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1. CONCEITOS
1.1 Governação
Etimologicamente, a governação tem origem no grego kubernân, que significa
pilotar ou dirigir, e foi usado por Platão no que diz respeito à forma como pode
ser concebido um sistema de governo. O termo grego dá origem ao latim
gubernance, que tem a mesma conotação de pilotar, formulação de regras ou de
direcção. Nalgumas vezes o termo é usado como sinónimo de governo, como é
o caso da definição do Dicionário Conciso de Oxford (KJÆR, 2004). Este autor
propõe um novo conceito de governação, como sendo “o acto ou modo de
governar; o cargo ou função de governar”, ou melhor, governar é “impor
regras ou controlar com autoridade; estar no governo”.
Para KJÆR na Administração Pública, o debate sobre a governação incide sobre
as mudanças que tiveram lugar no sector público desde 1980, cuja tendência era
flexibilizar a prestação de serviços públicos, por meio da adopção de técnicas da
gestão privada, preservando alguns princípios do modelo burocrático, como é o
caso da neutralidade e da carreira do funcionário público.
Em termos mais pragmáticos, a governação pode ser vista como sendo um
conjunto de políticas, regras, e estruturas que são utilizadas para dirigir e
controlar as actividades de uma organização, alcançar os seus objectivos e
monitorar as suas actividades, de modo a proteger os interesses dos seus
membros de uma forma consistente, ética e legal (MASC, s/data).
A governação surge como modo alternativo de coordenar actividades colectivas.
Na sua versão mais extrema, a tese da «governação» tende a coincidir com as
fórmulas políticas do «menor Estado», que incluem a privatização do sector
público, a desregulação das actividades privadas e a hegemonia da dinâmica do
mercado na prestação de serviços públicos (Bilhim, 2004). Um bom sistema de
governação é caracterizado pelo seguinte (Powley e Anderlini, 2000): (i)
Participado (estimuladora de uma ampla participação dos cidadãos na tomada
de decisão); (ii) orientado para o consenso (tenta alcançar decisões com base
em acordo generalizado); (iii) transparente (aberta ao escrutínio nos processos
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de tomada de decisão); (iv) solícito (escuta e responde às necessidades dos
seus cidadãos); (v) eficaz e eficiente (presta os serviços básicos); e (vi) equitativo
e inclusivo (não exclui sectores da população, especialmente os que são mais
vulneráveis ou marginalizados).
1.2 Governação Electrónica
Uma das tentativas bem-sucedidas para a definição de Governação Electrónica
é feita por Backus (2001), que começa por convidar-nos a imaginar uma situação
na qual toda a interação com o governo pode ser feita por um computador 24
horas por dia, 7 dias por semana, sem esperar em filas do governo. Na visão
deste autor, a Governação Electrónica é definida como sendo a aplicação dos
meios electrónicos dentro da interacção entre o governo e cidadãos, governo e
empresas; como também, em operações internas do governo para simplificar,
melhorar e democratizar a prestação de serviços.
Backus considera que na Governação Electrónica são possíveis as seguintes
relações: (i) A nível externo: Governo para Cidadão; Governo para Empresas
Privadas (negócios) /ONG`s/Sociedade Civil; (ii) A nível interno: Governo para
Governo (Governo Central para Governo Local e vice-versa); (ver a Figura
abaixo).
De acordo com a EUROSAI (2004) a governação electrónica respeita ao
fornecimento ou obtenção de informações, serviços ou produtos, através de
meios electrónicos, por ou através de organismos públicos, em qualquer
Governo Central
Governo Local
Negócios
ONG`s
Sociedade Civil
Cidadão
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momento ou local, proporcionando deste modo uma mais-valia a todas as partes
envolvidas.
A Pesquisa que avalia a aplicação do Governo Electrónico a nível internacional
(193 nações) de 2014, intitulada “e-governament for the future we want”,
elaborada pelas Nações Unidas, apresenta um ranking do nível de
desenvolvimento do governo Electrónico a partir de três (3) dimensões de
análise: (i) a disponibilidade de serviços online; (ii) infraestruturas de
telecomunicações; e (iii) a capacidade humana do país em usa-lo. Este estudo
atribui a Moçambique o valor de 0,3150 no índice de desenvolvimento do e-Gov,
numa escala de 0 à 1; ou seja, o país está abaixo da metade do desenvolvimento
da Governação Electrónica no domínio dos serviços prestados on-line.
Neste documento das Nações Unidas, no Top-50 dos países com uma
participação electrónica do cidadão nos serviços públicos, apenas 6% são
países da África, uma pontuação que é liderada pela Europa (42%), seguida da
Ásia com 28%, Américas 20 % e na cauda está a Oceânia com 4%.1
Em Moçambique o instrumento que suporta a implantação do Governo
Electrónico é a Estratégia de Governo Electrónico (2006) cujo lema é “Colocar
os Serviços Públicos Junto do Cidadão”. Esta estratégia foi introduzida no âmbito
da Estratégia de Informática, Reforma do Sector Público e o Plano de Acção para
a Redução da Pobreza.
Segundo esta estratégia, o Governo Electrónico teria impacto e efectivaria a
transparência e a responsabilização, assim como ia reduzir a corrupção,
codificar procedimentos e orientações, e estabelecer um alicerce bem sólido
para a oferta de assistência pública, oportunidade para escrutínio, participação
e feedback. Acaba sublinhando também que, todos os ministérios e instituições
que elaboram e implementam políticas e que estejam ligados por e através do
1A e-participação é uma das principais componentes da UNITED NATIONS E-GOVERNAMENT
SURVEY 2014, incidindo sobre aspectos como: existência de arquivos de informações sobre
politicas, documentos legais, educação, finanças, bem-estar social e meio ambiente; Acesso ao
website do governo em mais de um idioma nacional; Disponibilidade de ferramentas para obter
a opinião dos cidadãos por via on-line, votações e ferramentas de petição.
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Governo Electrónico teriam melhores chances de ver os objectivos das suas
políticas, programas e projectos alcançados a todos os níveis; ou seja, este viria
resolver os problemas das organizações públicas.
1.3 Governo Electrónico (E-Gov)
Em termos de definição, segundo Perri citado por Garcia (2006), o Governo
Electrónico pode ser entendido como:
1. Fornecimento de serviços electrónicos: essa área envolve o fornecimento
de serviços de utilidade pública para o contribuinte, assim como o
relacionamento Governo-Empresas, usando as tecnologias da
informação e comunicação como propiciadoras para tal;
2. Democracia Electrónica (e-democracy): uso de sistemas de votação
electrónica nos Parlamentos e consulta on-line aos cidadãos;
3. Governação Electrónica (e-governance): ela incluiria todo o suporte digital
para a elaboração de políticas públicas; tomada de decisões; escolhas
públicas; grupos de trabalho entre os vários gestores públicos de
diferentes escalões.
Esta visão de Governo electrónico acaba integrando estes três processos, ou
melhor, a Governação Electrónica é componente deste.
A Estratégia de Governo Electrónico de Moçambique (2006) inspira-se no
conceito da Gartner Group que vê o governo electrónico como o uso das
tecnologias de informação e comunicação para promover maior eficiência e
eficácia governamentais, facilitando o acesso aos serviços públicos, permitindo
ao cidadão e ao empresário o acesso à informação, e tornando o Governo mais
responsável perante o cidadão.
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Electrónico como sendo o uso de informações e tecnologias de comunicação no
governo para prover serviços públicos, cujo intuito é melhorar a efectividade
administrativa e promover valores e mecanismos democráticos; como também,
é uma plataforma reguladora que facilita o acesso a informação e sustenta a
sociedade de conhecimento.
Apesar do conceito da ITU arrolado acima frisar a componente “acesso a
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informações”, Campos e Marques (2004) chamam atenção ao sublinharem que
o papel do e-Gov não se deve restringir apenas na disponibilização de
informação baseada na utilização de emails e sites, mas também, deve potenciar
o surgimento de novos modelos de funcionamento das instituições baseado na
oferta on-line dos serviços, anteriormente disponibilizados de forma presencial.
