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APLICABILIDADE DO PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA AO INDIVÍDUO QUE PRATICA FURTO FAMÉLICO: UMA ANÁLISE JURISPRUDENCIAL E TEÓRICA Marcia Christinne Aquino de Oliveira Silva1 RESUMO: O Princípio da Insignificância, também conhecido como princípio da bagatela, tem origem no Direito Romano e é baseado na máxima "minimis non curat praetor", que significa "o pretor não cuida de minudências”, ou seja os juízes e os tribunais não devem se ocupar com assuntos irrelevantes, ou seja a temas ou questões que não tem importância ou significância, num contexto penal. Por outro lado, é observado a aplicabilidade deste princípio ao individuo que pratica o furto famélico, num país com desigualdades econômicas e sociais, sob a ótica que o aumento desse tipo de furto torna-se frequente sobre a insegurança alimentar com o aumento da pobreza e redução da renda dos brasileiros, atrelados com o crescimento das desigualdades sociais. Com isso a ocorrência do furto famélico vem aumentando, embora a Constituição Federal e a legislação penal já preveem a individualização das condutas e penas, promotores e juízes pouco levam isso em consideração. Ou seja, um descompasso entre um judiciário que não aplica o Princípio da Insignificância e a realidade vivida por aquele que furta em estado de necessidade para saciar a sua fome ou de sua família. Corroborando essa afirmação da visão dos agentes do judiciário que por vezes não aplicam, nessas situações, o Princípio da Insignificância, que muitas vezes é ignorado, tanto que existe um aumento de casos que vão para o Supremo Tribunal Federal - STF ou Superior Tribunal de Justiça - STJ, pois as instâncias judiciais anteriores não reconheceram este princípio. Assim, o princípio da Insignificância vem para evitar que se movimente a máquina estatal de repressão aos crimes para punir condutas pequenas, ínfimas, que não configura relamente um crime em sí. Adotando este princípio, há uma exclusão de tipicidade material, ou seja, há uma exclusão do caráter criminoso da conduta do indivíduo, quando esta conduta for irrelevante , isto é, que não chega a lesar o bem jurídico protegido pela norma. Este artigo apresenta uma análise da aplicabilidade do Princípio da Insignificância, no que tange o furto famélico. Como este princípio está sendo aplicado em relação a crimes de furto famélico. E qual a possibilidade de uniformizar decisões para evitar que os tribunais neguem o princípio da Insignificância ao indivíduo que pratica o furto famélico. 1Bacharel em Direito pela Faculdade Invest de Ciência e Tecnologia – Cuiabá(2024), Servidora Pública, Pós Graduada em Direito Público com Ênfase em Contratos e Licitações , pela Faculdade Educacional da Lapa - Fael (2021) e em Direito Administrativo pela Faculdade do Instituto Panamericano de Educação – Facipan (2024 ). Palavras-chave: Princípio da Insignificância. Furto Famélico. Princípio da Bagatela . ABSTRACT: The Principle of Insignificance, also known as the principle of trifle, has its origins in Roman law and is based on the maxim "minimis non curat praetor", which means "the praetor does not deal with minutiae", that is, judges and courts should not deal with irrelevant matters, that is, with topics or issues that have no importance or significance, in a criminal context. In this context, an aspect is observed that makes theft from hunger in a country with economic and social inequalities, from the perspective that the increase in this type of theft becomes frequent due to food insecurity with the increase in poverty and reduction in the income of Brazilians, linked to the growth of social inequalities. As a result, the occurrence of theft from hunger has been