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Uma Teoria Projetiva da Consciência: da Neurociência à Psicologia Filosófica
Preprint · August 2018
DOI: 10.13140/RG.2.2.28133.70886
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Alfredo Pereira Junior
São Paulo State University
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Uma Teoria Projetiva da Consciência: da Neurociência à Psicologia Filosófica 
Alfredo Pereira Júnior* 
*Professor Associado II – Instituto de Biociências de Botucatu – Universidade Estadual 
Paulista (UNESP); E-Mail: alfredo.pereira@unesp.br 
Introdução 
O desenvolvimento da neurociência e da psicologia na “década do cérebro” (1990-
2000) deu origem às áreas interdisciplinares da Neurociências Cognitiva, Afetiva e da 
Ação, avançando no sentido de elucidar a estrutura dinâmica da atividade consciente. 
Esta estrutura foi filosoficamente concebida, há um século, como constituída de um 
polo subjetivo, o “Eu” que vivencia experiências conscientes, e um polo objetivo, 
composto pelos conteúdos vivenciados pelo ser consciente (Husserl, 1913). 
Em trabalhos mais recentes, Nagel (1974), se refere a um “ponto de vista”, no qual se 
ancoram as experiências qualitativas (“what it is like to be”), enquanto Velmans (1993; 
2009; 2017) entende que a experiência seria construída por representações mentais 
localizadas no espaço físico. Morsella (2005) entende que a consciência comporta uma 
tensão entre desejos subjetivos e necessidades objetivas. Na psicanálise freudiana, já 
havia uma tematização da estrutura da mente consciente, na bipolaridade entre o Id e o 
Superego (Freud, 1913). Como relacionar esta estrutura com os resultados da 
neurociência? 
O modo convencional de abordar tal problema consiste em identificar os correlatos 
cerebrais dos desejos subjetivos e das restrições objetivas. No modelo do cérebro triuno 
de McLean (1990), os impulsos primitivos se relacionam com o “cérebro reptiliano”, as 
emoções com o “sistema límbico” e o pensamento lógico-racional-moral com as 
funções do neocortex, em particular com o córtex pré-frontal. Este último é tido como 
componente central da consciência humana reflexiva. 
A distinção do sistema límbico como um centro emocional, e o córtex associativo (na 
espécie humana, principalmente o córtex pré-frontal) como sede da razão e da 
autoconsciência, é comum em neuropsicologia (vide Stuss et al., 1994). Uma distinção 
popular, mas sem apoio neurocientífico conclusivo, diz respeito à especialização 
hemisférica: o hemisfério direito seria “mais emocional” e o hemisfério esquerdo “mais 
racional”. 
Alternativamente, uma abordagem recente baseada em interações neuro-astrogliais 
relaciona o sentimento com ondas iônicas no tecido vivo, enquanto a cognição se 
basearia nos potenciais de ação axonais, que são (parcialmente) isolados daquelas ondas 
pela mielina. Deste modo, teríamos dois tipos de processamento de sinais no cérebro: 
um deles baseado em ondas iônicas contínuas ao tecido, correspondendo aos 
sentimentos, e o outro baseado em pulsos elétricos discretos através dos axônios 
isolados por uma camada de mielina, correspondendo aos processos de transmissão 
sensorial, formação de representações mentais, pensamento lógico e controle motor. As 
ondas iônicas no tecido cerebral e os pulsos axonais nas redes neuronais interagem 
intimamente; os potenciais graduados neuronais geram as ondas, e estas modulam as 
sinapses, reforçando ou deprimindo a frequência dos potenciais de ação (vide Rocha, 
Pereira Jr. and Coutinho, 2001; Rocha, Massad and Pereira Jr., 2005; Pereira Jr. and 
Furlan, 2009; 2010; Pereira Jr., 2007; 2012; 2013; 2014; 2015a,b; 2017; Pereira Jr. et al, 
2013; 2015; 2016; 2017; 2018). 
No presente trabalho, procuro realizar uma síntese teórica capaz de promover uma 
integração interdisciplinar da Psicologia Filosófica com a Neurociência, utilizando para 
isso o conceito de projeção, a partir do trabalho de Velmans (1993; 2009; 2017). O 
conceito de projeção é aqui utilizado como “ponte” entre as Neurociências e a 
Psicologia Filosófica, no contexto da seguinte linha de raciocínio. A atividade 
consciente humana se constitui por três funções cerebrais e respectivas estruturas, 
estudadas pelas neurociências: 
2.1) A Neurociência Cognitiva aborda a função Conhecer, que é suportada 
principalmente por circuitos neuronais neocorticais, em particular pela triangulação das 
áreas associativas: Parietal, Temporal e Pré-Frontal. Esta função se compõe de diversas 
sub-funções (percepção, aprendizagem, memória, atenção, pensamento lógico-
matemático, planejamento, julgamento moral, tomada de decisão; vide a obra clássica 
editada por Gazzaniga,1993); 
2.2) A Neurociência Afetiva aborda a função Sentir, suportada principalmente por 
estruturas subcorticais como a área periqauedutal cinza (Panksepp, 1998), sistema 
límbico (incluindo a respectiva glia e demais componentes do tecido), ínsula, córtex 
somatosensorial, conexões do sistema nervoso central com os sistemas nervosos 
entéricos e cardíaco, e também com os sistemas endócrino e imune. Uso o termo 
sentimento (a partir de Damásio, 2000) para me referir à vivência consciente dos vários 
tipos de sensação e de emoções; 
2.3) A Neurociência da Ação aborda a função Agir (ou comportamento aberto), que é 
suportada pelos córtices pré-motor e motor, pelos demais componentes do sistema 
sensório-motor (cerebelo, gânglios de base, sistema vestibular), conexões entre o 
sistema motor e as áreas sensoriais (responsáveis pela “descarga corolária”; vide Wurtz, 
2013), conexões axonais piramidais com as junções neuro-musculares, sensores e 
mecanismos efetores musculares envolvidos no movimento e na percepção cinestésica 
(Jeannerod, 1997).Journal of Consciousness Studies 3 (4), 330-349. 
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https://www.researchgate.net/publication/326834866A estrutura bipolar da consciência pode ser concebida como um campo informacional, 
composto de um polo subjetivo (o Sentido de Eu) e um polo objetivo (Sentido de 
Mundo). Este campo informacional, segundo nossa hipótese, seria construído por meio 
de uma projeção da atividade cerebral; sendo vivenciado apenas na perspectiva de 
primeira pessoa (Nagel, 1974). 
O polo subjetivo, ou Sentido de Eu, seria um “atrator” em um sistema dinâmico 
composto pelas estruturas e funções sensoriais, emocionais e afetivas do corpo vivo, 
que incluem não só os potenciais graduados dendríticos, como também as ondas iônicas 
(ou hidro-iônicas, conforme Fernandes de Lima e Pereira Jr., 2016) que percorrem o 
tecido vivo, incluindo os astrócitos, fluído e matriz extracelular (Pereira Jr., 2017). 
Considerando a escolha semântica do termo sentimento para referir à experiência 
subjetiva consciente destes processos, pode-se dizer que o estado atrator é gerado na 
história sentimental dos indivíduo, e projetado como sendo uma “identidade” invariante 
no tempo; o resultado desta projeção é o Sentido de Eu (como elaborado em Reddy et 
al., 2018). 
