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História 5ª classe ACTUALIZAÇÃO CURRICULAR Mensagem H istó ria 5 ª classe Mensagem ACTUALIZAÇÃO CURRICULAR História 5.ª Classe FICHA TÉCNICA Título História – 5.ª Classe (Actualização Curricular) Autores Pedro Nsiangengo (coordenador) Rebeca Santana Rebeca Helena Bento Kianzowa Vita Couveia Revisão Rebeca Santana Valéria de Gouveia Leite Bento Kianzowa Mensagem Edição Mensagem Rua 1.º Congresso do MPLA, 36 Luanda Tel.: 222 370 990 Fax.: 222 371 020 endereço electrónico: livrariamen- sagembsnet.co.ao Impressão e acabamentos Damer - Gráfi cas S. A. Ano de impressão 2018 Tiragem Revisto e aprovado pelo Insti tuto Nacional de Investi gação e Desenvolvimento da Educação (INIDE) – Ministério da Educação 2018 – 1.° EDIÇÃO REVISTA E ACTUALIZADA Direitos Reservados EDITORIAL Estimados Alunos, Professores, Gestores da Educação e Parceiros Sociais A educação é um fenómeno social complexo e dinâmico, presente em to- das as eras da civilização humana. É efectivada nas sociedades pela par- ticipação e colaboração de todos os agentes e agências de socialização. Como resultado, os membros das sociedades são preparados de forma integral para garantir a continuidade e o desenvolvimento da civilização humana, tendo em atenção os diferentes contextos sociais, económicos, políticos, culturais e históricos. Actualmente, a educação escolar é praticamente uma obrigação dos Es- tados que consiste na promoção de políticas que assegurem o ensino, particularmente para o nível obrigatório e gratuito. No caso particular de Angola, a promoção de políticas que assegurem o ensino obrigatório gra- tuito é uma tarefa fundamental atribuída ao Estado Angolano (art. 21° g) da CRA 1). Esta tarefa está consubstanciada na criação de condições que garantam um ensino de qualidade, mediante o cumprimento dos princí- pios gerais de Educação. À luz deste princípio constitucional, na Lei de Bases do Sistema da Educação e Ensino, a educação é entendida como um processo planificado e sistematizado de ensino e aprendizagem, visa a preparação integral do indivíduo para as exigências da vida individual e colectiva (art. 2, n.° 1, da Lei n° 17/16 de 7 de Outubro). O cumprimen- to dessa finalidade requer, da parte do Executivo e dos seus parceiros, acções concretas de intervenção educativa, também enquadradas nas agendas globais 2030 das Nações Unidas e 2063 da União Africana. Para a concretização destes pressupostos sociais e humanistas, o Minis- tério da Educação levou a cabo a revisão curricular efectivada mediante correcção e actualização dos planos curriculares, programas curriculares, manuais escolares, documentos de avaliação das aprendizagens e ou- tros, das quais resultou a produção dos presentes materiais curriculares. Este acto é de suma importância, pois é recomendado pelas Ciências da Educação e pelas práticas pedagógicas que os materiais curriculares tenham um período de vigência, findo o qual deverão ser corrigidos ou substituídos. Desta maneira, os materiais colocados ao serviço da edu- cação e do ensino, acompanham e adequam-se à evolução das socieda- des, dos conhecimentos científicos, técnicos e tecnológicos. 1 CRA: Constituição da República de Angola Neste sentido, os novos materiais curriculares ora apresentados, são do- cumentos indispensáveis para a organização e gestão do processo de ensino-aprendizagem, esperando que estejam em conformidade com os tempos, os espaços e as lógicas dos quotidianos escolares, as neces- sidades sociais e educativas, os contextos e a diversidade cultural da sociedade angolana. A sua correcta utilização pode diligenciar novas dinâmicas e experiên- cias, capazes de promover aprendizagens significativas porque activas, inclusivas e de qualidade, destacando a formação dos cidadãos que re- flictam sobre a realidade dos seus tempos e espaços de vida, para agir positivamente com relação ao desenvolvimento sustentável das suas lo- calidades, das regiões e do país no geral. Com efeito, foram melhorados os anteriores materiais curriculares em vigor desde 2004, isto é, ao nível dos objectivos educacionais, dos conteúdos programáticos, dos aspectos metodológicos, pedagógicos e da avaliação ao serviço da aprendizagem dos alunos. Com a apresentação dos materiais curriculares actualizados para o trié- nio 2019-2021enquanto se trabalha na adequação curricular da qual se espera a produção de novos currículos, reafirmamos a importância da educação escolar na vida como elemento preponderante no desenvolvi- mento sustentável. Em decorrência deste facto, endereçamos aos alunos, ilustres Docentes e Gestores da Educação envolvidos e comprometidos com a educação, votos de bom desempenho académico e profissional, respectivamente. Esperamos que tenham a plena consciência da vossa responsabilidade na utilização destes materiais curriculares. Para o efeito, solicitamos veementemente a colaboração das famílias, mí- dias, sociedade em geral, apresentados na condição de parceiros sociais na materialização das políticas educativas do Estado Angolano, esperan- do maior envolvimento no acompanhamento, avaliação e contribuições de várias naturezas para garantir a oferta de materiais curriculares con- sentâneos com as práticas universais e assegurar a melhoria da qualida- de do processo de ensino-aprendizagem. Desejamos sucessos e êxitos a todos, na missão de educar Angola. Maria Cândida Pereira Teixeira Ministra da Educação ADVERTÊNCIA O Manual de História 5.a Classe que agora se coloca nas mãos dos nossos alunos e professores está relacionado com a implementação da Reforma Curricular. Esta constitui uma inovação do próprio sistema: isto é programas, manuais escola- res, guias metodológicos, cadernos de actividades, sistema de avaliação, etc. Em resumo, implica uma rectificação de grande parte dos materiais e documentos pedagógicos segundo as linhas mestras traçadas e a implementar. Tendo em vista atingir os objectivos definidos pelo novo sistema de ensino do nosso país, concretamente no que concerne à disciplina de História - relativa- mente à qual fomos chamados a participar na elaboração dos materiais pedagó- gicos -, continuamos assim o projecto de reformulação dos manuais de acordo com os programas das diferentes classes, desde as iniciais até às terminais. Porém, como sabemos, para a elaboração de um manual escolar consistente e bem reflectido não é suficiente um ano - por vezes, esse prazo pode prolongar-se por vários anos. Frente às necessidades que a Reforma impõe no nosso país, apresentamos um novo Manual de História 5.a Classe. No que respeita à metodologia adoptada para elaboração deste Manual, procedeu-se à recolha e análise de diferentes textos ao nosso alcance. Como é obvio, esforçámo-nos por elaborar um Manual didáctico de acordo com os objectivos educacionais, por um lado, e as características etárias e psicológi- cas dos alunos angolanos deste nível, por outro lado. Isto justifica a selecção dos temas essenciais devido à necessidade de aprofundar o conteúdo do programa e permitir aos alunos uma boa compreensão dos factos históricos. Tentámos redigir um livro pedagogicamente actualizado, com um estilo afável e acessível, dotado de ilustrações agradáveis não só para os alunos da 5.a classe como também para qualquer estudioso e amante da história. O manual está dividido em 8 temas, de acordo com o novo programa. Por sua vez, cada um dos temas divide-se em subtemas. As figuras são numeradas em função de cada tema, como habitual. Assim, por exemplo, da mesma forma como temos a figura 5 do tema 1, teremos também a figura 5 do tema 5. O tema 8 proporciona uma panorâmica actualizada sobre a Angola de hoje. Finalmente, colocámos ao longo de todos os temas pequenos exercícios de ava- liação formativa que, ao nosso entender, poderão ajudar o aluno a conseguir uma melhor compreensão e assimilação dos conteúdos. Os autores ACTUALIZAÇÃO CURRICULAR História 5.ª Classe ÍNDICE TEMA 1. O TEMPO 14de Ambuíla; • a sul, o planalto do Bié; • a leste, a região de Kassanje; • a sudoeste, a região de Kissama. • a oeste, o oceano Atlântico. VÊ SE SABES ... 1. Por quem e quando foi fundado o Reino do Kongo? 2. Qual foi a capital do Reino do Kongo? 3. Localiza o Reino do Kongo num mapa de África. 4. Quais foram as actividades principais do povo conguense? 5. Qual foi a moeda utilizada no Reino do Kongo? 6. Como foi organizado o Reino do Kongo? 7. Quando se deu o declínio do Reino do Kongo? ? Fig.24 Mapa do Reino do Ndongo. 65 4.3. Os primeiros reinos SABIAS QUE ... • Os povos Mbundu viviam a sul do Kongo e a oeste do Império Luba/Lunda. • O Reino do Ndongo formou-se entre os anos de 1300 e 1400, depois do Reino do Kongo, e o seu fundador foi Ngola Mbandi, ou Ngola Inene. • A primeira capital do Reino do Ndongo foi Ngoleme, que de- pois do incêndio de 1564 foi transferida para Kabassa (Mban- za-a-Kabassa), situada perto do actual Dondo, na província do Cuanza Norte. O Reino do Ndongo estendeu-se muito nos tempos de Ngola-a-Kiluanje. O litoral de Benguela era governado por um dos seus fi lhos. O Reino de Ngola, ou Ndongo, pagava tributo ao Reino do Kongo até cerca de 1563. A agricultura e o artesanato As actividades principais do Reino do Ndongo eram a agricultura e o artesanato. Cultivavam-se o feijão, o milho, o inhame e a banana, entre outros produtos. O trabalho principal era feito pelas mulheres. Eram elas que trabalha- vam a terra, plantavam, semeavam e colhiam os produtos. Os homens de- dicavam-se sobretudo à caça, à pesca, ao artesa- nato e à metalurgia. Os artesãos fabricavam armas, cerâmica e outros utensílios necessários à vida das comunidades. Fig. 25 Mulheres realizando trabalhos agrícolas. 66 As colheitas eram abundantes no Reino do Ndongo e realizavam-se mercados para venda ou troca dos excedentes da produção com os reinos vizinhos. A moeda que cir- culava neste reino era o sal-gema, chamado njimbo, que era trazido das minas da Quissama. O crescimento deste reino esteve intimamente ligado ao início das ac- tividades económicas dos Europeus e à abertura do comércio atlântico de escravos. A organização do Reino do Ndongo A organização do Reino do Ndongo era muito semelhante à do Reino do Kongo, mas a propriedade comunitária tinha mais força no Reino do Ndongo do que no Reino do Kongo. O Reino do Ndongo foi conquistado defi nitivamente em 1683 pelos Por- tugueses. Fig.26 Moeda: sal-gema. VÊ SE SABES ... • Por quem e quando foi fundado o Reino do Ndongo? • Localiza num mapa de Angola o Reino do Ndongo. • Quais foram as capitais do Reino do Ndongo? • Como se chama a moeda que foi usada no Reino do Ndongo? ? 4.3. Os primeiros reinos 67 68 69 TEMA 5. ANGOLA NA ERA DO TRÁFICO DE ESCRAVOS ESTRUTURA DO TEMA 5.1. A expansão marítima portuguesa 5.1.1. A chegada dos Portugueses ao Reino do Kongo 5.1.2. As primeiras relações entre Portugueses e Africanos (Kongo e Ndongo) 5.1.3. O início do tráfico de escavros e as suas consequências 5.2. A expansão progressiva dos Portugueses ao longo da costa 5.2.1. A fundação da capitania 70 TEMA 5. ANGOLA NA ERA DO TRÁFICO ESCRAVOS A procura de mais terras para a agricultura e de mais ouro e prata para gerar riquezas levou os Europeus a virem a África por mar pro- curar esses produtos. Foi o início da expansão marítima europeia. Fig. 1 Mapa do mundo com as principais rotas comerciais do período entre 1600-1700. Fig. 2 Os Europeus chegavam a África em busca de produtos valiosos. 71 5.1. A expansão marítima portuguesa Fig. 3 O porto de Lisboa nos anos de 1500. SABIAS QUE ... • Os Portugueses decidiram navegar pelo oceano Atlântico à procura de produtos preciosos, em direcção à índia. • A falta de metais preciosos (ouro e prata) para cunhar moeda prejudicava o comércio, e alguns reinos europeus desejavam o ouro existente em África. Depois da crise demográfi ca e económico-social que assolou a Europa e Portugal em particular entre 1300 e 1400, as relações comerciais com o Oriente passaram a benefi ciar em grande parte os comerciantes árabes, que transportavam muitos produtos orientais, tais como especiarias (pi- menta, canela, noz-moscada e cravinho). Ao mesmo tempo, as grandes rotas comerciais dominadas pelos merca- dores italianos entre a Europa, Ásia e África do Norte foram impedidas com o avanço dos Turcos, que obtiveram um forte domínio na região. Essa situação obrigou a Europa a encontrar uma solução de modo a obter os produtos orientais mais baratos na sua origem. 72 O desenvolvimento das novas técnicas náuticas conhecidas através dos árabes facilitaram a descoberta de soluções para a expansão maríti- ma portuguesa, em particular, e a europeia em geral. Assim, Portugal, depois de ter adquirido conhecimentos sobre as técnicas e instrumentos náuticos, lançou-se à expansão, começando por contor- nar a costa africana atlântica com a intenção de chegar até à índia, local onde eram adquiridas as mercadorias de alto valor comercial. Destas viagens resultaram os primeiros contactos dos antigos povos do actual território angolano com os Portugueses. 5.1.1. A chegada dos Portugueses ao Reino do Kongo 5.1. A expansão marítima portuguesa SABIAS QUE ... • O capitão Diogo Cão foi o chefe dos marinheiros portugue- ses que chegaram pela primeira vez ao Reino do Kongo. • Os primeiros contactos entre os Portugueses e Kongue- ses foram de natureza comercial e de boa amizade. • O rei que recebeu os primeiros portugueses foi Nzinga Nkuwu. Os primeiros contactos entre os portugueses e o Reino do Kongo, que constitui uma das partes do actual território de Angola, tiveram lugar em 1482, quando Diogo Cão chegou à foz do rio Zaire ou Congo. Fig. 4 Padrão de Diogo Cão, no Soyo. 73 Em 1484, durante o reinado de Nzinga Nkuwu, houve notícia em Mbanza Kongo de que homens brancos tinham desembarcado e entrado em con- tacto com os habitantes da província do Soyo e com o próprio mani Soyo. O Rei Nzinga Nkuwu acabou por receber mais tarde os primeiros portu- gueses e com eles estabeleceu relações de amizade. 5.1. A expansão marítima portuguesa Fig. 5 Ilustração representando o primeiro contacto entre os Portugueses e o Reino do Kongo. A partir desse encontro, sucederam-se trocas de ofertas entre os repre- sentantes do rei de Portugal e o rei do Kongo, bem como trocas de em- baixadas entre si. Procedeu-se também ao baptismo dos membros da família real e de alguns manis pela Igreja Católica. Em 1489, foi enviada a Lisboa a primeira embaixada konguense. Contudo, as relações mais intensas entre Portugal e o Reino do Kongo iniciaram-se em 1507, ano em que subiu ao poder o rei Mvemba Nzinga (Dom Afonso I). 74 5.1.2. As primeiras relações entre Portugueses e Africanos (Kongo e Ndongo) As primeiras relações entre os Portugueses e os Africanos foram relações de amizade, baseadas nas trocas comerciais. 5.1.3. O início do tráfi co de escravos e as suas consequências 5.1. A expansão marítima portuguesa SABIAS QUE ... • O tráfi co de escravos iniciou quando os escravos da Ilha de Luanda e do Porto de Mpinda começaram a ser expor- tados para São Tomé. • A mão-de-obra necessária para o cultivo da cana-de-açú- car foi na sua maioria extraída no antigo Reino do Kongo. • Foi a partir do povoamento da Ilha de São Tomé que os portugueses conseguiram manter contactos permanentes com a costa africana. No território que constitui hoje Angola existia a escravatura. Muitos dos grandes trabalhos públicos ou domésticos eram executados por escra- vos. Esses escravos, em geral provenientesdas guerras internas ou vio- lação de leis, eram membros da comunidade. No entanto, com a chegada dos Portugueses, o tratamento dos escravos tomou outras dimensões. Sobretudo depois da descoberta do continente americano, os Portugue- ses e outros europeus (Holandeses, Franceses, Espanhóis, Ingleses). Fig. 6 Gravura do interior de um barco negreiro, no qual eram transportados os escravos para a América. 75 precisavam de mão-de-obra para trabalhar nas minas e nas grandes plantações que tinham na América. Os povos índios locais da América não aguentavam esses trabalhos - uns morriam e outros fugiam. Nestas circunstâncias, os trafi cantes recorreram aos escravos africanos, mais expedientes na agricultura das regiões quentes. Foi assim o início do comércio triangular (podes ver o esquema na página seguinte). 5.1. A expansão marítima portuguesa Fig.7 Escravos africanos trabalhando num engenho de açúcar nas Antilhas Francesas, em meados dos anos de 1600. Fig.8 Mapa de 1640, mostrando a capitania de Pemambuco (Brasil) e os escravos de uma plantação de açúcar. Os Portugueses possuíam uma grande colónia na América do Sul (o Brasil), onde se cultivava a cana-de-açúcar, e decidiram transportar os Angolanos capturados através das guerras de “kuata-kuata”, especial- mente dos reinos do Kongo, Ndongo e de outras regiões do actual ter- ritório angolano. 76 5.1. A expansão marítima portuguesa Fig. 9 Mapa mostrando como se desenrolava o comércio triangular entre a África, a América e a Europa. ESCLARECER • “Guerras de Kuata-Kuata” eram guerras em que alguns escravos eram apanhados por grupos de portugueses ar- mados, que assaltavam de surpresa as aldeias, por vezes com a ajuda de alguns chefes africanos. • “Comércio triangular” era o comércio efectuado entre os três continentes: África, América e Europa. 77 As consequências do tráfi co de escravos O tráfi co de escravos em Angola teve consequências desastrosas, de entre as quais devemos destacar algumas: • Consequências políticas 1. Enfraquecimento dos reinos e perda da autoridade dos chefes tradicionais africanos. 2. Desorganização das sociedades africanas. 