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HISTÓRIA DO BRASIL IMPÉRIO CAPÍTULO 3 – ONDE ESTAVAM OS NEGROS NO BRASIL IMPERIAL? Maíra Pires Andrade INICIAR Introdução A história do Brasil possui diferentes fases, entre elas a América Portuguesa no período do Brasil colônia e posteriormente o período do Brasil Império, constituído do Primeiro Reinado, Período Regencial e o Segundo Reinado. Cada fase apresenta características administrativas, políticas e sociais distintas. Entretanto, um único aspecto permanece intacto e inerente à história Brasil: o sistema escravista que durou quatro séculos. A escravização dos africanos – desde a captura na África, o processo de diáspora e a vida no Brasil – foi realizada sob intensa violência física, psicológica e simbólica, objetivando em todo momento desumanizá-los, silenciá-los e transformá-los em mercadorias e objetos. Mas será que esses africanos não tinham consciência do que estava acontecendo, e de que eram tratados como objetos e mercadorias? Será que eles não tinham nenhuma ação de resistência frente ao sistema? Apesar da tentativa constante de desumanização, os africanos escravizados possuíam sua própria agência, tendo consciência desde o início do processo de escravização; e em todo momento esses escravos inventavam e reinventavam suas práticas, construíam novas redes afetivas e de sociabilidades, resultando em resistências, ações e também no conformismo necessário para a sua sobrevivência. 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_3/ebook/index.html 1/25 Neste capítulo, você conhecerá melhor essa história. Bom estudo! 3.1 O Brasil Imperial e a Diáspora Negra [parte I] O conceito de diáspora, na sua origem, foi usado para fazer referência à dispersão dos judeus de Israel. Porém, atualmente, diversos estudos têm mobilizado este conceito para tratar da experiência das populações de origem africana dentro da própria África e, também, fora deste continente. Este conceito tem sido utilizado dentro do campo dos estudos culturais e pós-coloniais para tratar principalmente das identidades étnico-raciais, das relações raciais e das influências do povo africano pelo mundo entre suas culturas e ressignificações. 3.1.1 A diáspora africana: o conceito O conceito de diáspora utilizado no centro dos estudos culturais e pós-coloniais, para definir a experiência africana no mundo, aponta para o sentido de deslocamento de um grande número de pessoas de um local para outro, forçadas por alguma condição, a exemplo da escravidão, perseguição política e das guerras, entre outros motivos. No caso da diáspora africana, o processo de escravização foi a razão para esse deslocamento forçado, ocasionado pela captura dos africanos na África e a sua posterior escravização. A diáspora africana pela Europa, Ásia e América foi intensificada durante o tráfico transatlântico de escravizados entre os séculos XV e XIX, resultando em um número aproximado de até 5 milhões de africanos que foram capturados e levados, principalmente, para as Américas. 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_3/ebook/index.html 2/25 Contudo, para autores como Stuart Hall (2003), o conceito de diáspora não é sinônimo apenas de um deslocamento físico, mas de um processo de ressignificação cultural e histórica de pertencimento, ao qual os indivíduos são submetidos. Nesse Figura 1 - Representação dos africanos escravizados durante a viagem de navio rumo às Américas. Fonte: Everett Historical, Shutterstock, 2018. 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_3/ebook/index.html 3/25 sentido, a cultura africana e afro-brasileira desenvolvida no Brasil é consequência não apenas de uma cultura puramente africana – que é projetada no país –, mas resultado de redefinições históricas e culturais de sujeitos afrodescendentes que passaram por estes deslocamentos e transformações, vividos no contexto do tráfico transatlântico. Dessa maneira, os costumes e modos de pensar do seu local de origem no continente africano não irão se apagar, mas serão ressignificados e reconstruídos a partir da experiência da diáspora (MALAVOTA, 2013). O conceito de diáspora pensado a partir de Gilroy (2001) expressa esse fenômeno não apenas pelo seu lado catastrófico, mas como um processo que contribui para a redefinição das fronteiras das múltiplas identidades e culturas. Esse processo acaba por quebrar as noções dos discursos de uma comunidade imaginada ao modo de Anderson (2008) baseada no lugar, território, língua e consciência, se afastando e negando as concepções de uma identidade enraizada em um local, em uma identidade autêntica e fechada. Dessa forma, esse deslocamento transnacional rompe com o paradigma do Estado-nação e cria novas formas de identificação. Figura 2 - Representação das atrocidades às quais os africanos escravizados eram submetidos nos navios. Fonte: Morphart Creation, Shutterstock, 2018. 