increasing, although the Federal Constitution and criminal legislation already provide for the individualization of conduct and penalties, prosecutors and judges rarely take this into consideration. In other words, there is a mismatch between a judiciary that does not apply the Principle of Insignificance and the reality experienced by those who steal in a state of need to satisfy their hunger or that of their family. This statement is corroborated by the view of judicial agents who sometimes do not apply the Principle of Insignificance in these situations, which is often ignored, so much so that there is an increase in cases that go to the STF or STJ, since the previous judicial instances did not recognize this principle. Thus, the Principle of Insignificance is there to prevent the state machinery of repression of crimes from being used to punish small, insignificant behaviors, which do not really constitute a crime in themselves. By adopting this principle, there is an exclusion of material typicality, that is, there is an exclusion of the criminal nature of the individual's conduct, when this behavior is irrelevant, that is, it does not harm the legal right protected by the rule. This article presents an analysis of the applicability of the Principle of Insignificance, with regard to theft for the sake of hunger. How this principle is being applied in relation to crimes of theft for the sake of hunger. And what is the possibility of standardizing decisions to prevent courts from denying the Principle of Insignificance. Keywords: Principle of Insignificance. Hungry Theft. Principle of Bagatelle 1- INTRODUÇÃO A adoção do Princípio da Insignificância no crime de furto famélio vem de encontro com o aumento da pobreza, da fome e da desigualdade social que assombra nosso país. Com isso espera-se dos agentes que integram o poder judiciário e do próprio poder em si, um olhar mais cauteloso na aplicabilidade do referido princípio. Este artigo pretende proporcionar informações fornecidas por especialistas sobre o tema, tanto na doutrina quanto na legislação, para que sirva não apenas como meio de estudo e aprofundamento, mas também como sinal de alerta ao sistema legal. O Princípio da Insignificância é um mecanismo importante para o direito penal, sob forma subisiária na política criminal, para a descaracterização de um tipo penal, de efeito insignificante, onde os que praticam o furto famélico não merecem serem punidos, evitando assim um efeito desproporcional à lesão causada. O objetivo deste artigo é examinar a aplicabilidade do Princípio da Insignificância ao indivíduo que comete o Furto Famélico. No entanto, antes de aprofundarmos no foco central deste trabalho, é essencial definir o crime penalmente reconhecido como FURTO. Abordado no atual Código Penal Brasileiro, o artigo 155 descreve a conduta típica do agente que comete tal delito. [...] Art. 155 - Subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel: Pena - reclusão, de um a quatro anos, e multa [...] Nota-se que o artigo mencionado acima, descreve uma conduta de subtrair coisa alheia móvel para si ou para alguém, e que o tipo penal não descreve a utilização de violência ou grave ameaça ao sujeito ativo, pois, para isto, o legislador adotou o artigo 157 da mesma lei para cuidar desta determinada situação, pois o agente ao se utilizar da violência ou da grave ameaça, estará enquadrado ao crime de roubo. 2 Famélicos: A fome que o Judiciário não vê - Agência Pública (apublica.org). Acesso em 21.ago.2024 . . 