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CUIDADOS FARMACÊUTICOS EM PATOLOGIA DOS SISTEMAS LINFÁTICO, DERMATOLÓGICO, LOCOMOTOR E ÓSSEO 1 Sumário NOSSA HISTÓRIA .................................................................................. 2 INTRODUÇÃO ......................................................................................... 3 LEGISLAÇÃO .......................................................................................... 7 METABOLISMO LIPÍDICO ...................................................................... 9 METABOLISMO DAS LIPOPROTEÍNAS .............................................. 10 ATEROSCLEROSE ............................................................................... 12 CLASSIFICAÇÃO DAS DISLIPIDEMIAS ............................................... 12 ATIVIDADE FÍSICA ............................................................................... 14 TRATAMENTOS NÃO FARMACOLÓGICOS ........................................ 14 FITOTERAPIA ....................................................................................... 16 CONSULTA FARMACÊUTICA .............................................................. 19 COLETA DE DADOS ............................................................................. 20 TRATAMENTO COM PRÁTICAS INTEGRATIVAS E COMPLEMENTARES (PICS) ........................................................................... 25 ALERGIAS E REAÇÕES ADVERSAS A MEDICAMENTOS (RAMS) ... 25 ANÁLISE SITUACIONAL ....................................................................... 26 DOENÇAS DERMATOLÓGICAS .......................................................... 27 ACNE ..................................................................................................... 27 APARELHO LOCOMOTOR ................................................................... 32 REFERÊNCIAS ..................................................................................... 46 2 NOSSA HISTÓRIA A nossa história inicia-se com a ideia visionária e da realização do sonho de um grupo de empresários na busca de atender à crescente demanda de cursos de Graduação e Pós-Graduação. E assim foi criado o Instituto, como uma entidade capaz de oferecer serviços educacionais em nível superior. O Instituto tem como objetivo formar cidadão nas diferentes áreas de conhecimento, aptos para a inserção em diversos setores profissionais e para a participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e assim, colaborar na sua formação continuada. Também promover a divulgação de conhecimentos científicos, técnicos e culturais, que constituem patrimônio da humanidade, transmitindo e propagando os saberes através do ensino, utilizando-se de publicações e/ou outras normas de comunicação. Tem como missão oferecer qualidade de ensino, conhecimento e cultura, de forma confiável e eficiente, para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base profissional e ética, primando sempre pela inovação tecnológica, excelência no atendimento e valor do serviço oferecido. E dessa forma, conquistar o espaço de uma das instituições modelo no país na oferta de cursos de qualidade. 3 INTRODUÇÃO No começo do século XX, a produção de medicamentos ocorria de forma artesanal em pequenas indústrias e boticas, porém muitos desses medicamentos não tinham eficácia comprovada por meio de estudos científicos e seus valores terapêuticos estavam envolvidos com a crença no potencial curativo e a percepção de cada usuário (PERINI & ACÚRCIO, 2001). Entre as décadas de 1930 e 1940, com a descoberta dos antibióticos e antimicrobianos houve grande desenvolvimento científico e industrial. Nessa etapa, maior conhecimento foi adquirido o que permitiu a descoberta de muitos dos medicamentos que ainda hoje estão no mercado (HEPLER, 1987; PERINI & ACÚRCIO, 2001). As farmácias, com a industrialização, tornaram-se aliadas das indústrias e o farmacêutico acabou perdendo seu espaço, pois já não havia necessidade de um profissional que manipulasse o medicamento na farmácia. Além disso, a venda desses produtos não exigia um profissional com conhecimento técnico. Na década de 60, no Brasil, o profissional começa a aperfeiçoar-se em especificidades como as análises clínicas, toxicológicas e bromatológicas, distanciando-se do paciente (SANTOS, 1993). Com a tragédia da talidomida em 1960, o desenvolvimento e uso de medicamentos passa a ter critérios de exigência maiores. Na década de 60, farmacêuticos dos Estados Unidos insatisfeitos com o modelo até então implantado, criam a Farmácia Clínica. Esta posteriormente, focando as atividades no paciente e não no medicamento, derivatiza-se levando a criação da Atenção Farmacêutico. No Brasil, as discussões sobre Farmácia Clínica e Atenção Farmacêutica somente ocorrem na década de 1990, e o farmacêutico começa a retomar sua vocação assistencial. Contudo, a formação do profissional continuava focada em uma das três áreas: análises clínicas, indústria ou alimentos (BISSON, 2007). 4 A Atenção Farmacêutica começa a ser discutida somente por volta de 2002 quando é estabelecido o Consenso Brasileiro de Atenção Farmacêutica (OPAS, 2002). A Atenção Farmacêutica surge então como um ramo da Assistência Farmacêutica, onde o profissional busca a melhora da qualidade de vida dos pacientes por meio de uma prática centrada nesse indivíduo e cuidados que devem ser tomados em relação aos medicamentos. Esses cuidados abrangem desde a seleção do medicamento até a orientação sobre o mesmo, passando pela escolha da posologia correta, via de administração utilizada e o acompanhamento farmacoterapêutico (CIPOLLE et al., 2004; BISSON, 2007). É através da Atenção Farmacêutica que o profissional se responsabiliza por diminuir as taxas de mortalidade e morbidade relacionadas aos medicamentos (CIPOLLE et al., 2000). A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) define a Atenção Farmacêutica como “[...] modelo de prática farmacêutica, desenvolvida no contexto da Assistência Farmacêutica. Compreende atitudes, valores éticos, comportamentos, habilidades, compromissos e corresponsabilidades na prevenção de doenças, promoção e recuperação da saúde, de forma integrada à equipe de saúde. É a interação direta do farmacêutico com o usuário, visando uma farmacoterapia racional e a obtenção de resultados definidos e mensuráveis, voltados para a melhoria da qualidade de vida. Esta interação também deve envolver as concepções dos seus sujeitos, respeitadas as suas especificidades biopsicossociais, sob a óptica da integralidade das ações de saúde” (OPAS, 2002). A farmácia é um foco importante onde deve ser realizada a Atenção Farmacêutica por ser o primeiro lugar de escolha do paciente para resolução dos seus problemas de saúde designados por situações agudas e sintomas ligeiros e o principal onde se pode assegurar o uso correto e seguro do medicamento. O processo de Indicação Farmacêutica é definido como: “[...] ato profissional pelo qual o farmacêutico responsabiliza-se pela seleção de um 5 medicamento que não necessita receita médica com objetivo de aliviar ou resolver um problema de saúde a pedido do paciente ou seu encaminhamento ao médico quando o referido problema necessite de sua atenção” (DADER et al., 2008). Durante a indicação é que o profissional tem a oportunidade de garantir o uso racional dos medicamentos, prevenir outras 9 doenças e promover a educação em saúde. Quando bem realizada, a Indicação Farmacêutica leva à automedicação responsável, diminuindo assim os custos para o sistema de saúde e usuários, levando à otimização dos recursos do governo, à independência do usuário de atuar sobre sua própria saúde e o seu conforto por não ter a necessidade de ir a um serviço de saúde para tratar de um sintoma menor (OFP, 2006; ABIMIP).e biomecânicos que estão na sua origem. Por outro lado, a reabilitação deve ser instituída numa fase precoce, impedindo o entorpecimento e atrofia musculoesquelética. Medidas de fisioterapia que abranjam a termoterapia, a eletroterapia, a cinesioterapia ou a hidroterapia podem trazer benefícios na recuperação. São raros os casos de DMO que obrigam a tratamento cirúrgico, embora muitos doentes tenham de recorrer a antidepressivos ou analgésicos para aliviar 44 a dor crônica, muito frequente neste tipo de distúrbios, ou ainda em pacientes com quadros agudos relacionados com a postura, como os torcicolos ou as lombalgias. Os anti-inflamatórios não hormonais, assim como os corticosteroides sistêmicos, podem também revelar-se