Prévia do material em texto
See discussions, stats, and author profiles for this publication at: https://www.researchgate.net/publication/326834866
Uma Teoria Projetiva da Consciência: da Neurociência à Psicologia Filosófica
Preprint · August 2018
DOI: 10.13140/RG.2.2.28133.70886
CITATIONS
0
READS
1,482
1 author:
Alfredo Pereira Junior
São Paulo State University
326 PUBLICATIONS 2,035 CITATIONS
SEE PROFILE
All content following this page was uploaded by Alfredo Pereira Junior on 05 August 2018.
The user has requested enhancement of the downloaded file.
https://www.researchgate.net/publication/326834866_Uma_Teoria_Projetiva_da_Consciencia_da_Neurociencia_a_Psicologia_Filosofica?enrichId=rgreq-cefe7afe6630de030870efffb3bb6b50-XXX&enrichSource=Y292ZXJQYWdlOzMyNjgzNDg2NjtBUzo2NTYzODgyNzEzOTQ4MTZAMTUzMzUwNjU2NzUzMw%3D%3D&el=1_x_2&_esc=publicationCoverPdf
https://www.researchgate.net/publication/326834866_Uma_Teoria_Projetiva_da_Consciencia_da_Neurociencia_a_Psicologia_Filosofica?enrichId=rgreq-cefe7afe6630de030870efffb3bb6b50-XXX&enrichSource=Y292ZXJQYWdlOzMyNjgzNDg2NjtBUzo2NTYzODgyNzEzOTQ4MTZAMTUzMzUwNjU2NzUzMw%3D%3D&el=1_x_3&_esc=publicationCoverPdf
https://www.researchgate.net/?enrichId=rgreq-cefe7afe6630de030870efffb3bb6b50-XXX&enrichSource=Y292ZXJQYWdlOzMyNjgzNDg2NjtBUzo2NTYzODgyNzEzOTQ4MTZAMTUzMzUwNjU2NzUzMw%3D%3D&el=1_x_1&_esc=publicationCoverPdf
https://www.researchgate.net/profile/Alfredo-Pereira-Junior?enrichId=rgreq-cefe7afe6630de030870efffb3bb6b50-XXX&enrichSource=Y292ZXJQYWdlOzMyNjgzNDg2NjtBUzo2NTYzODgyNzEzOTQ4MTZAMTUzMzUwNjU2NzUzMw%3D%3D&el=1_x_4&_esc=publicationCoverPdf
https://www.researchgate.net/profile/Alfredo-Pereira-Junior?enrichId=rgreq-cefe7afe6630de030870efffb3bb6b50-XXX&enrichSource=Y292ZXJQYWdlOzMyNjgzNDg2NjtBUzo2NTYzODgyNzEzOTQ4MTZAMTUzMzUwNjU2NzUzMw%3D%3D&el=1_x_5&_esc=publicationCoverPdf
https://www.researchgate.net/institution/Sao_Paulo_State_University?enrichId=rgreq-cefe7afe6630de030870efffb3bb6b50-XXX&enrichSource=Y292ZXJQYWdlOzMyNjgzNDg2NjtBUzo2NTYzODgyNzEzOTQ4MTZAMTUzMzUwNjU2NzUzMw%3D%3D&el=1_x_6&_esc=publicationCoverPdf
https://www.researchgate.net/profile/Alfredo-Pereira-Junior?enrichId=rgreq-cefe7afe6630de030870efffb3bb6b50-XXX&enrichSource=Y292ZXJQYWdlOzMyNjgzNDg2NjtBUzo2NTYzODgyNzEzOTQ4MTZAMTUzMzUwNjU2NzUzMw%3D%3D&el=1_x_7&_esc=publicationCoverPdf
https://www.researchgate.net/profile/Alfredo-Pereira-Junior?enrichId=rgreq-cefe7afe6630de030870efffb3bb6b50-XXX&enrichSource=Y292ZXJQYWdlOzMyNjgzNDg2NjtBUzo2NTYzODgyNzEzOTQ4MTZAMTUzMzUwNjU2NzUzMw%3D%3D&el=1_x_10&_esc=publicationCoverPdf
Uma Teoria Projetiva da Consciência: da Neurociência à Psicologia Filosófica
Alfredo Pereira Júnior*
*Professor Associado II – Instituto de Biociências de Botucatu – Universidade Estadual
Paulista (UNESP); E-Mail: alfredo.pereira@unesp.br
Introdução
O desenvolvimento da neurociência e da psicologia na “década do cérebro” (1990-
2000) deu origem às áreas interdisciplinares da Neurociências Cognitiva, Afetiva e da
Ação, avançando no sentido de elucidar a estrutura dinâmica da atividade consciente.
Esta estrutura foi filosoficamente concebida, há um século, como constituída de um
polo subjetivo, o “Eu” que vivencia experiências conscientes, e um polo objetivo,
composto pelos conteúdos vivenciados pelo ser consciente (Husserl, 1913).
Em trabalhos mais recentes, Nagel (1974), se refere a um “ponto de vista”, no qual se
ancoram as experiências qualitativas (“what it is like to be”), enquanto Velmans (1993;
2009; 2017) entende que a experiência seria construída por representações mentais
localizadas no espaço físico. Morsella (2005) entende que a consciência comporta uma
tensão entre desejos subjetivos e necessidades objetivas. Na psicanálise freudiana, já
havia uma tematização da estrutura da mente consciente, na bipolaridade entre o Id e o
Superego (Freud, 1913). Como relacionar esta estrutura com os resultados da
neurociência?
O modo convencional de abordar tal problema consiste em identificar os correlatos
cerebrais dos desejos subjetivos e das restrições objetivas. No modelo do cérebro triuno
de McLean (1990), os impulsos primitivos se relacionam com o “cérebro reptiliano”, as
emoções com o “sistema límbico” e o pensamento lógico-racional-moral com as
funções do neocortex, em particular com o córtex pré-frontal. Este último é tido como
componente central da consciência humana reflexiva.
A distinção do sistema límbico como um centro emocional, e o córtex associativo (na
espécie humana, principalmente o córtex pré-frontal) como sede da razão e da
autoconsciência, é comum em neuropsicologia (vide Stuss et al., 1994). Uma distinção
popular, mas sem apoio neurocientífico conclusivo, diz respeito à especialização
hemisférica: o hemisfério direito seria “mais emocional” e o hemisfério esquerdo “mais
racional”.
Alternativamente, uma abordagem recente baseada em interações neuro-astrogliais
relaciona o sentimento com ondas iônicas no tecido vivo, enquanto a cognição se
basearia nos potenciais de ação axonais, que são (parcialmente) isolados daquelas ondas
pela mielina. Deste modo, teríamos dois tipos de processamento de sinais no cérebro:
um deles baseado em ondas iônicas contínuas ao tecido, correspondendo aos
sentimentos, e o outro baseado em pulsos elétricos discretos através dos axônios
isolados por uma camada de mielina, correspondendo aos processos de transmissão
sensorial, formação de representações mentais, pensamento lógico e controle motor. As
ondas iônicas no tecido cerebral e os pulsos axonais nas redes neuronais interagem
intimamente; os potenciais graduados neuronais geram as ondas, e estas modulam as
sinapses, reforçando ou deprimindo a frequência dos potenciais de ação (vide Rocha,
Pereira Jr. and Coutinho, 2001; Rocha, Massad and Pereira Jr., 2005; Pereira Jr. and
Furlan, 2009; 2010; Pereira Jr., 2007; 2012; 2013; 2014; 2015a,b; 2017; Pereira Jr. et al,
2013; 2015; 2016; 2017; 2018).
No presente trabalho, procuro realizar uma síntese teórica capaz de promover uma
integração interdisciplinar da Psicologia Filosófica com a Neurociência, utilizando para
isso o conceito de projeção, a partir do trabalho de Velmans (1993; 2009; 2017). O
conceito de projeção é aqui utilizado como “ponte” entre as Neurociências e a
Psicologia Filosófica, no contexto da seguinte linha de raciocínio. A atividade
consciente humana se constitui por três funções cerebrais e respectivas estruturas,
estudadas pelas neurociências:
2.1) A Neurociência Cognitiva aborda a função Conhecer, que é suportada
principalmente por circuitos neuronais neocorticais, em particular pela triangulação das
áreas associativas: Parietal, Temporal e Pré-Frontal. Esta função se compõe de diversas
sub-funções (percepção, aprendizagem, memória, atenção, pensamento lógico-
matemático, planejamento, julgamento moral, tomada de decisão; vide a obra clássica
editada por Gazzaniga,1993);
2.2) A Neurociência Afetiva aborda a função Sentir, suportada principalmente por
estruturas subcorticais como a área periqauedutal cinza (Panksepp, 1998), sistema
límbico (incluindo a respectiva glia e demais componentes do tecido), ínsula, córtex
somatosensorial, conexões do sistema nervoso central com os sistemas nervosos
entéricos e cardíaco, e também com os sistemas endócrino e imune. Uso o termo
sentimento (a partir de Damásio, 2000) para me referir à vivência consciente dos vários
tipos de sensação e de emoções;
2.3) A Neurociência da Ação aborda a função Agir (ou comportamento aberto), que é
suportada pelos córtices pré-motor e motor, pelos demais componentes do sistema
sensório-motor (cerebelo, gânglios de base, sistema vestibular), conexões entre o
sistema motor e as áreas sensoriais (responsáveis pela “descarga corolária”; vide Wurtz,
2013), conexões axonais piramidais com as junções neuro-musculares, sensores e
mecanismos efetores musculares envolvidos no movimento e na percepção cinestésica
(Jeannerod, 1997).Journal of Consciousness Studies 3 (4), 330-349.