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_3/ebook/index.html 4/25 Nesse segmento, entende-se que as culturas e as identidades culturais têm um modo próprio de se estruturar que as fazem bases para novos intercâmbios e resignações, ou seja, os africanos escravizados que passaram pelo processo de diáspora forçada traziam consigo a sua própria cultura. Submetidos às condições colocadas pela diáspora e pelo sistema escravista – ao contrário do que se esperava pelas tentativas de desumanizá-los –, eles ressignificaram suas culturas, tradições, costumes e experiências, e constituíram outros modos de ser e estar no mundo, isto é, constituíram uma cultura afrodiaspórica construída nesse espaço-tempo do Atlântico (HALL, 2003). As reflexões expostas anteriormente são fundamentais para compreender as múltiplas identidades que se formam no âmbito da diáspora, entendendo a partir de então a identidade não como algo uno, estável e cartesiano, mas a identidade como um processo de ressignificação constante, móvel e instável. Nessa mesma medida, entender a diáspora nos possibilita compreender a cultura também como algo que não é enraizado no passado, mas como algo que se modifica e se transforma ao longo do tempo. Esses conceitos são essências para fugir das essencializações e estereótipos que muitas vezes acompanham as temáticas relacionadas às populações africanas e negras, assim como nos indicam a impossibilidade de encontrar uma pureza cultural. 3.1.2 A cultura afrodiaspórica no Brasil A formação de uma nova rede de sociabilidades e significações após a experiência diaspórica resultou na formação de uma teia cultural complexa. Nos traços da cultura brasileira, não podemos encontrar uma origem propriamente “africana”, e nem podemos afirmar a perda de traços dessa cultura africana no Brasil, mas vemos a mistura e a elaboração de novos signos culturais que expressam esse conceito da diáspora. Isso irá se manifestar em diversos âmbitos da vida social no Brasil: na religião, na comida, na língua, nas danças, nas identificações, nas crenças e, até mesmo, nas músicas. VOCÊ SABIA? O sociólogo inglês Paul Gilroy, em seu livro “O Atlântico Negro: modernidade e dupla consciência”, aprofunda a discussão sobre a diáspora africana, apresentando um novo conceito: o Atlântico Negro. Essa seria uma metáfora do autor para se referir ao espaço-tempo da diáspora, isto é, àquele que deu 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_3/ebook/index.html 5/25 origem às estruturas transnacionais e que resultará em trocas culturais, impossibilitando a existência de uma cultura puramente africana, americana, ou britânica. Assim, este espaço de troca que é o Atlântico Negro irá redefinir a África, mas também os outros continentes (GILROY, 2001).A língua falada no Brasil não é puramente portuguesa, indígena ou africana, mas é fruto do intercâmbio desses encontros linguísticos que formam uma identidade linguística própria. As religiões de matriz africana, como o candomblé, não eram praticadas no continente africano na forma como se apresenta no Brasil, mas passaram por um processo de mudança e sobrevivência à escravidão, alterando suas formas e tradições. Sendo assim, estas religiões não foram elaboradas na África, nem no Brasil, mas no trânsito, na diáspora. Desse modo a diáspora coloca, em conflito, colonizados e colonizadores, opressão e resistência, revelando o potencial criativo e inventivo das culturas que em todo momento negociam e se reinventam (AZEVEDO; ANTONACCI, 2012; AZEVEDO, 2014). Figura 3 - As oferendas são elementos das tradições religiosas de matriz africana. Fonte: Alf Ribeiro, Shutterstock, 2018. 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_3/ebook/index.html 6/25 As crenças da religião católica incorporaram, e foram incorporadas, pelas festas, folguedos e ritmos das crenças africanas, nas quais vemos também a acomodação das religiões africanas às crenças religiosas europeias: congadas, calundus, maracatus, jongos, festas dos reis, uma complexa rede de culturas entrelaçadas (AZEVEDO, 2014). O samba é um dos gêneros musicais que remete aos batuques dos bantos do Congo- Angola, os quais trouxeram para o Brasil novas formas musicais, de padrões, ritmos e instrumentos antes não usados – como o berimbau e a cuíca. Mesmo misturando- se com as tradições musicais europeias, o samba ficou conhecido como símbolo da cultura negra no Brasil, passando por diversas ressignificações como o samba-choro, samba-terreiro, samba-exaltação, bossa nova, samba jazz, entre outros. Posteriormente o samba foi mobilizado pela narrativa da nação e passou a ser representado como um símbolo da nação brasileira. Atualmente, o funk, o rap e o hip hop congregam as concepções de uma estética negra, sendo vistos como símbolos da resistência negra, pobre e da periferia (AZEVEDO, 2014). Figura 4 - As homenagens a Iemanjá e a Nossa Senhora dos Navegantes são exemplos de sincretismo religioso. Fonte: Cassiohabib, Shutterstock, 2018. 