Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.
left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

A Editora Arqueiro agradece a sua escolha. 
Agora, você tem em mãos um dos nossos livros 
e pode ficar por dentro dos nossos lançamentos, 
ofertas, dicas de leitura e muito mais!
https://especial.sextante.com.br/cadastroebooks-arqueiro
O Arqueiro
GERALDO JORDÃO PEREIRA (1938-2008) começou sua carreira aos 17 anos, quando foi
trabalhar com seu pai, o célebre editor José Olympio, publicando obras marcantes como O menino
do dedo verde, de Maurice Druon, e Minha vida, de Charles Chaplin.
Em 1976, fundou a Editora Salamandra com o propósito de formar uma nova geração de
leitores e acabou criando um dos catálogos infantis mais premiados do Brasil. Em 1992, fugindo de
sua linha editorial, lançou Muitas vidas, muitos mestres, de Brian Weiss, livro que deu origem à
Editora Sextante.
Fã de histórias de suspense, Geraldo descobriu O Código Da Vinci antes mesmo de ele ser
lançado nos Estados Unidos. A aposta em �cção, que não era o foco da Sextante, foi certeira: o
título se transformou em um dos maiores fenômenos editoriais de todos os tempos.
Mas não foi só aos livros que se dedicou. Com seu desejo de ajudar o próximo, Geraldo
desenvolveu diversos projetos sociais que se tornaram sua grande paixão.
Com a missão de publicar histórias empolgantes, tornar os livros cada vez mais acessíveis e
despertar o amor pela leitura, a Editora Arqueiro é uma homenagem a esta �gura extraordinária,
capaz de enxergar mais além, mirar nas coisas verdadeiramente importantes e não perder o
idealismo e a esperança diante dos desa�os e contratempos da vida.
Título original: e Governess Affair
Copyright © 2012 por Courtney Milan
Copyright da tradução © 2022 por Editora Arqueiro Ltda.
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser utilizada ou
reproduzida sob quaisquer meios existentes sem autorização por escrito dos editores.
tradução: Caroline Bigaiski
preparo de originais: Camila Fernandes
revisão: Ana Sarah Maciel e Tereza da Rocha
diagramação: Natali Nabukura
capa: Miriam Lerner | Equatorium Design
imagem de capa: Ildiko Neer / Trevillion Images
foto da autora: © Jovanka Novakovic
e-book: Pedro Wainstok
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO 
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
M582c
Milan, Courtney
O caso da governanta [recurso eletrônico] / Courtney Milan ; tradução Caroline
Bigaiski. - 1. ed. - São Paulo : Arqueiro, 2022.
recurso digital     (Os excêntricos)
Tradução de: e governess affair.
Formato: ePub
Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions
Modo de acesso: World Wide Web
ISBN 978-65-5565-403-5 (recurso eletrônico)
1. Romance americano. 2. Livros eletrônicos. I. Bigaiski, Caroline. II. Título. III.
Série.
22-
79876
CDD: 813
CDU: 82-31(73)
Meri Gleice Rodrigues de Souza - Bibliotecária - CRB-7/6439 
 
Todos os direitos reservados, no Brasil, por
Editora Arqueiro Ltda.
Rua Funchal, 538 – conjuntos 52 e 54 – Vila Olímpia
04551-060 – São Paulo – SP
Tel.: (11) 3868-4492 – Fax: (11) 3862-5818
E-mail: atendimento@editoraarqueiro.com.br
www.editoraarqueiro.com.br
mailto:atendimento@editoraarqueiro.com.br
http://www.editoraarqueiro.com.br/
Para Amy, Tessa e Leigh. 
Nunca sinto medo com vocês por perto.
sumário
Capítulo um
Capítulo dois
Capítulo três
Capítulo quatro
Capítulo cinco
Capítulo seis
Capítulo sete
Capítulo oito
Capítulo nove
Capítulo dez
Capítulo onze
Consequências & começos
Agradecimentos
 
Sobre a autora
Sobre a Arqueiro
A
Capítulo um
Londres, outubro de 1835
porta da biblioteca no segundo andar bateu violentamente,
sacudindo no batente. Passos pesados cruzaram o cômodo até se
aproximarem da mesa de Hugo. Punhos bateram com força na superfície de
madeira.
– Maldição, Marshall. Preciso que você resolva isso.
Apesar dessa entrada dramática, Hugo Marshall não ergueu os olhos dos
registros. Em vez disso, aguardou em silêncio. Ele não era um criado e se
recusava a ser tratado como tal.
Após um momento, sua paciência foi recompensada.
– Resolva isso, por favor – murmurou o duque de Clermont.
Hugo levantou a cabeça. Um espectador mal-informado teria se concentrado
no duque, aparentemente no controle da situação, resplandecente em um colete
bordado com �o dourado de tal forma que quase machucava os olhos. Esse
espectador descartaria a �gura desinteressante do Sr. Marshall, vestido em
roupas que abrangiam todo o espectro do marrom.
A comparação não terminaria nas roupas. O duque era respeitavelmente
corpulento, e seus traços nobres eram distintos e aristocráticos. Tinha olhos azul-
gelo agitados que pareciam absorver tudo. Comparando isso à expressão pouco
atraente de Hugo e seus cabelos loiro-escuros, tal espectador teria concluído que
o duque estava no comando.
Esse espectador, pensou Hugo, era um idiota.
Ele soltou a pena.
– Eu não sabia que havia algo a ser resolvido. – Exceto a questão de Sua
Graça, a duquesa. – Quero dizer, algo dentro do meu alcance.
Clermont estava verdadeiramente agitado e nervoso. Esfregou o nariz de
modo muito descortês.
– Há mais uma coisa. Acabou de vir à tona, hoje pela manhã.
Ele olhou pela janela e franziu ainda mais o cenho.
A biblioteca na casa de Clermont em Londres �cava no segundo andar e
tinha uma vista pouco inspiradora. Não havia nada para ver além de uma praça
na região de Mayfair. O outono tinha mudado o verde das folhas das árvores
para tons de marrom e amarelo. Um tanto de gramado desbotado e uns poucos
arbustos esquálidos rodeavam um banco de ferro, no qual estava sentada uma
mulher. O rosto dela estava obscurecido por um chapéu de aba larga decorado
com um lacinho �no cor-de-rosa.
Clermont cerrou as mãos. Hugo quase conseguiu ouvi-lo ranger os dentes.
Mas, quando falou, as palavras foram casuais:
– Então, se eu me recusasse a acatar as demandas ridículas da duquesa, você
ainda resolveria tudo, não resolveria?
Hugo lhe lançou um olhar severo.
– Nem pense nisso, Vossa Graça. Sabe o que está em jogo.
O outro homem cruzou os braços, em negação. Sua Graça realmente não
entendia a situação, era esse o problema. Ele era um duque, e os duques não
tinham noção do que é economizar. Se não fosse por Hugo, as vastas
propriedades de Clermont teriam desmoronado anos antes sob o peso das
dívidas. Do jeito que as coisas estavam, as contas mal se pagavam – e o pouco
equilíbrio contábil só era possível por causa do casamento recente do duque.
– Mas ela é tão sem graça – protestou Clermont.
– Sim, e que bela piada será quando suas propriedades não vinculadas forem
apreendidas. Convença sua duquesa de que ela verdadeiramente o quer de volta
na vida dela. Depois disso, poderá rir quanto quiser, Vossa Graça.
Uma quantia havia sido entregue logo após o contrato de casamento. Porém,
desapareceu rapidamente, sendo usada para pagar hipotecas pendentes e dívidas
preocupantes. O restante do considerável dote da duquesa tinha sido vinculado a
um fundo administrado pelo pai da moça – e os valores seriam liberados de
acordo com um cronograma, contanto que o duque deixasse a esposa feliz.
Lamentavelmente, a duquesa tinha debandado quatro meses antes.
Clermont fez bico. Não havia outra forma de expressar as ações dele: seus
ombros caíram e ele deu um chute no canto do tapete, como uma criança
birrenta.
– E eu aqui pensando que todas as minhas preocupações com dinheiro
tinham acabado. Para que foi que eu o contratei, se não…
– Todas as suas preocupações tinham acabado, Vossa Graça. – Hugo batucou
os dedos na mesa. – E quantas vezes preciso lhe lembrar que o senhor não me
contratou? Se tivesse contratado, me pagaria um ordenado.
Hugo conhecia bem demais a situação do duque para aceitar algo tão fútil
quanto a promessa de um ordenado. Ordenados podiam ser atrasados. Já as
apostas, por outro lado, santi�cadas nos registros do White’s, eram invioláveis.
– Sim – respondeu o duque –, e, falando nisso, você disse que tudo que eu
tinha que fazer era achar uma herdeira e dizer o que fosse necessário para deixá-
la feliz. – Ele fez uma careta para o tapete sob seus pés. – Segui seu conselho.
Agora, veja no queEu o deixei fazer isso.
Talvez houvesse um quê de pena nos olhos do Sr. Marshall, um traço de
gentileza quando ele tomou a xícara de chá das mãos dela. Mas não havia sinal
algum de caridade em sua voz quando ele falou.
– Então, serão 50 libras e uma referência. E nada de vingança.
O
Capítulo quatro
mensageiro retornou de Wolverton Hall no dia seguinte à chuva.
Hugo se postou diante da janela do escritório, observando a praça
abaixo.
O clima estava seco naquele dia, e os idosos tinham voltado ao banco. Se
Hugo percebia um ar de rebeldia na postura da Srta. Barton… O que importava?
Não mudaria nada.
Ele não tirou os olhos dela, mas continuava ciente do mensageiro parado às
suas costas.
– Então – falou por �m –, o que aconteceu?
Ele havia mandado Charles Gordon para investigar. O homem, magro e
franzino, sentia um medo considerável de Hugo. Do canto do olho, o viu engolir
em seco e �xar os olhos à frente.
– Ela não foi embora por conta própria – respondeu Gordon, umedecendo os
lábios. – Foi dispensada por comportamento imoral.
– Mentiras? Roubo?
A voz de Hugo saiu tranquila – tranquila demais. Ele sabia o que estava por
vir; a própria Srta. Barton tinha lhe contado.
– A essência do boato é que ela levou um homem para a cama. Na própria
casa, é o que dizem.
– Ela foi �agrada no ato?
– Alguém viu o sujeito saindo dos aposentos dela.
– Ah. – Hugo juntou as pontas dos dedos. – Quando diz que alguém o viu…
o homem em questão foi identi�cado?
– Não. Uma criada viu um vulto saindo da ala das mulheres.
– Por que suspeitaram dela, então? A moça tinha um pretendente? Algum
tipo de �erte?
Ele fazia as perguntas, mas sua mente já estava muito à frente. Ela havia
admitido que o duque não a forçara. Será que ele lhe havia feito promessas? Será
que a tinha seduzido?
– Não – disse Gordon. – Mas, quando o assunto surgiu, revistaram o local.
Havia sangue nos lençóis dela, e não era aquela época do mês.
Um choque leve percorreu o corpo de Hugo com tudo que isso insinuava. Na
praça lá abaixo, a Srta. Barton ergueu o queixo. Hugo não conseguia enxergar
seus traços, mas conseguia lembrar os olhos cinzentos o encarando enquanto ela
falava.
Como o senhor pode acreditar que uma referência encobriria o que aconteceu
comigo?, ela havia perguntado.
Ela ainda era virgem. Isso signi�cava que Clermont tinha agido mal – ainda
pior do que Hugo imaginara. Ela havia declarado que não tinha sido forçada.
Mas havia níveis de violência, e todos os sugeridos nessa situação tornavam
Hugo o vilão nesse drama em especial.
Ele se ressentia de Clermont por lhe haver imposto esse papel.
– Se o senhor precisar se livrar dela – disse Gordon –, basta falar algumas
palavras sobre isso aos ouvidos certos e ela será expulsa num instante.
E seria mesmo. Acontecera um caso semelhante no ano anterior – a criada de
uma dama fora dispensada por conduta indecente. Hugo tinha acompanhado a
situação toda da janela. Os outros criados tinham se aglomerado na praça
quando ela fora embora com uma única mala. A multidão a havia empurrado e
chamado de vários nomes vergonhosos, que Hugo tinha ouvido mesmo de longe,
através da vidraça, a 15 metros de distância. Eles a haviam chamado de meretriz
e vagabunda, e essas nem chegavam perto das piores alcunhas que haviam
gritado. Hugo já tinha descido metade da escada, com a intenção de pôr �m ao
tumulto, quando alguém jogara uma pedra.
De alguma forma, avistar o sangue dela tinha sido tão efetivo em dispersar a
multidão quanto uma legião de policiais empunhando cassetetes.
Hugo tinha poucas pretensões quanto à própria moral. Havia feito uma série
de coisas que não apenas contornavam os limites da conduta ética como os
pisoteava. Mas não gostava de pensar na Srta. Barton no centro de tal multidão.
Não era o motim sem rostos que via ao redor dela quando imaginava isso, mas
seu próprio pai, avançando com a vassoura na mão.
Você nunca vai ser alguém, moleque, então volte lá para fora…
– E então? – perguntou Gordon. – Devo espalhar a história?
– Não.
– Isso parece… bem generoso – comentou Gordon, em dúvida.
– Não é nada do gênero.
Era apenas autopreservação. Se alguém jogasse uma pedra na Srta. Barton,
Hugo seria capaz de matar o sujeito a sangue frio. Nunca conquistaria nenhuma
de suas ambições se fosse enforcado por homicídio.
Além disso, o objetivo era manter o nome de Clermont fora da situação. Se
ela fosse tachada de vagabunda, seriam necessárias poucas horas para as más
línguas decidirem com quem ela andara vagabundeando.
Havia formas melhores de afugentá-la. A pressão que ele havia feito até o
momento não passava de brincadeira de criança.
Ele não queria fazer isso. Gostava da Srta. Barton. Admirava-a. Havia algo
nela que não o deixava em paz. Ia completamente contra sua natureza acabar
com os sonhos e ambições de uma mulher como ela.
Mais um motivo para fazer com que ela fosse embora. Toda vez que Hugo
falava com ela, �cava mais envolvido.
Era hora de se empenhar verdadeiramente ao máximo. Gordon não era a
única pessoa que Hugo tinha enviado para investigar. Com um aceno de mão,
pediu ao homem que se afastasse alguns passos. Em seguida, deu as costas à
janela e abriu o documento com as informações que havia obtido sobre a Srta.
Barton.
No momento, ela morava com a irmã, a Srta. Frederica Barton, num sótão
em Cheapside. A Srta. Barton mais velha vivia da renda anual depositada no
Daughtry’s Bank.
– É hora de encerrar essa questão – a�rmou ele, mais para convencer a si
mesmo do que por qualquer outro motivo.
Ela era bonita, corajosa e teimosa demais. Em outro mundo, Hugo teria
cortejado uma mulher como ela até conquistá-la para si. Teria atiçado a atração
entre os dois até que chegasse a um calor crepitante. Mas não tinha paciência
para fantasias ansiosas. No fundo, não era por companheirismo que ele ansiava.
Não haveria problema em tomá-la para si. Mas não era o desejo por uma
mulher que lhe roubava o sono. Hugo acordava se lembrando do pai parado
acima dele, com a vassoura na mão e o hálito cheirando a álcool.
Você nunca vai ser alguém. Sua vida imunda não vale os trapos malditos que
você está usando.
Não. Havia um abismo de desejo dentro de Hugo, mas nenhuma mulher
poderia preenchê-lo. Não importava com quanta determinação essa mulher em
especial o olhasse nos olhos.
Hugo estendeu a mão para o tinteiro e molhou a caneta. Gordon observou
enquanto ele escrevia algo no papel, lacrava, acrescentava um endereço e, depois,
lhe estendia a carta.
– Entregue isto aqui – ordenou.
Tinha sido um dia longo para Serena, mais longo ainda por causa do simples
fato de nada ter acontecido. Tinha dito para o Sr. Marshall fazer o pior que
pudesse. Mas ele apenas havia ocupado o banco com outras pessoas e a deixado
em paz.
Depois da conversa dos dois na praça, ela havia esperado alguma coisa,
qualquer coisa, mas não aquilo.
Abriu a porta do apartamento da irmã com um suspiro.
– Freddy? – chamou.
Freddy não respondeu. O cômodo estava silencioso demais. Não havia
agulhas de tricô estalando nem tecido farfalhando. Mas as coisas da irmã ainda
estavam penduradas no hall de entrada, e, além disso, ela não teria saído. Não tão
perto do anoitecer. Serena franziu o cenho e foi até o outro cômodo.
Freddy estava sentada na cadeira, apertando �rmemente o próprio corpo
com os braços. Balançava para a frente e para trás muito de leve, tremendo. No
chão, largada numa pilha infeliz, estava uma manta de bebê pela metade.
– Freddy, o que aconteceu?
– Leia – disse Freddy. Sua voz tremia. Ela indicou a mesa à sua frente com o
queixo. – Leia.
Havia uma carta na mesa. Serena não sabia o que pensar. Ela a pegou e leu
rapidamente. Era do senhorio de Freddy.
– Fui informado… – murmurou ela, lendo em voz alta a princípio.
Mas sua respiração falhou na frase seguinte. Serena nem conseguia
pronunciar tais palavras. Quando chegou ao �m da carta, estava ofegando de
raiva.
Pensara que o Lobo de Clermont a havia deixado em paz naquele dia. Que
piada. Ela olhou para a irmã, apertando a si mesma com os braços. Umacoisa
era incomodar a própria Serena. Outra, completamente diferente, era prejudicar
Freddy.
Freddy não estava envolvida nessa disputa. Nunca tinha feito nada – não
desde aquela noite terrível em que estivera na carruagem com a mãe delas
quando foram assaltadas. Ela estivera sentada bem ao lado da mãe quando o
assaltante atirou.
Freddy nunca tinha falado sobre o acontecimento, mas mal fora capaz de sair
de casa depois do ocorrido. Serena achara que a angústia sumiria, mas, à medida
que os anos passaram, a irmã apenas começou a temer ainda mais o mundo da
porta para fora. Atacá-la, e de um jeito tão deplorável…
O Sr. Marshall teria que responder por aquilo.
Serena colocou a carta na mesa.
– Já estou farta – falou, com a voz tremendo de raiva. – Não vou... não vou
permitir que isso aconteça com você, Freddy. Prometo.
A porta da Casa Clermont era dura, mas Serena bateu nela com todas as suas
forças.
Era a terceira vez que batia, e já não esperava uma resposta. Ainda assim, não
iria embora até que a atendessem. Depois do que encontrara em casa na noite
anterior…
Ela ergueu a mão mais uma vez, e a porta se abriu. Um homem de cabelos
grisalhos olhou para ela de cima. Serena se esticou o máximo que conseguia – o
que, infelizmente, não levava sua cabeça nem à altura do ombro dele.
– Exijo falar com o Sr. Marshall – disse ela, com toda a dignidade de que era
capaz. – Exijo falar com ele agora.
O lacaio a olhou com desdém.
– Ele está indisponível no momento.
– Faça com que ele �que disponível. Se ele não falar comigo…
– Fui instruído a lhe entregar isto.
O lacaio estendeu a mão. Havia um pedaço de papel branquíssimo dobrado
entre seus dedos.
Devagar, Serena esticou a mão e o pegou. O papel havia sido dobrado num
quadrado, e na frente, escrito com uma letra �rme, lia-se “Srta. Barton”.
– E isto – acrescentou o lacaio.
Serena ergueu os olhos. O lacaio segurava um lápis. O objeto parecia
deslocado em suas luvas brancas – ordinário demais para existir a tal
proximidade do luxo de um duque. Serena aceitou o lápis e estava desdobrando a
missiva quando a porta se fechou, �rme e irrevogavelmente, às suas costas. Ela
levou a carta para o outro lado da rua e abriu o lacre.
Srta. Serena Barton,
É de seu interesse que se acalme. Convencer o senhorio de Frederica a pôr as duas
para fora levou apenas um momento. Considere isso apenas como um aviso.
Como a senhorita tem pouco o que fazer durante o dia, tenho certeza de que a
inconveniência de se mudar não a afetará em nada. Uma mulher da sua perseverança
descobrirá que essa tarefa é o menor dos seus problemas. Porém, se eu for obrigado a
me incomodar a ponto de acabar com o Daughtry’s Bank – de onde sua irmã saca a
anuidade –, pode ter certeza de que não continuarei a ser tão agradável.
Minha oferta continua: 50 libras e uma referência. Talvez eu possa aumentar um
pouco a compensação monetária.
Prefiro não ter que lhe causar futuros transtornos, mas não hesitarei em fazê-lo, se
for necessário.
Como sempre, seu amigo.
Não havia assinatura.
Serena encarou a mensagem ofensiva, e a raiva cresceu em seu coração.
Estivera preparada para qualquer tipo de ameaça direcionada a ela. Mas ameaçar
Freddy de novo? Era como maltratar �lhotes de esquilos.
Ela virou o papel e, no verso em branco, escreveu sua resposta.
Pare com isso, senhor. Minha irmã e eu mal temos 100 libras para perder. A perda
de reservas tão ínfimas mal será notada.
Não era verdade, mas, pela experiência de Serena, os homens ricos nunca
entendiam o valor do dinheiro. Ela assentiu com vigor para con�rmar isso e,
depois, jogou a carta que guardava na manga, esperando por esse momento.
Mas o senhor sabe – e eu sei, tal como toda Mayfair – que a duquesa não vai ficar
nem um pouco feliz se ouvir minha história. Não tenho medo do senhor. Por que teria?
Não tenho nada a perder. Já estou arruinada.
Clermont, por outro lado… Refresque minha memória: se a esposa dele o largar,
serão 20 ou 40 mil libras em jogo? Os boatos nunca acertam os valores.
Comentarei uma última questão. O senhor não é meu amigo, e agradecerei se não
se dirigir mais a mim com tanta familiaridade.
S. Barton
Ela entregou a resposta para o lacaio, que logo atendeu à porta desta vez, e
voltou para o banco – naquele dia estava vazio. O tempo estava frio, mas a raiva a
mantinha aquecida. E, de qualquer forma, ela não teve que esperar muito. O
lacaio lhe trouxe a resposta do Sr. Marshall perto do meio-dia.
Cara Serena,
Ela teve certeza de que ele havia se dirigido a ela pelo nome de batismo
apenas para irritá-la.
Pode fingir quanto quiser, mas nós dois sabemos que, não importa quanto a
senhorita proteste, seu dinheiro é a única coisa que poupa a senhorita e sua irmã de
uma vida nas ruas. O duque, é claro, pode se incomodar com a falta de dinheiro, mas
estará protegido do verdadeiro custo da pobreza.
Pode-se dizer a mesma coisa da senhorita?
Ainda seu amigo,
Hugo.
As mãos de Serena tinham esfriado à medida que ela lera, mas ela pegou o
lápis e rabiscou uma resposta.
Eu, pelo menos, tenho certa experiência com a pobreza. Não apreciaria ter que
repeti-la, mas tenho certeza de que seria capaz de sobreviver. Pode dizer o mesmo
sobre o seu duque?
Tenho alguns conselhos para ele sobre como viver uma vida frugal; tratarei de
repassá-los se a esposa o abandonar completamente. Eis o primeiro: sabia que uma
mistura de duas partes de vinagre, duas partes de óleo e uma parte de melado faz
uma limonada aceitável?
S. Barton
Levou pouco mais de meia hora para a resposta chegar.
Serena,
A mistura com vinagre é na verdade bem nojenta, o que imagino que tenha sido
sua intenção. Em nome da conduta justa e cavalheiresca – duas coisas às quais não
posso fingir que normalmente aspiro –, vou lhe conceder a vitória nessa contenda em
especial.
Digo isto com toda a seriedade: para mim, seria uma tristeza imensa ter que
destruir seu futuro e acabar com sua valentia.
Seu amigo.
Havia uma linha escrita abaixo disso, mas fora riscada com traços tão escuros
que não era possível ler as palavras originais. E depois:
Observação: Embora não pareça, não sou indiferente ao seu bem-estar. Consigo
vê-la da janela do meu escritório. Não deve lhe fazer bem ficar andando de um lado
para outro desse jeito tão frenético.
Serena engoliu em seco, depois olhou para cima. As janelas da Casa
Clermont re�etiam a luz fraca do �m de tarde. Ela conseguia ver movimento
atrás das cortinas – vultos sombrios e vagos, tais como criadas cumprindo tarefas
–, mas ninguém que se parecesse com o Sr. Marshall.
Então ela escreveu lentamente no verso da carta:
Entendo. O senhor está me observando. Se olhar pela janela agora, verá que tenho
uma surpresa para o senhor.
Ela entregou a mensagem ao mordomo e depois �cou de pé ao lado do
banco, aguardando. Seu coração martelava no peito. Suas mãos estavam
pegajosas. Meu Deus, Freddy tinha razão. Serena realmente fazia tudo sem
pensar, e veja só no que…
A respiração dela falhou. Um vulto apareceu numa janela no segundo andar.
Serena não conseguia enxergar nenhum traço de�nido, apenas uma silhueta.
Ainda assim, ele provavelmente conseguia ver todos os detalhes dela, iluminados
pelo sol. Serena forçou os lábios a se curvarem num sorriso.
O Lobo de Clermont ergueu a mão.
Antes que perdesse a coragem, Serena cerrou a mão num punho e fez um
gesto extremamente rude. O Sr. Marshall �cou parado na janela, imóvel, antes de
sumir.
A mensagem dele chegou dois minutos depois. Serena a abriu com o coração
na mão. Mas havia apenas duas palavras escritas no papel:
Case comigo.
Ela olhou o papel por alguns minutos, se esforçando para entender o que lia.
Ele havia ameaçado sua irmã. Havia ameaçado seu bem-estar. Mas isso… isso
talvez fosse a coisa mais sinistra que ele já tinha feito.
Lembrou a Serena a sensação tola e inexplicável de segurança que ela sentia
na presença dele, a sensação de atração que pulsava entre os dois. Aquelas
palavras a atingiram no seu íntimo mais vulnerável e ridicularizaram seus
desejos.
Mas ela não seria coagida.Não �caria vulnerável. O futuro de seu bebê estava
em jogo, e, não importava qual arma o Sr. Marshall apontasse para ela, Serena
não recuaria.
Ela ergueu o queixo e rabiscou a resposta.
Eu estava me perguntando quando o senhor começaria a me ameaçar com
destinos piores que a morte. Parabéns, Sr. Marshall. Agora estou oficialmente com
medo.
J
Capítulo cinco
á fazia tempo que tinha escurecido quando Hugo saiu do trabalho,
assobiando de um jeito desa�nado.
Ele não deveria estar se sentindo tão ridiculamente satisfeito consigo mesmo,
a�nal, ainda não tinha ideia do que faria com a Srta. Barton. Porém, quando ela
o vencera – pela terceira vez! – com aquela tirada sobre destinos piores que a
morte, um sorriso enorme tomara o rosto de Hugo. E não havia sumido durante
as horas que se passaram, nem mesmo quando ele tivera que �car além do
horário habitual para concluir o trabalho.
Ele saiu pelo estábulo e chegou à rua, batendo a bengala no chão num ritmo
alegre. E, então, parou.
A Srta. Barton ainda estava sentada no banco.
Com a escuridão, Hugo não a tinha visto da janela. Imaginara que já tinha
ido embora. Se soubesse que ainda estava lá… Não. Não sabia ao certo o que
teria feito se soubesse que ela estava esperando no escuro onde um patife
qualquer poderia se aproveitar dela. Ele atravessou a rua devagar.
– Srta. Barton? – chamou ele, com a voz baixa e ameaçadora. – O que ainda
está fazendo aqui?
Ela se levantou ao vê-lo se aproximar. Seu rosto estava sombrio.
– O que acha? Eu estava esperando para falar com o senhor.
– Comigo? – Ele deu mais um passo na direção dela. – Por quê?
Ele não conseguia ver sua expressão. O poste de luz se erguia a três metros
das costas de Hugo, lançando sombras no rosto dela. A mulher começou a andar
na direção dele, e a percepção latente que Hugo tinha dela ganhou vida. Era bem
mais baixa do que ele. O tecido de sua saia farfalhava na escuridão. Seus passos
eram decididos e con�antes; seu beijo seria igualmente resoluto. A pele de Hugo
formigou em antecipação quando ela parou diante dele, perto o bastante para
tocá-la.
Antes que ele tivesse a chance de pensar, ela cerrou o punho e lhe deu um
soco na mandíbula.
Hugo segurou a mão dela antes que pudesse dar outro soco.
– Nunca bata num homem com o punho cerrado – disse-lhe.
Conseguia sentir os batimentos cardíacos dela.
– Por quê? Porque lhe dá a chance de me tocar desse jeito brusco?
Ele a soltou.
– É melhor dar um tapa na cara dele.
– Rá! Claro.
– Vai fazer com que ele a leve menos a sério, e ele não estará esperando
quando a senhorita der com o joelho na virilha dele.
Ela soltou uma gargalhada surpresa ao ouvir isso.
– Assim está melhor – Hugo ouviu-se dizer. – Passei o dia �ertando com uma
mulher linda e irritante – contou. – E a senhorita?
Ela soltou uma bufada.
– Passei o dia recebendo ameaças covardes de violência – retrucou. –
Tirando isso, foi bem agradável.
O humor animado e alegre de Hugo desbotou um tom.
– É mesmo?
– Pois é – respondeu ela ardentemente. – E, assim que ele baixar a guarda,
vou dar um tapa no homem que me ameaçou para ver se ele aprende a ter um
pouco de bom senso.
– Fui mesmo tão ruim assim?
Ele ia realmente se desculpar por fazer seu trabalho? Não. Claro que não.
Seria absurdo.
Ela apoiou as mãos nos quadris.
– O senhor convenceu o senhorio da minha irmã a pô-la na rua quase sem
aviso prévio nenhum. Temos que sair de lá em dois dias. Dois dias.
– Não têm outro lugar para ir?
– O senhor não entende. Se fosse só eu, não haveria o menor problema. Mas
minha irmã… ela não sai de casa, a não ser que seja obrigada. Quando ela me
encontrou numa estalagem há algumas semanas, quase desmaiou por causa da
multidão. Ter que sair vai matá-la.
– Sinto muito – disse Hugo antes de pensar duas vezes.
Pelo jeito, estava mesmo se desculpando. Pelo jeito, até estava sendo sincero.
– Deve sentir mesmo.