Varela, F. J. and Shear, J (1999) The View from Within: First-Person Approaches to the
Study of Consciousness. Exeter: Imprint Academic.
Velmans, M. (1993) A Reflexive Science of Consciousness, in G. Bock & J. Marsh
(eds.), Experimental and Theoretical Studies of Consciousness, Chichester: John Wiley.
Velmans, M. (2009). Understanding Consciousness, 2nd Ed. London: Routledge.
Velmans, M. (2012). Reflexive Monism: psychophysical relations among mind, matter
and consciousness. In M. Velmans and Y. Nagasawa (eds.) Journal of Consciousness
Studies 19 (9-10), 143-165.
Velmans, M. (2017) What and where are conscious experiences? Dualism, reductionism
and reflexive monism. In K. Almqvist & A. Haag (eds.) The Return of Consciousness:
A New Science on Old Questions, Stockholm: Axel and Margaret Axson Johnson
Foundation, pp. 125-143.
Wang, F. & Pereira Jr., A. (2016) Neuromodulation, emotional feelings and affective
disorders. Mens Sana Monographs 14, pp. 5-29.
Weger, U., Wagemann, J. and Meyer, A. (2018) Introspection in Psychology: Its
Contribution to Theory and Method in Memory Research. European Psychologist.
Published online January 11, 2018. https://doi.org/10.1027/1016-9040/a000296.
Wittgenstein, L. (1969) On Certainty. Edited by G.E.M. Anscombe and G. H. von
Wright. Oxford: Blackwell.
Whitehead, A.N. (1978) Process and Reality: An Essay in Cosmology, corrected
edition, D.R. Griffin & D.W. Sherburne (eds.), New York: The Free Press. Original
edition: 1929.
Woodruff, M. L. (2017) Consciousness in teleosts: there is something it feels like to be
a fish. Animal Sentience 13(1).
Wurtz, R.H. (2013) Corollary discharge in primate vision. Scholarpedia 8(10): 12335.
Zahavi, D. (2017). Consciouness and (minimal) selfhood: getting clearer on for-me-ness
and mineness. U. Kriegel (ed.): The Oxford Handbook of the Philosophy of
Consciousness. Oxford University Press.
View publication stats
https://www.researchgate.net/publication/326834866A estrutura bipolar da consciência pode ser concebida como um campo informacional,
composto de um polo subjetivo (o Sentido de Eu) e um polo objetivo (Sentido de
Mundo). Este campo informacional, segundo nossa hipótese, seria construído por meio
de uma projeção da atividade cerebral; sendo vivenciado apenas na perspectiva de
primeira pessoa (Nagel, 1974).
O polo subjetivo, ou Sentido de Eu, seria um “atrator” em um sistema dinâmico
composto pelas estruturas e funções sensoriais, emocionais e afetivas do corpo vivo,
que incluem não só os potenciais graduados dendríticos, como também as ondas iônicas
(ou hidro-iônicas, conforme Fernandes de Lima e Pereira Jr., 2016) que percorrem o
tecido vivo, incluindo os astrócitos, fluído e matriz extracelular (Pereira Jr., 2017).
Considerando a escolha semântica do termo sentimento para referir à experiência
subjetiva consciente destes processos, pode-se dizer que o estado atrator é gerado na
história sentimental dos indivíduo, e projetado como sendo uma “identidade” invariante
no tempo; o resultado desta projeção é o Sentido de Eu (como elaborado em Reddy et
al., 2018).
O polo objetivo, ou Sentido de Mundo, seria uma projeção das representações
elaboradas no sistema nervoso e suas extensões relacionadas à ação e controle
homeostático do corpo, que incluem as junções neuro-musculares, os sistemas nervosos
cardíaco e entérico, e interações com os sistemas endócrino e imune (para uma
discussão do possível efeito das emoções no sistema psico-neuro-endócrino-imune, vide
Pregnolato, Damiani e Pereira Jr., 2017). A interação entre o Sistema Nervoso Central e
tais componentes extra-cerebrais faz emergir o Sentido de Mundo, em que o Mundo é
entendido como ”objeto intensional”, não como “coisa em si” Pereira Jr. (2018).
Em termos neurobiológicos, tal projeção se faz do centro para a periferia do sistema
nervoso, o que possibilita a formação do espaço egocêntrico (Trehub, 1991), em que o
agente que vivencia os conteúdo está no centro, definindo um espaço proximal, e o
mundo se situa na extremidade distal, como campo perceptivo e também como campo
da ação. O campo informacional do Mundo se estende além do corpo vivo, se
projetando no espaço físico, como proposto originalmente por Velmans (1993, 2009).
Nesta abordagem, não só o Sentido de Mundo, mas também o Sentido de Eu, ou “ponto
de vista” (Nagel, 1974) seriam considerados como resultantes de operações projetivas;
o Sentido de Eu se constituiria por uma projeção introceptiva, enquanto a projeção
perceptual segue na direção exteroceptiva.
O progresso conceitual alcançado com essa formulação remete a uma outra questão:
Como explicar a operação de projeção, e como testar cientificamente hipóteses a este
respeito?
A existência de operações projetivas foi inferida com base em considerações
psicofísicas, fenomenológicas e afins, no âmbito da Psicologia Filosófica, mas a
investigação da base neurobiológica das operações projetivas intero e exteroceptivas
requer uma abordagem interdisciplinar. Há uma literatura considerável a respeito dos
mecanismos envolvidos na percepção espacial; por exemplo, o tamanho de objetos e a
distância percebida (vide Silva et al., 2006). Há também uma literatura sobre a maneira
pela qual a percepção do espaço pode ser alterada (Velmans, 2009, 162-164).
Com base nesses desenvolvimentos, é possível conjecturar sobre as estruturas e funções
neurobiológicas que suportam as operações de projeção, e também sobre as formas
pelas quais o processo projetivo pode ser estudado filosófica e/ou cientificamente, a
partir de metodologias que abordam a experiência de primeira pessoa, a saber: a
Neurofenomenologia; a Introspecção Sistemática; a Meditação Controlada; a Hipnose; a
Estimulação Cerebral por meios físicos; os Tratamentos Psicofarmacológicos, e
determinadas vertentes da Psicanálise, utilizando a linguagem e outras ferramentas
terapêuticas. Na parte final deste artigo, procuro indicar como cada um destes métodos
de investigação e ação poderia contribuir para se elucidar o estatuto do processo
projetivo.
As Neurociências e a Mente Consciente
Na segunda metade da década de 1980 e início da década de 1990, um grupo de
filósofos e cientistas se interessou em discutir teorias da consciência, com base em
abordagens informacionais, computacionais e neurobiológicas (Churchland, 1986;
Baars, 1988), e aumentou na “década do cérebro” (1990-2000), com tentativas de
relacionar o fenômeno com funções cerebrais. Um dos principais eventos nesse sentido
foi um simpósio organizado pela companhia farmacêutica CIBA, que resultou em um
livro publicado em 1993. O capítulo escrito por Velmans (1993) introduzia o “problema
da projeção perceptiva” e propunha uma abordagem da consciência no contexto da
Psicologia Filosófica.
O esforço interdisciplinar de construção de uma teoria da consciência se tornou uma
característica central do cenário filosófico e científico contemporâneo. Vários autores,
incluindo Edelman (1989), Crick (1994), Block (1995) e Damásio (2000), propuseram a
existência de diferentes tipos de consciência, enquanto outros autores, incluindo Tononi
et al. (2016), Koch (2003) e Dehaene and Changeux (2013), abordaram os correlatos
neurais da atividade consciente.
Em 1995, o Journal of Consciousness Studies publicou artigo de Chalmers (1995, 1996)
sobre o Problema Difícil da Consciência (“Hard Problem of Consciousness”, abreviado
como HPC), abordando a “lacuna explicativa” (Levine, 1983) existente entre a
fisiologia cerebral e a fenomenologia da consciência. O HPC tem sido discutido ao
longo dos anos em várias reuniões e publicações, indicando a necessidade de
fundamentação interdisciplinar para as teorias da consciência, e de formulação de
"princípios ponte" explicativos, conectando o domínio psicológico com processos
biofísicos presente nos sistemas conscientes.
Na década de 1990, o estudo da consciência nas neurociências baseou-se em três
abordagens dos processos conscientes, no contexto de estudos experimentais do sistema
nervoso interagindo com o restante do corpo e com o ambiente. O primeiro conceito,
Consciência Cognitiva, foi pesquisado nas Neurociências Cognitivas, baseado em
estudos de processamento de informação na rede neuronal e na formação de um “espaço
de trabalho global” cognitivo (a partir desta abordagem, nos anos seguintes o conceito
computacional de "espaço de trabalho" foi trazido para o contexto da neurobiologia;
vide Dehaene and Changeux, 2011).
Como termo "consciência" tem múltiplos significados, optou-se inicialmente por seu
uso na acepção considerada mais simples, como simples registro e posse de informações
(em inglês, esta acepção corresponde ao termo “awareness”, utilizado por Crick, 1994, e
Chalmers, 1995). Nesse sentido, "awareness" expressa uma modalidade básica de
consciência puramente cognitiva. Também a "autoconsciência", que significa "o
conhecimento sobre ser consciente" ou "conhecimento do Eu", tem um caráter
cognitivo. Esses conceitos, relativos à auto-apreensão cognitiva da consciência, foram
desenvolvidos na teoria do “pensamento de alta ordem” (High-Order Thought; vide
Rosenthal, 2002).
