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Capítulo 4 SUSTENTABILIDADE E JUSTIÇA CLIMÁTICA: UMA ANÁLISE TRANSNACIONAL Amanda Ferst1 Márcio Ricardo Staen2 1 Introdução O presente artigo objetiva tratar da justiça climática e sua relação com a sustentabilidade, bem como, em âmbito transnacional, expor as responsabilidades estatais através do denominado Estado Sustentável. Justica-se a temática pela repercussão e importância da problemática, isto é, a proporção global da crise climática e a relevância da Sustentabilidade para o alcance do que chamaremos de Justiça climática. Inicialmente é abordada a obra de Mary Robinson3, Justiça Climática4, que relata histórias concretas de comunidades inteiras sofrendo diretamente com a crise climática global de que, incontestavelmente, não são os principais responsáveis. São trazidas histórias como a dos cidadãos 1 Mestranda em Direito pelo Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu da Atitus Educação, na Linha de Pesquisa Fundamentos Jurídico-Políticos da Democracia. Membro do Grupo de Pesquisa Direitos Fundamentais, Democracia e Desigualdades, vinculado ao CNPq. Bacharel em Direito pela Faculdade Meridional - IMED. Especialista em Direito Animal pela UNINTE. Pós-graduanda em Direito Ambiental, Direito de Família e Sucessões pela UNINTER. Advogada. E-mail: amandaferstps88@hotmail.com. Currículo Lattes: http:// lattes.cnpq.br/1826972058451011. 2 Doutor em Direito Público Comparado pela Università degli Studi di Perugia (Itália). Doutor e Mestre em Ciência Jurídica pela Universidade do Vale do Itajaí - UNIVALI. Estágio de Pós-Doutorado em Direito Transnacional – Università degli Studi di Perugia (CAPES/PDE). Professor nos cursos de Mestrado e Doutorado em Ciência Jurídica – Universidade do Vale do Itajaí e de Mestrado em Direito – Atitus Educação. Professor visitante no Dipartimento di Giurisprudenza da Università degli Studi di Perugia (Itália). Doutor Honoris Causa pela Universidad Antonio Guillermo Urello (Peru). Professor Honorário da Faculdade de Direito e Ciências Sociais da Universidad Inca Garcilaso de la Vega (Peru). Advogado (OAB/SC). Email: marcio.staen@gmail.com 3 Ex-Presidente da Irlanda e enviada especial da ONU para mudança climática. Advogada, Doutora pela Universidade Nova de Liboa e pela Universidade de Florença, Robinson recebeu inúmeros prêmios por seu trabalho diplomático, entre eles a Medalha Presidencial da Liberdade, em 2009. 4 ROBINSON, Mary. Justiça climática: Esperança, resiliência e a luta por um futuro sustentável. 1. ed. Rio de Janeiro, RJ: Civilização Brasileira, 2021. p. 15-184. 76 Anuário do Programa de Pós-Graduação Stricto SenSu em Direito de Kiribati, pequena nação situada em arquipélago, e o medo de serem engolidos pelo oceano até o nal do século. Em cogência com o abordado, traz-se as premissas propedêuticas da Sustentabilidade social, já que, tais sociedades atingidas carecem justamente de uma solução sustentável para às crises existentes. Em concordância doutrinal, autores são referenciados no que tange à alusão da pluridimensionalidade da Sustentabilidade e a correlação entre suas esferas temáticas. Ainda, subsidiariamente, é tratado do modelo de Estado Sustentável, suas premissas e responsabilidades em geral e, especicamente para a pesquisa, sua responsabilidade social. Discute-se o papel do Estado e sua base de formação, visando a Sustentabilidade e a garantia dos direitos fundamentais como prioridades (acima do viés econômico enfocado hodiernamente). Conforme Robinson arma, ao citar os efeitos drásticos da mudança climática, ca perceptível que os direitos humanos estão ameaçados, assim como as demandas sobre os impactos gerados em populações inteiras; problemas de saúde devido à poluição, insegurança alimentar advinda das secas, instabilidade de alojamento, inundações e o desaparecimento de culturas e tradições por êxodo migratório forçado; são apenas alguns exemplos das ameaças à vida em sociedade. Metodologicamente a abordagem fenomenológica-hermenêutica foi utilizada por tratar-se de denições teóricas e objetos de estudo a partir do seu “como”, do seu “modo”, caracterizadas a partir de sua inserção contextual global. Quanto ao método de procedimento permeia-se o monográco em razão de se tratar de uma apreciação pontual e espaço- temporalmente denida. Findando, empregou-se como técnica de pesquisa a documentação indireta, atendo-se à exploração bibliográca e documental. 