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1 Material primeiros anos. ENTREVISTA COM O FILÓSOFO FRANKLIN LEOPOLDO E SILVA Espanto: Surpresa causada por algo de singular, de inesperado, susto assombro, pasmo. 1) O espanto seria a origem da episteme? Sim. 2) Mas o que seria a episteme? Episteme é o termo pelo qual os gregos designavam todo e qualquer tipo de saber. Hoje em dia nós fazemos diferença entre a ciência, propriamente dita né, como a física, a matemática a biologia e um outro tipo de conhecimento como, por exemplo, a filosofia ou a teologia (que não são ciências do mesmo tipo). Então, no caso dos gregos eles tinham um nome geral para designar todo e qualquer tipo de saber e, portanto, seria a ciência a tradução melhor de episteme. Episteme, portanto, é ciência no sentido amplo – não só ciência exata ou ciência natural – mas ciência no sentido de conhecimento...de modo geral pode ser traduzida por conhecimento. 3) De que maneira o espanto leva ao conhecimento? Então, os antigos, eles procuravam encontrar a atitude que estaria por trás da busca do conhecimento. E eles encontraram uma atitude que seria comum a todos aqueles que buscavam conhecimento de qualquer tipo; que é uma certa perplexidade – que seria no caso o espanto – com o que acontece diante de nós. Ou seja: o espanto é um misto de admiração e perplexidade! Quer dizer, nós não sabemos o que está acontecendo, mas é algo que se passa como se fosse admirável (os fenômenos naturais, os ciclos da natureza e mesmo aquilo que acontece mais diretamente com o homem mesmo, com as pessoas). Então, a admiração que isso provoca e a tentativa de saber como isso se faz, como isso acontece, por que isso acontece, leva então a busca do saber... 2 A primeira atitude, portanto, que está por trás disso é o espanto. À medida que o conhecimento vai se consolidando esse espanto dá lugar, então, vai dando lugar à episteme (quer dizer ao saber). Aí então você já não precisa mais ficar perplexo diante da natureza ou simplesmente admirado etc. Porque aí você já adquire uma certa segurança acerca dos fenômenos que ocorrem... já estamos no estágio do conhecimento propriamente dito. 4) Qualquer situação espantosa, qualquer maravilhamento, leva ao conhecimento? Qualquer situação espantosa, qualquer situação que nós não compreendemos muito bem causa essa atitude peculiar (que é o espanto). Então, a gente tem que diferenciar aquelas situações que já nos são de alguma forma familiares (e que, portanto, já não nos admiramos diante delas) e aquelas que ocorrem de forma a sempre renovar o nosso espanto. Por exemplo, no caso do homem antigo, de uma civilização mais primitiva, nós podemos entender que os fenômenos da natureza – principalmente aqueles que apresentam uma certa grandiosidade - como as tempestades, raios e coisas do tipo, apesar de se repetirem com relativa frequência, eles causavam uma certo espanto; até porque causavam um certo terror ( que é uma coisa que pode estar incluída no espanto); se você não estiver diante de uma coisa simplesmente bonita – como o pôr do sol etc – mas estiver diante de um espetáculo terrível, então, nesse caso o espanto se mescla ao terror, ao medo etc... O que é mais um reforço para tentar conhecer e dominar este fenômeno. Na verdade, o que acontece é que a familiaridade faz com que o espanto diminua, o terror também diminua, porque nós vamos compreender como é que as coisas se passam. Mas há fenômenos que pela sua própria natureza, por mais que eles se repitam, sempre vão despertar a nossa admiração... vejam o nosso espanto diante da beleza, por exemplo, ou o nosso espanto diante de um terror...eles têm essa propriedade de fazer com que nós nos manifestemos sempre diante deles dentro desta situação. Uma das razões pelas quais nos espantamos diante das coisas é o caráter incompreensível que elas têm a princípio. 3 Nós dizemos que o espanto está no início da filosofia porque ele motiva uma tentativa de compreensão. 