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11 Álvaro Furtado Costa CLÍNICA MÉDICA VII MALÁRIA 2 SUMÁRIO MALÁRIA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3 1. Introdução e epidemiologia. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3 1.1. Dados brasileiros . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5 2. Vetor, etiologia e transmissibilidade. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5 2.1. Ciclo de vida . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 6 3. Diagnóstico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8 4. Quadro clínico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8 4.1. Malária não complicada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8 4.2. Malária grave e complicada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9 5. Tratamento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10 5.1. Malária grave . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11 6. Prevenção . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 12 6.1. Quimioprofilaxia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 12 6.2. Proteção contra picadas de insetos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 12 Mapa mental . Malária . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13 Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14 Bibliografia consultada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14 Questões comentadas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15 3 MALÁRIA O QUE VOCÊ PRECISA SABER? u Malária é uma doença de notificação compulsória, causada por um protozoário do gênero Plasmodium sp. u OMS: problema de saúde global, mais de 90 países acometidos. u Agentes: Plasmodium falciparum (gravidade), P. vivax (principal agente no Brasil), P. malariae e P. ovale. u Vetor: mosquitos fêmeas do gênero Anopheles, com hábitos bem específicos. u A região mais afetada no Brasil é a Amazônia legal (com mais de 99% dos casos). u Período de incubação varia de 7 a 21 dias, vivax com maior incubação; indivíduos com episódios prévios de malária podem apresentar quadro clínico menos sintomático. u Primoinfecção costuma ser mais grave; populações mais vulneráveis à gravidade nesse contexto (crianças, gestantes e viajantes). u Formas do agente invadem, reproduzem-se e promovem o rompimento de hepatócitos e eritrócitos, pro- vocando a maioria dos sintomas da doença: febre, calafrios, tremores, mialgias intensas e mal-estar geral. Esses sintomas podem ocorrer em padrões cíclicos e também não obedecer esses padrões. u O diagnóstico de casos suspeitos de malária e o controle do tratamento são dados pelo parasitológico direto (exame da gota espessa). Atualmente, também há disponível testes rápidos moleculares. Precoci- dade no tratamento implica prognóstico melhor, especialmente nas formas graves. u O P. falciparum habitualmente determina a forma mais grave da doença, que é caracterizada por maior parasitemia, produção de proteínas de aderência à hemácia e hipoglicemia/hiperlactatemia por consumo. Deve-se ficar atento aos sinais de gravidade. u Tratamento das infecções pelo P. vivax ou P. ovale se faz com cloroquina por 3 dias e primaquina por 7 dias. Para infecção por Plasmodium falciparum (sem critérios de gravidade): combinação fixa de artemeter + lumefantrina em 3 dias. Se houver critérios de gravidade, o artesanato EV ou IM é a droga de escolha. 1. INTRODUÇÃO E EPIDEMIOLOGIA A malária é uma doença infecciosa cujo agente etiológico é um parasita do gênero Plasmodium. As espécies mais importantes associadas à malária humana são: Plasmodium falciparum, P. vivax, P. malariae e P. ovale. A transmissão natural da malária ocorre por meio da picada de fêmeas infectadas de mosquitos do gênero Anopheles, sendo mais impor- tante a espécie Anopheles darlingi, cujos criadouros preferenciais são coleções de água limpa, quente, sombreada e de baixo fluxo, muito frequentes na Amazônia brasileira (Figura 1). importância/prevalência Malária 4 Infectologia Figura 1. Anopheles darlingi, agente transmissor da malária. Fonte: nechaevkon/Shutterstock.com¹. É uma doença febril aguda restrita preferencialmente a algumas áreas geográficas (Figura 2): estados da região Norte e Centro-Oeste e viajantes interna- cionais de locais de risco (África, principalmente). Figura 2. Mapa de risco da malária por município de infecção. Fonte: Acervo Sanar. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que seu impacto sobre as populações humanas continua aumentando: ocorre em mais de 90 países, pondo em risco cerca de 40% da popula- ção mundial. Estima-se que ocorram de 300 a 500 milhões de novos casos, com média de 1 milhão de mortes por ano. Representa, ainda, risco elevado para viajantes e migrantes infectados provenientes de áreas de transmissão e que venham a adoecer em áreas não endêmicas. É uma importante doença para se considerar como diagnóstico diferencial de quadro febril agudo em viajantes que voltam de áreas endêmicas. Um outro problema atual relacio- nado à doença é a crescente resistência a drogas antimaláricas no mundo. DIA A DIA MÉDICO Não esquecer: doença de notificação compulsória! Na região extra-amazônica: notificação imediata, além de ser também compulsória. Lembrar