O segundo conceito, Consciência Afetiva (Panksepp, 2005), surgiu logo após o sucesso
da neurociência cognitiva, enfocando as bases biológicas dos sentimentos emocionais
(emotional feelings), que são em parte “instintivas”, envolvendo a neuromodulação
química, marcadores somáticos (Damásio, 2000), interações do sistema nervoso com os
sistemas imunológicos e endócrinos e interações neuro-gliais. Quando estendida a
outras espécies biológicas além da humana, a consciência afetiva se traduz no conceito
de sentiência (Woodruff, 2017; Pereira Jr., 2017), definido como “a capacidade mínima
de ter experiência subjetiva das qualidades associadas a sensações externas e internas,
bem comode estados afetivos e motivacionais” (Allen e Trestman, 2016). Temos aqui
uma concepção de consciência que procura incluir as sensações qualitativas (referidas
como qualia na literatura filosófica), assim como os estados afetivos-emocionais.
O terceiro conceito, Consciência Enativa, também emergiu na mesma década, a partir
de considerações do papel da ação na determinação de padrões de função cerebral e
foco de atenção, principalmente considerando o feedback do sistema motor na cognição
e dimensões sociais da consciência (ver Jeannerod, 1999; Morsella, 2005).
Em 2007, a revista Nature abriu uma rede interativa para discutir questões científicas e
filosóficas. Se formou o grupo Brain Physiology, Cognition and Consciousness, que se
tornou o maior da rede, com mais de mil participantes. Uma síntese da atividade de
grupo foi reportada em Pereira Jr. e Ricke (2007). Em 2008, se formou o grupo Online
Workshop on Theories of Consciousness, composto por ilustres autores convidados. O
consenso teórico parcial encontrado no grupo, a respeito de uma abordagem monista do
problema corpo-mente, foi reportado em Pereira Jr. et al. (2010).
Com base neste entendimento, formou-se um novo grupo, Consciousness Researchers
Forum, com o objetivo de publicar um livro sobre os alicerces da ciência da consciência
(Pereira Jr. e Lehmann, 2013). Minha contribuição foi o capítulo no qual propunha o
Monismo de Triplo Aspecto, uma visão epistemológica e ontológica da consciência
(Pereira Jr., 2013), contribuindo para a construção de uma Teoria da Consciência que
integrasse as dimensões cognitiva, sensível/afetiva e enativa. Esta abordagem sintética é
ilustrada na Figura 1, cuja primeira versão foi publicada em Pereira Jr. et al. (2013):
Figura 1 – O Sistema Consciente. Na perspectiva das Neurociências, aborda-se o
Sistema Consciente interagindo com o Ambiente, composto de três funções: Conhecer,
Sentir e Agir. A consciência humana se constitui dinamicamente pelas interações entre
estas três funções, em ciclos temporais. Sem a presença do Sentir, teríamos um
processamento mental não-consciente, caracterizado pelo processamento da informação
aferente e controle motor em resposta aos estímulos ambientais. Com a presença do
Sentir, que teria como base fisiológica as ondas de cálcio mediadas pela rede astrocitária
(Pereira Jr. e Furlan, 2010), haveria uma modulação da atividade neuronal conforme a
valência atribuída às qualidades do estímulo, influenciando desse modo a resposta
comportamental.
Uma Abordagem Interdisciplinar da Consciência: a Hipótese Projetiva
Importante para os fundamentos epistemológicos de uma ciência da consciência é a
identificação das características psicológicas da atividade consciente (Nagel, 1974;
Velmans, 2009; Harnad, 2011; Northoff, 2016), em particular – como tratado na seção
anterior deste projeto - a consideração da tríade de funções mentais conscientes:
cognitivas (Baars, 1988), afetivas (Panksepp, 1996; Barrett e Russell, 1998; Barrett,
2017) e enativas ou relacionadas à ação (Jeannerod, 1998), bem como um tratamento
adequado dos graus de consciência fenomenal supostamente presentes em diferentes
espécies biológicas (Carrara-Augustenborg e Pereira Jr., 2003).
As abordagens não reducionistas enfrentam o desafio de relacionar a atividade de, por
um lado, o sistema nervoso (e sua extensão nas vias psico-neuro-endócrinas),
interagindo com o ambiente físico, biológico e social, e, por outro lado, a experiência
fenomenal dos organismos, acessível apenas na perspectiva da primeira pessoa. Este
desafio deu origem ao campo da Neurofenomenologia, contendo diferentes propostas
filosóficas sobre a natureza do cérebro e da experiência consciente (Varela, 1996).
Duas características psicológicas centrais da experiência consciente são o "ponto de
vista" subjetivo (Nagel, 1974) e a localização de objetos e processos percebidos fora do
cérebro, ou "projeção perceptiva" (Velmans, 1993). Esses aspectos são comuns e quase
óbvios em nossas experiências conscientes, mas muito difíceis de explicar
cientificamente. Duas abordagens em Psicologia Filosófica ajudaram os pesquisadores a
formular adequadamente os problemas.
Primeiramente, cito a distinção entre os tipos de perspectiva, de primeira e terceira
pessoa (Nagel, 1974). Nagel propôs que "todo fenômeno subjetivo está essencialmente
conectado com um único ponto de vista" (Nagel, 1974). No entanto, este ponto de vista
subjetivo não deve ser concebido em termos de um Eu substancial ou Alma, na tradição
cartesiana, mas como derivado de experiências naturais e respectivos mecanismos
biológicos, como no exemplo por ele dado de um animal (o morcego) usando a
ecolocação (mecanismo biofísico semelhante a um radar, que permite a orientação
espacial do animal). O conceito de ponto de vista subjetivo de Nagel (1974)
possivelmente deriva da influência de Wittgenstein e do realismo de filósofos analíticos;
sua referência a um "Eu objetivo" (Nagel, 1983) pode ser interpretada como
correspondendo ao conceito Eu Mínimo discutido por Zahavi (2017).
Em geral, as experiências conscientes de um organismo podem ser referidas a um ponto
de vista, constituindo uma perspectiva de primeira pessoa. O mesmo raciocínio pode ser
aplicado a fenômenos objetivos, para os quais a perspectiva da terceira pessoa é
adequada: "Ao falar da mudança da caracterização subjetiva para a objetiva, eu quero
permanecer descomprometido sobre a existência de um ponto final, a natureza
intrínseca completamente objetiva da coisa, que se pode ou não ser capaz de alcançar.
Pode ser mais preciso pensar na objetividade como uma direção na qual o entendimento
pode viajar" (Nagel, 1974, itálico por APJ). Desta citação fica claro que a perspectiva da
terceira pessoa foi concebida por Nagel como uma direcionalidade do entendimento. A
questão da direcionalidade está intimamente relacionada a conceitos filosóficos, como a
"intensionalidade" (para uma revisão, ver Bourget e Mendelovici, 2017) e a
"transparência ou opacidade" das representações mentais (Tye, 1996; 2002).
A segunda abordagem que cito é a discussão da projeção perceptiva por Max Velmans.
Como se pode relacionar o espaço fenomenal das experiências subjetivas com o espaço
físico objetivamente descrito na ciência? Na filosofia contemporânea, o Mundo que se
apresenta na experiência tem sido referido como "mundo da vida" (Husserl, 1913),
"desvelamento do Ser" (Heiddeger, 1962), e "formas de vida" (Wittgenstein, 1962,
1969). Uma abordagem científica é encontrada na psicofísica, comparando avaliações
subjetivas de propriedades espaciais (como distância, comprimento) com medidas
objetivas.
Velmans (1990, 1993, 2017) sugere que a localização de objetos e processos no espaço
fenomenal coincide aproximadamente com a sua localização no espaço físico: "Embora
eu tenha emprestado o termo "coisa em si" de Kant...esta não é uma "coisa"
incognoscível...Se o conhecimento humano é uma manifestação de um processo
reflexivo mais amplo pelo qual o próprio universo vem a conhecer a si mesmo, então
não há separação entre conhecedor e conhecido, e o conhecimento se torna uma forma
de autoconhecimento. Kant estava, naturalmente, correto ao enfatizar que o
conhecimento humano é limitado pelas formas que seus sistemas perceptivo e cognitivo
operam, e não pode, portanto, fornecer um conhecimento independente de
observadores...o que, no entanto, não exclui o conhecimento parcial, incerto e específico
a cada espécie - uma forma de realismo crítico...que é inteiramente convencional na
ciência" (Velmans, 2012).
Sabemos, a partir da pesquisa empírica nas neurociências, que a percepção consciente
requer o processamento de sinais no sistema nervoso; a representação das características
dos objetos percebidos nos córtices sensoriais, e o processamento destas características
para formar o conteúdointegrado de um episódio consciente; por exemplo, na
percepção visual, a imagem retinotópica bidimensional de um objeto percebido é
formada na área visual primária occipital, por meio de um padrão de ativação de
colunas de neurônios nas seis camadas corticais. Quando essa imagem é percebida
conscientemente, após a execução das etapas subseqüentes do processamento cerebral, o
objeto representado é experimentado como estando localizado "lá fora, no mundo",
externo ao cérebro. Como essa experiência é possível?
A aparente "projeção" da representação mental, formada no cérebro, para o mundo
externo, pelo (e para) o sistema consciente, foi formulada por Velmans (1993). Seu
modelo de projeção perceptual pressupõe a existência de processamento de informação
de um estímulo externo ao cérebro para o sistema nervoso central, onde é formada uma
representação das propriedades do estímulo. No entanto, a experiência consciente do
estímulo não é referida à atividade cerebral, mas de alguma forma projetada para a
localização do estímulo, como mostra a Figura 2:
Figura 2: Projeção Perceptiva (Velmans, 2017; reprodução para fins de publicação
autorizada pelo autor)
A discussão de Velmans (1993; 2012; 2017) sobre a projeção perceptual pode ser
resumida em três proposições:
1) Percebemos objetos e processos por meio da formação de representações neurais em
nossos cérebros;
2) A experiência vivida que temos dos objetos e processos físicos é que eles estão
localizados "lá fora", no espaço físico experiencial; assim sendo,
3) Nós “projetamos” nossas representações neurais no espaço físico experiencial.
