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Reconstruções Dentárias com Finalidade Protética Existem diversas situações clínicas em que nos deparamos com grandes perdas de estrutura coronária, resultantes de cáries, fraturas, restaurações prévias, tratamentos endodônticos ou a combinação dessas condições. O planejamento desses casos deve incluir a reposição parcial ou total da coroa clínica perdida para garantir a retenção da restauração final. Após a perda coronária e a remoção de todo material restaurador que possa estar presente, o remanescente dental irá determinar a necessidade da indicação de um núcleo. Os núcleos representam a reposição da estrutura coronária perdida com materiais dentários através de técnicas diretas ou indiretas; pode ser necessária a ancoragem intraradicular, utilizando retentores intra-radiculares. Em molares que receberão restaurações parciais inlays/onlays/overlays, o preenchimento adesivo direto (em uma sessão) com resina composta é geralmente indicado, sem ancoragem intra-radicular. Em dentes vitalizados, como geralmente há pouca destruição dental, apenas o preenchimento adesivo com resina composta aderida ao substrato dental pode permitir adequado preparo protético, sem a necessidade de tratamento endodôntico e ancoragem intraradicular. Neste sentido, mesmo em dentes tratados endodonticamente, algumas vezes somente o preenchimento, sem ancoragem intraradicular, pode ser procedido. Por outro lado, quando a coroa está mediana ou amplamente destruída, a ancoragem intra-radicular é recomendada. Essa ancoragem intra-radicular pode ser direta ou indireta: na técnica direta, os pinos intra-radiculares pré-fabricados são cimentados e a parte coronária é reconstruída em sessão única. Atualmente, os pinos de fibra cimentados adesivamente associados à reconstrução com resina composta têm sido muito utilizados por apresentarem ótimas vantagens clínicas. na técnica indireta, os núcleos fundidos são confeccionados pela técnica direta (modelagem com resina acrílica diretamente na raiz) ou em um modelo de trabalho (enceramento sobre o modelo). O padrão de cera ou resina é incluído em revestimento e o núcleo é obtido através da injeção do material do núcleo pela técnica da cera perdida. Atualmente, a denominação núcleo fundido é mais abrangente, porque não estamos restritos somente às ligas metálicas, podendo ser empregadas às cerâmicas injetáveis. Portanto, adotaremos o termo núcleo fundido em substituição a núcleo metálico fundido. Figura 6.1 - Desenho esquemático mostrando molar inferior com perda estrutural pequena, antes e após preparo: indicação para núcleo de preenchimento. Figura 6.2 - Desenho esquemático mostrando molar inferior com múltiplas faces envolvidas no preparo e socavamento das cúspides: indicação para núcleo de preenchimento ou tratamento endodôntico + retenção intra-radicular. A colocação de qualquer forma de retenção intra-radicular, tanto núcleos fundidos como núcleos de preenchimento com pinos pré-fabricados, não promove o reforço desses dentes. A indicação para retentor intra-radicular está vinculada à necessidade de obter as formas de retenção e resistência ao núcleo e ao preparo protético. Diversos fatores irão determinar o sucesso clínico das reconstruções de dentes vitais ou endodonticamente tratados, com ou sem ancoragem intra-radicular: capacidade de adesão dos materiais restauradores aos substratos dentais duros; técnica adesiva; qualidade dos materiais; princípios mecânicos dos retentores intra-radiculares (comprimento, largura, conicidade). Vários aspectos estão discutidos e clinicamente apresentados nesse capítulo, a fim de instruir melhor o cirurgião-dentista, considerando a Odontologia baseada em evidência científica. CONSIDERAÇÕES BIOLÓGICAS: Após a remoção da cárie e do material restaurador existente, pode-se deparar com duas situações distintas. Uma perda estrutural pequena ou moderada, somada à indicação para um preparo tipo inlay-onlay, requerendo um núcleo de preenchi- mento (Fig. 6.1); perdas em múltiplas faces somadas às perdas de estrutura interna moderadas ou de maiores dimensões requerem preparo coronário total, indicando-se somente o núcleo de preenchimento com resina composta ou tratamento endodôntico + retenção intra-radicular (Fig. 6.2). Quando for necessária retenção para o preparo dental na porção intra-radicular, o tratamento endodôntico com finalidade protética poderá ser indicado, apesar de incomum em função de ser um procedimento invasivo. Os dentes tratados endodonticamente apresentam condições específicas que devem ser consideradas na restauração final. Obviamente, existe uma perda estrutural adicional devido ao acesso endodôntico, à remoção da polpa e ao preparo dos canais. Não existe consenso na literatura sobre a remoção do tecido vitalizado provocar alterações microestruturais. A dentina pode sofrer diminuição na umidade após o tratamento endodôntico, tornando-se mais friável. Gutmann7 (1992) afirmou que o percentual de água contido na den- tina radicular é a metade do contido na dentina coronária em dentes vitalizados – ele mencionou que a deposição de dentina peritubular no dente vitalizado diminui a umidade durante o envelhecimento do dente. Alguns autores concordam que as alterações na estrutura dental afetam as propriedades mecânicas da dentina, como a resistência e re- siliência; assim, existe consenso no sentido de preservá-la ao máximo para melhor prognóstico a longo prazo. Qualquer remoção de dentina intra-radicular deve ser cuidadosa, desde o preparo cirúrgico do canal até a colocação de um retentor intra-radicular. Gutmann7 (1992) menciona que as alterações estruturais ocorrem desde o tratamento endodôntico, porém, a perda causada pela abertura endodôntica contribui em apenas 5% para a redução da resistência, enquanto uma restauração tipo MOD causa redução de 60% dessa proprie- dade. Durante a abertura endodôntica, o preparo cavitário ou o coronário, deve-se analisar a quantidade de remoção da dentina coronária no sentido vestíbulo-lingual, tanto em largura como em inclinação sob as cúspides. Se essa largura for excessiva, o dente estará mais suscetível à fratura. A inadequada restauração dessas perdas estruturais pode resultar em fracasso da restauração pela fratura do remanescente dental. Nos dentes posteriores endodonticamente tratados, o recobrimento das cúspides é de fundamental importância para evitar fraturas coronárias ou radiculares. A preservação de estrutura dental é imprescindível para o melhor desempenho dos retentores intra-radiculares. Os dentes apresentam maior resistência à fratura quanto mais a estrutura dentária for preservada, independente do sistema de pinos utilizado. Um outro aspecto importante é o efeito férula, que consiste no abraçamento da es- trutura dental sadia pela prótese que possibilita melhor distribuição das tensões para o remanescente dental (Libman & Nicholls13, 1995). Para obtenção deste efeito, é necessária a presença de uma certa altura de estrutu- ra dentária circundando o término do preparo. Contudo, devido ao processo carioso ou fratura, dentes tratados endodonticamente freqüentemente apresentam maior perda de dentina em determinadas regiões (vestibular, lingual ou proximal). Lertchirakarn et al.14 (2003a) constataram que as tensões se concentram menos nas paredes radiculares proximais que nas porções vestíbulo-linguais. Os autores ainda observaram que a redução do raio de curvatura das paredes do canal radicular (canal oval) resulta em aumento das tensões mesmo que a espessura de dentina no sentido vestíbulo lingual seja maior, havendo maior risco de fratura radicular neste sentido, devido à maior concentração de tensões. Eles apontam as raízes de incisivos inferiores e a raiz mesial de molares inferiores como os elementos mais suscetíveis à fratura. A anatomia radicular deve ser bem conhecida para evitar iatrogenia. Ela vai orientar a seleção do tipo de retentor adequado (suaforma, comprimento e método de inser- ção). A figura 6.3 ilustra os diversos grupamentos dentais com as respectivas características anatômicas internas, relacionando-as com a anatomia externa da raiz. Na maioria das vezes, entretanto, a informação clínica sobre anatomia radicular vem de radiografias periapicais, que são limitadas para fornecer informações sobre irregularidades como invaginações, raízes extras e curvaturas no sentido vestíbulo- lingual. Um exemplo disto são os pré-molares, que apresentam raízes finas, com invaginações proximais, canais bifurcados e curvaturas distais que limitam a