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Introdução
Em 2015, o estado do Rio de Janeiro passou a viver momentos de crise financeira, onde diversos setores e servidores foram afetados pelos problemas vividos pelo governo. A área da segurança pública e, especificamente, as forças policiais não foram diferentes, também vivenciando problemas decorrentes da crise, chegando a culminar na paralisação da Polícia Civil no começo de 2017 devido ao atraso de salários[footnoteRef:1], funcionando com capacidade de atendimento reduzida. [1: Policiais civis do RJ fazem paralisação, diz sindicato. Disponível em: . Acesso em 12 de fev. de 2021.] 
Já no ano de 2016, foi observado através dos dados de Registros de Ocorrência da Polícia Civil, disponibilizados pelo Instituto de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro (ISP), um aumento no número de registros na cidade de Niterói no ano de 2016 quando comparado ao ano anterior, nos três Indicadores Estratégicos de Criminalidade (I.E.C.) definidos pelo Sistema de Metas e Acompanhamento de Resultados no Decreto nº 41.931 de 25 de junho de 2009[footnoteRef:2], Letalidade Violenta (composto por homicídio doloso, morte por intervenção de agente do Estado, latrocínio e lesão corporal seguida de morte), Roubos de Rua (composto por roubo a transeunte, roubo de aparelho celular e roubo em coletivo), e Roubo de Veículos (composto por roubo de auto e roubo de moto), como podemos observar na Tabela 1. [2: Disponível em: . Acesso em 28 de fev. de 2021.] 
Tabela 1 – Vítimas e registros dos I.E.C. no acumulado de janeiro a dezembro dos anos de 2015 e 2016
	Indicador
	2015
	2016
	dif. abs.
	dif. %
	Letalidade Violenta
	165
	187
	+ 22
	+ 13,33
	Roubos de Rua
	3.609
	5.020
	+ 1.411
	+ 39,10
	Roubo de Veículos
	1.273
	1.520
	+ 247
	+ 19,40
Fonte: Base de Dados ISP. Dados trabalhados pelo autor
Nesse cenário, a segurança pública no município de Niterói tornou-se, cada vez mais, um problema público municipal, tendo a Administração tomado a decisão de transformar o tema em prioridade e realizar investimentos cada vez maiores na área, como indica a Imagem 1, abaixo, retirada do texto base do Pacto Niterói Contra a Violência[footnoteRef:3], uma das iniciativas para agir na questão da segurança pública. [3: Disponível em: . Acesso em 28 de fev. de 2021.] 
IMAGEM 1: Evolução das despesas do Município de Niterói com Segurança Pública por ano (2014-2018)
Texto base do Pacto Niterói contra a violência (2018, p.03)
Como observado, o município de Niterói tem assumido desde 2013 um papel relevante na temática, aumentando os investimentos em policiamento e prevenção a violência. A Imagem 1 indica o incremento feito nos recursos aportados dentro do orçamento da Secretaria de Ordem Pública de Niterói, que passou de um orçamento de cerca de dezoito milhões de reais em 2014 para cerca de setenta milhões de reais em 2018, um aumento de aproximadamente de 360%.
Dentro desses investimentos está a expansão da Guarda Municipal, com o aumento do efetivo, capacitação e infraestrutura, principalmente com a construção de uma nova sede e do Centro Integrado de Segurança Pública (CISP), que possui um sistema de monitoramento por câmeras espalhadas pela cidade. A partir de 2017, os investimentos aumentaram com o início do Programa Niterói Presente, bancado pela Prefeitura, através de convênio com o governo do estado pelo Programa Estadual de Integração na Segurança (PROEIS), aumentando o número de vagas para policiamento nas ruas. Em 2018, foram realizados investimentos na recuperação de veículos, e maior oferta de ajuda de custo a funcionários da área de segurança pública que atuavam no município e reformas em espaços físicos de atuação de policiais. (PACTO NITERÓI CONTRA A VIOLÊNCIA, 2018).
Esse conjunto de políticas públicas e investimentos na área de segurança careciam da utilização de dados e informações públicas (evidências) no acompanhamento de seus resultados. Como uma ferramenta para preencher essa lacuna, através do monitoramento dos indicadores de segurança pública, é criado dentro da administração municipal o Observatório de Segurança Pública, tendo como fonte principal de seus dados no início do trabalho os dados de Registros de Ocorrência de delegacias da Polícia Civil, fornecidos através de parceria com o ISP/RJ.