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_3/ebook/index.html 7/25 Para além da música e da religião, a estética negra diaspórica se manifesta também nas artes do corpo por meio de pinturas, tecidos e da própria moda, elementos que dão continuidade entre os signos da África-Brasil. O corpo nas concepções africanas evoca um modo de celebrar a vida, uma explosão de contradições e uma ruptura com o corpo cartesiano (AZEVEDO, 2014). Da mesma forma, a capoeira – e toda a ginga e a dança contida nesta prática – expressa esse processo de resistência à opressão. A perspectiva que pesquisa as populações de origem africana pelo viés do conceito da diáspora compreende os estudos afro-diaspóricos, os quais têm uma importante contribuição na reformulação e reinterpretação das abordagens sobre esses povos. Estudiosos dessa perspectiva como John Thorthon, Anthony K. Appiah, Alberto da Costa e Silva, Elikia M’Bokolo, Eliseé Soummouni, Paul Gilroy, Luiz Felipe de Alencastro e Boubakar Barri argumentam sobre a importância da África e da diáspora na construção de novas memórias, tradições, costumes, saberes e práticas que foram elaborados sob o prisma do Atlântico. 3.2 O Brasil Imperial e a Diáspora Negra [parte II] A historiografia sobre a escravidão brasileira por muito tempo argumentou em favor de uma suposta passividade e submissão dos africanos escravizados em relação ao sistema escravista. Contudo, com os avanços dos estudos históricos, todo o complexo agenciamento dos africanos veio à tona, evidenciando inclusive que estes negociavam constantemente com o sistema escravista, o que foi resultado de um jogo no qual em alguns momentos os senhores tinham de ceder às pressões; e em outras ocasiões, quem cedia era o escravizado. 3.2.1 A resistência negra no Brasil Império Com a independência do Brasil, em 1822, e a promulgação da constituição com bases liberais, a escravidão permaneceu intocada e como uma garantia de propriedade, mantendo ainda os privilégios e hierarquias do antigo regime. Mesmo com essa garantia, existiram diversas formas de condição de escravização, resultado principalmente das múltiplas referências culturais, expressadas pelos africanos escravizados que forçaram seus senhores a se adaptarem a essas formas (SCHWARCZ, 2003). 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_3/ebook/index.html 8/25 É preciso destacar que o sistema escravista, mesmo dentro de um contexto em que a dominação senhorial se tornava intrínseca à estruturação da sociedade, esta não implicava uma subordinação passiva por parte dos africanos escravizados. Pelo contrário, as relações entre senhores e escravizados eram sustentadas pelas negociações estratégias entre ambos, constantes no seu cotidiano. Desde a captura violenta dos nativos da África, a viagem pelos navios e a chegada no Brasil, estes africanos reinventaram suas identidades culturais, estabelecendo estratégias para sobreviver e criando novas teias de sociabilidade sustentadas por novos modos de ser no mundo (REIS; SILVA, 1989). O filme 12 anos de escravidão (2013) trata do contexto da escravidão nos Estados Unidos, ao abordar a vida de Solomon Northup, um negro liberto que é raptado e levado novamente à condição de escravo. O diretor Steve McQueen (II) apresenta cenas fortes e impactantes da relação entre senhor e escravo, evidenciando as diversas formas de violência, não somente físicas, mas principalmente simbólicas, às quais os escravos eram submetidos. Por outro lado, demonstra as resistências e a inventividade que permeavam a vida dos escravizados para sobreviverem. Esse panorama exposto anteriormente apresenta os diversos modos nos quais se manifestavam a resistência africana escravizada. Entretanto, a historiografia brasileira, por muito tempo, privilegiou como resistência apenas as fugas dos africanos escravizados. No entanto, a fuga era uma resistência rara, pois era vista como um ato extremo dentro da estrutura escravagista (REIS; SILVA, 1989). Segundo Lara (1988), a maior parte da historiografia destaca como resistência as fugas, quilombos, rebeliões, suicídios ou assassinatos. Nestas narrativas, a resistência emerge como uma resposta violenta do escravizado ao sistema também violento. A seguir, veremos como o conceito de resistência foi redefinido a partir dos estudos sobre a escravidão realizados a partir da década de 1980. 3.2.2 Um outro conceito de resistência africana A partir da década de 1980 do século XX, os novos estudos sobre a escravidão e as populações de origem africana redefiniram o seu entendimento por resistência, compreendendo-a como um modo de adaptação aos novos costumes e modos de VOCÊ QUER VER? 