úteis no tratamento de tendinites e bursites ou nas doenças localizadas nas bolsas sinoviais e baínhas tendíneas. A farmacoterapêutica está também presente no tratamento de doenças musculoesqueléticas não relacionadas com o local de trabalho. O paracetamol é a primeira escolha na patologia articular degenerativa e na lesão de tecidos moles. Os salicilatos foram utilizados durante muitos anos no combate da dor e inflamação na artrite e febre reumática, embora, mais recentemente, tenham sido substituídos pelos anti-inflamatórios não esteroides (AINES’s), com menor agressividade gástrica, mas de custos mais elevados. Para a artrite reumatoide existem outros fármacos capazes de retardar ou impedir a sua progressão. São exemplos, o metotrexato e os sais de ouro, ou ainda os imunossupressores e antipalúdicos. Para as crises agudas de gota o mais indicado é a colquicina, a probenecida e, como inibidor da biossíntese do ácido úrico, o alopurinol. Os relaxantes musculares, como o baclofeno, o diazepam e o midazolam, podem ser benéficos neste tipo de afecções, embora a terapêutica só tenha sucesso se for combinada com medidas não farmacológicas, como a perda de https://www.indice.eu/pt/medicamentos/DCI/metotrexato/informacao-geral https://www.indice.eu/pt/medicamentos/DCI/probenecida/informacao-geral https://www.indice.eu/pt/medicamentos/DCI/alopurinol/informacao-geral https://www.indice.eu/pt/medicamentos/DCI/baclofeno/informacao-geral https://www.indice.eu/pt/medicamentos/DCI/diazepam/informacao-geral https://www.indice.eu/pt/medicamentos/DCI/midazolam/informacao-geral 45 peso, uma dieta correta e exercício físico, não descartando, em alguns casos, o recurso a procedimentos psicoterápicos, ortopédicos e cirúrgicos com o intuito de reabilitar funções e corrigir deformações. No tratamento da osteoartrose, mais conhecida por artrite ou artrose, os avanços têm sido significativos, substituindo os habituais anti-inflamatórios pela glucosamina. Esta substância não age apenas na zona de inflamação, combatendo a dor, como também restaura parte da cartilagem perdida. As calcitoninas têm um campo de aplicação muito vasto. Vai desde as hipercalcémias, hiperparatiroidismo, doença de Paget até à osteoporose. Nesta última situação, o raloxifeno tem sido eficaz como substituto do estrogênio. Por outro lado, as últimas descobertas a nível da cirurgia ortopédica têm permitido a implantação de próteses cada vez mais avançadas, eficazes e funcionais, aumentando a qualidade de vida de doentes que sofrem de artrose ou outro traumatismo ósseo. https://www.indice.eu/pt/medicamentos/DCI/glucosamina/informacao-geral https://www.indice.eu/pt/medicamentos/DCI/raloxifeno/informacao-geral 46 REFERÊNCIAS A DROSSMAN, D. Rome III: The new criteria. Chinese Journal of Digestive Diseases, v.7, p.181-185, 2006 ABIMIP - ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DA INDÚSTRIA DE MEDICAMENTOS ISENTOS DE PRESCRIÇÃO. Conheça o MIP. São Paulo, SP. AGA - AMERICAN GASTROENTEROLOGICAL ASSOCIATION. American Gastroenterological Association Medical Position Statement: Guidelines on Constipation. Gastroenterology, v.119, p.1761–1778, 2000. AHLERS, S.J.; VAN GULIK, L.; VAN DER VEEN, A.M.; ET AL.Comparison of different pain scoring systems in critically ill patients in a general ICU. Critical Care, v.12, n.1, fev. 2008. AL HAMARNEH, Y.N.; ROSENTHAL, M.; MCELNAY, J.C.; et al.Pharmacists’ perceptions of their practice: a comparison between Alberta and Northern Ireland. International Journal of Pharmacy Practice, v.20, n.1, p.57-64, fev. 2012. ALAM, N.H. & ASHRAF, H. Treatment of infectious diarrhea in children. Paediatric Drugs, v.5, n.3, p.151-65, 2003 104 ALONSO, W.J.; VIBOUD, C.; SIMONSEN, L.; et al. Seasonality of influenza in Brazil: a traveling wave from the Amazon to the subtropics. American Journal of Epidemiology, v.165, n.12, p.1434-1442, jun. 2007. ALVES, R.S.A.; VIANNA, F.A.F; PEREIRA, C.A.C. Fenótipos clínicos de asma grave. Jornal Brasileiro de Pneumologia, v.34, n.9, set. 2008. AMEEN, M. Epidemiology of superficial fungal infections. Clinics in Dermatology, v.28, p.197–201, 2010. AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS. Influenza. Em: PICKERING, L.K.; BAKER, C.J.; LONG, S.S.; et al. Red Book: 2006 Report of the Committee on Infectious Diseases. 27. ed. Elk Grove Vilage. 2006. p.401-11. AMERICAN LUNG ASSOCIATION. Facts about the common could. Disponível em: Acesso em: 17 de jul. 2012. 47 ANCP - ACADEMIA NACIONAL DE CUIDADOS PALIATIVOS. Manual de Cuidados Paliativos. 1. ed. Rio de Janeiro: Diagraphic, 2009. 320p. ANDERSON, T.W.; SURANYI, G.; BEATON, G.H. The effect on winter illness of large doses of vitamin C. Canadian Medical Association Journal, v.111, n.1, p.31- 36, 1974. 105 ANDRADE, M.A.; SILVA, M.V.S.; MENDONÇA, S.; et al. Assistência farmacêutica frente à obstipação intestinal no idoso. Infarma, v.15, n. 9-10, set./out. 2003 ANDRE, S.B.; RODRIGUEZ, T.N.; MORAES-FILHO, J.P.P. Constipação intestinal. Revista Brasileira de Medicina, v.57, n.12, dez. 2000. ANVISA - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Pneumologia Pediátrica: Uso de óleo mineral e desenvolvimento de Pneumonia Lipóide, 2009. ANVISA - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Bula do Peptobismol. Disponível em: Acesso em: 20 de jul. 2012. ANVISA - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Bula Strepsils®. 2010. Disponível em: Acesso em: 21 de ago. 2012.De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) 15% a 20% dos orçamentos dos hospitais são gastos para lidar com as complicações causadas pelo mau uso de medicamentos. (ANVISA, 2005). Esse dado mostra um dos motivos pelo qual é fundamental que o profissional saiba analisar as queixas do paciente e recomendar o medicamento mais adequado ao seu estado fisiopatológico e às suas preferências (OFP, 2006). Outro dado divulgado pela ANVISA é que em países desenvolvidos 15% dos gastos em saúde correspondem a medicamentos, já nos em desenvolvimento, como o Brasil, esse porcentual é de 25% a 70%, devido à automedicação incorreta e a consequente ineficácia do tratamento, fazendo com que o sistema de saúde tenha mais gastos para tratar o problema inicial (BRASIL, 2005). Um estudo comparativo feito entre a Irlanda do Norte e a cidade de Alberta no Canadá demonstrou que os serviços farmacêuticos prestados nas farmácias comunitárias da Irlanda no Norte são mais focados no paciente do que no medicamento em relação ao Canadá, isso ocorre pelo fato de que na Irlanda os serviços oferecidos para cessação do fumo e monitoramento de doenças menores são remunerados (AL HAMARNEH et al, 2012). Outro estudo também realizado na Irlanda do Norte, com 1000 pessoas, mostrou que mais de 60% dos entrevistados buscaria preferencialmente dicas de um farmacêutico do que de um médico quando a condição não necessitasse 6 uma consulta, demonstrando que a credibilidade dos farmacêuticos também é maior em países desenvolvidos (WAZAIFY et al, 2005). Diante desse quadro, o farmacêutico do Brasil vê a necessidade de aperfeiçoar seu conhecimento sobre o processo de Indicação farmacêutica, objetivando assim ter um maior reconhecimento e confiança da população e de outros profissionais da saúde e principalmente contribuir diretamente para a melhora do bem-estar do povo. Um estudo realizado em farmácias da Holanda que tinha como objetivo detectar problemas relacionados aos medicamentos (PRM) por meio de entrevistas realizadas com os pacientes observou que 28% dos PRM estavam relacionados à seleção do medicamento, 26% ao tratamento inadequado ou inapropriado e 23% à necessidade de monitoramento pelo farmacêutico. Problemas que podem ser solucionados por meio de uma Indicação farmacêutica bem conduzida (KWINT et al., 2012). Outro estudo realizado na Alemanha, publicado em 2011, que tinha como alvo a detecção de problemas relacionados aos medicamentos isentos de prescrição em farmácias comunitárias, identificou que os problemas mais prevalentes eram a automedicação inapropriada na maioria das vezes por analgésicos, a solicitação inapropriada de medicamentos e o uso prolongado dos mesmos. Foi relatado que 70% dos MIP requeridos eram para dor, desordens da pele, do trato gastrointestinal e do respiratório. As classes de medicamentos mais envolvidos com suspeita de abuso ou uso prolongado do medicamento foram os analgésicos, laxativos e os descongestionantes nasais que não se enquadram na categoria dos MIPs no Brasil (EICKHOFF et al., 2012). Parmentier et al. (2004), realizou um estudo em uma comunidade de refugiados no sul de Londres sobre o tratamento de sintomas menores e obteve resultados parecidos. Os sintomas que predominaram foram, em ordem, as infecções do trato respiratório superior, dores de cabeça, dores musculoesqueléticas, alergias, indigestão, inflamação na garganta, sintomas nasais, constipação, tosse, diarreia e outros. 