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CONTROLADORIA E GESTÃO DE TRIBUTOS
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Sumário
NOSSA HISTÓRIA ..................................................................................................... 3
1 - INTRODUÇÃO ...................................................................................................... 4
1 – ESPÉCIES DE TRIBUTO ..................................................................................... 5
1.1 - Impostos ........................................................................................................ 5
1.2 - Impostos Federais - Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) ............... 7
1.3- Impostos sobre o Comércio Exterior-Imposto de importação ............................. 9
1.4 - Imposto de Exportação .................................................................................... 10
1.5 - Impostos Estaduais .......................................................................................... 10
1.6 - Benefícios Fiscais Relacionados ao ICMS ....................................................... 15
1.7 - Benefícios Relacionados ao Financiamento do ICMS ..................................... 16
1.8 - Impostos Municipais- Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISS) .... 17
1.9 - IPTU ................................................................................................................. 18
2 – TAXAS ......................................................................................................... 20
3 - CONTRIBUIÇÕES DE MELHORIA .............................................................. 21
3.1 - Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) ...................................... 22
3.2 - Contribuição Social sobe o Faturamento (COFINS).................................... 22
3.3 - Contribuição para o PIS/PASEP .................................................................. 23
3.4 – CPMF .......................................................................................................... 23
3.5 - Regimes Aduaneiros Gerais ........................................................................ 26
3.6 - Trânsito Aduaneiro ....................................................................................... 26
3.7 - Admissão Temporária .................................................................................. 27
3.8 – Drawback .................................................................................................... 27
3.9 - Entreposto Aduaneiro................................................................................... 29
3.10 - Entreposto Industrial ................................................................................. 30
3.11 - Exportação Temporária ............................................................................ 30
3.12 - Regimes Especiais ................................................................................... 31
3.12.1–FUNDAP ...................................................................................................... 31
3.12.2 - Exemplo de Operação ................................................................................ 33
3.12.3- SUFRAMA.................................................................................................... 34
3.13 - Competência Tributária ............................................................................. 35
3.14 - Guerra Fiscal.................................................................................................. 37
3.14 - Reforma Tributária .................................................................................... 41
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Da contabilidade à controladoria: a evolução necessária ........................................ 43
1. Introdução ............................................................................................................ 43
1.1. A Evolução da Contabilidade ............................................................................ 44
2. A EVOLUÇÃO (REVOLUÇÃO) NECESSÁRIA .................................................... 51
2.1. Primeiro eixo de transformação: As organizações existem para a produção de
valor ......................................................................................................................... 52
2.2. Segundo eixo de transformação: A Controladoria Deve Ser Estratégica .......... 55
2.3. Terceiro eixo: A transformação produtiva se faz através dos processos .......... 60
2.4. Quarto eixo: Os recursos constituem a base da competitividade ...................... 63
2.5. Eixo de Síntese: A avaliação de desempenho deve ser integrada ................... 66
2.6. Conclusão: A Grande Travessia da Contabilidade à Controladoria .................. 70
BIBLIOGRAFIA ........................................................................................................ 73
3
NOSSA HISTÓRIA
A nossa história inicia-se com a ideia visionária e da realização do sonho de
um grupo de empresários na busca de atender à crescente demanda de cursos de
Graduação e Pós-Graduação. E assim foi criado o Instituto, como uma entidade capaz
de oferecer serviços educacionais em nível superior.
O Instituto tem como objetivo formar cidadão nas diferentes áreas de
conhecimento, aptos para a inserção em diversos setores profissionais e para a
participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e assim, colaborar na sua
formação continuada. Também promover a divulgação de conhecimentos científicos,
técnicos e culturais, que constituem patrimônio da humanidade, transmitindo e
propagando os saberes através do ensino, utilizando-se de publicações e/ou outras
normas de comunicação.
Tem como missão oferecer qualidade de ensino, conhecimento e cultura, de
forma confiável e eficiente, para que o aluno tenha oportunidade de construir uma
base profissional e ética, primando sempre pela inovação tecnológica, excelência no
atendimento e valor do serviço oferecido. E dessa forma, conquistar o espaço de uma
das instituições modelo no país na oferta de cursos de qualidade.
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1 - INTRODUÇÃO
Tributo é toda prestação pecuniária compulsória em moeda ou cujo valor nela se
possa exprimir, que não constitua sanção de ato ilícito, instituída em lei e cobrada
mediante atividade administrativa plenamente vinculada. O conjunto de tributos e
normas para aplicação são descritos no Código Tributário Nacional (CTN).
O CTN deve ser entendido como o conjunto de tributos, de instituições dotadas de
poder conferido pelo Direito Tributário, de regras tributárias e, mesmo, de práticas
aceitas pelos órgãos e entidades da Administração Pública, desde que, no seu
relacionamento, possam produzir efeitos na vida econômica das pessoas com
consequências de ordem tributária.
Inicialmente, o Sistema Tributário Nacional (STN) foi baseado no denominado CTN
pelo art. 7º, do Ato Complementar nº 36/67. Posteriormente, adquiriu o status de lei
complementar quando da Constituição de 1967. Naquela ocasião passou a ser o
instrumento legal com o fim de estabelecer normas gerais de direito tributário, dispor
sobre os conflitos de competência nessa matéria entre União, Estados, Distrito
Federal e Municípios e regular as limitações ao poder de tributar. O texto foi
basicamente utilizado para formular o art. 146 da Constituição de 1981.
O CTN, define as normas de Direito Tributário, as regras de tributação e aplicabilidade
dos tributos de ordem Federal, Estadual e Municipal, assim como suas regras de
aplicação.
Qualquer sistema tributário é mutável ao longo do tempo. Isso se faz necessário para
adequar o sistema de arrecadação do governo às transformações econômicas sociais
e inserir o país no contexto de desenvolvimento contínuo. Dessa forma, o CTN vem
sofrendo alterações contínuas desde 1967 quando da sua primeira promulgação.
Hoje, a carga tributáriaatrair
investimentos, ao contrário, baseia-se na qualidade de vida, capacitação (ensino) e
infraestrutura (transporte, energia, comunicações)”. A concessão generalizada de
incentivos fiscais via ICMS, e seu acoplamento à concessão de créditos subsidiados
e vinculados ao recolhimento de ICMS, constituíram a chamada "guerra fiscal", que
se expandiu de maneira generalizada por todos os estados, principalmente a partir de
1988.
A seguir, a tabela seleciona oito áreas principais nas quais se concentram as
concessões de incentivos estaduais. Os investimentos em capital fixo e capital de giro
são contemplados com incentivos pela maioria dos estados, ou seja, 24 estados em
um total de 27.
40
Fonte: COTEPE/Ministério da Fazenda; Coordenação Geral de Finanças
Públicas/IPEA.
Principais tipos de benefícios fiscais e creditícios concedidos:
41
Fonte: COTEPE/Ministério da Fazenda; elaboração da Coordenação Geral de
Finanças Públicas/IPEA.
Entretanto, aliando-se ao processo de isenção fiscal os estados ainda se submetem
à tentativa de atrair investimentos, fornecendo outros incentivos que não os fiscais,
como por exemplo:
✓ doação de áreas industriais;
✓ execução de obras de terraplanagem;
✓ fornecimento de infraestrutura básica à porta do estabelecimento industrial, tal
como energia elétrica, água, saneamento básico, construção de obras viárias
de acesso (pontes, viadutos), ramais ferroviários, até a construção de creches
e escolas, algumas delas especializadas em línguas estrangeiras e adaptadas
aos currículos escolares de outros países.
Nos casos de indústrias voltadas à exportação, é frequente que os estados se
comprometam com a adaptação de equipamentos portuários.
Assim, o custo inicial de um novo empreendimento industrial para os estados em que
se instalam costuma extrapolar, em volume substancial, àqueles representados pela
simples concessão de benefícios fiscais.
3.14 - Reforma Tributária
É evidente que a atual estratégia de política fiscal e tributária no Brasil está em
desacordo com a intenção do país em manter um crescimento fixo e sustentável.
Edilberto Lima (1999) descreve que a deficiência do sistema tributário nacional tem
origem na Constituição de 1988, que reformulou amplamente o papel do Estado na
economia, inclusive a tributação, e esta vem prejudicando o crescimento sustentável
do país. O governo (Fernando Henrique Cardoso 1994-2002), na tentativa de
promover reformas estruturais, esbarrou no enclave político de interesses diversos,
que inviabilizou politicamente o desenvolvimento de debates que, por sua vez,
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serviriam como alicerce para a construção de propostas a serem discutidas em âmbito
nacional.
A dificuldade está inserida basicamente em compatibilizar os interesses do Governo
Federal, Estados e Municípios, aliados aos interesses econômicos de grupos privados
nacionais. Fernando Rezende (1996) descreve que os debates devem ser de caráter
amplo e não devem ser simplistas, visto a necessidade de uma reforma profunda é
vigente e necessária ao país.
No Governo de Luiz Inácio Lula da Silva, os debates tiveram esbarrados em uma
discussão política, principalmente entre o Governo Federal e os Estados. Estados e
Municípios temiam pela perda de arrecadação. A base da discussão estava voltada
para a arrecadação do ICMS, pois deveria ser na origem ou no destinol. Na proposta
encaminhada ao congresso existia taxação diferenciada para determinados produtos,
onde uns teriam base de arrecadação na origem e outro no destino, como por
exemplo, gasolina que tem tributação no destino para operações interestaduais e na
origem para operações intra- estaduais.
Em suma, a preocupação dos órgãos de arrecadação fiscal, tanto federais quanto
estaduais e municipais é de promover uma estrutura tributária que possibilite uma
fiscalização mais eficiente sem onerar a carga de tributos que, no ano de 2002,
representou 35,6% do PIB. Em 1998, representava 25,6% do PIB, segundo dados da
Receita Federal. Fernando Rezende (1996) descreve que o objetivo da simplificação
está em rever o código tributário brasileiro e os demais dispositivos que controlam a
cobrança de impostos em todo o país e assegurar a estabilidade destas normas por
um longo período de tempo. Já Edilberto Lima (1999), descreve o aumento da carda
tributária desde a constituição de 1988:
✓ em 1989 foi criada a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL);
✓ em 1993, o Imposto Provisório sobre Movimentação Financeira (IPMF);
✓ em 1996, a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF);
Portanto, parece ser de escolha e de interesse nacional uma política tributária mais
eficiente. Apesar de divergências claras a algumas propostas, todas parecem indicar
uma substituição do ICMS, mesmo tendo esse imposto uma recuperação como
instrumento fiscal na última década. A recuperação do ICMS como instrumento de
política fiscal, tal como proposto na emenda constitucional da reforma fiscal
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atualmente em debate, é de grande importância, primeiro por elevar o nível das
arrecadações estaduais de ICMS, uma vez que a adoção do princípio de destino
obrigará cada estado a um maior esforço fiscal; segundo, por contribuir para o esforço
de harmonização da política fiscal global com a política fiscal no nível dos estados.
O Governo estuda nesta reforma tributária a redução de deduções. Até o momento,
não existe uma opinião formada, mas espera-se melhorar o sistema de incentivos dos
setores de tecnologia, comércio exterior, infraestrutura e logística, destinando
recursos às empresas ou setores específicos, mas exigindo uma contra partida,
exigindo que os beneficiários cumpram metas específicas estabelecidas pelo
Governo.
Conforme identificado os tributos que aparentemente oferecem os maiores indícios
de influenciar e eventualmente distorcer o processo decisório relacionado à decisão
de localização de fábricas e CDs, são o ICMS e o ISS, pois são tributos regionais. Ou
seja, tributos estaduais e municipais e, portanto, diferenciados por região.
Da contabilidade à controladoria: a evolução
necessária
1. Introdução
Não pode haver ciência sem um modelo adequado de percepção e
representação da realidade. Neste início do século XXI, já se tornou óbvio que no
ambiente moderno dos negócios uma contabilidade gerencial, que tenha por base um
modelo exclusivamente financeiro, não mais consegue propiciar as informações
necessárias para dar apoio à gestão das empresas nas suas mais importantes
decisões. Para manter a sua relevância decisorial, o modelo contábil financeiro
precisa ser estendido e flexibilizado, incorporando e integrando novas dimensões e
novos instrumentos de pesquisa e avaliação. Esta profunda transformação da
gerencial, que levaria à moderna Controladoria, se faz integrando ao seu modelo
explicativo básico, que é de natureza contábil, a identificação e a avaliação de
variáveis, que têm elevado impacto sobre os resultados das empresas, tais como o
valor dos produtos, os fatores ambientais setoriais e sistêmicos, os processos de
trabalho e os recursos tangíveis e intangíveis mobilizados. Essas novas dimensões
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da Controladoria, quando associadas ao modelo contábil-financeiro, formam um
quadro geral de avaliação do desempenho, que não apenas tem poder explicativo
sobre o estado atual da empresa, mas também permite projeções e simulações de
cenários futuros, dando lugar à exploração de oportunidades e à proteção
ou hedge contra riscos, ambas de vital interesse para os stakeholders de qualquer
empresa. Ao final, procura-se demonstrar quais são as novas posturas, atitudes e
percepções que, ao lado de novas técnicas e instrumentos de trabalho, devem ser
adotados por um contador para se transformar nummoderno Controller.
1.1. A Evolução da Contabilidade
Para a maior parte dos autores, a função da Controladoria é fornecer aos
administradores das empresas a informação que eles precisam para atingir seus
objetivos, de modo eficaz e eficiente. Esta visão assume a seguinte sequência:
Toda e qualquer ciência deve possuir uma representação adequada da
realidade com a qual vai trabalhar. A representação utilizada é fundamental, porque
é dela que decorre a natureza das informações que irão constituir o quadro
interpretativo ou modelo de realidade dessa ciência, o qual irá fundamentar o
recolhimento das informações, que, por sua vez, irão dar base às decisões. Assim, a
sequência completa é a seguinte:
Cada modelo científico tem uma representação mais ou menos simplificada da
realidade, na qual existem variáveis independentes ou causais e variáveis
dependentes ou resultantes, que definem um determinado quadro de consequências,
também chamado de estados ou resultados, que é o que o modelo procura explicar.
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Um modelo, em qualquer campo do conhecimento, somente terá validade
representativa se proporcionar informações relevantes e suficientes para a tomada
de decisões.
Quanto maior for a complexidade de um ambiente, maior será o número de
fatores ou variáveis independentes que, no mundo real, estarão influenciando de
forma essencial o estado final das variáveis resultantes. Tais variáveis independentes
devem, portanto, estar presentes num modelo representativo viável dessa realidade.
Por outro lado, quanto maior for a volatilidade ambiental, maior será a necessidade
de incorporar ao modelo uma representação dinâmica da realidade que seja capaz
não apenas de explicar os estados ou resultados atuais observados, mas a própria
direção e intensidade das mutações futuras.
Nada mais contraproducente e até mesmo perigoso para um tomador de
decisões do que trabalhar com um modelo imperfeito. Determinados modelos ficam
irremediavelmente obsoletos quando se mostram incongruentes e sem capacidade
explicativa em relação à realidade. O modelo de uma terra plana é dessa natureza.
Outros modelos, por sua vez, podem evoluir, não só representando melhor uma
realidade mais complexa através da incorporação de novas variáveis explicativas,
mas também permitindo ao tomador de decisões a oportunidade de simular ou
projetar dinamicamente possíveis estados ou resultados futuros. O modelo contábil-
financeiro está nesta última categoria.
Mas porque o modelo contábil-financeiro precisaria evoluir? Como em qualquer
outra área do conhecimento humano, as inovações em termos da contabilidade de
apoio à gestão sempre aconteceram em consequência ou resposta a necessidades
de informação. No século XV, a contabilidade de dupla-entrada foi inventada para
atender às necessidades de controle dos mercadores venezianos. A partir do
nascimento da revolução industrial, o primeiro sistema de custos foi criado para que
houvesse uma compreensão dos recursos que estavam sendo empregados nos
produtos das novas fábricas. No século XIX, a invenção da estradas de ferro e do
telégrafo encorajou a dispersão das atividades econômicas em vastas extensões
territoriais e testemunhou o advento de grandes companhias de distribuição, fazendo
com que novos indicadores contábeis-financeiros fossem usados para avaliar o
desempenho de cada um desses centros de negócio, muitas vezes separados entre
si por imensas distâncias. No final do século XIX, houve o surgimento dos primeiros
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conglomerados empresariais que forçaram a tecnologia contábil a adaptar-se para
controlar o desempenho e consolidar as atividades de empresas com múltiplas
subsidiárias e unidades de negócio. Com o advento da administração científica de
Taylor e Fayol, no início do século XX, foram criados padrões de tempo e quantidade
para a administração da atividade industrial e a contabilidade respondeu com a
criação dos sistemas de custos-padrões.