2 A Justiça Climática Com a obra Justiça Climática sendo recentemente traduzida para sua versão brasileira, Mary Robinson, ex-Presidente da Irlanda, narra a trajetória das mudanças climáticas sob óticas normalmente anuviadas. Com relatos ricamente detalhados e de maneira crítica, expõe o que de fato, conceitua a denominada (in)justiça climática. Enquanto a temperatura do planeta continua a aquecer e a Anuário do Programa de Pós-Graduação Stricto SenSu em Direito 77 poluição aumenta, os que vivem em regiões de baixa renda das cidades vão inevitavelmente sofrer mais, ela explica. Isso porque, os pobres não têm condições econômicas que lhes permitam resistir, ou até mesmo fugir, dos acasos climáticos e suas consequências. Além do viés da desigualdade pela pobreza econômica, a obra aborda de maneira profunda a injustiça quanto a comunidades, em sua maioria isoladas ou nômades, que estão perdendo seu sustento, sua cultura e mdus perandi ancestral. Aldeias e assentamentos de pessoas que vem assistindo na primeira leira o desaparecimento de rios e lagos; o degelo que faz com que comunidades5 inteiras da costa do Alasca tenham que deixar suas casas; a falta de pasto para os rebanhos de povos nômades6 que, em seu sofrimento, são forçados a abandonar o estilo de vida e migrarem para as cidades. A narração de Robinson não deixa dúvidas: mais do que nunca, precisamos mergulhar a fundo e enxergar além da ponta do iceberg. Segundo o Greenpeace7, cerca de 3 bilhões de pessoas no mundo vivem em lugares vulneráveis à crise climática; mais de 2 milhões de pessoas morreram nos últimos 50 anos por consequência de eventos extremos e desastres naturais inuenciados pelas mudanças climáticas. No entanto, apenas 10 países, incluindo o Brasil, representam, juntos, quase 70% das emissões globais de gases do efeito estufa8 – os principais agravantes da crise climática. A justiça climática tem por objetivo demostrar o quanto a crise climática impacta grupos e pessoas de maneira divergente. Conceitualmente, o termo tem signicados e interpretações abrangentes, mas, em sua essência está o reconhecimento de que os mais impactados pelas mudanças climáticas tendem a não ser os maiores responsáveis por causá-las. É cristalino que a crise hodierna não é apenas um problema ambiental: ela interage com sistemas sociais, destacando privilégios e injustiças, e afeta pessoas de diferentes classes, raças, gêneros, localidades e gerações de forma desigual9. 5 Robinson traz o contexto histórico versus hodierno do povo Yupik, que por mais de 2 mil anos viveram da caça e pesca nas regiões das selvas geladas da costa oeste do Alasca, mas que, com a crise climática e o degelo, migram cada vez mais para o interior do país. 6 Há mais de 250 mil nômades da comunidade Fulani-Wodaabe que tem como base econômica a vida pastoril, cruzando fronteiras de países africanos com seu gado para conseguir água que, hodiernamente encontra-se cada vez mais escassa. 7 Organização não governamental ambiental com sede em Amsterdam, e com escritórios espalhados em mais de 55 países. 8 GREENPEACE. Justiça Climática. Disponível em: https://www.greenpeace.org/brasil/ informe-se/justica-climatica/. Acesso em: 4 set. 2023. 9 UM SÓ PLANETA. Justiça climática é tema de novo anuário de sustentabilidade do Um 78 Anuário do Programa de Pós-Graduação Stricto SenSu em Direito Fato desconhecido por muitos, quando árvores morrem, são derrubadas, queimadas ou se decompõem, o carbono armazenado por elas é liberado de volta na atmosfera,contribuindo para o aumento de gases do efeito estufa. Daí rma-se a importância de manter as orestas virgens vivas como preceito fundamental, não somente porque elas reduzem a quantidade de carbono no ar, mas porque também são grandes reservatórios de carbono em si10. No que tange à dados, Robinson ainda relata que nos últimos quarenta anos, mais de 1 bilhão de acres de oresta tropical em todo o mundo foram cortados por madeireiras, mineradoras e atividades exploratórias; e que, esse ritmo de desmatamento é tão vasto que constitui a segunda maior causa de aquecimento global. Em desespero silencioso encontram-se os cidadãos e habitantes da República de Kiribati. Localizado no Pacíco, entre o Havaí e a Austrália, o pequeno país é composto de 33 atóis de corais e ilhas de recife, tendo pouco mais de 100 mil habitantes. A causa da angústia dessa nação são as previsões trazidas pela crise climática, apontando que, nesse ritmo hodierno, com o derretimento do gelo – causado pelo aumento da temperatura do planeta -, aumentará o nível do mar de maneira a submergir todas as suas ilhas. Além do explícito medo de ser engolido pelo mar, o país ainda enfrenta consequências econômicas e sociais advindas da questão ambiental. Robinson conta que os altos níveis de desenvolvimento da população e migração para a capital exacerbaram a vulnerabilidade dos atóis, enquanto a pobreza, uma superpopulação e os problemas sanitários começaram a esgotar os recursos hídricos já escassos da ilha11. Como medida preventiva emergencial, o ex-presidente de Kiribati, Anote Tong, em seu mandato, realizou a compra de 6 mil acres de terra reorestada em Vanua Levu, ilha do arquipélago de Fiji. A estratégia de Tong serviu incidentalmente de alerta à comunidade internacional sobre o volume das águas e o futuro de arquipélagos e países-ilha; o que, metaforicamente, emerge à superfície a questão transnacional da jurisdição político-jurídica nessas terras adquiridas como plano B, merecendo um Só Planeta. Disponível em: https://umsoplaneta.globo.com/sociedade/noticia/2022/07/13/ justica-climatica-e-tema-de-novo-anuario-de-sustentabilidade-do-um-so-planeta.ghtml. Acesso em: 23 jul. 2022. 