Para o horror de Hugo, ele ouviu uma fungada baixa. Essa pequena
insinuação de lágrimas talvez fosse a pior coisa que a Srta. Barton poderia ter
feito. Ele deu um passo para mais perto dela.
– A senhorita não vai me deixar derrotá-la, não é? Sei de fonte �dedigna que
o Lobo de Clermont só tem ombros largos e nenhum pescoço. Ele não merece
nenhuma gota do seu sentimento.
– Decida de uma vez – rosnou ela. – Ou o senhor me ameaça com lesões
corporais ou é gentil comigo. Não faça as duas coisas. É desconcertante.
– Não exagere. Eu ameacei destruir seu sustento. Mas não ameaço mulheres
com violência física.
– É mesmo? – exigiu ela. – Então como o senhor explica sua última
mensagem?
Hugo precisou de um momento para lembrar o que tinha escrito. Aquelas
duas palavras impulsivas – nem soubera o que quisera dizer com elas.
– Não me diga que foi um pedido de casamento sério – continuou a Srta.
Barton. – A intenção era me intimidar. E eu não serei intimidada.
Hugo engoliu em seco.
– A ideia de casamento com qualquer pessoa nunca me passou pela cabeça.
Não sou o tipo de homem destinado à felicidade matrimonial. Há muitas coisas
que quero fazer na minha vida para me sobrecarregar com os custos de uma
esposa e �lhos. Entenda essas palavras com a intenção verdadeira: minha
expressão mais franca de admiração por uma adversária digna.
– O senhor é um homem inteligente – retrucou ela. – Expresse sua
admiração de outra forma. Isso me leva a pensar… – Ela se deteve e deu um
passo para trás. – O que o senhor está fazendo?
Hugo deu mais um passo na direção de Serena, e ela ergueu as mãos para
afastá-lo. Bem devagar, ele estendeu a bengala para ela.
– Pegue – disse ele.
– Mas…
– Pare de discutir, Serena. Pegue.
Ela fechou a mão ao redor do apoio, aceitando a bengala.
– Isso – a�rmou Hugo – é uma arma. Se eu �zer algo de que a senhorita não
goste, me bata na cabeça com ela. Está escuro. A senhorita está desacompanhada.
E eu vou acompanhá-la até sua casa.
Ela ergueu os olhos para ele.
– Não entendo.
Ele também não entendia.
– Não é nada de mais.
E, com isso, deu de ombros e partiu pela rua.
Serena não sabia o que pensar enquanto percorria a rua ao lado do Lobo de
Clermont, balançando a bengala pesada do homem. Os passos dele não eram
largos, mas rápidos e �rmes, e o coração de Serena estava acelerado enquanto ela
acompanhava o ritmo dele. Sua mente girava quase com a mesma rapidez.
Quando diminuíram o passo para atravessar a rua, Serena fez mais uma
tentativa.
– Não entendo por que o senhor está fazendo isso.
– Entende, sim – respondeu o Sr. Marshall, sem olhar para ela. – A senhorita
entende perfeitamente o que está acontecendo. Estamos atraídos um pelo outro,
e isso é inconveniente.
Ela inspirou com força.
– Não �nja estar surpresa. Se eu fosse um verdureiro e a senhorita, a �lha
encantadora do lojista do outro lado da rua, estaríamos anunciando nosso
noivado neste sábado. Provavelmente, anteciparíamos nossos votos de
casamento enquanto nossos pais �zessem vista grossa.
– Eu não estava �ngindo surpresa. Mas o senhor está tentando me
desestabilizar de novo, e eu…
– Não estou, não. Ambos estamos no mesmo barco.
Ele falava com a voz tão grave que Serena quase não notou o tom de
reclamação. Ela parou na esquina, e ele se virou para olhá-la.
– Se eu fosse um lacaio – disse ele –, e a senhorita, uma criada,
conheceríamos cada cantinho, cada armário em que poderíamos nos esconder
juntos.
Con�ável, sussurrou o juízo malicioso dela. Ele é con�ável. Havia algo de
reconfortante na declaração franca do Sr. Marshall – reconfortante numa
intensidade que apenas �cou mais nítida quando ele deu um passo na direção
dela.
– Se eu fosse sapateiro – continuou ele –, lhe oferecia um desconto.
– Agora o senhor perdeu completamente a cabeça.
– Não. Isso me daria uma desculpa para medir seus pés com minhas mãos
nuas. – Os lábios dele tremeram. – E não pense que eu pararia nos seus dedos.
Ela estava segurando o apoio da bengala com as duas mãos. Sentiu-se
inclinar na direção dele, apenas ligeiramente.
– Mas o senhor não é sapateiro – disse ela. – É o Lobo de Clermont, e eu sou
a mulher que o senhor não consegueafugentar.
– “Não consegue” é uma ideia inclemente – retrucou ele. – Pre�ro “não quer”.
Esse era o homem que havia abandonado a família aos 14 anos. Que tinha
fama de conseguir o que queria.
Mas não era o sujeito tedioso e grosseiro que Serena tinha imaginado. Ele
falara sobre acabar com as esperanças e os sonhos dela, mas, quando estava ao
seu lado, espantava o desespero que ela carregara por tanto tempo.
Ela queria atraí-lo para seu lado – não para privar Clermont de usá-lo, mas
para tê-lo consigo.
– Não me diga que não consigo – dizia ele. – Insinua uma incapacidade.
– Não consegue – repetiu Serena com um sorriso. – Não consegue, não
consegue, não consegue.
– Ah, agora a senhorita está apenas me provocando. – Ele esticou a mão e
tocou a lateral da bengala. – Ainda bem que isso está entre nós, porque do
contrário eu poderia esquecer que não sou lacaio. Nem sapateiro.
Ele deu outro passo. Estava tão perto que aquecia o ar noturno ao redor de
Serena, queimando seus pulmões.
Ela pensara que ele era con�ável, mas tinha se enganado. Não havia nada de
con�ável nele. Porém ele estava ao longo do caminho que levava à segurança. Se
ela pudesse roubar a lealdade dele para si…
Por um breve momento, uma sombra escura de tudo que isso implicaria
passou por ela.
Serena a esmagou. Não importava quanto ela quisesse isso. Não havia por
que olhar para baixo enquanto escalava. Ela havia repetido que não conseguiria,
mas, depois de meses não conseguindo, teria que provar que conseguiria, sim.
Ela tirou uma das mãos da bengala e a apoiou na bochecha do Sr. Marshall. A
mandíbula dele era áspera ao toque, com a barba por fazer.
Ele inspirou fundo.
– Não é uma boa ideia, Serena. Não sou um comerciante qualquer. Não
tenho intenção de me casar e, mesmo que tivesse, é meu trabalho impedi-la.
Mas ele não se afastou. Tampouco se aproximou. Apenas �cou esperando,
seus olhos escurecidos na noite.
Serena soltou a bengala, que se equilibrou por um momento antes de cair
com tudo no chão.
Então ele �nalmente se mexeu, devagar, se inclinando para fechar aqueles
centímetros que os separavam.
A princípio Serena sentiu apenas os lábios tocando os dela, quentes e
con�antes, uma pressão fugaz que se encerrou rapidamente. Depois ele apoiou a
mão no quadril dela, puxando-a para perto. Roçou a boca de Serena mais uma
vez, abrindo os lábios, mordiscando os dela uma, duas vezes. O corpo todo de
Serena se aqueceu.
Ela imitou o movimento, abrindo os lábios, e Hugo os tomou entre os dele,
mordiscando um pouco mais. Serena poderia ter se perdido nesse vaivém, no
calor do hálito dele, no gosto de sua boca na dela. Surpreendente,
avassaladoramente doce.
Ela pensara num beijo como a pressão passiva de duas bocas – não essa troca
de carícias. Ela estava ganhando vida ao lado dele – partes dela às quais nunca
dera muita atenção cantarolavam de desejo. Sua nuca se arrepiou quando ele a
puxou para perto. As solas de seus pés formigaram de antecipação quando ele a
beijou de novo.
Ele lambeu os lábios de Serena, e ela abriu a boca em choque. E, quando fez
isso, a língua dele entrou.
O ato deveria tê-la enojado, mas não foi o que aconteceu. Era incrível.
Maravilhoso. Ela se abriu para ele e, então, hesitante, estendeu a própria língua.
As mãos de Hugo deslizaram pelo seu corpo, da curva do traseiro até se
�rmarem na coluna. Uma das mãos lhe acariciou o braço, o cotovelo. E então os
dedos dele se fecharam em seu seio. De leve, devagar, e, depois, como ela não se
afastou – ela se prensou contra ele –, com mais �rmeza.
E, mesmo sabendo que ele tomava uma liberdade terrível ao tocá-la assim,
ela sentiu que aquilo era certo – um contraponto de calor ao movimento dos
lábios.
– Ah, Serena – murmurou ele. – Isto não é uma boa ideia.
Mas ele não parou. Sua mão deslizou lentamente pelo torso dela até a curva
da barriga. E ali seus dedos se detiveram.
Serena �cou paralisada. Cobriu rapidamente a mão dele com a sua e, então,
com a mesma urgência, a tirou. Os batimentos de seu coração se aceleraram.
– O que é isto? – perguntou ele.
Sua voz estava rouca, mas ele estreitou os olhos. O poste de luz estava às
costas dele, colorindo seus cabelos escuros em tons quentes.
E então ele franziu o cenho e estendeu a mão de novo – timidamente desta
vez, passando-a com um toque leve na barriga de Serena. Não era visível, não
com os espartilhos e as anáguas sendo como eram. Mas um homem que apertava
o próprio corpo ao de uma mulher, acariciando-a com a mão, talvez sentisse.
– Srta. Barton – disse ele devagar. – A senhorita se esqueceu de me contar
uma coisa. Duas coisas.
– Não.
Ela não conseguia olhá-lo nos olhos.
– Esse foi seu primeiro beijo, não foi?
Ela não conseguia se forçar a assentir. Em vez disso, olhou para longe.
– A senhorita disse que ele não a forçou.
A boca dela �cou seca.
Ele balançou a cabeça.
– Ignorando isso por enquanto… e como posso ignorar, não sei… Mas como
é que, em todas as nossas conversas, em todas as discussões que tivemos, a
senhorita não achou relevante mencionar nenhuma vez que está grávida?
H
Capítulo seis
ugo esperou que ela negasse a acusação.
Mas ela não negou. Em vez disso, se abaixou e pegou a bengala.
Hugo não sabia ao certo se ela apenas a estava segurando entre os dois para
indicar que a trégua chegara ao �m ou se tinha a intenção de bater nele e ir
embora.
Ela soltou a respiração devagar.
– Eu achava que o senhor sabia.
– Como eu saberia? Mágica?
– Eu contei a Clermont – retrucou ela. – Imaginei que tudo que ele sabe, o
senhor…
– O que a fez imaginar que ele seria franco comigo? Ele me disse que isso era
uma disputa empregatícia. Disse que havia contratado a senhorita para cuidar do
�lho dele que ainda não nasceu.
Ela ergueu o queixo.
– Bem – rosnou. – Trata-se de um emprego não remunerado, e ele não estava
se referindo ao herdeiro. Mas não deixa de ser verdade. – A mão dela tinha
voltado a cobrir a barriga. – Por que acha que estou aqui agora? Por que acha que
passei dias de pé na praça? Certamente não foi pelo meu próprio benefício. Não
vou falhar com meu �lho.
– Sim, e essa é a outra coisa que não me contou. Que tipo de promessas o
duque lhe fez para levá-la para a cama?
Ela estava olhando para o nada. Suas narinas se dilataram, e, em seguida, ela
se virou para ele.
– Ele prometeu não acordar o resto da casa.
Havia um vestígio de tremor na voz dela.
– Não.
Ela dera voz às suspeitas mais obscuras de Hugo e as deixara ainda mais
sombrias. E, ainda assim, brilhava na escuridão como um farol. Hugo já repelia a
ideia de machucar uma mulher, mas tudo dentro dele se rebelava contra a ideia
de fazer uma mãe sofrer. E, pela ferocidade nas palavras dela – pelo toque
revelador no próprio abdômen –, ela era uma mãe.
– Ele fez alguns comentários durante o dia – cedeu ela. – Tentei ignorá-lo,
apesar de ser difícil ignorar um duque que é hóspede da casa, mas ele me deixou
constrangida. E, à noite, foi até o meu quarto. – A nudez do relato dela era quase
pior do que as palavras que estava dizendo. – Eu lhe disse não, e ele insistiu.
Ameacei gritar, e ele disse que, se eu gritasse, todo mundo na casa acordaria e me
culparia de qualquer jeito. Havia pouco tempo que eu começara no emprego. Se
o perdesse sob tais circunstâncias, talvez não achasse outro.
Hugo engoliu a raiva.
– Por que me disse que ele não a forçou?
Ela balançou a cabeça, confusa.
– Ele não forçou. Eu não resisti.
Hugo a olhou. Ela parecia estar sendo sincera sobre isso, mas ele não tinha
tanta certeza. O que o duque tinha feito não era passível de punição pela lei,
mesmo que ela ousasse fazer uma acusação na Câmara dos Lordes. Se ela não
tivesse como provar que havia resistido, nunca o condenariam.
Porém, isso não signi�cava que ela não tinha sido forçada. De alguma forma,
o que havia acontecido parecia ainda pior do que a violência física. Como se
Clermont tivesse tomado não apenas o próprio prazer e o futuro dela, mas
também houvesse roubado dela o direito de acreditar que não tinha culpa.
– Eu não gritei – contou ela. – O senhordiz que me admira como uma
adversária digna, mas não entende. O único motivo para eu me recusar a desistir
agora é que me recuso a deixar que meu �lho se afogue no silêncio.
– A senhorita deveria ter me contado.
– O que mudaria?
Tudo. Havia um contraponto às palavras cruéis do pai dele. Não era alto nem
insistente, mas às vezes, quando Hugo fechava os olhos, conseguia se lembrar de
sua mãe cantando.
– Pelo menos eu não a teria deixado �car de pé o dia todo durante quatro
dias – retrucou ele. – Teria entendido que, quando a senhorita pediu
reconhecimento, não estava falando apenas de vingança. Diga, Srta. Barton, e
diga sem rodeios. O que a senhorita quer?
– Quero dinheiro su�ciente para garantir o futuro.
– A senhorita está atrás de apoio perpétuo?
– Não. Aquela fazenda sobre a qual lhe contei… Quero plantar lavanda, fazer
sabonetes e vendê-los na feira.
Ele inclinou a cabeça.
– Quero que meu �lho seja capaz de superar as circunstâncias do nascimento
dele. Se for menino e �lho de um duque, deve ter algumas vantagens. Quero que
estude em Eton. Se for menina, que tenha uma temporada social. Clermont é o
pai. Ele deve algum tipo de futuro à criança, e não vou embora até garantir isso.
Hugo soltou a respiração e tentou imaginar o duque assumindo a
responsabilidade. Tentou imaginar a duquesa aceitando a situação. Era inútil.
Isso nunca aconteceria.
Ele tentou se imaginar afugentando Serena – mas essa era uma perspectiva
ainda mais infrutífera. Estava preso entre uma improbabilidade e uma
impossibilidade.
Hugo franziu o cenho.
– Preciso veri�car algumas coisas – falou. – Mas vamos conversar amanhã, lá
pelas onze da manhã. E desta vez estou falando sério. Nada de ameaças, de
nenhum de nós. Isso é um problema.
Ele esticou a mão e a apoiou em cima da dela, que ainda segurava a bengala.
Ela ergueu os olhos para ele, arregalados e luminosos.
– E eu resolvo problemas – disse Hugo.
Freddy já estava na cama quando Serena chegou à noite, e ainda estava
dormindo quando ela acordou cedo na manhã seguinte.
Serena estava terminando de calçar os sapatos no hall de entrada quando
ouviu um som queixoso às suas costas.
– Serena? Já está saindo? Onde você estava até tarde ontem à noite?
O coração de Serena deu um salto.
– Eu estava fora – respondeu.
– Fora fazendo o quê?
– Fora… estando fora.
Então ela ouviu o som de pés batendo no chão, e Freddy apareceu no hall.
Seu semblante estava franzido em pequenas rugas de preocupação.
– Você chegou acompanhada – disse ela. – Eu vi vocês.
E Serena pensara que a irmã estivera adormecida. Freddy provavelmente
estivera angustiada demais para falar. Mas não havia motivo para negar a
acusação, então Serena apenas pegou a capa.
– Um homem. Por acaso os homens já não lhe causaram problemas demais?
– Não foi assim.
– Você não sabe como os homens são? Com eles, é sempre assim. Foi assim
que você se meteu em apuros? Saindo à noite com um homem? – Freddy fez uma
careta. – Você nunca aprendeu a lição.
– Que lição eu deveria ter aprendido?
Freddy esticou a coluna e colocou as mãos nos quadris.
– Eu praticamente não disse nada quando você exibiu seus problemas diante
de toda Mayfair. E agora estou sendo forçada a sair da casa que me é muito cara.
Vou �car sem abrigo, e enquanto isso você passa horas fora de casa, de
madrugada, se divertindo com homens.
– Eu não estava me divertindo. Era o Lobo de Clermont, se quer saber. Eu
preciso falar com ele. E, mesmo que não fosse, o que você espera que eu faça?
Quer que eu passe o resto da vida escondida porque uma coisa ruim aconteceu
comigo?
Freddy apertou os lábios.
– Se está preocupada com um lugar para �car, já estou procurando
acomodações. Vou assegurar um lugar novo para nós até a noite. Eu estava
justamente saindo para…
Enquanto Serena falava, Freddy se abaixou e pegou um par de pantufas.
– Para nós? – vociferou ela. – Nós não vamos ter nada.
E jogou as pantufas em Serena.
Os calçados eram feitos de lã e, portanto, bateram na testa de Serena sem
efeito. Ainda assim, ela �cou horrorizada. Freddy, educada como era, jogando
coisas nela?
– Como ousa? – exclamou Freddy. – Como ousa me envolver nessa história?
– Freddy… é só um lugar para �car. Vamos achar outro tão bom quanto este.
– Você não entende! – Freddy olhou ao redor. – Nunca entendeu. Sempre
tive apenas um único lugar seguro, estes cômodos aqui, e agora você os tirou de
mim.
Freddy se abaixou de novo e pegou a maleta gasta que �cava ao lado da
mesinha.
– Ouça o que está dizendo – falou Serena. – Você quer que eu me esconda,
assim como você… Só porque sofreu uma vez, nunca vai arriscar. Não vai �car
satisfeita até me arrastar com você, até eu estar no seu nível.
Os olhos de Freddy faiscaram. Ela apertou os lábios e, naquele momento,
Serena teve a sensação terrível e horrorosa de ter falado demais. Freddy jogou a
maleta nela. Ela voou apenas alguns metros, carecendo das habilidades básicas
para sustentar um voo longo, e pousou numa pilha desarmoniosa de couro e
�velas.
– Não entende o que aconteceu com você? – Freddy a fuzilou com os olhos. –
Você sofreu um destino pior que a morte, e ainda assim…
– Estou viva – interrompeu Serena. – Meu bebê está vivo. Tenho a intenção
de continuar a viver. Você pode dizer o mesmo?
Com isso, Freddy deu com a mão na mesinha de canto, que caiu no chão com
um barulho retumbante.
Serena deu um passo para a frente e se inclinou de um jeito desconfortável
para ajustar o móvel. A irmã soltou uma fungada.
– Ah, nem se dê o trabalho – falou ela, de mau humor. – Deixe que eu
arrumo. Eu sempre arrumo as suas bagunças. E você não arrumaria direito de
qualquer jeito. Vá �ertar com uma multidão de homens. Não me importo.
P
Capítulo sete
recisamente às onze da manhã, um sujeito que Serena nunca
tinha visto se encontrou com ela no banco de sempre. Era bem o
tipo que ela havia imaginado ser o Lobo de Clermont um mês antes – alto e
musculoso, com os olhos bem próximos e o pescoço sumindo entre ombros
largos.
– Srta. Barton? – chamou ele.
Ela se levantou, dobrando a lista de anúncios de alojamentos que
estivera analisando.
– Vou acompanhar a senhorita até os fundos.
Ela o seguiu. Era tolice �car nervosa. Ela já tinha falado com o Sr.
Marshall. Mas não desde que ele a beijara. Não desde que ele descobrira que
ela estava grávida do �lho de outro homem e recuara.
O sujeito a guiou pela rua até o estábulo nos fundos. Dali, entraram pela
porta dos criados de uma das casas de pedra branca. A porta dava num
porão. Passaram por ali sem demora, subiram vários lances de uma escada
estreita e, depois, entraram num corredor ricamente acarpetado com
pinturas nas paredes.
Tudo ao redor ecoava riqueza e gerações de poder – tudo que havia sido
alinhado contra ela. Era isso que ela estivera combatendo. Não apenas o
duque de Clermont, nem o Sr. Marshall, mas a opinião de todo um país.
Serena não era nada comparada a esse tipo de poder – nada além de um
simples grão num saco cheio de trigo. Ninguém se importava se os grãos
queriam ser triturados para virar farinha. Quer falasse, quer �casse calada,
era irrelevante; de qualquer jeito, não teria voz.
Bem, era relevante para ela.
O criado parou diante de uma porta, e Serena inspirou fundo.
Seu acompanhante bateu à porta uma vez.
– Pode entrar – disse uma voz.
O homem abriu a porta e a segurou para Serena, com expectativa. Ela
percebeu que ele não a acompanharia mais.
Ela entrou no cômodo. Passos largos. Cabeça erguida. Respire, lembrou
a si mesma. Estava num escritório – pelo menos imaginou que fosse um
escritório. Poderia ser uma biblioteca, considerando os livros nas estantes.
Mas havia papéis por toda parte – não apenas espalhados em pilhas soltas,
mas também organizados em prateleirinhas estratégicas e amarrados com
�tas de algodão de cores diferentes, todas elas parecendo ter algum
signi�cado. Azul ali, amarelo lá, vermelho largado por cima da mesa.
Ela não conseguia ver Hugo – as costas altas da cadeira de couro
estavam viradas para escondê-lo.
– Bem, Sr. Marshall – começou Serena,entrando no escritório com mais
coragem do que sentia –, então é aqui que o senhor esmaga esperanças e
destrói sonhos.
– Que engraçado.
Ele se levantou. A despeito das palavras, não havia indicação de que ele
tivesse achado algo espirituoso. Sua boca estava apertada numa linha �rme e
sóbria. Após ganhar a atenção de Serena, ele indicou a cadeira de madeira
solitária que �cava diante da mesa, à frente dele.
– Sente-se – ordenou.
Serena alisou a saia com as palmas das mãos e obedeceu.
O Sr. Marshall afundou na cadeira. Mas não começou a falar. Apenas
juntou as pontas dos dedos e olhou para Serena em silêncio. Ela tentou
imaginar o que ele estava vendo. A mulher que tinha beijado na noite
anterior? Uma dama de vida fácil? Ou outra pessoa completamente
diferente?
Ele franziu o cenho e, depois, se recostou na cadeira.
– Bem – falou. – Parece que nos encontramos em certa di�culdade.
– O senhor não parece estar pessoalmente numa situação ruim.
– Eu nem… – Ele se deteve e soltou o ar com frustração. – Deixe para lá.
Eis o que nós vamos oferecer para à senhorita.
– A quem o senhor se refere com “nós”?
O Sr. Marshall ignorou a pergunta.
– Não podemos dar o que a senhorita pediu… nada de Eton, nada de
temporada social. Para oferecer coisas de tal magnitude, o duque teria que se
esforçar pela criança. A esposa dele descobriria, e ele tem muito a perder.
– Então continuarei sentada diante da casa dele. O que o senhor acha
que vão falar quando minha barriga crescer?
Ela começou a se levantar.
Ele bateu a mão na mesa com um barulho retumbante.
– Espere.
– Não grite assim comigo – vociferou Serena. – Justamente o senhor.
Ele a encarou por um momento e, depois, soltou a respiração.
– Perdão – falou rigidamente. – Estou um pouco nervoso no momento.
Creio que ambos estamos. – Um músculo tremeu na bochecha dele. –
Estamos preparados para dar-lhe aquelas 50 libras, e mais 50 além disso. O
su�ciente para viver, se a senhorita administrar o dinheiro com prudência.
O su�ciente para pagar uma educação decente ou uma escola de boas
maneiras. Não é o que a senhorita queria, mas é o melhor que consigo fazer.
Serena seria tola se recusasse. Qualquer pessoa concordaria.
Mas, se aceitasse, sem dúvida estaria associando seu nome a mais
silêncio – inúmeros olhares arrogantes, uma vida inteira de cabeças
balançando com desdém. E seu bebê… ainda seria um �lho ilegítimo, sem
nome e sem proteção.
– E quanto à minha irmã? – perguntou ela.
O Sr. Marshall abanou a mão.
– Ela pode �car onde está ou ir morar com a senhorita, como preferir.
Isso já foi comunicado ao senhorio dela. A Srta. Frederica Barton também já
foi informada de que não precisa se mudar.
Serena deveria aceitar o que ele oferecia. Ainda assim, olhou-o e se
manteve �rme, sustentando o olhar.
– É só isso o que o senhor tem a oferecer? Não é o bastante.
Hugo a estivera observando o tempo todo. Mas, naquele momento, pela
primeira vez, ele desviou o olhar.
– Por acaso, há mais uma coisa. – Ele manuseou o puxador de uma
gaveta da mesa, inquieto. – O que a senhorita quer para seu �lho é aceitação.
Isso será inalcançável se ele for ilegítimo. Eton teria sido uma promessa fútil
de qualquer jeito, já que os regulamentos deixam bem claro que qualquer
garoto que estude lá deve ser legítimo. A senhorita tem planos de se casar no
momento?
– O senhor sabe que não.
Ele ainda não estava olhando para ela e se dirigia à mesa.
– Considere mudar isso.
Serena se sentiu corar.
– Sr. Marshall, relembre as minhas circunstâncias. Não tenho fortuna
nem nome de família para me proteger. Estou grávida do �lho de outro. O
casamento simplesmente não é uma opção.
A expressão dele não mudou.
– Ao contrário, Srta. Barton. A senhorita tem um pedido de casamento
pendente… um pedido ao qual ainda não respondeu.
– Do que está falando? Acho que eu saberia melhor do que o senhor se
alguém tivesse me pedido em casamento.
– Pense melhor, Srta. Barton. Sei bem quais são as circunstâncias do
pedido. É o esperado. A�nal, fui eu que o �z.
O coração de Serena �cou paralisado. Aquela mensagem, aquela
mensagem confusa e angustiante que ele havia lhe mandado…
– O senhor não estava falando a sério – protestou ela. – Não quer se
casar.
– Não imagine que seria o tipo habitual de casamento. – Ele pareceu se
retrair cada vez mais. – Nem precisaria ser consumado. Qualquer mulher de
quem eu gostasse o su�ciente para me casar não mereceria ser onerada
comigo. Se nos casarmos, será um evento discreto, com licença especial,
numa sala pequena. No �m, cada um seguirá o próprio caminho: a
senhorita para sua fazenda, e eu… – Ele olhou para as pilhas de papel
espalhadas no pequeno escritório. – Não estou me oferecendo para
construir uma vida com a senhorita. Estou só lhe dando a chance de
legitimar seu �lho. Nada além disso.
Ele a observou com um olhar resguardado e cauteloso. E, lá no fundo…
Serena não tinha ideia do que dizer.
Ela soltou a respiração devagar.
– Ah, o senhor é mesmo romântico.
Os lábios dele se comprimiram.
– Vá se acostumando. Isso é uma negociação, não um romance.
Ele baixou os olhos, evitando os dela, e remexeu nos documentos na
mesa à sua frente.
– A senhorita gostaria de alugar uma fazenda dentro das suas condições,
não é? Quer que eu pesquise propriedades para a senhorita ou prefere
procurar por contra própria?
– Eu detestaria lhe dar trabalho.
– Não é trabalho algum. – Ele ergueu os olhos para ela com cautela. –
Acontece que já comecei a procurar. Há algumas opções detalhadas aqui.
Ele resgatou um maço de papéis que estava quase caindo da beira da
mesa e o passou para Serena.
Não, não era frieza que ela detectava no comportamento dele. Ele estava
nervoso. E se estava nervoso…
Serena nunca fora capaz de reprimir a esperança por muito tempo. O
sentimento tomou conta dela.
Não havia destinos piores que a morte. Apenas reveses temporários no
caminho para a vitória. E, apesar do modo frio como Hugo expressara a
perspectiva do casamento, uma coisa estava bem clara: Serena ganhara.
Ele era dela. Não de Clermont nem de mais ninguém. Não importava o
que ele dissesse; um homem não se vinculava a uma mulher pelo resto da
vida sem conceder a ela sua lealdade. Serena se levantou, ignorando os
documentos que ele havia empurrado em sua direção.
– O segredo para escolher uma boa propriedade – disse ele, se esticando
por cima da mesa para folhear os papéis – é pensar em onde encontrará
água e onde haverá sol, e observar campos de plantios anteriores. Eles vão
lhe dizer muito sobre a qualidade do solo.
Serena rodeou a mesa e colocou as mãos nos ombros dele.
Ele parou. Engoliu em seco.
– Lavanda… era isso que a senhorita queria, não era? Ela cresce melhor
em solos secos e arenosos, nem alcalinos nem ácidos. Pode começar dando
uma olhada nas propriedades em Cambridgeshire… é uma das regiões mais
secas da Inglaterra, sabia? Procure um solo que produza cenouras
regularmente, e…
Ele deixou a voz morrer quando ela se inclinou na direção dele.
– Você estaria desistindo de qualquer chance de se casar, Hugo. Se um
dia conhecesse alguém e se apaixonasse…
– Nunca vai acontecer. Eu nunca quis.
Ele soltou um sopro trêmulo, e Serena percebeu que ele estivera
prendendo a respiração.
– Não tenho tempo para mulheres. – Ele levou a mão ao rosto de Serena
e deslizou as pontas dos dedos pelo contorno da mandíbula dela, roçando-
os na pele, até o dedo indicador chegar ao queixo. – Nem mesmo para você
– acrescentou num sussurro.
Serena ergueu os olhos para encontrar os dele.
– Está me dizendo que não posso...?
Hugo fez um barulho confuso e escaldado, e, em seguida, seus braços
rodearam Serena, puxando-a para perto, fazendo-a sentar-se em seu colo.
Os lábios dele eram macios quando encontraram os dela – macios e doces,
mas perdidamente famintos.