colocação de vários tipos de pinos intra-radiculares. As raízes linguais de molares superiores, muito empregadas na colocação de retentores, têm curvatura em 85% dos casos e também invaginações nas faces vestibular e lingual, o que não é evidenciado nas radiografias periapicais. A forma do canal radicular pode ser circular, elíptica ou de paredes divergentes. Este fator deve ser considerado na eleição do tipo de retentor. Se a raiz é afunilada para apical, onde as paredes são finas, um pino cilíndrico poderia enfraquecer essa região, favorecendo a fratura (Fig. 6.4). Por outro lado, canais muito expulsivos ou muito elípticos, restaurados com pinos pré-fabricados cilíndricos, resultam em grande espessura da película de cimento, muito embora os pinos de fibra duplo-cônicos (double tapared) minimizem isso, por apresentarem conformação anatômica (Fig. 6.5). O conhecimento da anatomia interna é, portanto, de primordial importância para a restauração dos dentes desvitalizados. O diagnóstico de lesões angulares e de furca aparentemente sem explicação pode ser feito com base nesses conhecimentos; essas lesões podem estar relacionadas à incorreta indica- ção ou colocação do retentor. O tempo decorrido entre o tratamento endodôntico, o preparo intra-radicular e a colocação do retentor é crítico. Alguns autores evidenciaram in vitro a contaminação dos tecidos apicais através da microinfiltração bacteriana pela interface material obturador e parede dentiná- ria, mesmo com remanescente de 4,0 mm de guta- percha. Exis- tem evidências (Abou-Rass & Donovan19, 1993; Freeman et al.20, 1998)de que a integridade da restauração desde porção intra-radicular até a coronária é importante para evitar microinfiltra- ção entre a parede do canal radicular e a guta- percha, fato que comprometeria o sucesso do tratamento endodôntico. Assim, a adaptação do retentor intra-radicular, o menor tempo decorrido entre o fim do tratamento e a inserção definitiva do retentor e a menor solubilidade do material cimentante geram menos risco de infiltração. Clinicamente, o tempo entre a finalização do tratamento endodôntico e a reabilitação deve ser reduzido ao máximo. Idealmente, o retentor intra-radicular deveria ser cimentado imediatamente após o tratamento endodôntico ter sido finalizado, com o propósito de selar a interface dente-restauração, prevenindo a infiltração bacteriana. Nesse sentido, quando há necessidade de ancoragem intra-radicular, os retentores pré-fabricados diretos atendem a esta exigência, uma vez que podem ser cimentados momentos após a endodontia. Recentemente, os pinos de fibra cimentados adesivamente têm-se configurado uma técnica muito segura se alguns critérios forem seguidos, pois trata-se de um procedimento muito sensível tecnicamente. Quando possível, o selamento imediato de interfaces pós-endodontia é altamente recomendado quando se deseja sucesso clínico. Figura 6.3 - Anatomia interna e externa dos diferentes grupamentos dentais. A) Incisivos superiores e inferiores: secção transversal com formas diferenciadas. B) Caninos superiores e inferiores. C) Pré-molares superiores: secção transversal e longitudinal; os percentuais referem-se ao número de canais existentes. D) Pré-molares inferiores: secção transversal e longitudinal; diferenças em relação aos pré-molares superiores na divergência dos canais e no número de raízes. E) Molares superiores: diferenças na disposição das raízes e número de canais. F) Molares inferiores: observar diferenças na forma da câmara pulpar e secção transversal em relação aos molares superiores. A C E Incisivos Inferiores 10 Molar Superior 10 Pré-molar Superior 1. 8,3% 2. 84,2% 3. 7,5% Incisivos Centrais Superiores Incisivos Laterais Superiores 20 Molar Superior d B F Caninos Inferiores 10 Molar Inferior 10 Pré-molar Inferior 20 Molar Inferior 1. 66,6% 2. 31,3% 3. 2,1% Figura 6.4 - Pino de forma cilíndrica colocado em raiz afunilada: incompatibilidade de formas pode fragilizar a raiz. 6.4 6.5 Figura 6.5 - Canal de paredes excessivamente expulsivas, contendo pino cilíndrico em seu interior: a película de cimento muito espessa pode desfavorecer mecanicamente o conjunto. Pinos de fibra com dupla conicidade melhor se adaptam à essa situação. Figura 6.6 - Molar superior tratado endodonticamente com raízes bem divergentes e bom remanescente coronário. Em caso de núcleo fundido, a ancoragem no canal palatino iria destruir excessivamente a dentina coronária; é mais indicado neste caso um pino pré-fabricado + reconstrução com resina composta pois se preserva maior quantidade de remanescente coronário. 6.6 CONSIDERAÇÕES RESTAURADORAS: Os seguintes aspectos devem ser observados nas radiografias: • comprimento e forma das raízes; • perda de estrutura coronária; • suporte periodontal; • condição do tratamento endodôntico. Vários aspectos da anatomia radicular são importantes para o planejamento da ancoragem intra-radicular. Não existe consenso relativo ao comprimento do retentor. Os parâmetros de comprimento intra-radicular ideal variam entre (Goodacre & Spolnik23, 1995): • igual ao da coroa clínica; • maior que o da coroa clínica; • igual à metade do comprimento da raiz; • igual a dois terços do comprimento da raiz; • igual a quatro quintos do comprimento da raiz; • metade do pino deve estar inserido entre a crista óssea alveolar e o ápice; • pino com comprimento máximo, desde que não interfira no selamento apical. Essas recomendações, entretanto, são feitas em casos nos quais a coroa clínica está totalmente perdida. Fatores como a altura do remanescente coronário, a profundidade da câmara pulpar ou a possibilidade de utilizar mais de um canal radicular para obter a retenção não são, entretanto, padronizáveis, tornando-se difícil protocolar a quantidade de ancoragem intra-radicular necessária à retenção do núcleo, seja ele fundido ou pré-fabricado. Quando esses fatores, isoladamente ou em conjunto, são favoráveis, é necessário menor comprimento do retentor na porção intra-radicular, propiciando um desgaste minimamente invasivo da estrutura interna dos canais radiculares e minimizando os riscos de iatrogenia e de enfraquecimento radicular. Salienta-se que o desgaste deve obedecer a critérios múltiplos, como anatomia interna e externa, remanescente coronário, oclusão e tipo de reconstrução protética a ser executada, de tal forma que o máximo de estrutura seja preservada sem comprometimento da retenção do núcleo e da resistência do dente. De maneira geral, o retentor deve usar o máximo do comprimento disponível sem invadir o selamento apical de 4,0 mm de guta-percha, pois a retenção e a distribuição de esforços são diretamente proporcionais ao comprimento do retentor. A forma das raízes e do sistema de canais é um importante fator a ser considerado. Raízes curvas ou curtas não permitem comprimento adequado do retentor e os resultados são menos pre- visíveis . O comportamento mecânico de dentes com raízes retas parece diferir dos dentes com raízes curvas, pois existe maior deslocamento apical desses últimos sob carga vertical e oblíqua. Isso sugere que dentes com dilaceração de raiz são menos adequados para suportar cargas mastigatórias. Por outro lado, raízes muito divergentes, com bom remanescente coronário, dificultam a execução de núcleos fundidos, aumentando inclusivea remoção de estrutura coronária para favorecer o eixo de inserção do núcleo. Nesses casos, os pinos pré-fabricados são uma alternativa mais conservadora, porque permitem a colocação de mais de um pino intra-radicular com máxima preservação (Fig. 6.6). A quantidade de coroa clínica remanescente é muito importante na indicação do tipo de retentor . Muitos fatores, como grau de destruição dental (altura coronária, destruição intra- radicular), tipo de prótese a ser executada no dente (coroa unitária, retentor de prótese fixa ou prótese removível), direção da carga oclusal e padrão oclusal definem a estratégia restauradora a ser adotada: À medida que o grau de destruição aumenta, a necessidade de ancoragem intra- radicular também aumenta. Em situações de altas solicitações mecânicas, como em dentes pilares de prótese fixa/removível, o risco de fratura radicular ou perda de retenção do retentor intra- radicular é naturalmente aumentado. Dentes vitais, com pequena/média destruição coronária, podem ser preenchidos adesivamente com resina composta, para posterior preparo protético, normalmente para restaurações parciais minimamente invasivas (inlay/onlay/overlay). Em dentes vitais, com extensa destruição coronária, pode haver necessidade de tratamento