10 ROBINSON, Mary. Justiça climática: Esperança, resiliência e a luta por um futuro sustentável. 1. ed. Rio de Janeiro, RJ: Civilização Brasileira, 2021. p. 15-184. 11 ROBINSON, Mary. Justiça climática: Esperança, resiliência e a luta por um futuro sustentável. 1. ed. Rio de Janeiro, RJ: Civilização Brasileira, 2021. p. 15-184. Anuário do Programa de Pós-Graduação Stricto SenSu em Direito 79 artigo próprio para justo aprofundamento de estudo. No que tange à desigualdade – exacerbada pela crise climática – em sociedades como a da nação Kiribati, o que causa maior aborrecimento é a injustiça causada aos sujeitos. Isto porque, populações como estas não são as principais responsáveis pela crise climática, mas, no entanto, são as que mais sofrem com ela. Isso é (In)justiça Climática. De maneira clara, Veiga12, discorrendo sobre tratados internacionais pautados nos compromissos com a Sustentabilidade, aponta que, do ponto de vista ético, as responsabilidades nacionais deveriam ser proporcionais às emissões decorrentes do consumo da população de cada país, combinadas às suas diferentes capacidades de inovação tecnológica para a transição a uma economia de baixo carbono. Aqui elucida-se que, no tangente à países signatários de hipotético acordo, a ideia de ‘‘cada um fazer uma parte’’, de maneira geral não seria eticamente ecaz, isso porque não estaria sendo observada a proporcionalidade dos danos causados por cada respectivo país versus sua responsabilidade de atuação na remediação. Fora do âmbito hipotético, a proporcionalidade já foi – e ainda é – empregada em convenções e acordos internacionais, porém carece de aperfeiçoamento. Conforme discorrido por Veiga13, o terceiro artigo da Convenção-quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, assinada na Rio-9214, propôs o princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas, que alocou o peso das responsabilidades para os países pioneiros na Revolução Industrial, em sua maioria europeus. Deve-se frisar que o maior causador do ‘‘problema da camada de ozônio’’ são os Estados Unidos, que desviaram de tais responsabilidades de maneira esquiva. Posteriormente, em Copenhagen 200915, Estados Unidos e China – outro país escorregadio das amarras signatárias – conseguiram manter 12 VEIGA, J. E. D. A desgovernança mundial da Sustentabilidade. 1. ed. São Paulo: 34, 2013. 13 VEIGA, J. E. D. A desgovernança mundial da Sustentabilidade. 1. ed. São Paulo: 34, 2013. 14 A Conferência Rio-92 foi a primeira Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. Realizada no Rio de Janeiro em 1992, a Conferência teve desdobramentos importantes dos pontos de vista cientíco, diplomático, político e na área ambiental, além de ceder espaço a debates e contribuições para o modelo de desenvolvimento ambientalmente sustentável. Disponível em: https://www.politize.com.br/eco-92/. Acesso em: 21 jul. 2022. 15 A Conferência de Copenhague marcou o ápice de um processo de dois anos de negociações sobre um novo acordo climático, iniciado no Plano de Ação de Bali em 2007. A COP15 / MOP5 reuniu um público sem precedentes na história das Conferências, contando com a presença de cerca de 115 líderes mundiais e mais de 40.000 pessoas representando governos, organizações não governamentais, imprensa, entre outros. Disponível em: https://cetesb. sp.gov.br/proclima/conferencia-das-partes-cop/cop-15-mop-5-copenhague-dinamarca- dezembro-de-2009/. Acesso em: 21 jul. 2022. 80 Anuário do Programa de Pós-Graduação Stricto SenSu em Direito seu status qu atendo-se a um jogo diplomático que ndou com a aparente culpa da China no taxado fracasso da Conferência. Robinson, que esteve presente e participou ativamente na discussão e estruturação do Acordo de Paris, em 2015, relata que, depois de duas semanas intensas de negociação, a assinatura do Acordo não foi apenas uma virada histórica na corrida para prevenir as consequências desastrosas de um planeta superaquecido, mas também signicou uma inequívoca conrmação dos princípios da justiça climática16. A autora conta que os arquitetos do acordo reconheceram no texto a importância da justiça climática, comprometendo-se com os direitos humanos e a igualdade de gênero, bem como, estabelecendo um sistema de scalização dos avanços em nível nacional e – nalmente –, convenceram os países ricos a nanciarem ações de intervenção climática em países mais pobres. Nota-se, porém, que mesmo tendo-se acordado em nanciamentos para gestão da crise climática em países vulneráveis, não foi mencionada a disparidade catastróca de “contribuição” para a problemática climática entre as potências mundiais da revolução industrial e os demais países, muito menos citada a responsabilidade proporcional dos respectivos produtores de poluentes. No entanto, a COP2617, ocorrida em novembro de 2021, galgou com sucesso os campos dessa discussão, trazendo-a de volta à mesa. A discussão sobre “quem contribui mais” para a degradação climática foi um dos tópicos mais frequentes da conferência ambiental global. O acordo implica a responsabilidade nanceira de países ricos a arcar nanceiramente com as consequências do aumento das temperaturas, já que, de acordo com dados do Global Carbon Project18, 23 países desenvolvidos – que correspondem a apenas 12% da população global – são responsáveis por metade de todas as emissões de CO2 desde 185019. Destes, o ranking de 2021 traz como maiores poluentes os Estados Unidos, seguidos pela rápida ascensão da China e da Índia. 