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Volume 2 Mudanças Climáticas, Cidades e Urbanização Volume 2 Mudanças Climáticas, Cidades e Urbanização Contexto histórico e político das mudanças Contexto histórico e político das mudanças climáticas no Brasil – análise e caminhos climáticas no Brasil – análise e caminhos para o para o AGORA Volume 2 Mudanças Climáticas, Cidades e Urbanização Contexto histórico e político das mudanças climáticas no Brasil – análise e caminhos para o AGORA 2023 Sumário 5 Apresentação 9 A Rede Clima 13 A sub-rede Cidades e Urbanização Introdução As atividades da sub-rede 19 Destaques científicos Pesquisas realizadas e suporte à construção de políticas de adaptação 22 Principais resultados, contribuições e impactos com base nos objetivos gerais da Rede Clima Grandes aglomerados urbanos: o caso de Belo Horizonte Cidades médias: o caso de Governador Valadares Relações entre pequenas cidades e o Semiárido: o caso do Seridó Potiguar Assentamentos urbanos e sustentabilidade nas regiões metropolitanas brasileiras: desafios para a construção de políticas públicas 65 Caminhos para o AGORA Passado, presente e futuro da sub-rede Cidades e Urbanização: contribuições à agenda científica e às políticas de adaptação Contribuição sobre políticas públicas 73 Publicações vinculadas à sub-rede Cidades e Urbanização Artigos completos publicados em periódicos Livros e capítulos de livros 79 Referências Sub-redes temáticas AGRICULTURA Coordenadores: Renato de Aragão Ribeiro Rodrigues (UFF) e Stoécio Malta Ferreira Maia (IFAL) BIODIVERSIDADE E ECOSSISTEMAS Coordenadores: Lauro Barata (UFOPA) e Mariana Moncassim Vale (UFRJ) CIDADES E URBANIZAÇÃO Coordenadores: Alisson Barbieri (UFMG) e Gilvan Guedes (UFMG) DESASTRES NATURAIS Coordenadoras: Regina Alvalá (Cemaden) e Regina Rodrigues (UFSC) DESENVOLVIMENTO REGIONAL Coordenadores: Marcel Bursztyn (UnB) e Saulo Rodrigues Filho (UnB/Embratur) ECONOMIA Coordenadores: Edson Paulo Domingues (UFMG) e Eduardo Haddad (USP) ENERGIAS RENOVÁVEIS Coordenador: Marcos Aurélio Vasconcelos de Freitas (UFRJ) MODELAGEM CLIMÁTICA Coordenadores: Lincoln Muniz Alves (INPE) e Silvio Nilo Figueroa Rivero (INPE) OCEANOS Coordenadores: Leticia Cotrim da Cunha (UERJ) e Moacyr Cunha de Araújo Filho (UFPE) POLÍTICAS PÚBLICAS Coordenadores: Gustavo Luedemann (Ipea) e Karen Silverwood (Governo Federal) RECURSOS HÍDRICOS Coordenador: Francisco de Assis Souza Filho (UFC) SAÚDE Coordenadores: Christovam Barcellos (Fiocruz) e Sandra Hacon (Fiocruz) SERVIÇOS AMBIENTAIS DOS ECOSSISTEMAS Coordenador: Philip Martin Fearnside (INPA) USOS DA TERRA Coordenadores: Jean Ometto (INPE) e Mercedes Bustamante (UnB) ZONAS COSTEIRAS Coordenadores: Alexander Turra (USP) Margareth Copertino (FURG) Projetos Integrativos SEGURANÇA HÍDRICA, ALIMENTAR E ENERGÉTICA Coordenadores: Eduardo Delgado Assad, Enio Bueno Pereira, Francisco de Assis Souza Filho e Stoécio Malta Maia SEGURANÇA SOCIOAMBIENTAL Coordenadores: Marcel Bursztyn e Saulo Rodrigues Filho O conteúdo desta publicação foi editado e organizado a partir dos textos, informações e imagens submetidos pelos pesquisadores Alisson Flávio Barbieri, Gilvan Ramalho Guedes, Isac Correia, Richard Eustáquio Moreira, Flavia Witkowski Frangetto e Gustavo Luedemann. PROJETO EDITORIAL, ORGANIZAÇÃO, ELABORAÇÃO, EDIÇÃO, PREPARAÇÃO DE TEXTOS E REVISÃO ORTOGRÁFICA E GRAMATICAL Ana Paula Soares e Erica Menero REVISÃO TÉCNICA Alisson Flávio Barbieri, Gilvan Ramalho Guedes, Flavia Witkowski Frangetto e Gustavo Luedemann DESIGN GRÁFICO E CAPA Magno Studio DIAGRAMAÇÃO Gabriel Sá APOIO INICIAL Tainá de Luccas FOTO DA CAPA iStockphoto Sedes Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais Estrada Doutor Altino Bondesan, 500 - Eugênio de Melo 12247-016 - São José dos Campos - SP - Brasil Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais Avenida dos Astronautas, 1758 - Jardim da Granja, 12227-010 - São José dos Campos – SP - Brasil R249m CDU:502/504(81) CDD:577(81) Rede Clima. Mudanças climáticas, cidades e urbanização – volume 2 / Rede Clima. – São José dos Campos, SP: CEMADEN, 2023. 91p. : il. ; PDF. (15 anos da Rede Clima: contexto histórico e político das mudanças climáticas no Brasil – análises e caminhos para o agora , v.2). ISBN: 978-65-84510-13-5 1.Mudanças Climáticas – Brasil. 2.Meio Ambiente e Planejamento Urbano - Brasil. I. Título. Sugestão de citação: BARBIERI, A. F.; GUEDES, G. R.; CORREIA, I.; MOREIRA, R. E.; WITKOWSKI, F.; LUEDEMANN, G. 15 anos da Rede Clima: contexto histórico e político das mudanças climáticas no Brasil – análises e caminhos para o agora. V.2. Mudanças Climáticas, Cidades e Urbanização. São José dos Campos, SP, Brasil: Cemaden, 2023. MUDANÇAS CLIMÁTICAS, CIDADES E URBANIZAÇÃO Rede Brasileira de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas Globais - redeclima.cemaden.gov.br VICE-COORDENADOR Jean Pierre Henry Balbaud Ometto (INPE) COORDENADOR Moacyr C. Araújo Filho (UFPE) Contexto histórico e político das mudanças climáticas no Brasil – análise e caminhos para o AGORA Ficha Catalográfica. Elaborada por Cíntia Cássia Soares – CRB 8848 / 8R Am az ôn ia /iS to ck ph ot o Apresentação 7 com os desafios associados às mudanças climáticas. Adota para tanto contextos de urbanização em três escalas espaciais – a grande metrópole, as cidades de porte médio e as pequenas cidades associadas aos seus entornos - para as quais são apresentados interessantes estudos de caso, respaldados por consistentes pesquisas empíricas e documentais. Tal perspectiva vem moldando as opções conceituais e metodológicas adotadas pela sub-rede Cidades e Urbanização ao longo dos últimos quinze anos, definindo também sua interação com as demais sub-redes da Rede Clima. Trata-se não só de um desafio face às mudanças climáticas, mas também um desafio conceitual e epistemológico, ao associar o modus operandi e os pressu- postos das ciências sociais, das geociências e das ciências ambientais de forma ampla. Um exer- cício de transdisciplinaridade motivado pelo objeto - a urbanização - e seu contexto, que nesta publicação se materializa, entre outras dimensões, pela formulação de estratégias de redução da vulnerabilidade - social e ambiental -, bem como por diretrizes amplas para o enfrentamento da questão em toda sua complexidade. Imprescindível apontar a relevância da discussão aqui proposta, ao associar novas questões de âmbito global ao conhecido e muito pouco enfrentado passivo socioambiental da urbanização brasileira. Trata-se de um convite urgente à ampliação, ao aprofundamento e à necessária radi- calização do debate que, a meu ver, devemos todos aceitar. Boa leitura! Heloisa Costa IGC/UFMG Pensar cidades, urbanização e natureza como elementos visceralmente associados cons- titui-se não só em um salto de qualidade na compreensão e ação sobre os processos de produção e apropriação do espaço, como configura-se como a utopia possível de futuro para a sociedade e seus territórios. Não é mais possível conceber a urbanização desvinculada dos metabolismos da natureza im- plícitos nos movimentos das águas, do clima, das terras com seus relevos, vegetações, geologia, topografia, serras, paisagens naturais e culturais. Igualmente não é tolerável pensar na extrema desigualdade e vulnerabilidade socioambiental que marcam nossa urbanização, que negam di- reitos, consolidam preconceitos e estigmas de toda ordem, associados ao acesso desigual à terra e à moradia, à urbanidade constitutiva da cidade, às políticas públicas, à alimentação adequada, ao saneamento e à saúde, à educação e à cultura, às oportunidades de forma geral. Esse duplo processo de despossessão, social e natural, que marca a sociedade e o território bra- sileiros de forma contundente, se agrava e se manifesta de forma bastante diferenciada face aos cada vez mais frequentes eventos extremos e mudanças ambientais, entre elas as climáticas, motivando perdas irreparáveis, bem como respaldando propostasde seguro contra eventos extremos relacionados ao clima, pois a evidência de incerteza trazida pelas mudanças climáticas aumenta rapidamente. Padrões de erros de percepção sobre mudanças climáticas locais e mecanismos de tributação ótima para eli- minação de assimetria de informação As mudanças climáticas alteraram a capacidade dos agentes de antecipar a ocorrência futura de eventos com alto grau de precisão (PARKER, 2010; DASGUPTA, 2008; REGAN et al., 2005). Essa ante- cipação subjetiva pode ser imprecisa, levando a escolhas Pareto inferiores quando comparadas a uma situação em que os agentes têm expectativas racionais (SAVAGE, 1951; YOHE et al., 2004; PRATO, 2008). Nesse caso, o equilíbrio de mercado e a demanda por seguros são mais bem compreendidos por meio de modelos que incorporam explicitamente a heterogeneidade dos agentes no grau de pre- cisão das previsões. A maioria dos modelos usados em economia de seguros com agentes heterogêneos tentaram expli- car a alocação de mercado de seguros usando informações diferenciais. Os resultados desses mo- delos se concentram em questões relacionadas à seleção adversa e ao risco moral (MIRLEES, 1971; ATKISON E STIGLITZ, 1972; LAFFONT E TIROLE, 1987). Esses tipos de heterogeneidade, como os usados nos modelos de Crocker e Snow (1985) e Picard (1987), consideram diferenças na estrutura de informação do consumidor, mas não diretamente em suas probabilidades subjetivas. Nesse caso, as falhas de mercado surgem devido a uma escassez de oferta causada por lucro negativo ou escassez de demanda como consequência de preços excessivamente altos. Em mercados nos quais o seguro contratual não está disponível, o risco moral e a seleção adversa são de pouca relevância para a alocação de mercado. Muitos estudos que analisam o trade-off entre a de- manda por seguro, autosseguro e autoproteção reforçam esse argumento, seja olhando para o preço de reserva dos agentes ou tomando o preço do seguro como efetivamente justo (EHRLICH E BECKER, 1972; DIONNE E EECKHOUDT, 1985; LAKDAWALLA E ZANJANI, 2005; SNOW, 2011; ALARY et al., 2013). A maioria dos modelos anteriores analisa o efeito da assimetria de informações sobre a demanda por seguros usando um agente representativo. Ao assumir homogeneidade nas preferências dos agentes, 36 37 eles ignoram a influência desse efeito sobre os preços de equilíbrio, que seria o problema econômico mais interessante a ser estudado. A escassez de estudos sobre modelos de seguros com preços endó- genos é explicada principalmente pela dificuldade de obtenção das soluções de preços. Outra questão importante a ser considerada nos modelos de seguros é o papel desempenhado por um planejador central para atenuar o efeito da assimetria de informação na alocação de mercado (CAILLAUD et al., 1988). Arnott e Stiglitz (1990), por exemplo, mostram que políticas de tributação e subsídios que oferecem incentivos para evitar e reduzir perdas não são eficazes em mercados nos quais o risco moral decorre da assimetria de informação. Quando a intervenção pública é usada para resolver o problema da segurabilidade usando o aumento da tributação (MANGAN, 1995), o risco pode aumentar no longo prazo. Pressão adicional sobre o governo para aumentar a cobertura, man- tendo os prêmios de risco inalterados, também é uma consequência provável do risco moral da tri- butação (DIONNE et al., 2000). Essa situação é semelhante a um mercado com aquisição obrigatória de seguros, com prêmios parcialmente financiados pelo governo. No entanto, mostramos que ainda é possível implementar uma tecnologia pública suportada por uma carga tributária para corrigir a assimetria de informação representada por erros nas probabilidades de eventos naturais. Uma vez que a intervenção afeta a formação de grupos selecionados em vez de afetar diretamente o seguro, o problema do risco moral é irrelevante e pode ser ignorado. Estudamos as consequências de bem-estar do atrito entre dois grupos, aqueles com e aqueles sem expectativas racionais, em um mercado de seguros incompleto. Validamos esse atrito buscando evi- dências empíricas de erros persistentes em uma subamostra de indivíduos em relação à percepção de mudanças nos parâmetros climáticos locais. Em segundo lugar, testamos a existência de hetero- geneidade adicional na probabilidade de pertencer ao grupo que comete erros persistentes na anteci- pação de eventos climáticos com base em modelos econométricos. Em terceiro lugar, desenvolvemos um modelo de seguro privado de dois períodos sob incerteza com preços endógenos para explicar como a coexistência desses grupos pode desviar os preços de mercado dos fundamentos, levando a uma redução do bem-estar social no longo prazo. Nosso modelo proposto difere daquele de Rotschild e Stiglitz (1976) por considerar crenças heterogêneas e tributação de renda para corrigir falhas de mercado (assimetria de informação). A carga tributária é empregada para financiar uma tecnologia pública que fornece informações precisas aos agentes que cometem erros persistentes. A cobran- ça somente sobre os agentes sem expectativas racionais é uma forma de evitar comportamentos de risco moral entre aqueles com expectativas racionais (MIRLEES, 1971; ATKISON E STIGLITZ, 1972). Por fim, resolvemos o modelo proposto algebricamente com uma solução de forma fechada e simula- mos o limite de tributação como proporção da renda dos agentes que melhora qualquer alocação de mercado sem intervenção do governo (melhora de Pareto). Com base nas amostras coletadas em Governador Valadares, identificamos a existência de um grupo de indivíduos cometendo erros persistentes na antecipação de eventos climáticos. Nossos modelos econométricos sugerem ainda que a probabilidade de pertencer a esse grupo varia significativamen- te pelos atributos sociodemográficos dos entrevistados e pelos atributos geofísicos de seus locais de residência. Essa constatação empírica de heterogeneidade dentro e entre grupos ajuda a explicar por que não há oferta de mercado de informações sobre eventos naturais. A ausência de empresas que forneçam esse tipo de informação ocorre porque a discriminação de preços via diferenciação de produtos é economicamente inviável em mercados privados. Portanto, propomos um modelo teórico com agentes heterogêneos e tributação para financiar uma tecnologia pública que fornece informa- ções sobre eventos naturais. Os resultados do nosso modelo de seguro com mercados incompletos mostram que o grupo com expectativas corretas precifica o seguro como os fundamentos econômicos (ROTSCHILD E STIGLITZ, 1976), enquanto os agentes com expectativas imprecisas distorcem os preços do seguro no longo prazo. A solução de forma fechada sugere que os agentes que cometem erros persistentes no pro- cesso de antecipação dos eventos climáticos não são expulsos do mercado, como em Blume e Easley (2006). Ao incluir um planejador central que fornece uma tecnologia para acesso a informações pre- cisas, nosso exemplo ilustra que a intervenção pública (via tributação) só seria viável se o gasto pú- blico na oferta dessa tecnologia não ultrapassasse 9,188% da renda agregada auferida pelos agentes com expectativas imprecisas. Esse limite é calculado com base em uma medida relativa de bem-estar social que é robusta para transformações de escala. Medidas preventivas contra inundações As inundações são uma das principais causas de perdas econômicas e de saúde entre os desastres naturais em todo o mundo (KELLENBERG et al., 2011). O nível de comportamento de preparação contra os riscos de inundação, no entanto, é baixo em muitas partes do mundo, incluindo regiões com altos níveis de educação, consciência ambiental e desenvolvimento econômico (LINDELL E PERRY, 2012). Alguns estudos em psicologia social e estudos de economia de seguros dedicaram alguns esforços teóricos e empíricos para explicar o comportamento de preparação das pessoas para inundações (TERPSTRA E LINDELL, 2013; ALARY et al., 2013). OProtective Action Decision Model (PADM) é uma abordagem conceitual bem estabelecida que representa esses esforços. O PADM foi proposto na psicologia social (LINDELL E PERRY, 1992; 2012) para explicar a forma como as pes- soas tomam decisões em relação à adoção de ações de proteção contra desastres iminentes ou riscos ambientais. O objetivo principal é identificar os fatores ou atributos que influenciam a decisão do indivíduo. Entre os fatores, o PADM assume os fatores relacionados ao perigo (percepção de eficácia) e os relacionados aos recursos (custos de oportunidade). São considerados três fatores relacionados ao perigo, denominados eficácia percebida para (i) proteger a pessoa e (ii) proteger a propriedade, e (iii) a utilidade percebida das ações para outros fins. A necessidade percebida de dinheiro, equipamentos, conhecimento, tempo e esforço para implementar a ação de proteção estão entre os fatores relaciona- dos aos recursos. O comportamento desejável do PADM deve indicar que, fixando o nível de aversão ao risco, as ações contra inundações estão positivamente associadas à percepção de efetividade da ação de proteção e negativamente relacionadas aos seus custos diretos e indiretos (de oportunidade). Embora o PADM permita identificar os efeitos da percepção de efetividade e custos de oportunidade das medidas privadas na adoção de ações protetivas, ele omite a aversão ao risco, que é fator chave em qualquer modelo de seguro privado. Isso pode possivelmente induzir um viés de omissão. Propomos um modelo empírico capaz de avaliar o comportamento de pessoas que vivem sob risco de enchentes frequentes com base nos dados coletados em Governador Valadares. A bacia do Rio Doce desempenha um papel importante no desenvolvimento econômico das regiões Leste de Minas Gerais e Norte do Espírito Santo. Apesar de sua importância para a economia da região, as enchentes do Rio Doce também vêm impondo grandes perdas às cidades de seu quadro, não apenas do ponto de vista econômico. Governador Valadares tem grande parcela da população sob risco de enchentes. As três grandes enchentes que ocorreram em 1979, 1997 e 2012 destruíram casas, meio ambiente e mataram muitas pessoas. Conforme pressuposto no PADM, a intenção do indivíduo adotar cada ação de proteção depende de sua percepção de efetividade e custos de oportunidade da ação, bem como de algumas características pessoais como sua aversão ao risco, sexo e condição socioeconômica. Os efeitos podem variar de acordo com as medidas protetivas. A aversão ao risco e as percepções de efetividade e custos de opor- tunidade são traços latentes do indivíduo que são medidos indiretamente. Além disso, as respostas individuais às ações de risco de inundação são naturalmente correlacionadas, pois são dependentes do indivíduo. Desenvolvemos um modelo estatístico para acomodar todos esses recursos de dados, fornecendo um modelo alternativo para analisar adequadamente esse