3. Debilidade dos exércitos nos diferentes reinos • Consequências económicas 1. Enfraquecimento da economia, provocado por guerras internas 2. Regressão das forças produtivas • Consequências sociais 1. Diminuição da população produtora e reprodutora 2. Enfraquecimento do artesanato e de outras expressões artísticas 3. Debilidade cultural 5.1. A expansão marítima portuguesa ESCLARECER 1. O que provocou a expansão marítima dos Europeus para os outros continentes, particularmente para África? 2. Quando se deram os primeiros contactos entre os Portugueses e o Reino do Kongo? 3. Como se chamavam os governadores das províncias do Reino do Kongo? 4. Cita algumas consequências do tráfi co de escravos. 5. Explica os seguintes conceitos: • guerra de “kuata-kuata” • “comércio triangular” ? 78 Depois de se terem instalado em Luanda, os Portugueses começaram com as preparações da guerra que viriam a prosseguir com o processo de pe- netração para o interior.De seguida, Paulo Dias de Novais iniciou a guerra. Na primeira batalha, o exército de Ngola Kiluanji derrotou os Portugue- ses, mas os Portugueses acabaram por vencer. A pilhagem e o saque prosse- guiram nas vizinhanças da capi- tania, obrigando os respectivos sobas a entregar como tributo um certo número de escravos, panos de ráfi a, sal e víveres. A colónia de Angola desenvol- veu-se graças às guerras que se faziam com os Estados do interior, onde os Portugueses recolhiam produtos comerciais, como ouro, marfi m e escravos. 5.2. A expansão progressiva dos portuguesa ao longo da costa SABIAS QUE ... • A colónia de Angola foi criada depois de ter sido fundada a capitania de Luanda em 1575, por Paulo Dias de Novais. • Na colónia iniciou-se imediatamente a construção de um forte, e em 1578 começaram a chegar a Luanda reforços de homens e munições. Fig. 10 Uma gravura da cidade de Luanda nos anos de 1600. Fig. 10 Caravana de escravos 79 5.2. A expansão progressiva dos portuguesa ao longo da costa Durante este período, a actividade principal dos Portugueses foi a cap- tura dos escravos. Com o passar dos anos, os reinos do Kongo e do Ndongo acabaram por ser destruídos, enquanto o comércio português de escravos era continuamente alimentado por uma sucessão de acordos de paz seguidos de novas agressões. Para o transporte desses escravos utilizavam-se muitas rotas - uma delas era o rio Kwanza. A baía de Luanda funcionava como principal porto de recepção de navios que transportavam mercadorias, e a cidade de Luanda era habitada por cerca de 400 famílias portuguesas e um maior número de população africana. À medida que a conquista ia avançando ao longo do rio Kwanza, os Por- tugueses foram construindo fortes em Calumbo, Muxima, Massanga- no, Cambambe, Ambaca e Mpungu-a-Ndongo. Fig. 12 Navios de mercadorias na baía de Luanda, em 1656. Fig. 13 A progressão militar portuguesa ao longo do rio Cuanza, em direcção ao Planalto Central (1579-1671). 80 81 TEMA 6. A OCUPAÇÃO DO TERRITÓRIO ESTRUTURA DO TEMA 6.1. As campanhas de ocupação efectiva 6.2. A resistência à ocupação colonial 6.2.1. A defesa do território contra a invasão do Sul de Angola 6.2.2. A administração colonial 6.2.3. A economia colonial 6.3. Manisfestações contra as medidas da administração colonial 82 TEMA 6. A OCUPAÇÃO DO TERRITÓRIO 6.1. As campanhas de ocupação efectiva A ocupação do território em 1575 não foi fácil, pois o povo do Ndongo sempre resistiu à presença e à ocupação estrangeira. Quando, em 1565, Paulo Dias de Novais foi libertado pelo rei Ngola Kilwanje e regressou a Portugal, propôs ao rei de Portugal o uso da força para a colonização do reino do Ndongo. Em consequência desta decisão, foram enviados para Angola cerca de 400 soldados e 100 famílias portuguesas. O avanço para o interior intensifi cou-se através de confl itos armados que culminaram com a ocupação portuguesa ao longo da costa marítima e ao longo do rio Kwanza. A capitania de Luanda estava protegida por um forte. As relações entre a população africana e os habitantes da capitania variavam da simples troca de produtos e escravos, aos assaltos e confl itos armados. À medida que os Portugueses iam conquistando terras, foram construin- do diversos fortes, tanto ao longo do curso do rio Kwanza - Calumbo, Muxima, Massangano, Cambambe, Ambaca e Mpungo-a-Ndongo -, como em direcção ao Planalto Central - Hanha e Caconda. Foi através desses fortes que os portugueses criaram uma linha ofensiva e defensiva para as guerras de kuata-kuata e para o tráfi co de escravos. Portanto, o poder colonial exercia-se a partir dos presídios e dos fortes, mas de uma forma instável, conforme os avanços e recuos da resistência. SABIAS QUE ... • A falta de sucesso no estabelecimento de relações pacífi cas entre os povos africanos e os portugueses levou o rei de Portu- gal a criar um sistema de capitanias que entrou em vigor com a fundação da capitania de Luanda em 1575. • A partir de 1575, os portugueses, comandados por Paulo Dias de Novais, iniciaram a conquista e a ocupação do reino do Ndongo. • Durante a ocupação os portugueses construiram fortes para se abrigarem. 83 6.1. As campanhas de ocupação efectiva No século XVII, as fronteiras da coló- nia eram as seguintes: • a norte, o rio Dande; • a leste, o rio Lucala, que fazia a de- limitação com o Reino de Matamba; • e a sul, o rio Kwanza. Contudo, depois de 1617, os Portu- gueses tentaram dominar a popula- ção africana a sul do rio Kwanza a partir de Benguela-a-Nova até Ca- conda, onde em 1769 construíram o primeiro forte. Apósdessa data, a pressão sobre os ovos do planalto intensifi cou-se de- vido à fi xação de pombeiros e de forças militares em alguns presídios e aldeias criados por interesse da estratégia colonial. Entre 1845 e 1848, os Portugueses já tinham fi xado as fronteiras dos ter- ritórios que estavam sob o seu controlo: • a norte, até ao rio Mbridje, este limite estava ofi cialmente fi xado pelos Portugueses, embora algumas baías, como as de Ambriz e Ambrizete, e a zona dos Dembos ainda não estivessem ocupadas pelas autoridades portuguesas. • a sul, o limite estava próximo do Tômbua (ex-Porto Alexandre). • as fronteiras do Reino de Benguela iam desde o Planalto Central até onde começava o estado de Kassanje e aos confi ns do Reino de Humbe. SABIAS QUE ... • Os pombeiros eram negociantes europeus (portugueses) que atravessavam regiões do interior para negociarem com os indí- genas (africanos). • Presídio era um lugar de socorro e de defesa onde se abriga- vam as forças militares coloniais. Fig. 1 Mapa francês mostrando as fronteiras da colónia de Angola por volta de 1754 84 A partir dos anos de 1800, a extensão da colónia foi aumentando e ane- xando o Reino da Matamba e o presídio do Duque de Bragança. Além das agressões militares, os Portugueses aproveitavam-se das cri- ses de sucessão dos reinos, auxiliando um dos grandes pretendentes ao trono. Os Portugueses sabiam que o candidato ajudado, uma vez no tro- no, reconheceria a ajuda recebida ao protectorado dos Portugueses. As- sim, iam alargando as fronteiras da colónia de Angola. No entanto, a ocupação efectiva do território que hoje constitui a Repú- blica de Angola só foi terminada pelos Portugueses em 1917, com a con- quista do Reino do Kwanyama. 6.2. A resistência à ocupação colonial Até ao início dos anos de 1900, Portugal não tinha conseguido ainda ocu- par efectivamente algumas regiões de Angola, em virtude da resistência que as sociedades tradicionais ofereciam aos colonialistas. Esta resistência caracterizou-se principalmente sob o ponto de vista cul- tural e guerreiro. Quanto à resistência cultural, esta verifi cou-se porque os Africanos não quiseram aceitar a religião cristã, a religião adoptada pelos colonialistas. Um bom exemplo de tal facto foi a Revolta da Casa dos Ídolos, no Reino do Kongo. Vejamos alguns exemplos mais detalhados: o Kongo foi o primeiro reino com o qual os Portugueses estabeleceram contactos. A partir daí, come- çaram a surgir confl itos que foram aumentando gradualmente devido aos abusos dos Portugueses. Da resistência armada, temos os exemplos de Ngola Kiluanje, Bula Ma- tadi, Njinga Mbandi, Ekuikui II, Mutu-ya-Kevela, Mandume e tantos outros que pegaram em armas para lutarem contra os Portugueses para que os seus territórios ocupados por estrangeiros fossem libertos. Assim, surgiram várias revoltas para a expulsão dos trafi cantes portugue- ses, sendo a mais violenta a referida Revolta da Casa dos Ídolos. Esta revolta teve como causa a proibição do culto animista, devido à qual 6.1. As campanhas de ocupação efectiva 85 tinham sido queimados todos os objectos relacionados com o culto dos antepassados. A revolta foi dominada com a ajuda dos Portugueses. Além de intervirem na religião, os portugueses também procuravam in- terferir na sucessão dos monarcas, pois destituíam uns para colocarem outros a quem pudessem impor as suas ordens. A resistência que os portugueses encontraram na tentativa de conquistar o Ndongo parece ter sido a esperada. A razão principal foi porque comba- tiam contra um poder estabelecido pelo Ngola e os seus chefes locais, re- forçados por vezes pela aliança com alguns grupos, como os Imbangala. Na margem sul do Kwanza, os Imbangala eram muito numerosos, e chefes como Cafuxe difi cultavam seriamente as comunicações ao longo do rio. Foi em Angoleme-ia-Kitambo que os portugueses enfrentaram um exér- cito de coligação de vários povos - Umbundu, Imbangala e Bakongo - chefi ados por Ngola Kiluanji. Através desta coligação, Ngola Kiluanji e os seus aliados conseguiram limitar as posições portuguesas aos fortes de Muxima, Massangano e Luanda. As revoltas mais conhecidas foram as dos sobados da Quissama e a dos Dembos, que protegiam grupos de escravos fugidos, as do Ndongo, as da Matamba, as do Kongo, as da Quissama (coligação de 1590-1600 e coli- gação de 1625-1656), as dos Cuvales e as do Planalto Central de Angola. 6.2. A resistência à ocupação colonial Fig. 2 Ilustração sobre a Revolta da Casa dos Ídolos. 86 6.2.1. A defesa do território contra a invasão do Sul de Angola No início dos anos de 1900, os colonialistas portugueses e alemães dis- putavam o Sul de Angola, pois nessa altura eram verdadeiros rivais. As principais razões desta disputa eram o território e o gado, que constituíam grandes fontes de riqueza dos povos do Sul de Angola. Os Alemães nun- ca tinham perdido a esperança de conquistar os territórios da parte sul de Angola. Com a eclosão da I Guerra Mundial (1914), os Alemães vende- ram armas aos Kwanyamas. Aproveitando essa rivalidade, Mandume, rei dos Kwanyamas, garantiu aos Ale- mães que as suas armas serviriam para lutar contra os Portugueses. Temendo que os Alemães ocupassem o território, os Portugueses capturaram Ondjiva de surpresa, antes que a defesa estivesse totalmente preparada. Mandu- me começou então a percorrer o território Ambo, tentando unir todas as tribos para a luta. Os Kwanyamas, grandes guerrilheiros muito bem organizados e comandados por um chefe corajoso, venceram os Portugueses numa série de batalhas. Devido às vitórias dos Kwanyamas, os colonialistas tiveram de mandar vir reforços. Desesperados, os Portugueses utilizaram a traição, corrompen- do alguns elementos Kwanyamas. Dessa forma, os Kwanyamas foram vencidos nas batalhas de Môngua e de Mufi lo. Perante esta situação, e devido ao grande poder militar do inimigo, assim como à traição de alguns sobas, Mandume acabou por se suicidar em 1917, preferindo a morte a ter de sujeitar-se a viver sob a dominação estrangeira. Foi a partir da morte deste rei que os Portugueses conseguiram ocupar o reino defi nitivamente. 6.2. A resistência à ocupação colonial Fig. 3 Fotografi a de Mandulme, herói da resístêncía à ocupação colooial. 87 6.2.2. A administração colonial A instalação do sistema de dominação colonial o sistema colonial português foi concebido em Angola com o objectivo de fornecer à Europa matérias-primas a baixo preço em troca das merca- dorias que a Europa manufacturava. Com o passar do tempo, os capitalistas da Europa e dos EUA verifi caram que empregando o seu capital nas colónias obteriam muito mais lucros do que investindo nos seus próprios países, por causa da mão-de-obra barata local. Enquanto se desenvolvia a produção capitalista operava-se a passagem do capitalismo para o imperialismo. Esta passagem, aumentou o interes- se dos países europeus na ocupação das colónias em África. A partir de 1876, alguns paí- ses da Europa e da América, tais como a Alemanha, os EUA e outros, começaram a instalar colónias em África. Este facto deu origem à par- tilha do continente africano, com a realização da Confe- rência de Berlim (1884-85). 6.2. A resistência à ocupação colonial Fig. 4 Mapa inglês mostrando as fronteiras das colónias africanas por volta de 1895. A partir desta data, Angola fi cou sob o jugo colonial português até 11 de Novembro de 1975, altura em que foi proclamada a independência. 88 Os órgãos da administração colonial As formas de administração colonial em África variavam de potência para potência. Em Angola, os Portugueses utilizaram a administração direc- ta. Isto signifi ca que, através dessa administração, os territórios eram go- vernados directamente pelo aparelho de Estado estrangeiro, ou seja, era a Metrópole colonial a instalar os seus representantes administrativos na colónia, aos quais fi cava sujeita a população. Por esse motivo as antigas leis que governavam as comunidadese os chefes tradicionais não tinham qualquer valor e só eram utilizadas segun- do a conveniência do aparelho da administração colonial. Em Angola, o representante da autoridade administrativa portuguesa na colónia chamava-se capitão ou governador. Contudo, ele era em pri- meiro lugar um chefe militar, e tinha como função conquistar, saquear e receber os tributos extorquidos à população. A princípio, as leis em vigor na colónia dependiam do governo de Portugal. Mais tarde, as instruções gerais eram entregues ao governador no início do mandato através de um regime ordena- do pelo governo de Portugal. Havia também um Conselho do Go- verno, de que faziam parte os milita- res, comerciantes, funcionários, mis- sionários e moradores mais infl uentes da cidade, que eram designados para aconselhar o governador. Havia ainda outros responsáveis que organizavam os tribunais e que contro- lavam o trafi co de escravos e os impos- tos destinados aos cofres da adminis- tração colonial. Conforme as necessidades, os governadores foram elaborando novas leis relativas ao comércio, aos impostos, à justiça e às heranças. 6.2. A resistência à ocupação colonial Fig. 5 Norton de Matos, Govemador-Geral da Província de An- gola entre 1912 e 1915. 89 A abolição do tráfi co de escravos em Angola O trafi co de escravos praticado pelos europeus desde o século XV seria condenado mais tarde por alguns homens. Na Inglaterra, o despertar de várias correntes religiosas, como o Metodismo e outras, levou à conde- nação da escravatura. A atitude dessas correntes religiosas infl uenciou a opinião internacional para se pôr fi m ao tráfi co de escravos e à escravatura. Os factores económicos estiveram na base das razões que provocaram o término da escravatura. A Inglaterra foi o primeiro país europeu a inventar máquinas para a fabricação de produtos. Com essas máquinas começou a produzir mais e tinha um excedente de produtos. Então começou a procurar mercados regulares e seguros para poder escoar esses produtos . 6.2. A resistência à ocupação colonial Fig. 6 Pintura de Philip James de Loutherbourg datada de 1801, retratando as fábricas de Coalbrookdale, cidade inglesa considerada o berço da Revolução Industrial. SABIAS QUE ... • Em 1834, a Inglaterra dava liberdade a todos os escravos do seu império. • No passado, os angolanos eram enviados para a ilha de São- Tomé para trabalharem nas roças de café e cacau, como con- tratados. Assim, lentamente, foram criados órgãos de administração que permitiam ao governador e aos colonos assegurar os seus interesses e intensifi car a opressão e exploração africanas. 6.2.3. A economia colonial 90 O aperfeiçoamento das máquinas usadas nas industrias exigia cada vez mais matérias pri- mas, sendo as suas fontes as colónias afri- canas, utilizando desta forma a mão-de-obra livre em vez de escravos. As colónias fi caram muito prejudicadas com tal situação por cau- sa da abertura de novas minas de ferro, de cobre, de ouro, de diamante e outras. Tudo isto exigia mão-de-obra barata, e quanto mais barata fosse maiores seriam os lucros. A partir de 1772 a Inglaterra proibia a escrava- tura no seu território. Trinta e cinco anos mais tarde, proibia também o tráfi co de escravos nas suas colónias. Pouco a pouco, a abolição da escravatura foi-se alargando a todos os países europeus que possuíam colónias. Mas todos eles permitiram aos governadores das colónias e aos colonos assegurarem os seus intereses e intensifi carem a exploração da população africana, substituindo a es- cravatura pelo trabalho forçado sob forma de contrato. A principio, Portugal tinha-se recusado a abolir o trafi co de escravos e a escravatura nas suas colónias, mas devido às pressões da Inglaterra foi obrigado a decretar a abolição da escravatura nas suas colónias em 1836. 6.2. A resistência à ocupação colonial Fig. 7 Uma máquina de fi ar usa- da pelas fábricas Inglesas. Fig. 8 Plantação de cana-de-açúcar em Angola, nos anos de 1900. 91 O trabalho forçado e o contrato Já vimos que devido ao avanço da tecnologia e à abertura de novos mer- cados, as indústrias europeias precisavam cada vez mais de matérias -primas, cuja fonte eram as colónias. As colónias foram profundamente afectadas por esta situação, em virtude da abertura de novas minas de cobre, diamantes, ferro, ouro e outras. Para tal, os colonialistas empregaram a força - e esta utilizada de forma directa ou indirecta: • Directa - através de prisões, a fi m de obrigar os povos colonizados a trabalhar nas minas, nas plantações de cana-de-açúcar, de café, sisal e algodão. • Indirecta - por meio de pagamento de impostos. Como os africanos não tinham dinheiro, eram obrigados a vender a sua força de trabalho. Este “modelo de exploração” era, no fundo, o mesmo que a escravatura. Os africanos eram obrigados a trabalhar cada vez mais para os Europeus e cada vez menos para si próprios. Deste modo a Europa e a América enriqueceram e a África empobreceu. 