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SEXOLOGIA 
 
SEXOLOGIA 
 
 
 
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SUMÁRIO 
 
INTRODUÇÃO 3 
1- A SEXUALIDADE E SEU SIGNIFICADO 4 
2- EMBRIOLOGIA, ANATOMIA E FISIOLOGIA 9 
3- ASPECTOS SOCIAIS E ANTROPOLÓGICOS 15 
4- EDUCAÇÃO SEXUAL E ÉTICA 42 
REFERÊNCIAS 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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INTRODUÇÃO 
 
Prezado (a) aluno (a), 
O curso contém material básico e introdutório relacionados à sexologia. 
A sexologia, uma área que evoluiu muito nos últimos 150 anos, refere-se ao estudo 
científico e prático da sexualidade. 
Academicamente, a sexologia abrange as ciências físicas, biológicas, psicológicas, 
comportamentais e sociais. Normalmente inclui o estudo de atitudes, interesses, 
comportamentos, desenvolvimento e problemas sexuais humanos. 
Dentro da sexologia estudam-se e praticam-se tópicos de interesse. Inclui-se nisso o 
desenvolvimento psicossexual, identidade sexual e de gênero, saúde sexual, 
resposta sexual. Além disso, problemas sexuais, representados pelas disfunções 
sexuais e pelas parafilias. 
Sendo assim, Sexologia é o estudo da psicologia humana e suas manifestações 
sexuais. A sexologia estuda todas as facetas da sexualidade. Desde o 
desenvolvimento sexual, até mecanismos de situações eróticas, comportamento 
sexual e apego emocional. Inclui-se aspectos fisiológicos, psicológicos, médicos, 
sociais e culturais. A sexologia também abrange assuntos específicos como abortos, 
controle de natalidade, abuso sexual, novas técnicas de reprodução ou saúde 
sexual. 
O estudo científico do sexo e da sexualidade pode ser rastreado até o período grego 
clássico no mundo ocidental. Ainda mais cedo no mundo oriental. A sexologia 
nasceu no fim do século XIX quando três estudiosos alemães lançaram livros sobre 
o tema sexualidade. 
 
 
https://www.vittude.com/blog/teoria-do-apego/
https://www.vittude.com/blog/sexualidade-e-disfuncoes-sexuais/
SEXOLOGIA 
 
 
 
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1- A SEXUALIDADE E SEU SIGNIFICADO 
 
A sexualidade é um conceito que está baseado na atração sexual e na afetividade 
compartilhada entre as pessoas. 
É muito comum pensar em sexualidade e logo remeter ao sexo. Todavia, ela pode 
estar relacionada com outras maneiras pela busca do prazer e também com os 
sentimentos compartilhados. Note que o termo “sexo” refere-se ou aos órgãos 
genitais ou ao ato sexual. 
A sexualidade é muito relativa e pessoal, visto que o que pode ser considerado 
prazeroso para alguns, pode não ser para outros. Além disso, ela se desenvolve de 
acordo com as experiências de cada pessoa. 
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS): 
“A sexualidade faz parte da personalidade de cada um, é uma necessidade básica e 
um aspecto do ser humano que não pode ser separado de outros aspectos da vida. 
Sexualidade não é sinônimo de coito (relação sexual) e não se limita à ocorrência ou 
não de orgasmo. Sexualidade é muito mais que isso, é a energia que motiva a 
encontrar o amor, contato e intimidade e se expressa na forma de sentir, nos 
movimentos das pessoas, e como estas tocam e são tocadas. A sexualidade 
influencia pensamentos, sentimentos, ações e interações e, portanto, a saúde física 
e mental. Se saúde é um direito humano fundamental, a saúde sexual também 
deveria ser considerada um direito humano básico.” 
Note que a sexualidade está presente em todas as fases da nossa vida. Geralmente, 
o desejo sexual surge na puberdade, por volta dos 12 anos, sendo uma 
característica natural dos seres humanos. 
Atualmente, a “Orientação Sexual” é um tema transversal que deve ser abordado 
nas escolas como forma de compreender esse conceito e de todos os outros que se 
relacionam com ele: sexo, afetividade, gênero, métodos contraceptivos, aborto, 
gravidez na adolescência, doenças sexualmente transmissíveis, etc. 
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Gênero e Identidade de Gênero 
O conceito de gênero está relacionado com o de sexualidade posto que faz 
referência aos gêneros masculino e feminino. 
A identidade de gênero é, por sua vez, o gênero com o qual o indivíduo se identifica. 
Nesse caso, existem pessoas que desde crianças nascem com determinado sexo, 
no entanto, se identificam com outro. Esses são chamados de transgêneros. 
Importante destacar que a violência de gênero é gerada pelo preconceito com o 
sexo oposto. Ela envolve agressões físicas, verbais e psicológicas. Geralmente são 
mulheres que sofrem com esse tipo de violência. 
Vale ressaltar que práticas machistas e sexistas estão relacionadas com a violência 
de gênero. Além disso, temos o conceito de androcentrismo onde o pensamento 
masculino é colocado no centro. 
Orientação Sexual e Afetividade 
A orientação sexual é outro aspecto importante da sexualidade humana. Isso 
dependerá do gênero que atrai uma pessoa. 
Um indivíduo pode ser considerado heterossexual quando a atração e os 
sentimentos ocorrem entre pessoas do sexo oposto. Esse tipo de relação é 
chamada de heteroafetiva. 
Os homossexuais ou homoafetivos são aqueles que se sentem atraídos por pessoas 
do mesmo sexo. E por fim, há os bissexuais ou biafetivos onde o interesse e 
afetividade envolve os dois gêneros. 
A sexualidade a partir do biológico 
Possivelmente o aspecto biológico foi o mais considerado ao se criar um conceito de 
sexualidade. Mais especificamente a aparência genital, como o órgão sexual por 
excelência. 
Esta é uma visão muito reducionista que não considera o esquema do corpo como 
uma unidade. A integração do corpo na sua totalidade, dentro da sexualidade, nos 
permite entender que somos seres sexuais, desde que nascemos até morrermos. 
https://www.todamateria.com.br/orientacao-sexual/
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Isso significa que as crianças, os adolescentes, os adultos e os idosos têm 
sexualidade. 
Quando você se referir apenas a parte biológica da sexualidade, estará focando na 
reprodução sexual, através dos órgãos genitais, e destinada à reprodução. O 
aspecto biológico da sexualidade pode ser expandido e, assim, dar um significado 
maior quando se relaciona com outros fatores envolvidos: 
“O nosso corpo tem que ser aprendido, e somente através de um esquema corporal 
completo seremos capazes de realizar essa tarefa. Parcializar o corpo, indicando 
apenas determinadas funções, é negar o prazer de conhecer e se comunicar 
corretamente com as outras partes“. 
A sexualidade a partir do social 
Esta dimensão da sexualidade tem a ver com nosso lado erótico, através de um 
comportamento aprendido e da aquisição de vários costumes e ritos. Ou seja, em 
todas as culturas há crenças sobre a sexualidade que variam de acordo com o 
contexto histórico, e que influenciam a nossa maneira de agir. 
Nossas influências políticas, religiosas e culturais, de alguma forma, regulam os 
padrões do que é apropriado e do que não é. Isto resulta em muitas limitações a 
nível sexual através do que é considerado “normal”. 
Como seres sociais que somos, muitos medos que temos são relacionados a não 
nos sentirmos rejeitados, isolados e diferentes. Para fazer isso, observamos e 
transmitimos mensagens de comunicação que podemos ter interiorizado, 
transformando-as em valores e normas de conduta. 
Como uma população específica vive sua sexualidade é o resultado da socialização 
da mesma, mas esteja ciente de que estes comportamentos e atitudes que nós já 
internalizamos, sem questioná-los, podem nos ajudar a adaptá-los ou modificá-los a 
partir do conhecimento e do desenvolvimento da nossa própria personalidade. 
Isto significa romper com as limitações e equívocos que foram instituídos em nosso 
processo de socialização para vivermos a sexualidade como algo positivo, o que é 
https://amenteemaravilhosa.com.br/o-fenomeno-da-adolescencia-eterna/
https://amenteemaravilhosa.com.br/dez-obstaculos-impedem-boa-comunicacao/
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diferente para cada pessoa. Portanto, seria aconselhável, em vez disso, falar sobre 
sexualidades. 
A educação sexuala 
partir do governo Ernesto Geisel, que assumiu o poder em março de 1974, um 
período de distensão e tímida abertura política.11 Foi também um momento de 
intensa mobilidade social e simbólica para as camadas médias favorecidas pela 
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312009000300004#nt08
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312009000300004#nt09
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312009000300004#nt10
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312009000300004#nt11
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política de concentração de renda do regime militar. Segundo Gilberto Velho, a 
conjuntur. 
reforçava o projeto individualizante de família nuclear com a ampla veiculação de 
uma propaganda que enfatizava o consumo e o sucesso material, fosse diretamente 
por parte do Estado, fosse por grandes empresas, do chamado "milagre brasileiro". 
É quando insistentemente se enfatiza e se constrói o modelo de família que compra, 
investe, viaja etc. Poder-se-ia dizer que é configurada com nitidez o que deveria ser 
uma família brasileira em uma sociedade capitalista moderna. (VELHO, 1981, p. 70). 
Evidentemente, essa reconfiguração da família, se estava calcada em mudanças 
propriamente econômicas, implicou necessariamente transformações de 
mentalidade e valores. Como parte de tais transformações, já na segunda metade 
dos 70, os grandes centros urbanos assistiram ao florescimento da chamada 
"contracultura", que se difundiu entre os jovens filhos do "milagre econômico" 
(VELHO, 1998; HOLLANDA, 2004). Centrada em uma intensa revolução dos 
costumes, tinha como núcleo a chamada revolução sexual. É também nesse 
momento que um incipiente movimento de institucionalização reúne, no Rio de 
Janeiro, médicos e psicólogos em torno do projeto da constituição de um saber e de 
uma prática sexológica derivada do movimento norte-americano, ou seja, da 
proposta terapêutica de Masters e Johnson. 
Já em fins dos anos 1960, um grupo de discussão sobre problemas ligados à 
ginecologia, chamado "Clube da Placenta", reunia-se regularmente, sob a liderança 
de Jean Claude Nahoum - médico ginecologista. Dele também participava o 
ginecologista Paulo Canella,12 além de outros médicos ligados ao Instituto de 
Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio 
de Janeiro (UFRJ). No final da década de 70, Geraldo Lana e Araguari Chalar Silva, 
psicólogos vinculados a uma clínica de atendimento em Terapia Comportamental - a 
Corpsi -, estimulados pela leitura dos trabalhos de Masters e Johnson, começaram a 
se interessar pelas propostas da terapia sexual. Em uma das reuniões do Clube da 
Placenta, os dois grupos se aproximaram, formando o Núcleo de Sexologia da 
Sociedade de Ginecologia e Obstetrícia do Rio de Janeiro (SGORJ). 
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312009000300004#nt12
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No início dos anos 80, articulados a profissionais de outras partes do país, os 
integrantes do núcleo da SGORJ fundaram a Comissão Nacional Especializada em 
Sexologia dentro da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e 
Obstetrícia (FEBRASGO). Dela participavam, do Rio de Janeiro, Jean-Claude 
Nahoum e Araguari Chalar Silva; de São Paulo, Nelson Vitielo; e de Brasília, Ricardo 
Cavalcanti (todos ginecologistas, com exceção de Araguari). Testemunhando um 
grau razoável de permeabilidade da ginecologia a olhares não-médicos, também 
integravam a comissão psicólogos e outros profissionais, como os educadores. 
O movimento inicial para a estruturação do campo da (segunda) sexologia no Brasil 
foi, portanto, fruto da articulação entre a ginecologia-obstetrícia e a psicologia, 
cabendo de fato à ginecologia, como especialidade médica, fornecer a legitimação 
necessária para a nova especialidade. É necessário lembrar que, neste momento, a 
psicologia encontrava-se sob forte influência da psicanálise. A psicologia 
comportamental, que possui maior afinidade com a leitura sexológica que então 
surgia com os trabalhos de Masters e Johnson, era bastante marginal entre os 
profissionais da área. 
A permeabilidade da ginecologia-obstetrícia à psicologia certamente tem a ver com a 
história dessa especialidade médica. Uma hipótese que podemos avançar é a 
provável afinidade entre o "objeto" da ginecologia-obstetrícia - a mulher - e uma 
leitura psicológica, ou pelo menos, não tão estritamente física dos males que a 
acometem. A relação entre os órgãos reprodutivos femininos e as afecções 
"nervosas" foi objeto de inúmeros estudos e intervenções no decorrer do século XIX 
e início do XX (ROHDEN, 2001). Nos anos 1960 e 1970, o movimento do "parto sem 
dor" já prenunciava a intensa transformação no modo de lidar com a gestação que 
surgiria nas décadas seguintes e que pode ser resumida pela ideia de 
"humanização" do parto e da gravidez. Tal transformação, embora possuísse uma 
vertente de forte crítica à medicina, também congregava uma espécie de vanguarda 
entre os médicos ginecologistas que buscava uma visão menos restrita aos 
aspectos puramente biomédicos na assistência à mulher. Imaginamos, portanto, que 
a ginecologia-obstetrícia, tendo, desde seus primórdios, lidado com processos 
"físico-morais" (caso da gravidez, parto e puerpério) pudesse, dentre as 
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especialidades médicas, mais facilmente se articular com profissões mais "morais" 
que "físicas", como a psicologia. 
Entre 1983 e 1989, a Comissão Nacional Especializada em Sexologia da 
FEBRASGO organizou sete Encontros Nacionais de Sexologia, sendo o primeiro 
deles em São Paulo e o segundo no Rio de Janeiro.13 No Encontro de Gramado, em 
1987, ocorreu a assembleia de fundação da Sociedade Brasileira de Estudos em 
Sexualidade Humana (SBRASH), sendo então eleita e empossada sua primeira 
diretoria. O Encontro do Rio de Janeiro, em 1989, transformou-se assim no I 
Congresso da SBRASH. 
A SBRASH é já fruto de uma tensão que então começava a se instalar. A Comissão 
Nacional Especializada em Sexologia da FEBRASGO, que promoveu os primeiros 
encontros, começou a encontrar resistências dentro da Federação, pelo fato de 
abrigar em seus quadros profissionais não-médicos, como psicólogos e educadores. 
A fundação de uma sociedade multiprofissional foi a saída encontrada para a 
questão entre a subordinação à medicina e a autonomização da especialidade, que 
continuará a atravessar o campo. 
Pela localização dos diversos encontros, é possível perceber que a sexologia 
contemporânea, em seus primórdios, se concentrou no sudeste e sul do país, 
regiões mais prósperas e desenvolvidas, com maior probabilidade de constituir um 
público consumidor para os novos serviços que então surgiam. Nesse percurso, não 
podemos deixar de mencionar a Sociedade Brasileira de Sexologia, fundada em 
meados dos anos 70, em Guarulhos (SP), num encontro entre médicos interessados 
no trabalho com sexualidade. Presidida pelo psiquiatra carioca Isaac Charan, a SBS, 
sociedade exclusivamente médica, foi responsável pela elaboração da Resolução nº 
1.019/1980 do Conselho Federal de Medicina, que estabelecia a sexologia como 
especialidade médica, e pela realização do XI Congresso Mundial de Sexologia no 
Rio de Janeiro, em 1993. No contexto atual, trata-se de uma sociedade sem grande 
expressão no campo, que parece estar desativada. 
A institucionalização do campo através da SBRASH ocorre em meio a uma 
institucionalização acadêmica, no início ainda incipiente, com a criação de um curso 
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312009000300004#nt13
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de especialização em sexologia no Hospital Moncorvo Filho14 no início dos anos 80 
e, posteriormente, a partir da mesma equipe e congregando novos nomes, do curso 
de pós-graduação lato sensu em sexualidade humana da Universidade Gama Filho(UGF). No movimento desses dois cursos de especialização, um sucedendo o outro, 
percebe-se que a relação entre a ginecologia-obstetrícia e a psicologia começa a se 
inverter. Embora os fundadores dos dois cursos façam parte das duas 
especialidades (ginecologistas e psicólogos), a passagem para a UGF foi realizada 
através da vinculação com o curso de psicologia, e não de medicina. 
Duas observações podem ser feitas acerca desse fato. Em primeiro lugar, embora a 
ginecologia-obstetrícia oferecesse um "nicho" de maior legitimidade do que a 
psicologia comportamental no momento de constituição do campo, a medicina 
necessita demarcar fronteiras claras entre suas práticas e as de outros profissionais 
para manter sua própria legitimidade. Um alvo especial são os psicólogos, que já 
vinham disputando espaço com psiquiatras no que diz respeito à prática 
psicanalítica. Ou seja, a rivalidade entre as duas profissões já era antiga e dizia 
respeito justamente à pretensão dos psicólogos de se nomearem "terapeutas" e 
realizarem procedimentos considerados como prerrogativa dos médicos. Em 
segundo lugar, o acolhimento da sexologia pelos psicólogos da vertente 
comportamental, numa universidade particular não especialmente conceituada, 
indica que esta "segunda sexologia" se estrutura nas margens das especialidades e 
instituições de maior prestígio no meio profissional e acadêmico. 
A pós-graduação lato sensu da Universidade Gama Filho deu origem a um mestrado 
em sexologia - o único do país - que funcionou de 1994 a 2005, com 
reconhecimento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior 
(CAPES) e mais de 100 dissertações defendidas. Tinha três áreas de concentração: 
sexologia clínica, sexologia educacional e sócio-sexologia, sendo a área de 
concentração em sexologia clínica reservada para médicos e psicólogos. Atraindo 
profissionais de diversas partes do Brasil, foi responsável por formar parte 
importante dos sexólogos em atuação no país. 
 