7 Os medicamentos mais indicados para essas enfermidades foram o paracetamol, a pseudoefedrina que não é MIP no Brasil, ibuprofeno e a aspirina (PARMENTIER et al., 2004). Confirmando os dados obtidos pelos estudos citados acima, The World SelfMedication Industry (WSMI) publicou uma revisão mundial de pesquisas feitas com consumidores realizadas ao longo de 10 anos sobre automedicação. Esse estudo demonstra que pessoas de todo mundo apresentam os mesmos problemas comuns de saúde e a frequência também é aproximadamente a mesma. As doenças mais apresentadas pela população são resfriados, dores de cabeça, problemas digestivos e dores (WSMI, 2006). Em razão do cenário exibido, serão apresentados nesse trabalho como o farmacêutico deve proceder em caso de relatos de constipação, diarreia, infecções fúngicas da pele, resfriado e dor. LEGISLAÇÃO No Brasil a menção aos medicamentos isentos de prescrição (MIP) foi feita pela primeira vez na Lei nº 5.991, de 17 de dezembro de 1973, que dispõe sobre o controle sanitário de medicamentos. Esses medicamentos podiam ser comercializados em estabelecimentos hoteleiros e similares para atendimento exclusivo de seus usuários. Foi somente em 2003 que a ANVISA publicou a RDC nº 138, de 29 de maio de 2003 que dispõe sobre o enquadramento na categoria de venda de medicamentos, onde foi apresentado a Lista de Grupos e Indicações Terapêuticas Especificadas (GITE). O desenvolvimento do GITE baseou-se em critérios como índice terapêutico, toxicidade, legislações internacionais e a lista de medicamentos essenciais (RENAME), todo medicamento que se enquadra dentro do GITE é considerado um MIP (BRASIL, 2003). 8 A RDC nº 138, de 29 de maio de 2003 relata também que os medicamentos cujos grupos terapêuticos e indicações terapêuticas não estão expostos no GITE, não são isentos de prescrição médica. Da mesma forma, associações medicamentosas, cujo grupo terapêutico e indicação terapêutica de pelo menos um dos princípios ativos contidos não estiverem presentes no GITE, só poderão ser vendidos sob prescrição médica. Já a venda de medicamentos novos sempre exigirá a prescrição médica. Contudo, a reavaliação do enquadramento na categoria de venda ocorrerá no momento de sua renovação, seguindo os dados da farmacovigilância. Porém, se esses medicamentos já estiverem sendo comercializados nos Estados Unidos da América ou na Europa pelo período mínimo de 5 anos, desde que aprovados pelos seus respectivos órgãos de Vigilância Sanitária, com grupos terapêuticos e indicações terapêutica presentes no GITE, comprovante de enquadramento na categoria de venda isenta de prescrição no país onde o produto é vendido e com apresentação de dados de farmacovigilância poderão requerer o enquadramento na categoria dos medicamento isentos prescrição, a qualquer hora, desde o momento do registro (BRASIL, 2003). A Resolução do Conselho Federal de Farmácia (CFF) nº 357, de 20 de abril de 2001, aprova o regulamento técnico das Boas Práticas de Farmácia. Essa resolução expõe que o farmacêutico tem responsabilidade sobre a automedicação responsável e para que isso seja realizado, ele deve fomentar informação e educação sanitária ao paciente ou consumidor e desenvolver ações na dispensação e seleção dos MIPs. Em vista disso, devem ser avaliadas as necessidades do paciente por meio de análise dos sintomas e das condições individuais com o objetivo de escolher o medicamento e o aconselhamento adequado para cada indivíduo (BRASIL, 2001). 9 METABOLISMO LIPÍDICO Os lipídeos, por serem insolúveis em meio aquoso, são transportados no nosso organismo por meio das lipoproteínas, que são macromoléculas compostas por lipídeos e proteínas (chamadas de apolipoproteínas ou apoproteínas). As apolipoproteínas promovem a estabilidade estrutural para as lipoproteínas e exercem diversas funções no seu metabolismo, como a formação intracelular das partículas lipoproteicas e atuação como cofatores enzimáticos ou ligantes a receptores de membrana (HARDMAN; LIMBIRD, 2003; XAVIER et al., 2013; LONGO et al., 2015). Os lipídeos considerados mais relevantes são fosfolipídeos, colesterol e TG (HARDMAN; LIMBIRD, 2003; GODOY- -MATOS, 2005). O colesterol é o precursor de hormônios esteroidais, ácidos biliares e vitamina D e, assim como os fosfolipídeos,são constituintes das membranas celulares. Dentro das células, o colesterol pode ser sintetizado por meio de algumas reações enzimáticas, sendo a 3-hidroxi-3-metilglutaril coenzima. A redutase (HMG-CoA redutase) o passo limitante da biossíntese; um outro passo-chave é aquele promovido pela enzima esqualeno-sintase (DEVARENNE; GHOSH; CHAPPELL, 2002; FALUDI et al., 2017). Os TG são formados a partir de três ácidos graxos (AG) ligados a uma molécula de glicerol e constituem uma das formas de armazenamento energético mais importantes no organismo (FALUDI et al., 2017), já que os AG que liberam podem ser processados por meio da β-oxidação, gerando grande quantidade de energia para tecidos como fígado e músculo esquelético. Esse processo metabólico é resultado da ativação de fatores de transcrição que possibilitam a síntese das proteínas importantes nesse processo. Além de serem absorvidos pela alimentação, os TG podem ser sintetizados em tecidos como fígado e tecido adiposo pela diacilglicerol aciltransferase (DGAT1) (OBRELI NETO; BALDONI; GUIDONI, 2013). Os AG são classificados em saturados, mono ou poli-insaturados, de acordo com o número de ligações duplas nas suas cadeias de carbono. 10 A nossa alimentação é fonte de diversos AG, como pode ser visto nos exemplos a seguir (FALUDI et al., 2017): • Saturados: láurico, mirístico, palmítico e esteárico (que variam de 12 a 18 átomos de carbono); • Monoinsaturados: ácido oleico, que contém 18 átomos de carbono; • Poli-insaturados: ômega-3 – eicosapentaenoico (EPA), docosahexaenoico (DHA) e linolênico – ou ômega-6 – linoleico, de acordo com a presença da primeira dupla ligação entre os carbonos, a partir do grupo hidroxila. METABOLISMO DAS LIPOPROTEÍNAS Os TG provenientes da dieta são hidrolisados pela ação de lipases intestinais e liberam AG livres, que são emulsificados pelos sais biliares, formando micelas que apresentam maior mobilidade pelos enterócitos (LONGO et al., 2015). A absorção intestinal do colesterol é realizada pela proteína Niemann-Pick C1-like (NPC1-L1), um transportador de colesterol localizado na superfície dos enterócitos, que o disponibiliza para o meio intracelular. A maior parte do colesterol livre é esterificado para depósito pela ação da acetil-CoA-colesteril acetiltransferase (ACAT2) (JIA; BETTERS; YU, 2011; FALUDI et al., 2017). Os AG livres, colesterol livre e seus ésteres são então compactados com a apolipoproteína B 48 (apoB48), formando a lipoproteína conhecida como quilomícron, lipoproteína de menor densidade que, em sua maior parte, é constituída por componentes lipídicos. Os quilomícrons são secretados pelo sistema linfático e, posteriormente, enviados para a circulação sanguínea por meio dos ductos torácicos. Agora circulando no organismo, os quilomícrons são hidrolisados pela lipase lipoproteica (LLP), localizada especialmente na superfície de células musculares e do tecido adiposo, liberando colesterol e AG livres, que são absorvidos por essas células ou transportados pela albumina sérica para o fígado. 