O século XX também assistiu ao imenso desenvolvimento dos mercados
financeiros e à emergência das empresas abertas, que são aquelas que têm seus
títulos de participação ou de empréstimos negociados nesses mercados. Desde
19301, para salvaguardar os interesses de investidores, que, em geral, têm interesses
apenas minoritários nas empresas em que aplicaram seu capital, foi totalmente
codificado e altamente regulamentado pelas autoridades um ramo totalmente
diferente da contabilidade: a contabilidade para utilização externa. Para atender aos
seus usuários, esse tipo de contabilidade, também chamada de financeira, precisou
padronizar-se ao redor de determinados princípios gerais amplamente conhecidos,
que seriam as bases da preparação dos demonstrativos contábeis de qualquer
empresa, de forma que qualquer investidor sempre pudesse adequadamente
interpretá-los e compará-los. Entretanto, o Fisco, em todos os países do mundo, logo
se aproveitou dessas regras gerais para exigir que os demonstrativos contábeis, que
são a base do lançamento dos impostos sobre o lucro empresarial, também fossem
preparados segundo tais diretrizes, sempre adicionando, é claro, restrições e aditivos,
que somente atendem aos seus próprios interesses de arrecadação2. A elevadíssima
burocratização, catalogação, regulamentação, desvio do foco gerencial e
subordinação aos interesses fiscais, que ocorreram nesse ramo da contabilidade nas
cinco últimas décadas, fizeram com que ele se tornasse quase totalmente
incapacitado para servir às finalidades da gestão empresarial. Não obstante, ao se
falar em contabilidade no Brasil, mais de 80% das empresas - e um percentual igual
de contadores - trabalham apenas com este tipo de contabilidade.
Isto não quer dizer que a contabilidade gerencial tenha parado totalmente de
evoluir. Acompanhando o desenvolvimento da gestão empresarial que levou à
introdução do TQM, da engenharia convergente, das células de fabricação, da
reengenharia e da introdução de um grau elevadíssimo de automação na manufatura,
a contabilidade propriamente gerencial ainda conseguiu responder com algumas
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-70772002000100001#not1Baixo
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-70772002000100001#not2Baixo
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inovações técnicas, tais como o Activity-Based Costing, os custos de qualidade e
o target costing. Mas, na última década do final do século XX, já havia, como há agora,
uma grande e generalizada percepção de que essas últimas iniciativas e criações
ainda foram bastante insuficientes, porque não conseguiram adaptar integralmente o
modelo e a metodologia contábil às necessidades informativas da gestão moderna,
que se faz dentro de condições de elevadíssima volatilidade e contínuas mudanças.
As causas dessa forte volatilidade são muitas e se reforçam mutuamente. O
ritmo alucinante do desenvolvimento tecnológico e da liberalização do comércio
internacional são dois fatores óbvios (Greider, 1998). A globalização dos mercados
de produtos e de capitais, por exemplo, leva os países a ter de adaptar continuamente
suas economias para conseguir maior abertura e competitividade, com diferentes
graus de sucesso. Para todas as economias, especialmente as dos chamados países
emergentes, esta abertura tem significado variações frequentes e crescentes nas
taxas de câmbio, juros, inflação, emprego e PIB, que têm imensas repercussões
sobre todos os negócios (Hirst & Thompson, 1997; Tavares & Fiori, 1993)3. Por
outro lado, os próprios consumidores, sujeitos a um verdadeiro bombardeio diário de
ofertas concorrentes de produtos e serviços, possuem uma elevadíssima taxa de
mudança de gostos, preferências e hábitos de compra (Slywotzky, 1997), que afeta
as vendas e os resultados empresariais, mesmo em espaços de tempo relativamente
curtos.
Em cada empresa, essa extrema volatilidadeleva inevitavelmente a uma
reorientação de sua administração para o nível estratégico (onde se tomam decisões
sobre o que fazer: os produtos que devem ser oferecidos, os mercados que devem
ser servidos, os recursos a serem mobilizados etc.), dando ênfase menor ao nível
tático (onde se decide como fazer eficientemente o que já foi decidido ser feito: os
tempos de produção, os níveis de atendimento, a qualidade dos produtos e dos
serviços etc.). Quanto maior for a turbulência ambiental, tanto maior será a
necessidade de reconhecer, identificar e rapidamente tomar decisões sobre tópicos
de interesse estratégico. Uma das consequências dessas mudanças foi, por exemplo,
um deslocamento das prioridades empresariais, antes voltadas para dentro e
localizadas na fabricação dos produtos e nos custos industriais, para uma focalização
externa no atendimento do consumidor. A definição empresarial mais fundamental, a
de sua missão, começa hoje com as respostas para as seguintes questões: "Quem
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-70772002000100001#not3Baixo
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são os nossos clientes? Qual é o valor que atribuem aos nossos bens e serviços?
Quais são as outras ofertas concorrentes de valor que eles estão recebendo?
Estamos retendo ou perdendo clientes? O que podemos fazer?" Nessa nova
perspectiva, importam muitas outras considerações além dos custos.
Por outro lado, um ambiente de mudanças contínuas exige que as empresas
sejam reorganizadas com grande frequência. Atividades, métodos de trabalho,
formas de atuação e até divisões inteiras ficam obsoletas e devem ser reformuladas
ou mesmo extirpadas das organizações, sendo substituídas por outras mais eficazes
e eficientes. Todavia, uma empresa que se organiza dividindo o trabalho apenas entre
especialistas funcionais, como mais de 95% delas o faz no Brasil e no mundo
(Morgan, 1990; Paine & Naumes, 1982; Drucker, 1993; Mintzberg, 1989; Marques,
1994), cria tantas e tão elevadas barreiras internas à comunicação, que elas acabam
impedindo uma visão geral que possa aferir a contribuição de cada função e de cada
departamento para o conjunto da empresa4. No nível da direção estratégica, onde
toda decisão de aplicação de recursos implica um trade-off e um custo de
oportunidade, faz-se necessária a presença de generalistas unificadores e
avaliadores, que sejam capazes de montar um quadro completo do desempenho
organizacional, pois, sem eles, como se poderia saber se uma parte do conjunto está
ainda contribuindo para os seus objetivos? Entre duas alternativas de investimentos,
uma de marketing e outra da produção, por exemplo, como se poderia saber qual a
que teria maior importância para a empresa? No nível dos especialistas, a decisão
seria impossível: cada um deles jamais abriria mão do projeto de seu interesse. Por
outro lado, uma empresa vertical com uma multidão de escalões, cada um deles
recebendo os objetivos do superior e estabelecendo seus próprios objetivos para os
de baixo, além de ser gravemente onerosa e perpetuadora do "status quo",
simplesmente não consegue ser suficientemente rápida, próxima aos consumidores
e alerta à concorrência para empreender respostas rápidas às mudanças. Esta nova
realidade está exigindo que as organizações sejam estruturadas de forma diferente,
através de divisões ou unidades estratégicas de negócios, que, além de uma elevada
delegação de autoridade para tomar decisões rápidas, têm, em geral, uma
estruturação horizontal, um número muito menor de escalões hierárquicos
(vide Kilman & Kilman, 1991; Harrington, 1995). Num grupo, as decisões finais de
alocação de recursos e investimentos nas divisões se faz através de uma direção
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-70772002000100001#not4Baixo
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central, onde a avaliação do desempenho das divisões (e dos seus executivos) é a
tarefa fundamental.
Nesse ambiente turbulento de mudanças profundas e contínuas, o exercício
adequado da governança empresarial e as necessidades de informação para a
tomada de decisões mudaram radicalmente na última década. As críticas que hoje se
fazem à contabilidade se concentram em sua relevância nesse novo ambiente.
Embora os sistemas contábeis possam proporcionar taticamente mensurações
a respeito dos custos dos recursos utilizados pela empresa, eles, por exemplo, nada
dizem a respeito do porquê estratégico da utilização desses recursos e também
ignoram a dimensão de valor. Todavia, as empresas vivem hoje o
chamado imperativo do valor, segundo o qual as transformações produtivas
executadas pelas empresas devem produzir valor através dos seus bens e/ou
serviços (Bogliolo, 2000; McTaggart et al.,1994; Parolini, 1999). Esse valor deve
ser gerado de forma concomitante e equilibrada, tanto para o cliente/consumidor,
em termos de custos, tempo, qualidade e outras dimensões de sua satisfação, quanto
para os investidores/acionistas, em termos de retorno financeiro de sua aplicação de
recursos na empresa. O simples uso de alguns indicadores físicos de desempenho
de mercado, ao lado das medidas de custos é uma tentativa absolutamente
insuficiente de melhorar a qualidade informativa dos demonstrativos contábeis,
porque não está vinculada a um quadro geral e consistente de representação da
realidade empresarial e de aferição de seu desempenho. Além disso, se a simples
verificação dos custos não habilita qualquer empresa a verificar se está efetivamente
produzindo valor, também não lhe permite saber se está utilizando os recursos certos
na sua atividade produtiva. A contabilidade ainda é incapaz de identificar e medir
adequadamente os recursos intangíveis, que têm base no conhecimento, na
experiência ou na reputação e que - hoje isto é largamente reconhecido - são os
recursos verdadeiramente responsáveis pelo sucesso de uma empresa (Robert,
1998; Foss, 1997; Hitt et al., 2000). Se a posse de uma visão crítica dos recursos é
hoje considerada imprescindível para a gestão empresarial, a contabilidade, em nome
da relevância, também deveria possuí-la.
Por outro lado, pode-se facilmente verificar que algumas técnicas da
contabilidade gerencial, como a orçamentação por centros de responsabilidade e o
próprio custeio dos produtos, estão altamente comprometidas com o imobilismo e a
50
ineficiência das estruturas organizacionais verticais montadas sobre os princípios da
hierarquia e da especialização funcional (Mintzberg, 1995). É necessário à
contabilidade prover-se de uma visão horizontal (por processo?) e de outras
mensurações além da financeira, para poder descrever e avaliar a produtividade, não
só das organizações como um todo, mas também de cada parte delas, colocando em
evidência as atividades que não mais estejam contribuindo para a produção
competitiva de valor. O modelo contábil-financeiro puro não consegue atingir tal
objetivo e, sem poder contribuir para um dos mais ativos e necessários elementos da
gestão moderna, que é a gestão de mudanças (Tuominen, 2000), está sendo
progressivamente descartado por irrelevância.
No Brasil, esta situação de irrelevância da contabilidade para o apoio da
administração é ainda pior. Como mais de 80% dos contadores se dedicam tão
somente à contabilidade financeira ou externa, é natural que uma grande parte dos
administradores acabe por vê-los quase como agentes do Fisco e, como tais,
"elementos estranhos à atividade propriamente empresarial" (palavras do diretor
financeiro de uma grande construtora brasileira). E é também bastante natural que,
vendo a contabilidade tão somente como base de lançamento de impostos, tais
administradores procurem aliviar a pesadíssima carga fiscal que atinge as empresas
brasileiras (Neves & Fagundes, 1999; Tinoco, 2001), buscando alterar, por meios
nem sempre legítimos, os demonstrativos financeiros produzidos. De um modo geral,
para umexecutivo brasileiro uma boa contabilidade é tão somente aquela que
minimiza o grau de exposição tributária de sua empresa. Este estado de coisas, além
de praticamente eliminar a escassa relevância que poderiam ter para a gestão os
informativos contábeis5, tem sido responsável pela projeção de uma imagem social
extremamente desfavorável da figura do contador e de seu trabalho.
É óbvio que as decisões empresariais precisam de informações pertinentes e
relevantes para dar-lhes fundamento e orientação. Se os contadores não estiverem
capacitados para fornecer tais informações, outros especialistas irão inevitavelmente
assumir essa função. Num elevado número de grandes empresas, assiste-se hoje à
disseminação dos CIO (Chief Information Officers), profissionais que, embora tenham
uma formação mais voltada para a tecnologia da informação e menos para as
realidades dos negócios, são encarregados da instalação dos grandes bancos de
dados empresariais e dos software ERP. A grande difusão desses últimos, que são
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-70772002000100001#not5Baixo
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sistemas integrados de informação nos quais a contabilidade é apenas um pequeno
capítulo (o SAP é um exemplo), poderia estar dando início, em termos mundiais, à
liquidação final da contabilidade gerencial.
2. A EVOLUÇÃO (REVOLUÇÃO) NECESSÁRIA
Deve a contabilidade aceitar pacificamente esse destino? No âmbito
empresarial, deve apenas ficar limitada ao seu uso externo, principalmente fiscal, e
apenas lutar legalmente pela manutenção das prerrogativas legais dos contadores
como os únicos autorizados a preparar um gênero de demonstrativos contábeis, que,
de antemão já se sabe, teriam pouca ou nenhuma serventia para a gestão? Ou deve
reformular-se, como sempre o fez no decorrer de sua evolução?
A resposta que está em gestação mundo afora nas empresas6, nas
associações de contabilistas profissionais7 e nas universidades está imprimindo um
rumo radicalmente novo para a gerencial, que visa trazê-la para o século XXI e
capacitá-la a atender as necessidades de informação num mundo de alta volatilidade.
Na nova tecnologia da gerencial, o modelo contábil-financeiro continua, naturalmente,
sendo o instrumento central, mas não é mais o único. Os princípios contábeis estão
sendo expandidos e utilizados de forma flexível e adaptada às necessidades e
situações empresariais e outros instrumentos e técnicas, provenientes de outras
ciências da gestão, estão permitindo à gerencial construir, com outras métricas além
da financeira, o grande quadro integrado da formação do valor e da
competitividade de cada empresa, que é a grande necessidade da governança
empresarial não atendida até o momento (Jensen, 1997; Prahalad, 1997).
Esta mudança programática da gerencial para fazê-la servir as empresas num
mundo em contínua mudança envolve um novo quadro de representação da
realidade, que tem cinco novas óticas, perspectivas, vertentes ou eixos de
transformação, que mutuamente se influenciam e se completam, conforme o
esquema da Figura 1. O primeiro eixo, o do valor, diz respeito à busca de um novo
entendimento das organizações empresariais e seus objetivos. O segundo eixo, o
estratégico, busca visualizar e modelar os resultados atuais e futuros de cada
empresa a partir das forças ambientais. Estes dois primeiros eixos visam dar à
gerencial a capacidade de diagnóstico das condições externas que são cruciais para
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-70772002000100001#not6Baixo
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-70772002000100001#not7Baixo
http://www.scielo.br/img/revistas/rcf/v13n28/a01fig01.jpg
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cada negócio. O terceiro eixo, o dos processos, procura constituir uma representação
mais realística da forma pela qual são articulados os recursos na formação do valor
e gerados os custos. O quarto eixo, o dos insumos, se volta à avaliação da
mobilização de recursos feita em cada companhia e busca determinar a sua
importância relativa. Estes dois últimos eixos visam dar à gerencial a capacidade de
reconhecer os pontos chaves de sua produção interna de valor e de seu vital
ajustamento às condições ambientais externas. O último eixo, o de mensuração e
comunicação, diz respeito à constituição propriamente dita do quadro geral do
desempenho empresarial. Este deve incorporar e integrar os levantamentos e
medidas de diferentes naturezas, financeiras e não-financeiras, que são obtidas com
a operação dos outros eixos, e apresentar os resultados através de análises,
propostas e relatórios que sejam consistentes com as condições ambientais, o quadro
interno de processos e recursos e a natureza das decisões a serem tomadas.
Entretanto, antes mesmo de tratar das necessárias transformações de
objetivos, metodologias e princípios, é importante pensar numa outra nomenclatura
para designar o novo profissional da contabilidade gerencial. É tão distorcida e
pesada a imagem social associada (injustamente?) à figura do contador, que o termo
não mais serve para indicar o profissional que irá dominar e praticar o modelo e as
técnicas da gerencial do novo estágio evolutivo. Controller8 seria uma alternativa
muito mais adequada, pelo menos no Brasil.
2.1. Primeiro eixo de transformação: As organizações
existem para a produção de valor
A Controladoria começa com o entendimento de que todos os recursos que
são mobilizados e utilizados pelas organizações têm um objetivo maior: produzir valor.
A nova representação de uma organização empresarial para um Controller parte,
então, da concepção de que ela executa uma transformação produtiva, na qual os
recursos são convertidos em bens e/ ou serviços para os quais deve existir mercado
e uma demanda econômica9.
A transformação produtiva numa empresa ocorre com um consumo de
recursos que gera custos e deve, com seus produtos, produzir simultaneamente valor
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-70772002000100001#not8Baixo
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-70772002000100001#not9Baixo
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de duas naturezas distintas (Szymanski & Henard, 2001; Thakor, 2000; Boulton et
al., 2000; Best, 2000; Scott, 1998; Tucker, 1995; Rust et al., 2001; Maklan & Knox,
1998; Martin & Petty, 2000; Knight, J. A., 1998), conforme a Figura 2:
Valor para os clientes/usuários, que consiste no conjunto de benefícios,
atributos e características de desempenho, que a empresa oferece através dos seus
bens e/ou serviços, pelos quais os compradores, após a devida avaliação, estão
dispostos a pagar o preço de mercado.
E, ao mesmo tempo:
Valor para os investidores/acionistas, que consiste em dar um retorno
financeiro adequado aos recursos que aplicaram na empresa, compensando-os pelos
riscos inerentes ao empreendimento.
O valor para os clientes é o resultado de uma relação que deve ser entendida
de forma conceitual:
A [Qualidade] na relação acima é o conjunto total ponderado de atributos e
benefícios, que os clientes esperam encontrar nos produtos. A empresa será
competitiva se, aos olhos dos seus clientes, seus produtos tiverem um valor maior do
que o de seus concorrentes, o que poderá ser o resultado, tanto de preços menores,
quanto de diferentes ou mais relevantes benefícios e atributos de qualidade que
possam justificar preços maiores.