Uma tentativa de explicação da projeção perceptiva pode ser em termos do conceito de
informação. Os padrões neurofisiológicos fenomenais e seus correlatos no mundo físico
possuiriam a mesma estrutura dinâmica da informação. Velmans argumenta que "a
mente pode ser pensada como uma forma de processamento de informação" (Velmans,
2012). Considerando a fenomenologia de primeira pessoa de um sujeito S e seus
correlatos neurais (visível a partir da perspectiva de terceira pessoa de um observador
externo E), ele afirma que: "a estrutura de informação do que S e E observam é idêntica,
mas é exibida ou "formatada” de maneiras muito diferentes... as informações exibidas
nas experiências e seus correlatos físicos podem ser pensadas como duas manifestações
desse processamento de informações...a natureza da mente não é ou física ou
consciente; ela é ao mesmo tempo física e consciente. Por falta de um termo melhor,
podemos descrever essa natureza como psicofísica" (Velmans, 2012).
A bipolaridade da mente consciente, com um pólo subjetivo e um objetivo (e
respectivos correlatos cerebrais), delimitando o “espaço egocêntrico” (Trehub, 2013)
onde ocorrem os eventos da vida, é um tema central na epistemologia da psicologia e da
neurociência. Uma formulação clássica pode ser encontrada na distinção feita por
Freud, com base na filosofia de Schopenhauer (para uma atualização sobre a influência
contemporânea deste filósofo, ver Merker, 2013), entre o Id (Princípio do Prazer) e o
Superego ( Princípio da Realidade). A interação dos dois gera o conceito de Ego (Freud,
1923) e também suporta um conceito de “projeção” (ver Ornston, 1978) na teoria
psicodinâmica. A projeção em Freud (diferentemente da abordagem de Velmans), foi
concebida como um mecanismo de defesa que envolve processos projetivos similares
àqueles que operam na percepção.
Na experiência consciente, o “ponto de vista” subjetivo e os objetos “lá fora no mundo”
podem ser interpretados como duas direções projetivas: uma para dentro, projetando-se
o "Eu" do agente consciente, e a outra para fora, projetando-se um "Mundo" objeto da
experiência. Nessa interpretação, os polos "subjetivo" e "objetivo" da consciência (a
dualidade "Noético-Noemática", segundo Husserl, 1913) são concebidos como um
campo informacional emergente da experiência vivida, aparente apenas na perspectiva
de primeira pessoa; este campo é chamado Domínio Consciente Estendido (DCE).
Para se desenvolver tal hipótese, inicialmente é preciso identificar as "plataformas" a
partir das quais as projeções do Eu e do Mundo são realizadas. A partir do diagrama da
Teoria da Consciência baseada nas neurociências e no Monismo de Triplo Aspecto
(Figura 1), identifico as "plataformas" como sendo:
a) A história sentimental do indivíduo, encarnada em ondas de sentimento que
percorrem o tecido vivo, seria a plataforma que gera o Sentido de Eu;
b) As representações dos objetos da percepção e da ação, encarnada em sequências de
pulsos (spike trains) encarnadas em redes neuronais, seria a plataforma que gera o
Sentido de Mundo.
Para gerar o DCE com seus dois pólos projetados, o subjetivo (ponto de vista) e o
objetivo (objetos e processos existentes no mundo), um sistema contendo pelo menos
dois componentes é necessário, da mesma forma que para se gerar uma linha dois
pontos são necessários. Mitterauer (2013) também propõe um modelo “dialógico” da
mente consciente, no qual os pólos subjetivo e objetivo correspondem à atividade de
duas redes de sinalização no tecido vivo, o astroglial (subjetivo) e o neuronal (objetivo).
A extensão do campo da experiência consciente em direção aos pólos subjetivo e
objetivo, assim como as plataformas que possibilitam a projeção destes pólos, são
ilustradas na Figura 3:
Figura 3: O Domínio Consciente Estendido (DCE). A partir da interação entre
experiências sentimentais e representações de objetos da percepção/ação, dois pólos são
projetados (setas unidirecionais tracejadas): o Eu, como "ponto de vista" (Nagel, 1974),
e os objetos percebidos (por exemplo, o gato de Velmans, 1993; 2017) como objetos 3D
virtuais, ou seja, vivenciados apenas pelo indivíduo que os projeta, que são localizados
no espaço físico externo ao sistema nervoso do indivíduo. Figura de autoria de Alfredo
Pereira Jr.
O conceito proposto de DCE é diferente do conceito de "realidade virtual"
representacional proposto por Lehar (2003) e Metzinger (2009); ver também Revonsuo
(2010), por duas razões: primeiro, a abordagem da realidade virtual daqueles autores é
baseada em representações mentais, enquanto o DCE é um domínio experiencial que
não se limita à operação de representação, mas inclui também a projeção e respectiva
vivência de primeira pessoa do conteúdo projetado. O DCE não é intrínseco às
representações; pelo contrário, as representações são componentes do DCE, sendo
usadas para permitir operações projetivas que geram o domínio estendido. Segundo, o
DCE não é fechado dentro do cérebro, mas estende-se informacionalmente ao domínio
da interação com o mundo. Por outro lado, o DCE também é diferente do conceito de
"mente estendida" proposto por Clark (1996), porque esse autor evita explicitamente o
externalismo fenomenológico, e se concentra apenas em relações funcionais externas
estendidas, como com o uso de artefatos tecnológicos que ampliam nosso conhecimento
cognitivo. capacidades, mas não o alcance da consciência fenomenal.
A Estrutura Dinâmica da Consciência
A consciência pode ser definida como “o sentimento do que acontece” (vide Pereira Jr.,
2013, inspirado no título do livro de Damásio, 2000). Neste conceito de consciência, “o
que acontece” é o vir-a-ser da realidade, na perspectiva de um determinado agente. O
vir-a-ser da realidade é (parcialmente) representado, mapeado ou simbolizado em seu
sistema cognitivo por meio de um sofisticado processamento de sinais. Conforme o
referencial teórico do MTA (Pereira Jr., 2013) este processamento só se torna
consciente quando as mensagens carregadas pelos sinais são sentidas. Sem o sentir, que
corresponderia à formação de ondas hidro-iônicas no tecido vivo (Pereira Jr., 2017), o
processamento de informação permanece inconsciente, tal como se supõe acontecer em
computadoresdigitais – que processam informação, mas aparentemente não são
conscientes, pois lhes falta a capacidade de sentir o significado da mensagem
informacional a partir de uma perspectiva própria.
A atividade consciente se desdobra em funções que incluem a percepção, a cognição, a
emoção e o controle da ação. Cada uma destas funções comporta uma modalidade do
sentir:
a) No plano perceptivo, as qualidades sensoriais ou qualia (por exemplo, a sensação de
uma cor);
b) No plano cognitivo, as crenças cognitivas, referidas no conceito de conhecimento
como “crença verdadeira justificada”; as crenças proposicionais são ontologicamente
interpretadas como constituindo sentimentos ("feeling of knowing", de acordo com
Burton, 2008);
c) No plano afetivo, os sentimentos emocionais ou afetos, como amor e ódio; e
d) No plano da ação, o querer, incluindo a vontade ou disposição para a ação e o desejo
de vivenciar determinadas experiências relativas a determinados seres.
Portanto, entende-se aqui que os qualia, as crenças, os afetos e o querer sejam
variedades do sentir, conforme discutido em Pereira Jr. (2015a,b).
O conceito de experiência fenomenal utilizado, por exemplo, por Chalmers (1995,
1996) e Conee (1994), se refere às vivências que compõem o "fluxo da consciência"
(James, 1890), englobando as três funções acima. Como o conceito de fenômeno foi
inicialmente elaborado por Kant no contexto da teoria do conhecimento, guarda um
resquício cognitivista, apesar dos esforços subsequentes de Kant no sentido de estender
sua filosofia para os domínios da ação ética e da apreciação estética, culminando em
uma antropologia filosófica (Perez, 2017).
Na literatura filosófica recente sobre a consciência, a experiência vivida pela pessoa
corresponde à expressão "what it is like to be" (Nagel, 1974). Esta experiência
corresponde a uma apresentação, que pode vir a ser capturada, a posteriori, por uma
representação conceitual, utilizando-se de recursos como símbolos, imagens e mapas
mentais. Portanto, o conhecer e o sentir seriam processos diferentes, porém
complementares, que se realizam de modo integrado no fluxo pessoal da consciência.
Uma distinção eficaz entre os aspectos cognitivos e sentientes da consciência se
encontra na experiência de pensamento a respeito da neurocientista Mary (Jackson,
1986). Apesar do argumento ter sido apresentado como relativo ao conhecimento de
Mary, também pode ser interpretado como revelador do limite do cognitivismo (na linha
de Conee, 1994, que implica em Mary vir a ter uma experiência fenomênica que se
estende além do conhecimento propriamente dito). Mary é uma neurocientista que
passou toda a sua vida dentro de um quarto em preto e branco, ou seja, nunca interagiu
experiencialmente com objetos que precebemos como coloridos. Ela detém todo o
conhecimento possível acerca das funções cerebrais, inclusive a respeito de como o
cérebro processa os sinais luminosos e percebe conscientemente as cores; entretanto,
como nunca interagiu com aqueles objetos, nunca teve suas próprias experiências
vividas de cores, ou seja, nunca sentiu as cores, apesar de conhecer tudo a respeito de
cores. Se Mary, ao sair de seu quarto-caverna e interagir com o mundo que lhe induz
outras cores além do preto e do branco, notar que está tendo uma experiência
fenomênica qualitativamente diferente, então podemos concluir que conhecer e sentir,
apesar de serem funções mentais complementares, seriam essencialmente diferentes.