O polo objetivo, ou Sentido de Mundo, seria uma projeção das representações 
elaboradas no sistema nervoso e suas extensões relacionadas à ação e controle 
homeostático do corpo, que incluem as junções neuro-musculares, os sistemas nervosos 
cardíaco e entérico, e interações com os sistemas endócrino e imune (para uma 
discussão do possível efeito das emoções no sistema psico-neuro-endócrino-imune, vide 
Pregnolato, Damiani e Pereira Jr., 2017). A interação entre o Sistema Nervoso Central e 
tais componentes extra-cerebrais faz emergir o Sentido de Mundo, em que o Mundo é 
entendido como ”objeto intensional”, não como “coisa em si” Pereira Jr. (2018). 
Em termos neurobiológicos, tal projeção se faz do centro para a periferia do sistema 
nervoso, o que possibilita a formação do espaço egocêntrico (Trehub, 1991), em que o 
agente que vivencia os conteúdo está no centro, definindo um espaço proximal, e o 
mundo se situa na extremidade distal, como campo perceptivo e também como campo 
da ação. O campo informacional do Mundo se estende além do corpo vivo, se 
projetando no espaço físico, como proposto originalmente por Velmans (1993, 2009). 
Nesta abordagem, não só o Sentido de Mundo, mas também o Sentido de Eu, ou “ponto 
de vista” (Nagel, 1974) seriam considerados como resultantes de operações projetivas; 
o Sentido de Eu se constituiria por uma projeção introceptiva, enquanto a projeção 
perceptual segue na direção exteroceptiva. 
O progresso conceitual alcançado com essa formulação remete a uma outra questão: 
Como explicar a operação de projeção, e como testar cientificamente hipóteses a este 
respeito? 
A existência de operações projetivas foi inferida com base em considerações 
psicofísicas, fenomenológicas e afins, no âmbito da Psicologia Filosófica, mas a 
investigação da base neurobiológica das operações projetivas intero e exteroceptivas 
requer uma abordagem interdisciplinar. Há uma literatura considerável a respeito dos 
mecanismos envolvidos na percepção espacial; por exemplo, o tamanho de objetos e a 
distância percebida (vide Silva et al., 2006). Há também uma literatura sobre a maneira 
pela qual a percepção do espaço pode ser alterada (Velmans, 2009, 162-164). 
Com base nesses desenvolvimentos, é possível conjecturar sobre as estruturas e funções 
neurobiológicas que suportam as operações de projeção, e também sobre as formas 
pelas quais o processo projetivo pode ser estudado filosófica e/ou cientificamente, a 
partir de metodologias que abordam a experiência de primeira pessoa, a saber: a 
Neurofenomenologia; a Introspecção Sistemática; a Meditação Controlada; a Hipnose; a 
Estimulação Cerebral por meios físicos; os Tratamentos Psicofarmacológicos, e 
determinadas vertentes da Psicanálise, utilizando a linguagem e outras ferramentas 
terapêuticas. Na parte final deste artigo, procuro indicar como cada um destes métodos 
de investigação e ação poderia contribuir para se elucidar o estatuto do processo 
projetivo. 
As Neurociências e a Mente Consciente 
Na segunda metade da década de 1980 e início da década de 1990, um grupo de 
filósofos e cientistas se interessou em discutir teorias da consciência, com base em 
abordagens informacionais, computacionais e neurobiológicas (Churchland, 1986; 
Baars, 1988), e aumentou na “década do cérebro” (1990-2000), com tentativas de 
relacionar o fenômeno com funções cerebrais. Um dos principais eventos nesse sentido 
foi um simpósio organizado pela companhia farmacêutica CIBA, que resultou em um 
livro publicado em 1993. O capítulo escrito por Velmans (1993) introduzia o “problema 
da projeção perceptiva” e propunha uma abordagem da consciência no contexto da 
Psicologia Filosófica. 
O esforço interdisciplinar de construção de uma teoria da consciência se tornou uma 
característica central do cenário filosófico e científico contemporâneo. Vários autores, 
incluindo Edelman (1989), Crick (1994), Block (1995) e Damásio (2000), propuseram a 
existência de diferentes tipos de consciência, enquanto outros autores, incluindo Tononi 
et al. (2016), Koch (2003) e Dehaene and Changeux (2013), abordaram os correlatos 
neurais da atividade consciente. 
Em 1995, o Journal of Consciousness Studies publicou artigo de Chalmers (1995, 1996) 
sobre o Problema Difícil da Consciência (“Hard Problem of Consciousness”, abreviado 
como HPC), abordando a “lacuna explicativa” (Levine, 1983) existente entre a 
fisiologia cerebral e a fenomenologia da consciência. O HPC tem sido discutido ao 
longo dos anos em várias reuniões e publicações, indicando a necessidade de 
fundamentação interdisciplinar para as teorias da consciência, e de formulação de 
"princípios ponte" explicativos, conectando o domínio psicológico com processos 
biofísicos presente nos sistemas conscientes. 
Na década de 1990, o estudo da consciência nas neurociências baseou-se em três 
abordagens dos processos conscientes, no contexto de estudos experimentais do sistema 
nervoso interagindo com o restante do corpo e com o ambiente. O primeiro conceito, 
Consciência Cognitiva, foi pesquisado nas Neurociências Cognitivas, baseado em 
estudos de processamento de informação na rede neuronal e na formação de um “espaço 
de trabalho global” cognitivo (a partir desta abordagem, nos anos seguintes o conceito 
computacional de "espaço de trabalho" foi trazido para o contexto da neurobiologia; 
vide Dehaene and Changeux, 2011). 
Como termo "consciência" tem múltiplos significados, optou-se inicialmente por seu 
uso na acepção considerada mais simples, como simples registro e posse de informações 
(em inglês, esta acepção corresponde ao termo “awareness”, utilizado por Crick, 1994, e 
Chalmers, 1995). Nesse sentido, "awareness" expressa uma modalidade básica de 
consciência puramente cognitiva. Também a "autoconsciência", que significa "o 
conhecimento sobre ser consciente" ou "conhecimento do Eu", tem um caráter 
cognitivo. Esses conceitos, relativos à auto-apreensão cognitiva da consciência, foram 
desenvolvidos na teoria do “pensamento de alta ordem” (High-Order Thought; vide 
Rosenthal, 2002). 
O segundo conceito, Consciência Afetiva (Panksepp, 2005), surgiu logo após o sucesso 
da neurociência cognitiva, enfocando as bases biológicas dos sentimentos emocionais 
(emotional feelings), que são em parte “instintivas”, envolvendo a neuromodulação 
química, marcadores somáticos (Damásio, 2000), interações do sistema nervoso com os 
sistemas imunológicos e endócrinos e interações neuro-gliais. Quando estendida a 
outras espécies biológicas além da humana, a consciência afetiva se traduz no conceito 
de sentiência (Woodruff, 2017; Pereira Jr., 2017), definido como “a capacidade mínima 
de ter experiência subjetiva das qualidades associadas a sensações externas e internas, 
bem comode estados afetivos e motivacionais” (Allen e Trestman, 2016). Temos aqui 
uma concepção de consciência que procura incluir as sensações qualitativas (referidas 
como qualia na literatura filosófica), assim como os estados afetivos-emocionais. 