que podem haver casos de malária na região de mata atlântica. Malária 5 Cap. 6 1 .1 . DADOS BRASILEIROS Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), a malária avança na região amazônica do Brasil. Em 2016, o país registrou 117.832 casos da doença em 9 estados. Em 2017, o número chegou a 174.522, valor que representa um aumento de 48%. A unidade federativa mais afetada é o Amazonas, com cerca de 74 mil ocorrências da patologia em 2017. Em 2016, foram aproximadamente 45 mil casos. O crescimento ocorreu depois de 6 anos de queda – em 2016, o Brasil registrou o menor número de casos em 40 anos, o que foi visto como um grande sucesso no combate à doença. As tendências da região amazônica acompanham a expansão da malária nas Américas, identificada pela OPAS em sua atualização epidemiológica. Não há uma explicação definitiva, apenas hipóteses. A única certeza é que a malária está aumentando no mundo todo, não só no Brasil, por algum motivo ainda desconhecido. Em 2016, os casos de malária subiram 2% nos 91 países analisados pela Organi- zação Mundial de Saúde. Condições de vulnerabilidade e pobreza são alguns dos fatores que explicam o atual avanço da malária. Certas atividades trabalhistas e econômicas, como a mineração, a extração de produtos naturaise a agricultura aumentam o risco de exposição das populações aos vetores nas áreas com transmis- são da doença. Populações migrantes são grupos singularmente vulneráveis, posto às condições habi- tacionais e à falta de proteção social. Nos últimos anos, houve uma queda nos casos de falciparum e aumento de casos graves de vivax. DIA A DIA MÉDICO A Mata Atlântica caracteriza-se pela diversidade paisa- gística e pela existência de áreas de grande beleza, que a tornam atrativa para indústria do turismo. Também é uma área de casos de malária por vivax. Preste atenção em viajantes com febre que voltam do litoral em estados com SP, RJ, ES, BA. Pode ser malária! 2. VETOR, ETIOLOGIA E TRANSMISSIBILIDADE É causada por 4 espécies: P. falciparum, P. vivax, P. malariae, P. ovale. Os vetores são do gênero Anopheles e, geralmente, têm hábitos noturnos. Os estágios de ovo, larva e pupa são aquáticos, enquanto os adultos são terrestres. O mosquito necessita, para o seu desenvolvimento, de cria- douros de porte pequeno a médio, água limpa, fria e corrente com sombra. Figura 3. Mosquito Anopheles. Fonte: Acervo Sanar. O período de incubação varia de 7 a 28 dias. A malária por vivax tem menor período de incubação comparada com a falciparum. O principal reserva- tório é o homem, cujo tratamento é fundamental para o controle da doença. No Brasil, a maior parte dos casos de malária é pelo P. vivax. Joanna Cohen Joanna Cohen Malária 6 Infectologia Figura 4. Trofozoítos de Plasmodium vivax. Fonte: Acervo Sanar. Os vetores são os mosquitos pertencentes ao gênero Anopheles, que pode ser encontrado no interior e nas proximidades das residências. Modo de transmissão: ocorre por meio da picada da fêmea do mosquito Anopheles, infectada pelo Plasmodium. Os vetores são mais abundantes nos horários crepusculares, ao entardecer e ao amanhe- cer. Todavia, são encontrados picando durante todo o período noturno, porém com menor frequência em algumas horas da noite. Não há transmissão direta da doença de pessoa a pessoa. Raramente pode ocorrer a transmissão por meio de transfusão de sangue contaminado ou do uso compartilhado de seringas contaminadas. Mais rara ainda é a transmissão vertical. 2 .1 . CICLO DE VIDA BASES DA MEDICINA O Plasmodium apresenta um ciclo de vida heteroxênico, ou seja, para completar o seu ciclo de vida são neces- sários 2 hospedeiros diferentes: um vertebrado e outro invertebrado. O fígado e as hemácias são partes cruciais desse ciclo, e as espécies de Plasmodium apresentam especificidades e parasitismo diferentes. Tudo começa com a picada do mosquito fêmea (o macho não vive tempo suficiente para que se complete o ciclo). Este, antes de sugar o sangue, injeta a sua saliva, que contém a forma infectante (esporozoíto). Esses esporozoítos desaparecem rapidamente da corrente sanguínea (cerca de uma hora) e vão para os hepatócitos, onde ocorre o ciclo de reprodução. Os esporozoítos dividem-se e formam uma célula gigante multinucleada que se divide em várias célu- las – merozoítos –, levando ao rompimento e à lesão do hepatócito. Então, esses merozoítos voltam a entrar em novos hepatócitos, e o processo se repete. Isso corresponde a uma fase de incubação (2 a 4 semanas, em média), na qual o doente não apresenta sintomas e que varia de espécie para espécie: 7 a 10 dias para o P. falciparum e 10 a 17 dias para o P. ovale e P. vivax. Joanna Cohen Malária 7 Cap. 6 Figura 5. Ciclo da malária. Fonte: Acervo Sanar. Alguns desses merozoítos, em vez de entrarem nos hepatócitos, vão para a corrente sanguínea e parasi- tam os eritrócitos. Passa-se, assim, a ter trofozoítos em forma de anel de sinete. Este trofozoíto inicial vai amadurecer e sofrer processo de reprodução semelhante ao que ocorre nos hepatócitos. Nesse ponto, passa-se a ter uma célula gigante, multinu- cleada, que se divide em merozoítos, que acabam por romper e lesar os eritrócitos. Estes merozoítos vão entrar em novos eritrócitos, e o ciclo se repete. Nas