11 O quilomícron é gradativamente hidrolisado e diminui de tamanho até ser absorvido pelo fígado e utilizado para a síntese de VLDL (HARDMAN; LIMBIRD, 2003; LONGO et al., 2015; FALUDI et al., 2017). As VLDL são produzidas no fígado, ricas em TG, e a principal apolipoproteína é a apoB100. Sua produção requer a ação da proteína de transferência de TG microssomal (microssomal triglyceride transfer protein – MTP), que insere os TG nas apoB, formando as VLDL. Estas partículas circulam pelo organismo e também sofrem ação da LLP, sendo gradativamente depletadas de TG. As VLDL remanescentes, que podem receber o nome de lipoproteínas de densidade intermediária (intermediate density lipoprotein – IDL), são rapidamente capturadas pelo fígado (HARDMAN; LIMBIRD, 2003; LONGO et al., 2015; FALUDI et al., 2017). As IDL podem continuar sob ação da LLP e ser absorvidas pelo fígado ou sofrer ação da lipase hepática, dando origem às LDL (HAVEL; KANE; KASHYAP, 1973; SBC, 1994). As LDL são compostas por apoB100, uma pequena parcela de TG e grande quantidade de colesterol. Essas lipoproteínas podem ser capturadas pelas células hepáticas ou pelos receptores de LDL (LDL-r), considerados um dos principais responsáveis pelo nível de colesterol no sangue (FALUDI et al., 2017). A modulação da atividade do LDL-r é realizada pela pró-proteína convertase subtilisina/kexina tipo (PCSK9), que induz a degradação do LDL-r, resultando em menor número de receptores e aumento dos níveis plasmáticos de LDL (FERREIRA; FONSECA; MANGUEIRA, 2012; FALUDI et al., 2017). Existe uma lipoproteína (a) (Lp(a)) que se assemelha às LDL em composição lipídica e 16 Farmácia Estabelecimento de Saúde - Outubro de 2017 proteica, mas difere por conter a apoA ligada à apoB (FALUDI et al., 2017). Sua função é desconhecida, porém há indícios de que ela está ligada à formação e desenvolvimento de placa aterosclerótica (XAVIER et al., 2013). As HDL são formadas no fígado, intestino e circulação, e as apolipoproteínas que as compõem são as apoA-I e apoA-II. A apoA-I é a principal 12 apolipoproteína das HDL, que rapidamente se agrega aos fosfolipídeos e colesterol livre presentes em seu sítio de síntese, e então recruta mais colesterol livre da membrana plasmática das células ou de outras lipoproteínas (FALUDI et al., 2017). A apoA-I é cofator da lecitina-colesterol aciltransferase (LCAT), enzima capaz de esterificar o colesterol livre nas HDL (FALUDI et al., 2017). A lipoproteína, dessa forma, ganha estabilidade e pode transportar colesterol para o fígado (esse processo é chamado de transporte reverso de colesterol). As HDL, por meio da ação da proteína de transferência de colesterol esterificado (CETP), são capazes, ainda, de trocar lipídeos com lipoproteínas contendo apoB, como as LDL (LONGO et al., 2015). ATEROSCLEROSE Aterosclerose (aterotrombose), que podem se deslocar pela circulação, causando embolia. As placas estáveis, por outro lado, são ricas em colágeno, com menores proporções do núcleo lipídico e componente celular (LONGO et al., 2015; FALUDI et al., 2017). Além do potencial trombótico após a ruptura, a aterosclerose pode levar a oclusão do vaso, danificando o funcionamento do organismo (dependendo do tecido em que o vaso se encontra), e aneurisma, já que a placa localizada na íntima faz pressão sobre a túnica média, atrofiando-a (LONGO et al., 2015; FALUDI et al., 2017). CLASSIFICAÇÃO DAS DISLIPIDEMIAS As dislipidemias podem ser classificadas de várias maneiras, porém, destacaremos as que são mais utilizadas atualmente. Classificação Etiológica 13 Primária Quando a dislipidemia possui origem genética. Pode haver aumento na síntese de lipoproteína pelo fígado e estimulação de sua ação, além de redução da síntese de LLP ou mutação no seu gene, o que diminui sua atividade enzimática, consequentemente elevando VLDL e TG. O acúmulo das LDL no plasma resulta em hipercolesterolemia. Dislipidemias secundárias a doenças e estilo de vida inadequado, que normalmente está associada à hipercolesterolemia poligênica. Nessa deficiência metabólica, ocorre uma interação entre vários fatores genéticos e ambientais que determinam a concentração de LDL no plasma (MARQUES, 2013). Secundária Quando é decorrente de estilo de vida inadequado, medicamentos ou condições mórbidas, conforme demonstram os quadros 1 e 2 (SANTOS, 2016; FALUDI et al., 2017) Classificação Laboratorial As dislipidemias podem ser classificadas em quatro tipos, de acordo com a fração lipídica alterada (FALUDI et al., 2017): • Hipercolesterolemia isolada: aumento isolado do LDL-c (≥ 160 mg/dL); • Hipertrigliceridemia isolada: aumento isolado dos TG (≥ 150 mg/dL com jejum ou ≥ 175 mg/dL semjejum); • Hiperlipidemia mista: aumento do LDL-c (≥ 160 mg/dL) e dos TG (≥ 150 mg/dL com jejum ou ≥ 175 mg/dL sem jejum). • HDL-c baixo: redução do HDL-c isolado (homenstontura, diarreia, cólica intestinal, cefaleia e gastralgia. A utilização de alho tópico pode produzir dermatites de contato (PANIZZA; VEIGA; ALMEIDA, 2012); • Contraindicações: gestantes, lactantes, menores de 3 anos, indivíduos com gastrite, úlcera gástrica, hipotensão e hipoglicemia. Não utilizar em casos de hemorragia (PANIZZA, 2010); • Interações: anticoagulantes, hemostáticos, anti-inflamatórios não esteroidais, corticoides, glicosídeos cardiotônicos, antiplaquetários, hipoglicemiantes, expectorantes e antirretrovirais (SCHULTZ; TYLER; HANSEL, 2002; PANIZZA, 2010). A fitoterapia oferece ainda uma variedade de plantas medicinais que possuem ação hipocolesterolêmica, embora em diferentes graus de evidência e vários casos baseados na tradicionalidade de uso. Doses, marcadores, riscos e demais informações complementares variam de espécie para espécie, devendo ser consultadas individualmente para obtenção completa dos dados terapêuticos de cada uma. As espécies ricas em componentes fitoquímicos amargos, como abacateiro, genciana e carqueja, por seus efeitos colerético-colagogo elevam a eliminação dos sais biliares, que apresentam colesterol em sua composição. 19 Dessa forma, contribuem com a redução dos níveis de colesterol. Assim como a alcachofra, apresentada anteriormente, são contraindicadas em pacientes com cálculos biliares (SCHULTZ; TYLER; HANSEL, 2002). Outro grupo de plantas de interesse nessa área são as ricas em polissacarídeos do tipo poliurônicos, gomas, mucilagens e pectinas (por exemplo, psilium, fibra de maracujá, guar e farinha de aveia), que, por sua ação de intumescência, interferem na absorção de nutrientes, inclusive gorduras em geral. São utilizados em doses expressivas, necessitam de administração com água em abundância, podem causar flatulência no início do tratamento e reduzem a absorção de diversos nutrientes (como proteínas e vitaminas) e medicamentos, portanto, devem ser administrados em horários diferentes (WEI et al., 2009). CONSULTA FARMACÊUTICA • Acompanhamento do paciente • Acolhimento Coleta de dados • Análise situacional • Elaboração do plano de cuidado Durante a consulta, o farmacêutico deverá seguir diversas etapas. Portanto, com o intuito de estruturar o atendimento farmacêutico, é apresentado a seguir (Figura 1) um roteiro para a consulta farmacêutica (CORRER; OTUKI, 2011; BRASIL, 2014c). 20 COLETA DE DADOS Durante a maioria das consultas, o paciente inicia seu relato focando em seus problemas de saúde, levando o farmacêutico a coletar as informações sobre a história clínica e de medicação antes de coletar os dados do perfil do paciente (CORRER; OTUKI, 2013; BRASIL, 2014c). Entretanto, como a consulta é dinâmica, é possível coletar os dados em qualquer ordem, de acordo com o surgimento das informações, e voltar para itens já coletados para complementar informações relatadas pelo paciente em outros momentos da consulta. O importante é que todos os dados sobre o perfil do paciente, a história clínica e de medicação sejam coletados e analisados e as necessidades do paciente atendidas (CORRER; OTUKI, 2013; BRASIL, 2014c). Quando a consulta é agendada, é recomendável solicitar que o paciente leve os medicamentos, receitas médicas e os últimos exames (CORRER; OTUKI, 2011). A coleta de dados é feita por meio de uma: • Caracterização do paciente (identificação do paciente) • Outras informações referentes ao paciente (história familiar e social) 21 • Natureza e descrição dos problemas de saúde • Situações médicas relevantes (história médica pregressa) • Uso de medicamentos (farmacoterapria atual) • Lembrança sobre o uso de medicamentos (medicação pregressa) • Tratamento com Práticas Integrativas e Complementares (PICs) • Alergias e Reações Adversas a Medicamentos (RAMs) Caracterização do paciente (identificação do paciente): O farmacêutico deve identificar aspectos básicos do paciente, como nome, data de nascimento, idade, gênero, peso, altura, se possui limitações, escolaridade, ocupação, telefone e endereço (CORRER; OTUKI, 2013; BRASIL, 2014c). Outras informações referentes ao paciente (história familiar e social): É importante que o farmacêutico conheça a história social do paciente (consumo de bebidas alcoólicas, tabagismo, uso de drogas ilícitas, hábitos de higiene e prática de atividade física), sua rotina e hábitos alimentares (se está fazendo alguma dieta específica, se possui restrições alimentares por recomendação 22 profissional, se faz algum exagero e como é o consumo de