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FORENSE COMPUTACIONAL OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Explicar a identificação e a coleta de provas em perícia digital. > Definir o exame e a análise de provas em perícia digital. > Descrever as etapas do laudo pericial. Introdução Você já recebeu algum e-mail ou mensagem de texto afirmando que havia ganhado um prêmio de algum banco no qual nem tem conta? Esse é um exemplo de crime praticado no meio digital, um golpe aplicado por quadrilhas para acessar dados pessoais e bancários de indivíduos, com a finalidade de fazer identidades falsas, entre outros delitos. Nos equipamentos de informática, como computador e smartphone, usa- dos para praticar crimes e que tenham sido objeto de busca e apreensão, profissionais da perícia computacional devem fazer análises técnicas e alguns trabalhos importantes. Isso serve para que os elementos coletados tenham valor probatório no processo judicial ou de investigação. Neste capítulo, você vai estudar como ocorre a identificação e a coleta dos elementos probatórios da perícia digital. Também vai conferir como essas provas são analisadas para que profissionais cheguem às conclusões técnicas. Por fim, você vai ler sobre como, a partir dessas conclusões, é elaborado o laudo que será apresentado às autoridades interessadas, como juízes, Ministério Público e autoridades policiais. Etapas da perícia digital Guaracy do Nascimento Moraes Coleta e identificação dos elementos da perícia digital Na área da informática, as análises técnicas são feitas pela perícia forense computacional. Profissionais utilizam metodologias e técnicas cientificamente comprovadas para encontrar dados e informações que estejam dentro de algum dispositivo eletrônico, sejam eles recentes ou não, deletados, com- pactados ou avariados. Meios específicos são usados para analisar diferentes equipamentos computacionais e fazer com que as evidências encontradas tenham valores probatórios. A perícia forense pode ser definida como o conjunto de “[…] atos traduzidos por relatório, laudo, documento ou outra forma de expressão, emitido por profissional (perito) que detém conhecimento específico acerca da área em questão” (TEIXEIRA, 2020, p. 268). Por sua vez, a perícia computacional lida com evidências digitais retiradas de locais em que foi constatada a prática de um crime. Essas evidências são afuniladas até que seja possível chegar a uma conclusão técnica em relação ao agente, à dinâmica e à materialidade da infração penal cometida. Portanto, a pessoa responsável pela perícia reúne todas as evidências encontradas no local do crime, faz um juízo de valor técnico sobre elas e as apresenta ao juiz competente ou à autoridade policial. Os equipamentos computacionais podem ser utilizados como fer- ramentas de apoio para a prática de crimes convencionais ou como meios para a realização do crime. Na primeira modalidade de crime, o computador é apenas uma ferramenta operacional. Caso ele não estivesse presente, o crime poderia se materializar mesmo assim. Nessas situações, exames forenses são realizados nos equipamentos para produzir provas técnicas que serão funda- mentais para o juiz. Exemplos de crimes nessa modalidade são a sonegação de impostos e a falsificação de documentos. Já na segunda modalidade de crime, o computador é considerado uma peça-chave para a prática do delito. Sem ele, o crime não se materializaria. Existem infrações penais específicas que dependem da utilização do meio digital, como publicação, venda e compartilhamento de pornografia infantil. Outro exemplo ocorre quando um programa de computador é instalado com a finalidade de roubar dados bancários de correntistas. Etapas da perícia digital2 O trabalho dos peritos envolve diversas tarefas e etapas que precisam seguir uma ordem e usar mecanismos específicos para que os elementos coletados não se tornem inviáveis ou sejam destruídos pela falta de cuidado e de organização. Essas etapas são as seguintes, de acordo com Teixeira (2020): obtenção e coleta de dados; identificação de indícios; preservação das provas; e análise pericial. Antes da coleta propriamente dita, é primordial que os elementos pro- batórios sejam obtidos de maneira lícita sob a emissão de um mandado de busca e apreensão. Além disso, os procedimentos para a coleta de informa- ções devem ser formais, seguindo uma metodologia predeterminada sobre como adquirir provas para serem apresentadas em juízo. As provas obtidas em casos de crimes computacionais podem ser: provas digitais, que são dados importantes para o processo judicial ou de investigação armazenados