O terceiro conceito, Consciência Enativa, também emergiu na mesma década, a partir 
de considerações do papel da ação na determinação de padrões de função cerebral e 
foco de atenção, principalmente considerando o feedback do sistema motor na cognição 
e dimensões sociais da consciência (ver Jeannerod, 1999; Morsella, 2005). 
Em 2007, a revista Nature abriu uma rede interativa para discutir questões científicas e 
filosóficas. Se formou o grupo Brain Physiology, Cognition and Consciousness, que se 
tornou o maior da rede, com mais de mil participantes. Uma síntese da atividade de 
grupo foi reportada em Pereira Jr. e Ricke (2007). Em 2008, se formou o grupo Online 
Workshop on Theories of Consciousness, composto por ilustres autores convidados. O 
consenso teórico parcial encontrado no grupo, a respeito de uma abordagem monista do 
problema corpo-mente, foi reportado em Pereira Jr. et al. (2010). 
Com base neste entendimento, formou-se um novo grupo, Consciousness Researchers 
Forum, com o objetivo de publicar um livro sobre os alicerces da ciência da consciência 
(Pereira Jr. e Lehmann, 2013). Minha contribuição foi o capítulo no qual propunha o 
Monismo de Triplo Aspecto, uma visão epistemológica e ontológica da consciência 
(Pereira Jr., 2013), contribuindo para a construção de uma Teoria da Consciência que 
integrasse as dimensões cognitiva, sensível/afetiva e enativa. Esta abordagem sintética é 
ilustrada na Figura 1, cuja primeira versão foi publicada em Pereira Jr. et al. (2013): 
 
 
Figura 1 – O Sistema Consciente. Na perspectiva das Neurociências, aborda-se o 
Sistema Consciente interagindo com o Ambiente, composto de três funções: Conhecer, 
Sentir e Agir. A consciência humana se constitui dinamicamente pelas interações entre 
estas três funções, em ciclos temporais. Sem a presença do Sentir, teríamos um 
processamento mental não-consciente, caracterizado pelo processamento da informação 
aferente e controle motor em resposta aos estímulos ambientais. Com a presença do 
Sentir, que teria como base fisiológica as ondas de cálcio mediadas pela rede astrocitária 
(Pereira Jr. e Furlan, 2010), haveria uma modulação da atividade neuronal conforme a 
valência atribuída às qualidades do estímulo, influenciando desse modo a resposta 
comportamental. 
 
Uma Abordagem Interdisciplinar da Consciência: a Hipótese Projetiva 
Importante para os fundamentos epistemológicos de uma ciência da consciência é a 
identificação das características psicológicas da atividade consciente (Nagel, 1974; 
Velmans, 2009; Harnad, 2011; Northoff, 2016), em particular – como tratado na seção 
anterior deste projeto - a consideração da tríade de funções mentais conscientes: 
cognitivas (Baars, 1988), afetivas (Panksepp, 1996; Barrett e Russell, 1998; Barrett, 
2017) e enativas ou relacionadas à ação (Jeannerod, 1998), bem como um tratamento 
adequado dos graus de consciência fenomenal supostamente presentes em diferentes 
espécies biológicas (Carrara-Augustenborg e Pereira Jr., 2003). 
As abordagens não reducionistas enfrentam o desafio de relacionar a atividade de, por 
um lado, o sistema nervoso (e sua extensão nas vias psico-neuro-endócrinas), 
interagindo com o ambiente físico, biológico e social, e, por outro lado, a experiência 
fenomenal dos organismos, acessível apenas na perspectiva da primeira pessoa. Este 
desafio deu origem ao campo da Neurofenomenologia, contendo diferentes propostas 
filosóficas sobre a natureza do cérebro e da experiência consciente (Varela, 1996). 
Duas características psicológicas centrais da experiência consciente são o "ponto de 
vista" subjetivo (Nagel, 1974) e a localização de objetos e processos percebidos fora do 
cérebro, ou "projeção perceptiva" (Velmans, 1993). Esses aspectos são comuns e quase 
óbvios em nossas experiências conscientes, mas muito difíceis de explicar 
cientificamente. Duas abordagens em Psicologia Filosófica ajudaram os pesquisadores a 
formular adequadamente os problemas. 
Primeiramente, cito a distinção entre os tipos de perspectiva, de primeira e terceira 
pessoa (Nagel, 1974). Nagel propôs que "todo fenômeno subjetivo está essencialmente 
conectado com um único ponto de vista" (Nagel, 1974). No entanto, este ponto de vista 
subjetivo não deve ser concebido em termos de um Eu substancial ou Alma, na tradição 
cartesiana, mas como derivado de experiências naturais e respectivos mecanismos 
biológicos, como no exemplo por ele dado de um animal (o morcego) usando a 
ecolocação (mecanismo biofísico semelhante a um radar, que permite a orientação 
espacial do animal). O conceito de ponto de vista subjetivo de Nagel (1974) 
possivelmente deriva da influência de Wittgenstein e do realismo de filósofos analíticos; 
sua referência a um "Eu objetivo" (Nagel, 1983) pode ser interpretada como 
correspondendo ao conceito Eu Mínimo discutido por Zahavi (2017). 
Em geral, as experiências conscientes de um organismo podem ser referidas a um ponto 
de vista, constituindo uma perspectiva de primeira pessoa. O mesmo raciocínio pode ser 
aplicado a fenômenos objetivos, para os quais a perspectiva da terceira pessoa é 
adequada: "Ao falar da mudança da caracterização subjetiva para a objetiva, eu quero 
permanecer descomprometido sobre a existência de um ponto final, a natureza 
intrínseca completamente objetiva da coisa, que se pode ou não ser capaz de alcançar. 
Pode ser mais preciso pensar na objetividade como uma direção na qual o entendimento 
pode viajar" (Nagel, 1974, itálico por APJ). Desta citação fica claro que a perspectiva da 
terceira pessoa foi concebida por Nagel como uma direcionalidade do entendimento. A 
questão da direcionalidade está intimamente relacionada a conceitos filosóficos, como a 
"intensionalidade" (para uma revisão, ver Bourget e Mendelovici, 2017) e a 
"transparência ou opacidade" das representações mentais (Tye, 1996; 2002). 
A segunda abordagem que cito é a discussão da projeção perceptiva por Max Velmans. 
Como se pode relacionar o espaço fenomenal das experiências subjetivas com o espaço 
físico objetivamente descrito na ciência? Na filosofia contemporânea, o Mundo que se 
apresenta na experiência tem sido referido como "mundo da vida" (Husserl, 1913), 
"desvelamento do Ser" (Heiddeger, 1962), e "formas de vida" (Wittgenstein, 1962, 
1969). Uma abordagem científica é encontrada na psicofísica, comparando avaliações 
subjetivas de propriedades espaciais (como distância, comprimento) com medidas 
objetivas. 