Nesse sentido, o Observatório passa a ser o órgão responsável, em Niterói, por fazer levantamentos sobre esses indicadores e fornecer evidências que subsidiem os gestores públicos (evidence based policies – políticas informadas por evidências), tanto para que esses acompanhem alterações nos números, a partir de investimentos feitos, quanto para que se perceba a necessidade de possíveis mudanças de rumo ou de implementação de novas políticas públicas.
Observatórios de Segurança Pública Municipais – nível federal
A ideia de criação de Observatórios de Segurança Pública dentro dos municípios surge em coletânea lançada em 2009 pelo Ministério da Justiça sobre os Gabinetes de Gestão Integrada Municipais (GGI-M), sendo uma parte fundamental e essencial para o funcionamento dos GGI-Ms. Definido como o “responsável pela gestão do conhecimento e deve produzir e sistematizar informações através de estudos e análises científicas sobre os problemas de segurança pública da cidade” (MINISTÉRIO DA JUSTIÇA, 2009. p. 271), trabalhando principalmente através da gestão da informação de forma a torná-la a principal ferramenta de ação policial, viabilizando produção de inteligência voltada para tomadas de decisões, o Observatório é a ferramenta que coloca luz as evidências nos debates a nível de planejamento capitaneados pelo Gabinete de Gestão Integrada.
O propósito então é que a informação obtida e trabalhada dentro do Observatório se transforme em importante ferramenta de inteligência voltada para a ação policial, percebendo a realidade e identificando a necessidade de ações, sendo então, o órgão responsável pela gestão do conhecimento (MINISTÉRIO DA JUSTIÇA, 2013).
Como fontes de dados a serem trabalhadas por um Observatório de Segurança Pública, uma cartilha elaborada pelo Ministério da Justiça (2011, p. 30) define como possibilidades:
. Sistema de informação policial – disponibiliza dados de natureza estatística policial: diagnóstico das ocorrências, análises estatísticas e informações obtidas a partir de sistema de geoprocessamento, entre outros;
. Pesquisa de vitimização – reúne dados de natureza qualitativa sobre ocorrências e vítimas a partir de experiências com diversas formas de violência relatadas por membros da comunidade. É uma fonte valiosa de informações, com os quais é possível aprofundar os movimentos da criminalidade, oferecendo alternativas complementares aos problemas de subestimativas presentes nas estatísticas oficiais;
. Outros sistemas – reúnem dados sobre a situação socioeconômica da população, como, por exemplo, os que são gerados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE e pelo Banco de dados do Sistema Único de Saúde - Datasus.
O Observatório de Segurança Pública de Niterói
No dia 15 de abril de 2016 foi publicado o decreto nº 12.248 que diz em seu artigo 1º: “fica criado o Observatório de Segurança Pública do Município de Niterói (OSPNit) no âmbito do Centro Integrado de Segurança Pública, ao qual caberá organizar e analisar os dados sobre a violência e a criminalidade local, a partir das fontes públicas ou privadas, bem como monitorar a efetividade das ações de segurança pública no Município”. 
Outras finalidades descritas por essa mesma lei são: contribuir com a gestão da informação de segurança pública; oferecer transparência às informações dos órgãos de segurança pública; produzir diagnósticos qualificados sobre a situação da segurança pública; monitorar, avaliar e propor políticas, programas e projetos de segurança pública; padronizar a coleta, análisee divulgação dos dados e informações públicas; produzir dados confiáveis e informações qualificadas; democratizar o acesso às informações; incentivar a produção científica; e incentivar a participação social.
Desde sua criação, o OSPNit trabalha com a base de dados disponibilizada pelo Instituto de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro (ISP/RJ) em seu site oficial e através de convênio celebrado entre os dois órgãos. Segundo consta no próprio site do ISP[footnoteRef:4] as incidências criminais e administrativas são divulgadas através da agregação dessas informações em cerca de 50 títulos. Essa informação é gerada através dos Registros de Ocorrência (R.O.) lavrados nas delegacias de polícia, passando por um controle de qualidade interno da própria Polícia Civil antes de serem processados pelo ISP. [4: Disponível em: . Acesso em 25/08/2021.] 