endodôntico e ancoragem intra-ra- dicular, muito embora procedimentos minimamente invasivos sejam recomendados. Em dentes desvitalizados anteriores, com grande quantidade de estrutura dental coronária, a retenção intra-radicular pode ser desnecessária. Entretanto, se houver perda dental interproximal, mesmo tendo paredes vestibular e lingual o pino intra- radicular pré-fabricado de fibra é indicado. O uso também pode ser necessário quando há extensa perda de dentina interna de suporte, mesmo havendo paredes externas vestibular-lingual-proximais. Em dentes com 2-4 mm de remanescente coronário indica-se pino de fibra combinado com reconstrução coronária de resina composta. Dentes sem remanescente coronário constituem-se na situação clínica mais crítica. Havendo dois terços do diâmetro radicular com dentina saudável, pode-se optar pelo núcleo fundido. No entanto, em casos de raízes fragilizadas nos encontramos entre a necessidade de preservar a raiz no sentido de prevenir fratura radicular e a necessidade de retermos melhor a prótese a ser feita, que às vezes envolve alta solicitação mecânica (próteses fixas e removíveis). Diante de orientações científicas recentes, a uti- lização de pinos de fibra cimentados adesivamente associa- da à reconstrução coronária com resina composta constitui- se como uma boa estratégia. Na seqüência deste capítulo, em especial nas sessões “Pinos de fibra reduzem o risco de fratura radicular?” e “Características dos pinos de fibra e sua influência na estabilização da reconstrução coronária”, são colocadas diversas razões baseadas em evidências para se empregar esta técnica, assim como recomendações no sentido de minimizar riscos. Atenção destacada é dada à escolha correta do pino de fibra e ao procedimento adesivo de cimentação desses pinos. Estudos têm mostrado que a presença de pelo menos 2 mm de remanescente coronário em dentes tratados endodonticamen- te rende maior chance de sucesso clínico. Quando não existe remanescente coronário, geralmente as raízes estão fragilizadas, o que exige uma análise muito mais complexa: os núcleos fundidos são rígidos e entram em contato íntimo com as paredes radiculares, o que pode induzir fratura radicular; os pinos de fibra são menos rígidos, previnem fraturas radiculares, no entanto, podem perder retenção. Esse cenário se agrava quando o dente é pilar para prótese fixa ou removível. Assim, a existência de uma contenção cervical (efeito férula) é um dos fatores cruciais para o sucesso longitudinal de dentes com re- tentores intra-radiculares. Tendo tanta importância, quando não existe dentina saudável apicalmente ao limite do retentor, pode-se planejar cirurgia de aumento de coroa clínica e/ou extrusão ortodôntica, a fim de gerar um remanescente e contenção cervical. A localização do remanescente dental também é um fator de grande importância. Ng et al.31 (2006) observaram que a presença de 2 mm de dentina em toda a circunferência do dente propicia maior resistência à fratura, seguido da presença de remanescente dental na região lingual. Os autores atribuem esse resultado à maior dificuldade de deslocamento da prótese quando há presença de parede axial da região lingual. A localização do dente a ser restaurado bem como a incidência de forças oclusais são fatores a serem considerados. Dentes desvitalizados posteriores estão sujeitos a cargas de maior intensidade que na região anterior; entretanto, encontraram percentual maior de fracassos na região maxilar anterior, justificando este achado pela maior incidência de forças oblíquas nesses dentes. Loney et al.33 (1995) testaram a influência de diferentes angulações de forças (110, 130 e 150 graus em relação ao longo eixo do dente) incidindo em dentes restaurados com núcleos metálicos fundidos e coroas totais metálicas. Concluíram que, quando a incidência de forças está mais próxima do longo eixo do dente, a força necessária para fraturá-los é maior que em ângulos mais oblíquos. Portanto, o ângulo de incidência da força é tão importante quanto a intensidade desta. É crucial não somente a localização no arco, mas principalmente o tipo de esforço oclusal a que o dente será submetido após a restauração final. Dentes posteriores, na ausência de guia anterior, estarão sujeitos a esforços horizontais e verticais. O tipo de trespasse anterior, vertical e horizontal, irá modular a incidência de forças horizontais e, conseqüentemente, os esforços de cisalhamento nesses dentes. Dentes anteriores com trespasse vertical negativo (mordida aberta anterior) ou horizontal acentuados (classe II divisão I de Angle) não serão fortemente solicitados. No entanto, com a multiplicidade de situações clínicas, é bastan- te difícil estabelecer um protocolo rígido de indicação. A análise/ diagnóstico e o bom senso são essenciais. Do ponto de vista mecânico, é importante esclarecer que o pino está localizado em uma região mecanicamente neutra, o que re- força o fato de que qualquer retentor intra-radicular não tem efeito de reforço do remanescente radicular. Por outro lado, o retentor intra-radicular funciona com uma viga (barra) fixada em uma de suas extremidades e livre na outra, como se fosse uma estrutura “rígida” em cantilever, e, assim, seu comportamento mecânico (resistência à flexão, módulo de elasticidade, deflexão) é fundamen- tal para a integridade do sistema. Assim, torna-se absolutamente fundamental que o pino apresente rigidez estrutural suficiente para suportar a coroa protética e simultaneamente não seja rígido em demasia para favorecer a fratura radicular (módulo de elasti- cidade da dentina = 20 GPa). Retentores muito rígidos (fundidos metálicos ou cerâmicos) apresentam alta resistência mecânica intrínseca (módulo de elasticidade de aproximadamente 100 GPa [ligas nobres] e 200 GPa [ligas alternativas]), mas podem induzir fratura radicular. Os pinos menos rígidos, como os pré-fabricados de fibra (módulo de 40 GPa), reduzem o risco de fratura radicular, e parecem constituir-se em uma excelente alternativa do ponto de vista mecânico. Entretanto, é fundamental que o cirurgião- dentista saiba que os pinos de fibra apresentam características particulares quanto à forma, composição e características de superfície, e definem a qualidade do material a ser utilizado. NÚCLEOS Os núcleos são reconstruções da porção coronária ausente devido a inúmeros fatores (cárie, trauma, restaurações, acesso endodôntico), podendo ou não estar acompanhados por ancoragem ou retenção intra-radicular, aplicados em dentes tratados endodonticamente. O emprego de próteses metal-free trouxe um novo questionamento quanto ao tipo de retentor empregado. A estética e a ausência de produtosde corrosão vêm direcionando a indústria a desenvolver sistemas de pinos totalmente livres de metal. As propriedades óticas e a translucidez muito se beneficiam neste caso, porque o metal empregado na porção coronária do retentor intra-radicular deve ter a reflexão da luz dissimulada por componentes da restauração não translúcidos. Existem situações clínicas em que o dente a ser restaurado é excessivamente translúcido, requerendo materiais sem metal e com propriedades óticas compatíveis; nestes casos, o uso de qualquer tipo de metal compromete- ria a estética da restauração final. Por essa razão, o retentor ideal sob próteses sem metal não deveria ser metálico na região coronária. O amálgama de prata está totalmente contra-indicado como material de preenchimento nas próteses metal-free, pois, além da cor metálica, libera produtos de corrosão que mancham a dentina subjacente, comprometendo seriamente o resultado final, e não se aderem ao substrato dental. NÚCLEOS FUNDIDOS De maneira geral, os núcleos fundidos podem ser indicados para dentes com menor remanescente coronário, especialmente em altura. Com relação às propriedades mecânicas, os núcleos fundidos (metálicos e cerâmicos) têm módulo de elasticidade maior que o da dentina. Quanto maior o módulo de elasticidade, maior a indução de esforços na raiz, predispondo o dente à fratura. Nesse aspecto, os dois materiais são desvantajosos em relação aos pinos pré- fabricados de fibra. No caso dos núcleos metálicos fundidos, Torbjörner et al.32 (1995) encontraram mais alto percentual de fraturas radiculares em dentes restaurados com núcleos fundidos quando comparados ao emprego de pinos pré-fabricados, o que está de acordo com outros autores. Existem evidências de que os produtos de corrosão contribuem para as fraturas radiculares. A estabilidade química é uma propriedade altamente desejável, explicando o grande