infecções por P. vivax e P. ovale, alguns trofo- zoítos ficam em estado de latência no hepatócito. São, por isso, denominados hipnozoítos (do grego, hipnos: sono). Esses hipnozoítos são responsáveis pelas recaídas da doença, que ocorrem após perío- dos variáveis de incubação (quase sempre dentro de 6 meses). Alguns dos trofozoítos não entram nos eritrócitos e sofrem diferenciação em gametócitos. O mosquito, quando pica alguém infectado com malária, aspira sangue contendo gametócitos. No seu intestino, ocorre a fusão entre o macrogâmeta (masculino) e o microgâmeta (feminino), iniciando o ciclo sexuado do parasita. Ou seja, o mosquito é o hospedeiro definitivo e o humano é apenas um hospedeiro intermediário. É da lise dos eritrócitos que provém a maioria dos sintomas da malária, correspondendo às fases de crise: febre, arrepios, tremores, mialgias intensas e mal-estar geral, que dura entre 15 minutos a 1 hora. Joanna Cohen Joanna Cohen Malária 8 Infectologia 3. DIAGNÓSTICO Baseia-se no encontro de parasitos no sangue. O método mais utilizado é o da microscopia da gota espessa de sangue, colhida por punção digital e corada pelo Método de Walker. O exame cuidadoso da lâmina é considerado o padrão-ouro para a detec- ção e a identificação dos parasitos da malária. É possível detectar densidades baixas de parasitos (5 a 10 parasitos por µL de sangue) quando o exame é feito por profissional experiente. O exame da gota espessa permite diferenciação das espécies de Plasmodium e do estágio de evolução do parasito circulante. Pode-se, ainda, calcular a densidade da parasitemia em relação aos campos microscópicos examinados. A gota espessa também é utilizada para controle de tratamento. Os métodos oleculares rápidos são ferramentas importantes para o diagnóstico. Os testes rápidos imunocromatográficos baseiam-se na detecção de antígenos dos parasitos por anticorpos mono- clonais, que são revelados por método imunocro- matográfico. São realizados em 15 a 20 minutos. Entre suas desvantagens estão: não distinguem P. vivax, P. malariae e P. ovale; não medem o nível de parasitemia; não detectam infecções mistas que incluem o P. falciparum. No entanto, são importantes em situações de gravidade. DIA A DIA MÉDICO Testes rápidos: utilizar em locais sem equipe capacitada, distantes para gota espessa (que diferencia falciparum de não falciparum). 4. QUADRO CLÍNICO O quadro clínico típico é caracterizado por febre alta, acompanhada de calafrios, sudorese profusa e cefaleia, que ocorrem em padrões cíclicos. Inicialmente, apresenta-se o período de infecção, que corresponde à fase sintomática inicial, carac- terizada por mal-estar, cansaço e mialgia. O ataque paroxístico inicia-se com calafrio, acom- panhado de tremor generalizado, com duração de 15 minutos a 1 hora. Na fase febril, a temperatura pode atingir 41°C. Esta fase pode ser acompanhada de cefaleia, náuseas e vômitos. É seguida de sudo- rese intensa. Contudo, novos episódios de febre podem aconte- cer em um mesmo dia ou com intervalos variáveis, caracterizando um estado de febre intermitente. O período toxêmico ocorre se o paciente não receber terapêutica específica, adequada e oportuna. Os sinais e sintomas podem evoluir para formas graves e complicadas, dependendo da resposta imunológica do organismo, do aumento da parasi- temia e da espécie do plasmódio. 4 .1 . MALÁRIA NÃO COMPLICADA O período de incubação da malária varia de 7 a 14 dias, podendo, porém, chegar a vários meses em condições especiais, no caso de P. vivax e P. malariae. A crise aguda da malária caracteriza-se por episódios de calafrios, febre e sudorese. Tem duração variável de 6 a 12 horas e pode cursar com temperatura igual ou superior a 40°C. Em geral, esses paroxismos são acompanhados por cefaleia, mialgia, náuseas e vômitos. Após os primeiros paroxismos, a febre pode passar a ser intermitente. O quadro clínico da malária podeser leve, mode- rado ou grave, dependendo da espécie do parasito, da quantidade de parasitos circulantes, do tempo de doença e do nível de imunidade adquirida pelo paciente. As gestantes, as crianças e os primoin- fectados estão sujeitos à maior gravidade, sobre- tudo por infecções pelo P. falciparum, que podem ser letais. O diagnóstico precoce e o tratamento correto e oportuno são os meios mais adequados para reduzir a gravidade e a letalidade por malária. Devido à inespecificidade dos sinais e sintomas provocados pelo Plasmodium, o diagnóstico clí- nico da malária não é preciso, pois é possível que Malária 9 Cap. 6 outras doenças febris agudas apresentem sinais e sintomas semelhantes, tais como a dengue, a febre amarela, a leptospirose, a febre tifoide e outras. Dessa forma, a tomada de decisão de tratar um paciente por malária deve ser baseada na confir- mação laboratorial da doença, pela microscopia da gota espessa de sangue ou por testes rápidos imunocromatográficos. 