água) (BRASIL, 2014c). Além disso, o farmacêutico deve verificar os problemas médicos principais de parentes de primeiro grau do paciente, como hipertensão, diabetes, hipercolesterolemia, doenças coronarianas, câncer, osteoporose, alcoolismo e transtornos mentais. Em relação aos parentes falecidos, recomenda- -se levantar dados referentes à idade e causa do óbito (CORRER; OTUKI, 2013). Natureza e descrição dos problemas de saúde: Conhecer detalhadamente os problemas de saúde que o paciente apresenta e reunir informações sobre o estado clínico atual de cada um deles é um passo fundamental durante a entrevista clínica. Dessa forma, para cada doença já diagnosticada, o farmacêutico deve registrar no prontuário os resultados dos exames clínico- laboratoriais e os parâmetros fisiológicos e bioquímico, quando houver, além dos sinais e sintomas do paciente e o estado clínico atual (BRASIL, 2014c). Situações médicas relevantes (história médica pregressa): É importante verificar também ocorrências médicas que não obrigatoriamente estejam relacionadas aos problemas atuais do paciente (hospitalizações, procedimentos cirúrgicos, acidentes, lesões, entre outras) (CORRER; OTUKI, 2013). Uso de medicamentos (farmacoterapia atual): O farmacêutico deve saber se o paciente está utilizando algum medicamento (prescrito e/ou por automedicação), uma vez que ele pode ser a própria causa da queixa relatada (o sintoma apresentado pode ser decorrência do medicamento utilizado) e/ou representar contraindicação ao uso de certos medicamentos. É necessário também que o farmacêutico conheça a rotina de medicação do paciente, seu padrão de utilização dos medicamentos, sua experiência de medicação e sua motivação em cumprir o tratamento (CORRER; OTUKI, 2013; BRASIL, 2014c). Dessa forma, por meio de perguntas abertas que permitam ao paciente explicar com suas próprias palavras, o farmacêutico deve levantar, de modo detalhado, informações sobre medicamentos em uso, incluindo (BRASIL, 2014c): • Nome; • Concentração; 23 • Indicação (verificar se o paciente conhece a indicação); • Via de administração; • Dose; • Frequência; • Horários de uso; • Utilização concomitante a alimentos; • Posologia utilizada; • Duração do tratamento; • Origem da prescrição, no caso de medicamentos prescritos; • Percepção do paciente sobre os efeitos/ funcionamento (se o paciente acha que o medicamento tem funcionado bem ou não); • Dificuldades na utilização. O farmacêutico deve questionar sobre o uso de polivitamínicos, vacinas, cremes, pomadas e adesivos, pois muitos pacientes não consideram estes produtos como medicamentos (BRASIL, 2014c). Em relação à experiência de medicação, o farmacêutico deve observar as atitudes, desejos, expectativas, receios, entendimento e o comportamento do paciente com relação aos medicamentos (CORRER; OTUKI, 2013; BRASIL, 2014c). Quanto à adesão ao tratamento, o farmacêutico deve adotar uma abordagem centrada no paciente e não julgá-lo ou culpá-lo por utilizar os medicamentos de forma diferente do que foi prescrito (CORRER; OTUKI, 2013; BRASIL, 2014c). Alguns fatores que podem influenciar a adesão ao tratamento estão citados na Figura 4. 24 Lembrança sobreo uso de medicamentos (medicação pregressa): O farmacêutico deve verificar com o paciente se ele utilizou algum medicamento no passado para o problema de saúde atual e de qual forma ele foi utilizado. Ainda é importante questionar o paciente sobre o uso de medicamentos para problemas pregressos relevantes, focando em medicamentos que obtiveram sucesso para casos específicos ou que produziram poucos efeitos ou efeitos adversos (CORRER; OTUKI, 2013). Recomenda-se reunir informações sobre o nome do medicamento, data e período de uso, dose, frequência, resultados obtidos e informações sobre o prescritor, quando houver (CORRER; OTUKI, 2013). Esses dados serão de grande valia para auxiliar o farmacêutico sobre como proceder, uma vez que é possível estimar a gravidade do problema (problemas já tratados com um medicamento aparentemente adequado apontam indícios de maior gravidade e indicam a necessidade de encaminhamento a outro profissional) (CORRER; OTUKI, 2013). 25 TRATAMENTO COM PRÁTICAS INTEGRATIVAS E COMPLEMENTARES (PICS) O campo das PICs contempla sistemas médicos complexos e recursos terapêuticos, que buscam estimular os mecanismos naturais de prevenção de agravos e recuperação da saúde, por meio de tecnologias eficazes e seguras. São eles: medicina tradicional chinesa-acupuntura, homeopatia, plantas medicinais e ftoterapia e termalismo social/crenoterapia (tratamento com águas minerais) (BRASIL, 2006). Nesse contexto, durante a entrevista clínica, o farmacêutico deve estar atento também às questões relacionadas ao tratamento com PICs, verificando qual é a prática envolvida, para qual finalidade está sendo utilizada, com qual frequência, bem como o modo de preparo e utilização, caso se aplique. Cabe destacar que os fitoterápicos industrializados ou as formulações caseiras, por possuírem substâncias que podem interferir na ação terapêutica, devem ser documentados da mesma forma e no mesmo local que os outros medicamentos (CORRER; OTUKI, 2013; BRASIL, 2014c). ALERGIAS E REAÇÕES ADVERSAS A MEDICAMENTOS (RAMS) Além dos itens citados anteriormente, existem algumas situações que o farmacêutico deve observar antes de tomar a decisão sobre como proceder, como, por exemplo, o histórico de alergia do paciente (a medicamentos ou alimentos) e se ele apresentou RAMs, o que pode contraindicar o uso de determinados medicamentos. O farmacêutico deve questionar ao paciente se algum medicamento que ele utiliza ocasiona algum incômodo e se ele sente ou sentiu, nos últimos meses, algum dos sintomas mais comuns que podem ser causados por medicamentos, como dor de cabeça, tontura, problema gastrintestinal, dor muscular, entre outros (BRASIL, 2014c). Caso o paciente afirme sentir ou ter sentido algum dos sintomas, o farmacêutico deve efetuar uma anamnese sobre a história desse problema de saúde (BRASIL, 2014c). 2.3 26 ANÁLISE SITUACIONAL Nessa etapa, o farmacêutico deverá analisar os problemas de saúde do paciente e os medicamentos utilizados, procurando identificar os resultados negativos, manifestados ou suspeitos, associados à medicação (HERNÁNDEZ; CASTRO; DÁDER, 2007; CORRER; OTUKI, 2013). Os Resultados Negativos à Medicação (RNMs) são resultados na saúde do paciente não adequados ao objetivo da farmacoterapia e associados ao uso ou à falha no uso de medicamentos (COMITÉ DE CONSENSO, 2007, tradução nossa). Ou seja, os RNMs são problemas de saúde ou alterações não desejadas no estado de saúde do paciente atribuíveis ao uso (ou desuso) dos medicamentos (HERNÁNDEZ; CASTRO; DÁDER, 2007). Os RNMs são organizados em seis categorias, conforme a Figura 5. 27 DOENÇAS DERMATOLÓGICAS A pele é um dos maiores órgãos do corpo humano, atingindo até 16% do peso corporal. É constituída por epiderme (porção epitelial), derme (porção conjuntiva), hipoderme (tecido subcutâneo) e anexos cutâneos (pelos, glândulas sudoríparas e glândulas sebáceas). Dentre suas funções incluem-se proteção, uma vez que evita perda de água e eletrólitos, bem como a entrada de micro- organismos; termorregulação; sensorial (recebe os estímulos de dor, calor, frio); excreção de substâncias; formação de vitamina D3 e respostas imunológicas aos alérgenos (DELUCIA et al., 2007; CORRÊA, 2012; GREENE; HARRIS, 2012). No entanto, apesar de a pele ser um órgão resistente e com grande capacidade de proteção, podem ocorrer lesões inflamatórias, como, por exemplo, as dermatites ou eczemas e acnes. Desta forma, a atuação do farmacêutico é essencial para auxiliar pacientes com problemas dermatológicos, promovendo o uso racional de medicamentos e otimizando a farmacoterapia, com o propósito de melhorar a qualidade de vida do paciente. Além disso, de acordo com a Res. CFF nº 586/13, o farmacêutico pode realizar a prescrição de medicamentos cuja dispensação não exija prescrição médica, a qual deve ser realizada com base nas necessidades de saúde do paciente, nas melhores evidências científicas, em princípios éticos e em conformidade com as políticas de saúde vigentes (CORRÊA, 2012; GREENE; HARRIS, 2012; KRINSKY et al., 2012; BRASIL, 2013b). ACNE Definição Doença de pele bastante frequente, decorrente de um processo inflamatório na unidade pilossebácea, formada por glândulas sebáceas e o canal no qual se forma o pelo. Pode aparecer em todas as idades e ambos os sexos, porém sua maior incidência e gravidade acontecem na adolescência (FINKEL; PRAY, 2007; SBCD, s.d.). 