16 ROBINSON, Mary. Justiça climática: Esperança, resiliência e a luta por um futuro sustentável. 1. ed. Rio de Janeiro, RJ: Civilização Brasileira, 2021. p. 15-184. 17 Conferência do Clima da ONU realizada em Glasgow, Escócia, em 2021. OECO. COP 26– Entenda os principais termos da Conferência do Clima da ONU. Disponível em: https:// oeco.org.br/noticias/cop26-entenda-os-principais-termos-da-conferencia-do-clima-da-onu/. Acesso em: 22 jul. 2022. 18 GLOBAL CARBON ATLAS. CO2 Emissions. Disponível em: http://www.globalcarbonatlas. org/en/CO2-emissions. Acesso em: 22 jul. 2022. 19 PODER 360. Saiba quais países são os principais responsáveis pelas mudanças climáticas. Disponível em: https://www.poder360.com.br/internacional/saiba-quais-paises-sao-os- principais-responsaveis-pelas-mudancas-climaticas/. Acesso em: 22 jul. 2022. Anuário do Programa de Pós-Graduação Stricto SenSu em Direito 81 Em defesa, os Estados Unidos e a União Europeia alegaram que o mundo nunca será capaz de minimizar os danos do aquecimento global se nações em rápida industrialização – como é o caso da Índia – não façam mais para reduzir suas emissões. Ocorre, porém, conforme alegado pelos representantes indianos, que há muito mais pessoas na Índia do que nas duas regiões (EUA e UE) juntas, de forma que as emissões por habitante na Índia seriam inferiores ao registrado nos respectivos territórios. Ainda assim, em notável predisposição, Nova Délhi elencou como meta zerar as emissões líquidas de carbono até 2070 e pediu ajuda nanceira para substituir o carvão por uma energia mais limpa20. Para Veiga, deve-se supor que, tanto quanto a estabilidade e a paz globais, uma governança efetiva da sustentabilidade dependerá essencialmente da relação em que essa nova grande potência mantiver com os Estados Unidos21. Isso porque, obviamente, questões globais como proliferação nuclear, mudanças climáticas e segurança energética possuem forte risco econômico, exigindo uma intensa cooperação global. Disso, deve-se notar que ainda há muita resistência dos países ricos e desenvolvidos em aceitar sua respectiva cota de responsabilidade sustentável; tais potencias temem em responder ao apelo e arcar com um mecanismo de nanciamento para perdas e danos e, incidentalmente abrir espaço para outras reivindicações de responsabilidade. Em medida exemplar, apenas o governo da Escócia se dispôs a pagar US$ 2,7 milhões para vítimas de desastres climáticos, o que, espera-se, seja apenas o começo22. Ao mesmo tempo, judicialização das questões climáticas no Brasil ganha força e acolhida e demonstra que o acesso à justiça climática não pode ser apenas um compromisso retórico de governo, mas deve integrar uma pauta axiológica que encontra respaldo em diversos direitos fundamentais, inclusive das futuras gerações 20 PODER 360. Saiba quais países são os principais responsáveis pelas mudanças climáticas. Disponível em: https://www.poder360.com.br/internacional/saiba-quais-paises-sao-os- principais-responsaveis-pelas-mudancas-climaticas/. Acesso em: 22 jul. 2022. 21 VEIGA, J. E. D. A desgovernança mundial da Sustentabilidade. 1. ed. São Paulo: 34, 2013. 22 PODER 360. Saiba quais países são os principais responsáveis pelas mudanças climáticas. Disponível em: https://www.poder360.com.br/internacional/saiba-quais-paises-sao-os- principais-responsaveis-pelas-mudancas-climaticas/. Acesso em: 22 jul. 2022. 82 Anuário do Programa de Pós-Graduação Stricto SenSu em Direito 3 A sustentabilidade social na justiça climática Leonardo Bo23 traz a Sustentabilidade como um conjunto de processos e ações que se destinam a manter a vitalidade e a integridade da Terra, bem como a preservação de seus ecossistemas, o atendimento das necessidades intergeracionais, a expansão e a realização das potencialidades da civilização humana em suas várias expressões. Freitas24 vai além, rmando logo na introdução de sua obra que a Sustentabilidade merece ser acolhida como princípio constitucional com alcance de longo prazo; que determina promover o desenvolvimento propício ao bem-estar pluridimensional25, com reconhecimento da titularidade de direitos fundamentais das gerações presentes e futuras. Ambos os autores, em conversação uida entre suas obras propedêuticas do estudo da Sustentabilidade, concordam indubitavelmente acerca da responsabilidade intergeracional como ponto nevrálgico, assim como a busca pela preservação do planeta Terra e seus recursos naturais. No entanto, enquanto Bo discorre sobre como chegamos até aqui e a culpa humana na iminente catástrofe climática global, Freitas aborda os termos e a doutrina formal do estudo da Sustentabilidade. Citando Freitas, a sustentabilidade não é considerada um tema efêmero ou de ocasião, mas a prova viva