O valor para os investidores, por sua vez, tem uma expressão financeira, que
é o resultado da seguinte relação:
http://www.scielo.br/img/revistas/rcf/v13n28/a01fig02.jpg
54
Uma empresa é competitiva para seus investidores, isto é, seus proprietários
e demais acionistas, se, ao menor risco possível, for capaz de cumprir duas condições
de remuneração do capital que investiram. Primeira: ter capacidade de prover, no
curto prazo, um retorno superior à média das outras empresado mesmo ramo de
negócios. Segunda: fazer com que tal retorno, a médio e longo prazos, seja pelo
menos igual à taxa de rentabilidade mínima esperada pelos investidores, que é o
custo do capital próprio. Em outras palavras, uma empresa deve assegurar um fluxo
estável, sustentável e adequado de retorno aos seus investidores, realizando um
equilíbrio financeiro entre os objetivos de curto e de longo prazo.
Um ponto absolutamente fundamental da oferta de valor é que, em geral, uma
empresa não trabalha de forma isolada no mercado. Ou seja, outras empresas
também mobilizam e consomem recursos e também procuram dar uma remuneração
adequada aos seus investidores, satisfazendo a mesma demanda de bens e/ou
serviços. Nessas condições, cada empresa fica submetida aos imperativos da
competitividade, em função dos quais se vê forçada a encontrar constantemente
novos meios de executar a transformação produtiva de modo a superar os seus
concorrentes. Será tanto mais bem sucedida quanto maior for o valor que produzir
para os clientes e para os investidores e, mais importante, quanto maior for
o diferencial de valor que obtiver em relação à concorrência, pois somente assim
poderá assegurar a preferência dos atuais e potenciais clientes e investidores.
Se o modelo contábil-financeiro, mediante algumas modificações10, seria
suficiente para medir o valor aos investidores, isso definitivamente não é o bastante
para a dupla produção de valor. Deve, então, ser ampliado e reformulado para incluir
e medir o valor aos clientes/usuários e a competitividade. Para elaborar seus novos
demonstrativos11, a Controladoria deve efetuar mensurações diretas e indiretas de
satisfação dos clientes/usuários e de posicionamento mercadológico, que seriam
usadas integradamente com as medidas financeiras de retorno aos investidores na
preparação de um quadro completo de avaliação de desempenho (Ray,
2000; Churchill, 1999; Malhotra, 1999).
Adotando a representação dos objetivos e metas de uma empresa a partir
da dupla produção competitiva de valor, a Controladoria dá um passo essencial para
entender o mundo empresarial atual. Seus levantamentos, análises e demonstrativos
não mais irão padecer da visão unidimensional e unicamente financeira dos
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-70772002000100001#not10Baixo
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-70772002000100001#not11Baixo
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resultados das organizações. Um bom desempenho empresarial não mais poderá ser
julgado apenas pela métrica financeira do retorno aos seus investidores, já que se
sabe que a sustentação desse retorno no tempo (o grande objetivo os investidores)
somente se dará se houver continuidade na satisfação e na preferência dos seus
clientes/usuários em relação aos seus produtos.
2.2. Segundo eixo de transformação: A Controladoria
Deve Ser Estratégica
Na última década, em paralelo com iniciativas em outras áreas de
administração que passaram a levar o rótulo "estratégico", tais como "marketing
estratégico", "manufatura estratégica", "engenharia estratégica" etc., assistiu-se,
dentro da gerencial, à emergência de um movimento chamado de "contabilidade
estratégica", que pretende utilizar os instrumentais clássicos, como o custeio, com o
objetivo de "incremento da competitividade empresarial" (Shank & Govindarajan,
1993). Segundo se pode depreender embora eles explicitamente não o digam - para
os autores desse movimento a utilização das informações contábeis seria apenas
episodicamente estratégica. Apenas um serviço adicional que poderia ser prestado
em algumas especiais circunstâncias.
Na verdade, para atender às necessidades de gestão moderna, a
Controladoria precisa ser contínua e intrinsecamente estratégica, o que ela deve
realizar sem perder jamais seu caráter de apoio operacional. Para conseguir essa
conexão estratégico-operacional é necessária uma postura muito mais profunda, com
mudanças inclusive de caráter epistemológico. A primeira diz respeito à compreensão
da própria natureza da empresa e de seus objetivos, acima discutida. A segunda, ao
entendimento de que qualquer empresa sempre está imersa num ambiente volátil e
competitivo com o qual interage profundamente.
Forças ambientais, tais como as que estão presentes nos mercados, na
concorrência e na tecnologia, afetam diretamente os resultados de todas as firmas
que se encontram em determinado setor de negócios. Forças ambientais mais gerais
ou sistêmicas, tais como as políticas, econômicas, sócio-culturais e demográficas,
exercem sua influência sobre todas as áreas de negócios e, por conseguinte, sobre
todas as empresas situadas dentro de um país. Todos os países, por sua vez, de
acordo com o seu posicionamento e estágio de desenvolvimento, são impactados
56
pelas chamadas forças globais, entre as quais, nos últimos tempos, emergiram as
duas forças poderosíssimas já citadas: a globalização dos mercados (especialmente
o financeiro) e a revolução da tecnologia (especialmente da informática associada às
telecomunicações).
Embora as forças ambientais sempre estivessem presentes, afetando os
resultados das empresas, a contabilidade sempre abdicou de entendê-las como um
problema propriamente contábil (Hatherly, 1993). Na verdade, um contador da escola
tradicional poderia passar vinte anos dentro de uma empresa produzindo os
demonstrativos financeiros convencionais, sem jamais, como contador, precisar
saber algo sobre os concorrentes da empresa, a qualificação dos seus fornecedores,
a necessidade de atender os clientes etc. (Franks, 1995). Entretanto, para a
Controladoria esse entendimento é essencial, pois é o ambiente e suas forças que,
na verdade, estão na base das estratégias, e estas correspondem a planos de ação
e disposição de recursos segundo os quais as empresas procuram obter
competitividade e produzir valor de forma crescente e sustentável, em interação com
o quadro prevalecente e futuro de forças ambientais relevantes. A produção de valor
de uma empresa deve passar por mudanças constantes, justamente porque a
empresa deve sempre se antecipar e se adaptar a novas variáveis ambientais, tais
como o gosto e os hábitos de compra de seus clientes/usuários, as ações de seus
concorrentes em termos de qualidade ou preços, as novas perspectivas das taxas de
juros e câmbio, as novas alíquotas de impostos, às novas tecnologias etc., etc.
(Liautaud, 2001; Slywotzky, 1997).
Enquanto a função do contador financeiro-fiscal se preenche e se esgota com
a produção dos demonstrativos contábeis-financeiros, a função do Controller é muito
mais abrangente e complexa, pois cabe a ele identificar, prever, mensurar e avaliar o
impacto das forças críticas ambientais sobre os resultados da empresa. Por exemplo,
sem um profundo conhecimento e acompanhamento dos mercados e das forças de
competitividade prevalecentes nesses mercados (Porter, 1989), como poderá
explicar fatos tais como a perda de market-share, que podem implicar substanciais
perdas de receitas e lucratividade? E, mais que isso, como poderá distinguir se a
causa de um declínio dos resultados é decorrente de uma perda de competitividade
perante um concorrente mais hábil ou de movimentos econômicos mais amplos e
gerais como uma recessão? Saber diferenciar entre tais situações pode ser
57
determinante para a seleção e implantação de planos específicos de defesa do valor
econômico dos acionistas. No primeiro caso, tais planos irão enfocar apenas a volta
do poder competitivo perdido em relação aos concorrentes (Reduções de custos e
preços? Campanhas de publicidade ou promoção?). No segundo caso, como as
causas subjacentes são sistêmicas, as estratégias deverão proporcionar um "hedge"
mais duradouro da empresa perante a situação recessiva (Contração das atividades?
Busca de maior liquidez nas vendas? Paralisação oupostergação dos
investimentos?). Nota-se facilmente que é absolutamente necessário distinguir entre
tais situações. Um Controller, que é, por definição, um "expert" na apuração dos
resultados econômico-financeiros através do modelo contábil, ao possuir um
entendimento preciso das forças que estão impactando tais resultados (mesmo
quando tais forças não sejam totalmente controláveis), passa a ter uma importância
absolutamente inestimável na fixação dos rumos de qualquer empresa (Hatherley,
1993).
É óbvio que, num momento qualquer, há sempre uma infinidade de forças
ambientais atuando direta ou indiretamente sobre uma empresa, qualquer que seja a
sua área de negócios. À primeira vista, pode parecer que a tarefa de identificar e
avaliar tais forças teria tal complexidade e extensão que, na prática, seria impossível
realizá-la. Não é o caso. Conforme sabem muito bem os estrategistas, em qualquer
cenário ambiental nem todas as variáveis ambientais têm a mesma importância, como
se poderia esperar pelo princípio de Pareto. Em cada momento, apenas um pequeno
grupo de fatores (geralmente não mais do que meia dúzia e raramente mais de uma
dezena) são os que efetivamente determinam a situação da empresa. São os
chamados fatores críticos ambientais (FCA) (Grant, 1991).
Além de influenciar decisivamente as transformações estruturais sistêmicas ou
intersetoriais, são os FCA que reconfiguram as variáveis que comandam o valor que
os usuários/clientes atribuem aos produtos e as dimensões que a competitividade
assume em cada ramo de negócios. Identificar, mensurar e avaliar o efeito dos FCA
e das mudanças estruturais dos setores sobre a produção e sustentação do valor
para os clientes/usuários e para os investidores/proprietários é, portanto, uma tarefa
fundamental da Controladoria, já que tais informações são ansiosamente
demandadas por qualquer governança empresarial, com exceção, é claro, das
absolutamente ineptas ou alienadas.
58
Toda a gestão empresarial está voltada para o futuro. Fica claro, portanto, que
a função estratégica da Controladoria para apoiar a gestão deve necessariamente se
projetar para o futuro. Como disse Ansoff, "a função das estratégias é a de preparar
no presente a empresa para que ela possa estar viva e rentável no futuro" (Ansoff,
1984).Todavia, como já disse um crítico, "é impossível dirigir um veículo para frente,
olhando apenas para o espelho retrovisor"(Drucker, 1964), como o faz a
contabilidade financeira para atender ao princípio da objetividade. Na verdade, o novo
modelo contábil de representação da realidade deve estar perenemente preocupado
com o desdobramento futuro dos FCA e com o futuro que está sendo "moldado"
através das decisões atuais. Essa preocupação faz com que a Controladoria
naturalmente busque incorporar instrumentos e técnicas de projeção e exploração
futura das variáveis ambientais, tais como a técnica dos cenários e do future
planning (Ringland, 1998; Godet, 1985; Bontempo, 1999). Sem tais técnicas, a
orçamentação operacional e de capital de uma empresa, que faz parte das atribuições
básicas de uma Controladoria, seria apenas um exercício matemático sem maiores
fundamentos. Como se poderia, por exemplo, projetar um fluxo de caixa com um
horizonte de 10 anos para a compra de uma máquina ou de uma empresa, sem se
procurar saber como se comportarão as variáveis ambientais futuras e como estas
irão afetar os resultados do investimento feito? Não se trata apenas de prever os
fluxos de caixa futuros, mas saber, antes, se no futuro haverá fluxos de caixa.
Muitos poderão objetar que o exercício de projetar o futuro é fútil, já que o futuro
é praticamente impossível de ser antecipado. O que deve ser considerado é que
praticamente todas as decisões empresariais mais importantes precisam de
informações básicas sobre suas possíveis consequências futuras para serem
avaliadas (Modis, 1998). Esta necessidade de informações precisa, portanto, ser
atendida, e cabe à Controladoria prover tais informações. Assim, embora se saiba
que o futuro será sempre inexoravelmente incerto, isto não quer dizer que não deva
ser entendido e explorado, o que pode ser feito incorporando ao modelo contábil uma
outra dimensão: o da incerteza ou risco (Daniel, 2000; Pickford, 2001; George,
1996). Com esta, as projeções futuras passam a ser feitas em regime de risco e não
mais se poderia falar, por exemplo, numa projeção de vendas de R$3 milhões para o
próximo ano. Esta seria uma previsão determinística e o futuro não pode ser
representado logicamente dessa forma. Como o risco implica necessariamente uma
59
possível variação dos resultados futuros, previsões com risco sempre devem associar
uma medida de dispersão dos resultados (a variância ou o desvio-padrão, por
exemplo)12 a uma medida posicional ou escalar (como a média, por exemplo) dentro
de uma certa distribuição de probabilidades. Desta forma, saindo de um regime
determinístico para um de risco, se falaria, no exemplo, de uma
distribuição normal de vendas para o próximo ano, com uma expectativa ou
média de R$3 milhões com um desvio-padrão de 5%.
Qual a vantagem da incorporação do risco ao modelo da Controladoria? A
resposta é simples: melhora consideravelmente as informações que tal modelo passa
a prover sobre a realidade e, com isso, propicia decisões melhores e mais conscientes
(Doherty, 2000; Culp, 2001; Koller, 2000; Young & Tippins, 2001). Tome-se como
exemplo um empresário que acaba de tomar a decisão de investir num determinado
projeto, porque, após uma análise do tipo determinístico, lhe foi informado que ele
teria uma taxa de retorno de 25% aa, a qual, quando comparada ao custo de capital
dessa empresa, da ordem de 20% aa, demonstraria a viabilidade do empreendimento.
Essa decisão de investimento seria tomada se o empresário soubesse que, embora
a média esperada de retorno fosse de fato 25% aa, há também uma probabilidade de
mais de 30% de que o projeto venha a gerar retornos inferiores a 12% aa? Um bom
número de administradores, talvez a maior parte, já não aprovaria tal projeto.
A elaboração do perfil de risco de um projeto - e da própria empresa13, que é a
atribuição de probabilidades a um intervalo de resultados esperados de um
empreendimento, é uma metodologia de avaliação simultânea das dimensões
associadas de risco e rentabilidade, que permite dar aos administradores uma
informação de conteúdo infinitamente mais rico do que
o que era fornecido ao se adotar uma premissa determinística de certezas
totalmente dissociada da realidade. A adoção de modelos para a avaliação dos riscos
empresariais é um exemplo de representações do futuro, que certamente tornam a
equipe de direção das empresas - da qual faz parte o Controller - mais consciente e
mais capacitada a tomar melhores decisões de aplicação de recursos14.
E é essa aplicação de recursos que deve ter um direcionamento estratégico
básico. Como foi visto acima, para alcançar e sustentar a produção competitiva de
valor, a empresa deve ter um desempenho superior ao de seus concorrentes e deve
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-70772002000100001#not12Baixo
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-70772002000100001#not13Baixo
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-70772002000100001#not14Baixo
60
ser capaz de preservar tal vantagem. O fator essencial é a adoção de estratégias
adequadas aos mercados em que a empresa compete e à natureza da concorrência
que ela enfrenta. Segundo Porter (Porter, 1989) há, em última instância, apenas duas
estratégias alternativas que geram vantagem competitiva:
A estratégia de eficácia de mercado: em que a empresa compete
oferecendo produtos que possuem um "pacote" de benefícios ou qualidade maior ou
mais amplo, que devem proporcionar um retorno superior porque permiteà empresa
vendê-los a preços unitários superiores, os quais não só compensariam os custos
maiores de proporcionar maior qualidade, como também trariam à empresa uma
rentabilidade maior que a dos concorrentes.
A estratégia da eficiência operacional: em que a empresa compete
oferecendo produtos que, para um dado nível padrão de qualidade, têm preços (e
demais custos de obtenção e uso) inferiores aos de seus concorrentes.
A grande utilidade das estratégias é que elas oferecem uma diretriz geral sobre
como devem ser aplicados os recursos de uma empresa para produzir valor. Mas
seria um sério erro imaginar que uma diretriz, não importa quão divulgada e
claramente estabelecida, seja suficiente para dirigir a aplicação total de recursos nas
empresas, já que mesmo as mais simples fazem essa aplicação com dezenas de
finalidades, formas e métodos diferentes. Para controlar a transformação produtiva
de uma empresa e seu alinhamento estratégico para a dupla produção de valor, a
Controladoria precisa incorporar em sua representação da realidade um modelo que
indique em detalhe, qualitativa e quantitativamente, a forma pela qual os recursos são
efetivamente empregados no contexto das atividades empresariais.
2.3. Terceiro eixo: A transformação produtiva se faz
através dos processos
Para a contabilidade gerencial, a empresa nunca foi simplesmente uma grande
caixa preta. A realidade da divisão do trabalho, que existe em qualquer organização,
foi apreendida pela contabilidade desde o século XIX através dos centros de
responsabilidade, como já foi dito acima. Através desses centros de
responsabilidades (centro de investimentos, centro de custos, centros de receitas
etc.), a contabilidade busca alocar em cada um o seu consumo específico de
61
recursos, bem como sua participação na criação de receitas. Através de um quadro
geral dos centros se buscaria, então, aferir as contribuições de cada um deles, bem
como as responsabilidades de sua condução.