Ele declarara que não havia romance algum nessa situação, mas não era
o que o beijo indicava. Não era apenas o desejo tão �rmemente controlado
de Hugo. Um homem motivado apenas pela luxúria teria tentado seduzi-la
primeiro, sem nunca se casar. Em vezdisso, ele a beijou como se fosse a
última vez. Como se Serena fosse um copo de água, e ele, alguém prestes a
embarcar numa jornada através do deserto. Ele a saboreou.
Por um momento, ela acreditou que, não importava o que ele dissesse, o
casamento poderia se tornar verdadeiro. Ele mudaria de ideia. Ela conseguia
sentir isso no beijo.
Mas, em seguida, ele se afastou.
– Como pode ver – falou, rouco –, isso não passa de egoísmo da minha
parte. Não há espaço para você na minha vida. Mas, desta forma, pelo
menos saberei que você está a salvo.
Ele estava se enganando se pensava que Serena se contentaria com um
casamento pela metade. Ela havia jurado tirá-lo de Clermont. Recusava-se a
desistir antes de alcançar a vitória completa. Ela já o havia feito avançar até
ali. Ele mudaria de ideia.
– Entendo – disse Serena suavemente, colocando a palma da mão na
bochecha dele. – Nada de romance.
– Nada – concordou ele.
E, desta vez, ele não tirou os olhos dela.
N
Capítulo oito
aquela manhã, Serena havia deixado a irmã sem resolver nada
entre elas. Não soubera o que aconteceria com ela mesma, quais eram
as intenções de Hugo Marshall e se Freddy sequer voltaria a falar com ela.
Portanto, quando abriu a porta do apartamento da irmã, prendeu a respiração.
Tudo parecia estar de volta à ordem rigorosa de sempre. As luvas de Freddy
estavam postas ordenadamente uma em cima da outra na mesinha da entrada; as
botas de cano baixo, secas e sem uso, no lugar de sempre. Quando Serena espiou
pelo batente da porta, não havia sinal das pantufas que Freddy havia jogado nela,
nem da maleta que havia caído aos seus pés. Tudo havia sido posto no devido
lugar.
Serena entrou cautelosamente na sala de estar.
Freddy estava sentada à janela, suas mãos cheias de um tecido de linho que
parecia ser de uma qualidade bem melhor do que o trabalho de caridade que ela
normalmente fazia. O tecido era de um tom laranja-dourado, bordado com uma
estampa sutil de arabescos.
– Frederica? – chamou Serena.
– Tem pão na cesta, e leite fresco – disse Freddy. – Maçãs também. Pedi a
Jimmy que trouxesse algumas do verdureiro. Pensei em comermos no jantar.
Jimmy era o menino que morava no andar de baixo. Freddy o pagava para
comprar coisas para ela. Mas mesmo Jimmy, com seus 13 anos, às vezes era de
mais para Freddy. Se ela estivera disposta a conversar com ele…
Serena quase tivera esperança de que Freddy ainda estivesse brava. Em vez
disso, a irmã voltara a se esconder por trás de sua fachada. Já havia se retraído
dentro da concha grossa construída por aqueles aposentos. Nada que Serena
�zesse – fosse raiva, fossem lágrimas – a convenceria a sair.
– Freddy – Serena tentou dizer –, eu sinto muito.
Freddy ergueu os olhos do trabalho por tempo su�ciente para franzir o
cenho.
– Deveria sentir mesmo. Já lhe disse mil vezes que não me chame de Freddy.
– Ela olhou para baixo abruptamente e alisou o tecido em que estava
trabalhando. – Não quero responder a um apelido como esse. Não é digno de
uma dama.
– Você tinha razão. Eu a pus em perigo e…
– Você sempre põe as coisas em perigo. Quando você era criança e caía de
uma árvore, era eu que a limpava e enfaixava seus machucados, e quando eu
olhava você estava subindo outra vez. Nunca aprendia a lição.
Ah, ela havia aprendido a lição: suba com mais empenho.
Mas, de alguma forma, Serena achava que essa não era a lição que Freddy
esperara que ela aprendesse.
– É sempre a mesma coisa – continuou Freddy. – Você cai, eu pego. E, antes
mesmo de sarar completamente, você sai procurando outra forma de cair.
Freddy estalou a língua em desaprovação, e Serena a encarou.
Ali estivera ela, pensando que Freddy estava ferida além do ponto de
recuperação, se escondendo do mundo. Enquanto isso, Freddy pensava que
Serena estava desprotegida. Era essa a impressão que ela passava à irmã? De uma
criatura estranha e impetuosa, que se jogava de desastre em desastre, apenas
porque se recusava a desistir? A visão que isso trouxe a Serena era tão insólita
que ela �cou sem resposta.
Como as duas podiam ser irmãs? Parecia impossível que vissem o mundo
com olhos tão fundamentalmente diferentes.
E, ainda assim, ali estava Freddy, que não saíra daqueles cômodos desde que
se encontrara com Serena na estalagem onde a diligência a havia deixado,
balançando a cabeça como se fosse Serena que estivesse à beira de ser internada
num hospício.
Não havia como dar voz a esses pensamentos.
Não, Freddy. Parece que você está enganada. Eu não estou louca, você é que
está.
Em vez disso, Serena perguntou:
– Em que está trabalhando? O tecido é lindo.
– É um dos vestidos antigos da mamãe – disse Freddy calmamente. – Estou
reformando. Pensei que serviria de vestido de casamento para você.
Serena se engasgou.
– Como é que você soube?
– Sou sua irmã, Serena. –  Ao falar, Freddy abriu um sorriso tão irritante
quanto misterioso. – Eu sei de tudo.
– Não sabe, não.
– O seu Sr. Marshall me fez uma visita hoje de manhã, logo depois que você
saiu. Ele me disse que faria o pedido. – Freddy fez uma careta. – Suponho que
você vá aceitar. É o tipo de tolice que você faria, con�ar todo o seu destino e seu
futuro às mãos de um homem que mal conhece, quando poderia �car aqui em
perfeita segurança.
Segurança? Imobilidade parecia uma palavra melhor.
– De qualquer jeito – continuou Freddy –, quando tudo der errado, estarei
aqui para pegar você e catar os pedaços. De novo.
Freddy nunca racharia. Não era possível; a�nal, ela nunca ascenderia alto o
su�ciente para isso. Um dia, porém, chegaria ao �m debilitante de seus recursos.
Sufocaria dentro daquele quartinho minúsculo.
– E se não der errado? – perguntou Serena.
Freddy a encarou, estreitando os olhos cinzentos.
– Como é que você ainda me pergunta isso quando… – Ela exalou
intensamente e revirou os olhos. – Deixe para lá. Agora, que tal provar este
vestido, para vermos onde precisa de ajustes?
Não havia como ganhar essa luta.
– Obrigada – disse Serena por �m. – Me ajude com os botões, por favor.
A semana antes do casamento passou voando num frenesi de licenças e
locações. Hugo achou melhor se ocupar com os detalhes em vez de �car
ponderando o mistério impenetrável de suas núpcias iminentes.
Sempre que o pensamento lhe cruzava a mente – você vai se casar –, ele o
empurrava para longe.
Casamento era algo complexo. Isso era apenas um compromisso comercial.
Com uma mulher.
Apenas um acordo comercial, como outro qualquer – só que esse lhe dava o
direito de levá-la para a cama.
Era por isso que ele não se atrevia a pensar no que estava fazendo – porque,
quando começava a imaginar Serena Barton como sua futura esposa, em vez de
sócia num acordo, sua mente vagava para muito mais longe.
Não era apenas a ideia de dormir com ela – repetidamente – que mais o
atraía.
Era a ideia de que, pela primeira vez em anos, ele teria alguém. O casamento
se tornava companheirismo. E o companheirismo lhe dava um motivo para
desistir de sua luta, para passar as noites com ela em vez de �car analisando
registros de navegação, procurando um padrão que pudesse gerar lucro.
Não. Ele não se permitiria insistir nisso.
Mas não pensar em seus desejos incipientes o deixou despreparado quando
chegou à igreja onde se casariam. Sentiu-se desequilibrado durante toda a
cerimônia – como se estivesse prestes a cambalear e não tivesse onde se segurar.
Não conseguia se forçar a olhar diretamente para Serena. O vestido dela era
da cor da luz do sol pouco antes do crepúsculo; se ele olhasse por muito tempo,
temia �car cego depois que ela fosse embora. O vigário estava entre os dois,
recitando palavras que Hugo não conseguia compreender – riqueza e pobreza,
�delidade, esposa. Ele repetiu os votos como num sonho, mal ouvindo Serena
responder.
Mas, quando tomou a mão dela para colocar a aliança, Serena era sólida e
quente – a única coisa verdadeira naquele lugar. Hugo não queria soltá-la. O
vigário lhe deu permissão e Hugo a beijou – sem força por luxúria, nem demora
por amor, apenas um roçar leve dos lábios em nome do breveperíodo em que ela
permaneceria em sua vida.
Depois, na carruagem alugada, enquanto Hugo levava Serena e a irmã de
volta para casa, ele não conseguia deixar de pensar no que não teria. A
carruagem parou, e a Srta. Frederica desembarcou.
Serena não se mexeu.
– O contrato de aluguel está em ordem – disse Hugo –, e já comprei sua
passagem. Contratei uma mulher para acompanhá-la durante o ano que vem.
Não discuta. Você não deveria �car sozinha, dadas as circunstâncias.
Ela não olhava para ele.
– Obrigada – falou.
Sua mão apertou o tecido da saia convulsivamente.
– Se precisar de mim para alguma coisa, é só pedir.
Uma oferta tola, mas ele já estava acostumado a virar um tolo perto dela.
– Eu… isto é…
A voz dela vacilou e, lá no fundo, uma parte de Hugo estremeceu.
– O quê?
Sua voz saiu fria, mas ele não se importou.
Serena se virou para ele.
– Acho que, no �m das contas, deveríamos consumar o casamento.
Sim, rosnou uma fera possessiva dentro dele. Mas o que saiu foi a réplica
aceitável:
– Por quê? É algum tipo de agradecimento equivocado? Não quero…
Os lábios dela se comprimiram.
– Porque talvez você possa �ngir que isso é apenas uma transação comercial,
mas eu não posso. A consumação vai dar a nós dois certa proteção, no caso de o
casamento ser questionado. Mais do que isso. Estamos casados… e talvez não
seja um acordo convencional, mas ainda assim é real.
– Não é – insistiu Hugo.
– É, sim. O que é um marido senão o homem que oferece apoio quando o
mundo lhe dá as costas?
Era assim que Serena o via? Hugo não podia olhá-la naquele momento, ou
ela veria quanto essas palavras o haviam afetado.
– O que é uma esposa – continuou ela – senão alguém que vai acompanhá-lo
em busca dos seus desejos mais profundos? Prometemos esses desejos um ao
outro.
– Prometemos?
– Você será minha proteção contra o mundo. E eu… – Ela apoiou a mão no
braço de Hugo, e um formigamento correu até o pescoço dele. – Do ponto de
vista legal, você está vinculado às minhas ações. Outra mulher talvez fosse tirar
proveito disso. Você con�ou que eu não atrapalharia sua ambição. Me deixe
con�ar em você da mesma forma.
Sim.
Ele não conseguia forçar os lábios a formar a palavra. Nem conseguia erguer
as mãos para tocar Serena. Em vez disso, se segurou na beirada do assento.
– Não deposite sua esperança em mim, meu bem. Não compensa.
– Mentiroso.
A voz de Serena estava trêmula, mas suas mãos no ombro de Hugo eram
�rmes. E então, devagar, muitíssimo devagar, ela se encostou nele, trazendo o
cheiro de tangerina e sabonete, luz do sol e açúcar. Ele estava muito, muito
perdido.
Hugo tocou os lábios de Serena com os seus, apoiou as mãos na cintura dela
e a puxou. Ele a abraçou junto de si – tão próximo quanto quisera nos últimos
dias.
Ela se aninhou no corpo de Hugo, seus lábios macios nos dele. Ele não queria
soltá-la. Poderia beijá-la para sempre.
Então a porta da carruagem se abriu.
– Senhor? – Era o cocheiro. – Ah… hum… ah. Eu não… isto não é… –
gaguejou o homem.
– Fique calmo – disse Hugo. – Acabamos de nos casar. – Ele não �tou Serena
nos olhos. – Leve-nos para Norwich Court.
As mãos dela �caram paralisadas numa pergunta silenciosa.
Mas Hugo não conseguiu se forçar a responder. Não quando não tinha nada
a oferecer.
A carruagem parou do lado de fora de uma casa geminada desolada e
estreita.
Serena esperara algo mais suntuoso do sujeito responsável pela fortuna de
Clermont. Mas Hugo não se desculpou pela escadaria escura e apertada pela qual
guiou Serena, nem pelo estado desordenado dos cômodos do outro lado da porta
que abriu. Havia duas passagens baixas saindo da sala principal – tão baixas que
Hugo precisava se abaixar para atravessá-las.
Ele não era organizado. Na verdade, depois de morar com Freddy, Serena
supunha que ninguém jamais voltaria a parecer organizado para ela. Um casaco
estava pendurado numa cadeira; um par de meias estava largado no meio do
chão.
Ela espiou dentro de um dos cômodos adjacentes e encontrou barris
abandonados e um baú. No outro havia uma cama – um amontoado
desorganizado de roupas de cama e lençóis bagunçados.
Nenhum deles disse uma palavra.
Serena não sabia ao certo o que esperara. Que ela se ofereceria para ele e o
tomaria do duque? Que ele se tornaria seu marido verdadeiramente, se unindo a
ela como as palavras da cerimônia de casamento sugeriam que �zesse?
Mas não houve união alguma. Os dois pareciam estar desconfortavelmente,
dolorosamente separados.
Antes que Serena pudesse perder a coragem, entrou no quarto de Hugo. Seu
coração palpitava, mas ela desabotoou a peliça que cobria seu vestido e a colocou
em cima de uma cadeira, depois tirou as luvas. Suas mãos estavam tremendo
quando ela abriu o cinto do vestido, mas ainda assim começou a soltar o corpete.
Era tolice que suas mãos estivessem tremendo – tolice, porque ela não sentia
trepidação alguma.
Não podia sentir trepidação. Não ia se permitir. Contanto que não olhasse
para baixo…
Mas tirou os olhos dos botões para ver Hugo de pé à porta, observando-a. Ao
escalar árvores quando criança, Serena tinha descoberto que, em determinado
momento, chegava-se ao limite dos troncos, as folhas davam lugar ao sol, e a
brisa fresca e desimpedida soprava em seu rosto.
Por alguns segundos, quando ela chegava ao topo, acreditava que aquela era a
melhor sensação do mundo. Mas, nesse momento, ela olhava para o chão,
distante de seus pés. E, quando fazia isso, o que lhe vinha à mente não era a
emoção da vitória, mas a pergunta: e agora, como é que eu vou descer?
Ela estivera fugindo de seus medos por tempo demais, empurrando-os para
longe, �ngindo que o chão não existia abaixo de seus pés. Mas naquele momento
havia garantido sua fazenda e salvo seu �lho da ilegitimidade. Havia posto tudo
de lado para depois. E, sem mais nada para buscar, o depois tinha chegado.
Hugo não se moveu na direção de Serena, mas isso não era necessário. Os
recantos obscuros da imaginação dela tomaram conta de qualquer jeito. Ele se
deitaria sobre ela. Seu peso a prenderia contra o colchão. Ela conseguia sentir a
própria respiração alta demais. Sua visão escureceu nos cantos.
Serena não soube de onde a primeira lágrima veio, nem a segunda. Não era o
tipo de mulher que fazia algo tão inútil quanto chorar.
Porém, quando percebeu, estava chorando no tecido laranja de seu vestido de
casamento. E não eram lágrimas recatadas e delicadas; eram grandes soluços,
saindo em arfadas que ela não conseguia controlar.
Não sabia ao certo quando Hugo havia se sentado ao seu lado na cama,
quando ele a tomara nos braços, quando começara a secar suas lágrimas.
Ele não lhe ofereceu banalidades inúteis, prometendo que tudo �caria bem.
Não murmurou palavras doces. Apenas a abraçou. Foi como se o calor dele a
envolvesse por horas. Quando a tempestade começou a passar, restando apenas
soluços, ele lhe entregou um lenço limpo.
– Lembranças desconfortáveis? – perguntou por �m.
Sim. Emoções impossíveis também. Vergonha. Medo. Raiva. Todas as coisas
que ela havia posto de lado, como um monte de contas a pagar, voltaram para
socar a porta, insistindo em cobrar imediatamente todo o valor devido.
Serena assoou o nariz.
– Não é nada. Não se preocupe comigo. Só… você pode dar andamento?
– Não, querida. Tenho que estar excitado para dar andamento a qualquer
coisa, e não vejo nada excitante em fazer algo com uma mulher que preferiria
estar em qualquer outro lugar.
Ele tocou o nariz dela. Serena tinha certeza de que estava vermelho, mas ele
não comentou nada sobre a aparência dela.
– Mesmo que essa mulher seja você – acrescentou ele.
– Agora estou bem.
Hugo balançou a cabeça.
– Acho que não devemos fazer isso.
Ele começou a se levantar, mas Serena o deteve.
– Você não entende. Só tenho uma lembrança de Clermont. Preciso… – Ela
engoliu em seco. – Quando acordo à noite, lembrando o peso dele em cima de
mim, quero outra lembrança, para que eu possa banir esse pensamento. Preciso
que você o espante.
Ela reuniu toda a coragem que tinha e se levantou. O corpete do vestido já
estava aberto,bastou tirar as mangas dos ombros e deixar o tecido cair. Com isso,
ela �cou somente de espartilho e chemise.
Havia esperado que se despir desse conta do recado. Mas Hugo não foi
tomado pela luxúria ao vê-la daquele jeito. Apenas caminhou até ela.
Ele estava quente, e dividiu os cabelos dela por um momento, em seguida
tirou um grampo.
– Não vamos fazer desse jeito, Serena – disse ele.
Ela engoliu em seco.
– De que jeito? – perguntou com a voz trêmula.
Ele retirou outro grampo.
– Qualquer jeito que você esteja pensando agora. Suas mãos estão tremendo.
– Quê… como… eu não…
Ela se engasgou na incerteza, nos medos obscuros que cresciam dentro de si.
Mas ele continuou a remover os grampos, um a um, mal a tocando enquanto
o fazia. O penteado dela pendeu alarmantemente e, em seguida, quando Hugo
libertou uma pecinha especí�ca e crucial de ferro, os cabelos dela cascatearam
até os ombros.
– O que você pretende fazer? – perguntou Serena.
– Não vou consumar este casamento.
Ele achou um último grampo, preso nos cachos de Serena, e o colocou junto
aos outros, organizando-os na palma da mão, uma �leira arrumada de metal
cinza.
– Você não vai consumar o casamento – ecoou ela.
– Não. – Hugo estendeu a mão e, quando Serena esticou o braço para pegá-
la, ele colocou os grampos na mão dela. – Você vai.
O calor do corpo dele havia aquecido os grampos. Serena �cou olhando para
eles, confusa, e Hugo fechou os dedos dela ao redor deles.
– É assim que vai funcionar: você pode trocar um grampo por um favor. Se
quiser que eu abra seu espartilho, pode me dar um grampo. Se quiser que eu lhe
dê um beijo, vai lhe custar outro grampo. Mas, até que você peça, não posso
tocá-la.
Serena engoliu em seco.
– Quando você me der um grampo – disse ele, dessa vez abrindo aquele
sorriso largo e lento de que ela se lembrava tão bem –, eu também poderei trocá-
lo.
– Por um favor? – A voz de Serena ainda tremia. – Você pode trocar um
grampo pelo direito de…
– Ah, sim. Você pode me fazer tocá-la. Mas eu só posso fazê-la tocar a si
mesma.
– Isso não me parece muito justo.
Um canto do sorriso dele se curvou.
– Não sou conhecido por ser justo.
Con�ável. Con�ável. Aquele impulso estava voltando – desacelerando as
batidas do coração dela, afugentando seus medos mais sombrios dos cantos
estranhos de seu corpo. Hugo não se mexeu. As imagens sombrias que haviam
começado a infestá-la aos poucos se dissiparam. E no lugar delas restou…
confusão.
Ainda assim, ela sabia por onde começar.
– Tire o casaco.
Sua voz tremeu ao falar.
Hugo estendeu a mão.
– Um grampo, por favor.
Ela entregou. Seus dedos roçaram a palma da mão dele.
Ele abriu os botões da frente e depois mexeu os ombros para tirar o tecido
marrom-escuro num único movimento suave. A camisa por baixo era branca e
envolveu seus músculos enquanto ele se movia para deixar o casaco de lado. Ele
o deixou cair no chão numa pilha bagunçada e, em seguida, se virou para Serena.
De alguma forma, ter tirado essa camada externa fez com que ele parecesse
maior do que antes – talvez porque toda aquela amplitude impressionante de
ombros estivesse muito mais perto de Serena.
Os batimentos dela se aceleraram, mas, ainda assim, Hugo não se mexeu.
– Você não vai pedir nada com o seu grampo? – ela conseguiu perguntar por
�m.
– Não – respondeu ele, com uma naturalidade in�nita. – Quero acumular
alguns primeiro.
Ele não deu detalhes, e a respiração de Serena falhou. Dessa vez, porém, não
foi por trepidação. Não. Dessa vez, ela sentiu os primeiros tentáculos da
curiosidade se enrolando nela.
Ela apontou para ele com um grampo.
– Seu colete, então, por favor.
Ele obedeceu. Ela não conseguia ver através do tecido da camisa, mas podia
enxergar a forma dos músculos de Hugo enquanto ele se movia – curvas fortes e
de�nidas.
Ela estava �cando mais ousada e lhe entregou outro grampo quando ele
terminou.
– Sua camisa.
Ele a tirou silenciosamente. Ao puxar o tecido por cima da cabeça, os
músculos de seu peito se �exionaram, e Serena olhou para eles. Sabia que Hugo
tinha sido pugilista, mas nada se comparava a ver a verdade da antiga pro�ssão
dele exposta na pele. Os ombros que ela via tinham se tensionado quando ele
atingira outro homem. Ele tinha levado golpes nos sulcos da barriga. Uma
cicatriz tênue e rosada viajava numa linha curva desde o umbigo até metade do
peito, enquanto uma linha vermelha mais irregular marcava as costelas. Havia
toda uma história escrita na pele de Hugo, e Serena queria conhecê-la por
completo.
Ele não disse nada enquanto ela o observava, mas estava ciente da atenção.
– Você está �exionando os músculos para mim? – perguntou Serena.
– Isso – respondeu ele tranquilamente – seria vaidade.
Ela se sentiu sorrir em resposta, o primeiro sorriso desde que tinha entrado
no quarto.
– Então está, sim.
Ele abriu um sorriso sombrio e malicioso para ela.
– Eu deveria saber que não conseguiria desconcertar a governanta.
Serena se aproximou com um passo, e o sorriso de Hugo congelou. Ela
esticou a mão e tocou seu abdômen com a ponta de um grampo. Hugo parou de
respirar. Ela arrastou o grampo até as costelas e teve o prazer de vê-lo coberto de
arrepios.
– Quero seus sapatos.
A boca de Serena estava seca. Ela mal conseguia engolir.
Hugo se curvou para tirá-los. Ao fazer isso, o tecido da calça se ajustou ao
redor de seu traseiro, e os músculos ali tremeram.
Assim como Serena. Ela esperou até que ele tivesse se endireitado para lhe
dar outro grampo.
– Agora quero suas meias.
Dessa vez, quando ele se inclinou, se exibiu para ela – virando em um certo
ângulo, �exionando os músculos. Sem dúvida, ele sabia como suas coxas �cavam
com toda aquela lã as abraçando. Não disse nada, mas, depois de tirar as meias,
olhou-a nos olhos e deu uma piscadela.
Ele havia inventado um jogo com os grampos, levando o temor de Serena
para longe. Sendo assim, ela lhe entregou outro grampo.
– Já tem grampos su�cientes para seu plano nefasto?
– Ainda não. – Ele abriu um largo sorriso. – Além disso, você está se saindo
tão bem sozinha. Eu detestaria interromper.
A con�ança de Serena estava voltando. Ela o cutucou no queixo com a
cabeça de um grampo.
– Por essa impertinência, senhor, exijo seu cinto.
– Exige, é? – Ele colocou as mãos na �vela e a apertou. – Então suponho que
serei obrigado a obedecer.
A �vela se soltou, e ele tirou o cinto devagar. Sua calça escorregou alguns
centímetros para baixo do quadril quando ele fez isso, revelando uma seta escura
de pelos marcando a frente do abdômen.
Serena queria saber aonde esse caminho de pelos ásperos levava.
– Agora – começou ela – eu quero…
– Agora – interrompeu ele sem rodeios – é minha vez de trocar meus
grampos.
Ele a �tou com um olhar �rme.
Foi apenas por um momento, meio segundo, mas mesmo assim os
batimentos cardíacos de Serena saltaram em resposta. Hugo abriu um sorriso. A
pele dela formigou. Serena estava ciente de cada centímetro da própria pele – a
chemise mal cobria suas pernas, e o espartilho apertava os seios com força. Ela
não sabia ao certo se era medo ou excitação o que a deixara nervosa tão de
repente.
– Minha primeira ordem. – Ele colocou um grampo na palma da mão dela. –
Espere aqui até eu voltar.
Serena piscou, mas Hugo saiu do quarto antes que ela pudesse reunir fôlego
para protestar. Ela deu um passo para a frente, mas lembrou que ele tinha feito o
pedido com um grampo e, segundo as regras do jogo, não podia segui-lo. Ainda
assim, passaram-se vários minutos e Hugo não voltou. Ela ouviu o som de metal
tinindo e um fole sendo usado. O que, em nome de Deus, ele estava fazendo?
Finalmente, ela ouviu um sibilo, como o de vapor, e um resmungo abafado.
Hugo voltou com uma toalha. Uma toalha quente.
– Isso é um truque – falou. – Aprendi no pugilismo. Deite-se na cama.
Diante desse comando simples, Serena �cou paralisada. Hugo parou e
inclinou a cabeça, depois colocou um grampo na mesa ao lado dela.
– Não vou tocá-la. Lembre que não posso tocá-la a não ser que você peça.
Deite-se na cama.
Serena engoliu em seco e obedeceu. Hugose sentou ao seu lado, e o colchão
cedeu sob o peso.
– Ponha isto no rosto.
Ele lhe entregou a toalha, úmida e quente, quase quente demais para tocar.
Serena a abriu com cuidado e, depois, a colocou sobre os olhos, cobrindo o nariz.
– Inspire – pediu Hugo. – Bem devagar.
O ar estava úmido. Serena conseguia senti-lo penetrando sua pele, relaxando
músculos que ela não tinha percebido estarem tensos.
– Agora expire.
Ela expirou. O ar debaixo da toalha esfriou temporariamente.
– Inspire.
Ela estava se perdendo no calor com cada respiração.
– Isto é maravilhoso.
– Sim – concordou Hugo. – Quanto mais aquecidos estamos antes de uma
luta, menores são as chances de nos machucarmos. Não sei por quê, mas
suponho que a mesma coisa seja válida nesta situação.
Serena soltou um suspiro leve de contentamento.
– E agora?
– Não sei – respondeu ele. – Acabaram meus grampos.
Ela tirou a toalha do rosto.
– Como isso é possível?
Ele a observava intensamente – os olhos escurecidos, a boca �rme numa
linha determinada. Com um gesto, indicou a mesa onde estivera deixando os
grampos o tempo todo.
– Eu lhe disse para respirar.
Serena achara que a luxúria seria algo egoísta, não importando quem a
experimentasse. Mas o queixo de Hugo estava erguido de um jeito decidido, com
certo brilho no olhar. Ele tinha feito tudo isso por ela, para tirar a tensão de seus
músculos, o medo de seu coração.
Ela estava segura. Esse era o homem que ela viera a conhecer. Determinado e
ambicioso. Mas também brincalhão e gentil. Ele não a machucara. Em vez disso,
tinha visto seu tormento e o acalmara.
Serena empurrou um dos grampos empilhados para o lado de Hugo e
inspirou bem fundo para reunir coragem.
– Tire meu espartilho, Hugo.
Ele mal a havia tocado desde que soltara seus cabelos – apenas os dedos
roçaram nos dela enquanto os grampos trocavam de dono.
Agora ele a tocava, curvando a mão ao redor do quadril de Serena. A outra
mão se ergueu para cuidar do nó da abertura na frente do espartilho. Ele
afrouxou o cordão da vestimenta de um jeito quase reverente. As pontas de seus
dedos pareciam queimar Serena, mesmo através do tecido encorpado da roupa
íntima. Os pulmões dela pegaram fogo à medida que Hugo desfazia os laços. Ela
inspirou bem fundo e inalou o aroma dele – algo salgado e cítrico.
Devagar, Hugo abriu os prendedores e soltou o espartilho. Libertados do
con�namento, os seios se soltaram à sua frente, cobertos apenas pelo tecido �no
da chemise. O ar estava frio contra sua pele, mas Serena mal o sentia.
A respiração de Hugo estava irregular. Ele pousou o olhar na curva dos seios
dela, onde os mamilos criavam picos a�ados no tecido. Os olhos dele se
moveram no ritmo da respiração de Serena – para cima, para baixo, como se ele
já estivesse ligado a ela de alguma forma.
Ele empurrou o grampo de volta, deixando-o junto aos outros.
– Toque seus seios.
A voz dele estava rouca. As palavras �zeram com que uma onda de calor
percorresse o corpo de Serena. Ela ergueu a mão, sem nunca tirar os olhos dele, e
tomou a curva de um dos seios na palma da mão, fazendo as pupilas de Hugo se
dilatarem. Ela percorreu com o polegar a curva superior e Hugo lambeu os
lábios. Seu próprio toque fez com que uma faísca de prazer pulsasse por Serena,
mas foi o olhar dele – adorador, quase devoto – que ampli�cou essa sensação de
deleite, incentivando-a a crescer.
Serena fez outro círculo com o polegar, e Hugo inspirou fundo mais uma vez.
Depois, porque seu corpo pediu isso – porque os olhos de Hugo imploraram por
isso –, ela provocou o mamilo com as pontas dos dedos. O desejo percorreu seu
corpo, disparando uma pulsação insistente e líquida entre suas pernas.
Hugo não se mexeu para tocar, para tomar. Apenas observou tudo, sua
respiração cada vez mais acelerada. O prazer dela era dele.