tipo de dados. Apresentamos um modelo de dois estágios. Na primeira etapa, um modelo de teoria de resposta ao item (TRI) é usado para esti- 38 39 mar as percepções de efetividade e custos de oportunidade, permitindo quantificar adequadamente a incerteza inerente a tais quantidades. Na segunda etapa, um modelo de regressão logística mista relacionando a probabilidade de adoção de medidas de proteção contra enchentes às covariáveis medidas diretamente dos indivíduos e aos traços latentes que representam aversão ao risco e per- cepções sobre a efetividade e o custo de oportunidade dessas medidas é construída. Assumimos uma abordagem bayesiana para inferência e investigamos se as hipóteses que sustentam o PADM são sa- tisfeitas em um estudo envolvendo indivíduos sob risco de enchentes em Governador Valadares. Um efeito aleatório refletindo características de indivíduos não medidos é incluído no modelo para corre- lacionar as respostas individuais às diferentes medidas de proteção consideradas em nosso estudo. Nossos resultados mostram que a intenção de adotar medidas de proteção contra riscos de inundação é mais sensível ao efeito positivo da efetividade percebida do que ao efeito negativo das medidas de preço relativo. Este resultado foi encontrado por trabalhos empíricos sobre seguros contra terremotos e inundações na Europa (TERPSTRA E LINDELL, 2013). A maioria das estratégias de autosseguro apresentadas neste estudo (e estudos semelhantes em outros lugares) mostra que a eficácia perce- bida é relativamente alta e os custos de oportunidade associados são baixos. Então, por que existem muitos ainda desprotegidos e vivendo em áreas de risco, mesmo quando a restrição de renda, uma provável causa de desproteção, não é um problema? A literatura sobre comportamento de preparação levanta muitos problemas que levam a muitos indi- víduos sem seguro. O viés heurístico é uma das principais causas de equívocos de risco. Esse tipo de viés é causado quando a interpretação do risco se desvia da avaliação objetiva do risco, aumentando a exposição a situações prejudiciais. O modelo de demanda por seguro de Kunreuther e Pauly sugere que a baixa demanda geral por seguro (que inclui autoproteção e autosseguro) pode ser explicada por outra causa: os altos custos de informação incorridos pelos agentes (KUNREUHTER et al., 2013). Erros subjetivos na avaliação de risco é uma área muito importante para pesquisa em psicologia social, comunicação de risco e economia comportamental, uma vez que esse tipo de assimetria de informação tem implicações importantes para o bem-estar dos indivíduos e da sociedade. Ao modelar a efetividade percebida como um traço latente, espelhamos empiricamente o análogo da incerteza subjetiva nas transferências de seguros, conforme discutido em modelos econômicos teóricos de demanda por seguros (vistos nas duas seções acima). Apesar do efeito positivo desse traço latente na probabilidade de intenção de adoção, a baixa demanda geral por autosseguro contra eventos de baixa probabilidade e alta perda provavelmente é causada por um mecanismo que imita a antecipação dos consumidores da inadimplência das seguradoras no mercado de seguro contratual tradicional. Ou pode ser simplesmente o resultado de uma adaptação in situ. A percepção do custo de oportunidade parece afetar apenas a demanda por seguro formal e contra- tual, mas não por outras medidas. Isso é esperado, uma vez que muitas das outras medidas (incluindo a busca de informações sobre as consequências das enchentes, rotas de evacuação e locais seguros/ altos no bairro, a criação de uma lista dizendo o que fazer em caso de evacuação e acordos com fa- miliares/familiares, amigos e vizinhos sobre como ajudar uns aos outros durante uma evacuação) podem ser percebidos como um custo compartilhado. Novamente, a recorrência de eventos pode explicar por que essas medidas de proteção são menos sensíveis aos preços relativos: a prática repe- titiva do comportamento de preparação do grupo funciona como um tipo de estratégia de adaptação contra produtos com custos decrescentes. Finalmente, encontramos um impacto positivo e significativo da aversão ao risco no autosseguro contra riscos de inundação para todos os tipos de medidas utilizadas. Também descobrimos que o impacto da eficácia percebida e dos custos no comportamento de preparação é modificado depen- dendo do nível de aversão. Especialmente para contratos de seguro muito caros, a demanda seria suficientemente baixa mesmo entre indivíduos altamente avessos. Esses resultados mostram a importância dos esforços para modelar percepções em modelos de au- toproteção e autosseguro contra riscos naturais. Esses esforços melhorarão o conjunto de evidências de que os preços relativos podem ser de segunda importância quando se trata de proteção privada contra riscos, com prováveis consequências de bem-estar no longo prazo. Uma área-chave de pes- quisa na tomada de decisões sobre ações de proteção é a combinação ideal de estratégias de proteção quando osindivíduos enfrentam várias restrições. A maximização da sobrevivência e a minimização das perdas são objetivos simultâneos que podem exigir diferentes estratégias de comunicação, de- pendendo das características dos indivíduos sob risco, algum nível de subsídio para melhorar a adap- tação in situ em comunidades socialmente vulneráveis e mais pesquisas sobre o papel da incerteza na percepção do risco, eficácia e preço das ações no comportamento de preparação. Relações entre pequenas cidades e o Semiárido: o caso do Seridó Potiguar3 Antecedentes e justificativa O objetivo da pesquisa foi analisar as vulnerabilidades socioambientais e os mecanismos de adapta- ção das cidades e população residente na região do Seridó Norteriograndense. A região tem passado uma das mais graves crises hídricas dos últimos 50 anos. Ao contrário do que o imaginário social pressupõe, o grau de urbanização dessa região é da ordem de 85%, ou seja, é uma região tão ou mais urbanizada que muitas regiões do Sudeste. Entretanto, a maior parte dos 216 mil habitantes da região reside em pequenos municípios, sendo os maiores Caicó (62 mil) e Currais Novos (42 mil). Conside- rando os efeitos futuros de mudanças climáticas e até contextos de desertificação iminentes, este recorte é de fundamental importância para se entender as interações entre as pequenas e grandes localidades urbanas. Articulações rural-urbano e estratégias de adaptação às secas no Seridó Potiguar O Seridó Potiguar está localizado no semiárido norteriograndense e é composto por duas microrre- giões, Seridó Ocidental e Seridó Oriental (Figura 7). As duas microrregiões também estão incluídas no Núcleo de Desertificação do Seridó, que é composta por municípios do semiárido norteriograndense e paraibano. 3 O estudo de caso do Seridó Potiguar foi baseado em Correia (2022). Figura 7: Localização dos municípios do Seridó Potiguar (Rio Grande do Norte, Brasil), 2010. Fonte: IBGE, Malha Municipal Digital (2010). 40 41 O clima do Seridó é influenciado pelos fenômenos El Niño e La Niña, que reproduzem variações no tempo e no volume das chuvas (BARBIERI et al., 2019). O período mais chuvoso na região ocorre entre fevereiro e maio, época de atuação da La Niña, que tem efeitos opostos ao El Niño. Além disso, na região predomina a baixa fertilidade do solo devido ao processo de desertificação em curso, acen- tuando situações de vulnerabilidade da população, que é fortemente dependente das atividades agro- pastoris (CORREIA, 2018). No período de 2011-2016, o Nordeste como um todo enfrentou uma das maiores estiagens dos úl- timos 30 anos e a sua maior crise hídrica dos últimos 50 anos (CORREIA, 2018; CORREIA; OJIMA, 2019). No Seridó, é possível perceber uma queda nos volumes de chuvas anuais no período, onde predominam os regimes pluviométricos muito secos em boa parte dos municípios da região (Figura 8). As temperaturas observadas também são elevadas, chegando a ultrapassar os 37ºC em alguns períodos (BARBIERI et al., 2019). O processo de urbanização nessa região, que tem suas singularidades, com os domicílios concentra- dos sob as margens de açudes que abastecem a população (LINDOSO et al., 2018) pode estar asso- ciado às estratégias de sobrevivência que respondem às condições socioambientais típicas da região. Além dos impactos das secas nas atividades agrícolas (KHAN et al., 2005), que podem estimular dentre outras a migração rural-urbana (BLACK et al., 2011), os períodos longos de estiagem, eviden- temente, têm contribuído para o que pode ser chamado de seca urbana, à medida que os mananciais se esgotam e produzem uma demanda reprimida por recursos naturais como a água para atender às necessidades básicas (CORREIA; OJIMA, 2019). O estado do Rio Grande do Norte, de um modo geral, teve um processo de urbanização considerado lento durante um longo período devido à manutenção de sua estrutura produtiva baseada na agro- pecuária. As cidades, que estavam de certa forma assentadas sob os velhos caminhos do gado, ainda Figura 8: Seridó Potiguar: chuvas acumuladas no período (por quantis), 2000-2016. Fonte: EMPARN (2019). tinham o meio rural como o centro das atividades econômicas. Mesmo após a crise da atividade açucareira, esta é substituída pelo cultivo do algodão, permanecendo uma economia ainda de base agrícola. O crescimento econômico dos municípios, de base agrária e atrasada, é dificultado pela ine- ficiência nos serviços de transporte, que inviabilizava a circulação de pessoas, mercadorias, informa- ções e, consequentemente os negócios ainda até a década de 1980 no estado (CLEMENTINO, 1995; MORAIS, 1999; CORREIA, 2018). Nos anos 2000, contudo, o Seridó Potiguar já apresentava um grau de urbanização superior à região Nordeste como um todo (69%), na ordem de 80%. A população urbana dessa região em 2010 era de 182.894 habitantes, o que correspondia a 84,5% da população total, como mostra a Figura 9. Em 2017 o IBGE estimou a população urbana em torno de 195.550 habitantes, com pouca alteração no grau de urbanização em relação a 2010. No entanto, a população urbana teve um crescimento de 7% no período de 2010-2017 (IBGE, 2010). Figura 9: Seridó Potiguar, Semiárido e lugares selecionados: população total, urbanização (%) e Taxas de Fecundidade Total (TFT), 2000 e 2010. Fonte: Elaborado a partir de Correia (2022). Outro ponto interessante é que o Nordeste ainda é concentrado essencialmente por municípios pequenos como os do Seridó, ou seja, aqueles com menos de 100 mil habitantes, onde os ritmos tanto de crescimento populacional quanto de urbanização são mais acelerados (OJIMA, 2013). Contudo, a migração com origem em áreas rurais não pode ser considerada o único nem o prin- 42 43 cipal fator responsável pelo crescimento dessas cidades, ao passo que na média a migração ru- ral-urbana representou 30% do crescimento da população urbana entre 1975 e 2000 na América Latina e 46% entre 1970 e 2010 no Nordeste brasileiro (TACOLI; MCGRANAHAN; SATTERTH- WAITE, 2008; OJIMA, 2013). Nesse sentido, ainda de acordo com os indicadores sociais e demográficos da região mostrados na Figura 9, outro aspecto importante é a Taxa de Fecundidade Total (TFT)4, que diz respeito ao número médio de filhos por mulher em idade reprodutiva. Este indicador já atingia um valor de 1,9 filhos por mulher em 2000, quando o país apresentava uma média em torno de 2,4 filhos por mulher em idade reprodutiva e que só atingiria essa mesma marca de uma TFT de 1,9 dez anos depois. Em todas as localidades apresentadas na Figura 7, a fecundidade já mostrava uma tendência de queda pelo menos a partir dos anos 2010. Na região do Seridó, contudo, a fecundi- dade já era inferior ao nível do país e estava abaixo do nível de reposição na década de 2000. No semiárido como um todo, as TFT são menores do que nas outras regiões selecionadas nos dois períodos, exceto para o Seridó Potiguar com taxas ligeiramente inferiores (IBGE, 2000; 2010). As taxas de crescimento da população total e por situação do domicílio também sinalizam estra- tégias de sobrevivência da população em função das secas nas últimas décadas no Seridó Poti- guar (Gráfico 3). Assim, o Seridó, além de uma menor fecundidade em relação à média nacional e às regiões selecionadas, manifesta uma taxa de crescimento negativa da população rural, que pode ser em função da migração e também da queda da fecundidade. Essa taxa de crescimento para a população rural nas outras regiões selecionadas também é negativa, mas a magnitude da taxa no Seridó é superior às demais (IBGE, 2000; 2010). Gráfico 3: Seridó Potiguar, Semiárido e lugares selecionados: Taxas de Crescimento da população total e por situação do domi- cílio, 2000-2010. Figura 10: Semiárido Brasileiro: Taxas Líquidas de Migração (por mil), 2005/2010. 4 A TFT é uma taxa anual calculada por meio da divisão do número total de crianças nascidas no ano anterior por mulheres de 15 a 49 anos (que correspondem às mulheres no período reprodutivo,ou seja, expostas ao risco de ter filhos), multiplicada por cinco. Fonte: IBGE, Censos Demográficos de 2000 e 2010. Por outro lado, o Nordeste brasileiro, com exceção do Rio Grande do Norte e do Sergipe, possuía saldos migratórios negativos até o último censo demográfico (IBGE, 2010). A literatura regional argumenta que as políticas de desenvolvimento regional, desconcentração da atividade econô- mica e de expansão do ensino superior nas décadas recentes têm ajudado a região a arrefecer esses saldos migratórios negativos, inclusive com o aumento da migração de retorno (QUEIROZ, 2015; FUSCO; OJIMA, 2017). Assim, indivíduos nordestinos que outrora tenham sido motivados pelas secas a buscar melhores condições de vida por meio da migração rural-urbana e de longa distância, especialmente para a região o Sudeste do país, têm retornado para suas regiões de origem, contudo com destino predo- minantemente para as áreas urbanas (OJIMA, 2013). Essa migração de retorno para o semiárido, inclusive, tem sido estudada no contexto dos programas de transferência de renda (OJIMA; AZE- VEDO; OLIVEIRA, 2015). Com base nos censos demográficos de 2000 e de 2010, é possível observar essa tendência, onde a chance de migração tem uma queda no Nordeste, especialmente em se tratando dos fluxos migratórios inter-regionais, com perda relativa da sua participação na migração como um todo (RIGOTTI; CAMPOS; HADAD, 2015; DANTAS, 2017; PAMPANELLI, 2018), que podem ser justi- ficados pelas políticas de desconcentração das atividades econômicas e serviços de saúde e de educação, reduzindo a necessidade de migração para outras regiões do país para ter acesso à esses benefícios (QUEIROZ, 2015; FUSCO; OJIMA, 2017). Contudo, a Figura 11 mostra que até o Censo Demográfico de 2010 a maior parte dos municípios do semiárido tinha Taxas Líquidas de Migração (TLM) negativas, mostrando que a migração ainda representa um papel importante no crescimento da população dessa região. Fonte: Censo Demográfico 2010 – Dados da amostra (IBGE). 44 45 Figura 11: Seridó Potiguar e regiões selecionadas: imigrantes e emigrantes de cinco ou mais anos de idade na data do censo, e os consequentes saldos migratórios e Taxas Líquidas de Migração (TLM) por cem habitantes – 1995/2000 e 2005/2010. Figura 12: Seridó Potiguar: número absoluto e relativo de migrantes residentes na zona urbana, com tempo de residência de até cinco anos na data de referência da pesquisa, 1995/2000, 2005-2010 e 2011-2016. Fonte: Elaborado a partir de Correia (2022). Não por acaso, essas TLM negativas têm se concentrado especialmente na região semiárida do país, onde as secas são mais recorrentes (CORREIA, 2018). No Seridó Potiguar essa dinâmica não poderia ser tão diferente da região semiárida como um todo, com um crescimento do saldo migratório negativo no quinquênio de 2005/2010 em relação ao quinquênio anterior, conforme indicado na Figura 9. Contudo, esse aumento expressivo no saldo migratório negativo do Seridó não se reproduziu nas outras regiões analisadas na Figura 11. Isso permite que o Seridó tenha uma TLM negativa mais elevada em comparação às outras regiões e, assim, um impacto negativo da migração no crescimento populacional superior às regiões selecionadas (CORREIA; OJIMA, BARBIERI, 2020). Isso mostra que existem particularidades dentro dos municípios do Nordeste e da própria região semiárida que merecem uma investigação mais detalhada que não pode ser facilmente reali- zada com as fontes de dados disponibilizadas pelos órgãos do governo federal, como os censos demográficos (OJIMA, 2013; CORREIA, 2022). Assim, pesquisas mais regionalizadas são impor- tantes para entender os impactos das mudanças ambientais e definir estratégias de adaptação (ALVALÁ; BARBIERI, 2017). Um bom exemplo disso é que o último censo demográfico brasileiro realizado até a presente data é o de 2010 e a última seca na região teve início por volta do início de 2011. Como poderíamos, então, avaliar os potenciais impactos das secas nos anos mais recentes para definir estratégias de sobrevivência da população? Resultados principais e implicações para políticas públicas Os dados das pesquisas no semiárido mostram que os fluxos de migrantes no período da seca aumentaram se comparados aos dados dos Censos Demográficos de 2000 e 2010, com algumas exceções. A Figura 12 mostra que os fluxos de migrantes internos e urbano-urbano aumenta- ram no período da seca tanto em termo de volume quanto em termos de participação relativa na migração quando são comparados os dados das pesquisas de 2017 com os dois últimos censos demográficos. Para os migrantes inter-regionais, apesar da queda na participação relativa na mi- gração total, há um aumento no volume. O migrante rural-urbano, contudo, representa a exceção com uma queda no volume e na sua participação relativa. Esses resultados corroboram com a literatura que mostra uma relação positiva entre os períodos de seca e a migração (GRAY; MUEL- LER, 2012; ZANDER et al., 2022). Fonte: Elaborado a partir de Correia (2022). 