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SEXOLOGIA SEXOLOGIA 2 SUMÁRIO INTRODUÇÃO 3 1- A SEXUALIDADE E SEU SIGNIFICADO 4 2- EMBRIOLOGIA, ANATOMIA E FISIOLOGIA 9 3- ASPECTOS SOCIAIS E ANTROPOLÓGICOS 15 4- EDUCAÇÃO SEXUAL E ÉTICA 42 REFERÊNCIAS SEXOLOGIA 3 INTRODUÇÃO Prezado (a) aluno (a), O curso contém material básico e introdutório relacionados à sexologia. A sexologia, uma área que evoluiu muito nos últimos 150 anos, refere-se ao estudo científico e prático da sexualidade. Academicamente, a sexologia abrange as ciências físicas, biológicas, psicológicas, comportamentais e sociais. Normalmente inclui o estudo de atitudes, interesses, comportamentos, desenvolvimento e problemas sexuais humanos. Dentro da sexologia estudam-se e praticam-se tópicos de interesse. Inclui-se nisso o desenvolvimento psicossexual, identidade sexual e de gênero, saúde sexual, resposta sexual. Além disso, problemas sexuais, representados pelas disfunções sexuais e pelas parafilias. Sendo assim, Sexologia é o estudo da psicologia humana e suas manifestações sexuais. A sexologia estuda todas as facetas da sexualidade. Desde o desenvolvimento sexual, até mecanismos de situações eróticas, comportamento sexual e apego emocional. Inclui-se aspectos fisiológicos, psicológicos, médicos, sociais e culturais. A sexologia também abrange assuntos específicos como abortos, controle de natalidade, abuso sexual, novas técnicas de reprodução ou saúde sexual. O estudo científico do sexo e da sexualidade pode ser rastreado até o período grego clássico no mundo ocidental. Ainda mais cedo no mundo oriental. A sexologia nasceu no fim do século XIX quando três estudiosos alemães lançaram livros sobre o tema sexualidade. https://www.vittude.com/blog/teoria-do-apego/ https://www.vittude.com/blog/sexualidade-e-disfuncoes-sexuais/ SEXOLOGIA 4 1- A SEXUALIDADE E SEU SIGNIFICADO A sexualidade é um conceito que está baseado na atração sexual e na afetividade compartilhada entre as pessoas. É muito comum pensar em sexualidade e logo remeter ao sexo. Todavia, ela pode estar relacionada com outras maneiras pela busca do prazer e também com os sentimentos compartilhados. Note que o termo “sexo” refere-se ou aos órgãos genitais ou ao ato sexual. A sexualidade é muito relativa e pessoal, visto que o que pode ser considerado prazeroso para alguns, pode não ser para outros. Além disso, ela se desenvolve de acordo com as experiências de cada pessoa. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS): “A sexualidade faz parte da personalidade de cada um, é uma necessidade básica e um aspecto do ser humano que não pode ser separado de outros aspectos da vida. Sexualidade não é sinônimo de coito (relação sexual) e não se limita à ocorrência ou não de orgasmo. Sexualidade é muito mais que isso, é a energia que motiva a encontrar o amor, contato e intimidade e se expressa na forma de sentir, nos movimentos das pessoas, e como estas tocam e são tocadas. A sexualidade influencia pensamentos, sentimentos, ações e interações e, portanto, a saúde física e mental. Se saúde é um direito humano fundamental, a saúde sexual também deveria ser considerada um direito humano básico.” Note que a sexualidade está presente em todas as fases da nossa vida. Geralmente, o desejo sexual surge na puberdade, por volta dos 12 anos, sendo uma característica natural dos seres humanos. Atualmente, a “Orientação Sexual” é um tema transversal que deve ser abordado nas escolas como forma de compreender esse conceito e de todos os outros que se relacionam com ele: sexo, afetividade, gênero, métodos contraceptivos, aborto, gravidez na adolescência, doenças sexualmente transmissíveis, etc. SEXOLOGIA 5 Gênero e Identidade de Gênero O conceito de gênero está relacionado com o de sexualidade posto que faz referência aos gêneros masculino e feminino. A identidade de gênero é, por sua vez, o gênero com o qual o indivíduo se identifica. Nesse caso, existem pessoas que desde crianças nascem com determinado sexo, no entanto, se identificam com outro. Esses são chamados de transgêneros. Importante destacar que a violência de gênero é gerada pelo preconceito com o sexo oposto. Ela envolve agressões físicas, verbais e psicológicas. Geralmente são mulheres que sofrem com esse tipo de violência. Vale ressaltar que práticas machistas e sexistas estão relacionadas com a violência de gênero. Além disso, temos o conceito de androcentrismo onde o pensamento masculino é colocado no centro. Orientação Sexual e Afetividade A orientação sexual é outro aspecto importante da sexualidade humana. Isso dependerá do gênero que atrai uma pessoa. Um indivíduo pode ser considerado heterossexual quando a atração e os sentimentos ocorrem entre pessoas do sexo oposto. Esse tipo de relação é chamada de heteroafetiva. Os homossexuais ou homoafetivos são aqueles que se sentem atraídos por pessoas do mesmo sexo. E por fim, há os bissexuais ou biafetivos onde o interesse e afetividade envolve os dois gêneros. A sexualidade a partir do biológico Possivelmente o aspecto biológico foi o mais considerado ao se criar um conceito de sexualidade. Mais especificamente a aparência genital, como o órgão sexual por excelência. Esta é uma visão muito reducionista que não considera o esquema do corpo como uma unidade. A integração do corpo na sua totalidade, dentro da sexualidade, nos permite entender que somos seres sexuais, desde que nascemos até morrermos. https://www.todamateria.com.br/orientacao-sexual/ SEXOLOGIA 6 Isso significa que as crianças, os adolescentes, os adultos e os idosos têm sexualidade. Quando você se referir apenas a parte biológica da sexualidade, estará focando na reprodução sexual, através dos órgãos genitais, e destinada à reprodução. O aspecto biológico da sexualidade pode ser expandido e, assim, dar um significado maior quando se relaciona com outros fatores envolvidos: “O nosso corpo tem que ser aprendido, e somente através de um esquema corporal completo seremos capazes de realizar essa tarefa. Parcializar o corpo, indicando apenas determinadas funções, é negar o prazer de conhecer e se comunicar corretamente com as outras partes“. A sexualidade a partir do social Esta dimensão da sexualidade tem a ver com nosso lado erótico, através de um comportamento aprendido e da aquisição de vários costumes e ritos. Ou seja, em todas as culturas há crenças sobre a sexualidade que variam de acordo com o contexto histórico, e que influenciam a nossa maneira de agir. Nossas influências políticas, religiosas e culturais, de alguma forma, regulam os padrões do que é apropriado e do que não é. Isto resulta em muitas limitações a nível sexual através do que é considerado “normal”. Como seres sociais que somos, muitos medos que temos são relacionados a não nos sentirmos rejeitados, isolados e diferentes. Para fazer isso, observamos e transmitimos mensagens de comunicação que podemos ter interiorizado, transformando-as em valores e normas de conduta. Como uma população específica vive sua sexualidade é o resultado da socialização da mesma, mas esteja ciente de que estes comportamentos e atitudes que nós já internalizamos, sem questioná-los, podem nos ajudar a adaptá-los ou modificá-los a partir do conhecimento e do desenvolvimento da nossa própria personalidade. Isto significa romper com as limitações e equívocos que foram instituídos em nosso processo de socialização para vivermos a sexualidade como algo positivo, o que é https://amenteemaravilhosa.com.br/o-fenomeno-da-adolescencia-eterna/ https://amenteemaravilhosa.com.br/dez-obstaculos-impedem-boa-comunicacao/ SEXOLOGIA 7 diferente para cada pessoa. Portanto, seria aconselhável, em vez disso, falar sobre sexualidades. A educação sexuala partir do governo Ernesto Geisel, que assumiu o poder em março de 1974, um período de distensão e tímida abertura política.11 Foi também um momento de intensa mobilidade social e simbólica para as camadas médias favorecidas pela http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312009000300004#nt08 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312009000300004#nt09 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312009000300004#nt10 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312009000300004#nt11 SEXOLOGIA 37 política de concentração de renda do regime militar. Segundo Gilberto Velho, a conjuntur. reforçava o projeto individualizante de família nuclear com a ampla veiculação de uma propaganda que enfatizava o consumo e o sucesso material, fosse diretamente por parte do Estado, fosse por grandes empresas, do chamado "milagre brasileiro". É quando insistentemente se enfatiza e se constrói o modelo de família que compra, investe, viaja etc. Poder-se-ia dizer que é configurada com nitidez o que deveria ser uma família brasileira em uma sociedade capitalista moderna. (VELHO, 1981, p. 70). Evidentemente, essa reconfiguração da família, se estava calcada em mudanças propriamente econômicas, implicou necessariamente transformações de mentalidade e valores. Como parte de tais transformações, já na segunda metade dos 70, os grandes centros urbanos assistiram ao florescimento da chamada "contracultura", que se difundiu entre os jovens filhos do "milagre econômico" (VELHO, 1998; HOLLANDA, 2004). Centrada em uma intensa revolução dos costumes, tinha como núcleo a chamada revolução sexual. É também nesse momento que um incipiente movimento de institucionalização reúne, no Rio de Janeiro, médicos e psicólogos em torno do projeto da constituição de um saber e de uma prática sexológica derivada do movimento norte-americano, ou seja, da proposta terapêutica de Masters e Johnson. Já em fins dos anos 1960, um grupo de discussão sobre problemas ligados à ginecologia, chamado "Clube da Placenta", reunia-se regularmente, sob a liderança de Jean Claude Nahoum - médico ginecologista. Dele também participava o ginecologista Paulo Canella,12 além de outros médicos ligados ao Instituto de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). No final da década de 70, Geraldo Lana e Araguari Chalar Silva, psicólogos vinculados a uma clínica de atendimento em Terapia Comportamental - a Corpsi -, estimulados pela leitura dos trabalhos de Masters e Johnson, começaram a se interessar pelas propostas da terapia sexual. Em uma das reuniões do Clube da Placenta, os dois grupos se aproximaram, formando o Núcleo de Sexologia da Sociedade de Ginecologia e Obstetrícia do Rio de Janeiro (SGORJ). http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312009000300004#nt12 SEXOLOGIA 38 No início dos anos 80, articulados a profissionais de outras partes do país, os integrantes do núcleo da SGORJ fundaram a Comissão Nacional Especializada em Sexologia dentro da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). Dela participavam, do Rio de Janeiro, Jean-Claude Nahoum e Araguari Chalar Silva; de São Paulo, Nelson Vitielo; e de Brasília, Ricardo Cavalcanti (todos ginecologistas, com exceção de Araguari). Testemunhando um grau razoável de permeabilidade da ginecologia a olhares não-médicos, também integravam a comissão psicólogos e outros profissionais, como os educadores. O movimento inicial para a estruturação do campo da (segunda) sexologia no Brasil foi, portanto, fruto da articulação entre a ginecologia-obstetrícia e a psicologia, cabendo de fato à ginecologia, como especialidade médica, fornecer a legitimação necessária para a nova especialidade. É necessário lembrar que, neste momento, a psicologia encontrava-se sob forte influência da psicanálise. A psicologia comportamental, que possui maior afinidade com a leitura sexológica que então surgia com os trabalhos de Masters e Johnson, era bastante marginal entre os profissionais da área. A permeabilidade da ginecologia-obstetrícia à psicologia certamente tem a ver com a história dessa especialidade médica. Uma hipótese que podemos avançar é a provável afinidade entre o "objeto" da ginecologia-obstetrícia - a mulher - e uma leitura psicológica, ou pelo menos, não tão estritamente física dos males que a acometem. A relação entre os órgãos reprodutivos femininos e as afecções "nervosas" foi objeto de inúmeros estudos e intervenções no decorrer do século XIX e início do XX (ROHDEN, 2001). Nos anos 1960 e 1970, o movimento do "parto sem dor" já prenunciava a intensa transformação no modo de lidar com a gestação que surgiria nas décadas seguintes e que pode ser resumida pela ideia de "humanização" do parto e da gravidez. Tal transformação, embora possuísse uma vertente de forte crítica à medicina, também congregava uma espécie de vanguarda entre os médicos ginecologistas que buscava uma visão menos restrita aos aspectos puramente biomédicos na assistência à mulher. Imaginamos, portanto, que a ginecologia-obstetrícia, tendo, desde seus primórdios, lidado com processos "físico-morais" (caso da gravidez, parto e puerpério) pudesse, dentre as SEXOLOGIA 39 especialidades médicas, mais facilmente se articular com profissões mais "morais" que "físicas", como a psicologia. Entre 1983 e 1989, a Comissão Nacional Especializada em Sexologia da FEBRASGO organizou sete Encontros Nacionais de Sexologia, sendo o primeiro deles em São Paulo e o segundo no Rio de Janeiro.13 No Encontro de Gramado, em 1987, ocorreu a assembleia de fundação da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana (SBRASH), sendo então eleita e empossada sua primeira diretoria. O Encontro do Rio de Janeiro, em 