28 ATENÇÃO! Serão abordadas neste fascículo apenas as formas mais brandas da acne (estágio I), que podem ser tratadas com produtos que não exigem prescrição médica e tratamentos não farmacológicos, pois os estágios mais graves da acne (estágios II, III e IV) podem produzir cicatrizes permanentes e necessitam de medicamentos cuja dispensação exige prescrição médica. Recomenda-se que os pacientes com acne grau II, III e IV sejam encaminhados ao médico. Epidemiologia e etiologia Praticamente todos os adolescentes, independentemente do sexo, sofrem com o aparecimento da acne, que normalmente se inicia na puberdade, devido às alterações hormonais. Aparece mais cedo nas mulheres, porém é mais frequente e intensa nos homens (BRENNER et al., 2006; FINKEL; PRAY, 2007; SCHMITT; MASUDA; MIOT, 2009). Em adolescentes e adultos jovens, é mais comum no sexo masculino, devido à ação dos hormônios androgênicos, já em adultos (acima de 25 anos) é mais comum nas mulheres. Pessoas de pele clara têm maior probabilidade de sofrer com as formas moderadas e graves da acne do que as demais (BRENNER et al., 2006; FINKEL; PRAY, 2007; COSTA; LAGE; MOISÉS, 2010). Considerada uma dermatose crônica específica do folículo pilossebáceo, pode sofrer interferência de alguns fatores: clima quente e úmido, genética, hormônios, alimentação, faixa etária, estresse, aumento da produção sebácea. Sinais e sintomas Normalmente os sintomas da acne são de baixa ou pequena intensidade, porém, as manifestações variam de acordo com o organismo de cada pessoa, conforme as definições abaixo (FINKEL; PRAY, 2007; SBCD, s.d.): • Grau 1: somente comedões, sem lesões inflamatórias. No máximo 10 lesões na face. Sem lesões no peito ou nas costas e sem cicatrizes; 29 • Grau 2: comedões e pápulas. Entre 10 e 25 lesões na face e no peito ou nas costas. Apenas cicatrizes suaves; • Grau 3: comedões, pápulas e pústulas. Mais que 25 lesões. As cicatrizes são normalmente moderadas; • Grau 4: há também a presença de nódulos ou cistos com cicatrizes extensas. Como a acne normalmente se manifesta nas costas, peito, braços e, principalmente, na face, que são locais que normalmente ficam expostos, deve- se considerar o grau de sofrimento psicossocial do paciente, que pode chegar a quadros de depressão, fobia social e até ao suicídio (BRENNER etal., 2006). Tratamento Como a acne é um processo fisiológico, não é possível preveni-la. Entretanto, é possível diminuir sua gravidade (PASCHOAL; ISMAEL, 2010). O tratamento para a acne envolve uma série de opções (tratamento à base de cuidados gerais, tópico, sistêmico e complementares) que variam de acordo com o grau da doença, embora todas as opções apresentem resultados em longo prazo (TALARICO FILHO; HASSUN, 2001). Dependendo da gravidade, o paciente poderá associar as modalidades de tratamento para tentar um controle mais rápido das lesões. Os objetivos do tratamento da acne envolvem: a) Prevenção ou tratamento das lesões; b) Redução do desconforto físico causado pelas lesões; c) Melhora da aparência do paciente. d) Queratinização folicular, inflamação dérmica com aumento do crescimento de Propionibacter acnes e efeitos adversos de alguns medicamentos (STEINER; BEDIN; MELO, 2003; COSTA et al., 2007; GREENE; HARRIS, 2012). O processo tem início com a descamação intensa das células do epitélio (hiperqueratose), que se desprendem, acumulam e afunilam o lúmem dos folículos pilossebáceos, aumentando a produção de sebo, normalmente em áreas onde os folículos são maiores e mais numerosos (face, tórax e dorso). 30 A combinação de sebo, pelo e bactérias obstrui a abertura do folículo, formando um microcomedão (cravo branco), lesão primária da acne (VAZ, 2003; FINKEL; PRAY, 2007). O crescimento do microcomedão evolui para um comedão fechado (pequeno nódulo que fica um pouco abaixo da superfície da pele). O aumento do material acumulado faz com que a unidade porosa pilossebácea se abra, formando um comedão aberto não inflamado (cravo de cabeça preta) (FINKEL; PRAY, 2007). A produção excessiva de sebo, principalmente na puberdade, estimula o crescimento de bactérias Propionibacter acnes, normalmente presentes, agravando o quadro para os estágios mais graves, conforme resumo abaixo, mas que não serão tratados neste fascículo (FINKEL; PRAY, 2007): • Grau 2: formação de pápulas (ruptura folicular na derme superficial, como resultado da inflamação da unidade pilossebácea – lesão vermelha, elevada); • Grau 3: surgimento das pústulas (ruptura folicular nas camadas mais superficiais da pele, permitindo que o material purulento se torne visível no centro da lesão); • Grau 4: quando a inflamação é suficientemente grave e ocorre a ruptura nas camadas mais profundas da derme, um cisto de acne doloroso pode desenvolver-se, geralmente resultando em mudança de pigmentação na pele. Tratamento não farmacológico O farmacêutico poderá atuar prescrevendo tratamentos não farmacológicos para alívio dos sintomas da acne não inflamatória (grau 1) (TALARICO FILHO; HASSUN, 2001; BRENNER et al., 2006; FINKEL; PRAY, 2007): • Abrasivos: evitar a utilização de esfoliantes e esponjas; • Bloqueador solar: pode auxiliar como fator preventivo; 31 • Dieta: embora os estudos não tenham chegado a um consenso sobre a influência da alimentação na piora do quadro, recomenda-se a ingestão de alimentos frescos e naturais, com baixo índice glicêmico; Recomenda-se que o paciente seja encaminhado ao nutricionista, profissional responsável pela orientação nutricional, para a escolha do melhor plano alimentar. • Estresse emocional: alguns estudos relacionam situações de estresse emocional com a piora do quadro (por exemplo, adolescentes em período de prova e avaliação normalmente têm quadro agravado); • Excesso de oleosidade e umidade: evitar o uso de produtos oleosos (cosméticos, loções, produtos de bronzeamento etc.) e ambientes úmidos; • Exposição solar: evitar a exposição solar prolongada, pois pode agravar a irritação da acne; • Limpeza do rosto: recomenda-se lavar o rosto de 2 a 3 vezes ao dia, com produtos adequados ao tipo de pele, como sabonetes em barra, sabonetes líquidos, géis ou loções; • Manipulação das lesões: não remover as lesões com as mãos (espremer cravos e espinhas). Se houver necessidade de remover os comedões, deve-se procurar profissional habilitado; • Vestuário e acessórios: evitar roupas que não permitam a ventilação da pele (nos casos em que a acne apareça na região dos braços, peito e costas). Evitar também equipamentos e acessórios que causem atrito. É importante ressaltar que, nos casos mais graves, o paciente deve ser encaminhado a um profissional habilitado. Tratamento farmacológico Estão elencados a seguir os principais princípios ativos que compõem os produtos cuja dispensação não exija prescrição médica, tanto de formulações tópicas quanto orais, que o farmacêutico poderá prescrever aos seus pacientes, quando estes se apresentarem com o estágio I da acne. 32 Homeopático (CAIRO, 1991; VIJNOVSKY, 2015) • Carbo animalis • Hepar sulfur • Silicea APARELHO LOCOMOTOR O aparelho locomotor é constituído pelos sistemas ósseo, articular e muscular. Estes três conjuntos de órgãos unem-se à volta do objetivo comum de proporcionar movimento. O aparelho locomotor não é independente nem autônomo por interagir com vários sistemas, como, por exemplo, o sistema nervoso, de que depende, para controlo do movimento motor. Todo o aparelho é formado por estruturas cuja função é sustentar e produzir o movimento do corpo, dando origem ao sistema musculoesquelético. O elemento passivo do sistema é formado pelos ossos, cartilagens e ligamentos articulares, enquanto os músculos, ao ligarem-se aos ossos e ao contraírem-se, são responsáveis pelo movimento e deslocação corporal, para além de manterem unidas as peças ósseas em posições específicas. O conjunto de cartilagens e ossos é denominado esqueleto humano. Este é formado por mais de 200 ossos no adulto, variando com o seu tamanho e forma, sendo alguns longos, como o úmero ou o fémur, outros planos e lisos, como o das costelas, ou ainda curtos e com dimensões semelhantes, como os do carpo e do tarso, havendo também ossos irregulares, como os das vértebras. As funções do sistema esquelético abrangem o suporte e proteção de órgãos internos vitais, como o coração, pulmões ou cérebro, para além do armazenamento de minerais e produção de células sanguíneas, através da medula óssea. Deste sistema faz também parte a coluna vertebral, composta