46 47 Nesse contexto, outros estudos foram realizados para o Seridó Potiguar utilizando o banco de dados da Rede Clima. Esses trabalhos, dentre outros resultados, mostraram a importância dos programas de transferência de renda como o Programa Bolsa Família e das remessas de migran- tes nos períodos de secas para reduzir a vulnerabilidade socioeconômica dos domicílios (BAR- BIERI et al., 2019; CORREIA; OJIMA; BARBIERI, 2020). Outro ponto importante apontado nesses estudos é o acesso à água e a capacidade de armazena- mento no período da seca na região, que são limitados (CORREIA, 2018; LOPES; MYRRHA; QUEI- ROZ, 2020). A Figura 13 mostra, inclusive, que o abastecimento nos períodos de seca geralmente é feito por meio de carro-pipa ou até por uma caixa de água instalada no centro da cidade para uso coletivo. Lopes, Myrrha e Queiroz (2020) mostraram que essa capacidade é limitada prin- cipalmente nos domicílios chefiados por mulheres, que também são aqueles com os menores níveis de renda per capita. Barbieri et al. (2019) sugerem que nos períodos de seca severa, que correspondem aos tempos mais difíceis para a população na região do Seridó, as formas de mobilidade sem desvincu- lação com o domicílio de residência são preferíveis pelos homens e a migração só volta a ser praticada em condições de retorno à normalidade (BARBIERI et al., 2019). Nesse aspecto, os programas de transferência de renda podem ser importantes para definir tais estratégias, onde a existência de programas sociais pode compensar os efeitos das secas na renda das famílias e, consequentemente, na migração (BARBIERI et al., 2019; CORREIA; OJIMA; BARBIERI, 2020). Outras pesquisas para o Nordeste brasileiro estudaram os efeitos dos choques climáticos, in- clusive as secas, sobre a migração, contudo trata-se de um grupo de trabalhos ainda limitado (BARBIERI et al., 2010; OJIMA; COSTA; CALIXTA, 2014; BARBIERI et al., 2019; DELAZERI et al., 2022), o que pode ser resultado da falta de bases de dados específicas para analisar os efeitos das mudanças ambientais nas estratégias de adaptação. Barbieri et al. (2010), por exemplo, encontraram padrões de migração interna em função das mudanças no setor agrícola da região potencialmente influenciadas pelos choques climáticos. Delazeri, Cunha e Oliveira (2021), por sua vez, observaram que a migração rural-urbana ocasionada pelos choques nessa região é também condicional ao nível de renda da agricultura e da escolaridade da população. Ojima, Costa e Calixta (2014) já tinham observado que os programas de transferência de renda constituem um elemento relevante no processo migratório e, consequentemente, como um me- canismo de adaptação às secas. Os autores mostram que os indivíduos do semiárido setentrional que recebem os benefícios sociais do governo têm uma maior chance de permanecer no muni- cípio de residência do que migrar para outros (OJIMA; COSTA; CALIXTA, 2014). Desse modo,a perda de renda provocada pelos choques poderá ser compensada pela migração de pessoas com alta escolaridade para áreas urbanas, enquanto a capacidade de resposta via migração para os mais empobrecidos é limitada pela renda e baixa escolaridade (DELAZERI et al., 2022). Figura 13: Seridó Potiguar: imagens ilustrativas sobre o abastecimento de água nas cidades de Acari (a) e Caicó (b) durante o período da seca de 2011-2016. (a) (b) Fonte: Imagens capturadas durante a pesquisa. Desse modo, é necessário reconhecer a relevância dessa agenda de pesquisa no Semiárido brasileiro para compreender como as secas e a urbanização afetam as condições de vida da população e, assim, sugerir medidas de convivência diante dos desafios que se colocam. Para a sua manutenção, portanto, é importante que haja uma continuidade nos investimentos em pesquisas mais regionalizadas (ALVALÁ; BARBIERI, 2017), inclusive para entender melhor os efeitos dos programas sociais dos governos das remessas de migrantes para a região de origem, como já apontados na literatura (OJIMA; AZEVEDO; OLIVEIRA, 2015; CORREIA; OJIMA; BAR- BIERI, 2020) e, de um modo mais amplo, de outras estratégias de sobrevivência durante as secas. Em uma região como o Seridó, onde a capacidade institucional para lidar com desastres ambientais como as secas é considerada baixa devido a sua dependência por recursos dos es- tados e da união (OJIMA, 2013), entender esses mecanismos é essencial para definir a atuação das políticas públicas. Assentamentos urbanos e sustentabilidade nas regiões metropolitanas brasileiras: desafios para a construção de políticas públicas Antecedentes e justificativa As Regiões Metropolitanas (RMs) são palcos das grandes transformações sociais e econômicas ocorridas no Brasil a partir de meados do século XX (DINIZ, 1993; BAENINGER, 1998; PACHECO, 1998; OBSERVATÓRIO DAS METRÓPOLES, 2005). Conforme Ojima et al. (2010) e Ojima e Ma- randola (2012), o crescimento das RMs é marcado pela desorganização e pela formação de uma periferia pobre, carente de infraestrutura e com dificuldade de acesso aos serviços públicos que acentuaram a desigualdade social brasileira. Nessa fase, o crescimento se concentrava na expan- são de uma zona urbana contígua, dentro de um mesmo município, marcada pelo rápido cresci- mento e carência de planejamento urbano (OJIMA, et al., 2010; OJIMA; MARANDOLA, 2012). O segundo momento é de uma migração urbana-urbana, com a desconcentração de algumas me- trópoles em direção às cidades médias e também das cidades pequenas para as cidades médias. Essa fase é marcada por formas urbanas mais dispersas espacialmente, mas conectadas pelo aumento da intensidade dos fluxos de troca. Como resultado desse processo, as áreas urbanas passaram a se expandir de forma mais horizontalizada, com baixa densidade populacional e com grande dependência do transporte individual (OJIMA, et al., 2010; OJIMA; MARANDOLA, 2012). A expansão de áreas urbanas gera uma série de impactos econômicos, sociais e ambientais negativos para a sociedade. Por exemplo, quanto maiores as distâncias entre as áreas de re- sidência e as de trabalho, comércio e serviços, maiores são o tempo de deslocamento e a de- manda para o uso do automóvel, acentuando os problemas de mobilidade urbana e poluição atmosférica. A escolha por modais de transporte ainda dependentes de combustíveis fósseis tem graves implicações para a poluição atmosférica e consequentemente para a saúde pública nas metrópoles e para o agravamento das mudanças climáticas locais e globais. Vale lembrar que, na última década, o país apresentou taxas superiores a 10% ao ano de crescimento da frota de caminhões, automóveis e motocicletas, passando de 24 para 50 milhões de veículos, um crescimento da frota aproximadamente 11 vezes maior que o crescimento populacional (DENATRAN, 2015). Além de impactar a mobilidade nas metrópoles, o aumento das frotas de veículos, ao gerar engarrafamentos nas cidades, acarreta custos indiretos via perda de produ- tividade. Estimativas recentes, que tiveram grande repercussão na imprensa, mostram que a perda de produtividade devido aos engarrafamentos é extremamente significativa e atinge o patamar de 150 bilhões de reais somente para a RM de São Paulo (HADDAD; VIEIRA, 2015). 48 49 Regiões metropolitanas: um caso especial O planejamento nas regiões metropolitanas tem se beneficiado de abordagens interdisciplina- res, capazes de estabelecer soluções mais condizentes com a natureza dos problemas urbanos. De acordo com Lima e Mendonça (2001, p. 135), os problemas urbanos “demandam a busca de soluções que ultrapassam o campo restrito de disciplinas isoladas, levando o urbanismo a atingir o patamar de campo básico da interdisciplinaridade”. Segundo Freitas (2009), o fenômeno da metropolização é parte recente de um longo processo de urbanização em escala global e que decorre da polarização de uma região em torno de uma cidade (cidade-núcleo) de relevante porte populacional e elevadas densidade demográfica e taxa de urbanização. A metrópole constitui-se por essa cidade-núcleo e por cidades ao redor que estabelecem uma dependência econômica com intensos fluxos pendulares, ou se integram a ela de forma física e funcional. Ainda segundo Freitas (2009), existem sete aspectos refe- renciais para a identificação de uma região metropolitana: grande concentração populacional; conurbação; alto grau de urbanização; polarização dentro de uma rede de cidades; destaque no cenário estadual e nacional; e existência de relação funcional de interdependência. Além disso, a institucionalização de uma região metropolitana permite a implantação de sistemas de gestão comuns. A história da expansão urbana brasileira mostra um momento inicial de rápido crescimento nos anos 1940-70 em função da imigração de longa distância com destino às principais metró- poles do país (São Paulo e Rio de Janeiro). O processo de metropolização é identificado a partir da década de 1970 em São Paulo e no Rio de Janeiro e, posteriormente, em outras grandes cidades brasileiras (MOURA et al., 2001; FREITAS, 2009). Tal processo decorre de uma série de transformações, em um momento no qual o país apresenta seus primeiros sinais concretos de industrialização, e em que as metrópoles brasileiras foram os polos de atração populacional e de concentração de riqueza, contribuindo para transformar o Brasil em um país eminentemen- te urbano5. Este crescimento urbano acelerado contribuiu para que a dinâmica populacional exercesse grande pressão nas maiores cidades, explicitando a incapacidade governamental na gestão de questões de interesse público tais como habitação, transporte intra e intermunicipal, defesa civil, violência urbana, recursos hídricos, saneamento, e acesso ao mercado de trabalho (HOGAN, 1999; RIOS-NETO et al., 2009; PDDI, 2011). O processo de urbanização brasileira é um dos mais acelerados do mundo, comparado aos países capitalistas ocidentais (COSTA; MONTE-MÓR, 2002; BRITO, 2007). Em poucas décadas, o Brasil passa de uma sociedade com características eminentemente rurais para uma socie- dade urbana. Esse processo foi resultado de uma intensa migração rural urbana direcionada especialmente, e em maior escala, para as capitais do Sudeste, com destaque para São Paulo. A acelerada urbanização e metropolização contribuíram para profundas transformações no perfil da sociedade brasileira, criando uma hegemonia do urbano em termos populacionais e de geração de riqueza (BRITO, 2007). Além disso, levaria à intensificação das contradições da sociedade brasileira nas metrópoles, permitindo dizer que o coração dos problemas brasileiros se encontra nessas regiões (OBSERVATÓRIO DAS METRÓPOLES, 2005). 5 Nos últimos anos, diversos estudos vêm destacando uma reversão dessa tendência, com um arrefecimento do poder de atração das metró- poles e um movimento em direção às cidades médias (Diniz, 1993; Pacheco, 1998; Baeninger, 1998a; Matos, 2000, 2005; Matose Braga, 2005a). O movimento de desconcentração constituiu-se em um fenômeno importante, mas não diminuiu a relevância da questão metropo- litana do país, pois as metrópoles se mantém crescendo, e ainda concentram boa parte da população e geração de riqueza, bem como as enormes contradições da sociedade brasileira como a desigualdades social, formas precárias de urbanização, problemas de mobilidade, entre outros (IBGE, 2015). 6 Conforme se verifica no terceiro parágrafo do artigo 25 da Constituição Federal: “Os Estados poderão, mediante lei complementar, instituir regiões metropolitanas, aglomerações urbanas e microrregiões, constituídas por agrupamentos de municípios limítrofes, para integrar a orga- nização, o planejamento e a execução de funções públicas de interesse comum” (BRASIL, 1988). A partir da Lei Complementar nº 14, de 1973, são estabelecidas oito regiões metropolitanas no Brasil (São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Salvador, Curitiba, Belém e Fortaleza) (BRASIL, 1973), como parte de uma política nacional de desenvolvimento urbano fortemente relacionado à expansão industrial no país (MOURA et al., 2001). No mesmo esteio, em 1974 é instituída a Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Em 1988, a competência de criação de RMs sai da esfera federal e passa à esfera estadual, como consta da Constituição Federal6. Essa mudança trouxe importantes desdobramentos, como a proliferação da formalização legal de novas regiões metropolitanas que não apresentam as características socioeconômicas que caracterizam as aglomerações metropolitanas originais, o que gerou uma série de distorções quantitativas e qualitativas entre as RMs brasileiras (BARRETO, 2012). No entanto, estes locais concentram significativa parcela das riquezas e poderio econômico, além da produção e das atividades estratégicas (MOURA et al., 2001). Assim, o país passou a ter um grande número de RMs de caráter apenas formal, sem apresentar as características dinâmicas e funcionais de uma metrópole. Desde a formalização legal das primeiras regiões do país em 1973, muitas alterações foram feitas, tanto no número quanto na composição das regiões metropolitanas (OBSERVATÓRIO DAS METRÓPOLES, 2005; GARSON et al., 2010). O Observatório das Metrópoles, que produz boa parte da pesquisa sobre regiões metropolitanas no país, considera que apenas 15 das 38 RMs formalmente reconhecidas apresentam as carac- terísticas típicas de regiões metropolitanas. Todas as demais são consideradas aglomerações urbanas não-metropolitanas e possuem apenas parte dessas características (OBSERVATÓRIO DAS METRÓPOLES, 2005). Independentemente de suas características, as transformações das RMs brasileiras têm demandado crescentes esforços de planejamento e monitoramento por parte dos gestores urbanos (UNFPA, 2007). O planejamento da ocupação humana é um instru- mento essencial para avaliar e orientar essas transformações ao longo do tempo, demandando conhecimentos sobre formas diferenciadas de organização, produção e gestão, sendo assim um importante mecanismo voltado para uma orientação racional do futuro (BUARQUE, 2003; PDDI, 2011). Contribuições da demografia e das geociências para o planejamento metropolitano Diante dos novos desafios na esfera do planejamento metropolitano, as transformações demo- gráficas e as demandas associadas assumiram grande importância. Instrumentos de análise espacial aplicados à demografia em escalas intraurbanas são uma demanda crescente para o planejamento de curto, médio e longo prazos, pois permitem a realização de uma avaliação do espaço metropolitano que reflita de forma mais fidedigna a sua heterogeneidade espacial e a evolução temporal do uso e ocupação do solo (BUARQUE, 2003; PDDI, 2011). De fato, avanços metodológicos significativos na avaliação interdisciplinar dos problemas urbanos e nas inicia- tivas de planejamento territorial foram impulsionados pelo surgimento de novas tecnologias de análise, tais como grandes bancos de dados demográficos e geoespaciais, imagens de satélite de livre acesso, softwares de estatística e análise espacial. Essas inovações ocorreram sobre- tudo nas duas últimas décadas e são aplicadas inclusive à análise das relações entre popula- ção, espaço e ambiente (UMBELINO, 2012). Assim, teorias e conceitos desenvolvidos em uma 50 51 perspectiva interdisciplinar encontram sustentação no uso de novas técnicas e ferramentas inteligentes, voltadas para a manipulação e integração de bancos de dados e informações de diversas naturezas (BATTY, 2005). Nesse aspecto, as novas possibilidades de utilização de geo- tecnologias associadas a bancos de dados convencionais merecem destaque, principalmente a partir de aplicações de Sistemas de Informação Geográfica (SIGs) que procuram simular o espaço através do armazenamento, manipulação e análise de dados geográficos em um am- biente computacional (DAVIS; FONSECA, 2001; DE BY et al., 2001; LONGLEY et al., 2005). Em suma, o geoprocessamento constitui-se em uma ferramenta fundamental para simulação em diversas escalas urbanas e intraurbanas, permitindo que diversas representações espaciais possam ser combinadas. Atualmente, um dos grandes desafios dos planejadores é pensar nas alterações no uso e ocupação do solo da sua região, como por exemplo, a expansão da área urbana, conseguindo responder “onde”, “como” e “quando” essa expansão urbana irá ocorrer, caso determinados critérios forem seguidos (UMBELINO, 2012). Impactos de vetores de expansão urbanos sobre a biodiversidade e os serviços ecossistê- micos nas Regiões Metropolitanas Brasileiras Evolução dos espaços metropolitanos A tendência verificada em todas RMs analisadas é de que os aglomerados não têm importância significativa como agentes de expansão horizontal do tecido urbano. No caso da Região Metro- politana de Belém, foi observado que os 1.303 setores classificados como aglomerados sub- normais estão presentes nos 5 municípios, ao longo de toda a mancha urbana, ocupando em 2010 uma área de 143,1 km² que aumentou para 146,6 km² em 2016, o que equivale a 59,5% do total da área da mancha urbana nesta data (Figura 14). Essa é a única região analisada onde os valores de setores classificados como aglomerados são alarmantes, ultrapassando metade da área construída da RM. Em nenhuma outra RM analisada esse valor supera 9% do total da mancha urbana. Em relação aos vetores de crescimento urbano mostrados na Figura 15, per- cebe-se que as áreas expandidas quase não se encontram dentro das regiões de aglomerados. Figura 14: Localização dos 5 municípios da RMBE e seus 1.303 assentamentos subnormais. 52 53 Figura 15: Expansão urbana na RMBE entre 2010 e 2016. Na RMBH, dos 34 municípios, 77 não possuem aglomerados. Os 27 municípios restantes pos- suem um somatório de 1.017 setores classificados como aglomerados, distribuídos de forma ho- mogênea ao longo da mancha urbana, ocupando em 2010 uma área de 70,3 km² que se expandiu para 71,8 km² em 2016, equivalente a 5,6% da área total da mancha urbana nesta data (Figura 18). Em relação aos vetores de crescimento urbano, na Figura 19 é possível verificar que os maio- res locais nos quais a expansão urbana ocorre são áreas do entorno da capital, não formadas por aglomerados. 7 Pedro Leopoldo, Confins, Taquaraçu de Minas, Caeté, Nova Lima, Florestal e Rio Manso. Já em Brasília e Entorno, os 11 municípios possuem um somatório de 252 setores classificados como aglomerados, distribuídos de forma homogênea ao longo de toda a mancha urbana, ocu- pando em 2010 uma área de 42,4 km² que aumentou para 46,4 km² em 2016, o que equivale a 5,5% do total da área da mancha urbana nesta data (Figura 16). Em relação aos vetores de cresci- mento urbano, assim como mostrado na Figura 17, a expansão predominante nos vetores leste e sul de Brasília quase não ocorreu dentro das áreas de aglomerados. Figura 16: Localização dos 11 municípios de Brasília e Entorno e seus 252 assentamentos subnormais. 54 55Figura 17: Expansão urbana em Brasília e Entorno entre 2010 e 2016. Figura 18: Localização dos 34 municípios da RMBH e seus 1.017 assentamentos subnormais. 56 57 Figura 19: Expansão urbana na RMBH entre 2010 e 2016. Na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, foi observado que os 3.315 setores classificados como aglomerados subnormais estão presentes em todos os 17 municípios, distribuídos em toda a mancha urbana, em uma área de 139,2 km² que aumentou para 141,3 km² entre 2010 e 2016, o que equivale a 8,5% do total da área da mancha urbana da RMRJ (Figura 20). Em relação aos vetores de expansão urbana (Figura 21), a quase totalidade se encontra diante do centro da RMRJ e afastado dos aglomerados, que não apresentaram expansão significativa. Por fim, na RMSP, dos 39 municípios, 38 não possuem aglomerados subnormais. Os 36 municí- pios restantes apresentam um total de 4.074 setores classificados como aglomerados, distribuí- dos principalmente na capital e municípios limítrofes (Figura 22). Os aglomerados ocuparam em 2010 uma área de 155 km² que se expandiu discretamente para 155,6 km² em 2016, equivalente a 5% da área total da mancha urbana da RMSP. Na Figura 23, é possível verificar que os vetores de expansão urbana são generalizados no sentido centro – periferia e praticamente não ocorrem dentro dos aglomerados. 