1989, transformou-se assim no I Congresso da SBRASH. A SBRASH é já fruto de uma tensão que então começava a se instalar. A Comissão Nacional Especializada em Sexologia da FEBRASGO, que promoveu os primeiros encontros, começou a encontrar resistências dentro da Federação, pelo fato de abrigar em seus quadros profissionais não-médicos, como psicólogos e educadores. A fundação de uma sociedade multiprofissional foi a saída encontrada para a questão entre a subordinação à medicina e a autonomização da especialidade, que continuará a atravessar o campo. Pela localização dos diversos encontros, é possível perceber que a sexologia contemporânea, em seus primórdios, se concentrou no sudeste e sul do país, regiões mais prósperas e desenvolvidas, com maior probabilidade de constituir um público consumidor para os novos serviços que então surgiam. Nesse percurso, não podemos deixar de mencionar a Sociedade Brasileira de Sexologia, fundada em meados dos anos 70, em Guarulhos (SP), num encontro entre médicos interessados no trabalho com sexualidade. Presidida pelo psiquiatra carioca Isaac Charan, a SBS, sociedade exclusivamente médica, foi responsável pela elaboração da Resolução nº 1.019/1980 do Conselho Federal de Medicina, que estabelecia a sexologia como especialidade médica, e pela realização do XI Congresso Mundial de Sexologia no Rio de Janeiro, em 1993. No contexto atual, trata-se de uma sociedade sem grande expressão no campo, que parece estar desativada. A institucionalização do campo através da SBRASH ocorre em meio a uma institucionalização acadêmica, no início ainda incipiente, com a criação de um curso http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312009000300004#nt13 SEXOLOGIA 40 de especialização em sexologia no Hospital Moncorvo Filho14 no início dos anos 80 e, posteriormente, a partir da mesma equipe e congregando novos nomes, do curso de pós-graduação lato sensu em sexualidade humana da Universidade Gama Filho(UGF). No movimento desses dois cursos de especialização, um sucedendo o outro, percebe-se que a relação entre a ginecologia-obstetrícia e a psicologia começa a se inverter. Embora os fundadores dos dois cursos façam parte das duas especialidades (ginecologistas e psicólogos), a passagem para a UGF foi realizada através da vinculação com o curso de psicologia, e não de medicina. Duas observações podem ser feitas acerca desse fato. Em primeiro lugar, embora a ginecologia-obstetrícia oferecesse um "nicho" de maior legitimidade do que a psicologia comportamental no momento de constituição do campo, a medicina necessita demarcar fronteiras claras entre suas práticas e as de outros profissionais para manter sua própria legitimidade. Um alvo especial são os psicólogos, que já vinham disputando espaço com psiquiatras no que diz respeito à prática psicanalítica. Ou seja, a rivalidade entre as duas profissões já era antiga e dizia respeito justamente à pretensão dos psicólogos de se nomearem "terapeutas" e realizarem procedimentos considerados como prerrogativa dos médicos. Em segundo lugar, o acolhimento da sexologia pelos psicólogos da vertente comportamental, numa universidade particular não especialmente conceituada, indica que esta "segunda sexologia" se estrutura nas margens das especialidades e instituições de maior prestígio no meio profissional e acadêmico. A pós-graduação lato sensu da Universidade Gama Filho deu origem a um mestrado em sexologia - o único do país - que funcionou de 1994 a 2005, com reconhecimento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e mais de 100 dissertações defendidas. Tinha três áreas de concentração: sexologia clínica, sexologia educacional e sócio-sexologia, sendo a área de concentração em sexologia clínica reservada para médicos e psicólogos. Atraindo profissionais de diversas partes do Brasil, foi responsável por formar parte importante dos sexólogos em atuação no país. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312009000300004#nt14 SEXOLOGIA 41 A certificação Logo após sua fundação, a SBRASH instituiu uma "Qualificação para o exercício da terapia sexual e educação sexual". Vemos aí um movimento duplo. De um lado, a necessidade de chamar a si o controle da atribuição do título que designa a nova ocupação. De outro, em um movimento semelhante ao dos médicos, de separar a terapia da educação sexual. Ou seja, a multiprofissionalidade da associação não impede que os psicólogos se juntem aos médicos para monopolizar o título de terapeuta, diferenciando-o do de educador. Em 2002, a Resolução nº 1.634/2002 do Conselho Federal de Medicina revoga a Resolução CFM nº 1.019/1980 e estabelece a sexologia não mais como especialidade médica, mas como área de atuação de ginecologia e obstetrícia e de urologia.15 Isso significa que, para um médico possuir certificado de área de atuação em sexologia, é necessário ser portador do título de especialista em urologia ou ginecologia e obstetrícia. Em uma nova resolução de 2003 (Resolução CFM nº 1.634/2003), a sexologia aparece como área de atuação apenas da ginecologia- obstetrícia. A FEBRASGO é a responsável por realizar o concurso de habilitação na área de atuação de Sexologia em Ginecologia e Obstetrícia16. Não há concurso semelhante na Sociedade Brasileira de Urologia (SBU). Nesse mesmo ano - 2003 -, a SBRASH, no lugar do antigo concurso de qualificação, passa a oferecer o Título de Especialista em Sexualidade Humana (TESH), concedido através de concurso ou da avaliação de diplomas de associados da SBRASH. O candidato pode requerer o título nas áreas de terapia sexual, educação sexual ou sócio-sexologia, sendo o primeiro título reservado a portadores do diploma de psicologia ou de medicina. O curioso neste afã de controlar a atribuição de um determinado título é que em nenhum dos dois casos o controle é de fato exercido. Seja por falta de rigor do próprio órgão fiscalizador, seja por desinteresse dos potenciais detentores do título. Através da listagem completa dos médicos do Brasil, disponibilizada no site do Conselho Federal de Medicina, constatamos que somente 17 profissionais possuem http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312009000300004#nt15 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312009000300004#nt16 SEXOLOGIA 42 o título de especialista ou o certificado de atuação em sexologia.17 Além disso, médicos de outras especialidades (que não urologia ou ginecologia e obstetrícia), como psiquiatria, cardiologia, pediatria, endocrinologia e medicina do trabalho, também o possuem. No caso do TESH, a página web da SBRASH listava em 2005 somente 42 profissionais detentores do título, sendo 37 pela avaliação de diploma e cinco via concurso.18 Do total, 37 são especialistas em terapia sexual e cinco em educação sexual (quatro por avaliação de diploma e um por concurso) - número bastante reduzido quando sabemos que nesse momento a associação contava com mais de 200 associados. Percebemos, portanto, que a ocupação é ainda pouco institucionalizada em termos de controle e monopólio do título. Ou seja, as instituições profissionais (seja o CFM, a FEBRASGO ou a SBRASH), elas mesmas em grau maior ou menor de institucionalização, disputam entre si um certo monopólio da titulação ou autorização dos profissionais, mas os próprios profissionais, aparentemente, prescindem dessa autorização. Uma hipótese plausível é que o título de psicólogo e, mais ainda, o de médico, possui legitimidade suficiente para prescindir de um outro tipo de titulação - sobretudo no caso de uma especialidade como a sexologia que, em seus primórdios, sofreu algum grau de estigmatização por parte do establishment médico (RUSSO; CARRARA, 2002). A falta de acordo quanto à própria nomeação do campo - sexologia versus sexualidade humana - diz respeito, acreditamos, a essa situação de uma especialidade potencialmente desacreditável. A substituição do termo "sexologia" pela expressão "sexualidade humana" e, mais recentemente, "medicina sexual", parece ser justamente uma tentativa de, a partir de uma nova designação, distanciar-se do estigma potencial herdado dos primeiros tempos da sexologia. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312009000300004#nt17 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312009000300004#nt18 SEXOLOGIA 43 4- EDUCAÇÃO SEXUAL E ÉTICA No principio era a filosofia fonte de todo conhecimento. Depois vieram suas filhas, as ciências, que cresceram e se multiplicaram, dando origem a inúmeros campos de estudo e de aplicação. Com o passar do tempo, as inteligentes ciências deram as costas para sua mãe, a sabia filosofia, e, associando-se à técnica, esqueceram do porquê e do para que fim, ficando com o como, quando e onde. O mundo nunca teve tanto cientista para tão pouco filósofo. A ciência passou a inspirar leis morais, mas sua postura experimental não lhe oferece condições para refletir sobre os significados Áticos das suas descobertas. Alguns cientistas refletiram sobre a eticidade dos avanços científicos (1). Assim mesmo, poucos, sendo, inclusive, a maioria originária no âmbito das humanidades, que por sua natureza, não conseguiram romper tão fortemente com sua origem, e, por isso mesmo, passaram a ter sua condição epistemológica, que lhe garante o status de ciência, questionada. (2) Na corrida para a descoberta cientifica, a ética ficou para trás, sendo hoje difícil inclusive defini-la. Valss (3), ao iniciar seu livro sobre o tema, afirma: "A ética é daquelas coisas que todo mundo sabe o que são, mas que não são fáceis de explicar, quando alguém pergunta". Adiante, esse autor define a ética como ciência normativa, descritiva ou especulativa (4). A ética,na sua função deontológica, estuda os principias, fundamentos e sistemas morais, buscando oferecer um tratado de deveres ao ser humano que garanta o seu bem em nível individual e social. A ética, porém, não é pura abstração dissociada de uma realidade existencial. Ela existe e tem significado, na medida em que se fundamenta na estrutura existencial da pessoa humana. E tal fundamentação SEXOLOGIA 44 requer o estudo dos "esquemas de valoração dentro da sociedade e seus sistemas de legitimação" (5). A ética, portanto, na sua dimensão filosófica, oferece a reflexão sobre o significado e finalidade da existência humana, buscando definir a moralidade. A justificação dessa moralidade ou eticidade, porém, encontra-se no diálogo continuo e em confrontação permanente com as contribuições dos diferentes conhecimentos científicos a respeito do ser humano (e). A ciência rodou "quilômetros" de descobertas. O mundo recebeu a influência conflitante de diferentes sistemas morais interessados e desinteressados (7). As sociedades participaram do confronto dicotômico ideológico fundado no marxismo e no positivismo. O ser humano assistiu à falência de muitas verdades universais. Hoje, vive-se uma crise moral sem precedentes, alimentada pela rapidez do avanço científico, cultivada pela convivência diversificada e conflitiva dos sistemas de valores (8). Nunca se soube tanto sobre a pessoa humana, suas funções biológicas, sua história, sua cultura, suas linguagens, seus sistemas sociais, suas funções psicológicas, seus processos cognitivos e afetivos. No entanto, nunca se esteve tão perdido no que se refere à escolha de uma orientação axiológica existencial que possibilite a realização pessoal e social, além de oferecer uma referência transcendental. A dimensão sexual humana constitui hoje o espaço existencial em que o anteriormente descrito mais se evidencia. Se bem vejamos: A sexualidade humana foi resgatada do ocultamento e da patologia, do profano ou do sagrado, pela ciência, a partir do inicio deste século. O impacto que tal acontecimento provocou, no entanto, não foi de todo assimilado pela consciência coletiva. O simples fato de comprovar seu aspecto natural, sua função integradora da pessoa humana e a dismistificação de preconceitos e tabus confunde teóricos, clínicos, educadores, de um modo particular, e a sociedade como um todo. A filosofia, a ciência e a técnica têm por finalidade promover o bem-estar do SEXOLOGIA 45 homem, e assim sendo, todo e qualquer avanço nestas áreas produz intensos efeitos sobre a vida humana. No momento em que a sexualidade e vida se confundem, embora sejam realidades distintas, a ação do desenvolvimento do conhecimento afeta muito mais este aspecto do que outros da dinâmica vital existencial. Para se avaliar a natureza complexa da sexualidade, assim como a sua magnitude no âmbito humano, faz-se necessário: - Apreender que a sexualidade encerra o mistério da vida humana, pois, a partir dela, surge a vida nos seus sentidos estrito e pleno, e em função dela a vida continua após a morte. - Compreender que toda pessoa humana é sexuada e que esta característica integra todas as dimensões humanas, já sejam biológica, psicológica ou social, pois, como define a OMS (9), "saúde sexual é a integração dos elementos somáticos, emocionais, intelectuais e sociais do ser sexual por meios que sejam positivamente enriquecedores e potenciem a personalidade, a comunicação e o amor". - Finalmente, clarificar que a realização humana no âmbito pessoal social e transcendental passa pelo modo próprio que cada pessoa tem de viver o fato de ser sexuado, ou seja, pela sua sexualidade. E isto porque são funções da sexualidade a reprodução, o prazer e a comunicação, sendo esta a mais importante de todas, porque é ela