– Agora… – Serena engoliu em seco e reuniu coragem –, agora quero que
você toque meus seios.
Ele se inclinou por cima dela, apoiando a mão quente onde a de Serena
estivera. O polegar dele, mais áspero, com mais calos, roçou o mamilo através da
chemise. Se o próprio toque de Serena havia lhe dado um choque de prazer, o de
Hugo incitava um poço de desejo, obscuro e carente, vindo lá de dentro. Ele se
inclinou e tocou o outro mamilo com os lábios. Sua respiração era quente e
úmida, e sua língua contornou a pele escura e rugosa. Serena se entregou à
sensação de ser tocada assim por ele – pequenas carícias ainda urgentes de
desejo, língua e depois dentes, provocando-a, levando-a ao limite.
– Pare – pediu ela, arfando.
Hugo se afastou. Os músculos de seu braço se contraíram, mantendo-o no
lugar.
– Quero sua calça – disse-lhe Serena.
– Quero sua chemise.
Serena percebeu que tinham parado de trocar grampos, passaram a trocar
apenas um pedido por outro. Ela inspirou bem fundo e puxou a chemise pela
cabeça. Se libertou bem a tempo de ver Hugo chutar para longe a calça e a roupa
íntima. Então ela pôde seguir aquela linha escura gravada na barriga dele até um
ninho de pelos cacheados, de onde se projetava o membro. Estava duro, e era tão
grosso e longo que os dedos de Serena mal se encontrariam se ela o envolvesse
com a mão.
Ela esticou a mão para experimentar. Sim, o polegar mal se sobrepunha ao
dedo indicador. Hugo sibilou quando ela o tocou, mas, fora isso, não fez nenhum
movimento. Serena acariciou todo o comprimento, fascinada com o contraste,
quente e macio ao primeiro toque, mas duro como aço quando ela o apertava.
Hugo soltou um som no fundo da garganta, algo parecido com um rosnado, e
suas mãos agarraram os lençóis, mas ele não se mexeu. Não a beijou. Não a
tomou nos braços. Apenas fechou os olhos e a deixou explorar.
Serena soltou o membro e deslizou as mãos pelo corpo de Hugo, subindo-as
até os músculos trêmulos do abdômen e, depois, por toda a extensão do peito.
Ela apoiou as mãos nos ombros dele e, em seguida, se ajoelhando, o beijou.
Quando fez isso, se esticou junto dele com o corpo todo. Toda aquela pele
quente, todos aqueles músculos �rmes se pressionaram contra ela.
A boca de Hugo tomou a dela com uma força brutal. Ela procurou a língua
dele e ele encontrou a dela, toque por toque, beijo por beijo. Serena sentia que
estava virando líquido, e cada beijo caloroso atiçava o fogo. Mas, ainda assim,
Hugo não colocou os braços ao redor dela.
Ela fechou a mão em torno do membro dele de novo e Hugo quase teve um
espasmo.
– Ah, minha nossa… – falou, em voz baixa e rouca.
O corpo todo de Serena estava queimando, da cabeça aos pés. Mas apertar-se
contra ele não era o su�ciente. Ela precisava de mais. Precisava dos braços dele
ao redor dela, do corpo dele exigindo mais dela. Não sabia ao certo quando sua
bravata tinha se tornado atrevimento.
– Toque meus seios de novo – disse ela.
O comando foi menos tímido, e a resposta, mais con�ante. Hugo colocou as
mãos na cintura dela e as deslizou pelos lados até chegarem aos seios despidos.
Dessa vez, o toque não foi nem um pouco hesitante. Ele se inclinou para beijar
um seio, depois o outro, primeiro apenas com os lábios, depois com toda a boca,
quente, acariciando os mamilos com a língua. Tão bom – como o toque de Hugo
era bom.
As coxas de Serena começaram a tremer, e Hugo afundou para se sentar na
cama, puxando-a para sentá-la no colo dele. Isso colocou os seios dela bem à
frente dele, e ele os tomou mais uma vez, saboreando-os. O membro duro se
encaixou contra a junção das coxas de Serena. O desejo dela já havia
ultrapassado e muito o formigamento da pele. Havia crescido até tomá-la por
inteiro. Ela estava molhada e, quando se remexeu junto de Hugo, deslizando
contra o membro dele, seu desejo se intensi�cou.
De novo. De novo. Serena se levantou para fazer mais pressão, e a cabeça do
membro dele se encaixou no lugar. Ela abriu os olhos para �tar Hugo. A mão
dele encontrou a dela, e seus dedos se entrelaçaram.
Ele não disse nada. Não precisava. Os braços e pernas de Serena pareceram
derreter. Ela não conseguia se manter no lugar, posicionada como estava.
Assim, Serena relaxou os músculos que a seguravam acimaisso me meteu. Toda megera briguenta do mundo acha que
tem o direito de vir resmungar nos meus ouvidos, tagarelando sem parar.
Quando é que isso vai ter �m?
Hugo ergueu a cabeça e �tou Clermont nos olhos. Não demorou muito.
Bastaram alguns segundos de uma troca de olhares intensa para que o homem
abaixasse o queixo e desviasse o olhar, como se ele fosse o empregado e Hugo,
seu patrão.
Era vergonhoso. Um duque deveria saber assumir o comando. Mas não.
Clermont estava tão acostumado a que os outros se curvassem diante de seu
título que nunca tinha aprendido a de fato liderar.
– Parece ter havido um problema de comunicação. – Hugo juntou as pontas
dos dedos. – Eu nunca lhe falei para dizer o que fosse necessário para deixá-la
feliz.
– Falou, sim! Você me disse…
– Eu lhe falei para fazer o que fosse necessário para deixá-la feliz.
Às vezes, Clermont era igual a uma criancinha – como se ninguém nunca
houvesse lhe ensinado a diferença entre certo e errado. Ao ouvir isso, ele franziu
o nariz.
– E qual é a diferença?
– O que o senhor disse foi que a amaria para sempre. O que fez na realidade
foi se casar com ela e se envolver com uma cantora de ópera três semanas depois.
O senhor sabia que precisava deixar a moça feliz. Onde estava com a cabeça?
– Comprei uma pulseira para ela quando ela reclamou! Como é que eu ia
saber que ela esperava �delidade da minha parte?
Hugo se concentrou nos documentos em cima da mesa. Até seu falecido pai,
nada digno de luto, havia conseguido ser �el, a um saldo de 16 �lhos, para ser
preciso. Mas não era hora de lembrar ao duque os votos de casamento. Hugo
suspirou.
– Reconquiste a moça – sugeriu suavemente.
Seu futuro também estava em jogo. No �m das contas, ele não era um
funcionário que recebia um ordenado como fruto do trabalho duro. Operava
com um tipo de comissão – com apostas, para ser exato, na língua do duque
�nanceiramente incompetente. Se ele conseguisse fazer com que Clermont
chegasse inteiro ao �m do ano, ganharia 500 libras. E não era apenas o dinheiro
que estava em jogo. Essas 500 libras seriam os meios para Hugo começar o
próprio império.
Ele havia trabalhado muito durante três anos com essa esperança. Quando
cogitava, brevemente, a possibilidade de perder… Quase conseguia ver a �gura
sombria de seu pai o olhando de cima. Seu imbecil desgraçado e inútil. Você
nunca vai ser alguém.
Hugo balançou a cabeça para dispersar os pensamentos obscuros. Não seria
apenas alguém. Seria o �lho de minerador de carvão mais rico de toda a
Inglaterra.
Mas Clermont não o estava olhando nos olhos. Em vez disso, franziu o cenho
e olhou para fora da janela.
– Não é tão simples assim.
Aquela mulher ainda estava sentada no banco. Havia virado a cabeça para o
lado, e Hugo teve um vislumbre de seu per�l: o nariz arrebitado, uma mancha
rosa que formava os lábios.
– Veja bem – murmurou Clermont –, houve uma governanta…
Hugo revirou os olhos. Qualquer con�ssão que começasse desse jeito não
podia acabar bem.
Clermont fez um gesto.
– Aconteceu durante o verão, quando eu estava em Wolverton Hall a
negócios.
Hugo traduziu mentalmente a declaração: o duque bebera até quase cair com
os amigos imprestáveis após a esposa tê-lo desprezado e o sogro ter fechado a
outrora generosa carteira. Mas não havia por que insistir que o homem fosse
honesto. Ele nunca entenderia.
– De qualquer forma – continuou Clermont, apontando para o banco do
lado de fora –, é ela ali, agora. Esperando. Exigindo que eu a recompense.
– Perdão? – Hugo balançou a cabeça, confuso.
O duque bufou.
– Preciso soletrar? Ela quer que eu dê coisas a ela.
Hugo tinha pensado mesmo que o duque era uma criança? Estava mais para
um bebê chorão. Ele manteve a voz calma.
– Entre Vossa Graça estar em Wolverton Hall a negócios e uma governanta
estar esperando na frente da sua casa exigindo compensação, há vários
acontecimentos faltando. Ela quer compensação pelo quê? Quem lhe chamou a
atenção para esse assunto?
– Ela falou comigo agora há pouco, quando eu estava voltando do… bem,
não importa onde eu estava – disse o duque. – Ela estava na rua, esperando que a
carruagem chegasse.
– E o que ela quer? – insistiu Hugo.
Clermont soltou uma risada nada convincente.
– Nada! Nada, de verdade. Eu... hã... em Wolverton Hall, vi que ela era boa
com as crianças mais novas. Então lhe ofereci um emprego para cuidar do meu
�lho.
– Seu �lho que ainda não nasceu.
– Sim – murmurou Clermont. – Exatamente. Ela largou o trabalho em
Wolverton e eu não tenho emprego algum para oferecer a ela, porque a duquesa
foi embora. E agora ela também está brava.
A história não parecia nem remotamente plausível. Por um breve momento,
Hugo cogitou chamar Sua Graça de mentiroso. Mas não adiantaria nada. A longa
experiência havia lhe ensinado que, depois que o duque inventava uma história,
ele se agarrava a ela com tenacidade, não importando quantas inconsistências
houvesse.
– Ela disse que �cará sentada ali até receber o que lhe é devido – acrescentou
Clermont. – Realmente acredito que ela tenha essa intenção. Então agora você
entende meu dilema. Se tudo der certo, vou trazer a duquesa de volta numa
questão de semanas. Não havia uma hora pior para essa maldita inconveniência.
A duquesa vai achar que…
– … que o senhor seduziu e desonrou uma criada? – complementou Hugo
secamente.
Era nisso que ele apostaria.
Clermont nem corou.
– Isso – concordou. – Você entende como a ideia é absurda. E é claro que não
�z nada disso, você sabe que não, Marshall. Mas, do jeito que as coisas estão, ela
tem que sumir antes de a duquesa voltar.
– O senhor a forçou? – perguntou Hugo.
Dessa vez, Clermont corou.
– Óbvio que não, Marshall. Sou um duque. Não preciso forçar as mulheres. –
Ele franziu o cenho. – E por que isso importa? Não chamam você de o Lobo de
Clermont por causa da sua consciência.
Não, não chamavam. Mas Hugo ainda tinha consciência. Apenas tentava não
se lembrar dela. Ele olhou pela janela.
– Vai ser fácil. Vou chamar os policiais e pedir que a detenham por vadiagem
ou por perturbar a paz.
– Ah… não. – Clermont tossiu de leve.
– Não?
– Eu não diria que é exatamente uma boa ideia colocá-la num tribunal.
Aqueles jornalistas sempre estão lá. Alguém pode começar a fazer perguntas. Ela
pode inventar mentiras. Apesar de eu poder impedir qualquer inquérito legal, e
se alguma coisa acabar chegando aos ouvidos de Helen? Sabe como ela �ca
nervosa quando se trata de outras mulheres.
Não, o homem não ia contar nada de útil. Hugo suspirou.
– O senhor falou com ela. Que tipo de compensação ela quer?
– Ela pediu 50 libras.
– Só isso? Podemos…
Mas Clermont balançou a cabeça.
– Ela não quer apenas o dinheiro. Não posso dar o que ela quer. Você vai ter
que persuadi-la a ir embora. E deixe meu nome fora dos jornais, por favor.
Hugo apertou os lábios, irritado.
– No �m das contas – disse Clermont, indo até a porta a passos largos –, é o
meu futuro que está em jogo. Quando eu voltar, espero que você já tenha dado
um jeito nesse caso lamentável da governanta.
Na verdade, Hugo não tinha escolha. Seu futuro também estava em jogo,
tanto quanto o de Clermont.
– Considere feito.
Clermont assentiu e saiu da biblioteca, deixando Hugo a contemplar o banco
na praça.
A governanta permanecia sentada, observando as pessoas que andavam na
calçada. Não parecia estar prestes a ter um faniquito. Talvez Clermont não lhe
houvesse feito tanto mal, e Hugo pudesse resolver a questão com uma única
conversa. Esperava que sim, pelo bem da moça.
Porque, se a conversa não funcionasse, ele seria obrigado a transformar a
vida dela num inferno.
E detestava quando tinha que fazer isso.
Era difícil para a Srta. Serena Barton �car sem se mexer até nas melhores
ocasiões. Naquele dia, um vento gelado havia surgido durante a tarde, fazendo as
nuvens se moverem rapidamente no céu, roubando a luz do sol. A brisa fez com
as que as folhas de outono se espalhassem pelos paralelepípedos da calçada. O
frio invadia a peliça inadequada que ela vestia, e Serena mal conseguia conter a
vontadedele. Apenas se
permitiu afundar no membro. Como ele era grande dentro dela. Mas a sensação
não era desagradável. Era… maravilhosa.
Ela estava segura. Segura para simplesmente experimentar a dureza dele, o
alongamento do próprio corpo, a pulsação crescente do próprio desejo. Era
seguro querer. Era seguro se erguer de joelhos e depois afundar nele de novo.
Os olhos dos dois se encontraram quando ela se mexeu. Hugo soltou a
respiração devagar e suas mãos se apertaram ao redor das dela.
O corpo de Serena sabia o que fazer sem precisar de instruções. Um instinto
profundo a fez se esfregar contra a pélvis dele, a procurar o ritmo certo, a fricção
certa. Ela se perdeu naquela sensação, na satisfação sutil que tomou seu corpo
com a expressão no rosto de Hugo quando ela começou a acelerar.
– Como você é maravilhosa – grunhiu ele.
A paixão cresceu até que se tornasse um prazer imenso, que exigia ser
liberado. Serena tentou e tentou, mas, por mais que tentasse, o clímax continuou
a escapar dela. Justamente quando seu desejo chegou à beira de uma frustração
angustiante, Hugo deslizou a mão entre as pernas dela e a acariciou bem onde ela
precisava.
O toque era con�ante e infalível. O calor que havia crescido se libertou de
uma vez só, um inferno que a engolfou da cabeça aos pés. Serena perdeu a noção
de tudo que não fosse o prazer que a devastava.
E então, quando o redemoinho tinha passado, as mãos dele pousaram em
seus quadris e ele investiu nela por baixo, martelando os ecos do prazer dela com
os dele. Hugo soltou uma exclamação rouca enquanto Serena ainda estava
tremendo na sequência do próprio orgasmo.
Depois, os dois afundaram no colchão. Os braços de Hugo a envolveram,
quentes e reconfortantes. Isso era certo, era exatamente disso que ela precisava.
Ele tocou a bochecha dela.
Era um momento de união precioso e perfeito. Não era de estranhar que as
pessoas se referissem a esse ato como íntimo. Serena nunca tinha se sentido tão
profundamente entrelaçada a alguém antes. A respiração dele era a dela. O corpo
dele…
Ela abriu os olhos e �tou o olhar obscuro de Hugo.
Ele não estava sorrindo.
– Pronto – disse ele suavemente. – Agora você sabe por que eu não queria
consumar o casamento.
E
Capítulo nove
la estivera quase liquefeita, modelada contra o peito de Hugo. Mas,
assim que ele falou, toda a tensão voltou aos músculos de Serena. Ela
se enrijeceu em cima dele, e se afastou.
– Hugo. Não precisa ser…
Ele colocou os dedos nos lábios dela antes que ela pudesse dar voz aos
desejos mais profundos dele.
– Precisa, sim.
– Isso signi�cou algo para você. Algo verdadeiro.
– Claro que sim. – Ele se sentou e tomou a mão dela. – Não vou lhe contar
mentiras sobre isso. O que temos é uma espécie de amor.
Ela soltou a respiração, surpresa.
– Do tipo transitório e efêmero – explicou ele. – Um nascer do sol perfeito,
visto uma vez, lembrado para sempre. Nunca repetido.
– Nunca repetido? – Os dedos dela apertaram os dele. – Mas por que não?
– Porque amanhã você vai para a sua fazenda. E eu…
– Não precisa ser assim.
Os cabelos castanhos dela eram uma bagunça selvagem ao redor de seus
ombros, e os olhos estavam arregalados e cinzentos.
Hugo colocou uma mecha do cabelo dela para o lado.
– Você não pode �car comigo, Serena. – As palavras soaram bruscas. –
Lembre para quem eu trabalho.
Ela empalideceu, mas hesitou apenas por um momento antes de erguer o
queixo.
– Você poderia…
– Eu poderia o quê? Ir com você? Creio que sim, na verdade. Mas não vou.
Tenho 500 libras me esperando ao �nal desse negócio com o duque. É a única
chance que um ex-pugilista como eu tem de conseguir tanto dinheiro assim.
Com isso, posso verdadeiramente me tornar alguém. Se eu for com você…
– Você já é alguém – insistiu ela, franzindo o cenho.
Você nunca vai ser alguém. Hugo soltou a respiração.
– Não alguém importante.
– É, sim. Hugo, se ao menos…
– Não é o su�ciente – disse ele severamente, afastando-se dela. – Ouviu? Não
é o su�ciente para mim.
– E o que seria su�ciente?
Que pergunta sensata.
– Porque você é inteligente e bem-sucedido – continuou Serena – e é um
homem bom. Sua ideia com os grampos… foi maravilhosa. Você tem um jeito de
me deixar à vontade.
– Isso não é nada – falou ele. – Minha mãe sempre fazia esse tipo de coisa
para mim. Quando eu era criança, ela me deu uma pedra mágica e me disse que,
se eu dormisse com ela debaixo do travesseiro, não aconteceria nada no dia
seguinte que eu não fosse capaz de aguentar.
Ao lado dele, Serena arfou. Mas Hugo não tinha vergonha de lhe contar a
verdade.
Ele vivera dias que o tinham feito duvidar da pedra da mãe.
Deixando essas lembranças de lado, ele continuou:
– Quando �quei mais velho, ela levou um pote antigo de conserva para o
parque e me disse para enchê-lo com todas as coisas que fossem mais
importantes para mim. Depois o enterrou bem fundo, num lugar onde meu pai
não conseguiria encontrar, não importava o que �zesse.
Estivera garoando, mas Hugo mal sentira o molhado.
A senhora tem um pote, mamãe?
Ela havia sorrido e balançado a cabeça.
Devíamos fazer um para a senhora.
O sorriso dela tinha se �xado no lugar. Em seguida, ela soltara um suspiro. Já
enterrei muitos �lhos, falara por �m. Não vou enterrar mais nada de importante.
Nunca mais.
– Sua mãe parece ter sido uma mulher maravilhosa – comentou Serena.
– Minha mãe me disse que eu seria alguém.
Tinha sido uma fala reconfortante da parte dela, por puro re�exo, uma
simples contradição às ameaças do pai.
– Talvez você devesse dar ouvidos a ela.
Você pode ser o que quiser, repetira ela para Hugo, de novo e de novo.
Posso ser rico?, perguntara ele.
O �lho de minerador mais rico de toda a Inglaterra, prometera ela.
– Eu saí de casa – disse ele por �m – aos 14 anos. Tinha entrado nas minas
pela primeira vez três dias antes, e houve um acidente. Um desabamento
pequeno, nada sério, mas �quei preso no escuro durante cinco horas sem nada
para fazer além de imaginar meu ar se extinguindo lentamente. Depois que saí,
disse que não voltaria. – Ele inspirou fundo. – Meu pai discordou. Ele quebrou
meu nariz e três costelas com um cabo de vassoura. Me disse que eu não
prestava, que nunca seria alguém na vida.
– Ah, Hugo. – Serena ergueu a mão e o tocou ao longo da mandíbula. – Não
me diga que você ainda acredita nele depois de todos esses anos.
Ele balançou a cabeça.
– Escapei porque minha mãe interveio… atraindo a raiva do meu pai para
ela. A última coisa que me lembro, enquanto saía correndo pela porta, é do som
dos gritos dela.
Serena o envolveu vagarosamente com os braços.
– Ah, Hugo – repetiu ela.
– Ela faleceu algumas semanas depois. – Ele mal conseguia respirar. – Então,
o que já consegui fazer, ainda não é o bastante. – Ele cerrou os punhos. – Não é o
bastante para compensar o fato de tê-la abandonado. Ela não pode ter perdido
tanto por causa de alguém tão insigni�cante.
Ao saber da notícia, ele voltara ao parque e desenterrara o pote.
Vou ser o �lho de minerador mais rico de toda a Inglaterra, prometera Hugo
ao vidro encardido. E depois o colocara de volta no lugar em que a mãe o havia
deixado – escondendo também seus outros desejos, tão profundamente que nem
Serena seria capaz de desenterrá-los.
– Então aqui estamos. – Ele passou um braço ao redor dela e inalou o aroma
doce e persistente de seu perfume. – Você não pode �car. Eu não irei embora. E
agora nós dois sabemos exatamente do que estamos abrindo mão. Não foi uma
boa ideia.
Ela soltou a respiração.
– Mas você estará a salvo e bem. – Ele lhe deu um beijo leve na testa. – E isso
bastará.
A história, segundo Serena acreditava, se daria assim: Hugo mudaria de
ideia.
Primeiro ela acreditou que ele mudaria de ideia quando acordou ao lado
dela, piscando para se livrar do sono. Mas não mudou.
Depois, enquanto Hugo se lavava com água e sabão, ela disse a si mesma que
ele deixaria de lado a própria insistência na separação dos dois.
Não foi o que aconteceu. Ele se lavou, fez a barba e trocou de roupa sem
alterar sua decisão.
Ele mudará de ideia, decidiuSerena na carruagem que Hugo alugou para
levá-la ao pátio de diligências.
Mas ele disse poucas palavras no trajeto, apenas o su�ciente para
cumprimentar Freddy em voz baixa quando pararam no caminho para buscá-la.
Os três viajaram em silêncio – Freddy foi segurando a alça do teto, as luvas
enrugando sob a ferocidade do aperto, ainda que o veículo mal sacudisse.
Quando chegaram, Hugo não fez tentativa alguma de comprar uma
passagem para si mesmo. Em vez disso, �cou longe, �ngindo se ocupar com a
bagagem de Serena para que as irmãs pudessem conversar.
– Bem. – Freddy correu os olhos cheios de descon�ança ao redor do pátio
apinhado de gente da estalagem, franzindo o cenho para os cavalariços. –
Imagino que você precise se jogar no mundo, não é? – Ela pontuou essa frase
com um suspiro intenso e revelador.
– Preciso, sim.
– Você sempre foi uma coisinha fora do normal. – Freddy ergueu um lenço
até o nariz como se assim pudesse bloquear o cheiro dos cavalos. – Mas vou
sentir sua falta. As coisas às vezes �cam bem entediantes quando você não está
por perto.
Serena abraçou a irmã.
– Trate de se cuidar – falou.
Freddy retribuiu o abraço.
– Eu sempre me cuido. É com você que me preocupo.
Talvez Freddy sempre achasse que Serena estava estranhamente quebrada, e
Serena sempre estremeceria ao pensar na irmã escondida nos próprios
aposentos, aos poucos virando pedra. Não havia como uma convencer ou
entender a outra.
Mas, quando Serena mais precisara, a irmã tinha lhe dado um lugar para
�car. Por mais que Freddy lhe embrulhasse o estômago, as duas compartilhavam
um afeto que se tornara agridoce por causa de tudo que as separava. Talvez Deus
desse irmãs às pessoas para ensiná-las a amar o inexplicável.
– Fique bem – disse Serena. – E vá direto para casa, ouviu? Nada de �car
esperando até o veículo sair de vista.
Freddy fungou e não respondeu, mas estava pálida e transpirava.
Depois Serena voltou sua atenção para Hugo.
A postura dele era proibitiva: braços cruzados, como se para impedi-la de
avançar, lábios apertados em desaprovação. Não havia sinal algum do homem
que tinha sorrido e a �zera se sentir tão à vontade, tão maravilhosamente bem,
na noite anterior.
– Hugo – chamou ela.
Mesmo seu primeiro nome soava desnecessariamente formal. Aquele era o
momento para ele mudar de ideia – quando o cocheiro chamava os passageiros
para o embarque.
– Serena.
A voz dele estava tão desconcertante quanto sua postura, mas os olhos… Ah,
os olhos. Ele a absorvia através deles, como se pudesse mergulhar nela.
Ele falaria. Pediria que ela não fosse embora.
Porém, em vez de lhe dizer que não conseguia �car sem ela, o que ele falou
foi:
– Adeus.
E então, antes que Serena pudesse encontrar as palavras certas – as palavras
que fechariam a lacuna entre os dois e consertariam esse casamento de�nhado –,
Hugo ergueu a mala dela com uma das mãos e a colocou no porta-malas da
diligência.
– Adeus – repetiu.
Serena embarcou em transe, se recusando a deixar que a confusão e o
entorpecimento se acomodassem. Isso não iria acontecer. Não podia. Ela abriu
caminho à força até um assento próximo à porta para que pudesse ver Hugo. Ele
estava inclinado junto de Freddy, dizendo algo que Serena não conseguia ouvir
com o barulho dos outros passageiros.
Freddy até chegou a sorrir em resposta.
Aconteceria naquele momento. Hugo se viraria e veria Serena. Tinha que se
virar. Ela apoiou os dedos no trinco da porta.
Não vá embora. Os olhos dela �caram marejados. Você não pode ir embora.
Eu te amo.
Foi uma revelação. Serena não sabia de onde tinha vindo. Só sabia que
signi�cava que Hugo não podia ir embora. Ele ergueria os olhos, a veria, e então
perceberia que também a amava.
Mas, no �m, não foi o que aconteceu. Ele não ergueu os olhos. Não a viu.
Não a amava. Apenas ofereceu o braço a Freddy. Eles se viraram e, juntos,
desapareceram no meio da multidão.
E assim, simplesmente, ele se foi.
N
Capítulo dez
os dias que se seguiram à partida de Serena, Hugo se esforçou para
voltar à normalidade. Mas falhou. Era quase impossível se importar
com os detalhes das �nanças do duque. A comida perdeu o sabor. E por muitas
vezes ele se pegou de pé junto à janela do escritório – sem trabalhar, sem pensar,
apenas olhando o banco desocupado na praça.
No terceiro dia, decidiu que �car especulando sobre o que ela estava fazendo
era provavelmente o que o estava distraindo; então resolveu escrever-lhe uma
carta simples. Porém, quando começou, descobriu que a caneta não lhe obedecia.
Srta. Barton,
Passei o dia da mesma maneira de sempre: ameaçando fornecedores, intimidando
os que não estão à altura das minhas expectativas e provocando o caos na vida dos
outros. A praça do outro lado da rua está vazia, restando apenas os pombos. Eu me
pego ressentido deles.
Ele parou e �cou olhando o papel. Revelador demais. Amigável demais. E,
mais importante ainda… Ele havia cometido um erro extremamente irritante na
saudação. Amassou o papel e o jogou na lixeira. Depois começou de novo,
sentindo uma satisfação sombria em se dirigir a ela com o próprio sobrenome:
Sra. Marshall,
Espero que esteja se acomodando bem na sua nova casa, e que tudo esteja do seu
agrado. Por favor, me informe se houver alguma coisa errada e providenciarei uma
solução.
Ele assinou, lacrou e, antes que pudesse pensar duas vezes, postou a carta no
correio.
Nos dias seguintes, tentou não pensar em Serena, mas era como tentar não
pensar num elefante: era impossível dizer a si mesmo para não pensar em
elefantes sem que a mente �casse repleta de criaturas enormes e cinzentas.
A resposta chegou alguns dias depois.
Sr. Marshall,
Minha casa nova é tudo que eu sempre quis. Tudo está do meu agrado. Não há
nada errado. Agradeço muito a sua preocupação.
Hugo olhou as palavras, frustrado. Não havia absolutamente nada que
pedisse uma resposta ali. Não havia nada que ele pudesse dizer sem oferecer os
próprios pensamentos inquietos ou sem fazer perguntas que pudessem revelar
sentimentos que não deveriam ser compartilhados.
Tinham se casado. Hugo escolhera viver sem ela. Qualquer outra coisa que
pudesse comunicar só faria os dois sofrerem ainda mais. A melhor coisa para
ambos era agir com super�cialidade – mandar uma carta ou outra, uma vez por
mês, apenas para veri�car como Serena estava.
E ainda assim, quando ele saiu do trabalho naquela noite, não foi
diretamente para casa. Pegou-se vagando pelas ruas. Para onde olhasse, via
casais. Marido e mulher sentados lado a lado em caleches abertas; jovens
namorados trocando olhares de �erte. Todo mundo tinha um par, como as
rolinhas no frio do outono. Apenas Hugo estava sozinho.
Nunca tinha se importado com esse tipo de coisa. Não era alguém que �cava
pensando no que não era. Mas, na verdade, era mais fácil pensar em Serena, que
não estava mais em sua vida, do que contemplar o duque de Clermont, que ainda
estava.
Hugo se pegou parado na frente de uma loja, olhando um xale de seda azul-
celeste, imaginando como a peça �caria na pele de Serena. E, para seu grande
espanto, comprou o xale. Ele re�etiu sobre sua ação, perplexo. Tinha mesmo
chegado a esse ponto?
Quando por �m foi para casa, na escuridão profunda, pegou-se sentado à
escrivaninha, molhando a ponta da caneta no tinteiro mais uma vez.
Sra. Marshall,
Fico contente em saber que sua nova casa era o que a senhora queria, e que tudo
está como esperava. Aceite meus sinceros votos de muita felicidade.
Hugo não mandou o xale. Não conseguia pensar numa forma de mandá-lo
sem admitir que estava pensando nela. Seria o cúmulo da tolice. A última coisa
de que precisava era induzi-la a acreditar que ele seria um bom marido. Não
seria bondoso dar falsas esperanças, nem para ela nem, certamente, para si
mesmo.