8 São Lourenço da Serra, Vargem Grande Paulista e Pirapora do Bom Jesus. Figura 20: Localização dos 17 municípios da RMRJ e seus 3.315 assentamentos subnormais. 58 59 Figura 21: Expansão urbana na RMRJ entre 2010 e 2016. Figura 22: ELocalização dos 39 municípios da RMSP e seus 4.074 assentamentos subnormais. 60 61 Figura 23: Expansão urbana na RMSP entre 2010 e 2016. Resultados principais e implicações para políticas públicas Resultados gerais A partir da segunda metade do século XX, o Brasil assistiu à metropolização de seus princi- pais centros urbanos, fenômeno até então inédito do país e que criou uma série de desafios em termos de gestão pública, incluindo principalmente aspectos sobre habitação, mobilidade e seus rebatimentos ambientais. Além da dimensão econômica, traduzida na insuficiência de renda, a pobreza está associada a outras formas de vulnerabilidade. Recentemente, várias metodologias têm surgido com o propósito de mensurar as dimensões da pobreza em diferentes contextos. No ambiente urbano, o estabelecimento de pessoas em moradias sem a necessária infraestrutura de abastecimento de água e esgotamento sanitário exerce pressões ambientais dificilmente re- versíveis. Mesmo quando os indivíduos ou famílias nessa condição atingem melhorias socioeco- nômicas que lhes permitem migrar para outros locais, as áreas continuam sendo ocupadas por outras famílias em pior situação, usualmente em moradias precárias sem infraestrutura básica adequada e que amplificam as pressões ambientais. Em suma, a assimetria entre a atratividade populacional das cidades e a capacidade de interven- ção e desenvolvimento de infraestrutura por parte do poder público tem levado à proliferação de assentamentos precários e aglomerados urbanos em condições que ameaçam a sustentabilidade ambiental. Tais ameaças à sustentabilidade vão desde a contaminação de cursos d’água e lençóis freáticos pela deposição de lixo ou esgoto, ocupação de áreas suscetíveis a movimentos de massa, até a supressão de vegetação nativa em áreas antes não urbanizadas. Nesse contexto, faz-se necessária uma análise dos assentamentos precários e aglomerados das regiões metropolitanas brasileiras e os potenciais impactos ambientais relacionados a essa ocu- pação. Os resultados apresentados a seguir trazem ao poder público informações que ajudam a compreender as especificidades dos assentamentos no que se refere à relação entre vulnerabi- lidade e os desafios ambientais, embasando a tomada de decisões que busquem a sustentabili- dade. Procurou-se caracterizar e analisar os assentamentos precários e aglomerados das regiões me- tropolitanas brasileiras e os seus potenciais impactos ambientais relacionados. Busca-se, dessa forma, compreender as especificidades dos assentamentos no que se refere à relação entre vulne- rabilidade e os desafios ambientais, sobretudo pressões sobre unidades de conservação ambien- tal, embasando a tomada de decisões que busquem a sustentabilidade em áreas metropolitanas. O fenômeno da metropolização ocorreu em todo território nacional, e mais intensamente em cinco regiões metropolitanas escolhidas como objeto específico de análise nesse estudo: Brasí- lia e Entorno, Região Metropolitana de Belém, Região Metropolitana de Belo Horizonte, Região Metropolitana do Rio de Janeiro e Região Metropolitana de São Paulo. Foram utilizados méto- dos de análise espacial que permitiram avaliar a dimensão espacial do estado e expansão dos assentamentos urbanos subnormais nas regiões metropolitanas, incluindo uma caracterização demográfica e socioeconômica e os possíveis impactos ambientais decorrentes da expansão da mancha urbana e dos assentamentos subnormais sobre biomas. A análise das cinco regiões metropolitanas permitiu identificar o maior número possível de pro- cessos urbanos decorrentes do fenômeno da metropolização, assim como avaliar os impactos ambientais associados em distintos pontos no tempo. Neste cenário, novas estratégias de (re) ocupação do espaço surgem cotidianamente, e sua caracterização, acredita-se, serve como parâ- metro para o entendimento da maior parte dos processos urbanos presentes nas demais metró- poles do país. 62 63 A expansão das moradias informais nas regiões metropolitanas selecionadas não é adequada- mente acompanhada pelo poder público, o que amplifica os desafios para a gestão ambiental e implica um mosaico de paisagens com dinâmicas próprias. Observou-se que a tendência verifi- cada em todos os locais analisados é de que os aglomerados não têm importância significativa como agentes de expansão horizontal do tecido urbano. O maior impacto decorrente da expansão horizontal da mancha urbana nessas regiões não é decorrente dos aglomerados subnormais e sim de outros tipos de edificações, como indústrias, conjuntos habitacionais, condomínios fecha- dos e edificações típicas de classe média e alta. Esta constatação reforça a necessidade de novas abordagens analíticas com foco nestas unidades imobiliárias. Outro desdobramento necessário é a revisão dos limites das UCs em áreas urbanas, visto que existem locais nos quais estes limites não são precisos, levando a resultados espacialmente pouco precisos. Isto pode levar a uma supe- restimação dos setores de assentamentos subnormais inseridos em UCs e suas zonas de entorno, apesar de que, a proximidade destes em relação às UCs, são um sinal de alerta. Especificidades das regiões metropolitanas O fenômeno da metropolização ocorreu em todo território nacional, e mais intensamente em cinco regiões metropolitanas escolhidas como objeto específico de análise nesse estudo. Essa escolha se deve, em grande medida, à importância dessas regiões nas articulações das redes regionais e nacionais. As regiões escolhidas e algumas de suas principais características são: 1. Brasília e Entorno • Os moradores e domicílios em assentamentos precários representam aproximadamente 5% do total, e possuem densidade domiciliar 11,5% superior aos domicílios normais; • Nos assentamentos precários, as taxas de analfabetismo chegam a ser duas vezes maior e a renda média três vezes menor que nos demais setores, o que indica uma condição de vulnerabilidade social. Há também nesses locais, questões relacionadas ao saneamento, sobretudo em relação às ligações a rede geral de esgoto, uma vez que apenas 12 de cada 100 domicílios têm esse acesso; • Dentre a população de assentamentos precários que reside em unidades de conservação, o maior ponto de atenção está relacionado àquelas de uso sustentável, com 187 moradores em 2010. 2. Região Metropolitana de Belém • Na RMBE, praticamente dois terços da populaçãoreside em assentamentos precários, com densidade domiciliar 835% superior aos demais setores censitários; • Nos assentamentos precários da RMBE as taxas de analfabetismo chegam a ser cinco vezes superiores às dos demais setores, e a renda três vezes inferior. Como agravante, 45% dos domicílios não têm acesso à rede geral de água e 80% não tem acesso à rede geral de esgoto; • Em relação aos assentamentos precários em unidades de conservação, verifica-se que aquelas de uso sustentável estão em situação de vulnerabilidade superior àquelas de prote- ção integral, situação que se reflete em suas respectivas áreas de influência. 3. Região Metropolitana de Belo Horizonte • Na RMBH, pouco mais de 10% da população e dos domicílios encontra-se em assentamen- tos precários. Ali, a densidade domiciliar é 10% maior que nos domicílios dos demais seto- res censitários; • As taxas de analfabetismo chegam a ser quatro vezes superiores nos assentamentos precá- rios, e a renda média 2,5 vezes menor. Já os indicadores de saneamento são semelhantes àqueles dos setores não precários; • As unidades de conservação de uso sustentável com habitantes de assentamentos precá- rios se mostraram mais vulneráveis do que aquelas de proteção integral. 4. Região Metropolitana do Rio de Janeiro • Na RMRJ, pouco mais de 15% da população e dos domicílios encontra-se em assentamentos precários, sendo a densidade domiciliar 10% superior em relação aos demais domicílios; • Nos assentamentos precários, o nível de analfabetismo chega a ser três vezes superior ao dos demais setores, e a renda média é de somente um terço da renda dos demais setores; • Há presença de população dos assentamentos precários nas unidades de conservação de pro- teção integral e de uso sustentável, sendo o segundo caso mais alarmante do que o primeiro. 5. Região Metropolitana de São Paulo • Verifica-se que na RMSP, 12% da população reside em assentamentos precários, o que re- presenta 2,6 milhões de habitantes. Nesses assentamentos, a densidade domiciliar chega a ser 15% superior à dos demais setores; • As taxas de analfabetismo nos assentamentos precários são três vezes superiores aos dos demais setores da RMSP, e a renda média é um terço daquela observada nos setores não precários. Uma das discussões centrais é sobre como os assentamentos precários representam fator de pres- são às áreas de influência das unidades de conservação. Verifica-se que aquelas de uso sustentável estão em situação mais crítica que as de proteção integral. Por outro lado, a expansão urbana das metrópoles brasileiras gerou situações de incapacidade governamental de gestão do espaço, o que resultou na ocupação por vezes indiscriminada dessas áreas ambientalmente sensíveis. Br as íli a, D F/ CB ER S4 /M UX /I N PE Camin hos para o AGORA 66 67 Passado, presente e futuro da sub-rede Cidades e Urbanização: contribuições à agenda científica e às políticas de adaptação As cidades brasileiras, que já concentram 80% da população do país, serão o ambiente- -chave para a adoção e eficácia de medidas de adaptação às mudanças climáticas. Ao planejarem suas medidas de adaptação, as cidades precisam incorporar o contexto de incerteza climática futura para que as estratégias escolhidas sejam robustas frente ao enorme desafio que enfrentaremos no futuro. Todas as escolhas onde os fatores climáticos de longo prazo precisam levar em conta o clima do futuro serão afetadas pelas mudanças climáticas. Além das mudanças nas condições climá- ticas, o que as mudanças climáticas trazem é um grande aumento na incerteza (HALLEGATE, 2009). Ainda é incerto o comportamento das variáveis climáticas no futuro frente às mudanças esperadas. As condições climáticas históricas que serviram de base para o planejamento de uma série de escolhas não servem mais como base para a tomada de decisão, o que exige que tanto as medidas de adaptação quanto decisões de políticas públicas levem em conta a incerteza na tomada de decisão. Nesse sentido, as implicações para um país em desenvolvimento são grandes, pois as políticas públicas, além de lidar com os desafios do desenvolvimento e das mudanças climáticas, precisam levar em conta a incerteza. Isso implica especialmente as grandes obras públicas de infraestru- tura e as formas de ocupação das cidades onde a variável climática é relevante para a tomada de decisão. Tomar decisões de longo prazo que envolvem grandes recursos públicos com base em modelos climáticos históricos pode levar a grandes prejuízos para uma sociedade que carrega ainda graves problemas estruturais. Grande parte das obras de infraestrutura e de iniciativas de planejamento urbano lida com horizontes temporais de longo prazo e demanda informações sobre as condições climáticas locais, como por exemplo obras como estradas, pontes, aproveita- mentos hidroelétricos e estruturas para abastecimento de água, projetos de urbanização, cons- trução e melhoria de obras infraestrutura, o gerenciamento de recursos hídricos, e medidas de gerenciamento de risco. Apesar do desenvolvimento dos modelos de previsão do clima futuro, as incertezas surgem, em boa parte, da velocidade de ocorrência das mudanças climáticas esperadas, como por exemplo a velocidade em que as mudanças previstas irão ocorrer. É difícil saber quando as mudanças previstas nos modelos do clima futuro irão ocorrer precisamente. Além disso, existe ainda pouca precisão espacial nos resultados dos modelos climáticos, o que resulta em incongruência entre as escalas dos modelos e a escala exigida para o planejamento. Isso ocorre porque mesmo com as atuais técnicas de downscalling dos modelos globais ainda existe grande incerteza e pouca pre- cisão espacial nas estimativas. Os modelos climáticos apresentam resultados para áreas muito grandes e existe ainda pouca precisão para as estimativas do clima futuro para áreas pequenas. Mesmo entre os vários modelos climáticos desenvolvidos, existe ainda grande variabilidade nos resultados regionais, com modelos sugerindo forte redução na pluviosidade de uma região en- quanto outros apontam no sentido oposto. Por conta desses motivos, os modelos de previsão do clima futuro não fornecem a segurança necessária para uma tomada de decisão livre de incerte- zas (HALLEGATE, 2009) Existem princípios conceituais que permitem gerar escolhas mais robustas nesse contexto de incerteza. Entre esses princípios estão as estratégias de não-arrependimento. Como o próprio nome diz, essas estratégias se caracterizam pelo não arrependimento, ou seja, geram benefícios independentemente da ocorrência ou não de mudanças climáticas (HALLEGATE, 2009). HEL- TBERG et al. (2008) destacam que lidar com a vulnerabilidade humana e os riscos associados às mudanças climáticas oferece oportunidades para o desenvolvimento e redução da pobreza atra- vés de estratégias que sejam orientadas pelos princípios de não-arrependimento e pró-pobres. Nesse contexto, estratégias que reduzam a vulnerabilidade dos pobres e que sirvam de adaptação às mudanças climáticas consistem em estratégias de não-arrependiemnto, pois geram benefícios e reduzem a vulnerabilidade mesmo se não estiverem perfeitamente ajustadas ao clima futuro. Um segundo exemplo é o das estratégias reversíveis. Essas estratégias se caracterizam pela fa- cilidade de reversão das medidas em caso de falhas ou ineficiência destas. Outro exemplo são as estratégias não-técnicas que através de melhorias institucionais consigam melhorar a capacida- de de lidar com as mudanças institucionais. Entre os exemplos estão mudanças institucionais e nas metodologias de planejamento (HALLEGATE, 2009). O cenário para o planejamento das cidades precisa incorporar os elementos de definição de es- tratégias robustas orientadas pró-pobres, pró-desenvolvimento e de não arrependimento. Esse último é fundamental ao considerarmos um cenário de rápida urbanização intrinsecamente as- sociado às necessidades de um país em desenvolvimento. Assim, mesmoque as escolhas não estejam adequadas para o que acontecerá com o clima futuro, elas ainda serão benéficas para a sociedade. Caso contrário, o custo das mudanças climáticas associado ao de políticas ineficientes serão maiores complicadores. Barbieri (2018) propõe três diretrizes para a construção de políticas e capacidade de planejamen- to para a adaptação e redução da vulnerabilidade nas cidades brasileiras. Tal construção envolve, como pré-requisito essencial, a construção de uma agenda de pesquisa científica que conecte as ciências climáticas ao conhecimento inter e multidisciplinar que tem sido gerado sobre a dinâ- mica, a morfologia e a funcionalidade das cidades e áreas urbanas. Tais diretrizes são (BARBIERI, 2018): “Diretriz 1: investimento em conhecimento científico para o mapeamento de vulnerabilidades. Políticas eficientes de adaptação requerem uma agenda científica consistente de longo prazo (...) um in- vestimento crucial envolve a obtenção de informações sobre a dinâmica socioeconômica e demo- gráfica em uma escala urbana e intraurbana para avaliar características de vetores de expansão populacional sobre áreas de alto valor ecológico e de serviços ecossistêmicos, assim como sobre áreas de risco. Essas informações devem ir além daquelas constantes em censos demográficos, os quais apresentam periodicidade limitada e um número limitado de informações para desven- dar a natureza multidimensional da vulnerabilidade (...) dentre medidas para criar sociedades resilientes aos desastres, sugere “a necessidade de dados mais detalhados com vistas a contabi- lizar o custo humano completo dos desastres associados ao clima” (ALVALÁ E BARBIERI, 2017, p. 219-220). A geração de evidências científicas permite construir indicadores de vulnerabilidade socioam- biental que contemplem múltiplas dimensões de risco (inclusive a dimensão física), assim como projeções mais refinadas de expansão da população e de mudanças em sua estrutura e compo- sição, e em assentamentos e infraestrutura em áreas de valor ecológico em uma escala urbana e intraurbana. Pode-se, dessa forma, construir um sistema de monitoramento de riscos e vulnera- bilidades populacionais que quantifique e qualifique os vetores de transformação urbana, consti- tuindo, assim, uma ferramenta fundamental para intervenção e construção de políticas públicas. Se por um lado as mudanças climáticas representam novos riscos, como por exemplo a elevação do nível do mar e seus impactos sobre populações costeiras, elas não necessariamente implicam, 68 69 sempre, na criação de novas vulnerabilidades. De fato, é provável que as populações mais vulne- ráveis às mudanças climáticas sejam aquelas cujo perfil presente de vulnerabilidade seja maior (determinado, dentre outros fatores, pelo nível educacional, renda, acesso a redes de suporte) en- quanto populações com características antagônicas teriam maior capacidade adaptativa. Nesse caso, as mudanças climáticas representariam não necessariamente uma mudança no padrão (ou nos aspectos históricos e estruturais) que definem a vulnerabilidade populacional, mas apenas no nível de vulnerabilidade de populações atualmente expostas a diferentes riscos. Diretriz 2: Políticas de Adaptação Urbana. (...) o que define a vulnerabilidade da população urbana é um conjunto de fatores suscetíveis de intervenção de políticas de adaptação em escalas variadas, e a eficácia em políticas requer articulação e sintonia em função da conexão e não separação das escalas (embedded scales). As políticas de adaptação devem também identificar ações específicas para ordenar a ocupação do espaço e aumentar a resiliência de espaços com alto valor ambiental em termos do estoque de biodiversidade e produção de serviços ecossistêmicos, particularmente nas grandes