justamente quem potência o amor, única força motriz verdadeira para a realização da reprodução desejada e a obtenção do prazer pleno. A saída da sexualidade a luz que o desenvolvimento científico, técnico e social promoveu e continua promovendo, longe de esclarecer dúvidas, oferecer respostas certas e padrões de conduta desejáveis, ao contrário, destruiu a base axiológica biológica da sexualidade (reducionismo reprodutivo), provocando a exacerbação do hedonismo licencioso biológico (reducionismo do prazer). Como resultado, a confusão e a perplexidade se instalaram. A sociedade ocidental, aberta e pluralista em seus sistemas de valores, reagiu, reforçando antigos tabus e preconceitos, assim como criando novos. Às vezes negando a sexualidade, desacreditando-a, outras SEXOLOGIA 46 vezes, falando demais sobre ela e em nome dela, impedindo ou desvirtuando a expressão natural e espontânea da sua língua, refletindo a tensão existente entre as forças sociais apostas da manutenção e transformação. Cientistas e educadores com base nos conhecimentos sexológicos tentam limpar o campo da sexualidade, os aproveitadores, com seus objetivos mercantilistas prostituídos, sujam-na. Os indivíduos confundidos entre os novos conhecimentos e os velhos afetos, reforçados por falsas e claras utilizações, experimentam o conflito, vivenciam o medo ou se entregam à inconseqüência das condutas irresponsáveis. Hoje, assistimos à "desordem amorosa"(10). Buscam-se orientações, receitas. É o dobrar-se da sociedade à sabedoria da ética, tão negada, agredida e desvalorizada. Atitudes até certo ponto mostram-se ineficazes e estéreis. Por um lado, tem-se o absolutismo autoritário, por outro, o relativismo ortodoxo. Nas negações implícitas de ambos, evidencia-se a radicalização extremada, que impede a vigência de uma valoração universal legitimada na dimensão sócio-cultural especifica, cuja ultima instancia recai no âmbito individual. À pessoa cabe a escolha final entre o tradicionalismo conservador, expresso no "dever ser", universal, fundado em tabus, preconceitos e falsamente legitimado em abstrações, ou permissividade modernosa, normatizada com base no contraponto do "dever ser", que pretende ter legitimidade, baseada em falsos princípios revolucionários. Da norma do "nada pode", passasse à norma do "tudo pode". A filosofia personalista oferece à ética uma reflexão sobre o que é a pessoa humana: "Uma totalidade viva com um passado, um presente e um futuro"(11), cuja autenticidade se expressa na realização do projeto de humanização, que se sintetiza na valorização intrínseca da vida em si mesma. Ou seja, ser pessoa é a vocação natural do ser humano, o que por si só constitui-se num valor supremo, central e eixo básico de critério avaliativo para todos os demais valores. Temos, assim e ,portanto, a pessoa como valor, o qual dá origem a um sistema de valores que é por aquele legitimado, e do qual, por sua vez, originasse as normas morais. Sua legitimidade passa a existir quando confrontadas com o conhecimento científico atualizado, a qual se completa em nível prático-social na medida em que SEXOLOGIA 47 houver a assimilação sócio-cultural e a introdução coletiva consciente e responsável destas e dos valores e principias que as fundamentam. A sexualidade humana é um valor de vida, legitima-se, portanto, na dimensão humana. Ser pessoa é o valor central humano cujo significado é vida e cuja principal forma de expressão é a sexualidade. Conclui-se aqui que o que promove a vida promove a pessoa humana, assim como sua expressão maior de vida: a sexualidade. Nesse âmbito, a cada valor corresponde não outro valor, mas sim antivalores, ou valores de vida em contraposição e antivalores que potenciam a morte. A sexualidade pode ser saudável, prazerosa, cultivada no amor e potenciadora da vida. A maioria das pessoas, ainda apegadas a falsos valores ou encantadas pelo canto da sereia do prazer consumiste,ainda não descobriu essa possibilidade. Assistimos diariamente à exposição clara e objetiva ou sutil e enganadora das questões relacionadas com a vivência da sexualidade. Tal exposição, longe de nos proporcionar uma resposta satisfatória às nossas indagações e conflitos, aumenta- os e torna-os mais complexos e diversificados. O que fica evidente é que nenhum tema na historia da humanidade foi, em qualquer tempo, mais trabalhado, através dos meios de comunicação de massa, desde diferentes tipos de publicação a produções artísticas variadas. Os temas centrais do debate se dividem em dois amplos contextos: (a) reprodução (fecundação, anticoncepção, aborto); (b) prazer (masturbação, virgindade, relações pré-matrimoniais, homossexualidade, parafilias, erotismo, prostituição, pornografia). A abordagem, quase sempre e ainda, caracteriza-se pelo patológico, o inusual, o chocante, evidenciando a origem do conflito dramático, que é, em última instância, o eixo separador da humanidade sexuada, isto é, o ser homem e o ser mulher(12). E o velho padrão de conduta que valoriza e enfatiza o negativo, o feio, a dor, a doença, SEXOLOGIA 48 o pecado, o mal, a morte. Para estabelecer uma ética da sexualidade, tem-se de abandonar esse velho padrão e abraçar o positivo, o belo, o prazer, a saúde, o bem, a vida. Considerando tudo o que foi exposto até aqui a respeito da ética e da sexualidade, como chegar a uma conclusão sobre a ética da sexualidade? Seguindo algumas análises apresentadas até aqui, neste capitulo, podemos chegar a algumas conclusões fundamentais: - A pessoa é um valor em si mesma, legitimado pela vida humana. Como tal, ao mesmo tempo em que se constitui valor, é também critério de valores. - A sexualidade é a principal fonte de expressão da pessoa e, portanto, da vida. Como tal, constitui-se um valor legitimado pela vida. Assim sendo, deve ser humanizada e compreendida como o fator integrador da vida humana personificada. - Cada pessoa é uma totalidade sexuada, única e irrepetível, com um modo próprio de viver, embora contextualizada em um tempo e um espaço definido. Isto significa dizer que, como ser histórico, único, não pode estar atrelada a um sistema moral fechado universal, como ser histórico-social não pode negar sua contextualização espaço-temporal, o que implica, também, a negação de um sistema moral aberto ao relativismo ortodoxo. - A sexualidade como expressão maior da pessoa humana é contingente a todas as implicações que afetam esta. Como tal, portanto, deve ser tratada como o valor integrador do ser humano, buscando sua humanização e personalização. A ética tem a função de oferecer princípios, fundamentos e sistemas morais. Assim sendo, apresentam-se, a seguir, os principias que devem orientar a ética da sexualidade: 1 - O principio da vida humana como base essencial para a realização do projeto de personalização. SEXOLOGIA 49 2 - O principio da vivência de uma sexualidade saudável, integradora das diferentes dimensões humanas e potenciadora da personalidade, da comunicação e do amor. Tendo a vida, a pessoa e a sexualidade como um amálgama que constitui o critério para a apreciação e definição de valores que possibilitem a elaboração de um código ético da sexualidade, cumpre-se o primeiro passo relativo e sintetizado na definição dos principias. Como segundo passo, definem-se os fundamentos que possibilitam a operacionalização dos principias: amor, saúde, liberdade e responsabilidade. No entanto, cairíamos na ineficácia da norma absolutista autoritária que pretende a universalidade, ou no vazio do relativismo ortodoxo, se ficássemos apenas no âmbito da estrutura existencial da pessoa humana, sem dar a devida importância aos valores sócio-culturais e aos valores do conhecimento científico. Toda e qualquer expressão da sexualidade, portanto, deve ser examinada à luz: 1 -Do principio da valorização da vida humana. 2 -Da estrutura existencial da pessoa concreta: - Valores potenciadores de vida (amor, saúde, liberdade e responsabilidade). - Valores sócio-culturais contextualizados. 3 -Do conhecimento científico. A universalidade dos critérios morais está presente nos valores potenciadores da vida e nos valores científicos. A relatividade destes está garantida pelo referencial sócio-cultural e pelo dimensionamento da estrutura existencial da pessoa concreta. Os principias fundamentam a ética, assim como os valores potenciadores da vida, a justificativa e legitimidade desta se realizam na definição dos valores científicos e SEXOLOGIA 50 sócio-culturais. A diversidade e complexidade das condutas sociais exigiriam um compêndio, se fosse nosso objetivo apresentar um código moral que tivesse a abrangência e especificidade para abordar toda a gama de questionamentos éticos que envolvem a sexualidade humana. Ao concluir este capitulo, entretanto, desejo sintetizar, de forma objetiva e clara, a mensagem que norteou a sua elaboração: 1 -O problema da ética da sexualidade se reporta ao âmbito da falsa ou inadequada valorização da vida humana e dos valores que a potenciam. 2 -A ciência já evidenciou o que é a sexualidade, suas funções, peculiaridades, formas de expressão e seu significado no contexto da pessoa humana. Existe, hoje, em nível internacional, o reconhecimento de uma ciência que a tem como objeto de estudo e de um profissional que se dedica ao desenvolvimento teórico e aplicado desta ciência, ou seja, a sexologia e o sexólogo. 3 -Falta, portanto, a divulgação do conhecimento científico, a educação conscientizadora e clarificadora sobre a vida, a pessoa e a sexualidade como valor central existencial, além da formação especializada de profissionais éticos que possam promover a legitimar socialmente tais valores. Em síntese, tudo o que se exige no trato das questões humanas: conhecimento cientifico, conscientização clarificadora e responsabilidade. PARA QUE SERVE A EDUCAÇÃO SEXUAL NA ESCOLA? Avançar em um ensino de Educação sexual de maior qualidade nas escola é, literalmente, caso de vida ou morte. Se por um lado somos diariamente bombardeados por referências sexuais em propagandas e conteúdos de entretenimento, por outro, falar abertamente sobre SEXOLOGIA 51 o assunto com os jovens ainda assusta pais e educadores. Apesar do tabu persistir, e para o desgosto de muitos adultos, esse é um tema que faz sim parte da vida dos jovens. Segundo a pesquisa Mosaico 2.0, de 2016, do Programa de Sexualidade, da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com o laboratório Pfizer, os jovens brasileiros têm iniciado a vida sexual entre os 13 e 17 anos. Infelizmente, essa busca pela expressão da afetividade e por prazer nem sempre é amparada por uma Educação que aborde a sexualidade em seus aspectos biológicos, culturais e sociais, como recomendam os parâmetros curriculares de ciências do Ministério da Educação (MEC). O resultado disso é a continuidade de comportamentos de risco, como o não uso de proteção durante a relação sexual, por exemplo. De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (Pense), em 2015, dos adolescentes do 9° ano do Ensino Fundamental sexualmente ativos, 33,8% disseram não ter usado camisinha na última relação sexual. Apesar disso, 7 em cada 10 afirmaram ter recebido informação a respeito na escola. Ou seja, apenas passar informação não é suficiente. Além disso, a falta de uma reflexão mais ampla sobre a sexualidade humana também favorece a persistência da intolerância e da violência, enfraquecendo o combate ao preconceito, ao abuso sexual infantil e à violência contra a população LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros) e contra a mulher- tópicos fundamentais para o Brasil, que ainda convive com índices alarmantes de crimes dessas naturezas. Avançar em um ensino de Educação sexual de maior qualidade nas escola é, portanto, literalmente caso de vida ou morte. Vários documentos nacionais e internacionais (veja no final do texto) dão suporte a uma Educação sexual que vá além da abordagem reprodutiva. A Orientação Técnica Internacional sobre Educação em Sexualidade, da Organização das Nações Unidas para a Educação, Cultura e Esporte (Unesco), de 2018, indica que o ensino deve servir para que os jovens desenvolvam https://jornal.usp.br/atualidades/adolescentes-iniciam-vida-sexual-cada-vez-mais-cedo/ https://jornal.usp.br/atualidades/adolescentes-iniciam-vida-sexual-cada-vez-mais-cedo/ http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/ciencias.pdf http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/ciencias.pdf https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv97870.pdf https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv97870.pdf http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2018-04/disque-100-registra-142-mil-denuncias-de-violacoes-em-2017 http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2018-04/disque-100-registra-142-mil-denuncias-de-violacoes-em-2017 http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/about-this-office/single-view/news/un_urges_comprehensive_approach_to_sexuality_education/ SEXOLOGIA 52 conhecimento, habilidades e valores éticos para fazer escolhas saudáveis e respeitáveis sobre os relacionamentos, o sexo e a reprodução. O documento propõe a “educação sexual compreensiva”, cujo objetivo é nortear o processo de aprender e ensinar sobre os aspectos cognitivos, físicos, emocionais e sociais da sexualidade. O texto discute temáticas mais científicas, como fisiologia e anatomia sexual e reprodutiva, puberdade e