4 .2 . MALÁRIA GRAVE E COMPLICADA BASES DA MEDICINA O principal fator responsável pela gravidade da malária é o bloqueio microvascular devido ao sequestro de hemácias parasitadas nos capilares de órgãos como cérebro, rins, pulmão e placenta. Este fenômeno é somente encontrado na malária por P. falciparum. A maior adesão das hemácias parasitadas às células endoteliais dos capilares e das vênulas faz com que elas comecem a se aderir umas às outras, formando “rosetas” (hemácias não parasitadas em volta de hemácias parasitadas). A obstrução microcir- culatória é um dos fatores que ajuda a explicar a malária cerebral, a renal e as manifestações pulmonares. Para o diagnóstico de malária grave, algumas carac- terísticas clínicas e laboratoriais devem ser obser- vadas atentamente (Quadro 1). Quadro 1. Manifestações clínicas e laboratoriais da malária grave e complicada, causada pela infecção por P. falciparum. Sintomas e sinais • Prostração • Alteração da consciência, dispneia ou hiperventila- ção; convulsões • Hipotensão arterial ou cho- que; edema pulmonar ao Rx de tórax; hemorragias; icterícia • Hemoglobinúria; hiperpi- rexia (>41°C) • Oligúria Alterações laboratoriais • Anemia grave; hipoglice- mia; acidose metabólica; insuficiência renal; hiper- lactatemia; hiperparasi- temia Fonte: Ministério da Saúde2. Se presentes, deve-se conduzir o paciente, de acordo com as orientações, para tratamento da malária grave, que, em grande número, é causada pelo Plasmodium falciparum. Principais alterações clínico-patológicas presentes na malária grave: u Acometimento do SNC (malária cerebral) W A malária cerebral ocorre com uma frequência variável, atingindo 0,1 a 16% dos pacientes. É uma apresentação clínica relativamente comum da malária grave e a principal causa de óbito, com uma letalidade de 10 a 50%. Define-se pela presença de coma ou convulsões em in- divíduos infectados por P. falciparum que não apresentem outra etiologia de encefalopatia. u Anemia grave W Trata-se de uma manifestação constante e precoce da malária, a qual ocorre devido a múltiplos fatores, incluindo destruição ou se- questro dos eritrócitos, alteração da eritropoe- se e perda sanguínea decorrente de eventual coagulopatia. Ocorre maior parasitemia na malária por P. falciparum. u Insuficiência renal W Nas infecções causadas pelo P. falciparum, as alterações tubulares são mais proeminentes do que as glomerulares, variando desde um acometimento de pequena monta até necro- se tubular aguda e Insuficiência Renal Aguda (IRA), frequentemente oligúrica e hipercata- bólica. A IRA é uma complicação frequente e séria da malária por P. falciparum em crianças e adultos não imunes. u Disfunção pulmonar W Ocorre com uma incidência de 3% a 10% nas infecções causadas por P. falciparum, com letalidade próxima a 70%. O primeiro sinal de disfunção pulmonar é o aumento da frequência respiratória, o qual, habitualmente, precede as alterações radiográficas. A apresentação mais grave é a Síndrome do Desconforto Respira- tório Agudo (SDRA), caracterizada por lesão endotelial difusa e aumento da permeabilidade Malária 10 Infectologia capilar, manifestando-se em poucos dias no curso da doença. u Coagulação intravascular disseminada W A infecção pelo P. falciparum está usualmente associada com um estado pró-coagulante, ca- racterizado por trombocitopenia e ativação da cascata de coagulação e sistema fibrinolítico; entretanto, a ocorrência de eventos hemorrá- gicos é incomum. u Acidose metabólica (lática) u Disfunção hepática Um resumo das apresentações clínicas pode ser visto no Quadro 2. Quadro 2. Apresentações clínicas da malária. Clínica Ciclo de vida Malária grave Febre, mialgia, calafrios, paroxismos PI: 7 a 14 dias(vixax maior) Formas leves e graves Imunidade prévia importante Fase hepática: esporozoítos (hipnozoítos) Falciparum Internação imediata Hemácias: parasitismo Fase hemática: merozoítos (hemólise) Critérios clínicos IRA, malária cerebral, CIVD Antimaláricos EV Fonte: Adaptado pelo autor. 5. TRATAMENTO BASES DA MEDICINA Objetivo do tratamento: zerar a parasitemia, atuar na esqui- zogonia hepática e eliminar hipnozoítos e gametócitos. Interromper a esquizogonia sanguínea: manifestações clínicas (drogas esquizontícidas). O tratamento tradicional da malária visa atingir o parasita em pontos-chave de seu ciclo evolutivo, os quais podem ser resumidos em: u Interrupção da ruptura dos eritrócitos, responsá- veis pela doença e pelas manifestações clínicas da infecção. u Destruição de formas latentes do parasita das espécies P. vivax e P. ovale, os quais ficam em estado de latência nos hepatócitos, evitando, por conseguinte, as recaídas tardias. u Interrupção da transmissão do parasito com o uso de drogas que impedem o desenvolvimento de formas sexuadas dos parasitas (gametócitos). Para atingir esses objetivos, diversas drogas são utilizadas; cada uma age de forma específica, ten- tando impedir o desenvolvimento do parasita no hospedeiro. A droga utilizada depende da espécie do parasita, da gravidade da doença e da pessoa infectada. As mais utilizadas no tratamento convencional são cloroquina e mefloquina, embora se saiba que o Plasmodium falciparum já desenvolveu resistência a ambos os medicamentos. Devido à resistência do parasita desenvolvida em relação às drogas tradicionais, e a partir de um programa de desenvolvimento de novos fármacos Malária 11 Cap. 6 aplicado na China e iniciado em 1956, tem-se estu- dado uma nova droga, a artemisinina, hoje utilizada para o tratamento do P. falciparum e da malária grave. A decisão de como tratar o paciente com malária deve