O grande problema dos centros de responsabilidade é que eles partem de uma
visão vertical e tão somente hierárquica da organização empresarial e não
demonstram como efetivamente estão sendo empregados operacionalmente os
recursos, nem se está havendo eficácia e eficiência nesse emprego. A realidade
interna empresarial deve ser apreendida pela Controladoria de modo diferente,
através da compreensão da forma específica pela qual dentro de uma organização
se cria valor através da transformação produtiva dos recursos em bens e serviços. No
âmbito das empresas tal transformação produtiva se faz através de conjuntos de
atividades chamados processos de trabalho. Estes correspondem "a uma série de
atividades interligadas, que recebem insumos ou recursos (materiais, capital, trabalho
humano, informações etc.) e geram produtos (bens físicos, serviços, informações
etc.), que devem ter valor para seu receptor, seja ele interno ou externo" (Watson,
1994). Tudo o que se passa numa empresa, todos seus trabalhos, recursos, pessoas
e produtos fazem parte dos processos empresariais (Cano, 1999; Turney,
1992; Johansson et al., 1993; Carr et al., 1992; Brinsom & Antos, 1994; Morris &
Brandon, 1993; Watson, 1994). São, pois, os processos do negócio que produzem
valor e geram custos, e o valor que produzem sempre deveria ser maior que os
respectivos custos (Grieco & Pilachowski, 1995).
Como os processos "constituem o elemento básico da arquitetura empresarial"
(Adair & Murray, 1992), a perspectiva dos processos é outra incorporação
necessária ao modelo de representação da realidade a ser utilizado pela
Controladoria, pois é somente através da interação entre os processos que se pode
efetivamente descrever, localizar e quantificar detalhadamente como, numa empresa
em particular:
são gerados os produtos finais e os produtos intermediários;
são efetivamente consumidos os recursos (recursos humanos, capital,
materiais, energia, tecnologia, informações etc.) e gerados os custos e os atributos
da qualidade percebida pelos clientes/usuários;
62
é gasto o tempo para a execução de atividades (através dos tempos de ciclo
dos processos);
o valor pode ser destruído, através de ociosidades, desperdícios e desvios
de recursos, que são originados, respectivamente, por recursos potencialmente
produtivos, mas que não estão sendo utilizados; por recursos que embora
empregados produtivamente, são utilizados acima do mínimo necessário; e,
finalmente, por recursos desviados, fraudulentamente ou não, de sua finalidade
produtiva.
As estratégias adotadas por uma empresa levam a diferentes configurações
do seu sistema produtivo, o que significa a constituição interna de conjuntos
articulados de processos que devem dar suporte ao direcionamento estratégico
selecionado. Um grupo específico desses processos, combinados e integrados, tem
a responsabilidade de executar todas as operações que produzem os bens e serviços
da empresa. Esse conjunto articulado de processos é chamado de rede de valor. Os
demais processos da empresa, que não estão envolvidos diretamente na criação de
valor para os clientes e estão mais ligados à sustentação, à integridade e à segurança
da organização como um todo, constituem os processos subsidiários ou de suporte
(Davenport, 1993).
A Controladoria deve efetuar um efetivo controle dos processos, o que ocorre
com a sua identificação, o mapeamento de suas articulações e subdivisões e a
mensuração do seu desempenho e de sua consistência estratégica, através de uma
métrica mista, composta por medidas financeiras dos custos, associadas a medidas
de qualidade, de tempo (Anupindi, 1999; Kock, 1995) e de eficácia competitiva. Este
controle deve ser abrangente, compreendendo tanto a rede de valor como os
processos de suporte, porque de nada adiantaria a empresa tentar ganhar uma
vantagem competitiva através de uma redução do consumo de recursos na
manufatura, por exemplo, e ver tal vantagem dissipada através de um gasto ineficaz
de recursos no suporte de informática ou no marketing.
63
2.4. Quarto eixo: Os recursos constituem a base da
competitividade
A principal razão pela qual a Controladoria deve focalizar os recursos é que os
lucros são, em última instância, o resultado do emprego dos recursos mobilizados por
uma empresa, seja por aquisição, seja por qualquer outra forma de contratação ou
mobilização. Os lucros de uma firma sempre são derivados de duas fontes: a
atratividade específica de um determinado setor de negócios no qual a empresa está
operando ou pela vantagem competitiva conseguida sobre os demais firmas de seu
setor. Pode-se demonstrar, todavia, que essas fontes de lucro tem sua origem
primeira nos recursos empresariais (Grant, 1991; Collins & Montgomery,
1995; Foss, 1997).
Tome-se o caso da vantagem competitiva. Numa empresa, a capacidade de
estabelecer uma vantagem de custos é proveniente, por exemplo, da posse de
plantas de produção eficientes, de uma tecnologia superior, de fontes de suprimento
de matérias-primas de baixo custo, de licenças governamentais exclusivas ou mesmo
de vantagens locacionais que lhe permitam acesso a mão-de-obra de baixo custo ou
uma proximidade dos mercados consumidores. A vantagem da diferenciação, de
maneira semelhante, é baseada na propriedade ou no controle de determinados
recursos, tais como marcas, patentes, rede de distribuição etc. Vê-se, assim, que se
os retornos sobre os investimentos num negócio, quando são superiores à média,
resultam de uma vantagem competitiva, a qual, por sua vez, decorre de recursos que
foram mobilizados de forma superior. Se esses recursos se exaurirem, se tornarem
obsoletos ou se tornarem acessíveis a outras firmas, os retornos obtidos de forma
superior entram em declínio ou simplesmente desaparecem.
Para a Controladoria interessa saber quais dentre os recursos empregados
pelaempresa são os que efetivamente lhe conferem vantagem competitiva. Essa
tarefa deve começar por um inventário dos recursos de diferentes tipos que a
empresa mobiliza em suas atividades. Alguns desses recursos são fungíveis, como
os materiais e a energia, e desaparecem ou são consumidos no próprio ato da
transformação produtiva. Outros, porém, são utilizados repetitivamente nessa
transformação e, por isso, constituem o que se chama a base permanente de
recursos de uma empresa. Estão nesta última categoria os edifícios, os
64
equipamentos, os recursos humanos, a tecnologia etc. É a base permanente de
recursos no âmago dos processos, que confere a uma empresa capacidade
produtiva, tanto em termos do volume de bens e serviços que pode produzir e
distribuir, como também em termos da qualidade, custos e tempos de operação.
Na base permanente de recursos pode-se distinguir os recursos tangíveis e os
intangíveis. Os primeiros são os mais fáceis de identificar e avaliar. Os recursos
financeiros e os ativos físicos são perfeitamente reconhecidos nos demonstrativos
contábeis e há regras há longo tempo estabelecidas para avaliálos15. Entretanto, é
bem conhecida a tendência dessa avaliação contábil, feita pelos custos históricos, de
obscurecer e omitir informações de relevância estratégica, bem como de estabelecer
para os ativos empresariais valores sem muito significado16. Certamente o balanço
contábil pode ser um começo, mas a Controladoria deve ir muito além e verificar, atrás
dos números contábeis, fatos e informações a respeito dos recursos empresariais
tangíveis que tenham importância para a produção competitiva de valor.
Uma avaliação estratégica dos recursos tangíveis pela Controladoria levaria a
responder duas questões chaves da chamada redução estratégica de
custos (REC) (Cano, 1999):
Quais são as oportunidades que existem de economizar no uso de recursos
financeiros, bem como nos estoques de materiais e ativos fixos?
Quais são as possibilidades de um emprego mais lucrativo dos ativos
existentes?
Responder à primeira significa encontrar formas de envolver um volume menor
de recursos para dar suporte a um mesmo volume de negócios ou usar o mesmo
volume de recursos para um volume maior de negócios. Responder à segunda
significa incrementar a lucratividade de um determinado volume de recursos, quer
empregando-os de uma forma mais produtiva, quer transferindo-os para um atividade
mais rentável, quer, ainda, vendendo-os para outras empresas. Boa parte de todo o
movimento de recuperação e reestruturação de empresas nas últimas três décadas
tem feito um uso intenso das metodologias da REC, que estão exaustivamente
discutidas e sistematizadas na literatura sobre administração estratégica (Hitt et
al.,1999; Pearce & Robinson, 1997), mas que são ainda quase inexistentes na
literatura da contabilidade gerencial.
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-70772002000100001#not15Baixo
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Os recursos intangíveis constituem um problema ainda maior para a
Controladoria, pois se até certo ponto eles são invisíveis para contadores e auditores,
cada vez é mais reconhecida a sua importância central para a obtenção de vantagens
competitivas. Para identificar e avaliar os recursos intangíveis deve-se, em primeiro
lugar, distinguir entre os que têm uma base humana daqueles que têm origem na
imagem, na reputação ou no conhecimento codificado de uma empresa17. Enquanto
as pessoas são claramente tangíveis, suas habilitações, conhecimento, experiência
própria, raciocínio, bem como as suas capacidades de liderar e tomar decisões são
absolutamente intangíveis. Os intangíveis de base humana podem ser levantados
através de seu desempenho no trabalho e do histórico de suas experiências e de suas
qualificações. Mas estes indicadores são extremamente pobres para avaliar o
potencial das pessoas. O que torna a identificação e a avaliação ainda mais difícil é
que os indivíduos trabalham juntos, em tarefas ou funções que se superpõem, onde
nem sempre é possível observar diretamente a contribuição de cada um para o
desempenho geral da organização. Não há ainda soluções finais, nem instrumentos
acabados de Controladoria para medir o valor dos intangíveis de base humana.
Todavia, algumas tentativas recentes são bastante promissoras (Lev, 2001;
e PeopleSoft , 2000).
Em relação aos intangíveis de base não-humana há também uma certa
indefinição final sobre como avaliá-los competentemente. As metodologias existentes
são apenas aproximadas e a maioria delas fundamentadas no "valor de mercado".
Para a revista Business Week (edição de 6/8/2001), por exemplo, seguindo a linha
de diversos teóricos, o valor de uma marca estaria na diferença entre o valor total da
capitalização dessa empresa (valor das ações, ao preço de mercado) e o valor
contábil (book value) de seu patrimônio líquido. Além da base teórica frágil (a teoria
dos mercados eficientes18), este valor é visivelmente exagerado, porque tende a
atribuir a um único intangível (a marca) aquele que seria o produto de um grande
conjunto de intangíveis, humanos e não-humanos.
Para uma Controladoria, o ciclo completo de seus trabalhos em relação a
qualquer ativo deve ir da identificação à comunicação, passando pela mensuração e
pela avaliação (Azzone et al., 1995). Todavia, mesmo que este ciclo não possa ainda
ser totalmente executado no que diz respeito aos intangíveis por falta de métodos
eficazes de mensuração, nem por isso deixaria de ser relevante o simples
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reconhecimento da importância crítica que alguns deles têm para determinados
negócios. Identificar tal importância constitui, por si só, um elemento informativo de
alta significação para apoiar algumas decisões empresariais (Parr, 1991; Smith,
1999) e auxiliar a composição do grande quadro de avaliação de desempenho, que é
a matéria do nosso próximo tópico.
2.5. Eixo de Síntese: A avaliação de desempenho deve
ser integrada
Falando num seminário relativo à governança, Prahalad, o grande teórico das
estratégias, disse o seguinte: "o grande problema da governança empresarial, tanto
a externa (efetuada pelos acionistas e pelo Board que os representa) como a interna
(efetuada pelos diretores executivos), é que ainda não existe um quadro totalmente
estruturado e completo de avaliação do desempenho empresarial num determinado
momento e, muito menos, um que nos permita avaliar a sustentação futura desse
desempenho" (Prahalad, 1997).
A simples razão pela qual esse quadro ainda não foi construído é que todas as
informações existentes numa empresa e que seguem para o executivo principal ou
para o Board são fragmentadas, isto é, são preparadas a partir das óticas especiais
e parciais das diferentes áreas funcionais de onde provém e, o que é pior, são
frequentemente comunicadas com o jargão específico dessas áreas. Essa é uma
deficiência bastante conhecida das organizações estruturadas com base em
especializações funcionais (mais uma!), que, não obstante, é a prevalecente em mais
de 95% das empresas do Brasil e do mundo, como já foi dito. Assim, as informações
provenientes de marketing ou produção, por exemplo, são veiculadas para o
executivo principal, tendo em vista os limites do conhecimento e dos interesses
estreitos dessas áreas, sem qualquer visão integrada da empresa ("síndrome do
silo"), embora, como é de praxe, cada uma dessas áreas quase sempre esteja falando
em nome da empresa como um todo (Mace, 1986). É fato notório que este fluxo
fragmentado de informações coloca uma grande pressão sobre o executivo principal.
Este passa ater a árdua missão de ser o único integrador e produtor de uma
representação global da empresa, a partir de um fluxo de informações parciais,
específicas, inconsistentes e sem sincronização, proveniente das diferentes áreas
funcionais. Se se considerar que esse executivo é sempre originário de uma
67
determinada área funcional da empresa e, como tal, portador da visão empresarial
particular dessa área, é fácil concluir que sua missão de sintetizador e elaborador do
quadro geral de desempenho da empresa é quase impossível. Como disse Prahalad,
as limitações da governança empresarial resultam das terríveis deficiências desses
quadros.
Esta é a grande oportunidade da Controladoria. A partir do modelo contábil-
financeiro, que já é um modelo de síntese, é possível elaborar modelos de
representação da realidade empresarial muito mais complexos, gerais, integrados,
fundamentados e voltados para o futuro e com eles quadros mais completos de
desempenho. Foi o que fizeram Kaplan & Norton com seu balanced
scorecard (Kaplan & Norton, 1996; Kaplan & Norton, 2001), embora seu modelo,
que sob muitos aspectos é notável, deva ser entendido apenas como um ponto de
partida e ser expandido (incluindo indicadores de mudanças estruturais), adaptado
para cada tipo de negócio (já que cada setor tem FCA externos próprios) e
especificado para cada empresa (já que cada empresa tem pontos críticos internos
peculiares, que são resultantes da sua configuração particular das
estratégias>processos>recursos e de seu posicionamento perante os mercados e os
concorrentes).
Embora este trabalho não possa conter mais do que um delineamento
extremamente geral e resumido de como seria tal quadro completo de desempenho
(vide Figura 3), ele teria três componentes principais: (a) diagnósticos estratégicos;
(b) levantamento dos objetivos/metas, estratégias e projetos atualmente em curso; e,
finalmente, (c) análise de desempenho propriamente dito.
1) Objetivos, metas e diagnósticos estratégicos
[a] Objetivos e metas: Para esta parte do quadro geral de representação da
empresa, a Controladoria deve saber, a partir de consultas à governança externa e
interna: (1) Os participantes relevantes ou PR (stakeholders), que devem ser objeto
de atendimento prioritário pela empresa. Já se discutiu que os dois PR prioritários ou
polares são os clientes/usuários e os acionistas/proprietários. (2) As metas
quantitativas específicas para a produção de valor para cada um dos PR prioritários
da empresa. Uma meta financeira essencial é, como já foi dito, o custo de capital dos
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investidores/ acionistas. Para os clientes/usuários uma meta vital sempre será o
porcentual de clientes satisfeitos.
[b] Diagnóstico externo dos FCA e das principais tendências das mudanças
que estão ocorrendo no setor de negócios e como estão afetando a empresa e seus
concorrentes. O ponto-chave aqui é acentuar as possíveis ameaças (sobre o mix de
produtos, sobre a atuação mercadológica, sobre os canais de mercado etc.), bem
como as oportunidades (novos mercados, novos negócios, novos produtos etc.), que
poderão estar surgindo.
[c] Diagnóstico interno, com base nos processos e nos recursos deve-se
identificar e medir os pontos críticos em relação aos processos (ociosidade,
improdutividade etc.) e aos recursos (ativos estratégicos e seu aproveitamento),
localizando omissões, ausências, falta de incentivos, etc., que poderão fazer com que
a empresa esteja preparada (ou não!) para aproveitar as oportunidades ou se
defender das ameaças ambientais.
(2) Análise de desempenho relativo. Com os elementos recolhidos na etapa
(1), a Controladoria passa, então, a executar a análise de desempenho propriamente
dito, que consta de duas perspectivas e dois horizontes de planejamento. Como foi
dito, sempre haverá em cada empresa pelo menos dois stakeholders prioritários, cuja
demanda sobre os resultados e sobre a produção de valor a empresa deve satisfazer
simultaneamente e em equilíbrio: os clientes/usuários, de um lado, e os
investidores/acionistas, de outro. Não cabe aqui discutir todo o imenso cabedal
metodológico hoje já existente, que capacita uma Controladoria não só a compilar os
dados e efetuar as medidas da produção de valor para cada um dos seus PR, mas
também a verificar a sua competitividade face aos concorrentes. Com a localização
específica, nos processos e nos recursos, das ociosidades, das improdutividades, das
inconsistências, das omissões, dos custos excessivos etc., que poderiam estar
destruindo o valor e a competitividade da empresa, as medidas de desempenho
passam a ter um caráter estratégico fundamental.