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312009000300004#nt14
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A certificação 
Logo após sua fundação, a SBRASH instituiu uma "Qualificação para o exercício da 
terapia sexual e educação sexual". Vemos aí um movimento duplo. De um lado, a 
necessidade de chamar a si o controle da atribuição do título que designa a nova 
ocupação. De outro, em um movimento semelhante ao dos médicos, de separar a 
terapia da educação sexual. Ou seja, a multiprofissionalidade da associação não 
impede que os psicólogos se juntem aos médicos para monopolizar o título de 
terapeuta, diferenciando-o do de educador. 
Em 2002, a Resolução nº 1.634/2002 do Conselho Federal de Medicina revoga a 
Resolução CFM nº 1.019/1980 e estabelece a sexologia não mais como 
especialidade médica, mas como área de atuação de ginecologia e obstetrícia e de 
urologia.15 Isso significa que, para um médico possuir certificado de área de atuação 
em sexologia, é necessário ser portador do título de especialista em urologia ou 
ginecologia e obstetrícia. Em uma nova resolução de 2003 (Resolução CFM nº 
1.634/2003), a sexologia aparece como área de atuação apenas da ginecologia-
obstetrícia. A FEBRASGO é a responsável por realizar o concurso de habilitação na 
área de atuação de Sexologia em Ginecologia e Obstetrícia16. Não há concurso 
semelhante na Sociedade Brasileira de Urologia (SBU). 
Nesse mesmo ano - 2003 -, a SBRASH, no lugar do antigo concurso de qualificação, 
passa a oferecer o Título de Especialista em Sexualidade Humana (TESH), 
concedido através de concurso ou da avaliação de diplomas de associados da 
SBRASH. O candidato pode requerer o título nas áreas de terapia sexual, educação 
sexual ou sócio-sexologia, sendo o primeiro título reservado a portadores do diploma 
de psicologia ou de medicina. 
O curioso neste afã de controlar a atribuição de um determinado título é que em 
nenhum dos dois casos o controle é de fato exercido. Seja por falta de rigor do 
próprio órgão fiscalizador, seja por desinteresse dos potenciais detentores do título. 
Através da listagem completa dos médicos do Brasil, disponibilizada no site do 
Conselho Federal de Medicina, constatamos que somente 17 profissionais possuem 
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312009000300004#nt15
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312009000300004#nt16
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o título de especialista ou o certificado de atuação em sexologia.17 Além disso, 
médicos de outras especialidades (que não urologia ou ginecologia e obstetrícia), 
como psiquiatria, cardiologia, pediatria, endocrinologia e medicina do trabalho, 
também o possuem. No caso do TESH, a página web da SBRASH listava em 2005 
somente 42 profissionais detentores do título, sendo 37 pela avaliação de diploma e 
cinco via concurso.18 Do total, 37 são especialistas em terapia sexual e cinco em 
educação sexual (quatro por avaliação de diploma e um por concurso) - número 
bastante reduzido quando sabemos que nesse momento a associação contava com 
mais de 200 associados. 
Percebemos, portanto, que a ocupação é ainda pouco institucionalizada em termos 
de controle e monopólio do título. Ou seja, as instituições profissionais (seja o CFM, 
a FEBRASGO ou a SBRASH), elas mesmas em grau maior ou menor de 
institucionalização, disputam entre si um certo monopólio da titulação ou autorização 
dos profissionais, mas os próprios profissionais, aparentemente, prescindem dessa 
autorização. Uma hipótese plausível é que o título de psicólogo e, mais ainda, o de 
médico, possui legitimidade suficiente para prescindir de um outro tipo de titulação - 
sobretudo no caso de uma especialidade como a sexologia que, em seus 
primórdios, sofreu algum grau de estigmatização por parte do establishment médico 
(RUSSO; CARRARA, 2002). A falta de acordo quanto à própria nomeação do campo 
- sexologia versus sexualidade humana - diz respeito, acreditamos, a essa situação 
de uma especialidade potencialmente desacreditável. A substituição do termo 
"sexologia" pela expressão "sexualidade humana" e, mais recentemente, "medicina 
sexual", parece ser justamente uma tentativa de, a partir de uma nova designação, 
distanciar-se do estigma potencial herdado dos primeiros tempos da sexologia. 
 
 
 
 
 
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312009000300004#nt17
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312009000300004#nt18
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4- EDUCAÇÃO SEXUAL E ÉTICA 
 
No principio era a filosofia fonte de todo conhecimento. Depois vieram suas filhas, as 
ciências, que cresceram e se multiplicaram, dando origem a inúmeros campos de 
estudo e de aplicação. Com o passar do tempo, as inteligentes ciências deram as 
costas para sua mãe, a sabia filosofia, e, associando-se à técnica, esqueceram do 
porquê e do para que fim, ficando com o como, quando e onde. O mundo nunca teve 
tanto cientista para tão pouco filósofo. 
 A ciência passou a inspirar leis morais, mas sua postura experimental não lhe 
oferece condições para refletir sobre os significados Áticos das suas descobertas. 
Alguns cientistas refletiram sobre a eticidade dos avanços científicos (1). Assim 
mesmo, poucos, sendo, inclusive, a maioria originária no âmbito das humanidades, 
que por sua natureza, não conseguiram romper tão fortemente com sua origem, e, 
por isso mesmo, passaram a ter sua condição epistemológica, que lhe garante o 
status de ciência, questionada. (2) 
 Na corrida para a descoberta cientifica, a ética ficou para trás, sendo hoje difícil 
inclusive defini-la. Valss (3), ao iniciar seu livro sobre o tema, afirma: 
 "A ética é daquelas coisas que todo mundo sabe o que são, mas que não são 
fáceis de explicar, quando alguém pergunta". 
 Adiante, esse autor define a ética como ciência normativa, descritiva ou 
especulativa (4). 
 
 A ética,na sua função deontológica, estuda os principias, fundamentos e sistemas 
morais, buscando oferecer um tratado de deveres ao ser humano que garanta o 
seu bem em nível individual e social. A ética, porém, não é pura abstração 
dissociada de uma realidade existencial. Ela existe e tem significado, na medida em 
que se fundamenta na estrutura existencial da pessoa humana. E tal fundamentação 
SEXOLOGIA 
 
 
 
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requer o estudo dos "esquemas de valoração dentro da sociedade e seus sistemas 
de legitimação" (5). 
 
 A ética, portanto, na sua dimensão filosófica, oferece a reflexão sobre o significado 
e finalidade da existência humana, buscando definir a moralidade. A justificação 
dessa moralidade ou eticidade, porém, encontra-se no diálogo continuo e em 
confrontação permanente com as contribuições dos diferentes conhecimentos 
científicos a respeito do ser humano (e). 
 A ciência rodou "quilômetros" de descobertas. O mundo recebeu a influência 
conflitante de diferentes sistemas morais interessados e desinteressados (7). As 
sociedades participaram do confronto dicotômico ideológico fundado no marxismo e 
no positivismo. O ser humano assistiu à falência de muitas verdades universais. 
Hoje, vive-se uma crise moral sem precedentes, alimentada pela rapidez do avanço 
científico, cultivada pela convivência diversificada e conflitiva dos sistemas de 
valores (8). Nunca se soube tanto sobre a pessoa humana, suas funções biológicas, 
sua história, sua cultura, suas linguagens, seus sistemas sociais, suas funções 
psicológicas, seus processos cognitivos e afetivos. No entanto, nunca se esteve tão 
perdido no que se refere à escolha de uma orientação axiológica existencial que 
possibilite a realização pessoal e social, além de oferecer uma referência 
transcendental. 
 
 A dimensão sexual humana constitui hoje o espaço existencial em que o 
anteriormente descrito mais se evidencia. Se bem vejamos: 
 A sexualidade humana foi resgatada do ocultamento e da patologia, do profano ou 
do sagrado, pela ciência, a partir do inicio deste século. O impacto que tal 
acontecimento provocou, no entanto, não foi de todo assimilado pela consciência 
coletiva. O simples fato de comprovar seu aspecto natural, sua função integradora 
da pessoa humana e a dismistificação de preconceitos e tabus confunde teóricos, 
clínicos, educadores, de um modo particular, e a sociedade como um todo. 
 
 A filosofia, a ciência e a técnica têm por finalidade promover o bem-estar do 
SEXOLOGIA 
 
 
 
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homem, e assim sendo, todo e qualquer avanço nestas áreas produz intensos 
efeitos sobre a vida humana. No momento em que a sexualidade e vida se 
confundem, embora sejam realidades distintas, a ação do desenvolvimento do 
conhecimento afeta muito mais este aspecto do que outros da dinâmica vital 
existencial. Para se avaliar a natureza complexa da sexualidade, assim como a sua 
magnitude no âmbito humano, faz-se necessário: 
 - Apreender que a sexualidade encerra o mistério da vida humana, pois, a partir 
dela, surge a vida nos seus sentidos estrito e pleno, e em função dela a vida 
continua após a morte. 
 
 - Compreender que toda pessoa humana é sexuada e que esta característica 
integra todas as dimensões humanas, já sejam biológica, psicológica ou social, pois, 
como define a OMS (9), "saúde sexual é a integração dos elementos somáticos, 
emocionais, intelectuais e sociais do ser sexual por meios que sejam positivamente 
enriquecedores e potenciem a personalidade, a comunicação e o amor". 
 
 - Finalmente, clarificar que a realização humana no âmbito pessoal social e 
transcendental passa pelo modo próprio que cada pessoa tem de viver o fato de ser 
sexuado, ou seja, pela sua sexualidade. E isto porque são funções da sexualidade a 
reprodução, o prazer e a comunicação, sendo esta a mais importante de todas, 
porque é ela justamente quem potência o amor, única força motriz verdadeira para a 
realização da reprodução desejada e a obtenção do prazer pleno. 
 