Observa-se que existe uma convergência nos conceitos de Governo Electrónico
e Governação Electrónica, pois, os dois (2) incidem sobre as ferramentas
electrónicas que permitem o acesso a informação e serviços com maior
flexibilidade sem que seja necessária a presença do utente. Nalgumas vezes até
chegam a ser usados como sinónimos.
1.4 Estado
O Estado como ordem política da Sociedade é conhecido desde a antiguidade
aos nossos dias. Todavia nem sempre teve essa denominação, nem tampouco
encobriu a mesma realidade.
A polis dos gregos ou a civitas e a respublica dos romanos eram vozes que
traduziam a ideia de Estado, principalmente pelo aspecto de personificação do
vínculo comunitário, de aderência imediata à ordem política e de cidadania
(Bonavides, 2000).
No Império Romano, durante o apogeu da expansão, e mais tarde entre os
germânicos invasores, os vocábulos Imperium e Regnum, então de uso corrente,
passaram a exprimir a idéia de Estado, nomeadamente como organização de
domínio e poder.
Daí se chega à Idade Média, que, empregando o termo Laender (“Países”) traz
a ideia de Estado sobretudo em referência do território.
O emprego moderno do nome Estado remonta a Maquiavel, quando este
inaugurou O Príncipe com a frase célebre: “Todos os Estados, todos os domínios
que têm tido ou têm império sobre os homens são Estados, e são repúblicas ou
principados.”
O Estado é um aparelho que exerce o poder e autoridade numa sociedade
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instalada num território com o objectivo de garantir um determinado modo de
produzir bens e a resolução de problemas gerais, numa correlação de forças que
assegura a continuidade do seu domínio evitando a desorganização ou divisão
do “bloco social” dominado.
Marcelo Rebelo de Sousa considera que o Estado é “um povo fixado num
determinado território que institui, por autoridade própria, dentro desse território,
um poder político relativamente autónomo”.
A estrutura do Estado de direito pode ser, assim, sistematizada como (Bobbio,
Mateucci e Pasquino, 1998):
1) Estrutura formal do sistema jurídico, garantia das liberdades fundamentais
com a aplicação da lei geral-abstrata por parte de juízes independentes;
2) Estrutura material do sistema jurídico: liberdade de concorrência no
mercado, reconhecida no comércio aos sujeitos da propriedade;
3) Estrutura social do sistema jurídico: a questão social e as políticas
reformistas de integração da classe trabalhadora;
4) Estrutura política do sistema jurídico: separação e distribuição do poder.
2. Globalização
Há uma década, o termo “globalização” era relativamente desconhecido. Hoje
está na boca de todos. A globalização significa que cada vez mais estamos
vivendo “num único mundo”, em que os indivíduos, os grupos e as nações
tornam-se mais interdependentes (Giddens, 2005).
Para este autor, a globalização é muitas das vezes retratada apenas como un
fenómeno económico. Muito disso se deve ao papel das corporações
transnacionais (CTs), cujas operações massivas se expandem através das
fronteiras nacionais, influenciando os processos de produção global e
distribuição internacional do trabalho. Alguns assinalam a integração electrónica
dos mercados financeiros globais e o enorme volume de fluxo de capital global.
Outros se concentram na abrangência sem precedentes do comércio mundial,
envolvendo uma variedade de bens e serviços muito maior do que antes.
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Várias literaturas concebem a globalização como o processo que envolve a
interdependência crescente dos países em todo o mundo através do aumento
do volume de transacções transfronteiriças de bens e serviços dos fluxos de
capital e da difusão rápida e generalizada da tecnologia.
O conceito de globalização têm diversas dimensões conceptuais, o que quer
dizer que tem várias perspectivas que definem este termo, nomeadamente
(Scholte, 2002):
Globalização como internacionalização
A partir desta perspectiva, onde mais mensagens, idéias, mercadorias, dinheiro,
investimentos e pessoas cruzam fronteiras entre unidades territoriais.
Muitos analistas são menos discriminadores e simplesmente consideram as
palavras "global" e "internacional" como sinónimos para serem utilizados
alternadamente.
A maioria das tentativas de quantificar a globalização tem concebido o processo
como internacionalização.
Globalização como liberalização
Na óptica desta perspectiva, a globalização ocorre como autoridades que visam
reduzir ou suprimir as medidas reguladoras, como barreiras comerciais,
restrições cambiais, controlos de capital, e os requisitos de visto.
Usando esta definição, o estudo da globalização é um debate sobre as políticas
macroeconómicas neoliberais contemporâneas.
Globalização como universalização
O significado de 'global' significa "todo o mundo" e "todos os lugares". Portanto,
há uma "globalização" de processos de negócios, caril, jantares, bonecas Barbie,
a legislação anti-terrorismo, e assim por diante.
Globalização como ocidentalização
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Globalização entendida dessa forma é frequentemente interpretado como
colonização e “americanização”, como o imperialismo do McDonalds e CNN.
Vasconcelos et al (2008) sublinham que as mudanças globais, seja de ordem
tecnológica ou organizacional, têm como principais consequências a
interferência nos padrões de competitividade, a desregulamentação e a redução
progressiva das fronteiras nacionais; isso tem sido observado em vários países
de África; por exemplo, na Africa Austral foi criado a SADC com vista a integrar
as economias nacionais num mercado único, cujas barreiras comerciais foram
removidas.
3. História e Pais Fundadores das Políticas Públicas
A política pública enquanto área de conhecimento e disciplina acadêmica nasce
nos EUA, rompendo ou pulando as etapas seguidas pela tradição europeia de
estudos e pesquisas nessa área, que se concentravam, então, mais na análise
sobre o Estado e suas instituições do que na produção dos governos. Assim, na
Europa, a área de política pública vai surgir como um desdobramento dos
trabalhos baseados em teorias explicativas sobre o papel do Estado e de uma
das mais importantes instituições do Estado, o governo, produtor, por excelência,
de políticas públicas. Nos EUA, ao contrário, a área surge no mundo acadêmico
sem estabelecer relações com as bases teóricas sobre o papel do Estado,
passando directo para a ênfase nos estudos sobre a ação dos governos (Souza,
2006).
O quadro a seguir resume os vários conceitos de Políticas Públicas
apresentados pelos pais fundadores2 e outros autores conceituados nesta área
de estudo:
Autor e Ano Conceito
Laswell (1936) As Políticas Públicas pressupõe a resposta àsseguintes
questões: quem ganha o quê, por que e que diferença faz.
Easton (1965) Define as Políticas Públicas como um sistema em que há
uma relação entre formulação, resultados e o ambiente.
Dye (1984) “O que o governo escolhe fazer ou não fazer” são Políticas
Públicas.
2As Politicas Públicas têm como pais fundadores: Harrold Laswell, Herbert Simon, Charles
Lindblom e David Easton.
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Mead (1995) Um campo dentro do estudo da política que analisa o
governo à luz de grandes questões públicas.
Lynn (1980) Um conjunto específico de acções do governo que irão
produzir efeitos específicos.
Peters (1986) Política pública é a soma das actividades dos governos,
que agem diretamente ou através de delegação, e que
influenciam a vida dos cidadãos.
Dewey (1927) o que é “público e os seus problemas”.
Dunn (1981) As Políticas Públicas enquanto disciplina científica são na
essência uma ciência social aplicada. Esta disciplina está
preocupada em gerar um corpo de conhecimentos que
possibilite o entendimento dos processos de políticas
públicas, de modo a encontrar soluções para problemas
práticos.
Fonte: Pereira (2008); Souza (2006).
4. Tipos (Tipologia) de Políticas Públicas
Na perspectiva de Teodore Lowi (1972) existem três (3) tipos de políticas
públicas, nomeadamente, distributivas, redistributivas, regulatórios e
constitutivas.
a) Políticas distributivas
São caracterizadas por um baixo grau de conflito dos processos políticos, visto
que políticas de caráter distributivo só parecem distribuir vantagens e não
acarretam custos, pelo menos directamente percebíveis, para outros grupos.