ser precedida de informações sobre os seguin- tes aspectos: u Espécie de plasmódio infectante, pela especi- ficidade dos esquemas terapêuticos a serem utilizados. u Idade do paciente, pela maior toxicidade para crianças e idosos. u História de exposição anterior à infecção, uma vez que indivíduos primoinfectados tendem a apresentar formas mais graves da doença. u Condições associadas, por exemplo: gravidez e problemas de saúde. u Gravidade da doença, pela necessidade de hos- pitalização e de tratamento com esquemas es- peciais de antimaláricos. Infecções pelo P. vivax ou P. ovale: cloroquina por 3 dias e primaquina por 7 dias (esquema curto). Infeccções pelo Plasmodium falciparum (sem cri- térios de gravidade): combinação fixa de artemeter + lumefantrina por 3 dias. 5 .1 . MALÁRIA GRAVE Qualquer paciente portador de exame positivo para malária falciparum que apresente um dos sinais e/ ou sintomas relacionados à gravidade deve ser con- siderado portador de malária grave e complicada. O tratamento deve ser orientado, de preferência, em unidade hospitalar. Pode-se ter malária grave por vivax. Nesses casos, o principal objetivo é reduzir a mor- bimortalidade. Para isso, antimaláricos potentes e de ação rápida devem ser administrados,junta- mente com todas as medidas de suporte à vida do paciente. Secundariamente, após evidência de melhora das complicações da malária grave, deve-se preocupar com a prevenção de recrudescência, da transmissão ou da emergência de resistência. A linha para tratamento de formas graves nos últimos guias nacionais tem se baseado no uso do artesu- nato. Quanto mais rápida a administração dessa medicação, melhor o prognóstico. Deve-se fazer a abordagem como uma emergência médica: acesso venoso, exames, gasometria arterial (choque, edema agudo de pulmão, ARDS). A qualquer sinal/sintoma de gravidade, as gestantes devem ser internadas e consideradas como malária grave; crianças sempre devem ser consideradas graves. A malária grave é uma urgência. Deve-se utilizar artesunato EV/IM por causa da queda rápida da parasitemia. Se não houver derivados de artemisina, usar a clindamicina até chegar o artesunato. A dose do artesunato deve ser de 2,4 mg/kg EV/IM em 3 doses (0, 12, 24 horas da primeira dose). Depois desses 3 dias, manter 7 dias EV/IM ou completar com artemeter/lumefantrina. Obs.: Cuidado com as questões antigas sobre esse assunto (antes de 2019), porque ocorreram mudan- ças no tratamento da malária grave. Antes era utili- zado artesanato em combinação com clidamicina. Quadro 3. Tratamento da malária. P. vivax Cloroquina + primaquina P. falciparum (sem critérios de gravidade) Artemeter + lumefantrina Malária grave Artesunato Fonte: Adaptado pelo autor. Deve-se realizar por meio da lâmina de verificação de cura, da seguinte forma: u P. falciparum – em 3, 7, 14, 21, 28 e 42 dias após o início do tratamento. u P. vivax – em 3, 7, 14, 21, 28, 42 e 63 dias após o início do tratamento. DIA A DIA MÉDICO Os antimaláricos são dispensados apenas pelo SUS, não sendo vendidos em farmácias. Com resultado positivo, devem-se acionar os polos de dispensação (com vigilância local) e retirar as medicações. Na dúvida, ligar para centros de referência das secretarias de saúde de cada estado. Malária 12 Infectologia 6. PREVENÇÃO 6 .1 . QUIMIOPROFILAXIA Não há vacina contra a malária. A prevenção se dá pelo uso de medidas de proteção contra a infecção transmitida por insetos e, em algumas situações específicas, com o uso de quimioprofilaxia. Uma medida de prevenção da malária é a quimiopro- filaxia (QPX), que consiste no uso de drogas antima- láricas em doses subterapêuticas, a fim de reduzir formas clínicas graves e o óbito devido à infecção por P. falciparum. A quimioprofilaxia deve ser reservada para situações específicas, na qual o risco de adoecer de malária grave por P. falciparum seja superior ao risco de eventos adversos graves relacionados ao uso das drogas quimioprofiláticas. No Brasil, a malária tem baixa incidência e há pre- domínio de P. vivax em toda a área endêmica, para a qual a eficácia da profilaxia é baixa. Logo, em função da ampla distribuição da rede de diagnóstico e tratamento para malária, não se indica a QPX para viajantes em território nacional. As medidas de proteção individual passam a ser as medidas mais importantes na orientação aos viajantes. 6 .2 . PROTEÇÃO CONTRA PICADAS DE INSETOS u Informação sobre o horário de maior atividade de mosquitos vetores de malária: ao pôr do sol e ao amanhecer. u Uso de roupas claras e com mangas longas du- rante atividades de exposição elevada. u Uso de medidas de barreira, quais sejam: telas nas portas e janelas, ar-condicionado e uso de mosquiteiro impregnado com piretroides. u Uso de repelente à base de DEET (N,N-dietilme- tatoluamida), que deve ser aplicado nas áreas expostas da pele seguindo a orientação do fa- bricante. Em crianças menores de 2 anos, não é recomendado o uso de repelente sem orientação médica. Para crianças entre 2 e 12 anos, usar concentrações de até 10% de DEET, no máximo 3 vezes ao dia, evitando-se o uso prolongado. Malária 13 Cap. 6 Plasmodium vivax, P. falciparum, P. malariae e P. ovale Tratamento Tríade: febre + cefaleia + calafrio Diagnóstico Doença infecto