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_3/ebook/index.html 9/25 viver, e também uma tentativa de permanecer com a sua cultura de origem. Conforme define Lara (1988), a resistência se afasta apenas do binômio da ação e reação e se aproxima de outros modos de resistir, os quais incluem a negociação e a acomodação, isto é, a conformação de estratégias para garantir a sobrevivência dentro do violento sistema. E manter seus interesses, o que, em muitas vezes, não era apenas a liberdade. De acordo com Reis e Silva (1989), com isso, a busca pela alforria, as manifestações culturais e religiosas, como também a própria aceitação, se tornam resistências, conformando um espaço de negociação entre os escravizados e os senhores. No processo de transformação dos africanos em escravizados – o que ocorria nos portosou nas feitorias assim que desembarcavam dos navios –, o primeiro passo dos senhores era a identificação desses africanos. Com isso, benguelas, angolas e minas chegando no Brasil eram chamados pelas ideias de nação, que geralmente eram nomeados pelos senhores a partir do local onde o africano foi embarcado (FLORENTINO, 2003). Essas novas identificações foram incorporadas e interiorizadas pelos escravizados, que passavam a se chamar nagô, jêjês, preto minas, entre outras nomenclaturas. Reconfiguraram suas identidades; contudo, os africanos escravizados continuaram mantendo seus nomes próprios, mesmo aceitando a nova denominação. Isto é um exemplo não apenas do processo de ressignificação cultural da diáspora, mas também o evidenciamento da consciência ativa dos africanos escravizados, que mesmo na conformação estavam resistindo – e não perdiam totalmente seus laços passados (REIS; SILVA 1989). A efetivação dos casamentos, a formação das famílias nucleares e as relações de parentescos entre os africanos escravizados eram malvistas pelos senhores. Estas uniões, para além de diminuir os direitos dos proprietários sobre os escravizados, conformavam a possibilidade de alianças entre eles, o que ameaçava os senhores (SLENES, 1999). Reis e Silva (1989) abordaram como resistência o espaço de negociação e conflito instituído entre os africanos escravizados e seus senhores. Um exemplo disso é quando os autores citam os momentos em que os escravizados iam às autoridades para garantir os seus direitos na propriedade, isto é, a sua autonomia, o direito ao pecúlio e ao plantio. Outro modo de resistência era a chamada “brecha camponesa”, 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_3/ebook/index.html 10/25 uma espécie de estratégia paternalista dos senhores que davam pedaços de terras para o plantio próprio dos escravizado nas horas livres, possibilitando também que estes vendessem seus produtos. VOCÊ SABIA? A denominação “escravo de ganho” se refere a um modo de exploração da mão de obra escrava africana no qual os escravizados podiam circular pelas ruas das cidades e das vilas à procura por trabalho. Contudo, eles tinham a obrigação de pagar uma determinada quantia ao seu senhor, periodicamente (MORTARI; VIEIRA, 2014). Ainda nesse viés, entre as reivindicações dos escravizados estavam as gratificações, a possibilidade de descanso nos feriados e também um momento para culto religioso. Todas essas demandas eram negociadas entre eles, e eram vistas pelo senhor como uma alternativa para aumentar a produtividade e, também, manter a ordem dentro das senzalas. 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_3/ebook/index.html 11/25 Nesse contexto, vimos que a agência dos africanos escravizados era algo que se estabelecia dentro do espaço de negociação com seus senhores; longe de serem passivos e subordinados, em todo momento os escravos negociavam buscando melhores condições de vida e sobreviverem, utilizando estratégias que tanto podiam expressar conformismo quanto manifestações culturais, podendo chegar à revolta e à insurreição. Figura 5 - Capoeira, um exemplo de resistência dos africanos escravizados que permanece até hoje como uma manifestação cultural. Fonte: Filipe Frazão, Shutterstock, 2018. 3.3 O Brasil Imperial e a Diáspora Negra [parte III] A historiografia brasileira acerca da escravidão por muito abordava as populações de origem africana somente sob o olhar do sistema escravista. Em outras palavras, tratar dessas populações era sinônimo de falar sobre escravidão. 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_3/ebook/index.html 12/25 Contudo, apesar da tentativa de objetificá-los e desumanizá-los, todas as estratégias dos escravizados para sobrevivência vieram à tona. Nesse sentido, estes afro- brasileiros construíram suas histórias para além das amarras do sistema, constituindo famílias e possuindo uma vida social que ocupava as ruas da cidade. 