A neurociência tem contribuído como ferramenta para se elucidar a estrutura temporal
da consciência. Sintetizando resultados teóricos obtidos em 20 anos de pesquisa em
Filosofia das Neurociências, Pereira Jr., Foz e Rocha (2017) identificaram uma
“assinatura dinâmica” da consciência, que se expressa em uma combinação de ritmos e
variações de amplitude dos potenciais elétricos cerebrais medidos por
eletroencefalografia. Nesta abordagem, um episódio consciente (“Gestalt”) teria a
duração de aproximadamente 2 segundos, integrando atividades perceptivas, cognitivas,
afetivas e volitivas. Os processos biofísicos possivelmente envolvidos nestas atividades
conscientes são discutidos em Pereira Jr., Vimal and Pregnolato (2016).
Realizando uma síntese dos conhecimentos sobre a consciência elaborados nas
publicações acima citadas, pode-se analisar a atividade consciente humana como uma
estrutura dinâmica que envolve três camadas e seis fases, nas quais as funções
anteriormente mencionadas (a cognição, a emoção e o controle da ação) se apresentam
de modo integrado. As três camadas são:
a) Atividades Não Conscientes: Abarcam os processos físicos e informacionais no corpo
e no ambiente do agente, inclusive processos fisiológicos cerebrais que dão suporte aos
processos conscientes, mas não aparecem como conteúdos vivenciados pelo agente;
b) Atividades Conscientes Não Reflexivas: A reflexão se faz por meio de conceitos.
Utilizamos o termo conceito no sentido platônico de Ideia, porém em um quadro teórico
que se aproxima de Aristóteles, isto é, os conceitos são "formas mentais" instanciadas
nas mentes das pessoas; mentes que não se encontram separadas de seus corpos e
interagem com um ambiente físico, social e cultural. Uma característica essencial dos
conceitos é que constituem padrões que podem ser utilizados em processos lógicos;
entendemos por cognição a apreensão e combinação dos conceitos segundo uma lógica
e utilizando uma linguagem (verbal ou imagética). O sentir compreende dimensões não-
conceituais da experiência vivida, ou seja, dimensões que não são capturadas em
processos lógico-linguísticos que caracterizam a racionalidade humana, podendo, no
entanto, serem referidos por meio de metáforas e/ou descrições dos tipos de contexto
em que são vivenciados. Por exemplo, a experiência dolorosa é uma vivência não-
conceitual, que pode ser descrita por meios de analogias (a dor como um tipo de "onda
que perpassa o corpo") ou descrições do contexto em que é gerada (uma cárie dentária
afetando o nervo, uma queimadura, uma picada de agulha, etc...). O "pensamento por
imagens" já enfocado por Aristóteles (Silva, no prelo) poderia ser considerado como
não-conceitual, ou ainda como não reflexivo, se (e somente se) tais imagens estiverem
no plano sensível e/ou sentimental; entretanto, as imagens podem ser também alçadas a
um plano conceitual, quando se tornam Ícones (no sentido de Peirce); neste caso, elas se
prestam a encadeamentos propriamente cognitivos, ou seja, a semeiose;
c) Atividades Conscientes Reflexivas: Abarcam todas as atividades conscientes que são
conceitualmente explicitadas e reconhecidas, por meio do uso de linguagem, imagens,
mapas e símbolos, e se encadeiam logicamente, podendo compor argumentos racionais.
Uma análise introspectiva do fluxo de consciência revela um dinamismo estrutural. Ao
mesmo tempo em que se nota um “vazio de essência” no sentido do Budismo antigo
(aqui entendido como a ausência de uma estrutura estática ou fixa na vivência
introspectiva), pode-se identificar uma sequência de fases do fluxo consciente. Estas
fases progridem na direção de uma crescente auto-apreensão do Eu consciente, podendo
culminar na manifestação deste Eu por meio da intuição, propiciando a explicitação da
vontade direcionada para a realização (atualização de potencialidades, ou conatus) do
Eu por meio da ação.
A estrutura dinâmica da consciência pode ser representada por meio de um gráfico
exibindo a curva “Grau de Reflexividade X Grau de Auto-Apreensão" (vide Figura 4).
O gráfico ilustrativo é bastante simplificado, representando o fluxo da consciência
apenas como progressivo rumo à maior auto-apreensão (self-awareness), porém
observamos na prática que o movimento da consciência pode se fazer também no
sentido regressivo, por exemplo, ao se prestar mais atenção à vivência espontânea,
quando encontramos dificuldadesinterpretativas, por exemplo, de uma obra de arte
plástica. As fases constitutivas do processo são detalhadas em seguida ao diagrama.
Figura 4 - Análise Integrada do Fluxo da Consciência. Os “picos” reflexivos
(Interpretado, Pensado e Querido) se referem a atividades conscientes conceituais,
elaboradas por meio de representações mentais, símbolos, mapas e/ou imagens. Os
“vales” não reflexivos (Sentido, Automático, Intuído) se referem a experiências
conscientes não conceituais de primeira pessoa. Figura original de autoria de Alfredo
Pereira Jr. (2017).
A sucessão das fases representa a vivência de graus de auto-apreensão do agente
cognitivo. Este modelo simplificado do fluxo da consciência sugere um conceito de Eu
Sentiente, que não preexiste à experiência, mas se constrói no processo consciente (vide
discussão em Pereira Jr. e Souza, 2017). As seis fases do fluxo da consciência acima
representadas progridem em graus de auto-apreensão (do inglês self-awareness; vide
Carrara-Augustenborg and Pereira Jr., 2012):
1) Sentido ou Sentiência: Esta fase inclui a vivência de estados de consciência
biologicamente induzidos (dor e prazer, sensações básicas como fome e sede; vide o
modelo de Panksepp, 1996), bem como estímulos sensoriais novos ou surpreendentes.
As sensações espontâneas se inserem no âmbito da Sentiência (do inglês sentience; vide
Allen and Tretsman, 2016). Cronologicamente, na percepção humana esta fase cobre os
primeiros 300 milésimos de segundo após uma estimulação exógena ou endógena, mas
pode ser prolongada no tempo se o estímulo continuar presente, como no caso de
sensações de dor crônica. As sensações não são conceituais, no sentido de que em um
primeiro momento não são cognitivamente reconhecidas; no entanto, mesmo sem serem
conceituadas elas são vivenciadas conscientemente. As teorias exclusivamente
cognitivas da consciência podem considerar esta fase como sendo não-consciente, mas
em um exame mais detalhado (vide por exemplo Woodruff, 2017) a sentiência satisfaz
condições mínimas para ser considerada como uma fase elementar da atividade
consciente compartilhada por muitas espécies biológicas, possivelmente incluindo as
plantas;
2) Interpretado: Nesta fase, a sensação é interpretada e categorizada dentro de um
quadro cognitivo, que inclui algum tipo de linguagem, mas não necessariamente
simbólica. Muitas vezes usamos mapas e imagens multimodais (visuais, auditivas,
táteis, etc.) para interpretar e categorizar nossas sensações, resultando em uma
representação mental. Esse tipo de processo é a segunda fase da atividade consciente.
Para as teorias meta-cognitivas da consciência, esta fase cognitiva não seria suficiente
para ser considerada como uma atividade consciente, porque o agente não é consciente
de ser consciente, ou porque a representação mental não é explicitamente referida ao
agente por si mesmo. Os sentimentos emocionais (Wang and Pereira Jr., 2016) se
constituem nesta fase; por exemplo, no caso da dor a sensação de dor pode ser gerada
nos primeiros 300ms após o estimulo nocivo, mas o sentimento emocional de dor, que
depende da história individual, requer um tempo maior para sua formação, podendo ser
suprimido em situações extremas, como no caso de uma pessoa, percorrendo região que
apresenta perigo de vida, que sofre uma lesão na perna, mas continua a caminhar,
suprimindo o sentimento emocional da dor por algum tempo;
3) Automatizado: Esta fase corresponde à ativação de uma resposta aprendida
anteriormente e fixada como representação mental. Uma vez que a representação é
formada, conexões previamente estabelecidas desencadeiam uma resposta cognitiva,
que também pode desencadear uma resposta comportamental. No "modo automático",
não conceituamos a experiência, mas a monitoramos para verificar se a resposta
adequada é executada; por exemplo, quando andamos de bicicleta ou nadamos (casos
que os neurocientistas chamam - em inglês - de procedural memory). Por exemplo,
dirigir um carro enquanto se concentra o foco da atenção consciente em uma conversa
pessoal (ou pelo celular) é uma experiência consciente automatizada, porque a estrada é
(ou deveria ser) monitorada conscientemente; em outras palavras, a periferia da atenção
consciente não seria necessariamente inconsciente (como originalmente argumentado,
na "analogia do estádio", por Carrara-Augustenborg e Pereira Jr., 2012);
4) Pensado: Esta fase é baseada em inferências lógicas, usando-se linguagens verbais ou
não-verbais. Está possivelmente presente em todas as espécies animais capazes de
respostas não-automáticas aos estímulos ambientais. Refere-se a inferências lógicas que
tomam a interpretação anterior como base para definir um padrão de ação adequado no
contexto "aqui e agora". Na meditação e nas práticas contemplativas, esta fase é inibida
para favorecer a próxima fase (Intuição); já no contexto do fazer filosófico e científico,
procura-se aprofundar ao máximo esta fase, para se clarificar conceitos e raciocínios,
possibilitando um melhor entendimento do objeto de estudo. Existem vários tipos de
inferência, formais e informais, que podem ser modelados de várias maneiras, incluindo
métodos probabilísticos. Um relato introspectivo da fase de pensamento pode revelar
sua estrutura intrínseca (Weger et al, 2018);
5) Intuído: É a fase intuitiva vem após o pensar, quando processos de origem
inconsciente atingem a consciência, porém sem conexão direta com o estágio de
pensamento anterior. A intuição pode ser concebida como um processo inconsciente
desencadeado pelo pensamento consciente, levando a manifestações conscientes de
disposições internas, que muitas vezes respondem a questões objetivas, inclusive no
domínio científico (vide Marton et al., 1994; Morewedge and Kahneman, 2010). A
intuição pode ser ainda considerada como uma reação do Eu profundo da pessoa à
experiência vivida. Em tradições orientais, esta fase está paradoxalmente relacionada à
"dissolução" da dicotomia Sujeito-Objeto. Em nossa análise, procuramos resolver este
paradoxo por meio da introdução do conceito dinâmico de Eu Sentiente, que satisfaz aos
princípios de co-originação e interdependência formulados por Nagarjuna (2016);
6) Querido: O querer (ou a vontade, desejo) é a conexão entre o episódio consciente que
está sendo formado e as ações a serem executadas no ambiente físico e social. O
comportamento em resposta à estimulação pode ocorrer sem determinação pela vontade
consciente, por meio de mecanismos neurais automáticos. Quando a estimulação é
processada e integrada em um episódio consciente, é possível influenciar o
comportamento por meio do querer. A ação voluntária é mediada por conexões do
sistema nervoso central (principalmente o córtex motor) com músculos e glândulas. Os
sinais de controle de ação (como a descarga corolária; ver Jeannerod, 1997) podem
modular e moldar os episódios conscientes que experimentamos. Esta fase corresponde
ao posicionamento da pessoa frente ao contexto prático; inclui desde nossos desejos e
vontades cotidianas até as realizações culturais, como por exemplo, o compositor que
escreve (usando notação simbólica) um padrão musical que emergiu da fase intuitiva.