Mas talvez ela tenha percebido isso mesmo assim, porque, alguns dias depois
de ele enviar a carta, chegou a resposta.
Sr. Marshall,
Fico contente em saber que o senhor está contente por eu estar contente com
minha nova casa. Posso prever o assunto da sua próxima missiva? Que o senhor está
contentepor eu estar contente em saber que o senhor está contente, etc.
Acabei de poupar a nós dois uma boa quantia em taxas postais e muitas conversas
estranhas. Se continuarmos assim, logo ficaremos sem tinta. Então direi do jeito mais
simples que consigo, sem dar a entender nenhuma vez que espero mais do senhor:
fico feliz – muitíssimo feliz – por ter passado uma noite com o senhor. Há momentos
sombrios à noite em que imagino seus braços ao meu redor. Por mais que chame a si
mesmo de implacável, nos últimos tempos o senhor foi minha estrela, brilhando e me
guiando. Não vamos fingir que não significamos nada um para o outro. Podemos não
ser marido e mulher no sentido mais verdadeiro, mas fomos amigos e fomos amantes,
e espero que ainda possamos ser amigos.
Os pulmões de Hugo doeram quando ele leu a carta. Todo seu corpo doía,
para falar a verdade, das pontas dos dedos dos pés até o último �o de cabelo.
Ainda assim, na manhã seguinte, ele gastou um valor imenso para enviar o
xale para New Shaling, juntamente com a mensagem:
Comprei isto há alguns dias. Me fez pensar em você.
Os dias se passaram como sempre. Tudo estava entrando nos eixos. Hugo
recebera uma mensagem do duque informando que havia conseguido fazer as
pazes com sua esposa recalcitrante. Investimentos estavam entrando. Num
período de três meses, com a renda do duque �nalmente assegurada, Hugo
geraria mais de mil libras – mais de 5 mil libras – para Clermont. Havia ganhado
a aposta. Dali em diante, começaria a expandir seu império.
O problema era que seu coração não estava mais interessado nisso. Tinha
passado a vida toda concentrado em ser alguém, com o objetivo de um dia ter
argumentos su�cientes para calar a voz do pai para sempre.
Naquela noite, antes de receber uma resposta sobre o xale, ele escreveu de
novo.
Pode me chamar de seu amigo quanto quiser, mas penso em você sempre que me
toco. Segundo me consta, isso indica sentimentos que vão decididamente além da
amizade. Por acaso a choquei demais?
Hugo esperou a resposta durante dias. Quando ela �nalmente chegou, ele a
leu no mesmo instante:
Senhor: sou uma mulher casada e respeitável. Não sei expressar o horror e a
repulsa que me afetaram ao ler os sentimentos que comunicou na última mensagem.
Hugo ergueu a cabeça. Mas não tinha terminado, e certa propensão ao
sofrimento o forçou a continuar:
Sua carta apenas reforça minhas próprias falhas. Afinal, sendo sua esposa, é meu
dever tocá-lo. Não é?
Ele precisou de todas as suas forças para não ir até New Shaling naquele
exato momento.
A casa estava movimentada com os preparativos para o retorno do duque.
Hugo não conseguia encontrar dentro de si motivação para se importar com
quase nada. Mal conseguia se forçar a cuidar da parte mais básica da
contabilidade. Não queria pensar no futuro.
Era tudo culpa de Clermont. Os últimos meses tinham lhe roubado a certeza.
E o que ele havia tomado de Serena…
Hugo balançou a cabeça. Não importava. Faltavam apenas alguns meses. Se
conseguisse suportá-los, ganharia a aposta, cobraria seu dinheiro e nunca mais
veria aquele homem.
Ouviu a carruagem chegar. Todos os funcionários deviam descer para
cumprimentar o patrão, mas Hugo �cou no escritório, organizando contas,
pagamentos e relatórios de propriedades. Parecia meio irônico que, embora
Hugo quase tivesse parado de se esforçar, os negócios houvessem prosperado. Os
navios aportaram antes do previsto, trazendo carregamentos que eram
muitíssimo mais valiosos do que o valor que fora pago do outro lado. O preço do
trigo estava subindo, e o comércio da lã estava se saindo ainda melhor.
Era como se todo o universo o estivesse recompensando. Se essa sorte
continuasse depois que Hugo começasse a investir o próprio dinheiro, quando
chegasse aos 40 anos já seria rico. Teria criados e uma propriedade só sua.
Derrotaria de vez aquela voz sombria e desanimadora dentro de si pela pura
força das próprias conquistas. Talvez em dez anos �zesse outra visita a New
Shaling para ver se poderia reacender aquela chama…
Não. Não. Não podia pensar assim.
Levou horas para que o duque se recuperasse da viagem – comendo e se
refrescando, ou o que quer que fosse que os duques faziam após reconquistar
esposas errantes. Hugo �cou no escritório, esperando que o duque desse o ar de
sua graça. Não sabia ao certo se queria confrontá-lo sobre suas mentiras ou se
esperava que o sujeito não aparecesse para não ter que olhá-lo.
Por �m, ele foi ao escritório de Hugo.
Clermont não tinha mudado. Ainda era um homem grande e encorpado.
Não havia mudado nada. Ainda assim, o primeiro pensamento de Hugo foi que
ele parecia cem vezes mais suíno.
– Vejo que a governanta sumiu – falou o duque com alegria. – E a duquesa
está de volta, e, em alguns meses, presumindo que tudo esteja bem, receberei
outro pagamento do �duciário.
– Sim – disse Hugo sucintamente. – Que bom.
Mas o duque estava com vontade de tagarelar.
– O que você acha que devo comprar primeiro? – ponderou. – Cavalos? Ou
uma amante?
Hugo não conseguia acreditar que ele ainda estava falando desse jeito –
depois de tudo por que tinha passado.
– Tenho uma ideia melhor – Hugo ouviu-se dizer. – O senhor poderia viajar.
– Viajar? Ora, essa é uma ideia excelente para fugir de minha esposa.
Brighton, talvez? Ou França?
– Nada disso – respondeu Hugo. – Eu estava pensando que o senhor poderia
ir para o inferno.
Ele não praguejava. Simplesmente não era algo que ele fazia. E, ainda assim,
não conseguia se forçar a se arrepender dessas palavras. Uma sensação feroz de
justiça batia em seu peito, junto ao coração, que estava despertando.
Esse pronunciamento foi recebido com um silêncio seco. Clermont inclinou
a cabeça, incrédulo, e, em seguida, devagar – muitíssimo devagar –, a balançou.
– Não acho… Tenho razoável certeza… – gaguejou. – Não creio que você
deva se dirigir a mim dessa forma.
Hugo se levantou. Não era mais alto do que o duque, mas, ainda assim, o
outro deu um passo para trás.
– O senhor me disse que queria que eu cuidasse de uma questão
empregatícia. Tem ideia do que eu poderia ter feito com a moça?
– Ah, vamos lá, Marshall. Não vai querer ouvir a voz da consciência
justamente agora, vai? – Clermont fez bico. – É inconveniente demais, e já tive
que ouvir a duquesa tagarelar por três semanas sobre isso e aquilo, e moral e
amor. Minha cabeça está cansada de �car concordando ao ritmo dessa baboseira.
A única coisa que ouço há dias sem �m é sermão. Isso não vai acabar nunca?
Hugo rangeu os dentes. Se queria aquelas 500 libras, precisava trabalhar com
esse homem pelos próximos meses. Precisava.
Ele cerrou as mãos e se virou.
A sensação da própria falta de valor havia penetrado em sua pele até que ele
acreditasse nela. Em sua mente, viu a silhueta do pai acima dele. Sentiu o peso
sólido da vassoura o atingindo nas costelas.
Você nunca vai ser alguém, seu imbecil desgraçado e inútil.
– Está bem – continuava a falar Clermont, às suas costas. – Vou ser
benevolente e perdoá-lo por esse comentário indelicado, e você vai me perdoar
pela minha mentirinha… E �caremos quites, certo?
Hugo nunca fora capaz de se livrar daquelas palavras. A intervenção de sua
mãe as havia feito se entranhar lá no fundo, enterrando-as onde ele não
conseguia alcançá-las.
Você nunca vai ser alguém.
E, por causa disso, ele ia… O quê, dar as costas para a mulher que amava?
Não.
Toda a lógica do mundo não resistia a um único fato: Hugo não conseguia
mais tolerar a presença de Clermont.
– Não estamos quites – disse ele em uma voz surpreendentemente calma, e
virou-se de novo.
Clermont o observava com aqueles olhos azul-gelo – límpidos e, ainda assim,
extremamente confusos.
– Não estamos nem perto de estarmos quites. Diga-me o que fez com ela.
Admita em voz alta, seu covarde.
Clermont umedeceu os lábios, perplexo.
– Ela queria.
Hugo estendeu a mão e pegou o outro pelo colarinho.
– A verdade, Clermont.
– Ela era uma coisinha fogosa…
Hugo o atingiu no estômago. Não se deu o trabalho de limitar a força do
soco, e Clermont, que provavelmentenunca tinha levado um golpe na vida, �cou
verde. Havia a hora certa para ser sutil, para controlar a raiva. Mas, naquele
momento, Hugo não via motivo para isso.
– A verdade, Clermont, senão vou arrancar seus colhões com minhas
próprias mãos.
O duque gemeu.
– Eu estava entediado demais, e ela era a coisa mais parecida com uma
mulher de verdade por perto. Que mal faria?
Hugo bateu nele de novo.
– Para que isso? Estou falando a verdade! – protestou Clermont.
– Isso não foi por causa do que o senhor disse. Foi por causa do que fez. –
Hugo o soltou, mas apenas por tempo su�ciente para pegar um pedaço de papel
e uma caneta. Colocou os dois à frente do duque. – Quero que admita a verdade
por escrito.
– Por escrito? Mas…
– Por escrito – reforçou Hugo. – Quero que admita por escrito que a forçou e
que, como indenização pelo seu crime, concorda em mandar seu �lho estudar
em Eton… ou patrocinar sua �lha numa temporada social.
– Mas…
– Escreva – rosnou Hugo, com cada gota de ameaça que conseguia reunir. –
E pare de �car se lamentando, seu bufão imprestável. Pense por um segundo nas
coisas que sei sobre o senhor, no que eu poderia fazer. O senhor, mais do que
ninguém, sabe do que sou capaz. Este documento o libertará sem grandes
di�culdades. Se cumprir sua parte do acordo, a declaração nunca precisará vir a
público. Mas se não cumprir…
Hugo conseguiu ver o duque fazer os cálculos sórdidos. Se a duquesa
descobrisse… Havia, a�nal, 40 mil libras em jogo. Talvez, Hugo imaginou o
duque pensando com sua covardia típica, ele conseguisse guardar segredo sobre
a situação toda por tempo su�ciente para enganar a esposa e garantir fundos por
anos e anos.
Com um meneio de cabeça, o outro pegou o papel e escreveu a con�ssão.
Quando terminou, Hugo o dobrou ao meio.
– Se você acha que vou honrar nossa aposta depois desta… – ameaçou o
duque.
Hugo foi até a porta.
– Não tenho a menor dúvida disso – falou friamente. – Mas não há
necessidade de honrar a aposta.
– Por que diz isso?
Hugo abriu um último sorriso para o duque, digno de um lobo, brandindo o
documento.
– Porque o senhor precisaria ter fundos para eu ganhar. Prometi que este
documento não viria a público. Mas não �z promessa alguma de não mostrá-lo à
duquesa. Acho que o senhor já mentiu para mulheres su�cientes.
O medo tomou os olhos do duque.
– Ah, meu Deus! Espere! Marshall!
Mas Hugo já tinha saído pela porta.
N
Capítulo onze
o �m das contas, Hugo não conseguiu se forçar a ir
diretamente para New Shaling. Isso acrescentou quase uma
semana à viagem, mas primeiro ele foi para o norte, para o lugar onde tinha
nascido, e vasculhou os registros da paróquia.
Seu pai tinha falecido quase uma década antes, mas Hugo não se deu o
trabalho de descobrir onde ele fora enterrado. Melhor deixá-lo sumir da
memória. Hugo já tinha permitido que sua presença se prolongasse por
tempo demais.
Ele visitou o parque onde havia enterrado o pote. Mas, quinze anos
depois, não havia mais nada para ser encontrado ali – apenas cacos de vidro
e raízes de árvores. Bem apropriado.
Em vez disso, ele localizou uma lápide sem nome ao lado de uma
pequena igreja e tirou ervas daninhas do túmulo de sua mãe. Por todos
aqueles anos ela tivera razão. Era melhor enterrar os mortos e cuidar dos
vivos.
Quanto aos vivos… Três de suas irmãs tinham chegado à vida adulta.
Destas, duas tinham ido embora para os Estados Unidos, e a terceira
simplesmente desaparecera. Dos 16 �lhos, Hugo era o único que restava.
Durante todos esses anos, ele tinha se apegado à própria ambição como um
fardo pesado. Estivera errado. Tinha recebido um presente tremendo, que
não planejava desperdiçar. Mesmo que as árvores tivessem perdido todas as
folhas e a geada estivesse começando a cobrir os campos, para ele era como
se fosse primavera.
O transporte coletivo que o levou a Cambridge era anunciado como
rápido, mas pareceu rodar a passo de formiga ao longo da estrada, sem
nunca chegar. Por �m, uma carroça levou Hugo pelo resto do caminho até a
casa de Serena.
A fazenda era pequena – não chegava a ter dois acres. Hugo vira os
mapas e as marcações quando a havia ajudado a �nalizar o contrato, mas
essa era a primeira vez que via a propriedade pessoalmente. Parou na
estrada a certa distância, imaginando como seria recebido. Havia uma única
plantação, de trigo de inverno. Mas ele conseguia imaginar as melhorias que
Serena queria – um galpão, onde poderia isolar e extrair a essência de
lavanda, um galinheiro com um bando de galinhas e uma horta, logo atrás
da casa.
Enquanto Hugo observava, a porta se abriu e Serena caminhou
rapidamente até o poço, que �cava no lado direito da propriedade. Àquela
altura a gravidez já era visível – �cava evidente demais no modo como ela se
movia, na curva leve da barriga. A respiração de Hugo falhou.
Por Deus, como ele sentira saudades.
Serena jogou o balde no poço e começou a erguê-lo. Estava usando um
xale azul-celeste – um xale azul-celeste bem familiar. As pontas esvoaçavam
com a brisa.
Hugo começou a atravessar a estrada devagar, se aproximando dela por
trás.
– Belo xale – comentou.
Serena soltou um gritinho e largou a corrente. O som de água
espirrando chegou até eles quando o balde caiu no fundo do poço.
– Meu Deus! – exclamou ela. – Hugo. O que está fazendo aqui?
Ele a olhou nos olhos.
– O que você acha?
– Eu… eu acho…
– Estou aqui para aterrorizar você – disse ele.
E depois, porque não conseguia mais resistir, esticou os braços e a puxou
para si. Serena estava quente e macia em seu aperto, e seu cheiro era
deliciosamente certo. Hugo poderia inalar seu aroma por horas.
– Hugo…
Ele não queria falar. Não queria responder a nenhuma pergunta. Não
sabia quem era nem o que queria, nem que sonhos viriam a ocupar seu
coração. Apenas sabia que, se não podia ter Serena, nada jamais estaria certo
de novo. Então ele a beijou. Saboreou-a, doce e �rme, de encontro a ele,
colocando a mão na curva das costas dela e puxando-a para mais perto.
Ela o beijou também.
– Eu te amo – declarou ele.
A verdade se enraizou dentro dele. Pela primeira vez em anos, as
palavras sombrias de seu passado recuaram.
– Mas Hugo…
Ele colocou os dedos nos lábios dela.
– Deixe-me fazer isso – pediu. – Achei que precisava provar meu valor
com dinheiro e conquistas. Mas isso sempre vai parecer falso, nunca será o
bastante. Quero ser alguém. Me deixe ser seu marido. Me deixe ser o pai do
seu �lho, de todos os seus �lhos. Senti mais satisfação batendo em Clermont
do que já senti com qualquer sucesso que tive nos negócios.
Ela se afastou dele.
– Você bateu em Clermont?
– Duas vezes. E isso me lembra de tê-lo chantageado para que
prometesse mandar seu �lho para Eton. – Hugo apertou o abraço. – Nunca
�ngi ser um homem decente, você sabe disso. É só que… eu sou seu.
Ele encostou a cabeça à dela. A respiração de Serena estava quente no
rosto dele.
– Você bateu com força?
– Sinto dizer que sim.
– Este é o meu Hugo. – Havia uma satisfação sombria na voz dela. – Eu
também te amo, sabe disso. Se você não tivesse vindo, assim que o inverno
chegasse de vez e o solo �casse duro demais para trabalhar, eu tinha planos
de ir até você.
– Bem, �co feliz porque tomei juízo – disse Hugo. – Você não deveria
viajar na sua condição. Mas a curiosidade me força a perguntar: qual era o
seu plano, depois de chegar?
– Permita-me demonstrar. – Ela ergueu o rosto para o de Hugo,
traçando a curva do maxilar dele com os dedos. – Isto. – Ela deu um beijo
no canto da boca dele. – E isto. – Beijou o outro canto. – E…
Ela tomou a boca dele por completo, colando os lábios macios nos de
Hugo, com o gosto de todas as coisas que ele mais desejara.
– Eu faria isto – sussurrou Serena – até você ser forçado a admitir que
me ama.
– Eu te amo.
– Bem, assim não tem graça. – Ela o beijou de novo. – Agora, qual vai
ser minha desculpa?
Ele inspirou tremulamente e a puxou para mais perto.
– Você pode me fazer repetir – sussurrou. – Pode me fazer repetir
sempre. Me faça repetir com tanta frequência que nunca terá motivo para
duvidar. Eute amo.
“D
Consequências & começos
Eton, menos de 12 anos depois.
ormirá a paz entre os turcos e os in�éis, e nessa sede de paz a
guerra tumultuosa confundirá povo com povo e parente com
parente…”
Robert Blaisdell, marquês de Waring e também herdeiro de 11 anos do
duque de Clermont, ergueu os olhos para a janela. Sebastian Malheur, seu primo,
parou a leitura de Shakespeare em voz alta e franziu o cenho para o livro.
– O que signi�ca “tumultuosa”?
O que passou pela mente de Robert não foi uma de�nição, mas uma série de
barulhos: o som de porcelana colidindo contra a parede, os gritos de seu pai, as
palavras que �cavam indistintas através das paredes, mas cuja intenção era clara.
Uma coisa tumultuosa era a batida de uma porta e o som baixo do choro de sua
mãe. Mas, acima de tudo, era o silêncio que se seguia: os criados não ousando
falar para não atrair atenção, e Robert prendendo a respiração, esperando que, se
�casse muito quieto e se comportasse bem, talvez aquilo não acontecesse de
novo.
– Uma coisa tumultuosa – a�rmou ele – é uma coisa despedaçada.
Sebastian torceu o nariz.
– Isso não faz sentido. Como uma guerra pode ser despedaçada?
Robert foi poupado de ter que responder por um grito no pátio abaixo,
seguido de um grande clamor. Os outros garotos que estavam estudando na
biblioteca do segundo andar – todos os quatro – �caram bem contentes em
abandonar os livros e encostar o nariz nas janelas que davam para a briga.
Uma multidão estava se formando no gramado abaixo: garotos de todas as
idades que se organizavam num círculo ao redor de um único menino. Enquanto
Robert observava, um garoto mais velho pegou o menino pelo colarinho. Outro
lhe deu um soco.
– Alguém deveria impedir isso – disse Sebastian.
Esse alguém teria que ser Robert. Ele normalmente punha �m nessas brigas;
era o que um cavaleiro errante faria. E, embora Robert nunca fosse admitir para
os outros garotos, ele ainda se considerava assim.
– Quem é? – acrescentou Sebastian, observando a multidão. – É novo?
– É, é um paspalho do primeiro ano – disse um dos garotos que observavam.
– Ele mora na escola.
– Ah – fez outro garoto mais velho. – Um bolsista. Não é de estranhar. Quem
são os pais dele?
– Uns fazendeiros, acho. Ou fabricantes de sabonete.
Depois dessa informação, veio um som zombeteiro. Mas Robert esfregou as
mãos e se levantou. A�nal, os cavaleiros protegiam os fracos.
– E ainda é pior – falou o garoto mais velho. – Davenant perguntou quem era
o pai dele, e ele disse: “Hugo Marshall.” Quando Davenant disse que nunca tinha
ouvido falar nele, o paspalho respondeu: “Não importa, ele é melhor que o seu
pai mesmo assim.”
Robert �cou paralisado.
Sebastian não se afastou da janela, e o outro garoto bufou.
– Ele tem colhões, isso não dá para negar. Mas não sei se é bom da cabeça,
infelizmente.
O cérebro do próprio Robert estava embaçado. Ele apoiou as pontas dos
dedos no vidro e olhou para baixo mais uma vez.
– Quem você disse que era o pai dele mesmo?
– Hugo Marshall.
Robert já tinha ouvido esse nome. Fora anos antes, depois de mais uma série
terrível de discussões que terminaram numa separação odiosa. Dessa vez, tinha
sido sua mãe quem saíra de casa batendo portas e chamando a carruagem com
ênfase. Seu pai tinha �cado morosamente para trás, no escritório.
Robert havia entrado no cômodo nas pontas dos pés e, reunindo toda a sua
coragem, perguntara:
– Pai, por que a mamãe está sempre triste?
“Triste” não era a palavra certa, mas na época Robert ainda não havia
aprendido “furiosa”.
O pai tinha virado a bebida e encarado o teto.
– É culpa de Hugo Marshall – falara depois de um momento. – É tudo culpa
de Hugo Marshall.
Robert não soubera o que fazer com essa informação. Por �m, arriscara-se a
dizer:
– Hugo Marshall é um vilão?
– É – respondera o pai, com uma risada ressentida. – Ele é um vilão. Um
patife. Um vira-lata. Um belo de um cafajeste.
Esse belo de um cafajeste tinha um �lho e, naquele momento, tal �lho estava
rodeado de outros garotos. No segundo andar, todos os amigos de Robert se
viraram para ele. A biblioteca parecia pequena demais; o ar, demasiado quente.
– Não diga que você sabe quem é esse tal de Hugo Marshall – falou o garoto
mais velho.
– Não faço ideia. – Era a primeira vez em muito, muito tempo que Robert
contava uma mentira. – Nunca ouvi falar nele – acrescentou rapidamente, com a
esperança de que as bochechas coradas não o entregassem.
Nos belos dias de verão após a conversa com o pai, Robert tinha vagado até
os cercados do lado de fora, empunhando um galho em vez de uma espada, para
desa�ar margaridas para duelos. Às vezes, se imaginava lutando contra dragões.
Mas normalmente lutava contra vilões – vilões, patifes e vira-latas, todos
chamados Hugo Marshall. Quando derrotava um – e sir Robert sempre
derrotava os vilões –, levava aquele belo de um cafajeste para casa, trêmulo e
amarrado, e depositava o vira-lata aos pés da mãe.
Depois disso, todos viviam felizes para sempre. Sem mais gritos. Sem mais
silêncio. Sem mais separações.
– Vamos pôr �m nisso? – perguntou Sebastian.
Três garotos se viraram para Robert. Talvez, admitiu Robert, tivessem olhado
para ele por ser o único herdeiro de um duque em Eton. Talvez tivesse algo a ver
com os olhos azuis e límpidos que ele herdara do pai – olhos que, conforme
aprendera, deixavam os outros garotos nervosos, bastava encará-los. Mas a razão
mais provável para olharem para Robert – ou pelo menos foi o que disse a si
mesmo – é que sentiram que ele era um cavaleiro por natureza e, portanto, tinha
moral superior e era digno de ser seguido.
– Não – disse Robert. – Vamos encorajar. Esse paspalho acha que é superior a
nós. Quando for expulso, vai aprender a lição.
Ao lado dele, Sebastian franziu o cenho, perplexo.
Robert lhe deu as costas bruscamente.
– Você não tem nenhuma pergunta, Malheur, ou tem?
– Não – disse o primo depois de uma longa pausa. – Nenhuma.
Robert fez questão de evitar Marshall o máximo que pôde. Não era difícil – já
fazia um tempo que estudava em Eton, enquanto o outro estava apenas
começando. Normalmente, um novato passava por uma série de lutas, até todos
descobrirem qual era o lugar dele. Uma vez que encontrasse sua posição na
hierarquia, conseguia mantê-la apenas com um pouco de alvoroço e alguns olhos
roxos.
Mas não havia lugar para Marshall em Eton. Robert estava determinado a
garantir isso. Certo dia, fez uma observação sobre o casaco do menino, e alguém
atirou um ovo na vestimenta. Outro dia, comentou sobre como seria engraçado
se um �lho de fabricantes de sabonete tivesse que tomar banho com água suja, e
os sabonetes de Marshall foram substituídos por barras de lama.
Robert nunca teria imaginado que Marshall o reconheceria como o
instigador dos problemas que sofria. Ficou ainda mais surpreso quando o garoto
começou a revidar como o vira-lata sem educação que era. Marshall começou a
proferir insultos sarcásticos em latim – e eles eram astutos o su�ciente para que
os outros garotos rissem. E, depois do incidente com a lama, alguém entrou no
quarto de Robert e roubou todas as suas roupas íntimas. Ele as encontrou na
despensa, en�adas num barril de conservas – molhadas, frias e cheirando a
azedo. Não importava quantas vezes fossem lavadas, nada era capaz de remover
o cheiro de vinagre.
Certas coisas não deveriam ser toleradas. Foi nesse momento que Robert
soube que teria que confrontar o garoto diretamente.
Encontrou sua presa encostada ao muro de pedras mais distante do campo
de críquete. Robert não era o primeiro a atacá-lo naquele dia. Quando chegou,
percebeu que o garoto tinha sido acuado junto ao muro. Ele havia largado os
óculos a alguns metros dali e estava sacudindo os punhos no ar.
– Vamos lá, seus covardes – dizia Marshall. – As chances de três contra um
não são boas o bastante para vocês?
Era a primeira vez que Robert via Marshall tão de perto. Seus cabelos �nos
eram de um tom ruivo-claro, e a pele era pálida, com sardas. Um dos olhos
estava rodeado por um machucado vermelho; na manhã seguinte,já estaria roxo.
Ele cuspiu saliva rosa e se virou de leve, encarando os agressores. Foi nesse
momento que avistou Robert.
– Falando em covardes... – disse ele.
– Não sou covarde. – Robert ergueu as mangas da camisa e deu um passo
para a frente. – Vá, me chame de covarde de novo, eu o desa�o. Não sabe quem
eu sou?
Todos recuaram, abrindo um bom espaço para os dois. Robert rodeou o
outro menino, ainda de punhos erguidos. E foi então que notou algo curioso: os
olhos de Marshall eram azuis – azul-gelo.
Um azul-gelo familiar. Robert via olhos iguais a esses no espelho todos os
dias.
– Eu sei quem você é – respondeu Marshall com desdém. – Você é meu
irmão.
Robert sempre pensara que a forma como descreviam momentos como esse
em histórias era ridícula: “Seu mundo virou de cabeça para baixo.” Mas
realmente não havia outra forma. As palavras do garoto o atingiram com a força
de uma bala de canhão, destruindo tudo que Robert sempre soubera.
– Você não pode ser meu irmão.
Mas ele se lembrava com imensa nitidez do barulho de porcelana quebrando,
dos gritos da mãe: “Mulherengo! Desprezível!”
Mulherengo. Marshall tinha os olhos de Robert. Tinha os olhos do pai de
Robert.
Ele fungou e limpou o nariz.
– Seus pais não lhe contam nada? – perguntou Marshall.
– Não!
Robert não sabia ao certo se aquilo era uma resposta ou uma negação. E o
outro garoto tinha falado de um jeito tão prosaico – como se os pais dele fossem
um conjunto unido, que talvez se sentasse com o �lho e conversasse com ele.
A cabeça de Robert estava girando.
– Como você pode ser meu irmão se seu pai é Hugo Marshall?
O outro garoto cuspiu de novo e não respondeu.
Não precisava. Robert tinha uma vaga ideia do que chamar um homem de
mulherengo insinuava – apostas, bebidas e meretrizes grávidas. Ele nunca tinha
pensado muito na possibilidade de meretrizes que tivessem engravidado darem à
luz uma criança um dia.
Marshall apenas desdenhou de tudo isso com uma sacudidela de ombros.
Quinhentos dias brincando sozinho no cercado, e ele tinha um irmão? Não
eram apenas sua mãe e seu pai que estavam despedaçados. Robert também
estava. Pensou no sabonete que tinha virado lama, nas brigas, no olho de
Marshall – que estaria roxo pela manhã.
Pensou nos três garotos que estavam brigando com ele quando Robert
chegou. Tinham cometido aquele ato nem um pouco cavalheiresco porque
Robert os havia encorajado.
Mesmo que esse garoto não fosse seu irmão, Robert era o vilão dessa história.
E se o que Marshall tinha dito fosse verdade…
Robert era o patife, o vira-lata, o belo de um cafajeste. Ninguém jamais
voltaria a viver feliz para sempre. A não ser que…
Algumas decisões não eram nem um pouco difíceis.
– Me bata – falou ele urgentemente, baixo o bastante para que os outros
garotos não conseguissem ouvir. – Me bata com força. Me derrube.
Marshall nem hesitou. Deu um passo para a frente e socou o nariz de Robert
com tudo. Robert nem precisou �ngir cair; suas pernas fraquejaram por conta
própria. Quando ele se ergueu, seu nariz estava sangrando. Ele secou o sangue e
se pôs de pé.
– Você não sabia mesmo? – perguntou-lhe Marshall.
Tinha dado o soco com a mão esquerda.
– Você consegue bater com mais força com a mão direita? – perguntou
Robert.
Marshall ergueu o queixo.
– Consigo bater com força su�ciente com as duas.
– Porque eu também sou canhoto. Você acabou de me derrubar, e eu
reconheço isso. Não devem incomodar você de novo. Não depois disso.
Ele estava tagarelando. Cuidadosamente, estendeu a mão – a mão esquerda.
– Trégua?
O outro o encarou por um momento. Depois, por �m, também estendeu sua
mão esquerda.
– Trégua – concordou. – Mas, se você quebrar a paz, eu quebro você.
– Bem – disse Sebastian, se aproximando deles por trás. – Isso vai ser
interessante.
O
obrigada!
brigada por ter lido o conto O caso da governanta. Espero que
tenha gostado!