Decisões tomadas pelo governo que desconsideram a questão dos recursos
limitados, gerando impactos mais individuais do que universais, ao privilegiar
certos grupos sociais ou regiões em detrimento do todo. Políticas públicas que
favorecem o clientelismo e o patrimonialismo, por exemplo, seriam exemplos de
políticas distributivas (Souza, 2006).
Em geral, políticas distributivas beneficiam um grande número de destinatários,
todavia em escala relativamente pequena; potenciais opositores costumam ser
incluídos na distribuição de serviços e benefícios.
b) Políticas redistributivas
Ao contrário, são orientadas para o conflito. O objetivo é “o desvio e o
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deslocamento consciente de recursos financeiros, direitos ou outros valores
entre camadas sociais e grupos da sociedade. O processo político que visa a
uma redistribuição costuma ser polarizado e repleto de conflitos.
Atinge maior número de pessoas e impõe perdas concretas e no curto prazo
para certos grupos sociais e ganhos incertos e futuro para outros; são, em geral,
as políticas sociais universais, o sistema tributário e o sistema previdenciário e
são as de mais difícil encaminhamento (Souza, 2006).
c) Políticas regulatórias
Trabalham com ordens e proibições, decretos e portarias. Os efeitos referentes
aos custos e benefícios não são determináveis de antemão; dependem da
configuração concreta das políticas. Custos e benefícios podem ser distribuídos
de forma igual e equilibrada entre os grupos e setores da sociedade, do mesmo
modo como as políticas também podem atender a interesses particulares e
restritos. Os processos de conflito, de consenso e de coalizão podem se
modificar conforme a configuração específica das políticas.
São mais visíveis ao público, envolvendo burocracia, políticos e grupos de
interesse (Souza, 2006).
d) Políticas constitutivas ou estruturadoras
Determinam as regras do jogo e com isso a estrutura dos processos e conflitos
políticos, isto é, as condições gerais sob as quais vêm sendo negociadas as
políticas distributivas, redistributivas e regulatórias.
São políticas modificadoras de regras. A política estruturadora diz respeito à
própria esfera da política e suas instituições condicionantes, refere-se à criação
e modelação de novas instituições, à modificação do sistema de governo ou do
sistema eleitoral, à determinação e configuração dos processos de negociação,
de cooperação e de consulta entre os actores políticos. A distinção entre política
estruturadora e política regulatória é particularmente importante em relação aos
efeitos nos processos de conflito e de consenso, os quais são de peculiar
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interesse para a análise de políticas públicas.
Enquanto políticas regulatórias versam sobre questões morais e vêm sendo
discutidas de forma bastante controversa dentro da sociedade, as políticas
estruturadoras ou constitutivas costumam provocar muito menos impacto na
esfera pública. Embora essas políticas possam implicar consequências
poderosas para o processo político, em geral costuma-se discutir e decidir sobre
modificações do sistema político apenas dentro do próprio sistema político-
administrativo. Raramente essas discussões se tornam fatos políticos
envolvendo setores mais amplos da sociedade. O interesse da opinião pública é
sempre mais dirigido aos conteúdos da política e bem menos aos aspectos
processuais e estruturais. Em suma, estas lidam com procedimentos.
Cada uma dessas políticas públicas vai gerar pontos ou grupos de interdição e
de apoios diferentes, processando-se, portanto, dentro do sistema político de
forma também diferente (Souza, 2006).
Resumo dos Tipos de Políticas Públicas
Distributivas Regulatórias Redistributivas Constitutivas
Decisões tomadas pelo
governo, que desconsideram a
questão dos recursos
limitados, gerando impactos
mais individuais do que
universais, ao privilegiar certos
grupos sociais ou regiões, em
detrimento do
todo.
Políticas públicas que
favorecem o clientelismo e o
patrimonialismo.
São mais visíveis ao
público, envolvendo
burocracia, políticos e
grupos de interesse.
Quando se tem
políticas regulatórias,
o padrão pode ser
pluralista, mas
também tende a ser
elitista, dependendo
de qual seja o
problema a ser
regulamentado.
Atinge maior número de
pessoas e impõe perdas
concretas e no curto
prazo para certos grupos
sociais, e ganhos incertos
e futuro para outros.
São, em geral, as
políticas sociais
universais, o sistema
tributário e o sistema
previdenciário e são as
de mais difícil
encaminhamento.
Lidam com
procedimentos
4.1. Hierarquia das Políticas Públicas
Mundial
Objectivos do Desenvolvimento do Milénio
Regional
(continental)
Nova Parceria para o Desenvolvimento de África (NEPAD)
Nacional
(PES, OGE) Agenda 2025, PARPA
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Transversal PROAGRI, Género, hiv/sida, ambiente.
Sectorial Plano Nacional de Saúde, Plano Nacional de Educação
Provincial Planos Estratégicos Provinciais
Distrital Plano de Desenvolvimento Distrital (PDD)
5. Ciclo de Politicas Públicas
Tradicionalmente o processo de políticas públicas ou ciclo de políticas públicas
é entendido como sendo um conjunto de “fases” que implica: a existência de um
problema, a definição do problema, identificação de respostas alternativas ou
soluções, avaliação das opções, selecção da política, implementação e
avaliação (Pereira, 2008).
As políticas públicas desenrolam-se em forma de um ciclo, que tem o seu início
na expressão de um problema, quer tenha sido identificado pelas autoridades,
quer tenha sido expresso pela sociedade.
Uma vez identificado o problema, ele entra na agenda política e a partir dai inicia-
se o procedimento que leva à formulação de políticas, que começa com a
identificação e a apreciação das diversas alternativas para a resolução deste.Escolhida uma das alternativas, procede-se à sua implementação; chega então
a altura de avaliar o sucesso das decisões tomadas. O ciclo encerra quando os
resultados da fase de avaliação fornecem contributos para a redefinição do
problema e das soluções encontradas.
O ciclo da política pública é constituído dos seguintes estágios: (1) identificação
do problema; (2) definição/formação de agenda; (3) identificação/formulação de
alternativas; (4) tomada da decisão/avaliação das opções; (5) implementação e
(6) avaliação (ver a figura a seguir).
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5.1 Identificação do Problema
Um problema é a discrepância entre o status quo e uma situação ideal possível.
Um problema público é a diferença entre o que é e aquilo que se gostaria que
fosse a realidade pública. Um problema público pode aparecer subitamente, por
exemplo, uma catástrofe natural que afecte a vida de pessoas de determinada
região.
Um problema público também pode ganhar importância aos poucos, como o
congestionamento nas cidades ou a progressiva burocratização de
procedimentos e serviços públicos.
Um problema público pode estar presente por muito tempo, mas não receber
suficiente atenção porque a colectividade aprendeu a conviver com ele, como o
caso da favelização das periferias das grandes cidades.
Um problema nem sempre é reflexo da deterioração de uma de determinado
contexto, mas sim de melhora da situação em outro contexto. Por exemplo, a
falta de acesso pavimentado de um pequeno município à rede viária do Estado
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passa a ser percebida como um problema relevante a partir do momento em que
o município vizinho é contemplado com esse tipo de obra. As vezes, se nosso
vizinho compra um carro novo, nós começamos a perceber o nosso carro como
velho.