A autoconsciência, resultante do processo de auto-apreensão, é concebida como a
capacidade meta-cognitiva, de um agente, de se apreender como sujeito do fluxo de
consciência e da ação resultante deste.
Objetivos, Hipóteses e Testes
Os objetivos desta investigação teórica são:
1) Relacionar os processos subjetivos que geram o Sentido de Eu com as estruturas e
funções do sistema nervoso (conforme estudadas pela neurociência afetiva) que dão
suporte aos sentimentos;
2) Relacionar os processos que geram o Sentido de Mundo com a estrutura e os
mecanismos de percepção-ação, tal como estes são estudados pelas neurociências;
3) Avaliar, a partir de resultados de pesquisasem Psicologia, em que medida os
processos que geram os sentidos acima dependem de uma apreensão meta-cognitiva,
considerando os argumentos a este respeito levantados pelas teorias do Pensamento de
Alta Ordem (Rosenthal, 2002; LeDoux e Brown, 2017);
Na hipótese central se propõe o conceito de projeção, derivado de Freud e Max
Velmans ("projeção perceptiva"), para explicar a geração do Sentido de Eu e do Mundo,
os dois principais componentes da estrutura dinâmica da experiência consciente,
conforme investigações fenomenológicas. Por meio desta projeção, os Sentidos de Eu e
de Mundo são gerados a partir das três funções conscientes, o Conhecer, o Sentir e o
Agir. O domínio da experiência delimitado pelos dois pólos constitui um campo
informacional fenomênico, que ocorre no “espaço egocêntrico”, tendo o ponto de vista
subjetivo no centro e o mundo dos objetos como horizonte.
O Sentido de Eu é gerado como invariante dinâmico no sub-sistema dinâmico do Sentir,
ou seja, tendo o Eu como aquele que sente (por exemplo, sensações de prazer e dor);
este invariante dinâmico é projetado na experiência fenomenal como entidade encarnada
no corpo vivo, que constitui o sujeito das experiências conscientes. O Sentido de Mundo
é gerado como objeto intensional no sub-sistema do Agir, ou seja, como imagem dos
objetos aos quais se referem as representações perceptivas e enativas; o Sentido de
Mundo é projetado no espaço-tempo físico por meio de estruturas eferentes do corpo
vivo, aparecendo para o Eu como sendo uma realidade externa ao cérebro/mente.
O campo informacional fenomênico, resultante dos processos de projeção, é percebido
apenas pelo indivíduo que projeta. Sua base neurobiológica seria a interação dinâmica
entre os sub-sistemas cerebrais e corporais do Sentir e do Agir, não necessariamente
apreendidos pelo sistema do Conhecer.
Neste modelo, as fases não-conceituais do processo consciente (sentiência, vontade;
vide Figura 5) têm relativa autonomia frente às fases conceituais, isto é, a existência de
um Sentido de Eu e de um Sentido de Mundo não depende de apreensões conceituais
destes sentidos pelo sub-sistema cognitivo, o que contrasta com as abordagens do tipo
HOT.
Figura 5: Consciência Fenomenal Não-Conceitual: O Sentido de Eu emerge na esfera
do Sentir e o Sentido de Mundo emerge na esfera do Agir; ambos se mantém no âmbito
não-conceitual, ou pré-reflexivo (Merleau-Ponty, 1945).
Como podemos discutir e testar esta hipótese? Para tal, vamos recorrer a uma discussão
importante no contexto das neurociências e da filosofia da mente humana, que tem
como principais protagonistas Ned Block e David Rosenthal, ambos docentes de
Filosofia em Nova Iorque, com incursões na Psicologia Filosófica e na Neurociência.
Block (2007) assumiu uma posição em favor da existência de consciência fenomenal
não cognitiva, que não dependeria de uma cognição a posteriori para existir: "Minha
primeira conclusão é que a sobreposição do mecanismo neural do acesso cognitivo e do
mecanismo neural da fenomenologia pode ser empiricamente investigada. Segundo, há
evidências de que o último não inclui o primeiro" (Block, 2008, p. 498). A abordagem
de Block aponta no sentido de uma Consciência Fenomenal Não-Conceitual,
correspondendo às fases ímpares no diagrama da Figura 4 (ou, ao menos, à primeira
fase, no que tange à sentiência sensorial), sendo também compatível com a hipótese
ilustrada na Figura 5.
A hipótese rival seria que a integração consciente do campo informacional Eu-Mundo
ocorreria na esfera cognitiva (Figura 6), por meio de um “Pensamento de Alta Ordem”
(“High-Order Thought”, ou HOT; Rosenthal, 2002), tendo ainda – na proposta de
LeDoux e Brown, 2017 – o córtex pré-frontal como centro integrativo. Nesta
abordagem, tanto os sentimentos/emoções quanto as representações espaço-temporais
do mundo precisariam ser cognitivamente acessadas, conceitualmente formuladas e
referidas ao próprio sistema, para se tornarem conscientes. Todas as fases do processo
ilustrado na Figura 4 seriam dependentes do pensamento conceitual para se tornarem
efetivamente conscientes.
Figura 6 – Consciência Conceitual: Nesta abordagem, a projeção do Eu e do Mundo, e
sua integração em um campo informacional, se inicia nas esferas do Sentir e do Agir,
mas só se completa quando projetada na esfera cognitiva, por meio de um “Pensamento
de Alta Ordem” ou “meta-cognição” (conhecimento sobre a própria consciência).
Um método para se testar as propostas de Block e Rosenthal foi sugerido por Brown
(2014), ele próprio defensor de uma abordagem do tipo HOT: “Se a consciência
fenomenal depende de alguma forma do funcionamento cognitivo de alta ordem, então
devemos ser capazes de alterar a experiência consciente dos sujeitos, interferindo em
áreas do cérebro que se acredita estarem envolvidas em cognição de ordem superior,
deixando simultaneamente processamento de primeira ordem inalterado” (Brown,
2014). Esta sugestão é muito importante para se testar as diversas Teorias da
Consciência; por exemplo, o trabalho de Damásio sobre sentimentos e emoções pode
ser interpretado dessa maneira.
Os testes sugeridos por Brown são, inclusive, relevantes, pelo fato da Neurociência
Afetiva (como formulada por Panksepp, 1997) poder explicar a base biológica das
emoções e sentimentos, mas não parecer adequada para explicar os dois componentes
clássicos do domínio fenomenológico, os Sentidos de Eu e de Mundo.
Em suma, se interpretarmos a projeção como uma operação conceitual ou meta-
cognitiva de ordem superior, devemos concordar com a HOT de David Rosenthal, como
argumentado por Brown (2014); se interpretarmos a projeção como uma operação não-
conceitual, a razão deve ser dada a Block (2008).