6.2. A resistência à ocupação colonial Fig. 9 Um grupo de trabalhadores forçados na ilha de S. Tomé. 92 O sistema colonial apoiava-se cada vez mais na ideia de que os africanos eram incapazes de se governarem a si próprios, e empregaram também a “ideia da inferioridade da raça” para melhor subjugarem e dominarem os africanos. Este período de reforço da exploração colonial foi caracterizado por uma longa preparação e ensaios. Os colonialistas prepararam tudo para que se começassem a instalar nas regiões que dominavam as suas empresas (exploração directa). Para isso era necessário encontrar uma mão-de-obra que assegurasse o trabalho na agricultura e nas indústrias. Para assegurarem a estabilidade nas regiões colonizadas e tornarem a mão-de-obra mais obediente, os colonialistas tiveram de dominar com- pletamente os povos africanos. Uma das práticas utilizadas foi desfazer a unidade de cada povo, provocando a sua dispersão em alguns lugares . Como a escravatura, principal fonte de mão-de-obra barata, tinha sido abolida foi inicialmente substituída pelo “trabalho correctivo”, isto é, tra- balho forçado por castigo. Foi criada uma taxa, ou imposto de trabalho, que servia para dar dinheiro ao governo colonial, difi cultando cada vez mais a vida dos camponeses e 6.2. A resistência à ocupação colonial Fig. 10 A Fábrica de Tabacos Ultramarina, construída nos primeiros anos de 1900, em Luanda. 93 dos homens livres, que desta forma eram obrigados a assalariar-se. Por vezes essa taxa era paga com produtos: algodão, café e outros. O trabalho de contrato era um trabalho temporário e muito mal pago. Mais tarde, o angolar foi substituido pelo escudo. Depois da implantação do governo fascista em Portugal (1926), o angolar, foi substituí- do em Angola pelo escudo, fazendo com que os salários sofressem o chamado des- conto de valorização. Devido à mão-de-obra barata começam a aparecer as grandes fazendas, ou plantações, de algodão, cana-de-açúcar, café e sisal, assim como as em- presas de exploração mineira. Isto mostra como os produtos de grande rendimento estavam nas mãos das grandes companhias coloniais e não nas mãos dos africanos, servindo para alimentar não a mão-de-obra, mas a exportação. Para o escoamento desses produtos, foi necessário começar a abrir várias vias de comunicação. 6.2. A resistência à ocupação colonial Fig. 11 Nota de angolar e moeda de escudo de Angola Fig. 12 Operários africanos trabalhando na construção do caminho-de-ferro de Benguela. 94 6.2. A resistência à ocupação colonial A utilização das máquinas começa a propagar-se, aparecendo também algumas fábricas. As grandes fazendas capitalistas espalham-se por todo o território e constroem-se estradas. Para reforçar essa transformação, as grandes companhias inglesas, belgas e outras, iniciam a construção dos principais caminhos-de-ferro. Analisando a acção dos colonialistas, podemos concluir o seguinte: • O seu objectivo principal era consolidar o domíniosobre os povos afri- canos e integrar esses povos nas estruturas coloniais. • A razão da integração dos povos africanos nas estruturas coloniais tinha como fi nalidade a perda da sua unidade política, onde ainda existia, e quebrar a sua capacidade de resistência ao domínio e explo- ração coloniais. A exploração dos recursos e as companhias nonopollstas Portugal, embora fosse um país colonizador, era também uma dependên- cia da Inglaterra. Por esse motivo, a economia tinha características de um país subdesenvolvido. Não possuindo meios para desenvolver a sua indústria, Portugal permitiu que o capital fi nanceiro de outras potências fosse investido em Angola. Fig. 13 Mina da Diamang na Lunda. 95 6.2. A resistência à ocupação colonial Fig. 14 Transporte de minérios no Lobito A exploração do homem estava bem patente nas empresas, fábricas, mi- nas, caminhos-de-ferro, enfi m, em todos os sectores de produção. Deste modo, as grandes companhias estrangeiras, sob a forma de monopólios, como a Cotonang, a Diamang, o Caminho-de-Ferro de Benguela, a Cabinda Gulf Oil e outras, desenvolveram bastante a sua actividade, e a produção de matérias-primas como algodão, o café, os diamantes, o ferro, o cobre, o manganês ou o petróleo assegurava enor- mes lucros, sobretudo devido à utilização de mão-de-obra quase gratuita, da qual o Estado colonial Português recebia uma percentagem. Angola tornou-se uma fonte de matérias-primas baratas para os países imperialistas, e foi esta a época de maior exploração das riquezas de An- gola e do seu próprio povo. Revoltas contra as medidas da administração colonial (impostos, expropriação de terras e trabalho forçado) Além das coligações, os povos angolanos e africanos procuraram resistir contra a ocupação e a dominação estrangeira de todas as formas: através de revoltas, lutas, fugas de escravos, incêndios e assaltos de postos comerciais. No entanto, apesar de tudo, viram-se obrigados a estar su- jeitos à dominação e exploração colonial portuguesa. 96 6.3. Manifestações contra as medidas da administração colonial Quais foram as razões do insucesso da resistência? A razão principal foi sobretudo a falta de unidade, que deu origem à di- visão das forças de resistência e, consequentemente, à dominação total dos povos destes reinos e das sociedades tradicionais, que ficaram sob o jugo e a exploração estrangeira. Porém, as experiências dos seus ante- passados e de outros povos permitiram-lhes o emprego de novas tácticas que conduziram à libertação da sua terra do jugo colonial. Observa o esquema abaixo: Datas Revoltas Chefes Objectivos 1901-1902 Ovimbundo Mutu-ya-Kevela Contra o trabalho forçado 1908 Dembos Kazuangongo Contra o trabalho forçado 1913 Bakongo Tulante Buta Contra a exportação de contratados para S. Tomé 1917-24 Amboim Contra a expropriação de terras, os impostos e o trabalho forçado 1925 Ambriz Contra a captura clandestina de escravos, os impostos e o trabalho forçado 1940-48 Cubal Contra a expropriação de gado e outras formas de exploração Outra das razões do insucesso da resistência foi a utilização de armas de fogo pelos colonialistas durante a guerra. Isto teve como consequência a vitória dos Portugueses contra os movimentos de resistência, em geral fracamente armados. A terceira razão foi a ambição pelo poder. Alguns dirigentes africanos, de- sejosos de manter o poder, não se importaram de servir de intermediários das intrigas fomentadas pelos Portugueses, uma vez que estes os ajuda- riam a manter-se ou a conquistar o trono. 97 6.3. Manifestações contra as medidas da administração colonial VÊ SE SABES ... 1. Menciona alguns dos fortes construídos pelos colonialis- tas portugueses depois de se terem fi xado no território angolano. 2. Qual era o papel desses fortes? 3. Como era chamado o representante da autoridade admi- nistrativa portuguesa na colónia. 4. O que entendes por trabalho forçado? 5. Quem foi Mandume? ? 98 99 TEMA 7. A LUTA DE LIBERTAÇÃO NACIONAL ESTRUTURA DO TEMA 7.1. O desenvolvimento do nacionalismo 7.1.1. O nacionalismo angolano 7.2. As primeiras organizações nacionalistas e, mais tarde, movimentos de libertação 7.3. A luta de libertação nacional 100 TEMA 7. A LUTA DE LIBERTAÇÃO NACIONAL Perante a insistência do regime colonial em não querer libertar o povo angolano, os nacionalistas viram-se obrigados a organizarem-se em movimentos reivindicativos, primeiro de forma clandestina e, mais tar- de, de luta armada contra o colonialismo português. Fig. 1 Fotografi a de um grupo de guerrilheiros angolanos na mata. Fig. 2 Uma sessão de esclarecimento nas zonas libertadas. Fig. 3 Destacamento Bomboko Fig.4 Uma picada cortada durante os ata- ques da UPA em 15 de Março de 1961. 101 7.1 O desenvolvimento do nacionalismo 7.1.1. O Nacionalismo angolano As associações culturais Como sabes, Angola era no passado um conjunto de nações, isto é, um território constituído por vários povos livres: os do Kongo, do Ndongo, da Matamba, da Lunda, e outros. As primeiras manifestações da tomada de consciência da necessidade de lutar pela liberdade (nacionalismo) datam de 1575 data em que Ngola Kiluanje travou a campanha de ocupação conduzida pelo português Pau- lo Dias de Novais na colónia de Angola. No entanto, são numerosas as manifestações do nacionalismo na história de Angola. Desde essa data até a Proclamação da Independência em 1975, as lutas sucederam-se umas atrás das outras, tornando-se cada vez mais perfeitas - pois os Angolanos foram ganhando experiência na luta contra o invasor (no Norte, no Planalto Central e no Leste e Sul de Angola). Ekuikui II, do Bailundo tentou criar bases económicas para assegurar a independência do seu povo. Mandume soube explorar as contradições entre as potências coloniais e proceder a uma mobilização popular sem igual. O povo Umbi aprendeu, por exemplo, a conhecer as mentiras do colonialista e soube vencer a fraqueza dos seus dirigentes acabando por impôr no reino uma política claramente anti-colonialista. Por outro lado, Mutu ya Kevela, do Bailundo, Tulante Buta e Mbianda Ngunga, estes dois do Kongo, foram também chefes que promoveram uma grande rno- bilização popular e souberam combater todas as formas de opressão das massas, mesmo quando elas eram disfarçadas. SABIAS QUE ... • As raízes do nacionalismo manifestam-se nas lutas dos povos colonizados em defesa de tudo que lhe é próprio (religião, cul- tura, língua e outros) contra o colonizador ou opressor. • A história do mundo conhece várias manifestações do naciona- lismo, tais como o nacionalismo africano, o nacionalismo Zam- biano ou o nacionalismo congolês, entre muitos outros, mas este ano vamos estudar o nacionalismo angolano. 102 As relações entre exploradores e explorados também se foram transfor- mando ao longo do tempo: os exploradores eram cada vez mais ganan- ciosos, e a situação dos explorados piorava sempre. Por esse motivo, podemos compreender o nacionalismo angolano como a consequência fi nal de todas as transformações e experiências acumuladas durante várias etapas de tomada de consciência do povo de Angola. O Nacionalismo angolano também encontra as suas origens em algumas camadas da burguesia angolana dos fi ns dos anos de 1800. A criação de associações em Angola durante esse período deu origem, em 1929, ao movimento de reivindicação popular que veio a ser chamado Liga Nacional Africana e ao Grémio Africano, mais tarde transformado em Associação dos Naturais de Angola. Estas associações permitiram aos angolanos mais conscientes desen- volver um trabalho de organização e consciencialização das massas. Contudo, nem sempre havia muita unidade nas organizações. As associações eram dirigidas por elementos da burguesia africana, enquanto os elementos representantes das massas constituíam apenas uma parte dos indivíduos inscritos.7.1 O desenvolvimento do nacionalismo 103 A partir dos anos de 1950 começaram a surgir as primeiras organizações nacionalistas angolanas, tais como o Partido de Luta Unida por Ango- la (PLUA, em 1953) e a União das Populações do Norte de Angola (UPNA, em 1954, e transformada na União das Populações de Angola, UPA, em 1958), que eram movimentos com ideais independentistas. 7.2. As primeiras organizações nacionalistas, e mais tarde movimentos de libertação Fig. 5 Holden Roberto (de casaco claro) e outros dirigentes da UPA, em 1961. As medidas da administração colonial eram muito duras e severas (im- postos, trabalhos forçados, contratos, etc.) e obrigavam alguns angolanos a abandonar o território nacional para se fixarem nos países vizinhos: Congo Belga (actual República Democrática do Congo), Congo Fran- cês (actual República do Congo-Brazzaville), e a Zâmbia. A UPA exercia as suas acções clandestinas no Congo Belga, mas tanto os Belgas como os Portugueses realizavam acções de “caça ao homem” para impedir as actividades armadas. Luanda era um dos locais mais propícios para o nascimento de organi- zações nacionalistas, pois era o centro das atenções administrativas das medidas coloniais. 104 O governo colonial português sofreu um grave golpe com o surgimento das primeiras organizações nacionalistas em Angola. Por essa razão, a Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE), a polícia política dos colonialistas, desencadeou acções de perseguição aos nacionalistas - entre outros, Viriato da Cruz e lIídio Machado. Nos fi nais dos anos de 1950, as organizações nacionalistas, tais como o Partido de Luta Unida por Angola (PLUA), o Movimento pela Indepen- dência de Angola (MIA), o Movimento para a Independência Nacional de Angola (MINA), fundem-se e formam o Movimento Popular de Li- bertação de Angola (MPLA). O Manifesto. O primeiro marco da história do MPLA, data do seu nascimento, é assi- nalado a 10 de Dezembro de 1956, altura em que foi tornado público o chamado “Manifesto”. O Manifesto é um denso documento dactilografado em oito páginas, da autoria dos fundadores do MPLA, como Mário Pinto de Andrade, Viriato da Cruz, Ilídio Machado, António Jacinto e Mário Jacinto de Oliveira, entre outros. 7.2. As primeiras organizações nacionalistas, e mais tarde movimentos de libertação Fig. 6 Dr. Agostinho Neto, numa fotografi a de arquivo da PIOE, a polícia política portuguesa na época colonial. Fig. 7 Mário Pinto de Andrade 105 Antecedentes As manifestações de descontentamento contra o regime colonial portu- guês agudizaram-se a partir de 1960. Na altura, muitos países de África ascenderam à independência, incluindo os países vizinhos de Angola: o Congo-Kinshasa, o Congo-Brazzaville e a Zâmbia. A independência dos países vizinhos despertou nos nacionalistas angolanos o sentimento de liberdade de um povo ainda sob o domínio colonial português. Assim, o ano de 1961 constituiu um marco na história do nosso país, tendo sido despoletados vários acontecimentos que culminaram com a independência nacional. Entre esses acontecimentos, destacam-se o Massacre da Baixa de Kassanje, a Revolta de 4 de Fevereiro e o Le- vantamento de 15 de Março. Baixa de Kassanje Um dos eventos fundamentais que antecedeu o início da luta de liberta- ção foi o da Baixa de Kassanje. Tratou-se de um levantamento popular 7.3. A luta armada de libertação nacional Fig.8 Os líderes dos três principais Movimentos de Libertação Nacional de Angola (da esquerda para a direita): Agostinho Neto (MPLA), Holden Roberto (FNLA) e Jonas Savimbi (UNITA). SABIAS QUE ... • A prática demonstrou que as greves, as reivindicações e as ma- nifestações culturais não iriam mudar a atitude do colonialismo. • Os dirigentes e militantes dos movimentos de libertação com- preenderam que o colonialismo não cairia sem a luta armada. 106 rigoroso que teve lugar no dia 4 de Janeiro de 1961 contra as medíocres condições de vida dos trabalhadores da região algodoeira da Baixa de Kassanje. Essa contestação ao sistema colonial foi duramente reprimida pelas autoridades coloniais. Houve destruição e mortes nunca vistas. A reacção do regime colonial fi cou conhecida como Massacre da Baixa de Kassanje - um evento que foi considerado como a mais expressiva mani- festação do nacionalismo angolano dos tempos modernos. 4 de Fevereiro de 1961 As manifestações nacionalistas iniciadas na Baixa de Kassanje assumi- ram uma dimensão nacional e internacional. Assim, no dia 4 de Fevereiro de 1961, jovens e trabalhadores da capital lançaram um ataque às cadeias para libertar os detidos políticos que se encontravam na prisão de São Paulo em Luanda. O 4 de Fevereiro já não teve o carácter do 4 de Janeiro, pois foi fruto da aturada conspiração e organização política e militar orientada pelo Movi- mento Popular de Libertação de Angola (MPLA). 7.3. A luta armada de libertação nacional Fig. 9 Fotografi a do 4 de Fevereiro de 1961 . 107 Os nacionalistas, para iniciarem a luta de libertação nacional contra a opressão colonial, tiveram a colaboração e a participação de várias per- sonalidades. Entre elas destaca-se o cónego Manuel das Neves, além de outros combatentes que posteriormente seriam identifi cados com uma ou outra formação política. Considera-se o 4 de Fevereiro de 1961 como sendo a data do início da Luta Armada de Libertação Nacional. Holden Roberto, líder da UPA (União dos Povos de Angola), dirigiu as suas acções a partir da República Democrática do Congo, onde se tinha estabelecido. No dia 15 de Março de 1961, no Norte de Angola, a UPA ataca as fazen- das dos colonos. Este movimento político desenvolveu também as suas acções de guerrilha com maior agressividade no Norte do País. 7.3. A luta armada de libertação nacional A organização das primeiras unidades de guerrilha após o 4 de Feverei- ro e o 15 de Março de 1961, assim como o alastramento das revoltas nas áreas rurais do norte do País, fi zeram com que muitos patriotas aban- donassem as cidades e concentrassem as suas actividades nas matas a norte da capital, enquanto outros se viram forçados a refugiar-se nos Fig. 10 Fotografi a de uma acção de membros da UPA contra as fazendas dos colonos do Norte do país, em 15 de Março de 1961 . 