3.3.1 O cotidiano para além da escravidão As novas historiografias sobre a escravidão vêm caminhando em oposição àqueles discursos que abordavam as populações de origem africana somente sob a perspectiva da escravização e do seu trabalho como mão de obra escrava, isto é, ressaltava-se somente o “escravo” e não a agência dos africanos. Os novos estudos vêm apontando para a constituição de relações complexas formadas por sujeitos imersos diariamente em processos de redefinição simbólica cultural e social, que abrem espaço para histórias e experiências para além do sistema escravista (MORTARI; VIEIRA, 2014). Destacamos que, ao tratar das populações de origem africana no Brasil, estamos falando não somente de escravos, mas de libertos, africanos livres, crioulos e pardos. Por sua vez, dentro da categoria de “escravo”, não existe um grupo homogêneo, mas havia africanos ou crioulos em experiências e modos de viver distintos, tanto no modo como trabalhavam e eram empregados à sua mão de obra, nas relações de sociabilidade, como também nas diferenças étnicas e culturais (MORTARI; VIEIRA, 2014). Observe o exemplo descrito no caso a seguir. CASO A professora do 1.º ano do Ensino Médio, ao abordar a temática do racismo que atinge as populações africanas ou afrodescendentes no cotidiano do Brasil, perguntou aos estudantes se já vivenciaram ou observaram alguma situação desse modo. Um dos alunos respondeu que viu uma moça, na portaria do seu prédio, ser questionada pelo porteiro se ela era a empregada do apartamento. No entanto, a moça era moradora do prédio – e o aluno mencionou tal situação. Contudo, após a exposição, o aluno se questionou, pois a moça, para ele, não era negra: “Mas professora, na verdade não sei se isso foi racismo, pois a moça não era tão negra assim, ela era moreninha, tipo parda.” Diante de tal questionamento, a professora trouxe para a discussão um dos modos pelo qual o racismo se manifesta na nossa sociedade: como embranquecimento das pessoas. 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_3/ebook/index.html 13/25 É comum vermos pessoas que são negras de pele clara, ou aquelas “mestiças”, serem chamadas de pardas, morenas, mulatas, entre outras nomenclaturas. Os estudos críticos da branquitude apontam que estes termos são utilizados para escamotear o racismo presente na sociedade, e não deixam de ser pejorativos. Com medo de utilizar o termo “negro”, ou por acharem ofensivo, muitos optam por outros termos. O termo “pardo”, que já foi usado amplamente na história do Brasil desde o século XVIII, na verdade faz referência a essa tentativa de embranquecer a população. Desse modo, muitas pessoas que possuem a cor da pele que se afasta do padrão branco europeu, para não serem enquadradas como negras, se autodenominam como “pardas”. No entanto, devido à crescente mobilização dos movimentos sociais, sobretudo do movimento negro, atualmente vemos um número maior de pessoas que vêm abdicando da nomenclatura de pardo e compreendendo a importância de assumir a sua identidade política enquanto negra. Destaca-se que mesmo as pessoas negras de pele clara, essas consideradas “pardas ou mestiças” são ainda vítimas em potencial do racismo, podendo em diferentes situações serem alvos da discriminação. É importante frisar que o racismo e a branquitude variam de acordo com a região, a classe e o gênero; com isso, uma pessoa que é vista pela sociedade como negra no Sul do Brasil, local de predominância branca, pode não ser vista como negra no Nordeste do Brasil, local de maioria negra. Nesse sentido, argumenta-se que se identificar como negro é afirmar a resistência frente a toda uma estrutura de racismo, que inclusive se manifesta no modo como nos denominamos (SCHUCMAN, 2012). No espaço rural, os africanosrealizavam diversas tarefas que podiam ser nas plantações e no engenho; ou como cozinheiras, pescadores, domésticas, entre outros. No espaço urbano, os africanos escravizados, forros ou livres desempenhavam também variadas funções: domésticas, comércio de produtos nas ruas, carregadores, construção de casa, aluguel, transporte marítimo, mecânicos ou ainda na agricultura em pequenas propriedades. Mesmo os africanos escravizados ocupavam diariamente o espaço das ruas, levando água de um lado para o outro, comprando mantimento ou lavando roupas (MORTARI; VIEIRA, 2014). Desse modo, vimos que os escravos atuavam em diversas atividades para além daquelas vinculadas ao sistema escravista de dominação nas plantações, e, com isso, circulavam pelo espaço urbano ao mesmo tempo em que constituíam novos laços e tensões em busca de uma autonomia. 3.3.2 A constituição de laços de solidariedade Para além de ocuparem espaços de trabalho, africanos e afrodescendentes também criavam redes relacionais e afetivas, pois estavam mergulhados nas vivências de encontros, amizades, uniões, conflitos, constituindo assim laços familiares e, também, de solidariedade, essenciais para a sobrevivência. Estes laços resultaram em famílias nucleares, ou famílias extensas, matrifocais. 