Velmans (1990, 1993, 2017) sugere que a localização de objetos e processos no espaço 
fenomenal coincide aproximadamente com a sua localização no espaço físico: "Embora 
eu tenha emprestado o termo "coisa em si" de Kant...esta não é uma "coisa" 
incognoscível...Se o conhecimento humano é uma manifestação de um processo 
reflexivo mais amplo pelo qual o próprio universo vem a conhecer a si mesmo, então 
não há separação entre conhecedor e conhecido, e o conhecimento se torna uma forma 
de autoconhecimento. Kant estava, naturalmente, correto ao enfatizar que o 
conhecimento humano é limitado pelas formas que seus sistemas perceptivo e cognitivo 
operam, e não pode, portanto, fornecer um conhecimento independente de 
observadores...o que, no entanto, não exclui o conhecimento parcial, incerto e específico 
a cada espécie - uma forma de realismo crítico...que é inteiramente convencional na 
ciência" (Velmans, 2012). 
Sabemos, a partir da pesquisa empírica nas neurociências, que a percepção consciente 
requer o processamento de sinais no sistema nervoso; a representação das características 
dos objetos percebidos nos córtices sensoriais, e o processamento destas características 
para formar o conteúdointegrado de um episódio consciente; por exemplo, na 
percepção visual, a imagem retinotópica bidimensional de um objeto percebido é 
formada na área visual primária occipital, por meio de um padrão de ativação de 
colunas de neurônios nas seis camadas corticais. Quando essa imagem é percebida 
conscientemente, após a execução das etapas subseqüentes do processamento cerebral, o 
objeto representado é experimentado como estando localizado "lá fora, no mundo", 
externo ao cérebro. Como essa experiência é possível? 
A aparente "projeção" da representação mental, formada no cérebro, para o mundo 
externo, pelo (e para) o sistema consciente, foi formulada por Velmans (1993). Seu 
modelo de projeção perceptual pressupõe a existência de processamento de informação 
de um estímulo externo ao cérebro para o sistema nervoso central, onde é formada uma 
representação das propriedades do estímulo. No entanto, a experiência consciente do 
estímulo não é referida à atividade cerebral, mas de alguma forma projetada para a 
localização do estímulo, como mostra a Figura 2: 
 
 
Figura 2: Projeção Perceptiva (Velmans, 2017; reprodução para fins de publicação 
autorizada pelo autor) 
 
A discussão de Velmans (1993; 2012; 2017) sobre a projeção perceptual pode ser 
resumida em três proposições: 
1) Percebemos objetos e processos por meio da formação de representações neurais em 
nossos cérebros; 
2) A experiência vivida que temos dos objetos e processos físicos é que eles estão 
localizados "lá fora", no espaço físico experiencial; assim sendo, 
3) Nós “projetamos” nossas representações neurais no espaço físico experiencial. 
Uma tentativa de explicação da projeção perceptiva pode ser em termos do conceito de 
informação. Os padrões neurofisiológicos fenomenais e seus correlatos no mundo físico 
possuiriam a mesma estrutura dinâmica da informação. Velmans argumenta que "a 
mente pode ser pensada como uma forma de processamento de informação" (Velmans, 
2012). Considerando a fenomenologia de primeira pessoa de um sujeito S e seus 
correlatos neurais (visível a partir da perspectiva de terceira pessoa de um observador 
externo E), ele afirma que: "a estrutura de informação do que S e E observam é idêntica, 
mas é exibida ou "formatada” de maneiras muito diferentes... as informações exibidas 
nas experiências e seus correlatos físicos podem ser pensadas como duas manifestações 
desse processamento de informações...a natureza da mente não é ou física ou 
consciente; ela é ao mesmo tempo física e consciente. Por falta de um termo melhor, 
podemos descrever essa natureza como psicofísica" (Velmans, 2012). 
A bipolaridade da mente consciente, com um pólo subjetivo e um objetivo (e 
respectivos correlatos cerebrais), delimitando o “espaço egocêntrico” (Trehub, 2013) 
onde ocorrem os eventos da vida, é um tema central na epistemologia da psicologia e da 
neurociência. Uma formulação clássica pode ser encontrada na distinção feita por 
Freud, com base na filosofia de Schopenhauer (para uma atualização sobre a influência 
contemporânea deste filósofo, ver Merker, 2013), entre o Id (Princípio do Prazer) e o 
Superego ( Princípio da Realidade). A interação dos dois gera o conceito de Ego (Freud, 
1923) e também suporta um conceito de “projeção” (ver Ornston, 1978) na teoria 
psicodinâmica. A projeção em Freud (diferentemente da abordagem de Velmans), foi 
concebida como um mecanismo de defesa que envolve processos projetivos similares 
àqueles que operam na percepção. 
Na experiência consciente, o “ponto de vista” subjetivo e os objetos “lá fora no mundo” 
podem ser interpretados como duas direções projetivas: uma para dentro, projetando-se 
o "Eu" do agente consciente, e a outra para fora, projetando-se um "Mundo" objeto da 
experiência. Nessa interpretação, os polos "subjetivo" e "objetivo" da consciência (a 
dualidade "Noético-Noemática", segundo Husserl, 1913) são concebidos como um 
campo informacional emergente da experiência vivida, aparente apenas na perspectiva 
de primeira pessoa; este campo é chamado Domínio Consciente Estendido (DCE). 
Para se desenvolver tal hipótese, inicialmente é preciso identificar as "plataformas" a 
partir das quais as projeções do Eu e do Mundo são realizadas. A partir do diagrama da 
Teoria da Consciência baseada nas neurociências e no Monismo de Triplo Aspecto 
(Figura 1), identifico as "plataformas" como sendo: 
a) A história sentimental do indivíduo, encarnada em ondas de sentimento que 
percorrem o tecido vivo, seria a plataforma que gera o Sentido de Eu; 
b) As representações dos objetos da percepção e da ação, encarnada em sequências de 
pulsos (spike trains) encarnadas em redes neuronais, seria a plataforma que gera o 
Sentido de Mundo. 
Para gerar o DCE com seus dois pólos projetados, o subjetivo (ponto de vista) e o 
objetivo (objetos e processos existentes no mundo), um sistema contendo pelo menos 
dois componentes é necessário, da mesma forma que para se gerar uma linha dois 
pontos são necessários. Mitterauer (2013) também propõe um modelo “dialógico” da 
mente consciente, no qual os pólos subjetivo e objetivo correspondem à atividade de 
duas redes de sinalização no tecido vivo, o astroglial (subjetivo) e o neuronal (objetivo). 
A extensão do campo da experiência consciente em direção aos pólos subjetivo e 
objetivo, assim como as plataformas que possibilitam a projeção destes pólos, são 
ilustradas na Figura 3: 
 
Figura 3: O Domínio Consciente Estendido (DCE). A partir da interação entre 
experiências sentimentais e representações de objetos da percepção/ação, dois pólos são 
projetados (setas unidirecionais tracejadas): o Eu, como "ponto de vista" (Nagel, 1974), 
e os objetos percebidos (por exemplo, o gato de Velmans, 1993; 2017) como objetos 3D 
virtuais, ou seja, vivenciados apenas pelo indivíduo que os projeta, que são localizados 
no espaço físico externo ao sistema nervoso do indivíduo. Figura de autoria de Alfredo 
Pereira Jr. 