 A saída da sexualidade a luz que o desenvolvimento científico, técnico e social 
promoveu e continua promovendo, longe de esclarecer dúvidas, oferecer respostas 
certas e padrões de conduta desejáveis, ao contrário, destruiu a base axiológica 
biológica da sexualidade (reducionismo reprodutivo), provocando a exacerbação do 
hedonismo licencioso biológico (reducionismo do prazer). Como resultado, a 
confusão e a perplexidade se instalaram. A sociedade ocidental, aberta e pluralista 
em seus sistemas de valores, reagiu, reforçando antigos tabus e preconceitos, assim 
como criando novos. Às vezes negando a sexualidade, desacreditando-a, outras 
SEXOLOGIA 
 
 
 
46 
 
vezes, falando demais sobre ela e em nome dela, impedindo ou desvirtuando a 
expressão natural e espontânea da sua língua, refletindo a tensão existente entre as 
forças sociais apostas da manutenção e transformação. 
 Cientistas e educadores com base nos conhecimentos sexológicos tentam limpar o 
campo da sexualidade, os aproveitadores, com seus objetivos mercantilistas 
prostituídos, sujam-na. Os indivíduos confundidos entre os novos conhecimentos e 
os velhos afetos, reforçados por falsas e claras utilizações, experimentam o conflito, 
vivenciam o medo ou se entregam à inconseqüência das condutas irresponsáveis. 
 
 Hoje, assistimos à "desordem amorosa"(10). Buscam-se orientações, receitas. É o 
dobrar-se da sociedade à sabedoria da ética, tão negada, agredida e desvalorizada. 
Atitudes até certo ponto mostram-se ineficazes e estéreis. Por um lado, tem-se o 
absolutismo autoritário, por outro, o relativismo ortodoxo. Nas negações implícitas de 
ambos, evidencia-se a radicalização extremada, que impede a vigência de uma 
valoração universal legitimada na dimensão sócio-cultural especifica, cuja ultima 
instancia recai no âmbito individual. À pessoa cabe a escolha final entre o 
tradicionalismo conservador, expresso no "dever ser", universal, fundado em tabus, 
preconceitos e falsamente legitimado em abstrações, ou permissividade modernosa, 
normatizada com base no contraponto do "dever ser", que pretende ter legitimidade, 
baseada em falsos princípios revolucionários. Da norma do "nada pode", passasse à 
norma do "tudo pode". 
 A filosofia personalista oferece à ética uma reflexão sobre o que é a pessoa 
humana: "Uma totalidade viva com um passado, um presente e um futuro"(11), cuja 
autenticidade se expressa na realização do projeto de humanização, que se sintetiza 
na valorização intrínseca da vida em si mesma. Ou seja, ser pessoa é a vocação 
natural do ser humano, o que por si só constitui-se num valor supremo, central e 
eixo básico de critério avaliativo para todos os demais valores. 
 Temos, assim e ,portanto, a pessoa como valor, o qual dá origem a um sistema de 
valores que é por aquele legitimado, e do qual, por sua vez, originasse as normas 
morais. Sua legitimidade passa a existir quando confrontadas com o conhecimento 
científico atualizado, a qual se completa em nível prático-social na medida em que 
SEXOLOGIA 
 
 
 
47 
 
houver a assimilação sócio-cultural e a introdução coletiva consciente e responsável 
destas e dos valores e principias que as fundamentam. 
 A sexualidade humana é um valor de vida, legitima-se, portanto, na dimensão 
humana. 
 
 Ser pessoa é o valor central humano cujo significado é vida e cuja principal forma 
de expressão é a sexualidade. 
 Conclui-se aqui que o que promove a vida promove a pessoa humana, assim 
como sua expressão maior de vida: a sexualidade. 
 Nesse âmbito, a cada valor corresponde não outro valor, mas sim antivalores, ou 
valores de vida em contraposição e antivalores que potenciam a morte. 
 
 A sexualidade pode ser saudável, prazerosa, cultivada no amor e potenciadora da 
vida. A maioria das pessoas, ainda apegadas a falsos valores ou encantadas pelo 
canto da sereia do prazer consumiste,ainda não descobriu essa possibilidade. 
 
 Assistimos diariamente à exposição clara e objetiva ou sutil e enganadora das 
questões relacionadas com a vivência da sexualidade. Tal exposição, longe de nos 
proporcionar uma resposta satisfatória às nossas indagações e conflitos, aumenta-
os e torna-os mais complexos e diversificados. O que fica evidente é que nenhum 
tema na historia da humanidade foi, em qualquer tempo, mais trabalhado, através 
dos meios de comunicação de massa, desde diferentes tipos de publicação a 
produções artísticas variadas. 
 Os temas centrais do debate se dividem em dois amplos contextos: (a) reprodução 
(fecundação, anticoncepção, aborto); (b) prazer (masturbação, virgindade, relações 
pré-matrimoniais, homossexualidade, parafilias, erotismo, prostituição, pornografia). 
A abordagem, quase sempre e ainda, caracteriza-se pelo patológico, o inusual, o 
chocante, evidenciando a origem do conflito dramático, que é, em última instância, o 
eixo separador da humanidade sexuada, isto é, o ser homem e o ser mulher(12). E o 
velho padrão de conduta que valoriza e enfatiza o negativo, o feio, a dor, a doença, 
SEXOLOGIA 
 
 
 
48 
 
o pecado, o mal, a morte. Para estabelecer uma ética da sexualidade, tem-se de 
abandonar esse velho padrão e abraçar o positivo, o belo, o prazer, a saúde, o bem, 
a vida. 
 Considerando tudo o que foi exposto até aqui a respeito da ética e da sexualidade, 
como chegar a uma conclusão sobre a ética da sexualidade? 
 Seguindo algumas análises apresentadas até aqui, neste capitulo, podemos 
chegar a algumas conclusões fundamentais: 
 - A pessoa é um valor em si mesma, legitimado pela vida humana. Como tal, ao 
mesmo tempo em que se constitui valor, é também critério de valores. 
 
 - A sexualidade é a principal fonte de expressão da pessoa e, portanto, da vida. 
Como tal, constitui-se um valor legitimado pela vida. Assim sendo, deve ser 
humanizada e compreendida como o fator integrador da vida humana personificada. 
 
 - Cada pessoa é uma totalidade sexuada, única e irrepetível, com um modo 
próprio de viver, embora contextualizada em um tempo e um espaço definido. Isto 
significa dizer que, como ser histórico, único, não pode estar atrelada a um sistema 
moral fechado universal, como ser histórico-social não pode negar sua 
contextualização espaço-temporal, o que implica, também, a negação de um 
sistema moral aberto ao relativismo ortodoxo. 
 - A sexualidade como expressão maior da pessoa humana é contingente a todas 
as implicações que afetam esta. Como tal, portanto, deve ser tratada como o valor 
integrador do ser humano, buscando sua humanização e personalização. 
 
 A ética tem a função de oferecer princípios, fundamentos e sistemas morais. Assim 
sendo, apresentam-se, a seguir, os principias que devem orientar a ética da 
sexualidade: 
 
 1 - O principio da vida humana como base essencial para a realização do projeto 
de personalização. 
SEXOLOGIA 
 
 
 
49 
 
 2 - O principio da vivência de uma sexualidade saudável, integradora das 
diferentes dimensões humanas e potenciadora da personalidade, da comunicação e 
do amor. 
 
 Tendo a vida, a pessoa e a sexualidade como um amálgama que constitui o 
critério para a apreciação e definição de valores que possibilitem a elaboração de 
um código ético da sexualidade, cumpre-se o primeiro passo relativo e sintetizado na 
definição dos principias. 
 
 Como segundo passo, definem-se os fundamentos que possibilitam a 
operacionalização dos principias: amor, saúde, liberdade e responsabilidade. No 
entanto, cairíamos na ineficácia da norma absolutista autoritária que pretende a 
universalidade, ou no vazio do relativismo ortodoxo, se ficássemos apenas no 
âmbito da estrutura existencial da pessoa humana, sem dar a devida importância 
aos valores sócio-culturais e aos valores do conhecimento científico. 
 
 Toda e qualquer expressão da sexualidade, portanto, deve ser examinada à luz: 
 
 1 -Do principio da valorização da vida humana. 
 
 2 -Da estrutura existencial da pessoa concreta: 
 
 - Valores potenciadores de vida (amor, saúde, liberdade e responsabilidade). 
 
 - Valores sócio-culturais contextualizados. 
 
 3 -Do conhecimento científico. 
 
 A universalidade dos critérios morais está presente nos valores potenciadores da 
vida e nos valores científicos. A relatividade destes está garantida pelo referencial 
sócio-cultural e pelo dimensionamento da estrutura existencial da pessoa concreta. 
Os principias fundamentam a ética, assim como os valores potenciadores da vida, a 
justificativa e legitimidade desta se realizam na definição dos valores científicos e 
SEXOLOGIA 
 
 
 
50 
 
sócio-culturais. 
 
 A diversidade e complexidade das condutas sociais exigiriam um compêndio, se 
fosse nosso objetivo apresentar um código moral que tivesse a abrangência e 
especificidade para abordar toda a gama de questionamentos éticos que envolvem a 
sexualidade humana. Ao concluir este capitulo, entretanto, desejo sintetizar, de 
forma objetiva e clara, a mensagem que norteou a sua elaboração: 
 
 1 -O problema da ética da sexualidade se reporta ao âmbito da falsa ou 
inadequada valorização da vida humana e dos valores que a potenciam. 
 2 -A ciência já evidenciou o que é a sexualidade, suas funções, peculiaridades, 
formas de expressão e seu significado no contexto da pessoa humana. Existe, hoje, 
em nível internacional, o reconhecimento de uma ciência que a tem como objeto de 
estudo e de um profissional que se dedica ao desenvolvimento teórico e aplicado 
desta ciência, ou seja, a sexologia e o sexólogo. 
 3 -Falta, portanto, a divulgação do conhecimento científico, a educação 
conscientizadora e clarificadora sobre a vida, a pessoa e a sexualidade como valor 
central existencial, além da formação especializada de profissionais éticos que 
possam promover a legitimar socialmente tais valores. 
 
 Em síntese, tudo o que se exige no trato das questões humanas: conhecimento 
cientifico, conscientização clarificadora e responsabilidade. 
PARA QUE SERVE A EDUCAÇÃO SEXUAL NA ESCOLA? 
 
Avançar em um ensino de Educação sexual de maior qualidade nas escola é, 
literalmente, caso de vida ou morte. 
Se por um lado somos diariamente bombardeados por referências sexuais em 
propagandas e conteúdos de entretenimento, por outro, falar abertamente sobre 
SEXOLOGIA 
 
 
 
51 
 
o assunto com os jovens ainda assusta pais e educadores. Apesar do tabu 
persistir, e para o desgosto de muitos adultos, esse é um tema que faz sim 
parte da vida dos jovens. Segundo a pesquisa Mosaico 2.0, de 2016, do 
Programa de Sexualidade, da Universidade de São Paulo (USP), em parceria 
com o laboratório Pfizer, os jovens brasileiros têm iniciado a vida sexual entre 
os 13 e 17 anos. 
 
Infelizmente, essa busca pela expressão da afetividade e por prazer nem 
sempre é amparada por uma Educação que aborde a sexualidade em seus 
aspectos biológicos, culturais e sociais, como recomendam os parâmetros 
curriculares de ciências do Ministério da Educação (MEC). O resultado disso é a 
continuidade de comportamentos de risco, como o não uso de proteção durante 
a relação sexual, por exemplo. De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde 
do Escolar (Pense), em 2015, dos adolescentes do 9° ano do Ensino 
Fundamental sexualmente ativos, 33,8% disseram não ter usado camisinha na 
última relação sexual. Apesar disso, 7 em cada 10 afirmaram ter recebido 
informação a respeito na escola. Ou seja, apenas passar informação não é 
suficiente. 
 
Além disso, a falta de uma reflexão mais ampla sobre a sexualidade humana 
também favorece a persistência da intolerância e da violência, enfraquecendo o 
combate ao preconceito, ao abuso sexual infantil e à violência contra a 
população LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e 
Transgêneros) e contra a mulher- tópicos fundamentais para o Brasil, que ainda 
convive com índices alarmantes de crimes dessas naturezas. Avançar em um 
ensino de Educação sexual de maior qualidade nas escola é, portanto, 
literalmente caso de vida ou morte. 
 
Vários documentos nacionais e internacionais (veja no final do texto) dão 
suporte a uma Educação sexual que vá além da abordagem reprodutiva. 
A Orientação Técnica Internacional sobre Educação em Sexualidade, da 
Organização das Nações Unidas para a Educação, Cultura e Esporte (Unesco), 
de 2018, indica que o ensino deve servir para que os jovens desenvolvam 
https://jornal.usp.br/atualidades/adolescentes-iniciam-vida-sexual-cada-vez-mais-cedo/
https://jornal.usp.br/atualidades/adolescentes-iniciam-vida-sexual-cada-vez-mais-cedo/
http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/ciencias.pdf
http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/ciencias.pdf
https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv97870.pdf
https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv97870.pdf
http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2018-04/disque-100-registra-142-mil-denuncias-de-violacoes-em-2017
http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2018-04/disque-100-registra-142-mil-denuncias-de-violacoes-em-2017
http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/about-this-office/single-view/news/un_urges_comprehensive_approach_to_sexuality_education/
SEXOLOGIA 
 
 
 
52 
 
conhecimento, habilidades e valores éticos para fazer escolhas saudáveis e 
respeitáveis sobre os relacionamentos, o sexo e a reprodução. 
 