A identificação do problema público envolve os seguintes aspectos:
A percepção do problema: um problema público não existe senão na
cabeça das pessoas. Um problema público é um conceito subjectivo ou
intersubjectivo. Uma situação pública passa a ser satisfatória a partir do
momento em que afecta a percepção de muitos actores relevante;
A definição ou delimitação do problema: a delimitação do problema
envolve definir quais são os seus elementos, e sintetizar em uma frase a
essência do mesmo. No momento de delimitação de um problema
também são criados os norteadores para as definições do conjunto de
causas, soluções, culpados, obstáculos, avaliações. Exactamente por
isso a delimitação de um problema público é politicamente crucial no
processo de elaboração de uma política pública. Há de se destacar que
qualquer definição do problema é temporária. Nas fases sucessivas de
formulação das alternativas e, principalmente, na implementação, os
problemas públicos são redifinidos e adaptados por políticos, burocratas,
e os próprios destinatários das políticas públicas;
A avaliação da possibilidade de resolução: costuma-se dizer que um
problema sem solução não é problema. É claro que nem sempre às
políticas públicas são elaboradas para resolver completamente um
problema, e sim apenas para mitigá-lo ou diminuir as suas consequências
negativas. No entanto, dificilmente um problema é identificado
socialmente se não apresenta potencial de solução.
Os partidos políticos, os agentes políticos, Organizações da Sociedade Civil
(OSC) e as Organizações Não-Governamentais (ONG) são alguns dos actores
que se preocupam constantemente em identificar problemas públicos.
Do ponto de vista racional, esses actores encaram o problema público como
matéria-prima de trabalho. Um político encontra nos problemas públicos uma
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oportunidade para demostrar o seu trabalho ou, mesmo, uma justificativa para a
sua existência. A partir do momento em que uma espécie da fauna entra em
extinção, e isso vêm a conhecimento público, surge a oportunidade de criação
de uma entidade de defesa daquela espécie. A partir do momento em que um
produto importado começa a atrapalhar um sector industrial, surge a
oportunidade política de defender os interesses deste sector industrial.
Se um problema é identificado por algum actor político, e esse actor tem
interesse na resolução de tal problema, este poderá então lutar para que tal
problema entre na lista de prioridades de actuação. Essa lista de prioridades é
conhecida como agenda.
5.2 Definição/formação de agenda
A agenda é um conjunto de problemas ou temas entendidos como relevantes.
Ela pode tomar forma de um programa de governo, um planeamento orçamental,
um estatuto partidário ou, ainda, de uma simples lista de assuntos que o comitê
editorial de um jornal entende como importante.
Existem dois tipos de agendas:
e) Agenda política: conjunto de problemas ou temas que a comunidade
política percebe como merecedor de intervenção pública;
f) Agenda formal: também conhecida como agenda institucional, é aquela
que elenca os problemas ou temas que o poder público já decidiu
enfrentar.
Existe também a agenda da mídia, ou seja, a lista de problemas que recebe
atenção especial dos diversos meios de comunicação. O poder que a mídia
possui sobre a opinião pública é grande que, não raras vezes, a agenda da mídia
condiciona as agendas políticas e institucionais.
Os problemas entram e saem da agenda. Eles ganham notoriedade e relevância,
e depois perdem a sua importância.
A limitação de recursos humanos, financeiros, materiais, a falta de tempo, a falta
de vontade política ou a falta de pressão popular podem fazer que alguns
problemas não permaneçam por muito tempo, ou nem consigam entrar nas
TEXTO DE APOIO: Políticas de Emprego e Competências Profissionais//ESEG/ Mauro Da
Cruz 16
agendas.
Existem três condições para que um problema entre na agenda política:
a) Atenção: diferentes actores (cidadãos, grupos de interesse, mídia etc.)
devem entender a situação como merecedora de intervenção;
b) Resolubilidade: as possíveis acções devem ser consideradas necessárias
e factíveis;
c) Competência: o problema deve tocar responsabilidades públicas.
Muitas das vezes quando acadêmicos ou jornalistas mencionam “agenda”, eles
se referem à agenda formal.
5.3 Identificação/formulação de alternativas
A partir da introdução do problema na agenda, os esforços de construção e
combinação de soluções para os problemas são cruciais.
Idealmente, a formulação de soluções passa pelo estabelecimento de objectivos
e estratégias e estudo das potenciais consequências de cada alternativa de
solução.
A formulação de alternativas de solução se desenvolve por meio de escrutínios
formais ou informais das consequências do problema, e dos potenciais custos e
benefícios de cada alternativa disponível.
1. Estabelecimento de objectivos
O estabelecimento de objectivos é o momento em que os políticos, analistas de
políticas públicas e demais actores envolvidos no processo resumem o que
esperam que sejam os resultados da política pública. Os objectivos podem ser
estabelecidos de maneira mais frouxa (por exemplo, melhorar a assistência
social do município, diminuir o nível de desemprego) ou de maneira mais
concreta (por exemplo, reduzir em 20 % o número de sequestros, no município
de Maputo, nos próximos 6 meses). Quanto mais concretos forem os objectivos,
mais fácil será verificar a eficácia da política pública.
TEXTO DE APOIO: Políticas de Emprego e Competências Profissionais//ESEG/ Mauro Da
Cruz 17
2. Estratégias
É o momento em que são elaborados métodos, programas, estratégias ou
acções que poderão alcançar os objectivos estabelecidos. Um mesmo objectivo
pode ser alcançado de várias formas, por diversos caminhos.O Policymaker tem à disposição quatro mecanismos para a indução de
comportamento:
Premiação (incentivos selectivos positivos): influenciar o comportamento
com estímulos positivos, como no caso das alternativas e) e f) do exemplo
anterior;
Coerção (incentivos selectivos negativos): influenciar o comportamento
com estímulos negativos, como no caso das alternativas a) e b) do
exemplo dado;
Conscientização: influenciar o comportamento por meio da construção e
apelo ao senso do dever moral, como na alternativa d) do exemplo;
Soluções técnicas: não influenciar comportamento directamente, mas sim
aplicar soluções práticas que venham a influenciar o comportamento de
forma indirecta, como nos casos da alternativa c) do exemplo dado.
3. Estudo das potenciais consequências de cada alternativa de
solução
Este estudo pode ser feito com o suporte de três técnicas:
Projecções: prognósticos que se baseiam na prospecção de tendências
presentes ou historicamente identificadas, a partir de dados apresentados
em forma de séries temporais. As projecções baseiam-se em factos
TEXTO DE APOIO: Políticas de Emprego e Competências Profissionais//ESEG/ Mauro Da
Cruz 18
passados ou actuais experimentados em dado sector da política pública
ou em sectores similares. Esse trabalho é depende de fontes seguras de
informações quantitativas e qualitativas, tais como tendências de
crescimento populacional, tendências de crescimento económico,
tendências na arrecadação tributária, variações no Índice de
Desenvolvimento Humano (IDH) etc.;
Predições: baseia-se na aceitação de teorias, proposições ou analogias,
e tentam prever as consequências das diferentes políticas. Esse trabalho
é teórico-dedutivo, ou seja, parte de axiomas ou pressupostos já
consolidados para tentar prever “resultados”, comportamentos, efeitos
económicos. Dentre os métodos disponíveis para realizar predições estão
a teoria dos jogos, o método Delphi, análise de correlações e regressões
estatísticas e as árvores de decisão;
Conjecturas: são juízos de valor criados a partir de aspectos intuitivos ou
emocionais dos policymakers, geralmente se baseia no conhecimento de
profissionais que actuam na linha de frente e que já tem experiência
suficiente para entender as nuances de dada área de política pública.
Reuniões, debates fóruns são os meios mais utilizados para a realização
de conjecturas. Exemplos de ferramenta mais estruturada de elaboração
de conjecturas são a análise multicritério e o chamado brainstorming
(tempestade de ideias), Grupo Nominal e o painel de três (3).
5.4 Tomada da decisão/avaliação das opções (Processo Decisório)
No processo de elaboração de políticas públicas, a tomada de decisões é vista
como aa etapa que sucede a formulação de alternativas de solução. A tomada
de decisão representa o momento em que os interesses dos actores são
equacionados e as intenções (objectivos e métodos) de enfrentamento dum
problema público são explicitadas.