O conceito proposto de DCE é diferente do conceito de "realidade virtual" 
representacional proposto por Lehar (2003) e Metzinger (2009); ver também Revonsuo 
(2010), por duas razões: primeiro, a abordagem da realidade virtual daqueles autores é 
baseada em representações mentais, enquanto o DCE é um domínio experiencial que 
não se limita à operação de representação, mas inclui também a projeção e respectiva 
vivência de primeira pessoa do conteúdo projetado. O DCE não é intrínseco às 
representações; pelo contrário, as representações são componentes do DCE, sendo 
usadas para permitir operações projetivas que geram o domínio estendido. Segundo, o 
DCE não é fechado dentro do cérebro, mas estende-se informacionalmente ao domínio 
da interação com o mundo. Por outro lado, o DCE também é diferente do conceito de 
"mente estendida" proposto por Clark (1996), porque esse autor evita explicitamente o 
externalismo fenomenológico, e se concentra apenas em relações funcionais externas 
estendidas, como com o uso de artefatos tecnológicos que ampliam nosso conhecimento 
cognitivo. capacidades, mas não o alcance da consciência fenomenal. 
A Estrutura Dinâmica da Consciência 
A consciência pode ser definida como “o sentimento do que acontece” (vide Pereira Jr., 
2013, inspirado no título do livro de Damásio, 2000). Neste conceito de consciência, “o 
que acontece” é o vir-a-ser da realidade, na perspectiva de um determinado agente. O 
vir-a-ser da realidade é (parcialmente) representado, mapeado ou simbolizado em seu 
sistema cognitivo por meio de um sofisticado processamento de sinais. Conforme o 
referencial teórico do MTA (Pereira Jr., 2013) este processamento só se torna 
consciente quando as mensagens carregadas pelos sinais são sentidas. Sem o sentir, que 
corresponderia à formação de ondas hidro-iônicas no tecido vivo (Pereira Jr., 2017), o 
processamento de informação permanece inconsciente, tal como se supõe acontecer em 
computadoresdigitais – que processam informação, mas aparentemente não são 
conscientes, pois lhes falta a capacidade de sentir o significado da mensagem 
informacional a partir de uma perspectiva própria. 
A atividade consciente se desdobra em funções que incluem a percepção, a cognição, a 
emoção e o controle da ação. Cada uma destas funções comporta uma modalidade do 
sentir: 
a) No plano perceptivo, as qualidades sensoriais ou qualia (por exemplo, a sensação de 
uma cor); 
b) No plano cognitivo, as crenças cognitivas, referidas no conceito de conhecimento 
como “crença verdadeira justificada”; as crenças proposicionais são ontologicamente 
interpretadas como constituindo sentimentos ("feeling of knowing", de acordo com 
Burton, 2008); 
c) No plano afetivo, os sentimentos emocionais ou afetos, como amor e ódio; e 
d) No plano da ação, o querer, incluindo a vontade ou disposição para a ação e o desejo 
de vivenciar determinadas experiências relativas a determinados seres. 
Portanto, entende-se aqui que os qualia, as crenças, os afetos e o querer sejam 
variedades do sentir, conforme discutido em Pereira Jr. (2015a,b). 
O conceito de experiência fenomenal utilizado, por exemplo, por Chalmers (1995, 
1996) e Conee (1994), se refere às vivências que compõem o "fluxo da consciência" 
(James, 1890), englobando as três funções acima. Como o conceito de fenômeno foi 
inicialmente elaborado por Kant no contexto da teoria do conhecimento, guarda um 
resquício cognitivista, apesar dos esforços subsequentes de Kant no sentido de estender 
sua filosofia para os domínios da ação ética e da apreciação estética, culminando em 
uma antropologia filosófica (Perez, 2017). 
Na literatura filosófica recente sobre a consciência, a experiência vivida pela pessoa 
corresponde à expressão "what it is like to be" (Nagel, 1974). Esta experiência 
corresponde a uma apresentação, que pode vir a ser capturada, a posteriori, por uma 
representação conceitual, utilizando-se de recursos como símbolos, imagens e mapas 
mentais. Portanto, o conhecer e o sentir seriam processos diferentes, porém 
complementares, que se realizam de modo integrado no fluxo pessoal da consciência. 
Uma distinção eficaz entre os aspectos cognitivos e sentientes da consciência se 
encontra na experiência de pensamento a respeito da neurocientista Mary (Jackson, 
1986). Apesar do argumento ter sido apresentado como relativo ao conhecimento de 
Mary, também pode ser interpretado como revelador do limite do cognitivismo (na linha 
de Conee, 1994, que implica em Mary vir a ter uma experiência fenomênica que se 
estende além do conhecimento propriamente dito). Mary é uma neurocientista que 
passou toda a sua vida dentro de um quarto em preto e branco, ou seja, nunca interagiu 
experiencialmente com objetos que precebemos como coloridos. Ela detém todo o 
conhecimento possível acerca das funções cerebrais, inclusive a respeito de como o 
cérebro processa os sinais luminosos e percebe conscientemente as cores; entretanto, 
como nunca interagiu com aqueles objetos, nunca teve suas próprias experiências 
vividas de cores, ou seja, nunca sentiu as cores, apesar de conhecer tudo a respeito de 
cores. Se Mary, ao sair de seu quarto-caverna e interagir com o mundo que lhe induz 
outras cores além do preto e do branco, notar que está tendo uma experiência 
fenomênica qualitativamente diferente, então podemos concluir que conhecer e sentir, 
apesar de serem funções mentais complementares, seriam essencialmente diferentes. 
A neurociência tem contribuído como ferramenta para se elucidar a estrutura temporal 
da consciência. Sintetizando resultados teóricos obtidos em 20 anos de pesquisa em 
Filosofia das Neurociências, Pereira Jr., Foz e Rocha (2017) identificaram uma 
“assinatura dinâmica” da consciência, que se expressa em uma combinação de ritmos e 
variações de amplitude dos potenciais elétricos cerebrais medidos por 
eletroencefalografia. Nesta abordagem, um episódio consciente (“Gestalt”) teria a 
duração de aproximadamente 2 segundos, integrando atividades perceptivas, cognitivas, 
afetivas e volitivas. Os processos biofísicos possivelmente envolvidos nestas atividades 
conscientes são discutidos em Pereira Jr., Vimal and Pregnolato (2016). 
Realizando uma síntese dos conhecimentos sobre a consciência elaborados nas 
publicações acima citadas, pode-se analisar a atividade consciente humana como uma 
estrutura dinâmica que envolve três camadas e seis fases, nas quais as funções 
anteriormente mencionadas (a cognição, a emoção e o controle da ação) se apresentam 
de modo integrado. As três camadas são: 
a) Atividades Não Conscientes: Abarcam os processos físicos e informacionais no corpo 
e no ambiente do agente, inclusive processos fisiológicos cerebrais que dão suporte aos 
processos conscientes, mas não aparecem como conteúdos vivenciados pelo agente; 
b) Atividades Conscientes Não Reflexivas: A reflexão se faz por meio de conceitos. 