digitalmente; dados-objetos, que são objetos associados a itens físicos; e itens físicos, que são mídias físicas que armazenam os dados digitais ou por onde são transmitidos (exemplos: HD, pen drive, celular, etc.) (TEIXEIRA, 2020). As informações nos dispositivos de informática (mídias digitais, dispositivos de armazenamento, etc.) e os dados voláteis (que ficam na memória RAM ou em rede de computadores) devem ser coletados e preservados adequadamente, a fim de que não sejam adulterados. Além disso, deve-se trabalhar com a cópia do arquivo digital coletado, pois, caso haja algum problema com os dados dessa cópia, como perda ou danificação, ainda haverá o arquivo original. Segundo Sousa (2017, p. 102), na fase de preservação e coleta “[...] que será possível buscar elementos (dados, mídias de armazenamento, entre outros) de maneira a consolidar uma base investigativa para as fases seguintes da perícia”. Para dados voláteis, o armazenamento é feito principalmente em rede de computadores, cujos dados trafegam livremente pela entrada e saída de dados de um computador ou de um ponto de rede. De acordo com Galvão (2013), para capturar e analisar dados que constam no tráfego de redes é utilizado software de Network Forensic Analysis Tools (NFAT). Nessa categoria de software, há também o programa TCPDUMP que tem uma interface mais agradável, além de uma infraestrutura mais flexível para capturar dados em redes de computadores. Outro exemplo desse tipo de software é o Wireshark, que tem um maior alcance para captura de pacotes de dados em redes de computadores. Etapas da perícia digital 3 Após a coleta dos dados, é importante que o perito computacional iden- tifique os possíveis indícios resultantes desses dados, porque “[…] cada tipo de ato ou crime de informática possibilita um tipo de evidência” (TEIXEIRA, 2020, p. 270). Os indícios encontrados em um arquivo de mídia podem criar uma evidência que indique a prática de um crime ou auxilie na identificação do criminoso. Portanto, a identificação de indícios é muito importante para obter evidências concretas à investigação em curso. Por exemplo, pense no caso de uma quadrilha que atua na comercialização de conteúdos pornográ- ficos de crianças e adolescentes. É feita uma busca e apreensão no possível local do crime e, entre os elementos digitais encontrados, está um pen drive. Ao coletar os dados armazenados na mídia digital, o perito encontrou fotos obscenas envolvendo crianças e adolescentes, que se tornaram evidências importantes que comprovam a materialidade e a prática do crime. Além disso, podem auxiliar na procura pelos responsáveis. É primordial que o perito saiba diferenciar os fatos dos fatores que possam causar influências no caso. Para isso, deve ser feito o le- vantamento de dados relevantes para buscar fatores que têm alguma relação, direta ou indireta, com a prática do crime computacional, como datas, nomes de pessoas, horários, empresas, órgãos públicos e instituições (TEIXEIRA, 2020). Preservação e análise técnica dos elementos da perícia digital De acordo com Teixeira (2020), a fase de preservação das provas começa no local do crime com as provas encontradas nele. É importante que os primeiros a chegar ao local tomem certas precauções para garantir a integridade dos indícios digitais, como não modificar o espaço físico, não desligar ou ligarequipamentos de informática, etc. O criminoso pode ter instalado algum software que programe a destruição das provas nos equipamentos caso eles sejam desligados, ligados ou manu- seados incorretamente. Por isso, somente o perito computacional, que tem conhecimentos específicos para manusear corretamente esses dispositivos, deve manusear os equipamentos de informática encontrados no possível do local do crime. É necessário garantir a proteção desses equipamentos para que não haja avarias no momento da coleta. Além disso, os arquivos originais Etapas da perícia digital4 precisam ser preservados como foram encontrados. Como vimos antes, o perito deve fazer suas análises técnicas numa cópia, para não haver risco de adulteração ou comprometimento da evidência original. Segundo Teixeira (2020, p. 271), “[…] deve se clonar bit a bit, inclusive nas partes não utilizadas, pois elas podem conter dados valiosos que foram apagados, mas passíveis de recuperação”. É necessário criar uma cadeia de custódia identificando todas as provas, que devem ser “[…] etiquetadas, documentadas e marcadas com as iniciais do perito, a hora e a data, o número do processo e dados de identificação” (TEIXEIRA, 2020, p. 271). As evidências digitais encontradas são embaladas em sacos apropriados para