Dentro desses 50 títulos agregados e disponibilizados, há a definição dos chamados Indicadores Estratégicos de Criminalidade (I.E.C.), que foram definidos através do Decreto Nº 41.931 de 25 de junho de 2009, que implanta o Sistema de Definição e Gerenciamento de Metas, definindo que os I.E.C. serão Letalidade Violenta, composto pela soma de vítimas de Homicídio Doloso, Morte por Intervenção de Agente do Estado, Latrocínio e Lesão Corporal Seguida de Morte, Roubos de Rua, composto pela soma de Roubo a Transeunte, Roubo de Aparelho Celular e Roubo em Coletivo e Roubo de Veículos. Posteriormente, o Decreto Nº 47.402 de 15 de dezembro de 2020 veio a reorganizar esses Indicadores Estratégicos, adicionando no rol, além dos já citados, o Roubo de Carga.
É possível observar dentro dessas estatísticas geradas quantos registros ou vítimas[footnoteRef:5] de determinado delito foram registrados por mês e ano. Importante observar que a divulgação por data de registro não quer dizer que o crime ocorreu naquele determinado mês, visto que os registros podem ser feitos posteriormente ao fato. [5: Para crimes contra a pessoa é considerado para a produção de estatística o número de vítimas, enquanto para crimes e ocorrências contra o patrimônio, é considerado o número de registros.] 
Dentro dessa observação ainda é possível observar a distribuição por Circunscrição Integrada de Segurança Pública (CISP), que correspondem as áreas de atuação e responsabilidade das Delegacias de Polícia Civil e das Companhias Integradas de Polícia Militar em todo Estado[footnoteRef:6], e no caso de Niterói, também correspondem a área das Inspetorias Regionais da Guarda Municipal. O Município de Niterói hoje é dividido em cinco CISP, que são 76, 77, 78, 79 e 81[footnoteRef:7]. [6: A compatibilização de áreas entre Delegacias e Companhias Integradas através das Circunscrições Integradas de Segurança Pública foram através do Decreto 41.930/2009.] [7: Os bairros de atuação de cada CISP do município correspondem, segundo o Instituto de Segurança Pública a: CISP 76 – Centro, Ponta da Areia, Ilha da Conceição, São Lourenço, Fátima, Morro do Estado, Ingá, São Domingos, Gragoatá e Boa Viagem; CISP 77 – Santa Rosa, Icaraí, Vital Brasil, Pé Pequeno, Viradouro e Cubango; CISP 78 – Fonseca, Viçoso Jardim, Caramujo, Baldeador, Santa Bárbara, Tenente Jardim, Engenhoca, Santana e Barreto; CISP 79 – Jurujuba, Charitas, São Francisco, Cachoeiras, Maceió, Largo da Batalha, Ititioca, Badu, Sapê, Matapaca, Vila Progresso, Muriqui, Maria Paula e Cantagalo; CISP 81 - Itaipu, Camboinhas, Itacoatiara, Piratininga, Cafubá, Jacaré, Rio do Ouro, Engenho do Mato, Várzea das Moças e Jardim Imbuí.] 
Azevedo (2012) traz para a discussão a importância que essas estatísticas criminais têm como instrumento de informação para basear melhor políticas públicas de segurança, subsidiando o seu planejamento e também o monitoramento e avaliação dessas ações voltadas para a área.
A Atuação do OSPNit no processo de Monitoramento e Avaliação da Poítica Municipal de Prevenção a Violência
Ao longo de seu desenvolvimento, considerando os desafios a serem enfrentados e tendo como impulsionador o Pacto Niterói Contra Violência (PNCV), o Observatório inicia um processo de ampliação de escopo e olhar para além das estatísticas criminais, objetivando fornecer informações relevantes capazes de influenciarem o processo de tomada de decisão a respeito da eficácia dos programas e ou projetos do PNCV.