número de pesquisas para materiais dentários totalmente sem metal. Nesse aspecto, a possibilidade de fundir um material não-metálico (núcleo cerâmico fundido) tornou-se uma opção bastante atraente do ponto de vista estético. Os núcleos fundidos apresentam como vantagens uma melhor adaptação, alta rigidez estrutural do retentor, radiopacidade e menor película de cimento. As desvantagens desses núcleos são: duas sessões clínicas, custo laboratorial e alto módulo de elasticidade, e suas conseqüências mecânicas para a raiz, podem causar efeito de cunha devido à forma cônica, cor desfavorável (no caso de núcleos metálicos) e técnica mais invasiva. Os núcleos fundidos são executados no mínimo em duas sessões clínicas. Na primeira, é feito o preparo dos canais radiculares de acordo com alguns parâmetros (Fig. 6.7): comprimento: quanto maior o comprimento, melhor a distribuição de esforços pela raiz e também sua retenção, principalmente quando a coroa clínica remanescente tem pequena altura. Apesar de o comprimento ideal ser o máximo permitido clinicamente, deve-se respeitar o se- lamento apical de 4,0 mm de guta- percha e os detalhes anatômicos para evitar acidentes. No caso de coroa clínica totalmente destruída, esse comprimento deve ser no mínimo igual ao comprimento da coroa clínica no caso de se utilizar apenas um canal radicular. A altura da porção intra-radicular deve ter metade da altura da raiz inserida em crista óssea alveolar para amenizar o efeito de cunha propiciado pelos pinos. diâmetro: a preservação de estrutura dental em largura é de extrema importância. Portanto, o diâmetro do pino não deve ser mais largo que o do preparo do canal durante o tratamento endodôntico. O recomendado é que o pino tenha diâmetro máximo correspondente a um terço do diâmetro radicular. material obturador remanescente: o mínimo de remanescente é 4,0 mm de selamento apical para evitar microinfiltração. remanescente coronário: remanescente de dentina apical ao retentor com mínimo de 1,0 mm para o efeito de contenção da raiz pela restauração coronária. Figura 6.7 - Critérios gerais necessários para o preparo de pinos intra-radiculares (CP= comprimento do pino). 6.7 CP 4mm 1/2 1/2 Depois do preparo intra-radicular, um padrão com resina acrílica autopolimerizável será obtido, direta ou indiretamente. Na forma direta, emprega-se resina acrílica autopolimerizável para a modelagem dos canais; esta modelagem pode ser feita da forma convencional, com pinos de resina pré-polimerizados. No caso dos pinos pré-fabricados de zircônia, pode- se individualizá-los com a resina acrílica autopolimerizável para posterior fundição, resultando em um núcleo fundido individualizado totalmente sem metal. Na forma indireta, após o preparo dos canais, deve-se moldá-los e o padrão de cera ou resina acrílica será executado no modelo de trabalho. Da mesma forma, pode-se individualizar tanto pinos de resina acrílica polimerizados para fabricar um núcleo metálico convencional, como pinos de zircônia para serem fundidos em cerâmica injetável. O caso clínico a seguir mostra a seqüência da confecção de um núcleo cerâmico fundido (Figs. 6.8-6.19). Figura 6.8 - Caso inicial. Vista frontal mostrando grande destruição do elemento 12. Figura 6.9 - Preparo do remanescente radicular. Para obtenção de melhor resultado estético, indicou-se núcleo cerâmico fundido. Figura 6.10 - Imagem radiográfica do pino cerâmico adaptado no canal radicular. Caso Clínico 1 6.8 6.9 6.11 Figura 6.11 - Molde do canal preparado (pino pré-fabricado cerâmico permanece no canal ficando envolvido pelo material de moldagem). Figura 6.12 - Modelo de trabalho para esculpir o núcleo cerâmico a partir de pino pré-fabricado de zirconia estabilizado por óxido de ítrio – CosmoPost-Ivoclar-Vivadent. Figura 6.13 - Núcleo confeccionado a partir de pino pré-fabricado, que foi fundido com material cerâmico específico. Figura 6.14 - Prova do núcleo sobre o modelo. 6.12 6.13 6.14 6.15 6.16 6.17 6.18 6.19 Figura 6.15 - Prova clínica do núcleo. Figura 6.16 - Núcleo cimentado com cimento resinoso Panavia F – Kuraray. Figuras 6.17, 6.18 e 6.19 - Imagens da coroa ceramo–cerâmica do 12 em InCeram Alumina, com material de cobertura estética VM7-Vita, cimentada com cimento resinoso. NÚCLEOS DE PREENCHIMENTO Os núcleos de preenchimento são feitos com a aplicação de materiais de preenchimento associados ou não à ancoragem intra-radicular com pinos pré- fabricados. Em dentes vitais, com pouca ou média destruição coronária, a indicação é o preenchimento com resina composta com a aplicação prévia de sistemas adesivos. Preenchimento com ionômero de vidro ou amálgama de prata está totalmente contra-indicado quando restaurações metal-free estão sendo planejadas. O preenchimento adesivo com resina composta contribui para aumentar a resistência à fratura de cúspides. SISTEMAS DE PINOS PRÉ-FABRICADOS Os pinos pré-fabricados são classificados de acordo com afor ma (cônicos ou cilíndricos), a retenção (ativos ou passivos), a composição (metálicos, cerâmicos ou resinosos reforçados por fibras) e a rigidez (alta e compatível). Os pinos ativos eram parafusados no canal, gerando altíssi- mos estresses localizados, e estão vinculados a altos índices de fratura radicular, o que os contra-indicam totalmente. Atualmente estão disponíveis pinos intra-radiculares pré-fabricados com os seguintes materiais: aço inoxidável; titânio; liga de titânio; zirconia; fibra de carbono; fibra de vidro; fibra de quartzo. Os pinos cônicos têm efeito de cunha, enquanto os pinos paralelos distribuem os esforços mais uniformemente à raiz. Estes últimos, porém, podem enfraquecer a raiz na porção mais apical, especialmente se a anatomia radicular apresentar afilamento abrupto no terço apical, como nos incisivos inferiores, raízes mesiais de molares ou nos pré-molares superiores . Por esta razão, foram desenvolvidos pinos com dupla conicidade, que contêm a extremidade apical mais afilada, o que resultaem menor des- gaste no nível apical (Figs. 6.20 e 6.21). Os pinos pré-fabricados metálicos passivos não estão totalmente contra-indicados sob próteses sem metal, porque o material de preenchimento coronário pode ser estético. O mais importante é que esses pinos sejam biocompatíveis e também que não sofram alterações estruturais ao longo do tempo, devendo-se portanto evitar pinos fabricados com ligas que possam sofrer corrosão. Entretanto, o ideal seria usar pinos de materiais inertes quimicamente e com boas propriedades óticas, favorecendo a estética. Os novos materiais estéticos para restaurações levaram ao desenvolvimento de sistemas de ancoragem intra-radicular com propósito estético: zirconia, fibra de carbono, fibra de vidro e fibra de quartzo. Os pinos cerâmicos foram desenvolvidos com zirconia tetragonal policristalina estabilizada por óxido de ítrio (YTZP) . Esses materiais apresentam alta resistência mecânica e confiabilidade estrutural . Esteticamente são adequados, entretanto são muito rígidos (alto módulo de elasticidade = 200 GPa) e geram concentração de tensões nas paredes radiculares. Outra desvantagem é a dificuldade de tratamento de superfície dos materiais baseados em YTZP. Bottino et al.54 (2007) observaram redução significativa na resistência adesiva entre este tipo de pino e um cimento resinoso após testes de fadiga que simulam o uso clínico deste material, enquanto nenhuma redução foi observada quando se utilizou pinos de fibra. Valandro et al.55 (2007) atribuem este resultado ao fato de que o pino de fibra pode favorecer a distribuição mais ho- mogênea de tensões ao longo da parede radicular interna e permite a preservação mais longa da união entre os materiais e a dentina, após aplicação repetida de carga. Os pinos de fibra foram desenvolvidos a partir de 1990 e apresentam módulo de elasticidade (E) mais próximo ao da dentina que os retentores fundidos e os pinos pré- fabricados metálicos e cerâmicos, o que permite melhor distribuição de tensões ao remanescente radicular; 6.20 6.21 Figuras 6.20 e 6.21 - Imagem mostra a forma dos pinos: os pinos translúcidos com dupla conicidade apresentam melhor adaptação com conseqüente mínimo desgaste e menor espessura do agente de cimentação. Caso Clínico 2 Figura 6.22 - Caso inicial com extensas restaurações em amálgama.6.22 Mason58, 1997; Pegoretti et al.59, 2002; Pierrisnard et al.60, 2002; Ukon et al.61, 2000). Inicialmente, desenvolveu-se um pino de fibra de carbono constituído de 64% de fibras de carbono longitudinais e 36% de uma matriz epóxica (Figs. 6.22-6.28). O desgaste da estrutura dental é