Esta história se passa antes de O segredo da duquesa, primeiro volume da
série Os Excêntricos. Descubra o que vem a seguir ou se inscreva na minha
newsletter em www.courtneymilan.com.
Você também pode virar a página para dar uma espiadinha em O
segredo da duquesa.
R
L E I A   A G O R A   U M   T R E C H O   D O   P R I M E I R O
L I V R O   D A   S É R I E   O S   E X C Ê N T R I C O S
O S E G R E D O D A D U Q U E S A
Capítulo um
Leicester, novembro de 1863
obert Blaisdell, o nono duque de Clermont, não estava se
escondendo.
Sim, ele se retirara para a biblioteca no segundo andar da velha prefeitura,
tão longe da multidão que o barulho da conversa não passava de um burburinho.
Sim, não havia mais ninguém por perto. E sim, ele estava atrás de pesadas
cortinas de veludo azul-acinzentadas, e tivera que arrastar o pesado sofá de
couro marrom com botões para �car naquela posição.
No entanto, não �zera tudo isso para se esconder, mas porque – e essa era
uma parte essencial da linha de raciocínio um tanto ilusória de Robert –, naquela
estrutura centenária de gesso e carpintaria, apenas um dos painéis das janelas se
abria, e era justamente o que �cava atrás do sofá.
Então ali estava ele, com uma cigarrilha entre os dedos, enquanto a fumaça
se dissipava no ar frio de outono do lado de fora. Robert não estava se
escondendo; queria apenas proteger aqueles livros antigos do fumo.
Ele até acreditaria nisso tudo se, de fato, fosse fumante.
Ainda assim, olhando pelos painéis texturizados de vidro envelhecido,
conseguia avistar a igreja de pedra escurecida logo à frente, do outro lado da rua.
A luz dos lampiões formava sombras imóveis na calçada. Folhetos haviam sido
empilhados em frente às portas, mas uma brisa os espalhara pela rua,
carregando-os para poças d’água.
Robert estava fazendo uma bagunça. Uma baita e gloriosa bagunça. Ele
sorriu e bateu a ponta da cigarrilha intocada na abertura da janela, e a cinza caiu
num rodopio até o calçamento de pedra.
O suave rangido de uma porta se abrindo o alarmou. Ele deu as costas à
janela ao som de algo arranhando o assoalho. Alguém subira a escada e entrara
na biblioteca. Eram passos leves – talvez de uma mulher, ou de uma criança.
Curiosamente, também eram hesitantes. Quem quer que se dirigisse à biblioteca
no meio de um evento musical tinha motivos para isso. Um encontro
clandestino, talvez, ou a procura por um parente desaparecido.
De sua posição privilegiada atrás das cortinas, Robert conseguia enxergar
apenas uma pequena parte do cômodo. A recém-chegada, quem quer que fosse,
estava se aproximando, andando com hesitação. Não era possível vê-la – de
alguma forma, Robert tinha certeza de que se tratava de uma mulher –, mas ele
podia ouvir seus passos leves e investigativos, que paravam de vez em quando
como se para analisar os arredores.
A moça não chamou ninguém nem fez uma busca meticulosa. Não parecia
estar atrás de um amante secreto. Em vez disso, seus passos percorreram o
cômodo num círculo.
Robert levou um instante para perceber que havia esperado muito para se
anunciar. “Arrá!”, conseguiu imaginar-se exclamando, saltando de trás das
cortinas. “Eu estava admirando o gesso. Muito bem-feito ali atrás, sabia?”
Ela pensaria que ele era louco. E, até aquele momento, ninguém havia
chegado a essa conclusão. Então, em vez de falar alguma coisa, Robert jogou a
cigarrilha pela janela. Ela girou pelo ar, com a ponta laranja brilhando, até cair
numa poça d’água e se apagar.
As únicas coisas do cômodo que ele conseguia ver eram parte de uma estante
de livros, o encosto do sofá e a mesinha ao lado, na qual havia um tabuleiro de
xadrez. A partida estava pela metade. Do pouco que Robert se lembrava das
regras, as pretas estavam ganhando. Ele encolheu-se contra a janela conforme a
pessoa se aproximava.
A moça entrou no campo de visão dele.
Não era uma das jovens que Robert conhecera mais cedo no saguão. Aquelas
eram beldades, ansiosas para chamar a atenção dele. E a moça em questão –
quem quer que fosse – não era nenhuma beldade. Os cabelos escuros estavam
presos num coque baixo e austero. Os lábios eram �nos, e o nariz, pontudo e um
tanto longo.Ela trajava um vestido azul-escuro com detalhes da cor do mar�m –
sem babados, sem laços e de tecido simples. Até o corte do vestido inspirava
seriedade: uma cintura tão apertada que Robert se perguntou como ela
conseguia respirar, e mangas que desciam dos ombros até os pulsos sem um
centímetro de tecido sobressalente para suavizar o todo.
Ela não viu Robert atrás da cortina. Estava com a cabeça virada para o lado e
observava o jogo de xadrez da mesma forma que um membro do Movimento
pela Temperança olharia para um barril de conhaque: como se fosse um mal que
precisava ser erradicado com orações e louvores – e, se isso falhasse, com
intervenção militar.
Ela deu um passo incerto, depois outro. Em seguida, pegou um par de óculos
na bolsinha de seda que levava pendurada no pulso.
Os óculos deveriam ter lhe dado uma aparência ainda mais severa. Mas,
assim que os colocou, sua expressão �cou mais suave.
Robert a avaliara mal. Ela não havia estreitado os olhos com desdém: estava
apenas tentando enxergar. O que vira na expressão dela não era severidade, mas
algo completamente diferente – algo que ele não conseguia decifrar. A moça
pegou o cavalo preto e o girou entre os dedos. Robert não via naquelas peças
nada digno de tamanha atenção. Eram de madeira maciça, esculpidas de
qualquer jeito. Ainda assim, a moça continuava a estudar o cavalo com os olhos
bem abertos e brilhantes.
Então, inexplicavelmente, levou a peça aos lábios e a beijou.
Petri�cado, Robert observou em silêncio. Era quase como se estivesse
interrompendo um encontro entre uma mulher e seu amante. Aquela era uma
mulher que guardava segredos, sem intenção de compartilhá-los.
A porta da biblioteca rangeu ao ser aberta de novo.
A mulher arregalou os olhos, nervosa. Olhou ao redor freneticamente e, na
pressa de se esconder, pulou por cima do sofá, caindo a meio metro de Robert
num amontoado desonroso de tecido. Mas nem sequer o viu. Apenas se
encolheu, arfando e puxando a saia para trás do encosto de couro.
Ainda bem que Robert havia puxado o sofá uns quinze centímetros para a
frente. Do contrário, a moça e sua enorme saia nunca teriam cabido no espaço
atrás dele.
Ela ainda segurava a peça com força, e a en�ou violentamente embaixo do
sofá.
Dessa vez, passos pesados ressoaram no cômodo.
– Minnie? – chamou a voz de um homem. – Srta. Pursling? Está aqui?
Ela torceu o nariz e se encolheu contra a parede, sem dizer palavra.
– Gad, meu amigo. – Era outra voz que Robert não reconheceu, com um tom
jovial e um pouco afetado pela bebida. – Essa sua moça não me causa inveja
nenhuma.
– Não fale mal da minha quase noiva – retrucou a primeira voz. – Você sabe
muito bem que ela é perfeita para mim.
– Aquela ratinha tímida?
– Ela vai cuidar bem da casa. Me dar conforto. Cuidar das crianças. E não vai
reclamar de amantes.
Dobradiças rangeram – o som inconfundível de alguém abrindo uma das
portas de vidro que protegiam as estantes de livros.
– O que está fazendo, Gardley? – perguntou o bêbado. – Vendo se ela está
entre esses tomos alemães? Não acho que ela caiba aí. – Uma risada desagradável
acompanhou a fala.
Gardley. Não podia ser o velho Sr. Gardley, que era dono de uma destilaria –
não com aquela voz jovial. Devia ser o Sr. Gardley mais novo. Robert já o vira de
longe – um cavalheiro pouco notável, de altura mediana, cabelos castanho-claros
e feições que faziam Robert se lembrar vagamente de outras cinco pessoas.
– Pelo contrário – falou o jovem Gardley. – Acho que ela vai caber muito
bem. Como esposa, a Srta. Pursling será como esses livros. Quando eu quiser
pegá-la para ler, estará lá. Quando eu não quiser, �cará esperando pacientemente
no lugar em que a deixei. Será uma esposa conveniente para mim, Ames. Além
disso, minha mãe gosta dela.
Robert não se recordava de conhecer alguém chamado Ames. Deu de
ombros e olhou para baixo para ver como a moça – que deduziu ser a Srta.
Pursling – reagira àquela revelação.
Ela não parecia surpresa nem chocada com o comentário pouco romântico
do quase noivo. Na verdade, parecia conformada.
– Terá que levá-la para a cama, sabe disso – comentou Ames.
– Verdade. Mas será com pouca frequência, graças a Deus.
– Ela é uma ratinha. Como todos os roedores, imagino que vai soltar um
gritinho quando cutucá-la.
Essa fala foi seguida por uma pancadinha.
– Ai! – exclamou Ames.
– É da minha futura esposa que você está falando – repreendeu Gardley.
Talvez o cavalheiro não fosse um homem tão ruim assim.
– Sou o único que pode pensar em cutucá-la – continuou ele.
A Srta. Pursling apertou os lábios numa linha �na e olhou para cima, como
se implorasse aos céus. Mas dentro da biblioteca não havia céus aos quais
implorar. E quando ela levantou a cabeça e seu olhar alcançou a fresta entre as
cortinas…
Seus olhos encontraram os de Robert, e �caram bem arregalados e redondos.
Ela não berrou nem arfou. Nem ao menos se mexeu. Apenas �cou encarando-o
com uma expressão ardente, com uma acusação silenciosa e as narinas dilatadas.
Não havia nada que Robert pudesse fazer além de erguer a mão e acenar.
Ela retirou os óculos e se virou em um gesto tão desdenhoso, de maneira tão
majestosa, que Robert teve que olhá-la com atenção outra vez para se certi�car
de que a moça estava mesmo sentada em um amontoado de saia aos seus pés.
Daquele estranho ângulo, ele conseguia ver dentro do decote do vestido – uma
parte do corpo que não lhe parecia nada severa, e sim muito macia…
Deixe isso para depois, repreendeu-se, erguendo o olhar alguns centímetros.
Como a Srta. Pursling havia virado o rosto, ele viu pela primeira vez uma cicatriz
discreta na bochecha esquerda dela, como uma teia de aranha branca e
emaranhada com linhas entrecruzadas.
– Aonde quer que sua ratinha tenha ido, não está aqui – disse Ames. – Deve
estar na sala de descanso da milady. Vamos voltar para a festa. Diga à sua mãe
que falou com ela na biblioteca.
– Sim – respondeu Gardley. – E nem preciso mencionar que ela não estava
presente na conversa. Mesmo que estivesse aqui, ela não teria dito nada.
Passos retrocederam. A porta tornou a ranger e os homens foram embora.
A Srta. Pursling não olhou para Robert quando eles saíram, nem mesmo
para reconhecer a presença dele com uma expressão de desdém. Em vez disso,
�cou de joelhos, fechou a mão em punho e socou vigorosamente o encosto do
sofá – uma vez, depois outra, usando tanta força que o móvel foi para a frente
com o baque, reforçado pelos 45 quilos da moça.
Antes que ela pudesse dar um terceiro soco, Robert segurou-lhe o pulso.
– Ora, vamos – falou. – A senhorita não deve se machucar por causa daquele
homem. Ele não merece.
Ela o encarou com os olhos bem abertos.
Robert não entendia como qualquer um poderia chamá-la de tímida. Ela
transbordava rebeldia. Ele soltou o braço dela antes que a fúria que a possuía
viajasse pelo contato e o consumisse. Já tinha bastante raiva por conta própria.
– Não se preocupe – respondeu ela. – Pelo jeito, não sou capaz de me conter.
Robert quase deu um pulo. Não sabia que tipo de tom de voz esperara dela –
penetrante e severo, como a aparência sugeria? Talvez tivesse imaginado um
tinido agudo, tal qual a ratinha que diziam ser. Mas a voz era baixa, calorosa e
intensamente sensual. Era o tipo de voz que o fez perceber de repente que a moça
estava ajoelhada à sua frente, com a cabeça quase na altura de sua virilha.
Deixe isso para depois também.
– Sou uma ratinha. Todos os roedores soltam um gritinho quando
cutucados. – Ela tornou a socar o sofá. Ia machucar os dedos se continuasse. –
Você vai me cutucar também?
– Não.
Por sorte, pensamentos não contavam; caso contrário, todos os homens
queimariam no inferno pela eternidade.
– O senhor sempre �ca escondido atrás de cortinas, ouvindo conversas
particulares?
Robert sentiu a ponta das orelhas queimar.
– A senhorita sempre pula atrás de sofás quando escuta seu noivo se
aproximando?
– Pulo – respondeu ela, desa�adora. – O senhor não ouviu? Sou como um
livro que alguém perdeu. Um dia, um dos criados dele vai me encontrarcheia de
pó durante a faxina de primavera. “Ah”, o mordomo vai dizer. “É aqui que a Srta.
Wilhelmina veio parar. Tinha até me esquecido dela.”
Wilhelmina Pursling? Que nome medonho.
Ela respirou fundo.
– Por favor, não conte a ninguém sobre isso. Sobre nada disso. – Ela fechou
os olhos e pressionou-os com os dedos. – Só vá embora, seja quem for.
Ele afastou as cortinas e contornou o sofá. A alguns metros, nem conseguia
vê-la. Só conseguia imaginá-la encolhida no chão, furiosa a ponto de ser levada
às lágrimas.
– Minnie – falou.
Não era adequado chamá-la por um apelido tão íntimo. E ainda assim queria
senti-lo na própria língua.
Ela não respondeu.
– Eu lhe dou vinte minutos – avisou ele. – Se não a vir lá embaixo depois
desse tempo, virei atrás da senhorita.
Por um momento, não houve resposta. Então:
– A beleza do casamento é o direito que me dá à monogamia. Basta um
homem para decretar aonde posso ou não posso ir, não acha?
Robert encarou o sofá, confuso, até perceber que ela pensara tratar-se de uma
ameaça de tirá-la dali arrastada.
Ele era bom em muitas coisas. Comunicar-se com mulheres não era uma
delas.
– Não foi isso que eu quis dizer – murmurou. – É que…
Ele voltou ao sofá e olhou por cima do encosto de couro.
– Se uma mulher importante para mim estivesse escondida atrás de um sofá,
eu gostaria que alguém dedicasse um tempinho a garantir que ela está bem.
Houve uma longa pausa. Então veio o som de tecido farfalhando e a moça
olhou para Robert. Os cabelos estavam se soltando daquele coque austero; os �os
emolduravam o rosto dela, deixando seus traços mais suaves e destacando a
palidez da cicatriz. Nada bonita, mas… interessante. E ele poderia ouvi-la falar a
noite toda.
Ela o encarou, confusa.
– Ah – disse sem emoção. – Está tentando ser gentil.
Era como se a possibilidade nunca tivesse lhe ocorrido. Ela soltou um suspiro
e balançou a cabeça.
– Mas está equivocado. Veja bem, aquilo – ela apontou para a porta por onde
seu quase noivo havia se retirado – é o melhor que posso esperar. Busco algo do
tipo há anos. Assim que conseguir tolerar a ideia, me casarei com ele.
Nenhum traço de sarcasmo marcava sua voz. Ela se levantou. Com uma mão
hábil, ajeitou os cabelos, prendendo-os com os grampos, e endireitou a saia até
recobrar o decoro completamente.
Só então se agachou, procurando embaixo do sofá até encontrar o cavalo que
havia jogado ali. Então examinou o tabuleiro de xadrez, inclinou a cabeça para o
lado e em seguida, com muito, muito cuidado, devolveu a peça ao devido lugar.
Enquanto Robert a observava, tentando encontrar sentido no que ela havia
dito, a Srta. Pursling saiu pela porta.
Minnie desceu a escada que levava da biblioteca ao pátio escuro do lado de
fora do saguão principal com o coração ainda acelerado. Por um momento,
achara que o homem começaria a interrogá-la. Mas não, ela conseguira escapar
sem que nenhuma pergunta fosse feita. Tudo estava exatamente como sempre:
silencioso e maçante. Bem do jeito que ela precisava. Ali, não havia nada a temer.
As tênues notas do concerto musical, executado de forma medíocre por um
quarteto de cordas local de habilidades ordinárias, mal eram ouvidas no pátio. A
escuridão pintava o espaço em tons de cinza. Não que fosse muito colorido
durante o dia; havia apenas o azul-acinzentado do piso de ardósia e o gesso
envelhecido que cobria as paredes de madeira. Algumas ervas daninhas
persistentes haviam crescido nos espaços entre as pedras do piso, mas secaram
de forma que só restavam �apos amarronzados. Não havia quase nenhuma cor
no azul-marinho profundo da noite. Algumas silhuetas escuras estavam
próximas à porta do saguão, com taças de ponche na mão. Tudo ali fora era
cinzento – visão, audição e todas as emoções turbulentas de Minnie.
A apresentação musical atraíra um número impressionante de pessoas. O
bastante para lotar a sala principal, que estava com todos os assentos ocupados, e
deixar algumas pessoas em pé nos cantos. Era estranho que as notas fracas
daquele Beethoven mal executado tivessem atraído tanta gente, mas o público
comparecera em peso. Um olhar para aquela multidão fez com que Minnie se
retirasse, enjoada. Não podia entrar ali.
Talvez pudesse �ngir que não estava passando bem.
Na verdade, não precisaria �ngir.
Mas…
Uma porta se abriu atrás dela.
– Srta. Pursling. Aí está a senhorita.
Assustada, Minnie se virou rapidamente.
A prefeitura de Leicester era um prédio antigo – uma das poucas estruturas
de madeira do período medieval que não sucumbira a um incêndio ou algo
similar. Com o passar dos séculos, acumulara várias utilidades. Era salão de
reuniões para eventos como aquele, sala de audiências para o prefeito e os
vereadores, depósito para os poucos itens cerimoniais da cidade. Um dos
cômodos até foi convertido em celas para prisioneiros. Um lado do pátio era de
tijolos em vez de gesso e abrigava a casa do chefe de polícia.
Naquela noite, porém, o saguão principal estava em uso – motivo pelo qual
Minnie não esperava encontrar alguém do gabinete do prefeito.
Uma �gura robusta avançava a passos rápidos e con�antes.
– Lydia está procurando a senhorita faz meia hora. E eu também.
Aliviada, a Srta. Pursling soltou a respiração. George Stevens era um homem
decente. Melhor do que aqueles dois patifes dos quais escapara. Ele era o capitão
da guarda civil e noivo da melhor amiga dela.
– Capitão Stevens – cumprimentou ela. – Tem muita gente lá dentro. Eu só
precisava de um pouco de ar.
– Precisava, é?
Ele se aproximou. A princípio, não passava de uma sombra. Depois chegou
perto o bastante para que ela conseguisse distinguir, sem os óculos, seus
contornos familiares: o bigode jovial, as costeletas pomposas.
– Não gosta de multidões, não é? – O tom de voz dele era solícito.
– É – con�rmou ela.
– Por que não?
– Nunca gostei.
Mas, na verdade, já gostara. Tinha uma vaga lembrança de estar cercada por
homens chamando seu nome, querendo falar-lhe. Na ocasião, não havia
nenhuma possibilidade de �erte – Minnie tinha oito anos e, para completar,
estava vestida como um garoto –, mas já houvera um tempo em que a energia de
uma multidão a animava em vez de lhe embrulhar o estômago.
O capitão Stevens postou-se ao lado dela.
– Também não gosto de framboesas – confessou Minnie. – Deixam minha
garganta coçando.
Mas ele a observava, e as pontas do bigode pendiam com o peso da expressão
carregada em seu rosto. Esfregou os olhos, como se não con�asse no que via.
– Vamos lá – disse Minnie com um sorriso. – O senhor me conhece há
muitos anos e sabe que nunca gostei de aglomerações.
– Verdade – concordou ele, pensativo. – Mas veja, Srta. Pursling, acontece
que na semana passada eu estava em Manchester a trabalho.
Não reaja. O instinto fazia parte de seu ser. Minnie manteve a leveza do
sorriso e continuou a ajeitar a saia, sem �car paralisada de medo. Mas havia algo
bradando em seus ouvidos, e seu coração martelava.
– Sei – ouviu-se dizendo.
A voz soava mais alegre do que deveria, e muito insegura.
– Meu antigo lar. Quanto tempo… O que achou de lá?
– Achei estranho. – Ele se aproximou mais um passo. – Visitei o antigo bairro
em que Caroline, sua tia-avó, morava. Minha intenção era só jogar conversa fora,
dar notícias suas a quem quer que se lembrasse da senhorita quando criança.
Mas ninguém se lembrava de a irmã de Caroline ter se casado. E quando
pesquisei, não havia certidão de nascimento sua no registro paroquial.
– Que esquisito. – Minnie encarava a calçada. – Não sei onde registraram
meu nascimento. Terá que perguntar à minha tia Caroline.
– Ninguém tinha ouvido falar da senhorita. Morou mesmo no bairro em que
ela cresceu, não morou?
O vento passou pelo pátio com um assobio lúgubre. O coração de Minnie
batia descompassadamente. Agora não. Agora não. Não se desespere agora.
– Nunca gostei de multidões – ouviu-se responder. – Nem mesmo quando
era criança. As pessoas não me conheciam.
– Humm.
– Eu era tão jovem quando me mudei que temo não poder ajudá-lo. Quase
não lembro de Manchester. Já minha tia Caroli…– Mas não é sua tia que me preocupa – interrompeu ele lentamente. – A
senhorita sabe que manter a ordem é parte das minhas obrigações.
Stevens sempre fora um homem diligente. Embora a guarda civil tivesse sido
requisitada uma única vez no ano anterior – para ajudar a combater um incêndio
–, o jovem levava sua função bem a sério.
Minnie não precisava mais �ngir estar confusa.
– Não estou entendendo. O que isso tem a ver com manter a ordem?
– Estamos vivendo tempos perigosos – disse ele. – Eu era parte da guarda
civil que derrotou as manifestações cartistas em 1842, e nunca esqueci como elas
começaram.
– Ainda não entendo o que isso tem a ver…
– Lembro bem dos dias antes de a violência irromper – continuou ele,
secamente. – Sei como começa. Começa quando alguém diz aos trabalhadores
que devem se expressar em vez de continuar a fazer o que mandam. Reuniões.
Conversas. Folhetos. Ouvi o que a senhorita disse como membro da Comissão de
Higiene dos Trabalhadores, Srta. Pursling. E não gostei. Não gostei nem um
pouco.
O tom frio da voz dele fez um arrepio subir pelos braços de Minnie.
– Mas eu só disse que…
– Sei o que a senhorita disse. Na época, achei que fosse apenas ingenuidade.
Mas agora sei a verdade. Não é quem diz ser. Está mentindo.
Os batimentos do coração de Minnie se aceleraram ainda mais. Ela olhou
para a direita, para o pequeno grupo a alguns metros. Uma das garotas estava
bebendo ponche e dando risadinhas. Se Minnie gritasse, certamente…
Mas gritar não ajudaria em nada. Por mais impossível que parecesse, alguém
descobrira a verdade.
– Posso não ter certeza – acrescentou Stevens –, mas realmente sinto que algo
está errado. A senhorita é parte disso aqui. – Ele empurrou um pedaço de papel
para ela, quase batendo em seu peito.
Ela pegou o papel por re�exo e o ergueu à luz que vinha das janelas, para
conseguir ler. Por um segundo, perguntou a si mesma para o que estava olhando
– uma reportagem? Várias já haviam sido publicadas, mas a textura do papel não
era de jornal. Talvez fosse sua certidão de nascimento. Se fosse, isso seria bem
ruim. Ela pegou os óculos no bolso.
Quando en�m conseguiu ler, quase gargalhou de alívio. De todas as coisas de
que ele poderia tê-la acusado – de todas as mentiras que ela já havia contado,
começando pelo próprio nome –, Stevens achava que ela estava envolvida com
aquilo? Ele lhe entregara um folheto do tipo que aparecia nas paredes das
fábricas e era deixado em pilhas desordenadas na porta da igreja.
“TRABALHADORES”, dizia a primeira linha em letras garrafais. E logo
abaixo: “ORGANIZEM-SE, ORGANIZEM-SE, ORGANIZEM-SE!!!!!”
– Ah, não – disse ela. – Nunca vi isso antes. E realmente não é do meu feitio.
Para começo de conversa, Minnie estava certa de que qualquer frase que
usasse mais pontos de exclamação do que palavras era uma abominação.
– Estão espalhados pela cidade – rosnou Stevens. – Alguém está por trás
disso. – Ele ergueu um dedo em riste. – A senhorita se ofereceu para fazer os
pan�etos da Comissão de Higiene dos Trabalhadores. Isso lhe dá uma desculpa
perfeita para visitar todas as grá�cas da cidade.
– Mas…
Ele ergueu mais um dedo.
– Foi a senhorita que sugeriu que os trabalhadores começassem a se envolver
com a Comissão.
– Apenas sugeri que fazia sentido perguntar a eles sobre o acesso a bombas
de água. Se não perguntássemos, teríamos tido todo aquele trabalho só para
descobrir que não melhorou em nada a saúde deles. É bem diferente de sugerir
que se organizem.
Um terceiro dedo.
– Suas tias-avós estão envolvidas naquela cooperativa medonha de alimentos,
e sei que a senhorita foi essencial para organizá-la.
– Uma transação comercial! Por que o local onde vendemos nossos repolhos
teria alguma importância?
Stevens apontou para ela com os três dedos.
– É um padrão. A senhorita simpatiza com os trabalhadores e não é quem diz
ser. Alguém está ajudando-os a imprimir os folhetos. Deve achar que sou um
tolo para assiná-los deste jeito.
Ele apontou para o rodapé do folheto. Havia um nome ali. Detrás dos óculos,
Minnie estreitou os olhos para ler.
Um nome não. Um pseudônimo.
“De minimis”, leu. Nunca aprendera latim, mas sabia um pouquinho de
italiano e bastante de francês, e imaginou que signi�cava algo como “ninharias”.
Algo pequeno.
– Não entendi. – Ela balançou a cabeça vagamente. – O que isso tem a ver
comigo?
– De. Minnie. Mis. – Ele enfatizou cada sílaba, dando ao nome dela uma
reviravolta perversa. – Deve mesmo achar que sou tolo, Srta. Minnie.
Era uma lógica tão horrível, tão distorcida, que ela poderia ter caído na
gargalhada. Só que as consequências daquela piada não tinham graça.
– Não tenho provas – informou ele. – E, como sua amizade com minha
futura esposa é bem conhecida, não desejo vê-la humilhada publicamente e
acusada do crime de insurreição.
– Crime de insurreição! – ecoou ela, incrédula.
– Considere isso um aviso. Se continuar com isto – ele sacudiu o papel nas
mãos dela –, vou descobrir a verdade sobre suas origens. Vou provar que a
senhorita está por trás disso. E vou arruiná-la.
– Não tenho nada a ver com isso! – protestou Minnie, em vão.
Ele já estava indo embora.
Ela fechou a mão em punho, amassando o folheto. Que rumo terrível os
acontecimentos tinham tomado. Stevens estava partindo de uma premissa falsa,
mas não importava como encontrara aquela pista. Se a seguisse, descobriria
tudo. O passado de Minnie. Seu verdadeiro nome. E, acima de tudo, seus
pecados – que, apesar de terem sido enterrados fazia bastante tempo, não
estavam mortos.
De minimis.
A diferença entre a ruína e a segurança era tênue. Muito tênue, mas ela não
estava disposta a atravessá-la.
S
Agradecimentos
empre há mais pessoas para agradecer do que consigo me
lembrar. Como sempre, Tessa Dare, Carey Baldwin e Leigh LaValle
forneceram apoio emocional e ajuda na escrita desta história. As Northwest
Pixies (e algumas amigas extras) ajudaram a me deixar envergonhada o
su�ciente para que eu cumprisse as metas de palavras diárias, com menções
especiais a Rachel Grant (pela xícara de café mágica) e Darcy Burke e
Natasha Tate, por conversarem comigo sobre algumas partes do meio.
Sempre �co grata pela minha equipe incrível: Robin Harders e Martha
Trachtenberg pela edição, Christine Dixon e Tina Marie pela revisão, e
Kristin Nelson e Lori Bennet que estão me ajudando a alcançar ainda mais
leitores.
E também há aqueles que forneceram apoio de tantas formas – meu
marido e minha família, meu cachorro e meu gato (sim, até o gato); as
Pixies; o Laço Que Não Deve Ser Nomeado.
E, acima de tudo, obrigada aos meus leitores. Seu apoio e entusiasmo são
tudo para mim.
Sobre a autora
Courtney Milan já teve muitas ocupações: foi programadora,
cientista e advogada. Mas seu trabalho preferido é escrever histórias de
amor.
Seus livros já �guraram na lista de mais vendidos do e New York
Times e do USA Today e ela foi �nalista do prêmio RITA.
Atualmente mora na região das Montanhas Rochosas, nos Estados
Unidos, com o marido, um cachorro maltreinado e um gato muito arisco.
CONHEÇA OS OUTROS LIVROS DE COURTNEY MILAN
OS EXCÊNTRICOS
O caso da governanta (apenas e-book)
O segredo da duquesa
O desa�o da herdeira
 
Para saber mais sobre os títulos e autores da Editora Arqueiro, 
visite o nosso site e siga as nossas redes sociais. 
Além de informações sobre os próximos lançamentos, 
você terá acesso a conteúdos exclusivos 
e poderá participar de promoções e sorteios.
editoraarqueiro.com.br
       
http://www.editoraarqueiro.com.br/
http://www.instagram.com/editoraarqueiro
http://www.facebook.com/editora.arqueiro
http://www.twitter.com/editoraarqueiro
http://www.youtube.com.br/editoraarqueirotv
https://www.tiktok.com/@editoraarqueiro
	Créditos
	Capítulo um
	Capítulo dois
	Capítulo três
	Capítulo quatro
	Capítulo cinco
	Capítulo seis
	Capítulo sete
	Capítulo oito
	Capítulo nove
	Capítulo dez
	Capítulo onze
	Consequências & começos
	Agradecimentos
	Sobre a autora
	Sobre a Arqueirode proteger o próprio corpo com os braços. Ainda assim, forçou-se a
�car sentada ali, com as costas bem retas. Não morreria de frio, apenas �caria
bem, bem gelada. Nada que uma xícara de chá quente não resolvesse quando ela
voltasse para os aposentos da irmã naquela noite.