Utilizamos o termo conceito no sentido platônico de Ideia, porém em um quadro teórico 
que se aproxima de Aristóteles, isto é, os conceitos são "formas mentais" instanciadas 
nas mentes das pessoas; mentes que não se encontram separadas de seus corpos e 
interagem com um ambiente físico, social e cultural. Uma característica essencial dos 
conceitos é que constituem padrões que podem ser utilizados em processos lógicos; 
entendemos por cognição a apreensão e combinação dos conceitos segundo uma lógica 
e utilizando uma linguagem (verbal ou imagética). O sentir compreende dimensões não-
conceituais da experiência vivida, ou seja, dimensões que não são capturadas em 
processos lógico-linguísticos que caracterizam a racionalidade humana, podendo, no 
entanto, serem referidos por meio de metáforas e/ou descrições dos tipos de contexto 
em que são vivenciados. Por exemplo, a experiência dolorosa é uma vivência não-
conceitual, que pode ser descrita por meios de analogias (a dor como um tipo de "onda 
que perpassa o corpo") ou descrições do contexto em que é gerada (uma cárie dentária 
afetando o nervo, uma queimadura, uma picada de agulha, etc...). O "pensamento por 
imagens" já enfocado por Aristóteles (Silva, no prelo) poderia ser considerado como 
não-conceitual, ou ainda como não reflexivo, se (e somente se) tais imagens estiverem 
no plano sensível e/ou sentimental; entretanto, as imagens podem ser também alçadas a 
um plano conceitual, quando se tornam Ícones (no sentido de Peirce); neste caso, elas se 
prestam a encadeamentos propriamente cognitivos, ou seja, a semeiose; 
c) Atividades Conscientes Reflexivas: Abarcam todas as atividades conscientes que são 
conceitualmente explicitadas e reconhecidas, por meio do uso de linguagem, imagens, 
mapas e símbolos, e se encadeiam logicamente, podendo compor argumentos racionais. 
Uma análise introspectiva do fluxo de consciência revela um dinamismo estrutural. Ao 
mesmo tempo em que se nota um “vazio de essência” no sentido do Budismo antigo 
(aqui entendido como a ausência de uma estrutura estática ou fixa na vivência 
introspectiva), pode-se identificar uma sequência de fases do fluxo consciente. Estas 
fases progridem na direção de uma crescente auto-apreensão do Eu consciente, podendo 
culminar na manifestação deste Eu por meio da intuição, propiciando a explicitação da 
vontade direcionada para a realização (atualização de potencialidades, ou conatus) do 
Eu por meio da ação. 
A estrutura dinâmica da consciência pode ser representada por meio de um gráfico 
exibindo a curva “Grau de Reflexividade X Grau de Auto-Apreensão" (vide Figura 4). 
O gráfico ilustrativo é bastante simplificado, representando o fluxo da consciência 
apenas como progressivo rumo à maior auto-apreensão (self-awareness), porém 
observamos na prática que o movimento da consciência pode se fazer também no 
sentido regressivo, por exemplo, ao se prestar mais atenção à vivência espontânea, 
quando encontramos dificuldadesinterpretativas, por exemplo, de uma obra de arte 
plástica. As fases constitutivas do processo são detalhadas em seguida ao diagrama. 
 
 
Figura 4 - Análise Integrada do Fluxo da Consciência. Os “picos” reflexivos 
(Interpretado, Pensado e Querido) se referem a atividades conscientes conceituais, 
elaboradas por meio de representações mentais, símbolos, mapas e/ou imagens. Os 
“vales” não reflexivos (Sentido, Automático, Intuído) se referem a experiências 
conscientes não conceituais de primeira pessoa. Figura original de autoria de Alfredo 
Pereira Jr. (2017). 
 
A sucessão das fases representa a vivência de graus de auto-apreensão do agente 
cognitivo. Este modelo simplificado do fluxo da consciência sugere um conceito de Eu 
Sentiente, que não preexiste à experiência, mas se constrói no processo consciente (vide 
discussão em Pereira Jr. e Souza, 2017). As seis fases do fluxo da consciência acima 
representadas progridem em graus de auto-apreensão (do inglês self-awareness; vide 
Carrara-Augustenborg and Pereira Jr., 2012): 
1) Sentido ou Sentiência: Esta fase inclui a vivência de estados de consciência 
biologicamente induzidos (dor e prazer, sensações básicas como fome e sede; vide o 
modelo de Panksepp, 1996), bem como estímulos sensoriais novos ou surpreendentes. 
As sensações espontâneas se inserem no âmbito da Sentiência (do inglês sentience; vide 
Allen and Tretsman, 2016). Cronologicamente, na percepção humana esta fase cobre os 
primeiros 300 milésimos de segundo após uma estimulação exógena ou endógena, mas 
pode ser prolongada no tempo se o estímulo continuar presente, como no caso de 
sensações de dor crônica. As sensações não são conceituais, no sentido de que em um 
primeiro momento não são cognitivamente reconhecidas; no entanto, mesmo sem serem 
conceituadas elas são vivenciadas conscientemente. As teorias exclusivamente 
cognitivas da consciência podem considerar esta fase como sendo não-consciente, mas 
em um exame mais detalhado (vide por exemplo Woodruff, 2017) a sentiência satisfaz 
condições mínimas para ser considerada como uma fase elementar da atividade 
consciente compartilhada por muitas espécies biológicas, possivelmente incluindo as 
plantas; 
2) Interpretado: Nesta fase, a sensação é interpretada e categorizada dentro de um 
quadro cognitivo, que inclui algum tipo de linguagem, mas não necessariamente 
simbólica. Muitas vezes usamos mapas e imagens multimodais (visuais, auditivas, 
táteis, etc.) para interpretar e categorizar nossas sensações, resultando em uma 
representação mental. Esse tipo de processo é a segunda fase da atividade consciente. 