O documento propõe a “educação sexual compreensiva”, cujo objetivo é nortear 
o processo de aprender e ensinar sobre os aspectos cognitivos, físicos, 
emocionais e sociais da sexualidade. O texto discute temáticas mais científicas, 
como fisiologia e anatomia sexual e reprodutiva, puberdade e menstruação, 
reprodução, métodos contraceptivos modernos, gravidez e partos, além das 
Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs). Mas também trata de outras 
dimensões da sexualidade, como igualdade de gênero, amor, orientação sexual 
e identidade de gênero. Ou seja: tópicos antenados com as discussões 
contemporâneas e que podem afetar a saúde sexual e emocional dos jovens 
também aparecem como temas a serem discutidos pela escola - caso também 
de temas como cyberbullying e sexting (trocar mensagens de cunho sexual), por 
exemplo. 
 
O Brasil também tem documentos que apontam na direção de uma abordagem 
da sexualidade de modo mais amplo. Voltados ao Ensino Fundamental II, os 
Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) de Ciências, datados de 1998, já 
apontavam a necessidade de tratar a temática de maneira transversal, 
considerando que a sexualidade tem um significado muito mais amplo e variado 
do que simplesmente a reprodução. Entre as demais temáticas propostas pelo 
documento estão: levar em consideração o que os estudantes já sabem sobre 
sistemas reprodutores humanos masculino e feminino e os aspectos 
psicológicos envolvidos; abordar as emoções envolvidas na sexualidade, como 
os sentimentos de amor, amizade, confiança, autoestima, desejo e prazer sem 
julgamentos morais. 
 
Os PCNs são sugestões para as escolas, mas não explicitam objetivos de 
aprendizagem, tarefa da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Apesar da 
Base Nacional para o Ensino Fundamental apontar temas relacionados à 
Educação sexual, conceitos de gênero e orientação sexual foram suprimidos do 
documento, deixando de evidenciar uma dimensão importante do assunto. Entre 
https://www.nexojornal.com.br/expresso/2018/03/02/Quanto-a-pr%C3%A1tica-de-%E2%80%98sexting%E2%80%99-cresce-entre-jovens-segundo-este-estudo
SEXOLOGIA 
 
 
 
53 
 
as habilidades a serem desenvolvidas pelos adolescentes previstas pelo texto 
estão analisar as transformações da puberdade, discutir a eficácia dos métodos 
contraceptivos e a responsabilidade frente à gravidez precoce e as DSTs. O 
documento também propõe debater as evidências das “mú ltiplas dimensões da 
sexualidade humana (biológica, sociocultural, afetiva e ética)”. Já na BNCC 
referente ao Ensino Médio, ainda em discussão, a temática não aparece de 
maneira explícita, sendo que apenas a palavra “reprodução” aparece entre os 
assuntos importantes do eixo Vida, Terra e Cosmos. Termos como sexo, 
sexualidade, gênero, entre outros, não estão presentes no texto. 
 
Por fim, vale ressaltar que, apesar de o assunto ainda deixar a desejar em 
termos de legislação específica, uma Educação sexual ampla que abrace os 
aspectos biológicos, mas também sociais e políticos da afetividade e 
sexualidade humana, é essencial para colocar em prática as competências 
transversais da BNCC, que prevê a formação dos estudantes para agir com 
responsabilidade, tomar decisões com base em princípios éticos, cuidar 
emocionalmente de si e dos outros e acolher a diversidade sem preconceitos. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
http://porvir.org/entenda-10-competencias-gerais-orientam-base-nacional-comum-curricular/
http://porvir.org/entenda-10-competencias-gerais-orientam-base-nacional-comum-curricular/
SEXOLOGIA 
 
 
 
54 
 
REFERÊNCIAS 
https://www.vittude.com/blog/sexologia-o-que-e/>acesso em 24/04/2020 
https://www.todamateria.com.br/o-que-e-sexualidade/>acesso em 24/04/2020 
https://amenteemaravilhosa.com.br/voce-sabe-sexualidade/>acesso em 24/04/2020 
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https://www.todamateria.com.br/o-que-e-anatomia-humana/>acesso em 24/04/2020 
https://www.todamateria.com.br/fisiologia/>acesso em 24/04/2020 
http://miguelvaledealmeida.net/wp-content/uploads/2008/06/antropologia-e-
sexualidade.pdf>acesso em 24/04/2020 
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-
73312009000300004>acesso em 24/04/2020 
http://www.portalmedico.org.br/biblioteca_virtual/des_etic/17.htm>acesso em 
24/04/2020 
https://www.todospelaeducacao.org.br/conteudo/para-que-serve-a-educacao-sexual-
na-escola/>acesso em 24/04/2020 
https://www.vittude.com/blog/sexologia-o-que-e/%3eacesso
https://www.todamateria.com.br/o-que-e-sexualidade/%3eacesso
https://amenteemaravilhosa.com.br/voce-sabe-sexualidade/%3eacesso
https://www.todamateria.com.br/o-que-e-embriologia/%3eacesso
https://www.todamateria.com.br/o-que-e-anatomia-humana/%3eacesso
https://www.todamateria.com.br/fisiologia/%3eacesso
http://miguelvaledealmeida.net/wp-content/uploads/2008/06/antropologia-e-sexualidade.pdf%3eacesso
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http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312009000300004%3eacesso
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312009000300004%3eacesso
http://www.portalmedico.org.br/biblioteca_virtual/des_etic/17.htm%3eacesso
https://www.todospelaeducacao.org.br/conteudo/para-que-serve-a-educacao-sexual-na-escola/%3eacesso
https://www.todospelaeducacao.org.br/conteudo/para-que-serve-a-educacao-sexual-na-escola/%3eacessonesse sentido tem muito a dizer. Através do conhecimento, ela 
abre o processo de conscientização para que cada indivíduo possa ser livre para 
decidir e escolher um modo de viver e desfrutar da sua própria sexualidade. 
A sexualidade a partir do psicológico 
Do envolvimento e da integração do esquema corporal, da experiência do corpo 
(biológica), e da socialização, ou seja; de como devemos agir; nasce a dimensão 
psicológica. O fator psicológico envolvido na sexualidade é caracterizado por 
pensamentos, fantasias, atitudes e tendências. 
O aspecto psicológico está envolvido dentro da sexualidade, em relação a como nos 
sentimos com nós mesmos e com os outros. Ele leva em conta também as 
emoções, os sentimentos, o prazer, as crenças, o resultado das experiências e a 
aquisição de conhecimentos. 
No desenvolvimento da nossa personalidade, desde que nascemos, adquirimos uma 
visão única de como experimentar e viver a sexualidade. Este significado para nós 
está sempre variando, sendo diferente a cada fase de nossas vidas. Por isso 
especificávamos anteriormente o conceito de sexualidades. 
Nós sentimos de forma diferente uns dos outros, e as emoções despertadas em nós 
são diferentes, embora a situação seja a mesma. Por esta razão, cada pessoa tem 
uma maneira diferente de sentir prazer, já que o que faz com que algumas pessoas 
tenham prazer pode causar descontentamento para outras. 
Perceber este aspecto implica em um conhecimento sobre o que se sente e o que 
se quer; em assumir a responsabilidade por ele para poder compartilhá-lo, ou não, 
nas relações com outras pessoas. 
Com a análise dos três aspectos que estão envolvidos no conceito de sexualidade, 
pode-se concluir que: 
https://amenteemaravilhosa.com.br/pequenos-prazeres-grandes-momentos/
SEXOLOGIA 
 
 
 
8 
 
– A sexualidade está presente em todas as fases de nossas vidas, já que somos 
seres sexuais desde que nascemos até morrermos. Ela não é algo estático, mas 
bastante dinâmico, que está mudando tanto quanto nós mudamos. 
– A informação e o conhecimento que adquirimos, de fora para dentro da esfera 
sexual, influenciam o nosso próprio conhecimento sobre nós mesmos e também a 
interação que temos com os outros. 
– Há uma sexualidade exclusiva para todas as pessoas que determina como elas 
vivem o prazer, mas existem tantas sexualidades quanto existem indivíduos, cada 
um com suas peculiaridades, que são determinadas pela personalidade, pelo 
conhecimento e pela experiência individual. Entendendo isso, podemos nos livrar do 
considerado como “normal” e, assim, levar a sexualidade à nossa própria maneira, 
sem medo e sem culpa, explorando e desfrutando de nossa sexualidade. 
“Sexualidade não é o que acreditamos, não é o que nos disseram. Não há uma, 
mas muitas sexualidades” 
– Albert Rams – 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
https://amenteemaravilhosa.com.br/eliminar-a-culpa-e-preocupacao/
SEXOLOGIA 
 
 
 
9 
 
2- EMBRIOLOGIA, ANATOMIA E FISIOLOGIA 
 
O que é Embriologia? 
A embriologia é uma área da biologia que estuda o desenvolvimento embrionário 
dos organismos vivos, ou seja, o processo de formação do embrião a partir de uma 
única célula, o zigoto, que originará um novo ser vivo. 
O que a Embriologia Estuda? 
A Embriologia estuda todas as fases do desenvolvimento embrionário desde a 
fecundação, formação do zigoto até que todos os órgãos do novo ser estejam 
completamente formados. Também são consideradas as etapas anteriores à 
gestação do embrião, uma vez que influenciam no processo. 
Atualmente a embriologia é uma parte da Biologia do Desenvolvimento, e está 
relacionada com diversas áreas de conhecimento como a citologia, a histologia, a 
genética, a zoologia, entre outras. Algumas das especialidades da Embriologia são: 
 Embriologia Humana: área que se dedica ao conhecimento sobre o 
desenvolvimento de embriões humanos, estudando as malformações e doenças 
congênitas. A embriologia clínica ou médica aos estudos sobre embriões em 
processos de reprodução assistida; 
 Embriologia Comparada: é a área que se dedica a estudar o desenvolvimento 
embrionário de diversas espécies animais, comparativamente. É importante para os 
estudos evolutivos; 
 Embriologia Vegetal: estuda os estágios de formação e desenvolvimento das 
plantas. 
Embriologia Humana 
Tomando como exemplo o desenvolvimento embrionário humano, as fases do 
desenvolvimento do novo indivíduo são: 
Gametogênese 
Na gametogênese são formados os gametas a partir de células especializadas 
chamadas células germinativas, que passam por várias mitoses e se multiplicam. 
https://www.todamateria.com.br/gametas-e-gametogenese/
SEXOLOGIA 
 
 
 
10 
 
Depois elas crescem e passam pela primeira divisão meiótica, formando células-
filhas com a metade dos cromossomos da célula-mãe. 
Nos gametas femininos a meiose é interrompida antes de se completar, originando 
um ovócito secundário e um corpo polar primário bem menor. 
 
Fecundação 
Após o ato sexual os espermatozoides lançados dentro do corpo feminino têm de 
alcançar o ovócito. Quando um espermatozoide consegue penetrar no ovócito 
secundário é completada a divisão meiótica e o óvulo recém-formado pode ser 
fertilizado. Na fecundação ocorre a cariogamia, ou seja, a fusão dos núcleos dos 
gametas e formação do zigoto. 
Desenvolvimento Embrionário Humano 
Basicamente em todos os animais o desenvolvimento do embrião abrange três fases 
principais: segmentação, gastrulação e organogênese. 
https://www.todamateria.com.br/como-ocorre-a-fecundacao-humana/
https://www.todamateria.com.br/espermatozoide/
https://www.todamateria.com.br/desenvolvimento-embrionario-humano/
SEXOLOGIA 
 
 
 
11 
 
Segmentação 
Logo após a formação do zigoto iniciam as clivagens, fazendo aumentar o número 
de células. As divisões são rápidas e em cerca de uma semana, no estágio de 
blastocisto, se fixará na parede uterina para dar continuidade ao processo. 
Gastrulação 
Nessa fase aumenta não só o número de células, como o volume total do embrião. 
São formados os três folhetos germinativos ou folhetos embrionários (ectoderma, 
mesoderma e endoderma), iniciando a diferenciação celular que originará os tecidos 
do corpo. 
Organogênese 
 
Na organogênese começam a ser formados os órgãos. Os primeiros são os órgãos 
do sistema nervoso originados do ectoderma, a camada mais externa. Isso ocorre 
por volta da terceira semana de gestação. 
Anatomia 
A Anatomia Humana é a ciência que estuda as estruturas corporais, como elas 
se formam e como funcionam em conjunto no corpo (sistemas). 
O que a Anatomia Estuda? 
https://www.todamateria.com.br/folhetos-embrionarios/
SEXOLOGIA 
 
 
 
12 
 
A anatomia analisa como as estruturas do corpo podem ser afetadas pela genética 
(alterações cromossômicas que passam aos descendentes), pelo ambiente 
(doenças) e pelo tempo (modificações da infância à velhice). 
Além disso investiga os mecanismos evolutivos que provocam modificações e 
alteram suas funções. Está relacionada com a Biologia, a Medicina, a Fisioterapia, a 
Enfermagem e outras áreas biomédicas. 
Termos Técnicos de Anatomia 
Na anatomia há muitos nomes que podem assustar qualquer iniciante, mas são 
fundamentais para a melhor compreensão do assunto. Além dos nomes dos órgãos 
e estruturas, há termos e convenções que são essenciais, são eles: divisão do corpo 
e posição anatômica, planos, eixos e movimentos anatômicos. 
Divisão do Corpo 
Como em outras áreas biológicas, na anatomia o estudo é feito por partes, que 
pode ser ao nível macroscópico ou microscópico. Há especialistas para cada 
área, por exemplo: miologista (músculos), osteologista (ossos), entre outros. 
Por isso que os médicos se tornam especialistas em uma área do corpo que ele 
estudou melhor, como o pneumologista, que trata dos pulmões. 
O corpo humano é dividido em grandes grupos: cabeça, pescoço, tronco e 
membros. Cada um desses é subdividido em partes específicas.Por exemplo, na cabeça estão o crânio (onde se localiza o encéfalo e medula) e a 
face (olhos, nariz, boca, orelhas). 
 