menstruação, reprodução, métodos contraceptivos modernos, gravidez e partos, além das Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs). Mas também trata de outras dimensões da sexualidade, como igualdade de gênero, amor, orientação sexual e identidade de gênero. Ou seja: tópicos antenados com as discussões contemporâneas e que podem afetar a saúde sexual e emocional dos jovens também aparecem como temas a serem discutidos pela escola - caso também de temas como cyberbullying e sexting (trocar mensagens de cunho sexual), por exemplo. O Brasil também tem documentos que apontam na direção de uma abordagem da sexualidade de modo mais amplo. Voltados ao Ensino Fundamental II, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) de Ciências, datados de 1998, já apontavam a necessidade de tratar a temática de maneira transversal, considerando que a sexualidade tem um significado muito mais amplo e variado do que simplesmente a reprodução. Entre as demais temáticas propostas pelo documento estão: levar em consideração o que os estudantes já sabem sobre sistemas reprodutores humanos masculino e feminino e os aspectos psicológicos envolvidos; abordar as emoções envolvidas na sexualidade, como os sentimentos de amor, amizade, confiança, autoestima, desejo e prazer sem julgamentos morais. Os PCNs são sugestões para as escolas, mas não explicitam objetivos de aprendizagem, tarefa da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Apesar da Base Nacional para o Ensino Fundamental apontar temas relacionados à Educação sexual, conceitos de gênero e orientação sexual foram suprimidos do documento, deixando de evidenciar uma dimensão importante do assunto. Entre https://www.nexojornal.com.br/expresso/2018/03/02/Quanto-a-pr%C3%A1tica-de-%E2%80%98sexting%E2%80%99-cresce-entre-jovens-segundo-este-estudo SEXOLOGIA 53 as habilidades a serem desenvolvidas pelos adolescentes previstas pelo texto estão analisar as transformações da puberdade, discutir a eficácia dos métodos contraceptivos e a responsabilidade frente à gravidez precoce e as DSTs. O documento também propõe debater as evidências das “mú ltiplas dimensões da sexualidade humana (biológica, sociocultural, afetiva e ética)”. Já na BNCC referente ao Ensino Médio, ainda em discussão, a temática não aparece de maneira explícita, sendo que apenas a palavra “reprodução” aparece entre os assuntos importantes do eixo Vida, Terra e Cosmos. Termos como sexo, sexualidade, gênero, entre outros, não estão presentes no texto. Por fim, vale ressaltar que, apesar de o assunto ainda deixar a desejar em termos de legislação específica, uma Educação sexual ampla que abrace os aspectos biológicos, mas também sociais e políticos da afetividade e sexualidade humana, é essencial para colocar em prática as competências transversais da BNCC, que prevê a formação dos estudantes para agir com responsabilidade, tomar decisões com base em princípios éticos, cuidar emocionalmente de si e dos outros e acolher a diversidade sem preconceitos. http://porvir.org/entenda-10-competencias-gerais-orientam-base-nacional-comum-curricular/ http://porvir.org/entenda-10-competencias-gerais-orientam-base-nacional-comum-curricular/ SEXOLOGIA 54 REFERÊNCIAS https://www.vittude.com/blog/sexologia-o-que-e/>acesso em 24/04/2020 https://www.todamateria.com.br/o-que-e-sexualidade/>acesso em 24/04/2020 https://amenteemaravilhosa.com.br/voce-sabe-sexualidade/>acesso em 24/04/2020 https://www.todamateria.com.br/o-que-e-embriologia/>acesso em 24/04/2020 https://www.todamateria.com.br/o-que-e-anatomia-humana/>acesso em 24/04/2020 https://www.todamateria.com.br/fisiologia/>acesso em 24/04/2020 http://miguelvaledealmeida.net/wp-content/uploads/2008/06/antropologia-e- sexualidade.pdf>acesso em 24/04/2020 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103- 73312009000300004>acesso em 24/04/2020 http://www.portalmedico.org.br/biblioteca_virtual/des_etic/17.htm>acesso em 24/04/2020 https://www.todospelaeducacao.org.br/conteudo/para-que-serve-a-educacao-sexual- na-escola/>acesso em 24/04/2020 https://www.vittude.com/blog/sexologia-o-que-e/%3eacesso https://www.todamateria.com.br/o-que-e-sexualidade/%3eacesso https://amenteemaravilhosa.com.br/voce-sabe-sexualidade/%3eacesso https://www.todamateria.com.br/o-que-e-embriologia/%3eacesso https://www.todamateria.com.br/o-que-e-anatomia-humana/%3eacesso https://www.todamateria.com.br/fisiologia/%3eacesso http://miguelvaledealmeida.net/wp-content/uploads/2008/06/antropologia-e-sexualidade.pdf%3eacesso http://miguelvaledealmeida.net/wp-content/uploads/2008/06/antropologia-e-sexualidade.pdf%3eacesso http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312009000300004%3eacesso http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312009000300004%3eacesso http://www.portalmedico.org.br/biblioteca_virtual/des_etic/17.htm%3eacesso https://www.todospelaeducacao.org.br/conteudo/para-que-serve-a-educacao-sexual-na-escola/%3eacesso https://www.todospelaeducacao.org.br/conteudo/para-que-serve-a-educacao-sexual-na-escola/%3eacessonesse sentido tem muito a dizer. Através do conhecimento, ela abre o processo de conscientização para que cada indivíduo possa ser livre para decidir e escolher um modo de viver e desfrutar da sua própria sexualidade. A sexualidade a partir do psicológico Do envolvimento e da integração do esquema corporal, da experiência do corpo (biológica), e da socialização, ou seja; de como devemos agir; nasce a dimensão psicológica. O fator psicológico envolvido na sexualidade é caracterizado por pensamentos, fantasias, atitudes e tendências. O aspecto psicológico está envolvido dentro da sexualidade, em relação a como nos sentimos com nós mesmos e com os outros. Ele leva em conta também as emoções, os sentimentos, o prazer, as crenças, o resultado das experiências e a aquisição de conhecimentos. No desenvolvimento da nossa personalidade, desde que nascemos, adquirimos uma visão única de como experimentar e viver a sexualidade. Este significado para nós está sempre variando, sendo diferente a cada fase de nossas vidas. Por isso especificávamos anteriormente o conceito de sexualidades. Nós sentimos de forma diferente uns dos outros, e as emoções despertadas em nós são diferentes, embora a situação seja a mesma. Por esta razão, cada pessoa tem uma maneira diferente de sentir prazer, já que o que faz com que algumas pessoas tenham prazer pode causar descontentamento para outras. Perceber este aspecto implica em um conhecimento sobre o que se sente e o que se quer; em assumir a responsabilidade por ele para poder compartilhá-lo, ou não, nas relações com outras pessoas. Com a análise dos três aspectos que estão envolvidos no conceito de sexualidade, pode-se concluir que: https://amenteemaravilhosa.com.br/pequenos-prazeres-grandes-momentos/ SEXOLOGIA 8 – A sexualidade está presente em todas as fases de nossas vidas, já que somos seres sexuais desde que nascemos até morrermos. Ela não é algo estático, mas bastante dinâmico, que está mudando tanto quanto nós mudamos. – A informação e o conhecimento que adquirimos, de fora para dentro da esfera sexual, influenciam o nosso próprio conhecimento sobre nós mesmos e também a interação que temos com os outros. – Há uma sexualidade exclusiva para todas as pessoas que determina como elas vivem o prazer, mas existem tantas sexualidades quanto existem indivíduos, cada um com suas peculiaridades, que são determinadas pela personalidade, pelo conhecimento e pela experiência individual. Entendendo isso, podemos nos livrar do considerado como “normal” e, assim, levar a sexualidade à nossa própria maneira, sem medo e sem culpa, explorando e desfrutando de nossa sexualidade. “Sexualidade não é o que acreditamos, não é o que nos disseram. Não há uma, mas muitas sexualidades” – Albert Rams – https://amenteemaravilhosa.com.br/eliminar-a-culpa-e-preocupacao/ SEXOLOGIA 9 2- EMBRIOLOGIA, ANATOMIA E FISIOLOGIA O que é Embriologia? A embriologia é uma área da biologia que estuda o desenvolvimento embrionário dos organismos vivos, ou seja, o processo de formação do embrião a partir de uma única célula, o zigoto, que originará um novo ser vivo. O que a Embriologia Estuda? A Embriologia estuda todas as fases do desenvolvimento embrionário desde a fecundação, formação do zigoto até que todos os órgãos do novo ser estejam completamente formados. Também são consideradas as etapas anteriores à gestação do embrião, uma vez que influenciam no processo. Atualmente a embriologia é uma parte da Biologia do Desenvolvimento, e está relacionada com diversas áreas de conhecimento como a citologia, a histologia, a genética, a zoologia, entre outras. Algumas das especialidades da Embriologia são: Embriologia Humana: área que se dedica ao conhecimento sobre o desenvolvimento de embriões humanos, estudando as malformações e doenças congênitas. A embriologia clínica ou médica aos estudos sobre embriões em processos de reprodução assistida; Embriologia Comparada: é a área que se dedica a estudar o desenvolvimento embrionário de diversas espécies animais, comparativamente. É importante para os estudos evolutivos; Embriologia Vegetal: estuda os estágios de formação e desenvolvimento das plantas. Embriologia Humana Tomando como exemplo o desenvolvimento embrionário humano, as fases do desenvolvimento do novo indivíduo são: Gametogênese Na gametogênese são formados os gametas a partir de células especializadas chamadas células germinativas, que passam por várias mitoses e se multiplicam. https://www.todamateria.com.br/gametas-e-gametogenese/ SEXOLOGIA 10 Depois elas crescem e passam pela primeira divisão meiótica, formando células- filhas com a metade dos cromossomos da célula-mãe. Nos gametas femininos a meiose é interrompida antes de se completar, originando um ovócito secundário e um corpo polar primário bem menor. Fecundação Após o ato sexual os espermatozoides lançados dentro do corpo feminino têm de alcançar o ovócito. Quando um espermatozoide consegue penetrar no ovócito secundário é completada a divisão meiótica e o óvulo recém-formado pode ser fertilizado. Na fecundação ocorre a cariogamia, ou seja, a fusão dos núcleos dos gametas e formação do zigoto. Desenvolvimento Embrionário Humano Basicamente em todos os animais o desenvolvimento do embrião abrange três fases principais: segmentação, gastrulação e organogênese. https://www.todamateria.com.br/como-ocorre-a-fecundacao-humana/ https://www.todamateria.com.br/espermatozoide/ https://www.todamateria.com.br/desenvolvimento-embrionario-humano/ SEXOLOGIA 11 Segmentação Logo após a formação do zigoto iniciam as clivagens, fazendo aumentar o número de células. As divisões são rápidas e em cerca de uma semana, no estágio de blastocisto, se fixará na parede uterina para dar continuidade ao processo. Gastrulação Nessa fase aumenta não só o número de células, como o volume total do embrião. São formados os três folhetos germinativos ou folhetos embrionários (ectoderma, mesoderma e endoderma), iniciando a diferenciação celular que originará os tecidos do corpo. Organogênese Na organogênese começam a ser formados os órgãos. Os primeiros são os órgãos do sistema nervoso originados do ectoderma, a camada mais externa. Isso ocorre por volta da terceira semana de gestação. Anatomia A Anatomia Humana é a ciência que estuda as estruturas corporais, como elas se formam e como funcionam em conjunto no corpo (sistemas). O que a Anatomia Estuda? https://www.todamateria.com.br/folhetos-embrionarios/ SEXOLOGIA 12 A anatomia analisa como as estruturas do corpo podem ser afetadas pela genética (alterações cromossômicas que passam aos descendentes), pelo ambiente (doenças) e pelo tempo (modificações da infância à velhice). Além disso investiga os mecanismos evolutivos que provocam modificações e alteram suas funções. Está relacionada com a Biologia, a Medicina, a Fisioterapia, a Enfermagem e outras áreas biomédicas. Termos Técnicos de Anatomia Na anatomia há muitos nomes que podem assustar qualquer iniciante, mas são fundamentais para a melhor compreensão do assunto. Além dos nomes dos órgãos e estruturas, há termos e convenções que são essenciais, são eles: divisão do corpo e posição anatômica, planos, eixos e movimentos anatômicos. Divisão do Corpo Como em outras áreas biológicas, na anatomia o estudo é feito por partes, que pode ser ao nível macroscópico ou microscópico. Há especialistas para cada área, por exemplo: miologista (músculos), osteologista (ossos), entre outros. Por isso que os médicos se tornam especialistas em uma área do corpo que ele estudou melhor, como o pneumologista, que trata dos pulmões. O corpo humano é dividido em grandes grupos: cabeça, pescoço, tronco e membros. Cada um desses é subdividido em partes específicas.Por exemplo, na cabeça estão o crânio (onde se localiza o encéfalo e medula) e a face (olhos, nariz, boca, orelhas). Fisiologia A fisiologia é o ramo da Biologia que estuda o funcionamento dos organismos vivos. A palavra fisiologia é de origem grega e deriva de physis “natureza” e logos “estudo, conhecimento”. SEXOLOGIA 13 A fisiologia envolve a compreensão das funções de células, tecidos, órgãos e sistemas de organismo, bem como a interação entre eles e a importância para a sobrevivência. Para isso, a fisiologia trata do estudo das múltiplas funções químicas, físicas e biológicas que garantem o adequado funcionamento dos organismos. A compreensão do funcionamento