Identifico sete maneiras de se discutir e testar a dependência (ou não) da consciência
fenomênica frente a operações cognitivas de ordem superior; estas diferentes maneiras
serão melhor elucidadas e discutidas no decorrer da pesquisa:
1) Na Neurofenomenologia: ao se buscar os correlatos cerebrais das experiências de
primeira pessoa, conferir - por meio de planejamento experimental adequado - se as
áreas relativas aos processos HOT seriam necessariamente ativadas quando as pessoas
reportam sua apreensão do Sentido do Eu e do Sentido do Mundo;
2) Na Psicanálise: poder-se-ia alterar as experiências sensoriais e afetivas, a partir de
uma racionalização conceitual dos fatores inconscientes envolvidos no processo
projetivo;
3) Na Hipnose: a partir das pesquisas de Terhune e Hedman (2017), e respectivos
relatos dos sujeitos, pode-se aferir se a sugestão hipnótica, ao afetar processos meta-
cognitivos, também vem a afetar a experiência sensorial e/ou afetiva;
4) Na Psiquiatria Farmacológica: aqui encontramos muitas evidências de efeitos de
psicofármacos que afetam seletivamente ora os processos cognitivos, ora os processos
afetivos, ora os processos motores (vide um revisão em Wang and Pereira Jr., 2016);
pode-se então discutir quais os graus de dependência entre tais processos;
5) Nas Terapias de Estimulação Cerebral (Elétrica, Magnética): nesta área de pesquisa
experimental, pode-se também aferir se a estimulação de uma área específica de
cognição, afeto ou controle motor, pode ter efeitos diretos e/ou secundários sobre
outra(s) área(s);
6) Na Epistemologia da Meditação, pode-se discutir, a partir de relatos de meditadores,
e eventualmente utilizando-se também registros de seus padrões de atividade cerebral, a
respeito dos caminhos e fases do processo de meditação; se correspondem ou não à
estrutura dinâmica ilustrada em nossa Figura 4;
7) Na Introspecção Sistemática: utilizando-se o método de Weger et al. (2018), pode-se
avaliar as determinações do pensamento e do sentimento na dinâmica consciente.
Relevância para a Ciência e a Filosofia Brasileiras
A consideração do sistema conscienteseria objeto de uma nova área de estudos, a
Teoria da Consciência. São inúmeros os marcos da reflexão filosófica e da pesquisa
científica contemporânea sobre a consciência, porém nota-se a ausência de esforços
sistemáticos no sentido de consolidar a sabedoria acumulada em uma área própria de
estudos, isto é, em uma Teoria da Consciência. Esta falta tem acarretado um
estreitamento da formação científica e filosófica, pois muitas vezes induz ao
entendimento da consciência apenas em seus aspectos cognitivos, que são tratados, na
filosofia, na clássica Teoria do Conhecimento, e, na ciência, pelas Ciências Cognitivas
(que têm se desenvolvido em proporção muito maior que as ciências afetivas e da
motricidade).
Tal resquício do cognitivismo moderno se estende também ao estudo dos fenômenos da
coneciência, onde notamos uma ênfase excessiva no aspecto cognitivo da consciência
(como, por exemplo, na Teoria do Espaço de Trabalho Global, de Bernard Baars, da
década de 1980, que foi apresentada como uma "teoria cognitiva da consciência"; Baars,
1988), deixando de lado os aspectos perceptivos (enfatizados, por exemplo, por
Merleau-Ponty), afetivos (enfatizados, por exemplo, por Antonio Damásio), e práticos
(enfatizados, por exemplo, por William James).
A formulação da Teoria da Consciência como disciplina científico-interdisciplinar e
filosófica poderia contribuir para uma formação humanística mais completa dos
filósofos, abarcando não só a dimensão cognitiva, mas também as dimensões afetivas e
comportamentais. Na perspectiva da filosofia e da ciência feitas no Brasil, poderia
contribuir para a formação da identidade do pensamento brasileiro, por meio de
formulações teóricas originais, com poder de impacto na comunidade filosófica e
científica internacional, refletindo uma concepção antropológica universalizante que
encontra expressão na cultura brasileira - que é marcada por uma riqueza qualitativa
perceptiva, afetiva e motora, em lugar da hipertrofia da dimensão cognitiva, como se
pode notar em culturas dominantes no mundo globalizado.
Referências:
Allen, C. & Trestman, M. (2016) Animal Consciousness. In E. N. Zalta (Ed.), The
Stanford Encyclopedia of Philosophy (Winter Edition).
Arielly, D. (2008) Predictably Irrational: The Hidden Forces That Shape Our
Decisions. New York: Harper Collins.
Aubenque, P. (1962) Le Probleme de l’Être Chez Aristote. Paris: PUF.
Baars, B. (1988) A Cognitive Theory of Consciousness. New York: Cambridge
University Press.
Barrett, L. (2017) The theory of constructed emotion: an active inference account of
interoception and categorization. Social Cognitive and Affective Neuroscience 12 (47),
1-23.
Barrett, L.F. & Russell, J.A. (1998) Independence and bipolarity in the structure of
current affect (1998) Journal of Personality and Social Psychology 74 (4) 967-984.
Block, N. (1995) On a Confusion about a Function of Consciousness. Behavioral and
Brain Sciences 18 (2): 227-287.
Block, N. (2008) Consciousness, Accessibility, and the Mesh Between Psychology and
Neuroscience. Behavioral and Brain Sciences 30(5-6): 481-99; discussion 499-548.
Bourget, D. and Mendelovici, A. (2017) Phenomenal Intentionality. In: Zalta, E.N.
(Ed.) The Stanford Encyclopedia of Philosophy, URL =
.
Brentano, F. (1925/1973) Psychologie von empirischen Standpunkt /Psychology from an
empirical standpoint, translated by A. Pancurello, D. Terrell, L.L. McAlister, New
York: Humanities Press.
Brown, R. (2014) Consciousness doesn't overflow cognition. Frontiers in Psychology
5,
p. 1399.
Burton, R.A. (2008) On Being Certain. Believing You Are Right Even When You're Not.
New York City: Macmillan Publishers/St. Martin's Press.
Carrara-Augustenborg, C. and Pereira Jr., A. (2012) Brain Endogenous Feedback and
Degrees of Consciousness. In: Consciousness: States, Mechanisms and Disorders. Ed.
Andrea E. Cavanna and Andrea Nani. New York: Nova Science Publishers, Inc, p.33-
53,.
Chalmers, D.J. (1995) Facing up to the Problem of Consciousness. Journal of
Consciousness Studies 2 (3), pp. 200-219.
Chalmers, D.J. (1996) The Conscious Mind. New York: Oxford University Press, 1996.
Churchland, P.S. (1986) Neurophilosophy: Toward a Unified Science of the Mind-
Brain. Cambridge/MA: MIT Press
Clark, A. (1996) Being There: Putting Brain, Body and World Together Again,
Cambridge, MA: The MIT Press
Conee, E. (1994) Phenomenal Knowledge. Australasian Journal of Philosophy 72: 136–
150.
Crick, F. (1994) The Astonishing Hypothesis: The Scientific Search For The Soul. New
York: Charles Scribner's/Maxwell McMillan.
Damásio, A. (2000) The Feeling of What Happens: Body and Emotion in the Making of
Consciousness. New York: Mariner Books.
Damásio, A. (2018) The Strange Order of Things: Life, Feeling, and the Making of
Cultures. New York: Pantheon Books.
Dehaene, S., & Changeux, J.P. (2011) Experimental and theoretical approaches to
conscious processing. Neuron 70 (2), 200-227.
Edelman, G. M. (1989). The remembered present: A biological theory of consciousness.
New York, NY, US: Basic Books.
Fernandes de Lima, V.M. and Pereira Jr., A. (2016) The plastic glial synaptic dynamics
within the neuropil: A self-organizing system composed of polyelectrolytes in phase
transition, Neural Plasticity 120, N. 7192427.
Freud S. (1923). The Ego and the Id. Standard Edn Vol. XIX. London: Hogarth.
Gazzaniga, M.S., Ed. (1993) The Cognitive Neurosciences. Cambridge: MIT Press.
Gibson, J.J. (1979) The Ecological Approach to Visual Perception, Boston: Houghton-
Mifflin.
Harnad, S. (2011) Doing, Feeling, Meaning And Explaining. Disponível em:
.
Heidegger, M. (1962) Being and Time. Translated by John Macquarrie & Edward
Robinson. Oxford: Blackwell.
Husserl, E. (1913) Ideas: General Introduction to Pure Phenomenology. Trans. F.
Kersten. Dordrecht: Kluwer Academic
Jackson, F. (1986) What Mary Didn't Know. Journal of Philosophy 83: 291–295.
James, W. (1890) The Principles of Psychology. 2 volumes. New York: Dover.
Jeannerod, M. (1997) The Cognitive Neuroscience of Action. Oxford: Blackwell.
Koch, C. (2003) The Quest for Consciousness: A Neurobiological Approach.
Englewood: Roberts & Company Publishers.
LeDoux, J.E., & Brown, R. (2017) A higher-order theory of emotional consciousness.
Proc. Natl. Acad. Sci. U.S.A. 114, E2016–E2025.
Lehar, S. (2003) Gestalt isomorphism and the primacy of subjective conscious
experience: A gestalt bubble model. Behavioral & Brain Sciences 26(4), 375-444.
Levine, J. (1983). Materialism and qualia: The explanatory gap. Pacific Philosophical.
Quarterly 64, 354–361.
Marton, F., Fensham, P. & Chaiklin, S. (1994) A Nobel's eye view of scientific
intuition: discussions with the Nobel prize‐winners in physics, chemistry and medicine
(1970‐86). International Journal of Science Education, p. 457-473. Disponível em:
http://dx.doi.org/10.1080/0950069940160406
McLean, P.D. (1990) The Triune Brain in Evolution. New York: Plenum Press.
Merleau-Ponty, M. (1945) Phenomenologie de la Perception, Paris: Gallimard.
Metzinger, T. (2009) The Ego Tunnel: The Science of the Mind and the Myth of the Self.
New York: Basic Books.
Miller, G.A., Gallanter, E.H. & Pribram, K. (1960) Plans and the Structure of Behavior,
New York: Rinehart and Winston
Mitterauer, B. (2013) The proemial synapse: Consciousness-generating glial-neuronal
units. In: A. Pereira Jr. and D. Lehmann eds. The Unity of Mind, Brain and World:
Current Perspectives on a Science of Consciousness. Cambridge-UK: Cambridge
University Press.