Essa mudança pode ser percebida quando em 6 de setembro de 2018 foi publicada a lei nº 3.370 que cria o Sistema Municipal de Gestão Integrada de Segurança Pública, o que reorganiza o Observatório Municipal de Segurança Pública. Como primeira alteração em relação ao decreto anterior, o OSPNit passa a estar vinculado à Secretaria Executiva do Pacto Niterói Contra a Violência, cabendo a ele a “coleta, sistematização, análise e produção de conhecimento em segurança pública do Município de Niterói, por meio de dados sobre violência e criminalidade, a partir de fontes públicas e sociais”. 
Entre os “produtos” descritos por lei que o Observatório deverá entregar estão: relatório mensal de monitoramento das ações de prevenção e policiamento do Pacto Niterói Contra a Violência; relatório mensal dos indicadores de criminalidade para o GGIM; relatório detalhado da dinâmica criminal de cada CISP; proposição de um Plano de Policiamento Integrado; realizar anualmente uma pesquisa de vitimização; e também o acompanhamento e confecções de relatórios sobre os indicadores de prevenção infrequência escolar, abandono e evasão escolar, número de registros de violência na escola, número de notificações de violência contra a criança e adolescente, número de pessoas atendidas com ferimento por causa externa.
A proximidade com os programas e ou projetos vinculados ao PNCV, como por exemplo o Programa Poupança Escola (PPE) e o Programa Escola da Família, através da introdução de instrumentos gerenciais como o Modelo Lógico e o Mapa de Processos e Resultados, permitiram um melhor entendimento da realidade social e das intervenções propostas, o que trouxe para o debate analítico da situação de violência no município diversos outros indicadores sociais, que apresentam de forma mais panorâmica a realidade sócio espacial no município.
Cabe aqui ressaltar o pioneirismo do OSPNit na implementação de uma Cultura Avaliativa no município, quando através de seminários propôs a discussão da definição de Avaliação, das modalidades de intervenção social, dos aspectos chave do processo avaliativo e sobre o Monitoramento das intervenções. Também se faz necessário ressaltar que a partir de encontros com os Gerentes dos Programas e ou Projetos vinculados ao Pacto Niterói Contra a Violência, foi identificada a necessidade de realizar uma Estimativa de Avaliabiliadade, definida por Wholey et al “ como um instrumento, um recurso para facilitar a comunicação entre avaliadores e interessados, para determinar se um programa é "avaliável".
A Atuação do OSPNit na Formulação de Indicadores de Monitoramento dos Programas e ou Projetos do Pacto Niterói Contra a Violência
Apesar de ser considerado um tema fundamental na esfera pública, apesar das inúmeras publicações sobre o tema, a dificuldade de entendimento sobre O que é um indicador? Como são classificados? Ou Quais as suas propriedades? Sua adequação aos propósitos da instituição? E como interpretar os resultados dos indicadores? (referencia ), a conceituação de Indicador, apresenta-se como um enorme desafio para a Administração Pública.
Para Jannuzzi (2017) “ um indicador é uma medida normalmente quantitativa, dotada de significado social substantivo, usado para aproximar, quantificar ou operacionalizar um conceito social abstrato, de interesse teórico ou programático”
 Entretanto a Fundação Nacional de Qualidade (FNQ) possui uma visão mais restrita sobre indicadores: 
Sua característica principal é a existência de fórmulas mais complexas para seu cálculo que preconizam, no mínimo, uma razão (conta de dividir) entre duas informações. Se não houver divisão de duas informações,então não existe indicador genuíno, apenas uma informação (ou um número “puro”).
O esforço para produzir conhecimento através do entendimento das intervenções, da exposição de suas “cadeias causais, relacionamentos entre recursos, ações, produtos e resultados” (IPEA, 2020), para identificar o momento em que se encontrava o Programa e ou Projeto, por meio da utilização do Modelo Lógico e ou do Mapa de Processos e Resultados, permitiu a identificação do tipo de Indicador que atenderia as necessidades dos Gerentes do Programas.
Os Acordos de Cooperação Técnica (ACT) firmados pelo OSPNit com as secretarias responsáveis pela execução dos programas vinculados ao PNCV, permitiu além do entendimento dos objetivos e funcionamento dos programas como também a identificação de públicos alvo e ou elegíveis para participação nos mesmos.
Bases de dados foram construídas, indicadores foram formulados.............
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