5) Tem diferença, espanto, perplexidade, maravilhamento, admiração? O senhor pode definir? Ou é tudo uma categoria só? Resposta: Não são propriamente sinônimos, a dificuldade de definir justamente o que nós chamamos de espanto é que todas essas palavras que você citou serviriam para definir e nenhuma uma delas serviria propriamente para situar como sinônimo. Então, por exemplo, a questão do maravilhamento, o maravilhamento costuma se colocar, também, como estando na origem da poesia, então, isso são atitudes e comportamentos ou condutas que as pessoas assumem diante dos fenômenos que as rodeiam e, a partir disso, surge esse tipo de atitude que é uma palavra muito boa para descrever, na verdade, o que se passa aí... Agora, é uma espécie de mescla de tudo isso, esse maravilhamento com o sublime, o terrível, o que a natureza tem de espantoso, de perigoso e, também, de belo..e isso tudo está envolvido em uma mesma atitude que é, portanto, muito complexa, por isso que ela está no início da filosofia. Porque para chegar, então, ao ponto de podermos destrinchar tudo isso que acontece e que foi causa dessa atitude de espanto e então teremos que desenvolver também as atividades muito complicadas e muito complexas de conhecimento. Para poder justamente substituir esse maravilhamento, esse espanto, essa perplexidade pelo conhecimento propriamente dito. 6) Quais são essas atividades muito complexas? É preciso tentar apreender aquilo que a princípio aparece apenas como espantoso e incompreensível. Uma das razões pelas quais nós nos espantamos diante das coisas é o caráter incompreensível que elas têm a princípio, então nós dizemos que o espanto está no início da filosofia porque ele motiva uma tentativa de compreensão; primeiro vem o espanto, depois da tentativa de superar o espanto e entender como é que o objeto de espanto na verdade se organiza nós temos então essa atividade de pensar, a atividade racional propriamente dita que procura apreender aquilo que a princípio parecia simplesmente terrível e desconhecido. 4 Então essa é a passagem do espanto para a atividade de conhecimento. Essa atividade é complexa porque o que ocorre no mundo é muito complexo e nós temos então toda uma latitude temporal e muitas dificuldades para chegar até a compreensão disso, é o que a gente chama de história do conhecimento ou progresso do conhecimento que a princípio é muito modesto e depois aos poucos vai ganhando segurança e dominando os fenômenos. Então, durante muito tempo o conhecimento e o espanto convivem porque apesar de nós conhecermos alguma coisa da natureza e do que está em torno de nós, sempre ainda vão aparecer coisas que para nós ainda são misteriosas e, portanto, vão causar espanto. Então, a tentativa é essa e, na verdade, se pergunta se alguma vez o espanto vai poder desaparecer totalmente? Mas, o fato é que o conhecimento tende a substituir o espanto na sua história, no seu progresso e no seu aprimoramento. 7) Por que ele não incomoda da mesma maneira a todos? Por que do espanto que gera esse incomodo, essa vontade de conhecer, só alguns homens que vão atrás? Então esse é propriamente aquele que os antigos chamavam de filósofo - que é aquele que sente uma certa atração pelo saber, essa amizade pelo saber, essa atração pelo saber que tá na própria palavra filosofia de torna-se amigo do saber não é necessariamente a atitude partilhada por todos...tem até aquela celebre história de uma menina trácia que viu que o Tales de Mileto, considerado o primeiro filosofo, estava passeando olhando para o céu naturalmente espantado tentando compreender o fenômeno celeste e caiu num buraco...E ela disse de que adianta buscar tanta sabedoria e tanta verdade se não sabe por onde está andando.. Então, essa é uma certa atitude que o senso comum tem em relação a possibilidade desse conhecimento que parte do espanto, então é verdade que nem todos são tomados por esse espanto, a não ser em situações em que a vida da pessoa está envolvida em um fenômeno perigoso ou em alguma coisa desse tipo, mas aí é então questão de sobrevivência... o espanto