dos organismos vivos sempre despertou a curiosidade e interesse dos cientistas. Os primeiros estudos sobre fisiologia foram desenvolvidos na Grécia, há 2.500 anos atrás. A fisiologia pode ser classificada conforme o seu objeto de estudo. A Fisiologia Animal estuda o funcionamento dos organismos animais. Nessa área encontra-se a Fisiologia Humana, voltada aos seres humanos. Enquanto isso, a Fisiologia Vegetal se concentra nos vegetais. Assim, é considerada como um ramo da botânica que estuda os processos que ocorrem em plantas e de suas respostas às variações do meio ambiente. Fisiologia Humana O organismo humano é constituído de diversas partes, que em conjunto garantem o seu funcionamento adequado. O nível de organização do organismo humano é o seguinte: moléculas - células - tecidos - órgãos - sistemas - organismo. Todos os níveis trabalham de modo integrado, através de variadas e numerosas reações químicas. No estudo da fisiologia humana, deve-se reconhecer o nível de organização do organismo: As moléculas são fundamentais para que ocorram as reações químicas e atuam em nível celular; A célula é a menor unidade estrutural e funcional; Os tecidos são grupos de células semelhantes que realizam uma função particular; Quando diferentes tipos de tecidos estão unidos, formam os órgãos com funções específicas e, geralmente com uma forma reconhecível; https://www.todamateria.com.br/botanica-o-estudo-das-plantas/ SEXOLOGIA 14 Um sistema consiste de órgãos relacionados que desempenham uma função comum; Todos os sistemas funcionando de modo integrado compõem o organismo, um indivíduo. SEXOLOGIA 15 3- ASPECTOS SOCIAIS E ANTROPOLÓGICOS A maior parte dos antropólogos sociais e culturais concordarão com a dúvida de que a sexualidade possa, em si mesma, constituir um objeto de estudo . “Em si mesma” significa isolada de instituições e práticas sobre as quais a sexualidade “fala” e que são “faladas” através do idioma da sexualidade. Assim, e para lá do postulado central da antropologia que leva à abordagem dos discursos e práticas humanas em sociedade como formas de significação cultural – donde, variável e relativa consoante as formações sociais – a disciplina tem abordado o que se pode denominar como “sexualidade” no decurso de investigações sobre instituições e práticas outras, a saber, o parentesco, a família e, mais tarde, o género. Mais recentemente, a sexualidade conquistou alguma autonomia como campo de inquérito devido à definição do sexual como facto social atravessado por tensões e conflitos identitários, sobretudo nas sociedades chamadas modernas e ocidentais (ainda que a globalização permita o atenuar dessas supostas fronteiras tipológicas). Quer as identidades de género, quer as identidades com base na orientação sexual têm vindo a ser abordadas pela antropologia contemporânea como arenas de identidade e de poder, correlacionadas e correlacionáveis com outros níveis de identificação, diferenciação e desigualdade, como a “raça”/etnicidade, a classe social, a idade ou o estatuto. Esta tendência vai no sentido de realçar a permeabilidade destes campos uns pelos outros. Assim, é comum fazer análises das metáforas e analogias sexuais nos discursos do nacionalismo ou do colonialismo, por exemplo. Seja como for, as abordagens contemporâneas da sexualidade em antropologia mantêm os pressupostos da disciplina relativos à análise sistémica dos símbolos culturais duma sociedade ou grupo social, do relativismo cultural (a não confundir, todavia, com relativismo moral) e da comparação inter-cultural. Por fim, se o campo da sexualidade tem vindo a autonomizar-se na nossa sociedade – e, por isso, nas ciências sociais – a sua abordagem em antropologia é necessariamente também um esforço de leitura, desconstrução e crítica das abordagens passadas do tema na disciplina. Assim, este texto começa com uma abordagem das perspectivas SEXOLOGIA 16 evolucionistas (curiosa e preocupantemente sobreviventes no senso comum de hoje, sobretudo por via de vários avatares do darwinismo social); segue-se uma abordagem da viragem culturalista (também ela presente no senso comum de hoje, desta feita o de cariz “liberal”). O construcionismo social decorrente da influência do pensamento feminista na antropologia – e os campos correlatos de women‟s studies e gender studies - constituirá a parte seguinte; segue-se-lhe uma aproximação às influências pósestruturalistas, através do exemplo da teoria Queer, que reforça a necessidade de os estudos antropológicos abordarem simultaneamente as dimensões das identidades, das comunidades e da política. 1.Primitivos Sexuais. Esta viagem começa com o evolucionismo nos países centrais industrializados e colonizadores da Europa. É uma história protagonizada por aquilo que hoje se designa – jocosa mas quiçá acertadamente - por homens brancos, burgueses e heterossexuais, fascinados com os Outros subalternos em casa e no ultramar, crentes na possibilidade de evolução do “infantil”, do “primitivo”, do “feminino”, e preocupados com os perigos do “instinto” (essa “natureza” contra a qual a sociedade se edifica) e da “perversão” (esse desvio à norma cultural dominante). São homens preocupados com as raças e a miscigenação, o sexo e a sexualidade, a higiene e o controlo das estruturas sociais no processo de revolução industrial e urbanização e de construção de estados-nação e de impérios coloniais. É também a época do apogeu da crença na Ciência, da divisão clara entre o natural e o social, bem como dos choques provocados pela teoria da evolução. É uma época de um certo arranjo da “coisa familiar” – através da promoção da família nuclear burguesa - e não de outros. É uma época de atenção à “caixa negra” da sexualidade, que o primitivo e o perverso poderiam – assim se julgava - elucidar. É aqui que nasce também a divisão entre sociologia e antropologia - a primeira vocacionada para o estudo dos distúrbios causados nas sociedades industriais pelo desenvolvimento capitalista acelerado, a segunda vocacionada para o estudo dos distúrbios causados pela descoberta dos Outros e pela colonização. Começa a aventura antropológica propriamente dita, isto é, moderna. Tomemos como exemplo a mulher da época vitoriana. Ela é ao mesmo tempo posta num pedestal e mais SEXOLOGIA 17 reprimida que no século XVIII, devido ao afastamento da economia para fora do lar. A casa passa a ser vista como refúgio do mundo da competição masculina. Numa ambivalência cultural entre a imagem de “anjo” e de “prostituta”, a liberdade pessoal e sexual das mulheres das classes média e alta estava sujeita a um forte controlo social. Mas com o aumento do nível de vida e da idade do casamento, aumenta o número de mulheres solteiras e as dúvidas em relação à procriação. Os anos da década de 1850 viram aparecer os movimentos pelos direitos das mulheres e a lei do divórcio em vários países. Ao mesmo tempo dá-se o debate sobre o casamento “matriarcal” nos incipientes meios antropológicos. O modelo ideal de casamento seria o vitoriano,caracterizado por McLennan em Primitive Marriage (1865) como apropriação das mulheres por homens específicos e pelo conceito de fidelidade conjugal. O casamento poliândrico primitivo surgia assim como metáfora da prostituição do século XIX e da depravação moral das mulheres. A evolução da promiscuidade e da poliandria era vista como sendo a evolução das “ideias” de parentesco, esposa e propriedade. Autores como McLennan, Lubbock, Tylor e Spencer não concordaram entre si nos pormenores das suas ideias sobre “a posição das mulheres”, mas todos eles demonstravam uma tendência para ver o casamento em termos de controlo da sexualidade humana, tomando por adquirida uma qualquer condição primeva de promiscuidade, seguida de formas matrilineares e, por fim, desembocando na monogamia vitoriana Não se tratava de um campo de consensos absolutos. Muito do que estes autores diziam podia ser interpretado como contrário ao status quo, como a ideia de “from status to contract” de Maine podia ser vista com anti- patriarcal. A prova está no facto de muitas (proto)feministas terem usado as obras dos evolucionistas para defenderem as suas ideias. Mas a perspectiva essencialista era comum a ambos: posto de lado o patriarcado divinamente instituído, a civilização só se atingia com o controlo dos instintos. E o instinto rei era o sexo. Os instintos que teriam no passado sido necessários para a conservação da raça, dariam lugar a hábitos e a instituições, resultando na sanção social contra o homem que abandonasse a mulher e os filhos. O matrimónio acabaria, assim, por surgir fundamentado na família e não o contrário. A narrativa do evolucionismo não é linear ou única. Se já o iluminismo dera conta da tensa ambiguidade entre Bom e Mau SEXOLOGIA 18 selvagem, o período do evolucionismo dá conta da ambiguidade entre legitimação extra-social da ordem estabelecida e contestação da mesma, quer no campo do género e da sexualidade, quer no campo das relações de classe. O que une argumentos e posturas ideológicas e apropriações diversas é, no fundo, a crença na racionalidade científica e na capacidade de explicar origens e mecânicas de instituições e corpos. É o que acontece com a biologia, com a sexologia, mas também com novos determinismos históricos. O século XIX teve dois momentos fulcrais para o surgimento de um pensamento do e sobre o sexual. O primeiro foi o impacte do Darwinismo, com a ideia de que a selecção sexual (a luta pelos parceiros) agia independentemente da selecção natural (a luta pela existência), de modo que a sobrevivência dependeria da selecção sexual. Assim se instituiu a biologia como o caminho privilegiado para desvendar os mistérios da natureza. O segundo momento foi a publicação de Psychopathia Sexualis de Krafft-Ebing, onde surgia o discurso do pervertido. Um dos principais papéis da sexologia primeva terá sido, segundo Weeks (1987)2 traduzir em termos teóricos aquilo que se entendia como problemas sociais emergentes e concretos: como definir a infância? Como definir a sexualidade feminina? Como lidar com as mudanças nas relações entre os géneros? Como perseguir legalmente a “anormalidade”? Biologia e medicina são chamadas para a exploração meticulosa dos corpos e da espécie, passando rapidamente da descrição para a prescrição. Na antropologia, a atenção vira-se para as origens das instituições. Em 1870 Morgan publicava Systems of Consanguinity... e, sete anos depois, Ancient Society; visita Darwin em 1871 e corresponde-se com Spencer, Bachofen e Maine. Para ele o desenvolvimento do conceito de propriedade na mente humana estaria ligado à implantação da família monogâmica. Uma cópia da obra chegou às mãos de Marx que, antes de morrer, encarregou Engels de terminar o manuscrito que iniciara com base em notas de Ancient Society. Ao fazer notar que quando se deu a suposta mudança da linha feminina para a masculina, tal teria sido prejudicial para a posição social da mulher, Morgan oferecia a Engels argumentos para explicar como o desmoronamento do direito materno constituíra a grande derrota histórica do sexo feminino: «A família moderna contém, em germe, não apenas a escravidão como também a servidão, pois, desde o começo, está relacionada com os serviços na SEXOLOGIA 19 agricultura. Encerra em miniatura todos os antagonismos que se desenvolvem, mais adiante, na sociedade e no seu Estado» (1976 (1884):77)3 . Para Engels, o triunfo definitivo da família monogâmica baseava-se no predomínio do homem e tinha como finalidade expressa procriar filhos de indiscutível paternidade, permitindo a regulação dos processos de herança de bens do pai. A monogamia não significaria, pois, a reconciliação entre homem e mulher, argumento que reforça com um eloquente trecho de A Ideologia Alemã (1845) em que Marx diz que «a primeira divisão do trabalho é a que se faz entre o homem e a mulher para a procriação dos filhos». Para Engels e Marx, o primeiro antagonismo de classes coincidiria com o antagonismo homem-mulher e a opressão do sexo feminino teria sido a primeira forma de opressão de classe. Marx avança, no primeiro volume de O Capital, com a ideia de que a soma dos meios de subsistência necessários para a produção da força de trabalho tem de incluir os meios necessários para a substituição dos trabalhadores, isto é, as crianças (1979 (1867):340)4 . A divisão do trabalho teria surgido, primeiramente, como natural, baseada no fundamento fisiológico. Mas na medida em que a maquinaria vai dispensando o poder muscular, o trabalho das mulheres e das crianças é o primeiro a ser procurado pelos capitalistas; e o valor da força de trabalho era determinado não só pelo tempo de trabalho necessário para manter o trabalhador adulto, mas também pelo tempo de trabalho necessário para manter a família; a população excedentária torna-se numa condição de existência do modo de produção capitalista, criando-se assim o célebre “exército de reserva industrial”. Este exército, durante os períodos de estagnação aligeira o peso do exército de trabalho activo e durante os períodos de sobreprodução controla as suas pretensões. Se, após a revolução darwiniana, é na economia política de Marx que vamos encontrar a primeira crítica à natureza construída e mutável das instituições familiares, é com Freud que se vai dar o primeiro grande choque sobre a concretização nos indivíduos dos efeitos da estrutura social. A importância da psicanálise reside no facto de desafiar directamente os conceitos convencionais de sexualidade e género, questionando a centralidade da reprodução sexual e a rígida distinção entre homens e mulheres. Com a psicanálise pode ver-se a sexualidade SEXOLOGIA 20 como algo mais do que instintos que agitam o corpo; é uma força construída no processo de entrada no domínio da cultura, da linguagem, do significado. Freud resumia assim os elementos chave do seu conceito de sexualidade: «a) A vida sexual não começa só na puberdade, mas sim com manifestações logo a seguir ao nascimento; b) é necessário distinguir entre os conceitos de “sexual” e “genital” (...); c) A vida sexual inclui a função de obtenção de prazer a partir de zonas do corpo – uma função que subsequentemente é posta ao serviço da reprodução. É frequente as duas funções não coincidirem completamente» (An Outline of Psychoanalysis, S. E. (1940) (16): 152, tradução livre). Período de conturbados debates disciplinares e políticos, o século XIX e os inícios do século XX podem ser resumidamente descritos como períodos de espanto por parte dos observadores autorizados (cientistas, homens, ocidentais) face a uma mescla de subalternidades políticas e “bizarrias” biomédicas: crianças, mulheres, homossexuais, perversos, primitivos. Este afã classificatório permitia, simultânea e ambiguamente, a prescrição da normalidade e a crítica danormalidade, como fica patente na comparação entre evolucionistas, marxistas e psicanalistas. Uma ambiguidade da qual ainda não nos libertámos completamente. Os primórdios da antropologia marcariam debates duradouros: a oposição natureza / cultura e entre explicações biológicas e explicações sociais; a forma como processos culturais e individuais se determinam ou ligam; e a questão do género e da sexualidade como, simultaneamente, “totem” e “tabu”: a origem por excelência da humanidade e das suas instituições, mas também a área da mais extrema regulação. 