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Inserir Título Aqui Inserir Título Aqui Design de Interiores Residencial A Casa Responsável pelo Conteúdo: Prof.ª Dr.ª Renata Guimarães Puig Revisão Textual: Prof.ª Me. Natalia Conti Nesta unidade, trabalharemos os seguintes tópicos: • Introdução; • Significados; • Usos. Fonte: Getty Im ages Objetivo • Abordar os principais conceitos sobre a casa desde o seu significado até os usos. Caro Aluno(a)! Normalmente, com a correria do dia a dia, não nos organizamos e deixamos para o úl- timo momento o acesso ao estudo, o que implicará o não aprofundamento no material trabalhado ou, ainda, a perda dos prazos para o lançamento das atividades solicitadas. Assim, organize seus estudos de maneira que entrem na sua rotina. Por exemplo, você poderá escolher um dia ao longo da semana ou um determinado horário todos ou alguns dias e determinar como o seu “momento do estudo”. No material de cada Unidade, há videoaulas e leituras indicadas, assim como sugestões de materiais complementares, elementos didáticos que ampliarão sua interpretação e auxiliarão o pleno entendimento dos temas abordados. Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discussão, pois estes ajudarão a verificar o quanto você absorveu do conteúdo, além de propiciar o contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e aprendizagem. Bons Estudos! A Casa UNIDADE A Casa Contextualização O Design de Interiores Residencial é uma etapa fundamental no curso de Design de Interiores. Entende-se por ambiente residencial o local desfrutado por uma pessoa ou uma família em sua vida cotidiana – lazer, repouso, convivência e trabalho. Assim, ao iniciarmos uma intervenção, devemos classificar e compreender o ambiente no qual estaremos intervindo. Para um melhor entendimento sobre o tema, segue o link para o vídeo do programa do canal GNT, Decora. Nele, o arquiteto e designer Maurício Arruda explica o passo a passo para a realização de um projeto para Design de Interiores Residencial, disponível em: https://youtu.be/FGtcvdonOYc 6 7 Introdução A casa é um reflexo da nossa história (link a seguir) e da maneira como vivemos (Figura 1). Traduz o que é significativo através dos usos, espaços, setorizações e das pes- soas que nela habitam. Escolhas, emoções e relações fazem parte dos processos para a realização do projeto. Skara Brae, Escócia, disponível em: http://twixar.me/0R8K Skara Brae: é um assentamento neolítico, situado na Baía de Skaill. É composto por casas agrupadas que foram habitadas, aproximadamente, entre 3180 a 2500 a.C. É a aldeia pré- -histórica mais completa e bem preservada pela UNESCO do norte da Europa. Tudo começou quando nossos antepassados compreenderam a im- portância de se ter um espaço protegido. As cavernas possibilitavam segurança contra os predadores, refúgio noturno e armazenamento de alimentos. Só depois disso os homens passaram a erigir o seu habitat: ele entendeu que ao transformar seu refúgio, ele toma posse deste local. Decorar é um elemento de sobrevivência ancestral, uma questão biofílica, como diria Edward O. Wilson. Em outras palavras, na canção de Dionne Warwick, “A house is not a home”. Uma casa somente se transforma em um ar quando o espaço construído é ha- bitado e personificado pelos seus ocupantes. O processo natural de domínio territorial se dá pela forma com que o indivíduo compõe o seu espaço privado, pelas cores, móveis e objetos que escolhe para concretizar o sonho de morar. (CIANCIARDI, 2018) Figura 1 – Sala de estar contemporânea Fonte: Reprodução 7 giova Destacar UNIDADE A Casa Significados Entende-se por ambiente residencial o local desfrutado por uma pessoa ou uma família em sua vida cotidiana – repouso, convivência, lazer e trabalho. Assim, ao iniciarmos uma inter- venção, devemos classificar e compreender o ambiente no qual estaremos intervindo. Casa (Figura 2), do latim domus, casa, domicílio, morada1. A casa é o “fundamento material da família e pilar da ordem social (AFONSO; SERRES, 2017, p. 1729 apud PERROT, 2012, p. 285). O homem detém-se frente à porta. Introduz a chave na fechadura, a faz girar, empur- ra e entra. Logo, volta a fechar a porta. O homem ingressou em sua casa. Penetrou em seu ambiente próprio e familiar, onde se reconhece. Sente-se isolado do mundo como se defendesse a si próprio dentro de sua carcaça, sente-se na intimidade (MIGUEL, 2003). Ainda para o autor (2003, p. 24-25): A palavra lar é uma corruptela de lareira. A lareira primitiva que faz do seu fogo o elemento inseparável da cabana rústica. O fogo que reúne ao seu redor todos os integrantes de um laço familiar, sendo, figura- tivamente, um manto que aquece e une todos num mesmo instante. O fogo como sendo o elemento principal, o espírito do corpo de uma casa. Lareira (Figura 3), texturas e móveis manifestam vínculos com a materialidade e a evocação do passado que não passam despercebidos. A casa evoca esse tempo que pode voltar atra- vés das memórias de quem visita o espaço, contraditório, às vezes, ao tempo moderno em que os personagens viveram. Figura 3 – Lareira Fonte: uncyc.org 1 FARIA, Ernesto. (org.). Dicionário escolar Latino-Português. 3ed. Rio de Janeiro: 1962, p. 327. Figura 2 – Casa Fonte: Wikimedia Commons 8 9 A casa e seus muros, portanto, não são apenas a representação cosmológica, mas uma situação precisa: uma casa urbana. Mais ainda, a casa de um mundano, de um cosmopolita. Esses muros denunciam não só o homem urbano que habita em seu in- terior, mas também a cidade buliçosa, azafamada, a metrópole que está detrás deles (ÁBALOS, 2013). É dentro d’ella que se vive e ama, que se espera e trabalha; é den- tro d’ella que se agrupam os nossos affectos mais santos, as nossas mais queridas recordações; n’ella se educam as gerações futuras; d’ella partem as boas ou más inspirações que movem e agitam sociedade. (Virginia Treves, 1882. In: Renovação Museográfica Museu Casa de Rui Barbosa.) Segundo Ulpiano (2002, p. 46-47), “[...] quando a casa deixou de ser ‘vivida’ e passou a ser ‘representada’, abriram-se possibilidades, anteriormente inoperantes, de consciên- cia, conhecimento e fruição – até mesmo de autoconhecimento”. Usos A função das casas é oferecer um teto e facilitar a execução das atividades do cotidia- no – cozinha, alimentação, banho e sono. “Habitar no sobrado significava riqueza e habitar na casa de chão batido caracteriza- va a pobreza” (REIS FILHO, 2006, p.28). A separação de classes refletia na arquitetura. Ainda hoje a classe média tenta imitar a casa dos ricos do período colonial, no século XIX, momento em que a arquitetura passou a ser desenvolvida por profissionais. E por influência de estrangeiros houve incentivo para desenvolver os bairros-jardins. Bairros fechados em condomínios, muros altos, configuração da cidade de atual, que cria ainda, barreiras entre pobres e ricos. O sistema patriarcal de colonização portuguesa no Brasil representa- do pela casa-grande foi um sistema de plástica contemporização entre duas tendências. Ao mesmo tempo em que exprimiu uma imposição imperialista da raça adiantada à atrasada, uma imposição de formas europeias (já modificadas pela experiência asiática e africana do co- lonizador) ao meio tropical, representou uma contemporização com as novas condições de vida e de ambiente. A casa-grande de engenho que o colonizador começou, ainda no século XVI, a levantar no Bra- sil grossas paredes de taipa ou de pedra e cal, coberta de palha ou de telha-vã, alpendre na frente e dos lados, telhados caídos em um máximo de proteção contra o sol forte e as chuvas tropicais – não foi nenhuma reprodução das casas portuguesas, mas uma expressão nova, correspondendo ao nosso ambiente físico e a uma fase surpre- endente, inesperada, do imperialismo português: sua atividade agrá- ria e sedentária nos trópicos; seu patriarcalismo rural e escravocrata. (FREYRE, 2006, p. 