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_3/ebook/index.html 14/25 Roberto Slenes publicou, em 1999, o livro “Senzala uma flor: esperanças e recordações na formação da família escrava”. Esta obra causou grande repercussão na historiografia brasileira, na medida em que sua pesquisa evidencia a formação da família de africanos escravizados e também a criação de redes de solidariedade entre eles. Estes estudos foram impactantes, pois muitos estudiosos argumentavam que nas senzalas só existia a violência do sistema escravista (SLENES, 1999). Entretanto, a perspectiva de estudo que tem como foco abordar a existência de família de africanos escravizados, por muito tempo, foi inexistente na historiografia. Alguns estudos como o de Queiroz (1998), que por meio da análise de fontes legislativas aborda a constituição da família de escravizados, atentavam apenas ao próprio sistema escravista. Queiroz (1998) apontou algumas dificuldades que existiam frente às uniões entre os cativos, sobretudo dos senhores que se opunham ao casamento e não se preocupavam em vender seus escravos para locais diferentes. VOCÊ QUER LER? 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_3/ebook/index.html 15/25 Na pesquisa de Florentino e Góes (1997), estas famílias já surgem sob um outro olhar, sendo vistas pelos senhores como uma possibilidade de manter a paz nas senzalas. Slenes (1999) também argumenta que os senhores viam como positivos os casamentos, e até mesmo estimulavam tal prática, desde que mantivessem a ordem nas senzalas. Estes autores, assim como as pesquisas de Castro (1995), baseados em fontes demográficas, irão evidenciar a existências dessas famílias em regiões como Campinas, Campos, Capivari e Recôncavo da Guanabara, na Baixada Fluminense, entre outros. Figura 6 - Representação de uma grande família de africanos escravizados. Fonte: Everett, Shutterstock, 2018. 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_3/ebook/index.html 16/25 Slenes (1999) ainda sublinha que em muitos casos os senhores optavam por vender as famílias cativas juntas para um mesmo comprador, desse modo evitava-se possíveis fugas. No entanto, não devemos examinar a formação dessas famílias apenas como uma ferramenta das estratégias dos senhores. Nesse sentido, ressalta- se que a constituição da família e desses laços de parentescos era um importante modo de transmissão e ressignificação cultural após a experiência da diáspora. Isto é, era um modo de resistência. Figura 7 - A constituição da família pelos africanos escravizados era um modo de resistência e ressignificação cultural. Fonte: Everett, Shutterstock, 2018. 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_3/ebook/index.html 17/25 A tese de doutorado de Hebe Maria de Matos Castro, publicada em 1995, denominada de “Das cores do silêncio: os significados da liberdade no sudeste escravista: Brasil século XIX” é uma importante obra para a desconstrução das relações entre senhor e escravo no contexto brasileiro. A autora aborda os contrastantes significados de liberdade para os sujeitos envolvidos na escravidão: senhor de engenho, africanos escravizados e libertos. Nessa pesquisa, ela aponta também a existência de núcleos familiares formados apenas por africanos escravizados (CASTRO, 1995). A formação das associações fundadas por populações de origem africana também traduz esses laços de solidariedade, por exemplo, as irmandades. As irmandades religiosas emergiram no Brasil desde o século XVI, sendo as primeiras organizadas por africanos datadas do século XVII, como a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos (RASCKE; AMARAL, 2014). Estas irmandades que passavam pelo crivo da Igreja, tinham a função não apenas religiosa, mas principalmente de auxílio social, ajudando nas dificuldades econômicas ou de saúde. VOCÊ QUER LER? 3.4 O Brasil Imperial e a Diáspora Negra [parte IV] A abolição da escravidão, em 13 de maio de 1888, não foi um presente oferecido pela Princesa Isabel, mas o resultado de um contexto de pressões internas e externas. Nos últimos anos antes da abolição ocorreu um crescente número de revoltas, insurreições, fugas e a formação de quilombos, assim como muitos africanos escravizados já tinham conseguido a sua alforria. Neste tópico, abordaremos os principais fatos da campanha abolicionista e apresentaremos as leis que contribuíram para a abolição da escravatura. 