Existem três (3) formas de entender a dinâmica de escolha de alternativas de
solução para problemas públicos:
TEXTO DE APOIO: Políticas de Emprego e Competências Profissionais//ESEG/ Mauro Da
Cruz 19
Os tomadores de decisão tem problemas em mãos e correm atrás de
soluções: a tomada de decisão ad hoc com base no estudo de
alternativas, ou seja, torna-se o problema já estudado, os objectivos já
definidos e então busca-se escolher qual alternativa é mais apropriada em
termos de custo, rapidez, sustentabilidade, equidade ou qualquer outro
critério para a tomada de decisão;
Problemas que buscam soluções
Os tomadores de decisão vão ajustando os problemas às solução, e as
soluções aos problemas: o nascimento do problema, o estabelecimento de
objectivos e a busca de soluções são eventos simultâneos e ocorrem em um
processo de comparações sucessivas limitadas
Comparações sucessivas ilimitadas.
Os tomadores de decisão têm soluções em mãos e correm atrás de
problemas: um empreendedor de política pública já tem predilecção por
uma proposta de solução existente, e então luta para inflar um problema
Problemas
Soluções
Problemas
Soluções
Soluções
TEXTO DE APOIO: Políticas de Emprego e Competências Profissionais//ESEG/ Mauro Da
Cruz 20
na opinião pública e no meio político de maneira que sua proposta se
transforme em política pública.
Soluções que buscam problemas.
Quando trata-se do processo decisório, os modelos que devem ser levados em
consideração são:
a) Modelo de Escolhas Racionais
Parte da premissa de que o homem é um ser racional e económico, visto que,
em todos os problemas e situações que este enfrenta, tende a criar o máximo
proveito para a satisfação das suas necessidades; daí a fórmula do cálculo
estratégico (maximização dos ganhos e minimização das perdas) é aplicável
neste modelo.
Para a escolha duma decisão de acordo com este modelo devem ser respeitados
os seguintes aspectos:
Identificação da natureza do problema em causa;
Capacidade em ordenar as preferências no que concerne aos objectivos
a atingir;
Avaliação dos meios pelos quais é possível atingir os objectivos, tendo
em conta a eficiência, eficácia e os custos para o alcance dos mesmos;
Dentre os meios disponíveis, escolher aqueles que melhor levam a
prossecução dos objectivos.
b) Modelo Incremental (aplicado ao processo decisório)
Problemas
TEXTO DE APOIO: Políticas de Emprego e Competências Profissionais//ESEG/ Mauro Da
Cruz 21
As Politicas incrementais, tendem a limar as imperfeições ou melhorar as já
existentes de modo a se evitar problemas futuros. Este modelo, sublinha que,
em muitas situações as decisões são tomadas com base em informações
incompletas, fazendo com que muitas políticas não consigam atingir resultados
desejados; assim sendo, é necessário que as imperfeições sejam limadas o mais
cedo possível, que deixa-las crescer e transformarem-se em grandes problemas
que para a sua mitigação poderão despender muitos recursos.
O modelo incremental comporta três características principais: (1) problemas e
soluções são definidos, revisados e redifinidos simultaneamente e em vários
momentos da tomada de decisão; (2) as decisões presentes são consideradas
dependentes das decisões tomadas no passado e os limites impostos por
instituições formais e informais são barreiras à tomada de decisão livre por parte
do policymaker, ou seja, a tomada decisões é um processo de imitação ou de
adaptação de soluções já implementadas em outros momentos ou contextos; (3)
as decisões são consideradas dependentes dos interesses dos actores
envolvidos no processo de elaboração da política pública, e por isso muitas das
vezes, a solução escolhida não é a melhor opção, mas sim aquela que foi
politicamente lapidada em um processo de construção de consensos e de ajuste
mútuo de interesses.
c) Modelo de organização burocrática
Este modelo dá enfase ao processo de estruturação na criação de resultados de
políticas públicas.
Por um lado, os actores políticos analisam o processo de tomada de decisão
tendo como base a sua própria posição. Portanto, uma decisão tomada dentro
duma determinada organização burocrática tem sempre em conta a hierarquia
estabelecida pelas normas e, é influenciada por essa mesma estrutura.
Este modelo está subdividido em duas (2) correntes, nomeadamente:
TEXTO DE APOIO: Políticas de Emprego e Competências Profissionais//ESEG/ Mauro Da
Cruz 22
A corrente do processo organizacional: que enfatiza a influência sofrida
pelas decisões dos valores, padrões de comportamentos estabelecidos
pelas normas organizacionais;
A corrente da burocracia política: esta distingue as decisões quanto aos
objectivos entre singulares e da organização no seu contrato.d) Modelo discursivo ou de sistemas de crenças
Parte-se da perspectiva de que ao tomarem uma determinada decisão, os
decisores são influenciados pelas crenças e ideologias a que pertencem, embora
isso aconteça de forma despercebida. Ou seja, os decisores pensando que estão
agindo racionalmente não se apercebem do grau de influência das crenças e
ideologias.
e) MIXED SCANNING
Outro modelo que pode ser usado para o processo decisório é o MIXED
SCANNING, que serve de modelo alternativo à racionalidade económica e o
incrementalismo. Ele tem como sustento as propostas de Amitai Etzioni.
Portanto, o mixed scanning distingue as escolhas estratégicas (que estabelecem
as direcções básicas das políticas) e escolhas operacionais (contribuem para a
implementação das escolhas estratégicas). O pressuposto base é de que, as
mudanças nas políticas ocorrem quando os problemas de escolha são
adoptados à natureza dos problemas confrontados pelos decisores públicos.
f) Garbage Can (lata de lixo)
Outro modelo para o processo decisório é o Garbage Can (lata de lixo) discutido
por Cohen, March e Olsen, que tem como propósito de identificar problemas e
soluções, onde os tomadores de decisão escolhem as oportunidades
agrupando-as. No entanto, o processo de tomada de decisão é observado por
diversos caminhos, priorizando a atenção de acordo com a magnitude do
problema, avaliando o grau de importância e finalmente a escolha da solução
ideal para o devido problema.
As decisões são vistas como meros encontros casuais dos problemas, das
TEXTO DE APOIO: Políticas de Emprego e Competências Profissionais//ESEG/ Mauro Da
Cruz 23
soluções e das oportunidades de tomada de decisão.
5.5 Implementação de Políticas Públicas
A implementação de políticas pode ser considerada aquela fase do ciclo de
políticas cuja encomenda de acção é estipulada na fase precedente à formulação
das políticas e a qual, por sua vez, produz do mesmo modo determinados
resultados e impactos.
A fase de implementação sucede à tomada de decisão e antecede os primeiros
esforços avaliativos. É aquela em que regras, rotinas e processos sociais são
convertidos de intenções em acções.
No que tange à análise dos processos de implementação, podemos discernir as
abordagens, cujo objectivo principal é a análise da qualidade material e técnica
de projectos ou programas, daquelas cuja análise é direcionada para as
estruturas político-administrativas e a atuação dos actores envolvidos.
O que está em primeiro plano é o processo de implementação, isto é, a descrição
do “como” e da explicação do “porquê”.
De maneira indutiva e empírica descreve-se o que acontece, quais actores
atuam com quais motivos e com quais resultados.
A implementação se refere a como a política pública está sendo posta em prática,
ou seja, à transformação da política em ação. A implementação tem-se
constituído na sub-área ou fase da política pública que menos tem recebido
atenção, tanto de trabalhos acadêmicos como dos próprios governos. A sub-área
é de fundamental importância porque, por ser um estágio intermediário entre a
formulação e a avaliação de uma dada política pública, estudos realizados na
fase de implementação podem detectar, com antecipação, problemas que
podem estar ocorrendo e propor mudanças no desenho e na implementação da
política (Souza, 2006).
Nem sempre os problemas de implementação estão situados no seu desenho,
nas questões organizacionais e gerenciais ou em apenas em um dos principais
TEXTO DE APOIO: Políticas de Emprego e Competências Profissionais//ESEG/ Mauro Da
Cruz 24
atores que implementam a política pública, ou seja, a burocracia ou as
organizações que recebem delegação do governo para implementá-la (idem).