108 países vizinhos, em especial no então Congo-Leopoldville, onde desde tempos mais remotos existia já uma comunidade angolana considerável. Nos primeiros tempos, constituíam-se grupos de guerrilheiros que ataca- vam em certos períodos as cidades e depois regressavam aos matos. O apoio popular teve um papel muito importante durante a guerrilha, visto que nas suas deslocações, os grupos de combatentes eram acolhidos e alimentados nas aldeias por onde passavam. Nas regiões sob controlo dos guer- rilheíros, e sempre que havia con- dições, estabeleciam-se postos sanitários e escolas. As mulheres, homens idosos e crianças cultiva- vam a terra para se alimentarem e para alimentarem também os guer- rilheiros que davam o seu sangue, isto é, as suas vidas, pela inde- pendência da Pátria. Também se realizavam actividades culturais e recreativas que animavam os guer- rilheiros a prosseguir o combate. Os tempos de simples contestação ao sistema colonial pertenciam ao passado: a fase era agora de luta armada - a única linguagem que o sis- tema colonial poderia entender. É neste contexto que Tomás Ferreira, coadjuvado por vários jovens che- gados a Leopoldville, entre eles o destacado José Mendes de Carvalho (Hoji-ya-Henda), iniciam clandestinamente a formação de um pequeno grupo com o objectivo de darem continuidade à luta armada iniciada a 4 de Fevereiro. O MPLA envia grupos de militantes para Marrocos, Argé- lia, Ghana e Checoslováquia, onde receberam formação militar. No seu regresso, o MPLA opta pela constituição da orqanlzação militar que se designou como Exército Popular de Libertação de Angola (EPLA). Ao mesmo tempo, a União dos Povos de Angola (UPA),transformada mais tarde na FrenteNacional de Libertação de Angola (FNLA), tinha formado a partir do Congo-Kinshasa um exército denominado Exército de Liberta- ção Nacional de Angola (ELNA), que instalou o seu quartel-general em Fig. 11 Mulheres trabalhando numa aldeia, nos anos de 1960. 7.3. A luta armada de libertação nacional 109 Kinkuzu, na República Democrá- tica do Congo. No ano de 1966, um grupo de dis- sidentes da FNLA encabeçados por Jonas Malheiro Savimbi, for- maram no interior de Angola um novo movimento de libertação na- cional, denominado União para a Independência Total de Angola (UNITA), com o seu braço armado - as Forças Armadas de Liberta- ção de Angola (FALA).Fig. 12 Holden Roberto. 7.3. A luta armada de libertação nacional A repressão colonial Em resposta às actividades clandestinas das organizações políticas MINA, MIA, PLUA e UPA e às revoltas de 1961, as autoridades colo- niais reforçaram o poder policial e a segurança interna, iniciando-se deste modo um período de repressão que conduziu à detenção, julgamento e deportação de grande número dos mais infl uentes nacionalistas. De entre estes, destaca-se a fi gura do médico António Agostinho Neto. Pre- so e deportado por duas vezes e eleito à presidência de honra do MPLA, per- maneceu nesta situação até meados de 1962, ano em que assume a presi- dência do Movimento. Insere-se tambem neste confron- to aquele que fi cou conhecido como “Processo dos 50”, tornado célebre quer pelo número de patriotas nele en- volvido quer pelo carácter de atrope- lamento das mais elementares regras de justiça que caracterizam a repres- são colonial. Fig.13 Fotografi a dos envolvidos no “Processo dos 50”. 110 Entretanto, Holden Roberto que era o líder da UPA, estava a dirigir as suas acções a partir da República Democrática do Congo, onde já se tinha estabelecido antes do início da Luta Armada de Libertação. O 25 de Abril de 1974 A guerra que alastrava nas antigas colónias portuguesas, designadamen- te em Angola, Moçambique, Cabo Verde e Guiné-Bissau, levava a que morressem muitos militares portugueses nessas colónias. Por outro lado, a guerra provocava muitas despesas, isto é, muitos gastos de dinheiro. Além disso, a guerra criava um mal-estar geral em Portugal, cujos fi lhos morriam em Angola e cuja economia estava a suportar os es- forços de guerra, criando sérias difi culdades ao povo. Porém, o regime fascista português, além de oprimir os povos das coló- nias, também oprimia o próprio povo português e perseguia os mais pro- gressistas, ou seja, os que não apoiavam o regime colonial. Estes eram enviados para as colónias para sustentar a guerra. Este clima de guerra e de intensifi cação dos serviços secretos do regime português de Salazar e Caetano (a PIDE/DGS) aumentou o descontenta- mento do povo português, que culminou com o golpe de Estado (tomada do poder) militar em 25 de Abril de 1974. 7.3. A luta armada de libertação nacional Fig. 14 Fotografi a do golpe de Estado de 25 de Abril de 1974, em Lisboa. 111 O 11 de Novembro de 1975 Após o golpe de Estado de 25 de Abril de 1974, em Portugal, foram re- conhecidos os três movimentos de libertação, que lutaram pela indepen- dência de Angola, o MPLA, a FNLA e a UNITA. Esses movimentos come- çaram a fazer campanhas de sensibilização, preparando o povo para a independência. No entanto, surgiram divergências entre os três movimentos, e o nosso país viu-se envolvido numa guerra longa e desgastante. Apesar da guerra, a independência de Angola foi proclamada às zero ho- ras do dia 11 de Novembro de 1975 pelo presidente do MPLA, o cama- rada António Agostinho Neto, que passou a ser o primeiro Presidente da República Popular de Angola. Para que fosse possível tão importante marco, muitos sacrifícios tiveram que ser consentidos por milhares de fi lhos de Angola, que de Cabinda ao Cunene e do Leste ao mar souberam interpretar os anseios mais profun- dos e legítimos de todo um povo na luta pela dignidade e reconquista da sua identidade cultural e política. 7.3. A luta armada de libertação nacional Fig. 15 Os líderes dos principais movimentos de libertação de Angola na altura da assinatura dos acordos de Alvor, em 1975. 112 Por isso, a luta de todo o povo angolano foi coroada por essa vitória de elevado signifi cado histórico, obtida a 11 de Novembro de 1975 com o hastear da Bandeira Nacional no actual Largo da Independência, em Luanda, perante a emoção e alegria de milhares de homens, mulheres e crianças e o respeito e admiração das forças democráticas de todo o mundo. 7.3. A luta armada de libertação nacional Agostinho Neto, o primeiro Presidente da nova República, morreu em 10 de Setembro de 1979, ano em que foi substituído por José Eduardo dos Santos, que se tornou assim o segundo Presidente da República de Angola. Fig. 16 A Bandeira Nacional a ser hasteada no Largo da Independência. em 1975. Fig. 17 Dr. António Agostinho Neto, o primeiro Presidente da República de Angola. 113 7.3. A luta armada de libertação nacional VÊ SE SABES ... 1. Cita uma das várias manifestações do nacionalismo na história de Angola 2. Quais foram os principais movimentos de libertação de Angola? 3. O que entendes por “Processo dos 50”? 4. Localiza geografi camente a Baixa de Kassanje. 5. Em algumas linhas, descreve a importância das seguin- tes datas históricas do nosso País: • 4 de Fevereiro de 1961; • 15 de Março de 1961. 6. Como descreves os acontecimentos ocorridos em 25 de Abril de 1974? ? 114Monumento ao Dr. António Agostinho Neto, na Praça da Independência - Luanda 115 TEMA 8. AS CONQUISTA DA INDEPENDÊNCIA ESTRUTURA DO TEMA 8.1. O País 8.1.1. O território 8.1.2. O governo 8.1.3. Os símbolos 8.2. Cultura e desporto 8.3. Economia 8.3.1. Agropecuária 8.3.2. Indústria 8.3.3. Outros sectores da economia 116 8.1. O País 8.1.1. O território Situada geografi camente num imenso território de África, Angola faz fronteira a norte com a República Democrática do Congo (R.D.C.)e a República do Congo-Brazzaville; a nordeste com a República De- mocrática do Congo; a leste com a República da Zâmbia; a sul com a República da Namíbia; e a oeste com o oceano Atlântico. TEMA 8. AS CONQUISTAS DA INDEPENDÊNCIA • SABIAS QUE ... • Angola é um país africano situado na África Central. • Angola tornou-se um país independente a 11 de Novembro de 1975. • O primeiro Presidente de Angola foi o Dr. António Agostinho Neto. Fig. 1 Mapa de Angola e os seus limites. 117 Angola possui uma superfície de 1 246 700 km2. A extensão da sua fron- teira terrestre é de 2500 km, e a linha costeira com o oceano Atlântico é de 1600 km. O território está dividido administrativamente em 18 provín- cias, que são: • a norte: Bengo, Cabinda, Cuanza-Norte, Luanda, Malanje, Uíge e Zaire; • a nordeste: Lunda Norte e Lunda Sul; • ao centro: Benguela, Bié, Cuanza-Sul e Huambo; • a leste: Moxico e Cuando Cubango; a sul: Cunene, Huila e Namibe. 8.1. O País Fig.2 Divisão administrativa de Angola. 118 8.1.2. O governo Proclamada a independência, era necessário preparar uma Constituição. A Constituição determina as normas e as Leis que conduzem o Estado. O Estado Angolano é constituido pelo seguintes poderes e orgãos: Poder legislativo - Exercido pela Assembleia Nacional Poder executivo - Exercido pelo Governo, designado Executivo Poder judicial - Exercido pelos tribunaisO Executivo tem 3 Ministros de Estado e 28 Ministérios: • Ministro de Estado do Desenvolvimento Economico e Social; • Ministro de Estado e Chefe da Casa de Segurança do Presi- dente da República; • Ministro de Estado e Chefe da Casa Civil do Presidente da República. 1 Ministério da Defesa Nacional 2 Ministério do Interior 3 Ministério das Relações Exteriores 4 Ministério da Justiça e Direitos Humanos 5 Ministério das Finanças 6 Ministério da Administração do Território e Reforma do Estado 7 Ministério da Administração Pública Trabalho e Segurança Social • SABIAS QUE ... • Os Angolanos lutaram durante 14 anos para conseguir a independência, derrubando o governo colonial português. • A independência de Angola foi proclamada pelo Dr. An- tónio Agostinho Neto a 11 de Novembro de 1975, no Largo da Independência, em Luanda. 8.1. O País 119 8.1. O País 8 Ministério da Agricultura e Florestas 9 Ministério da Indústria 10 Ministério da Energia e Águas 11 Ministério dos Recursos Minerais e Petróleos 12 Ministério dos Transportes 13 Ministério da Construção e Obras Públicas 14 Ministério das Pescas e do Mar 15 Ministério das Telecomunicações e Tecnologias de Informação 16 Ministério do Ordenamento do Território e Habitação 17 Ministério da Economia e Planeamento 18 Ministério do Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação 19 Ministério da Educação 20 Ministério da Saúde 21 Ministério da Hotelaria e Turismo 22 Ministério da Acção Social, Família e Promoção da Mulher 23 Ministério da Cultura 24 Ministério da Juventude e Desportos 24 Ministério da Comunicação Social 26 Ministério dos Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria 27 Ministério do Comércio 28 Ministério do Ambiente 120 8.1.3. Os símbolos Os Símbolos do país são: a bandeira, a insígnia, o hino nacional e a moeda. A moeda nacional é o Kwanza. 8.1. O País A bandeira nacional tem duas cores dispostas em duas faixas horizon- tais. A faixa superior é de cor vermelho-rubro e a inferior de cor preta. Estas cores representam: • vermelho-rubro: o sangue derramado pelos Angolanos durante a opressão colonial, a luta de libertação nacional e a defesa da Pátria. • preto: o continente africano. No centro da bandeira nacional fi gura uma composição constituída pelos seguintes elementos: • uma secção de uma roda dentada: símbolo dos trabalhadores e da produção industrial; • uma catana: símbolo dos camponeses, da produção agrícola e da luta armada; • uma estrela: símbolo da solidariedade internacional. A roda dentada, a catana e a estrela presentes na bandeira nacional são de cor amarela, representando as riquezas do país. Fig. 3 A bandeira nacional. 121 8.1. O País A insígnia da República de Angola é formada por uma secção de uma roda dentada e por uma ramagem de milho, café e algodão, repre- sentando, respectivamente, os trabalhadores e a produção industrial, os camponeses e a produção agrícola. Na base do conjunto podem ver-se um livro aberto, símbolo da educa- ção e cultura, e o sol nascente, signifi cando o novo país. Ao centro estão colocadas uma catana e uma enxada cruzadas, simboli- zando o trabalho e o início da luta armada. No cimo fi gura uma estrela, símbolo da solidariedade internacional e do progresso. Na parte infe- rior do emblema encontra-se uma faixa dourada com os dizeres “Repú- blica de Angola”. Fig. 4 Insígnia da República de Angola. 122 8.1. O País O Hino Nacional de Angola tem o título de “Angola Avante”. Angola Avante 1 - Oh Pátria, nunca mais esqueceremos Os heróis do 4 de Fevereiro Oh Pátria, nós saudamos os teus fi lhos Tombados pela nossa independência. Honramos o passado e a nossa história, Construímos no trabalho o homem novo, Honramos o passado e a nossa história, Construímos no trabalho o homem novo, Angola, avante Revolução, pelo poder popular Pátria unida, liberdade, Um só povo, uma nação 2 - Levantemos nossas vozes libertadas Para glória dos povos africanos. Marchemos, combatentes angolanos, Solidários com os povos oprimidos. OrgoIhosos lutaremos pela paz Com as forças progressistas do mundo. Orgulhosos lutaremos pela paz Com as forças progressistas do mundo. Angola, avante Revolução, pelo poder popular Pátria unida, liberdade, Um só povo, uma só nação. Angola, avante Revolução, pelo poder popular Pátria unida, liberdade, Um só povo, uma só nação. ESCREVER Escreve e canta o Hino Nacional de Angola 123 8.1. O País VÊ SE SABES ... Defi ne os seguintes conceitos: • Bandeira, insígnia, hino • Pais, território, governo VÊ SE SABES ... • Angola é um país muito fértil desde tempos antigos. • As tradições culturais são muito variadas em Angola. • Na época anterior à independência, Angola conquistou os 1.°, 2.º e 3.° lugares nas culturas de café, algodão e ex- tracção de diamantes. O valor patriótico de cada cidadão passa também por reconhecer os símbolos do seu país. ? ? 124 A moeda nacional de Angola chama-se Kwanza, que é o nome do maior rio que nasce e desagua em Angola. A abreviatura do Kwanza é Kz. Exis- tem notas e moedas com diversos valores faciais:1 Kz, 5 Kz, 10 Kz, 50 Kz, 100 Kz, 200 Kz, 500 Kz, 1000 Kz, 2000 Kz e 5000 Kz. 8.1. O País Moeda de 1 Kwanza (Frente e verso). Nota de 5 Kwanzas (frente e verso). Nota de 10 Kwanzas (frente e verso). Nota de 50 Kwanzas (frente e verso). Moeda de 5 Kwanzas (frente e verso). Moeda de 10 Kwanzas (frente e verso). Moeda de 20 Kwanzas (frente e verso). Moeda de 50 Kwanzas (frente e verso). Moeda de 100 Kwanzas (frente e verso). 125 8.1. O País Nota de 100 Kwanzas (frente e verso). Nota de 100 Kwanzas (frente e verso). Nota de 2000 Kwanzas (frente e verso). Nota de 200 Kwanzas (frente e verso). Nota de 1000 Kwanzas (frente e verso). Nota de 5000 Kwanzas (frente e verso). 126 8.2. Cultura e desporto A conquista da independência permitiu que os Angolanos divulgassem os seus valores culturais através da participação em even- tos regionais, continentais e mundiais. A li- berdade nas manifestações culturais é um elemento de identificação de cada angolano e mostra os diferentes hábitos, costumes e crenças. Em Angola os padrões culturais são diversi- ficados, mas existe um elemento comum na maioria da população que comprova uma mesma origem cultural. A riqueza e os diferentes valores da cultura angolana conduziram nas últimas décadas a notáveis alcances culturais e desportivos. A dança, representada em várias formas de manifestação, como a cabetula, a massem- ba, a kazukuta e outras, levou à distinção de um dos valorosos grupos angolanos a nível internacional, os Kilandukilu, que granjea- ram qualificações meritórias em numerosos concursos culturais. Fig. 13 o pensador, símbolo da cultura angolana. Fig. 14 Uma exibição do grupo Kilandukilu. 127 8.2. Cultura e desporto Na área da literatura, os escritores angolanos tam- bém foram agraciados com diversos prémios inter- nacionais que distinguiram as suas obras, desta- cando-se Agostinho Neto com o seu livro Sagrada Esperança. A língua portuguesa que hoje constitui a comuni- cação ofi cial dos Angolanos é uma herança do co- lonialismo português, embora os Angolanos tenham as suas próprias línguas nacionais: na zona norte encontramos uma área onde se falam as línguas fi o- te, kikongo e kimbundu; no nordeste, falam-se o côkwe e o nganguela; e no sul, o umbundo, o kimbundu, o kwanyama e o nyanka. Fig. 15 Capa do livro Sagrada Esperança, de Agostinho Neto. O prato típico dos angolanos no Norte, Este e Sul é o funge, que pode ser de fuba de bombó ou de milho. 128 8.2. Cultura e desporto No domínio desportivo, os Angolanos participaram em competições afri- canas e mundiais, levando os símbolos do nosso País para além-fron- teiras através das vitórias obtidas. Foi assim que Angola se tornou nove vezes campeã africana de basquetebol masculino e feminino e campeã africana de andebol. No atletismo paralímpico, Angola liderou as competiçõesmundiais em 2005 com José Sayovo. No entanto, a maior alegria dos Angolanos foi, também nesse mesmo ano, o apuramento para o Campeonato Mundial de Futebol de 2006, que se realizou na Alemanha. O êxito de todas estas conquistas está ligado à unidade de todos os Angolanos e ao respei- to pelas suas diferen- ças. Fog. 16 Imagens da actuação da selecção angolana de Basketebol. Fig. 17 Treino dos Palancas Negras antes do jogo com o Zimbabwe, em 2006. 129 8.3. Economia Antes da independência, Angola era uma importante produtora de ma- térias-primas. Nas províncias de Cabinda, Zaire e Luanda extraía-se o “minério preto” - o petróleo; em Malanje e Lunda, diamantes; no Huam- bo, Cuanza-Norte e Huíla extraíam-se ferro, cobre, manganês, fosfatos e mármores, e ainda águas minero-medicinais. Todos estes produtos destinavam-se ao desenvolvimento das indústrias estrangeiras. Nas províncias de Cabinda, Uíge, Zaire, Bengo, Moxico, Cuanza-Norte, Cuando-Cubango e Bié desenvolviam-se as explorações florestais. 8.3.1. Agropecuária Angola é um país com muitas oportunidades na agricultura e na pecuária. Quase todo o território possui terras fertilizadas pelas chuvas, e os rios abundantes permitem uma agricultura saudável. Em todas as províncias desenvolve-se actividade agrícola, e em algumas actividade pecuária. Na época colonial, a exploração agrícola estava ligada a produção de café, tabaco, algodão, sisal e palmares. A pesca e a pecuária também eram fon- tes de lucros para a economia colonial. O processo da venda em nada Fig. 18 Fotografia de uma das indústrias mineiras de diamantes de Angola. 