2.Alteridades Sexuais. B. Malinowski – o “pai fundador” da moderna antropologia social britânica - viria a reconhecer Totem e Tabu de Freud como demonstrativo da importância do sexo na sociedade. Embora nunca tivesse abandonado por completo a perspectiva evolutiva, ele viria a ser o principal proponente da ideia de que as culturas “primitivas” e a diferença cultural provam não o comportamento dos nossos antepassados mas sim a variedade de desenvolvimentos sociais: o relativismo surge a par do privilegiar do cultural sobre o natural. SEXOLOGIA 21 A cultura torna-se assim numa série de diferenças incomensuráveis e cada sociedade impõe-se aos seus membros de modo total (na esteira da teoria sociológica de Durkheim). Mas com o relativismo de Malinowski co-existe um modelo das necessidades biofisiológicas humanas, cuja solução estaria visível nas instituições familiares. Malinowski tenta resolver a tensão epistemológica entre o sociologismo de Durkheim e a psicanálise Freudiana, mas viria a afstar-se da última sobretudo pelo carácter transcultural da teoria do complexo de Édipo. Malinowski procurava características gerais da natureza humana que pudessem assumir diferentes formas culturais. Em Sex and Reppression, o antropólogo explica como o complexo de Édipo foi descoberto numa sociedade de filiação patrilinear e no seio de uma só classe. Ora, em Trobriand, local do seu profuso trabalho de campo, a filiação é matrilinear, a estratificação social diferente da divisão de classes. Ao tipo europeu de família opunha-se uma família em que o homem não é considerado como progenitor dos filhos da esposa, dada a ignorância dos indígenas em matéria de fisiologia da concepção, sendo o irmão da mãe o homem a quem se respeita em termos de autoridade. Assim, a ambivalência de sentimentos do filho para com o pai só teria uma importância mínima, dando-se antes uma repartição desse sentimento por dois homens que cumprem funções inversas e complementares. Malinowski conclui que o complexo de Édipo não é um fenómeno universal. Mas o modelo Trobriand é uma transformação lógica do freudiano: o desejo reprimido de matar o pai e de casar com a mãe passa a ser a tentação de casar com a irmã e matar o tio materno (The Father in Primitive Psychology, 1927:80-1 in Pannoff 1974:586 ). Se o método comparativo leva Malinowski a pôr em causa universais de base biofisológica e psíquica, Margaret Mead procurá na comparação a fonte para a transformação e pedagogia sociais no Ocidente - tornar o exótico familiar e o familiar exótico, como sói dizer-se. A antropologia culturalista americana teve origem numa rejeição explícita da teoria dos instintos e de explicações biológicas para fenómenos sociais, como reacção à eugenia racial e racista. Em Coming of Age in Samoa7 , Margaret Mead procura a negative instance sobre as teorias da adolescência SEXOLOGIA 22 americana da sua época e, assim, procura também definir o “sexual” (incluindo o que hoje entendemos por género) como social. A conclusão a que pretende chegar é a de que onde, por razões culturais, não haja noção de pecado e culpa, e onde os conflitos edipianos estejam minimizados, bem como se verifique um desenvolvimento da arte do sexo, os traumas da transição adolescente não se fazem sentir. Assim, a plasticidade humana permitiria que, através da mudança na educação, aquilo que foi socialmente formado possa ser socialmente modificado. Talvez o lado mais positivo da pesquisa de Mead tenha sido mostrar que o género no Ocidente não é nem natural nem o resultado cumulativo de uma evolução humana geral. Mead, aliás, partiu para o terreno com uma pergunta explícita: «A questão que eu me colocava ao partir para Samoa era: os problemas que sofre a nossa adolescência são intrínsecos à natureza da adolescência ou à nossa civilização? A adolescência em condições totalmente diferentes apresenta-se de modo igualmente diferente?» (Mead 1963 (1928):373). As variáveis que ela enumera definem um campo do comportamento sexual comparativo: educação sexual precoce ou tardia, experiência sexual igualmente precoce ou tardia, precocidade encorajada ou não, segregação dos sexos ou educação mista, divisão do trabalho entre os sexos ou actividades comuns. Em Sex and Temperament… (1935) a antropóloga liga a questão da personalidade-base e do temperamento à atribuição sexuada das emoções. Entre os Arapesh nota que tanto homens como mulheres apresentam personalidades que ela chama maternais nos seus aspectos parentais e femininas nos seus aspectos sexuais. Diz não ter encontrado a ideia de que o sexo seja uma força impulsionadora forte, quer para os homens quer para as mulheres. Pelo contrário, entre os Mundugumor verificou que tanto homens como mulheres se desenvolviam como indivíduos duros, agressivos e “positivamente sexuados”, com um mínimo de aspectos maternais da personalidade. Entre os Tchambuli julgou encontrar uma inversão das atitudes sexuais da nossa cultura, com as mulheres dominando, “impessoais”, “gestoras”, e os homens como menos responsáveis e mais dependentes emocionalmente (1935). Todavia, para Mead o limite da diversidade é a fronteira anatómica entre os sexos, o SEXOLOGIA 23 que já se notava em Malinowski. Isto porque nenhum dos dois consegue sair das fronteiras da família biológica como unidade básica natural e social, na qual uma divisão do trabalho entre homens e mulheres é necessária e inevitável (Weeks 1985: 107)8 . Isto não retira valor à principal conquista de Mead: para comprovar a plasticidade humana, ela demonstra que as emoções sexuadas são construções sociais. Fê-lo perante uma conjuntura, no Ocidente, de surgimento da adolescência e da absorção das mulheres no mercado de trabalho no período da segunda grande guerra. A distinção entre sexo e género era, a partir daqui, possível: «É-nos permitido, a partir de agora, afirmar que os traços de carácter que qualificamos como masculinos ou femininos são (...) determinados pelo sexo de forma tão superficial como a roupa (...) resultado de um condicionamento social (...) Admitida a plasticidade da natureza humana, de onde provêm as diferenças que constatamos entre os tipos de temperamentos consignados pelas diversas sociedades, seja a todos os seus membros, seja respectivamente a cada sexo? (...) esta diversidade assenta sobre o quê? Já não e possível, à luz dos factos, considerar que traços como a passividade ou a agressividade sejam determinados pelo sexo do indivíduo (...) A nossa hipótese não é mais do que um prolongamento da que avança Ruth Benedict em Patterns of Culture (...) O mesmo se passa com os temperamentos “masculino” e “feminino” no plano social. Certos traços comuns aos homens e às mulheres são consignados a um sexo e recusados a outro» (s.d. (1949): 312-317)9 . A partir de Mead a antropologia estava pronta para o salto qualitativo do feminismo e do construcionismo social. 3.Construções Sexuais. Segundo Carole Vance (1991)10 a teoria do construcionismo social desafiou os modelos antropológicos tradicionais, tendo dado origem a uma explosão de pesquisas sobre a sexualidade a partir de meados dos anos setenta. A distinção entre sexo e género é o ponto de partida fundamental. Baseada na distinção que a antropologiapromoveu entre biologia e cultura, e elaborada a partir dos anos sessenta pela teoria crítica feminista, a separação conceptual entre sexo e género dá a entender que o segundo é a elaboração cultural do primeiro. A variação cultural SEXOLOGIA 24 (e histórica) dos papéis femininos e masculinos, bem como dos traços de personalidade-tipo tidos como normais para cada sexo em cada cultura trazia o determinismo cultural para o campo da sexualidade. Em 1981, já amadurecido o movimento feminista em antropologia e genericamente aceite o campo de estudos sobre género, Ortner e Whitehead, abrem Sexual Meanings11 dizendo que: «...os traços naturais do género, bem como os processos naturais do sexo e da reprodução, são apenas um pano de fundo sugestivo e ambíguo para a organização cultural do género e da sexualidade. O que o género é, o que os homens e mulheres são, e o tipo de relações que acontecem entre eles – todas estas noções não são simples reflexos ou elaborações de “dados” biológicos, mas sim (em grande medida) produtos de processos culturais e sociais» (1981:1, tradução livre). O género tem que ser visto no cruzamento de várias instituições e relações sociais permeadas por esquemas de identidade e diferença, sendo a diferenciação um processo intimamente ligado ao poder. Marilyn Strathern12, por exemplo, entende «...por género as categorizações de pessoas, artefactos, eventos, sequências etc., que se baseiam numa imagética sexual, nos modos como o carácter distintivo das características macho e fêmea concretizam as ideias das pessoas acerca da natureza das relações sociais» (1988:ix, tradução livre). O androcentrismo de que antropologia foi acusada pelas mulheres antropólogas e pelas e pelos feministas impediu que se ouvisse a voz das mulheres nas etnografias, e impediu também a diversidade de vozes masculinas ou qualquer visão dissidente da homologia masculino / público / político – em suma, da masculinidade hegemónica como modelo central excludente de mulheres, homossexuais e de homens heterossexuais com traços de identidade não centrais (negros, pobres, etc.). O género (e a sexualidade) é uma área de estudos e do real que introduz significativa novidade epistemológica. Ao contrário da classe ou das instituições sociais como a família, o género cruza-as, por assim dizer, transversalmente. Não só é um corte nas metáforas verticais de estrutura, hierarquia ou níveis, como constitui também um tema de recente e difícil introdução nas ciências sociais, porque de difícil introdução na própria vida social. SEXOLOGIA 25 Isto torna-se evidente quando se pensa que em relação à “raça” quase ninguém pensa hoje que é na cor da pele (mas sim no racismo) que reside em última instância a causalidade das desigualdades nas relações “raciais”; mas no respeitante ao género, é culturalmente difícil não cair na tentação de ver no sexo e no corpo a raiz do género. Por isso o género é uma das últimas fronteiras da reflexividade crítica das ciências sociais. Constituinte de identidades sociais e pessoais, o género não cria, porém, grupos sociais, mas sim categorias. O livro colectivo editado por Rayna Reiter em 197513 foi de certo modo a obra fundadora do feminismo enquanto teoria crítica na antropologia. O artigo da colectânea que maior influência viria a ter na vaga feminista seria o de Gayle Rubin14 que se propunha perceber o sistema de relações de opressão da mulher sobrepondo as grelhas analíticas de Freud e Lévi-Strauss (sobretudo a partir do contributo de Lacan) de maneira análoga à que Marx fizera com os economistas políticos clássicos. Para Rubin, explicar a utilidade da mulher para o capitalismo é diferente de dizer que esta utilidade explica a génese da opressão da mulher. Ou seja, há um elemento histórico e moral, como o próprio Marx dissera, na determinação do valor da força de trabalho que é diferente do caso das outras mercadorias. Baseando-se então no facto de Engels ter distinguido entre relações de produção e relações de sexualidade, ela passa a explicar o que entende por “sistema de sexo/género” (reconhecendo que outros nomes possíveis seriam “modo de reprodução” ou “patriarcado”): «Um sistema de sexo/género não é apenas o momento reprodutivo de um “modo de produção”. A formação da identidade de