Para as teorias meta-cognitivas da consciência, esta fase cognitiva não seria suficiente 
para ser considerada como uma atividade consciente, porque o agente não é consciente 
de ser consciente, ou porque a representação mental não é explicitamente referida ao 
agente por si mesmo. Os sentimentos emocionais (Wang and Pereira Jr., 2016) se 
constituem nesta fase; por exemplo, no caso da dor a sensação de dor pode ser gerada 
nos primeiros 300ms após o estimulo nocivo, mas o sentimento emocional de dor, que 
depende da história individual, requer um tempo maior para sua formação, podendo ser 
suprimido em situações extremas, como no caso de uma pessoa, percorrendo região que 
apresenta perigo de vida, que sofre uma lesão na perna, mas continua a caminhar, 
suprimindo o sentimento emocional da dor por algum tempo; 
3) Automatizado: Esta fase corresponde à ativação de uma resposta aprendida 
anteriormente e fixada como representação mental. Uma vez que a representação é 
formada, conexões previamente estabelecidas desencadeiam uma resposta cognitiva, 
que também pode desencadear uma resposta comportamental. No "modo automático", 
não conceituamos a experiência, mas a monitoramos para verificar se a resposta 
adequada é executada; por exemplo, quando andamos de bicicleta ou nadamos (casos 
que os neurocientistas chamam - em inglês - de procedural memory). Por exemplo, 
dirigir um carro enquanto se concentra o foco da atenção consciente em uma conversa 
pessoal (ou pelo celular) é uma experiência consciente automatizada, porque a estrada é 
(ou deveria ser) monitorada conscientemente; em outras palavras, a periferia da atenção 
consciente não seria necessariamente inconsciente (como originalmente argumentado, 
na "analogia do estádio", por Carrara-Augustenborg e Pereira Jr., 2012); 
4) Pensado: Esta fase é baseada em inferências lógicas, usando-se linguagens verbais ou 
não-verbais. Está possivelmente presente em todas as espécies animais capazes de 
respostas não-automáticas aos estímulos ambientais. Refere-se a inferências lógicas que 
tomam a interpretação anterior como base para definir um padrão de ação adequado no 
contexto "aqui e agora". Na meditação e nas práticas contemplativas, esta fase é inibida 
para favorecer a próxima fase (Intuição); já no contexto do fazer filosófico e científico, 
procura-se aprofundar ao máximo esta fase, para se clarificar conceitos e raciocínios, 
possibilitando um melhor entendimento do objeto de estudo. Existem vários tipos de 
inferência, formais e informais, que podem ser modelados de várias maneiras, incluindo 
métodos probabilísticos. Um relato introspectivo da fase de pensamento pode revelar 
sua estrutura intrínseca (Weger et al, 2018); 
5) Intuído: É a fase intuitiva vem após o pensar, quando processos de origem 
inconsciente atingem a consciência, porém sem conexão direta com o estágio de 
pensamento anterior. A intuição pode ser concebida como um processo inconsciente 
desencadeado pelo pensamento consciente, levando a manifestações conscientes de 
disposições internas, que muitas vezes respondem a questões objetivas, inclusive no 
domínio científico (vide Marton et al., 1994; Morewedge and Kahneman, 2010). A 
intuição pode ser ainda considerada como uma reação do Eu profundo da pessoa à 
experiência vivida. Em tradições orientais, esta fase está paradoxalmente relacionada à 
"dissolução" da dicotomia Sujeito-Objeto. Em nossa análise, procuramos resolver este 
paradoxo por meio da introdução do conceito dinâmico de Eu Sentiente, que satisfaz aos 
princípios de co-originação e interdependência formulados por Nagarjuna (2016); 
6) Querido: O querer (ou a vontade, desejo) é a conexão entre o episódio consciente que 
está sendo formado e as ações a serem executadas no ambiente físico e social. O 
comportamento em resposta à estimulação pode ocorrer sem determinação pela vontade 
consciente, por meio de mecanismos neurais automáticos. Quando a estimulação é 
processada e integrada em um episódio consciente, é possível influenciar o 
comportamento por meio do querer. A ação voluntária é mediada por conexões do 
sistema nervoso central (principalmente o córtex motor) com músculos e glândulas. Os 
sinais de controle de ação (como a descarga corolária; ver Jeannerod, 1997) podem 
modular e moldar os episódios conscientes que experimentamos. Esta fase corresponde 
ao posicionamento da pessoa frente ao contexto prático; inclui desde nossos desejos e 
vontades cotidianas até as realizações culturais, como por exemplo, o compositor que 
escreve (usando notação simbólica) um padrão musical que emergiu da fase intuitiva. 
A autoconsciência, resultante do processo de auto-apreensão, é concebida como a 
capacidade meta-cognitiva, de um agente, de se apreender como sujeito do fluxo de 
consciência e da ação resultante deste. 
Objetivos, Hipóteses e Testes 
Os objetivos desta investigação teórica são: 
1) Relacionar os processos subjetivos que geram o Sentido de Eu com as estruturas e 
funções do sistema nervoso (conforme estudadas pela neurociência afetiva) que dão 
suporte aos sentimentos; 
2) Relacionar os processos que geram o Sentido de Mundo com a estrutura e os 
mecanismos de percepção-ação, tal como estes são estudados pelas neurociências; 
3) Avaliar, a partir de resultados de pesquisasem Psicologia, em que medida os 
processos que geram os sentidos acima dependem de uma apreensão meta-cognitiva, 
considerando os argumentos a este respeito levantados pelas teorias do Pensamento de 
Alta Ordem (Rosenthal, 2002; LeDoux e Brown, 2017); 
Na hipótese central se propõe o conceito de projeção, derivado de Freud e Max 
Velmans ("projeção perceptiva"), para explicar a geração do Sentido de Eu e do Mundo, 
os dois principais componentes da estrutura dinâmica da experiência consciente, 
conforme investigações fenomenológicas. Por meio desta projeção, os Sentidos de Eu e 
de Mundo são gerados a partir das três funções conscientes, o Conhecer, o Sentir e o 
Agir. O domínio da experiência delimitado pelos dois pólos constitui um campo 
informacional fenomênico, que ocorre no “espaço egocêntrico”, tendo o ponto de vista 
subjetivo no centro e o mundo dos objetos como horizonte. 
O Sentido de Eu é gerado como invariante dinâmico no sub-sistema dinâmico do Sentir, 
ou seja, tendo o Eu como aquele que sente (por exemplo, sensações de prazer e dor); 
este invariante dinâmico é projetado na experiência fenomenal como entidade encarnada 
no corpo vivo, que constitui o sujeito das experiências conscientes. O Sentido de Mundo 
é gerado como objeto intensional no sub-sistema do Agir, ou seja, como imagem dos 
objetos aos quais se referem as representações perceptivas e enativas; o Sentido de 
Mundo é projetado no espaço-tempo físico por meio de estruturas eferentes do corpo 
vivo, aparecendo para o Eu como sendo uma realidade externa ao cérebro/mente. 
O campo informacional fenomênico, resultante dos processos de projeção, é percebido 
apenas pelo indivíduo que projeta. Sua base neurobiológica seria a interação dinâmica 
entre os sub-sistemas cerebrais e corporais do Sentir e do Agir, não necessariamente 
apreendidos pelo sistema do Conhecer. 
Neste modelo, as fases não-conceituais do processo consciente (sentiência, vontade; 
vide Figura 5) têm relativa autonomia frente às fases conceituais, isto é, a existência de 
um Sentido de Eu e de um Sentido de Mundo não depende de apreensões conceituais 
destes sentidos pelo sub-sistema cognitivo, o que contrasta com as abordagens do tipo 
HOT. 
 
 
Figura 5: Consciência Fenomenal Não-Conceitual: O Sentido de Eu emerge na esfera 
do Sentir e o Sentido de Mundo emerge na esfera do Agir; ambos se mantém no âmbito 
não-conceitual, ou pré-reflexivo (Merleau-Ponty, 1945). 
 
Como podemos discutir e testar esta hipótese? Para tal, vamos recorrer a uma discussão 
importante no contexto das neurociências e da filosofia da mente humana, que tem 
como principais protagonistas Ned Block e David Rosenthal, ambos docentes de 
Filosofia em Nova Iorque, com incursões na Psicologia Filosófica e na Neurociência. 
Block (2007) assumiu uma posição em favor da existência de consciência fenomenal 
não cognitiva, que não dependeria de uma cognição a posteriori para existir: "Minha 
primeira conclusão é que a sobreposição do mecanismo neural do acesso cognitivo e do 
mecanismo neural da fenomenologia pode ser empiricamente investigada. Segundo, há 
evidências de que o último não inclui o primeiro" (Block, 2008, p. 498). A abordagem 
de Block aponta no sentido de uma Consciência Fenomenal Não-Conceitual, 
correspondendo às fases ímpares no diagrama da Figura 4 (ou, ao menos, à primeira 
fase, no que tange à sentiência sensorial), sendo também compatível com a hipótese 
ilustrada na Figura 5. 