da emergência de racionalidade dialógica, interdisciplinar, colaborativa, aberta e prospectiva de consequências diretas e indiretas26. Na visão interdisciplinar, remete-se à pluridimensionalidade mencionada alhures abrangendo as áreas social, econômica, ética, ambiental e jurídico-política, ramicando-se de maneira a buscar um modus operandi sustentável em sua totalidade. O princípio da Sustentabilidade independe de regulamentação legal; é o princípio constitucional que determina, direta e indiretamente, a responsabilidade do Estado e da sociedade pela concretização solidária do desenvolvimento material e imaterial, socialmente inclusivo, durável e equânime, ético e eciente, inovador e, principalmente, ambientalmente limpo, o intuito de assegurar – de modo preventivo e precavido – o direito 23 BOFF, Leonardo. Sustentabilidade: O que é - O que não é. 5. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2016. p. 13-190. 24 FREITAS, Juarez. Sustentabilidade: Direito ao futuro. 4. ed. Belo Horizonte: Fórum, 2019. p. 15-346. 25 Por pluridimensional entendem-se os âmbitos social, econômico, ético, ambiental e jurídico- político. 26 FREITAS, Juarez. Sustentabilidade: Direito ao futuro. 4. ed. Belo Horizonte: Fórum, 2019. p. 15-346. Anuário do Programa de Pós-Graduação Stricto SenSu em Direito 83 ao bem-estar intergeracional. Incide de maneira vinculante em todas as províncias de sistema jurídico-político, com capacidade biológica e institucional de promover o multifacetado reequilíbrio necessário27. Aqui, traz-se novamente Mary Robinson à cena: há a necessidade de preocupação e planejamento Estatal de como lidar com os diretamente afetados pela (in)justiça climática. Conceitualmente, McKenzie explica que a Sustentabilidades Social ocorre quando os processos formais e informais, sistemas, estruturas e relacionamentos suportam ativamente a capacidade atual e das gerações futuras de criar comunidades saudáveis e viáveis. O autor ainda frisa que comunidades socialmente sustentáveis são equitativas, variadas, conectadas e democráticas, além de promoverem uma boa qualidade de vida28. Adentra-se no que Dias e Aquino nos trazem acerca da Sustentabilidade Social, que a percepção da faceta social da Sustentabilidade é exposta como braço umbilical das ideias econômicas e ambientais, de maneira que a visão da Sustentabilidade exclusivamente focada no meio ambiente deixava descoberto aspectos relevantes, motivando assim a sua expansão para abranger a complexidade contemporânea29. Há mais em sustentabilidade – e em desenvolvimento sustentável – do que o viés econômico e ambiental; há o modo de integração e contexto social que necessita de saúde e equilíbrio para estabilizar-se sustentavelmente e – quiçá – desenvolver-se. Brilhantemente, Dias e Aquino dissertam que a Sustentabilidade social somente assegura a sua homeostase entre as macro e microestruturas sociais na medida em que se reconhece a importância da dimensão relacional entre humanos e não humanos. Trata-se de uma perspectiva includente de todas as vidas30. Certamente, os atingidos pela crise climática estão entre ‘‘todas as vidas’’. Faz-se necessária solidariedade, empatia e, principalmente, responsabilidade ética para com eles. 27 BOFF, Leonardo. Sustentabilidade: O que é - O que não é. 5. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2016. p. 13-190. 28 MCKENZIE, Stephen. Social sustainability: towards some denitions. Hawke Research Institute. Working Paper Series,n. 27. Magill: South Australia, 2004. 29 DIAS, Felipe da Veiga; AQUINO, Sérgio Ricardo Fernandes de. SUSTENTABILIDADE SOCIAL: REFLEXÕES EM BUSCA DE UMA SOCIEDADE MAIS JUSTA. Revista Jurídica (FURB), [S.l.], v. 23, n. 50, p. e7334, ago. 2019. ISSN 1982-4858. Disponível em: . Acesso em: 22 jul. 2022. 30 DIAS, Felipe da Veiga; AQUINO, Sérgio Ricardo Fernandes de. SUSTENTABILIDADE SOCIAL: REFLEXÕES EM BUSCA DE UMA SOCIEDADE MAIS JUSTA. Revista Jurídica (FURB), [S.l.], v. 23, n. 50, p. e7334, ago. 2019. ISSN 1982-4858. Disponível em: . Acesso em: 22 jul. 2022. 84 Anuário do Programa de Pós-Graduação Stricto SenSu em Direito Possuímos um destino comum, conforme dito por Bo. Tão importante quanto a interdependência global, é a relevância da responsabilidade universal, o que signica a importância de tomar em alta consideração as consequências benécas ou malécas de nossos atos, nossas políticas e das intervenções que fazemos no meio ambiente31. Deste, resta aludir o dito por Bosselman32 no que conceitua a expressão ‘‘meio ambiente’’ referindo-se a todo o espectro de atividades humanas, incluindo impactos ecológicos diretos, empreendimentos econômicos, interações sociais e políticas públicas. O autor arma que, dependendo de como, restrita ou amplamente, o meio ambiente é legalmente denido, teremos a determinação do escopo e do caráter integrativo do direito ambiental. Imprescindível na temática é aludir à teoria do tripé sustentável de Canotilho. Segundo a teoria, a sustentabilidade em sentido amplo procura captar aquilo que a doutrina atual designa por “três pilares da sustentabilidade”: (i) pilar