2- DO FURTO FAMÉLICO: O furto famélico refere-se à situação em que um indivíduo comete o ato de furtar alimentos, medicamentos ou outros itens essenciais que possam assegurar, ainda que temporariamente, a sua sobrevivência ou a de outra pessoa. Este tipo de furto é reconhecido como um Estado de Necessidade uma vez que a ação é motivada por uma situação de necessidade extrema e urgente. Outrossim, o furto famélico foi criado pelos doutrinadores e tornou-se ainda mais conhecido, embora não esteja de forma expressa no Código Penal, merece relevância no âmbito criminal, vez que faz parte do tipo penal conhecido como furto. Segundo o Supremo Tribunal Federal – STF são requisitos para aplicação do Princípio da Insignificância, onde requer a presença cumulativa das seguintescondições objetivas: a) mínima ofensividade da conduta do agente; Refere-se à capacidade de dano que a ação realizada pode causar ao bem jurídico que a lei busca proteger. Esse potencial de nocividade pode estar relacionado tanto à presença de circunstâncias ou elementos que agravam ou qualificam o comportamento e a essência do bem jurídico. b) nenhuma periculosidade social da ação; É uma expressão capaz de verificar se o agente está ou não diante de condutas que possam resultar em um perigo social c) reduzido grau de reprovabilidade do comportamento do agente; O comportamento do agente deve ser considerado inexpressível diante da mínima caracterização da aceitação de sua conduta de modo que seus atos sejam suscetíveis de compreensão e de não reprovabilidade. d) inexpressividade da lesão jurídica provocada. Ocorre quando uma conduta praticada, causa uma lesão inexpressiva e pouco reprovável A Defensoria Pública do Estado de São Paulo ingressou com um Habeas Corpus visando a obtenção de uma liminar, argumentando a desproporcionalidade da pena imposta. O caso em questão envolve uma mãe que, devido à sua precária situação financeira, não tinha meios para adquirir um pacote de fraldas para seu filho. Diante dessa necessidade, ela optou por cometer um furto, caracterizado como furto famélico, uma vez que sua ação tinha como objetivo garantir o mínimo necessário para o bem-estar de sua criança. O pedido de Habeas Corpus foi extinto pelo Ministro Luiz Fux, que julgou inadequada a utilização desse recurso no caso em questão. Contudo, agindo de acordo com o bom senso e a justiça, o Ministro concedeu, por iniciativa própria, a ordem para interromper o processo contra a mãe, decisão que foi aprovada por todos os membros do tribunal. Abaixo, segue um trecho do voto proferido no Habeas Corpus nº 119672: EMENTA. PENAL E PROCESSUAL PENAL. HABEAS CORPUS IMPETRADO CONTRA ATO DE MINISTRO DE TRIBUNAL SUPERIOR. INCOMPETÊNCIA DESTA CORTE. TENTATIVA DE FURTO. ART. 155, CAPUT, C/C ART. 14, II, DO CP). REINCIDÊNCIA. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. APLICABILIDADE. FURTO FAMÉLICO. ESTADO DE NECESSIDADE X INEXIGIBILIDADE DE CONDUTA DIVERSA. SITUAÇÃO DE NECESSIDADE PRESUMIDA. ATIPICIDADE DA CONDUTA. HABEAS CORPUS EXTINTO POR INADEQUAÇÃO DA VIA ELEITA. ORDEM CONCEDIDA DE OFÍCIO. 1. O princípio da insignificância incide quando presentes, cumulativamente, as seguintes condições objetivas: (a) mínima ofensividade da conduta do agente, (b) nenhuma periculosidade social da ação, (c) grau reduzido de reprovabilidade do comportamento, e (d) inexpressividade da lesão jurídica provocada. 2. A aplicação do princípio da insignificância deve, contudo, ser precedida de criteriosa análise de cada caso, a fim de se evitar que sua adoção indiscriminada constitua verdadeiro incentivo à prática de pequenos delitos patrimoniais. 3. O valor da res furtiva não pode ser o único parâmetro a ser avaliado, devendo ser analisadas as circunstâncias do fato para decidir-se sobre seu efetivo enquadramento na hipótese de crime de bagatela, bem assim o reflexo da conduta no âmbito da sociedade. (nosso grifo) (...). 