Olhou de soslaio para o pequeno grupo que havia se aglomerado no
passadiço na frente da casa do duque de Clermont. Na calmaria do �m de tarde,
algumas criadas haviam surgido e estavam reunidas numa rodinha para encarar
Serena, pasmas. Sem dúvida sabiam que ela havia falado com Clermont. Serena
estava contando com os mexericos delas. A especulação envergonharia o homem
mais do que um simples relato da verdade, e sua única esperança era
envergonhá-lo. A especulação dava luz aos boatos, e os boatos geravam
reprovação.
Três criadas com aventais de babados estavam sussurrando entre si quando
um homem virou a esquina. Ele mal pareceu notá-las, mas o grupo o olhou uma
única vez e se dispersou, cada uma para sua respectiva casa, como galinhas
fugindo de um falcão.
Ele não parecia um aristocrata. Vestia um terno marrom de corte simples e
uma gravata com um nó nada so�sticado. O linho de suas roupas não era
daquele tom branco como a neve que os abastados insistiam em usar, e os
punhos da manga, embora limpos, haviam adquirido um tom menos respeitável
de mar�m, como acontecia com as roupas brancas após várias lavagens. Ele
parou na rua logo à frente de Serena e ergueu a cabeça para olhá-la nos olhos.
Serena passara três meses se perguntando onde havia errado – o que poderia
ter feito para evitar tal sina. Tinha refeito seus passos mil vezes, procurando o
engano.
Três meses antes, quando o duque a encontrara pela primeira vez, ela ainda
era fraca: abaixava os olhos para qualquer homem apenas porque ele era maior e
mais forte do que ela, mantinha silêncio meramente porque era inadequado
gritar. Estava cansada de ser fraca.
Havia �tado o duque nos olhos naquela manhã e �zera suas ameaças sem
recuar. Depois disso, ela era capaz de enfrentar qualquer coisa.
E esse outro homem não era um duque.
Ela encontrou o olhar dele. Não tenho medo de você, pensou. E, se o suor frio
na palma de suas mãos declarava o contrário, não havia por que dizer isso a ele.
Se Serena havia avaliado corretamente a qualidade mediana do tecido de seu
casaco, ele era apenas um trabalhador. Tudo naquele sujeito era mediano. Não
era muito alto nem muito baixo. Não era magro nem gordo. O melhor que ela
poderia imaginar alguém dizendo sobre ele era que se tratava de um homem
virulentamente razoável.
Parecia ser uma pessoa con�ável. O que era uma coisa ridícula de se pensar, é
claro. Ainda assim, Serena sustentou o olhar dele, sorriu e fez um aceno educado
e indiferente com a cabeça.
Ele atravessou a rua na direção dela.
Era tão medíocre quanto os arbustos ao redor da praça. Tinha um rosto
comum, tão familiar que poderia pertencer a qualquer um. O sorriso que abriu
para Serena era amigável e despretensioso.
Serena não respondeu à altura. Ela não era simpática, não era fácil e estava
cansada de ser um alvo. Olhou para ele com uma expressão severa – sua
sobrancelha erguida dizia “Não se atreva a desperdiçar meu tempo”.
Um homem tão comum como esse deveria ter recuado diante de tal
expressão. Mas ele se aproximou até estar ao lado do banco e, sem ao menos
pedir licença, sentou-se ao lado de Serena.
– Que dia bonito – comentou.
Sua voz era como seu rosto: mediana; nem muito aguda, nem muito grave. O
sotaque não era arrastado nem cheio de sílabas aristocráticas praticadas a uma
perfeição preguiçosa. Ao contrário, tinha um toque do norte da Inglaterra.
– É?
Não era um dia bonito. Serena já estava sentada ali fora havia tempo
su�ciente para seu nariz �car vermelho. E agora um homem desconhecido tinha
se sentado ao seu lado e puxava conversa.
Ela se virou para olhar para ele com a testa franzida.
Ele a observava com um sorrisinho intrigado.
– Creio que não exista um jeito bom de continuar.
Ela suspirou.
– Está aqui por causa de um boato, não é?
– Pode-se dizer que sim. – Ele �cou tenso, depois a olhou nos olhos. – A
propósito, sou Hugo Marshall.
Ele jogou essa apresentação e se recostou no assento, como se esperasse por
uma resposta.
Será que ele era um homem importante? Serena se lembrou das criadas
sumindo quando ele se aproximou. Talvez fosse um procurador, que podia levar
notícias. Ou talvez um mordomo, que impunha as regras. Era um tanto jovem
demais para ser um mordomo de Mayfair, mas, quem quer que fosse, não parecia
que iria embora.
Ela teria preferido uma mulher para começar o boato – achava mais fácil
conversar com mulheres. Mas talvez esse homem servisse.
– Srta. Serena Barton – apresentou-se por �m. – Suponho que todo mundo
queira saber por que estou aqui.
Ele deu de ombros e abriu outro daqueles sorrisos agradáveis para ela.
– Não me interessa nem um pouco o que todo mundo quer – respondeu
suavemente. – Mas gostaria, sim, que a senhorita satis�zesse minha curiosidade
pessoal. Os relatos que ouvi foram bem deturpados.
Ela não tinha nenhuma intenção de satisfazer nada dele. Sofrera
consequências por causa do próprio silêncio – consequências que a
envergonhavam. Mas agora usaria o silêncio a seu favor.
O duque de Clermont lhe dissera para �car quieta. Então era o que faria.
– Relatos? Que relatos? – perguntou Serena.
– Ouvi dizer que a senhorita foi amante de Clermont.
Ela ergueu uma única sobrancelha ao ouvir isso. O silêncio estaria a seu favor
ao não se empenhar em repudiar boatos que poderiam causar danos. Ela desejou
a Clermont muita alegria com seu silêncio.
O homem batucou os dedos no braço no banco, sustentando seu olhar.
– Ouvi dizer que a senhorita é governanta e que Clermont lhe ofereceu um
emprego para cuidar do �lho dele que ainda não nasceu. Quando ele voltou
atrás, a senhorita decidiu se sentar aqui fora para envergonhá-lo por não honrar
a palavra.
Isso era tão absurdo que ela não conseguiu conter uma risada.
O Sr. Marshall apenas suspirou.
– Não – disse. – Claro que não.
Se o boato que estava circulando era sobre uma quebra de contrato, Serena
precisava de uma nova estratégia. Mas apenas alisou a saia por cima dos joelhos.
– Nossa – falou. – Continue a me contar, por favor. O que mais ouviu?
Ele juntou as mãos enluvadas e olhou para baixo.
– Ouvi dizer que Clermont a forçou.
Essa última parte saiu num rosnado baixo.
Serena reprimiu um calafrio. Não se encolheu – nem diante da sombra que
passou sobre ela diante de tal fala.
– O senhor acredita nisso tudo?
– Não acredito em nada, não sem provas. Conte o que realmente aconteceu,
Srta. Barton, e talvez eu possa ajudar.
Ela havia contado tudo para o duque naquela manhã; ele tinha rido e lhe dito
para ir embora e �car de boca fechada. Já era a segunda vez que ele exigia
silêncio de Serena. Então ela havia prometido devolver esse silêncio a ele – um
silêncio acusador. Semanas sem �m desse silêncio, sentada praticamente na
porta da casa do duque enquanto todo mundo tentava imaginar o que estava
acontecendo. Se o boato ameaçasse chegar à esposa, ele teria que assumir a
responsabilidade.
Serena avaliou o Sr. Marshall. Mesmo com uma afabilidade sorridente, ele era
direto. Havia abordado o assunto sem rodeios e lhe perguntado diretamente. E,
considerando o modo como a estava observando, esperava uma resposta.
Numa segunda inspeção, Serena decidiu que ele não era tão medíocre quanto
havia julgado. O nariz dele tinha sido quebrado. Também fora colocado no lugar,
mas não muito bem, de modo que havia um calombo no meio. E, apesar de não
ser gordo, tinha ombros mais largos do que qualquer mordomo que Serena já
tinha visto.
Mas estava lançando um sorriso encorajador para ela, e o formigamento de
aviso na palma de suas mãos diminuiu até não restar quase nada. Esse homem
era con�ável. Bisbilhoteiro, talvez, mas con�ável.
– Sinto muito, Sr. Marshall – disse ela. – Não vou contar.
– Hã? – Ele parecia levemente intrigado. – Não vai contar nem para mim?
– Não me atrevo. – Ela abriuoutro sorriso para ele. – Peço desculpas por
atiçar sua curiosidade, mas sou incapaz de satisfazê-la. Tenha um bom dia.
Ele tirou o chapéu e esfregou os cabelos castanhos.
– Tem alguma necessidade de guardar segredo? Posso me encontrar com a
senhorita no meio da noite, se isso for necessário para resolver a questão. Eu
esperava que fosse algo simples.
O sorriso dela congelou.
– Não – ouviu-se dizer com dignidade. – Atualmente só me encontro com as
pessoas durante o dia. Não é minha intenção ser tão prudente assim, mas, se eu
revelar minhas mágoas, é possível que seja acusada de difamação de caráter.
Preciso tomar cuidado.
Isso casaria bem com os boatos – insinuar que ela era capaz de manchar o
nome do duque, sem jamais divulgar dados especí�cos.
Mas o Sr. Marshall não especulou. Ele só se recostou no banco de ferro, que
rangeu.
– Acha que Clermont a acusaria por falar comigo?
– Ah, com certeza não Clermont em pessoa. Mas o capanga dele… Quem
sabe o que ele faria para guardar o segredo do duque?
– O capanga dele – repetiu o Sr. Marshall, colocando o chapéu ao seu lado no
banco. – A senhorita não vai falar comigo porque tem medo do capanga de
Clermont.
– Certamente o senhor já ouviu falar nele. As pessoas o chamam de Lobo de
Clermont.
– As pessoas… o quê?
O Sr. Marshall se afastou.
– O Lobo de Clermont – repetiu Serena. – O duque o contrata para fazer
coisas, coisas que um homem qualquer, contido pela consciência, não faria.
O Sr. Marshall a encarou por algum tempo. Depois, muitíssimo devagar,
tomou o chapéu em mãos de novo e o girou.
– Ah. Esse Lobo de Clermont. A senhorita o conhece?
– Ah, conheço – respondeu ela.
Ele soltou um som educado de descrença.
– Apenas pelo que li nos jornais – explicou Serena. – Nunca o conheci
pessoalmente, claro. Mas ele tem a pior reputação do mundo. Era pugilista antes
de assumir os negócios do duque e, pelo que ouvi, cuida dos assuntos de Sua
Graça com toda a desenvoltura que é de esperar de alguém que costumava
ganhar a vida dessa forma. Dizem que é implacável. Consigo até imaginá-lo: um
homem atarracado e troncudo, com ombros largos e sem pescoço.
– Com ombros largos – repetiu suavemente o Sr. Marshall. – E sem pescoço.
– A mão dele se ergueu, como se tivesse vida própria, para tocar a gravata. –
Fascinante.
– Mas, se o senhor trabalha por aqui, já deve tê-lo visto. Estou certa?
Ele abriu outro daqueles sorrisos amigáveis.
– Está, sim – respondeu em um tom de voz suave. – A senhorita o descreveu
perfeitamente. Se eu estivesse no seu lugar, não gostaria de me indispor com ele.
Eu pensaria muito bem no que fazer. E, já que não quer me contar nada… – Ele
pegou o chapéu e o colocou na cabeça. – Eu lhe desejo um bom dia, Srta. Barton.
E muita sorte.
– Obrigada.
– Não me agradeça – retrucou ele. – Se vai enfrentar o Lobo de Clermont, a
sorte não vai lhe fazer bem algum. Só vai deixar a caçada dele interessante.
M
Capítulo dois
ais uma vez, a irmã de Serena tinha passado o dia todo em casa.
Ela sabia disso porque o casaco e as luvas de Frederica ainda
estavam acumulando pó na mesinha que �cava no hall de entrada. E chamar
aquela parte desordenadamente delimitada do corredor de “hall de entrada” era
um exagero. A palavra trazia à mente a imagem de pisos de mármore, lustres de
cristal e mordomos de libré que levavam os chapéus e as luvas.
Ali, havia apenas a mesinha bamba de madeira e a cal amarelada de uma casa
velha que, embora já tivesse sido grandiosa, naquele momento mal passava de
um cortiço para mulheres que haviam decaído até as profundezas da pobreza
re�nada. O ar era frio e tinha cheiro de bolor.
Mesmo assim, Serena tirou o próprio casaco e as luvas e as colocou ao lado
das de Freddy. Depois, espiou dentro da sala adjacente. Mal conseguia enxergar
as silhuetas dos móveis no cômodo escuro. Óleo e velas eram produtos caros
para quem sobrevivia com 15 libras por ano.
Freddy estava sentada diante da janela, erguendo o projeto de costura de
modo que o brilho fraco provindo do poste de luz de rua iluminasse o trabalho.
Tinham dito a Serena que ela era parecida com a irmã, mas a pele de Freddy era
pálida e seus cabelos eram alaranjados, como os da mãe das duas. Já Serena
puxara ao pai, com cabelos e pele mais escuros. Se havia qualquer semelhança
entre as duas, ela nunca tinha visto.
– Boa noite, querida – disse Freddy, distraída, enquanto passava a agulha
pelo tecido.
Serena se aproximou, �cando atrás dela.
– Boa noite. – Ela apoiou as mãos nos ombros da irmã e os apertou de leve. –
Você passou o dia trabalhando nisso, não foi? Seus ombros estão bem tensos.
– Só mais uns minutinhos.
– Vai estragar sua visão, costurando com uma luz tão fraca assim.
– Humm.
Freddy deu mais um ponto preciso.
Estava montando outra colcha de anéis entrelaçados. Não vendia o que
costurava – isso faria dela uma trabalhadora, e as damas, como Freddy explicava
com tanta frequência, não poderiam ser trabalhadoras. Em vez disso, doava as
colchas para instituições de caridade. Gastava quase metade de sua renda extra
com retalhos e novelos de segunda linha para os pobres merecedores. Passava
mais da metade do seu tempo tricotando cachecóis e costurando cobertores para
bebês. Não parecia justo para Serena. Sem nem sair dos próprios aposentos, a
irmã conseguia fazer com que ela se sentisse exausta e inadequada.
Ela suspirou.
– Você não precisa fazer isso, Freddy. Por que se força?
– Não me chame de Freddy. Sabe que eu odeio esse apelido. – Ela soltou o
trabalho. – Você também não precisa fazer isso. Serena, sabe que eu amo você,
mas não nascemos para fazer isso. Por que precisa incomodar Clermont? Ele já a
feriu uma vez. Por que dar a ele a chance de feri-la de novo?
A imagem de um quarto escuro situado abaixo de um beiral surgiu na mente
de Serena. Ela conseguia ver Clermont se abaixar para passar pela entrada
estreita demais, conseguia ouvir o som da porta se fechando atrás dele.
Estremeceu.
Queria provas de que não era o tipo de mulher que se encolhia nos cantos,
não importando o que lhe acontecesse. Queria superar esse fardo complexo de
vergonha, confusão e raiva.
Ela apoiou a mão na barriga ainda lisa. Já tinha problemas su�cientes para
enfrentar.
– Eu quero justiça. – As palavras saíram de sua boca num tom monótono,
mas, ainda assim, eram a�adas. Bem a�adas. – Quero mostrar que ele não pode
vencer. – Seus dedos se curvaram de anseio. – Que ele não pode simplesmente…
Freddy fungou com desdém.
– Temos o su�ciente para sobreviver – falou, como se o dinheiro pudesse
substituir a honestidade. – Fique comigo. Eu sempre disse que você podia �car.
Mas não, você tinha que sair por aí, brincando de governanta, quando nos
deixaram recursos que durariam a vida toda, se economizássemos.
– Só nos deixaram 15 libras por ano – protestou Serena.
Era o su�ciente para não morrerem de fome, para terem um teto sobre a
cabeça. Mas, a cada ano, as despesas aumentavam. Não era preciso muita
premeditação para enxergar que, em 20 anos, os gastos ultrapassariam a renda.
– Mas – continuou Freddy com o sermão – você tinha que querer mais. Você
sempre quis mais. E viu no que isso deu? Justiça não enche a barriga de ninguém.
Não. Mas pelo menos ela não �caria de braços cruzados. Serena abriu o
punho que havia cerrado junto ao corpo.
– A propósito – perguntou Freddy mais casualmente –, no que é que isso
deu?
– Na falta de emprego – vociferou Serena. – Sem a menor chance de uma
carta de referência.
– Todos os seus planos grandiosos – disse Freddy, meio repreendendo, meio
reconfortando – não deram em nada. É melhor não sonhar, querida. Se não
sonhar, não haverá nada que possam tirar de você.
Covardia pura, isso, sim. Freddy �cava a�ita quando tinha que atravessar a
rua para comprar leite. Quando fora se encontrar com Serena no pátio onde a
diligência a havia deixado, estava tremendo, com os lábios brancos. Havia
reclamado de dores no peito por todo o caminho até chegarem em casa. Freddy
não lidava bem com mudanças, e nada mudava tão frequentemente quanto o
mundo dolado de fora.
Havia um motivo para Serena ter aberto mão de sua parcela da herança do
pai delas. Freddy não teria como sobreviver com a metade a que tinha direito, e
era incapaz de compensar o que faltava.
– Todos os seus planos grandiosos – repetiu Freddy com gentileza –, e aqui
está você. Sem nada. Menos do que nada.
– Não – retrucou Serena intensamente. – Não… não sem nada.
– Com pesadelos e um bebê a caminho.
Serena manteve os olhos bem abertos. Suas mãos estavam tremendo. Ela as
forçou a �carem imóveis, apertando-as contra a saia até �carem estáveis.
Imaginou aquela centelha de vida crescendo dentro de seu corpo, sendo gestada
junto à sua fúria amarga. Às vezes, temia que toda essa raiva fria e trêmula fosse
comer a criança viva. Isso não vai acontecer depois que eu ganhar. Depois, estarei a
salvo e nunca mais vão me fazer sofrer.
– Eu já lhe disse – a�rmou ela. Aos próprios ouvidos, sua voz parecia vir de
um lugar bem longe. – Não tenho pesadelos. Não tenho tempo para ter medo de
nada.
Em seu último emprego, os Wolvertons haviam adquirido um microscópio
para a educação dos �lhos sobre o mundo natural. O instrumento aumentava
tudo. Às vezes, a lembrança que passava pelos sonhos de Serena parecia uma
daquelas imagens ampliadas. As bordas dançavam, balançando com o efeito
cromático de uma auréola escura e sombria. Serena tinha a impressão de estar
olhando para algo bem pequeno e muito longe. Tão distante que era como se não
estivesse acontecendo.
Ela havia se sentido tão impotente naquele momento, tão completamente
sem recursos. Deveria ter gritado. Deveria ter batido na cabeça do duque.
Deveria ter lutado. Na lembrança daquela noite, era seu próprio silêncio que a
ridicularizava mais do que tudo.
Ela não tinha gritado e, por causa disso, se sentia calada desde então.
Freddy apenas suspirou.
– Quando você estiver pronta para desistir – falou –, estarei aqui. Mas não sei
o que você espera conseguir, exceto atrair aquele lobo terrível para cima de nós.
A isso, pelo menos, Serena podia responder.
– Tenho informações �dedignas – falou – de que ele é bem ignorante. Só
músculos, nada de cérebro. No fundo, é simples: vou ser mais esperta do que ele.
– Ah, querida. – Freddy se inclinou e afagou a bochecha de Serena. –
Quando você fracassar, estarei aqui para juntar os pedaços. Como sempre.
Hugo tinha mais do que o su�ciente para fazer no dia seguinte. Ainda assim,
as lembranças da governanta o perseguiram durante todo o trabalho. Ele enviou
um homem para descobrir o que tinha realmente acontecido entre seu patrão e a
Srta. Serena Barton em Wolverton Hall. Se nem ela nem Clermont iriam lhe
contar, Hugo teria que descobrir por conta própria.
Passou a manhã toda tentando expulsar os pensamentos a respeito dela –
aqueles cabelos castanhos, presos num coque frouxo, aguardando para serem
soltos. Os olhos cinzentos e parados, como água imperturbada por tempo
demais. Suas mãos tranquilas e imóveis.
Quando a tarde chegou, ele declarou o trabalho como caso perdido e foi até a
janela. Havia tido vislumbres da Srta. Barton sentada no banco a manhã toda.
Naquele momento, ela estava imóvel como uma estátua, mal se mexendo, mal
respirando, e ainda assim, de alguma forma, completamente viva.
Não era o tipo de mulher que chamariam de linda. Bem-apessoada, sim. E
havia algo em seus olhos… Hugo balançou a cabeça. A aparência dela tinha
pouca relevância.
Estivera testando a moça no dia anterior, quando �zera alusão a ela ter sido
violentada. Era… repugnante, embora possível. Hugo não sabia ao certo o que
faria se ela con�rmasse seu receio. Ele havia feito muitas coisas em nome de
Clermont, mas nunca havia machucado uma mulher. Até sua consciência ferida
tinha limites.
Mas ela nem tinha se encolhido quando ele mencionara a possibilidade. Não
tivera nenhuma reação.
E ali estava o segundo problema. Quando ele havia se apresentado, imaginara
que a Srta. Barton o reconheceria pelo nome. Mas, pelo jeito, ela havia sabido
sobre a reputação dele apenas por meio das colunas de mexericos, e estas se
referiam a Hugo somente como o Lobo de Clermont. Não havia motivo algum
para alguém que acabara de chegar a Londres saber o nome dele.
Hugo deveria ter corrigido o equívoco dela.
Mas não tinha feito isso, e não sabia bem por quê. Só um instinto. A despeito
de todas as garantias indiferentes do duque, Hugo suspeitava que o que quer que
houvesse no cerne dessa desavença era um escândalo – capaz de acabar com
todo o trabalho dedicado de Hugo. Ele não tinha como consertar o problema se
não soubesse o que estava enfrentando, e, se ela chegasse ao ponto de temê-lo,
talvez Hugo nunca descobrisse a verdade – não até vê-la na primeira página de
um jornal.
Ainda assim, não gostava de mentir. Nem mesmo por omissão.
– O que quer que esteja tramando, Srta. Barton – sussurrou ele –, não vai me
custar minhas 500 libras. Trabalhei demais por elas.
A uns 45 metros do outro lado do painel de vidro, a moça virou a cabeça,
surpreendendo Hugo com o movimento repentino. Ele deu um passo para trás –
mas ela estava apenas observando um pássaro que havia pousado no chão à sua
frente.
Com um suspiro, Hugo empurrou o resto dos papéis para o lado. Não havia
por que perder mais tempo especulando, quando poderia estar descobrindo a
verdade.
Ele saiu pela porta dos criados e contornou a casa pelo estábulo com passos
pesados. A Srta. Barton ainda estava sentada lá quando ele chegou à praça. O
sorriso que ela abriu para ele era um pouco mais caloroso do que o do dia
anterior.
Havia algo nos olhos dela que atraiu sua atenção.
– Sr. Marshall – cumprimentou ela. – Cheguei a avisar que o senhor não seria
bem-sucedido em sua missão em busca de boatos, não foi?
– A senhorita me magoa. – Ele não sorriu, e a expressão dela tremulou de
incerteza. – Presume que eu apenas tenha interesse em boatos, quando, na
verdade, eu poderia simplesmente estar atrás da senhorita pelo puro prazer da
sua companhia.
Ela considerou isso, inclinando a cabeça para o lado. E então:
– Agora já cogitei essa possibilidade. E a rejeito. Vamos lá, Sr. Marshall. Diga
que não veio até aqui esperando ouvir alguma história sórdida.
– Então a senhorita admite que a história é sórdida.
Ela abanou um dedo para ele.
– Estou adivinhando seus pensamentos. Não há motivo para fugir da
verdade. Sei o que as pessoas andam dizendo sobre mim. Em segredo, estão me
julgando e já decidiram que não valho nem o que como. Todos vocês estão
dizendo isso.
Hugo deu de ombros.
– Nunca entendi essa expressão, dizer que alguém não vale o que come. Por
que alguém iria querer valer o que come? Eu como o que quero, não importa o
meu valor, e não julgaria a senhorita se agisse de forma semelhante.
Ela o encarou por um momento.
Ele já a estava enganando o bastante. Não tinha intenção alguma de mentir
para ela descaradamente.
– A senhorita não acredita em mim – falou. – Não é culpa minha, o
problema é a minha �sionomia. Faz com que todo mundo pense que sou bem
simpático, quando qualquer um que tenha juízo lhe avisaria para �car longe de
mim. Sou completamente implacável. Sem escrúpulos.
O sorriso que ela abriu para ele era condescendente.
– É mesmo? Bem, tenho certeza de que o senhor é um homem muito, muito
cruel. Estou morrendo de medo.
Hugo ergueu os olhos.
– Droga.
– Droga? – Ela escondeu um sorriso. – Certamente alguém tão cruel como o
senhor consegue escolher uma palavra mais ofensiva que essa na companhia de
mulheres.
– Eu não praguejo – explicou ele. – Na companhia de ninguém.
– Entendi. O senhor realmente é cruel.
Ele olhou para o céu, exasperado.
– Estou bem ciente de que esse fato isolado não ajuda a provar meu
argumento, que é este: se a senhorita quiser conversar comigo em con�dência, se
quiser me contar sua história sem medo de ser julgada, sou a pessoa certa.
Ninguém se atreveria a comentar boatos comigo.
Ela o encarou.
– O senhor é bem convincente – falou em um tom que insinuava que ela não
acreditava nisso nem um pouco. – Mas o senhor é… o quê, um contador?
Alguémque cuida das contas da casa?
Ele quase se engasgou.
– Pode-se dizer que sim – respondeu por �m. – Suponho que eu garanta que
as contas fechem no �m do dia.
Ela abanou a cabeça com um meneio indulgente.
– Tão implacável, e lhe sobram apenas contas para fazer. Pobrezinho. – Ela
sorriu para ele. – Eu me considero uma boa juíza de caráter. E o senhor é
con�ável.
Con�ável.
Havia tanto tempo que ninguém fazia pouco dele que Hugo se esquecera de
como era. Mas ali estava ela, desprezando-o.
Ele se sentou cuidadosamente na beirada do banco.
– Talvez eu seja con�ável – a�rmou ele. – Eu não praguejo. Também não
bebo álcool. – Ele inspirou profundamente. – Mas está sentada aqui por algum
motivo, Srta. Barton. É tão errado assim que eu queira ajudar?
Todo o humor latente no rosto dela sumiu.
– Ajudar – repetiu ela, sem expressão. – O senhor quer ajudar.
– Não é um problema qualquer. Uma dama não desa�a a ira de um duque
sem motivo. Não quero ver a senhorita sofrer.
– Por que não? – perguntou ela. – Se o senhor é tão implacável.
Ele abriu um sorriso contra a vontade.
– Ser implacável não signi�ca que eu avalie as opções disponíveis e escolha
alegremente a mais brutal. Signi�ca que resolvo problemas, custe o que custar.
Sou bom nisso.
– E então, pela bondade do seu coração, o senhor está oferecendo…
– Não – interrompeu ele, se inclinando na direção dela. – A senhorita
entendeu mal. Não há bondade alguma no meu coração, é isso que continuo
tentando lhe explicar. A senhorita é um problema. Pensar na senhorita aqui me
distrai do meu trabalho. Me faz imaginar…
Ela arfou e se afastou um pouco dele. Os olhos dela estavam arregalados e
bem cinzentos. Ela mal se mexeu. O ar ao redor deles parecia repentinamente
carregado. Hugo não conseguia tirar os olhos dela, e quase podia ouvir as
próprias palavras ecoando em seus ouvidos.
Pensar na senhorita aqui me distrai.
Não era quase nada, aquela atração que ele sentia. Não passava do murmúrio
de um inseto que mal se podia ouvir. Tão insigni�cante que ele o havia enxotado
com um aceno de mão. Mas a Srta. Barton acabara de notar, e aquela mera
sombra de interesse, por mais singela que fosse, apagou o sorriso do rosto dela.
– Vá embora – ordenou ela, com a voz monótona.
Não, ela não estava ali por causa de uma disputa empregatícia. Clermont
tinha muito a que responder.
Hugo se curvou, pegou um graveto solto no chão e o colocou no banco entre
os dois.
– Isso – falou – é uma barreira. Não vou ultrapassá-la.
Os olhos da Srta. Barton se �xaram naquele pedacinho de madeira, com
pouquíssimos centímetros de comprimento.
– Não admito que machuquem mulheres – a�rmou Hugo.
Ela não respondeu.
– Faço diversas coisas e não tenho orgulho de muitas delas. Mas não
praguejo, não bebo e não machuco mulheres. Não faço nenhuma dessas coisas
porque meu pai fazia todas elas. – Ele sustentou o olhar dela enquanto falava. – E
agora que lhe contei algo que ninguém mais em Londres sabe, certamente a
senhorita poderia retribuir o favor. O que quer?
Ela balançou a cabeça devagar.
– Não, Sr. Marshall. O senhor não vai me intimidar, por mais gentil que seja
ao fazer isso. Estou cansada de ver as coisas acontecerem comigo. De agora em
diante, eu é que vou fazer com que as coisas aconteçam.
Ela ergueu a cabeça enquanto falava. E aquele murmúrio irritante – aquele
zumbido de atração tão parecido com o de um mosquito que ele tinha
descartado com muita facilidade – pareceu aumentar ao redor de Hugo, como
um sussurro crescente de vento.
Os traços dela eram tão nítidos, contornados pelo ar frio. Não havia um
único �o de cabelo fora do lugar. Ainda assim, ela fazia Hugo pensar numa ursa,
forte e con�ante, reivindicando seu território no topo de uma montanha.
Ali, pensou ele, �nalmente estava alguém à sua altura.
Não havia motivo para ser irrealista. Que utilidade uma ursa teria para ele?
Ainda assim… Certamente ele podia apreciar uma quando a via.
– Palavras corajosas – disse ele com suavidade. – É isso que signi�ca ser
implacável. A�nal, eu faço com que coisas aconteçam com outras pessoas com
regularidade.