A hipótese rival seria que a integração consciente do campo informacional Eu-Mundo 
ocorreria na esfera cognitiva (Figura 6), por meio de um “Pensamento de Alta Ordem” 
(“High-Order Thought”, ou HOT; Rosenthal, 2002), tendo ainda – na proposta de 
LeDoux e Brown, 2017 – o córtex pré-frontal como centro integrativo. Nesta 
abordagem, tanto os sentimentos/emoções quanto as representações espaço-temporais 
do mundo precisariam ser cognitivamente acessadas, conceitualmente formuladas e 
referidas ao próprio sistema, para se tornarem conscientes. Todas as fases do processo 
ilustrado na Figura 4 seriam dependentes do pensamento conceitual para se tornarem 
efetivamente conscientes. 
 
 
Figura 6 – Consciência Conceitual: Nesta abordagem, a projeção do Eu e do Mundo, e 
sua integração em um campo informacional, se inicia nas esferas do Sentir e do Agir, 
mas só se completa quando projetada na esfera cognitiva, por meio de um “Pensamento 
de Alta Ordem” ou “meta-cognição” (conhecimento sobre a própria consciência). 
 
Um método para se testar as propostas de Block e Rosenthal foi sugerido por Brown 
(2014), ele próprio defensor de uma abordagem do tipo HOT: “Se a consciência 
fenomenal depende de alguma forma do funcionamento cognitivo de alta ordem, então 
devemos ser capazes de alterar a experiência consciente dos sujeitos, interferindo em 
áreas do cérebro que se acredita estarem envolvidas em cognição de ordem superior, 
deixando simultaneamente processamento de primeira ordem inalterado” (Brown, 
2014). Esta sugestão é muito importante para se testar as diversas Teorias da 
Consciência; por exemplo, o trabalho de Damásio sobre sentimentos e emoções pode 
ser interpretado dessa maneira. 
Os testes sugeridos por Brown são, inclusive, relevantes, pelo fato da Neurociência 
Afetiva (como formulada por Panksepp, 1997) poder explicar a base biológica das 
emoções e sentimentos, mas não parecer adequada para explicar os dois componentes 
clássicos do domínio fenomenológico, os Sentidos de Eu e de Mundo. 
Em suma, se interpretarmos a projeção como uma operação conceitual ou meta-
cognitiva de ordem superior, devemos concordar com a HOT de David Rosenthal, como 
argumentado por Brown (2014); se interpretarmos a projeção como uma operação não-
conceitual, a razão deve ser dada a Block (2008). 
Identifico sete maneiras de se discutir e testar a dependência (ou não) da consciência 
fenomênica frente a operações cognitivas de ordem superior; estas diferentes maneiras 
serão melhor elucidadas e discutidas no decorrer da pesquisa: 
1) Na Neurofenomenologia: ao se buscar os correlatos cerebrais das experiências de 
primeira pessoa, conferir - por meio de planejamento experimental adequado - se as 
áreas relativas aos processos HOT seriam necessariamente ativadas quando as pessoas 
reportam sua apreensão do Sentido do Eu e do Sentido do Mundo; 
2) Na Psicanálise: poder-se-ia alterar as experiências sensoriais e afetivas, a partir de 
uma racionalização conceitual dos fatores inconscientes envolvidos no processo 
projetivo; 
3) Na Hipnose: a partir das pesquisas de Terhune e Hedman (2017), e respectivos 
relatos dos sujeitos, pode-se aferir se a sugestão hipnótica, ao afetar processos meta-
cognitivos, também vem a afetar a experiência sensorial e/ou afetiva; 
4) Na Psiquiatria Farmacológica: aqui encontramos muitas evidências de efeitos de 
psicofármacos que afetam seletivamente ora os processos cognitivos, ora os processos 
afetivos, ora os processos motores (vide um revisão em Wang and Pereira Jr., 2016); 
pode-se então discutir quais os graus de dependência entre tais processos; 
5) Nas Terapias de Estimulação Cerebral (Elétrica, Magnética): nesta área de pesquisa 
experimental, pode-se também aferir se a estimulação de uma área específica de 
cognição, afeto ou controle motor, pode ter efeitos diretos e/ou secundários sobre 
outra(s) área(s); 
6) Na Epistemologia da Meditação, pode-se discutir, a partir de relatos de meditadores, 
e eventualmente utilizando-se também registros de seus padrões de atividade cerebral, a 
respeito dos caminhos e fases do processo de meditação; se correspondem ou não à 
estrutura dinâmica ilustrada em nossa Figura 4; 
7) Na Introspecção Sistemática: utilizando-se o método de Weger et al. (2018), pode-se 
avaliar as determinações do pensamento e do sentimento na dinâmica consciente. 
Relevância para a Ciência e a Filosofia Brasileiras 
A consideração do sistema conscienteseria objeto de uma nova área de estudos, a 
Teoria da Consciência. São inúmeros os marcos da reflexão filosófica e da pesquisa 
científica contemporânea sobre a consciência, porém nota-se a ausência de esforços 
sistemáticos no sentido de consolidar a sabedoria acumulada em uma área própria de 
estudos, isto é, em uma Teoria da Consciência. Esta falta tem acarretado um 
estreitamento da formação científica e filosófica, pois muitas vezes induz ao 
entendimento da consciência apenas em seus aspectos cognitivos, que são tratados, na 
filosofia, na clássica Teoria do Conhecimento, e, na ciência, pelas Ciências Cognitivas 
(que têm se desenvolvido em proporção muito maior que as ciências afetivas e da 
motricidade). 
Tal resquício do cognitivismo moderno se estende também ao estudo dos fenômenos da 
coneciência, onde notamos uma ênfase excessiva no aspecto cognitivo da consciência 
(como, por exemplo, na Teoria do Espaço de Trabalho Global, de Bernard Baars, da 
década de 1980, que foi apresentada como uma "teoria cognitiva da consciência"; Baars, 
1988), deixando de lado os aspectos perceptivos (enfatizados, por exemplo, por 
Merleau-Ponty), afetivos (enfatizados, por exemplo, por Antonio Damásio), e práticos 
(enfatizados, por exemplo, por William James). 
A formulação da Teoria da Consciência como disciplina científico-interdisciplinar e 
filosófica poderia contribuir para uma formação humanística mais completa dos 
filósofos, abarcando não só a dimensão cognitiva, mas também as dimensões afetivas e 
comportamentais. Na perspectiva da filosofia e da ciência feitas no Brasil, poderia 
contribuir para a formação da identidade do pensamento brasileiro, por meio de 
formulações teóricas originais, com poder de impacto na comunidade filosófica e 
científica internacional, refletindo uma concepção antropológica universalizante que 
encontra expressão na cultura brasileira - que é marcada por uma riqueza qualitativa 
perceptiva, afetiva e motora, em lugar da hipertrofia da dimensão cognitiva, como se 
pode notar em culturas dominantes no mundo globalizado. 
 
 
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