6. Os fatos, no Direito Penal, devem ser analisados sob o ângulo da efetividade e da proporcionalidade da Justiça Criminal. Na visão do saudoso Professor Heleno Cláudio Fragoso, alguns fatos devem escapar da esfera do Direito Penal e serem analisados no campo da assistência social, em suas palavras, preconizava que “não queria um direito penal melhor, mas que queria algo melhor do que o Direito Penal (STF - HC: 119672 SP, Relator: Min. LUIZ FUX, Data de Julgamento: 06/05/2014, Primeira Turma, Data de Publicação: DJe-106 DIVULG 02-06-2014 PUBLIC 03-06-2014) 3- ALGUNS JULGADOS DAS CORTES SUPERIORES: Existem julgados que não acolhem o furto famélico no princípio da insignificância, como vemos no julgado: 0005307-44.2016.8.07.0020 - Res. 65 CNJ APELAÇÃO CRIMINAL. FURTO SIMPLES. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. INAPLICABILIDADE. VALOR ACIMA DO CRITÉRIO. MULTIRREINCIDÊNCIA. ESTADO DE NECESSIDADE. FURTO FAMÉLICO. DESCABIMENTO. CRIME IMPOSSÍVEL. SÚMULA 567 DO STJ. NÃO OCORRÊNCIA. DESCLASSIFICAÇÃO. FORMA TENTADA. NÃO CABIMENTO. SÚMULA 582 DO STJ. DOSIMETRIA. CONDUTA SOCIAL. CULPABILIDADE. PERSONALIDADE. ANTECEDENTES. MULTIRREINCIDÊNCIA. CONFISSÃO ESPONTÂNEA. READEQUAÇÃO DA PENA. REGIME INICIAL FECAHDO. ACUSADO REINCIDENTE E COM CIRCUNSTÂNCIAS NEGATIVAS. SÚMULA 269 DO STJ. A Primeira Turma Criminal entendeu que a ré, ao furtar aproximadamente 2 peças de queijo tipo muçarela, com pouco mais de 4 kg, avaliadas em R$ 218,62, de um supermercado, afastou a tese de furto famélico. Os desembargadores entenderam que para aplicar tal tese, a coisa subtraída teria que saciar a fome de forma imediata, e que a subtração deveria ser o único e ultimo recurso do agente para conseguir comida, com isso também afastou o Princípio da Insignificância. Com isso, a ré foi condenada à uma pena de 4 anos no regime inicial fechado, pois era reincidente. Dessa maneira, é inevitável observar a desumanidade das autoridades, quando colocam numa prisão em regime fechado, alguém que pratica um crime de furto, sem violência ou grave ameaça, de valor inexpressivo de um grande estabelecimento comercial. Em outro contexto, percebemos que o furto no valor de R$ 4,002, foi parar na esfera superior dos tribunais, conforme a seguir: RECURSO EM HABEAS CORPUS. FURTO. TRANCAMENTO DO PROCESSO. INSIGNIFICÂNCIA. VALOR ÍNFIMO. CONCEITO INTEGRAL DE CRIME. PUNIBILIDADE CONCRETA. CONTEÚDO MATERIAL. BEM JURÍDICO TUTELADO. GRAU DE OFENSA. VALOR ÍNFIMO DA SUBTRAÇÃO. RECURSO EM HABEAS CORPUS PROVIDO. (RECURSO EM HABEAS CORPUS Nº 126.272 - MG (2020/0099738-5). Ao verificar o contexto, de como essa denúncia descabida, foi inicialmente recebida, podemos perceber que o acusado furtou R$ 4,00 em steak de frango, pois tinha fome, o delegado relatou na época, o estado de miserabilidade juntamente com o baixo valor do produto e afirmou que o furto ocorreu para consumo próprio (furto famélico),de um estabelecimento comercial de grande porte, mesmo assim o Ministério Público de Minas Gerais, recebeu a denúncia e argumentou de forma genérica, isto quer dizer, não atentou pelas particularidades do caso. Assim, chegou ao Superior Tribunal de Justiça. "Resta a percepção de que o Ministério Público de Minas Gerais e o seu Judiciário se houveram com excessivo rigor e se afastaram da jurisprudência remansosa dos tribunais superiores para levar adiante um processo criminal de tão notória inexpressividade jurídico-penal", afirmou o relator do recurso em habeas corpus, ministro Rogerio Schietti Cruz. Podemos observar que o Ministro Rogério Schietti Cruz, critica a atuação do Ministério Público e do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais, em relação ao caso em tela. Foram extremamente rigorosos, embasados na lei em sentido concreto, num caso que não tinha relevância para tal. E em consonância