Ela olhou enfaticamente para o graveto entre eles.
Hugo não fez nenhum movimento na direção dela.
– Imagino que a senhorita não saiba por que chamam o homem de Lobo de
Clermont.
– Porque ele é implacável.
– E os detalhes? Sabe como ele passou a trabalhar para Clermont?
Ela negou com a cabeça.
Hugo juntou as pontas dos dedos e desviou os olhos para longe dela.
– Clermont nunca teria contratado um ex-pugilista como administrador dos
seus negócios. Mas sempre gostou de lutas. E de bebida. Todos os duques gostam
de beber. Ele �cou embriagado um dia depois de uma luta e contou todos os seus
problemas ao campeão.
– Os duques devem ter muitos problemas mesmo. – Ela revirou os olhos.
– Era a ladainha de sempre: título antigo, que não valia nada além de contas
para pagar, e ele estava longe de ter a melhor das reputações. O Lobo apostou
100 libras com o duque que em seis meses conseguiria reorganizar tudo de modo
que não houvesse mais credores batendo à porta.
Ela o observava.
– Como o senhor sabe disso?
Ele abanou a mão.
– Todo mundo sabe… pelo menos, todos os criados da região.
Ela assentiu.
– Pode continuar. Se esse Lobo vai ser meu inimigo, preciso saber tudo sobre
ele.
– Clermont ainda tinha meios. Suas propriedades rendiam uma ninharia,
mas, com a graça de alguns meses e a bondade de alguns credores, tudo poderia
ter se resolvido. Mas o duque não tinha alguns meses. Então o Lobo se
concentrou no credor mais proeminente. Todo mundo tem segredos, e o segredo
desse credor era que o dinheiro dele vinha do trá�co de pessoas, mesmo anos
depois de a escravidão ter sido proibida. O Lobo fez questão de que todos os
detalhes sórdidos saíssem no jornal. A família caiu no ostracismo. E sabe o que o
Lobo fez depois?
Ela balançou a cabeça.
Hugo a olhou nos olhos.
– Ele pagou a dívida – falou. – Publicamente. Sem nunca ter que fazer uma
ameaça, o Lobo fez com que Clermont se tornasse intocável. “Insista no
pagamento”, disseram as más línguas, “e ele acabará com sua reputação.” É
surpreendente o número de pessoas que se dispõem a aceitar termos de
pagamento mais fáceis quando o próprio futuro está em jogo.
– Por que o senhor está me contando isso?
– Srta. Barton – murmurou ele –, com quem a senhorita acha que está
falando?
Ela arfou. Mas sua expressão não mudou nada com a con�ssão.
– A senhorita entendeu como funciona – a�rmou Hugo. – Eu vou me livrar
da senhorita. Mas acabar com a vida de alguém é um negócio feio e complicado.
Dará muito menos trabalho ajudá-la do que arruiná-la. Me deixe ajudar.
Ela não tirava os olhos dele enquanto Hugo falava.
– O que a senhorita quer? – insistiu.
– Quero que ele pague.
Ela ergueu o queixo. Cruzou as mãos – um movimento delicado, mas não
havia nada de delicado no modo decidido como seus dedos se entrelaçaram.
– Dinheiro?
– Admissão de culpa. – Seu maxilar enrijeceu. – Ele quer que eu �que calada.
Bem, eu quero que ele se pronuncie. Que tenha que lidar com um décimo da
reprovação que eu venho enfrentando.
Não havia chance alguma de isso acontecer. Não era de estranhar que
Clermont tivesse repassado as exigências daquela mulher para Hugo. Qualquer
forma de admissão de culpa destruiria as chances do duque de se reconciliar com
a duquesa. Com tanta coisa em jogo, inclusive as 500 libras do próprio Hugo…
– Ele nunca vai fazer isso – disse ele. – Gostei da senhorita, Srta. Barton. Não
quero tê-la pesando na minha consciência.
Ela pegou o graveto que ele havia colocado no banco e o estendeu para Hugo.
– Faça o pior que puder – falou ela. – É por isso que o senhor é conhecido,
não é?
Ele encarou o graveto na mão dela por algum tempo antes de pegá-lo e
colocá-lo de volta no banco.
– Vou fazer isso – a�rmou. – Se for necessário. Mas eu preferiria que não
fosse.
A tinta do jornal vespertino tinha manchado de preto as luvas de Serena, mas
ainda assim ela continuou na esquina, tentando enxergar os anúncios na última
página sem forçar a vista.
Oaluguel de propriedades com uma área pequena chegava perto de 15 libras
por ano, e, com as despesas calculadas a quase o dobro disso, além da
alimentação e do custo de alguém morando com ela…
Um dia, tinha sonhado com o que faria com o dinheiro que havia poupado
cuidadosamente do ordenado que recebia como governanta. Tinha planejado
alugar uma fazendinha, para plantar lavandas, quando tivesse guardado o
su�ciente. A partir disso, suas esperanças e seus desejos haviam dado à luz mil
possibilidades. Freddy tinha desdenhado de suas ambições, e talvez tivesse razão.
Comprar um jornal naquele momento, quando seus sonhos estavam mais
distantes do que nunca, era o cúmulo da tolice. Servia apenas para destacar
quanto ela havia perdido – quanto seus sonhos de menina estavam longe da
realidade.
Serena tinha guardado 40 libras durante os três anos de trabalho. Bastava
para o presente, mas não era o su�ciente para que ela pudesse se dar ao luxo de
viver no passado. Ela não tinha como se livrar da situação atual escapando num
devaneio elaborado. A realidade a esperava: Serena estava grávida e não tinha
renda alguma.
Ela dobrou o jornal duas vezes, escondendo a lista de propriedades para
alugar, e ergueu os olhos para a noite cada vez mais escura.
Forçou-se a repetir estas palavras irrefutáveis. Estava grávida. Não tinha
renda alguma. E acabara de levar um golpe – um golpe terrível.
O Sr. Marshall parecera tão con�ável, tão comum. Ela não se sentia à vontade
perto de um homem havia meses. Quando ele pegara aquele graveto e o colocara
entre eles, uma parte tola de Serena realmente havia acreditado que era uma
barreira e que ela poderia respirar em paz.
Ele a �zera sonhar com uma possibilidade: uma tarde com alguém que a fazia
sorrir, que não olhava para ela como se fosse uma coisa estragada. Ela havia
sonhado com um mundo onde qualquer futuro poderia se abrir, desde que ela
achasse a chave certa. Quisera atração. Afeição. Segurança.
Amor.
Era tolice dar um salto de uma conversa numa praça para o amor. Mas, se
havia um homem que conseguia sorrir e conversar com ela, existiria outro que
também conseguiria.
Enquanto �cara sentada naquele banco, as possibilidades tinham brilhado
com a luz do sol.
Mas o Sr. Marshall não era um cavalheiro sorridente e simpático. Ele era o
Lobo de Clermont, um sujeito conhecido por sua inclemência. Com algumas
poucas frases, ele tinha destruído todas as possibilidades esperançosas de Serena,
restando apenas uma impossibilidade.
O futuro dela se estendeu como uma rua escura à sua frente: toda a
esperança eclipsada.
Ele a havia enganado. Não praguejo, não bebo e não machuco mulheres. Não
faço nenhuma dessas coisas porque meu pai fazia todas elas.
Serena amassou o jornal.
O Sr. Marshall era bom – muito bom. E ela era a tola que estivera a ponto de
con�ar nele. Ele tinha se oferecido para ajudar Serena não por ter se interessado
pelos seus assuntos, nem por se importar com o bem-estar dela. Era apenas
porque era mais simples pagá-la para �car quieta do que arruiná-la.
Nuvens escuras assomavam no horizonte de Serena.
Ela pousou a mão na barriga. Desespero com certeza não era bom para o
bebê. Quando ela deixava esse sentimento se estabelecer ao seu redor, ele enchia
sua barriga com uma impossibilidade amarga e faminta. Mal conseguia digeri-lo.
Como uma vida tão frágil e pequenina poderia fazer o que ela não conseguia?
Não. Seu bebê não teria pesadelos, dúvidas, medos.
Ao escalar uma árvore, era tolice olhar para baixo. Quando se olhava, corria-
se o risco de sentir vertigem. Então Serena olhou para cima, além da escuridão
noturna que chegava. Ela se concentrou no brilho laranja e quente do poste de
luz e nas estrelas ao longe. Olhou para cima e se recusou a pensar no fracasso.
T
Capítulo três
alvez Hugo estivesse amolecendo, mas começou seu plano da forma
mais simples de todas: tentou se livrar da Srta. Barton tomando o
assento dela. Custou-lhe um total de seis xelins contratar quatro pessoas idosas
para se sentarem no lugar da moça no banco. Hugo a observou chegar cedo na
manhã seguinte. Ela parou de repente ao ver que o banco estava ocupado e, em
seguida, colocou a mão na lombar. Só esse pequeno ato de reclamação. Depois
sorriu, balançou a cabeça e caminhou ociosamente pela praça, como se seu
desejo fosse mesmo �car perambulando. Olhou para os idosos ao andar. Fez uma
volta lenta, depois outra. Após meia hora, pareceu perceber que os homens não
sairiam dali.
Ela ergueu o queixo e olhou na direção da casa de Clermont, como se
pudesse enxergar Hugo ali dentro. Como se o estivesse desa�ando a fazer algo
pior. Ela �cou de pé o dia todo, com a cabeça erguida, e se ocasionalmente
esfregava os quadris quando achava que não havia ninguém olhando, ou trocava
o peso entre os pés para aliviar o desconforto, isso apenas serviu para fazer com
que Hugo se sentisse pior diante do que estava fazendo.
No segundo dia, ela chegou uma hora mais cedo, quando os postes de luz
ainda estavam acesos. Caminhou sem pressa em direção ao banco – e parou
bruscamente.
Hugo tinha previsto a chegada antecipada dela, claro, e havia oferecido aos
idosos sete xelins por aquela hora extra. Mais uma vez, a Srta. Barton �cou de pé,
dessa vez por nove horas seguidas – desaparecendo apenas, supôs Hugo, para ir
ao banheiro. Mais uma vez, ele se pegou admirando a obstinação dela.
No terceiro dia choveu. A chuva caiu em torrentes de rajadas intensas, e não
foi possível persuadir os idosos a comparecer. Ainda assim, Hugo conseguiu
reunir alguns trabalhadores com capas de chuva – e bem a tempo. Mal haviam se
acomodado quando a Srta. Barton chegou. Ela trajava uma capa de lã escura que
cobria o vestido. Hugo não conseguia ver o cabelo nem as mãos da moça.
Depois de uma hora, o guarda-chuva dela estava tão encharcado que não
repelia mais a água, e ela o abandonou perto de uma árvore. Mas não deixou que
a chuva a impedisse. Mal olhou para o banco. Em vez disso, postou-se ao lado de
uma árvore, os lábios apertados numa expressão de determinação sombria.
Ele a observou durante toda a manhã. Ao meio-dia, parou de trabalhar para
tomar uma tigela de sopa. A Srta. Barton ainda estava lá. Hugo comeu de frente
para a janela, observando-a envolver o corpo com os braços e se esfregar com
vigor, tentando �car aquecida.
Ela ia pegar uma gripe forte. O vento arrastava as folhas por toda parte; o frio
devia ser imenso. O meio-dia virou uma hora da tarde, que virou duas. Ela ainda
não havia ido embora quando o relógio no corredor bateu as três horas, mesmo
que sua capa tivesse escurecido com a água da chuva. Ela se encolhia cada vez
mais.
Qualquer outra pessoa teria ido para casa ao primeiro sinal de mau tempo.
Hugo não sabia se devia aplaudir a tenacidade da Srta. Barton ou se enfurecer
com a forma como ela tornara a situação impossível. Lá embaixo, na praça, ela
esfregou a mão no rosto, removendo a água da chuva.
Isso era algo que Hugo teria que resolver, ao menos para não ter a vida da
Srta. Barton pesando em sua consciência.
Até a capa de Serena �car encharcada, não tinha sido tão ruim. Ela �cara
molhada e sentira um pouco de frio. Mas ter que �car de pé tinha sido um mal
que viera para o bem: ela conseguira se aquecer ao andar.
Porém, quando chegaram as três da tarde, mal conseguia sentir os pés. Suas
mãos estavam congeladas dentro das luvas.
Vá para casa. É apenas uma tarde.
Esse impulso não era estridente. Apenas traiçoeiro. Ela o ouvira muitas vezes.
Fique quieta agora e cuidarão de você. Não grite hoje à noite, logo vai acabar. Mas
essa voz era uma mentira. Quem não fazia nada perdia. Não havia nada tão frio
quanto o arrependimento.
Se ela fosse embora naquele momento, o Sr. Marshall saberia que tinha como
afugentá-la. Isso apenas o incentivaria a empreender esforços maiores.
E, assim, Serena esfregou uma mão na outra e andou.
Ninguém estava na rua a menos que fosse necessário. E foi por isso que,
quando um vulto apareceu na esquina, Serena se virou para olhar – e depois
�cou paralisada. Era o Sr.Marshall – o Lobo de Clermont, lembrou-se ela –, com
um ar bem severo. Ele carregava um pacote debaixo do braço e caminhava de
cabeça baixa. Quando chegou perto de Serena, ele olhou para os lados e
atravessou a rua às pressas.
Passou diretamente por Serena sem dizer nenhuma palavra e marchou até os
homens sentados no banco. Ela havia tido di�culdade em enxergar o Lobo de
Clermont no Sr. Marshall quando ele havia confessado sua identidade, três dias
antes, mas naquele instante ela o viu. Sua aparência comum era uma ilusão, uma
capa de normalidade que ele vestia em nome da boa educação. Naquele
momento, ele projetava um ar de ameaça silenciosa – tão palpável que Serena
deu um passo para trás, erguendo a mão até a garganta, mesmo que a ira dele
não fosse direcionada a ela. O Sr. Marshall lançou um olhar para os homens no
banco.
– E então? – perguntou. – Saiam daqui.
– Mas… – começou a dizer um deles.
– Vocês ouviram o que eu disse. Acabou. Não preciso mais de vocês. Saiam
daqui.
Ele fez um breve aceno com a cabeça.
Os homens trocaram olhares e, em seguida, um de cada vez, se levantaram e
saíram da praça. Serena ergueu as mãos para os lábios e assoprou, tentando
aquecê-las através das luvas encharcadas. Mas o Sr. Marshall não a olhou. Ele
desenrolou o pacote que carregava. Estranhamente, era uma braçada de toalhas
enroladas ao redor de um guarda-chuva. Ele esticou as toalhas no banco,
secando o assento. Em seguida, abriu o guarda-chuva e chamou Serena com um
gesto.
– Sente-se – disse ele.
Seu rosto parecia feito de pedra.
Serena estava suja demais – e gelada demais – para protestar contra a ordem.
Ela foi até o banco e sentou-se. O Sr. Marshall prendeu o guarda-chuva nas
costas do assento, amarrando-o no lugar com um pedaço de corda de modo que
protegesse o lado do banco onde Serena estava. Em seguida, desenrolou uma
segunda toalha e tirou dela uma garrafa de metal, um pacote irregular
embrulhado em papel vegetal e, inexplicavelmente, uma xícara de chá. Entregou
a xícara para Serena.
– Segure isto aqui.
Ela tentou tomá-la das mãos do Sr. Marshall, mas seus dedos estavam frios
demais para segurá-la com força, e a xícara escapou.
O Sr. Marshall pegou a xícara em pleno ar e lançou um olhar feio para
Serena, como se fosse culpa dela que suas mãos não conseguissem segurar nada.
Sem dizer uma palavra, ele segurou seu pulso e, antes que Serena pudesse
protestar, deslizou a mão por baixo de sua luva.
Serena se afastou espasmodicamente, mas o Sr. Marshall reagiu reforçando o
aperto. Ele ergueu a cabeça, olhou nos olhos dela e se imobilizou por completo.
Ela conseguia contar as respirações dele. Conseguia sentir os próprios
batimentos cardíacos martelando no pulso, envolto nos dedos dele.
Devagar, ele soltou.
– Peço desculpas – disse ele. – Agi sem pensar. Eu ia tirar suas luvas e
esfregar seus dedos para aquecê-los. A senhorita consegue fazer isso por conta
própria?
Serena se debateu com a luva, mas o material estava grudado em sua pele e
ela mal conseguia sentir o que estava fazendo.
– Me permite? – perguntou ele.
Ela o olhou nos olhos. O Sr. Marshall havia abandonado o ar de ameaça e –
mesmo sabendo muito bem quanto essa noção era errada – aquela sensação de
antes retornou. Con�ável. Esse homem é con�ável.
Ridículo.
Ainda assim, Serena estendeu as mãos para ele.
O Sr. Marshall tirou uma das luvas e depois a outra, tocando Serena apenas
por tempo su�ciente para remover o tecido dos dedos dela.
O ar estava gelado contra sua pele despida, mas a sensação durou apenas
alguns segundos. O Sr. Marshall pôs as luvas de lado, enrolou as mãos dela numa
toalha e as esfregou com vigor.
O toque deveria ter passado uma sensação íntima e invasiva. As mãos do Sr.
Marshall envolviam as dela. E ele havia praticamente tirado suas roupas – bem,
suas luvas. Mas estava agindo de um jeito tão prático que o toque parecia…
normal.
Con�ável, sussurrou uma voz no fundo da mente de Serena.
O Sr. Marshall deixou as mãos dela enroladas na toalha, como um regalo
grande demais, e depois pegou a garrafa de metal. Parecia o tipo de recipiente
onde os cavalheiros guardavam gim – achatado e �no. Mas quando ele tirou a
tampa uma onda de vapor escapou.
Serena suspirou, desejosa. O Sr. Marshall serviu o conteúdo – de um lindo
tom castanho-dourado – na xícara de chá e depois a estendeu para ela.
– Não sei como a senhorita gosta do seu chá – disse ele –, e não tinha como
trazer leite e açúcar para fora. Coloquei um pouco dos dois. Só espero que o
resultado esteja palatável.
Ela manobrou uma das mãos para fora da toalha e pegou a xícara. Ainda
estava tremendo. O Sr. Marshall a observou com olhos semicerrados. A xícara
estava quente, tão quente, que queimou sua pele. E o chá… Ah, estava
maravilhoso. Forte e doce, com uma dose generosa de leite cremoso.
O primeiro gole pareceu derreter o gelo em seus dedos.
– Por que o senhor está fazendo isso?
– Eu lhe disse – respondeu ele. – Não machuco mulheres.
– O senhor não é responsável por eu estar aqui. Estou aqui graças à minha
própria teimosia caprichosa.
Ela tomou outro gole.
– Isso é uma questão de semântica – retrucou ele. – A senhorita está aqui. De
quem é a culpa, se não é minha?
– O duque de Clermont me vem à mente. O senhor está sob o comando dele,
não o contrário.
O Sr. Marshall bufou.
– É isso que a senhorita pensa?
Em vez de responder à pergunta, ela tomou outro gole.
– Este é o melhor chá que já tomei – comentou. – Obrigada.
– Não me agradeça.
Seus olhares se encontraram, e Serena se viu incapaz de desviar o seu. Os
olhos do Sr. Marshall eram castanhos – de um tom claro, como a luz do sol
�ltrada pelas folhas das árvores no outono. Ele estava tão focado nela que o
mundo todo pareceu se dissipar – as nuvens escuras no céu, as poças no chão.
Não havia nada além dele.
Fazia mais de três meses desde a última vez que ela sentira uma fagulha
mínima de atração sexual. Pensara que isso havia sido queimado e apagado de
dentro dela para sempre, roubado pelo medo e pelas mãos frias e apertadas de
uma lembrança sombria. Mas, pelo jeito, tinha se enganado. Seu bom senso
podia ser in�uenciado por dois goles de chá e um guarda-chuva.
Con�ável. Esse homem é con�ável.
Mas, apesar de ele lhe ter trazido abrigo e calor, não havia nada de con�ável
nele.
O Sr. Marshall sorriu para ela – não o sorriso fácil de um conhecido distante,
mas um sorriso a�ado. Ainda assim, ele permaneceu no próprio lado do banco.
A chuva se acumulou na aba do chapéu dele e pingou pelos cantos, mas não o fez
parecer nem minimamente desleixado.
– O senhor poderia ter mandado um criado trazer o guarda-chuva. Não
precisava cuidar disso pessoalmente.
– Imaginei que deixaria a senhorita mais abalada se �zesse dessa forma –
respondeu ele.
– Se me alimentasse? O senhor não…
– Ah. Agradeço o lembrete.
Ele desdobrou o pacote embrulhado em papel vegetal, revelando um
sanduíche amassado recheado com uma mistura estranha em tons de verde e
rosa.
– Eu não deveria aceitar.
Ele soltou uma bufada.
– A senhorita não deveria estar de pé no meio de uma praça debaixo de
chuva. Suas mãos não deveriam estar tão frias que a senhorita nem consegue
segurar uma xícara de chá. Detesto pensar no que esse ar frio e úmido por horas
a �o está fazendo com seus pulmões. Está arriscando sua saúde. Em que mundo
pode ter todas essas coisas, mas não um sanduíche? – Ele estendeu o embrulho
para ela. – Coma.
– O senhor está tentando me intimidar de novo.
Ainda assim, ela aceitou a oferta dele e mordiscou o canto. Não sabia ao certo
de que era – algum tipo de presunto defumado, talvez. Os pedaços de pepino
picado eram mais fáceis de reconhecer. Estava uma delícia, embora Serena
suspeitasse que isso tinha mais a ver com sua fome e com o frio do que com o
sanduíche em si.
O Sr. Marshall encheu a xícara dela de novo.
Serena engoliu em seco.
– O senhor é gentil demais.
– Não, não sou. Estou deliberadamente confundindo a senhorita por causa
do desejo de aliviar meu próprio arremedo de consciência. Quero conhecer
melhor a senhorita,desa�ando todas as regras da sociedade, para aumentar
meus pecados. Não pense que existe qualquer tipo de bondade por trás do meu
comportamento egoísta.
O guarda-chuva havia se inclinado lentamente para o lado e começado a
pingar na toalha devagar e constantemente.
– As regras da sociedade? – repetiu Serena. – Quando um cavalheiro se digna
a ajudar uma mulher desonrada, trata-se de gentileza. Não importa quais sejam
os motivos dele.
O Sr. Marshall ajustou o guarda-chuva.
– Não sou um cavalheiro.
Ela olhou para ele – para o casaco bem-feito e para a metade do sanduíche
ainda embrulhada em papel vegetal, largada de lado.
– O senhor trabalha para um duque.
– E a senhorita é uma dama que teve que se rebaixar a ser governanta. Eu
�njo bem, mas meu pai era minerador de carvão em Yorkshire. Sou o décimo
quarto de dezesseis �lhos. Paguei as contas com meus punhos por alguns anos.
– O senhor fala como se fosse do norte.
Mas não completamente. Ele falava num ritmo cadenciado que a fazia pensar
em Londres – rápido e frenético. Havia um traço de sotaque interiorano ali,
enrolando os erres de leve. Mas havia sido suavizado e aplainado.
– Mas como um minerador vira um… um…
Ele abriu um sorriso.
– Também não sei o que sou.
– Ainda assim, o senhor cuida das �nanças de um duque. Eu teria imaginado
que fosse necessária certo nível de educação para se fazer isso.
– Escola bene�cente – disse ele. – Além disso, eu era pequeno para minha
idade, e minha mãe convenceu meu pai de que eu era novo demais para
trabalhar nas minas. Ela fez isso durante anos. Ele nunca conseguia estar a par de
todos os �lhos. Então, quando meus irmãos mais novos morreram, ele �cou
confuso quanto à minha idade. Assim, tive acesso a uma educação melhor do
que seria de esperar.
Ele estava olhando para longe enquanto falava. Porém, por mais que suas
palavras parecessem diretas, havia algo no que ele tinha dito – na ideia da mãe
mentindo para o pai pelo bem da educação dele, e do pai não percebendo – que
fez com que um calafrio percorresse o corpo de Serena.
– Eu tinha 14 anos quando quiseram que eu entrasse nas minas pela primeira
vez. – Ele se virou de volta para ela. – Na verdade, já estava velho. Velho o
bastante para ter juízo. Eu tinha visto as minas envelhecerem homens antes da
hora. Um ano nas minas era o mesmo que dez fora delas. Trabalhar lá era a
morte; a única questão era se essa morte demoraria para chegar ou viria rápido.
– Ele entregou a outra metade do sanduíche para Serena. – Trabalhei nas minas
por três dias. Não conseguia aguentar o fato de estar enclausurado por todos os
lados. Então fugi de casa.
– E em o que o senhor trabalhou?
– No que quer que conseguisse.
Ele desviou os olhos. Serena não tinha ideia do tipo de trabalho que uma
criança de 14 anos poderia fazer, mas imaginava que aquele homem, vestido em
roupas limpas e sóbrias, talvez não quisesse admitir ser um operário comum.
– Mas eu sabia o que queria. Sempre soube, desde o dia em que fui embora.
– O senhor queria ser o braço direito de um duque? – perguntou ela, em
dúvida.
– Isso? – Ele olhou para baixo, como se estivesse surpreso ao ver a si mesmo,
depois balançou a cabeça. – Não. Nunca tive a aspiração de servir alguém. Mas é
um jeito tão bom quanto qualquer outro de conhecer as pessoas envolvidas nos
negócios. E o dinheiro… Quando tiver 40 anos, terei meu próprio império.
Quero ser o �lho de minerador mais rico de toda a Inglaterra. Este é só o
primeiro passo para chegar lá. – Ele abriu um sorriso largo para ela. – Por acaso
eu a choquei? Sei que, em teoria, devo declarar minha devoção eterna ao homem
para quem trabalho.
– Não tenho nenhuma afeição por esse homem em especial – respondeu
Serena. – Como o senhor talvez lembre.
Ele estava sorrindo para ela. Não deveria estar fazendo isso. Não deveria
estar fazendo nada disso. As mãos dela formigavam onde as dele a haviam
tocado tão pouco tempo antes. A normalidade da situação fez com que sua
respiração falhasse.
Bem, talvez normalidade não fosse a palavra certa. Não havia nada de
normal em estar sentada ao lado de seu inimigo no meio de uma tempestade,
tomando chá e conversando sobre a vida nas minas.
Mas ali estava o sorriso dele. Serena pensara no Lobo de Clermont como
uma ferramenta do duque, uma coisa. Porém o Sr. Marshall estava sentado na
chuva alimentando-a. Talvez fosse uma estratégia diabólica e corrompida da
parte dele. Mas não parecia provável. Faria mais sentido deixá-la sentir frio e
fome.
O coração dela estava batendo com força, dividido entre o medo e a
empolgação. Esse era o homem que, se os jornais falassem a verdade, havia
resgatado as propriedades de Clermont da beira da desgraça iminente. O duque
contava com ele para tudo. Sem ele, Clermont não era nada.
Serena podia atraí-lo para seu lado.
Essa ideia – de que ela poderia atrair para seu lado alguém tão valioso para o
duque – a fez sentir simpatia pelo Sr. Marshall. Ele não queria ser inimigo dela.
Então não precisava ser.
Ela inspirou bem fundo.
– Pessoalmente, nunca fui muito boa em demonstrar devoção – admitiu. –
Quando era governanta, guardava dinheiro porque queria ter minha própria
fazenda. Nada grande – acrescentou quando ele inclinou a cabeça, intrigado. –
Eu queria plantar lavandas e lilases. Aprendi sozinha a extrair a essência da �or
de lavanda. Minha ideia era fabricar sabonetes �nos e os empacotar em caixinhas
delicadas para vender com um lucro enorme para damas sem juízo.
A sobrancelha dele se ergueu.
– Que ambiciosa – comentou.
– Por que fazer isso, então? – perguntou Serena. – Por que me afugentar,
senão por lealdade ao duque?
Ele hesitou por um instante antes de responder.
– Acontece que concedi, sim, minha devoção inabalável a alguém.
Ele olhava para ela com uma expressão �rme e sincera. E o coração de Serena
deu um salto. Ele não podia estar falando dela. Era cedo demais – os dois mal se
conheciam. E, ainda assim, a forma como a estava olhando…
– É mesmo? – Serena ouviu-se falar.
Ele abriu um sorriso malicioso para ela e se inclinou mais alguns
centímetros. Serena sentiu como se fosse a única pessoa no mundo – como se a
chuva e o frio tivessem desaparecido na chama dos olhos do Sr. Marshall.
– Sou leal a mim – disse ele. – Minha fortuna aumenta e diminui juntamente
com a do duque. Não quero ver a sua vida em ruínas, mas não vou desistir da
minha chance de ser alguém só por causa da senhorita.
Serena engoliu em seco.
– Seu chá está esfriando – acrescentou ele com um gesto.
Ela tomou um gole. Com o apetite um pouco saciado, percebeu que o chá
não era perfeito. Conseguia sentir um gosto levemente metálico, e a bebida tinha
�cado morna e um tanto amarga.
Mas não havia nada de morno na atração entre os dois. Serena poderia atrair
o Sr. Marshall para sua causa, só precisava saber como.
Ele se recostou, cruzando os braços, e aquele momento de calor passou.
– Srta. Barton – disse ele, falando devagar e distintivamente –, não deixe a
situação pior do que precisa ser. Vou lhe dar 50 libras, e vamos forjar uma
referência para que a senhorita consiga outro emprego.
Ela olhou nos olhos dele.
– É só isso que o senhor quer comigo? Me convencer a ir embora?
– Não. – Ele falava com calma. – Mas o que eu quero com a senhorita não é
relevante. Preciso que vá embora, e portanto é o que deve acontecer.
– Não por 50 libras e uma referência – respondeu Serena no mesmo tom de
voz calmo. – Como o senhor pode acreditar que uma referência encobriria o que
aconteceu comigo? Quero justiça, Sr. Marshall. Não uma referência.
Ele se inclinou na direção dela.
– Ele a forçou?
Havia algo parecido com um rosnado na voz dele.
A respiração de Serena falhou. Aquela noite – aquela noite terrível – se
recriou em sua mente, enchendo-a de vergonha, culpa e arrependimento. Por um
momento, foi incapaz de falar, consumida por um silêncio interminável.
Serena se forçou a engolir essa emoção amarga. Depois ergueu o queixo e
�tou o Sr. Marshall nos olhos.
– Não. – Sua voz falhou, mas ela não desviou o olhar. – Ele não me forçou.

Mais conteúdos dessa disciplina