por vértebras alternadas com discos vertebrais, que permite dar flexibilidade ao 33 tronco. A estrutura mais complexa do esqueleto é o crânio, na qual se inclui o neurocrânio, que protege o encéfalo. Apesar da sua solidez, os ossos são também relativamente flexíveis, encontrando-se em constante renovação. A infância e adolescência correspondem a períodos de crescimento e mineralização. Em idades mais avançadas, os ossos tornam-se mais frágeis e as fraturas ósseas são mais frequentes devido ao processo de desmineralização e destruição de tecido ósseo. Por isso se aconselha o exercício físico nestas duas etapas da vida, dado contribuir para um desenvolvimento equilibrado dos ossos no adolescente e para uma maior robustez óssea no idoso, prevenindo fraturas. Para impedir maior desgaste, a superfície do osso, na zona de articulação com outro, deve ser lisa para o reduzir e daí ser revestida com cartilagens. Trata- se de um tecido liso, resistente e protetor, que funciona como amortecedor de choques, reduzindo também o atrito. Do sistema locomotor fazem também parte as articulações, tecidos que permitem a ligação entre dois ou mais ossos e podem variar segundo o seu grau de movimento ou a sua estrutura. Nesta última, as articulações podem ser fibrosas (ossos unidos por tecido conjuntivo fibroso), cartilaginosas (unidos por cartilagem) ou sinoviais (possui um espaço entre os ossos). A produção de sinóvia nas articulações diminui progressivamente com a idade, emergindo o envelhecimento articular que pode ser influenciado porfatores genéticos ou devido ao desgaste natural. Em relação ao eixo do movimento, as articulações podem classificar-se em fortes e imóveis, conhecidas por sinartroses e mais flexíveis. Por isso possibilitam os movimentos, nomeadamente a anfiartrose e a diartrose. 34 As articulações situadas entre os ossos planos do crânio correspondem ao primeiro tipo, enquanto do segundo tipo fazem parte as articulações pubianas e as intervertebrais com movimento limitado. Finalmente, no terceiro tipo pode incluir-se uma outra classificação que divide as articulações em três, de acordo com o eixo em que é realizado o movimento: monoaxial, quando a mobilidade é realizada à volta de um eixo, apenas permitindo movimentos de flexão e de extensão, como no caso da articulação do cotovelo; biaxiais, quando realizam, para além dos movimentos do subtipo anterior, outros como a adução e a abdução tão características dos movimentos do punho; por último, as articulações que permitem uma maior amplitude de movimento, como no caso dos ombros com rotação interna e externa ou ainda dos movimentos dos membros inferiores, que permitem a locomoção para trás, frente e lados, correspondendo a articulações do tipo triaxial ou poliaxial. O puzzle não ficaria completo sem abordar o sistema muscular que determina a movimentação dos membros, vísceras e órgãos internos, através da peculiar propriedade de contração e distensão das células. Quando um músculo se contrai o oposto relaxa, originando movimento ou ampliando a sua intensidade. O corpo humano possui mais de 600 músculos unidos na sua maior parte aos ossos através dos tendões, embora muitos outros não estejam ligados à estrutura óssea e possuam funções específicas, como a língua, o coração ou os músculos do aparelho digestivo. 35 Para além da capacidade dos músculos produzirem movimento, pode ainda destacar-se o seu contributo como estimulantes dos vasos sanguíneos, assim como para a estabilidade articular e manutenção da postura através das terminações nervosas existentes no tecido muscular. Por outro lado, os músculos fornecem informação sobre o estado fisiológico do corpo e são considerados biotransformadores ao participarem na conversão de energia química em mecânica. O músculo é o órgão de maior adaptabilidade, pois consegue modificar o seu conteúdo e a sua forma em frações de segundo. Quando não é utilizado pode rapidamente atrofiar, diminuindo o seu tamanho e força, mas o processo é reversível e, com exercício adequado, pode voltar à sua dimensão original. Distúrbios do aparelho locomotor Embora os vários elementos do sistema musculoesquelético possam mostrar bom desempenho, a sua frequente utilização provoca desgaste, lesões ou inflamações que podem originar dor crônica e incapacidade física. As lesões podem variar desde as mais superficiais, como as entorses ou contusões, até às simples distensões musculares que ocorrem sobretudo na região lombar e nas coxas. O seu grau traumático pode ser mais elevado quando atinge as articulações ou os ossos, como nas luxações ou fraturas. Nesta última patologia, a gravidade depende da fratura ser fechada (quando não há rompimento da pele), ou aberta quando fica exposta ao meio externo, com risco de contaminação. Embora dolorosas e até geradoras de futuras complicações, na sua maior parte, estas lesões curam-se por completo, ao contrário do que ocorre nas inflamações articulares e dos tendões, provocando as conhecidas artrites e tendinites. 36 Na primeira situação, o processo inflamatório pode ser generalizado – uma característica típica da artrite reumatoide – tornando-se crônico e persistente. É considerada uma doença autoimune, que se caracteriza pela inflamação da cápsula sinovial das articulações, podendo ocasionar, para além de dores intensas, rigidez e deformidades progressivas, responsáveis pela incapacidade funcional. A artrite reumatoide não deve ser confundida com o reumatismo. Esta última perturbação corresponde a um conjunto de doenças que, em dado momento, provocam dor ou incapacidade, não apenas nas articulações, mas também nos músculos, tendões e ossos. A inflamação pode atingir tecidos conjuntivos de outros órgãos, como os rins, pulmões e pele. A sua causa não é ainda bem conhecida, embora se especule sobre a sua relação com a imunidade ou o sistema de defesa que passa a agredir o próprio organismo. Com a denominação de doença reumática incluem-se ainda outras perturbações, como a artrose, a gota, a tendinite provocada por esforços repetitivos, a bursite associada a desportos como o tênis ou a natação, a dor ciática, que atinge o nervo mais longo do corpo e cuja dor persistente se inicia na região lombar, passando pelas nádegas e atingindo a parte inferior de uma ou de ambas as pernas. O impedimento permanente dos movimentos, assim como a degeneração prematura das articulações, pode originar as chamadas artroses, com uma incidência maior nas mulheres, sobretudo a partir dos 45 ou 50 anos. Pelo contrário, a artrite gotosa, que além de febre também provoca limitação de movimentos, atinge mais o grupo masculino. 37 Em causa está uma reação inflamatória aos cristais de urato, que se depositam nas articulações devido a distúrbios do metabolismo do ácido úrico, sendo as regiões mais afetadas os tornozelos, joelhos, cotovelos e dedos do pé. Outra doença do foro reumático é a espondilite anquilosante. Consiste na inflamação das juntas da coluna e grandes articulações como as dos quadris e ombros. De origem desconhecida, a doença por enquanto não tem cura, embora se aconselhe uma terapia de exercícios, assim como o recurso a analgésicos, anti-inflamatórios e relaxantes musculares para alívio das dores. Lombalgias e hérnias discais também podem ser incluídas no grupo de doenças reumáticas, para as quais influem fatores genéticos e antropológicos, obesidade, fumo, atividades repetitivas, traumas, sedentarismo ou maus hábitos posturais. Um caso particular que também pode ser incluído nas doenças reumáticas, embora não afete as articulações, é a fibromialgia. Trata-se de uma síndrome clínica, caracterizada por um conjunto de sintomas, sem que seja identificada uma origem única para todos eles. A sua principal característica é uma dor generalizada, que ataca principalmente os músculos, combinada com a falta de sono repousante, estados depressivos e fadiga crônica. Há ainda outros transtornos que podem afetar diretamente os ossos e o próprio esqueleto humano, como a escoliose (desvio da coluna vertebral para a esquerda ou direita), a hiperlordose, associada a curvaturas lombares e cervicais anormais da coluna, ou ainda a cifose, mais conhecida por corcundez, que provoca um aumento da concavidade anterior da coluna. Em geral, estes distúrbios relacionam-se com más posturas ou a prática de determinadas atividades. 