ignoraram também as decisões pacificadas e jurisprudencias que seriam mais lenitivo e menos severo. Observou também que o caso não deveria ter esse excessivo rigor. Em outro momento ponderou sobre a sobrecarga do sitema Judiciário, elucidando a quantidade de ações que chegam nas esferas supeiores, ações essas que poderiam ser sanadas, e que esse valor de R$ 4,00 é um valor ínfimo em relação as custas da tramitação processual. _________________ 2 https://www.stj.jus.br/sites/portalp/SiteAssets/documentos/noticias/07062021%20RHC126272.pdf Acesso em 21.ago.2024 3. ESTADO DE NECESSIDADE: 3.1 Furto Famélico e seus extremos Se por um lado, temos o furto famélico que as jurisprudências o definem como uma excludente de ilicitude, pois segundo o Supremo Tribunal Federal (STF) já é pacifico seu posicionamento sobre o crime de furto famélico. Para ele, o furto famélico uma excludente de ilicitude, desde que preenchidos os requisitos do estado de necessidade. Para que haja o estado de necessidade a pessoa em extrema necessidade e penúria comete um furto para saciar sua fomede forma urgente e relevante sua e ou de outra pessoa. E devem ser considerados os seguintes requisitos: a) Atue em uma situação de perigo atual ou iminente; b) Aja para evitar um mal maior que o mal causado; c) Não tenha outro meio de evitar o mal maior; d) Atua sem culpa. Por outro lado, verificando os principais julgados dos furtos famélicos nobres. Segundo o STF, o furto sofisticado de alimentos nobres, afasta o furto famélico e também o Princípio da Insignificância. Vejamos: HABEAS CORPUS. PENAL. FURTO QUALIFICADO, NA FORMA TENTADA. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. RES FURTIVAE DE VALOR TOTAL QUE SUPERA 10% DO SALÁRIO MÍNIMO. HIPÓTESE EM QUE NÃO SE MOSTRA SOCIALMENTE RECOMENDÁVEL RECONHECER A ATIPICIDADE MATERIAL DA CONDUTA. REGIME PRISIONAL INICIAL SEMIABERTO, MAIS GRAVOSO QUE O PARADIGMA FUNDADO NO QUANTUM DE PENA ABSTRATA. FUNDAMENTAÇÃO IDÔNEA. MULTIRREINCIDÊNCIA. CONDENAÇÃO ANTERIOR POR CRIME COMETIDO COM VIOLÊNCIA OU GRAVE AMEAÇA. SÚMULA N. 269 DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. MÉRITO DO PARECER DA PROCURADORIA-GERAL DA REPÚBLICA ACOLHIDO. ORDEM DE HABEAS CORPUS DENEGADA. 1. Espécie em que o Paciente foi condenado pelo crime de furto qualificado, na forma tentada, pela subtração, em 2021, de produtos expostos à venda em um supermercado localizado em Campinas - SP, por R$ 295,10 (duzentos e noventa e cinco reais e dez centavos). 2. O valor venal das res furtivae supera 10% (dez por cento) do salário mínimo fixado à época - circunstância que, em regra, obsta a aplicação do princípio da insignificância. 3. O fato de o produto do furto ter sido devolvido à Vítima não afasta, de per si, a tipicidade material da conduta delitiva. 4. Réu que apresenta condições subjetivas desfavoráveis, pelas condenações anteriores pela prática do crime de roubo e de outros três furtos. Ocorre que o princípio da bagatela é inaplicável em casos nos quais está evidenciada "a habitualidade delitiva, o que não pode ser tolerado pelo Direito Penal" (STJ, AgRg no AREsp 1.075.739/MG, Rel. Ministro JORGE MUSSI, QUINTA TURMA, DJe 29/11/2017). 5. Os elementos probatórios da causa principal parecem indicar que houve certa sofisticação no planejamento na conduta, pois o Paciente encheu sua mochila de alimentos e, no caixa, tentou pagar apenas os produtos que colocou na cesta do supermercado. O pagamento foi recusado e o Condenado, então, dirigiu-se ao estacionamento, para que pudesse sair do local sem pagar pelas mercadorias que escondeu na mochila. Ademais, foram apreendidos alimentos nobres (como camarão descascado e cozido), condimento e sobremesa. Essa conjuntura impede concluir, nesta via de cognição limitada, que o furto ocorreu tão somente para que o Paciente pudesse garantir sua subsistência, e que a atipicidade material da conduta na hipótese mostrar-se-ia socialmente recomendável. 