Não basta, todavia, efetuar uma análise de desempenho focalizada apenas no
presente e na comparação com os concorrentes. Para buscar uma posição superior
de competitividade, não é suficiente para uma empresa comparar seu desempenho
com a liderança de seu setor em termos da qualidade dos produtos, tempos de ciclo,
69
custos, faturamento por número de empregados, níveis de produtividade etc. O seu
objetivo ao fazer isso é colocar-se numa posição no mínimo igual aos "melhores da
classe". É claro que esse exercício pode ser produtivo, como base da REC, por
exemplo, para a eliminação de ociosidades e desperdícios. Este tem sido, afinal, o
foco de boa parte das reestruturações e reengenharias empresariais havidas nas
últimas três décadas. Mas um quadro de avaliação de desempenho não pode se
concentrar apenas em informações sobre diferenciais de "performance", já que
eliminar tais diferenciais é uma condição necessária mas não suficiente da criação
superior de valor.
Se não todos, a maior parte dos problemas de desempenho nas empresas
resulta tanto de uma má gestão dos seus parâmetros de desempenho relativo em
relação aos concorrentes, como de respostas insatisfatórias ou tardias às mudanças
estruturais em seu próprio setor de negócios. São os diagnósticos estratégicos
externos que permitem à empresa verificar as tendências ambientais que podem estar
provocando mudanças estruturais no seu setor de negócios. Uma parte importante
da análise de desempenho sempre será, pois, a exploração do futuro da empresa em
regime de risco e a verificação, através de cenários, da forma pela qual os seus
resultados poderão ser impactados pelos fatores de mudança setorial, especialmente
os tecnológicos e os de mudança das preferências dos consumidores/usuários. O
controle da implantação das estratégias, através da análise de viabilidade estratégico-
financeira de projetos de investimento, faz parte deste controle de desempenho num
horizonte futuro, que jamais deve ser descurado pelos Controllers.
(3) Comunicação. Poucos, infelizmente ainda muito poucos Controllers se
preocupam efetivamente com o aspecto da comunicação dos resultados de seu
trabalho. Não obstante, esse é um das facetas mais importantes de suas modernas
atribuições. Como um Controller não tem poder para tomar decisões, ele precisa
produzir e dar as informações pertinentes e relevantes a outros executivos, de forma
a provocar decisões corretas e dentro do prazo adequado. Apesar de ele mover-se
num mundo de especialistas19, suas análises, propostas e demonstrativos não
deverão, pois, padecer dos jargões típicos de especialistas, que, por não serem
entendidos, jamais serão utilizados de forma apropriada20. Por outro lado, deve ficar
claro que o valor de uma informação pode ficar rapidamente obsoleto, se tal
informação não for veiculada antes que tenha passado a oportunidade de tomar
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decisões sobre a situação ou o fato que está sendo reportado. Jamais
um Controller deveperder a oportunidade de ser relevante para poder ser mais
preciso ou mais profundo. Esta é uma das pragas que sempre assolaram os
contadores, que de forma alguma deve também cair sobre os Controllers.
O ponto vital da comunicação da Controladoria é a confecção de relatórios de
desempenho para a governança empresarial, como se pode verificar na Figura 3.
Esses relatórios devem ter elementos que permitam, através dos resultados, aquilatar
o direcionamento estratégico e, dessa forma, permitir aos principais executivos
(governança interna) e ao Board (governança externa) avaliar, de um lado, os
objetivos e metas da empresa e, do outro, as estratégias e a própria ação dos
administradores que as formularam e as implantaram (ou não!). Aqui é pertinente um
comentário: alguns teóricos e muitos executivos não aceitam, em hipótese alguma,
que um Controller possa enviar relatórios diretamente ao Conselho de Administração,
"por cima das cabeças dos executivos". Todavia, quando a comunicação
Controladoria-Conselho não existe, ocorre uma grave deficiência no fluxo de
informações para a governança externa, que, na prática, já tem outros obstáculos
enormes para o exercício de suas funções com um mínimo de eficácia. Para superar
o impasse, basta assegurar que os relatórios que são preparados pela Controladoria
para envio ao Board sejam remetidos simultaneamente para a Direção executiva.
Ficaria, assim, preservada a independência dos Controllers, sem quebrar a hierarquia
e o espírito de equipe que devem existir em todo corpo diretivo empresarial21.
2.6. Conclusão: A Grande Travessia da Contabilidade à
Controladoria
A Controladoria deve ser vista como o pináculo da carreira do contador numa
empresa e o caminho natural de sua ascensão à Direção. Afinal, no mundo todo, não
é pequena a proporção de Controllers que se tornaram os principais executivos
(CEO) de suas empresas22. Todavia, há uma questão anterior de vital importância:
como os contadores podem tornar-se Controllers? Não são pequenos os obstáculos.
Um deles, como já foi discutido acima, decorre da própria visão que, ao menos do
Brasil, os dirigentes de empresas têm do Contador. (Porque, a não ser numa empresa
especializada em auditoria ou planificação tributária, se daria oportunidade a
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um expert em demonstrativos financeiros para fins fiscais de fazer parte da equipe de
Direção?) Mas o maior obstáculo, na opinião do autor, vem da própria postura,
percepções, atitudes e excesso de especialização na área tributária que caracterizam
a "mentalidade típica do contador fiscal", que é altamente limitante e está bastante
generalizada entre os contadores, o que, de certa forma, é natural, uma vez que,
como já foi dito acima, mais de 80% deles no Brasil se dedicam exclusivamente à
contabilidade financeira. Esta mentalidade é o fator que, de fato, mais está
restringindo a sua capacidade de se tornarem Controllers23. A Figura 4 demonstra as
características que distinguem a Controladoria da Contadoria Financeira.
As transformações da contabilidade gerencial que estão ocorrendo no mundo
e que procuram colocá-la em sintonia com as transformações recentes no panorama
mundial dos negócios têm imensas implicações para o ensino e a formação
de Controllers. A mais importante delas é que, se se deseja preparar Controllers, não
se deve mais formar especialistas em contabilidade, já que as atribuições da
Controladoria abrangem a contabilidade financeira ou externa, mas vão muito além.
O Controller, como foi demonstrado acima, precisa ser por excelência um generalista,
com uma capacidade de entender profundamente sua empresa e seu ramo de
negócios, além de saber entender, manejar e criticar métodos, instrumentos de
pesquisa e análise e formas de atuação de um grande número de especialistas
funcionais.
Para formar um Controller, no currículo didático da área acadêmica de
contabilidade deveria ser incluído, portanto, um elenco de outras disciplinas (que não
seria muito grande, como pode parecer a alguns) que, a partir do modelo contábil-
financeiro que teria um papel central, expandiria tal modelo ao longo dos eixos de
evolução acima discutidos e formaria o núcleo básico de formação (Cano, 1994).
Essas disciplinas, no seu conjunto, preparariam um profissional generalista24, cujo
conhecimento estratégico, atitude crítica, base humana e diálogo inteligente com os
especialistas das áreas funcionais lhe permitiriam arquitetar o banco de dados e
montar o fluxo de informações e relatórios, os quais constituiriam o grande quadro de
avaliação do desempenho competitivo de cada empresa, que é o instrumento básico
de sua governança.
Com a formação adequada e livre da "mentalidade típica do contador fiscal",
um contador moderno deve considerar que o status legal atual da profissão contábil
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no Brasil, que lhe confere exclusividade na preparação dos demonstrativos contábeis-
financeiros é, na verdade, uma grande oportunidade e uma importante "vantagem
competitiva" para se promover a Controller (vide, no Anexo 1, o quadro geral das
atribuições de uma moderna Controladoria, baseado em algumas grandes empresas
visitadas pelo autor).
73
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74
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"Um Perfil da Administração Tributária Brasileira". Brasília, Secretaria da Receita
Federal / Escola de Administração Fazendária, 1995.brasileira possui uma complexidade latente e dificulta a análise
e compreensão de sua estrutura. Como por exemplo, pode-se destacar a CPMF.
Inicialmente, em Janeiro de 1994, este imposto foi criado sob a denominação de
5
Imposto Provisório sobre Movimentação Financeira, ou IPMF, e gerou aos cofres do
governo uma arrecadação de R$ 4,98 bilhões, segundo dados da Receita Federal de
2003. Em 1997, o imposto teve uma participação de 6,45% dentre todas as receitas
administradas pela Secretaria da Receita Federal. A CPMF foi extinta em janeiro de
1999, mas reintroduzida em junho do mesmo período, quando se criou uma nova
tributação, agora sob a denominação de IOF ou Imposto sobre Operações
Financeiras. A IOF incide sobre aplicações em fundos de investimentos, cuja alíquota
é de 0,38% e se constitui até hoje, como um imposto permanente, e vinculado à saúde
e à previdência social.
Portanto, fica caracterizada a importância dos tributos para as contas públicas.
Contudo, falta uma análise do possível impacto que estes podem exercer sobre os
custos das empresas, vista a necessidade latente de modernização do sistema
tributário.
1 – ESPÉCIES DE TRIBUTO
São três as espécies de tributos no Brasil:
➢ impostos;
➢ taxas;
➢ contribuições de melhoria.
1.1 - Impostos
Os impostos são tributos cuja obrigação tem por fator gerador uma situação
independente de qualquer atividade estatal específica, relativa ao contribuinte. Foram
criados em função da capacidade contributiva do indivíduo, não implicando contra
prestação direta, por parte do Estado. O imposto é a mais típica das espécies de
tributo, uma vez que a sua instituição não reflete uma atuação do estado em relação
ao contribuinte. Os impostos são de competência Federal, Estadual (Estados e
Distrito Federal) e Municipal.
6
Os impostos estaduais incidem sobre:
1) propriedade de veículos automotores;
2) transmissão de bens causa mortis;
3) doações;
4) operações relativas à circulação de mercadorias (ICMS);
5) prestações de serviços de transporte interestadual;
6) prestações de serviços de transporte intermunicipal,
7) prestações de serviços de comunicação.
Portanto, são sete os impostos de caráter Estadual.
Os impostos municipais incidem sobre:
1) propriedade predial;
2) propriedade territorial urbana;
3) serviços de qualquer natureza (ISS),
4) transmissão inter vivos de bens imóveis.
Portanto, são 4 os impostos de caráter Municipal.
Os impostos são divididos entre diretos e indiretos.
São exemplos de impostos diretos: o Imposto de Renda das pessoas físicas e o IPTU.
7
São impostos indiretos: o II, o IPI, o ICMS e o IR das pessoas jurídicas.
Pode-se ainda definir o contribuinte entre contribuinte de direito ou de fato. Entende-
se por contribuinte de direito aquele a quem a lei atribui o encargo de calcular e
recolher o tributo.
São contribuintes de direito, estabelecimentos industrias ou comercias. São
contribuintes de fato, aqueles sobre os quais recaem ônus financeiro efetivo do
tributo, como os consumidores finais, nos casos de aquisições de bens.
Os tributos mais relevantes para as áreas de distribuição em logística. Serão descritos
com maior detalhamento os tributos do ICMS e o ISS, por que são aqueles que mais
servem às políticas de arrecadação regional, isto é, os que mais se relacionam ao
objeto da pesquisa, já que servem de instrumento de estímulo a investimentos locais.
Os tributos federais são únicos para as regiões do país, salvo as especiais, como a
Zona Franca de Manaus e, não apresentam margem para a criação de distorções
políticas diferenciadas.
1.2 - Impostos Federais - Imposto sobre Produtos Industrializados
(IPI)
O IPI, de competência federal, incide sobre produtos industrializados nacionais ou
estrangeiros. Considera-se industrializado o produto que resulta de qualquer
operação que lhe modifique a natureza, o funcionamento, o acabamento, a
apresentação ou a finalidade, ou, ainda, que o aperfeiçoe para consumo.
O IPI é seletivo em função da essencialidade dos produtos e não cumulativo, isto é,
o montante do imposto devido resulta da diferença entre o débito e crédito, ou seja, a
diferença entre o imposto referente aos produtos saídos do estabelecimento e o pago
relativo aos produtos nele entrados.
Considera-se como fato gerador do IPI: o envio de remessas pelo importador a
terceiros, a industrialização fora do estabelecimento industrial, as vendas realizadas
por intermédio de armazéns gerais ou de outros depositários situados na mesma
unidade da federação, a venda de produto exposto em feira de amostra ou promoções
8
semelhantes, bem como a saída de mercadorias em que não foram atendidas as
condições para a suspensão do imposto. Na importação, o fator gerador é o
desembaraço aduaneiro do produto de procedência estrangeira. Sendo o produto
nacional, o fato gerador ocorre no momento da sua saída do estabelecimento
industrial ou equiparado a industrial.
O imposto será calculado mediante a aplicação da alíquota do produto, constante da
tabela de incidência do IPI (TIPI) sobre o valor tributável. Constitui valor tributável, no
caso de produto de procedência estrangeira, o valor que serve ou serviria de base
para cálculo do imposto de importação, acrescido deste e dos encargos cambiais
devidos. No caso de produto nacional, a base de cálculo é o valor da operação de
que decorre a saída da mercadoria. Por exemplo: um equipamento X com custo de
R$ 10,00, tem a taxa de alíquota de IPI dada pela tabela de 10%. O IPI, neste caso,
é a base de cálculo de X, cujo preço agora é de R$ 11,00. Outros impostos, como o
ICMS, deverão ser calculados sobre este valor de R$ 11,00. A alíquota de ICMS
deverá ser também calculada sobre os valores de IPI como, por exemplo:
ICMS = preço sem imposto / {1 – (alíquota do ICMS) * (1+ alíquota do IPI)} – preço
sem impostos.
São contribuintes do IPI: o importador, o industrial e o estabelecimento equiparado a
industrial, bem como os comerciantes nos casos indicados por lei e os que
9
consumirem ou utilizarem o papel destinado à impressão de livros, jornais e
periódicos em finalidade diferentes.
São responsáveis pelo imposto: o transportador, possuidor ou detentor, empresa
comercial exportadora, proprietário, possuidor, transportador ou detentor de cigarros
nacionais destinados à exportação que forem encontrados no país, como, também,
os estabelecimentos que possuírem produto nacional sujeito ao selo de controle,
quando não o contenham. Como exemplos de contribuintes do IPI temos, a
distribuidora da Coca-Cola e a IBM do Brasil quando comercializa computadores.
1.3- Impostos sobre o Comércio Exterior-Imposto de importação
Imposto de importação é o tributo de competência federal incidente sobre a
mercadoria que ingressa no território nacional. As importações podem ser realizadas
em caráter definitivo ou temporário, o que caracteriza, respectivamente, os regimes
aduaneiros gerais e especiais.
Regimes aduaneiros gerais, ou comuns, são aqueles em que a mercadoria que chega
ao país (ou dele sai) é submetida a todos os procedimentos normais de uma
importação para consumo - ou de uma exportação comum - não se entendendo a
palavra consumo em seu sentido econômico, mas sim, no sentido de que a
mercadoria integrou-se ao patrimônio nacional, seja com fins de consumo
propriamente dito, seja para integrar o processo produtivo.
Os regimes aduaneiros especiais, também chamados de econômicos ou
suspensivos, são aqueles em que o imposto incidente sobre a mercadoria, importada
ou a ser exportada, tem sua exigibilidade suspensa por determinado período de
tempo e sob condições estabelecidas na legislação. São eles muito importantes para
a economia do país. Os tributos suspensos são garantidospor termo de
responsabilidade, com apresentação de fiança, caução ou depósito, conforme o caso.
10
1.4 - Imposto de Exportação
O regime aduaneiro comum de exportação é aquele que tem em vista permitir a saída
do país de mercadoria nacional ou nacionalizada com destino ao exterior. Para esse
fim, considera-se como nacionalizada a mercadoria que tenha sido importada a título
definitivo, incorporando-se, assim, à economia nacional. O imposto de exportação
exerce, quando incidente, função extrafiscal, razão pela se constitui exceção aos
princípios da legalidade e da anterioridade da lei.
1.5 - Impostos Estaduais
ICMS
Imposto sobre Operações Relativas a Circulação de Mercadorias e sobre Prestações
de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação. Não
somente por sua particularidade em incidir sobre operações relativas a circulação de
mercadoria, que vincula o interesse em logística, mas por ser este um imposto
estadual com caráter de definição de alíquotas determinadas pelos próprios estados.
De competência estadual, incide sobre as operações relativas à circulação de
mercadorias e sobre as prestações de transporte interestadual, intermunicipal e de
11
comunicação, item cujo exercício está sujeito à incidência, mesmo que as ligações
telefônicas sejam efetuadas dentro dos limites de um mesmo município.
O ICMS é não cumulativo, devendo-se abater em cada operação o montante cobrado
nas operações anteriores pelo mesmo ou por outro Estado. Com a extinção dos
impostos únicos, o ICMS passou a incidir, também, sobre as operações relativas a
minerais, combustíveis e energia elétrica.
O ICMS é, também, seletivo. Suas alíquotas, diferenciadas para cada operação, são
aplicadas em função da essencialidade das mercadorias e dos serviços, ou seja,
conforme o grau de necessidade ou de utilidade de umas e de outros. Por exemplo:
o estado de Minas Gerais definiu alíquota de 12% para o ICMS. Entretanto, o queijo
de Minas possui, no estado, uma alíquota de 7%.