38 Os desequilíbrios hormonais podem também afetar os ossos e articulações, como ocorre na osteoporose, cuja característica principal é a diminuição da massa óssea decorrente da desmineralização dos ossos. À medida que os ossos perdem densidade, tornam-se também mais frágeis e propensos a fraturas. Contudo, a doença pode ser diagnosticada antes de se verificar fratura, recorrendo a exames que meçam a densidade óssea, sendo o mais adequado a absorciometria de raios X de energia dupla, um processo rápido, indolor e sem riscos para a saúde. Na osteoporose, mais importante que o tratamento é a sua prevenção, de forma a manter ou aumentar a densidade óssea. Neste sentido é conveniente ingerir doses adequadas de cálcio, suplementos de vitamina D, assim como realizar uma correta prática de exercícios físicos, privilegiando os que implicam o suporte do peso corporal, designadamente andar ou subir escadas. Para tratamento desta patologia,há quem recorra à THS (terapia hormonal de substituição), embora a sua utilização se mantenha controversa. Recentemente surgiram no mercado alternativas com medicamentos baseados no raloxifeno que, embora menos eficazes contra a osteoporose que o estrogenio, implicam menos risco para a saúde. Os bifosfonatos, nos quais se incluem o alendronato sódico ou as calcitoninas, são também aconselhados, sobretudo no caso de doentes com osteoporose pós-menopáusica. As fraturas resultantes da osteoporose também devem ser tratadas, sendo a mais grave a que ocorre na anca, implicando a sua substituição total ou parcial. Podem também surgir fraturas nos pulsos, em que a aplicação de gesso é suficiente, ou ainda afetar as vértebras, situação que obriga à utilização de coletes ortopédicos, para além do recurso a analgésicos e à fisioterapia, para alívio das dores. https://www.indice.eu/pt/medicamentos/DCI/raloxifeno/informacao-geral 39 À semelhança da osteoporose, o raquitismo decorre da carência de vitamina D, o que impossibilita a absorção do cálcio e do fósforo, provocando, em situações mais graves, deformações nas pernas (formato em arco) e ossos quebradiços. A doença, mais frequente em países em desenvolvimento, pode ser revertida através de suplementos na dieta e adequada exposição solar, embora demore alguns meses ou anos até as deformidades desaparecerem. Outros transtornos do aparelho locomotor relacionados com causas genéticas são a espina bífida, caracterizada por uma deficiência no desenvolvimento da medula espinal e da coluna vertebral, ocasionando paralisia e anomalias sensitivas nas extremidades inferiores; amiotrofia espinal, que também provoca paralisia, sendo muito grave quando se revela nos primeiros meses de vida; paralisia cerebral, causada por uma lesão do cérebro antes, durante ou após o nascimento e que interfere com o desenvolvimento do sistema nervoso, afetando não apenas a motricidade, como também o tónus muscular, o movimento e a postura; doença de Paget do osso, perturbação crónica do esqueleto consistindo no crescimento anormal de certas regiões do osso, sendo que essa hiperatividade das células ósseas também pode ser causada por uma infecção viral, que despoleta a doença desde que haja predisposição genética; distrofia muscular, doença que afeta o tecido muscular e que provoca desde a perda gradual da mobilidade até incapacidade severa e morte, como na distrofia muscular de Duchenne cuja esperança de vida não vai além dos 20 anos. Com sequelas também muito graves a nível dos ossos, é a osteogénese imperfeita ou doença de Lobstein que se caracteriza pela deficiência de 40 colágeno ou incapacidade de sintetizar essa proteína, provocando ossos anormalmente quebradiços. Muitas das crianças que nascem já com fraturas múltiplas e crânio mole, ou não conseguem sobreviver ou são afetadas por lesões cerebrais posteriores. De referir ainda a acondroplasia, normalmente conhecida por nanismo, cuja incidência é de 1 para cada 15 mil recém-nascidos. A acondroplasia pode criar dificuldades de diagnóstico pois desde o início algumas crianças nascem com o comprimento normal, embora na fase adulta não venham a ultrapassar 1,40 m de altura. No lado oposto surge a acromegalia, uma doença hormonal causada pelo excesso de secreção da hormona de crescimento, podendo também derivar de tumor na glândula pituitária. Para esta doença, em que os indivíduos podem atingir estaturas próximas dos 2,75 metros, há tratamento para reduzir a produção daquela hormona através de medicamentos, ou extirpando o tumor. Estas anomalias genéticas podem ser despistadas e prevenidas. A condição é que os progenitores procurem aconselhamento genético com o objetivo de avaliar futuras gestações em que este tipo de doenças não se manifeste. No entanto, há lesões a nível da medula espinal que tanto podem ser genéticas como causadas por doenças ou traumatismos, em fases posteriores ao nascimento. Desencadeiam situações de tetraplegia ou paraplegia, conforme afetem os quatro membros ou apenas os membros inferiores. 41 Por último, cabe ainda destacar o papel que desempenham os tumores do aparelho locomotor. Segundo a Organização Mundial da Saúde, existem pelo menos 90 tipos de neoplasias de partes moles e mais de 50 ósseas, embora cerca de metade corresponda a situações benignas. A terapia no caso dos tumores ósseos malignos poderá envolver cirurgia, combinada ou não com tratamentos de radioterapia ou quimioterapia. As opções devem ser avaliadas pelo médico e pelo paciente de acordo com a idade, a evolução e agressividade do tumor e a região afetada. A eficácia do diagnóstico e do tratamento utilizado desde o início influencia a possibilidade de cura. No pior dos casos, os tumores podem ser metastáticos ao propagarem- se ao osso a partir de um ponto de origem, que pode ser o pulmão, a mama, a próstata, rim ou qualquer outro órgão. Nesta situação está-se na presença de um tumor secundário. O sinal de alarme habitual é dor intensa ou ocorrência de 42 fratura no ponto em que o tumor debilitou o osso e que possibilita a detecção e localização do tumor original através de biópsia. Os tumores podem também ser primários ou com origem no próprio osso, enfraquecendo-o e partindo-o, mesmo com diminuta sobrecarga ou pressão. O sarcoma de Ewing, o condrossarcoma, o fibrossarcoma ou o sarcoma osteogénico – sendo este último o cancro de osso mais frequente e agressivo –, são tumores que correspondem ao grupo primário. Este tipo de tumor afeta sobretudo as crianças enquanto o metastático é mais frequente na fase adulta. De referir ainda os tumores não cancerosos, nos quais se podem incluir os osteocondromas, os condromas benignos, os condroblastomas, os fibromas condromixóides e os tumores de células gigantes. Terapêutica passa pela prevenção Se bem que muitas das doenças que afetam o sistema musculoesquelético sejam de origem genética ou surjam associadas a processos degenerativos, há outras que podem ser prevenidas, sendo de efeito reversível. As lesões mais ligeiras, que afetam os músculos, ligamentos ou tendões, podem ser tratadas apenas com o recurso a compressas mornas ou frias, imobilização com talas e ligaduras, muito repouso e, em algumas ocasiões, o uso de analgésicos e anti-inflamatórios, sempre que sejam atingidas várias articulações. Contudo, há outras doenças que envolvem o aparelho locomotor, para as quais mais vale seguir o ditado popular de "prevenir antes que lamentar", pois as consequências podem ser muito graves e comprometer o desempenho físico e a qualidade de vida. 43 Manter uma boa saúde e ossos fortes deve ser essencial, através do consumo de alimentos ricos em cálcio, como os lacticínios e as verduras. Exposição solar e exercício físico adequados, em particular nas mulheres com predisposição para fragilidade óssea, deve ser outra das prioridades para quem pretenda evitar as sequelas no futuro. Cuidados com a postura e o levantamento de pesos, assim como evitar desportos arriscados ou, pelo menos, praticá-los só com muito treino e prudência é conveniente, por forma a evitar traumatismos e lesões graves e irreversíveis. Por outro lado, deve criar-se, tanto no local de trabalho como em casa, no carro ou no exterior, um ambiente seguro de modo a reduzir a incidência de acidentes, quedas ou queimaduras. No local de trabalho a utilização de acessórios e equipamentos de proteção nas profissões de risco ou de desgaste deve ser norma obrigatória, apesar de ainda se verificar alguma negligência nesta área. Porém, tem havido avanços em relação aos Distúrbios Musculoesqueléticos Ocupacionais (DMO), seja através de abordagens mais holísticas e multidisciplinares nas terapêuticas, como também na sua prevenção, corrigindo os fatores ergonómicos