parasitária 40% da população mundial em área de risco. Predomínio África ( 90%), Brasil (Norte e Centro-PA,AM,RO e MT) Picada da fêmea de mosquitos do gênero Anopheles Complicada: parasitemia alta, dispneia, oligúria, hemorragia, RNC, convulsão, icterícia, hipoglicemia, febre alta persistente Gota espessa: parasita no sangue Teste rápido: não detecta todas as espécies Não complicada: P. vivax/ovale: cloroquina + primaquina P. malariae: cloroquina P falciparum: artemeter+ lumefantrina OU artesunato + mefloquina e primaquina Complicada: artesunato + clindamicina Malária Mapa mental. Malária Malária 14 Infectologia REFERÊNCIAS 1. Imagem utilizada sob licença da Shutterstock.com, disponível em: https://www.shutterstock.com/pt/ima- ge-photo/dangerous-malaria-infected-mosquito-skin- -bite-1483138139. Acesso em: 23 nov 2022. 2. Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Vigilância Epidemiológica (BR). Guia prático de tratamento da malária no Brasil. Brasília: Minis- tério da Saúde; 2010. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA Malaria. Centers for Disease Control and Prevention – CDC. [Internet]; 2018. [acesso em 23 nov 2022]. Disponpivel em: https://www.cdc.gov/malaria/about/biology/index.html. Ministério da Saúde [Internet]. Mapa de risco da malária por município de infecção, Brasil; 2018. [acesso em 23 nov 2022.] Disponível em: http://portalarquivos2.saude.gov.br/images/ pdf/2019/julho/31/Mapa-de-risco-da-mal--ria-por-munic--pio- -de-infec----o-Brasil-2018-.pdf. Pina-Costa A, Brasil P, Di Santi SM, Araujo MP, Suárez-Mutis MC, Santelli AC, Oliveira-Ferreira J, et al. Malaria in Brazil: what happens outside the Amazonian endemic region. Mem Inst Oswaldo Cruz. 2014;109(5): 618-33. Malária 15 Cap. 6 QUESTÕES COMENTADAS Questão 1 (SECRETARIA DE ESTADO DE SAÚDE DE GOIÁS – GO – 2021) Entre os anos de 2003 e 2014, os casos de malária entre crianças e adolescentes, no Brasil, representaram cerca de 47% do total registrado. Qual é a espécie que tem maior prevalência no Brasil? ⮦ Plasmodium vivax. ⮧ Plasmodium falciparum. ⮨ Plasmodium malariae. ⮩ Plasmodium ovale. Questão 2 (CENTRO UNIVERSITÁRIO DO ESPÍRITO SANTO – ES – 2021) Mar- que a alternativa onde todos os medicamentos são utilizados no tratamento da malária no Brasil: ⮦ Praziquantel, Cloroquina, Niclosamida. ⮧ Sulfadiazina, Pirimetamina, Ácido Folínico. ⮨ Nitazoxanida, Nitrofurantoina, Antimonial Pen- tavalente. ⮩ Cloroquina, Primaquina, Lumefantrina. ⮪ Mefloquina, Praziquantel, Primaquina. Questão 3 (UNIVERSIDADE DO ESTADO DO PARÁ – PA – 2021) É conside- rado marcador de gravidade nos casos de malária: ⮦ Temperatura acima de 39 graus. ⮧ Infecção pelo P. vívax. ⮨ Hiperparasitemia acima de 100.000 mm cúbicos. ⮩ Primoinfecção. ⮪ Crianças menores de 3 anos. Questão 4 (HOSPITAL UNIVERSITÁRIO DA UFSC – SC – 2020) Assinale a alternativa correta em relação à malária grave. ⮦ A leucocitose é comum na malária grave. ⮧ A infecção por Plasmodium falciparum é a me- nos relacionada a formas graves. ⮨ O sangramento espontâneo é comum na ma- lária grave. ⮩ Alterações neurológicas (confusão, coma, convul- sões fazem parte dos critérios de malária grave. ⮪ O choque deve ser tratado com reposição volê- mica agressiva, não necessitando monitoração hemodinâmica. Questão 5 (SECRETARIA ESTADUAL DE SAÚDE/RJ – 2014) Um turista volta de um lugar onde há endemia de malária fal- ciparum. Alertar os médicos em caso de febre é de suma importância para o diagnóstico e instituição precoce do tratamento, o que melhora o prognósti- co da malária por Plasmodium falciparum. Deve-se ter forte suspeita desta doença em pessoas que se apresentem febris após retornaram de zona endê- mica em até: ⮦ 1 ano. ⮧ 7 dias. ⮨ 2 meses. ⮩ 6 meses. Malária 16 Infectologia Questão 6 (HOSPITAL ESTADUAL DO ACRE – 2017) A Amazônia con- centraa grande maioria dos casos de malária do país. Diante de um paciente adulto, masculino, com malária por P. vivax diagnosticada laboratorialmen- te, que evolui com sinais de gravidade, você indica como primeira escolha o tratamento com: ⮦ Cloroquina associada à primaquina endovenosas. ⮧ Artemether combinado com lumefantrine oral. ⮨ Artesunato associado à clindamicina endove- nosos. ⮩ Quinino associado à clindamicina endovenosos. Questão 7 (SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DE LIMEIRA – 2017) Qual dos agentes de malária determina a forma mais grave da doença habitualmente? ⮦ Plasmodium falciparum. ⮧ Plasmodium vivax. ⮨ Plasmodium malariae. ⮩ Plasmodium ovale. Questão 8 (SECRETARIA ESTADUAL DE SAÚDE/RJ – 2018) Um paciente re- torna de viagem a trabalho em Angola e, em poucas semanas, desenvolve quadro de febre e calafrios. Evolui com piora do estado geral e é internado no CTI com hipotensão e hipoxemia. Relata uso pro- filático de doxiciclina durante sua estadia no país. Suspeita-se que ele esteja com malária. Nesse caso, o melhor método diagnóstico para confirmar essa suspeita é: ⮦ Gota fina. ⮧ Hemocultura. ⮨ Gota espessa. ⮩ Pesquisa de antígeno. Questão 9 (HOSPITAL CENTRAL DO EXÉRCITO – 2018) A malária é a mais importante das doenças parasitárias huma- nas, sendo uma doença transmitida pela picada do mosquito do gênero: ⮦ Aedes. ⮧ Anopheles. ⮨ Plasmodium. ⮩ Phlebotomus. ⮪ Culex. Malária 