Existe uma lista de variáveis que também impactam a política pública e somente
estudos de caso específicos podem identificá-las. A correcta identificação dessas
variáveis e da sua influência na implementação das políticas públicas é o ponto-
chave para corrigir seus possíveis problemas.
Apesar da existência de variáveis várias que influenciam a implementação da
política pública, não existe dúvida de que o papel da burocracia que implementa
a política, ou seja, a burocracia de linha, é crucial.
O principal argumento para se concentrar esforços no melhor entendimento (e
treinamento e qualificação) da burocracia de linha é que esses servidores
(professores, policiais, médicos, atendentes de serviços públicos etc.) tomam
rotineiramente decisões que afectam a vida das pessoas, com elas se
relacionam diretamente e têm grande espaço para tomar decisões que muitas
vezes contrariam os objectivos da política pública. Nesse sentido, os servidores
públicos que prestam directamente serviços às pessoas estão muito longe do
ideal weberiano de impessoalidade na tomada de decisão.
Na realidade, são esses servidores que detêm a chave para a dimensão efectiva
da cidadania.
Na linguagem da política pública, a burocracia (agentes) poderia desenhar
políticas contrárias ao interesse dos políticos eleitos (principal) ou a
implementaria de forma contrária ao que foi por eles decidido. A saída desse
dilema estaria na criação de incentivos para que o agente cumpra o mandato do
principal.
Segundo a teoria da agência, as soluções para enfrentar o problema agente x
principal seriam de quatro tipos. A primeira seria o cuidadoso desenho do
contrato firmado com o agente, com mecanismos de compensação que o
motivem a atender os interesses do principal, estimulando-se também a
competição entre os agentes. A segunda seria através de mecanismos de
TEXTO DE APOIO: Políticas de Emprego e Competências Profissionais//ESEG/ Mauro Da
Cruz 25
seleção que identifiquem talentos, habilidades e as melhores características para
o cargo. A terceira seria via o monitoramento dos agentes, com a instituição de
procedimentos que façam com os agentes sejam passíveis de controlo por
aqueles que recebem seus serviços. É a chamada fiscalização "alarme de
incêndio". Exemplos desse tipo de fiscalização seriam a inscrição de números
de telefones nos carros, linhas-diretas para denúncias e audiências públicas. A
quarta forma de solução seria provida por controlos institucionais, especialmente
por instituições ou grupos de interesse que se opõem à política pública que está
sendo implementada pelos agentes.
Diante do exposto, análises voltadas para a implementação de políticas públicas
devem focalizar: a) o grau de conhecimento e capacidade das organizações e
dos implementadores sobre a política que está sendo implementada; b) os
diversos processos que compõem a implementação, inclusive seus pontos de
conflito; c) o papel dos actores e dos agentes na implementação; e d) o grau de
discricionaridade da burocracia quando implementa a política pública.
Ao elaborar um projecto que incorpore os problemas de implementação, pode-
se compreender melhor:
• A complexidade de se alcançar os objetivos almejados pela política
pública.
• As possibilidades de "fracasso" da política originalmente desenhada.
• A natureza dinâmica da transformação da política em ação.
• O papel e a importância dos detalhes técnicos e da base de informações.
• O papel dos servidores de linha e sua potencialidade para mudar os
rumos da política.
• A identificação de ambiguidades ou contradições no desenho original da
política.
• As questões práticas do dia-a-dia que influenciam o resultado das
políticas e como esses resultados são influenciados pelo trabalho
cotidiano da burocracia que a implementa.
Existem dois modelos importantes da implementação de políticas públicas, a
TEXTO DE APOIO: Políticas de Emprego e Competências Profissionais//ESEG/ Mauro Da
Cruz 26
destacar:
1. Modelo top-down (de cima para baixo)
O modelo ou enfoque top-down aborda o porquê de certas políticas serem bem-
sucedidas (bemimplementadas) e outras não, partindo de uma definição de
implementação como um processo em que “acções de actores públicos ou
privados são dirigidas ao cumprimento de objectivos definidos em decisões
políticas anteriores”.
Caracterizado pela separação clara entre o momento de tomada de decisão e o
de implementação, em fases consecutivas. Esse modelo é baseado na distinção
wilsoniana entre “Politica e Administração”, no qual os tomadores de decisão
(políticos) são separados dos implementadores (administradores).
A política pública é, assim, entendida como uma “propriedade” dos policymakers
situados no topo das organizações, como actores que têm o controlo do
processo de formulação.
O modelo top-down de implementação parte de uma visão funcionalista e
tecnicista de que as políticas públicas devem ser elaboradas e decididas pela
esfera política e que a implementação é mero esforço administrativo de achar
meios para os fins estabelecidos. Esse modelo é visto como uma estratégia da
classe política para “lavar as mãos” em relação aos problemas de
implementação: se as políticas, os programas e as acções estão bem planeados,
com objectivos claros e coerentes, então uma má implementação é resultado de
falhas dos agentes (por exemplo, policias, professores, médicos).
Para que uma política de tipo top-down seja bem implementada é necessário
que dez pré-condições sejam observadas:
1. Que as circunstâncias externas à agência responsável pela
implementação não imponham a esta restrições muito severas.
2. Que tempo adequado e recursos suficientes sejam colocados à
disposição do programa.
TEXTO DE APOIO: Políticas de Emprego e Competências Profissionais//ESEG/ Mauro Da
Cruz 27
3. Que não haja nenhuma restrição em termos de recursos globais e que,
também, em cada estágio do processo de implementação, a combinação
necessária de recursos esteja realmente disponível.
4. Que a política a ser implementada seja baseada em uma teoria de causa
e efeito válida.
5. Que as relações de causa e efeito sejam directas e em pequeno número.
6. Que haja uma única agência de implementação que não dependa de
outras ou, se outras agências estiverem envolvidas, que as relações de
dependência sejam pequenas em número e importância.
7. Que haja entendimento completo, e consentimento, acerca dos objectivos
a serem atingidos; e que estas condições persistam durante o processo
de implementação.
8. Que ao mobilizar-se para o cumprimento de objetivos acordados seja
possível especificar, em completo detalhe e perfeita sequência, as tarefas
a serem levadas a cabo por cada participante do programa.
9. Que haja perfeita comunicação e coordenação entre os vários elementos
envolvidos no programa.
10. Que aqueles com autoridade possam exigir e obter perfeita obediência.
2. Modelo bottom-up (de baixo para cima)
O enfoque bottom-up constitui-se a partir de críticas ao enfoque top-down, ou da
introdução de restrições ao que poder-se-ia considerar o caso perfeito, ideal, de
elaboração de política.
Caracterizado pela maior liberdade de burocratas e redes de actores em auto-
organizar e modelar a implementação de políticas públicas. Os implementadores
têm maior participação no escrutínio do problema e na prospecção de soluções
durante a implementação e, posteriormente, os tomadores de decisão legitimam
as práticas já experimentadas.
5.6 Avaliação de Políticas Públicas
A Avaliação de políticas públicas constitui um instrumento essencial da
Administração pública (AP), não só como elemento fundamental no próprio ciclo
das políticas públicas, como também, das transformações que levam à
TEXTO DE APOIO: Políticas de Emprego e Competências Profissionais//ESEG/ Mauro Da
Cruz 28
implementação de uma nova prática de gestão pública por parte das instituições
públicas.
Dye (1987) define o processo de avaliação de uma política como um estudo das
consequências de uma política pública.
Segundo Theodolou (2012) a avaliação de políticas consiste na revisão da
implementação de uma política pública para se aferir se está a ser realizado o
que foi traçado como objectivo. As consequências desse processo são
determinadas pela descrição do impacto, ou olhando para algum sucesso ou
insucesso tendo em vista o estabelecimento das metas iniciais.
Existem várias modalidades de classificação da avaliação de políticas públicas,
conforme ilustra o quadro abaixo.