motivador do conhecimento ele se dá apenas naqueles que tem o desejo de saber, o desejo de passar o espanto ao saber..que é e então aquele que quer se tornar sábio ou filosofo propriamente dito. 5 8) Ele, então, gera incômodo em todo mundo? Não, ele não gera porque muitas vezes as opiniões consolidadas, aquilo que é revelado por outro tipo de saber como a religião a tradição tranquiliza as pessoas e faz com que elas encontrem ali as respostas que, portanto elas não precisam procurar por si mesmas, e através de um outro exercício de pensamento que seria o conhecimento... Então você tem uma serie de estratégias de respostas que podem fazer com que a pessoa não seja necessariamente tomada de espanto diante do que acontece porque ela tem uma explicação para aquilo, ela tem uma explicação religiosa, uma explicação revelada, uma explicação de caráter mágico que é algum um tipo de solução para aquele problema que se apresenta ... agora a relação entre o espanto e o saber depende então de uma atitude peculiar. Vemos então aquele que vai procurar passar do espanto ao um saber mas não um saber que lhe seja dado ou revelado e diante do qual ele seja passivo, mas um saber que ele possa construir ...a partir dai você tem realmente esse caráter do pensamento propriamente humano ...quer dizer a partir das características racionais e humanas do pensamento surgia a tentativa de organizar o mundo, mas com esses instrumentos deixando de lado, portanto, outros tipos de respostas como a religiosa, a mítica, a mágica e ate mesmo as tradicionais. 9) Precisa ter uma certa discrepância? Suscitar a questão, porque é assim e não é de outro jeito, não é assado? Essa é uma pergunta que implícita ou explicitamente tá sempre na raiz das questões que se colocam...justamente o por quê é aquela pergunta que aparece quando você não se contenta mais com as respostas, já dadas e nem com simplesmente a atitude do espanto. Mas justamente você vai à busca de uma certa explicação. Então vem esta pergunta “por que?” - que é básica. Ela envolve justamente essa peculiaridade do fenômeno. Por que é assim e não de outra maneira? Até segundo dizem, na origem de toda a filosofia é uma pergunta que seria a mais básica de todas, que diz respeito à existência do universo. Por que as coisas são? Por que as coisas existem?Por que poderiam não existir, talvez? Então essa pergunta que é a base de todo pensar, ela se 6 desdobra em outros porquês. Que são aqueles pertinente às questões que nós queremos responder. Por que tal fenômeno se dá dessa maneira? E tal outro assim? Por que diferem? Por que há causas diferentes que dão origem a diferentes efeitos?...e assim por diante.. Mas a atitude humana quando ela ganha essa independência de espírito, ela o faz através dessa pergunta: Por quê? Que é uma pergunta que causa muito incômodo, mas também esta a base de todo o processo do conhecimento. Qual é a origem do conhecimento? A origem do conhecimento é a tentativa de responder a esse “porquê”...numa primeira etapa esse porquê me vem revelado por entidades que estão acima de mim, nas quais eu tenho que confiar...é o que nós chamamos de um caráter revelado de um determinado saber que é muito próprio da religião e dos mitos, nós supomos que as primeiras respostas foram dadas dessa maneira....surgiram histórias, mitos, religiões mais organizadas, ou seja, um conjunto de atividades humanas, de pensamentos, que os antropólogos costumam chamar de fabulação.. Fabulação quer dizer você organizar histórias que são imaginarias, mas que podem explicar aquilo que ocorre...que dão sentido as coisas, porque na verdade o que está na origem de tudo isso é a busca de sentido do mundo... o mundo tem uma organização, as coisas não ocorrem gratuitamente, então, é preciso saber o porquê e que sentido tem... mitos e religiões que vão se consolidando nas tradições, passando nas gerações, até que chega esse momento que não sabemos explicar muito bem como ele surgiu e porquê ele surgiu... É quando estas respostas se tornam insatisfatórias...e você passa então, de um pensamento de aceitação de respostas para um pensamento ativo de busca de respostas; a isso que chamamos propriamente de exercício de pensamento...que é o que está na base da filosofia e de qualquer saber em geral; Você não apenas recebe o que é dado, você exercita o seu pensamento pra descobrir como e por que as coisas se dão. 10) Quando a gente se impressiona, espanta com a obra de arte, isso também leva ao conhecimento? 