17 Cap. 6 GABARITO E COMENTÁRIOS Questão 1 dificuldade: Y Dica do professor: Questão direta sobre a malária. Malária é uma doença infecciosa febril aguda trans- mitida pela picada da fêmea do mosquito Anopheles, infectada por Plasmodium. No Brasil, três espécies estão associadas à malária em seres humanos: P. vivax, P. falciparum e P. malariae. Alternativa A: CORRETA. É o mais frequente no Brasil e causa um tipo de malária mais branda. Alternativa B: INCORRETA. Presente no Brasil, mas não é o mais frequente. Associado às formas mais graves de malária. Alternativa C: INCORRETA. Presente no Brasil, mas não é o mais comum. Alternativa D: INCORRETA. Causa doença menos fre- quente e menos grave. ✔ resposta: ⮦ Questão 2 dificuldade: Y Dica do professor: Após a confirmação da malá- ria, o paciente recebe o tratamento em regime am- bulatorial, com comprimidos que são fornecidos gratuitamente em unidades do Sistema Único de Saúde (SUS). Somente os casos graves deverão ser hospitalizados de imediato. O tratamento indi- cado depende de alguns fatores, como a espécie do protozoário infectante; a idade e o peso do pa- ciente; condições associadas, tais como gravidez e outros problemas de saúde; além da gravidade da doença. Para otimizar o trabalho dos profissionais de saúde e garantir a padronização dos procedi- mentos necessários para o tratamento da malária, o Guia de Tratamento da Malária no Brasil apresenta tabelas e quadros com todas as orientações rele- vantes sobre a indicação e uso dos antimaláricos preconizados no Brasil de acordo com a espécie parasitária, o grupo etário e o peso dos pacientes. Dentre as opções supracitadas os medicamentos utilizados são Cloroquina, Primaquina e Lumefan- trina. A maioria dos esquemas utilizam os dois primeiros, mas podendo se rinserida a Lumefantri- na, por exemplo, no tratamento das infecções por Plasmodium falciparum com a combinação fixa de artemeter+lumefantrina em 3 dias. ✔ resposta: ⮩ Questão 3 dificuldade: Y Dica do professor: Questão mal formulada, algu- mas alternativas podem estar corretas, então nesse momento vamos analisar e pensar em qual crité- rios seria o marcador de maior gravidade. A malária grave, maioritariamente causada pelo Plasmodium falciparum, continua a ser uma das principais cau- sas de morte por infeção no mundo, principalmente na África subsariana. A aquisição de imunidade na malária é lenta, e para ser mantida requer a exposi- ção a variantes antigénicas múltiplas do parasita e a maturação do sistema imune do hospedeiro. Os sinais de gravidade são: Hiperpirexia, Rebaixamen- to do nível de consciência, Glasgow 2 convulsões/24h, Acidose, Vômitos, Hipoglicemia, Anemia grave, Insuficiência renal, Ic- terícia, Edema pulmonar, Sangramento importante, Choque, Hiperparasitemia. Alternativa A: INCORRETA. Hiperpirexia (temperatu- ra > 41ºC). Alternativa B: INCORRETA. Casos mais graves quando P. falciparum > 10% ou > 500 mil/mm³. Alternativa C: INCORRETA. Hiperparasitemia > 10% ou > 500 mil/mm³ Malária 18 Infectologia Alternativa D: INCORRETA. A primoinfecção pode ser mais grave, mas não é um marcador definitivo. Alternativa E: CORRETA. Pacientes nos extremos de idade apresentam maior gravidade. ✔ resposta: ⮪ Questão 4 dificuldade: Y Dica do professor: O espectro clínico da malária pode variar de manifestações oligossintomáticas até quadros graves e letais. São manifestações clí- nicas e laboratoriais indicativas de malária grave e complicada: dor abdominal intensa (ruptura de baço, mais frequente em P. vivax); icterícia; redução do volume de urina a menos de 400 mL em 24 horas; vômitos persistentes; sangramento; dispneia; cia- nose; taquicardia (avaliar fora do acesso malárico); convulsão ou desorientação (não confundir com o ataque paroxístico febril); prostração (em crianças); comorbidades descompensadas; anemia grave; hi- poglicemia; acidose metabólica; insuficiência renal; hiperlactatemia; hiperparasitemia (> 250.000/mm3 para P. falciparum). Alternativa A: INCORRETA. Na malária grave os leucóci- tos podem estar normais ou pode haver leucopenia. Alternativa B: INCORRETA. O P. falciparum é respon- sável pela maioria dos casos letais. Alternativa C: INCORRETA. Apesar da plaquetopenia ser comum nesses casos, os sangramentos espon- tâneos são raros. Alternativa D: CORRETA. Alternativa E: INCORRETA. Todo paciente em choque hemodinâmico necessita de monitorização contínua. ✔ resposta: ⮩ Questão 5 dificuldade: Y Dica do professor: É importante investigar a hi- pótese de malária em toda pessoa que tenha sido exposta ao risco de infecção – comumente viagem a uma área de transmissão – e apresente qualquer tipo de febre. O exame padrão é a demonstração do parasita em lâminas de sangue periférico (gota espessa). A literatura indica que o espaço de tempo entre a picada do mosquito infectante e o apareci- mento do quadro clínico varia, em geral, de 12 até 30 dias, dependendo da espécie do agente infec- cioso. O tempo de incubação do P. falciparum é de 8 a 12 dias nos casos de transmissão por picada do mosquito. O P. malariae é o que pode apresen- tar maior período de incubação, que é em torno de 30 dias. Avaliando as opções disponíveis nessa questão, vemos que não temos nenhuma dessas duas opções: 12 dias