O fato gerador do imposto ocorre na saída de mercadoria, a qualquer título, do
estabelecimento do mesmo titular, bem como na saída do estabelecimento industrial,
em favor do cliente, ou para outro de destino definido e por ordem deste. É fator
gerador, a mercadoria submetida a processo de industrialização que não implique
prestação de serviço compreendido na competência tributária municipal, ainda que a
industrialização não envolva aplicação ou fornecimento de qualquer insumo. Da
mesma forma, ocorre incidência do imposto na entrada do estabelecimento do
contribuinte de mercadoria proveniente de outra unidade de federação, destinada a
consumo ou a ativo fixo, e no caso de aquisição em licitação promovida pelo Poder
Público. Incluem-se as mercadorias ou bens importados do exterior e apreendidos,
bem como, no recebimento pelo importador de mercadoria proveniente do exterior
que se concretiza com o despacho aduaneiro.
O contribuinte do imposto é o comerciante, industrial ou produtor que promove a saída
da mercadoria ou que a importa, o titular do estabelecimento fornecedor de alimentos
e bebida, assim como o prestador dos serviços que constituem a base imponível do
imposto. A redução da base de cálculo, a fixação de alíquotas internas inferiores à
interestadual, a devolução total ou parcial do tributo, os créditos presumidos ou
quaisquer outros incentivos ou benefícios fiscais ou financeiro-fiscais, são
concedidos, revogados ou dispostos em convênios celebrados e ratificados pelos
estados e pelo Distrito Federal.
12
A base de cálculo do ICMS é confusa. O ICMS é um imposto que integra a sua própria
base de cálculo e, então, é dito que ele é “um imposto por dentro”. A base de cálculo
do imposto é o valor da operação acrescido de todos os encargos cobrados ao
adquirente. A base de cálculo é, o valor total da operação onerosa com mercadorias
e com serviços. É, também, o preço presente da mercadoria quando a operação é
não onerosa. Em qualquer caso, são acrescidos os descontos, as diferenças. No caso
de mercadoria importada, toma-se como base de cálculo o valor constante dos
documentos de importação: DI (documento de importação), convertido em Reais (R$),
acrescido do valor dos impostos de importação e sobre produtos industrializados e
das demais despesas aduaneiras. Ou seja, o ICMS é calculado após a inclusão dos
impostos federais de importação e IPI, se for o caso, dos custos de despesas
aduaneiras e do frete. Nas saídas de mercadorias para o exterior, quando devido, a
base de cálculo do imposto é o valor da operação acrescido de todos os encargos
cobrados ao adquirente. Na prestação de serviço de transporte interestadual e
intermunicipal, e de comunicação, a base de cálculo é o preço do serviço vigente para
a operação.
Uma particularidade do cálculo do ICMS se verifica pela característica descrita
anteriormente como não-cumulativa. Assim sendo, o ICMS deve recair sobre uma
tabela de créditos e débitos para que seja exigida a sua não cumulatividade.
EXEMPLO: Uma empresa compra um produto e a faz com uma nota fiscal, onde o
ICMS é destacado e, portanto, acrescenta-se esse valor na coluna de créditos do
chamado livro de débitos e créditos. Quando uma empresa vende um produto, o valor
do ICMS, também descrito na nota, é considerado débito e, acrescenta-se esse valor
ao livro de créditos e débitos, na coluna de débitos, sendo o saldo, a diferença entre
ambas. A empresa irá efetuar o pagamento segundo a regra estadual a que está
vinculada. As regras de pagamento variam de estado para estado da união. A alíquota
do imposto em operação interna, intra-estadual ou prestação interna é, em regra
geral, de 17% a 18%, conforme o Estado, podendo ter outros valores em casos
especiais. A alteração das alíquotas internas para operações intra-estaduais são
construídas e aprovadas através de lei ordinária, emanada do poder executivo
estadual. Cada Estado é livre para reduzir sua alíquota de ICMS ao valor mínimo de
7%. As alíquotas interestaduais foram definidas pelo Senado e os Estados não têm
autonomia para alterá-las.
13
Na operação ou prestação interestadual, quando o destinatário for contribuinte do
imposto localizado nas regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e no Espírito Santo, a
alíquota é de 9% ou 7% segundo os casos previstos na legislação local. Nas demais
regiões, a alíquota é de 12% ou 13%, dependendo do Estado remetente. As alíquotas
interestaduais, fixadas pelo Senado, visam balancear a arrecadação entre Estados
produtores e consumidores. Assim, há Estados que possuem alíquotas interestaduais
de 12%, como o Rio de Janeiro e São Paulo, e outros com alíquotas interestaduais
de 7%, como Pernambuco e Mato Grosso do Sul.
Portanto, a base de cálculo do ICMS pode decorrer de outros impostos. O principal
imposto que serve como base para cálculo do ICMS é o IPI. A análise da base de
cálculo para o ICMS, tanto do IPI ou como de qualquer outro, é também complexa.
Quando o IPI não se inclui como base - O IPI não se inclui como base de cálculo do
ICMS quando o remetente da mercadoria for o contribuinte do IPI ou do ICMS, ou
quando o destinatário da mercadoria for contribuinte do IPI ou do ICMS ou quando
essas operações são baseadas na finalidade de industrialização e comercialização.
A base de cálculo do ICMS (ICMS embutido), neste caso, é aplicada sobre o preço
líquido do produto, conforme mencionado anteriormente, levando-se em
consideração a alíquota de cada Estado. A Tabela traz uma exemplificação onde
Esta tabela é aplicável a todos os Estados, seguindo-se a alíquota de cada um.
14
Quando o IPI se inclui como base - O IPI se inclui como base de cálculo para o ICMS
quando o remetente for contribuinte do IPI e do ICMS e a operaçãotiver a finalidade
de consumo, seja o destinatário contribuinte ou não do ICMS e do IPI. Neste caso, a
base de cálculo do ICMS aplica-se segundo uma tabela de coeficientes, como
demonstrado na Tabela 2.2 (Nazario, 2002).
15
1.6 - Benefícios Fiscais Relacionados ao ICMS
As regras de tributação nacional, legalizadas pela Constituição Federal de 1988,
estabeleceram uma certa autonomia aos Estados na formalização da cobrança de
impostos, o que atualmente pode estar gerando uma disputa fiscal que afeta e
degrada de forma acentuada a arrecadação, prejudica o desenvolvimento produtivo,
retrai a geração de empregos e desestimula o consumo e a produção industrial.
Alguns Estados da união partiram para o desenvolvimento de políticas fiscais que, na
verdade, apontam para o aumento da captação de impostos. Exemplo dessas
políticas podemos ressaltar os Convênios.
Os convênios de acordo com Borges e Reis (1995) têm o objetivo de estabelecer
regras que concedem benefícios fiscais a um ou mais estados. Os convênios são
acordados por todos os Estados e mais o Distrito Federal no âmbito do CONFAZ, que
é o Conselho de Política Fazendária. Os convênios possuem características como a
obrigatoriedade, vigência ou temporariedade.
Obrigatoriedade: Podem ser Autorizativos, quando permitem a concessão de
benefícios fiscais às unidades que aprovarem sua legislação ou Impositivos, quando
impostos pela União e os benefícios fiscais são independentes da alteração da
legislação estadual.
Vigência: pode ser Permanente, quando não existe período definido para o término
do benefício e Temporário, quando o prazo de vigência é determinado.
Um ponto importante para análise da uma conclusão final e os objetivos deste estudo
é o impacto do ICMS sobre o transporte. O ICMS incide sobre o valor do frete somente
em transportes intermunicipais e interestaduais. Para a legislação, atualmente em
vigor, o fato gerador que caracteriza a prestação de serviços de transporte está
associado ao local de origem da carga. Com isso, a obrigação do imposto está
vinculada ao Estado de origem da carga, mesmo nos casos em que o transportador
não é contribuinte daquele Estado. Com relação a isto vinculamos dois tipos de frete:
CIF e FOB. Segundo definições da Aduaneiras Inconterms (2000), CIF (Cost
Insurance and Freight) inclui as despesas com seguro e frete, enquanto o frete FOB
(Free on Board) exclui ambos da contabilização de seu preço. Na modalidade CIF, o
transportador é responsável pela execução do pagamento do ICMS nos Estados onde
16
não existe substituição tributária. Para os Estados onde existe substituição tributária
o próprio embarcador recolhe o tributo. Na modalidade de frete FOB, o comprador é
responsável pelo pagamento do tributo aos Estados que possuem substituição
tributária. Caso contrário, o transportador recolhe o tributo. A empresa de transporte
também pode utilizar o recurso de crédito presumido. As empresas que optarem por
não utilizar qualquer tipo de crédito a que tenham direito gozarão de um desconto de
20% sobre o débito mensal.
1.7 - Benefícios Relacionados ao Financiamento do ICMS
Os benefícios relacionados ao financiamento do ICMS podem ser estruturados para
importação, instalação de plantas e centros de distribuição.
Atualmente, o mais conhecido financiamento para importação é o FUNDAP, utilizado
no Espírito Santo, embora outros Estados como Rio Grande do Sul, Santa Catarina e
Pernambuco, também utilizam financiamentos para os portos de Rio Grande, Itajaí e
Suape, respectivamente.
Exemplo do FUNDAP: Criado em 22 de maio de 1970, o FUNDAP é um
financiamento concedido pelo governo do Estado do Espírito Santo aos empresários
que importam pelos portos capixabas. O financiamento pode ser pago em até 20
anos, sem nenhuma vinculação com bonificação fiscal. Único incentivo financeiro do
gênero no país, o programa conta, hoje, com 212 empresas credenciadas, que
empregam cerca de 2,8 mil pessoas. A única exigência do governo estadual para a
concessão do financiamento é que 7% do valor contratado seja investido em um
empreendimento no território capixaba, até o final do ano seguinte à geração do
imposto. Ou seja, num prazo que vai de 12 a 24 meses.
Outros Estados utilizam políticas e órgão semelhantes. O Estado do Rio Grande do
Sul utiliza o FUNDOPEN – Fundo Operação Empresa, Incentivo Financeiro à
Implantação e/ou Expansão de Projetos Industriais. Os Estados de Santa Catarina e
Pernambuco utilizam programas que incentivam a utilização de seus portos,
17
respectivamente, o de Itajaí e o Suape. O Estado do Amazonas dispõe da Zona
Franca, que iremos avaliar mais adiante neste trabalho.
Outros exemplos de benefícios relacionados à instalação de indústrias e aos centros
de distribuição são encontrados nos Estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia,
Minas Gerais, Paraná e Amazonas. De fato, são os principais Estados da União que
oferecem financiamento à tributação para acolher indústrias. Essa prática não está
restrita somente a eles. Os Estados de Goiás, Ceará, Espírito Santo, Pernambuco e
Rio Grande do Sul utilizam práticas semelhantes às suas, diferindo, basicamente,
pelo período de financiamento. Em alguns casos, estes benefícios se estendem por
até 12 anos.
Os Estados também disponibilizam espaços para criação de centros de distribuição,
ao mesmo em tempo que concedem benefícios para a instalação de indústrias. O
estado de Pernambuco, por exemplo, criou o PRODEPE, em outubro de 1999
(atualizado em janeiro de 2001 pela Lei nº 11.937), onde são oferecidos incentivos
para atrair investimentos industriais e incrementar o comércio estadual.
1.8 - Impostos Municipais- Imposto sobre Serviços de Qualquer
Natureza (ISS)
O ISS, de competência municipal, incide sobre serviços de qualquer natureza. O
imposto é definido em lei complementar, excetuados os serviços de transporte e
comunicação, que são de competência estadual. O local da prestação do serviço é o
estabelecimento ou o domicílio do prestador ou, no caso de construção civil, o lugar
onde se efetua a prestação.
O imposto tem como fato gerador a prestação por empresa ou profissional autônomo,
com ou sem estabelecimento fixo, de serviços incluídos na lista estabelecida na Lei
Complementar nº 53/87. Os serviços enumerados na referida lista ficam sujeitos
apenas ao ISS, ainda que a prestação envolva fornecimento de mercadorias. Tal
fornecimento, com prestação de serviços não especificados na lista, fica sujeito ao
ICMS. As isenções do ISS são concedidas através de lei ordinária emanada da
Câmara dos Vereadores. A base de cálculo do imposto é o preço do serviço,
18
considerando-se como preço, tudo o que for cobrado em virtude da prestação do
serviço, em dinheiro, bens, serviços ou direitos, seja na conta ou não, inclusive a título
de reembolso, reajustamento ou dispêndio de qualquer natureza; insere-se na base
de cálculo as vantagens financeiras decorrentes da prestação de serviços e as
relacionadas com a retenção periódica dos valores recebidos, com os descontos ou
abatimentos concedidos sob condição, contendo os ônus relativos à obtenção de
financiamento e às vendas a crédito, ainda que cobrados em separado.
As alíquotas máximas para fins de cálculo do imposto são fixadas por lei
complementar, que também exclui da incidência do imposto as exportações de
serviços para o exterior.
Contribuinte do ISS é o prestador do serviço, não se compreendendo como tal: aquele
que presta serviços em relação de emprego, o trabalhador avulso ou diretores e
membros do conselho consultivo ou fiscal de sociedade. São contribuintes do ISS os
autônomos, assim como a empresa, entendida como toda e qualquer pessoa jurídica,
inclusive a sociedade civil ou de fato que exercer atividade prestadora de serviços. É
contribuinte também a pessoafísica que admitir, para o exercício da sua atividade
profissional, mais do que dois empregados ou um ou mais profissionais da mesma
habilitação do empregador. O empreendimento instituído para prestar serviços com
interesse econômico, bem como o condomínio que prestar serviços a terceiros.
1.9 - IPTU
O IPTU, o imposto sobre a propriedade predial e territorial urbana, tem como fato
gerador a propriedade, o domínio útil ou a posse de bem imóvel, por natureza ou por
acessão física, como definido na lei civil, localizado na zona urbana do Município.
Considera-se ocorrido o fato gerador no primeiro dia do exercício a que corresponder
o imposto. Para efeitos deste imposto, entende-se como zona urbana toda área em
que existam melhoramentos indicados em pelo menos dois dos incisos seguintes,
construídos ou mantidos pelo Poder Público:
1) meio-fio ou calçamento, com canalização de águas pluviais;
2) abastecimento de água;
19
3) sistema de esgotos sanitários;
4) rede de iluminação pública, com ou sem posteamento para distribuição
domiciliar;
5) escola de 1º Grau ou posto de saúde a uma distância máxima de 3 (três)
quilômetros do imóvel considerado.
Considera-se também urbana a área urbanizável ou de expansão urbana, constante
de loteamento aprovado pelo órgão municipal competente, destinado à habitação, à
indústria ou ao comércio.
20
2 – TAXAS
As taxas são cobradas pela União, pelos Estados, pelo Distrito Federal ou pelos
Municípios, no âmbito de suas respectivas atribuições. Elas têm como fato gerador o
exercício regular do poder de polícia, ou a utilização, efetiva ou potencial, de serviço
público específico e divisível, prestado ao contribuinte ou posto à sua disposição.
Considera-se poder de polícia a atividade da administração pública que, limitando ou
disciplinando direito, interesse ou liberdade, regula a prática de ato ou a abstenção
de fato, em razão de interesse público concernente à segurança, à higiene, à ordem,
aos costumes, à disciplina da produção e do mercado, ao exercício de atividades
econômicas dependentes de concessão ou autorização do Poder Público, à
tranquilidade pública ou ao respeito à propriedade e aos direitos individuais ou
coletivos. (Redação dada pelo Ato Complementar nº 31, de 28.12.1966).
21
3 - CONTRIBUIÇÕES DE MELHORIA
A contribuição de melhoria cobrada pela União, pelos Estados, pelo Distrito Federal
ou pelos Municípios, no âmbito de suas respectivas atribuições, é instituída para fazer
face ao custo de obras públicas decorrentes da valorização imobiliária, tendo como
limite total a despesa realizada e como limite individual o acréscimo de valor que da
obra resulta para cada imóvel beneficiado.
Contribuição Especial: A contribuição especial é a espécie tributária que se
caracteriza como forma de intervenção do Estado no domínio econômico privado,
com vistas a atender uma particular situação de interesse social ou de categorias
econômicas ou profissionais.
As contribuições especiais, previstas no artigo 149, da Constituição Federal,
destinam-se ao custeio de entidades que reconhecidamente prestam ou desenvolvem
atividades de interesse público. Baseia-se no princípio de que somente as pessoas
que se beneficiam do exercício dessas funções devam para elas contribuir.
Contribuições de Competência Privativa da União: classificam-se como
contribuições especiais da União, as de intervenção no domínio econômico, tais como
as destinadas à formação do PIS/PASEP, as de interesse de categorias profissionais,
como a contribuição sindical e as contribuições para a OAB, para o CRM etc., além
das de interesse de categorias econômicas, dentre as quais destacamos o Adicional
ao Frete para a Renovação da Marinha Mercante (AFRMM).
Contribuições Sociais: As contribuições sociais, de que trata o artigo 195, da
Constituição Federal, destinam-se ao custeio da seguridade social, que tem por
finalidade assegurar os direitos relativos à saúde, à previdência e à assistência social
aos cidadãos. Aqui, estão compreendidas as contribuições dos empregadores,
incidentes sobre a folha de salários, sobre o faturamento, a chamada COFINS, criada
22
pela Lei Complementar n0 70/91, e a contribuição sobre o lucro, baseada na lei n0
7.689/88. Contam-se, ainda, como fontes de recursos da seguridade social a
contribuição previdenciária devida pelos empregados, bem como a receita oriunda de
concursos de prognósticos.