Critério Tipos de
Avaliação
Descrição
Quanto à
temporalidade
ex-ante
Realizada antes do início de
implementação de um programa, onde é
necessário projectar o que aconteceria com
algumas características da população
beneficiária caso o programa fosse
executado, comparando os custos e
benefícios da iniciativa com as alternativas
disponíveis à sua implantação;
ex-post
Realizada após consolidação ou na fase
final de um programa. Normalmente mede
resultados e impactos, exigindo
levantamento de dados primários sobre o
público-alvo, caso o programa não
disponha de um sistema de monitoramento
desenvolvido.
De processo
Relativa à identificação dos aspectos da
implementação (recursos, processos e
produtos) que podem gerar ganhos ou
perdas no atendimento às metas das
acções do programa junto ao público-alvo.
Relativa ao nível de transformação da
TEXTO DE APOIO: Políticas de Emprego e Competências Profissionais//ESEG/ Mauro Da
Cruz 29
Quanto ao
objecto
De resultados situação a qual o programa se propõe a
modificar. Expressa o grau em que os
objetivos do programa foram alcançados.
De impacto
Que busca conhecer os efeitos produzidos
pelo programa em algum (uns) aspecto (s)
da realidade afectada pela sua existência.
Quanto à
execução
Interna
Realizada dentro da organização onde se
localiza o programa, conduzida por unidade
administrativa diferente da executora.
Externa
Realizada por instituições externas, o que
tende a apresentar mais credibilidade junto
ao público usuário da informação, por
utilizar padrões mais rígidos e neutros de
análise.
A avaliação formativa
Consiste na avaliação realizado no
decorrer de um programa/projecto/acção,
com a finalidade de aperfeiçoá-lo: actua no
momento da implementação para
identificar se a execução está ocorrendo de
acordo com o planeado.
A avaliação somativa
Refere-se à avaliação final de um
programa/projecto/acção, com a finalidade
de julgá-lo: tem com o objetivo principal
analisar a eficácia e a efectividade quanto
aos resultados obtidos.
Fonte: Adaptado de Paludo (2013)
Na visão de PARSONS (1995), existem os seguintes tipos de avaliação de
Politicas Públicas:
Avaliação Formativa: Este tipo de avaliação acontece quando a política
está na sua fase de implementação onde se faz a análise do ponto de
situação de implementação da política e as condições que promovem o
sucesso da política. A mesma também faz a monitoria de como se está a
administrar o programa tendo em vista os resultados que servem para
melhorar o processo de implementação;
Avaliação Somativa: Este tipo avaliação refere-se a medição dos
impactos da política/programa olhando para aqueles que eram os
objetivos inicialmente traçados. Este é um processo que exerce um
carácter de comparação entre o antes e o depois da implementação da
TEXTO DE APOIO: Políticas de Emprego e Competências Profissionais//ESEG/ Mauro Da
Cruz 30
política, o impacto da política no grupo alvo em relação ao outro, o que
aconteceu com a implementação de um projecto ou não, mas tudo isso
tendo em conta a racionalização dos custos e benefícios;
Experimental: Que envolve várias técnicas onde se procura fazer um
estudo sobre um problema antes e depois da intervenção de uma
política/programa. Essencialmente o estudo é feito em grupos
beneficiários de uma determinada política,onde se tem um grupo de
controlo e grupo de experimentação.
O quadro demonstra que no desenvolvimento duma avaliação dum programa,
política pública, projecto ou mesmo qualquer actividade, o pesquisador seja
capaz de delimitar os critérios de avaliação a serem observados. Neste sentido,
há uma necessidade de esclarecer que os critérios de avaliação são diferentes
dos padrões de avaliação.
Os padrões mais utilizados na avaliação são: Economicidade (é a minimização
dos custos dos recursos utilizados na execução das ações, sem comprometer
os padrões de qualidade), Eficiência (é a acção de fazer as coisas
correctamente), Eficácia (é o grau de alcance das metas, é uma medida de
resultados utilizada para avaliar o desempenho da administração) e
Efectividade (é o impacto final das acções, é o grau de satisfação das
necessidades e dos desejos da sociedade pelos serviços prestados pela
instituição. A efectividade vai além das entregas imediatas (metas) e analisa a
transformação causada pela execução das acções (Paludo, 2013).
Outros padrões são propostos por Howlett e Ramesh (1995) a destacar:
Esforço: tenta medir a quantidade de contribuições do programa, quer
dizer, a quantidade de esforço do governo em alcançar as metas. A
contribuição pode ser pessoal, no espaço de escritório, comunicação,
transporte, e assim em diante. Do qual são calculados em termos de
custos monetários envolvidos. O propósito desta avaliação é estabelecer
dados e balizas que podem ser usados para avaliação subsequente de
eficiência ou qualidade na entrega do serviço ao grupo-alvo; e
TEXTO DE APOIO: Políticas de Emprego e Competências Profissionais//ESEG/ Mauro Da
Cruz 31
Desempenho: examina os produtos criados pelo programa. Exemplos
dos produtos podem ser camas de hospital, números de pacientes
recebidos. O foco da avaliação de desempenho é determinar o que a
política está produzindo, em relação aos objectivos estipulados. Este tipo
de avaliação produz dados ("mede o desempenho").
6. Análise de Políticas Públicas
6.1 Conceito
Análise de Políticas pode ser considerada como um conjunto de conhecimentos
proporcionado por diversas disciplinas das ciências humanas utilizados para
buscar resolver ou analisar problemas concretos em políticas públicas.
Para Wildavsky (1979), a Análise de Política recorre a contribuições de uma série
de disciplinas diferentes, a fim de interpretar as causas e consequências da ação
do governo, em particular, ao voltar sua atenção ao processo de formulação de
política. Ele considera, ademais, que Análise de Política é uma sub-área
aplicada, cujo conteúdo não pode ser determinado por fronteiras disciplinares,
mas sim por uma abordagem que pareça apropriada às circunstâncias do tempo
e à natureza do problema.
Segundo Dye (1976), fazer “Análise de Política é descobrir o que os governos
fazem, porque fazem e que diferença isto faz”. Para ele, Análise de Política é a
descrição e explicação das causas e consequências da ação do governo.
A disciplina de análise de políticas públicas, e uma disciplina multi-método e
multidisciplinar. multi-método na medida em que usa métodos de outras
ciências sociais e multidisciplinar por que faz empréstimo do conhecimento de
outras áreas de saber das ciências sociais.
6.2 Modelos de Análise de Políticas Públicas
g) Modelo Incrementalista
TEXTO DE APOIO: Políticas de Emprego e Competências Profissionais//ESEG/ Mauro Da
Cruz 32
De acordo com Heywood (1997), o modelo incrementalista defende que as
políticas não parte do zero, mas sim, são resultados do incrementalismo de
decisões já existentes e através da avaliação do seu impacto vê-se a
necessidade de proceder mudanças e reformulações em tais políticas para
adequá-las a realidade actual.
Este modelo considera que as Politicas Públicas são uma continuação de
políticas adoptadas no passado efetuando-se apenas algumas modificações ou
ajustes marginais.
h) Modelo Institucionalista
O modelo institucionalista parte do pressuposto de que o desenho das
instituições é primordial no desdobramento do jogo político, colocando em
segundo plano a participação dos cidadãos.
De acordo com Selznik, citado por Wayne Parsons (1995), o pressuposto básico
deste modelo é que a organização ou instituição interagem com o meio
ambiente, para a questão da sua adaptação e sobrevivência. A tomada de
decisão na organização é influenciada pelo ambiente em que a organização está
mergulhada.
Douglas North define as instituições como regras, formais ou informais,
idealizadas pelos homens para criar ordem ou reduzir a incerteza nos
intercâmbios, ou por outro, são o conjunto de leis, normas, costumes, tradições
e outros aspectos culturais que demarcam a acção de sociedades, organizações
e indivíduos (Matias-Pereira, 2010).
i) Modelo elitista
Segundo Wayne Parsons (1995), o modelo elitista de políticas públicas assegura
que o poder esta nas mãos de pequenos grupos e indivíduos.
A tomada de decisões de acordo com esse modelo é um processo pelo qual os
grupos ou indivíduos trabalham para tirar suas vantagens.