ou 30 dias como resposta. Avaliando outras vias de transmissão, a malária transmitida por transfusão sanguínea permanece como uma das infecções mais relevantes para os serviços de hemoterapia. Embora no Brasil a inci- dência de malária por transfusão sanguínea não seja conhecida, em áreas de transmissão ativa a frequência de malária transfusional pode chegar a mais de 50 casos por milhão de unidades de san- gue. Apesar de o enunciado não ter mencionado transfusão sanguínea nesse paciente, quando a infecção se deve a uma transfusão de sangue o período de incubação, pode ser de até 2 meses. Questão controversa e específica. ✔ resposta: ⮨ Questão 6 dificuldade: Y Dica do professor: Qualquer paciente com malária, que apresente um dos sinais relacionados a seguir, deve ser considerado portador de malária grave e complicada: hiperpirexia (temperatura > 41°C), con- vulsão, hiperparasitemia (> 200.000/mm3), vômitos repetidos, diminuição da quantidade de urina, res- piração ofegante, anemia intensa, icterícia, hemor- ragias e hipotensão arterial. O paciente apresenta malária grave e, portanto, antimaláricos potentes e de ação rápida devem ser administrados. Artesunato + clindamicinaé o único esquema entre as alternativas recomendado para o tratamento de formas graves. ✔ resposta: ⮨ Questão 7 dificuldade: Y Dica do professor: A gravidade da malária depen- de da relação entre hospedeiro (vulnerabilidade e estado imunológico) e o Plasmodium spp (espécie infectante e densidade parasitária). Quanto ao hos- pedeiro, os que se encontram mais vulneráveis às Malária 19 Cap. 6 formas graves da doença são os primoinfectados, as gestantes e as crianças pequenas. Devido à menor duração do seu ciclo tecidual, à maior produção de merozoítas durante as esquizogonias tecidual e eritrocitária e à capacidade de infectar hemácias de qualquer idade, o P. falciparum tem a potencialidade de produzir hiperparasitemias, intima- mente relacionadas à gravidade da infecção. Além disso, o P. falciparum é a única espécie que claramente produz alterações na microcirculação, concorrendo assim para o surgimento de uma doença mais grave. ✔ resposta: ⮦ Questão 8 dificuldade: Y Dica do professor: Pela inespecificidade dos sinais e sintomas provocados pelo Plasmodium, o diag- nóstico clínico da malária não é preciso, pois outras doenças febris agudas podem apresentar sinais e sintomas semelhantes, tais como a dengue, a fe- bre amarela, a leptospirose, a febre tifoide e muitas outras. Dessa forma, a tomada de decisão de tratar um paciente por malária deve ser baseada na con- firmação laboratorial da doença, pela microscopia da gota espessa de sangue ou por testes rápidos imunocromatográficos. Alternativa A: INCORRETA. Gota fina não é habitual- mente utilizada no diagnóstico de malária. Alternativa B: INCORRETA. Hemocultura não é habi- tualmente utilizada no diagnóstico de malária. Alternativa C: INCORRETA. A técnica de gota espes- sa demanda cerca de 60 minutos, entre a coleta do sangue e o fornecimento do resultado. Sua eficácia diagnóstica depende da qualidade dos reagentes, de pessoal bem treinado e experiente na leitura das lâminas e de permanente supervisão. Num contexto de extrema urgência, como no caso, necessitamos de um resultado mais rápido. Alternativa D: CORRETA. Os testes rápidos para pes- quisa de antígeno da malária são de fácil execução e interpretação de resultados, dispensam o uso de microscópio e de treinamento prolongado de pes- soal. Permitem diagnósticos rápidos, em cerca de 15 a 20 minutos; logo, seriam mais aplicáveis neste caso. ✔ resposta: ⮩ Questão 9 dificuldade: Y Dica do professor: A possibilidade de malária deve ser cogitada em todo indivíduo que apresente quadro febril a esclarecer e história de deslocamento para regiões endêmicas ou entrada em região de Mata Atlântica. Além de pensar nas viagens em associa- ção ao quadro de malária por transmissão natural – ou seja, pela picada do mosquito Anopheles spp. –, deve-se também suspeitar da possibilidade em casos de febre e hemotransfusão, transplante de órgãos ou acidentes com material perfurocortante. Alternativa A: INCORRETA. Aedes é o agente trans- missor de dengue, zika e chikungunya. Alternativa B: CORRETA. A transmissão natural da doença se dá pela picada de mosquitos do gênero Anopheles infectados com o Plasmodium. Estes mosquitos também são conhecidos por anofelinos, dentre outros nomes. Alternativa C: INCORRETA. Phlebotomus pode trans- mitir leishmaniose. Alternativa D: INCORRETA. Plasmodium é o gênero do protozoário que causa a malária. Alternativa E: INCORRETA. Culex transmite filariose e febre do Nilo. ✔ resposta: ⮧ Fixe seus conhecimentos! 20 FIXE SEU CONHECIMENTO COM RESUMOS Use esse espaço para fazer resumos e fixar seu conhecimento! _____________________________________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________________________________________ Malária Introdução e epidemiologia Dados brasileiros Vetor, etiologia e transmissibilidade Ciclo de vida Diagnóstico Quadro clínico Malária não complicada Malária grave e complicada Tratamento Malária grave Prevenção Quimioprofilaxia Proteção contra picadas de insetos Mapa mental. Malária Referências Bibliografia consultada Questões comentadas