menor para os pinos de fibra, resultando num maior remanescente da estrutura radicular, o que é altamente conveniente para melhorar a resistência dos dentes tratados endodonticamente. O módulo de elasticidade desses pinos é de 40 GPa, próximo ao da dentina (18 GPa), resultando em transmissão de esforços mais uniforme à superfície radicular e ao periodonto (Asmussen e tal.56, 1999. Para suprir as desvantagens estéticas do pino de fibra de carbono, outros pinos em fibra de quartzo foram desenvolvidos, tendo boas propriedades flexurais. A falta de radiopacidade constitui-se em uma desvantagem para alguns pinos de fibras, muito embora recentemente materiais radiopacos tenham sido produzidos. Por outro lado, em caso de necessidade de retratamento endodôntico, embora exija muita atenção do profissional, a remoção desses pinos é mais simples, pois esses materiais são de fácil desgaste, podendo ser utilizados brocas especialmente para este fim. 6.23 Figura 6.23 - Vista vestibular. Figura 6.24 - Aspecto radiográfico inicial. Figura 6.25 - Remanescente coronário após remoção das restaurações. Figura 6.26 - Seleção e prova do pino de fibra de carbono. Figura 6.27 - Imagem mostra a broca com a qual é realizado o preparo, que tem a mesma configuração dos pinos, propiciando melhor adaptação no canal radicular. Figura 6.28 - Reconstrução coronária com resina composta. 6.24 6.25 415 Reconstruções Dentárias com Finalidade Protética 6.26 6.27 6.28 Os primeiros pinos de fibra de quartzo introduzidos no mercado eram opacos. Apresentam boas características mecânicas e estéticas, contudo, a opacidade dificulta a polimerização de cimentos resinosos no interior do canal radicular, indicando- se cimentos quimicamente ativados para a cimentação. A impossibilidade de transmissão de luz até a região apical para completa polimerização do cimento resinoso dual levou ao desenvolvimento de pinos de fibra translúcidos (Figs. 6.29-6.42), que podem permitir a transmissão da luz, o que favoreceria o uso de cimento dual. Grande parte dos estudos observou que os pinos translúcidos transmitem luz e favorecem a polimerização do cimento resinoso no interior do canal radicular, comparado aos pinos de fibra opacos. Entretanto, essa transmissão parece não ser suficiente para polimerizar o cimento na região mais apical do pino, o que reforça a indicação de cimentos resinosos quimicamente ativados. Figura 6.29 - Aspecto inicial com restaurações muito desfavoráveis que devem ser substituídas. Figura 6.30 - Coroas foram removidas, mostrando núcleos metálicos. 6.29 Caso Clínico 3 6.30 6.31 6.33 6.32 6.34 6.35 6.36 Figuras 6.31 e 6.32 - Remanescente dental após remoção dos núcleos permite a utilização de um pino de fibra de vidro. Figura 6.33 - A broca apresenta a mesma morfologia dos pinos de fibra de vidro. Figura 6.34 - Os canais radiculares foram preparados com brocas próprias do sistema DT Light Post (Bisco). Figura 6.35 - Condicionamento ácido do canal e do pino simultaneamente. Figura 6.36 - Aplicação de sistema adesivo no interior do canal com microbrushes finos. 6.37 6.39 6.41 6.38 6.40 6.42 Figura 6.37 - Remoção dos excessos de adesivo com cones de papel absorvente. Figura 6.38 - Aplicação de silano sobre a superfície do pino de fibra de vidro. Figura 6.39 - Cimentação dos pinos com cimento resinoso dual. Figura 6.40 - Fotopolimerização. Figura 6.41 - Imagem exibe reconstrução coronária com resina composta. Figura 6.42 - Imagem mostra preparos para coroas totais ceramo-cerâmicas. PINOS DE FIBRA REDUZEM O RISCO DE FRATURA RADICULAR? O método de ancoragem intra-radicular de dentes endodonticamente tratados tem sido discutido, especialmente no que se refere ao risco de fratura radicular pela inerente perda de estrutura dental e o aumento da fragilidade. Nesse ínterim, é fundamental esclarecer que qualquer retentor intra-radicular por si só não fortalece o remanescente radicular e que este deve ser indicado com o único objetivo de retenção da estrutura coronária perdida. Para diminuir o risco de provocar fratura radicular, a técnica de ancoragem intracanal deve (1) seguir os conceitos de odontologia minimamente invasiva (preservação máxima de estrutu- ra dental), (2) utilizar pinos com módulo de elasticidade similar ao módulo da dentina e (3) empregar uma abordagem adesiva (sistemas adesivos, cimentos resinosos e resina composta). Quando a raiz está muito fragilizada e altamente suscetível à fratura, o evento “fratura radicular” merece um questionamento: quando as tensões atingirem um valor crítico para a falha catastrófica, é preferível que a fratura aconteça na raiz ou ocorra o descolamento do conjunto pino–cimento resinoso–resina com- posta? O módulo de elasticidade ou rigidez (E) constitui-se na principal propriedade que define qual provável estrutura deverá falhar mediante esta tensão crítica: quanto mais se aproxima o (E) dos materiais de reconstrução ao (E) da dentina, menor será o risco de fratura radicular (E) Baseado nestes dados, nota-se que os pinos de fibras, os cimentos resinosos e as resinas compostas apresentam E mais próximo ao da dentina, e os materiais metálicos e cerâmicos apresentam o E muito maior que o da dentina. Assim, a seguinte relação causa/efeito é estabelecida pelo módulo de elasticidade (E) dospinos na distribuição de tensões sobre a raiz: quanto mais semelhante o E da dentina, melhor será a distribuição das tensões na raiz e menor o risco de fratura. Este conceito mecânico permite que as tensões provenientes da mastigação sejam dissipadas pelo conjunto. De fato, conforme estudos clínicos longitudinais, os fracassos observados com dentes restaurados com pinos de fibras estão relacionados à descolagem do conjunto pino-cimento-resina, pela falha da interface mais fraca (cimento-dentina). Além disso, esses estudos também registraram que os dentes restaurados com pinos de fibras de carbono e quartzo cimentados adesivamente apresentam menor risco de fratura radicular quando comparados a dentes restaurados com retentores intra-radiculares metálicos fundidos. Malferrari et al.29 (2003) realizaram um estudo de avaliação clínica prospectiva de 180 dentes restaurados com pinos de fibra de quartzo, cimentados adesivamente. As avaliações foram em 6, 12, 24 e 30 meses e observaram um percentual de falhas de 1,7% após 30 meses. Ferrari et al.35 (2000) realizaram uma investigação clínica comparativa de dentes restaurados com pinos de fibras ou com retentores metálicos fundidos. Com pinos de fibras foi registrado um índice de sucesso de 97% (nenhuma fratura radicular), ao passo que com retentores fundidos foi registrado um índice de sucesso de 84% (9% de fratura radicular). Em estudos in vitro que empregam testes de simulação clínica (teste de fadiga ou ciclagem mecânica), os pinos de fibra apresentam alta resistên- cia à fadiga, sem nenhuma fratura ou com nenhuma/baixa indução de fratura radicular. A principal razão do maior risco de fratura radicular em dentes com retentores metálicos fundidos está no fato de que esses retentores entram em contato direto com as paredes do canal (retenção por fricção mecânica), de forma que as tensões são induzidas diretamente na raiz. Além disso, considerando a característica rígida desses materiais metálicos (E superior ao da dentina), eles desenvolvem alta concentração de estresse que atua como uma alavanca na porção radicular, podendo iniciar o processo de fratura. Os pinos de fibra cimentados adesivamente têm uma capacidade de absorção e redistribuição mais homogênea de tensões ao remanescente dental. Baseado nestes estudos de distribuição de tensões, parece ser evidente o efeito de concentração de tensões nas paredes radiculares com pinos de alto E (efeito cunha), fato que aumenta o risco de fratura e facilita a degradação da adesão, uma vez que uma menor área da estrutura suporta maior tensão, ao passo que pinos com E similar ao da dentina permitem que as tensões sejam distribuídas mais uniformemente na raiz, diminuindo o risco de fratura do remanescente dental. Por conseguinte, de acordo com as evidências clínicas registradas por alguns estudos, pode-se ressaltar que: (1) A reconstrução direta com pinos de fibras cimentados adesivamente pode ser considerada uma eficiente alternativa aos retentores metálicos fundidos; (2) O emprego de materiais com módulo de elasticidade semelhante ao da dentina contribuem para a redução do risco de fratura radicular; (3) A presença de pelo menos 2 mm de remanescente coronário diminui o risco de descolagem do conjunto pino–cimento–resina; (4) Em raízes muito fragilizadas, mesmo que o risco de descolagem seja maior, o emprego de pinos de fibras reduz o risco de fratura radicular. A fim de reduzir o risco de perda da retenção do pino, alguns procedimentos clínicos podem otimizar a adesão à dentina intra-radicular e aumentar a capacidade de retenção intra-radicular do pino: a) uso de sistemas adesivos de 3 frascos com polimerização dual ou química associado a cimentos resinosos com polimerização química ou dual. b) emprego de pincéis com tamanho compatível ao canal radicular para a aplicação do sistema adesivo. c) uso de brocas tipo Lentulo para a inserção do cimento resinoso – embora muitas vezes contra-indicadas por alguns fabricantes, as brocas tipo Lentulo nitidamente reduzem o número e tamanho de bolhas na película de cimento resinoso, assim como reduzem descontinuidade das interfaces cimento-pino e cimento-dentina. 