7 Sim, porque o espanto que a obra de arte causa em você é deriva do fato de que o que está ali colocado, figurado na obra de arte, e que o artista colocou na obra [e algo que ele percebeu na sua condição singular de artista e que nós não perceberíamos, e que passamos a perceber, na medida em que ele nos deu isso a perceber em sua obra, em seu quadro, seu poema, seu livro...então nós descobrimos que existe alguma coisa que antes não era acessível para nós, e agora está diante de nós, pela mediação do poeta, do pintor, do artista. Então isso nos causa espanto, esse espanto vem juntamente com um acréscimo de saber, você fica conhecendo algo mais acerca do mundo - que antes você não conhecia. E isso te espanta, porque esse novo conhecimento que você adquire acerca coisas, ele te veio por via da obra de arte, por via de alguém que percebeu algo que os outros antes dele não percebiam, mas isso agora se torna perceptível... dizemos essa paisagem ela é realmente assim, esse sentimento descrito num poema, num romance é isso mesmo, isso é verdade! É realmente verdadeiro, mas nós só pensamos assim depois de ver a coisa já está feita pelo artista.... A esse conhecimento se mescla o espanto, pela maneira como nós chegamos a esse acréscimo de conhecimento...a partir da obra, daquilo que ela nós trás, você tem uma atitude de espanto, uma certa hesitação frente a algo que lhe é dado a perceber e a pensar, porque é novo, é algo que você não dispunha antes... 11) Tem alguma coisa de atitude filosófica nisso? Eu vou a uma galeria de arte e fico olhando as pessoas se espantarem com a beleza, se maravilharem com um determinado quadro. Já está aí uma busca de conhecimento no sentido filosófico? Sim porque, no caso da filosofia, na medida em que ela foi consolidando, ela foi governada por três grandes ideias, a Verdade (no caso do conhecimento), o Bem (no caso da ética, da conduta humana), e a Beleza (não só da natureza que pode ser bela em si mesma, mas também da beleza produzida, que pode ser obra de arte). A filosofia está impregnada dessas três ideias....Platão dizia que se algo é belo, é verdadeiro e é bom...assim você pode aplicar a todas essas três ideias esse conjunto de propriedades que é tudo o que o ser humano almeja desfrutar. A filosofia trás isso através do espanto... 8 É muito comum nós entendermos que as pessoas diante de uma obra de arte – principalmente quando não é uma coisa muito tradicional, muito próxima do senso comum – eles sentem algo próximo da repugnância, próximo de um mal estar, mas esse mal-estar vem do caráter verdadeiro daquilo que está sendo posto diante de você, que é tão novo, tão inesperado, que te causa esse incômodo..então diante da obra de arte nós repetimos essa atitude que tivemos um dia diante da natureza...que é esse misto de admiração, de hostilidade, de temor, porque a obra de arte trás de novo o mundo diante de nós e faz com que nós o vejamos de novo...e quando acontece isso aquela atitude originaria também aparece... 1) Realize a leitura e a formação do vocabulário de todas as palavras desconhecidas no texto. 2) Os conceitos são palavras ou ideias que se remetem com precisão a determinados objetos. Os conceitos filosóficos são aqueles usados nas atividades inerentes à filosofia. Dentre as palavras desconhecidas, quais podem ser consideradas conceitos filosóficos? 3) Os poemas sobre a vida podem ser considerados obras de arte capazes de sugerir mudanças na psique humana? 4) O espaço escolar, ainda que temporariamente, pode ser utilizado como um ambiente de exposição de obras de arte?