130 benefi ciava o desenvolvimento económico da colónia de Angola, mas sim de Portugal, país colonizador. Após a proclamação da independência, o governo de Angola priorizou o sector da agricultura e pecuária como actividade básica para a manu- tenção da segurança alimentar da população, mas devido ao período de longa instabilidade pela qual o pais passou, a agricultura teve muito pou- co desenvolvimento. A partir de 2002, com a conquista da paz, o sector agrícola voltou a desenvolver-se bastante. As populações continuam a praticar a sua agricultura, valorizando os co- nhecimentos dos seus antepassados. O Ministério da Agricultura e Florestas tem feito muitos esforços na preparação de terras para alargar as áreas de cultivo, fornecendo equipa- mentos agrícolas como, enxadas, catanas, charruas e assistência técnica e semetes aos camponeses e demais produtores agrícolas. Hoje encontram-se cooperativas agrícolas em quase todas as províncias de Angola. Elas revestem-se de grande importância no campo económico e social. Constituem uma forma de organização, reúnem pessoas, esti- mulam o trabalho comum e procuram formas de resolver os problemas que afectam uma determinada comunidade. 8.3. Economia Fig. 19 Cultura de café em Angola 131 8.3. Economia Fig. 20 Uma lavra tradicional Fig. 21 Modema agricultura mecanizada. Angola é um país de clima tropical e apresenta um grande potencial de produção de gado. Em várias regiões do nosso país, sobretudo na parte sul, muitos dos habitantes têm como actividade principal a criação de gado bovino, mas noutras regiões também se faz a criação do gado capri- no e suíno. Outra actividade desenvolvida em Angola é a criação de aves. A população camponesa continua a fazer a criação tradicional para sua auto-subsistência. Em algumas províncias também fazem a produção lei- teira no seio familiar. Hoje, os cuidados da pecuária merecem maior atenção com o emprego de novas tecnologias. Existem áreas controladas pelo Ministério da Agri- cultura e Florestas que trabalham na produção de carne e leite para o consumo da população. Essas áreas localizam-se em algumas províncias do nosso país, como é o caso da província do Cuanza-Sul. Fig. 22 Criação pecuária na província de Benguela. 132 8.3. Economia 8.3.2. Indústria A colónia de Angola tinha uma indústria débil, embora existissem alguns centros industriais em Luanda (Viana), Benguela (Lobito), Huambo e Lubango nas áreas da agro-pecuária, bebidas e materiais de construção. Indústria extractiva Actualmente, nas províncias das Lundas Norte e Sul, Malange e Bié ex- ploram-se os diamantes. Na Huila e no Namibe, o granito preto e cin- zento, mármore e outras rochas de embelezamento. Em Cabinda, Luan- da e Zaire explora-se o petróleo. Também existem algumas pedreiras em Luanda,Bengo, Benguela, Cabinda e Huila. Todas estas indústrias contribuem para o desenvolvimento do país. Fig. 23 Uma plataforma de exploração petrolífera. Indústria transformadora Durante a guerra civil que assolou o país, muitas indústrias decaíram. O pais vivia apenas de exportações de matérias-primas. Com a conquista da paz, Angola tem conhecido um notável desenvolvi- mento industrial em todos os ramos: 133 • indústria alimentar; • indústria têxtil e de confecções; • indústria de bebidas; • indústria de tabaco; • indústria química; • indústria de mobiliário metálico e em madeira; • indústria de materiais de cons- trução e de instrumentos de trabalho agrícola; • indústria de montagem de meios de transporte; • indústria de construção civil e naval 8.3.3. Outros sectores da economia Para garantir o fornecimento de energia às indústrias, o governo colonial mandou construir centrais hidroeléctricas (Cambambe, Biópio, Lomaum, Mabubas, Luachimo, Matala) e algumas centrais termoeléctricas. A abertura de vias de comunicação destinava-se a assegurar o escoa- mento dos produtos, tendo sido desenvolvida uma rede de estradas, ca- minhos-de-ferro e portos marítimos. A obtenção de moeda estrangeira era um dos principais objectivos da actividade económica colonial, por isso foram abertos bancos nas princi- pais cidades. Depois da independência, devido o decorrer da guerra civil, muitas acti- vidades económicas decairam. A agricultura mecanizada desapareceu e a de subsistência fi cou reduzida. As vias de comunicação terrestre (ro- doviárias, urbanas e ferroviárias) foram interrompidas e o comércio fi cou extremamente debilitado. Nos últimos anos, com o fi m da guerra civil, a política do Governo tem estado ligada a projectos de desenvolvimento económico, como a 8.3. Economia Fig.24 Fábrica da Cimangola, uma empresa de- dicada à produção de cimento. 134 indústria, entre outros. A indústria dos minérios tem-se desenvolvido cada vez mais. No domínio das indústrias extractivas têm-se descoberto e explorado mais poços minerais. Fig.27 Sede da Sonangol. Fig. 28 Avião das Linhas Aéreas de Angola. Fig.26 Banco de Desenvolvimento de Angola. Devido ao êxodo da população para as cidades, o Governo tem ampliado os serviços de comunicação, com a abertura de novas vias de comunica- ção e o aumento da frota de transportadores de pessoas e mercadorias. Com a conquista da paz a 4 de Abril de 2004, o país encetou um ambicio- so programa de infra-estruturação do país em todos os dominós da vida económica e social, potenciando assim o desenvolvimento da economia o bem estar social e sua inserção económica regional. 8.3. Economia 135 V ANGOLA HOJE Localização geográfi ca: África Austral Área: 1 246 700 km 2 População: 25 000 000 habitantes Capital: Luanda Língua ofi cial: Portuguesa Religião: Várias VÊ SE SABES Com a ajuda do teu professor (a), defi ne os seguintes conceitos: • País, território, governo. Fig. 29 Vista aérea da moderna cidade de Luanda. Fig. 30 A Marginal de Luanda. 8.3. Economia 136 137 GLOSSÁRIO BIBLIOGRAFIA 138 Angariador Recrutador; pessoa que adquire algo. Bandeira Emblema que serve de distintivo a uma nação. Bantu Plural de “muntu”, que significa “homem”. Causa Motivo, razão, origem. Colónia Território ocupado e povoado por uma nação, situado geralmente noutro continente. Colonização Estabelecer colónias; dominar ou subjugar outro povo. Comércio triangular Comércio marítimo que se fazia entre os três continentes: África, América e Europa, assim designadopor tomar num mapa a forma de um triângulo. Conferência Reunião organizada para se tratar de assuntos particulares ou públicos. Consequência Resultado natural, provável ou forçoso de um facto; efeito. Cultura Conjunto de costumes e tradições de um povo. Desenvolvimento Acto ou efeito de desenvolver; progresso; cultura intelectual. Desporto Exercício fisico regulado por normas mais ou menos definidas, praticado individualmente ou em grupo. GLOSSÁRIO 139 Divisão Administrativa Repartição de administração de um governo. Escravatura Comércio de escravos; escravidão. Escravo Pessoa que está sob a dependência absoluta de um senhor, servo, cativo. Expansão Acto ou efeito de se expandir, alargamento, difusão. Forte Obra de fortificação; fortaleza; castelo. Golpe de Estado Acto de força pelo qual um governo é derrubado e substituído. Governo Acto ou efeito de governar; poder executivo, administração, regime. Hino Nacional Canto de louvor a uma pátria. Independência Liberdade; autonomia. Insígnia Sinal distintivo de dignidade de função ou de nobreza, emblema, medalha. Instalação Estabelecer-se, alojar-se, ir morar para. • Instituição Estabelecimento de utilidade pública; organização, fundação. 140 Invasão Acto ou efeito de invadir; ocupar por meio de força; entrar hostilmente. Libertação Nacional Tornar livre um determinado território; autonomizar. Manifesto Declaração pública em que se expõem os motivos que levaram à prática de certos actos que interessam a uma colectividade. MIA Movimento pela Independência de Angola (1957). Migração Deslocação de um grupo ou grande multidão de um país para outro. MINA Movimento para a Independência Nacional de Angola (1953). Nação Conjunto de indivíduos unidos por uma consciência histórica, linguística e cultural comum. Nacionalismo Patriotismo; doutrina política que faz da nação um absoluto. Nobreza Fidalguia herdada ou doada pelo soberano; classe dos nobres. Ocupação Acta ou efeito de ocupar, posse. Opressão cultural Oprimir os hábitos e costumes que contribuem para a herança social de um determinado povo, de uma comunidade. 141 País Território, Estado, Nação. Penetração Chegar ao interior, entrar, introduzir-se, ter ingerência. PLUA Partido de Luta Unida de Angola (1956). Pombeiro Aquele que atravessa os sertões negociando com os nativos. Pré-colonial Anterior à colonização. Presídio Guarnição de uma praça de guerra; prisão militar, reclusão de criminosos. Racismo Doutrina que afirma a superioridade de determinadas raças e assenta na alegada superioridade e direito de dominar ou suprimir as outras. Reino Estado que tem um rei como soberano. Repressão Suster a acção; violentar, oprimir, castigar. Resistência Força com que um povo reage contra a acção do outro; reacção, oposição, defesa. Revolta Rebelião contra a autoridade estabelecida; sublevação; insurreição; levantamento; motim; sentimento de indignação. 142 Símbolo Sinal representativo; emblema; imagem ou objecto material que representa uma realidade visível. Sistema político Forma de um governo. Território Grande extensão de terra; área correspondente a uma determinada jurisdição. Tráfico Troca de mercadorias, comércio, negócio. Tumbu Conjunto de aldeias (sanzalas). Verme Animal invertebrado, mole, geralmente formado por anéis e semelhante a uma minhoca. 143 AFRONTAMENTOS - História de Angola, Porto Educação, s/d. AGUIAM, BALTAZAR DE - A Revolta do Bailundo e os Conselhos de Guerra de Benguela, Lisboa, Imprensa Lucas, 1903. ANDRADE, ALFREDO DE - A Questão da Borracha em Angola, Sobre as dificuldades que o Alto Planalto de Benguela apresenta na introdução das novas espécies produtoras, Bihé, edição do autor, 1897. ANGOLA/INIDE-MED - Iniciação à História - 4.a classe. ANGOLA/MED - Atlas Geográfico, 1.°volume, Suécia, 1982. ANGOLA/MED - História, Ensino de Base - 8.a classe, 1º volume, 1983. ARNOLD J. - Grandes Datas da História Universal, Verbo, 1985. ARQUIVO HISTÓRICO DE ANGOLA (A.H.N.A.) - Actas do Seminário “Encontro de Povos e Culturas em Angola”, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, Luanda, 1995, p.510. CIPIE-MEC - Iniciação à História - 4.a classe. FERNANDES, J. e NTONDO, Z. - Angola: Povos e Línguas, Luanda, Ed. Nzila, 2002, p. 133. MADUREIRA, A. - A Colonização Portuguesa em África 1890-1910, Retrospectiva e Diagnóstico, Ed. Livro Horizonte, 1998, p. 111. MADEIRA, CARLA MARINA - Educação Moral e Cívica - 7.a classe, Manual do Adulto, 1.° Ciclo do Ensino Secundário, INIDE, 2005, p.157. • M’BOW, A. M.; KI-ZERBO J.; DEVISSE J. - Histoire de /’Afrique, Des origines au Vle siecle, Paris, Hatier, 1967, p. 223. MED - História - 7.a classe. BIBLIOGRAFIA 144 MED - História - 8.a classe, 1.° volume, 1976. MED - História de Angola. MED-INDE - História - 6.a classe, Moçambique, Editora Escolar, 1995, p.102. MINADER - Boletim Informativo da Direcção Nacional de Agricultura, Pecuária e Florestas, ano I, n.º 1, Out.-Nov. 2006. MINADER - Boletim Informativo da Direcção Nacional de Agricultura, Pecuária e Florestas, ano I, n.º 2, Jan.-Fev.-Mar. 2007. MINADER - Boletim Informativo da Direcção Nacional de Agricultura, Pecuária e Florestas, ano I, n.º 3, Abr.-Set. 2007. MINADER - Boletim Informativo da Direcção Nacional de Agricultura, Pecuária e Florestas, ano II, n.º 4, Jun. 2008. MONCADA, CABRAL - Campanha do Bailundo em 1902, Luanda, Imprensa Nacional, 1903. ALTUNA, P. R. R. de A, Cultura Tradicional Banto, Luanda, Secretariado Arquidiocesano de Pastoral, 1985. REDINHA, J. - Etnias e Culturas de Angola, Instituto de Investigação Científicade Angola, 1975, p. 448. UNESCO - Lugares de Memória da Escravatura, Lisboa, CEAlFLUL, p. 92. ZERQUERA, JULlÁN -Iniciação à Geografia - 4.a classe, 2003 .1.1. O correr do tempo 14 1.2. História e as vida das gerações 16 1.3. Como contamos o tempo 17 1.4. Aspectos comparativos da vida da geração do aluno e seus ascendentes mais próximos 18 1.4.1. A geração do aluno 18 1.4.2. A geração dos pais 19 1.4.3. A geração dos avós 20 1.4.4. A geração dos bisavós 23 TEMA 2. A VIDA NO PASSADO E NO PRESENTE 25 2.1. A habitação 26 2.2. A alimentação 18 2.3. O vestuário 30 2.4. As comunicações 32 2.5. Os transportes 33 ÍNDICE ÍNDICE TEMA 3. ASPESCTOS HISTÓRICOS DA NOSSA LOCALIDADE 37 3.1. Os monumentos e sítios 38 3.2. O museu e o arquivo 41 3.3. As vias de comunicação 42 3.4. Aspectos culturas da localidade 45 3.4.1. Origem da população e do nome da localidade 45 3.4.2. As lendas e tradições, as principais línguas, as actividades 47 TEMA 4. ANGOLA HÁ MUITOS, MUITOS ANOS 51 4.1. Os primeros habitantes do actual territorio angolano 52 • Os Pigmeus • Os Khoissan • Os Vátuas e Kuisses 4.1.1. Pricinpais aspectos da vida dos Khoissan 53 4.1.2. Manifestações artísticas 53 4.2. A chegada dos Bantu e a ocupação dos territórios actuas 54 4.2.1. Migrações 54 4.2.2. Grupos etno-linguísticos bantu 55 4.3. Os promeiros reinos 59 4.3.1. Reino do Kongo 59 4.3.2. Reino do Ndongo 64 ÍNDICE TEMA 5. ANGOLA NA ERA DO TRÁFICO DE ESCRAVOS 69 5.1. A expansão marítima portuguesa 71 5.1.1. A chegada dos Portugueses ao Reino do Kongo 72 5.1.2. As primeiras relações entre Portugueses e Africanos (Kongo e Ndongo) 74 5.1.3. O início do tráfico de escavros e as suas consequências 74 5.2. A expansão progressiva dos Portugueses ao longo da costa 78 TEMA 6. A OCUPAÇÃO DO TERRITÓRIO 81 6.1. As campanhas de ocupação efectiva 82 6.2. A resistência à ocupação colonial 84 6.2.1. A defesa do território contra a invasão do Sul de Angola 86 6.2.2. A administração colonial 87 6.2.3. A economia colonial 89 6.3. Manisfestações contra as medidas da administração colonial 96 ÍNDICE TEMA 7. A LUTA DE LIBERTAÇÃO NACIONAL 99 7.1. O desenvolvimento do nacionalismo 100 7.1.1. O nacionalismo angolano 101 7.2. As primeiras organizações nacionalistas, e mais tarde movimento de libertação 103 7.3. A luta armada de libertação nacional 104 TEMA 8. AS CONQUISTAS DA INDEPEDÊNCIA 115 8.1. O País 116 8.1.1. O território 116 8.1.2. O governo 118 8.1.3. Os símbolos 120 8.2. Cultura e desporto 126 8.3. Economia 129 8.3.1. Agropecuária 129 8.3.2. Indústria 132 8.3.4. Outros sectores da economia 133 GLOSSÁRIO 100 BIBLIOGRAFIA 108 ÍNDICE 13 TEMA 1. O TEMPO ESTRUTURA DO TEMA 1.1. O correr do tempo 1.2. A História e a vida das gerações 1.3. Como contamos o tempo 1.4. Aspectos comparativos da vida da geração do aluno e seus ascendentes mais próximos 1.4.1. A geração do aluno 1.4.2. A geração dos pais 1.4.3. A geração dos avós 1.4.4. A geração dos bisavós 14 TEMA 1. O TEMPO Cada dia que passa, notamos muitas modifi cações nas pessoas, nas coi- sas e na própria natureza. Por exemplo, quando tu nasceste eras um bébé, mas agora estás grande. O mesmo acontece com o teu irmãozinho: a cada dia que passa, está mais bonitinho, mais espertinho e deixou de ser o “bebezinho” que chorava quando tinha fome ou sede, ou quando es- tava molhado. Poderíamos dar-te muito mais exemplos. Todos eles com- provariam que as pessoas, as coisas e a natureza modifi cam-se à medida que o tempo vai passando. Fig. 1 O Largo da Independência no passado. Fig. 2 O Largo da Independência hoje. ESCLARECER O que é o tempo? O tempo é meio indefi nido e homogéneo no qual se desenrolam os acontecimentos sucessivos. 1.1. O correr do tempo Sabes, portanto, que os dias, os meses e os anos passam, e que durante esse tempo crescemos e tornamo-nos adultos, os adultos envelhecem e assim sucessivamente. Por isso, com o correr do tempo tudo muda, tudo se modifi ca. Por exemplo, em Luanda, no lugar onde podes ver hoje o Largo da Independência, es- tava o aeroporto de Angola há muitos anos atrás. Com o passar do tempo, foram construídos naquela zona várias edifícios públicos, como escolas, Ministérios (o da Agricultura, o dos Antigo Combatentes, o da Educação, o da Cultura, o da Juventude e Desportos e o das Relações Exteriores), as sedes da Rádio Nacional e da T.P.A. e o quartel dos bombeiros. 15 Fig. 3 Um mais velho contando a história de Luanda 1. 1. O correr do tempo Porquê é que esse lugar se chama Largo da Independência? As pessoas chamam essa zona de Largo da Independência, porque foi o local onde foi proclamada a independência de Angola na voz do Dr. Agostinho Neto, primeiro presidente de Angola, às zero horas do dia 11 de Novembro de 1975. Desde então, a cidade de Luanda foi crescendo, e nessa zona nasceu o bairro Maculusso. E porque chamam a esse bairro de Maculusso? Um jornal “Diário de Angola” fala-nos como era a cidade de Luanda nos anos 1950. Nesse tempo, na cidade de Luanda já viviam muitos colonos portugueses. Eles já tinham construído muitas ruas e avenidas, arma- zéns, dois hospitais, casas, o porto e o caminho-de-ferro. VÊSE SABES... 1. Porque chamam a esse lugar Largo da Independência? 2. Porque chamam a esse bairro de Maculusso? 3. Como podemos saber como era o bairro Maculusso há alguns anos atrás? 4. Na tua localidade conheces algum lugar que passou por várias modifi - cações? Conta-nos. ? Quando vim morar em Luanda com os meus pais em 1926, eu tinha 5 anos. Vivíamos nas barrocas da Maianga. Em 1926 não havia ainda ruas feitas, havia alguns caminhos por onde as pessoas passavam e algumas ruas co- meçaram a fazer-se. As casas eram todas de zinco e de madeira. O bairro que hoje se chama Maculusso, era um antigo cemitério dos afri- canos (angolanos), que os portugueses partiram e construíram o bairro Maculusso. Nessa altura não havia carros - o único transporte eram as carroças e as tipóias. Eram os angolanos que puxavam as carroças onde andavam os co- lonos portugueses. Os carros só apareceram mais tarde. Na parte Central e Norte da cidade de Luanda só havia barrocas e lavras, mas a população era ainda muito escassa. Vi nascer aos poucos a cidade. Luanda cresceu muito entre 1945 e 1950. Muitas zonas, bairros (como os bairros da Ingombota e Maculusso) que hoje têm prédios, hospitais, esco- las, ruas e avenidas, nasceram a partir de zonas que nào eram habitadas ou onde habitavam poucas pessoas e havia poucas construções. 