Fisiologia 
A fisiologia é o ramo da Biologia que estuda o funcionamento dos organismos vivos. 
A palavra fisiologia é de origem grega e deriva de physis “natureza” e logos “estudo, 
conhecimento”. 
SEXOLOGIA 
 
 
 
13 
 
A fisiologia envolve a compreensão das funções de células, tecidos, órgãos e 
sistemas de organismo, bem como a interação entre eles e a importância para a 
sobrevivência. 
Para isso, a fisiologia trata do estudo das múltiplas funções químicas, físicas e 
biológicas que garantem o adequado funcionamento dos organismos. 
A compreensão do funcionamento dos organismos vivos sempre despertou a 
curiosidade e interesse dos cientistas. Os primeiros estudos sobre fisiologia foram 
desenvolvidos na Grécia, há 2.500 anos atrás. 
A fisiologia pode ser classificada conforme o seu objeto de estudo. A Fisiologia 
Animal estuda o funcionamento dos organismos animais. Nessa área encontra-se a 
Fisiologia Humana, voltada aos seres humanos. 
Enquanto isso, a Fisiologia Vegetal se concentra nos vegetais. Assim, é considerada 
como um ramo da botânica que estuda os processos que ocorrem em plantas e de 
suas respostas às variações do meio ambiente. 
Fisiologia Humana 
O organismo humano é constituído de diversas partes, que em conjunto garantem o 
seu funcionamento adequado. 
O nível de organização do organismo humano é o seguinte: moléculas - células - 
tecidos - órgãos - sistemas - organismo. Todos os níveis trabalham de modo 
integrado, através de variadas e numerosas reações químicas. 
No estudo da fisiologia humana, deve-se reconhecer o nível de organização do 
organismo: 
 As moléculas são fundamentais para que ocorram as reações químicas e atuam em 
nível celular; 
 A célula é a menor unidade estrutural e funcional; 
 Os tecidos são grupos de células semelhantes que realizam uma função particular; 
 Quando diferentes tipos de tecidos estão unidos, formam os órgãos com funções 
específicas e, geralmente com uma forma reconhecível; 
https://www.todamateria.com.br/botanica-o-estudo-das-plantas/
SEXOLOGIA 
 
 
 
14 
 
 Um sistema consiste de órgãos relacionados que desempenham uma função 
comum; 
 Todos os sistemas funcionando de modo integrado compõem o organismo, um 
indivíduo. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
SEXOLOGIA 
 
 
 
15 
 
3- ASPECTOS SOCIAIS E ANTROPOLÓGICOS 
 
A maior parte dos antropólogos sociais e culturais concordarão com a dúvida de que 
a sexualidade possa, em si mesma, constituir um objeto de estudo . “Em si mesma” 
significa isolada de instituições e práticas sobre as quais a sexualidade “fala” e que 
são “faladas” através do idioma da sexualidade. Assim, e para lá do postulado 
central da antropologia que leva à abordagem dos discursos e práticas humanas em 
sociedade como formas de significação cultural – donde, variável e relativa 
consoante as formações sociais – a disciplina tem abordado o que se pode 
denominar como “sexualidade” no decurso de investigações sobre instituições e 
práticas outras, a saber, o parentesco, a família e, mais tarde, o género. Mais 
recentemente, a sexualidade conquistou alguma autonomia como campo de 
inquérito devido à definição do sexual como facto social atravessado por tensões e 
conflitos identitários, sobretudo nas sociedades chamadas modernas e ocidentais 
(ainda que a globalização permita o atenuar dessas supostas fronteiras tipológicas). 
Quer as identidades de género, quer as identidades com base na orientação sexual 
têm vindo a ser abordadas pela antropologia contemporânea como arenas de 
identidade e de poder, correlacionadas e correlacionáveis com outros níveis de 
identificação, diferenciação e desigualdade, como a “raça”/etnicidade, a classe 
social, a idade ou o estatuto. 
Esta tendência vai no sentido de realçar a permeabilidade destes campos uns pelos 
outros. Assim, é comum fazer análises das metáforas e analogias sexuais nos 
discursos do nacionalismo ou do colonialismo, por exemplo. Seja como for, as 
abordagens contemporâneas da sexualidade em antropologia mantêm os 
pressupostos da disciplina relativos à análise sistémica dos símbolos culturais duma 
sociedade ou grupo social, do relativismo cultural (a não confundir, todavia, com 
relativismo moral) e da comparação inter-cultural. Por fim, se o campo da 
sexualidade tem vindo a autonomizar-se na nossa sociedade – e, por isso, nas 
ciências sociais – a sua abordagem em antropologia é necessariamente também um 
esforço de leitura, desconstrução e crítica das abordagens passadas do tema na 
disciplina. Assim, este texto começa com uma abordagem das perspectivas 
SEXOLOGIA 
 
 
 
16 
 
evolucionistas (curiosa e preocupantemente sobreviventes no senso comum de hoje, 
sobretudo por via de vários avatares do darwinismo social); segue-se uma 
abordagem da viragem culturalista (também ela presente no senso comum de hoje, 
desta feita o de cariz “liberal”). O construcionismo social decorrente da influência do 
pensamento feminista na antropologia – e os campos correlatos de women‟s studies 
e gender studies - constituirá a parte seguinte; segue-se-lhe uma aproximação às 
influências pósestruturalistas, através do exemplo da teoria Queer, que reforça a 
necessidade de os estudos antropológicos abordarem simultaneamente as 
dimensões das identidades, das comunidades e da política. 
1.Primitivos Sexuais. 
Esta viagem começa com o evolucionismo nos países centrais industrializados e 
colonizadores da Europa. É uma história protagonizada por aquilo que hoje se 
designa – jocosa mas quiçá acertadamente - por homens brancos, burgueses e 
heterossexuais, fascinados com os Outros subalternos em casa e no ultramar, 
crentes na possibilidade de evolução do “infantil”, do “primitivo”, do “feminino”, e 
preocupados com os perigos do “instinto” (essa “natureza” contra a qual a sociedade 
se edifica) e da “perversão” (esse desvio à norma cultural dominante). São homens 
preocupados com as raças e a miscigenação, o sexo e a sexualidade, a higiene e o 
controlo das estruturas sociais no processo de revolução industrial e urbanização e 
de construção de estados-nação e de impérios coloniais. 
É também a época do apogeu da crença na Ciência, da divisão clara entre o natural 
e o social, bem como dos choques provocados pela teoria da evolução. É uma 
época de um certo arranjo da “coisa familiar” – através da promoção da família 
nuclear burguesa - e não de outros. É uma época de atenção à “caixa negra” da 
sexualidade, que o primitivo e o perverso poderiam – assim se julgava - elucidar. É 
aqui que nasce também a divisão entre sociologia e antropologia - a primeira 
vocacionada para o estudo dos distúrbios causados nas sociedades industriais pelo 
desenvolvimento capitalista acelerado, a segunda vocacionada para o estudo dos 
distúrbios causados pela descoberta dos Outros e pela colonização. Começa a 
aventura antropológica propriamente dita, isto é, moderna. Tomemos como exemplo 
a mulher da época vitoriana. Ela é ao mesmo tempo posta num pedestal e mais 
SEXOLOGIA 
 
 
 
17 
 
reprimida que no século XVIII, devido ao afastamento da economia para fora do lar. 
A casa passa a ser vista como refúgio do mundo da competição masculina. Numa 
ambivalência cultural entre a imagem de “anjo” e de “prostituta”, a liberdade pessoal 
e sexual das mulheres das classes média e alta estava sujeita a um forte controlo 
social. Mas com o aumento do nível de vida e da idade do casamento, aumenta o 
número de mulheres solteiras e as dúvidas em relação à procriação. Os anos da 
década de 1850 viram aparecer os movimentos pelos direitos das mulheres e a lei 
do divórcio em vários países. Ao mesmo tempo dá-se o debate sobre o casamento 
“matriarcal” nos incipientes meios antropológicos. O modelo ideal de casamento 
seria o vitoriano,caracterizado por McLennan em Primitive Marriage (1865) como 
apropriação das mulheres por homens específicos e pelo conceito de fidelidade 
conjugal. 
O casamento poliândrico primitivo surgia assim como metáfora da prostituição do 
século XIX e da depravação moral das mulheres. A evolução da promiscuidade e da 
poliandria era vista como sendo a evolução das “ideias” de parentesco, esposa e 
propriedade. Autores como McLennan, Lubbock, Tylor e Spencer não concordaram 
entre si nos pormenores das suas ideias sobre “a posição das mulheres”, mas todos 
eles demonstravam uma tendência para ver o casamento em termos de controlo da 
sexualidade humana, tomando por adquirida uma qualquer condição primeva de 
promiscuidade, seguida de formas matrilineares e, por fim, desembocando na 
monogamia vitoriana Não se tratava de um campo de consensos absolutos. 
Muito do que estes autores diziam podia ser interpretado como contrário ao status 
quo, como a ideia de “from status to contract” de Maine podia ser vista com anti-
patriarcal. A prova está no facto de muitas (proto)feministas terem usado as obras 
dos evolucionistas para defenderem as suas ideias. Mas a perspectiva essencialista 
era comum a ambos: posto de lado o patriarcado divinamente instituído, a civilização 
só se atingia com o controlo dos instintos. E o instinto rei era o sexo. Os instintos 
que teriam no passado sido necessários para a conservação da raça, dariam lugar a 
hábitos e a instituições, resultando na sanção social contra o homem que 
abandonasse a mulher e os filhos. O matrimónio acabaria, assim, por surgir 
fundamentado na família e não o contrário. A narrativa do evolucionismo não é linear 
ou única. Se já o iluminismo dera conta da tensa ambiguidade entre Bom e Mau 
SEXOLOGIA 
 
 
 
18 
 
selvagem, o período do evolucionismo dá conta da ambiguidade entre legitimação 
extra-social da ordem estabelecida e contestação da mesma, quer no campo do 
género e da sexualidade, quer no campo das relações de classe. O que une 
argumentos e posturas ideológicas e apropriações diversas é, no fundo, a crença na 
racionalidade científica e na capacidade de explicar origens e mecânicas de 
instituições e corpos. É o que acontece com a biologia, com a sexologia, mas 
também com novos determinismos históricos. 
O século XIX teve dois momentos fulcrais para o surgimento de um pensamento do 
e sobre o sexual. O primeiro foi o impacte do Darwinismo, com a ideia de que a 
selecção sexual (a luta pelos parceiros) agia independentemente da selecção 
natural (a luta pela existência), de modo que a sobrevivência dependeria da 
selecção sexual. Assim se instituiu a biologia como o caminho privilegiado para 
desvendar os mistérios da natureza. O segundo momento foi a publicação de 
Psychopathia Sexualis de Krafft-Ebing, onde surgia o discurso do pervertido. Um dos 
principais papéis da sexologia primeva terá sido, segundo Weeks (1987)2 traduzir 
em termos teóricos aquilo que se entendia como problemas sociais emergentes e 
concretos: como definir a infância? Como definir a sexualidade feminina? Como lidar 
com as mudanças nas relações entre os géneros? Como perseguir legalmente a 
“anormalidade”? Biologia e medicina são chamadas para a exploração meticulosa 
dos corpos e da espécie, passando rapidamente da descrição para a prescrição. 
Na antropologia, a atenção vira-se para as origens das instituições. Em 1870 
Morgan publicava Systems of Consanguinity... e, sete anos depois, Ancient Society; 
visita Darwin em 1871 e corresponde-se com Spencer, Bachofen e Maine. Para ele 
o desenvolvimento do conceito de propriedade na mente humana estaria ligado à 
implantação da família monogâmica. Uma cópia da obra chegou às mãos de Marx 
que, antes de morrer, encarregou Engels de terminar o manuscrito que iniciara com 
base em notas de Ancient Society. Ao fazer notar que quando se deu a suposta 
mudança da linha feminina para a masculina, tal teria sido prejudicial para a posição 
social da mulher, Morgan oferecia a Engels argumentos para explicar como o 
desmoronamento do direito materno constituíra a grande derrota histórica do sexo 
feminino: «A família moderna contém, em germe, não apenas a escravidão como 
também a servidão, pois, desde o começo, está relacionada com os serviços na 
SEXOLOGIA 
 
 
 
19 
 
agricultura. Encerra em miniatura todos os antagonismos que se desenvolvem, mais 
adiante, na sociedade e no seu Estado» (1976 (1884):77)3 . Para Engels, o triunfo 
definitivo da família monogâmica baseava-se no predomínio do homem e tinha como 
finalidade expressa procriar filhos de indiscutível paternidade, permitindo a 
regulação dos processos de herança de bens do pai. A monogamia não significaria, 
pois, a reconciliação entre homem e mulher, argumento que reforça com um 
eloquente trecho de A Ideologia Alemã (1845) em que Marx diz que «a primeira 
divisão do trabalho é a que se faz entre o homem e a mulher para a procriação dos 
filhos». 
Para Engels e Marx, o primeiro antagonismo de classes coincidiria com o 
antagonismo homem-mulher e a opressão do sexo feminino teria sido a primeira 
forma de opressão de classe. Marx avança, no primeiro volume de O Capital, com a 
ideia de que a soma dos meios de subsistência necessários para a produção da 
força de trabalho tem de incluir os meios necessários para a substituição dos 
trabalhadores, isto é, as crianças (1979 (1867):340)4 . A divisão do trabalho teria 
surgido, primeiramente, como natural, baseada no fundamento fisiológico. Mas na 
medida em que a maquinaria vai dispensando o poder muscular, o trabalho das 
mulheres e das crianças é o primeiro a ser procurado pelos capitalistas; e o valor da 
força de trabalho era determinado não só pelo tempo de trabalho necessário para 
manter o trabalhador adulto, mas também pelo tempo de trabalho necessário para 
manter a família; a população excedentária torna-se numa condição de existência do 
modo de produção capitalista, criando-se assim o célebre “exército de reserva 
industrial”. Este exército, durante os períodos de estagnação aligeira o peso do 
exército de trabalho activo e durante os períodos de sobreprodução controla as suas 
pretensões. 
Se, após a revolução darwiniana, é na economia política de Marx que vamos 
encontrar a primeira crítica à natureza construída e mutável das instituições 
familiares, é com Freud que se vai dar o primeiro grande choque sobre a 
concretização nos indivíduos dos efeitos da estrutura social. A importância da 
psicanálise reside no facto de desafiar directamente os conceitos convencionais de 
sexualidade e género, questionando a centralidade da reprodução sexual e a rígida 
distinção entre homens e mulheres. Com a psicanálise pode ver-se a sexualidade 
SEXOLOGIA 
 