35)No século XIX (Figura 4 e link a seguir), as áreas já estavam divididas, setoriza- das. Áreas utilitárias para serviçais, raramente visitadas por patrões, áreas comuns com 9 UNIDADE A Casa acesso aos convidados, os quais não penetravam nas áreas privadas. Nos ambientes, a prática de atribuir funções específicas a cada um, distinguindo gênero, idade e classe social, marcou o período (NASSER, 2011). Figuras 4 – Casa das Rosas, São Paulo, século XIX Fonte: saopaulo.sp.gov.br Casa das Rosas, São Paulo, século XIX, Disponível em: http://bit.ly/2VEKX0j A casa não reflete mais a vida, mas sim um conjunto de preconceitos, de aparências e convenções; a arquitetura burguesa torna-se assim a direta responsável pela insuficiência do homem contemporâneo. Ali está a nossa casa. No século XX (Figura 5 e link a seguir), os arquitetos consideravam a casa numa perspectiva mecanicista – avanços tecnológicos, desaparecimento de classes serviçais, um só grande cômodo aparece. Figura 5 – Villa Savoye, França, século XX Fonte: Wikimedia Commons 10 11 Villa Savoye, França, século XX, disponível em: http://bit.ly/2uXr7BB Uma casa em que os espaços foram cuidadosamente examinados, calibrados, pensa- dos, não sobre a base da especulação da construção, mas sobre a base da solidariedade humana; uma casa onde é possível viver, e principalmente pensar, onde há espaço para tudo, um espaço cuidadosamente dosado, que vai da cozinha dada como um laboratório químico, ao esconderijo para os barbantes e as rolhas usadas (LINA BO BARDI).2 Para um estudo fenomenológico dos valores de intimidade do espaço interior, a casa é, evidentemente, um ser privilegiado; isso, é claro, desde que a consideremos ao mesmo tempo em sua unidade e em sua complexidade, tentando integrar todos os seus valores particulares num valor fundamental. A casa nos fornecerá simultaneamente ima- gens dispersas e um corpo de imagens. Em ambos os casos, provare- mos que a imaginação aumenta os valores da realidade. Uma espécie de atração de imagens concentra as imagens em torno da casa. Atra- vés das ‘lembranças de todas as casas em que encontramos abrigo, além de todas as casas que sonhamos habitar, é possível isolar uma essência íntima e concreta que seja uma justificação do valor singular de todas as nossas imagens de intimidade protegida. (BACHELARD, 2008, p. 23) Quando pensamos em casa ou apartamento, nos remetemos à definição de estilo, que está muito mais na mistura de peças do que propriamente em uma escolha cons- ciente de industrial ou clássico. Um dos aspectos interessantes da globalização no design de interiores é a flexibili- dade, pois mesmo os materiais e revestimentos variantes em diversas partes do mundo, seus critérios fundamentais, podem ser aplicados nos projetos (GIBBS, 2009). Costumamos nos referir ao lugar onde moramos como casa, mas o que de fato buscamos ao longo de toda nossa vida é construir um lar. O lar é a casa com emoção. A casa é o abrigo, espaço físico. As rela- ções e os sentimentos são o que transformam um ambiente definido por largura, profundidade e pé-direito no nosso ninho. Quanto mais colocamos nossa essência nas escolhas dos espaços, mais eles serão importantes para nós. É um processo de descobrimento, amadureci- mento e transformação. Para melhor. (ARRUDA, 2019, p. 17) O arquiteto comenta (2019) que a casa possui identidade, e que podemos classificá- -la como aberta (Figura 6), com energia pulsando, usada de maneira coletiva com apelo tecnológico; ninho (Figura 7), como um refúgio de tranquilidade misturando diversos materiais, e memória (Figura 8), quando os móveis e objetos carregam lembranças afe- tivas, com as marcas do tempo. A casa inspira. 2 Palestra proferida na Universidade Brás Cubas, São Paulo, 1995. In: PEREIRA, Maira Teixeira. As casas de Lina Bo Bardi e os sentidos de habitat. Tese Doutorado, Universidade de Brasília, Faculdade de Arquitetura e Urbanis- mo, 2014. 