A ideia é que existem aqueles que se encontram no topo com o poder e na base
TEXTO DE APOIO: Políticas de Emprego e Competências Profissionais//ESEG/ Mauro Da
Cruz 33
a massa sem poder. Mosca e Parreto, afirmam que o elitismo é inevitável nas
sociedades democráticas onde as elites competem com o voto da população
para assegurar a sua legitimidade. A visão Elitista (ou neo-pluralista) ressalta o
poder exercido por um pequeno número de bem organizados interesses
societais e a habilidade dos mesmos para alcançar seus objectivos.
j) Modelo sistêmico
Este modelo preconiza que os diversos sistemas sociais estão em constante
interação, e por isso, não devem ser considerados isoladamente, mas sim nas
suas relações de interdependência mesmo que sejam estes extremamente
heterogêneos. Dai que, para a resolução de problemas sociais deve haver uma
interacção entre os decisores públicos e a sociedade civil, num processo de troca
de conhecimentos e experiências para a consecução dos objectivos das políticas
públicas formuladas. Neste modelo, procura-se perceber:
(i) Quais são as características do sistema político que geram a possibilidade de
transformação das demandas sociais em políticas públicas;
(ii) De que maneira as preocupações e necessidades (imputs) da sociedade
afectam as características específicas do sistema politico;
(iii) De que forma as características especificas do sistema político influem no
conteúdo das políticas públicas;
(iv) Como é que as demandas e pressões sociais influenciam no conteúdo das
políticas públicas.
A figura a seguir apresenta o exemplo da visão sistémica, nos moldes propostos
por Easton.
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Esta visão permite que se defina a política como “um grupo de organizações
complexas, conectadas umas às outras por dependência de recursos”. Ela
permite abordar a dependência de uma organização em relação à outra através
do exame do fluxo de recursos financeiros. Ao fazê-lo, destaca três
características da Análise de Política:
As organizações são influenciadas pelas sociedades nas quais operam;
É necessário assegurar que a análise do Estado seja baseada na
compreensão de sua relação com a sociedade;
As actividades do Estado nas sociedades modernas são essencialmente
actividade organizacionais.
A ênfase da teoria sistêmica é na ideia da black box (caixa peta), onde os
processos implícitos nela dificilmente são penetrados e pesquisados.
6.3 Tipos de Análise de Políticas Públicas e a Postura do Analista
Ham e Hill (1993) classificam os estudos de Análise Política (abordagens,
perspectivas) em duas grandes categorias:
A análise que tem como objectivo desenvolverconhecimentos sobre o
processo de elaboração das políticas (formulação, implementação e
Caixa Preta
Feedback (retroacção)
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avaliação) em si mesmo, estudos sobre as características das políticas e
o processo de elaboração de políticas, que revelam, portanto, uma
orientação predominantemente descritiva; e
A análise voltada a apoiar os fazedores de política (policymakers),
agregando conhecimento ao processo de elaboração de políticas,
envolvendo-se directamente na tomada de decisões, revelando assim um
carácter mais prescritivo ou propositivo.
Gordon, Lewis e Young (1977), propõem uma tipologia da Análise de Política
que abrange um amplo espectro, a destacar:
1. Estudo do conteúdo das políticas (study of policy content), no qual os
analistas procuram descrever e explicar a gênese e o desenvolvimento de
políticas, isto é, determinar como elas surgiram, como foram
implementadas e quais os seus resultados;
2. Estudo do processo das políticas (study of policy process): nele, os
analistas dirigem a atenção para os estágios pelos quais passam
questões e avaliam a influência de diferentes fatores, sobretudo na
formulação das políticas;
3. Estudo do resultado das políticas (study of policy output), no qual os
analistas procuram explicar como os gastos e serviços variam em
diferentes áreas, razão por que tomam as políticas como variáveis
dependentes e tentam compreendê-las em termos de fatores sociais,
econômicos, tecnológicos e outros;
4. Estudo de avaliação (evaluation study), no qual se procura identificar o
impacto que as políticas têm sobre a população;
5. Informação para elaboração de políticas (information por policy making):
neste caso, o governo e os analistas acadêmicos organizam os dados
para auxiliar a elaboração de políticas e a tomada de decisões;
6. Defesa de processos (process advocacy): os analistas procuram melhorar
os sistemas de elaboração de políticas e a máquina de governo, mediante
a realocação de funções, tarefas e enfoques para avaliação de opções;
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7. Defesa de políticas (policy advocacy), atividade exercida por intermédio
de grupos de pressão, em defesa de idéias ou opções específicas no
processo de políticas.
No domínio da postura do analista é possível identificar três tipos de analistas:
O “técnico”: interessado em pesquisa policy-oriented, é um acadêmico
preocupado com a (ou actuando na) burocracia;
O “político”: interessado em Análise de Política na medida em que lhe
permite aumentar sua influência política; e
O “empreendedor” interessado em usar a Análise de Política para
influenciar a política.
7. Razões para Políticas Públicas Falharem
As políticas públicas falham de modo sequencial. O problema da falha advém da
evidência comparativa de casos que mostram que há persistência das
dificuldades, mesmo com políticas que visam superá-las.
Existem argumentos que ilustram que as políticas públicas são fáceis de iniciar,
e muito difíceis de manter no tempo. Seguindo este raciocínio, pode-se crer que
o problema da falha sequencial resulta do facto das reformas dificilmente
atingirem seus objectivos propostos.
Vários autores consideram que as reformas são casos clássicos de políticas
públicas que muito raramente produzem substanciais ganhos de performance
sobre o aparato burocrático.
Os governos tem prometido muito, mas, frequentemente eles falham em
melhorar suas performances, pelo simples facto de que as reformas se mostram
desapontadoras. As políticas não produzem impactos significativos; eles
caminham na direcção errada ou são surpreendidas pelos factos. Por outro lado,
os reformistas têm sido bastante optimistas e muita das vezes irrealistas.
Destacamos a seguir várias razões para as políticas públicas falharem
(Rezende, 2002):
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1º: As reformas administrativas tendem a falhar pelo facto de que projectam a
realização de ambiciosas mudanças em padrões de comportamento e acção
altamente institucionalizados.
2º: Kaufman relaciona a falha sequencial com a resistência organizada de
actores no interior da burocracia. Resistência causada por:
Benefícios da manutenção do status quo;
A oposição calculada à mudança;
A reduzida capacidade de promover a mudança.
3º: Para Light a razão central da falha sequencial reside nos efeitos não-
intencionais das reformas. Portanto, uma dada politica de reforma produz mais
demanda por reformas, pelo simples facto de que consequências não-
intencionais da acção são produzidas.
4º: Coe, considera que nas consequências não-intencionais da acção é causado
por pressões externas à organização, fazendo com que esta, progressivamente,
se desvie dos objectivos inicialmente perseguidos e as vezes abandonados.
As politicas públicas têm um considerável ímpeto inicial que tende a reduzir-se
com o tempo. Tal redução é de fundamental importância para explicar a não-
cooperação dos actores estratégicos com a política.
5º: Para March e Olsen a falha sequencial deriva do facto de que a incerteza e
a multiplicidade de objectivos contraditórios desencadeiam problemas de
cooperação.
6º: Kaufman e Peters e Savoie, relacionam a falha sequencial com a tensão entre
descentralização e problemas de coordenação. As politicas públicas trazem em
si força centrípetas e centrifugas que as tornam de alta complexidade de
implementação.
Na óptica de Shellukindo e Nsibambi citados por Pereira (2008) existem uma
série de problemas para as Políticas Públicas em África, nomeadamente: (i)
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muitas políticas públicas em África chegam às fases de formulação e decisão
sem uma análise rigorosa nas fases de concepção e planificação; (ii) as políticas
públicas optam pelas preferências das elites (políticas) no processo de definição
de políticas públicas; (iii) fragilidade da formação (formal) em políticas públicas
nos programas de formação das instituições do ensino superior destes países.
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