese negligenciando direitos humanos fundamentais. 5) As condições de vida da população em centros urbanos exportadores de capital agravam as desigualdades sociais. Com base nessa afirmativa, qual a contradição observada nesses espaços? A) A difícil luta pela vida. B) A exportação de mercadorias e a escassez dos produtos no país. C) A proposta de realização de políticas públicas e a pouca efetividade delas. D) O surgimento de espaços de novas oportunidades de trabalho e também de espaços de negação da vida. E) A universalidade de direitos conquistados pelo acesso ao trabalho. Na prática O Serviço Social atua diretamente com a temática da violência em vários espaços sócio- ocupacionais, resguardada às especificidades de cada área. Na área da saúde, por exemplo, o assistente social lida com a violência em várias de suas manifestações, exigindo desde abordagens mais simples até mais complexas. Na Prática, veja um exemplo de atuação do assistente social nesses casos. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/e3f9c54e-e417-45dc-9318-a1e96249bbca/245145ad-f705-4977-a553-5b785d351acc.png Saiba + Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Mulher em situação de violência: limites da assistência Neste artigo, as autoras fazem uma análise sobre as limitações existentes no cotidiano profissional de equipes de saúde da família no atendimento a mulheres vítimas de violência. Confira. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Vivência de situação de violência contra idosos O seguinte artigo, resultado de uma pesquisa com idosos, buscou identificar a vivência de situação de violência contra o idoso em seus diversos tipos e descrever o perfil sociodemográfico desses idosos. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Subnotificação de maus-tratos em crianças e adolescentes na Atenção Básica e análise de fatores associados Este estudo analisou os fatores associados à subnotificação de maus-tratos ocorridos em crianças e adolescentes a partir da visão de profissionais que trabalhavam na Atenção Básica em municípios cearenses. Confira os resultados. https://www.redalyc.org/pdf/630/63033062028.pdf https://seer.uftm.edu.br/revistaeletronica/index.php/enfer/article/view/932 Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://www.scielosp.org/article/sdeb/2014.v38n103/794-804/