16 1.2. A história e a vida das gerações Todos nós temos uma história que pode ser conhecida e contada. Muitas pessoas viveram factos que hoje te podem contar. Os nossos pais, assim como todos os nossos familiares mais velhos do que nós, podem contarnos como era a vida anos atrás, no tempo colonial. Nesse tempo ainda não tinhas nascido. Era um tempo em que as crianças angolanas não tinham quase direitos nenhuns: não havia ainda muitas escolas, hospitais e esses serviços, não eram acessíveis à maior parte das crianças angolanas. No tempo colonial, as pessoas começavam a trabalhar enquanto mesmo crianças. A vida nesse tempo era muito difícil. Mas a tua geração é uma geração muito recente, é formada por todas as crianças da tua idade, umas mais novas outras mais velhas, mais um ano, menos um ano. Mas o que é uma geração? Uma geração é um período de 25 anos. As crianças de uma geração brincam e vestem-se da mesma maneira, fre- quentam a escola ao mesmo tempo. Formam a geração mais nova, porque pouco tempo decorreu desde que nasceram. Por isso, cada um de vós tem uma história ainda pequena, que facilmente poderá recordar observando, por exemplo, os brinquedos que já não utiliza, a roupa que já não veste, as fotografi as que tirou quando era mais pequeno e quaisquer outros objectos usados anteriormente. Na fi gura à tua direita podes ver uma senhora muito idosa, com muitas rugas e o cabelo branco. Estas são as marcas do tempo que já viveu. Ela nasceu antes de ti, dos teus pais, e até dos teus avós. Pode dizer-se que pertence à geração dos teus bisavós. Mas a essa senhora muito velha da fotografi a, desde que nasceu até agora, aconteceram muitas coisas. Ela mesma passou por várias modifi cações. Como ela já viveu muitos anos, sabe muito sobre o tempo passado. Por isso, poderá contar-te muitas coisas interessantes sobre a sua vida, a dos teus país e até a dos teus avós. Esta é a tua história. Fig. 4 Uma senhora muito idosa. Tal como a história da senhora muito velhinha da fotografi a os aconteci- mentos do nosso País também se sucederam no tempo. Muitas pessoas gostariam de conhecer o passado muito distante, de há centenas ou milhares de anos, ao longo dos quais se foi desenvolvendo o progresso que hoje permite aos seres humanos viverem melhor e mais confortavelmente. 17 Durante muitos séculos, o dia, as fases da lua e a repartição das estações do ano forneceram ao ser humano referências para a contagem do tempo e situar neste alguns dos factos que ocorriam. Mas como podemos saber isso? Para podermos situar os factos no tempo, isto é, sabermos quando aconteceram, precisamos de medir o tempo. Como contamos o tempo Antigamente, os homens contavam o tempo de várias maneiras: obser- vando o regresso das chuvas, a presença diária do sol, a regularidade das fases da lua. Todas estas observações permitiam medir o tempo e dividir o ano em períodos. O dia, as fases da lua e a repartição das estações do ano permitiram du- rante muitos séculos situar no tempo alguns dos factos que aconteciam. Nestas sociedades antigas, cada pessoa calculava o tempo da sua famí- lia a partir de si próprio. Este cálculo era fácil para a geração dos seus pais, mas para a geração dos seus avós já era mais difícil. Todas estas contagens e medições do tempo têm o seu valor, e algumas ainda são utilizadas nos nossos dias em algumas sociedades. Porém, como esses processos são pouco rigorosos, a maior parte dos povos têm como ponto de referência o nascimento de Jesus Cristo (os Árabes têm como ponto de referência a fuga de Maomé de Meca para Medina em, 622 d.C.). A partir daí, datamos os acontecimentos dizendo se ocorreram antes de Cristo ou depois de Cristo, e há quantos anos ou há quantos séculos. 1.3. Como contamos o tempo 18 1.4. Aspectos comparativos da vida da geração do aluno e seus ascendentes mais próximos 1.4.1. A geração do aluno Dentro da linhagem de ascendentes e de descendentes de uma pessoa, uma geração é o conjunto de pessoas da mesma época, com, mais ou menos, a mesma idade. Por isso podemos falar, por exemplo, da gera- ção dos fi lhos, dos pais ou dos avós. A tua geração é a mais recente, e é compos- ta por todas as crianças aproximadamente da tua idade, umas um pouco mais velhas ou mais novas que outras. Se vives numa cidade, podes ob- servar que circulam automóveis e autocarros a todo o instante. O trânsito é muito intenso, e em al- guns cruzamentos é regulado por sinais luminosos automáticos, que são os semáforos. Para irem à escola, as crianças são acompanhadas pelos pais ou por pessoas mais velhas (irmãos, primos), para poderem atraves- sar as ruas com segurança. Algumas pessoas vivem em prédios, alguns com muitos andares. A maior parte das pessoas têm televisores a preto e branco ou a cores, e acompa- nham os acontecimentos que se passam tanto no país como no mundo. A maior parte das pessoas são funcionários públicos, e outros trabalham nas fábricas e empresas do Estado ou particulares. Mas se vives numa aldeia ou numa vila podes observar que existe uma grande diferença entre elas e as grandes cidades. O movimento nas es- tradas, caso a aldeia ou a vila esteja situada perto de uma, não é tão intenso. Passam automóveis, camiões, motorizadas e bicicletas. Por todo lado as pessoas escutam as notícias, a música e os relatos de futebol em rádios de pilhas. A maior parte das pessoas trabalha da agricultura, algumas com a ajuda de tractores ou charruas puxadas por bois, e na criação de gado. Fig. 5 Crianças da tua geração 19 1.4. Aspectos comparativos da vida da geração do aluno e seus ascendentes mais próximos Quando os teus pais nasceram, há mais ou menos quarenta anos, a vida era diferente. Na maior parte das cidades do nosso país não havia sinais luminosos, não se viam muitos autocarros, havia muito poucos au- tomóveis que não eram tão luxuosos, boni- tos e rápidos como os de hoje. Os prédios eram poucos, e a maior parte deles tinha poucos andares. A agricultura não era tão mecanizada, quer dizer, não se utilizavam máquinas nem tractores. Não havia televisão, os aviões eram de hélice, e as locomotivas dos com- boios funcionavam a carvão ou a lenha. Na época dos teus pais, quando chegava a idade de ir à escola, eram poucas as crianças angolanas que conseguiam ir à escola aprender a ler e escrever. Nas cidades e nas vilas, as escolas eram principalmente para os fi lhos dos colonos. Poucos angolanos frequentavam essas escolas. Para eles, havia escolas para os indígenas. No tempo colonial, muitos angolanos que conseguiam ir à escola estuda- ram nas escolas missionárias. Os colonialistassó ensinavam a história de Portugal e a geografi a de Portugal, mas nós sabíamos que éramos an- golanos, embora a nossa história e a nossa geografi a fossem ignoradas. Fig. 6 A baía de Luanda nos anos de 1970. Fig. 7 Uma escola missionária no Chibuto. Fig.8 Trabalho nas minas de diamantes (Lunda Norte). 1.4.2. A geração dos pais 20 Na era dos teus avós, as populações deslocavam-se geralmente a pé. Os comboios eram raríssimos. O avião era um meio de transporte também raro e muito caro. Os nossos avós e bisavós eram obri- gados a trabalhar pelos colonialistas nas fazendas de café, de sisal e de algodão. Ninguém podia recusar o tra- balho nas plantações. Chamava-se tra- balho forçado. A vida tornou-se muito difícil e havia muito sofrimento. 1.4.3. A geração dos avós Há cinquenta ou sessenta anos atrás, no tempo dos teus avós, a forma de viver era ainda mais diferente da actual. Fig. 9 Fotografi a da geração dos avós. Fig. 9 Uma plantação de algodão. O tempo dos teus avós, as estradas eram estreitas e de terra batida, e as pontes fei- tas de troncos de árvores e de madeira. Foi por elas que circularam os primeiros auto- móveis, muito vagarosos e de modelos que hoje nos fariam rir. O governo colonial mandava recrutar homens e mulheres para trabalharem na cons- trução de estradas, edifícios, pontes, linhas férreas e nas culturas obrigatórias (algodão, sisal e outras). Caso as pessoas se recusassem, vinham os cipaios para os prender e castigá-los. Do pouco dinheiro que ganhavam, ainda descontavam o pagamento do imposto e a caderneta indígena. Muitas pessoas perdiam os braços nas máquinas de algodão e de sisal. Regava-se o sisal, batia-se na máquina e puxava-se. Se não se puxasse com força e rapidez o sisal, o braço entrava com ele e cortava-se. Todo esse trabalho era feito com muita violência, pois era vigiado por um capataz que batia muito. As pessoas estavam cansadas destas coisas. Muita gente fugia para os países vizinhos: para República Democrático do Congo, ex- Congo Leopoldville, República do Congo, ex-Congo Brazzaville, para a Zâmbia, en- tãoRodésia do Norte, Zimbabwe, ex-Rodésia do Sul e Namibia, ex- Sudoeste Africano. 1.4. Aspectos comparativos da vida da geração do aluno e seus ascendentes mais próximos 21 Nas aldeias, os colonialistas mandavam prender todas as pessoas que se recusavam ao trabalho forçado. Se fugissem, quando fossem apanhados, batiam-lhes e metiam-os na prisão. Fig. 11 Uma fábrica de sacaria. Fig. 12 Caderneta indígena da era colonial. Fig. 13 Companhia de cipaios da administra- ção colonial portuguesa. Os colonialistas pagavam aos trabalhadores 50 angolares por mês. Trabalhava-se desde as seis da manhã até ao meio-dia, parava-se duas horas e continuava-se a trabalhar até às seis da tarde. Muitas vezes, toda a família, fi lhos e pais, traba- lhava na mesma companhia. Mas às vezes ia só o pai, e os fi lhos e a mulher fi cavam para traba- lhar nas lavras, onde pouco podiam fazer. O pou- co que eles produziam só dava para comer. Na década de 1940, no tempo das colheitas, o administrador mandava sacos vazios aos cipaios, que os entregavam de casa em casa. Os c;jpaios exigiam a quantidade que cada fa- mília devia dar. Depois o cipaio levava todo o milho, feijão ou jinguba que produziam. 50 angolares equivale actualmente a 50 Kwanzas. 1.4. Aspectos comparativos da vida da geração do aluno e seus ascendentes mais próximos 22 A situação dos trabalhadores africanos era igual em todas as outras colónias portuguesas. Nas cidades e nas povoações, muitos angolanos trabalhavam como criados nas casas dos co- lonos e dos administradores por- tugueses: eram chamados ser- ventes. Durante o tempo colonial, muitos angolanos foram obrigados a dei- xar o país e ir para terras longín- quas. Isto acontecia aos angola- nos que cometiam delitos ou que se recusavam a pagar impostos. Para quem trabalhava nas fábricas, a vida era também muito difícil. Os operários angolanos recebiam salários mais baixos do que os operários portugueses, mesmo quando faziam as mesmas tarefas. Observa o quadro seguinte, retirado do livro Leitura por Moçambique, es- crito por Eduardo Mondlane e publicado em 1969: Fig. 14 Casa de fazendeiro, numa fazenda de co- lonos em Angola Fig. 15 Trabalhadores forçados em São Tomé Muitos dos angolanos que eram presos pelos colonialistas eram enviados para as Ilhas de São Tomé e Príncipe ou, dentro do território, para Cabinda, para trabalhar nas plantações de cacau, de café e em serrações de madeira. Alguns deles, depois de cumprir a pena, volta- vam à sua origem, mas muitos outros não regressavam nunca mais. 1.4. Aspectos comparativos da vida da geração do aluno e seus ascendentes mais próximos Operários Salário por dia Branco sem qualifi cação 100 000 angolares Mestiço sem qualifi cação 70 angolares Africano sem qualifi cação 5 angolares 23 1.4.4. A geração dos bisavós Os teus bisavós viveram há mais ou me- nos setenta ou oitenta anos. A forma de viver deles era totalmente diferente da dos teus avós e dos teus pais. Na época dos teus bisavós, Angola já era uma colónia de Portugal. Tinha sido ocupada por estrangeiros há muitos anos atrás. Os mais velhos lembram-se de como os colonialistas portugueses os maltratavam. Contam que quando eram pequenos, eles e as outras crianças co- meçavam a trabalhar muito cedo para ajudarem os pais no campo e tomar conta do gado e noutras tarefas. Os angolanos viviam em aldeias (sanzalas) no campo, muito isoladas, e eram obrigados a trabalhar para os colonialistas sem receber nada em troca. Os colonialistas maltratavam muito os angolanos. Naquela época, os angolanos não tinham direito de ter escolas para aprender nem hospi- tais para se tratarem quando estavam doentes. A vida era extremamente dura e difícil. Foi a partir da geração dos teus bisavós que nasceu verdadeiramente o mundo moderno. As descobertas feitas nesta época, tais como a força a vapor, o gás para iluminação das casas e das ruas, a invenção do cinema e da fotografi a (há dois séculos atrás), revolucionaram o mundo. Com o tempo tudo foi melhorando, e muito do conforto com que vivemos hoje deve-se a todas as maravilhas que a inteligência dos seres humanos foi criando ao longo dos tempos. Fig. 16 Imagem do tempo dos bisavós. VÊ SE SABES... 1. Quem tinha ocupado Angola há muitos anos atrás? 2. Nessa época Angola já era um país soberano? 3. Os angolanos já viviam então nas grandes cidades? 4. Eles tinham direito a escolas e hospitais? ? 1.4. Aspectos comparativos da vida da geração do aluno e seus ascendentes mais próximos 24 25 TEMA 2. A VIDA NO PASSADO E NO PRESENTE ESTRUTURA DO TEMA 2.1. A habitação 2.2. A alimentação 2.3. O vestuário 2.4. As comunicações 2.5. Os transportes 26 2.1. Habitação Como podes observar nas gravuras acima, existem vários tipos de habi- tação no nosso país, e os materiais utilizados na sua construção variam segundo a região e as condições existentes. Desde os tempos mais remotos, o homem teve sempre a necessidade de procurar abrigo para se esconder dos perigos, do vento, da chuva, dos animais ferozes e para descansar. As primeiras habitações do homem foram as grutas, as cavernas, os abrigos cava- dos nas rochas e os troncos de árvores escavados. Havia até quem passasse as noites empoleirado nas árvores para se proteger dos animais ferozes e dormir. Depois, começaram a ser construídas cabanas de troncos de árvores e folhas. Com o tempo, estes abrigos foram me- lhorados, tornando-se mais perfeitos e confortáveis. Os materiais de construção utilizados também passaram a ser mais resistentes. Observa as gravuras seguintes: TEMA 2. A VIDA NO PASSADO E NO PRESENTE TIPO DE HABITAÇÃO NO NOSSO PAÍS Fig. 1 Casas feitas de paus e cobertas de capim Fig. 2 Casa de pau-a-pique Fig. 3 Cavernas: As primeiras habita- ções humanas. 27Repara que não foi só a tua aldeia, bairro ou casa que sofreu alterações, mas também outras localidades se modifi caram no decorrer dos anos. Pequenas vilas tornaram-se grandes cidades, outras tornaram-se gran- des centros industriais. Hoje, nas cidades do nosso país (como Luanda, Benguela, Huambo, Huíla e muitas outras) encontramos grandes prédios e vivendas confortáveis. Nas zonas rurais ainda existem casas de adobe, pau-a-pique e capim. Nas fi guras seguintes, podes ver como uma cidade pode mudar muito com o passar do tempo. 2.1. A habitação Fig. 4 Casas de madeira Fig.7 A cidade de Luanda no século XIX. Fig. 5 Casas de blocos e tijolos Fig.8 Nova vista da cidade de Luanda. Fig. 6 Casas de betão e aço VÊ SE SABES... 1. Vives na mesma localidade e na mesma casa onde nasceste? 2. Que materiais foram utilizados na construção da tua casa? 3. Além desses materiais existem outros na tua localidade? 4. Que modifi cações se verifi caram na tua localidade nestes últimos anos? ? 28 Como vês, no dia-a-dia verifi cam-se modifi cações no meio em que vive- mos. Os homens procuram melhorar cada vez mais as suas condições de vida através do trabalho. Hoje nós estamos rodeados de algum conforto graças às maravilhas que a inteligência dos homens foi criando ao longo dos anos. 2.2. A alimentação Nos primeiros tempos da existência do homem, ele não produzia alimen- tação para a sua sobrevivência. Vivia da recolecção, da caça e da pes- ca, isto é, alimentava-se de frutos silvestres e de carne crua. Os primeiros humanos eram nómadas, isto é, andavam de lugar em lugar à procura de alimentos e de melhores condições de vida. Mais tarde tornaram-se sedentários, começaram a viver em grupos, criando uma melhor organi- zação através da divisão social do trabalho. Para caçarem ou para se defenderem dos animais ferozes, os homens criaram instrumentos que os ajudavam nas suas tarefas. Os primeiros instrumentos fabricados pelo homem eram de pedra, de osso ou de madeira. Os objectos de pedra e de osso estavam munidos de um cabo de madeira, preso por fi bras vegetais ou peles de animais . Os primeiros homens não conheciam o fogo nem a sua utilidade. Com o passar do tempo descobriram o fogo e passaram a utilizá-lo para prepa- rar os alimentos, que até aí eram comidos crus. Com o fogo, afugentavam também as feras, aqueciam e iluminavam as cavernas e as grutas, e en- dureciam as pontas de paus para caçar e escavar o solo. O fogo, inicial- 2.1. A habitação Fig.9 Exemplos dos primeiros tipos de instrumentos fabricados pelo homem. 