o transporte o mais rápido possível. Durante o trajeto, não podem passar por locais com campos magnéticos ou ser expostas a altas temperaturas e luminosidade. O Quadro 2 apresenta um exemplo de formulário de cadeia de custódia. Quadro 2. Exemplo de formulário de cadeia de custódia NÚMERO DO CASO: 20090226 DETALHES DA MÍDIA OU EQUIPAMENTO ITEM DESCRIÇÃO 1 HD DO NOTEBOOK COM 2GB DE CAPACIDADE FABRICANTE MODELO NÚMERO DE SÉRIE SAMSUNG SGM2GB ABC123456 SOBRE A IMAGEM DOS DADOS DATA HORA CRIADO POR FERRAMENTA USADA 26/02/2009 10:53 SILVIO DO MONTE EnCASE VERSION 3 TIPO DE CÓPIA HASH DISCO COMPLETO 4e3d2d5e5427953d7eda6ddc667bf6b (Continua) Etapas da perícia digital 5 CADEIA DE CUSTÓDIA CÓDIGO ORIGEM DATA HORA DESTINO DATA HORA 1 LOCAL DE APREENSÃO 26/02/2009 17:00 PERÍCIA 26/02/2009 17:30 Fonte: Adaptado de Tolentino, Silva e Mello (2011). Depois da correta preservação dos elementos coletados no local do crime, o perito realiza a análise técnica das evidências, considerada a etapa mais importante da perícia por muitos doutrinadores. Queiroz e Vargas (2010) explicam que a análise de dados atua no exame das evidências coletadas para que, ao final do procedimento pericial, seja possível chegar a uma conclusão científica sobre o crime que deu origem à investigação. De acordo com Teixeira (2020), quando o perito computacional realiza uma análise forense num dispositivo de informática, principalmente quando este serve para armazenamento e transmissão de e-mails ou arquivos, ele precisa ter cautela para não invadir a privacidade dos usuários do sistema. O ideal é definir um escopo, restringindo a área de análise ao máximo possível, a fim de evitar a violação de privacidade de terceiros inocentes. Eleutério et al. (2019) afirmam que o perito computacional deve fazer uma separação detalhada dos tipos de arquivos que serão analisados e usar palavras-chaves para identificar cada um desses elementos, para que fique fácil a sua identificação. Tal atitude permite que o trabalho do perito seja mais fácil e ágil, pois não perderá tempo organizando as evidências encontradas. A análise forense pode ser dividida em duas fases: análise física e análise lógica. A primeira trata-se da pesquisa de sequências e extração de dados de toda a imagem pericial, dos arquivos normais às partes inacessíveis da mídia. A segunda consiste na análise dos arquivos das partições, em que o sistema é investigado de forma a percorrer os diretórios do objeto periciado. Além disso, alguns detalhes devem ser observados no decorrer das análises física e lógica dos equipamentos computacionais objetos de perícia, como a utilização de softwares, que também ajudam a conferir a veracidade dos acontecimentos. É a pessoa responsável pela perícia digital que define qual tipo cabe melhor a esse fim, como “[…] ferramentas para recuperação de dados, análise de memória, análise de dados de uma rede, entre muitas outras ferramentas digitais” (TEIXEIRA, 2020, p. 271). É possível, também, fazer a análise da memória on-line, com o equipamento ligado e executando processos, possibilitando a obtenção de materiais importantes para comprovar o delito. (Continuação) Etapas da perícia digital6 O disco rígido, principal dispositivo de armazenamento dos computadores, é proje- tado para evitar perdas e danos acidentais aos dados. Porém, os antiforenses são métodos de remoção, ocultação, eliminação e subversão de evidências com o obje- tivo de mitigar e impedir os resultados de análises forenses (TEIXEIRA, 2020, p. 271). Um dos principais problemas da análise forense é que, muitas vezes, as ferramentas utilizadas não são habilitadas para recuperar todas as infor- mações necessárias, nem para analisar todos os dados contidos no equipa- mento encontrado. Contudo, tudo o que for encontrado deve ser analisado da melhor maneira possível, mesmo que isso demore muito tempo (o que normalmente ocorre), pois esses elementos podem trazer provas valiosas para a investigação ou para o processo judicial. Laudo pericial O laudo pericial é o documento elaborado pelo perito forense em que constam todos os relatos de um exame técnico realizado sobre determinado assunto. O laudo serve como prova técnica, que será utilizada pelos principais interessa- dos, como autoridade policial, membro do Ministério Público, juiz, advogado, etc. (TEIXEIRA, 2020). É a última etapa do trabalho do perito forense. Elabora- -se um relatório final contendo a descrição das análises técnicas feitas no objeto examinado. O laudo não tem um modelo padrão a ser confeccionado, mas certas orientações precisam ser seguidas para que ele seja feito com clareza e objetividade. O laudo