regiões metropolitanas. Em particular, os planos diretores municipais devem, como ferramenta de organização e gestão do território, constituir instrumentos mandatórios que sigam diretrizes nacionais adaptadas às realidades estaduais e locais. Nesse sentido, uma política de adaptação deve incluir cinco eixos: i) priorizar a criação de serviços e infraestrutura em assenta- mentos de baixa renda em áreas de risco mínimo a desastres, ii) reordenar e aumentar a resiliên- cia de espaços ocupados de alto valor ambiental, iii) coibir ou inviabilizar a ocupação de áreas de risco, iv) priorizar estratégias de adaptação e de mitigação de gases de efeito estufa no médio e longo prazos através da (re)construção do capital físico urbano de uso coletivo e que gerem inclu- são social e redução de desigualdades no acesso a sistemas de transportes, construções públicas e privadas, equipamentos urbanos em geral, além de serem baseados em matrizes energéticas e de insumo limpas, e v) garantir a manutenção e conservação do estoque de bens públicos e ser- viços ecossistêmicos (águas, florestas etc). Alvalá e Barbieri (2017, p. 219-220) sugerem, ainda, a “necessidade de reforçar a governança para a gestão do risco de desastres com visão clara, competência, planos, diretrizes e coordenação entre setores associados”. Diretriz 3: Construção de uma “Nova Agenda de Sustentabilidade” baseada na redução da pobreza e da desigualdade. A discussão das duas diretrizes anteriores explicita a necessidade de políticas de adaptação que privilegiem o aumento da capacidade adaptativa de populações mais pobres e em estratos menos privilegiados da população, através de políticas de transferências condicionais de renda, de aumento do nível de capital humano e produtividade do trabalho, e de acesso a serviços e infraestrutura urbanos. (...) pode-se considerar duas justificativas que reforcem a sua necessidade: primeiro, ao reforçar a priorização de políticas sociais de redução de pobreza e de desigualdade com uma acentuada transferência de renda e de serviços públicos de estratos mais ricos para mais pobres da população, há um resultado socialmente desejável independente das incertezas relacionadas aos cenários de risco mudanças climáticas; segundo, tais políticas asse- gurariam uma maior eficiência na redução dos impactos do clima ao modificar o padrão estru- tural de vulnerabilidade da população, e não apenas a atenuação de seu nível através de políticas paliativas ou remediais como aquelas relacionadas à transferência de recursos em situações de desastre. Um desafio adicional para a sustentabilidade do país em um cenário de mudanças climáticas é a continuidade de políticas que constrangem e reduzem a eficácia da capacidade adaptativa da população e dos sistemas socioambientais e econômicos no longo prazo através i) da redução de programas de transferência e redistribuição de renda que privilegiem os mais vulneráveis (espe- cialmente as populações mais jovens, idosas e pobres), ii) da redução ou supressão de direitos e benefícios que levem à degradação do trabalho urbano, iii) da limitação ou redução, proporcio- nalmente ao Produto Interno Bruto per capita, de investimentos em saúde e educação que afetem a formação de capital humano essencial para maior inserção e produtividade laboral no longo prazo e para a criação de atributos individuais que maximizem a eficácia da capacidade adapta- tiva, iv) da redução nos investimentos em conservação e proteção ambiental e flexibilização da legislação ambiental que tendem a diminuir a quantidade e qualidade de serviços ecossistêmicos e o estoque de biodiversidade em nome de um “modelo de desenvolvimento” incompatível com a sustentabilidade do país em um contexto de mudanças climáticas e transições populacionais. Contribuição sobre políticas públicas As lógicas de desenvolvimento urbano trabalham fundadas em planejamento de visão para um uso e ocupação do espaço de forma sustentável, com durabilidade. As funções das cidades são, no Brasil, foco de atenção da Constituição Federal (1988), por meio de seu Capítulo II (Da Política Urbana). Esta serve de respaldo para as especiais desde o âmbito federal, a mais abrangentedelas sendo o Estatuto das Cidades (Lei nº 10.257/2021); entre outras que respondem a preo- cupações pontuais, valendo citar a Lei de Ocupação e Utilização da Área Pública Urbana (Lei nº 13.311/2016). Abaixo delas, seguem os regulamentos, normatização advinda do Executivo; como também novas leis, de esferas subnacionais, estaduais (dependendo do assunto) e sobretudo locais, uma vez que no município é que “acontece” a cidade. O tema da mudança do clima entra, nessas matérias orbitadas nas políticas públicas, como o con- teúdo substancial de impactos sobre o território natural e construído (FRANGETTO, 2021), bens ambientais (no leque social, ecológico e econômico da abordagem integrada do desenvolvimento sustentável). Nesses regimes normativos se instalam as medidas de prevenção da mudança do clima, consistentes nas proporcionais ações de mitigação das emissões de gases de efeito estufa (GEE) a corroborar para a diminuição dos respectivos níveis de concentração na atmosfera; como também medidas de adaptação aos efeitos adversos. Na ótica do uso, há reflexos para o setor de transportes (Ex.: acesso a combustíveis menos in- tensivos em carbono), relações de produção verdes e consumo sustentável (Ex.: absorção da economia circular integrada e ciclo de vida dos produtos com mecanismos de logística reversa dos resíduos associados, aplicáveis por meio da preferência de uma indústria ou manufatura locais, bens menos emissores dos referidos gases e de mais qualidade em termos composição para evitar contaminações humana e do solo, água e ar). Já sob o viés da ocupação, a forma mais definitiva de estar no território das cidades recebe conotação de abarcadora de fluxos e estoques na medida em que sobrecarregam sistemas como de saneamento, de energia, de moradia. Não se trata de vincular infraestrutura e equipamentos afetando-os a áreas demarcadas, tampouco de imputar ao administrado o preenchimento de requisitos obrigatórios para que possa usufruir das “benesses” decorrentes do fato de ser cidadão, no caso, particularmente direitos urbanísticos e ambientais – esses últimos compreendendo as facetas várias do tipo, recursos hídricos, limpeza pública e serviços em gestão de resíduos, áreas verdes, hortas urbanas, acesso à saúde e higiene, ao alimento, à cultura, ao bem-estar, à qualidade de vida, ao lazer, à segurança individual e de grupos, comunidades, coletividades; e correlatos mais instrumentais, como os procedimentos de concessão de licenças, autorizações, alvarás, outorgas de uso da água e outras, servidões, usuca- pião, elaboração de planos diretores, utilização de outorga onerosa, ICMS ambiental, Taxa do Lixo ou Ambiental, IPTU urbano, Pagamento por Serviços Ambientais Urbanos (PSAU) (IPEA, 2010; FRANGETTO, 2021). Vê-se, no contexto da publicação “Mudanças Climáticas, Cidades e Urbanização” que os tópicos de “alerta” passíveis de se extrair dos levantamentos correspondem a esses subtemas menciona- 70 71 dos. Assim, a política pública vem para agregar reconhecimento ao valor de haver melhores con- dições no micro e macroclima nesses locais e, ao lado delas, a satisfação dos interesses legítimos dos habitantes ou visitantes de cada cidade. Parece haver necessidade de juntar o ideal com o real (FRANGETTO, 2004), mas um real que não se exima de cumprir a lei protetiva do ambiente, do espaço urbano e da sua população ou povos propriamente ditos quando a diferença de “classes” dissocia os modos de vida e benefícios da cidade na legítima comparação por força das dissonâncias e afastamentos [propositais] entre pobres e ricos. Seriam, a título de sugestão, importantes as soluções para problemas concretos que, no entanto, são comumente ignorados, inaceitável política e administrativamente: é o caso da carência de moradia e condições de vida saudável sobretudo das pessoas em situação de rua, mais vulne- ráveis socialmente e aos eventos extremos climáticos. Sem dúvida, impera haver um enfrenta- mento direto da injustiça à qual, gestores ou co-habitantes, muitas vezes tapamos os olhos na dimensão coletiva. É aí que vem o achado da política pública, pois disciplinada a questão con- segue o delineamento de um caminho para resolver conjuntamente os efeitos das desigualda- des sociais e da mudança do clima. Detectado gerarem-se prejuízos no dia-a-dia daqueles que precisam de condução por longas distâncias a fim de voltar para casa porque só frequentam os centros urbanos para trabalhar, estudar, circular, mas não habitar (PEREIRA, 2013). Semelhante é a “calamidade” em que vivem os moradores em situação de rua, os quais sofrem diretamente com poluição de várias ordens: quase inesquecida a sonora, a da água, do ar, a climática (inten- sificados os períodos frios e os quentes, as chuvas, os ventos, as secas e demais intempéries ou fenômenos fragilizadores), destruições (arquitetura hostil, pavimentação e imóveis degradados, elementos de estética e paisagem). Para esses, reforça-se o trazido no estudo de prioridades de anteparo principiológicos operacionais sob o trinômio: “Melhor Tecnologia necessária em escala, então, a começar nas relações so- ciais para quem mais precisa” (Princípio 1); “Resolver as problemáticas ambientais no lugar de ignorá-las (...) Na visão do ser humano em situação de vulnerabilidade” (Princípio 2); e ”Evolutivamente pessoa a pessoa e de geração em geração, (...) gerando conhe- cimento ambiental aplicado e com impactos ambientais positivos na direção da sustentabilidade, (...) longuíssimo prazo (...) sob o olhar dos mais necessita- dos nas suas perspectivas de melhoras” (Princípio 3). Desenvolvendo-os, a orientação é “induzir investimentos à correção de erros do passado, inter- rompendo o avolumar dos passivos ambientais preexistentes (...) combinado com ‘não-ignorar’ e fazer acontecer mudanças, englobando, nas relações de investimento internacional, a potencia- lidade das explicadas mudanças transformacionais” + “atenção principal às pessoas em situação de maior vulnerabilidade social e climática” + “mediante manifestação de percepção ambiental sensível” (FRANGETTO, 2004; 2008; 2021). Um exemplo seria a instalação (que juridicamente é plausível por requerimento de uso de área pública nos termos da lei anteriormente mencionada, bem como da lei de PSA, no artigo destinado à promoção da moradia) de leitos eco-energéticos paliativos mas com vistas à migração para estabilidade v.g. a diretriz “adequação do imóvel rural e urbano à legislação ambiental” da Política Nacional de Pagamentos por Serviços Ambientais (PNPSA) dos seres humanos das presentes gerações que estão espalhados sem dignidade pela cidade, nelas jogados em ambientes sórdidos, “esquecidos” e aqueles ainda não lembrados en- quanto já são titulares dotados de direitos sob expectativa e preservação dos cenários com sus- tentabilidade que precisam vir, as futuras gerações (FREITAS & FRANGETTO, 2022). Para um caminhar em prol desses tantos, fica a dica de que o conhecimento climático apontado nesta publicação voltada para as cidades, no ensaio apresentado, seja fonte de conteúdo para a im- plantação das políticas públicas e coleta de contribuições para incrementar novas, a título de formulacão ex post também. Sã o Pa ul o, S P/ iS to ck ph ot o Publicações vinculadas à sub-rede Cidades e Urbanização 74 75 Artigos completos publicados em periódicos ALMEIDA, A. C.; BARBIERI, A. F.; RODRIGUES FILHO, S. Linking migration, climate and social protection in Brazilian semiarid: case studies of Submédio São Francisco and Seridó Potiguar. Sustentabilidade em Debate. , v.11, p.238 - 251, 2020. AMORIM, MARIA MARTA AMANCIO ; ASSUNÇÃO, GABRIEL HENRIQUE DE OLIVEIRA ; DIAS, ANA CAROLINA ; Guedes, Gilvan Ramalho . Representações sociais do Rio Doce e suas enchentes em Governador Valadares/Brasil. Desenvolvimento e Meio Ambiente, v. 49, p. 17-35, 2018. ANDRADE, L. M. B. ; GUEDES, G. R. ; NORONHA, K. ; SILVA, C. M. S. E. ; ANDRADE, J. P. ; MARTINS, A. S. F.de enfrentamento via políticas públicas e, por que não, também via iniciativas privada e de base comunitária, essas últimas cada vez mais relevantes na produção de respostas e estratégias locais. Nessa perspectiva, questões associadas a diversas escalas espaciais, do local ao global, compõem a pauta do debate. O livro que ora se apresenta parte, a meu ver, dessa abordagem da multiplicidade de situações, re- conhecendo e incorporando a diversidade da urbanização e o combate às muitas desigualdades. O texto busca abordar as dinâmicas urbanas e ambientais em suas relações também variadas Am az ôn ia /iS to ck ph ot o A Rede Clima 10 11 A Rede Brasileira de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas Globais – Rede Clima, como iniciativa do atual Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) (à época Ministé- rio da Ciência e Tecnologia), através da Portaria nº 728, de 20 de novembro de 2007, foi idealizada tendo como objetivo principal a geração e disseminação de conhecimentos sobre as mudanças climáticas globais, incluindo a produção de informações para formulação de políticas públicas, além de dar apoio à diplomacia brasileira nas negociações internacionais sobre o tema. Em 2009, foi incluída como um instrumento de implementação da Política Nacional sobre Mu- dança do Clima (PNMC), previsto no artigo 7º da Lei nº 12.187/2009. Nesse contexto, a Rede Clima tem como objetivos específicos: (i) gerar e disseminar conhecimentos e tecnologias para que o Brasil possa responder aos desafios representados pelas causas e efei- tos das mudanças climáticas globais; (ii) gerar cenários futuros globais e regionais de mudanças climáticas através de técnicas de modelagem do sistema terrestre; (iii) produzir dados e informa- ções necessárias ao apoio da diplomacia brasileira nas negociações sobre o regime internacional de mudanças do clima; (iv) realizar estudos sobre os impactos das mudanças climáticas globais e regionais no Brasil com ênfase nas vulnerabilidades do País às mudanças climáticas; (v) estudar alternativas de adaptação dos sistemas sociais, econômicos e naturais do Brasil às mudanças cli- máticas; (vi) pesquisar os efeitos de mudanças no uso da terra e nos sistemas sociais, econômicos e naturais nas emissões brasileiras de gases que contribuem para as mudanças climáticas globais; (vii) contribuir para a formulação e acompanhamento de políticas públicas sobre mudanças climá- ticas globais no âmbito do território brasileiro; (viii) contribuir para a concepção e a implementação de um sistema de monitoramento de alertas de desastres naturais para o país; (ix) realizar estudos sobre emissões de gases de efeito estufa em apoio à realização periódica de inventários nacionais de emissões de acordo com o Decreto nº 7.390 de 9 de dezembro de 2010; (x) promover a integra- ção das pesquisas realizadas pelas sub-redes da Rede Clima de forma transversal; (xi) contribuir para a concepção e implementação de sistemas observacionais para detecção de impactos das mu- danças climáticas, atribuição de suas causas e de seus efeitos nos sistemas humanos e naturais; e (xii) apoiar os trabalhos do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas. A Rede Clima envolve dezenas de grupos de pesquisa em universidades e institutos. Estas estão dis- tribuídas nas diversas regiões do país, o que provê capilaridade para a Rede, assim como potencializa a transferência e a difusão das informações geradas. Está estruturada em 15 sub-redes temáticas, a saber: Agricultura, Biodiversidade e Ecossistemas, Cidades e Urbanização, Desastres Naturais, De- senvolvimento Regional, Economia, Energias Renováveis, Modelagem Climática, Oceanos, Políticas Públicas, Recursos Hídricos, Saúde, Serviços Ambientais dos Ecossistemas, Usos da Terra e Zonas Costeiras. Também desenvolve pesquisas transversais, por meio de projetos integrativos, tais como: Segurança Hídrica, Alimentar e Energética (PI SHAE) e Segurança Socioambiental (PI SSA). Em dezembro de 2021, através da Portaria MCTI nº 5.434, foi determinado que a Rede Clima, dentre outras finalidades, passaria também a subsidiar o planejamento do Estado com relação às demandas sobre as mudanças climáticas, em especial aquelas relacionadas aos estudos de impactos, adaptação e vulnerabilidade para sistemas e setores relevantes, tais como a detecção e atribuição de causas; entendimento da variabilidade natural versus mudanças climáticas de origem antrópica; ciclo hidrológico e ciclos biogeoquímicos globais e aerossóis; capacidade de modelagem do sistema climático; estudos de impactos, adaptação e vulnerabilidade para siste- mas e setores relevantes, quais sejam: agricultura e silvicultura, recursos hídricos, biodiversida- de e ecossistemas, zonas costeiras, cidades, economia, energias renováveis e saúde; e desenvol- vimento de conhecimento e tecnologias para a mitigação dos efeitos das mudanças climáticas. O posicionamento da Rede Clima como organização-chave no subsídio de informações à tomada de decisão do governo federal se evidencia, também, em ações relacionadas: (a) à elaboração do In- ventário Nacional de Gases de Efeito Estufa (GEE); (b) à elaboração do Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima (PNA); (c) ao desenvolvimento, atualização e verificação das metas assumidas no Acordo de Paris (NDC); (d) à avaliação de vulnerabilidade e riscos às mudanças ambientais e cli- máticas dos diferentes biomas brasileiros e de áreas específicas; (e) à participação como membro da Rede Internacional de Centros de Excelência e Think Tanks para a Capacitação sobre Mudanças Climáticas (The International Climate Change Centre of Excellence and Think Tanks for Capacity Building - INCCCETT 4CB); (f) à parceria científica estabelecida com o InterAmerican Institute for Climate Change Research (IAI) (g) à sua inclusão (e do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas - PBMC) como or- ganismos nacionais responsáveis por subsidiar o Fórum Brasileiro de Mudança do Clima (FBMC), conforme Decreto n° 9.082, de junho de 2017; (h) à contribuição ao Plano de Ação em CT&I para o Clima, o qual servirá de base para a melhoria do Plano Plurianual, através da revisão das metas; (i) à colaboração e participação no processo de implementação no Brasil dos Objetivos de Desen- volvimento Sustentável (ODS); (j) à contribuição para atualização Inventário Nacional de Emissões de Gases de Efeito Estufa – Setor Agricultura e Energia (sub-redes de Agricultura e Energias Re- nováveis, respectivamente); (k) à participação e elaboração dos textos relacionados às mudanças climáticas para Diagnóstico Brasileiro sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos, que vem sendo elaborado pelo Painel Brasileiro de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos – BPBES; e (l) às contribuições com o Ministério do Meio Ambiente no capítulo de Biodiversidade e Ecossistemas do Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima; às contribuições e parcerias com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade na avaliação da vulnerabilidade de unidades de conservação frente às mudanças climáticas; participando como ator-chave nas discussões sobre International Linking Climate Change and National Accounting – capitaneadas pelo PNUD, IPEA, IBGE, e outros órgãos da administração pública brasileira. Outra importante contribuição da Rede Clima foi à coordenação e outras atividades científicas relacionadas à elaboração da 4ª Comunicação Nacional para UNFCCC (4CN). E, por solicitação do MCTI, a Rede Clima coordenará cientificamente a elaboração da 5ª Comunicação Nacional do Brasil à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (5CN). No início de 2023, vinculado à Rede Clima, houve a aprovação e implantação do SiMAClim - Centro de Síntese em Mudanças Ambientais e Climáticas (https://simaclim.com.br/), que vai gerar informações e preencher lacunas de conhecimento científico nacional criteriosamente identifi- cadas. O projeto, estruturado pela área de clima do MCTI, será implementado pela RedeS. . Health-related vulnerability to climate extremes in homoclimatic zones of Amazonia and Northeast region of Brazil. PLoS OneJCR, v. 16, p. e0259780, 2021. ANDRADE, M. V. ; NORONHA, K. V. M. S. ; SANTOS, A. ; SOUZA, A. ; GUEDES, G. R. ; DINIZ, B. 