29 2.2. A alimentação mente produzido pela fricção de duas pedras, era conservado com muito cuidado para que não se apagasse, pois era muito difícil obtê-lo. Muitas vezes havia guerras entre tribos ou povos para a obtenção do fogo, pois foi uma das maiores descobertas dos homens. A descoberta do fogo e a utilização de metais, principalmente do ferro, trouxeram profundas mudanças à vida do homem. Os homens aprenderam a transformar o miné- rio em instrumentos para o trabalho (foices, enxadas, etc.) e para a guerra (arcos, fl e- chas, lanças, etc.). Estes instrumentos permitiram trabalhar melhor a terra e obter mais produções. O aumento da produção levou também ao aumento da população e, consequente- mente, à procura de novas terras para satis- fazer as necessidades cada vez mais cres- centes da população. Esta situação acabou por provocar grandes deslocações de populações, que par- tiam em busca de lugares mais estáveis e com melhores condições de vida. Foi o que aconteceu com os povos Bantu, que estu- daremos mais adiante. Fig. 11 Instrumentos em metal usados pelos homens primitivos. Fig. 11 A utilização do fogo numa caverna Fig. 12 Agricultura primitiva. 30 Desde tempos muito remotos, o homem começou a utilizar vestuário para cobrir o seu corpo. No entanto, o vestuário dos primeiros seres humanos era muito rudimentar. Usavam folhas de árvores, peles de animais selva- gens e cascas de árvores fibrosas, simplesmente para cobrirem as partes essenciais do corpo, deixando o resto a descoberto. 2.3. O vestuário Com a passagem do tempo, o homem começou a vestir-se de manei- ra diferente, mas ainda hoje podemos encontrar em algumas regiões do nosso país pessoas que se vestem de maneira tradicional e outras de maneira europeia. Fig. 13 Vestuário primitivo de peles de animais. Fig. 15 Trajes de dança tradicional do sul Fig. 14 Saia de fibras vegetais Fig. 16 Traje de origem europeia. 31 Desde os primeiros tempos da sua existência, o homem sempre sentiu a necessidade de comunicar com os outros. Mas, nem sempre teve a grande diversidade de meios de comunicação que hoje estão ao nosso alcance. No início, e de uma forma natural, só transmitiam mensagens a curta dis- tância através de gestos e de linguagem. Por isso, o homem sempre se preocu- pou com os problemas de comunica- ção a longa distância. Numa primeira fase, a transmissão de mensagens a longa distância era feita através de batimentos de tambores, instrumentos de sopro, sinais de fumo, reflexos de espelhos e tochas acesas em lugares elevados. Só mais tarde apareceram os telégrafos e os telefones. Alguns dos meios de comunicação mais an- tigos ainda hoje se usam em muitos países de África, da Ásia e da América Latina. Um outro meio utilizado pelo homem para o envio de mensagens foram os mensageiros (homens de recados), que transmitiam notícias, ordens e recados deslocando-se a pé, a camelo ou cavalo. Depois da invenção da escrita, os homens passaram a utilizá-Ia para o envio de mensagens, o que veio melhorar muito as possibilidades de comunicação entre os povos. Actualmente temos meios mais rápidos, mais exactos e sofisticados que permitem emitir e receber mensagens num curto espaço de tempo. Os meios de comunicação hoje mais utilizados: 2.4. As comunicações Fig. 18 Escrita egípcia. Fig. 17 Tambor usado como meio comuni- cação entre diferentes aldeias. Fig. 19 Tipografia antiga 32 Actualmente temos meios mais rápidos, mais exactos e sofisticados que permitem emitir e receber mensagens num curto espaço de tempo. Os meios de comunicação hoje mais utilizados: • Para transmitir a palavra escrita: 2.4. As comunicações Fig. 20 E-mail. Fig. 23 Telefone. Fig. 26 Internet. Fig. 21 Correio. Fig. 24 Rádio. Fig. 27 Televisão. Fig. 22 Jornal. Fig. 25 Telégrafo/Telex. Fig. 28 Cinema. • Para transmitir o som: • Para transmitir imagens e som: 33 Depois da domesticação dos animais, o homem começou a utilizar a força do boi, do burro, do cavalo ou do camelo para transportar produtos e pes- soas. Assim surgiu a “zorra”. Com o passar do tempo, o homem foi melhorando os sistemas de trans- portes. Em certas regiões, as pessoas começaram a colocar cargas sobre pranchas de madeira e troncos de árvores. Dessa forma, a deslocação de produtos era mais rápida. Foi assim que surgiu a in- venção da roda, quando se fez a ligação de dois pedaços circulares de ma- deira através de um eixo. Depois da invenção da roda, surgiram os carros puxados por bois, burros ou cavalos. Os transportes terrestres O homem sempre teve necessidade de se deslocar de um sítio para ou- tro de uma forma cada vez mais rápida e transportando cargas cada vez mais pesadas. Tudo isso se tornou mais fácil a partir do momento em que fez duas descobertas importantes: a domesticação dos animais e a roda. Antes destas descobertas, o homem tinha de se deslocar a pé, trans- portando as suas cargas à cabeça, às costas ou aos ombros. Os chefes eram transportados em tipóias, carregados por escravos ou carregadores forçados a realizar esse trabalho. 2.5. Os transportes Fig. 29 Transporte de cargas Fig. 31 Um antogo carro puxado por cavalo Fig. 30 Transporte dos chefes 34 Mais tarde, aplicou-se uma máquina a vapor ao carro e apareceram os pri- meiros comboios rolando sobre carris de ferro. Em Angola, o primeiro com- boio surgiu há cerca de 90 anos. Finalmente, a invençãodo motor de explosão permitiu o fabrico de automó- veis, camiões, tractores, etc. Os comboios também evoluíram, surgindo as locomotivas a óleos pesados e as locomotivas eléctricas. Fig.32 Um comboio antigo. Fig. 33 Tractor e automóvel. Fig.34 Comboios eléctricos. Fig.36 Jangada Fig.35 Piroga ou canoa. 2.5. Os Transportes Como acabámos de ver, os transportes terrestres têm melhorado à medida que as sociedades evoluem e têm necessidade de resolver os problemas que surgem, quer para a deslocação de pessoas quer para o escoamento de produtos. Os transportes aquáticos Certamente, um dia o homem primitivo deve ter reparado que a corrente das águas dos rios arras- tavam troncos de árvores. Isto trouxe-lhe a ideia de utilizar um desses troncos para se deslocar rio abaixo. Assim nasceu a ideia de obter o primeiro meio de transporte aquático. Para obter mais es- tabilidade, ligou vários troncos e construiu a jan- gada. Depois escavou um tronco mais grosso e introduziu-se na cavidade. Foi a primeira piroga, movida por meio de paus ou remos compridos. No nosso país, ainda hoje se atravessam os rios e os lagos com estes transportes. Com o passar do tempo, o homem foi construindo barcos a remo e depois à vela. 35 Fig.37 Um veleiro do fi nal dos anos 1800. Fig.38 Um moderno barco de passageiros. Fig.39 Dirigível. Fig. 40 Um avião de passageiros. Fig. 41 Nave espacial americana O tamanho e feitio dos barcos foram-se modifi cando, a fi m de poderem transportar confortavelmente grande quantidade de pessoas e mercado- rias. Nos nossos dias, regra geral, existem navios com motores a óleos pesados que são mais rápidos e económicos. Os transportes aéreos Ao observar as aves voando de um lado para outro, o homem também criou o desejo de voar bem alto. Assim inventou o primeiro aparelho voador, que se chamou “dirigível” (uma espécie de balão grande). Para o dirigível levantar voo era preciso aquecer os gases no seu interior. Isto há quase um século. Mais tarde, aperfeiçoando as tecnologias, inventou o avião e o helicóptero. Graças a uma série de outras invenções que permitiram aumentar a rapi- dez, o conforto e a segurança, já há aviões que são capazes de se deslocar verticalmente e outros que transportam centenas de passageiros a velocidades supersónicas, cruzando os ares sobre continentes e oceanos. Como consequência do desenvolvimento da avia- ção, o homem dos nossos dias já vai à lua a bordo de naves espaciais. Assim, com a descoberta das novas tecnologias, o sonho do homem de ir sempre cada vez mais longe tornou-se uma realidade. 2.5. Os transportes 36 37 TEMA 3. ASPECTOS HISTÓRICOS DA NOSSA LOCALIDADE ESTRUTURA DO TEMA 3.1. Os monumentos e sítios 3.2. O museu e o arquivo 3.3. As vias de comunicação 3.4. Aspectos culturas da localidade 3.4.1. Origem da população e do nome da localidade 3.4.2. As lendas e tradições, as principais línguas, as actividades 38 TEMA 3. ASPECTOS HISTÓRICOS DA NOSSA LOCALIDADE 3.1. Monumentos e sítios Quem viaja no nosso país, de Ca- binda ao Cunene ou do mar ao les- te, encontrará certamente grandes construções, umas completas e ou- tras parcialmente destruídas, mui- to antigas e que retratam factos da nossa história. A todos estes ves- tígios ou restos de obras deixados pelos nossos antepassados, quando reconhecidos, chamam-se monu- mentos históricos. Cada um destes monumentos ensina-nos um pouco da nossa história. Os monumentos são obras muito an- tigas feitas pelos homens - por exem- plo, as igrejas, os antigos palácios, as antigas fortalezas, estátuas, túmulos, muros, etc. Tanto podem estar em bom estado como em ruínas. No nosso país há muitos monu- mentos históricos. Por exemplo, em Mbanza Kongo, na província do Zai- re, encontram-se as ruínas da Igreja de São Salvador do Kongo, construí- da em 1501, assim como o cemitério dos antigos reis do Kongo. Nessa mesma província, pode assi- nalar-se também o padrão do Soyo, colocado na foz do rio Zaire pelo na- vegador português Diogo Cão. Em Luanda, no Huambo e em Ben- guela encontram-se muitos monu- mentos. Estes são mais recentes em relação aos citados na província do Fig. 1 Ruínas da Igreja de São Salvador do Kongo, em Mbanza Kongo. Fig. 2 A Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, Luanda. Fig. 3 O Palácio de Ferro, em Luanda. 39 3.1. Monumentos e sítios Zaire e estão, em geral, completos. Como monumentos mais antigos de Luanda, destacam-se a Igreja de Nossa Senhora da Nazaré, a Igreja do Carmo, a Igreja de Nossa Senho- ra dos Remédios, o Palácio de Dona Ana Joaquina, o Palácio de Ferro, construído por Eiffel, e as prisões co- loniais portuguesas. Além dos edifícios, as estátuas cons- tituem monumentos históricos mais recentes, como a Estátua das He- roínas, em Luanda, representando Deolinda Rodrigues, Lucrécia Paím e Irene Cohen, que morreram durante a Luta de Libertação Nacional (1961- 1975). Em Luanda, foi recentemente erguida a estátua do primeiro Presidente de Angola, Dr. António Agostinho Neto. É uma estátua gigantesca que se en- contra no antigo Largo 1º de Maio, hoje Praça da Independência, local onde foi proclamada a independência de Angola a 11 de Novembrode 1975. Em todas as províncias de Angola existem edifícios, ruínas, estátuas, bustos e cemitérios que são monu- mentos históricos. Em Cabinda encontram-se a Igreja de Lândana e outros monumentos importantes. No Huambo há várias estátuas que retratam o passado recente, entre elas a estátua de Norton de Matos, Fig. 4 Estátua das Heroínas Angolanas, em Luanda. Fig. 5 Estátua do Dr, António Agostinho Neto, em Luanda. Fig. 6 A Igreja de Lândana, em Cabínda. 40 antigo Governador Geral da Provín- cia de Angola e fundador da cidade de Nova Lisboa,actual cidade do Huambo. Em Benguela encontram-se monu- mentos como o Forte da Catumbela e o Edifício Antigo de Benguela, en- tre outros. No Cuanza-Sul encontra-se o For- te do Ouicombo, e no Município da Quibala destacam-se túmulos de pedra muito antigos, chamados Túmulos da Quibala. Em Angola, além dos monumentos também abundam sítios históricos - locais onde se desenrolaram factos ou acontecimentos históricos. Por exemplo, a Colina da Ulunga, na Província do Uíge, foi onde se travou a Batalha de Ambuíla em 1665, entre os Portugueses e o Rei do Kongo. Em Kifangondo, Município de Cacuaco, Província de Luanda, foi o local onde se travou a batalha entre o MPLA e a FNLA enquanto se proclamava a Independência a 11 de Novembro de 1975. 3.1. Monumentos e sítios Fig. 7 Estátua do Dr. Agostinho Neto no Huambo. Fig. 8 O Forte da Catumbela. Fig. 11 Os Túmulos da Quibala. Fig. 9 O Forte do Quicombo. Fig. 12 Monumento da Batalha de Quifangondo. Fig. 10 A Batalha de Ambuíla. 41 Em algumas cidades e vilas do nosso país existem museus e arquivos. Nos museus conservam-se objec- tos autênticos, classifi cados e ver- dadeiros que nos permitem conhe- cer aspectos da vida do passado de Angola, tais como fotografi as, jóias, moedas, armas, utensílios domésticos ou agrícolas, móveis, peças de vestuário, objectos de cerâmica, máscaras, ferramentas, etc. Nos arquivos guardam-se docu- mentos escritos que retratam a história do nosso passado, como mapas, livros antigos e modernos, testamentos, escrituras, revistas e jornais. Em Angola temos o Arqui- vo Histórico Nacional em Luanda e o Arquivo Provincial de Benguela. 3.2. O museu e o arquivo Fig. 13 O Museu da Escravatura, em Luanda. VÊ SE SABES... Na localidade onde vives existe algum museu, arquivo ou monu- mento histórico? Já o visitaste? O que viste? Caso não saibas, pergunta a quem te possa informar: o teu professor ou outra pessoa mais velha. ? 42 3.3. As vias de comunicaçãoAs vias de comunicação sempre foram importantes na vida dos seres humanos. Os primeiros homens começaram por se deslocar a pé, percor- rendo atalhos (picadas) à procura de alimentos para a sua sobrevivência. Ao caminhar tinham uma orientação que os levava de uma área para a outra. Foi assim que com a frequência da utilização de alguns atalhos se foram abrindo as vias de comunicação. Ainda hoje se encontram mui- tos atalhos ou picadas há muito usados pelas popula- ções das aldeias (sanzalas) para se deslocarem de um lo- cal para outro para irem às la- vras, à caça, ao rio, etc. Como a deslocação de um local para o outro foi sempre uma necessidade que o ho- mem teve desde tempos re- motos, isso levou o homem a abrir as vias de comunicação nos lugares onde circulava em benefício do seu bem-estar. Além das vias de comunicação terrestres, o homem também utilizou as vias de comunica- ção aquáticas. Fabricavam canoas ou pirogas e jangadas com troncos de árvores que navegavam nos rios e lagoas. Não se utilizavam as vias aé- reas, porque naquela época o avião era muito raro e caro. Após a ocupação de Angola pelos portugueses, estes começaram a abrir estradas, que no princípio eram de terra batida. Mais tarde, as estradas começaram a ser asfaltadas, trabalho esse que era realizado pelos nos- sos antepassados, que desbravavam as matas e carregavam as pedras. Fig. 14 Um atalho, ou picada. Fig. 15 Pescador com piroga no rio Kuanza. 43 No período colonial existia um organismo responsável pela construção das estradas de Angola. Chamava-se Junta Autónoma das Estradas de Angola (JAEA), criada em 1960. Neste organismo trabalhavam muitos angolanos como contratados. Depois da independência, os angolanos continuaram a utilizar todos es- ses espaços terrestres, fl uviais, marítimos e aéreos como vias de comu- nicação. Durante o confl ito armado, as vias terrestres fi caram muito destruídas. Para melhorar as ligações entre as províncias, municí- pios e comunas, o Governo de Angola criou em No- vembro de 1990 o Institu- to Nacional das Estradas de Angola (INEA). O INEA participa na reconstrução e desenvolvimento nacional do país e desempenha um importante papel na cons- trução das vias de comuni- cação terrestres. Actualmente, o Instituto das Estradas de Angola tem sob seu controlo a rede das estradas de todo o país. Uma das apostas do Instituto é a me- lhoria da qualidade dos serviços da construção das estradas. 3.3. As vias de comunicação Fig. 16 Uma modema estrada asfaltada em Angola. Fig. 17 Construção de novas estradas 44 As vias de comunicação existentes em Angola ligam o nosso país aos países vizinhos: a República Democrática do Congo, a República do Congo-Brazzaville, a República da Zâmbia e a República da Namíbia. Deste modo, podemos estar ligados com outros países por via terres- tre. Para outros países, também podemos usar as vias aéreas e marí- timas para lá chegarmos. Em qualquer parte do mundo, as vias de co- municação sempre tiveram uma grande im- portância no desenvolvimento do país e de uma determinada região. A sua instalação faz surgir centros urbanos, centros indus- triais e agrícolas, permitindo a ligação dos diferentes pontos do país. Facilita a deslo- cação das populações e o escoamento dos produtos agrícolas e outros. Nas vias de comunicação terrestre que mais contribuem para o desenvolvimento de um país encontramos as estradas e os caminhos-de-ferro. Em Angola desta- cam-se o caminho-de-ferro de Luanda a Malange e o caminho-de-ferro de Benguela, que liga Angola à Zâmbia. Fig. 18 Rios e suas margens; espaço fl uvial. Fig. 21 Interligação dos núcleos de maior densidade entre si e o exterior. Fig. 19 O Oceano Atlântico; espaço marítimo. Fig. 20 Os céus; espaço aéreo. Fig. 22 O Caminho-de-Ferro de Benguela. 3.3. As vias de comunicação 45 3.4.1. Origem da população e do nome da localidade Existe muita diversidade cultural no nosso país. Cada região ou localida- de de Angola possui um conjunto de tradições, formas de agir e de pen- sar típico do seu povo, que se foram acumulando ao longo dos tempos e transmitidos de geração em geração. Estas tradições têm a sua origem nos antepassados e estão ligadas às diversas actividades culturais de cada localidade. A cidade de Benguela é grande e tem muita população. A mesma situa- ção verifica-se noutras cidades de Angola, como o Huambo, Saurimo, Luanda, Cabinda, etc. Cada localidade é habitada por pessoas. Tanto as localidades como as pessoas têm nomes próprios. Por exemplo, a localidade de Camabatela é habitada por muitos com o nome Mangoxi, enquanto o Bailundo tem muitos Epalanga, e encontramos no Namibe com frequência o nome Ananás. Podemos prolongar os nomes das loca- lidades, bem como dos seus habitantes. 3.4. Aspectos culturais da localidade Fig. 23 Placa de sinalização rodoviária Porém, os nomes próprios (nomes das localidades, dos rios, das flores- tas, das montanhas, dos sítios históricos e até das pessoas) têm um sig- nificado por vezes difícil de explicar. É importante conhecer as causas que deram origem à população e ao nome de uma determinada localidade. O mesmo pode acontecer com um bairro ou uma aldeia. 