género é um exemplo de produção no reino do sistema sexual. E um sistema de sexo/género envolve mais do que as “relações de produção” (a reprodução no seu sentido biológico)» (1975:167, tradução livre). É assim que se deve procurar na área do parentesco o locus para a reprodução do sistema de sexo/género, pois os sistemas de parentesco podem ser muitas coisas, mas aquilo que reproduzem de facto e de que são feitos são, antes do mais, formas concretas de sexualidade organizada. Para Rubin, a divisão do trabalho pelo sexo seria – na esteira da teoria estruturalista do tabu do incesto - um tabu contra a semelhança SEXOLOGIA 26 entre homens e mulheres. Este tabu, exacerbando as diferenças biológicas entre os sexos, criaria o género. Este tabu é-o também em relação a tudo o que não seja o emparelhamento de homem e mulher: «Em termos gerais, a organização social do sexo assenta no género, na heterossexualidade obrigatória e no constrangimento da sexualidade feminina» (1975:179). Os indivíduos seriam, então, “engendrados” para garantir o casamento. A heterossexualidade pode ser vista como um processo instituído, e o tabu do incesto pressupõe um tabu anterior sobre a homossexualidade Seguindo o projecto de uma articulação entre Freud e LeviStrauss via Lacan, a dinâmica do sistema poderia ser resumida assim: «Os sistemas de parentesco requerem uma divisão dos sexos. A fase edipiana divide os sexos. Os sistemas de parentesco incluem conjuntos de regras que governam a sexualidade. A crise edipiana é a assimilação dessas regras e tabus. A heterossexualidade obrigatória é o produto do parentesco. A fase edipiana constitui o desejo heterossexual. O parentesco assenta numa diferença radical entre os direitos de homens e mulheres. O complexo de Édipo confere direitos masculinos ao rapaz e força a rapariga a acomodar-se a menos direitos» (1975:198, tradução livre). A teoria crítica feminista dá entrada na antropologia através da crítica da ausência das mulheres na etnografia. A questão assenta no poder: os informantes são homens porque mais próximos do poder público e político no sentido institucional. Após o lançamento, pelo feminismo, da ideia de que “o privado é político”, a antropologia registou uma explosão de obras escritas por e sobre mulheres e uma reavaliação das áreas do parentesco e família, pessoa e emoções, corpo, género e sexualidade. Todavia, à excepção de Rubin, a maior parte dos estudos feministas partilhava o pressuposto da heterossexualidade natural. E se se atacava o patriarcado, se se procurava encontrar a sua origem e mecanismos de reprodução - sobretudo explicitando os mecanismos de opressão da mulher e a quem serviam - esqueceu-se também a análise específica da masculinidade. No volume de Ortner e Whitehead, dedicado a uma análise mais cultural do que social dos sentidos de género e sexualidade enquanto símbolos, encontramos explicitadas, na maior parte SEXOLOGIA 27 dos casos etnográficos, oposições binárias metafóricas como Natureza/Cultura ou auto-interesse/bem social, para definir a “linguagem” do género. Em quase todos os casos se verifica que: 1) os homens surgem definidos por categorias de status ou papel social; 2) ao passo que as mulheres são definidas por e em relação aos homens e/ou parentes; 3) os mesmos eixos que separam as mulheres dos homens atravessam as categorias de género no seu interior e 4) em todos se dá a separação conceptual entre um mundo dos homens e um mundo das relações homens-mulheres. Yanagisako (1988)15afirmaque a separação dos factos biológicos do sexo dos factos culturais do género abriu caminho para o tipo de projecto delineado por Ortner e Whitehead: a interpretação do género como um sistema de símbolos e significados influenciadores e influenciados de e por práticas e experiências culturais. O género é visto como a elaboração de uma diferença biológica e levou às dicotomias público/doméstico (Rosaldo 1974), natureza/cultura (Ortner 1974), produção/reprodução (Harris e Young 1981)16. Para estes autores, a cópula heterossexual, para eles natural, cria parentesco e género junto com bébés. Mas Yanagisako, pegando também no exemplo de como quando analisamos a “raça” já não achamos que a diferença física tenha de facto importância, avança com três questões problematizadoras: 1) Como é que as pessoas são constituídas como sujeitos com género em sistemas culturais específicos?; 2) Como é que as categorias de género são definidas? (não podemos crer que resultem em toda a parte da mesma diferença); 3) Quando o sexo é a base do género devemo-nos perguntar como é que este sistema auto-referencial é construído (1988:4). Temos que explicar, e não pressupor, as práticas através das quais um sistema de diferenças entre pessoas é feito de modo a parecer invariável. Agora que questionámos o nosso modelo de base natural do sexo, diz ela, e começámos a explorar as práticas culturais através das quais as pessoas são sexualmente constituídas como sujeitos sexuais, temos que salvaguardar o carácter gendered dessas práticas. Não podemos deixar de lado o sexo nas nossas análises de género porque ele é o espaço discursivo a partir do qual iniciamos estudos comparativos de género. Veremos adiante como esta questão é importante hoje. Strathern (1988) também acha que algo falhou na estratégia dos anos setenta de desconstrução dos papéis SEXOLOGIA 28 sexuais, porque “macho” e “fêmea” permaneceram como pontos de referência fixos. No Ocidente, de facto a domesticidade assemelha-se à infantilidade e esta à ausência de autonomia, porque está fora da esfera do salário, do local de trabalho, da produção cultural. Mas noutros sítios pode não ser assim. As noções de “Pessoa” tornam-se fulcrais para Strathern, que diz que o sexo demarca diferentes tipos de agência, de acção social subjectivada. Por isso critica agora a ideia de “construção social”. Caberia a todo um caleidoscópio teórico subsumível à expressão “teoria da prática” tentar ultrapassar as limitações da ideia dos papéis sexuais e do simples construcionismo. Para Collier e Yanagisako (1987)17, as abordagens da prática focam em pessoas reais fazendo coisas reais; isto combina-se com a noção de que o “sistema” tem um efeito poderoso na acção humana; este sistema é visto como um sistema de desigualdades, constrangimento e dominação; presta atenção à construção cultural dos conceitos de feminilidade e masculinidade, pelo que o sistema de dominação deve ser entendido como sistema cultural; tal como a teoria feminista, a teoria da prática questiona a partição do sistema em base e superestrutura, sociedade e cultura, doméstico e político, produção e reprodução, como correspondendo a determinantes e determinados; e, por fim, estabelece uma preocupação política, tentando perceber como a prática reproduz o sistema e como este pode ser mudado pela prática. Os estudos de género e sexualidade na antropologia contemporânea têm, pois, sido permeados quer pela teoria da prática (derivada de críticas ao marxismo ortodoxo), quer por modelos de relação entre estrutura e prática (por exemplo, as obras de P. Bourdieu18 ou A. Giddens19), quer pela análise contextual do self, da acção pessoal e da intersubjectividade. Para Connell 20, que sintetiza estas tendências, a divisão do trabalho, a estrutura do poder e a estrutura da cathexis (sentimentos e emoções) seriam os principais elementos de qualquer Ordem do Género ou Regime do Género analisável por um cientista social. A banalizada expressão “construção social” deve ser usada com cuidado. Na posição construcionista, tal como nas teorias da socialização, as categorias de género parecem pressupor uma dicotomia de género incontornável, a qual só poderá, logicamente, assentar sobre uma diferença biológica de tipo essencialista. Ora, a diferença biológica é ela mesma histórica e culturalmente relativa, como SEXOLOGIA 29 demonstrado pelos estudos sobre ciência (Laqueur 199021). O construcionismo corre o risco de nos deixar com as categorias dicotómicas de homens e mulheres; parte do princípio de que existem indivíduos unitários mas por (con)formar através dos papéis de género e da socialização; recusando o sexo, afasta-se de uma análise da incorporação e da constituição do corpo (não abordando como o sexo é construído); ao localizar o género na pessoa unitária, reproduz ideias ocidentais sobre o indivíduo e a lógica mercantil; e por fim as relações entre homens e mulheres são vistas em termos de entidades polarizadas e fixas (ver Cornwall e Lindisfarne 1994 22). 4.Desconstruções Sexuais. Nas sociedades cosmopolitas do Ocidente, sobretudo no mundo anglo-saxónico, o século XXI começou marcado pela ideia “queer”, num propósito explícito de recusar o alinhamento segundo categorias específicas de identidade. Esta posição é desde logo colocada como antagónica de categorias mais estáveis e reconhecíveis, como „lésbica‟ ou „gay‟. Os estudos gay e lésbicos – uma área surgida na esteira dos women‟s studies - seriam alvo de um processo de queering, processo esse que nos é apresentado como constituindo um violento debate, entre os que dizem que esse processo pretende acabar com os últimos traços de uma coerência de género opressiva, e os que criticam o queer como reaccionário e mesmo não-feminista. Propondo uma definição, Jagose23 diz que «queer descreve os gestos ou modelos analíticos que dramatizam as incoerências nas relações supostamente estáveis entre sexo cromossomático, género e desejo sexual» (1996:3). No entanto, esta definição é indissociável de uma tomada de posição epistemológica: «A teoria queer...desenvolvese a partir de um reordenamento gay e lésbico das representações pósestruturalistas da identidade como constelação de posições múltiplas e instáveis” (1996:3). O problema está pois colocado – a meu ver - como uma tensão: como é possível subscrever a maleabilidade identitária a partir de movimentos e teorias que tentaram validar a existência (e definição) de identidades minoritárias? Sobretudo, quando esse carácter minoritário (relacionado com a marginalização, a falta de poder, etc.) parece necessitar quer do paradigma “étnico”, quer de um certo grau de “essencialismo estratégico”? De facto, os debates SEXOLOGIA 30 sobre o que constitui a homossexualidade (à semelhança daqueles sobre o género) podem ser vistos em termos de uma negociação entre posições essencialistas e posições construcionistas. Enquanto as primeiras encaram a identidade como natural, fixa e inata, as segundas entendem-na como fluida e como efeito do condicionamento social e dos modelos culturais disponíveis. A posição da autora – e a minha – é que a identidade não é uma categoria empírica demonstrável, mas sim o produto de processos de identificação em ambiente de relações de poder desigual. A posição construccionista, subscrita pela maior parte dos estudos gay e lésbicos tem, segundo a autora (a meu ver, de forma algo simplificadora) a sua raiz no trabalho de Foucault. Este argumentava que a homossexualidade era necessariamente uma formação moderna porque, embora anteriormente existissem actos sexuais entre pessoas do mesmo sexo, não haveria uma categoria de identificação correspondente. A noção do homossexual como um tipo identificável de pessoa emerge na segunda metade do século XIX, definido fundamentalmente em termos daquelesmesmos actos sexuais. Passava-se assim do sodomita como aberração temporária para o homossexual como uma espécie. o epítome do próprio género. O pensamento “queer” tem uma relação estreita com o pósestruturalismo, ao propor a substituição de uma política da identidade por uma política da diferença; a retórica da diferença substituiu o ênfase mais assimilacionista e liberal na similaridade com outros grupos. No descentramento final do sujeito cartesiano, a identidade foi reconceptualizada como mito ou fantasia cultural. A tese de Althusser de que não pré-existimos como sujeitos mas somos constituídos enquanto tais pela ideologia, bem como as ideias de Foucault seriam desenvolvidas, na área do pensamento social sobre a sexualidade, por Judith Butler. Ela procura sofisticar o argumento sobre as operações do poder e da resistência de modo a demonstrar os modos como as identidades marginalizadas são cúmplices dos sistemas identificatórios que procuram contrariar. Butler argumenta que o feminismo trabalha contra os seus propósitos explícitos quando toma as “mulheres” como categoria âncora, pois o termo “mulher” não significa uma unidade natural mas SEXOLOGIA 31 uma ficção regulatória. E em vez de naturalizar o desejo pelo mesmo sexo – a estratégia usual dos movimentos gay – Butler contesta a verdade do género em si, argumentando que qualquer compromisso com a identidade de género funciona em última instância contra a legitimação dos sujeitos homossexuais. O género é, para Butler24, uma ficção cultural, o efeito performativo de actos reiterativos. A razão porque não há identidade de género por detrás das expressões do género é que a identidade é performativamente constituída pelas próprias expressões que são vistas como sendo o seu resultado. Butler advoga a contestação dessa naturalização através da repetição deslocada da sua performatividade, chamando assim atenção para os processos que consolidam as identidades sexuais. Uma das estratégias recomendadas é a repetição paródica das normas de género. Foca, pois, no drag (o qual seria, a meu ver, a expressão icónica da própria atitude queer). O