3.1 - Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL)
A CSLL foi instituída pela Lei 7689, de 15/12/1998, posteriormente alterada pela Lei
9316, de 22.11.96, que convalidou os atos praticados com base na Medida Provisória
1.516, de 26.09.96. Tem por finalidade o financiamento da seguridade social. Seu
fator gerador é o lucro das pessoas jurídicas domiciliadas no país, e sua base de
cálculo, o valor do resultado do exercício, antes da provisão para o Imposto de Renda,
considerando-se o resultado do período-base encerrado em 31 de dezembro de cada
ano. A Lei 9.249/95, em seu art.19, fixou a alíquota em CSLL em 8%, exceto para
instituições financeiras ou equiparadas.
3.2 - Contribuição Social sobe o Faturamento (COFINS)
Destinadas exclusivamente às despesas com atividades-fim das áreas de saúde,
previdência e assistência social, a COFINS foi criada pela Lei Complementar 70, de
30.12.91, com base nos termos do inciso I do art.195 da Constituição Federal. Incide
sobre o faturamento mensal das pessoas jurídicas, entendendo-se como tal, a receita
bruta das vendas de mercadorias, de mercadorias e serviços e de serviço de qualquer
23
natureza. Não integra a receita, para efeito de determinação da base de cálculo da
contribuição, o valor do imposto sobre produtos industrializados, quando destacado
em separado no documento fiscal e as vendas canceladas, devolvidas e com
descontos, a qualquer título concedidos incondicionalmente.
A base de cálculo para o COFINS está baseada sobre a receita bruta mensal,
conforme as receitas auferidas pela pessoa jurídica, sendo irrelevante a prática
contábil adotada. A alíquota de operação é padronizada em 3%. O COFINS tem
caráter cumulativo em sua base de cálculo.
3.3 - Contribuição para o PIS/PASEP
A contribuição para o Programa de Integração Social - PIS foi instituída pela Lei
Complementar n0 7, de 07.09.70, enquanto a contribuição para o PASEP pela Lei
Complementar n0 8, de 03.12.70. As pessoas jurídicas com fins lucrativos contribuíam
com duas parcelas, a primeira deduzida do imposto de renda devido, e a segunda
como ônus das empresas.
A contribuição ao PIS/PASEP deixou de ser uma contribuição social de intervenção
no domínio econômico para se tornar a contribuição de seguridade social ou
previdenciária, de que trata o art. 195 da Constituição Federal.
A base de seu cálculo está relacionada às pessoas jurídicas de direito privado, e
refere-se ao valor da receita bruta mensal do total das receitas auferidas para
qualquer prática contábil adotada. A alíquota para o PIS está estabelecida em 0,65%,
enquanto que a do PASEP está estabelecida segundo o tipo de atividade: Pessoa
Jurídica de direito público/ autarquias a 1%, empresas públicas a 0,65% e folha de
pagamento a 1%. A alíquota de operação é padronizada em 3%. O PIS/PASEP tem
caráter cumulativo em sua base de cálculo.
3.4 – CPMF
A Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) foi inicialmente
proposta como imposto provisório Federal pelo primeiro governo Fernando Henrique
Cardoso (1994-1998), mais precisamente pelo Ministro da Saúde, Adib Jatene, para
atender a área da saúde. O imposto foi estipulado em 1994 e estava vinculado às
24
movimentações financeiras. A CPMF tinha como carga inicial 0,25% sobreo montante
das operações. Começou a ser cobrada em caráter de Imposto Provisório sobre
Movimentação Financeira – IPMF a partir de janeiro de 1994. Em pouco tempo o
governo verificou o poder de arrecadação do CPMF que, só no primeiro ano de
implementação, gerou R$ 4,98 bilhões aos cofres públicos, chegando a R$ 6,90
bilhões em 1997 (Gazeta Mercantil 1997). Em 2001, a CPMF correspondeu a 0,79%
do PIB brasileiro com arrecadação bruta, naquele ano, de R$ 7.948.648,43,
correspondendo a 2,6% do total de impostos arrecadados. No ano de 2001, a CPMF
foi a 8ª maior contribuição de impostos para os cofres do governo (Receita Federal
do Brasil, 2001).
Desde então, a CPMF foi alvo de discórdias políticas, principalmente porque foi
inicialmente implementada através de medida provisória. A CPMF foi extinta no dia
23/01/99 e reintroduzida em 17/06/99.
Para substituição desse tributo foi criada uma nova tributação, o I.O.F (Imposto sobre
Movimentação Financeira) que incidia sobre aplicações financeiras em fundos de
investimentos baseados em alíquota definida de 0,38%. Hoje, o imposto se manteve
como imposto permanente com alíquota de 0,38% sobre movimentações financeiras.
A alíquota de operação é padronizada em 3%. A CPMF tem caráter cumulativo em
sua base de cálculo e o seu fato gerador está estipulado no art. 2º da Lei n° 9.311, de
1996.
A CPMF foi inicialmente criada para atender a área de saúde. Hoje, o imposto se
mantém com alíquotas definidas para atendimento a áreas específicas, como mostra
a tabela abaixo:
Fonte Receita Federal do Brasil
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A distribuição das alíquotas da CPMF foi e seguirá as seguintes alíquotas no futuro:
I - 0,20%, relativamente aos fatos geradores ocorridos no período de 23 de
janeiro de 1997 a 22 de janeiro de 1999;
II - 0,38%, relativamente aos fatos geradores ocorridos no período de 17 de
junho de 1999 a 16 de junho de 2000;
III - 0,30%, relativamente aos fatos geradores ocorridos no período de 17 de
junho de 2000 a 17 de março de 2001;
IV - 0,38%, relativamente aos fatos geradores ocorridos no período de 18 de
março de 2001 a 31 de dezembro de 2003;
V - 0,08%, relativamente aos fatos geradores ocorridos no período de 1º de
janeiro a 31 de dezembro de 2004.
A importância ao demonstrar o impacto destes tributos de caráter cumulativos exige-
se, como fundamental, pela representatividade destes, no total de arrecadação de
tributos no ano de 2000. A divulgação feita pela Receita Federal (2000) expressa em
5,73% do total de tributos entre PIS, COFINS e CPMF.
Toma-se como base uma empresa produtora de antenas para o mercado de
telecomunicações. O material irradiante, mais os fixadores de aço, foram taxados pelo
PIS, CONFIS e CPMF quando vendidos de uma siderúrgica para a fábrica
construtora. Esses serão taxados novamente quando da venda da antena já
manufaturada para o cliente final. Esses impostos são repassados na totalidade para
o cliente final, onerando o custo do produto sem produzir efeitos benéficos sobre o
desenvolvimento da indústria. Ainda assim, esses impostos afetam diretamente o
ICMS, visto que eles são a base dos cálculos para a emissão da nota fiscal. Deve-se
ressaltar que na primeira e na segunda operações, isto é, na compra da matéria e na
venda do produto final, existe uma incidência de 3,65% de PIS/COFINS em cada
etapa. Entretanto, para o operador logístico a integração vertical é estimulada,
eliminando o maior número de elos da cadeia de suprimentos. Nesse caso, evita-se
26
a cumulatividade de 3,65%, pois não existe o “comerciante” como intermediário e,
portanto, não existe nota da empresa fabricante para a empresa comercializadora, e
daí para o cliente final.
3.5 - Regimes Aduaneiros Gerais
Regimes aduaneiros gerais, ou comuns, são os de importação e de exportação. Os
impostos que incidem exclusivamente sobre as operações de entrada e saída de
mercadorias do país são os impostos de importação e de exportação. Outros tributos,
entretanto, incidem também sobre as mercadorias importadas ou que se destinam a
exportação. Dentre estes, podemos citar, no Brasil, o Imposto Sobre Produtos
Industrializados (IPI), o Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços
Interestaduais e Intermunicipais de Transportes e de Comunicação (ICMS) e o
Adicional ao Frete para Renovação da Marinha Mercante (AFRM).
O imposto de importação devido pelo ingresso de mercadoria no território nacional é
calculado mediante a aplicação de uma alíquota sobre uma base de cálculo. A
alíquota pode ser específica ou ad-valorem. É específica quando certo valor incide
sobre um fator fixo, como a quantidade, o peso, o volume ou qualquer outro padrão
de medida. A alíquota ad-valorem é representada por um percentual que incide sobre
o valor aduaneiro da mercadoria importada. A alíquota é encontrada junto à
nomenclatura do Sistema Harmonizado de Designação e Codificação de Mercadorias
(NBM/SH).
O valor da mercadoria é determinado, por sua vez, segundo o Acordo para
Implementação do Artigo VII, do GATT (Acordo de Valoração Aduaneira) e seu
protocolo adicional. Quando a alíquota for ad-valorem, a fórmula utilizada para cálculo
do Imposto de Importação é a seguinte: I.I = % . Valor da Mercadoria.
3.6 - Trânsito Aduaneiro
É o regime aduaneiro especial que permite o transporte da mercadoria, sob controle
fiscal, de um ponto a outro do território aduaneiro, com suspensão dos tributos
devidos. Não se confunde com transporte, simples operação, diferente, portanto, de
27
um regime jurídico. O trânsito aduaneiro pode dar-se por via aquática, terrestre ou
aérea. O regime de trânsito aduaneiro terá que ser declarado expressamente no
manifesto de carga, bem como no conhecimento de carga, como condição para a sua
aceitação.
São modalidades de operação de trânsito o transporte de mercadoria procedente do
exterior com destino a outro ponto do território aduaneiro e o transporte de mercadoria
já despachada para exportação, desde o depósito do exportador até o ponto de saída
do país, constituindo-se esta modalidade em importante instrumento de incentivo à
exportação. Além desses, vale destacar o transporte de mercadoria de um recinto
aduaneiro a outro e o chamado trânsito de passagem, que permite o transporte de
mercadoria procedente do exterior e a ele destinada, quando o território nacional
constitui parte do trajeto total, que se iniciou no exterior e que deve terminar fora de
suas fronteiras.
3.7 - Admissão Temporária
É o regime especial que permite a importação, com suspensão do pagamento de
tributos, de bens que venham a permanecer no país durante prazo fixado e com um
fim determinado, retornando ao exterior sem sofrer modificações que lhes confiram
nova individualidade, ou seja, no mesmo estado em que entraram. O depósito em
dinheiro, a fiança bancária ou a caução de títulos da divida pública garantem o valor
dos impostos suspensos.
O regime beneficia bens destinados a exposições artísticas, culturais e científicas, ou
modelo industrial, veículos de turistas estrangeiros, aparelhos para testes ou
controles, bem como material didático ou pedagógico, além de outros. Também são
beneficiadas máquinas e equipamentos destinados à prestação de serviços no país,
de caráter temporário. Igualmente, pode ser aplicado o regime a veículos que
conduzem mercadorias, contêineres e outras unidades de carga.
3.8 – Drawback
O Drawback é considerado um instrumento de estímulo à exportação. É conceituado
como um regime aduaneiro especial que consiste na importação, com suspensão,
28
isenção ou restituição de tributos, de insumos e produtos intermediários a serem
empregados em produto exportado ou destinado à exportação. Tem como objetivo
excluir do preço final do produto o ônus tributário relativo à importaçãode matéria-
prima ou produto intermediário importado empregado ou consumido na sua
fabricação, permitindo, com isso, a redução do custo dos produtos exportados, o
aperfeiçoamento e a modernização dos bens fabricados no país. São beneficiárias do
Drawback as empresas industriais exportadoras. Além da suspensão dos tributos
eventualmente devidos, a importação sob o regime de Drawback não se sujeita à
obrigatoriedade de transporte em veículo de bandeira brasileira e à apuração da
similaridade.
A modalidade de Drawback suspensão é a mais utilizada, visto que o importador não
necessita desembolsar qualquer importância quando da importação. Um plano de
exportação é submetido ao DECEX, que, após exame, expede o Ato Concessório. A
dispensa dos tributos fica condicionada à comprovação do embarque para o exterior
do produto contendo os bens importados. O Drawback suspensão pode ser do tipo
genérico, quando, devido à grande quantidade e diversidade dos produtos a serem
importados, não for possível a sua discriminação.
Serão constituídos termos de responsabilidade para o gozo dos direitos relativos ao
I.I. e ao IPI. A dispensa do AFRMM está condicionada a requerimento apresentado
ao Departamento de Marinha Mercante.
A modalidade isenção, também chamada de reposição de estoque e de exportação
antecipada, consiste na importação, com isenção de tributos, de mercadoria idêntica
e em quantidade suficiente para substituir outra utilizada no processo de fabricação
de produto exportado anteriormente.
Na modalidade restituição, o importador recebe um Certificado de Crédito Fiscal à
Importação, válido por determinado prazo, que lhe assegura o direito à restituição dos
tributos pagos na importação, tão logo comprove o embarque da mercadoria com
destino ao exterior.
Os benefícios do Drawback na importação estendem-se aos impostos internos. Por
conseguinte, temos, com a aplicação do regime de Drawback, não só a dispensa do
imposto de importação, como também a do imposto sobre produtos industrializados
(IPI), do imposto sobre circulação de mercadorias e serviços de transportes e
29
comunicação (ICMS), do imposto sobre operações de crédito, câmbio e seguros e
sobre valores e títulos mobiliários (IOF) e do adicional sobre o frete para a renovação
da marinha mercante (AFRMM), além de outros encargos que correspondam à efetiva
contraprestação de serviços.
Além dessas, outras modalidades podem ser citadas, como, por exemplo, o chamado
Drawback intermediário, que permite o gozo da suspensão ou da isenção de tributos
por fabricantes de bens intermediários, formadores da cadeia produtiva de produto a
ser exportado ou já importado por outro industrial, fabricante do produto final. Merece
citação, ainda, o Drawback solidário, pelo qual duas ou mais empresas encarregadas
da industrialização de produtos a serem exportados gozam do direito à isenção dos
tributos devidos pela importação, na proporção da parcela que a cada um
corresponda. Finalmente, cabe citar o tipo industrialização sob encomenda,
modalidade de Drawback em que uma empresa comercial exportadora importa partes
e peças, matérias-primas, produtos intermediários ou material de embalagem, para
industrialização por terceiro e posterior exportação pela empresa importadora.
3.9 - Entreposto Aduaneiro
Entreposto aduaneiro é o regime especial que permite, na importação e na
exportação, o depósito de mercadorias, em local determinado, com suspensão do
pagamento de tributos e sob controle fiscal. A permissão para explorar entreposto de
uso público ou de uso privativo é dada sempre em caráter precário.
Os entrepostos aduaneiros podem ser de uso público ou privado. São permissionárias
de entreposto aduaneiro de uso público as empresas de armazéns gerais, as
empresas comerciais exportadoras e as empresas nacionais prestadoras de serviços
de transporte internacional de carga. Os entrepostos aduaneiros de uso privado têm
como permissionárias ou beneficiárias as empresas comerciais exportadoras, as
chamadas trading companies
Na exportação, o entreposto pode ser comum, quando o depositante somente goza
do direito aos benefícios fiscais pela exportação somente no momento em que a sua
mercadoria deixa o país, e pode ser extraordinário de exportação, exclusivo das
empresas comerciais exportadoras, quando o incentivo fiscal é devido no momento
da aquisição da mercadoria pela trading company.
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É condição para admissão neste regime que as mercadorias sejam importadas sem
cobertura cambial. A cobertura cambial só é admitida quando a mercadoria se destina
à exportação. O prazo de permanência no regime de entreposto aduaneiro é de no
máximo um ano, sendo possível a prorrogação por prazo fixado pela autoridade.
3.10 - Entreposto Industrial
É o regime aduaneiro especial que permite a determinado estabelecimento industrial
importar, com suspensão de tributos, mercadorias que, depois de submetidas a
processo de industrialização, deverão destinar-se ao mercado externo. Dada a
redução de custos, é utilizado por empresas que desenvolvem grandes projetos
industriais, sendo poucos os beneficiários deste regime no Brasil.
As mercadorias produzidas no entreposto, quando destinadas ao mercado externo,
gozarão de todos os benefícios fiscais concedidos à exportação. Na medida em que
a produção do entreposto for destinada ao mercado interno, deverão ser pagos os
tributos suspensos relativos à mercadoria importada, segundo a espécie, quantidade
e valor dos materiais empregados no processo produtivo.
3.11 - Exportação Temporária
É o regime aduaneiro especial que permite a saída para o exterior de mercadoria
nacional ou nacionalizada, assim entendida toda mercadoria importada a título
definitivo, sob a condição de retornar ao país em prazo determinado, no mesmo
estado, ou após submetida a processo de conserto, reparo ou restauração.
A verificação da mercadoria, para fins de sua identificação ao retornar, poderá ser
feita no estabelecimento do exportador ou em qualquer outro local, a juízo da
autoridade competente. O regime pode ser concedido pelo prazo de até um ano,
prorrogável por período não superior a cinco anos, no total. O valor do material
estrangeiro agregado a produto nacional ou nacionalizado, objeto de conserto, reparo
ou restauração no exterior, está sujeito ao pagamento de tributos pela importação.