3.4.1 A campanha abolicionista Um dos primeiros clubes abolicionistas foi a Sociedade Abolicionista Dois de Julho, fundada em 1852 por estudantes da Faculdade de Medicina da Bahia, que tinham como propósito alforriar os escravizados. No entanto, entre 1860 e 1870, as 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_3/ebook/index.html 18/25 discussões em torno da escravidão eram realizadas no âmbito dos políticos liberais e conservadores, os quais argumentavam que a escravidão era o grande fator para o desenvolvimento da economia. Entre a elite, poucos viam com maus olhos o sistema escravista, entre eles estavam José Bonifácio, que era a favor da autonomia lenta dos negros. Mas, em suma, os pensamentos em prol do abolicionismo predominavam entre os grupos de negros conscientizados e de liberais-radicais. Jornais como “O Homem de Cor” e “O Brasileiro Pardo”, entre outros tantos, denunciaram não só a escravidão, como as discriminações contra os africanos libertos, publicações que foram molas propulsoras para a campanha abolicionista (SILVA, 2014). No plano externo temos a Guerra Civil nos Estados Unidos e a abolição da escravidão em outros países como Portugal, França e Dinamarca; no plano interno temos a Guerra do Paraguai, que apontou as discussões em torno das dificuldades do império. Em 1863, a escravidão foi abolida nos Estados Unidos, restando apenas a existência da escravatura no Brasil e em Cuba. A Guerra do Paraguai ainda trouxe à tona o debate sobre o alistamento militar, uma vez que ocorria o alistamento forçado das populações mais pobres, sendo na sua maioria negros e indígenas (SILVA, 2014). Em 1871, o Visconde do Rio Branco promulgou a Lei do Ventre Livre, gerando diversos conflitos e debates entre os proprietários rurais, os quais reclamavam ser esta medida um desrespeito ao direito à propriedade, que gradualmente reduziria o número de mão de obra escrava em suas plantações de café. Nesse contextode insatisfação, emergiram ainda mais os debates pela abolição, surgindo a criação de muitas associações entre 1870 e 1871, como a Sociedade Emancipadora do Elemento Servil (Rio de Janeiro) e a Sociedade Redentora da Criança Escrava (São Paulo). Dessa forma, o movimento se ampliou dos pequenos grupos para outras províncias do Império, tendo a imprensa como principal meio de circulação das ideias. Nesse sentido, José do Patrocínio foi um dos defensores da abolição, criando, em 1880, a Sociedade Brasileira Contra a Escravidão (SBCE). Formada por 15 membros – entre eles estavam Visconde de Rio Branco e Joaquim Nabuco –, fundou o jornal “O Abolicionista”, como meio de divulgação de suas ideias (SILVA, 2014). É importante frisar que os abolicionistas não congregavam um grupo homogêneo, mas era formado por diversas dissidências entre si. Silva (2014) evidencia que existia um grupo, tendo Joaquim Nabuco como representante, vindo de uma família 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_3/ebook/index.html 19/25 aristocrática, monarquista e liberal, que era a favor de abolição da escravidão por meio da promulgação de leis. Outro grupo, que tinha as figuras de Luís Gama e André Rebouças como grande expressão, defendia a abolição, mas seus membros eram moderados, e suas ações não ultrapassavam os limites da lei, restringindo-se em alguns momentos à ajuda humanitária, sem entrar nos entraves políticos. O último grupo, que tinha como protagonistas José do Patrocínio e Lopes Trovão, era incisivo em sua defesa, promovendo constantemente discursos nas ruas e caravanas públicas, trazendo ao espaço público a realidade da condição dos negros. João da Cruz e Sousa, conhecido como Cruz e Sousa ou Dante Negro, nascido na cidade de Desterro (atual Florianópolis), foi um dos precursores da poesia simbolista brasileira. Ele era filho de ex-escravos, mas teve sua educação patrocinada por uma família de proprietários de terra. Cruz e Sousa atuou ativamente na campanha abolicionista quando era redator do jornal “O Moleque”, em 1885, trazendo à tona discursos que envolviam o debate da abolição e contribuindo para a circulação das ideias abolicionistas (SOARES, 1998). Destacamos que, apesar da importância desses nomes, eles não agiram sozinhos, compondo também o cenário da luta pela libertação dos negros alforriados e africanos livres, e, sobretudo, das africanas escravizadas. Contudo, alguns estudiosos como Reis e Silva (1989) apontam que os abolicionistas, em sua maioria, eram contra qualquer tipo de insurgência ou revolta realizada pelas escravizadas; nesse sentido, é possível perceber as faces das complexas ideias trazidas pela campanha abolicionista que, acima de tudo, temia uma revolução. A participação das mulheres nas lutas pela abolição iniciou-se em 1880, sendo elas atuantes principalmente em associações abolicionistas e na organização de festas beneficentes para unir fundos destinados à compra de alforria. Elas ainda divulgavam suas ideias em periódicos e discursos nos clubes, que eram práticas até então restritas aos homens. VOCÊ O CONHECE? 