6. Hipótese na qual foi reconhecida a multirreincidência do Paciente e houve, inclusive, condenação por crime cometido com violência ou grave ameaça. Assim, não obstante a imposição da reprimenda final em patamar inferior a 4 (quatro) anos de reclusão, não é ilegal a sujeição do Condenado ao regime intermediário, ainda que a pena-base tenha sido fixada no mínimo legal, nos termos da orientação jurisprudencial sedimentada na Súmula n. 269 desta Corte, segundo a qual "é admissível a adoção do regime prisional semi-aberto aos reincidentes condenados a pena igual ou inferior a quatro anos se favoráveis as circunstâncias judiciais". 7. Mérito da manifestação do Ministério Público Federal acolhido. Ordem de habeas corpus denegada. (HC n. 747.651/SP, relatora Ministra Laurita Vaz, Sexta Turma, julgado em 2/8/2022, DJe de 12/8/2022.) Em relação a esse julgado, podemos refletir o valor do impacto social, moral e psicológico do réu, esse valor ínfimo pode gerar grandes conseqüências na sua vida, questionando se o valor dos produtos furtados condiz com sua prisão, isto é, se a prisão é uma resposta proporcional ao ato cometido, no caso furto de mercadorias (camarão descascado, condimento e sobremesa), totalizando R$ 295,10, valor esse superior há 10% do salário mínimo, por isso não incorreu o Princípio da Insignificância e nem enquadrou no furto famélico – uma vez que, o paciente é reincidente. Em contrapartida, temos o princípio da insignificância nos crimes contra ordem tributária e descaminho: EMENTA RECURSO ESPECIAL AFETADO AO RITO DOS REPETITIVOS PARA FINS DE REVISÃO DO TEMA N. 157. APLICAÇÃO DO PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA AOS CRIMES TRIBUTÁRIOS FEDERAIS E DE DESCAMINHO, CUJO DÉBITO NÃO EXCEDA R$ 10.000,00 (DEZ MIL REAIS). ART.20 DA LEI N.10.522 /2002. ENTENDIMENTO QUE DESTOA DA ORIENTAÇÃO CONSOLIDADA NO STF, QUE TEM RECONHECIDO A ATIPICIDADE MATERIAL COM BASE NO PARÂMETRO FIXADO NAS PORTARIAS N. 75 E 130/MF – R$ 20.000,00 (VINTE MIL REAIS). ADEQUAÇÃO. 1. Considerando os princípios da segurança jurídica, da proteção da confiança e da isonomia, deve ser revisto o entendimento firmado, pelo julgamento, sob o rito dos repetitivos, doResp n. 1112.748/TO – Tema 157, de forma a adequá-lo ao entendimento externado pela Suprema Corte, o qual tem considerado o parâmetro fixado nas Portarias n. 75 e 130/MF – R$ 20.000,00 (vinte mil reais) para aplicação do princípio da insignificância aos crimes tributários federais e de descaminho. 2. Assim, a tese fixada passa a ser a seguinte: incide o princípio da insignificância aos crimes tributários federais e de descaminho quando o débito tributário verificado não ultrapassar o limite de R$ 20.000,00 (vinte mil reais), a teor do disposto no art.20 da Lei n.10522/2002, com as atualizações efetivadas pelas Portarias n. 75 e 130, ambas do Ministério da Fazenda. 3. Recurso especial improvido. Tema 157 modificado nos termos da tese ora fixada. RECURSO ESPECIAL 1.688.878. – SP (2017/0201621-1) relator: MINISTRO SEBASTIÃO REIS JÚNIOR. Incide o princípio da insignificância aos crimes tributários federais e de descaminho quando o débito tributário verificado não ultrapassar o limite de R$ 20.000,00 (vinte mil reais), a teor do disposto no art. 20 da Lei n. 10522/2002, com as atualizações efetivadas pelas Portarias n. 75 e 130, ambas do Ministério da Fazenda. 