Morewedge C.K. and Kahneman, D. (2010) Associative Processes in Intuitive
Judgment. Trends in Cognitive Sciences 14 (10): 435-40.
Morsella, E. (2005) The function ofphenomenal states: Supramodular interaction
theory. Psychol. Rev., 112, 1000–1021.
Nagarjuna, A. (2016) Versos Fundamentais do Caminho do Meio. Tradução,
comentários e notas de Giuseppe Ferraro. Campinas, SP: Editora Phi.
Nagel, T. (1974). What is it like to be a bat? Philos. Rev., 83, 435–450.
Nagel, T. (1983) The Objective Self. In: Giner, C.; Shoemaker, S. (Orgs). Mind and
Knowledge. Oxford: Oxford University Press.
Nagel, T. (1986) The View from Nowhere. Oxford: Oxford Univ. Press.
Northoff, G. (2016) Neuro-Philosophy and the Healthy mind: Learning from the Unwell
Brain. New York and London: W.W. Norton.
Nunn, C. (2015) Mind, consciousness and time: an integrated overview. Quantum
Biosystems 6 (1), pp. 73-81.
Nunn, C. (2017) New Developments in Consciousness Studies; SoS theory and the
nature of time. London & New York. Routledge.
Ornston, D. (1978) On projection: A study of Freud's usage. The Psychoanalytic Study
of the Child, 33: 117-166.
Panksepp, J. (1998) Affective Neuroscience: The Foundations of Human and Animal
Emotions, New York: Oxford University Press.
Panksepp, J. (2005) Affective consciousness: Core emotional feelings in animals and
humans. Consciousness and Cognition 14 (1), 30-80.
Pereira Jr., A. (2007) Astrocyte-Trapped Calcium Ions: the Hypothesis of a Quantum-
Like Conscious Protectorate. Quantum Biosystems 2, 80-92.
Pereira Jr., A. and Ricke, H. (2009) What is Consciousness? Towards a Preliminary
Definition. Journal of Consciousness Studies 16(5): pp. 28-45.
Pereira Jr., A. & Furlan, F. A. (2009). On the role of synchrony for neuron-astrocyte
interactions and perceptual conscious processing. Journal of Biological Physics 35,
465– 481.
Pereira Jr., A., Edwards, J. C. W., Lehmann, D., Nunn, C., Trehub, A. & Velmans, M.
(2010) Understanding Consciousness: a collaborative attempt to elucidate contemporary
theories. Journal of Consciousness Studies 17, (5-6): 213- 219.
Pereira Jr, A. & Furlan, F. A. (2010) Astrocytes and human cognition: Modeling
information integration and modulation of neuronal activity. Progress in Neurobiology
92, pp. 405-420.
Pereira, A. Jr., & Almada, L.F. (2011) Conceptual spaces and consciousness research.
Int J Mach Conscious 3, 1–17.
Pereira Jr., A. (2012) Perceptual information integration: Hypothetical role of
astrocytes. Cognitive Computation, 4 (1), pp. 51–62.
Pereira Jr., A. (2013) Triple-Aspect Monism: A Conceptual Framework for the Science
of Human Consciousness, in: The Unity of Mind, Brain and World: Current
Perspectives on a Science of Consciousness, A. Pereira Jr. and D. Lehmann, Eds,
Cambridge University Press, Cambridge, UK, pp. 299–337.
Pereira Jr., A., Barros, R. F. & Santos, R. P. (2013). The calcium wave model of the
perception-action cycle: Evidence from semantic relevance in memory experiments.
Frontiers in Psychology 4, pp. 1– 4.
Pereira Jr., A. (2014). Triple-Aspect Monism: Physiological, mental unconscious and
conscious aspects of brain activity. Journal of Integrative Neuroscience, 13(2), 201-
227.
Pereira Jr., A (2015a) O Conceito de Sentimento no Monismo de Triplo Aspecto.
Kinesis Vol. VII, N° 14 (Edição Especial – Debate sobre o Monismo de Triplo Aspecto)
p.1-24. Disponível em:
https://www.marilia.unesp.br/Home/RevistasEletronicas/Kinesis/0_alfredopereirajr.pdf.
Acesso em 21/04/2016.
Pereira Jr, A. (2015b) Réplica aos Comentários. Kinesis Vol. VII, N° 14 (Edição
Especial – Debate sobre o Monismo de Triplo Aspecto) p. 95-143. Disponível em:
https://www.marilia.unesp.br/Home/RevistasEletronicas/Kinesis/11_replicasalfredo.pdf.
Acesso em 21/04/2016.
Pereira Jr. A, Foz, F.B. & Rocha, A. F. (2015). Cortical Potentials and Quantum-Like
Waves in the Generation of Conscious Episodes. Quantum Biosystems 6, 10-21.
Pereira Jr., A., Vimal R. and Pregnolato, M. (2016a)
Can Qualitative Physics Solve the Hard Problem? In: Poznanski, R.; Tuszinski, J. and
Feinberg, T. (Eds.) Biophysics of Consciousness: A Foundational Approach. Singapore:
World Scientific, p. 149-187.
Pereira Jr., A., Bresciani, E. and Ilario, E. (2016b) Modelando o Monismo de Triplo
Aspecto em um Espaço de Estados com Dimensões Fracionárias. Complexitas - Revista
de Filosofia Temática 1, 78-85.
Pereira Jr., A. (2016) Monismo de Triplo Aspecto: uma Filosofia Interdisciplinar para o
Século XXI. Preprint de livro, disponível no site Research Gate:
https://www.researchgate.net/publication/305348035_Monismo_de_Triplo_Aspecto_u
ma_Filosofia_Interdisciplinar_para_o_Sec_XXI.
Pereira Jr., A. and Souza, E. (2017) Self-Introspection in Triple-Aspect Monism and
Meditation Practices. Preprint publicado em Research Gate:
https://www.researchgate.net/publication/319234769_Self-Introspection_in_Triple-
Aspect_Monism_and_Meditation_Practices. DOI: 10.13140/RG.2.2.27630.10566
Pereira Jr., A. (2017a) Astroglial hydro-ionic waves guided by the extracellular matrix:
An exploratory model. Journal of Integrative Neuroscience 16, pp. 1-16.
Pereira Jr., A. (2017b) Sentience in Living Tissue. Animal Sentience 13(5).
Pereira Jr., A., Foz, F.B. & Rocha, A.F. (2017) The dynamical signature of conscious
processing: From modality-specific percepts to complex episodes. Psychology of
Consciousness 4 (2), pp. 230–247.
Pereira Jr., A. (2018) Kant e o Realismo. Artigo submetido à revista Kant E-Prints.
Pereira Jr., A., Nunn, C., Nixon, G. and Pregnolato, M (2018) Consciousness and
Cosmos: Building an Ontological Framework. Journal of Consciousness Studies 25 (3-
4), pp. 181 – 205.
Perez, D.O. (2017) O Lugar da Natureza Humana em Kant. Natureza Humana 19 (2).
Disponível em: http://revistas.dwwe.com.br/index.php/NH/article/view/271
Pregnolato, M., Damiani, G. and Pereira Jr., A. (2017) Patterns of Calcium Signaling: A
link between chronic emotions and cancer. J Integr Neurosci. 16(s1): S43-S63.
Reddy, S.K, Roy, S., Leite, E.S and Pereira Jr., A. (2018) The 'Self' Aspects: The Sense
of Existence, Identification, and Location Artigo submetido à revista Integrative
Psychological & Behavioral Science.
Revonsuo, A. (2010) Consciousness: The Science of Subjectivity. Hove and New York:
Psychology Press.
Rocha, A. F., Pereira, A., Jr., & Massad, E. (2005). The Brain: From fuzzy grammar to
quantum computing. Berlin, Germany: Springer.
Rosenthal, D. (2002) Explaining Consciousness. In Chalmers D. (ed.) Philosophy of
Mind: Classical and Contemporary Readings. Oxford University Press, pp. 406–421.
Silva, J.A.; Aznar-Casanova, J.A.; Pinto-Ribeiro Filho, N. e Santillan, J.E. (2006)
Acerca da métrica da percepção do espaço visual. Arq. Bras. Oftalmol. 69 (1), pp.127-
135.
Silva, M.M. (no prelo) A Concepção Aristotélica do Pensar em Imagens. Preprint
disponibilizado pelo autor.
Stubenberg, L. (2016) Neutral monism, The Stanford Encyclopedia of
Philosophy (Winter 2016 Edition), E.N. Zalta (ed.)
https://plato.stanford.edu/archives/win2016/entries/neutral-monism/
Stuss, D.T., Eskes, G.A. & Foster, J.K. (1994) Experimental Neuropsychological
Studies of Frontal Lobe Functions. In F. Boller and J. Graffman (Eds.), Handbook of
Neuropsychology Vol.9. New York: Elsevier Science.
Terhune D.B. and Hedman L.R.A. (2017) Metacognition of agency is reduced in high
hypnotic suggestibility. Cognition 168: 176-181.
Tononi, G., Boly, M., Massimini, M. & Koch, C. (2016) Integrated information theory:
from consciousness to its physical substrate. Nat. Rev. Neurosci. 17 (7), 450-461.
Tozzi, A. and Peters, J. (2016) A topological approach unveils system invariances and
broken symmetries in the brain. Journal of Neuroscience Research 94 (5), pp. 351 -
365.
Tye, M. (1995) Ten Problems of Consciousness. Cambridge: The MIT Press.
Tye, M. (2002) Representationalism and the transparency of experience. Noûs 36
(1):137-51
Varela, F. J. (1996) Neurophenomenology: A Methodological Remedy for the Hard
Problem.