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Em suma, a Rede Clima atua como braço científico em diversas iniciativas desenvolvidas pelo MCTI, agregando significativa contribuição de cunho científico. As contribuições da Rede Clima permitem apoiar e subsidiar o Estado brasileiro nas tomadas de decisão relacionadas ao tema. Sã o Pa ul o, S P/ iS to ck ph ot o A sub-rede Cidades e Urbanização 14 15 Introdução As cidades concentram hoje 50% da população mundial e, segundo as estimativas das Nações Unidas, chegarão a 70% até 2050, e com os países em desenvolvimento absorven- do grande parte desse percentual. O crescimento das cidades acarreta maior demanda global de recursos. Por exemplo, os recursos agrícolas, muito sensíveis às alterações climáticas. Impactos climáticos na agricultura estão intimamente associados ao seu impacto nas áreas urba- nas em razão de um potencial choque de oferta de alimentos para as cidades (YADAV et al., 2019). Grandes desafios da humanidade em termos de desenvolvimento, redução da pobreza, mitiga- ção e adaptação às mudanças climáticas serão problemas tipicamente urbanos. Como boa parte do planejamento das cidades envolve variáveis climáticas e decisões de longo prazo, a sub-rede Cidades e Urbanização tem discutido estratégias para lidar com as incertezas trazidas pelas mu- danças climáticas. Tais estratégias envolvem pesquisas inovadoras para compreender a vulnera- bilidade e promover medidas de adaptação e mitigação dos efeitos das mudanças climáticas nas cidades brasileiras. A sub-rede também tem contribuído com a formulação de políticas públicas de adaptação, publicações científicas e sua divulgação ao público, e na formação de recursos hu- manos voltados ao tema das mudanças climáticas, desde a iniciação científica até a pós-gradua- ção e pós-doutorado. A sub-rede Cidades e Urbanização tem como objetivos principais, i) sintetizar e desenvolver o co- nhecimento, tanto da literatura acadêmica especializada quanto em termos de políticas públicas, sobre as estratégias de adaptação frente ao aumento da incerteza climática, considerando sua eficácia e limitação para atenuar ou eliminar a vulnerabilidade nas cidades; ii) propor estraté- gias de adaptação robustas num cenário de incerteza climática que sejam replicáveis e factíveis (política, cultural e tecnicamente); e iii) através de estudos de caso, avaliar e testar práticas adap- tativas, bem como identificar seus gargalos técnicos institucionais e culturais objetivando gerar subsídios para elaboração de políticas públicas. Atender aos três objetivos acima envolve um grande esforço e desafio, especialmente ao pen- sarmos a heterogeneidade e a complexidade do processo de urbanização brasileiro e de suas cidades. Não há, a rigor, um padrão de urbanização que se materializa na definição morfológica e funcional de uma ou um conjunto de cidades, mas sim diferentes padrões de urbanização e configuração das cidades. Por exemplo, em espaços tipicamente caracterizados como rurais na Amazônia e no semiárido brasileiros, a extensão de funções tipicamente urbanas (serviços, in- fraestrutura, valores culturais) e a diversificação de estratégias de sobrevivência rurais, incluindo atividades urbanas, têm produzido uma diversidade de formas urbanas que ultrapassam os limi- tes das cidades, estendem-se ao rural e criam espaços que desafiam categorizações simplistas entre o que é urbano e rural (BARBIERI et al., 2009; BARBIERI E OJIMA, 2022). O reconhecimento da importância do desenvolvimento sustentável avançou significativamente nestes últimos vinte anos, mas efetivamente poucas políticas públicas apresentaram mudanças significativas, sobretudo na escala local. Assim, apesar da internalização da questão ambiental no discurso político e social, ainda há muito caminho pela frente quando se pensa na aplicação de políticas que considerem os dilemas ambientais e, por vezes, encontramos no debate sobre desenvolvimento e meio ambiente uma contradição quase que insolúvel. Frequentemente, a discussão sobre os impactos das mudanças climáticas nas cidades pode levar o imaginário coletivo aos problemas típicos dos grandes aglomerados urbanos. Embora o foco de políticas de adaptação nesse tipo de urbanização seja fundamental, não se deve perder de vista a estrutura e as funcionalidades de redes que articulam pequenas, médias e grandes cidades, e os problemas específicos de cada uma delas (DA COSTA & BRONDIZIO, 2009; GUEDES et al., 2009a). Em particular, são os pequenos municípios brasileiros os que sofrem com uma maior incapacida- de de enfrentar os desafios ambientais, pois a falta de recursos financeiros, qualificação técnica e infraestrutura fazem com que as prioridades de investimentos no campo dos serviços sociais sejam muito mais corretivas e emergenciais do que preventivas e planejadas. Quando pensamos nas catástrofes ambientais, como as que ocorrem a cada período de chuvas, ou em situações es- pecíficas, como no rompimento de barragens de mineração em Mariana e em Brumadinho, Minas Gerais, os pequenos municípios são totalmente afetados e devastados, colocando em situação de risco a manutenção dos serviços mais essenciais para toda a população da localidade. Assim, se por um lado as grandes cidades apresentam maiores volumes de pessoas afetadas a cada evento extremo, por outro, os menores municípios possuem menor capacidade de responder aos desa- fios criados por problemas ambientais, devido à limitação de recursos, estudos e políticas. Outro aspecto que justifica uma análise mais detalhada das questões ambientais em cidades menores é o fato de que o ritmo de crescimento populacional nas grandes cidades hoje é bem mais reduzido. O grande fluxo migratório rural-urbano de longa distância para grandes cidades já perdeu seu fôlego e os dados censitários já indicam, desde 1991, uma participação mais ex- pressiva dos fluxos urbano-urbano (CUNHA, 2005). Além disso, as taxas de crescimento popu- lacional passam a ser mais significativas nas pequenas e médias cidades. Praticamente metade da população brasileira no ano de 2010 vivia em municípios de até 100 mil habitantes. E, apesar do grau de urbanização nos municípios pequenos ser menor do que nas grandes cidades, essa diferença não é tão expressiva a ponto de se desconsiderar os desafios para a sustentabilidade nessas localidades. Apesar dos maiores municípios (com mais de 500 mil habitantes) concentrarem quase 30% da população brasileira no ano de 2010, outros 30% dos habitantes do país residem em municípios de até 50 mil habitantes. Assim, se por um lado a concentração de pessoas em grandes cidades tende a ser percebida como o principal problema para a gestão e para o planejamento das cida- des, por outro, a dispersão dos tantos municípios pequenos ao longo do vasto território brasileiro gera um desafio para o planejamento e investimentos sociais. A diversidade climática, em parti- cular, e ambiental de modo amplo, produz uma camada adicional de complexidade para a gestão de políticas adaptativas nas cidades brasileiras. Embora suscite questões complexas para o planejamento urbano face aos crescentes desafios impostos pela mudança climática, a concentração de pessoas nos centros urbanos em si pode ser entendida como uma forma de uso sustentável do espaço e uma maneira de otimizar os in- vestimentos e serviços sociais (UNFPA, 2007; HOGAN; OJIMA, 2008). Por outro lado, incentivar as migraçõesde pequenas para grandes cidades reitera os problemas já amplamente explora- dos pela literatura sobre as mazelas das grandes cidades. Essas mazelas, inclusive, já produzem alguma evidência de tendência de atração das cidades médias brasileiras como forma alternativa de qualidade de vida urbana (CARMO, 2006; DOS SANTOS, 2009). Esse fenômeno, apesar de ser mais concentrado no Sudeste e ainda incipiente, é sintomático dos limites para a urbanização. É nesse sentido que um dos objetivos desta publicação é abordar as dinâmicas urbanas e ambien- tais em relação aos desafios associados à adaptação às mudanças do clima, a partir de três tipos de urbanização no Brasil: no contexto metropolitano, em cidades médias e em cidades pequenas de grande articulação com áreas rurais. Através de estudos de caso, essa discussão permite não apenas compreender a diversidade dessas formas, como também definir diferentes situações de vulnerabilidade e de estratégias de adaptação às mudanças climáticas em contextos urbanos. Um resultado importante dessa estratégia foi o desenvolvimento de metodologias de análise, assim 16 17 como modelos conceituais e teóricos que têm sido utilizados tanto em diversas formas de produ- ção científica, quanto na informação de políticas públicas voltadas à redução de vulnerabilidades e da construção de capacidade de adaptação nas cidades que sejam robustas às incertezas gera- das no contexto das mudanças climáticas globais. As atividades da sub-rede A difusão dos conhecimentos produzidos pela sub-rede Cidades e Urbanização envolveu diversas atividades nos últimos 15 anos. Dentre elas, citamos i) a formação de recursos humanos em níveis de graduação e pós-graduação, ii) a publicação de artigos em periódicos científicos, a divulgação em eventos científicos (congressos e seminários), bem como a organização de encontros com outros cientistas e com gestores públicos e afins, iii) o desenvolvimento de projetos de pesquisa nacionais e internacionais, e iv) a colaboração e assessoria em diversos fóruns internacionais, nacionais, regionais e locais sobre adaptação às mudanças climáticas nas cidades, levando con- tribuições a partir do conhecimento gerado na sub-rede. As atividades realizadas pela sub-rede Cidades e Urbanização estão descritas de forma detalhada ao longo desta publicação. Equipe e Formação de Recursos Humanos A coordenação da sub-rede Cidades e Urbanização é do quadro permanente de docentes do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O Cedeplar “foi criado em 1967 como órgão suplementar da UFMG e ao longo de mais de cinco décadas se tornou referência nacional e internacional de ensino, pesquisa e extensão com seus programas de Mestrado e Doutorado em Demografia e em Economia, que atualmente são avaliados com conceitos 7 e 6 pela CAPES, respectivamente. Desde sua fundação, o Cedeplar tem se caracterizado por desenvolver atividades em temáticas de grande impacto social, contribuindo, também, para a implementação e melhoria de políticas públicas voltadas para o desenvolvimento social, econômico, político e cultural do país”1. A sub-rede Cidades e Urbanização tem envolvido não apenas outros departamentos e centros de pesquisa da UFMG, como principalmente de diversas universidades do Brasil e exterior. Des- tacamos, por exemplo, a Universidade Federal do Paraná (UFPR), a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), a Universidade de Campinas (UNICAMP), a Universidade Vale do Rio Doce (UNIVALE), o Wittgens- tein Centre/IIASA, Vienna, e a Universidade do Texas (Austin). A sub-rede tem envolvido dezenas de bolsistas de iniciação científica, pós-graduação e pós-dou- torado, os quais têm trabalhado em diferentes áreas de pesquisa. Diversos bolsistas têm partici- pado de workshops para treinamento em softwares e técnicas de análise de dados. O conhecimento gerado pelos projetos da sub-rede tem sido utilizado na publicação de artigos e apresentados em congressos pelos bolsistas, bem como elaboração de monografias de graduação, dissertações de mestrado e teses de doutorado. O envolvimento de alunos de graduação visa, também, despertar o interesse por carreira no tema através de estudos de pós-graduação e nas futuras atividades profissionais. A Figura 1 demonstra o número de recursos humanos discentes envolvidos nas atividades da sub-rede ao longo dos últimos anos, nos níveis de graduação, pós-graduação e pós-doutorado. 1 Fonte: https://cedeplar.ufmg.br/o-cedeplar-site/site-sobre/ Figura 1: Recursos Humanos (graduação e pós-graduação) e publicações da sub-rede Cidade e Urbanização. SUB-REDE CIDADES E URBANIZAÇÃO 88 36 28 16 Bolsistas de Iniciação Científica e Graduação Livros e Capítulos de Livros Artigos publicados Bolsistas de Pós-graduação Publicações Ao longo dos 15 anos da Rede Clima, a sub-rede Cidades e Urbanização tem produzido ou cola- borado com diversos trabalhos científicos, de caráter nacional ou internacional, e em termos de artigos em periódicos, livros ou capítulos de livros e artigos em congressos, seminários e confe- rências. O volume dessa produção está listado na Figura 1. Ressalta-se a capacidade da sub-rede de articular produções em diversos aspectos relacionados aos impactos das mudanças climáti- cas, como por exemplo, adaptação de cidades de diversos portes (pequenas, médias e grandes, incluindo regiões metropolitanas) e em diferentes biomas às mudanças climáticas, impactos da incerteza climática sobre seguros, taxação ótima sob incerteza climática, impactos de mudan- ças e extremos climáticos sobre morbi-mortalidade, fecundidade e mobilidade. Essas linhas de pesquisa incorporam uma grande quantidade de autores e redes de pesquisa em trabalhos cola- borativos. Be lo H or iz on te , M G /N AS A Destaques científi cos 20 21 Pesquisas realizadas e suporte à construção de políticas de adaptação Uma das áreas de fronteira da pesquisa climática é a problemática das cidades e mudanças climáticas. Como grande parte do planejamento das cidades envolve variáveis climáticas e decisões de longo prazo, a sub-rede Cidades e Urbanização busca definir estratégias que lidem com a incerteza para que as estratégias escolhidas sejam adequadas à realidade futura. A sub-rede tem desenvolvido pesquisas para compreender a vulnerabilidade e promover medi- das de adaptação e mitigação dos efeitos das mudanças climáticas nas cidades brasileiras. A primeira pesquisa foi realizada no município de Governador Valadares (Minas Gerais), envol- vendo uma abordagem quantitativa e qualitativa; em 2015-2016 foi realizada coleta de informa- ções relacionadas às redes de apoio da população vulnerável. Em 2017, com os mesmos objetivos e instrumentos de pesquisa, foi realizada pesquisa em mu- nicípios da região do Seridó Potiguar, no Rio Grande do Norte. Ainda em 2017 foi iniciado um novo projeto visando estimar e incorporar o impacto energético e de emissões de carbono de empreendimentos urbanos (público e privado) em instrumentos de planejamento urbano para a adaptação. Outro novo projeto, de acompanhamento longitudinal das pessoas entrevistadas em Governa- dor Valadares no período de 2013-2015, foi aprovado, com recursos do CNPq, FAPEMIG e Rede Clima. A coleta longitudinal incluiu novas vulnerabilidades, como o impacto do rompimento da barragem da Samarco e a reemergência de doenças vetoriais sensíveis a condições climáticas específicas (como dengue, chikungunya, zika vírus e febre amarela). Nesta nova coleta, dados sobre saúde sexual e reprodutiva, bem como o histórico de nascimento dos filhos de mulheres de 15 anos ou mais de idade, foram incorporados. O campo foi realizado em 2018-2019, com acompanhamento longitudinal dos 1.226 domicílios e das 4.054 pessoas entrevistadas na fase anterior, desde que residindo dentro da microrregião de Governador Valadares. Os projetosexecutados pela sub-rede em Governador Valadares no Seridó Potiguar, no âmbito do Projeto Integrativo Socioambiental da Rede Clima (PI-SSA - que combina atividades de pesqui- sa de diversas sub-redes), propõem metodologias para identificação e avaliação de situações de vulnerabilidade e consequentemente direcionar estratégias focadas de adaptação e mitigação. Destarte, grande parte das obras de infraestrutura e de planejamento urbano lidam com horizon- tes temporais de longo prazo, em que as variáveis climáticas são fundamentais para a infraestru- tura planejada como habitação, saneamento, estradas, pontes, aproveitamentos hidroelétricos. Nesse contexto, as mudanças climáticas trazem uma grave implicação para o planejamento de longo prazo porque não existe mais acurácia sobre o comportamento do clima futuro. As incer- tezas sobre o clima futuro trazem implicações para o planejamento de infraestruturas, tanto do ponto de vista de sua resiliência quanto de seu custo. Desse modo, toda política pública que ne- cessite considerar aspectos climáticos na sua elaboração, como a construção de barragens para geração de energia, precisará incorporar a incerteza climática. O projeto desenvolvido na cidade de Governador Valadares é um excelente exemplo para com- preender como eventos relacionados ao clima e as percepções sobre mudanças climáticas locais e globais são distribuídas entre subgrupos populacionais em áreas urbanas. A escolha de Go- vernador Valadares não é aleatória: (1) é um representante das cidades médias, que atualmente apresentam taxas de crescimento acima da média brasileira; (2) é uma cidade cortada pelo Rio Doce, um dos mais importantes rios do Sudeste, e que incorre em inundações regulares; (3) a alta poluição das águas do Rio Doce configura-se como uma questão epidemiológica importante para o município; (4) o município enfrenta diversos impactos socioambientais e econômicos deriva- dos do desastre da mineração Samarco sobre o Rio Doce como, por exemplo, crise de abasteci- mento hídrico, gerando