37 INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR A Terceira Seção do Superior Tribunal de Justiça, por ocasião do julgamento do Recurso Especial Representativo da Controvérsia n. 1.112.748/TO, submetido ao rito dos recursos especiais repetitivos – regulado pelo art. 543- C do Código de Processo Civil de 1973 -, firmou o entendimento de que incide o princípio da insignificância aos crimes federais contra a ordem tributária e de descaminho, quando o débito tributário não ultrapassar o valor de R$ 10.000,00 (dez mil reais), a teor do disposto no art. 20 da Lei n. 10522/2002 (Rel. Min. Felix Fischer, DJe 13/10/2009, Tema – 157). O julgado, na ocasião, representou um alinhamento da jurisprudência desta Corte com a do Supremo Tribunal Federal, pois, até então, ao contrário do Pretório Excelso, a orientação que predominava nesta Corte era no sentido da impossibilidade da aplicação do princípio da insignificância aos crimes tributários com base no parâmetro fixado no art. 20 da Lei n. 10.522/2002. Com o advento das Portarias n. 75 e 130/MF, ocorreu um novo distanciamento entre a jurisprudência desta Corte e do Supremo Tribunal Federal, pois, enquanto o Pretório Excelso aderiu ao novo parâmetro fixado por ato normativo infralegal, qual seja, de R$ 20.000,00 (vinte mil reais), esta Corte não o fez. Dessarte, considerando os princípios da segurança jurídica, da proteção da confiança e da isonomia, nos termos dos arts. 927, § 4º, do Código de Processo Civil, e 256-S do Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça, revisa-se a tese fixada no REsp Representativo da Controvérsia n. 1.112.748/TO – Tema 157 (Rel. Min. Felix Fischer, DJe 13/10/2009), a fim de adequá-la ao entendimento externado pela Suprema Corte. (Informativo n. 622.) Nesse sentido, as Cortes Superiores estão alinhadas no sentido da aplicação do Princípio da insignificância aos crimes tributários federais e de descaminho,cujo montante não ultrapasse o valor de R$20.000,00. E assim, fica rechaçada a tese da insubordinação dos valores tributários atualizados pelas Portarias nº 75 e nº 130/2012 do Ministério da Fazenda. Em contraste com rigidez que tratam os furtos não enquadrados no principio da insignificância, valores esses que extrapolam os 10% do salário mínimo, temos uma realidade, no exemplo do julgado acima, em crimes tributários – sonegação fiscal, a tese fixada passa a ser a seguinte: incide o princípio da insignificância aos crimes tributários federais e de descaminho quando o débito tributário verificado não ultrapassar o limite de R$ 20.000,00 (vinte mil reais). Enquanto o furto de pequeno valor pode ter um impacto direto e imediato sobre a vítima e consequentemente sobre réu, a sonegação fiscal tem um impacto mais indireto e difuso sobre a sociedade, pois reduz a arrecadação de recursos que poderiam ser destinados a serviços públicos e políticas sociais. Sem contar que a questão de sonegação de imposto infere a individuos e ou empresa com maior poder econômico, que nos faz pensar na seletividade da justiça e seus impactos penais, sobre indivíduos de diferentes classes sociais. A discrepância na aplicação da lei entre furtos de pequeno valor e sonegação fiscal pode levar à percepção de que o sistema jurídico favorece os ricos e pune os pobres, comprometendo a confiança na justiça. Este paralelo sociológico destaca a complexidade da aplicação do princípio da insignificância e as implicações sociais da forma como a lei é interpretada e aplicada em diferentes contextos e para diferentes grupos sociais. 