 
 
20 
 
como algo mais do que instintos que agitam o corpo; é uma força construída no 
processo de entrada no domínio da cultura, da linguagem, do significado. Freud 
resumia assim os elementos chave do seu conceito de sexualidade: «a) A vida 
sexual não começa só na puberdade, mas sim com manifestações logo a seguir ao 
nascimento; b) é necessário distinguir entre os conceitos de “sexual” e “genital” (...); 
c) A vida sexual inclui a função de obtenção de prazer a partir de zonas do corpo – 
uma função que subsequentemente é posta ao serviço da reprodução. É frequente 
as duas funções não coincidirem completamente» (An Outline of Psychoanalysis, S. 
E. (1940) (16): 152, tradução livre). Período de conturbados debates disciplinares e 
políticos, o século XIX e os inícios do século XX podem ser resumidamente descritos 
como períodos de espanto por parte dos observadores autorizados (cientistas, 
homens, ocidentais) face a uma mescla de subalternidades políticas e “bizarrias” 
biomédicas: crianças, mulheres, homossexuais, perversos, primitivos. Este afã 
classificatório permitia, simultânea e ambiguamente, a prescrição da normalidade e 
a crítica danormalidade, como fica patente na comparação entre evolucionistas, 
marxistas e psicanalistas. Uma ambiguidade da qual ainda não nos libertámos 
completamente. Os primórdios da antropologia marcariam debates duradouros: a 
oposição natureza / cultura e entre explicações biológicas e explicações sociais; a 
forma como processos culturais e individuais se determinam ou ligam; e a questão 
do género e da sexualidade como, simultaneamente, “totem” e “tabu”: a origem por 
excelência da humanidade e das suas instituições, mas também a área da mais 
extrema regulação. 
2.Alteridades Sexuais. 
B. Malinowski – o “pai fundador” da moderna antropologia social britânica - viria a 
reconhecer Totem e Tabu de Freud como demonstrativo da importância do sexo na 
sociedade. Embora nunca tivesse abandonado por completo a perspectiva evolutiva, 
ele viria a ser o principal proponente da ideia de que as culturas “primitivas” e a 
diferença cultural provam não o comportamento dos nossos antepassados mas sim 
a variedade de desenvolvimentos sociais: o relativismo surge a par do privilegiar do 
cultural sobre o natural. 
SEXOLOGIA 
 
 
 
21 
 
A cultura torna-se assim numa série de diferenças incomensuráveis e cada 
sociedade impõe-se aos seus membros de modo total (na esteira da teoria 
sociológica de Durkheim). 
 Mas com o relativismo de Malinowski co-existe um modelo das necessidades 
biofisiológicas humanas, cuja solução estaria visível nas instituições familiares. 
Malinowski tenta resolver a tensão epistemológica entre o sociologismo de Durkheim 
e a psicanálise Freudiana, mas viria a afstar-se da última sobretudo pelo carácter 
transcultural da teoria do complexo de Édipo. Malinowski procurava características 
gerais da natureza humana que pudessem assumir diferentes formas culturais. Em 
Sex and Reppression, o antropólogo explica como o complexo de Édipo foi 
descoberto numa sociedade de filiação patrilinear e no seio de uma só classe. 
Ora, em Trobriand, local do seu profuso trabalho de campo, a filiação é matrilinear, a 
estratificação social diferente da divisão de classes. Ao tipo europeu de família 
opunha-se uma família em que o homem não é considerado como progenitor dos 
filhos da esposa, dada a ignorância dos indígenas em matéria de fisiologia da 
concepção, sendo o irmão da mãe o homem a quem se respeita em termos de 
autoridade. 
Assim, a ambivalência de sentimentos do filho para com o pai só teria uma 
importância mínima, dando-se antes uma repartição desse sentimento por dois 
homens que cumprem funções inversas e complementares. Malinowski conclui que 
o complexo de Édipo não é um fenómeno universal. Mas o modelo Trobriand é uma 
transformação lógica do freudiano: o desejo reprimido de matar o pai e de casar com 
a mãe passa a ser a tentação de casar com a irmã e matar o tio materno (The Father 
in Primitive Psychology, 1927:80-1 in Pannoff 1974:586 ). 
Se o método comparativo leva Malinowski a pôr em causa universais de base 
biofisológica e psíquica, Margaret Mead procurá na comparação a fonte para a 
transformação e pedagogia sociais no Ocidente - tornar o exótico familiar e o familiar 
exótico, como sói dizer-se. A antropologia culturalista americana teve origem numa 
rejeição explícita da teoria dos instintos e de explicações biológicas para fenómenos 
sociais, como reacção à eugenia racial e racista. Em Coming of Age in Samoa7 , 
Margaret Mead procura a negative instance sobre as teorias da adolescência 
SEXOLOGIA 
 
 
 
22 
 
americana da sua época e, assim, procura também definir o “sexual” (incluindo o 
que hoje entendemos por género) como social. A conclusão a que pretende chegar 
é a de que onde, por razões culturais, não haja noção de pecado e culpa, e onde os 
conflitos edipianos estejam minimizados, bem como se verifique um 
desenvolvimento da arte do sexo, os traumas da transição adolescente não se 
fazem sentir. 
Assim, a plasticidade humana permitiria que, através da mudança na educação, 
aquilo que foi socialmente formado possa ser socialmente modificado. Talvez o lado 
mais positivo da pesquisa de Mead tenha sido mostrar que o género no Ocidente 
não é nem natural nem o resultado cumulativo de uma evolução humana geral. 
Mead, aliás, partiu para o terreno com uma pergunta explícita: «A questão que eu 
me colocava ao partir para Samoa era: os problemas que sofre a nossa 
adolescência são intrínsecos à natureza da adolescência ou à nossa civilização? A 
adolescência em condições totalmente diferentes apresenta-se de modo igualmente 
diferente?» (Mead 1963 (1928):373). 
As variáveis que ela enumera definem um campo do comportamento sexual 
comparativo: educação sexual precoce ou tardia, experiência sexual igualmente 
precoce ou tardia, precocidade encorajada ou não, segregação dos sexos ou 
educação mista, divisão do trabalho entre os sexos ou actividades comuns. Em Sex 
and Temperament… (1935) a antropóloga liga a questão da personalidade-base e 
do temperamento à atribuição sexuada das emoções. Entre os Arapesh nota que 
tanto homens como mulheres apresentam personalidades que ela chama maternais 
nos seus aspectos parentais e femininas nos seus aspectos sexuais. 
Diz não ter encontrado a ideia de que o sexo seja uma força impulsionadora forte, 
quer para os homens quer para as mulheres. Pelo contrário, entre os Mundugumor 
verificou que tanto homens como mulheres se desenvolviam como indivíduos duros, 
agressivos e “positivamente sexuados”, com um mínimo de aspectos maternais da 
personalidade. Entre os Tchambuli julgou encontrar uma inversão das atitudes 
sexuais da nossa cultura, com as mulheres dominando, “impessoais”, “gestoras”, e 
os homens como menos responsáveis e mais dependentes emocionalmente (1935). 
Todavia, para Mead o limite da diversidade é a fronteira anatómica entre os sexos, o 
SEXOLOGIA 
 
 
 
23 
 
que já se notava em Malinowski. Isto porque nenhum dos dois consegue sair das 
fronteiras da família biológica como unidade básica natural e social, na qual uma 
divisão do trabalho entre homens e mulheres é necessária e inevitável (Weeks 1985: 
107)8 . Isto não retira valor à principal conquista de Mead: para comprovar a 
plasticidade humana, ela demonstra que as emoções sexuadas são construções 
sociais. 
Fê-lo perante uma conjuntura, no Ocidente, de surgimento da adolescência e da 
absorção das mulheres no mercado de trabalho no período da segunda grande 
guerra. A distinção entre sexo e género era, a partir daqui, possível: «É-nos 
permitido, a partir de agora, afirmar que os traços de carácter que qualificamos como 
masculinos ou femininos são (...) determinados pelo sexo de forma tão superficial 
como a roupa (...) resultado de um condicionamento social (...) Admitida a 
plasticidade da natureza humana, de onde provêm as diferenças que constatamos 
entre os tipos de temperamentos consignados pelas diversas sociedades, seja a 
todos os seus membros, seja respectivamente a cada sexo? (...) esta diversidade 
assenta sobre o quê? Já não e possível, à luz dos factos, considerar que traços 
como a passividade ou a agressividade sejam determinados pelo sexo do indivíduo 
(...) A nossa hipótese não é mais do que um prolongamento da que avança Ruth 
Benedict em Patterns of Culture (...) O mesmo se passa com os temperamentos 
“masculino” e “feminino” no plano social. Certos traços comuns aos homens e às 
mulheres são consignados a um sexo e recusados a outro» (s.d. (1949): 312-317)9 . 
A partir de Mead a antropologia estava pronta para o salto qualitativo do feminismo e 
do construcionismo social. 
3.Construções Sexuais. 
Segundo Carole Vance (1991)10 a teoria do construcionismo social desafiou os 
modelos antropológicos tradicionais, tendo dado origem a uma explosão de 
pesquisas sobre a sexualidade a partir de meados dos anos setenta. A distinção 
entre sexo e género é o ponto de partida fundamental. Baseada na distinção que a 
antropologiapromoveu entre biologia e cultura, e elaborada a partir dos anos 
sessenta pela teoria crítica feminista, a separação conceptual entre sexo e género 
dá a entender que o segundo é a elaboração cultural do primeiro. A variação cultural 
SEXOLOGIA 
 
 
 
24 
 
(e histórica) dos papéis femininos e masculinos, bem como dos traços de 
personalidade-tipo tidos como normais para cada sexo em cada cultura trazia o 
determinismo cultural para o campo da sexualidade. 
Em 1981, já amadurecido o movimento feminista em antropologia e genericamente 
aceite o campo de estudos sobre género, Ortner e Whitehead, abrem Sexual 
Meanings11 dizendo que: «...os traços naturais do género, bem como os processos 
naturais do sexo e da reprodução, são apenas um pano de fundo sugestivo e 
ambíguo para a organização cultural do género e da sexualidade. O que o género é, 
o que os homens e mulheres são, e o tipo de relações que acontecem entre eles – 
todas estas noções não são simples reflexos ou elaborações de “dados” biológicos, 
mas sim (em grande medida) produtos de processos culturais e sociais» (1981:1, 
tradução livre). 
O género tem que ser visto no cruzamento de várias instituições e relações sociais 
permeadas por esquemas de identidade e diferença, sendo a diferenciação um 
processo intimamente ligado ao poder. Marilyn Strathern12, por exemplo, entende 
«...por género as categorizações de pessoas, artefactos, eventos, sequências etc., 
que se baseiam numa imagética sexual, nos modos como o carácter distintivo das 
características macho e fêmea concretizam as ideias das pessoas acerca da 
natureza das relações sociais» (1988:ix, tradução livre). 
O androcentrismo de que antropologia foi acusada pelas mulheres antropólogas e 
pelas e pelos feministas impediu que se ouvisse a voz das mulheres nas etnografias, 
e impediu também a diversidade de vozes masculinas ou qualquer visão dissidente 
da homologia masculino / público / político – em suma, da masculinidade 
hegemónica como modelo central excludente de mulheres, homossexuais e de 
homens heterossexuais com traços de identidade não centrais (negros, pobres, 
etc.). O género (e a sexualidade) é uma área de estudos e do real que introduz 
significativa novidade epistemológica. 
Ao contrário da classe ou das instituições sociais como a família, o género cruza-as, 
por assim dizer, transversalmente. Não só é um corte nas metáforas verticais de 
estrutura, hierarquia ou níveis, como constitui também um tema de recente e difícil 
introdução nas ciências sociais, porque de difícil introdução na própria vida social. 
SEXOLOGIA 
 
 
 