armazenamento irregular de água e aumento da proliferação do vetor da dengue na região. A sub-rede tem trabalhado em coleta de dados para entender como os agentes se protegem desses eventos, a quem atribui as causas e a responsabilidade pela mitigação de possíveis danos, e como percebem a relação entre esses eventos e o seu potencial agravamento por força das mudanças climáticas. É um dos poucos estudos na América Latina com esse tipo de questões coletadas de forma representativa através de um cuidadoso desenho amostral e um amplo questionário quali-quanti capaz de captar esse tipo de fenômeno. Uma característica importante das pesquisas realizadas no âmbito da sub-rede é a capacidade de captação de financiamento de diversas outras instituições financiadoras, como o Conselho Na- cional de Pesquisa (CNPq), a Fundação de Amparo à Pesquisa do estado de Minas Gerais (FAPE- MIG), o Inter-American Institute (IAI), o National Institutes of Health (NIH/EUA), a Association of American Geographers (AAG/EUA), dentre outras. Esse arranjo no financiamento e execução de pesquisas tem sido fundamental para estender o alcance dos resultados das atividades de pes- quisa e ampliar a rede de colaboradores, recursos humanos e publicações científicas. As pesquisas desenvolvidas pela sub-rede servirão de piloto para a compreensão dos desafios das mudanças climáticas em outras cidades de tamanhos distintos e em biomas e sob riscos distintos no Brasil. Alguns resultados importantes têm sido gerados para políticas públicas – por exemplo, estabelecemos modelos comportamentais econômicos, mostrando como a incerteza climática pode afetar a escolha ótima dos agentes, especialmente entre os que possuem alta aver- são ao risco. Nessa situação, eles sobrecontrataram seguros, gerando uma perda de bem-estar social se comparado a uma situação de informação completa. Também mostramos que os agen- tes consideram a efetividade do seguro (ou outras medidas protetivas contra eventos naturais relacionados com o clima) mais importante do que o seu custo de oportunidade em relação à sua probabilidade de adoção. Também mostramos que a maioria dos agentes reconhece as mudan- ças climáticas locais e globais (essas numa proporção menor), mas que atribuem causas dessas mudanças que são superficiais ou cientificamente incorretas. Quais, então, são as mensagens para as políticas públicas? As pesquisas sugerem que uma boa comunicação científica, traduzida de forma clara e acessível, é fundamental para reduzir a incerteza dos agentes e melhorar sua forma de precificar suas ações protetivas. Nesse contexto em que os agentes possuem informações mais claras e completas, é provável que aumente a eficiência na escolha ótima por medidas protetivas contra eventos rela- cionados ao clima, reduzindo a perda de bem-estar social. Por fim, deve-se destacar que a sub-rede tem contribuído para a construção de documentos rele- vantes para embasar a diplomacia brasileira em fóruns internacionais relacionados às mudanças climáticas. São exemplos dessas contribuições o Diagnóstico Brasileiro sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES) e os planos nacionais de adaptação aos efeitos adversos das mudanças climáticas. G ov er na do r V al ad ar es , M G /P ic as aW eb Principais resultados, contribuições e impactos com base nos objetivos gerais da Rede Clima 24 25 A elaboração de políticas de adaptação que incorporem explicitamente a incerteza climá- tica é fundamental para a diminuição de vulnerabilidades e o aumento da capacidade adaptativa das populações. Tais estratégias são particularmente importantes no contexto das cidades e do processo de urbanização em todo o mundo, e no Brasil em particular. As atividades desenvolvidas pela sub-rede delinearam uma metodologia inovadora e resultados valiosos para informar políticas e estratégias de adaptação e mitigação dos impactos climáticos nas cidades brasileiras. A integração das análises geradas entre as sub-redes Cidades e Econo- mia, por exemplo, garante a consolidação de análise em redes, utilizando metodologias integra- das (campo, análise demográfica e econômica a partir de uso de parâmetros climáticos como choque exógeno). Grande parte das obras de infraestrutura e de planejamento urbano lidam com horizontes temporais de longo prazo, em que as variáveis climáticas são fundamentais para a infraestrutura planejada como habitação, saneamento, estradas, pontes, aproveitamentos hi- droelétricos. Essa seção discute quatro estudos de caso desenvolvidos no âmbito da sub-rede que, ao mesmo tempo em que discutem os desafios dos vários tipos de cidade e processos de urbanização no Brasil, apontam possibilidades de propostas concretas de políticas de adaptação relacionadas às mudanças climáticas e aos eventos climáticos extremos. Apesar de diferentes recortes territo- riais e escalas (tamanhos de cidades), o conjunto dos estudos de caso indica a relevância de pes- quisas sobre mudanças e extremos climáticos em populações urbanas, particularmente aquelas residentes em áreas vulneráveis (encostas, regiões inundáveis etc.) e que apresentem um perfil de alta vulnerabilidade socioeconômica. Os resultados gerais derivados dos estudos caso para áreas urbanas não contradizem nem reduzem os consideráveis impactos sobre áreas e popula- ções rurais, como por exemplo em termos de efeitos de segurança alimentar e mobilidade entre áreas rurais e urbanas. Entretanto, a rápida transição urbana brasileira e a crescente expansão do modo de vida urbana sobre áreas rurais sinaliza a importância de empreender estudos sobre mudanças e extremos climáticos em áreas urbanas. Grandes aglomerados urbanos: o caso de Belo Horizonte2 Antecedentes e justificativa Políticas urbanas podem viabilizar a mitigação de fatores de risco e aumentar a capacida- de de resposta e resiliência dos mais vulneráveis e sujeitos aos riscos de desastres associados aosextremos ou mudanças climáticas. Pensando nisso, políticas urbanas de mitigação do risco e reassentamento de populações mais vulneráveis se tornam uma opção de forma a evitar que impactos sociais e econômicos, derivados do risco ambiental, prejudiquem ainda mais o espaço de vida dos mais expostos (PELLING, 2003). Belo Horizonte possui o Programa Estrutural de Áreas de Risco (PEAR), que, por meio de sua Política Municipal de Habitação Popular, realoca indivíduos habitantes em áreas de risco de des- lizamentos de encostas e enchentes. Essa política é parte da realidade da capital mineira desde o final dos anos 1990 e, mesmo com a queda do número de domicílios em situação de alto risco, o número de remoções realizadas tende a aumentar com as previsões para o futuro do clima (PBH, 2015; WAYCARBON, 2016; IPCC, 2021). Nesse contexto, faz-se necessário, com base na literatura de População e Ambiente, entender de que forma características sociodemográficas impactam na vulnerabilidade domiciliar em áreas afetadas por desastres de centros urbanos. O estudo de caso para Belo Horizonte, realizado no âmbito da sub-rede Cidades e Urbanização, buscou identificar como a realocação planejada reflete, no espaço belorizontino, a materialização das dimensões espaço-temporais de vulnerabilidade socioeconômica, ambiental e demográfica. Atender tal objetivo requer, principalmente, identificar quais perfis socioeconômicos e demográ- ficos das populações em domicílios são mais frequentes nas áreas de vilas e favelas onde existe a atuação da Prefeitura de Belo Horizonte para mitigar o risco de desastres. Conhecer as características socioeconômicas e demográficas das populações em áreas de risco é essencial para melhor provê-las de políticas públicas e muni-las de ferramentas de adapta- ção (ver, por exemplo, Quadro 1, que ilustra ações específicas da Prefeitura de Belo Horizonte na gestão de desastres em áreas de risco). Faz-se necessário entender se existe um diferencial de vulnerabilidade entre os removidos e os não removidos, bem como discutir como políticas urba- nas se fazem necessárias em um mundo que atravessa mudanças climáticas que podem expor e impactar populações vulneráveis. Eventos extremos, desastres e realocação planejada em Belo Horizonte O município de Belo Horizonte (BH), capital do estado de Minas Gerais, é a sexta maior capital do Brasil (Figura 2). Localizada na região central do estado, tem uma população de aproximada- mente 2 milhões e 375 mil pessoas de acordo com estimativas do último censo (IBGE, 2010). Sua área metropolitana compreende uma população de aproximadamente 6 milhões de habitantes, os quais transitam entre os municípios de Contagem, Santa Luzia, Vespasiano, Betim, Ribeirão das Neves, Nova Lima, Sete Lagoas, Ibirité e Sabará, dentre outros. Segundo dados de 2015 da pesquisa Arranjos Populacionais e Concentrações Urbanas no Brasil, o município ocupava o ter- ceiro lugar no ranking de maiores aglomerações urbanas brasileiras. 2 O estudo de caso de Belo Horizonte foi baseado em Moreira (2022). Figura 2: Localização de Belo Horizonte no Brasil e na Região Metropolitana. Fonte: Nunes, Pinto, Baptista (2018). Belo Horizonte apresenta indicadores de renda e qualidade de vida maiores do que a média de outras capitais nacionais. De acordo com dados do censo de 2010, Belo Horizonte tem renda média de 3,6 salários-mínimos e IDH de 0,810, maior que capitais como Rio de Janeiro (0,799) e São Paulo (0,805) (IBGE, 2010). Com uma taxa de dependência de 38,12%, a população passa 26 27 por um processo intenso de envelhecimento populacional proporcionado pela transição demo- gráfica. A taxa de alfabetização em BH também é alta, cerca de 97%. No que se refere ao acesso a serviços básicos de infraestrutura como saneamento e acesso à água, o município conta com 96% dos domicílios com esgotamento sanitário, 44,2% dos domicílios construídos em áreas com urbanização adequada. O município aparece também entre as primeiras posições no ranking de proporção de pessoas vivendo em áreas de risco no país. De acordo com o relatório “Populações em Área de Risco no Brasil” do IBGE e do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cema- den), o município aparece em quarto lugar, com 16,4% da sua população, aproximadamente 390 mil domicílios, construídos em áreas de risco (IBGE, 2018). Ademais, o município é dividido em 9 regionais: Norte, Nordeste, Noroeste, Leste, Centro Sul, Oeste, Pampulha, Venda Nova e Barreiro. Dentre essas regionais, Barreiro, Leste, Oeste e Centro-Sul, acumulam a maior parte dos setores censitários classificados como área de risco e cerca de 50% dos domicílios removidos pela pre- feitura entre 2010 e 2019. Projetada para abrigar 200 mil pessoas, o município hoje, mais de 100 anos após a sua fundação, tem uma população mais do que 10 vezes maior (MONTE MÓR, PAULA, 2001). Conforme se ob- serva na Figura 3, a mancha urbana do município expandiu-se consideravelmente entre 1918 e 2018, gerando impactos sociodemográficos e econômicos notáveis atualmente. Entre as décadas de 1950 e 1970, quando o município experimentou suas maiores taxas de crescimento demo- gráfico, a expansão ocorreu de forma mais intensa nas zonas de periferia a partir de loteamentos populares mais baratos, todavia escassos em acesso a serviços públicos (MONTE MÓR, PAULA, 2001; COSTA, MONTE MÓR, 2002). Costa e Monte Mór (2002) argumentam que a expansão da mancha urbana de Belo Horizonte se deu das áreas centrais para as periferias, a partir da formação do município e seu processo de crescimento tanto físico quanto demográfico fomentado pelo desenvolvimento econômico da época de sua formação. Umbelino (2012), por outro lado, aponta que a expansão se deu princi- palmente nas áreas periféricas de BH, por meio de urbanização desordenada e espraiamento domiciliar, principalmente no vetor norte do município. A formação de uma periferia fractal foi, portanto, a consequência dos processos econômicos que geram exclusão dos mais pobres, distin- guindo vilas e áreas ambientalmente inseguras no vetor norte dos condomínios fechados e áreas privilegiadas do vetor sul do município (COSTA, MONTE MÓR, 2002; UMBELINO, 2012). Figura 3: Expansão da Mancha Urbana de Belo Horizonte. Fonte: Prodabel (2021). A expansão urbana entre as décadas de 1940 e 1970, por meio da industrialização e migração da população do interior para a capital, ensejou o crescimento demográfico dos anos seguintes em Belo Horizonte. Entretanto, a expansão domiciliar do município, seja pelo aumento de fluxos migratórios e o crescimento vegetativo dos grupos populacionais, criou desafios para o planeja- mento urbano conforme se observa nas ocorrências de enchentes, deslizamento e desastres re- lacionados a extremos climáticos (BRITO, SOUZA, 2005; PARIZZI et al, 2010; UMBELINO, 2012). Belo Horizonte é marcada por diferenças socioeconômicas entre suas regionais e bairros, e ainda marcada por características geomorfológicas que acentuam as desigualdades entre essas re- giões. Enquanto as partes centrais, próximas aos pólos econômicos, foram ocupadas pela classe média que teve seu acesso garantido por vias financeiras e econômicas, áreas com declives e iso- ladas, por consequência mais baratas, foram ocupadas pelos trabalhadores informais da cidade (ARAÚJO, MOURA, NOGUEIRA, 2018; ANDRADE, MENDONÇA, 2020). As regiões sul e sudeste do município contêm as maiores altitudes e maiores índices de declividade. Nessas regiões também está concentrada boa parte das atividades econômicas e financeiras do setor de serviços. Ade- mais, está concentrada também a maior parte dos setores censitários que são classificados como áreas de risco, conforme a Figura 4. Belo Horizonte foi fundada, construída e então povoada em um vale inundável e cercado de en- costas íngremes que pautaram a distribuição espacial da população entre os espaços impermeá- veis e urbanizados das regiões centrais e dos amontoados compéssima infraestrutura dos aglo- merados subnormais e vilas que estão, em sua maioria, em áreas de encostas (BAGGIO, 2009). Figura 4: Mapa de Áreas de Risco e Carta de Declividade de Belo Horizonte. Fonte: Moreira (2023), baseado em IBGE (2018). Assim como o restante do Brasil, Belo Horizonte também experimentará mudanças no regime de chuvas de acordo com as previsões do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC). Historicamente, BH já é impactada por chuvas intensas que vão do período de novembro a abril. Ainda, segundo o relatório de 2016, Análise de Vulnerabilidade às Mudanças Climáticas do Mu- 28 29 nicípio de Belo Horizonte da Prefeitura de Belo Horizonte em parceria com a empresa WayCarbon, a tendência é que com as mudanças climáticas haja um aumento de 32% na variação relativa à exposição climática de eventos associados a chuvas intensas no município, como por exemplo enxurradas, deslizamentos e inundações, prejudicando ainda mais comunidades já vulneráveis e marginalizadas com menores condições de adaptação e mobilidade (WAYCARBON, 2016). Ademais, uma população fragilizada e exposta a riscos externos, como é o caso estudado, poderia se tornar ainda mais vulnerável num cenário de mudanças climáticas que poderão multiplicar os riscos existentes. Por exemplo, bairros como Aglomerado da Serra, Taquaril, Morro das Pedras e Aglomerado Santa Lúcia são aqueles com maior concentração de trechos íngremes na cidade e socioeconomicamente mais frágeis (PBH, 2016). Conforme estudos recentes de Nunes, Pinto e Batista (2018), a tendência pluviométrica para Belo Horizonte é de que as chuvas intensas e curtas se tornem cada vez mais frequentes. De acordo com os autores, no intervalo entre os anos 1979 e 2014, as chuvas intensas (> 50 mm) se torna- ram mais concentradas em períodos específicos, ao passo que a ocorrência de dias consecutivos sem chuva aumentou. Dessa forma, evidencia-se que as chuvas acumuladas têm se tornado cada vez mais fortes e concentradas num curto intervalo de tempo, o que aumenta os impactos sobre o sistema de drenagem da cidade e leva a eventos como enchentes e deslizamentos de encostas. Ademais, dias com precipitações acima dos 30 mm se tornaram mais frequentes, modificando o padrão pluviométrico da cidade que tem se tornado mais chuvosa no decorrer dos anos, com precipitações mais concentradas em pequenos intervalos consecutivos (NUNES, PINTO, BATIS- TA, 2018). O período de chuvas na cidade se inicia a partir de novembro, caracterizado por pancadas con- vectivas intensas e provenientes das altas temperaturas características da primavera e posterior- mente verão na capital mineira. Desde a década de 1990 nota-se aumento acentuado da frequên- cia de chuvas com volume maior que 100 mm em toda Região Metropolitana de Belo Horizonte (REIS, SIMÕES, 2007; PARIZZI et al., 2010). Por mais que a urbanização tenha se expandido nas últimas décadas, a ocorrência das chuvas, conforme caracterizadas anteriormente, podem intensificar a exposição de populações vulne- ráveis a deslizamentos de encostas, como é o caso das áreas de risco hidrogeológico da cidade. Parizzi et al. (2010) pontuam que a ocorrência de movimentos de massa não está ligada apenas ao padrão construtivo das residências em áreas íngremes, ocorrendo tanto em condomínios de luxo quanto em aglomerados subnormais. Destaca-se a característica da formação rochosa do solo belorizontino que, em um contexto de chuvas intensas, se torna propenso a sofrer rupturas planares e tombamentos advindos de processos erosivos causados muitas vezes pelas constru- ções em determinadas áreas da cidade. A intervenção humana sobre as áreas de alta declividade, em muitas vezes, não leva em consideração as práticas necessárias de manejo da terra e a com- posição geomorfológica e lito-estrutural dos locais, removendo depósitos da superfície da terra ou promovendo cortes verticalizados sobre o solo que geram acúmulos nos níveis mais baixos com menor consistência e solidez. A Figura 5 mostra a localização das áreas de risco de Belo Horizonte e a distribuição de renda no município. É possível observar que as manchas classificadas como áreas de risco pelo IBGE coinci- dem com as áreas de menor renda média de acordo com dados do Censo de 2010. As áreas verme- lhas, de menor renda média, marcam também as áreas periféricas de BH, e cobrem regionais como Venda Nova, Norte e Barreiro, indicando o baixo nível de renda média das populações locais, o que evidencia a associação da vulnerabilidade ambiental à vulnerabilidade socioeconômica. Figura 5: Áreas de Risco e Renda Domiciliar Média em Belo Horizonte. Fonte: IBGE (2018), Ferreira (2019). O IBGE considera áreas de risco enquanto áreas sujeitas a ação de fenômenos e eventos naturais ou humanamente induzidos que podem ameaçar a integridade física, material e humana daque- les que habitam essas áreas (IBGE, 2018). A PBH, ao orientar suas ações junto à Companhia Urba- nizadora e de Habitação de Belo Horizonte (Urbel), considera, para além da exposição a eventos ambientais e o risco iminente, as condições socioeconômicas das populações que ali habitam principalmente no contexto de vilas e favelas, nivelando o risco conforme o Quadro 1 e adotando as medidas necessárias para a mitigação do risco. As desigualdades habitacionais do município passaram a ser confrontadas a partir da década de 1970, principalmente através de ações pontuais da prefeitura que foram incorporadas ao Plano Diretor da cidade em 1996 e centradas na política municipal de habitação popular. A Urbel foi criada em 1983 com o objetivo de integrar o planejamento urbano voltado para a assistência da população de baixa renda em situação de vulnerabilidade habitacional por meio da urbanização de favelas e recuperação de assentamentos urbanos. Dentre suas principais ações estão o ma- peamento e avaliação do risco, reassentamento de moradias, assistência social, coordenação de atividades de recuperação de vilas e favelas e promoção de ações de conscientização, atenção e treinamento ao risco e estratégias de proteção (PBH, 2020). 