género é, então, performativo, não porque seja algo que o sujeito assume deliberadamente, mas porque, através da reiteração, consolida o sujeito. Não se trata, todavia, do mesmo que simplesmente “vestir roupa”: o constrangimento é o pré-requisito da performatividade. Embora esta ressalva tente ultrapassar o carácter difuso da localização do poder a la Foucault, não indica, a meu ver, com a clareza suficiente, quais as instituições e lugares de poder onde o género e a sexualidade são formados e reproduzidos. Mais do que de transformações em instituições sociais como a família, a teoria queer advém de transformações no activismo social permeado pela própria teoria social. É o caso de novas formas de fazer política sexual e, simultaneamente, de entender as identidades (ou a fragilidade destas): exemplo disso será o discurso sobre o HIV/Sida, que questionou o estatuto do sujeito no discurso biomédico; enfatizou as práticas sexuais e não as identidades; promoveu uma política de coligação que repensou a identidade em termos de afinidade e não de essência; e entendeu o discurso como uma realidade não separada da prática ou de segunda ordem (Jagose 1996). Se é comum pensar que Queer funciona sobretudo como modismo para distinguir gays de “velho estilo” dos de “novo estilo”, é certo que o termo pode ser usado para descrever uma população aberta, cujas características partilhadas não são a identidade mas um posicionamento anti-normativo em relação à sexualidade. Como no início do liberacionismo gay, queer confunde as categorias SEXOLOGIA 32 que autorizam a normatividade sexual; mas difere de “gay” porque evita a ilusão de que o seu projecto seja inventar ou desvelar uma qualquer sexualidade livre, natural ou primordial. Ao confrontar já não apenas os essencialismos das estruturas sociais e do conhecimento, mas também o essencialismo estratégico dos movimentos identitários sexuais, a teoria queer lança como urgente a necessidade de repensar as noções de identidade, comunidade e política. Curiosamente, são estas as noções que constituem o próprio objecto da atenção antropológica contemporânea e que estavam implícitos no projecto da disciplina já nos idos do século XIX, quando o “selvagem sexual” (ou o sexual selvagem...) foi descoberto pela atenção Ocidental. O campo da sexologia no Brasil: constituição e institucionalização Este artigo tem como objetivo apresentar os resultados parciais de uma investigação em andamento sobre a constituição do campo da sexologia contemporânea no Brasil. A questão de fundo que buscamos examinar é a chamada medicalização / naturalização da sexualidade, apontada por diferentes autores como um fenômeno que vem se produzindo desde meados do século XIX. Temos como objetivo delinear a especificidade da medicalização /naturalização tal como se processa na atualidade, levando em conta que o que se chama "medicalização" envolve tanto controle social, quanto produção de identidades e de novas formas de subjetividade. Como objetivo mais amplo, que deverá ser contemplado no final da pesquisa, está a discussão crítica dos dilemas que cercam a sexualidade contemporânea - ora vista como um instinto incontornável e espontâneo, núcleo da liberdade do sujeito, ora como uma espécie de expertise adquirida através de treinamento e tecnologia. O termo "sexologia" foi escolhido por ser uma designação tradicional de modos de intervenção e conhecimento que visam ao atendimento clínico ou à prevenção de distúrbios relacionados à sexualidade. Esta não é, entretanto, uma designação consensual dentro do campo. Há uma tendência atual a utilizar os termos "sexualidade humana", "saúde sexual", ou "medicina sexual", cada uma dessas expressões indicando uma certa posição no conjunto de tensões e disputas que marcam o território em questão. Na verdade, o estudo das formas de autodesignação faz parte de nossa investigação. Optamos pelo termo "sexologia" por seu uso tradicional no decorrer do tempo. Mantemos, entretanto, a advertência SEXOLOGIA 33 de que, embora seja utilizado por atores e instituições do campo, o uso indiscriminado que dele fazemos é mais uma escolha metodológica do que uma realidade percebida no material pesquisado. A investigação consistiu, até o momento, do levantamento de sites na internet (de clínicas, sociedades, associações, institutos), busca no site do CNPq e universidades, contatos telefônicos (para complementar dados levantados pela internet), levantamento e exame de três periódicos (Revista Brasileira de Sexualidade Humana, Revista Terapia Sexual e Revista Scientia Sexualis), entrevistas semiestruturadas com 15 profissionais relevantes do campo e observação participante em cinco congressos.1 A pesquisa foi conduzida dentro dos padrões éticos exigidos pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa / Conselho Nacional de Saúde / Ministério da Saúde (CONEP/CNS/MS), obedecendo ao disposto na Resolução CONEP nº 196/96. Antes de passarmos à apresentação e análise dos dados já colhidos, faremos uma breve introdução ao surgimento da sexologia europeia nos primórdios do século passado, bem como das transformações que se seguiram ao processo de "transplantação" do novo campo de saber para os Estados Unidos, de modo a permitir uma compreensão da sexologia brasileira no contexto mais amplo do cenário sexológico internacional. Da "protossexologia" à sexologia contemporânea. É possível falar que a sexologia, desde seu início no final do séxulo XIX, conheceu três "ondas" sucessivas. A primeira delas, chamada por André Béjin de "protossexologia",2 surgiu na passagem do século XIX ao XX na Europa e sobretudo na Alemanha. Através do discurso médico, tratava-se de construiruma racionalidade biológico/científica sobre as sexualidades periféricas ao casal e à família, contrapondo-se ao discurso legal ou religioso que tendia a criminalizá-las. A grande questão que movia os médicos dedicados à nova especialidade era a chamada "inversão" - como era então conhecida a homossexualidade. Neste momento, a medicalização da "inversão" era parte de uma luta política. Havelock Ellis e Magnus Hirshfeld, entre outros, faziam parte do movimento de "reforma sexual", que se http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312009000300004#nt01 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312009000300004#nt02 SEXOLOGIA 34 concentrava na Alemanha, contra o código civil prussiano que criminalizava a chamada "sodomia".3 Ao mesmo tempo, a construção da perversão como objeto da medicina constituiu o personagem do perverso sexual, tendo como efeito transformar o que antes era um ato desviante, em identidade (FOUCAULT, 1977). O manual do psiquiatra forense Richard von Krafft Ebing - Psycopatia sexualis4 - publicado em 1887, transformou-se em texto de referência acerca das perversões da sexualidade, conhecendo enorme sucesso de público. Segundo Harry Oosterhuis (1997), as cartas enviadas a Krafft Ebing no decorrer dos anos revelavam a felicidade e o alívio dos que se reconheciam nas categorias então descritas, e ofereciam ao psiquiatra-autor histórias de vida a serem incorporadas às novas versões do livro que iam sendo publicadas. Observamos, portanto, que a identidade forjada pela medicina - por se constituir contra a concepção propriamente criminal ou jurídica de atos passíveis de punição legal - não era de todo antipática aos sujeitos classificados como perversos. Com o surgimento do nazismo e posterior eclosão da II Guerra Mundial, todo o movimento de reforma sexual alemão sofreu intensa repressão. Os grandes nomes da sexologia alemã foram obrigados a se exilar, bibliotecas e centros de informação foram destruídos. Desta forma, de modo semelhante ao que ocorreu com a psicanálise nesse mesmo período, a sexologia mudou-se para os Estados Unidos, e uma "segunda onda" sexológica - desta feita americana - surgiu no pós-guerra, mais especificamente nos anos 60/70 do século XX (IRVINE, 2005). Além da mudança geográfica, uma diferença importante vai distanciar os dois movimentos. No caso da primeira sexologia, como vimos, a medicalização da sexualidade não se opunha necessariamente à sua politização - ao contrário, os grandes sexólogos da época eram os responsáveis pelo movimento de "reforma sexual" que colocava em xeque o status quo. Nos anos 1960/70, marcados pela cada vez mais radical disjunção entre sexualidade e reprodução, as minorias sexuais vão buscar sua afirmação política contra o discurso médico. A segunda sexologia, que então surge, deixa de lado as antigas "perversões", que se transformam cada vez mais em uma questão de disputa política, passando a se debruçar sobre a sexualidade "normal", voltando suas atenções e seu arsenal terapêutico para os casais heterossexuais. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312009000300004#nt03 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312009000300004#nt04 SEXOLOGIA 35 Esta "segunda sexologia" tem nas pesquisas de Alfred Kinsey as bases sobre as quais se desenvolve. Foi Kinsey quem voltou seu interesse para a sexualidade do homem e da mulher "normais". Seus livros, publicados no final dos anos 40 (Sexual Behavior in the Human Male) e início da década de 50 (Sexual Behavior in the Human Female) conheceram um enorme sucesso.5 Colocando o tema da sexualidade na ordem do dia, trouxeram para o interior da conjugalidade heterossexual comportamentos antes vistos como transgressores ou anormais. Ainda nos anos 1950, o médico ginecologista William Masters e a psicóloga Virginia Johnson deram início às suas investigações sobre sexualidade na Washington University, em Saint Louis. Ambos realizaram pesquisas em laboratório com sujeitos humanos, de modo a observar e medir objetivamente o que vieram a chamar de "resposta sexual humana". Em 1966, publicaram o livro Human Sexual Response, e em 1970, Human Sexual Inadequacy. Neste último, considerado o marco da moderna sexologia, são listadas todas as perturbações possíveis da sexualidade de homens e mulheres e seu tratamento, constituindo-se na pedra de toque de uma especialidade emergente: o terapeuta sexual. Menos de cinco anos depois de sua publicação, já havia entre 3.500 e 5.000 centros de tratamento para problemas sexuais nos EUA (IRVINE, 2005). Nesse período surgiram diversos periódicos e sociedades científicas devotadas à sexologia nos Estados Unidos. O Archives of Sexual Behavior foi fundado em 1971, a International Academy of Sex Research e o Journal of sex and marital Therapy são de 1975. Em 1978 foi fundada a hoje poderosa World Association of Sexology6 (WAS). Em 1998, o lançamento do citrato de sildenafil, conhecido comercialmente como Viagra, marcou uma nova transformação no campo da sexologia. Indicado para os casos de impotência masculina - rebatizada de "disfunção erétil" -, o Viagra surgiu como uma pílula mágica que colocou a farmacologia no centro das terapêuticas sexuais, e trouxe importantes reviravoltas na organização profissional do campo. Surge a terceira "onda" da sexologia. A proposta de Masters e Johnson, posteriormente complementada pela de Helen Kaplan,7 envolve uma terapia psicológica, baseada na psicologia comportamental, e diz respeito sobretudo ao casal, que passa por uma espécie de "treinamento" para http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312009000300004#nt05 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312009000300004#nt06 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312009000300004#nt07 SEXOLOGIA 36 "aprender" a ter relações sexuais prazerosas. Toda a literatura sexológica dos anos 70 e 80 se concentra basicamente nos problemas relativos ao casal. Há, em menor escala, trabalhos e pesquisas envolvendo homens, sendo a "disfunção erétil" o foco da maior parte desses trabalhos. 8 Bem antes do Viagra, portanto, já se buscava algum tipo de tratamento médico para a impotência, fossem as injeções de papaverina ou as próteses penianas. O surgimento da "pílula mágica", entretanto, redimensionou todo o campo dos distúrbios sexuais, tendo como consequências importantes: o surgimento do urologista como ator relevante - senão dominante - no campo profissional e científico, e uma tendência a focalizar no corpo do indivíduo problemas que antes poderiam ser interpretados de forma mais "relacional". Assistimos, portanto, a uma "re-medicalização" da sexualidade,9 e a um declínio de sua psicologização. Essas consequências, como veremos, terão implicações relevantes para as relações de gênero tanto no que diz respeito à reorganização profissional do campo, quanto no que tange ao modo mesmo de conceber o "transtorno" sexual. Anos 70: ginecologistas e psicólogos no Rio de Janeiro Embora tenha havido uma "primeira sexologia" brasileira no início do século XX (RUSSO; CARRARA, 2002), cujos principais expoentes foram José de Albuquerque e Hernani de Irajá, vamos tratar aqui da "segunda onda" sexológica, surgida já nas últimas décadas do século passado. Datando do início dos anos 70 do século XX, esta "segunda sexologia" coincidiu com o auge da chamada "cultura psicanalítica", que conquistava corações e mentes das camadas médias letradas nos grandes centros urbanos, e com o surgimento paralelo de uma cultura "alternativa", que implicou um revival das teorias de Wilhelm Reich.10 . A década de 70 foi, no Brasil, um importante momento de transição política entre o período de maior obscurantismo e repressão da ditadura militar (a era Médici) e,