6.43 Caso Clínico 4 Os casos clínicos abaixo foram executados com pinos de fibra de vidro translúcidos, com forma anatômica (dupla conicidade) (Figs. 6.43-6.109). Figuras 6.44 e 6.45 - Após remoção da restauração e parede vestibular socavada, foi realizado isolamento absoluto e o canal foi preparado. Observa-se a adequada indicação do pino de fibra devido à presença de 2 mm de remanescente dental. Figura 6.46 - Prova do pino de fibra no interior do canal radicular. Figura 6.47 - Aplicação de silano sobre a superfície do pino de fibra de vidro. Figura 6.48 - Condicionamento ácido do canal. Figura 6.49 - Aplicação do sistema adesivo com microbrush fino. 6.44 6.45 6.46 6.47 6.48 6.49 6.50 6.51 6.52 6.53 6.54 Figura 6.50 - Cimentação do pino com cimento resinoso dual. Figura 6.51 - Reconstrução coronária com resina composta. Figura 6.52 - Secção do pino com broca diamantada. Figuras 6.53 e 6.54 - Aspecto após preparo para coroa totalmente cerâmica. 6.55 425 Reconstruções Dentárias com Finalidade Protética 6.56 6.57 Figura 6.55 - Vista frontal mostrando coroa do 32 cimentada. Verifica-se o aspecto escurecido dos elementos 31 e 41 em que foi indicado clareamento. Figuras 6.56 e 6.57 - Caso finalizado. Após clareamento realizado com sucesso pode-se observar a harmonia estética entre os elementos naturais e a restauração ceramo-cerâmica. Caso Clínico 5 6.58 Figura 6.58 - Vista frontal mostrando elemento 21 com perda estrutural causada por trauma, com grande comprometimento estético. Figuras 6.59 e 6.60 - Vistas incisal e vestibular mostrando o remanescente dental sadio após endodontia. 6.59 6.60 6.61 6.63 6.65 6.62 6.64 6.66 Figuras 6.61 e 6.62 - Vistas incisal e vestibular da prova do pino de fibra selecionado (DT Light Post – Bisco). Figura 6.63 - Aspecto do pino de fibra cimentado com cimento resinoso dual. Figura 6.64 - Vista vestibular do 21 com reconstrução em resina composta logo após a cimentação do pino. Figuras 6.65 e 6.66 - Vistas vestibular e incisal do preparo para coroa ceramo-cerâmica. Figura 6.67 - Coping InCeram Alumina (Vita) realizado para o caso. 6.67 6.68A 6.68B 6.68C 6.69 Figura 6.68 - A) Aspecto do coping na boca. B, C) Aspecto da coroa finalizada. Figuras 6.69 a 6.71 - Aspecto do caso finalizado. 6.70 6.71 6.72 6.73 Caso Clínico 6 6.74 Figuras 6.72, 6.73 e 6.74 - Aspecto inicial com a estética muito desfavorável. 6.75 6.76 Figura 6.75 - Isolamento para remoção das restaurações. Figura 6.76 - Vista frontal mostrando remanescente coronário após remoção das restaurações. Foi indicada remoção do núcleo metálico do 21. Figuras 6.77 e 6.78 - Vista frontal mostrando pinos de fibra cimentados, reconstruções de resina composta e preparos para coroas ceramo-cerâmicas. 6.77 6.78 6.79 6.80 Figuras 6.79 e 6.80 - Preparo dos incisivos laterais, respectivamente 12 e 22 para faceta laminada cerâmica. Figuras 6.81 e 6.82 - Aspecto clínico dos preparos para coroa total (incisivos centrais) e para facetas laminadas (incisivos laterais). 6.81 6.82 Figuras 6.83, 6.84 e 6.85 - Vistas oclusal e frontal do modelo de trabalho. 6.856.83 6.84 Figuras 6.86, 6.87 e 6.88 - Copings (In-Ceram Alumina) das coroas totais ceramo- cerâmicas. 6.86 6.87 6.88 6.89 Figura 6.89 - Aspecto dos copings. Figuras 6.90, 6.91 e 6.92 - Prova clínica dos copings. 6.91 6.90 6.92 6.93 6.94 6.95 6.97 6.96 6.98 6.99 6.101 6.100 6.102 Figuras 6.93, 6.94, 6.95, 6.96 e 6.97 - Imagens mostram seqüência laboratorial da aplicação da cerâmica de cobertura estética. (VM7, Vita) tanto sobre os copings quanto sobre os troquéis refratários para a construção das facetas. Figura 6.98 - Coroas e facetas laminadas cerâmicas finalizadas. Figura 6.99 - Aspectos interno e externodas facetas laminadas e coroas finalizadas. Figura 6.100 - Isolamento do campo de trabalho para cimentação das peças. Figura 6.101 - Condicionamento ácido dos dentes. Figura 6.102 - Aplicação de sistema adesivo. 6.103 6.104 6.105 Figura 6.103 - Jateamento da superfície interna das coroas com partículas de óxido de silício (Cojet-Sand, 3M ESPE). Figura 6.104 - Aplicação de silano (ESPE-Sil, 3M ESPE) as superfícies internas das facetas foram condicionadas com ácido fluorídrico/1min e silanizadas. Figura 6.105 - Coroas ceramo-cerâmicas cimentadas com cimento resinoso Panavia F. 6.106 6.107 6.108 6.109 CARACTERÍSTICAS DOS PINOS DE FIBRA E SUA INFLUÊNCIA NA ESTABILIZAÇÃO DA RECONSTRUÇÃO CORONÁRIA Um dos fatores de extrema importância para o sucesso clínico de dentes restaurados com pinos de fibra diz respeito ao tipo de pino a ser escolhido pelo profissional. Assim como existem ligas metálicas e cerâmicas com alta confiabilidade, os pinos de fibra apresentam diferenças na forma, composição e características de superfície, que podem influenciar no seu desempenho clínico. Os pinos de fibra são compostos de polímeros (resina epóxica, Bis-GMA, dimetacrilatos) reforçados por fibras, geralmente as de carbono, quartzo, vidro. As fibras devem ser silanizadas industrialmente a fim de melhorar a adesão do polímero, o qual preenche os espaços entre as fibras. Vários aspectos podem variar em cada pino: a relação matriz/fibra (em geral 60%-80% de fibras e 20%-40% de matriz), diâmetro de cada fibra, densidade das fibras (número de fibras por mm2), qualidade do polímero utilizado e do processo de silanização das fibras. ssas variações estão sob controle industrial, e em conjunto irão refletir no comportamento clínico dos pinos. Como comentado anteriormente, o retentor intra-radicular quando cimentado funciona com uma viga (barra) fixada em uma de suas extremidades (dentro do canal) e livre na outra (parte conorária), como se fosse uma estrutura “rígida” em cantilever, e, assim, seu comportamento mecânico (resistência à flexão, módulo de elasticidade e deflexão) é fundamental para a integridade do sistema. Ou seja, quando há esforço mastigatório, especialmente a carga oblíqua nos dentes anteriores superiores, o pino tende a sofrer flexão de dois pontos, tendo a região cervical do dente como o fulcro. 6.111 6.110 Figuras 6.110 e 6.111 - Micrografia representativa de um pino de fibra de quartzo. A (1000x, imagem longitudinal) e B (2000x, imagem transversal). Podem ser observadas as fibras de quartzo e a matriz resinosa de preenchimento. 6.113 6.112 Figuras 6.112 e 6.113 - Micrografia representativa de um pino de fibra de vidro. A (1000x, imagem longitudinal) e B (2000x, imagem transversal). Podem ser observadas as fibras de vidro e a matriz resinosa de preenchimento. A fórmula abaixo mostra como a deflexão (y) do pino e a ten- são (S) são dependentes do módulo de elasticidade (E) e do diâmetro (d) de um pino, considerando uma flexão de 2 pontos (Asmussen et al.56, 1999): 64 x F x l3 y = 3π x E x d4 32 x F x l S = , π x d3 F é a força, l é o comprimento, E o módulo de elasticidade e d o diâmetro. A partir da primeira equação, nota-se que ao aumentar o diâmetro do pino, a deflexão é diminuída, e também constata-se que ao aumentar o comprimento (l) da estrutura que está sendo carregada (por exemplo, aumento da extensão coronária de um pino), a deflexão aumenta. Assim, é possível que ao aumentar o diâmetro dos pinos, estes podem apresentar um comportamento mecânico diferente. Diante dessas considerações, o dentista deveria utilizar um pino de fibra com maior diâmetro possível, sem que isso signifique desgaste adicional da estrutura dental. Nas situações de extrema destruição radicular, um pino de fibra com maior diâmetro possível estabiliza melhor a parte coronária, assim como reduz a espessura do cimento resinoso, embora essa espessura pareça não influenciar de modo significativo a adesão. Perez102 et al. observaram que o aumento da espessura de cimento resinoso