11 UNIDADE A Casa Figura 6 – Casa aberta Fonte: Reprodução Figura 7 – Casa ninho Fonte: Reprodução Figura 8 – Casa memória Fonte: Projeto Moca Arquitetura 12 13 Como você usa o espaço? Como o ambiente é ocupado? O que poderia melhorar? O que fica? Qual o ambiente dos seus sonhos? Do que gosta? Quais cores? São questionamentos que devem permear a intenção de projeto – relação entre profissio- nal e cliente. Móveis que podem ser aproveitados e trocados de posição e lugar. O ambiente, por exemplo, possui muito mobiliário e objetos desnecessários ao atual uso do espaço. “[...] ficar, reformar, doar e vender. Pense que um móvel inútil em um cômodo pode ser muito útil em outro lugar da casa” (ARRUDA, 2019, p. 28). Ambiente neutro, colorido, pense nos móveis e objetos existentes para que a com- posição fique harmoniosa. É importante o auxílio de um profissional especializado – designer de interiores - para reorganizar o layout do espaço, além de custos e execução do projeto. O bom profissional da arquitetura ou dos interiores é justamente aquele que compre- ende a dimensão de sua participação em um projeto: seu papel é servir como interlocu- tor entre os desejos do cliente, que se julga inapto a transformar o próprio espaço, e a materialização física e estética deste desejo. A casa, o lugar em que nossas almas descansam, alimentam-se e ins- piram-se, tem um significado que vai além da estética. [...]. Por isso é fundamental que esse canto seja tratado com carinho e respeito. (ROSENBAUM, M. In: ARRUDA, M. Decora. 1 ed. Rio de Janeiro: Globo Estilo, 2019) Repouso, convivência, lazer e trabalho serão os temas estudados na próxima unidade. 13 UNIDADE A Casa Material Complementar Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Vídeos Reforma Apartamento Pequeno 30 m2 Assista ao vídeo do escritório Doma Arquitetura e entenda as etapas da reforma de um pequeno apartamento residencial. https://youtu.be/bFBBAieDoA0 Dicas práticas de reforma para a quitinete | Antes e Depois | Maurício Arruda Outro vídeo interessante é o do Maurício Arruda que mostra a reforma de uma quitinete. https://youtu.be/Aw0BIz6y_p4 Leitura Por que decoramos? Leia a entrevista do arquiteto, professor e escritor Glaucus Cianciardi para a Revista Vogue, em 2018. https://glo.bo/2Zf0YfN 14 15 Referências ÁBALOS, I. A boa-vida: visita guiada às casas da modernidade. São Paulo: Gustavo Gili Ltda., 2013. AFONSO, M. M.; SERRES, J. C. P. Vivências entre a cultura material e imaterial: o que se preserva em um museu-casa? Encontro Internacional de Pesquisa em Ciências Humanas. 1 Ed. CLAEC. Jaguarão: 2017, p. 1726. ARRUDA, M. Decora. 1 ed. Rio de Janeiro: Globo Estilo, 2019. BACHELARD, G. A poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes, 2008. FILHO, N. G. R. Quadro da arquitetura no Brasil. São Paulo: Perspectiva, 2006. FREYRE, G. Casa grande & senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. 51ª ed. Ver. São Paulo: Global, 2006. GIBBS, J. Design de interiores: guia útil para estudantes e profissionais. 2 ed. Londres 2009. GURGEL, M. Projetando espaços: design de interiores. 6.ed. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 2017. GURGEL, M. Projetando espaços: guia de arquitetura de interiores para áreas residen- ciais. 7.ed. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 2013. 304 p. MALTA, M. Projeto de renovação museográfica do Museu Casa de Rui Barbosa ASPECTOS CONCEITUAIS, EBA-UFRJ, 2011. Disponível em: . Acesso em: março 2019. MANCUSO, C. Guia prático do design de interiores. Porto Alegre: Sulina, 2005. MENESES, U. T. B. A pesquisa no museu como produção de conhecimento original. In: Anais do IV Seminário de museus-casas: pesquisa e documentação. Rio de Janeiro: Fun- dação Casa de Rui Barbosa, 2002. MIGUEL, J. M. C. A casa. Londrina: Eduel; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2003. NASSER,T. (trad.). Como criar em arquitetura. Design Museum. Belo Horizonte: Editora Gutenberg, 2011. 15