46 Com a fuga das populações durante o período da guerra no nosso país, as pessoas refugiaram-se em Luanda e foram formando bairros com no- mes das suas províncias de origem. O mesmo aconteceu na era colonial. Os portugueses que para aqui vinham davam nomes das suas localida- des de origem aos locais onde se instalavam. Apresentamos seguidamente um pequeno texto que relata uma situação real que aconteceu na região norte de Angola. MAMAROSA é o nome de uma fazenda situada próximo de uma aldeia na província do Zaire. Foi fundada nos anos 50 pela família de colonos A. da Graça, que lá viveu até à proclamação da Independência de Angola em 11 de Novembro de 1975. A partir dessa data, o senhor A. da Graça desapareceu da região. Todos acreditavam que ele teria morrido durante o período turbulento que se seguiu à independência do país. Era uma ilusão. Vinte anos se passaram. Em 1995, na cidade de Aveiro, Portugal, encontrou-se um pré- dio com as escritas: “Prédio MAMAROSA”. Este nome fez-nos lembrar não só a fazenda com o mesmo nome em Angola, como também o nome do senhor Amadeu da Graça, o suposto desaparecido. Encarregou-se alguém para procurar a localidade chamada de MAMAROSA em Portugal e Amadeu da Graça. Passados três dias essa pessoa encontrou a freguesia de Mamarosa, e por sorte também encontrou o senhor Amadeu da Graça, antigo dono da fazenda em Angola, ainda vivo. Três dias depois o senhor Amadeu convidou essas pessoas para a casa dele e explicou-lhes a origem do nome de Mamarosa de Angola, que, na verdade, não era de uma SEREIA como o povo contava, mas o nome da freguesia portuguesa de onde tinham vindo os fundadores dessa fazenda em Angola. Fonte: P Nsiangengo Este exemplo concreto e verdadeiro mostra que os nomes próprios têm vida, nascem, crescem e podem morrer se não se cuidar deles. Os no- mes próprios transmitem-se de geração em geração. Eles são dados por várias razões: origem do fundador, por motivos de um acontecimento, um antepassado ou mesmo uma moda. Os nomes das pessoas, tais como Nzinga, Mabiala, Jamba, Epalanga, Kassinda, Caterça, Futi, Malamba, Lweje, Flora ou Coelho têm os seus 3.4. Aspectos culturais da localidade 47 respectivos signifi cados. Os nomes de sítios ou lugares também têm a sua explicação e o seu signifi cado. Conversa com os mais velhos para te explicarem o signifi cado desses nomes. 3.4. Aspectos culturais da localidade VÊ SE SABES... Agora tenta contar os aspectos culturais da tua localidade orien- tando-te pelas frases propostas pelos autores. Não te esqueças de organizar as matérias com o apoio do teu professor e de pessoas mais velhas e de propor a publicação do teu trabalho na tua escola. 1. O signifi cado e origem do teu nome. 2. O nome da tua localidade ea origem da sua população. 3. O nome de quatro localidades vizinhas e as suas respectivas histórias. 4. A história das montanhas, grutas e pedras à volta da tua localidade. 5. A história dos rios, lagoas e fl orestas da tua localidade. SABIAS QUE... • As lendas também podem ser entendidas como fábulas e contos. • As lendas são verdadeiros museus, monumentos e ilustrações vivas. • Podem ser narradas ou contadas, e geralmente tetminam com uma lição moralizadora e educativa. • Existem em todas as famílias. ? 3.4.2. As lendas e tradições, as principais línguas, as actividades As principais manifestações culturais do nosso país variam de região para região e de povo para povo. Elas retratam a maneira de viver de um povo, a forma como enfrenta os seus problemas do dia-a-dia e como os resolve. As lendas e tradições As lendas e as tradições de um povo constituem a sua sabedoria popu- lar, que os mais velhos têm sabido transmitir às novas gerações. 48 3.4. Aspectos culturais da localidade Fig. 24 Pescadores. Fig. 25 Criador de gado. Em Angola, um mais velho é considerado uma biblioteca porque conser- va conhecimentos de tudo aquilo que os seus antepassados conheceram e transmitiram. Estas bibliotecas populares e activas circulam pelas al- deias e chegam a todos. A tradição oral foi sempre uma grande riqueza cultural. É uma cultura verdadeira que abrange todos os aspectos da vida dos angolanos. As lendas africanas têm uma grande importância cultural. As principais línguas As línguas são o meio de comunicação particular utilizado por cada povo de África. Em Angola existem várias línguas que identifi cam a origem de cada um dos seus povos. A utilização da língua através da palavra é tam- bém o meio que os africanos usam para compor a sua história. É através da palavra que as tradições dos nossos antepassados são transmitidas de geração em geração. As actividades Já reparaste que cada região tem a sua importância cultural? Isto obser- va-se através das suas actividades diárias. Em Angola desenvolvem-se várias actividades que podem ser agríco- las, pastorícias, pesqueiras, artesanais, artísticas e outras. Todas elas são importantes para a sobrevivência das populações das diversas localidades. 49 3.4. Aspectos culturais da localidade Fig.28 Cestaria artesanal de Luanda. Fig.26 Festa tradicional. Fig. 29 Estatuetas de madeira. Fig. 27 Uma dança Mumuíla. É comum encontrar-se numa região, sobretudo nas aldeias, adultos que praticam actividades de pesca ou pastorícia que enquanto crianças her- daram dos seus pais. Outras actividades que retratam os hábitos e cos- tumes dos povos de uma determinada localidade são as manifestações culturais. Estas podem ser festas e danças tradicionais que retratam a cultura de um povo. Algumas festas que ainda são conservadas e acontecem em quase todo o nosso território nacional são as festas da circuncisão, da puberdade, do casamento e outras. Uma das festas que também é celebrada em todo o país é o Carnaval. Em certas regiões, ainda hoje se continuam a fazer utensílios a partir de modelos antigos, como esteiras, panelas e pratos de barro, pentes, es- tatuetas de madeira, instrumentos de ferro, máscaras e outros objectos artesanais. Todas essas actividades representam algo ligado ao nosso povo e cons- tituem um conjunto de actividades e tradições transmitidas ao longo das gerações. 50 51 TEMA 4. ANGOLA HÁ MUITOS, MUITOS ANOS ESTRUTURA DO TEMA 4.1. Os primeiros habitantes do actual território angolano • Os Pigmeus • Os Khoissan • Os Vátuas e Kuisses 4.1.1. Principais acpectos da vida dos Khoissan 4.1.2. Manifestação artísticas 4.2. A chegada dos Bantu a e oucupação dos territórios actuais 4.2.1. Migrações 4.2.2. Grupos etno-linguísticos bantu 4.3. Os primeiros reinos 4.3.1. Reino do Kongo 4.3.2. Reino do Ndongo 52 TEMA 4. ANGOLA HÁ MUITOS, MUITOS ANOS 4.1. Os primeiros habitantes do actual território angolano • Os Pigmeus • Os Khoissan • Os Vátuas e Kuisses SABIAS QUE... • A população angolana de hoje forma um só povo e uma só nação, mas isto não foi sempre assim. • Houve um tempo em que o território angolano actual era habitado por vários povos que muitas vezes eram inimigos uns dos outros. • Algumas partes do actual território Norte e Nordeste de Angola (Cabinda, Zaire, Uíge e Lunda-Norte) foram habitadas por Pigmeus. ESCLARECER... Os Khoissan apresentam as seguintes características: • pele castanha avermelhada ou amarela; • molares salientes; • olhos oblíquos; • nariz chato; • cabelo grau pimenta • estrutura média de 1,52 m. Os Khoissan são um povo de raça negra, não bantu. Fig. 1 Mulher pigmeu angolana Fig.2 Um Khoissan (Bosquiman). O povo mais antigo que habitou o território angolano há milhares de anos, foi o dos Khoissan. Estes, viveram sempre em tribos sob a forma de co- munidade primitiva na zona de savana. 53 4.1. Os primeiros habitante do actual território angolano Os outros povos mais antigos foram os Vátuas (Kwepes e Kuissis), que falam uma língua do grupo Khoissan. Hoje, os Khoissan encontram-se na Província do Namibe, no Sul de Angola e fazem parte do actual povo angolano. 4.1.1. Principais aspectos da vida dos Khoissan Os Khoissan viveram sempre em tribos, sob a forma de comunidade primitiva. O seu ambiente natural era a região da savana, própria à sua subsistência. Os Khoissan sobrevivem recorrendo à caça e à recolecção, sendo conhecidos como grandes caçadores. Muitas vezes vendiam carne aos seus vizinhos, em troca de outros alimentos e de utensí- lios. As suas armas eram pequenos ar- cos de fl echas envenenadas. 4.1.2. Manifestações artísticas Em termos de arte, os Khoissan fa- zem pinturas e esculturas na rocha, nas quais retratam cenários de guerra, caça, dança e cerimónias religiosas. Fig.3 Mapa de Angola, destacando-se a verde a província do Namibe. Fig. 4 Khoissan com arco e fl echa. Fig. 5 Pinturas rupestres do Tshitundo Ulu. VÊ SE SABES... 1. Cita os nomes dos primeiros habitantes do território angolano. 2. Qual foi o primeiro povo que ocupou o territórlo angolano? 3. Em que província podemos encontrar os Khoissan? ? 54 4.2. A chegada dos Bantu e a ocupação dos territórios actuais 4.2.1. Migrações SABIAS QUE... • As migrações são grandes deslocações realizadas por povos in- teiros de um lugar para o outro, à procura de melhores condições de vida. • As migrações podem ter como causas alterações climaticas (desertifi cação de uma região), lutas internas, fome, procura de melhores condições de vida, etc. Os povos Bantu começaram a emigrar para o actual território de Angola antes de 1200, e as últimas migrações ocorreram nos anos de 1800. Fig. 6 Mapa de África com o percurso migratório dos povos Bantu. 55 4.2.2. Grupos etno-línguisticos bantu As populações de origem bantu formaram em Angola nove etnias, ou povos, que são: Bakongo, Nganguela, Nyaneka-Humbe, Herero, Lunda- -Kioko (Côkwe) , Ovambo, Ambundo, Umbundu e Xindonga. Cada um destes povos possui a sua própria língua. É por esse motivo que são chamados grupos etno-linguísticos. Todos eles já possuíam técnicas de trabalho com o ferro e praticavam a agricultura. 4.2. A chegada dos Bantu e a ocupação dos territórios actuais Fig. 7 As migrações bantu em Angola. 56 4.2. A chegada dos Bantu e a ocupação dos territórios actuais Fig. 8 Deslocações do grupo Bakongo. Fig. 10 Deslocações dos grupos dos Nyanekas e dos Hereros. Fig. 9 Deslocações do grupo Ngangela. A partir dos anos de 1200, o grupoBakongo atravessou o rio Zaire (ou rio Congo) e instalou-se na sua margem esquerda. Caminhando para sul, este povo foi-se fi xando em áreas já antes ocupadas pelos Ambundo. A partir dos anos de 1400 ou do iní- cio dos anos de 1500, os Nyanekas (ou Vanyanekas) povos de pastores, entra- ram pelo Sul de Angola, atravessaram o Cunene e instalaram-se no planalto da Huila. Nesses anos entraram também os Hereros. A partir dos anos de 1300, alguns homens do grupo Nganguela des- locaram-se para oeste e atravessa- ram o Alto Zambeze até ao Cunene. 57 4.2. A chegada dos Bantu e a ocupação dos territórios actuais Fig. 11 Deslocações do grupo Lunda. Fig. 13 Deslocações do grupo dos Côkwe,depois de abandonarem a Lunda. Fig. 12 Deslocações do grupo dos Ovambos. Entre 1500 e 1600 começaram a chegar à região da Lunda povos caçadores, os Côkwe (ou Tchokwe), vindos do pla- nalto de Luba. Nesses mesmos anos, os Côkwe aban- donaram o Katanga, atravessaram o rio Cassai e vieram instalar-se na Lunda, no Nordeste angolano. Mas os Lundas vieram cobrar impostos ao povo re- cém-chegado, e os Côkwe voltaram a emigrar, principalmente para o sul. Entre 1700 e 1800, entraram no território angolano os Ovambos (ou Ambos). Este povo deixou o seu território no Baixo- Cuango e veio instalar-se entre o rio Al- to-Cubango e o rio Cunene. Os Ovambos eram grandes mestres a trabalhar o ferro. 58 Fig. 14 Deslocações do grupo dos Kwan- gali, ou Kuangares. Finalmente, entre 1800 e 1900, apa- rece o último povo que veio insta- lar-se em Angola - os Ovo Kwan- gali (ou Kuangares). Cada uma das etnias referidas falava a sua língua materna, como o Kimbundu, o Kikongo, o Nganguela, o Côkwe, o Cuanhama ou o Oshiwambo. VÊ SE SABES ... • O que entendes por migração? • Quando se iniciaram as migrações Bantu? • Localiza no mapa da página 54 o local de onde saiu o povo Bantu. • Precisamente, de onde veio o povo Bantu? • Escreve verdadeiro (V) ou Falso (F) nas seguintes afi rmações: a) Os Kwepes, Vatuas e Khoisan são povos Bantu. b) Os Bakongo, Nganguela, Côkwe e Umbundo são povos Bantu. c) Os Zulu, Azande e Nilotico Berbere são povos Bantu. ? 4.2. A chegada dos Bantu e a ocupação dos territórios actuais 59 À medida que ocorriam as migrações cada um desses povos bantu que vieram ocupar uma porção do actual território de Angola organizou-se até formar inportantes reinos Os principais reinos formados antes da ocupação europeia foram o Rei- no do Kongo, o Reino do Ndon- go, o Reino de Kassanje, o Reino de Matamba, o Reino da Lunda, o Reino do Bailundo, e o Reino de Kwanyama. Este ano vamos estudar o Reino do Kongo, e o Reino do Ndongo Fig. 15 Mapa dos primeiros reinos de Angola Fig. 15 Mapa do Reino do Kongo SABIAS QUE... • O primeiros Estado bantu formado na costa ocidental de África foi o Reino do Kongo • Este reino foi fundado no periodo entre 1200 e 1300 por Ntinu Wene Wa Kongo (Nimi-a-Lukeni) • O Reino do Kongo tinha como capital Mbanza-Kongo 4.3.1. O Reino do Kongo O Reino do Kongo era muito grande e tinha como limites: • a norte, o rio Ogoué no Gabão; • a sul, o rio Cuanza; • a leste, o rio Cuango, afl uente do Zaire; • a oeste, era banhado pelo ocea- no Atlântico 4.3. Os primeiros reinos 60 O Reino do Kongo era poderoso e bem organizado. Tinha uma economia muito desenvolvida. Praticavam-se a agricultura, o artesanato, a caça, os trabalhos de ferro e a exploração de minas. A agricultura e o artesanato O antigo povo do Kongo cultivava massango, feijão, massambala, banana, inhame e outros produtos. O trabalho principal era feito pelas mulheres. Os artesãos fabricavam armas, cerâmica e outros utensílios. Formavam pe- quenas indústrias derivadas da caça, da pesca e do artesanato (escultura). 4.3. Os primeiros reinos O comércio Nos mercados locais do rio Zaire e da costa do oceano trocavam-se os principais produtos: sal, ferro, tecidos de ráfi a, peles e produtos alimenta- res. Este tipo de comércio era conhecido por permuta. Mais tarde, a troca de produtos era feita com a principal moeda: o nzimbu. O nzimbu eram conchas apanhadas ou colhidas na Ilha de Luanda e depois escolhidas. Eram de vários tamanhos: grandes, médias e pequenas, tendo cada uma o seu valor. Era com nzim- bu que se pagavam todas as despesas administrativas correntes do Reino do Kongo, dos soldados e dos funcioná- rios, entre outras. A Ilha de Luanda era o “banco” do rei do Kongo, e a sua exploração pertencia-lhe. Fazia-se Fig. 17 Uma mulher a cultivar. Fig. 18 Trabalhadores de ferro. Fig. 19 Moeda nzimbu. 61 também comércio por terra e eram frequentes as trocas com os reinos vizinhos. As classes sociais Os habitantes do Reino do Kongo formavam a sociedade Kongue- sa, constituída por duas grandes classes: a nobreza e o povo. Por vezes, estas classes eram inimi- gas uma da outra. O povo vivia em comunidades aldeãs (sanzalas) e defendia a propriedade das terras, dos rios, dos palmares e das fl orestas. Dentro da nobreza destacavam- -se duas camadas: uma formada pela família real e funcionários de Estado, e outra pelos chefes tradicionais das populações mbundu, dominadas pela pri- meira (chefes da terra e chefes religiosos). Era o chefe da aldeia que distri- buía a cada família as terras para o cultivo. O povo era obrigado a pagar um tributo sobre as colheitas, reco- Ihido pelos funcionários reais (Mani). Os homens podiam ser recrutados pelos Mani para trabalhos colectivos, tais como a abertura de caminhos, construção de residências de nobres ou combate nos exércitos. Os escravos, pouco numerosos, eram usados sobretudo nos serviços domésticos das famílias nobres, no transporte de mercadorias, na forma- ção de guardas pessoais da aristocracia e na produção agrícola. 4.3. Os primeiros reinos Fig.20 Cerimónia tradicional Konguesa. Fig. 21 Ilustração de um aristocrata Konguesa. 62 No Reino do Kongo, como noutros reinos da África Negra, o escravo era considerado como pessoa e não como objecto, podendo ocupar por ve- zes funções importantes na família, na aldeia ou na sociedade. ESCLARECER ... • O rei do Kongo tinha poder absoluto: podia declarar a guerra e castigar as pessoas. • Os aristocratas, chamados Mani, eram os chefes da admi- nistração das províncias e dos distritos do Reino do Kongo. • Eram os Manis que ocupavam os lugares de comando militar, administrativo e religioso, o que lhes dava grande riqueza. • Os Manis também cobravam impostos, recrutavam gentes para o exército, para os trabalhos da comunidade e do rei. Eram ainda os juízes da região, presidindo à justiça. A organização do Reino do Kongo O Reino do Kongo estava dividido em seis províncias. • Mpemba era a província onde se encontrava a capital do reino, Mban- za Kongo, e residia o rei. O Reino do Kongo foi um dos mais organizados da África Austral, e por sinal o primeiro reino africano que enviou um representante a Roma como embaixador - o fi lho de Mvemba Nzinga. • As outras províncias do Reino do Kongo eram Soyo, Mbata, Mbamba, Nsundi e Mpangu, que eram governaâas pelos seus próprios Manis. Cada uma destas províncias estava dividida em unidades administra- tivas, chamadas de vata - aldeia. Além dessas seis províncias, havia reinos vizinhos tributários que paga- vam impostos ao rei do Kongo. Os principais eram Ngola e Matamba, a sul, e os reinos de Loango, Ngoyo e Kakongo, a norte. 4.3. Os primeiros reinos 63 4.3. Os primeiros reinos Fig.22 Mapa mostrando a divisão administrativa do Reino do Kongo. Fig. 23 Gravura retratando a Batalha de Ambuíla. A decadência do Reino do Kongo começou depois da Batalha de Ambuíla, em 1665, altura em que o rei do Kongo, Vita-a-Nkanga (Mani Mulaza), conhecido por Dom Antônio I, foi vencido pelos Portugueses, já no período colonial. 64 4.3. Os primeiros reinos 4.3.2. O Reino do Ndongo O Reino do Ndongo tinha como limites: • a norte, o rio Dande e as terras