25 
 
Isto torna-se evidente quando se pensa que em relação à “raça” quase ninguém 
pensa hoje que é na cor da pele (mas sim no racismo) que reside em última 
instância a causalidade das desigualdades nas relações “raciais”; mas no 
respeitante ao género, é culturalmente difícil não cair na tentação de ver no sexo e 
no corpo a raiz do género. 
Por isso o género é uma das últimas fronteiras da reflexividade crítica das ciências 
sociais. Constituinte de identidades sociais e pessoais, o género não cria, porém, 
grupos sociais, mas sim categorias. O livro colectivo editado por Rayna Reiter em 
197513 foi de certo modo a obra fundadora do feminismo enquanto teoria crítica na 
antropologia. O artigo da colectânea que maior influência viria a ter na vaga 
feminista seria o de Gayle Rubin14 que se propunha perceber o sistema de relações 
de opressão da mulher sobrepondo as grelhas analíticas de Freud e Lévi-Strauss 
(sobretudo a partir do contributo de Lacan) de maneira análoga à que Marx fizera 
com os economistas políticos clássicos. 
Para Rubin, explicar a utilidade da mulher para o capitalismo é diferente de dizer que 
esta utilidade explica a génese da opressão da mulher. Ou seja, há um elemento 
histórico e moral, como o próprio Marx dissera, na determinação do valor da força de 
trabalho que é diferente do caso das outras mercadorias. Baseando-se então no 
facto de Engels ter distinguido entre relações de produção e relações de 
sexualidade, ela passa a explicar o que entende por “sistema de sexo/género” 
(reconhecendo que outros nomes possíveis seriam “modo de reprodução” ou 
“patriarcado”): «Um sistema de sexo/género não é apenas o momento reprodutivo 
de um “modo de produção”. A formação da identidade de género é um exemplo de 
produção no reino do sistema sexual. 
E um sistema de sexo/género envolve mais do que as “relações de produção” (a 
reprodução no seu sentido biológico)» (1975:167, tradução livre). É assim que se 
deve procurar na área do parentesco o locus para a reprodução do sistema de 
sexo/género, pois os sistemas de parentesco podem ser muitas coisas, mas aquilo 
que reproduzem de facto e de que são feitos são, antes do mais, formas concretas 
de sexualidade organizada. Para Rubin, a divisão do trabalho pelo sexo seria – na 
esteira da teoria estruturalista do tabu do incesto - um tabu contra a semelhança 
SEXOLOGIA 
 
 
 
26 
 
entre homens e mulheres. Este tabu, exacerbando as diferenças biológicas entre os 
sexos, criaria o género. Este tabu é-o também em relação a tudo o que não seja o 
emparelhamento de homem e mulher: «Em termos gerais, a organização social do 
sexo assenta no género, na heterossexualidade obrigatória e no constrangimento da 
sexualidade feminina» (1975:179). Os indivíduos seriam, então, “engendrados” para 
garantir o casamento. 
A heterossexualidade pode ser vista como um processo instituído, e o tabu do 
incesto pressupõe um tabu anterior sobre a homossexualidade Seguindo o projecto 
de uma articulação entre Freud e LeviStrauss via Lacan, a dinâmica do sistema 
poderia ser resumida assim: «Os sistemas de parentesco requerem uma divisão dos 
sexos. A fase edipiana divide os sexos. Os sistemas de parentesco incluem 
conjuntos de regras que governam a sexualidade. A crise edipiana é a assimilação 
dessas regras e tabus. A heterossexualidade obrigatória é o produto do parentesco. 
A fase edipiana constitui o desejo heterossexual. 
O parentesco assenta numa diferença radical entre os direitos de homens e 
mulheres. O complexo de Édipo confere direitos masculinos ao rapaz e força a 
rapariga a acomodar-se a menos direitos» (1975:198, tradução livre). A teoria crítica 
feminista dá entrada na antropologia através da crítica da ausência das mulheres na 
etnografia. A questão assenta no poder: os informantes são homens porque mais 
próximos do poder público e político no sentido institucional. 
Após o lançamento, pelo feminismo, da ideia de que “o privado é político”, a 
antropologia registou uma explosão de obras escritas por e sobre mulheres e uma 
reavaliação das áreas do parentesco e família, pessoa e emoções, corpo, género e 
sexualidade. Todavia, à excepção de Rubin, a maior parte dos estudos feministas 
partilhava o pressuposto da heterossexualidade natural. E se se atacava o 
patriarcado, se se procurava encontrar a sua origem e mecanismos de reprodução - 
sobretudo explicitando os mecanismos de opressão da mulher e a quem serviam - 
esqueceu-se também a análise específica da masculinidade. No volume de Ortner e 
Whitehead, dedicado a uma análise mais cultural do que social dos sentidos de 
género e sexualidade enquanto símbolos, encontramos explicitadas, na maior parte 
SEXOLOGIA 
 
 
 
27 
 
dos casos etnográficos, oposições binárias metafóricas como Natureza/Cultura ou 
auto-interesse/bem social, para definir a “linguagem” do género. 
Em quase todos os casos se verifica que: 1) os homens surgem definidos por 
categorias de status ou papel social; 2) ao passo que as mulheres são definidas por 
e em relação aos homens e/ou parentes; 3) os mesmos eixos que separam as 
mulheres dos homens atravessam as categorias de género no seu interior e 4) em 
todos se dá a separação conceptual entre um mundo dos homens e um mundo das 
relações homens-mulheres. Yanagisako (1988)15afirmaque a separação dos factos 
biológicos do sexo dos factos culturais do género abriu caminho para o tipo de 
projecto delineado por Ortner e Whitehead: a interpretação do género como um 
sistema de símbolos e significados influenciadores e influenciados de e por práticas 
e experiências culturais. O género é visto como a elaboração de uma diferença 
biológica e levou às dicotomias público/doméstico (Rosaldo 1974), natureza/cultura 
(Ortner 1974), produção/reprodução (Harris e Young 1981)16. Para estes autores, a 
cópula heterossexual, para eles natural, cria parentesco e género junto com bébés. 
Mas Yanagisako, pegando também no exemplo de como quando analisamos a 
“raça” já não achamos que a diferença física tenha de facto importância, avança com 
três questões problematizadoras: 1) Como é que as pessoas são constituídas como 
sujeitos com género em sistemas culturais específicos?; 2) Como é que as 
categorias de género são definidas? (não podemos crer que resultem em toda a 
parte da mesma diferença); 3) Quando o sexo é a base do género devemo-nos 
perguntar como é que este sistema auto-referencial é construído (1988:4). Temos 
que explicar, e não pressupor, as práticas através das quais um sistema de 
diferenças entre pessoas é feito de modo a parecer invariável. Agora que 
questionámos o nosso modelo de base natural do sexo, diz ela, e começámos a 
explorar as práticas culturais através das quais as pessoas são sexualmente 
constituídas como sujeitos sexuais, temos que salvaguardar o carácter gendered 
dessas práticas. 
Não podemos deixar de lado o sexo nas nossas análises de género porque ele é o 
espaço discursivo a partir do qual iniciamos estudos comparativos de género. 
Veremos adiante como esta questão é importante hoje. Strathern (1988) também 
acha que algo falhou na estratégia dos anos setenta de desconstrução dos papéis 
SEXOLOGIA 
 
 
 
28 
 
sexuais, porque “macho” e “fêmea” permaneceram como pontos de referência fixos. 
No Ocidente, de facto a domesticidade assemelha-se à infantilidade e esta à 
ausência de autonomia, porque está fora da esfera do salário, do local de trabalho, 
da produção cultural. Mas noutros sítios pode não ser assim. As noções de “Pessoa” 
tornam-se fulcrais para Strathern, que diz que o sexo demarca diferentes tipos de 
agência, de acção social subjectivada. 
Por isso critica agora a ideia de “construção social”. Caberia a todo um caleidoscópio 
teórico subsumível à expressão “teoria da prática” tentar ultrapassar as limitações da 
ideia dos papéis sexuais e do simples construcionismo. Para Collier e Yanagisako 
(1987)17, as abordagens da prática focam em pessoas reais fazendo coisas reais; 
isto combina-se com a noção de que o “sistema” tem um efeito poderoso na acção 
humana; este sistema é visto como um sistema de desigualdades, constrangimento 
e dominação; presta atenção à construção cultural dos conceitos de feminilidade e 
masculinidade, pelo que o sistema de dominação deve ser entendido como sistema 
cultural; tal como a teoria feminista, a teoria da prática questiona a partição do 
sistema em base e superestrutura, sociedade e cultura, doméstico e político, 
produção e reprodução, como correspondendo a determinantes e determinados; e, 
por fim, estabelece uma preocupação política, tentando perceber como a prática 
reproduz o sistema e como este pode ser mudado pela prática. Os estudos de 
género e sexualidade na antropologia contemporânea têm, pois, sido permeados 
quer pela teoria da prática (derivada de críticas ao marxismo ortodoxo), quer por 
modelos de relação entre estrutura e prática (por exemplo, as obras de P. 
Bourdieu18 ou A. Giddens19), quer pela análise contextual do self, da acção pessoal 
e da intersubjectividade. Para Connell 20, que sintetiza estas tendências, a divisão 
do trabalho, a estrutura do poder e a estrutura da cathexis (sentimentos e emoções) 
seriam os principais elementos de qualquer Ordem do Género ou Regime do Género 
analisável por um cientista social. 
A banalizada expressão “construção social” deve ser usada com cuidado. Na 
posição construcionista, tal como nas teorias da socialização, as categorias de 
género parecem pressupor uma dicotomia de género incontornável, a qual só 
poderá, logicamente, assentar sobre uma diferença biológica de tipo essencialista. 
Ora, a diferença biológica é ela mesma histórica e culturalmente relativa, como 
SEXOLOGIA 
 
 
 
29 
 
demonstrado pelos estudos sobre ciência (Laqueur 199021). O construcionismo 
corre o risco de nos deixar com as categorias dicotómicas de homens e mulheres; 
parte do princípio de que existem indivíduos unitários mas por (con)formar através 
dos papéis de género e da socialização; recusando o sexo, afasta-se de uma análise 
da incorporação e da constituição do corpo (não abordando como o sexo é 
construído); ao localizar o género na pessoa unitária, reproduz ideias ocidentais 
sobre o indivíduo e a lógica mercantil; e por fim as relações entre homens e 
mulheres são vistas em termos de entidades polarizadas e fixas (ver Cornwall e 
Lindisfarne 1994 22). 
4.Desconstruções Sexuais. 
Nas sociedades cosmopolitas do Ocidente, sobretudo no mundo anglo-saxónico, o 
século XXI começou marcado pela ideia “queer”, num propósito explícito de recusar 
o alinhamento segundo categorias específicas de identidade. Esta posição é desde 
logo colocada como antagónica de categorias mais estáveis e reconhecíveis, como 
„lésbica‟ ou „gay‟. Os estudos gay e lésbicos – uma área surgida na esteira dos 
women‟s studies - seriam alvo de um processo de queering, processo esse que nos 
é apresentado como constituindo um violento debate, entre os que dizem que esse 
processo pretende acabar com os últimos traços de uma coerência de género 
opressiva, e os que criticam o queer como reaccionário e mesmo não-feminista. 
Propondo uma definição, Jagose23 diz que «queer descreve os gestos ou modelos 
analíticos que dramatizam as incoerências nas relações supostamente estáveis 
entre sexo cromossomático, género e desejo sexual» (1996:3). 
No entanto, esta definição é indissociável de uma tomada de posição 
epistemológica: «A teoria queer...desenvolvese a partir de um reordenamento gay e 
lésbico das representações pósestruturalistas da identidade como constelação de 
posições múltiplas e instáveis” (1996:3). O problema está pois colocado – a meu ver 
- como uma tensão: como é possível subscrever a maleabilidade identitária a partir 
de movimentos e teorias que tentaram validar a existência (e definição) de 
identidades minoritárias? Sobretudo, quando esse carácter minoritário (relacionado 
com a marginalização, a falta de poder, etc.) parece necessitar quer do paradigma 
“étnico”, quer de um certo grau de “essencialismo estratégico”? De facto, os debates 
SEXOLOGIA 
 
 
 
30 
 
sobre o que constitui a homossexualidade (à semelhança daqueles sobre o género) 
podem ser vistos em termos de uma negociação entre posições essencialistas e 
posições construcionistas. 
Enquanto as primeiras encaram a identidade como natural, fixa e inata, as segundas 
entendem-na como fluida e como efeito do condicionamento social e dos modelos 
culturais disponíveis. A posição da autora – e a minha – é que a identidade não é 
uma categoria empírica demonstrável, mas sim o produto de processos de 
identificação em ambiente de relações de poder desigual. 
A posição construccionista, subscrita pela maior parte dos estudos gay e lésbicos 
tem, segundo a autora (a meu ver, de forma algo simplificadora) a sua raiz no 
trabalho de Foucault. Este argumentava que a homossexualidade era 
necessariamente uma formação moderna porque, embora anteriormente existissem 
actos sexuais entre pessoas do mesmo sexo, não haveria uma categoria de 
identificação correspondente. A noção do homossexual como um tipo identificável de 
pessoa emerge na segunda metade do século XIX, definido fundamentalmente em 
termos daquelesmesmos actos sexuais. Passava-se assim do sodomita como 
aberração temporária para o homossexual como uma espécie. o epítome do próprio 
género. 
O pensamento “queer” tem uma relação estreita com o pósestruturalismo, ao propor 
a substituição de uma política da identidade por uma política da diferença; a retórica 
da diferença substituiu o ênfase mais assimilacionista e liberal na similaridade com 
outros grupos. No descentramento final do sujeito cartesiano, a identidade foi 
reconceptualizada como mito ou fantasia cultural. A tese de Althusser de que não 
pré-existimos como sujeitos mas somos constituídos enquanto tais pela ideologia, 
bem como as ideias de Foucault seriam desenvolvidas, na área do pensamento 
social sobre a sexualidade, por Judith Butler. 
Ela procura sofisticar o argumento sobre as operações do poder e da resistência de 
modo a demonstrar os modos como as identidades marginalizadas são cúmplices 
dos sistemas identificatórios que procuram contrariar. Butler argumenta que o 
feminismo trabalha contra os seus propósitos explícitos quando toma as “mulheres” 
como categoria âncora, pois o termo “mulher” não significa uma unidade natural mas 
SEXOLOGIA 
 
 
 