ao redor de pinos de fibra cimentados em canais radiculares de 87 µm para 316 µm (aumento de 300%) não afetou a resistência adesiva entre pino e dentina. A maioria dos sistemas de pinos de fibra com dupla conicidade normalmente apresentam opções de pinos com diâmetros entre 1,4 mm e 2 mm na parte cervical. Nesse sentido, um dos sistemas mais versáteis atualmente é o White Post DC (FGM). No kit básico desse sistema existem pinos com diâmetros cervi- cais de 1,4 mm, 1,6 mm, 1,8 mm, 2 mm e 2,2 mm (DC 0.5, DC1, DC2, DC3, DC4, respectivamente), o que facilita a escolha para diferentes dentes e situações com menor ou maior destruição interna radicular. Além disso, o sistema apresenta pinos com formatos especiais, os quais têm os mesmos diâmetros cervicais de 1,8 mm, 2 mm e 2,2 mm (DC 0.5E, DC 1E, DC 2E), mas dife- rem dos pinos do kit básico por apresentarem menor diâmetro na porção radicular do pino. Esses pinos especiais são particularmente indicados em situações clínicas onde há muita destruição da dentina interna no terço cervical do canal (exigindo diâmetro cervical mais largo do pino) e pouca destruição nos terços médio e apical (minimamente invasivo). Vinculada ao fator diâmetro está a presença de macrorretenções na superfície dos pinos de fibra (pinos serrilhados). Muito embora espere-se melhor retenção macromecânica dos materiais resinosos (cimento e resina) nessas retenções, o dentista deve estar atento, porque a presença dessas retenções geralmente reduz dramaticamente a resistência mecânica dos pinos de fibra, pela redução do diâmetro real do pino . Além disso, estudos clínicos e in vitro apontam claramente que as macrorretenções somente são importantes na parte coronária do pino, e não na super- fície intra-radicular dele. Ou seja, as macrorretenções no pino são de importância clínica na parte coronária a fim de reter melhor a resina composta utilizada na reconstrução. Além disso, ressalta-se, como exposto acima: o fulcro para deflexão dos pinos de fibra é a parte cervical da raiz, e é precisamente nessa região que esses pinos devem ter o maior diâmetro possível para garantir reforço estrutural e estabilização da porção coronária reconstruída. Assim, as macrorretenções no pino correspondente a essa região cervical do dente são totalmente desnecessárias para reter a resina composta e deletérias mecanicamente para o pino. Clinicamente, as macrorretenções contribuem se estiverem na parte coronária, relativamente distante da parte cervical da raiz (fulcro). De maneira objetiva, recomenda-se: Utilizar pinos de fibra com maior diâmetro possível, especialmente na porção cervical, sem que isso represente desgaste dental adicional. 1. Utilizar pinos de fibra com dupla conicidade (double-tapered). 2. Utilizar pinos com superfície lisa na porção intra-radicular e com macrorretenções na parte coronária. 3. Pinos de fibra cilíndricos serrilhados não deveriam ser indicados, pois geralmente seus diâmetros são muito estreitos, e, portanto, sua resistência é insuficiente para suportar cargas mastigatórias. Além disso, não é possível aumentar o diâmetro desses pinos, pois aumentaria sobremaneira o risco de perfuração radicular em nível mais apical desse pino. 4. MATERIAIS DE PREENCHIMENTO Inicialmente, os materiais empregados com essa finalidade eram os disponíveis para restaurações. Com o crescente emprego dos núcleos de preenchimento e o desenvolvimento dos sistemas de pinos pré-fabricados, têm surgido materiais específicos para essa finalidade (Bis-Core e Core-Flow, Bis- co; Ti-Core e Ti-Core Natural, Essential Dental Systems). De maneira geral, resinas compostas fotopolimerizáveis micro ou nanoparticuladas são indicadas para a reconstrução coronária. Esses materiais melhoraram do ponto de vista mecânico,o que as credenciam como o material preferencial, seja no preenchimento em dentes vitalizados, seja na reconstrução coronária associada a pinos pré-fabricados. Por serem de fácil manipulação e aplicação e apresentarem recursos estéticos que favorecem as restaurações metal-free, também contribuíriam para o emprego irrestrito das resinas compostas. Associada a isso, a abordagem adesiva certamente contribuiu sobremaneira para o uso das resinas. Dada a preferência aos pinos de fibra, uma preocupação clínica diz respeito à retenção da resina composta utilizada para reconstrução coronária na superfície do pino, especialmente pelo fato de estudos clínicos e in vitro demonstrarem que a descolagem da resina composta do pino na parte coronária constitui-se um dos principais problemas dessa técnica. Nesse ínterim, a utilização de pinos com macrorretenções na parte coronária contribui para a retenção da resina composta. Ao mesmo tempo, as macrorretenções devem se localizar na porção coronária, relativamente distante da porção cervical da raiz, onde a solicitação mecânica do pino de fibra é alta. É importante ressaltar que estas retenções não devem ser realizadas pelo profissional, pois podem fragilizar o pino. As retenções devem ser feitas pela indústria e disponibilizar os pinos comercialmente. 6.114 6.115 Figuras 6.114 e 6.115 - Micrografias representativas (2000x) das superfícies de um pino de fibra: (6.114) sem condicionamento; (6.115) jateamento com partículas de óxido de sílica. Nota- se na 6.115 que a superfície ficou impregnada pelo óxido. Pinos de fibra estéticos Exacto, Angelus Light-Post, Bisco MacroLock, RTD Reforpost, Angelus Fibio Core, Anthogyr Aestheti Post, Bisco DT Light Post, Bisco White Post DC, FGM Aestheti Post plus, Bisco FibreKor, Jeneric-Pentron DT Light Post Illusion, RTD Relyx Fiber Post, 3M ESPE Luscent Anchors, Dentatus Innopost Compaq, Innotech Marca Comercial, Empresa Innopost Matrix plus, Innotech FRC Postec plus, Ivoclar-Vivadent Innopost Premier Anatomic, Innotech ParaPost FiberWhite, Coltene-Whaledent Cônico opaco Característica Cilíndrico opaco Cilíndrico opaco Cilíndrico opaco Cilíndrico opaco Cilíndrico opaco Cilíndrico translúcido Cilíndrico translúcido Duplo-cônico translúcido Duplo-cônico translúcido Duplo-cônico translúcido Duplo-cônico translúcido Duplo-cônico translúcido Duplo-cônico translúcido Duplo-cônico translúcido Duplo-cônico translúcido Duplo-cônico translúcido Cônico-cilindrico translúcido Vidro Vidro Vidro Vidro Vidro Vidro Vidro Vidro Vidro Vidro Vidro Vidro Quar tzo Quar tzo Quar tzo Quar tzo Quar tzo Tipo de fibra Carbono e Quartzo Não Não Não Não Não Não Não Não Não Não Macrorretenções Sim (em todo pino) Sim (em todo pino) Sim (em todo pino) Sim (na parte coronária) Sim (na parte coronária) Sim (na parte coronária) Sim (na parte coronária) Sim (na parte coronária e radicular) Na tabela 6.1 são apresentadas algumas marcas comercias de pinos de fibra. Tabela 6.1 - Características de alguns pinos de fibra. Quando os pinos de fibra apresentam superfície lisa, o condicionamento da superfície do pino tem sido utilizado a fim de potencializar a adesão da resina composta à superfície do pino de fibra. Com o jateamento da superfície do pino de fibra com partículas de óxido de silício 30 µm (Cojet-Sand, sistema Cojet, 3M ESPE), cria-se uma superfície densamente impregnada de óxido de silício quimicamente mais reativa (silicatização) para ser silanizada e aderir-se aos materiais resinosos. Valandro et al.108 (2006b) mostraram que a resistência adesiva entre um pino de fibra de quartzo e um cimento resinoso aumentou significativamente quando o pino foi submetido ao jateamento com partículas de óxido de sílica (CoJet-Sand) e silanizado, comparando-se ao tratamento com ácido fosfórico 37% ou com ácido fluorídrico. Paralelo a isso, foi constatado que o jateamento com partículas de sílica não altera as proprie- dades flexurais dos pinos de fibras. Embora a deposição de sílica + silano tenha apresentado resultados muito interessantes no que tange à adesão a resinas, outros métodos, como silanização, jateamento com partículas de óxido de alumínio, aplicação de adesivos, condicionamento com ácido fosfórico ou fluorídrico e lim- peza com álcool, têm sido avaliados. Entretanto, não existe um estudo clínico longitudinal apontando o método mais eficiente clinicamente para prevenir descolagem da resina composta. Nossa recomendação é a silicatização/silanização da superfície de pinos. CIMENTAÇÃO Partindo do conceito de que a ancoragem intra-radicular é empregada para obter retenção e resistência na restauração coronária, qualquer fracasso na retenção intra- radicular representa o fracasso da restauração como um todo. Os núcleos fundidos seguem os princípios do preparo, em que o comprimento, o