I – a sustentabilidade ecológica; (ii) pilar II – a sustentabilidade económica; (iii) pilar III – a sustentabilidade social. Aponta que, neste sentido, a sustentabilidade perla-se como um “conceito federador” que, progressivamente, vem denindo as condições e pressupostos jurídicos do contexto da evolução sustentável33. Ademais, da Sustentabilidade em sua dimensão social, Freitas disserta que reclama o incremento da justiça intergeracional, uma governança includente e engajamento na causa do desenvolvimento que perdure e permita à sociedade sobreviver a longo prazo – e no pleno respeito aos demais seres vivos34. O autor vai além e arma que de nada adianta idolatrar a eciência se esta conspirar pela ausência de compromisso com a ecácia multidimensional. Conforme a narrativa do autor, a Sustentabilidade é multidimensional porque o bem-estar é multidimensional. Para consolidá-la é indispensável cuidar da esfera ambiental, sem ofender a social, a econômica, a ética e a jurídico-política. A partir disso, é visível a prerrogativa de que para crises 31 PODER 360. Saiba quais países são os principais responsáveis pelas mudanças climáticas. Disponível em: https://www.poder360.com.br/internacional/saiba-quais-paises-sao-os- principais-responsaveis-pelas-mudancas-climaticas/. Acesso em: 22 jul. 2022. 32 BOSSELMANN, Klaus. O princípio da sustentabilidade: transformando direito e governança. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2015 33 CANOTILHO, José Joaquim Gomes. O Princípio da sustentabilidade como Princípio estruturante do Direito Constitucional. Tékhne – Revista de Estudos Politécnicos. n. 13, p. 07-18, 2010. 34 BOFF, Leonardo. Sustentabilidade: O que é - O que não é. 5. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2016. p. 13-190. Anuário do Programa de Pós-Graduação Stricto SenSu em Direito 85 sistêmicas, são necessárias soluções sistêmicas35. 4 O Estado sustentável Em ‘‘A desgovernança mundial da Sustentabilidade’’, Veiga expõe que os 3 pilares problemáticos a serem discutidos abertamente e reestruturados são as desigualdades, as tendências de mudança e, por m, a arquitetura organizacional em si36. Em outras palavras, precisamos nos adaptar e fazer as mudanças – e concessões – necessárias, de maneira organizada e ecaz, norteados pelo princípio da Sustentabilidade e na solidariedade intergeracional. Para isso, precisamos que o Estado ande conosco para frente, fomentando políticas de combate à desigualdade, fazendo balizamento e controle de poluentes, além de salvaguardar a natureza e fazer prevalecer os direitos fundamentais. A criação de um modo sustentável de vida é o grande propósito, argumenta Bo37, a concepção de sustentabilidade não pode ser reducionista e aplicar-se apenas ao crescimento e desenvolvimento, conforme modelo hodierno. Deve cobrir todos os territórios da realidade, abrangendo aos sujeitos individuais, às comunidades, à cultura, à política, à indústria, às cidades e, principalmente, ao Planeta Terra e seus ecossistemas. Com isso em mente, o autor completa que o modo sustentável deve ser implementado e visto em todos os níveis: local, regional, nacional e global. Para isso, deve- se aludir às responsabilidades estatais. O paradigma do Estado Sustentável oferece chance ímpar à responsabilidade intergeracional do Estado, nas suas múltiplas dimensões, isto é, responsabilização ética, jurídico-política, ambiental, social e econômica38. Conceitualmente, um Estado Sustentável vitaliza a participação engajada e instaura conança intertemporal nas esferas públicas e privadas, bem como, é um Estado que fornece qualidade nos serviços essenciais, priorizando princípios e direitos fundamentais. Freitas vai além e ainda aponta: O Estado Sustentável é o Estado 35 BOFF, Leonardo. Sustentabilidade: O que é - O que não é. 5. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2016. p. 13-190. 36 VEIGA, J. E. D. A desgovernança mundial da Sustentabilidade. 1. ed. São Paulo: 34, 2013. 37 PODER 360. Saiba quais países são os principais responsáveis pelas mudanças climáticas. Disponível em: https://www.poder360.com.br/internacional/saiba-quais-paises-sao-os- principais-responsaveis-pelas-mudancas-climaticas/. Acesso em: 22 jul. 2022. 38 BOFF, Leonardo. Sustentabilidade: O que é - O que não é. 5. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2016. p. 13-190. 