4- CONCLUSÃO: O principal objetivo deste artigo foi investigar a natureza jurídica do furto famélico e determinar a maneira mais adequada de aplicá-lo, com o intuito de verificar a aplicabilidade do princípio da insignificância nos casos de furto famélico, além de explorar outras possibilidades que a Doutrina e a Jurisprudência indicam como excludentes de ilicitude, como o estado de necessidade, e excludentes de culpabilidade, como a inexigibilidade de conduta diversa. O Princípio da Insignificância é um mecanismo importante no Direito Penal que busca evitar a movimentação desnecessária da máquina estatal para punir condutas que não representam uma ruptura relevante ao bem jurídico protegido pela norma. No caso do furto famélico, que é caracterizado pelo furto de alimentos ou itens de primeira necessidade por indivíduos em estado de extrema necessidade e fome, o artigo discute a necessidade de um olhar mais cauteloso por parte dos agentes do judiciário na aplicação deste princípio. Apesar da Constituição Federal e a legislação penal preverem a individualização das condutas e penas, muitas vezes promotores e juízes não consideram adequadamente as circunstâncias do furto famélico, resultando num descompasso entre a realidade vivida por aqueles que furtam por necessidade e a aplicação da justiça. O texto destaca julgados das Cortes Superiores que ora reconhecem o furto famélico como uma excludente de ilicitude, ora não aplicam o Princípio da Insignificância, dependendo do valor e das circunstâncias do furto. O Supremo Tribunal Federal já tem entendimento pacificado de que o furto famélico é uma excludente de ilicitude, desde que preenchidos os requisitos do estado de necessidade, enquanto o Superior Tribunal de Justiça (STJ) tem critérios mais rigorosos, como o valor da res furtiva não ultrapassar 10% do salário mínimo. O artigo conclui que é necessário uniformizar decisões para evitar a negação do Princípio da Insignificância em casos de furto famélico, considerando a realidade socioeconômica do país e a desigualdade que muitas vezes leva indivíduos à prática desse tipo de furto. A aplicação do princípio da insignificância deve ser vista como uma forma de justiça social, garantindo que a resposta penal seja proporcional à ofensa ao bem jurídico e considerando as condições subjetivas do agente. Referências e julgados específicos mencionados no artigo reforçam a necessidade de uma reflexão sobre o impacto social, moral e psicológico que a aplicação ou não do Princípio da Insignificância pode ter na vida dos réus, especialmente quando comparado a outros tipos de crimes, como os tributários, onde o patamar de insignificância é significativamente maior. Assim, com base na pesquisa realizada, conclui-se que o furto famélico é uma realidade frequente no Brasil, resultado direto da pobreza e da fome que assolam muitos cidadãos, problemas esses que derivam da significativa desigualdade social vigente no país. Essas pessoas, impelidas pela necessidade, recorrem ao furto em lojas ou outros locais para obter alimentos ou itens de higiene, já que não têm outra forma de acesso a esses bens essenciais sem cometer um crime. A investigação também revelou como o princípio da insignificância é aplicado de maneira variável nos casos de furto famélico, nos permitindo entender e distinguir os argumentos frequentemente usados pelos juízes nas decisões analisadas ao longo do estudo. Foi verificado que a aplicação do Princípio da Insignificância no furto famélico é uma questão complexa que envolve não apenas a análise do valor do objeto furtado, mas também a consideração das condições socioeconômicas do agente e a necessidade de uma justiça mais equilibrada, igualitária e humana. 6- REFERÊNCIAS BRASIL. Decreto-Lei no 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Código Penal. Diário Oficial da União, Rio de Janeiro, 31 dez. 1940. Disponível em: . Acesso em: 05/09/2024. BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 1988. Disponível em: . Acesso em: 10/10/2024 AGÊNCIA PÚBLICA. Famélicos: A fome que o Judiciário não vê. Agência Pública, [S.l.], 2023. 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