diâmetro e a expulsividade do preparo desempenham papel essencial em sua retenção. O preparo deve ser o mais longo e o menos expulsivo para obter melhor retenção. Para os pinos de fibras, a recomendação é a cimentação adesiva. Fosfato de zinco e cimentos de ionômero de vidro são contra-indicados. Para a completa polimerização intracanal, o sistema deve ser, no mínimo, de dupla-cura, pois a fotopolimerização na extensão total do canal, mesmo usando pinos translúcidos, não é eficiente. Na utilização de pinos opacos, preferencialmente, deve-se usar sistemas autopolimerizáveis. Alguns trabalhos experimentais sugerem que a adesão do cimento ao pino é significativamente melhor do que entre cimento e dentina. Assim, muitos estudos têm sido realizados no intuito de otimizar a adesão entre dentina intra-radicular e cimento resinoso. Com relação ao tipo de sistema adesivo a ser utilizado, os sistemas adesivos autopolimerizáveis com condicionamento total de três passos (Scothbond Multi-uso plus, 3M Espe; All Bond 2, Bisco; Variolink, Ivoclar-Vivadent; OptiBond FL, Kerr) possi- bilitam maiores valores de resistência adesiva em comparação aos sistemas adesivos de dois passos fotopolimerizáveis ou autocondicionantes. Nesse sentido, alguns estudos têm demonstrado incompatibilidade química entre adesivos simplificados (autocondicionantes de 1 frasco e com condicionamento total de 2 frascos) e cimento resinoso, com polimerização química ou dual . O baixo pH e a característica hidrofílica dos adesivos, bem como o fato de a camada do adesivo comportar-se como membrana permeável, parecem ser as condições impróprias para a interação com os cimentos resinosos. Um outro aspecto importante a ser considerado na cimentação de pinos intra- radiculares usando materiais resinosos diz respeito ao alto fator cavitário (proporção de superfícies aderidas e não aderidas), que é alto na cavidade intra-radicular, atingindo aproximadamente um fator 200. Quanto maior a quantidade de superfícies aderidas, maior o estresse de contração de polimerização observaram uma significativa influência do fator cavitário sobre a resistência adesiva entre dentina e pino intra-radiculares. Ponderaram que as tensões provenientes da contração de polimerização de materiais resinosos é um problema inerente em restaurações intra-radiculares, o que dificulta a obtenção de altas resistências adesivas quando pinos endodônticos são cimentados com cimentos resinosos. Como os cimentos resinosos quimicamente ativados apresentam uma reação química mais lenta, o estresse de polimerização é minimizado, o que favorece a integridade de interfaces. Isso também reforça a indicação desses cimentos. Como já mencionado, alguns procedimentos clínicos podem otimizar a adesão à dentina intra-radicular: uso de sistemas adesivos de 3 frascos com polimerização dual ou química associados a cimentos resinosos com poli- merização química ou dual; 1. para a aplicação do sistema adesivo, é altamente recomendadoempregar pincéis com tamanho compatível ao canal radicular (Ex. Cavi-tip, SDI) associado ao uso de cones de papel absorvente, preferencialmente de 2a série, para remoção dos excessos do adesivo. 2. uso de brocas tipo Lentulo para a inserção do cimento resinoso. Embora muitas vezes contra-indicadas por alguns fabricantes, as brocas tipo Lentulo nitidamente reduzem o número e tamanho de bolhas na película de cimento resinoso, assim como a descontinuidade das interfaces cimento-pino e cimento-dentina 3. a ponta aplicadora deve levar o ácido fosfórico ate a região apical para garantir que toda a dentina intra-radicular seja condicionada . 4. lavar abundantemente com água para remover o ácido utilizando seringas descartáveis, que permitem enxaguar as porções apicais. 5. secar o canal com cones de papel absorvente até que este saia seco do interior do canal. 6. O Protocolo de cimentação de pinos pré-fabricados está mais bem ilustrado no caso a seguir (Figs. 6.116-6.132): 6.116 6.117 Figuras 6.116 e 6.117 - Aspecto inicial com núcleos metálicos fundidos. Caso Clínico 7 Figura 6.118 - Preparo do canal radicular com brocas específicas do sistema de pinos de quartzo. Figura 6.119 - Aspecto dos canais após o preparo. Figura 6.120 - Prova dos pinos de fibra de quartzo. Figura 6.121 - Silicatização do pino com o Cojet-Sand – 3M-Espe. Figura 6.122 - Aplicação de silano sobre a superfície do pino de fibra de vidro. 6.118 6.119 6.120 6.122 6.121 6.127 6.123 6.125 6.124 6.126 6.128 Figura 6.123 - Condicionamento ácido dos canais radiculares. Figura 6.124 - Após lavar abundantemente e secar com cones de papel absorvente é realizada a aplicação do sistema adesivo. Figura 6.125 - Remoção dos excessos de adesivo com cones de papel absorvente. Figura 6.126 - Inserção do cimento resinoso autopolimerizável com broca lentulo no interior do canal radicular. Figura 6.127 - Posicionamento dos pinos de fibra de quartzo. Figura 6.128 - Reconstrução coronária com resina composta. 6.129 6.130 6.131 6.132 Figuras 6.129 e 6.130 - Preparo para coroa totalmente cerâmica. Figura 6.131 - Instalação das próteses provisórias. Figura 6.132 - Coroas cimentadas. CIMENTAÇÃO ADESIVA SIMPLIFICADA: CIMENTOS RESINOSOS AUTO-ADESIVOS. Recentemente estão disponíveis no mercado os cimentos resinosos auto- adesivos (self-adhesive resin cement), que têm como proposta a simplificação da técnica de cimentação. Levando em conta as instruções do fabricante, em geral não há recomendação de condicionamento da superfície dental e do material restaurador (pino de fibra, cerâmica, metal), o que do ponto de vista operatório se aproxima da cimentação com fosfato de zinco. Por se tratar de um tema muito recente, poucos estudos estão disponíveis no que diz respeito à capacidade de retenção dos pinos de fibras cimentados com essa abordagem; Como já comentado, a retenção desses pinos parece ser dependente da capacidade de adesão e/ou fricção do cimento à dentina intra-radicular. No entanto, um aspecto que está despertando muita discussão diz respeito ao fato de que a retenção dos pinos de fibra estaria muito mais dependente da fricção do cimento nas paredes da dentina intra-radicular que da adesão proporcionada pelos sistemas adesivos. Como comentado na seção anterior, o fator cavitário na cavidade intra- radicular é extremamente alto e deletério para adesão, pelo alto estresse de contração de polimerização do cimento resinoso gerado. Nesse sentido, cimentos resinosos com baixa contração poderiam gerar mais alta retenção friccional, mesmo sem a aplicação de sistema adesivo prévio. Em um recente estudo, resultados promissores foram constatados com esta técnica simplificada – a resistência à retenção (pull-out strength) de pinos de fibra cimentados com um cimento resinoso simplificado auto-adesivo foi estatisticamente semelhante à retenção obtida com a cimentação adesiva utilizando um sistema adesivo de 3 passos (lava e seca). Observou-se também que a técnica simplificada gerou retenção do pino estatisticamente mais alta que a cimentação com sistema adesivo de 2 passos autocondicionante. Por outro lado, um outro estudo encontrou resultados mais baixos de resistência adesiva (push-out) dessa abordagem simplificada comparada à cimentação adesiva convencional. Resultados de resistência adesiva desses cimentos em dentina coronária são também contraditórios. Embora pareça bastante eloqüente, mais estudos laboratoriais e clínicos controlados são indispensáveis para validar esta técnica simplificada na rotina clínica na cimentação de pinos de fibra. Por outro lado, pode-se indicar para núcleos fundidos, como técnica substituta ao cimento de fosfato de zinco e CIV. CONSIDERAÇÕES FINAIS: Levando em conta as evidências científicas apresentadas, pode-se ponderar que: 1) A reconstrução direta com pinos de fibras cimentados adesivamente constitui-se em uma eficiente alternativa aos retentores fundidos. 2) Os procedimentos adesivos e o emprego de materiais com módulo de elasticidade semelhante ao da dentina contribuem para a redução do risco de fratura radicular; 3) A presença de pelo menos 2 mm de remanescente coronário diminui o risco de descolagem do conjunto pino – cimento – resina. 4) Em raízes muito fragilizadas, mesmo que o risco de descolagem seja maior, o emprego de pinos de fibras reduz o risco de fratura radicular. 5) A indicação ou não de pino de fibra depende de vários fatores, sendo a qualidade/quantidade de remanescente coronário um dos principais para o prognóstico do caso. 6) A seleção correta do pino de fibra melhora substancialmente o prognóstico do caso.