pericial é composto dos resultados encontrados pelo perito após minuciosas investigações em laboratório, detalhando tudo o que foi coletado e analisado, assim como o meio utilizado para a investigação e como foi provada a veracidade dos objetos recolhidos, terminando com as conclusões do perito (TOLENTINO; SILVA; MELLO, 2011). Essa é a fase de formalização do estudo, com base nas análises feitas nos objetos coletados no local do crime, e apresenta o resultado obtido com as evidências digitais encontradas. Esse laudo deve ser imparcial. O perito apenas apresenta os relatos do que foi encontrado nos objetos analisados, sem qualquer tipo de opinião ou julgamento. Quem julga é o juiz responsável, que se fundamentará nas evidências apresentadas pela perícia digital. Segundo o parágrafo único do art. 160 do Código de Processo Penal, “[…] o laudo pericial será elaborado no prazo máximo de 10 dias, podendo este prazo ser prorrogado, em casos excepcionais, a requerimento dos peritos” (BRASIL, 2017). Nos casos de perícia técnica feita em processo civil, o prazo Etapas da perícia digital 7 para apresentação do laudo pericial será estipulado pelo juiz. Não há um prazo mínimo para tanto, desde que ele seja entregue 20 dias antes da audiência de instrução e julgamento, conforme determina o art. 477, caput, do Código de Processo Civil (BRASIL, 2017). O laudo pericial deve ter uma linguagem de fácil entendimento, seja para o juiz, seja para todas as partes envolvidas no processo judicial. O art. 473, § 1º, do Código de Processo Civil determina que, “no laudo, o perito deve apresentar sua fundamentação em linguagem simples e com coerência lógica, indicando como alcançou suas conclusões” (BRASIL, 2015). Sendo assim, é muito importante que o perito utilize linguagem correta e simples, evitando uso de expressões técnicas não conhecidas pelo público em geral. O laudo pericial, portanto, representa a materialização física de todas as análises feitas pelo peritocomputacional em todos os dispositivos de informática coletados no local do crime. Por isso, esses dispositivos precisam ser devidamente preservados, garantindo a integridade dessas evidências, que serão entregues para a autoridade judiciária responsável. A preservação dos elementos coletados e as técnicas apropria- das para analisá-los são muito importantes para a perícia digital, a fim de garantir a integridade das evidências. Caso aconteça algum equívoco ou imprudência na análise ou na preservação dos elementos, essas situações precisam ser relatadas no laudo pericial. Assim, a autoridade competente vai verificar se, mesmo com o risco de a prova ter perdido a sua integridade, ela mantém seu valor probatório. Por exemplo, o assistente da perícia não teve cuidado ao manusear o notebook que levava ao local do crime, deixando-o cair no chão. O aparelho continuou funcionando, e o perito técnico conseguiu fazer as análises necessárias. No entanto, é importante constar no laudo que esse aparelho sofreu um pequeno acidente pela imprudência da equipe pericial, mas que, mesmo assim, foi possível finalizar os exames técnicos. Neste capítulo, você estudou as etapas da perícia digital e a sua importância para o processo judicial e de investigação. Conheceu como ocorre a coleta dos objetos de informática encontrados no local do crime e a relevância da preservação desses dispositivos antes do manuseio do perito. Além disso, Etapas da perícia digital8 ficou evidente que a correta preservação dos equipamentos computacionais é fundamental para que eles não sofram avarias no transporte, manuseio e/ou estoque. Foi possível constatar, também, a importância da análise téc- nica realizada pelo perito computacional. Ela possibilita extrair o máximo de evidências possíveis dos elementos encontrados pelas autoridades policiais e, assim, o profissional pode confeccionar o laudo pericial, que narra todos os resultados obtidos dos exames técnicos. Referências BRASIL. Código de Processo Penal. Brasília, DF: Senado Federal, 2017. Disponível em: https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/529749/codigo_de_processo_ penal_1ed.pdf. Acesso em: 5 ago. 2021. BRASIL. Lei n. 13.105, de 16 de março de 2015. Diário Oficial da União, Brasília, DF, ano 152, n. 51, seção 1, p. 1-51, 17 mar. 2015. Disponível em: https://pesquisa.in.gov.br/imprensa/ jsp/visualiza/index.jsp?jornal=1&pagina=1&data=17/03/2015. Acesso em: 29 abr. 2021. GALVÃO, R. K. M. Introdução à análise forense em redes de computadores. São Paulo: Novatec, 2013. QUEIROZ, C.; VARGAS, R. Investigação e perícia forense computacional. 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