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_3/ebook/index.html 20/25 3.4.2 As leis abolicionistas A primeira lei que dará início ao processo jurídico de abolição da escravidão será a Lei Bill Aberdeen, aprovada pela Inglaterra. Esta lei permitia que as autoridades britânicas apreendessem qualquer navio que transportasse africanos escravizados, reduzindo, assim, o comércio para o Brasil. Contudo, tinha como intuito pressionar o Brasil para extinguir a escravidão e transformar os africanos, antes escravizados, em consumidores dos produtos ingleses (SILVA, 2014). Diante de tal pressão, em 1850 foi assinada a Lei Eusébio de Queiroz, que proibia o tráfico de escravizados, impedindo a entrada e saída de navios. Esta medida resultou, em longo prazo, na redução da oferta de africanos escravizados em território brasileiro, obrigando os proprietários a buscarem uma alternativa para a mão de obra – nesse caso, os imigrantes europeus. Mesmo com essa medida, ainda existia o tráfico interno de africanos, havendo ainda o trabalho escravo destes nas fazendas de café; entretanto, seu valor ficava cada vez mais caro, dificultando a compra e venda (SILVA, 2014). VOCÊ SABIA? Francisco José do Nascimento, conhecido como Chico da Matilde, era um jangadeiro pobre do Ceará, na época era visto como pardo. Aos 20 anos tornou-se marinheiro, e a partir de 1881 começou a se envolver na campanha abolicionista. Apoiado pela Sociedade Cearense Libertadora, ele fechou o Porto de Fortaleza nesse mesmo ano, e impediu a entrada de novas embarcações de africanos escravizados. Sua casa também era um local para abrigar os africanos fugidos dos seus senhores. Pela sua atitude, ficou conhecido pelos abolicionistas como “dragão do mar”, impulsionando o movimento e promovendo o aumento das alforrias no Ceará. Em 1884, todos os escravizados do Ceará estavam libertos (LOPES, 2004). Como citado anteriormente, em 1871 foi assinada a Lei do Ventre Livre, tornando libertos todos os filhos de escravizados que nascessem após aquela data. Entretanto, a lei previa que os recém-nascidos ficariam sob as ordens do senhor até os 8 anos de idade, momento em que o proprietário deveria escolher entre ganhar uma indenização ou explorar o trabalho da criança, ou seja, o trabalho escravo continuava. Em 1885 foi promulgada a Lei dos Sexagenários, libertando aqueles escravizados maiores que 60 anos, o que na verdade era algo raro, devido à pouca 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_3/ebook/index.html 21/25 expectativa de vida de um africano submetido a toda violência do sistema escravista. Essa lei foi considerada positiva pelos proprietários, pois estes não teriam mais de arcar com os custos de um escravizado idoso (SILVA, 2014). Em 13 de maio de 1888, a Princesa Isabel, que naquele momento assumia o trono, devido às pressões da campanha abolicionista, às pressões externas e aos levantes dos escravizados, assinou a Lei Áurea, concedendo a libertação aos escravos. No entanto, a assinatura desse documento não alterou em nada a vida dos africanos no Brasil, os quais permaneceram em situação de desamparo e marginalização, e ainda sob os olhares preconceituosos do pensamento racista que ainda estrutura a sociedade brasileira (SILVA, 2014). Salientamos que a escrita da história do Brasil, por muito tempo, selecionou como protagonista da abolição da escravidão a figura idealizada da Princesa Isabel, concebendo a ela uma áurea de salvadora ampliada também aos abolicionistas brancos. É preciso ressaltar que essa perspectiva da história silenciou um grande número de revoltas de africanos escravizados e, também, a circulação de ideias oriundas de abolicionistas negros, algo que deve ser considerado quando tratamos da abolição, sendo esta entendida não como um fato, mas como resultado de um complexo processo histórico. Síntese Concluímos o estudo sobre os principais aspectos que envolviam a tessitura social dos africanos submetidos ao sistema escravista brasileiro, sobretudo, no período do Brasil Império. Dessa forma, foi possível compreender que esses escravizados elaboravam práticas e ações para além do trabalho escravo nas fazendas, inserindo- se em redes de sociabilidade e de inventividade. Neste capítulo, você teve a oportunidade de: refletir sobre o conceito de diáspora, entendendo sua importância para os estudos africanos e das relações raciais; compreender o processo de insurgências, pressões internas e externas e de circulação de discursos que levou à abolição da escravidão. identificar os diferentes modos nos quais os africanos criavam práticas de negociação e resistência ao sistema; 03/10/2024, 11:00 História do Brasil Império https://codely-fmu-content.s3.amazonaws.com/Moodle/EAD/Conteudo/EDU_HISBRI_20/unidade_3/ebook/index.html22/25 conhecer a construção histórica criada sobre o 13 de maio de 1888, data da abolição da escravidão, entendendo que, na prática, não mudou em nada a vida dos africanos escravizados. Bibliografia ANDERSON, B. R. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. AZEVEDO, A. M. As manifestações afro-brasileiras: arte, literatura e religiosidade In: CARDOSO, P. de J. 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