31 
 
uma ficção regulatória. E em vez de naturalizar o desejo pelo mesmo sexo – a 
estratégia usual dos movimentos gay – Butler contesta a verdade do género em si, 
argumentando que qualquer compromisso com a identidade de género funciona em 
última instância contra a legitimação dos sujeitos homossexuais. 
 O género é, para Butler24, uma ficção cultural, o efeito performativo de actos 
reiterativos. A razão porque não há identidade de género por detrás das expressões 
do género é que a identidade é performativamente constituída pelas próprias 
expressões que são vistas como sendo o seu resultado. Butler advoga a 
contestação dessa naturalização através da repetição deslocada da sua 
performatividade, chamando assim atenção para os processos que consolidam as 
identidades sexuais. Uma das estratégias recomendadas é a repetição paródica das 
normas de género. Foca, pois, no drag (o qual seria, a meu ver, a expressão icónica 
da própria atitude queer). O género é, então, performativo, não porque seja algo que 
o sujeito assume deliberadamente, mas porque, através da reiteração, consolida o 
sujeito. Não se trata, todavia, do mesmo que simplesmente “vestir roupa”: o 
constrangimento é o pré-requisito da performatividade. Embora esta ressalva tente 
ultrapassar o carácter difuso da localização do poder a la Foucault, não indica, a 
meu ver, com a clareza suficiente, quais as instituições e lugares de poder onde o 
género e a sexualidade são formados e reproduzidos. Mais do que de 
transformações em instituições sociais como a família, a teoria queer advém de 
transformações no activismo social permeado pela própria teoria social. 
 É o caso de novas formas de fazer política sexual e, simultaneamente, de entender 
as identidades (ou a fragilidade destas): exemplo disso será o discurso sobre o 
HIV/Sida, que questionou o estatuto do sujeito no discurso biomédico; enfatizou as 
práticas sexuais e não as identidades; promoveu uma política de coligação que 
repensou a identidade em termos de afinidade e não de essência; e entendeu o 
discurso como uma realidade não separada da prática ou de segunda ordem 
(Jagose 1996). Se é comum pensar que Queer funciona sobretudo como modismo 
para distinguir gays de “velho estilo” dos de “novo estilo”, é certo que o termo pode 
ser usado para descrever uma população aberta, cujas características partilhadas 
não são a identidade mas um posicionamento anti-normativo em relação à 
sexualidade. Como no início do liberacionismo gay, queer confunde as categorias 
SEXOLOGIA 
 
 
 
32 
 
que autorizam a normatividade sexual; mas difere de “gay” porque evita a ilusão de 
que o seu projecto seja inventar ou desvelar uma qualquer sexualidade livre, natural 
ou primordial. Ao confrontar já não apenas os essencialismos das estruturas sociais 
e do conhecimento, mas também o essencialismo estratégico dos movimentos 
identitários sexuais, a teoria queer lança como urgente a necessidade de repensar 
as noções de identidade, comunidade e política. Curiosamente, são estas as noções 
que constituem o próprio objecto da atenção antropológica contemporânea e que 
estavam implícitos no projecto da disciplina já nos idos do século XIX, quando o 
“selvagem sexual” (ou o sexual selvagem...) foi descoberto pela atenção Ocidental. 
O campo da sexologia no Brasil: constituição e institucionalização 
Este artigo tem como objetivo apresentar os resultados parciais de uma investigação 
em andamento sobre a constituição do campo da sexologia contemporânea no 
Brasil. A questão de fundo que buscamos examinar é a chamada medicalização / 
naturalização da sexualidade, apontada por diferentes autores como um fenômeno 
que vem se produzindo desde meados do século XIX. Temos como objetivo delinear 
a especificidade da medicalização /naturalização tal como se processa na 
atualidade, levando em conta que o que se chama "medicalização" envolve tanto 
controle social, quanto produção de identidades e de novas formas de subjetividade. 
Como objetivo mais amplo, que deverá ser contemplado no final da pesquisa, está a 
discussão crítica dos dilemas que cercam a sexualidade contemporânea - ora vista 
como um instinto incontornável e espontâneo, núcleo da liberdade do sujeito, ora 
como uma espécie de expertise adquirida através de treinamento e tecnologia. 
O termo "sexologia" foi escolhido por ser uma designação tradicional de modos de 
intervenção e conhecimento que visam ao atendimento clínico ou à prevenção de 
distúrbios relacionados à sexualidade. Esta não é, entretanto, uma designação 
consensual dentro do campo. Há uma tendência atual a utilizar os termos 
"sexualidade humana", "saúde sexual", ou "medicina sexual", cada uma dessas 
expressões indicando uma certa posição no conjunto de tensões e disputas que 
marcam o território em questão. Na verdade, o estudo das formas de 
autodesignação faz parte de nossa investigação. Optamos pelo termo "sexologia" 
por seu uso tradicional no decorrer do tempo. Mantemos, entretanto, a advertência 
SEXOLOGIA 
 
 
 
33 
 
de que, embora seja utilizado por atores e instituições do campo, o uso 
indiscriminado que dele fazemos é mais uma escolha metodológica do que uma 
realidade percebida no material pesquisado. 
A investigação consistiu, até o momento, do levantamento de sites na internet (de 
clínicas, sociedades, associações, institutos), busca no site do CNPq e 
universidades, contatos telefônicos (para complementar dados levantados pela 
internet), levantamento e exame de três periódicos (Revista Brasileira de 
Sexualidade Humana, Revista Terapia Sexual e Revista Scientia Sexualis), 
entrevistas semiestruturadas com 15 profissionais relevantes do campo e 
observação participante em cinco congressos.1 A pesquisa foi conduzida dentro dos 
padrões éticos exigidos pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa / Conselho 
Nacional de Saúde / Ministério da Saúde (CONEP/CNS/MS), obedecendo ao 
disposto na Resolução CONEP nº 196/96. 
Antes de passarmos à apresentação e análise dos dados já colhidos, faremos uma 
breve introdução ao surgimento da sexologia europeia nos primórdios do século 
passado, bem como das transformações que se seguiram ao processo de 
"transplantação" do novo campo de saber para os Estados Unidos, de modo a 
permitir uma compreensão da sexologia brasileira no contexto mais amplo do 
cenário sexológico internacional. 
 Da "protossexologia" à sexologia contemporânea. 
É possível falar que a sexologia, desde seu início no final do séxulo XIX, conheceu 
três "ondas" sucessivas. A primeira delas, chamada por André Béjin de 
"protossexologia",2 surgiu na passagem do século XIX ao XX na Europa e sobretudo 
na Alemanha. Através do discurso médico, tratava-se de construiruma racionalidade 
biológico/científica sobre as sexualidades periféricas ao casal e à família, 
contrapondo-se ao discurso legal ou religioso que tendia a criminalizá-las. A grande 
questão que movia os médicos dedicados à nova especialidade era a chamada 
"inversão" - como era então conhecida a homossexualidade. Neste momento, a 
medicalização da "inversão" era parte de uma luta política. Havelock Ellis e Magnus 
Hirshfeld, entre outros, faziam parte do movimento de "reforma sexual", que se 
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312009000300004#nt01
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312009000300004#nt02
SEXOLOGIA 
 
 
 
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concentrava na Alemanha, contra o código civil prussiano que criminalizava a 
chamada "sodomia".3 Ao mesmo tempo, a construção da perversão como objeto da 
medicina constituiu o personagem do perverso sexual, tendo como efeito 
transformar o que antes era um ato desviante, em identidade (FOUCAULT, 1977). 
O manual do psiquiatra forense Richard von Krafft Ebing - Psycopatia sexualis4 - 
publicado em 1887, transformou-se em texto de referência acerca das perversões da 
sexualidade, conhecendo enorme sucesso de público. Segundo Harry Oosterhuis 
(1997), as cartas enviadas a Krafft Ebing no decorrer dos anos revelavam a 
felicidade e o alívio dos que se reconheciam nas categorias então descritas, e 
ofereciam ao psiquiatra-autor histórias de vida a serem incorporadas às novas 
versões do livro que iam sendo publicadas. Observamos, portanto, que a identidade 
forjada pela medicina - por se constituir contra a concepção propriamente criminal ou 
jurídica de atos passíveis de punição legal - não era de todo antipática aos sujeitos 
classificados como perversos. 
Com o surgimento do nazismo e posterior eclosão da II Guerra Mundial, todo o 
movimento de reforma sexual alemão sofreu intensa repressão. Os grandes nomes 
da sexologia alemã foram obrigados a se exilar, bibliotecas e centros de informação 
foram destruídos. Desta forma, de modo semelhante ao que ocorreu com a 
psicanálise nesse mesmo período, a sexologia mudou-se para os Estados Unidos, e 
uma "segunda onda" sexológica - desta feita americana - surgiu no pós-guerra, mais 
especificamente nos anos 60/70 do século XX (IRVINE, 2005). Além da mudança 
geográfica, uma diferença importante vai distanciar os dois movimentos. No caso da 
primeira sexologia, como vimos, a medicalização da sexualidade não se opunha 
necessariamente à sua politização - ao contrário, os grandes sexólogos da época 
eram os responsáveis pelo movimento de "reforma sexual" que colocava em xeque 
o status quo. Nos anos 1960/70, marcados pela cada vez mais radical disjunção 
entre sexualidade e reprodução, as minorias sexuais vão buscar sua afirmação 
política contra o discurso médico. A segunda sexologia, que então surge, deixa de 
lado as antigas "perversões", que se transformam cada vez mais em uma questão 
de disputa política, passando a se debruçar sobre a sexualidade "normal", voltando 
suas atenções e seu arsenal terapêutico para os casais heterossexuais. 
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312009000300004#nt03
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312009000300004#nt04
SEXOLOGIA 
 
 
 
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Esta "segunda sexologia" tem nas pesquisas de Alfred Kinsey as bases sobre as 
quais se desenvolve. Foi Kinsey quem voltou seu interesse para a sexualidade do 
homem e da mulher "normais". Seus livros, publicados no final dos anos 40 (Sexual 
Behavior in the Human Male) e início da década de 50 (Sexual Behavior in the 
Human Female) conheceram um enorme sucesso.5 Colocando o tema da 
sexualidade na ordem do dia, trouxeram para o interior da conjugalidade 
heterossexual comportamentos antes vistos como transgressores ou anormais. 
Ainda nos anos 1950, o médico ginecologista William Masters e a psicóloga Virginia 
Johnson deram início às suas investigações sobre sexualidade na Washington 
University, em Saint Louis. Ambos realizaram pesquisas em laboratório com sujeitos 
humanos, de modo a observar e medir objetivamente o que vieram a chamar de 
"resposta sexual humana". Em 1966, publicaram o livro Human Sexual Response, e 
em 1970, Human Sexual Inadequacy. Neste último, considerado o marco da 
moderna sexologia, são listadas todas as perturbações possíveis da sexualidade de 
homens e mulheres e seu tratamento, constituindo-se na pedra de toque de uma 
especialidade emergente: o terapeuta sexual. Menos de cinco anos depois de sua 
publicação, já havia entre 3.500 e 5.000 centros de tratamento para problemas 
sexuais nos EUA (IRVINE, 2005). Nesse período surgiram diversos periódicos e 
sociedades científicas devotadas à sexologia nos Estados Unidos. O Archives of 
Sexual Behavior foi fundado em 1971, a International Academy of Sex Research e 
o Journal of sex and marital Therapy são de 1975. Em 1978 foi fundada a hoje 
poderosa World Association of Sexology6 (WAS). 
Em 1998, o lançamento do citrato de sildenafil, conhecido comercialmente como 
Viagra, marcou uma nova transformação no campo da sexologia. Indicado para os 
casos de impotência masculina - rebatizada de "disfunção erétil" -, o Viagra surgiu 
como uma pílula mágica que colocou a farmacologia no centro das terapêuticas 
sexuais, e trouxe importantes reviravoltas na organização profissional do campo. 
Surge a terceira "onda" da sexologia. 
A proposta de Masters e Johnson, posteriormente complementada pela de Helen 
Kaplan,7 envolve uma terapia psicológica, baseada na psicologia comportamental, e 
diz respeito sobretudo ao casal, que passa por uma espécie de "treinamento" para 
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312009000300004#nt05
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312009000300004#nt06
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312009000300004#nt07
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"aprender" a ter relações sexuais prazerosas. Toda a literatura sexológica dos anos 
70 e 80 se concentra basicamente nos problemas relativos ao casal. Há, em menor 
escala, trabalhos e pesquisas envolvendo homens, sendo a "disfunção erétil" o foco 
da maior parte desses trabalhos.
8
 Bem antes do Viagra, portanto, já se buscava 
algum tipo de tratamento médico para a impotência, fossem as injeções de 
papaverina ou as próteses penianas. O surgimento da "pílula mágica", entretanto, 
redimensionou todo o campo dos distúrbios sexuais, tendo como consequências 
importantes: o surgimento do urologista como ator relevante - senão dominante - no 
campo profissional e científico, e uma tendência a focalizar no corpo do indivíduo 
problemas que antes poderiam ser interpretados de forma mais "relacional". 
Assistimos, portanto, a uma "re-medicalização" da sexualidade,9 e a um declínio de 
sua psicologização. Essas consequências, como veremos, terão implicações 
relevantes para as relações de gênero tanto no que diz respeito à reorganização 
profissional do campo, quanto no que tange ao modo mesmo de conceber o 
"transtorno" sexual. 
 
Anos 70: ginecologistas e psicólogos no Rio de Janeiro 
Embora tenha havido uma "primeira sexologia" brasileira no início do século XX 
(RUSSO; CARRARA, 2002), cujos principais expoentes foram José de Albuquerque 
e Hernani de Irajá, vamos tratar aqui da "segunda onda" sexológica, surgida já nas 
últimas décadas do século passado. Datando do início dos anos 70 do século XX, 
esta "segunda sexologia" coincidiu com o auge da chamada "cultura psicanalítica", 
que conquistava corações e mentes das camadas médias letradas nos grandes 
centros urbanos, e com o surgimento paralelo de uma cultura "alternativa", que 
implicou um revival das teorias de Wilhelm Reich.10 . 
A década de 70 foi, no Brasil, um importante momento de transição política entre o 
período de maior obscurantismo e repressão da ditadura militar (a era Médici) e,

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