31
3.12 - Regimes Especiais
São programas de incentivo dados por estados e municípios, cuja finalidade é atrair
investimentos como fábricas e investimentos privados, e desenvolver
economicamente e socialmente uma região com incentivos de empregos. Como
exemplo, temos o FUNDAP no estado do Espírito Santo e a Zona Franca de Manaus
com o SUFRAMA, além de outros incentivos dados por Municípios, como no exemplo
a seguir.
3.12.1–FUNDAP
O FUNDAP é um incentivo financeiro de apoio a empresas que realizem operações
de comércio exterior, com Matriz no Espírito Santo e tributação do ICMS recolhida
nesse mesmo estado. As empresas industriais que se utilizam de insumo importado
poderão se habilitar aos financiamentos FUNDAP, criando uma filial especializada em
comércio exterior. A condição básica para o financiamento FUNDAP é o fato gerador
do imposto e a necessidade do recolhimento. A empresa pode ser uma Ltda. ou S/A.
Nesse caso, podem, também, solicitar o registro as empresas de comércio exterior,
as quais passarão a ter um limite operacional para utilizar o sistema. Para a definição
do limite, cuja validade é de 12 meses com renovações anuais solicitadas com 45
dias de antecedência, pode-se considerar o que for menor dentre as seguintes
alternativas: 50 x Capital Integralizado, 50 x PL ou 8 % da Previsão do Faturamento.
A definição do limite é efetuada de acordo com as normas vigentes.
Os regimes especiais são caracterizados, de umaforma geral, pela facilidade de
inscrição. No caso do FUNDAP os documentos necessários para efetivação do
registro são:
✓ Carta de solicitação de registro;
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✓ Previsão de vendas de mercadorias importadas para o período de 12 meses;
✓ Nomes dos fiadores com patrimônio comprovado e livre de hipoteca, através
de Escritura registrada em Cartório de Registro Geral de Imóveis (deverse-á
informar os valores dos imóveis apresentados, bem como as medidas em
metros);
✓ Certidão de Quitação de Tributos Federais administrados pela Secretaria da
Receita Federal; Certidão Negativa quanto à Dívida Ativa da União;
✓ Certidão Negativa de Dívida Ativa à Fazenda Pública Estadual; Certidão
Negativa de Tributos Municipais;
✓ Certidão Negativa de Débitos junto ao INSS; CRS – FGTS; CNPJ; ficha FICAD
da SERASA;
✓ Contrato social e alterações em caso de S/A (deverão ser apresentadas duas
cópias das atas da AGO/AGE);
✓ Três últimos balanços com demonstração de resultados devidamente
assinados por um responsável da empresa e pelo contador, registrados na
Junta Comercial do Estado do Espírito Santo e com cópia do Termo de
Abertura e de Encerramento (também duas cópias);
✓ Balancete de no mínimo três meses anteriores à data de solicitação de registro
no FUNDAP, com demonstração de resultado, devidamente assinado pelo
responsável da empresa e pelo contador (para solicitações protocoladas até a
1ª quinzena de abril de cada ano, somente será solicitado o Balanço
Patrimonial do exercício anterior);
✓ Relação do estoque das mercadorias existentes na empresa até a data de
entrada na solicitação de registro para operar no FUNDAP. O estoque tem que
estar fisicamente alocado no estado do Espírito Santo.
No que tange a sua operacionalização cabe destacar:
Financiamento - vem sendo praticada a alíquota de 8,0% do valor da saída da
mercadoria do estabelecimento importador.
Prazos - carência de 5 anos e amortização de 20 anos, totalizando 25 anos.
Encargos - juros de 1% (um por cento) ao ano, sem atualização monetária.
Pagamentos - parcelas anuais.
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Garantias - fiança dos sócios da empresa financiada e/ou de terceiros e caução
dos títulos representativos do investimento compulsório. Esse investimento deve
ser realizado, até o final do ano seguinte à liberação do financiamento,
destinando 7% (sete por cento) do valor do financiamento. A escolha do projeto
é de arbítrio da empresa; o projeto, porém, deverá ser aprovado pelo BANDES
(Banco de Desenvolvimento do Estado do Espírito Santo. A executora deverá
ser uma S/A.
Garantia de investimento - no ato da liberação do financiamento, os 7%
destinados ao investimento deverão ser aplicados em CDB emitido pelo
BANDES (Banco de Desenvolvimento do Estado do Espírito Santo). Os CDB
serão resgatados quando da aplicação no projeto.
Operacionalidade - A empresa interessada deverá cadastrar-se e registrarse
junto ao BANDES na GEROI – Gerência de Operações de Crédito e Incentivos,
apresentando o balanço que será analisado pela SERASA.
Leilões - A Secretaria da Fazenda, pode, periodicamente, leiloar os créditos
referentes a esses contratos. Hoje, o valor mínimo para lance está estipulado
em 10% do saldo devedor.
3.12.2 - Exemplo de Operação
Para um melhor entendimento da sistemática de operação no FUNDAP ,
apresentamos abaixo uma simulação:
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Considere uma empresa com registro FUNDAP cujo faturamento, em Março de 2002
(vendas de produtos importados para fora do estado), implica em recolhimento de 12
% de ICMS à Fazenda Estadual. Em Abril de 2002, a empresa deverá quitar o ICMS.
No mês de Maio de 2002, deverá requerer o financiamento baseado em 8% sobre o
faturamento líquido (saídas menos as entradas). Aproximadamente em Junho de
2002, a empresa recebe o valor do financiamento deduzido de 7%, que é retido pelo
BANDES, na forma de CDB, para ser aplicado em projeto até o fim do exercício
seguinte. O saldo devedor do financiamento poderá ser quitado em leilões a critério
da Secretaria da Fazenda.
Normalmente, a alíquota de ISS é de 5%. Alguns municípios reduzem esta alíquota
com o intuito de atrair empresas para a região. As facilidades não estão inseridas
somente na redução da alíquota do imposto, mas, também, no financiamento de
instalações e até doações de terrenos. Um caso típico, ocorreu com a Ford, que
trocou o estado do Rio Grande do Sul pelo Estado da Bahia, onde recebeu terreno e
financiamento para obras, além de isenção fiscal por um longo período.
Alguns municípios reduziram em até 10 vezes as alíquotas de ISS. Um exemplo é o
do município de Três Rios, no Estado do Rio de Janeiro, que pratica alíquota de ISS
de 0,5%, 10 vezes menor do que a alíquota praticada no Município do Rio de Janeiro
que é de 5%. Outros Municípios como São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte possuem
taxas de 5%.
3.12.3- SUFRAMA
SUFRAMA (Superintendência da Zona Franca de Manaus ) é o incentivo fiscal da
Zona Franca de Manaus. SUFRAMA se diferencia do FUNDAP pois, além do
incentivo estadual do ICMS, recebe incentivos fiscais do governo federal com
alíquotas de até 0% de Imposto de Importação, IPI, COFINS e PIS.
SUFRAMA é uma autarquia criada pelo Decreto-Lei nº 288, de 28 de fevereiro de
1967, e vinculada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.
Segundo a Secretaria de Receita Federal do Amazonas (2003), o SUFRAMA tem
como finalidade promover o desenvolvimento sócioeconômico, de forma sustentável,
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na sua área de atuação, mediante geração, atração e consolidação de investimentos,
apoiado em capacitação tecnológica, visando a inserção internacional competitiva, a
partir das seguintes ações:
✓ identificar oportunidades com vistas a atração de empreendimentos para a
região;
✓ identificar e estimular investimentos públicos e privados em infraestrutura;
✓ estimular e fortalecer os investimentos na formação de capital intelectual e em
ciência, tecnologia e inovação pelos setores público e privado;
✓ intensificar o processo de articulação e de parceria com órgãos e entidades
públicas e privadas;
✓ estimular ações de comércio exterior;
✓ administrar a concessão de incentivos fiscais.
3.13 - Competência Tributária
A atribuição constitucional da competência tributária confere à União, aos Estados,
ao Distrito Federal e aos Municípios o poder de determinar a incidência do tributo, a
sua base de cálculo, a alíquota e o sujeito passivo da obrigação, ou seja, que irá
recolher o imposto, além das formas de lançamento e de formalização da exigência.
A Constituição brasileira, no capítulo referente ao Código Tributário Nacional,
estabelece a competência privativa para os impostos que menciona, referentes à
União (art. 153), Estados e Distrito Federal (art. 155) e Municípios (art. 156).
A União pode, ainda, instituir contribuição social de intervenção no domínio
econômico e de interesse das categorias profissionais ou econômicas, como
instrumento de sua atuação naquelas áreas, conforme artigo 149, bem como
empréstimos compulsórios, mediante lei complementar, para atender a despesas
extraordinárias, decorrentes de calamidade pública e de guerra externa ou sua
eminência, assim como no caso de investimento público de caráter urgente e de
relevante interesse nacional, (art. 148). O art. 145, incisos II e III, estabelece a
competência comum aos três níveis de governo, para instituir taxas e contribuições
de melhoria.
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O exercício da competência tributária, no entanto, não é ilimitado. As limitações ao
poder de tributar compreendem os princípios tributários e as imunidades, entendidos
como garantias constitucionais do contribuinte, com o fim de proteger valores básicos
do indivíduo, como a segurança e a estabilidade das relações jurídicas, a
previsibilidade da ação estatal, a liberdade e o patrimônio,a federação e a igualdade
entre os estados e os municípios, além de outras.
Princípios:
Significa um conjunto de regras que determinam um certo tipo de comportamento. Os
princípios podem estar implícitos no sistema constitucional vigente ou expressos de
forma clara na Lei Maior.
Um dos mais importantes princípios constantes do sistema tributário nacional é o da
não comutatividade. Diz a constituição brasileira que, no cálculo em particular do IPI
e do ICMS, o imposto devido em cada operação de saída de mercadorias ou de
serviço será compensado com o montante cobrado nas operações anteriores.
A importância recolhida pelo contribuinte, sobre o ICMS e IPI, são repassadas ao
comprador da mercadoria, que lança na coluna dos créditos do livro de apuração o
respectivo valor. Na saída do produto do estabelecimento adquirente, calcula-se o
imposto, que será lançado na coluna dos débitos. A diferença entre o somatório dos
créditos e dos débitos em determinado período corresponde ao valor a ser recolhido
pelo contribuinte.
Exemplo: Suponha um bem (produto) industrializado, de valor de R$ 100,00, cuja
alíquota do IPI seja de 10%. As alíquotas de IPI são determinadas pela Secretaria de
Receita Federal, cuja tabela de qualificação leva em consideração a classificação do
tipo de produto, manufatura e finalidade. Suponha ainda que esta indústria esteja
localizada no Rio Grande do Sul e seu cliente localizado no Rio de Janeiro. A alíquota
vigente no Rio de Janeiro é de 12% enquanto a alíquota vigente no Rio Grande do
Sul é de 7%. Portanto, ao comprar o produto do Rio Grande do Sul o cliente do Rio
de Janeiro, paga IPI a 10% e ICMS a 12%. Estas cargas de impostos devem ser
relacionadas como créditos e débitos. Ao vender este bem no Rio de Janeiro, estado
que possui ICMS intraestadual de 18%, o vendedor relaciona na coluna de debito a
carga de 18% de ICMS. Dessa maneira, o cliente carioca possui em sua análise de
balanço o seguinte:
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✓ Crédito de 12% na entrada do produto em estoque.
✓ Débito de 18% na saída deste produto do estoque.
Portanto, o cliente do Rio de Janeiro possui um débito de 6% a mais dos créditos de
entrada.
Para que o repasse seja possível, faz-se necessário destaque na nota fiscal de venda.
Pelo fenômeno da repercussão econômica, é o consumidor final, o contribuinte de
fato, quem suporta o ônus financeiro do tributo. Essa diferença de 6%, não acumula
perda direta. Portanto, essa diferença de valores deixa de ser empregada na cadeia
produtiva.
3.14 - Guerra Fiscal
A discussão entre Estados gera, há alguns anos, uma Guerra Fiscal. Marcelo
Piancastelli e Fernando Perobelli (1996) afirmam que apesar dos avanços
incorporados ao código tributário nacional atual, que racionalizou a arrecadação,
evitou a incidência de impostos em cascatas, eliminou incidência do imposto de renda
sobre ganhos inflacionários, este apresenta ainda um foco de distorção com o atual
estágio de desenvolvimento nacional. Para entender o processo de guerra tributária
é necessário avaliar o processo do imposto do ICMS desde sua criação, pois é sobre
o ICMS, imposto estadual, que se fundamenta a maior divergência entre estados.
Como mencionado anteriormente, o ICMS é um imposto de caráter estadual. Em
1967, época de sua criação, o ICM tinha duas características básicas: a primeira, ser
um imposto nacional com alíquotas intra e inter-estaduais fixadas pelo Senado
Federal; a segunda, ser um imposto sobre produto, com presumida neutralidade
fiscal. Entretanto, segundo Versano (1994), no decorrer de sua implementação, o ICM
assumiu características e distorções em seu principio básico de neutralidade fiscal e
nos métodos de cobrança.
As razões foram:
✓ isenção dos bens de capital, ou seja, passou a ser um imposto sobre consumo;
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✓ perda do princípio de origem e destino, pois passou a tratar transações internas
interestaduais e operações de comércio exterior;
✓ base de incidência, que era fundamentalmente centrada no valor adicionado,
passou a ser deteriorada ao permitir a exclusão de grande número de produtos
e admitir excepcionalidades com caráter regional, tal como, por exemplo,
transações com a Zona Franca de Manaus.
A reforma constitucional de 1998 buscou a descentralização do sistema como um
todo, proporcionando maior autonomia aos governos estaduais e municipais. O ICM
teve sua base de incidência ampliada com a incorporação dos impostos únicos
preexistentes e dos tributos sobre serviços, passando o imposto a se denominar
ICMS. Ao Senado Federal foi conservada a atribuição de determinar o teto e o piso
das alíquotas interestaduais. A constituição de 1988 deu a Estados e Municípios um
substancial aumento na participação da arrecadação tributária da União, por meio do
aumento dos coeficientes de distribuição do Fundo de Participação dos Estados
(FPE) e do Fundo de Participação dos Municípios (FPM). Tal fato acelerou o processo
de redução do esforço fiscal da maioria dos estados e incrementou as iniciativas na
disputa fiscal entre eles para atração de investimentos e geração de empregos.
Embora vários estados já utilizassem concessões fiscais por meio do ICM antes de
1988, tal mecanismo foi disseminado, de maneira generalizada, com a maior
autonomia dos estados, obtida com a nova constituição. Dessa forma, as alterações
proporcionaram ao estado consumidor o encargo de cobrar seus próprios impostos,
aumentando, desta forma, a sua base de arrecadação. Em resumo, as alterações
básicas do ICM para ICMS foram:
✓ isenção dos bens de capital, ou seja, passou a ser um imposto sobre consumo;
✓ -perda do princípio de origem e destino, pois passou a tratar transações
internas interestaduais e operações de comércio exterior;
✓ base de incidência, que era fundamentalmente centrada no valor adicionado,
passou a ser deteriorada ao permitir a exclusão de grande número de produtos
e admitir excepcionalidades com caráter regional, tal como, por exemplo,
transações com a Zona Franca de Manaus.
Com efeito, ajustes foram feitos na política fiscal, proporcionando em nível estadual
uma arrecadação maior. Entretanto, as crises financeiras e o processo de
desenvolvimento exigiram mais recursos para o estado. Essa necessidade por
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arrecadação extra, além de viabilizar a criação de novos impostos e a alteração das
alíquotas de alguns já existentes, iniciou um movimento dos estados para atrair
recursos e investimentos privados. Piancastelli e Fernando Perobelli (1996) afirmam
que todos os estados brasileiros têm concentrado mais esforços em desenvolver
políticas voltadas à atração de investimentos e à geração de empregos, baseadas em
concessões fiscais derivadas do ICMS, do que propriamente em implementar políticas
fiscais estáveis e duradouras. Vários estados passaram a conceder, também,
incentivos creditícios vinculados ao pagamento do ICMS. Os mesmos autores
exemplificam o processo: O estado de Pernambuco enfrenta uma grave situação
financeira e tem sido deslocado para baixo em termos de participação relativa na
arrecadação total do ICMS. Contudo, em 23.11.95, a Assembleia Legislativa do
Estado aprovou lei que amplia os incentivos fiscais via ICMS. A nova lei concede às
empresas o financiamento de 60% do total do ICMS devido, por 24 meses durante
dez anos. Nos casos de investimentos em pólos industriais, esse financiamento é de
75% do ICMS devido. A parcela financiada será corrigida pela TJLP (Taxa de Juros
de Longo Prazo) e a empresa poderá ter um desconto de 75% sobre esse valor. De
outro lado, o estado do Paraná, que dispõe de uma economia sólida, com ampla base
agrícola e acelerado crescimento industrial, passou a dar menos ênfase à atração de
investimentos via concessões fiscais. A alegação básica é a de que o processo de
guerra fiscal é “injusto para a sociedade” e que a “forma mais adequada de