86 Anuário do Programa de Pós-Graduação Stricto SenSu em Direito que controla e scaliza, sem perpetuar o triunfo opressivo dos métodos de comando e controle; é o Estado que transaciona sem abrir mão do genuíno interesse universalizável; é, por m, o Estado permeável à governança global, participa ativamente dos eventos, reuniões e discussões para resolução da problemática crise climática global. Nesse modelo paradigmático, rma-se a responsabilidade objetiva sustentável do Estado, vinculando-a não somente a ações, mas as consequências de sua inércia. Freitas dispõe taxativamente que se congura lesiva a omissão inconstitucional que nasce do descumprimento do dever de formular e implementar as políticas da sustentabilidade39 e que, ao Poder Público incumbe acatar medidas tidas como prioridade pela Constituição, isto é, ter discricionariedade ético-sustentável. Ademais, o autor arma que resta congurado o nexo de causalidade entre a inércia inconstitucional e o evento danoso na circunstância da desídia estatal quanto às providências acautelatórias, por exemplo, na remoção de pessoas que vivem em áreas de risco, bem como na omissão injusticável de scalização ambiental. Peter Haberle40 dispôs recentemente que é tempo de considerar a sustentabilidade como elemento estrutural típico do Estado que hoje designamos Estado Constitucional. A armação recebe respaldado de Canotilho41, que corrobora rearmando que a sustentabilidade se congura como uma dimensão autocompreensiva de uma constituição que leve a sério a salvaguarda da comunidade política em que se insere. O autor português abre o leque de princípios estruturantes do Estado Constitucional – democracia, liberdade, juridicidade, igualdade –, apontando o princípio da sustentabilidade como um princípio aberto carecido de concretização conformadora e que não transporta soluções prontas, vivendo de ponderações e de decisõesproblemáticas. De acordo com Canotilho, é possível recortar, desde logo, o imperativo categórico que está na génese do princípio da sustentabilidade e da evolução sustentável. Aponta que os humanos devem organizar os seus comportamentos e ações de forma a não viverem às custas da natureza, de 39 BOFF, Leonardo. Sustentabilidade: O que é - O que não é. 5. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2016. p. 13-190. 40 Cfr. PETER HÄBERLE, “Nachhaltigkeit und Gemeineuropäisches Verfassungsrecht”, in WOLFGANG KAHL (org.), achhaltigkeit als Verbundbegri, Tübingen, 2008, p. 200. 41 PODER 360. Saiba quais países são os principais responsáveis pelas mudanças climáticas. Disponível em: https://www.poder360.com.br/internacional/saiba-quais-paises-sao-os- principais-responsaveis-pelas-mudancas-climaticas/. Acesso em: 22 jul. 2022. Anuário do Programa de Pós-Graduação Stricto SenSu em Direito 87 outros seres humanos, de outras nações e, conforme visto alhures, de outras gerações. O autor ainda explica que, em termos mais jurídico-políticos, dir- se-á que o princípio da sustentabilidade transporta três dimensões básicas: (1) a sustentabilidade interestatal, impondo a equidade entre países pobres e países ricos; (2) a sustentabilidade geracional que aponta para a equidade entre diferentes grupos etários da mesma geração; e (3), a sustentabilidade intergeracional42. Outrossim, há de se frisar a importância do princípio constitucional da prevenção43 – sobressaindo-se ao da precaução -, vinculado ao Direito Administrativo e ao Direito Ambiental, que determina a observância diligente, eciente e ecaz, de impedir o nexo causal de danos perfeitamente previsíveis, sob pena de responsabilização objetiva do Estado44. O ponto nevrálgico no cerne do Estado Sustentável é que não se admite a omissão do Estado. A inércia nociva passa a ser vista como causa jurídica do evento danoso. Em suma, nos moldes do princípio da prevenção, antevê-se, com segurança, o resultado negativo e, correspondentemente, nos limites de atribuições, surge a obrigação do Estado tomar medidas interruptivas da rede causal, de modo a tentar evitar o dano45. Alude-se ainda, que, no princípio da prevenção, cabe ao Estado o ônus de produzir prova de excludente do nexo de causalidade intertemporal. No que tange à política sustentável, Freitas arma que deve incentivar a crescente descarbonização, postular uma democracia descentralizada – distribuída, limpa e digital -, em paralelo com o bom governo, numa categórica rejeição à plutocracia e ao coronelismo46. O Estado Sustentável ecaz e bem governado não deve ser suscetível a falácias omissivas, nem tráco de inuências ou ao Patrimonialismo; tampouco deve ater-se ao mercenarismo como em uma ‘‘democracia patrocinada’’47. Deve-se seguir uma política sustentável sob primazias insosmáveis que salvaguardem os 42 PODER 360. Saiba quais países são os principais responsáveis pelas mudanças climáticas. Disponível em: https://www.poder360.com.br/internacional/saiba-quais-paises-sao-os- principais-responsaveis-pelas-mudancas-climaticas/. Acesso em: 22 jul. 2022. 43 O princípio da prevenção baseia-se na alta e intensa probabilidade de dano e, a atribuição e possibilidade de o Poder Público evitar o dano social, econômico ou ambiental. 44 BOFF, Leonardo. Sustentabilidade: O que é - O que não é. 5. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2016. p. 13-190. 45 BOFF, Leonardo. Sustentabilidade: O que é - O que não é. 5. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2016. p. 13-190. 46 BOFF, Leonardo. Sustentabilidade: O que é - O que não é. 5. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2016. p. 13-190. 