30 31 Quadro 1: Avaliação de Diagnóstico de Risco. Gráfico 1: Edificações em risco muito alto em Belo Horizonte. Gráfico 2: Total de remoções por ano em Belo Horizonte entre 2010 e 2020. Avaliação de Risco Ações Executadas Sem risco (Áreas que, no momento da análise, não apresentavam qualquer indício de desenvolvimento de processos destrutivos, mantidas as condições atuais). Monitoramento do surgimento de possíveis indícios de risco iminente. Risco Baixo (a observação de campo não detectou indícios de instabilização aparentes, sendo consideradas áreas estáveis no momento da análise). Ações de mitigação e monitoramento do risco. Risco Médio (Processo destrutivo encontra condições potenciais de desenvolvimento, constatando-se condicionantes físicas predispostas ao risco e/ou indícios iniciais do desenvolvimento do processo). Reformas, mitigação do risco e assessoria técnica para recuperação da benfeitoria. Risco Alto (Processo destrutivo está instalado, constatando-se indícios de seu desenvolvimento e a possibilidade de destruição de moradias em curto espaço de tempo. É possível acompanhar a evolução do processo na área, podendo ocorrer evolução rápida com uma chuva mais intensa e/ou de longa duração). Remoção Temporária ou Definitiva, assistência social e isolamento da área comprometida. Risco Muito Alto (Processo destrutivo em adiantado estágio evolutivo, constatando-se evidências e indícios claros de seu desenvolvimento, com a possibilidade de destruição imediata de moradias, não sendo necessária a observação do registro de chuvas elevadas em termos de duração e/ou intensidade). Remoção Temporária ou Definitiva, assistência social e isolamento da área comprometida. Fonte: Moreira (2022), a partir de Urbel (2014). O desenvolvimento das políticas de habitação para o atendimento exclusivo de áreas de risco ambientalnão foi desenvolvido até 1993, sendo mapeadas somente iniciativas pontuais que se tornaram robustas após a redemocratização do país e a participação popular no processo de de- senho e elaboração das políticas. A política habitacional prima por atender a população mais vulnerável, tendo em seu escopo principal grupos habitantes de Cortiços, Vilas/Favelas, Lotea- mentos Privados Regulares e Irregulares, Povos e Comunidades Tradicionais, Conjuntos Habita- cionais implantados pelo Poder Público e Ocupações Organizadas que necessitam da prestação de serviços de infraestrutura e construção civil ou, em casos mais extremos, da realocação. Os programas que compõem a política habitacional são o Programa Estrutural de Áreas de Risco (PEAR), o Programa de Intervenção Integrada, Programa de Remoção e Reassentamento e o Bolsa Moradia. Ademais, projetos que também fazem parte da política são Provisão Habitacional, In- tervenção em Assentamentos de Interesse Social e Assistência e Assessoria Técnica. A política e seus programas e projetos atuam tanto em relação à vulnerabilidade social quanto ambien- tal. Dessa forma, as populações atendidas estão distribuídas em vários locais da cidade como os cortiços localizados na região central, ocupações, vilas e favelas em encostas e comunidades tradicionais quilombolas. Os programas são regidos por um plano central, o Plano Global Es- pecífico (PGE), que serve como base de dados e informações acerca das regiões vulneráveis da cidade e possui informações amostrais das populações nessas localidades. Por estar ainda em fase de coleta de dados, as informações que se possui não retratam a totalidade dos domicílios vulneráveis em Belo Horizonte, mas já servem para nortear a aplicação de programas e projetos de algumas regionais e suas respectivas captações de recursos (PBH, 2020). A necessidade da política é sustentada pelas características do município. Belo Horizonte possui relevo acidentado que acrescido das condições vulneráveis de muitas dessas famílias gera situa- ções de risco por todo município. No que se refere à Vilas e Favelas, de acordo com diagnósticos da Urbel, os riscos geológicos de maior intensidade em 2016 estavam distribuídos em: 319 casos na regional Centro Sul; a Leste, com 225; e a Oeste, com 196 casos lideravam os casos de risco geológico. Os riscos de inundação foram transferidos para o Programa de Preservação Ambiental de Belo Horizonte (DRENURBS) e, portanto, não serão abordados neste trabalho (PBH, 2020). Como pode ser observado no Gráfico 1, o número de edificações com grau de risco considerado muito alto pela prefeitura, ou seja, aqueles que necessitam de remoção imediata, diminuiu con- sideravelmente entre 1994 e 2016, de acordo com a PBH. As necessidades de remoção diminuí- ram e a Urbel monitora um grupo menor de pessoas. Sua principal atividade hoje, para além das remoções, é a campanha de conscientização do risco, para que moradores evitem a ocupação de lugares de maior fragilidade ambiental e, por conseguinte, não estejam expostos a um maior risco por meio do manejo errado da terra sem suporte técnico profissional. Ainda entre os anos de 2010 e 2020, cerca de 1660 domicílios foram removidos devido ao risco e/ ou a ocorrência de desastre hidrogeológico pela Urbel. Destes, 42,5% foram removidos de forma definitiva, sendo realocados para outras casas em outros endereços, e 57,5% de forma temporá- ria. Por mais que a Urbel alegue que as edificações de risco muito alto tenham diminuído com o passar dos anos, observa-se no Gráfico 2 que o número de remoções diminuiu a partir de 2011, porém teve um pico devido às chuvas e deslizamentos de 2020. Fonte: PBH (2020). Fonte: Elaborado pelos autores a partir de dados da PBH (2020). 32 33 Resultados principais e implicações para políticas públicas O caso de Belo Horizonte torna patente a necessidade de identificar e focalizar os grupos mais realocados pela política municipal e conhecer quais dimensões de vulnerabilidade permeiam suas condições de vida para além da vulnerabilidade socioambiental. A população das áreas de risco em Belo Horizonte é, em média, composta por grupos com menor renda, negros e no geral mais jovens e com mais filhos. Dentre os realocados as diferenças se intensificam quando comparados os grupos realocados permanentemente e temporariamente, sendo os primeiros com maior nível de renda. A composição familiar desempenha um papel importante entre aqueles que vivem em áreas de risco de desastres e optam por algum tipo de realocação. Ter filhos, idosos e companheiros no agregado familiar aumenta a probabilidade de realocação definitiva. Esses resultados podem ser usados para diferenciar os realocados pela Prefeitura de Belo Horizonte do restante da população, e ainda fornecer informações para os for- muladores de políticas sobre o reassentamento de grupos específicos em um contexto de risco socioambiental. Percebe-se que no caso de Belo Horizonte, as características das populações que vivem em áreas de risco mostram uma desvantagem em relação às características médias da população do mu- nicípio, o que pode diminuir a capacidade responsiva de adaptação e mobilidade frente ao risco de um desastre. A política pública municipal poderia servir como um fator facilitador e promotor dessa adaptação entre os mais vulneráveis, diminuindo o contingente daqueles que se encon- tram “presos” em condições socioeconômicas frágeis sobrepostas por adversidades ambientais. Observa-se ainda que a população em áreas de risco pertence a minorias sociais como as po- pulações negra e parda e com baixo nível de renda. Por um lado, as que deixaram áreas de risco parecem ser menos vulneráveis, devido ao maior nível de renda e características que aparen- temente aumentam a probabilidade de deixar definitivamente as áreas de risco. Por outro lado, os que optam pela realocação temporária contam como maioria nessas áreas e o deslocamento temporário significa que essas famílias retornarão à situação de risco em um horizonte temporal que poderá, em algum momento no futuro, gerar calamidades como a aquelas vistas em BH em 2020 onde em 15 dias de janeiro choveu o equivalente à metade do ano de 2019 (PBH, 2020). Esses resultados podem servir como insumo para políticas urbanas serem melhor delineadas para esses grupos específicos que são mais vulneráveis e tendem a ficar “presos” em áreas de risco, melhorando a capacidade dos formuladores de políticas de tomarem decisões e um melhor desenho de políticas para fornecer respostas mais precisas para esse tipo de evento que tende a ocorrer com mais frequência nos próximos anos. Assumimos que os moradores dessas áreas de risco para além da vulnerabilidade socioeconô- mica, convivam com outras vulnerabilidades atreladas às características individuais, como por exemplo: arranjo familiar, capital financeiro e acesso a serviços públicos que diferenciam esses indivíduos dentro da própria realidade. Ainda, os diferenciais de vulnerabilidade seriam deter- minantes no processo decisório de mobilidade e adesão à realocação feita por meio da política urbana municipal frente aos riscos de desastres conforme a literatura em diferencial de vulne- rabilidade, populações presas e características predisponentes à mobilidade em caso de desas- tres (MUTTARAK et al., 2016; BLACK et al., 2011; NAWROTZKI, DE WAARD, 2018; HUGO, 1996). Ademais, discute-se a possibilidade de vulnerabilidades coexistentes construírem um arcabouço de características que penalizam alguns grupos mais do que outros, principalmente no caso de indivíduos realocados. A imobilidade seria, em hipótese, mais notada em domicílios mais vulne- ráveis seja por características próprias ou “camadas” de vulnerabilidade que fazem com estes se encontrem presos em uma situação de risco. Cidades médias: o caso de Governador Valadares Antecedentes e justificativa A sub-rede tem desenvolvido uma pesquisa inovadora para compreender a vulnerabilidade e promover medidasde adaptação e mitigação dos efeitos dos desastres relacionados ao clima, e desastres ambientais de forma geral, nas cidades brasileiras. A seguir discute-se o caso de Go- vernador Valadares, em Minas Gerais, como um exemplo de laboratório de pesquisa em cida- des médias para entender como múltiplos choques (ambientais, epidemiológicos e econômicos) afetam o comportamento e a percepção da população local, e como políticas de adaptação e mi- tigação podem ser empreendidas de modo a atenuar possíveis reduções no bem-estar social. A justaposição de desastres, vulnerabilidade e adaptação em Governador Valadares A pesquisa foi realizada no município de Governador Valadares (Figura 6), envolvendo uma abor- dagem quantitativa e qualitativa, e em 2015-2016 foi realizada uma segunda onda no município com coleta de informações relacionadas às redes de apoio da população vulnerável. Um novo projeto de acompanhamento longitudinal das pessoas entrevistadas em Governador Valada- res no período de 2013-2015 foi aprovado, com recursos do CNPq, FAPEMIG e Rede Clima. A coleta longitudinal incluiu novas vulnerabilidades, como o impacto do rompimento da barragem da Samarco e a reemergência de doenças vetoriais sensíveis a condições climáticas específicas (como dengue, chikungunya, zika vírus e febre amarela). O campo, realizado em 2018-2019, com acompanhamento longitudinal dos 1.226 domicílios e das 4.054 pessoas entrevistadas na fase anterior, desde que residindo dentro da microrregião de Governador Valadares, incluiu quase 1.000 domicílios entrevistados em função da equipe de entrevistadores com financiamento do CNPq, FAPEMIG e Rede Clima. Figura 6: Localização de Governador Valadares na Mesorregião do Vale do Rio Doce. Fonte: Elaborada pelos autores. 34 35 Resultados principais e implicações para políticas públicas Os resultados derivados das pesquisas desenvolvidas em Governador Valadares podem ser segmen- tados em três grandes eixos: a) consequência da incerteza climática sobre bem-estar social; b) os padrões de erros de percepção sobre mudanças climáticas locais e mecanismos de tributação ótima para redução desses erros, e c) medidas preventivas contra inundações. Incerteza climática e bem-estar social Os efeitos de uma mudança na riqueza, no preço e na distribuição de risco têm sido estudados há muito tempo em economia de seguros (DIONNE E GOLLIER, 1992; TIBILETTI, 1995; DIONNE et al., 2013). Esses efeitos são relevantes, pois podem impactar a demanda por seguros, com consequên- cias negativas para o bem-estar econômico (GUEDES et al., 2019; EINAV et al., 2010). No entanto, a magnitude e a direção desses efeitos combinados são ambíguas, com pouca evidência de suas conse- quências para a demanda de seguros. Nos casos em que os preços são atuarialmente justos, o Teorema de Mossin (MOSSIN, 1968) assegura que a demanda não varia porque os agentes estão sempre totalmente segurados, independentemen- te de seu nível de aversão ao risco e de seu risco de fundo. Quando o preço do seguro está acima de seu nível atuarialmente justo, Dionne et al. (2013) mostram que a demanda por seguros pode aumentar, diminuir ou permanecer inalterada como resultado do aumento da riqueza. A direção neste caso será orientada pela natureza da aversão ao risco. Os autores decompõem explicitamente os efeitos riqueza e substituição, caracterizando o seguro como um bem de Giffen. Além disso, Dionne et al. (2013) e Tibiletti (1995) mostram como uma mudança no risco de fundo pode influenciar a demanda. Tibi- letti (1995), em particular, estuda as mudanças no risco de fundo representadas por um aumento na correlação entre um ativo não segurado e uma perda aleatória. O autor conclui que a demanda por seguros diminui sempre que ocorre uma mudança benéfica na distribuição da riqueza final. Todos os resultados discutidos acima são válidos apenas sob condições ceteris paribus. Certos choques agregados, no entanto, podem levar a uma mudança simultânea no preço, na riqueza e nas crenças dos agentes. As mudanças climáticas contemporâneas são um bom exemplo de como a contami- nação global nos mercados de seguros pode ocorrer. As seguradoras que estabelecem prêmios com base na probabilidade de eventos catastróficos a partir de experiências passadas são suscetíveis de inadimplência em sinistros mútuos após a ocorrência do evento (contaminação simultânea no preço e na transferência). Isso foi observado no mercado de seguros americano depois que o fura- cão Andrew devastou muitas casas ao longo da costa leste americana (BROWNE E HOYT, 2000). Os preços aumentaram rapidamente devido ao poder de mercado, mas a demanda em declínio colocou o mercado sob risco de colapso. Esta situação exigiu a intervenção do governo e reforçou o papel do National Flood Insurance Program no subsídio dos prêmios de seguro para casas em áreas sob risco de inundação (KUNREUTHER et al., 1993). Sob esse tipo de risco de fundo, a contaminação em contingências contratuais é difícil de ser implementada como uma típica reclamação de contingência em um contrato de seguro, pois essa contaminação é regida por alguma variável exógena latente. Essa restrição pode ser vista como uma incompletude do mercado. Apesar de todos os esforços anteriores na tentativa de compreender fatos estilizados nos mercados de seguros, faltavam resultados que caracterizassem as consequências de uma contaminação global. Carlier et al. (2003) é uma das poucas exceções. Os autores mostram que uma contaminação por aver- são à ambiguidade resulta em seguro total para valores elevados da perda. Com base na experiência de percepção e respostas dos residentes em Governador Valadares às recorrentes inundações do Rio Doce, propusemos um modelo teórico e estabelecemos condições para a elasticidade da contamina- ção sobre as crenças dos agentes levando a uma redução na demanda por seguros. Nossa abordagem difere de Carlier et al. (2003) em dois aspectos: primeiro, os agentes são avessos ao risco e distorcem suas crenças sobre eventos exógenos; segundo, estudamos o resultado estendendo essa distorção para pagamentos de seguros e para preços de seguros que ficam acima de seus níveis atuarialmente justos. O markup surge quando eventos extremos selecionam seguradoras maiores, aumentando seu poder de mercado. Para evitar variações ambíguas na demanda, como encontrado em Dionne et al. (2013), impomos um limite na relação entre aversão ao risco e elasticidade da contaminação. O limite é robusto no sentido de previsão de a demanda por seguros diminuir mesmo quando a contaminação das crenças levar a um aumento na probabilidade de grandes perdas. Nos casos em que o risco de fundo muda, a escolha de seguro ótima diminui (como em Tibiletti, 1995). Mostramos ainda que os contratos não são eficientes, resultando em uma perda de bem-estar no longo prazo. Nosso modelo estabelece as condições suficientes acerca da elasticidade total da contaminação sobre as crenças dos agentes que levam a uma redução na demanda por seguros. A elasticidade total da contaminação pode ser dividida em dois componentes. O primeiro componente representa o efeito da contaminação nas probabilidades de eventos exógenos. No segundo componente, esse efeito de- pende da distribuição de probabilidade de contaminação. Embora o efeito parcial nas probabilidades sobre eventos exógenos reduza trivialmente a demanda por seguros, na elasticidade total sua magni- tude e direção são indeterminadas. As condições de contorno, no entanto, impedem essa indeterminação e são uma condição suficiente para reduzir a demanda, mesmo nos casos em que o risco de fundo muda. Além de mostrar uma queda na demanda nessas condições, constatamos que os contratos não são eficientes. Como conse- quência, os agentes incorrem agregadamente em perda de bem-estar no longo prazo. A incorporação de soluções para eliminar a ineficiência causada pela contaminação é objeto da próxima seção. Isso é particularmente importante para contratos