47 Termo utilizado por Freitas para remeter a ideia do cidadão sendo visto como mero objeto, um sujeito votante, um voto. 88 Anuário do Programa de Pós-Graduação Stricto SenSu em Direito direitos fundamentais intergeracionais e trabalhem para resolução da crise climática. Dito isso, é seguro presumir que o Estado Sustentável é o modelo desejável, mas que ainda carece de abordagem balizada no que diz respeito a priorizar a Sustentabilidade acima do crescimento econômico, conforme buscado hodiernamente. A sustentabilidade social só pode ser alcançada com a inserção da equidade e de uma visão eticamente orientada48. Nascimento expressa que a noção da Sustentabilidade social denota a impossibilidade de manter uma sociedade fundada no consumo irrestrito, na pobreza e desigualdade; por isso a necessidade imperativa de abordar com maiores holofotes o papel do Estado. De tal maneira, em cogência com o referenciado por Robinson no que tange as consequências da injustiça climática, consegue-se erguer uma ponte ligando a responsabilidade Estatal com os sujeitos afetados pela crise climática, iluminando de maneira clara e ecaz o vínculo estabelecido da necessidade expressa de ação por parte de todos os seres humanos como sujeitos causadores da crise, mas também, em especíco, dos países proporcionalmente responsáveis pela exacerbação da mesma. Findando, é possível concluir de mesmo modo a responsabilidade emergente de implementação do modelo de Estado Sustentável ecaz, buscando galgar resultados na remediação e tratamento para recuperação do Planeta Terra e seus inquilinos. 5 Considerações finais A partir da pesquisa exposta, entende-se que a sustentabilidade não é considerada um tema efêmero ou de ocasião, mas a prova viva da emergência de racionalidade dialógica, interdisciplinar, colaborativa, aberta e prospectiva de consequências diretas e indiretas49. Nas palavras de Freitas, o desenvolvimento sustentável experimenta sensível reconguração para se tornar eticamente consistente. Todo e qualquer desenvolvimento que se mostra, a longo prazo, negador da dignidade dos seres vivos em geral, mesmo que pague dividendos imediatos, será tido como insustentável. 48 NASCIMENTO, Elimar Pinheiro do. Trajetória da sustentabilidade: do ambiental ao social, do social ao econômico. Estudos avançados, 26 (74), 2012. p. 51 – 64. 49 BOFF, Leonardo. Sustentabilidade: O que é - O que não é. 5. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2016. p. 13-190. Anuário do Programa de Pós-Graduação Stricto SenSu em Direito 89 Posto isso, cumpriu-se o objetivo geral de estudo, armando que a justiça climática carece e merece maior enfoque – ademais exploração acadêmica – para ns de melhor entender o papel da Sustentabilidade Social em balizar os efeitos da crise climáticas e de suas respectivas consequências em esfera local, regional, nacional e global. A metodologia se mostrou ecaz ao conciliar doutrina com os casos concretos trazidos à tona, além de demonstrar a trajetória da discussão do tema justiça climática em âmbito transnacional, apontando o contexto de responsabilização ética e social dos países mais poluidores. Os autores utilizados muito enriqueceram o texto da pesquisa, acrescentando maior credibilidade acadêmica e respaldo de conhecimento doutrinário. Por m, resta comprovado o ideal de modelo de Estado Sustentável apresentado como uma das melhores ferramentas a serem empregadas na resolução dos muitos problemas trazidos pela hodierna crise climática global, em conjunto com a adoção de um novo estilo de governança colaborativa global50, digital e em rede, com segurança energética, reprogramação do plexo normativo regulatório, além, é claro, da conscientização universal e busca por um modo de vida sustentável. Citando Robinson pela última vez, será necessário começar a lançar sementes de solidariedade humana e compaixão. A ameaça existencial da mudança climática deixou claro como nunca a nossa interconexão, a nossa dependência mútua51. Nenhum país poderá avançar sozinho, e a questão é grave demais para deixar exclusivamente nas mãos de políticos; deve-se cobrar os governos para que mantenham seus compromissos signatários e incentivar iniciativas sustentáveis em todos os âmbitos e esferas, começando por nossas próprias casa. Referências BOFF, Leonardo. Sustentabilidade: O que é - O que não é. 5. ed.Petrópolis, RJ: Vozes, 2016. p. 13-190. BOSSELMANN, Klaus. O princípio da sustentabilidade: transformando direito e governança. São Paulo: Revista dos Tribunais, 50 BOFF, Leonardo. Sustentabilidade: O que é - O que não é. 5. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2016. p. 13-190. 51 ROBINSON, Mary. Justiça climática: Esperança, resiliência e a luta por um futuro sustentável. 1. ed. Rio de Janeiro, RJ: Civilização Brasileira, 2021. p. 15-184. 90 Anuário do Programa de Pós-Graduação Stricto SenSu em Direito 2015. CANOTILHO, José Joaquim Gomes. O Princípio da sustentabilidade como Princípio estruturante do Direito Constitucional. Tékhne – Revista de Estudos Politécnicos. n. 13, p. 07-18, 2010. Cfr. PETER HÄBERLE, “Nachhaltigkeit und Gemeineuropäisches Verfassungsrecht”, in WOLFGANG KAHL (org.), Achhaltigkeit als Verbundbegri, Tübingen, 2008, p. 200. CETESB. COP15 / MOP5 – Copenhague, Dinamarca (dezembro de 2009). 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